"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, julho 31, 2008

O "JISSO" DE UMA MÃE

Só para esclarecer... "Jisso" significa, em japonês, a Imagem Verdadeira, Perfeita, da Vida. Nada mais é do que Deus, em Si. Dito isso, vamos à história.



Masaharu Taniguchi


Este episódio aconteceu no tempo em que o Sr. Koichiro Murasse organizava reuniões dos leitores da revista da "Seicho-No-Ie" em sua própria residência, na cidade de Nagoya. Certo dia, ele recebeu a visita de uma colegial, que lhe falou de um problema que a vinha atormentando. A mocinha tinha perdido muito cedo a mãe, e fora criada pela madrasta. Mas ela e a madrasta não viviam bem, e um ambiente desagradável reinava no lar. Para mostrar o quanto eram más suas relações com a madrasta, a mocinha contou um sério atrito que ocorria entre elas, muito recente.

Uma de suas colegas fora visitá-la. Estavam as duas conversando em seu quarto, quando a madrastra entrou, foi até a varanda próxima e trouxe para dentro um colchão que estivera exposto ao sol. Acontece que no colchão havia, muito visível, uma mancha de urina. A madrasta apontava a mancha à sua colega dizendo:

- Está vendo esta mancha parecida com o mapa da Austrália? É que minha filha é muito estudiosa e adora desenhar mapas como este, quase todas as noites...

As palavras eram cruéis! Ainda mais se considerar que uma mocinha tímida de 15 anos é extremamente sensível e fica muito ferida com essas coisas. A mocinha pensou desesperada: "Agora que minha colega descobriu o meu segredo, irá contar para alguém, esse alguém vai contar para outro, e logo o colégio inteiro vai ficar sabendo. Vou morrer de vergonha! Não posso mais ir à escola! Mas se ficar em casa tenho que ver a minha madrasta, que me odeia". Assim, ela pensava que não poderia ficar em casa e nem ir à escola.

Sentindo-se profundamente amargurada, a mocinha pensou até em acabar com a própria vida. Adquiriu um vidro de calmante e tomou-o de uma só vez. Entrou em estado de coma. E só não morreu porque foi encontrada a tempo e imediatamente medicada. Mas a sua tentativa de suicídio foi notícia no jornal local. Por isso, mais tarde, quando a mocinha voltou à farmácia para comprar um outro vidro de soporífero, decidida a levar a cabo o seu intento, o farmacêutico recusou-se a vendê-lo. Agora a mocinha, desesperada, veio pedir conselho ao Sr. Murasse.

A primeira coisa que o Sr. Murasse disse à mocinha após ouví-la foi:

- Todas as pessoas têm dentro de si a Vida de Deus. Por isso, é impossível existir mãe perversa neste mundo.

- O senhor diz isso, mas a verdade é que existe gente como a minha madrasta...

- Não, essa sua madrasta perversa "não existe". Trata-se apenas de uma "manifestação", uma "falsa aparência". Atrás dessa figura aparente de madrasta perversa, está escondida a verdadeira Vida de uma mãe, e essa Vida é "perfeita e plena de harmonia", porque é a própria Vida de Deus. Na verdade, a sua madrasta é tão terna e tão cheia de bondade quanto uma santa mulher. Quando você era criança, deve ter lido alguma história sobre uma madrasta que maltratava a enteada, e provavelmente fixou em seu subconsciente a idéia de que todas as madrastas são perversas. Então, quando seu pai casou novamente, você pensou: "Oh! agora tenho uma madrasta, ela vai me maltratar". Este mundo, minha jovem, é um mundo onde tudo se manifesta exatamente como a gente pensa. Porque você pensou assim, sua madrasta manifestou-se como uma mulher maldosa. Na verdade, não existe nenhuma "madrasta perversa".

Neste ponto da conversa, o Sr. Murasse escreveu os ideogramas que expressam a palavra "madrasta" em japonês e explicou:

- Veja os ideogramas: o de baixo, como você sabe, exprime uma única idéia, a de "mãe". Agora, o de cima exprime não só a idéia de "substituir" como também a de "unir" ou "ligar". Quase toda a gente acha que esses dois ideogramas juntos querem dizer "substituta da mãe". Mas, na verdade, deveríamos ler ou interpretar como "mãe pela união espiritual". A sua primeira mãe deixou este mundo fenomênico numa certa altura de sua existência. Então, uma segunda mãe foi "ligada" no ponto em que houve a "interrupção", para tornar-se a sua "mãe verdadeira". Você já deve ter visto, por exemplo, um pesegueiro que foi enxertado, não? Por sinal, ele dá pêssegos deliciosos... Bem, imaginemos um lindo pêssego num galho de pessegueiro enxertado. Se o pêssego está lá, é porque a vida do tronco no qual foi feito o enxerto está manifestada nessa fruta. Você deve compreender que a "verdadeira mãe" não é um simples corpo carnal, mas sim a "essência", isto é, a "maternidade espiritual" que transcende o corpo. Ela é eterna, imortal... O mundo das formas está em constante mutação, e você tem agora uma mãe, cuja figura e a fisionomia são bem diferentes das de sua "mãe anterior". Mas a "essência de mãe" que existe nela é a mesma que existiu na outra, porque foi transferida para a nova mulher no instante em que passou a ocupar a nova posição de mãe. Portanto, essa pessoa que você chama de madrasta não é uma simples "substituta de sua mãe", mas sim a "continuação da sua primeira mãe". Não devemos considerar o vínculo entre entre mãe e filho sob um ponto de vista meramente físico. Isto é, não devemos pensar que a "mãe verdadeira" é somente aquela "pessoa feita de matéria" que nos forneceu a nutrição necessária enquanto nós estávamos em seu ventre e nos amamentou. Se assim fosse, eu poderia lhe dizer que, alimentando-se de carne de vaca, você poderia ser considerada como filha daquele animal; e alimentando-se de galinha, poderia ser considerada como filha daquela ave. Como vê, é um erro pensar que pais e filhos são unicamente aqueles que estão ligados pelo "vínculo carnal". O verdadeiro vínculo entre pais e filhos é o vínculo espiritual. Seja qual for o aspecto externo da pessoa, ela será seu "pai" ou "mãe", por isso você deve reverenciar sua madrasta, considernando-a como uma verdadeira mãe, cheia de bondade e ternura. Assim, ela vai se manifestar a você como tal. A teoria é essa.

Continuando, disse a ela:

- Agora, vamos ver como você fará isso na prática. Você poderá, por exemplo, fazer o seguinte: Já que durante o dia a sua madrasta e você devem ter muitos afazeres, escolha um horário após o jantar e se ofereça a ela para lhe fazer massagens nos ombros. Diga mais ou menos assim: "Mãe, a senhora trabalhou muito hoje e deve estar com dor nos ombros. Deixe que eu lhe faça umas massagens..." E, enquanto estiver fazendo a massagem mentalize: "Perdoe-me, mãe. Perdoe sua filha por tê-la considerado apenas uma madrasta. Sei agora que a senhora é minha verdadeira mãe. Compreendi que é a Vida de Deus que se manifesta, através da senhora, sob a forma de 'mãe'. Por isso, eu estou profundamente agradecida". Dessa forma, suas ondas mentais serão captadas pela sua madrasta, e ela passará a manifestar o seu verdadeiro aspecto perfeito (Jisso), pleno de harmonia e bondade, que é a personificação do próprio Amor de Deus.

Foram esses os conselhos que o Sr. Murasse deu àquela jovenzinha. Ela o ouviu atentamente e seguiu os seus conselhos.

Naquela mesma noite, após o jantar, ela se colocou atrás da madrasta e falou: "A senhora deve estar cansada, mãe, Quer que eu lhe faça uma massagem?"

E colocou as mãos nos ombros dela. A madrasta, com um gesto de recuo, disse: "Não me aborreça. E tire essas mãos de cima de mim. Isso me dá arrepios e até sinto mais dores nos meus ombros. Sinto até asco!"

Não permitiu que a enteada massageasse os seus ombros. A mocinha, entretanto, olhou para o pai, e viu que ele, com uma expressão amarga, procurava controlar-se. talvez quisesse dizer: "Querida, não fale desse jeito! Não vê que ela está querendo ser gentil?". Mas não falou, pois sabia que a mulher o criticaria e poderia dizer: "Você a defende, porque gosta mais da filha da sua primeira mulher do que de mim!". Para evitar desentendimentos, ele nada dizia. Mas os sentimentos acumulados nele manifestavam-se "fisicamente" em forma de asma. Uma ou mais vezes a cada semana vinham-lhe violentas crises.

A mocinha notou que o pai mais uma vez assistia tudo em silêncio. Já que o seu oferecimento fora recusado pela madrasta, a mocinha, sem jeito, sem saber o que fazer com as mãos, colocou-se atrás do pai e começou a massageá-lo. Assim encerrou-se o episódio daquele dia.

No dia seguinte, teminado o jantar, a mocinha se levantou e disse à madrasta: "Deixe-me fazer massagens na senhora". A resposta foi quase tão áspera quanto na noite anterior: "Não me aborreça! Que coisa! Nunca vi gente tão teimosa! Não lhe falei ontem quando você põe as mãos nos meus ombros eu sinto arrepios e aumentam as dores? Deixe de ser tão impertinente!". E mais uma vez, a mocinha acabou fazendo massagem no pai, ao invés de na madrasta.

Assim foi também no terceiro dia. Mas a mocinha não desistiu. nunca haveria harmonia entre ela e a madrasta, se desistisse, ainda que rejeitada duas ou trÊs vezes. Precisava harmonizar-se com a madrasta, pois sentia que só assim poderia sair da situação em que se encontrava. Na escola, tinha de ouvir as piadas das colegas sobre o seu hábito de "desenhar mapas" no colchão; em casa, tinha que aceitar a forma com que a madrasta a tratava; não podia morrer, pois fracassara na primeira tentativa e as pessoas estavam prevenidas. Continuar vivendo na mesma situação era impossível. Para que a situação melhorasse, precisava entender-se com a madrasta. Por isso, a mocinha manteve-se firmemente decidida a ser gentil com a madrasta, apesar de ser sistematicamente recusado o seu oferecimento. Assim, passaram o 4º, o 5º e o 6º dia. Na noite do sétimo dia, não se sabe por quê, a madrasta permitiu que a enteada massageasse seus ombros. "Finalmente!" - pensou a mocinha. Enquanto fazia a massagem, repetia mentalmente: "A senhora é minha verdadeira mãe. A senhora não é 'substituta de mãe', mas sim a 'mãe que se manifestou a mim, pela união espiritual com a minha primeira mãe'. É uma mãe cheia de bondade, e ternura". De repente, as costas da madrasta começaram a se mexer em ondas convulsivas e ela rompeu em soluços.

- Minha filha, me perdoe!

A enteada, já chorando também, envolveu a madrasta num forte abraço e sussurrou:

- Obrigada, mãe! Obrigada...

- Perdoe ter maltratado você, minha filha...

No momento em que as duas se abraçaram e choraram juntas, os sentimentos hostis de longa data foram completamente lavados por suas lágrimas. A partir desse dia, não só a mocinha deixou de sofrer enurese noturna, como também o pai ficou completamente curado da asma que o atormentava há tanto tempo. E até o seu irmãozinho (filho da madrasta), que sofria de tuberculose, sarou completamente.

Era apenas uma jovem de 15 ou 16 anos... Mas quando ela se empenhou de corpo e alma para que se manifestasse através da oração o "Jisso da mãe", surgiu aquele resultado maravilhoso, isto é, a salvação de toda a família. Quando afirmamos que "originariamente não existem pessoas más", queremos dizer o seguinte: Todas as pessoas trazem dentro de si a Vida de Deus e, portanto, são perfeitas. Se, através das orações, fizermos com que se manifeste o "Deus que existe realmente por detrás da aparência fenomênica das pessoas", infalivemente elas passarão a manifestar o seu aspecto real perfeito.

(Do livro "Lições para o cotidiano, Cap. 8")



terça-feira, julho 29, 2008

A Purificação de Nosso Estado de Consciência

Joel S. Goldsmith


A doença é sanada quando a consciência é purificada, e isso é verdade individual e universalmente. Quando permitimos que nossa consciência esteja em harmonia ou alinhada com o poder espiritual, a doença, o pecado, o medo e a necessidade são eliminados dela. Não podemos rogar a Deus para nos dar força espiritual a fim de afastar nosso problema enquanto a causa dele permanecer, e a causa é sempre a consciência/mente humana. Portanto, devemos elevar nossa consciência a Deus. "E Eu, quando for levantado da terra, todos atrairei até a Mim" (João 12:32), se nós elevarmos nossa consciência para a filiação divina e deixarmos a Luz espiritual tocar nossa consciência e libertar-nos do ódio, da animosidade, do temor, do ciúme, não encontraremos doença, necessidade e medo. Então, todo nosso trabalho será harmonizar nossa consciência com o divino, franqueando-nos para a realização da Onipresença, Onipotência e Onisciência, orando com o coração: "Tua vontade seja feita em mim, não a minha".

Então, devemos abandonar qualquer um dos conceitos que foram recebidos: conceitos intrasubjetivos, conceitos do mundo, conceitos de toda humanidade. Por exemplo, eu e você, como seres humanos temos recebido idéias de outras pessoas, de outras raças, de outras nações, todas falsas. Nós não sabíamos disso na ocasião, mas a maioria de nós o sabe agora. O preconceito foi desmedido antes da Primeira Guerra Mundial. Houve preconceitos de cor e preconceito religioso e de ideologias políticasque induziram as pessoas a lutar umas com as outras. Essas ideologias não eram necessariamente certas ou erradas, mas preconceito resultante dos motivos que atribuímos àqueles que os defendiam.

Devemos eliminar de nossa consciência o ódio, o medo e a desconfiança, através do conhecimento de que eles representam simplesmente nossos falsos conceitos uns dos outros. Quando nos dispusermos a renunciar a estes e reconhecer que na essência do ser de cada um de nós reside o mesmo "filho de Deus", nos afinaremos com os princípios espirituais e começarão a resultar as curas. Não temos de pedir a Deus para curar-nos. Houve milhões de pessoas que morreram, enquanto oravam pedindo a Deus curá-las. Tudo o que precisamos fazer é começar a amar o nosso semelhante como a nós mesmos e, desse modo, colocarmos nós mesmos em harmonia com as leis de Deus a fim de que elas possam começar a atuar.

As leis de Deus não podem atuar numa consciência cheia de falsos conceitos. Devemos nos harmonizar com o divino. Se olharmos para as pessoas e virmos todas as suas diferenças humanas, em breve gostaremos de algumas e não gostaremos de outras; vamos confiar em algumas e desconfiar de outras. Teremos tantas diferenças, que nossa própria cabeça ficará confusa.

Se, contudo, pudermos reconhecer que, apesar das aparências, a Divindade é a natureza do ser de cada pessoa e que Deus nos fez à Sua própria imagem e semelhança, estamos conhecendo a verdade sobre todas as pessoas. Se alguéme stá representando ou não aqui na terra, não é da nossa conta; e se estivermos cientes de qualquer pecado em outra pessoa, ao invés de participar do julgamento, deveríamos praticar, no íntimo, o princípio do Novo Testamento: "Não julgueis para que não sejais julgados" (Mateus 7:1).

Portanto, não julgaremos; tomaremos a atitude: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"(Lucas 23:34). Assim, estaremos percebendo que toda pessoa é um ramo da mesma árvore, a Árvore da Vida. Nisso não há julgamento, não há crítica. Há perdão "setenta vezes sete", perdão e uma oração para que seus olhos estejam abertos. Isso é nossa própria harmonia com o Divino, tornando-nos receptivos à cura, à Graça e à proteção divinas, porque eliminamos nossos conceitos humanos das pessoas e as estamos vendo como imagem e semelhança de Deus, vendo-as espiritualmente como o verdadeiro Cristo de Deus. Nós não estamos usando nosso julgamento humano; estamos usando nossa intuição espiritual para reconhecer que Deus fez todos nós à Sua própria imagem e semelhança, considerou-nos e achou-nos bons.

Não há nada em nós de crítica, condenação, julgamento e, portanto, nossa consciência está aberta para receber a Graça de Deus. Se nós acreditamos que há duas forças, estamos levantando uma barreira em nossa própria consciência. Se, contudo, estamos compreendendo a Onipotência, a Onisciência e a Onipresença, estamos novamente em harmonia com o exercício do poder espiritual, com a sabedoria espiritual.

Na proporção em que nos identificamos com princípios revelados nos ensinamentos do Mestre, nossa consciência está imbuída de poder espiritual do Alto. Acreditamos em Jesus Cristo como sendo a alma mais iluminada que já passou pela terra, porque nunca ouvimos ou lemos sobre qualquer mau sentimento em sua natureza. Ele foi dotado lá das alturas com poder espiritual, porque tinha esse grau de consciência preparado para recebê-lo. Ele não alimentou dentro de si mesmo crítica, julgamento, antagonismo ou desejo de beneficiar-se com o poder temporal. Ele não tinha dentro de si qualquer desejo de ver alguém punido, não obstante o pecado. Em outras palavras, sua consciência era pura. Portanto, ela poderia ser a transparência para a presença e o poder de Deus.

O Mestre mandou-nos ser e agir à sua semelhança, mas não podemos ser dotados de poder espiritual enquanto nos apresentarmos a este mundo com uma disposição carnal. Apenas na medida em que podemos orar um para o outro, amigo ou inimigo; apenas na medida em que podemos compreender a Onipotência, a Onisciência e a Onipresença universalmente, é que nossos problemas serão desfeitos e nossa consciência se torna uma transparência para o poder espiritual que nos habilita a curar, regenerar, perdoar e satisfazer os outros.

Até que possamos nos transportar àquele lugar onde estamos dispostos não só a curar, mas a alimentar e vestir multidões, até que estejamos dispostos a ser usados para espalhar este suprimento de dólares ou coisa que o valha, não estaremos abrindo nossa consciência para o dom espiritual, porque o espiritualmente dotado não recebe: eles são os meios pelos quais é dada a graça divina. Enquanto estamos orando para receber, estamos obstruindo a força espiritual.

Quando estamos orando "Pai, estou desejoso de curar e alimentar multidões. Deixe apenas Sua graça fluir", nós a encontraremos fluindo. Que engano é a crença de que nós podemos orar para obter algo para nós mesmos, quando realmente podemos receber somente quando estamos orando a fim de dar, doar, compartilhar, multiplicar. O resultado dessa oração egoísta é que formamos um ego, um sentimento pessoal, e então procuramos a Deus para aumentá-lo. Deus não amplia a sua ou a minha fortuna pessoal, por mais que queriamos que Ele faça isso. Só quando começarmos a derramar até mesmo o pouco que temos, é que a nossa própria fortuna aumenta além de qualquer medida possível de nossas próprias necessidades.

Nessa idade, a força espiritual e a natureza de sua tarefa são descobertas. À medida que continuamos a aprender cada vez mais sobre a força espiritual, nos preparemos para ser instrumentos dignos de seu fluxo -- não tanto para seu bem ou o meu, mas para que o mundo inteiro possa estar envolvido pelo amor divino. Então você e eu partilharemos dele porque somos partes desse mundo.

domingo, julho 27, 2008

A Visão Espiritual



A vida de cada ser humano é a Vida de Deus. Essa é uma Lei/Verdade universal, porque tudo o que existe foi criado por Deus. Não existe outra fonte de onde provenha a existência, porque Deus, ao criar tudo, não dispunha de alguma outra fonte de energia que não a si mesmo. Se houvesse, então haveria mais de uma Força, mais de um Deus, e Ele não seria onipotente. Tudo o que existe carrega a Luz de Deus em si.

Se as pessoas procurarem mais atentamente dentro de si, elas poderão encontrar todo amor e sabedoria de que precisam. Já escutamos muitas vezes, em nossa busca pela Verdade, frases como "procure dentro de você e achará o que está buscando", "a resposta para este problema está dentro de você", etc. Isso é verdade, temos todas as coisas que precisamos dentro de nós, porque Deus é Sabedoria, é Amor e Bem; e Ele está dentro de nós. Existe bondade dentro de todas as pessoas, elas já são perfeitas como Deus o é. Ninguém deve pensar, falar ou tratar uma pessoa somente com base nas aparências ruins e imperfeitas que eventualmente estejam manifestadas nela. Quem procede dessa forma, está olhando para a pessoa através dos cinco sentidos fenomênicos, e isso significa julgá-la. A Verdade, o Bem, a Perfeição que existe dentro de cada ser só pode ser vista através do sentido espiritual que existe dentro nós, e que transcende todo campo da vida fenomênica.

Quando olhamos para o próximo com essa visão espiritual, vendo-o como Deus o fez, nós não estaremos julgando, mas sim agindo segundo a justiça de Deus. Isto é importante, lembre-se sempre: o julgar está relacionado com o reconhecimento fenomênico que fazemos das pessoas, ao passo que o "agir segundo a justiça de Deus" é o reconhecimento do ser espiritual, que transcende a todas as imagens captadas pelos cinco sentidos. Alguém te prejudicou de alguma forma, lhe feriu ou magoou e, todas as vezes que você se lembra de tal pessoa, você pensa/a considera como alguém gosta de prejudicar os outros - você a julgou. Tal pessoa pode ter vinte, trinta, quarenta anos, e vir ferindo ao longo de todo o tempo todas as pessoas que encontrou na vida - se você considerá-la como "alguém que gosta de ferir e prejudicar os outros", você a estará julgando. Ela, em Verdade, é um filho de Deus.

Mas, neste ponto do ensinamento, devemos ter cuidado, porque ao ouvir que todas as pessoas já são boas, maravilhosas e perfeitas, muita gente pensa: "então não existe nenhum problema em mim, vou continuar fazendo todas estas ações que sempre fiz" ou então "aquela pessoa que me feriu é boa e perfeita, então não preciso ajudá-la a mudar seu comportamento". Pensar dessa forma está errado, seria tolice uma pessoa que segue este ensinamento agir conforme esse tipo de pensamento; pois, embora aquela pessoa seja filha de Deus, seus atos não foram condizentes com a atitude que deveria ter um filho de Deus. Por isso, seria estupidez ignorar o fato dela lhe ter magoado. Precisamos olhar para o comportamento e as ações praticadas por ela, mas não devemos considerá-la como uma pessoa que magoa e prejudica o próximo.

Assim, chegamos a outro ponto muito importante: olhar/ver é diferente de "considerar". Não podemos ignorar o "ato de prejuízo" que aquela pessoa lhe causou. Devemos olhar para esses atos existentes nela, mas não podemos considerá-la como "alguém que causa prejuízo aos outros". "Olhar a pessoa" é diferente de "considerar a pessoa". Olhe para o mal, para a imperfeição, mas não considere essas coisas como existências verdadeiras. Precisamos saber separar o que a pessoa é realmente daquilo que está manifestado no mundo do fenômeno. É só assim que conseguiremos perceber no outro a Vida de Deus perfeita que habita nele, e é o reconhecimento desta Vida Perfeita no outro que possibilitará sua transformação.

É assim que ocorrem curas espirituais: você tem algum problema, uma pessoa que conhece a Deus intimamente olha para você através do sentido espiritual e o considera perfeito como Deus o fez, e você dirá que foi curado. É assim que seres iluminados como Jesus, Buda, Masaharu Taniguchi e Joel Goldsmith faziam: eles reconheciam o Espírito de Deus presente em cada pessoa. E a cura ocorria. Se Jesus olhasse para um leproso ou paralítico e os considerasse através da mente fenomênica dos cinco sentidos, nem mesmo Ele conseguiria curá-los. Porque a mente humana não pode -- e jamais poderá -- perceber o Espírito de Deus. Jesus usou de outra mente para relizar suas obras: a mente divina. A mente divina é uma mente espiritual (e não mental), e pode realizar qualquer coisa. Jesus jamais julgou qualquer homem que aparecia na sua frente. Ele libertava todos de suas condições porque não via lepra, não via paralisia, não via maldade, doença, morte em ninguém. Ele olhava para aquela cena de "pessoa doente", de um "lázaro morto", mas não os consideravam doentes ou mortos. E todos nós que seguimos este ensinamento espiritual devemos proceder da mesma forma - ver o mal, mas jamais reconhecê-lo.

Assim, não devemos julgar ninguém. O Ensinamento diz que o julgamento é prejudicial para os outros e também para nós mesmos. Repetindo: o julgamento que fazemos do outro não faz mal somente a ele, como também a nós mesmos. Pegou? Não precisa repetir mais não? Ok!... Nós, sempre que julgamos alguém, estamos identificando a pessoa com as coisas ruins que são o objeto do nosso julgamento. Ou seja, estamos fazendo com que nossa mente trabalhe para confinar/prender o outro dentro daquela imagem mental de "pessoa ruim", "pessoa imprestável", "pessoa doente", "pessoa cruel", etc. Todo julgamento causa esse efeito: prender a pessoa ainda mais dentro de uma falsa imagem mental. A pessoa sofre uma violência mental da nossa parte, porque a mente que temos está interligada à mente de todas as pessoas que conhecemos, e isso tem o poder de causar certo grau de impacto na vida de cada uma delas. Quando alguém nos faz mal e, ao invés de simplesmente olhar, o considerarmos "uma pessoa má", estamos reforçando ainda mais a maldade e impedindo a pessoa de se libertar: causamos prejuízo ao outro.

E nós também sofremos as consequências de nossos atos. Jesus diz que seremos medidos com a mesma medida que usarmos para medir. No mesmo instante em que reconhecemos a maldade ou doença em alguém, nós plantamos uma semente de maldade e doença dentro de nossa própria mente. E a mente não foi uma coisa criada para segurar uma certa idéia ou pensamento pra sempre. A função da mente é justamente a de estar sempre divagando de uma idéia para outra, de um pensamento para outro. Todo pensamento ou idéia plantados/colocados dentro da mente deverão sair de lá. A mente deve ser purificada, o que está dentro deve ser jogado para fora. Esse processo, em que a mente joga para fora tudo o que está dentro, constitui a lei cármica. É assim que geramos os nossos carmas - através de pensamentos, palavras e ações. Então todos esses pensamentos, palavras e ações deverão ser "expulsos" do lado de dentro e manifestar do lado de fora. Dessa forma, a mente se limpa, jogando para o lado de fora tudo que estava dentro.

Por isso, se reconhecermos a maldade nas pessoas e as considerarmos como "pessoas más", teremos plantado dentro de nós a semente da maldade. Um dia ela irá germinar e haveremos de passar por alguma situação ruim. Talvez a maldade apareça no outro, ou talvez ela comece a aparecer dentro de nós próprios, mas uma coisa é certa: a maldade haverá de aparecer... porque foi plantada. Tudo o que damos, recebemos. Essa é uma lei válida/presente em todos os níveis da existência: nas dimensões física, mental e espiritual da vida. Reconhecer o mal no outro é "doar o mal ao outro". O verdadeiro ser do homem nada tem a ver com o mal. Por isso, se você der o mal a ele, você irá receber esse mal de volta mais cedo ou mais tarde.

Nós não temos que identificar ninguém com nada. Se o fizermos, estaremos julgando. Qualquer identificação é julgamento. A verdadeira identidade de cada homem é espiritual, é invisível, intangível, infinita e jamais pode ser identificada. Devemos simplesmente olhar, sem considerá-las isto ou aquilo. Dessa forma, estaremos libertando/soltando a pessoa de nossas amarras mentais. E o caminho estará livre para que o sentido da visão espiritual se manifeste. Então o Espírito de Deus se manifesta e opera. Na verdade, Ele estava presente durante todo o tempo, mas havia uma "barreira mental" bloqueando e separando Ele da pessoa necessitada de ajuda, e impedindo-O de operar. O Espírito só pode se manifestar quando a mente se aquieta. A mente deve estar calma e silenciosa como um lago interiamente parado, no qual é possível ver nitidamente todas as coisas que estão acontecendo dentro dele, lá no fundo. Qualquer movimento na superfície do lago interfere nas imagens captadas pela visão espiritual. A mente também: qualquer reconhecimento através dos cinco sentidos mentais é capaz de abalar/distorcer as imagens vistas pela mente espiritual. A mente espiritual é sutil, frágil, sublime e fica encoberta pelas atividades da mente humana. A mente humana tem de ser utilizada o máximo possível para nos colocar em contato com a nossa mente divina.

O pecado não existe. Doença e a morte também não existem. Se somente o Bem é existência verdadeira, é preferível voltar a mente humana para o lado do bem, do amor, da sabedoria, da harmonia, da alegria, da vida, da saúde, e de todas as coisas que representam Deus. E sempre buscar desenvolver o sentido espiritual que existe dentro de nós: este é o caminho deste Ensinamento.

quinta-feira, julho 24, 2008

Busque, antes de tudo, a justiça de Deus


Masaharu Taniguchi


O “reino de Deus” e o “mundo ainda não manifesto”

Jesus ensinou: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. E completou: “O reino de Deus está dentro de vós”. “Justiça” é “adequação”, isto é, uma situação em que há adequação entre tempo, lugar e pessoa. No Chung-yung (Doutrina do meio, confucionismo) consta: “Diz-se meio quando ainda não se manifestaram as emoções, a alegria ou a ira, a satisfação ou a aflição; e harmonia, quando se manifestarem adequadamente”.

Buscar o reino de Deus é buscar aquilo que ainda não se manifestou, ou melhor, buscar o mundo originário que ainda não se manifestou fenomenicamente. A justiça de Deus é a ordem predeterminada onde há adequação entre tempo, lugar e pessoa, para que se manifeste no mundo fenomênico aquilo que ainda não se manifestou. Quando se apreende o mundo originário e se alcança a sabedoria da ordem predeterminada para concretizá-lo fenomenicamente, essa concretização se dará de forma absolutamente adequada, estando tudo no seu devido lugar e no devido tempo. Destarte, o mundo fenomênico estará naturalmente em ordem e tudo passará a se realizar de modo satisfatório. Referindo-se a isso, Jesus ensinou: “... e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Nesse ponto, há identidade entre o confucionismo e o cristianismo.

É preciso compreender, antes de tudo, o que seja o reino de Deus, o mundo originário, aquilo que ainda não se manifestou. A isso se diz “buscar a primeira justiça”. E tudo o mais que se ramifica do mundo originário faz parte da segunda ou terceira justiça. Ao buscar primeiramente o mundo originário, tudo que daí se deriva se concretizará naturalmente.

Então, onde está esse reino de Deus? Cristo tem nos ensinado que “O reino de Deus está dentro de vós”. Portanto, dentro de você está a sua primeira justiça. Essa primeira justiça que está dentro de você é o seu ideal interior.

O homem deve ser fiel ao seu ideal interior, pois esse ideal é o próprio reino de Deus. E, porventura, você busca a riqueza tendo-a como seu ideal interior? Seria a riqueza um ideal de seu interior? Se, por hipótese, colocarem diante de você um pacote contendo um milhão de ienes, e alguém lhe disser chutando o pacote “Leve-o embora, que isso é seu”, você ficaria com esse dinheiro? Certamente, não iria aceitar essa riqueza oferecida com menosprezo e reagiria firmemente contra esse insulto à sua personalidade. Significa, então, que essa espécie de riqueza não condiz com o seu ideal interior. Você sente que essa riqueza iria macular sua personalidade, isto é, o ideal de belo que existe em seu interior é que a rejeitaria.


Não perca o belo do cotidiano

Tenho observado que, após a Segunda Guerra Mundial, a vida dos japoneses vem perdendo a elegância. O belo, entretanto, faz parte da primeira justiça e é um dos atributos do reino de Deus que existe no interior de todas as pessoas. Após a guerra, a vida dos japoneses vem se vulgarizando e tornando-se cada vez mais decadente, ensejando o aparecimento de apresentadores profissionais insensatos como Toni Tani. Essa tendência deve ser considerada algo realmente preocupante. Penso que essa tendência de alegrar-se com o que é vulgar deriva do fato de considerar equivocadamente que o belo e a elegância sejam atributos da burguesia capitalista, dissonante com a democracia e sem relação alguma com a vida do povo em geral.

Entretanto, não é possível enxergar a realidade dos fatos através dessa visão classista, que é relativista e antagônica. Devemos saber que esse modo classista de ver os fatos leva a conclusões unilaterais e não é o valor absoluto que o belo ocupa na nossa vida.

O belo é um dos três valores essenciais do Mundo da Imagem Verdadeira — a Verdade, o Bem e o Belo. Quando esses valores forem vividamente manifestados no mundo fenomênico, então surgirá, pela primeira vez, a sublimidade do mundo da Imagem Verdadeira, a verdadeira nobreza do homem da Imagem Verdadeira.


Busque aquilo que possui real valor

Se o homem, no seu modo de viver, não buscar a Verdade, o Bem e o Belo, que têm real valor, e perseguir apenas prazeres materiais, andar numa correria louca atrás de valores materiais, sua vida tornar-se-á um campo de batalha dos desejos carnais e de disputa de valores materiais, deixando de lado a primeira justiça, que é essencial, que possui verdadeiro valor.

Ainda que, hipoteticamente, você use uma estratégia trabalhista chamada “greve” e tenha o salário majorado em 20 mil ienes mensais, esse aumento nada acrescenta ao seu valor essencial. Logicamente sua renda aumentou, mas isso não muda o fato de você ter vendido parte da sua própria vida. Por mais caro que ela tenha sido negociada, não deixa de ser vida que foi vendida. A única diferença é que aumentou o preço dessa venda. Se você considera desprezível uma mulher que, por dinheiro, vende o próprio corpo, e a chama de prostituta, então não há como impedir de se chamar de prostituto um homem que, por dinheiro, vende sua força de trabalho. A verdadeira democracia deve ser aquela que reconhece nas pessoas o absoluto direito de inviolabilidade da sua personalidade. Aquele que, apesar disso, vende a própria vida, podemos dizer que é alguém que renunciou a esse direito absoluto, vendendo-o a um negociante.


Seja alguém que oferece a vida por amor

Mesmo que você ofereça ao próximo sua força vital, se não foi por dinheiro, se não ofereceu o corpo em troca de dinheiro, mas para dedicar-se aos outros por amor, se essa doação de vida foi motivada por amor puro de quem deseja vivificar o próximo, então ela não é vida que foi vendida. Ela se torna doação de Vida por amor. Uma vida vendida é vida de escravo, por mais alto que seja o seu preço. Já a vida doada é vida de amor, Vida de Deus; não é vida de escravo vendido, mas sim vida de senhor do próprio destino, que doa a própria vida por iniciativa própria. E, vivendo uma vida assim, você achará bela a própria vida e satisfará o seu ideal estético interior.

(Do livro "A Verdade", vol. 4, pp. 95-99)

segunda-feira, julho 21, 2008

Masaharu Taniguchi recebe a Verdade





A seguir, algumas considerações sobre o recebimento da Verdade:

No vídeo está registrado o modo como a revelação da Verdade foi recebida pelo Mestre Masaharu Taniguchi, fundador da filosofia de vida "Seicho-No-Ie", nome este que, numa tradução livre, significa "O Lar do Progredir Infinito". Este foi o nome escolhido porque, ao receber a revelação da Verdade, Masaharu Taniguchi percebeu que o homem possui em si o potencial infinito para ser ou realizar qualquer coisa que se deseje. Que o caminho da Vida é PROGREDIR infinitamente. Joel Goldsmith também alcançou a percepção da mesma Verdade e, assim, fundou "O Caminho Infinito". Apenas pelo nome podemos extrair o sentido do termo pelo qual foi adotado: que a Vida caminha infinitamente. Em suma, a Seicho-No-Ie e O Caminho Infinito tratam da mesma revelação da Verdade e suas denominações possuem o mesmo significado, diferindo apenas quanto ao idioma que o nome é apresentado. Para aqueles que gostam, um propicia um caminho e uma maneira predominantemente oriental (Seicho-No-Ie); enquanto que o outro oferece um caminho que é predominantemente cristão (O Caminho Infinito). Mas, hoje, venho falar de como o Mestre Masaharu Taniguchi recebeu a Verdade.

A Verdade é revelada ao homem por Deus. Deus usa de sua Sabedoria para revelar à humanidade, do modo mais compreensível possível, porque conhece e respeita a individualidade, o pensamento e os limites de cada um. Por isso, a Verdade pode assumir várias formas. Ao ser revelada ao professor Taniguchi, a Verdade assumiu uma máscara de feição budista (pois estava mais habituado a esta do que às outras religiões) e veio através da frase: "a matéria não existe". Ouvindo essa voz dentro de si, Masaharu Taniguchi despertou espiritualmente. O despertar espiritual também varia e ocorre de acordo com a individualidade de cada um. Uma pessoa pode despertar apenas ouvindo ou lendo as palavras "a matéria não existe", ao passo que outra pode despertar simplesmente ao parar para prestar atenção e ouvir o vento. Será diferente para cada um, mas algo é certo: ocorrerá somente quando o sujeito estiver pronto. Estando pronta a pessoa, qualquer coisa poderá servir de gatilho; quando ela está preparada para despertar para a Verdade, a forma torna-se irrelevante; a forma só serve de desculpa. O despertar de cada um é individual, e ocorrerá conforme a individualidade, o pensamento e os limites de cada um. Ocorre tudo isso, porque é o Amor de Deus que opera.

A Seicho-No-Ie traz a Verdade que revela que o homem é filho de Deus, que já possui todas as coisas boas dentro de si, e que já é perfeito. Mas o homem precisa despertar para essa Verdade que dorme dentro de seu ser. De nada adianta ter o pontencial infinito dentro de si, se a pessoa não possuir a consciência disto. Então, é fundamental que o homem se lance numa busca espiritual, cujo fim revelará o conhecimento de algo mais do que a velha percepção imanente aos 5 sentidos físicos, com os quais nasce todo o ser humano. A realidade material não é tudo o que existe. Para além dela está a Realidade da Essência, do Espírito, que pode ser discernida por nós através do nosso sentido espiritual. Nosso ser possui dentro de si um sentido espiritual, que está adormecido.

No entanto, nem sempre foi assim, nem sempre ele esteve adormecido dentro de nós. Quando éramos pequenos/crianças possuíamos maior percepeção do que a que temos hoje. Estávamos conscientemente mais próximos do Pai do que o estamos hoje. Nossa sensibilidade era muito maior, e conseguíamos perceber de alguma forma -- através da visão, da audição, a percepção de aromas, etc -- coisas que hoje estão fora do alcance dos sentidos. O que fez com que perdêssemos aquela sensibilidade que trouxemos conosco, quando nascemos, foi o modo que nos foi ensinado de como deveríamos enxergar a vida; todos aprendemos a concentrar nossa atenção apenas o suficiente para as coisas deste mundo. Nossa atenção foi trabalhada só o bastante para interagir com este mundo que está aí para nós. E o resto das coisas fomos ensinados a esquecer. Muito mais poderia ter sido feito, de forma que mais possibilidades pudessem ser alcançadas; nossa atenção poderia ter sido trabalhada para perceber, interagir e viver de forma muito mais proveitosa e rica. Mas o modo como este mundo funciona não nos permite aprender mais, pois, para que ele possa continuar funcionando do modo como sempre esteve, depende de nossa atenção exclusiva. Este mundo só nos permite aprender o bastante.

Por isso, nossos outros sentidos mais sutis acabaram ficando entorpecidos, estão adormecidos dentro de nós. Nós nunca poderemos perder esses sentidos mais sutis, que estão adormecidos dentro de nós, porque eles fazem parte do nosso ser. O que precisamos fazer é despertá-los novamente. E, para isso, temos que nos habituar a, por alguns momentos, tirar a nossa atenção deste mundo, que é o lugar onde nos foi ensinado a concentrar nossa mente/nossa atenção; e voltá-la para os outros cantos e recantos da vida, lugares estes onde um dia nossa atenção estivera concentrada. Isso é meditação. Esse é o caminho espiritual ensinado pela Seicho-No-Ie e pelo Caminho Infinito.

Que todos tenham uma excelente meditação!


quinta-feira, julho 17, 2008

Abrindo a porta a Deus

Joel S. Goldsmith



"Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo." (Apocalipse 3:20)

A Presença espiritual Se mantém sempre à porta de nossa consciência, tentando entrar. Por ignorância espiritual, desconhecemos esse fato. Temos vivido fora de nós mesmos, à mercê de toda sorte de influências externas, passando por várias experiências, algumas agradáveis, outras enfadonhas, mesquinhas, pecaminosas, que poderíamos ter evitado, se tivéssemos encontrado o céu na terra. Ninguém nos havia dito que o Divino, o Eu em nós, está constantemente à porta de nossa consciência, batendo para que Lhe abramos nossa mente, a fim de que Ele assuma um governo sábio e amoroso em nossa vida. Entregues a nós mesmos, lutávamos. Defendíamo-nos. Vivíamos mal, como grande número de pessoas que não se encontraram ainda.

Agora, através desta revelação, chegou o tempo de adquirirmos um novo senso de vida, pela experiência de que nosso corpo é o templo do Deus vivo, ao Qual devemos consagrar nossa vida.


Dedicação

Todos os dias, devemos dispor de um período em que possamos fechar os olhos e nos voltar para dentro de nós mesmos, convidando Deus a entrar.

Em sentido metafísico, porém, Deus não entra e nem sai, pois nada tem de natureza material; não pode limitar-Se a ficar dentro ou fora de coisa alguma, já que é onipresente, isto é, está sempre e ao mesmo tempo fora e dentro, acima e abaixo de tudo, porque permeia tudo.

Portanto, se Deus, como Infinidade, é Onipresente, no momento em que Lhe abrimos a porta -- imagino essa porta como sendo a minha mente -- apercebemo-nos de que Sua Presença e Infinidade inundam nossa consciência e no guiam ao estado da Graça! A Graça de Deus é o poder, a Presença e a sabedoria que “excede todo o entendimento”. A Graça de Deus é o que nos confere, como recompensa por Lhe abrirmos nossa “porta”, a auto-realização, seguida de seus frutos.

Se não negligenciarmos, horas virão em que seremos guiados, intuídos, beneficiados, abençoados. Mas a dedicação a Deus deve ser renovada e realimentada em cada meditação. Para isso, procurem vivenciar a essência destas palavra:

“Eis que estou à porta, e bato (...)”. Abro minha consciência a Deus, imortal e infinito. Ele habita em mim e eu n’Ele. Assim, a Consciência divina me permeia. Minha mente, minhas emoções, meu corpo, meu trabalho, meu lar, minhas recreações, meus relacionamentos, minhas aptidões, são dedicados a Ele. Consagro-Lhe tudo o que sou e tenho. Faço-me um instrumento consciente de Sua vontade, para que Ele realize minha parte em Seu plano”.

A sincera consagração aos desígnios divinos, leva-nos a um estágio mais alto, no qual podemos compreender porque algumas pessoas progridem intensamente em suas atividade espirituais, enquanto outras não. Por ignorarem a natureza da dedicação, consideram-na uma qualidade humana, uma virtude de sua personalidade. Ufanam-se de serem consideradas pessoas incomuns e dedicadas. A dedicação se converte, pois, em glória pessoal, não numa consagração a Deus. Torna-se uma dedicação a si mesmo (personalidade), e nada pode acrescentar ao íntimo como crescimento.

Pela consagração correta, a vida passa a ter um propósito espiritual, que inclui o serviço humilde, amoroso e altruísta ao próximo, por amor a Deus, como foi dito: “Em verdade vos digo, o que fizestes a alguns destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizeste” (Mateus 25:40)


A Descoberta do Reino em Nós

Não há outro lugar onde possamos encontrar o Reino de Deus, senão dentro de nós. Todavia dentro de nós não significa o coração, ou o cérebro, ou a medula espinhal.

Quando fechamos os olhos e nos voltamos para dentro, sentimo-nos envoltos em densa escuridão. É o vestíbulo do Infinito! Aí é que se nos abre a porta que nos conduz ao Reino de Deus, o Reino do Espírito. O reconhecimento deste fato quase nos põe em condições de “ouvir a pequenina e silenciosa voz”, que nos vem de dentro, não de fora. Vem-nos do Ser interno, do centro para a periferia, das profundezas para a superfície de nosso Ser. Em tal estado de abertura expectante, compreendemos que “através da consciência, ganhamos acesso ao Reino de Deus”!

No momento em que aprendemos a fechar os olhos e a penetrar, com a atitude correta, no “Vestíbulo do Infinito” --- à Sua Graça, às Suas dádivas, ao Seu amor e Vida --- inicia-se um processo de enriquecimento de nossa consciência. A princípio não o podemos perceber, porque ainda nos encontramos nos sentidos físicos. Mas com o tempo, pela sincera persistência e anelo de luz, testemunharemos resultados mais profundos. Esses resultados se evidenciam em nossa própria vida: a melhora nos relacionamentos, na saúde, na provisão de recursos, etc., porque, ao ir penetrando em nossa consciência, essa Influência espiritual, purificadora, vai harmonizando e restaurando tudo!

É-nos extremamente beneficioso abrir a consciência ao Espírito. Do contrário, Ele permanecerá fora -- no sentido de que, ao crer-nos distanciados d’Ele, isolamo-nos de Sua Graça. Isto responde àquelas perguntas tão freqüentemente formuladas: “Por quê este pobre cão foi atropelado?”, “Por quê esta boa mulher foi acometida de tão horrível enfermidade?", “Por quê estes jovens são enviados ao campo de batalha, onde serão mutilados ou mortos?"

É que o “homem natural” não vive sob a Lei de Deus. O que de bom lhe acontece é, as mais das vezes, ocasional e efêmero. Mesmo os que nascem com vocação especial e desejam ardentemente cultivá-la, nem sempre o conseguem. Há muitas pessoas de talento que nunca prosperaram. Outras há que merecem reconhecimento do mundo e nunca o receberam. Grande parte do êxito humano é acidental.

Como, então, podemos ficar acima desse reino do acaso, onde estamos sujeitos a toda sorte e caprichos e flutuações? A resposta é: submetendo-nos à Lei de Deus. Quando cumprimos a Lei, compreendendo a necessidade de entrarmos em sintonia com o Universo de que fazemos parte, guindamo-nos ao plano da Graça e, nesse estado, a Lei atua em nosso favor; e somos guiados pelo Paráclito prometido por Jesus Cristo.

Mas ninguém pode fazer isto por nós. É uma escolha voluntária. Temos o direito de descer ou subir. Mas, se querem o meio de consegui-lo, é a meditação, tal como aprendi, cujos resultados comprovei e agora ensino:

Inicie, diariamente suas meditações, durante três ou quatro períodos de, no máximo, quatro minutos. Algumas vezes bastam dez ou vinte segundos, nos quais você procurará abstrair-se dos ruídos externos, e abrir o “ouvido interno”, para escutar os sons que estejam além e acima da faixa dos sons conhecidos. Diga, então, em seu íntimo: “Fala Senhor, que Teu servo escuta!”

Sinceramente feito, este exercício vai abrindo a porta da nossa consciência, atendendo ao honroso convite do Cristo interno. E Ele entrará, senão logo, algum tempo depois, de modo apenas perceptível por aquelas doces sensações de Algo sublime, que nos põe num estado especial, inspirado, de felicidade.

Mas é comum que, antes de visitar-nos, Ele nos ajude a operar certas mudanças em nossa natureza egoista e vaidosa. É provável que nos leve a perceber o que Ele diz: “Buscas-me somente pelos pães e peixes. Vai cuidar de seus negócios. Estou triste contigo!” Mas, se nos voltarmos a Ele com intenções sinceras e puras, Ele virá sem tardança, mais depressa do que O esperamos. E Sua influência nos conduzirá finalmente àquela meta atingida por Paulo, quando disse: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim!” - Gálatas 2:20.

segunda-feira, julho 14, 2008

O Reino Espiritual


Joel S. Goldsmith


Em algum lugar na consciência existe um lugar inexplorado, um lugar ainda não revelado pela religião, filosofia ou ciência. Eu sei que esse lugar existe, porque ele se coloca continuamente às vistas do meu conhecimento. Eu sei que, quando ele se revelar, ele mudará a natureza da humanidade: não haverá mais guerras, e o cordeiro se deitará com o leão. Eu sei o seu nome, porque foi revelado como Meu reino e Minha graça. Cristo Jesus falou desse Reino, mas nem a palavra falada e nem os manuscritos até agora descobertos revelaram seu completo significado.

Nos meus momentos de maior elevação, eu tenho vivido e experienciado esse Reino, e por vezes sua atmosfera permanece impregnada em mim por dias, mas depois, de novo ele me escapa. Às vezes nas curas eu tenho testemunhado sua ação, mas captei apenas alguns de seus lampejos. Ele me mostrou a mente humana da humanidade e suas operações, e como os homens usam a mente tanto com maus propósitos quanto com bons.

Esse reino espiritual, esse mundo interior, é tão real quanto o mundo que nós vemos, ouvimos, tocamos ou cheiramos - talvez até mais real. Aquilo de que nós nos apercebemos através dos sentidos, eventualmente muda e desaparece, mas esse mundo interior, essas glórias espirituais que nos são reveladas, essas luzes espirituais com quem aprendemos a permanecer no tabernáculo - essas nunca desaparecem.

Esse é o mundo que o Mestre Cristo Jesus revelou, um Reino que existe bem aqui onde estamos, mas somente se recebermos o Espírito de Deus dentro de nós. Ele já está estabelecido aqui na terra, apenas esperando nosso reconhecimeto e realização.

Encontrar esse Reino não nos tirará de maneira alguma deste mundo. Encontrar esse Reino nos deixará nele, mas não dele. Desfrutaremos de todas as coisas necessárias para enriquecer a vida, não nos tornaremos ascéticos, mas não mais desejaremos coisas ou ansiaremos por elas, e muito embora as riquezas da vida possam ser parte de nossa experiência, intimamente estaremos tão livres delas que todo o nosso ser interior será vivido em Deus e de Deus.

O mundo místico é um mundo real. É um mundo de pessoas e um mundo de coisas formadas da consciência iluminada ou esclarecida. Mas, como nos tornamos iluminados ou esclarecidos? Como encontrar esse mundo místico? O que é misticismo? Misticismo é "a experiência da união mística ou comunhão direta com a realidade última de que nos falam os místicos". É "a teoria do conhecimento místico; a doutrina ou crença que o conhecimento direto de Deus, da verdade espiritual, da realidade última, e de assuntos correlatos, é alcançada através da intuição imediata, insight, ou iluminação, e de uma forma que difere da nossa percepção ordinária dos sentidos".

A mensagem mística de todos os tempos é a mesma. A linguagem e o modo de abordagem podem ser diferentes, mas a mensagem e o objetivo - alcançar a união consciente com Deus - nunca muda. Ninguém pode se tornar um buscador de Deus em sua humanidade, mas, quando Deus toca uma pessoa em algum grau de despertar, ela é levada até alguma forma de ensinamento espiritual. Ela pode permanecer neste caminho até o final de sua busca, ou pode ir de ensinamento em ensinamento até finalmente encontrar aquele que vai de encontro à sua necessidade insatisfeita e lhe trazer a realização de Deus. Embora revelada em diferentes linguagens, diferentes termos e diferentes formas, o desdobramento interior leva sem erro ao único objetivo.

Nada se equipara à fascinação e aventura da vida mística. É uma vida de descobertas, descobertas que estão sempre em nossa frente, nunca atrás. Podemos ter tido uma experiência ontem, que nos elevou até o topo da montanha, mas nós não podemos viver na "pérola" de ontem, ou no maná de ontem, porque a experiência de ontem, independentemente do quanto foi extraordinária ou o quanto tenha excitado a nossa alma, é apenas uma preparação para uma ainda maior que está á nossa frente. Existe sempre o desafio das coisas intangíveis esperando nossa descoberta aqui e agora.

O reino de Deus não tem limites ou bordas, e toda a verdade que já foi dada ao mundo nos últimos milhares de anos mal encheria um dedal, se comparada ao que ainda há para ser descoberto. Ninguém até hoje já experimentou um milionésimo do que já foi revelado.

Pode alguém em algum tempo revelar a última palavra da verdade espiritual? Pode alguém em algum tempo penetrar nas profundezas de Deus? Pode alguém em algum tempo descobrir a totalidade de Deus? É verdade que os místicos de todas as eras nos deram lampejos da verdade, e suas palavras são carregadas de convicção porque por trás das palavras está a experiência em si mesma. Mas, quanto do que nós já lemos sobre as revelações espirituais nós efetivamente experimentamos? Quanto disso ainda permanece entre as capas de um livro? Quanto disso nós efetivamente testemunhamos? Quanta verdade nos chegou como um desdobramento interior com a força e o poder renovadores da revelação? Todo aspirante no caminho espiritual deveria estar constantemente alerta para alguma revelação da verdade. Se ele se satisfaz, entretanto, em meramente lidar com as palavras sem procurar extrair os significados mais ricos e profundos, dos quais as palavras são apenas símbolos, ele não está sendo alimentado pelo seu interior, mas pelas páginas de um livro. Tinta preta não tem bom sabor, tampouco há qualquer sustentação a ser encontrada numa página impressa, e aquelas pessoas que estão vivendo na palavra impressa estarão tão famintas quanto aquelas que sofrem de má nutrição. A substância sustentadora a ser encontrada nas palavras, impressas ou faladas, reside na verdade que pode ser introjetada pela consciência.

As verdades que são reveladas na literatura espiritual são sementes plantadas na consciência, e se essas sementes são plantadas numa consciência ativa e fértil, elas brotam e frutificam; mas se são levadas para a consciência adormecida - a inconsciência ou consciência morta, a consciência que está vivendo da forma, do ritual ou dos pensamentos de ontem - essas não podem se abrir, brotar e amadurecer.

Cada palavra da verdade que ouvimos ou lemos deveria ser levada para a nossa consciência como se fosse uma semente, e lá ser nutrida e alimentada. Ela deveria ser fertilizada com a meditação e pela ponderação e pela prática, até que num momento de quietude e silêncio, a semente possa se abrir, enraizar-se, e começar a frutificar.

O que nós lemos, então, não pode se tornar estéril. Há sempre a esperança de que o próximo parágrafo possa conter "a pérola de alto preço" para nós. O próximo parágrafo, ou um que venhamos a ler amanhã, pode ser a "pérola" para o nosso vizinho ou outra pessoa qualquer. Não existe nada que seja uma única "pérola". A vida espiritual é um colar que passaria em volta de todo o globo - tantas são as suas pérolas. Cada declaração da verdade é uma pérola. Cada princípio é uma pérola, cada experiência, quase que cada meditação, é uma pérola, basta que busquemos por ela profundamente dentro de nossas consciências.

Cada grão da verdade deveria ser usado como uma trilha ou uma ponte que nos leva a um despertar profundo, deixando que mais e mais verdade apareça na medida em que viajamos mais alto e para mais longe. Se não estivermos alertas, entretanto, e não mantivermos os ouvidos e a mente abertos, bastante abertos para ver o que vem adiante, seria o mesmo que tentar cruzar o oceano num barco enquanto adormecidos sobre o leme.

Literatura espiritual e pricípios espirituais são certamente trilhas ou pontes sobre os quais vocês e eu podemos viajar, mas para onde nos levam essas trilhas ou pontes? Sempre para a nossa consciência! Esse é o único lugar para o qual um ensinamento verdadeiramente espiritual pode nos levar - à nossa própria consciência.

"Deus não respeita as pessoas", e o que quer que seja possível para um, é possível para todos, mas apenas para aqueles que buscam. Busquem e encontrem; busquem e encontrem; mas busquem no interior de suas consciências. Suas consciências e minha consciência são tão infinitas quanto a consciência de qualquer vidente espiritual, e qualquer que tenha sido o grau de desdobramento que qualquer alma iluminada tenha tido, nós podemos ter em igual grau de profundidade. Nós podemos não expressar essa Infinitude em sua totalidade, mas, mesmo assim essa é a verdade a nosso respeito.

Entretanto, independentemente do quanto a verdade se revela a nós, ou de quantas experiências de natureza espiritual nós venhamos a ter, assim que elas tenham servido ao seu propósito, nós deixamos que deslizem para fora de nossa memória e ansiamos pela próxima, porque a próxima será maior. Se escrevermos uma centena de livros sobre a verdade, ou curarmos umas mil pessoas, nunca devemos acreditar que chegamos ao fim de nossa consciência, porque nossa consciência tem uma profundidade além daquela do oceano, e uma circunferência maior do que todo o nosso universo e de todos os universos ainda desconhecidos e não descobertos. Não há limite para a profundidade de nosso ser e para a riqueza de nossa consciência, mas nós devemos mergulhar fundo em nós mesmos para trazer à tona a revelação da natureza de Deus, e eventualmente a natureza de nosso próprio ser. Aí, então, nós descobriremos que Deus é, na verdade, nosso próprio ser e nossa própria vida.

Buscar, encontrar e experienciar esse brilho interior, essa realização interior da presença, essa comunicação interior com Deus, e então realizar que a cada vez que se repete, isso se torna uma experiência mais profunda e rica, uma experiência mais proveitosa, de modo que não pode nunca ter nada nela de final, aborrecida, monótona ou maçante - aqui reside a real aventura da vida espiritual.

Deus é infinito; a verdade é infinita. Cabe a nós nos elevarmos para dentro dessa Infinitude, explorar novas avenidas da verdade, abrirmos novas áreas de nossa consciência, porque toda essa verdade é nossa consciência, nossa própria consciência! Em um nível de consciência nós podemos colocar em evidência a literatura, arte, invenções ou descobertas. Num nível mais profundo de consciência nós podemos colocar em evidência experiências espirituais até - e incluindo - a última, que é conhecida como casamento, ou união com Deus. Tudo depende do que estamos buscando.

E o que é que estamos buscando? É apenas uma cura de alguma natureza? É apenas mais conforto no mundo humano? É apenas um relacionamento mais feliz, ou um pouco mais de dinheiro? É direito gozar de saúde; é direito ter abundância de suprimento; é direito ter relacionamentos humanos satisfatórios. E todas essas coisas inevitavelmente se seguem, mas se elas sozinhas são o objetivo de nossa busca, nós estamos desvalorizando a verdade. O objetivo em si mesmo é descobrir a essência da sabedoria espiritual, é explorar cada canto do reino espiritual, cada nível de profundidade, cada nível de altitude. Nisso reside a aventura espiritual.

Quem sabe que grande verdade será revelada para nós? Quem sabe que coisas maravilhosas estarão na nossa frente daqui a uma hora? Quem sabe que revelações surpreendentes da verdade podem nos chegar? É maravilhoso quando elas chegam, é maravilhoso quando elas acontecem, mas elas não podem vir se nós permitimos que alguma mensagem particular se cristalize em nós, ou se formos para a cama esta noite pensando que conhecemos a verdade, ou acordarmos amanhã de manhã acreditando ter atingido o máximo da sabedoria espiritual. Cada dia da semana deve ser um dia novo. Com cada dia deve vir sempre um anseio interior, não a lembrança de alguma coisa que foi revelada no dia anterior, mas um reconhecimento de nosso vazio e um apelo: "Pai, Pai! Venha, venha, revela Tua mensagem! Dá-me uma visão hoje; deixa-me conhecer-Te da forma correta; deixa-me penetrar profundamente em Tua consciência".

Existem maiores verdades encobertas em nossa consciência do que qualquer daquelas que já foram reveladas. Assim como a verdade se revelou através de um humilde sapateiro como Jacob Boehme, assim também uma verdade que abale o mundo pode ser revelada através de vocês ou de mim, e se isso não acontecer, pode ser que nós não a tenhamos desejado tão ardentemente quanto o fizeram os grandes místicos do mundo, ou porque nosso interesse tenha estado mais na superfície da vida do que em suas profundezas.

Por vezes, estudantes que tenham estado estudando por apenas um ano, me escrevem sobre sua insatisfação, desapontamento, e mesmo desencorajamento a respeito de sua falta de revelações e progresso. Frequentemente minha resposta é "Em apenas um ano. apenas um ano? Existem outros tantos milhares de milhões de anos à sua frente, e ninguém nunca vai alcançar a transição daquele 'homem cuja respiração está em suas narinas' para aquele 'homem que tem seu ser no Cristo meramente por estudar ou meditar por um ano'." Se o Reino de Deus fosse tão facilmente alcançável, todos o alcançariam. Mas quão poucos já o fizeram! Não se enganem, este é o mais difícil dos caminhos; esta é a vida mais difícil que há. É muito mais fácil para uma pessoa se tornar um Croesus, com uma saúde fabulosa, ou atingir grande fama, do que ter sucesso em alcançar a vida espiritual. É muito mais fácil realizar alguma coisa no mundo humano do que no espiritual, porque no mundo espiritual vocês e eu somos chamados a "morrer" antes que possamos alcançar o que estamos buscando.

A vida espiritual não se ganha deixando de fumar, ou de beber ou de comer carne, ou por estudar por uns poucos anos, ou por ir à igreja ou ter aulas. Ah, se fosse tão fácil! O Reino é alcançado por um processo de "morrer diariamente". Todos os dias da semana, como parte de nosso envolvimento na vida do Espírito, nós devemos vigiar se algum vestígio de humanidade nos deixa ou é deixado de fora. Cada problema deve ser visto como uma oportunidade para elevarmo-nos, qualquer que seja a situação, e se isso soa muito difícil, é melhor nem começar. Mas, se existe um impulso em nós, que nos compele a prosseguir, então devemos ser pacientes e persistir até que o consigamos. Essa conquista é possível a todo aquele que parte nessa aventura espiritual, e é possível sem preço - exceto o grande preço. Há um preço: "Vendam tudo o que possuem." Este é o preço, e é pago na moeda de nossa devoção. Este é o preço que o Mestre demandou de seus seguidores quando lhes disse, "Aquele que ama pai e mãe mais do que a mim não é digno de mim... Vendam tudo o que possuem... Sigam-me e eu os farei pescadores de homens." Disso podemos apreender o quão difícil é essa conquista espiritual, e porque nosso progresso é tão lento, e não vamos reclamar. Nós vamos estar satisfeitos, realizando que se os seguidores de Jesus em seus dias tiveram que dar esses passos, assim teremos nós.

Mas, embora possamos mergulhar fundo nas profundezas até o limite de nossa capacidade e falharmos em atingir o objetivo, a busca ainda assim vale à pena, mesmo se tivermos que passar anos e anos acreditando que não estamos fazendo nenhum progresso. A verdade é que com cada esforço, com cada expedição, com cada busca, com cada meditação, nós estamos nos movendo lentamente e inexoravelmente em direção ao objetivo de toda a vida - a união com Deus.

Problemas e circunstâncias afetam as vidas de diferentes pessoas de diferentes maneiras. Eles podem levantar ou quebrar uma pessoa, ou podem deixá-la no ponto e que a encontraram. Não há nada de trágico em se estar quebrado, ou ser um fracasso, não mesmo. Uma pessoa que fracassa, essa pessoa tentou, normalmente tentou bastante, e há uma satisfação nisso, e há uma esperança nisso, porque se a pessoa continua a tentar, ela nunca vai ser derrubada, e muito embora possa estar quebrada, ela se levantará novamente. A tragédia, se existe uma, ou a desgraça, está em querer continuar, dia após dia, a acordar pela manhã e ir para a cama à noite, e estar em nenhum lugar amanhã que ela já não tenha estado ontem.

Pensem nas oportunidades ilimitadas que existem em qualquer grande metrópole, de se adquirir conhecimento e apreciação da grande arte, literatura, música, religião e ciências naturais do mundo, e então pensem nas milhares de pessoas sem objetivo andando pelas ruas dessas cidades sem nem sequer se darem conta dessas oportunidades, mais frequentemente do que não, nem mesmo se incomodando com isso. Isso é uma tragédia!

Não é a mesma coisa, ainda um pouco mais, com qualquer mensagem ou ensinamento verdadeiramente espiritual? Não existem pessoas no mundo que estão expostas de tempos em tempos, de alguma maneira à verdade, e ainda assim não lhe dão importância? Isso é triste, porque encontrar uma mensagem espiritual poderia e deveria ser o começo de uma vida de aventuras. É verdade que nem sempre acontece desta maneira. Ela poderia nos deixar no mesmo lugar onde nos encontrou. Isso não pode nos quebrar - isso ela não poderia nunca fazer - mas pode elevar-nos, e poderia abrir a vida à alegria e entusiasmo espirituais, e a buscar e encontrar. Isso deveria nos estimular a girar e girar e começar tudo de novo para ver quão longe podemos ir nesse Caminho.

Não existe um Deus lá fora no espaço. O Deus que existe está encondido dentro de nós, esperando que cada um de nós o descubra por si mesmo. Nós não temos que ir a nenhum lugar no tempo e no espaço. A jornada espiritual, a maior das aventuras, não acontece no tempo e no espaço. É uma jornada na consciência - e essa jornada ninguém pode fazer por nós.


sexta-feira, julho 04, 2008

A Sabedoria para a solução dos problemas




Masaharu Taniguchi


Ninguém, por sua espontânea vontade, gostaria de ter aborrecimentos, preocupações e problemas. Entretanto, mesmo procurando evitá-los, a maioria das pessoas não o consegue. Uns se atormentam porque alguém da família agiu de maneira errada; outros se afligem porque o filho esbanja demais; outros sofrem porque alguém ficou doente...

Contudo, ficar preocupado, irritado ou nervoso não contribui nem um pouco para solucionar os problemas. Pelo contrário, só serve para dificultar a solução. O importante é serenar a mente, penetrar no âmago da questão, descobrir a causa mental e orar, praticando a Meditação Shinsokan a fim de concentrar a nossa mente em Deus e dEle receber a sabedoria para solução do problema.

Pode ser que o seu problema lhe pareça extremamente difícil. Mas, aos olhos de Deus, não existem problemas difíceis. Mesmo que tudo ao redor desmorone e toda a sua economia se perca, não se desespere. Deus pode reconstituir para você uma situação muito melhor que a anterior e fazer com que você acumule uma fortuna muito maior que a anterior. Reflita sobre o fato de que todas as estrelas do Universo, bem como todos os animais, minerais e vegetais da face da Terra foram criados por Deus.

Lembrando-se de que Deus é a fonte dessa grandiosa força que criou o Universo, você compreenderá facilmente que Ele possui a força para resolver facilmente os mais complexos problemas dos homens, reparar os maiores estragos e criar um mundo muito mais abundante que o anterior.

Embora isso seja tão fácil de compreender, há pessoas que não conseguem aceitar essa Verdade. Mesmo compreendendo teoricamente, muitas vezes essa compreensão permanece apenas no cérebro e não penetra até o âmago do subconsciente. Por esse motivo devemos, em todas as oportunidades – principalmente durante a Meditação Shinsokan –, mentalizar que a grandiosa força de Deus está presente em nós e fazer com que essa Verdade se infiltre no nosso subconsciente.


A consciência de união com Deus

Se você adquirir realmente a consciência de união com Deus, todos os seus desejos serão concretizados. Ame mais positivamente, mais generosamente e mais desinteressadamente. Com certeza será descortinada uma nova vida diante de você. Não há nenhum motivo para se preocupar ou temer. Se você não consegue evitar as preocupações ou temores, é porque ainda não é verdadeira a consciência de que você é um com Deus. Não sendo total a sua consciência de união com Deus, você não tem confiança em si mesmo, não está seguro da sua própria capacidade. Tenha mais autoconfiança e acredite mais na sua capacidade.

Para isso, ore com mais profundidade. Pratique a Meditação Shinsokan com mais fervor e maior freqüência. Com isso, você tornará mais profunda a consciência de união com Deus, terá confiança em si mesmo e na sua capacidade, não sentirá mais insegurança ou temor diante de problema algum, e conseguirá a concretização de tudo o que desejar.


Os bens de Deus

Deus é infinito. Quanto mais você abrir o canal da sua mente, com maior facilidade chegará a provisão ilimitada de Deus. Não tenha pensamentos mesquinhos. A mesquinhez estreitará o canal de sua mente. Materializa-se aquilo que se forma na mente.

Devemos considerar tanto a capacidade como o dinheiro que possuímos como bens de Deus confiados sob a nossa administração, e não como propriedades nossas. Precisamos cuidar bem deles, aplicando-os nas finalidades que mais agradem a Deus.

Quando soltamos o que possuímos é que recebemos a nova provisão. O ar existe em quantidade infinita, mas, se ficarmos apenas inspirando e não expirarmos, não poderemos receber a nova provisão de ar e acabaremos nos sentindo sufocados. Quando soltamos o ar, parece que estamos perdendo-o, mas só assim recebemos a nova provisão de oxigênio, o que possibilita o metabolismo e a manutenção da nossa saúde. Dando o que possuímos agora é que recebemos a nova provisão. Este mundo é mantido graças à circulação e ao metabolismo. O homem vive enquanto se processam a circulação e o metabolismo, e morre quando eles cessam.


Habito de chamar por Deus

Chame sempre por Deus, mesmo quando não existem problemas. Chame por Deus também quando há problemas. Mesmo que não chame, Deus está sempre envolvendo você, está dentro de você, pronto para orientá-lo. Mas, se você não tiver o hábito de chamar por Deus, não conseguirá ouvir a Sua voz no momento decisivo. Deus é Espírito e, portanto, a Sua voz também é espiritual. Logo, é natural que ela não seja audível a seus ouvidos carnais. É preciso praticar sempre a Meditação Shinsokan para adquirir o hábito de chamar Deus e ouvir intuitivamente o murmúrio espiritual de Deus.

Qualquer que seja o acontecimento, esse fenômeno nada mais é que conseqüência de algo. Não adianta ficarmos mexendo na conseqüência. Mesmo que consigamos solucionar momentaneamente o problema fenomênico, ele tornará a aparecer repetidas vezes, enquanto não for eliminada a causa. O meio para eliminarmos a causa consiste em volvermos a mente para Deus e corrigirmos a atitude mental sob orientação divina.


(Do livro 'Sabedoria da Vida Cotidiana, vol. 1')



terça-feira, julho 01, 2008

O Mito de Sísifo




Existe uma história grega sobre Sísifo: O Mito de Sísifo. Camus (Albert Camus) escreveu esta história, e ela traz em si um conteúdo muito aproveitativo para todo homem e mulher que buscam, na espiritualidade, alcançar a paz e a felicidade que dão sentido à vida. Mas, muitas vezes, essa felicidade e essa paz são buscadas no mundo material e, assim, jamais podem ser alcançadas. Nesses casos, apenas quando a procura pela felicidade material levar uma pessoa a passar por sua impossibilidade é que a busca espiritual começa.

Por isso, a busca pela felicidade material tem realmente uma contribuição muito significativa para a busca pela felicidade espiritual. Cada vez mais que procurarmos a felicidade por meio de prazeres materiais, cada vez mais falharemos. A felicidade material sempre fracassará, é impossível alcançar a felicidade e a paz nas coisas do mundo. E isso é muito interessante, e parece ser muito paradoxal: não só a escada ligada ao céu nos ajuda a chegar lá, mas, ainda mais, e antes disso, a escada que liga ao inferno tem nos ajudado. E, em muitos casos, a menos que a verdade que leva ao inferno se mostre completamente fútil, nenhuma jornada em direção ao céu pode ter início. Até que se torne completamente claro que a estrada na qual uma pessoa está seguindo leva ao inferno, não fica claro qual é o caminho para o céu.

Nesta história mitológica, Sísifo está sendo punido pelos deuses, ele tem de levar uma pedra muito pesada ao topo de uma montanha. Mas essa é somente uma parte da punição que Sísifo recebeu. A outra parte da punição é que assim que ele chegar ao topo -- cansado, suando e sem fôlego por ter carregado a pedra -- a pedra escorrega de seus dedos e volta a cair lá embaixo, no vale. Sísifo volta a descer, e sobe com a pedra para o topo da montanha, e a mesma coisa acontece novamente -- e segue acontecendo de novo e de novo. Essa punição continua, repentindo-se sem parar.

Sísifo volta ao vale e começa a arrastar a pedra outra vez. Todas as vezes ele vai com esperança de que desta vez vai conseguir, que desta vez vai ser capaz de levar a pedra ao topo, e que vai mostrar aos deuses que eles estavam errados, e então eles dirão: "Veja, Sísifo finalmente trouxe a pedra ao topo!". Ele arrasta a pedra novamente, ele tenta com esforço por semanas e por meses e, de alguma forma, meio morto, volta ao topo da montanha. Mas quando está lá a pedra escorrega e volta a cair no vale. E Sísifo desce outra vez.

Você pode dizer que ele é louco: por que não esquece essa idéia e fica onde está? Por que não aceita a situação como ela é? As pessoas estão hipnotizadas, iludidas pelo pensamento de que "para que a felicidade aconteça, é necessário que algo seja feito". Não importa o que -- algo sempre necessita ser feito --, a felicidade nunca pode brotar da situação, do momento como a vida é neste instante. Esse é o pensamento que tem iludido as pessoas e, por causa dele, elas não são capazes de confiar no momento presente. A felicidade está lá no futuro, nunca aqui. Para que o homem possa conhecer o divino e a alegria que brota do divino, ele necessita atingir um estado de profunda entrega. Quando a espiritualidade acontece a alguém, a pessoa sente e vive tal experiência, mas em momento algum se utiliza de suas próprias forças.

Pelo contrário: a experiência só ocorre se nenhum esforço pessoal estiver sendo empreendido. Todos nós queremos viver uma experiência elevada, que nos permita conhecer e comungar com Algo maior do que nós. Nunca buscamos algo menor do que nós mesmos, sempre desejamos as "coisas do Alto". E isso é algo muito saudável/natural. Mas, se as coisas que queremos viver são experiências maiores do que nós, porque tentamos fazê-las acontecer com nossas forças? É impossível. Se algo é maior, então não importa o quanto sejamos fortes, não podemos controlá-la. Nós não temos forças para alcançá-la, tudo o que podemos fazer é deixar que ela venha a nós; deixar que o Alto venha até o que está "em baixo". O homem não consegue se elevar ao nível onde Deus se encontra; mas se o homem permitir -- se puder recebê-Lo... a questão é o quanto o homem é capaz de se tornar receptivo -- então o encontro acontece, Deus desce ao nível humano e encontra o homem. A entrega é essencial. E, se não existir a confiança no momento presente, como poderá haver a entrega?

Como a pedra pode ser útil, proveitosa para Sísifo? O que ele ganha com isso? Por que ele a continua carregando? Por que simplesmente não se livra da pedra e se alivia do fardo de toda a situação? Aceite o seu momento presente do jeito que ele é. A felicidade já está aí. Se você realmente consegue perceber isso, então a percepção da espiritualidade logo se desdobrará em sua vida.

Este mito tem grande importância para nós, porque todos nós somos Sísifos. Nossas histórias podem ser diferentes, nossas montanhas podem ser diferentes, nossas pedras podem ser diferentes, mas somos Sísifos. Fazemos sempre as mesmas coisas. Procuramos pela felicidade empreendendo esforços em coisas que se mostrarão completamente inúteis. Usamos e gastamos nossa energia e tempo nas coisas do mundo. Buscamos obter alegria em algum prazer material/mundano e pensamos que ele nos trará a felicidade. Mas as coisas do mundo não nos satisfazem completamente, são efêmeras, e logo sentimos um sentimento de vazio/miséria interior novamente. A pedra sempre cai do topo da montanha e volta para o vale, mas a mente humana (que deve ser transcendida, deixada de lado, para que a espiritualidade comece a ser vivida conscientemente) é muito estranha, ela sempre se consola: "Parece que alguma coisa deu errado desta vez, mas da próxima vez tudo vai dar certo". E assim sempre começa novamente.

O desejo por prazeres materiais tem um papel essencial na busca espiritual, porque o seu fracasso, seu profundo fracasso, pode ser o primeiro passo em direção à busca da alegria espiritual. A pessoa que está à procura de felicidade material também é uma pessoa religiosa. Ela também está procurando a religiosidade, a espiritualidade, mas na direção errada; ela também está procurando a alegria, só que é num lugar onde ela não pode ser encontrada. Ela só procurará na outra direção quando perceber que no mundo material é impossível encontrar.

Esse foi exatamente o caso com Lao-Tsé. Lao-Tsé foi um dos maiores sábios que o mundo já teve; ele viveu na China à época de 600 anos A.C (ele foi contemporâneo de Buda). Mas, antes de alcançar a alegria e a paz da realização espiritual, Lao-Tsé procurou muito, de todas as formas que lhe eram possíveis. Ele buscou no mundo e fracassou. Depois foi procurar obter a Sabedoria lendo as escrituras. Mas mesmo as escrituras pertencem ao mundo, elas não podem por si só levar ninguém a ver o reino de Deus, são apenas instrumentos que auxiliam na caminhada. As escrituras também pertencem ao mundo, são coisas materiais. Elas não são puramente, 100% espirituais; se o fossem, só a leitura faria com que pessoa entrasse em êxtase e alcançasse a iluminação espiritual. Bastaria sua mera leitura sem que fosse necessário fazer nenhum esforço individual. Assim, as escrituras também são meios materiais. Mas, dentre todas as coisas materiais, as escrituras estão no topo, elas são as que estão mais próximas da dimensão espiritual.

Um dia alguém perguntou a Lao-Tsé: "Você diz que não se ganha nada com as escrituras, mas nós temos ouvido que você lê as escrituras." E Lao-Tsé responde: "Não, eu tenho ganhado muito com a escrituras. A maior coisa que aprendi nelas é que nada pode ser aprendido com elas. Isso não é pouco. Não há nada que possa ser aprendido com as escrituras, mas isso também não poderia ser compreendido sem que elas fossem lidas primeiro. Eu li muito, procurei muito -- e então percebi que nada pode ser aprendido com elas".

Essa não é uma recompensa pequena para tamanho esforço. Só quando ficar claro que nada pode ser obtido com as palavras, com as escrituras -- com as coisas do mundo --, é somente então que começaremos a procurar na existência, na Vida. Quando finalmente compreendemos que a felicidade não pode ser encontrada no material, é que podemos começar a procurar por ela em paz. A segunda busca somente começa quando a primeira falha.

sábado, junho 28, 2008

Aceite uma xícara de chá


Joshu, um mestre Zen, perguntou para um monge recém chegado ao mosteiro: "Eu já o vi antes?"
O monge novo respondeu: "Nunca, Senhor."
Joshu disse: "Então aceite uma xícara de chá".
Joshu virou-se para um outro monge: "Eu já o vi aqui antes?"
O segundo monge disse: "Sim, senhor, claro que já me viu".
Joshu disse: "Então aceite uma xícara de chá".
Depois o gerente do mosteiro peguntou a Joshu: "Como é que você oferece chá para qualquer resposta?" .
Nisso Joshu gritou: "Gerente, você ainda está aqui?"
O outro respondeu: "Sim, claro, mestre".
Joshu disse: "Então aceite uma xícara de chá".


A história é simples, mas difícil de entender. Sempre é assim. Quanto mais simples uma coisa, mais difícil é entender. Para compreender precisamos de alguma coisa complexa; para entender, você tem que dividir e analisar. Uma coisa simples não pode ser dividida e analizada, não há nada para dividir e analisar, a coisa é simples demais. A simplicidade sempre escapa à compreensão, é por isso que Deus não pode ser entendido. Deus é a coisa mais simples, absolutamente a coisa mais simples possível. O mundo pode ser entendido, é muito complexo. Quanto mais complexa uma coisa é, mais a mente pode trabalhar nela. Quando é simples, não há nada para ruminar, a mente não consegue trabalhar.

Os lógicos dizem que as qualidades simples são indefiníveis. Por exemplo, se alguém lhe perguntar: "O que é o amarelo?", é uma qualidade tão simples, a cor amarela, como você a definiria? Você dirá: "Amarelo é amarelo". O homem dirá: "Isto eu já sei, mas qual é a definição de amarelo?". Se você diz que amarelo é amarelo, você não está definindo, está simplesmente repetindo mais uma vez a mesma coisa. É uma tautologia.

Uma das mente mais agudas deste século, G.E. Moore, escreveu um livro Principia Ethica. O livro inteiro consiste num esforço muito consistente para definir o que é bom. Fazendo esforços em todas as direções, em duzentas ou trezentas páginas -- e duzentas ou trezentas páginas de G.E Moore valem três mil páginas de qualquer outro --, ele chega à conclusão de que bom é indefinível. Não pode ser definido, é uma qualidade demasiado simples. Quando alguma coisa é complexa, há muitas coisas nela; você pode definir uma coisa à partir de outra que está presente nela. Se você e eu estamos em um quarto e você me pergunta: "Quem é você?", eu posso ao menos dizer: eu não sou você. Essa passará a ser a definição, a indicação. Mas se eu estou só no quarto e me faço a pergunta "Quem sou eu?", a pergunta ressoa, e no entanto não há nenhuma resposta. Como definir isso?

É por isso que Deus não foi compreendido. O intelecto o nega, a razão diz não. Deus é o denominador mais simples da existência, o mais simples e o mais básico. A mente pára. Não existe nada diferente de Deus, então como definir Deus? Ele está só no quarto. É por isso que as religiões têm tentado dividir; então uma definição é possível. Elas dizem: "Este mundo não é isto. Deus não é o mundo, Deus não é nenhuma questão, Deus não é nenhuma matéria, Deus não é nenhum desejo". Essas são formas de se definir.

Você tem que por algo contra algo, então um limite pode ser estabelecido. Como você estabelece um limite se não houver nada próximo? Onde você coloca a cerca de sua casa se não houver nenhum vizinho? Se não há alguém ao seu lado, como você pode cercar a sua casa? O limite da casa depende da presença do seu vizinho. Deus está só, ele não tem nenhum vizinho. Onde ele começa? Onde ele termina? Em parte alguma. Como você pode definir Deus? O Diabo foi criado só para definir Deus. Deus não é o Diabo, pelo menos isso pode ser dito. Você não pode conseguir dizer o que Deus é, mas pode dizer o que ele não é: Deus não é o mundo.

Eu estava lendo há pouco um livro de um teólogo cristão. Ele diz que Deus é tudo menos o mal. Mas isso também é suficiente para definir. Isso é suficiente para estabelecer um limite: menos o mal. Ele não está consciente: se Deus é tudo, então de onde vem o mal? Ele deve estar vindo de tudo; caso contrário há alguma outra fonte de existência além de Deus, e essa outra fonte de existência fica equivalente a Deus. Então o mal nunca pode ser destruído. Tem sua própria fonte de existência. O mal não depende de Deus, então como Deus pode destruí-lo? E Deus não o destruirá, porque, uma vez que o mal for destruído, Deus não poderá ser definido. Para ser definido ele necessita que o Diabo esteja lá sempre, só ao seu redor. Os santos necessitam dos pecadores; caso contrário eles não serão santos. Como você saberá quem é um santo? Todo santo precisa de pecadores ao seu redor; esses pecadores são o seu limite. Uma coisa simples significa que é exclusiva.

Antes de tudo deve-se compreender que as coisas complexas podem ser entendidas, as coisas simples não. Essa história de Joshu é muito simples, tão simples que lhe escapa. Você tenta agarrar aqui, tenta agarrar ali, e ela escapa. É tão simples que a mente não pode trabalhar nela. Tente sentir a história. Eu não direi "tente entender" porque você não pode entendê-la, não encontrará nada lá, a história inteira é absurda.

Joshu vê um monge e pergunta: "Eu já o vi antes?".
O homem diz: "Nunca, senhor, não há nenhuma possibilidade. Eu estou aqui pela primeira vez, sou um estranho, você não poderia ter-me visto antes".
Joshu diz: "Certo, então aceite uma xícara de chá". Então ele pergunta para outro monge: "Eu já o vi antes?".
O monge responde: "Sim, senhor, você deve ter-me visto. Eu sempre estive aqui; não sou um estranho".
O monge deve ter sido um discípulo de Joshu, e Joshu diz: "Certo, então aceite uma xícara de chá".

O gerente do mosteiro ficou confuso: para duas pessoas diferentes responde-se de forma diferente, seriam necessárias duas respostas diferentes. Mas Joshu responde da mesma maneira para o estranho e para o amigo, para um que veio pela primeira vez e para um que sempre esteve ali. Para o desconhecido e para o conhecido, Joshu responde da mesma maneira. Ele não faz distinção, nenhuma, nada. Ele não diz: "Você é um estranho. Bem-vindo! Aceite uma xícara de chá". Ele não diz ao outro: "Você sempre esteve aqui, assim não precisa de uma xícara de chá". Nem diz: "Você sempre esteve aqui, assim não há nenhuma necessidade de responder a pergunta que eu lhe fiz".

Familiaridade cria enfado; você nunca recepciona o familiar. Você nunca olha para a sua esposa. Ela ficou com você durante muitos e muitos anos e você esqueceu completamente que ela existe. Como é o rosto de sua esposa? Você olhou recentemente para ela? Você pode ter esquecido completamente do rosto dela. Se você fecha os olhos e medita e se lembra, pode lembrar do rosto que viu pela primeira vez. Mas sua esposa foi um fluxo, um rio, constantemente mudando. O rosto mudou; agora ela ficou velha. O rio fluiu e novas curvas surgiram; o corpo mudou. Você olhou recentemente para ela? Você está tão familiarizado com sua presença que não há necessidade de olhar para ela. Nós olhamos para algo que é pouco conhecido; olhamos para algo que nos chama a atenção, que é novo. Eles dizem que a familiaridade cria o desprezo: cria enfado.

Eu ouvi uma história: dois homens de negócios, muito ricos, estavam descansando numa praia em Miami. Eles estavam deitados tomando banho de sol. Um deles disse: "Eu não consigo entender o que as pessoas vêem em Elizabeth Taylor, a atriz. Não entendo o que vêem, por que elas ficam tão alucinadas. O que ela tem? Você tira os olhos dela, o cabelo, os lábios, o corpo, e o que foi que sobrou, o que você tem?". O outro homem resmungou, ficou triste e respondeu: "Minha esposa, é isso o que sobrou.".

É isto o que sobrou da sua esposa, do seu marido, não sobrou nada. Por causa da familiaridade, desapareceu tudo. Seu marido é um fantasma; sua esposa é um fastasma sem figura, sem lábios, sem olhos, só um fenômeno feio. Isto não foi sempre assim. Você já esteve apaixonado por essa mulher, mas aquela primeira mulher não está mais ali; agora você nem olha para ela.

Na verdade, maridos e esposas evitam olhar um para o outro. Eu tenho estado com muitas famílias e observei: os maridos e as esposas evitam olhar um para o outro. Eles criaram muitos jogos para isso; estão sempre pouco à vontade quando ficam sozinhos. Um convidado é sempre bem-vindo, porque pode-se olhar para o convidado e, assim, evitar um ao outro.

Esse Joshu parece ser absolutamente diferente, enquanto se comporta da mesma maneira com um estranho e com um amigo. O monge diz: "Eu sempre estive aqui, senho, claro que me conhece bem".

E Joshu diz: "Então aceite uma xícara de chá".

O gerente não conseguiu entender. Os gerentes são sempre estúpidos; para administrar, é necessária uma mente estúpida. E um gerente nunca pode ser profundamente meditativo. É difícil: ele tem que ser matemático, calculista; ele tem que ver o mundo e organizar as coisas adequadamente. O gerente ficou perturbado: O que é isso? O que está acontecendo? Isso parece ilógico. Está bem oferecer uma xícara de chá a um estranho, mas para esse discípulo que sempre esteve aqui?

Então ele pergunta: "Por que você responde da mesma maneira a pessoas diferentes, para perguntas diferentes?".
Joshu fala em alto tom: "Gerente, você está aqui?".
O gerente responde: "Sim, senhor, claro que eu estou aqui".
E Joshu diz: "Então aceite uma xícara de chá".

Essa pergunta em alto tom, "Gerente, você está aqui?", está chamando a presença dele, a sua consciência. A consciência é sempre nova, sempre um estranho, o desconhecido. O corpo fica familiar, mas a alma nunca. Você pode conhecer o corpo de sua esposa; mas nunca conhecerá a pessoa desconhecida que ela tem por trás de si, nunca. Isso não pode ser conhecido. Você pode amar: o amor é um mistério, você não pode explicá-lo.

Quando Joshu chamou: "Gerente, você está aqui", de repente o gerente se deu conta. Ele esqueceu que era um gerente, esqueceu que era um corpo; sua resposta veio do coração. Ele respondeu: "Sim, senhor". Essa pergunta em alta voz era tão súbita, era como um choque. E era fútil, é por isso que ele respondeu: "Claro que estou aqui. Você não precisa me perguntar, a pergunta é irrelevante". De repente o passado, o velho e a mente, sumiram. Não havia mais nenhum gerente ali -- era simplesmente uma consciência respondendo. A consciência é sempre nova, constantemente nova; está sempre nascendo, nunca é velha.

E Joshu diz: "Então aceite uma xícara de chá".

A primeira coisa a ser sentida é que, para Joshu, tudo é novo, estranho, misterioso. Se é o conhecido ou o desconhecido, o familiar ou o pouco conhecido, dá na mesma. Se você vier diariamente para este jardim, logo deixará de olhar para as árvores. Você pensará que já olhou para elas, que as conhece. Aos poucos deixará de ouvir os pássaros; eles estarão cantando, mas você não escutará. Tudo tornou-se familiar; seus olhos estão fechados, seus ouvidos estão fechados. Mas se Joshu vier para este jardim -- e ele poderá ter vindo diariamente durante muitas, muitas vidas -- ele ouvirá os pássaros, ele olhará para as árvores. Tudo, cada momento, é novo para ele.

É isso que é a consciência. Para a consciência tudo é constantemente novo, nada é velho. Nada pode ser velho, porque tudo está sendo criado a cada momento. É um fluxo contínuo de criatividade. A consciência nunca carrega a memória como um fardo.

Assim, em primeiro lugar: uma mente meditativa sempre vive dentro do novo, do fresco. A existência inteira é recém-nascida, tão fresca quanto uma gota de orvalho, tão fresca quanto uma folha que brota na primavera. É como os olhos de um bebê recém-nascido: tudo está fresco, claro, sem poeira. Esta é a primeira coisa a ser sentida. Se você olha para o mundo e sente que tudo é velho, isso mostra que você não é meditativo. Na verdade, quando você sente que tudo é velho, isso mostra que você tem uma mente velha, uma mente estragada. Se a sua mente estiver fresca, o mundo será fresco. O mundo não é a questão, o espelho é a questão. Se há poeira no espelho, o mundo fica velho; se não há poeira no espelho, como o mundo pode ser velho? E se as coisas envelhecem, você vive no tédio; todo mundo está entendiado ao extremo.

Olhe para o rosto das pessoas: elas levam a vida como um fardo -- aborrecido, sem significado. Parece que tudo é um pesadelo, uma piada muito cruel; alguém está pregando uma peça, torturando. A vida deixa de ser uma celebração, não pode ser. Com uma mente carregada de memórias não pode haver uma celebração. Até mesmo quando você ri, sua risada é aborrecida. Olhe para a risada das pessoas: elas riem com esforço. O riso delas só pode ser cortês, o riso delas só pode ser por educação.

Eu ouvi a respeito de um dignatário que foi para a África para visitar uma comunidade muito antiga, uma comunidade primitiva de aborígines. Ele deu uma conferência bastante demorada. Contou uma história muito longa, a qual se estendeu por quase meia hora, e então o intérprete levantou-se. Ele disse só quatro palavras e os primitivos riram cordialmente. O dignitário ficou confuso. Ele contou a história durante meia hora, como podia ser traduzia em quatro palavras? Parecia impossível. E as pessoas entenderam; elas estavam rindo, uma risada sonora. Confuso, ele perguntou ao intérprete: "Você fez um milagre. Você falou só quatro palavras. Eu não sei o que você disse, mas como conseguiu traduzir a minha história, que era tão longa, apenas em quatro palavras?". O intérprete disse: "A história é muito longa, assim eu disse: piada -- riam".

Que tipo de risada sairá? Só uma risada formal. E esse homem trabalhou por meia hora. Olhe para a risada das pessoas. É uma risada mental, elas estão fazendo um esforço. A risada delas é falsa, é pintada, está só nos lábios, é um exercício do rosto. Não está vindo do ser delas, da fonte, não está vindo da barriga; é uma coisa criada. É óbvio que nós estamos entediados, e tudo aquilo que fazemos sairá desse enfado e criará mais enfado. Você não pode celebrar. A celebração só é possível quando a existência é uma novidade contínua, a existência é sempre jovem. Quando nada envelhece, quando nada morre, porque tudo renasce constantemente, então torna-se uma dança. Então é uma música interior fluindo. Se você está tocando um instrumento ou não, isso não importa, a música está fluindo.

Eu ouvi uma história que aconteceu em Ajmer... Você deve ter ouvido sobre um místico sufi, Moinuddin Crishti, cujo dargah, cujo túmulo, está em Ajmer. Crishti era um grande místico, um dos maiores já nascidos, e era músico. Ser um místico é estar contra o Islã, porque a música é proibida. Ele tocava cítara e outros instrumentos. Era um grande músico e apreciava isso. Cinco vezes por dia, quando ao maometano é exigido fazer as cinco orações rituais, ele não rezava, simplesmente tocava o seu instrumento. Essa era a sua oração.

Isso era absolutamente anti-religioso, mas ninguém podia dizer nada a Crishti. Muitas vezes as pessoas vinham lhe falar e ele comaçava a cantar, e a canção era tão linda que eles esqueciam completamente por que tinham vindo. Ele começava a tocar seu intrumento, e era tão agradável que até os sábios e as autoridades e os maulvis que tinham vindo para reclamar simplesmente não podiam fazê-lo. Eles iriam lembrar-se em casa; quando estava de volta, então eles lembrariam por que tinham ido.

A fama de Crishti espalhou-se pelo mundo. De toda parte, as pessoas começaram a vir. Um homem, Jilani, que era um grande místico, veio de Bagdá só para ver Crishti. Quando Crishti ouviu que Jilani tinha vindo, achou que em respeito a Jilani não seria bom tocar seu instumento porque ele era um maometano muito ortodoxo. Não seria uma boa acolhida. Ele podia sentir-se ofendido. Então, só naquele dia, em toda a sua vida, ele decidiu que não tocaria, não cantaria. Ele esperou desde manhã e à tarde Jilani chegou. Crishti tinha escondido os seus instrumentos.

Quando Jilani entrou e ambos sentaram em silêncio, os instrumentos começaram a fazer música, o quarto estava cheio. Crishti ficou muito confuso sobre o que fazer. Ele os tinha escondido, e aquela era uma música que ele nunca tinha ouvido antes. Jilani riu e disse: "As regras não são para você - não precisa escondê-los. As regras são para pessoas ordinárias, as regras não são para você - não deveria tê-los escondido. Como pode esconder a sua alma? Suas mãos não podem tocar, você pode não cantar com a garganta, mas todo o seu ser é música. E este quarto está cheio com tanta música, com tantas vibrações, que agora ele inteiro está tocando por si só".

Quando a mente está fresca, a existência inteira se torna uma melodia. Quando você estiver fresco, o frescor está em todos os lugares e a existência inteira responde. Quando você é jovem, não carregado de memórias, tudo é jovem, novo e estranho.

Esse Joshu é maravilhoso. Isso tem que ser entendido profundamente, então você será capaz de compreender. Mas essa compreensão será mais como uma sensação do que uma compreensão, não da mente, mas do coração.

Muitas outras dimensões estão escondidas nesta história. Uma outra dimensão é que quando você estiver diante de uma pessoa iluminada, qualquer coisa que você diga dá no mesmo; a resposta dela será a mesma. Suas perguntas, suas respostas não são significativas, não são pertinentes; a resposta dela será a mesma.

Para todos os três, Joshu respondeu da mesma maneira, porque uma pessoa iluminada permanece a mesma. Nenhuma situação a muda; a situação não é pertinente. Você é mudado pela situação, completamente mudado; você é manipulado pela situação. Ao conhecer uma pessoa que lhe é estranha, você se comporta diferentemente. Você fica mais tenso, enquanto tenta julgar a situação. Que tipo de homem é ele? Ele é perigoso, inofensivo? Ele será amigável ou não? Você olha com medo. É por isso que com estranhos você sente certa intranquilidade.

Se você estiver viajando em um trem, a primeira coisa que verá serão os passageiros perguntando uns aos outros o que fazem, qual é a religião de cada um, para onde vão. Qual é a necessidade dessas perguntas? Elas são importantes porque é a maneira que eles têm de ficar à vontade. Se você é hindu e eles também são hindu, então eles podem relaxar, são pessoas não muito estranhas. Mas se você disser "Eu sou maometano", o hindu fica tenso. Então um pouco de perigo existe, há um estranho ali. Ele vai estabelecer um pequeno espaço entre você e ele, ele pode não ficar à vontade, pode não relaxar, ou até mudar de assento. Mas até um maometano é religioso. Se você disser "Eu sou ateu; eu não sou religioso, não pertenço a nenhuma religião", então você é até mais do que um estranho. Um ateu? Então ele vai achar que, só por estar sentado ao seu lado, ele irá se tornar impuro. Você está com uma doença; ele o evitará. As pessoas começam fazendo perguntas não porque elas estão muito curiosas a seu respeito; não, elas só querem avaliar a situação, se podem relaxar, se estão em uma atmosfera familiar ou se há algo estranho ali. Elas estão em guarda e fazem essa investigação para a sua própria segurança.

A expressão do seu rosto muda continuamente. Se você vê um estranho, você muda a sua fisionomia; se você vê um amigo, imediatamente você muda de expressão; se o seu criado está ali, você tem um rosto diferente; diante de seu mestre, você mostra um outro rosto. Você muda suas máscaras continuamente porque você depende da situação. Você não tem uma alma, não é integrado; as coisas ao seu redor provocam mudanças em você.

Esse não é o caso com Joshu. Com Joshu o caso é totalmente diferente. Ele muda os ambientes onde se encontra, ele não é mudado pelos ambientes. Tudo o que acontece ao redor dele é irrelevante, o rosto dele permanece o mesmo. Não tem nenhuma necessidade de mudar a máscara.

Conta-se que, certa vez, um governador veio ver Joshu. Claro que ele era um grande político, um homem poderoso -- um governador. Ele escreveu num papel: "Eu vim vê-lo". Ele escreveu seu nome e seu título de governador deste e daquele estado. Ele deve ter tentado consciente ou inconscientemente influenciar Joshu.

Joshu olhou o papel, jogou-o fora e disse ao homem que havia trazido a mensagem: "Diga a esse camarada que eu não quero vê-lo. Mande-o embora".
O homem voltou e disse: "Joshu disse: mande-o embora. Ele jogou fora o seu papel e disse: eu não quero ver esse camarada".
O governador entendeu. Ele escreveu novamente um papel apenas com o seu nome e acrescentou: "Eu gostaria de vê-lo".
Ao receber o papel Joshu disse: "Então este é um camarada! Faça-o entrar".
O governador entrou e perguntou: "Mas por que você se comportou daquele modo estranho? Você disse: mande embora esse homem".
Joshu disse: "Aqui não são permitidas fachadas. Governador é uma fachada, uma máscara. Eu o reconheço muito bem, mas não conheço máscaras, e se você veio com uma máscara não será lhe permitido entrar. Agora está tudo bem. Eu o conheço muito bem, mas não conhceço nenhum governador. Da próxima vez que você vier, deixe o governador para trás, não o traga consigo".

Nós usamos máscaras quase o tempo todo; imediatamente nós as trocamos. Assim que vemos uma mudança de situação, nós as trocamos imediatamente, como se não tivéssemos nem uma alma integrada, nem uma alma cristalizada.

Para Joshu é tudo igual o estranho, o amigo, um discípulo, o gerente. A resposta dele é: "Aceite uma xícara de chá". Ele permanece o mesmo interiormente. E por que "aceite uma xícara de chá"? Essa é uma coisa muito simbólica para os mestres zen. O chá foi descoberto por mestres zen e não é uma coisa ordinária para eles. Em todo mosteiro zen eles têm um salão de chá. É especial, quase igual um templo. Você não poderia entender isso... porque é uma coisa muito religiosa para um mestre zen ou num mosteiro zen. O chá é como a oração. Foi descoberto por eles.

Na Índia, se você vê um sannyasin bebendo chá, você julgará que ele não é um homem bom. Ghandi não permitiria a ninguém no seu ashram tomar chá. O chá era proibido, era um pecado; a ninguém era permitido tomar chá. Se o Ghandi tivesse lido esta história, ele teria ficado chocado: um ser iluminado, Joshu, fazendo perguntas para as pessoas, convidando-as para tomar chá? Mas o zen tem uma atitude em relação ao chá. O próprio nome vem de um mosteiro chinês, Ta. Ali, pela primeira , descobriram o chá, e eles acharam que o chá ajuda a meditar melhor porque deixa o indivíduo mais alerta, lhe dá uma certa consciência. É por isso que, se você tomar chá, será difícil dormir imediatamente. Eles acham que o chá ajuda a ficar mais consciente, mais atento; assim, em um mosteiro zen o chá faz parte da meditação. O que mais Joshu pode oferecer além de consciência? Assim, quando ele diz: "Aceite uma xícara de chá", ele está dizendo: "Aceite uma xícara de consciência".

Isso é tudo aquilo que a iluminação pode fazer. Se você vem a mim, o que posso lhe oferecer? Eu não tenho nada além de uma xícara de chá.

Para o familiar ou o menos familiar, o amigo ou o estranho, ou até para o gerente que está administrando o seu mosteiro, "Aceite uma xícara de chá". Isso é tudo aquilo que um buda pode oferecer a qualquer pessoa, mas não há nada mais valioso do que isso.

Em mosteiros zen eles têm um salão de chá. É como um templo, o lugar mais sagrado. Você não pode entrar com seus sapatos, porque é um salão de chá; não pode entrar sem tomar um banho, porque é um salão de chá, e chá significa consciência. O ritual é como a oração. Quando as pessoas entram em um salão de chá, elas tomam um banho, deixam os sapatos do lado de fora, vestem roupas frescas, ficam em silêncio. Quando elas entram no salão nenhuma conversa é permitida, elas ficam em silêncio. Sentam-se no chão numa postura meditativa, então a anfitriã ou o anfitrião prepara o chá. Todo mundo está em silêncio. O chá começa a ferver e todos têm que escutar isso, o som: a chaleira cria música. Todo mundo tem que escutar isso. O ato de beber começou, embora o chá nem esteja pronto.

Se você perguntar para as pessoas do zen, elas dirão que o chá não é algo que você verte sem atenção e bebe como qualquer outra bebida. Não é uma bebida, é meditação, é oração. Assim elas escutam a chaleira que cria uma melodia, e nessa escuta elas ficam mais silenciosas, mais alertas. Então as xícaras são colocadas diante das pessoas e elas as tocam. Essas xícaras não são comuns; cada mosteiro tem suas próprias xícaras únicas, eles fazem suas próprias xícaras. Até mesmo se elas forem compradas no mercado, primeiro eles a quebram, então as colam novamente assim a xícara torna-se especial, assim você não pode achar uma réplica delas em nenhum outro lugar.

Então todo mundo toca a xícara, sente a xícara. A xícara significa o corpo; se o chá significa a consciência, então a xícara significa o corpo. E se você tiver que estar alerta, tem que estar alerta a partir das raízes do corpo. Tocando, as pessoa ficam alertas, enquanto meditam. Então o chá é servido. O aroma surge, o cheiro. Isso leva muito tempo -- uma hora, duas horas --, assim, não é no espaço de um só minuto que você bebe o chá, depõe a xícara e vai embora. Não, é um processo longo, lento, de forma que você se dá conta de cada passo. E então elas bebem. O gosto, o calor, tudo tem que ser feito em um estado de muita atenção.

É por isso que um mestre oferece chá ao discípulo. Quando um mestre verte chá na sua xícara, você estará mais alerta e atento; quando um criado verte chá na sua xícara, você pode simplesmente esquecer. Quando Joshu verte chá na sua xícara -- se eu venho e verto chá na sua xícara -- sua mente parará, você ficará em silêncio. Algo especial está acontecendo, algo sagrado. O chá torna-se uma meditação.

Joshu diz: "Aceite uma xícara de chá", para todos os três. O chá é só uma desculpa. Joshu lhes dará mais consciência, e consciência surge da sensibilidade. Você tem que ser mais sensível em tudo o que faz, até mesmo uma coisa trivial como um chá... você pode achar alguma coisa mais trivial do que o chá? Você pode achar uma coisa mais vulgar, mais ordinária, do que o chá? Não, você não pode. E os monges e os mestres zen elevaram essa coisa, a mais ordinária, para ser a mais extraordinária. Eles atravessaram "este" e "aquele", como se o chá e Deus se tornassem um. A menos que o chá fique divino, você não será divino, porque o menor tem que ser elevado ao maior, o ordinário tem que ser elevado ao extraordinário, a terra tem que tornar-se o céu. Eles têm que ser ligados, nenhum intervalo pode ser deixado.

Se você vai para um mosteiro zen e vê um mestre que bebe chá, com uma mente ingênua você vai sentir-se muito transtornado: que tipo de homem é este, bebendo chá? Você pode conceber o Buda debaixo da árvore bodhi bebendo chá? Você não pode conceber isso, é inconcebível. A mente ingênua tem falado sobre a não-dualidade, mas criou muita dualidade. Você tem ouvido Advaita, a unidade, o um, mas tudo aquilo que você faz acaba virando dois. E você criou tal separação entre os dois que parece intransponível. Por causa disso Shankara teve de falar sobre maya e ilusão. Você criou uma tal separação entre este mundo e aquele mundo que eles não podem ser ligados. Assim, o que fazer?

Shankara disse: Este mundo é ilusório, você não precisa de ponte. Este mundo não é. Essa é a única maneira para vir a ser um: você tem que negar o outro completamente. Mas negar não ajudará; até se você disser que este mundo é ilusório, ele está aqui. E por que você insiste tanto que é ilusório se realmente ele não está aqui? Qual é o problema? Por que é que Shankara ficou ensinando a vida inteira que este mundo é ilusório? Ninguém se aborrece se for ilusório. Se Shankara soubesse que é ilusório, por que aborrecer-se com isso? Parece que há algum problema nisso. Parece que a única maneira é eliminá-lo completamente da consciência, dizer: 'isto não existe', então só um permanece. Nós temos só uma forma para alcançar o um, negar o outro.

O zen tem outra forma para alcançar isso, e eu penso que é muito mais bonita. Não há nenhuma necessidade de negar o outro. E você não pode negar: até mesmo ao negar você está afirmando. Se você diz que este mundo não existe, você tem que indicar este mundo, que não está em nenhuma parte, então o que você está indicando? Para onde você está apontando o seu dedo se não houver nada? Então você é tolo. Este mundo existe, e se você diz que é ilusório, é só uma interpretação. Se este mundo é ilusório, então o seu Brahma não pode ser real. Se a criação é ilusória, como o criador pode ser real? Porque a criação vem do criador. Se o Ganges é ilusório, como Gangotri pode ser real? Se eu sou uma ilusão, então meus pais são obrigatoriamente ilusórios, porque um sonho só nasce de outro sonho. Se eles são reais, então a criança deve ser real.

O zen diz que ambos são reais, mas ambos não são dois; unifique-os. Assim o chá torna-se oração, assim a coisa mais trivial torna-se a mais sagrada. É um símbolo. E o zen diz que se sua vida ordinária ficar extraordinária, só então você será espiritual; caso contrário, você não é espiritual. O extraordinário tem que ser encontrado dentro do ordinário; no familiar, o estranho; no conhecido, o desconhecido; no próximo, o distante; e, em "este", "aquele". Assim Joshu diz: "Venha e aceite uma xícara de chá".

Mais uma dimensão está na história e essa dimensão é de acolhimento. Todos são bem-vindos. Quem você é não importa, você é bem-vindo. No portal de um mestre iluminado, no portal de um Joshu ou um Buda, todos são bem-vindos. De certo modo a porta está aberta: Entre e aceite uma xícara de chá. O que isto significa: Entre e aceite um xícara de chá? Joshu está dizendo: Entre e relaxe.

Se você for até os outros assim chamados mestres, ou os assim chamados monges e sannyasins, você ficará mais tenso, mais amedrontado. Ele cria culpas, ele olhará para você com olhos condenatórios, e a própria forma como ele olhará para você já dirá que você é um pecador. E ele começará condenando: Isto está errado, aquilo está erado; deixe isto, deixe aquilo.

Esse não é o comportamento de uma pessoa realmente iluminada; alguém iluminado fará com que você se sinta relaxado. Há um dito chinês que afirma que se você encontrar um verdadeiro grande homem, você se sentirá relaxado na presença dele; se encontrar um falso grande homem, ele criará tensão dentro de você. Ele fará, consciente ou inconscientemente, todos os esforços para mostrar que você é inferior, pecador, culpado; e que ele é alto, superior, transcendental. Um buda o ajudará a relaxar, porque só com o seu relaxamento profundo você também se tornará um buda. Não há outra maneira.

"Aceite uma xícara de chá", diz Joshu. "Venha e relaxe comigo". O chá é simbólico, relaxe. Se estiver bebendo chá com um buda, você sentirá imediatamente que a sua presença não é a de um estranho, que você não é um forasteiro. Buda servindo chá na sua xícara... o Buda desceu, o Buda veio para "este", ele trouxe "aquele" para "este". Os cristãos, os judeus não podem conceber isso; maometanos não podem conceber isso. Se você bater no portal do céu, você pode conceber Deus vindo e dizendo: "Venha, aceite uma xícara de chá"? Parece demasiado profano. Deus está sentado no próprio trono, olhando para você com os seus mil olhos, olhando para cada canto e cada recanto de seu ser, para quantos pecados você cometeu. Você estará sendo julgado.

Esse Joshu é um não-juiz. Ele não o julga, ele simplesmente o aceita. Tudo aquilo que você diz, ele aceita e convida: "Venha e relaxe comigo". O relaxamento é o ponto. E se você pode relaxar com um ser iluminado, então a iluminação dele começará a penetrá-lo, porque quando você está relaxado, você se torna permeável. Quando você está tenso, você se torna fechado; quando você relaxa, ele vai entrar. Quando você estiver relaxado, confortável, bebendo chá, Joshu estará fazendo algo. Ele não pode entrar pela sua mente, mas ele pode entrar pelo seu coração. Ao pedir-lhe que aceite um xícara de chá, ele o está fazendo ficar relaxado, amigável, aproximando-o, tornando-o mais íntimo. E lembre-se, sempre que você está comendo ou bebendo com alguém, você fica muito íntimo. Comida e sexo são as únicas duas intimidades. No sexo você é íntimo, na comida você é íntimo. E a comida é mais básica e íntima do que o sexo, porque, quando uma criança nasce, a primeira coisa que ela recebe da mãe é comida. O sexo virá mais tarde, quando ela ficar madura sexualmente, catorze, quinze anos depois. A primeira coisa que você recebeu neste mundo foi comida, e aquela comida era uma bebida. Assim, aprimeira intimidade neste mundo é entre a mãe e a criança.

Joshu está dizendo: "Venha, aceite uma xícara de chá". Deixe que eu me torne a sua mãe. Deixe que eu lhe dê uma bebida. E um mestre é uma mãe. Eu insisto que um mestre é uma mãe; um mestre não é um pai. Os cristãos estão errados quando chamam os seus sacerdotes de padre (= pai), porque "padre" é uma coisa muito antinatural, um fenômeno da sociedade. O pai não existe em nenhum lugar da natureza a não ser na sociedade humana; é uma coisa criada, uma coisa cultivada. A mãe é natural, ela existe sem qualquer cultura, educação, sociedade; está lá na natureza. Até mesmo árvores tem mães. Pode ser que você não tenha ouvido que não só a sua mãe lhe deu a vida, mas até uma árvore tem mãe. Têm sido realizadas experiências na Inglaterra. Há um laboratório especial onde vem sendo realizadas experiências com plantas, e descobriu-se um fenômeno muito misterioso. Se uma semente é lançada na terra, e a mãe de onde a semente foi recolhida está próxima, a semente brota mais cedo. Se a mãe não está próxima, a semente leva um tempo mais longo. Se a mãe foi destruída, cortada, então leva um tempo muito maior para a semente brotar. A presença da mãe, até mesmo para uma semente, é útil.

Um mestre é uma mãe, ele não é um pai. Com o pai você está relacionado só intelectualmente, com a mãe a sua relação é total. Você fez parte da sua mãe, você pertence totalmente a ela. O caso é o mesmo com um mestre, mas na ordem inversa. Você saiu da mãe, você entrará no mestre. É um retorno à fonte.

Assim os mestres zen sempre o convidam para uma bebida. Eles estão dizendo, de modo simbólico: Venha e torne-se uma criança para mim, deixe que eu me torne a sua mãe; deixe que eu me torne o seu segundo útero. Deixe-me acolhê-lo, eu lhe darei um renascimento.

Comida é intimidade, e é tão profundamente enraizada em você que a sua comida inteira é afetada por isso. Homens no mundo inteiro, em sociedades diferentes, culturas diferentes, continuam pensando nos seios das mulheres. Nas pinturas, o seio permanece o ponto central. Por que tanta atração pelo seio? Essa foi a sua primeira intimidade com o mundo; você veio a conhecer a existência por intermédio dele. O seio foi o primeiro contato com o mundo. Pela primeira vez você aproximou-se da existência, pela primeira vez você conheceu o outro, através do seio. É por isso que há tanta atração pelo seio. Você não se sentirá atraído por uma mulher que tenha pouco seio, seios achatados. É difícil porque você não pode sentir nela a mãe. Assim, mesmo uma mulher feia fica atraente se tiver seios bonitos, como se os seios fossem o ponto, a coisa central do ser. E o que é o seio? O seio é comida. Sexo vem depois, comida vem primeiro.

O convite de Joshu para todos os três virem e tomarem um xícara de chá é um convite para a intimidade. Amigos comem juntos, assim, se você vê um estranho aproximar-se quando está comendo, você se sentirá incomodado. Estranhos sentem-se incomodados ao comer juntos. É por isso que num hotel, num restaurante, as coisas lhe fazem mal. Porque você está comendo com estranhos e a comida fica venenosa; você se sente demasiado cansado e tenso. Não é uma família, você não está relaxado.

Comida é intimidade, é amor. E os mestres zen sempre convidam para o chá. Eles o levarão ao salão de chá e lhe darão chá; eles estão lhe dando comida, bebida. Eles estão lhe dizendo: "Torne-se íntimo. Não fique tão longe, venha mais perto. Sinta-se à vontade".

Essas são as dimensões da história. Mas elas são dimensões da sensibilidade. Você não pode entender, mas pode sentir, e sentir é uma compreensão mais elevada; o amor é um conhecimento mais elevado. E o coração é o mais alto centro de conhecimento, não a mente; a mente é secundária, executável, utilitária. Você pode conhecer a parte superficial com a mente, nunca poderá conhecer o centro com ela.

Mas você se esqueceu do coração completamente, como se ele tivesse se tornado um nada; você não sabe nada sobre isso. Se eu falo sobre o coração, o centro do coração, você pensa nos pulmões, não no coração. Os pulmões não são o coração; os pulmões são só o corpo do centro do coração. O coração está escondido nos pulmões, em algum lugar profundo. Da mesma maneira que a alma está escondida no corpo, o coração está escondido nos pulmões. Não é algo físico; assim, se você for a um médico ele dirá que não há nenhum coração, nenhum centro do coração, só pulmões. E ele tem razão, até onde ele sabe, porque se você dissecar o corpo, nenhum centro do coração será encontrado, só os pulmões. Da mesma maneira que a sua alma está escondida no corpo, assim o centro do coração está escondido nos pulmões.

O coração tem sua próprias formas de conhecimento. Joshu só pode ser compreendido pelo coração. Se você tenta compreender pelo intelecto, é possível que entenda mal; mas compreender realmente não é possível. Isso é mais do que certo.

Basta por hoje.