"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, setembro 18, 2012

Ensinamentos Iluminados: Brahma x Iswara



Este é, talvez, o texto mais importante jamais postado na história deste blog. Sempre os diversos textos e artigos publicados neste site apresentam ensinamentos belos e profundos apontando para uma realidade consciencial que está além da mente, ou seja, todos os artigos buscam revelar a existência e a possibilidade de se atingir a consciência transcendental, a iluminação espiritual. Porém, há  um detalhe sutil que, quando levado em conta, revela algo bastante significativo; e é isso que merece agora ser conhecido: apesar de todos os ensinamentos apresentados neste blog referirem-se à iluminação espiritual, nem sempre todos eles estão falando sobre a mesma coisa, sobre a mesma iluminação. Aqui, ora encontramos ensinamentos não-duais dizendo que "Deus é tudo e o universo da dualidade não foi criado por Deus e não existe"; e ora encontramos textos não-duais trazendo explanações no sentido de que "a existência do universo da dualidade é vontade de Deus". Ora ouvimos dizer que "Deus desconhece por completo o mundo dos homens e não possui absolutamente nenhuma ligação com a humanidade"; ora escutamos que "Deus está plenamente ciente e interagindo com os homens no mundo onde eles estão". O mais surpreendente de tudo isso é que ambos são ensinamentos não-duais e transcendentais que apontam para a UNIDADE! Como pode ser isso? Se num dado momento os ensinamentos transcendentais dizem "X" sobre Deus e, noutro momento, desdizem e falam "Y", como é que fica Deus em meio a toda essa história? A Realidade, Deus, a Verdade, só pode ser uma, jamais tem como ser as duas coisas ao mesmo tempo. É preciso compreender o que afinal vem a ser Deus. É disto que este post trata.

Portanto, ao ter contato com os diversos textos contidos neste site, o leitor irá se deparar com duas vertentes - dois pontos de vistas - sobre a iluminação espiritual. As duas espécies de ensinamentos apresentados são iluminados, transcendentais, não-duais. Entretanto, como visto,  as concepções diferem no tocante a Deus. Isso é assim porque, enquanto uma vertente diz que Deus está ciente da ilusão e interage com ela, a outra afirma que Deus não a criou e a desconhece por completo. No mais, ambas seguem parecido. Por que seguem parecido? É porque, apesar de suas distinções quanto a Deus na origem, ambas enfatizam a necessidade de transcender a dualidade rumo à Unidade. Ou seja, ambas enfatizam a necessidade de sair fora de uma "ilusão" para vivenciar o "real". Devido a essa pequena sutileza, quase indetectável, há uma brecha imensa camuflada que permite às pessoas confundirem ou misturarem os pontos de vistas apresentados, levando-as a afirmarem que todos os ensinamentos estão dizendo a mesma coisa.

Dizer que Deus não criou o universo da dualidade e - mais do que isso - que Ele desconhece por completo a existência de seres humanos é algo duro, difícil, estarrecedor, chocante e quase inaceitável de acreditar. Mas essa é a maneira firme, convicta, taxativa e categórica apresentada por determinados ensinamentos. Na história da humanidade sempre existiram seres afirmando terem alcançado tal iluminação ou percepção: Deus é puro Amor, Sabedoria, Inteligência, Alegria, Força, Vida, Bem, Harmonia, Paz, Luz. Deus desconhece o mundo, desconhece seres humanos, desconhece por inteiro este universo físico tal como o concebemos; o homem, por outro lado, não é aquilo que percebe ser, ele é o próprio Deus sendo. O universo, por sua vez, é um Universo Espiritual Perfeito, o qual também é o próprio Deus sendo. Deus é a totalidade de tudo o que existe! E o universo físico não existe absolutamente. Deus não o criou. Então quem o criou? Algo outro que não Deus o criou; foi a ilusão quem o criou. E esse "algo" é o NADA. Isso o que está aqui descrito é uma iluminação, um ponto de vista.

O outro ponto de vista, que também ao longo de todos os tempos sempre veio sendo pregado por grandes seres da humanidade, transmite que o universo da dualidade foi criado por Deus. Deus é o puro Amor e a manifestação do universo dualístico constitui expressão da Força e do Amor de Deus; apesar disso Deus é um ser inteiramente transcendente ao universo dual. Ou seja, Deus abrange toda a manifestação dual e ao mesmo tempo está infinitamente além de tudo o que é dual. Ele conhece, ama, brinca e interage com a dualidade. Ele está "dentro" (imanente) e ao mesmo tempo "fora" (transcendente). Então, deste ponto de vista, Deus também é a totalidade de tudo o que existe. Estes ensinos também afirmam convictamente que a dualidade é um fenômeno ilusório, e que Aquilo que está além da dualidade é o Real. E assim temos aqui pronto o outro ponto de vista; essa é a outra iluminação.

Como podemos perceber, a natureza da iluminação espiritual pregada em alguns ensinamentos difere da natureza da iluminação espiritual apresentada em alguns outros. Para fins didáticos, neste texto vamos nos referir a elas como "iluminação nº 1" e "iluminação nº 2". É importante ter em mente que ambas as iluminações enfatizam a necessidade de transcender a ilusão e de conscientizar/perceber o que é Real. Feitas essas considerações, vamos discorrer agora sobre ambos os ensinamentos iluminados.

O primeiro diz que Deus não criou a ilusão: foi a ilusão quem criou a ilusão. Deus, por sua vez, habita e vive um estado de ser completo em Si mesmo, totalmente alheio à existência de uma suposta ilusão, de maneira que o Seu desconhecimento sobre a ilusão jamais compromete ou coloca em jogo a Sua Onisciência - porque "ilusão" não existe de forma alguma em absoluto. Para Deus, a ilusão nunca existiu. Este primeiro ensinamento iluminado afirma que o universo da dualidade é uma ILUSÃO no sentido de ser uma "imagem hipnótica" ou "quadro hipnótico". É como se estivéssemos caminhando por horas num deserto escaldante e de repente começássemos a enxergar à frente um oásis com lagoas, árvores, tendas, pessoas passando de um lado para o outro, etc. Repare que nesse exemplo do deserto a pessoa não tem nenhuma espécie de "intenção" ou "vontade" de ver palmeiras, lagos, tendas e pessoas no meio de um deserto onde não há realmente nada. A ilusão aqui, portanto, é compreendida como sendo uma alucinação.

O segundo diz que Deus tem vontade da ilusão: a ilusão é compreendida como sendo uma manifestação, um transbordamento alegre da totalidade ou plenitude de Deus. Aqui é dito que a ilusão não existe realmente, ela existe apenas em certo sentido, e é por isso que é possível a Deus tomar ciência da ilusão. Este segundo ensinamento afirma que se Deus não pudesse tomar ciência da ilusão, Ele não seria onisciente. O ensinamento nº 2 estabelece que o universo da dualidade é uma ilusão no sentido de ser uma "representação", onde os atores deliberadamente sobem num palco para encenar inexistências. Ou seja, aqui existem "intenção" e "vontade" de propiciar o surgimento da ilusão. Deus é o diretor e o ator por detrás de cada representação ilusória que está sendo encenada. Para elucidar completamente o entendimento do que vem a ser a representação: Amor é o que Deus "é", ao passo que o medo é aquilo que Deus "não é". Unidade é o que Deus "é", ao passo que a dualidade é aquilo que Deus "não é". Unicidade é o que Deus "é", ao passo que separação é aquilo que Deus "não é". Como não é da natureza de Deus ser "medo", "separação" e "dualidade", Ele irá representá-los: é então que surge a ilusão. Assim, o amor, a vida, a alegria, a bem-aventurança, a harmonia e a paz existem como Existências, enquanto que o medo, o mau, a doença, o sofrimento e a morte existem como representações. A representação existe com a finalidade de expressar aquilo que Deus "não é", uma vez que todas as coisas que Deus "é" já estão constituídas/inseridas em Sua própria natureza, ou seja, já estão sendo expressadas no âmbito de Seu próprio Ser. Deus não precisa de representação para expressar o que Ele "é".

Continuando: em regra, o ensinamento nº 2 diz que a vida meditativa não exclui a nossa vivência e o nosso envolvimento com o mundo irreal. É ensinado que podemos meditar aproveitando as nossas ações. Por exemplo, podemos estar conscientes - em pleno estado de alerta - enquanto estamos dirigindo, conversando, comendo, caminhando, respirando, etc. Na iluminação nº 2 não é necessário tirar a atenção da ilusão para estarmos em estado meditativo. Então, as meditações desse tipo são bastante práticas.

Por outro lado, os ensinamentos da iluminação nº 1 dizem para reservarmos um tempo para tirarmos 100% a atenção da ilusão a fim de que possamos meditar/contemplar uma Realidade Espiritual Perfeita que não abrange nem se envolve com a representação. Aqui, diferentemente do ensinamento nº 2, a percepção do Real excluirá definitivamente a percepção que enxerga o mundo irreal. Essas meditações requerem grande dedicação.

O interessante de tudo isso é que podemos escolher adotar qualquer um dos pontos de vista sobre Deus e sobre o universo da dualidade. É possível encarar/lidar com a ilusão como se ela fosse uma representação, ou então como sendo um quadro hipnótico. Essas duas diferenças surgem dependendo do ponto de vista adotado na origem sobre Deus, que citei anteriormente. Em ambos os casos existe uma percepção transcendental que extrapola os limites da mente humana e que faz surgir no indivíduo um "saber" transcendente ao mero "acreditar" ou "não acreditar". Decorrente desse saber transcendental, a pessoa adquire uma convicção inabalável. Podemos admitir a ilusão como sendo uma representação. Ou podemos admití-la como uma ilusão (no sentido de inexistência total, MESMO!). Ambos funcionam! Ambos podem ser conhecidos e experienciados. Isso pra mim ainda é um mistério tremendo.  Ambos são ensinamentos espirituais iluminados e não-duais. Apesar disso, podemos perceber que eles não se confundem e não se misturam. Eles têm propósitos diferentes.

É por isso que o hinduísmo tem tantas divindades diferentes. Dentre todos os deuses da mitologia hindu, destaco Brahma e Iswara. Brahma é o Deus Absoluto (que corresponderia ao Deus a que se refere o ensinamento nº 1). Ele não está ciente de nenhuma outra realidade, senão a divina, que é Ele próprio. Ele não toma conhecimento de ilusões. Quando a ilusão surge (o que, do ponto de vista de Brahma, nunca ocorre), é necessário também que exista uma "inteligência universal" para sustentar/governar/manter todo o universo ilusório. Essa força ou inteligência universal será insondável, e será também onipresente, onipotente e onisciente no âmbito da ilusão. Ela será Deus - mas será o Deus de todo o universo dual holográfico/ilusório. E é aqui que entra a figura de Iswara.

Brahma não é Iswara. Mas ambos podem ser considerados como Deus. 

Iswara é o Deus criador da ilusão (o Deus a que se refere o ensinamento nº 2). Foi Ele quem a criou em todos os seus níveis. Ele está além de tudo e, ao mesmo tempo, aparece como sendo tudo. É Ele quem está representando a ilusão. No âmbito da ilusão, é Ele quem tudo faz e, mesmo "fazendo", trancende tudo aquilo que "faz". Iswara é transcendental a tudo o que existe na representação. Há uma espécie de unidade ou unicidade nele. O ensinamento que prega Iswara também é não-dualista.

Iswara é Deus e ao mesmo tempo é a "Fonte da ilusão". Portanto, a ilusão veio de Iswara. Por sua vez, Brahma não pode ser considerado como "Fonte de alguma coisa", porquanto essa "alguma coisa" teria  de ser obrigatoriamente Ele  próprio, sem representações. Brahma nem mesmo é fonte de si mesmo. Seria incorreto dizer que Brahma veio de si mesmo, pelo simples fato de que ele nunca veio. Ele é eternamente, por inteiro. Ele não entra no nível do universo físico para representar. Em Brahma há apenas um nível (Ele mesmo), e todas as coisas (Ele mesmo) são manifestadas nesse Nível Único (Ele mesmo). Uma completa UNIDADE sendo! Não existe necessidade alguma de manifestar uma representação. Na verdade, todas as coisas que existem em Brahma são o próprio Brahma. Mas para se conhecer e experienciar isso, é preciso ter a Revelação apontada pelos ensinamentos da iluminação nº 1.

Esses dois ensinamentos iluminados encontram-se separados por uma linha extremamente tênue, sendo, no mais, em tudo muito parecidos, na verdade, quase iguais. Tal diferença mínima é tão pequena, quase insignificante, mas é capaz de provocar todo esse disparate. Para o olho treinado, Iswara não é Brahma, embora ambos sejam Deus.

Entretanto há uma relação mínima e indireta que pode ser estabelecida entre Iswara e Brahma. A fim de compreendermos esta relação, consideremos as seguintes questões:

1) "Que relação existe entre Iswara e Brahma?" 
2) "Que relação existe entre Brahma e Iswara?"

A primeira pergunta é no sentido de Iswara para o Brahma. A segunda pergunta atua no sentido que parte de Brahma em direção à Iswara. São duas perguntas importantes que, embora pareçam a mesma,  não são, pois possuem respostas diferentes. Vamos imaginar a figura de uma árvore à margem de um rio. Se olharmos para o rio, veremos que a imagem da árvore está refletida na superfície da água. Então, poderíamos fazer a pergunta: qual a relação da imagem refletida na água com a árvore real que está plantada na beira do rio? E que relação existe entre a árvore e a imagem dela no rio? A resposta para a primeira pergunta é: a imagem na água é possível devido à existência da árvore que está plantada à beira do rio. Mas, se especularmos que relação existe entre a árvore e a imagem refletida, a resposta será: não há nenhuma! A árvore não está lá para fazer surgir a sua imagem na superfície do rio. De fato, a árvore nem sabe que está sendo refletida na água. Se a imagem da árvore na água ficar turva e quebrada, isso ocorre devido à propriedade que a água tem de oscilar e provocar a distorção da imagem. Perceba que é a superfície da água que está provocando a ilusão de representar "imagens distorcidas". Poderíamos dizer que é a água que tem a vontade de encenar/representar as imagens turvas e quebradas, e não a árvore. A árvore nada tem a ver com o que está acontecendo.

Iswara é o agente cujas propriedades permitem o surgimento de um universo dual ilusório ora bem/mau, ora abundante/escasso, ora sim/não. É Ele quem o cria e o representa, permanecendo ele mesmo além de toda criação. No âmbito da ilusão, ele é tudo em tudo, como tudo. Mas nada do que está sendo feito por ele é do conhecimento de Brahma.

Um outro importante ponto a ser considerado é o seguinte: o ensinamento iluminado nº 2 diz que apesar de existir o universo ilusório da representação, não há em verdade nisso uma necessidade real. Deus não depende da existência de uma representação. Isso significa que se a representação não existisse, tudo estaria bem, perfeito, nada real em absoluto seria afetado. Todavia a iluminação nº 2 postula que, apesar de não ser necessário, o universo irreal parece ter algum propósito: o de Deus expressar o seu amor e a sua totalidade através das manifestações da dualidade. A razão pela qual o universo da dualidade está aqui é que o amor de Deus está operando com alegria em tudo e por toda a parte. Deus está simplesmente celebrando tudo e isso é algo que deve ser percebido. Uma vez percebido, a pessoa compreenderá sem necessidade de maiores questionamentos que essa explicação é o bastante para explicar a existência da representação. Então, se a representação existe ou não existe, isso não importa, e o que quer que seja ou aconteça é aceito e desfrutado e tudo é muito bom. O indivíduo então sentirá essa verdade e a vivenciará.

Mas do ponto de vista do ensinamento iluminado nº 1, a existência do universo ilusório não tem propósito algum; ele é completamente desnecessário porque é NADA. Ele não existe, apenas parece existir, mas chegará um momento no qual deixará inclusive de aparentar existir e desaparecerá por completo. Por ser desnecessário! Nenhum Filho de Deus no Universo inteiro perceberá a existência aparente/falsa de um universo estranho ao Universo Verdadeiro Criado por Deus. Em verdade, essa iluminação revela que nenhum Filho de Deus jamais viu universo ilusório algum. Só o Universo Divino é Real. Ele é tudo o que sempre existiu, existe e sempre existirá, eternamente e infinitamente.

A fim de comprovar a veracidade de que estes dois ensinamentos iluminados realmente existem, enumero a seguir uma lista com os mestres e os ensinamentos referentes a cada uma destas duas iluminações. É impossível conhecer todos os ensinamentos e mestres iluminados do mundo, mas todos aqueles com os quais já me deparei e que foram apresentados neste blog até hoje estarão apresentados nas listas abaixo. Alguns deles abordam ambos os ensinamentos iluminados, embora predominem mais para um lado do que para o outro. Pelo fato de eles não serem explícitos em suas falas quanto a essas duas iluminações, cabe ao ouvinte ser atento e perceber as sutilezas, o sentido e a profundidade do que está sendo revelado. Por exemplo,  em meus contatos com os ensinamentos de Ramana Maharshi, na maioria das vezes vi ele afirmar que "o mundo exterior (ou seja, a ilusão) quando corretamente compreendido é a manifestação do próprio Ser". Contudo, lembro-me claramente de que Ramana Maharshi também disse que "Quando Deus existe, o mundo não existe."

Eis os ensinamentos e mestres que falam a respeito da realização da iluminação nº 1:

- Metafísica Absoluta  
- Um Curso em Milagres
- Christian Science - Ciência Cristã (Mary Baker Eddy)
- Seicho-No-Ie (Masaharu Taniguchi)
- O Caminho Infinito (Joel S. Goldsmith)
- Meher Baba
- Ramana Maharshi
- Outros Autores: Dárcio Dezolt, Lillian DeWaters, Marie S.Watts, Alfred Aiken, Allen White, Vivian May Willians.

Eis os ensinamentos e mestres que difundem a iluminação nº 2 (alguns integrantes da relação anterior também estarão aqui):

- Ensinamentos Advaita
- Seicho-No-Ie
- O Caminho Infinito
- Conversando com Deus (livros de Neale Donald Walsch)
- Ramana Maharshi
- Meher Baba
- Nisargadatta Maharaj
- Eckhart Tolle
- Osho (a única vez que vi o Osho fazer uma vaga referência à iluminação nº 1 foi neste texto que você pode ler clicando aqui.)
- As descobertas da Ciência Quântica

No próximo post, teremos as explanações dadas neste texto sobre a iluminação nº 1 acompanhadas das próprias palavras dos mestres e dos ensinamentos. Não será necessário adotar o mesmo procedimento com relação à iluminação nº 2, uma vez que é fácil de se agradar com ela e assim acreditar ou aceitar a sua existência. A iluminação nº 1 é a que diz que Deus não criou este universo físico, não criou os seres, tampouco a vida que esses seres estão vivendo neste universo dualístico - algo bastante desagradável de se ouvir. Em face disso, a iluminação nº 1 é muito mais difícil de ser aceita.  E o objetivo do próximo texto será o de explicitar que, sim, tal iluminação existe e pode ser conhecida e experienciada.


sábado, setembro 15, 2012

Maya (ilusão) 2/2

Meher Baba


III - TRANSCENDENDO AS FALSIDADES DE MAYA

Inúmeras são as falsidades que uma pessoa guiada por Maya abraça no torpor da ignorância; e desde o início, as falsidades carregam dentro de si sua própria insuficiência e falência. Cedo ou tarde elas são conhecidas como mentiras. Isso leva a pessoa à pergunta: Como discernir a falsidade como falsidade? Não há nenhuma saída da falsidade, exceto ao conhecê-la como falsa, mas esse conhecimento da falsidade como falsidade nunca chegaria a menos que estivesse de alguma forma latente na própria falsidade, desde o início.

A aceitação da falsidade é sempre um acordo forçado. Mesmo nas profundezas da ignorância, a alma oferece algum tipo de desafio para a falsidade. Não importa o quão fraca e desarticulada pareça estar em seus estágios iniciais, é o início daquela busca da Verdade que finalmente aniquila toda a falsidade e toda a ignorância. Na aceitação de uma falsidade há uma inquietação crescente, uma profunda desconfiança e um medo vago. Por exemplo, quando um indivíduo considera a si mesmo e os outros seres como idênticos ao corpo grosseiro, ele não consegue reconciliar-se totalmente a essa crença. Ao abraçar essa falsa crença há o medo da morte e o medo de perder os outros. Se uma pessoa depende somente da posse de formas para sua felicidade, ela sabe em seu coração que está construindo seus castelos na areia movediça, sabe que este certamente não é o caminho para a felicidade permanente, que o apoio ao qual ela tão desesperadamente se apega pode a qualquer dia desaparecer. Por isso, ela está profundamente desconfiada de suas bases.

O indivíduo está inquietamente consciente de sua própria insegurança. Ele sabe que algo está errado em algum lugar e que ele está contando com falsas esperanças. A falsidade é traiçoeiramente desconfiável. Ele simplesmente não pode-se dar ao luxo de abraçá-la para sempre. Ele poderia muito bem colocar uma cobra venenosa em torno de seu pescoço ou ir dormir no topo de um vulcão que está apenas temporariamente inativo. A falsidade traz a marca de ser incompleta e insatisfatória, temporária e provisória. Ela aponta para algo mais. Para a pessoa ela parece estar escondendo algo maior e mais verdadeiro do que aquilo que ela parece ser. A falsidade trai a si mesma e ao fazer isso leva a pessoa a conhecer a verdade.

As falsidades são de dois tipos: aquelas que surgem devido ao pensamento irregular e desconexo, e aquelas que surgem devido ao pensamento viciado. As falsidades que surgem devido ao pensamento irregular são menos prejudiciais do que aquelas que surgem do pensamento viciado. As falsidades de natureza puramente intelectual surgem por causa de algum erro na utilização do intelecto. Enquanto que falsidades que são importantes do ponto de vista espiritual surgem por causa do vício do intelecto, através da operação dos desejos irracionais que cegam.

A diferença entre esses dois tipos de falsidade pode ser interposta por uma analogia fisiológica. Alguns distúrbios dos órgãos vitais do corpo são funcionais e alguns são estruturais. Doenças funcionais surgem por causa de alguma irregularidade no funcionamento de um órgão vital. Nesses casos não há nada de muito errado com a estrutura do órgão vital. Ele apenas tornou-se lento ou irregular e precisa apenas de um pequeno estímulo ou correção a fim de funcionar corretamente. Nos distúrbios estruturais, a doença passa a existir por causa do desenvolvimento de alguma deformidade na estrutura ou na constituição do órgão vital. Nesses casos, o distúrbio do órgão vital é de natureza muito mais grave. Ele tornou-se danificado ou ineficaz devido a algum fator concreto que afetou a própria constituição do órgão. Ambos os tipos de doenças podem ser corrigidas, mas é muito mais fácil a correção de problemas meramente funcionais do que corrigir os estruturais.

As falsidades que surgem devido a alguma irregularidade na utilização do intelecto são como os distúrbios funcionais e as falsidades surgidas devido ao vício do intelecto são como os disturbios estruturais. Assim como os distúrbios funcionais são mais fáceis de corrigir do que os estruturais, as falsidades decorrentes de irregularidades na aplicação do intelecto são mais fáceis de corrigir do que aquelas que surgem devido ao vício do intelecto. A fim de corrigir uma doença funcional de um órgão vital, tudo o que é necessário é dar-lhe uma melhor modulação e mais força. Se há uma doença estrutural, muitas vezes é necessário realizar uma operação. Da mesma forma, se as falsidades surgem devido a alguns erros na aplicação do intelecto, tudo que é necessário é mais cuidado na aplicação do intelecto. Mas se as falsidades surgem devido ao vício do intelecto, é necessário purificar o intelecto. Isso exige o doloroso processo de remoção daqueles desejos e apegos que são responsáveis por viciar o intelecto.

As falsidades do pensamento viciado provêm de erros na avaliação inicial. Surgem como um subproduto da atividade intelectual, que consiste na busca de determinados valores aceitos. Eles entram em existência como uma parte da racionalização e da justificação dos valores aceitos e devem seu domínio sobre a mente humana à seu aparente suporte dos valores aceitos. Se eles não afetassem os valores humanos ou a sua realização, passariam imediatamente para a insignificância e perderiam seu controle sobre a mente. Quando as falsas crenças derivam seu ser e vitalidade dos desejos profundamente enraizados, elas são alimentadas por falsas buscas. Se o erro nas falsas crenças é puramente intelectual, é fácil de ser corrigido. Mas as falsas crenças que são alimentadas por falsas buscas são as fortalezas de Maya. Elas envolvem muito mais do que o erro intelectual e não são diminuídas através de meras afirmações contrárias de natureza puramente intelectual.

A eliminação de desejos e apegos que viciam o pensamento não é realizada exclusivamente pelo mero intelecto. Isso requer esforço correto e ação correta. Não é através de especulações irrosolutas, mas sim através da execução de coisas que as verdades espirituais devem ser descobertas. A ação honesta é uma ação preliminar à eliminação das falsidades espirituais. A percepção das verdades espirituais exige não apenas pensamentos intensos e furiosos, mas pensamento claro e a verdadeira clareza de pensamento é fruto de uma mente pura e tranquila.

Não até o desaparecimento do último vestígio da falsidade criada por Maya, Deus é conhecido como a Verdade. Somente quando Maya é completamente superada que surge o conhecimento supremo de que Deus é a única Verdade. Só Deus é real. Tudo o que não é Deus, tudo o que é impermanente e finito, tudo o que parece existir dentro do domínio da dualidade, é falso. Deus é uma Realidade infinita una. Todas as divisões que são concebidas dentro desta realidade são falsamente concebidas, pois elas não existem de fato.

Quando Deus é considerado divisível, isso é devido a Maya. O variado mundo da multiplicidade não implica no fracionamento de Deus em várias partes diferentes. Existem diferentes mentes-ego, diferentes corpos, diferentes formas, mas uma só alma. Quando a Alma uma (Deus) assume diversas mentes-ego e corpos, há diferentes almas individualizadas, porém, isso não introduz nenhuma multiplicidade dentro da própria Alma uma. A Alma é e permanece sempre indivisível. A Alma única indivisível é a base das diferentes mentes-ego e dos diferentes corpos, que produzem os pensamentos e as ações de vários tipos e que passam por inúmeros tipos de experiências duais. Mas a Alma é indivisível e permanece sempre além de todo pensamento e ação e além de toda experiência dual.

As diferentes opiniões ou diferentes maneiras de pensar, não introduzem multiplicidade dentro da Alma indivisível pela simples razão de que não existem opiniões ou quaisquer formas de pensar dentro da alma. Toda a atividade do pensamento e as conclusões extraídas deles estão dentro da mente-ego, que é finita. A alma individualizada como Alma não pensa, é apenas a mente-ego que pensa. O pensamento e o conhecimento que vem através do pensamento são possíveis no estado de conhecimento imperfeito e incompleto pertencente à mente-ego finita. Na própria alma individual não há nem pensamento, nem o conhecimento que vem através do pensamento.

A alma individualizada como Alma é o pensamento infinito e a infinita inteligência, não há divisão entre o pensador e o pensamento e as conclusões do pensamento, nem a dualidade do sujeito e do objeto. Somente a mente-ego com o pano de fundo da alma pode se tornar o pensador. A alma individual como Alma, a qual é pensamento infinito e inteligência infinita, não pensa ou tem qualquer atividade do intelecto. O intelecto com o seu pensamento limitado surge apenas com a mente-ego finita. Na completude e suficiência da inteligência infinita, que é Alma una, não há necessidade para o intelecto ou suas atividades.

Com a queda do último vestígio das falsidades criadas por Maya, a alma individual não só conhece a sua realidade como sendo diferente do corpo grosseiro, do sutil, ou do mental, mas conhece a si mesma como sendo Deus, que é a única Realidade. Neste estado a alma sabe que a mente, o corpo sutil e o corpo físico eram todos igualmente criações de sua própria imaginação, e que na realidade nunca existiram. Ela sabe que por ignorância ela concebeu-se como sendo a mente ou o corpo sutil ou corpo físico. A alma individual sabe também que, em certo sentido, ela tornou-se a mente, o corpo sutil e o corpo grosseiro e então indentificou-se com todas essas ilusões auto-criadas.


IV - DEUS E MAYA

Deus é infinito porque Ele está acima dos opostos limitantes da dualidade. Ele está acima dos aspectos limitados de bom e mau, grande e pequeno, certo e errado, virtude e vício, felicidade e miséria; por isso Ele é infinito. Se Deus fosse bom e não mau ou mau em vez de bom, ou se Ele fosse pequeno e não grande ou grande em vez de pequeno, ou se Ele estivesse certo e não errado ou errado em vez de certo, ou se Ele fosse virtuoso ao invés do malvado ou malvado e não virtuoso, ou se Ele fosse feliz e não infeliz ou infeliz ao invés de feliz, - Ele seria finito e não infinito. Somente por estar acima da dualidade Deus é infinito.

O que quer que seja infinito transcende a dualidade, não pode ser uma parte da dualidade. Aquilo que é verdadeiramente infinito não pode ser a parte dual do finito. Se o infinito é considerado existir lado a lado com o finito ele já não é infinito, pois torna-se então a segunda parte da dualidade. Deus, que é infinito, não pode descender na dualidade. Assim, a aparente existência da dualidade, como o Deus infinito e o mundo finito, é ilusória. Só Deus é real, Ele é infinito, um sem um segundo. A existência do finito é apenas aparente, é falsa, não é real.

Como o falso mundo das coisas finitas veio a existir? Por que ele existe? Ele é criado por Maya, ou o princípio da ignorância. Maya não é ilusão, é a criadora da Ilusão. Maya não é falsa, é aquilo que é criado por Maya que dá falsas impressões. Maya não é irreal, ela é o que faz com que o real pareça irreal e o irreal pareça real. Maya não é dualidade, é o que provoca a dualidade.

Para efeitos de explicação intelectual, no entanto, Maya deve ser encarada como sendo infinita. Ela cria a ilusão de finitude, ainda assim não é em si finita. Todas as ilusões criadas por Maya são finitas e todo o universo da dualidade, que parece existir devido a Maya, também é finito. O universo pode parecer conter inúmeras coisas, mas isso não significa que seja infinito. As estrelas podem ser inúmeras, há um número enorme, mas o conjunto total de estrelas é, contudo, finito. O espaço e o tempo podem parecer infinitamente divisíveis, mas, no entanto, são finitos. Tudo o que é finito e limitado pertence ao mundo da ilusão, embora o princípio que causa esta ilusão das coisas finitas deve, em certo sentido, ser considerado como não sendo uma ilusão.

Maya não pode ser considerada como sendo finita. A coisa torna-se finita ao ser limitada pelo espaço e pelo tempo. Maya não existe no espaço e não pode ser limitada por ele. Maya não pode ser limitada no espaço porque o espaço é em si a criação de Maya. O espaço, com tudo o que ele contém, é uma ilusão e é dependente de Maya. Maya, no entanto, não é de forma nenhuma dependente do espaço. Por isso, não pode ser finita devido a nenhuma limitação de espaço. Maya também não pode ser finita por causa de nenhuma das limitações do tempo. Embora Maya chegue ao fim no estado de superconsciência, não precisa ser considerada finita por esse motivo. Maya não pode ter um começo nem um fim no tempo, porque o próprio tempo é uma criação de Maya. Qualquer visão que torne Maya um acontecimento que tem lugar em algum tempo e desaparece depois de algum tempo coloca Maya no tempo, e não o tempo em Maya. O tempo está em Maya; Maya não está no tempo. O tempo, bem como todos os acontecimentos no tempo, são a criação de Maya. Maya não é de forma alguma limitada pelo tempo. O tempo chega à existência por causa de Maya e desaparece quando Maya desaparece. Deus é a Realidade atemporal, portanto, a realização de Deus e o desaparecimento de Maya, é um ato atemporal.

Maya também não pode ser considerada finita por quaisquer outras razões. Se fosse finita, seria uma ilusão e sendo uma ilusão, não teria nenhuma potência para criar outras ilusões. Assim, Maya é melhor considerada como sendo real e infinita, da mesma forma que Deus é geralmente considerado como sendo real e infinito. Entre todas as explicações intelectuais possíveis, a explicação de que Maya, assim como Deus, é real e infinita é mais aceitável para o intelecto do homem. No entanto, Maya não pode ser realmente verdadeira. Onde há dualidade, há finitude em ambos os lados. Uma coisa limita a outra. Não pode haver dois infinitos reais. Pode haver duas entidades enormes, mas não pode haver duas entidades infinitas. Se tivéssemos a dualidade de Deus e Maya e se ambos fossem considerados como existências coordenadas, então, a realidade infinita de Deus poderia ser considerada como a segunda parte de uma dualidade. Portanto, a explicação intelectual de que Maya é real não tem o selo do conhecimento final, embora seja a explicação mais plausível.

Há dificuldades em considerar Maya como ilusória e também como real em última análise. Assim, todas as tentativas do intelecto limitado para entender Maya levam a um impasse. Por um lado, se Maya é considerada como finita, ela própria torna-se ilusória e então não pode dar conta do mundo ilusório das coisas finitas. Assim, Maya tem de ser considerada real e infinita. Por outro lado, se Maya é considerada como sendo essencialmente real, Maya se torna uma segunda parte da dualidade de uma outra realidade infinita, ou seja, Deus. Portanto, deste ponto de vista, Maya parece realmente tornar-se finita e, portanto, irreal. Então, Maya não pode ser real em última análise, embora tenha de ser considerada como tal, a fim de explicarmos o mundo ilusório dos objetos finitos.

De qualquer forma que o intelecto limitado tentar entender Maya, ele ficará aquém da verdadeira compreensão. Não é possível compreender Maya através do intelecto limitado, ela é tão insondável quanto Deus. Deus é insondável, incompreensível, assim também Maya é insondável, incompreensível. Dessa forma, é dito que Maya é a sombra de Deus. Onde uma pessoa está há a sombra dela também. Onde Deus está, há esta Maya inescrutável. Embora Deus e Maya sejam inescrutáveis para o intelecto limitado que opera no domínio da dualidade, eles podem ser perfeitamente entendidos em sua verdadeira natureza com o conhecimento final da Realização. O enigma da existência de Maya nunca pode ser definitivamente resolvido até que ocorra a Realização, quando descobre-se que Maya não existe na realidade.

Há dois estados em que Maya não existe: no estado original inconsciente da Realidade - não há Maya; e no estado Auto-consciente (Consciente do Ser), ou superconsciente, estado de Deus - não há Maya. Ela existe apenas na consciência de Deus do mundo fenomenal da dualidade, ou seja, quando há a consciência do mundo grosseiro ou do mundo sutil ou do mundo mental. Maya existe quando não há Autoconsciência (consciência do Ser), mas somente a consciência dos imaginados outros, e quando a consciência está irremediavelmente dominada pelas falsas categorias da dualidade. Maya só existe a partir do ponto de vista do finito. É apenas como ilusão que Maya existe como uma criadora verdadeira e infinita de coisas irreais e finitas.

Na Verdade final e única da Realização, não existe nada exceto o Deus infinito e eterno. A ilusão das coisas finitas aparecendo como separadas de Deus desapareceu e com ela também desapareceu Maya, a criadora dessa ilusão. O Autoconhecimento vem para a alma ao olhar para dentro, e ao superar Maya. Nesse Autoconhecimento ela não apenas sabe que as diferentes mentes-ego e os diferentes corpos nunca existiram, mas também que todo o universo e Maya mesma nunca existiram como um princípio separado. Seja qual for a realidade que Maya tinha até então é agora engolida pelo Ser indivisível da única Alma. A alma individualizada agora conhece a si mesma como sendo o que ela sempre foi - eternamente Autorealizada, eternamente infinita em conhecimento, graça, força e existência, e eternamente livre da dualidade. Mas essa forma mais elevada de Autoconhecimento é inacessível ao intelecto e é incompreensível, exceto para aqueles que alcançaram o cume da Realização final.


quinta-feira, setembro 13, 2012

Maya (ilusão) 1/2

Meher Baba


I - FALSOS VALORES

Todo mundo quer conhecer e perceber a Verdade, mas a Verdade não pode ser conhecida e compreendida como Verdade a menos que a ignorância seja conhecida e compreendida como sendo ignorância. Daí surge a importância da compreensão de Maya, ou o princípio da lgnorância. As pessoas lêem e ouvem muito sobre Maya, mas poucos entendem o que ela realmente é. Não basta ter uma compreensão superficial de Maya, é necessário que Maya seja entendida como ela é, na sua realidade. Entender Maya, ou o princípio da Ignorância, é saber a metade da Verdade do universo. A ignorância em todas as suas formas deve desaparecer de modo que a alma possa se estabelecer no estado de Autoconhecimento.

Por isso, é imperativamente necessário que a humanidade saiba o que é falso, que reconheça o que é falso para se livrar do falso ao saber que ele é falso. Qual é a natureza essencial da falsidade? Se o verdadeiro é conhecido como sendo verdadeiro ou se o falso é conhecido como sendo falso, não há falsidade, apenas uma forma de conhecimento. A falsidade consiste em tomar o verdadeiro como sendo falso ou o falso como sendo verdadeiro, isto é, ao considerar que algo é diferente do que realmente é em si mesmo. A falsidade é um erro no julgamento da natureza das coisas.

De um modo geral, existem dois tipos de conhecimento: os julgamentos puramente intelectuais sobre os fatos da existência, e os julgamentos de valor, que implicam na apreciação do valor ou da importância das coisas. Os julgamentos puramente intelectuais ou as crenças derivam sua importância do fato de estarem relacionados com valores de alguma forma. Divorciados de valores, têm muito pouca importância em si mesmos. Por exemplo, ninguém tem muito interesse em contar exatamente o número de folhas de uma determinada árvore, apesar de que do ponto de vista puramente teórico tal informação seria uma forma de conhecimento. Tal informação ou conhecimento é tratado como insignificante porque não está vitalmente ligado a outros valores. O conhecimento intelectual torna-se importante quando permite ao homem perceber certos valores, dando-lhe o controle sobre os meios para sua realização ou quando ele entra na própria avaliação como um importante fator, modificando ou afetando de alguma outra forma os valores aceitos.

Assim como existem dois tipos de julgamento, há dois tipos de falsidade: os erros em aceitar como fatos coisas que não são fatos e erros de avaliação e valorização. Os erros de avaliação podem ser cometidos nos seguintes aspectos: (1) ao tomar como importante o que não é importante, (2) ao tomar como sem importância o que é importante, ou (3) ao dar uma importância a uma coisa diferente da importância que ela realmente tem. Todas essas falsidades são criações de Maya. Embora Maya inclua todas as falsidades do ponto de vista espiritual, há algumas falsidades que contam e algumas falsidades que não contam muito. Se uma pessoa considera um trono ser maior do que ele é, seria uma falsidade, mas isso não importa muito. Por outro lado, se uma pessoa considera o trono como sendo tudo e como o objetivo de sua vida, essa seria uma falsidade que afetaria substancialmente o curso e o significado de sua vida. Em geral, os erros de valorização são muito mais eficazes em desencaminhar, perverter e limitar a vida do que os erros nos julgamentos puramente intelectuais sobre certos fatos objetivos.

Os erros na valorização surgem devido à influência de vontades e desejos subjetivos. Os valores verdadeiros são valores que pertencem às coisas em seu próprio direito. Eles são intrínsecos e por serem intrínsecos são absolutos e permanentes e não são passíveis de mudança de tempos em tempos ou de pessoa para pessoa. Falsos valores são derivados de desejos ou vontades. Eles são dependentes de fatores subjetivos e sendo assim dependentes, são relativos e impermanentes, podendo sofrer alterações ao longo do tempo e de pessoa para pessoa.

Por exemplo, um indivíduo que está com muita sede e está em um deserto como o Saara pensa que nada é mais precioso do que a água, enquanto alguém que tem em mãos uma abundância de água e que não está com muita sede não dá a mesma importância a ela. Da mesma forma, uma pessoa que está com fome, considera a comida muito importante, mas o indivíduo que teve um jantar completo nem sequer pensa em comida até que esteja com fome novamente. A mesma coisa aplica-se a outros desejos e anseios que projetam valores imaginários e relativos para os objetos que satisfarão esses desejos e anseios.

O valor dos objetos dos sentidos é grande ou pequeno de acordo com a intensidade ou a urgência com que são desejados. Se esses desejos e anseios aumentam, os objetos correspondentes assumem maior importância. Se sua intensidade ou urgência diminui, os objetos também perdem muito de sua importância. Se os desejos e anseios aparecem intermitentemente, eles retêm seu possível valor quando os desejos e anseios estão latentes e seu valor real quando eles se manifestam. Esses são todos os falsos valores, pois não são inerentes aos próprios objetos. Quando, à luz do verdadeiro conhecimento, todos os desejos e anseios desaparecem completamente, os objetos trajados com importância através da operação desses desejos e anseios perdem imediatamente toda sua importância emprestada e parecem sem sentido.

Assim como uma moeda que não esteja em uso corrente é tratada como sem valor, embora tenha uma espécie de existência, os objetos dos desejos e anseios, quando vistos em sua vacuidade são tratados como falsos, ainda que esses objetos possam continuar a ter algum tipo de reconhecimento. Eles todos existem e podem ser conhecidos e vistos, mas já não significam a mesma coisa. Eles sustentam a falsa promessa de satisfação de uma imaginação pervertida pela luxúria e pelos desejos; ainda assim, para uma percepção tranquila e constante, são vistos como sem importância alguma quando considerados como separados da alma.

Quando um ente querido morre, há tristeza e solidão, mas essa sensação de perda está enraizada no apego à forma, independentemente da alma. É a forma que desapareceu e não a alma. A alma não está morta; em sua verdadeira natureza ela nem mesmo foi embora, pois ela está em toda parte. No entanto, através de apego ao corpo, a forma era considerada importante. Todos os anseios, desejos, emoções e pensamentos estavam centradas sobre a forma, e quando, a forma desaparece através da morte, existe um vácuo, que se expressa através de falta do falecido.

Se a forma como tal não tivesse sido sobrecarregada com falsa importância, não haveria tristeza em perder a pessoa que faleceu. O sentimento de solidão, a memória persistente da pessoa amada, o anseio de que ele ou ela devesse ainda estar presente, as lágrimas de luto e os suspiros de separação, devem-se todos à valorização falsa, ao trabalho de Maya. Quando uma coisa sem importância é considerada importante, temos uma manifestação principal do trabalho de Maya. Do ponto de vista espiritual, é uma forma de ignorância.

Por outro lado, o trabalho de Maya também se expressa ao fazer uma coisa importante parecer banal. Na realidade, a única coisa que tem importância é Deus, mas muito poucas pessoas estão realmente interessadas em Deus por Si mesmo. Se por acaso a pessoa mundana voltasse para Deus, isso se daria principalmente para seus próprios fins egoístas e mundanos. Eles buscam a satisfação de seus próprios desejos, esperanças e até mesmo vingaças através da intervenção do Deus de sua imaginação. Eles não buscam a Deus como a Verdade. Eles anseiam por todas as coisas, exceto a única Verdade, a qual consideram como sem importância. Novamente isso é a cegueira da visão causada pelo trabalho de Maya. As pessoas buscam sua felicidade em tudo, exceto em Deus, o qual é a única fonte inesgotável de alegria permanente.

O trabalho de Maya também expressa-se ao fazer a mente dar uma importância para algo diferente da importância que aquilo realmente tem. Isso acontece quando os rituais, cerimônias e outras práticas religiosas externas são considerados como fins em si mesmos. Eles têm seu próprio valor como meios para um fim, como veículos da vida, como meios de expressão, mas, tão logo assumem créditos a seu próprio favor, está recebendo uma importância diferente daquela que lhes pertence. Quando são considerados importantes em si mesmos, eles limitam a vida ao invés de servir o propósito de expressá-la. Quando é permitido que o não essencial predomine sobre o essencial, dando-lhe importância errada, tem-se a terceira forma principal de ignorância relativa a avaliação. Este novamente é o trabalho de Maya.


II - FALSAS CRENÇAS

As algemas que mantêm a alma em um cativeiro espiritual, consistem principalmente de valores errados ou falsidades referentes à valorização. Algumas falsidades relacionadas a crenças erradas, também desempenham um papel importante no processo de manter a alma em cativeiro espiritual. Falsas crenças implementam falsos valores, e estes, por sua vez, reúnem força dos falsos valores nos quais a alma baseou-se. Todas as falsas crenças assim como os falsos valores são grandemente criações de Maya, e eles são usados por Maya para manter a alma em suas garras, ainda na ignorância.

Maya se torna irresistível ao apossar-se da própria sede do conhecimento, que é o intelecto humano. Sobrepujar Maya é difícil porque, com o intelecto sob o seu domínio, Maya cria barreiras e sustenta falsas crenças e ilusões. Ela cria barreiras para a realização da Verdade através de tentativas persistentes de sustentar e justificar as crenças errôneas. O intelecto que funciona em liberdade prepara o caminho para a Verdade, mas o intelecto que é um joguete nas mãos de Maya cria obstáculos para a verdadeira compreensão.

As falsas crenças criadas por Maya são tão profundamente enraizadas e fortes que parecem ser auto-evidentes. Elas assumem a feição de verdades autênticas e são aceitas sem questionamento. Por exemplo, uma pessoa acredita que ela é seu corpo físico. Normalmente, nunca lhe ocorre que ela pode ser algo diferente de seu corpo. A identificação com o corpo físico é assumida por ela instintivamente, sem exigência de uma prova, e ela mantém a crença mais fortemente ainda porque ela é independente de uma prova racional.

A vida de um indivíduo é centrada em torno do corpo físico e seus desejos. Abandonar a crença de que ele é o corpo físico envolve o abandono de todos os desejos relacionados com o corpo físico e os falsos valores que eles implicam. A crença de que ele é seu corpo físico é propícia aos desejos físicos e apegos, mas a crença de que ele é algo diferente do seu corpo físico é contrária aos desejos e apegos aceitos. Portanto, a crença de que o indivíduo é o seu corpo físico torna-se natural. É uma crença fácil de manter e difícil de se desenraizar. Por outro lado, a crença de que ele é algo diferente de seu corpo físico parece exigir uma prova convincente. É difícil de segurar e fácil de resistir. Igualmente, quando a mente não está sobrecarregada com todos os desejos e apegos físicos, a crença de que ele é seu corpo físico é vista como falsa e a crença de que ele é algo diferente de seu corpo é vista como verdade.

Mesmo quando uma pessoa consegue deixar cair a falsa crença de que ela é o corpo físico, ela continua a ser uma vítima da falsa crença de que ela é o seu corpo sutil. Sua vida é, então, centrada em torno do corpo sutil e seus desejos. Abandonar a crença de que ela é o corpo sutil envolve o abandono de todos os desejos relacionados com o corpo sutil e os falsos valores que eles implicam. Portanto, a crença de que ela é seu corpo sutil agora torna-se natural para ela, e a crença de que ela é algo diferente de seu corpo sutil parece exigir uma prova convincente. Mas quando a mente não está sobrecarregada com todos os desejos e apegos referentes ao corpo sutil, a pessoa abandona a falsa crença de que ela é seu corpo sutil, tão facilmente como abandonou a falsa crença de que ela era o seu corpo físico.

No entanto, esse não é o fim das falsas crenças. Mesmo quando uma pessoa abandona a falsa crença de que ela é seu corpo sutil, ela alimenta a crença ilusória de que ela é o seu corpo mental. A pessoa alimenta essa crença falsa, porque a aprecia. Ao longo de sua longa vida como uma alma individual, ela se agarrou com carinho à falsa idéia de sua existência separada. Todos os seus pensamentos, emoções e atividades têm repetidamente assumido e confirmado somente uma afirmação, ou seja, a existência do "eu" separado. Abandonar a falsa crença de que ela é a mente-ego do corpo mental é entregar tudo o que parecia constituir sua própria existência.

Para abandonar a falsa crença de que ela é o seu corpo físico ou o sutil, é necessário abandonar vários desejos e apegos. É um abandono de algo que a pessoa teve durante muito tempo. Ao abandonar a falsa crença de que ele é a sua mente-ego, o indivíduo é chamado a entregar a própria essência do que ele pensava ser ele mesmo. Apagar esse último vestígio da falsidade é, portanto, a coisa mais difícil. Mas essa última falsidade não é mais duradoura do que as falsidades anteriores que pareciam ser certezas incontestáveis. Ela também tem o seu término e é removida quando a alma renuncia seu desejo por uma existência separada.

Quando a alma se conhece como sendo diferente dos corpos grosseiro, sutil e mental, ela se conhece como sendo infinita. Como a Alma infinita, ela não faz nada, ela simplesmente É. Quando a mente é adicionada à alma individualizada, ela parece pensar. Quando o corpo sutil é adicionado à alma com a mente, ela parece desejar. Quando o corpo grosseiro é adicionado à eles, a alma parece estar envolvida em ações. A crença de que a alma está fazendo algo é uma crença falsa. Por exemplo, um indivíduo acredita que ele está sentado na cadeira, mas na verdade é o corpo que está sentado na cadeira. A crença de que a alma está sentada na cadeira é devida à identificação com o corpo físico. Da mesma forma, uma pessoa acredita que está pensando, mas na verdade é a mente que está pensando. A crença de que a alma está pensamento é devida à identificação com a mente. É a mente que pensa e é o corpo que se senta. A alma não está envolvida nem no pensar, nem em quaisquer outras ações físicas.

Claro que não é simplesmente a mente ou o mero corpo que realizam o pensar ou outras ações físicas, pois a mera mente e o mero corpo não existem. Eles existem como ilusões da alma individualizada, e é quando a alma falsamente se identifica com eles que o pensar ou a realização das coisas ocorre. A alma e o corpo mental, sutil e grosseiro tomados em conjunto, constituem o agente das ações, ou o "eu" limitado, mas a alma em sua verdadeira natureza não é responsável nem pelos pensamentos, nem pelos desejos, nem pelas ações. A ilusão de que a alma é a mente ou os corpos e a ilusão de que a alma é o agente do pensar, do desejar, ou das ações são criadas por Maya, a qual é a Ilusão e o princípio da Ignorância.

Da mesma forma, a crença de que a alma experimenta os prazeres e as dores da vida ou de que esteja passando pelos opostos da experiência também é falsa. A alma está além dos opostos da experiência, mas não se conhece como tal. E dessa forma ela assume as experiências que são características dos opostos devido à identificação com a mente e os corpos sutil e grosseiro. A alma que se confunde com a mente e o corpo torna-se destinatária de dores e prazeres. Assim, todos os prazeres e as dores aos quais a pesoa está sujeita estão enraizados na ignorância.

Quando um indivíduo pensa que ele é a pessoa mais infeliz do mundo, ele está adotando uma ilusão que sugiu por causa da ignorância, ou de Maya. Ele não é realmente infeliz, mas imagina que é infeliz porque se identifica com a mente e os corpos. Claro que não é a mente por si só, ou os corpos por si só que podem ter alguma experiência dos opostos. É a alma, a mente e os corpos tomados juntos que se tornaram o sujeito da experiência dual; mas a alma, em sua verdadeira natureza, está além dos opostos da experiência.

Assim, é a mente e os corpos em conjunto que constituem o agente das atividades e o sujeito das experiências duais. No entanto, eles não assumem esse papel duplo por seu direito próprio, mas somente quando eles são tomados juntamente com a alma. É a mente e os corpos que estão sendo animados que, juntos, tornam-se o agente de atividades ou o sujeito da experiência dual. O processo de vivificação pela alma se baseia na ignorância, pois a alma em sua verdadeira natureza é eternamente sem qualidades, sem modificações e ilimitada. Ela parece ser qualificada, modificada e limitada por causa da ignorância, ou do trabalho de Maya.


(Maya - o mundo das ilusões)

terça-feira, setembro 11, 2012

Compreenda que não está no controle

Sathya Sai Baba


“Abandone a ideia de que você é o executor e o beneficiário, dedicando tanto as ações como os frutos a Deus. Então, nenhum pecado pode afetá-lo, pois você não é o agente e a ação deve certamente ser santa. Como o óleo sobre a língua e uma flor de lótus sobre a água, a ação está com você, mas não é sua. Lembre-se sempre: você não é o executor, você é apenas a testemunha, o observador! Assim, tudo o que fizer ou ouvir ou ver, você deve permanecer inalterado, inocente. Assim, você pode confiantemente assumir todas as tarefas e firmemente abandonar o fruto de suas atividades, dedicando-os ao Senhor.”


sábado, setembro 08, 2012

“EU SOU O CRISTO!”

papel de parede de jesus leões
Dárcio Dezolt


A Verdade, quando expressa indiretamente, seja na Bíblia ou em qualquer tipo de aprendizado espiritual, precisa ser imediatamente transportada ao Ser que somos! Quantas vezes alguém não terá lido que “Cristo é Tudo em Todos”! Isto é verdadeiro? Claro que é! Entretanto, está em linguagem indireta, enquanto a direta seria: “O Cristo é tudo em VOCÊ; não há nada em VOCÊ que não seja o Cristo”.

A esta admissão por via direta chamamos de “identificação com a Verdade”. É quando uma Verdade revelada é entendida como “corporificada” pela nossa presença!

Há anos, enquanto eu fazia uma palestra, veio-me uma senhora, que as costumava frequentar, dizendo-me: “Veja o meu cartão de visita profissional; está o meu nome e demais dados, e veja, ao lado: “EU SOU O SER CRIADO À IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS!”. E, antes que eu fizesse qualquer comentário, outra pessoa, que estando ao lado, ouviu toda a conversa, disse a ela, energicamente: “Ainda você não é! Somente poderá afirmar isto após ocorrer “algo” em seu interior , e que lhe dê esta conscientização!”

Que poderíamos deduzir, diante da fala desta pessoa, que corrigiu a outra que somente confirmava o que havia lido na Bíblia a seu respeito? Deduziríamos que ela ainda se achava sendo a ILUSÃO! Paulo, por exemplo, declarou que “Cristo é tudo em todos”. Que havia ele dito antes? Vejamos as frases todas: “Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com seus feitos. E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas cristo é tudo em todos” (Col. 3: 9-11).

Aquela senhora havia feito o seu cartão “se renovando para o conhecimento, segundo a imagem daquele que a criou”. Acreditou estar entre aqueles voltados para a mesma renovação, mas encontrou uma outra pessoa que, “mentindo a si mesma”, se viu no direito e obrigação de a censurar e corrigir! Que lhe estava faltando? A IDENTIFICAÇÃO COM A VERDADE!

Jesus jamais fez sermão, dizendo: “Ouvi, ó benditos de meu Pai: “um dia” vós sereis deuses! Sereis também a Luz do mundo!” Jamais a Mente da Verdade dá poder ou realidade à ILUSÃO! Portanto, não deixe que as revelações se percam em suas colocações indiretas; tampouco acredite que elas revelem Verdades referentes ao seu futuro! Faça a identificação TOTAL com a Verdade! Exatamente AGORA! Mesmo que a “mente carnal”, de toda forma, o tente agredir, atirar pedras ou desmentir!

“EU SOU O CRISTO!”. Diga isso para SI MESMO, sem rodeios e sem dualidade! A Verdade revelada diz: “O Cristo é TUDO em TODOS”. Não perca tempo com “testemunho de homens”.


quarta-feira, setembro 05, 2012

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 2/2

Masaharu Taniguchi


6 – ESSÊNCIA E O FENÔMENO; O FENÔMENO AUTÊNTICO E O FENÔMENO FALSO

Nakamura – Estou me empenhando para transmitir aos meus conhecidos a verdade pregada pela Seicho-No-Ie, mas nem sempre consigo dar respostas convincentes às perguntas com que me contra-atacam. Dentre as perguntas destaca-se em primeiro lugar a seguinte: “Por que Deus não Se limitou a criar somente criaturas boas e criou também as más?”. A segunda pergunta é: “O amor de Deus deveria ser imparcial. No entanto, a existência de ricos e pobres não é prova de que Deus é injusto na distribuição de Suas dádivas?”. A terceira pergunta é: “Se a Seicho-No-Ie prega que a riqueza vem infinitamente de Deus, por que ainda não surgiram muitos bilionários entre seus adeptos?”. Quanto à cura de doenças pela prática da Meditação Shinsokan, a revista Seicho-No-Ie traz fartos depoimentos de pessoas que receberam tal graça, e eu me incluo entre as que já tiveram experiência nesse sentido. Mas, quanto à obtenção de riqueza, parece-me que são poucos os adeptos que receberam esse tipo de graça. Naturalmente, quem faz a última pergunta quer acreditar em Deus em troca de benefícios materiais quando, na verdade, as graças materiais são consequência da crença em Deus e do aprimoramento espiritual. Acho impura a fé de quem coloca a recompensa em primeiro plano, mas gostaria que o senhor desse uma resposta acessível às pessoas que se encontram nesse estágio.

Taniguchi – A primeira pergunta denota que a pessoa está confundindo o mundo fenomênico com o mundo criado por Deus. Aquele que ler todos os volumes da coleção A Verdade da Vida poderá compreender que Deus jamais criou nada mau. “Criatura má não existe porque Deus não a criou” – este é um dos pensamentos básicos da Seicho-No-Ie. Logo, é fora de propósito perguntar justamente à Seicho-No-Ie “por que Deus criou pessoas más”. Então poderá surgir a pergunta: “Se Deus não criou pessoas más, por que há tantas delas neste mundo?”. A resposta é esta: “Deus não criou o ser humano mau, mas a mente humana cria esse falso ser, manifesta-o no mundo fenomênico e faz com que ele pareça existir. Portanto, o ser humano mau não existe na verdade. Todos os seres humanos são bons na Essência. Entretanto, alguns não conscientizam sua Essência, que é bondade, e se consideram maus; esse pensamento é que se projeta no mundo fenomênico, fazendo parecer que existem maus elementos.

Alguns teorizam que o fenômeno é manifestação ou extensão da Essência, que a Essência se compara ao oceano e o fenômeno às ondas que se formam na superfície do oceano e que, portanto, todo e qualquer tipo de fenômeno é manifestação da Essência. Mas isso não é verdade. Devemos distinguir fenômenos “autênticos” e “falsos”. Os “fenômenos autênticos” são imagens projetadas do mundo da Essência para dentro dos moldes e limites do mundo fenomênico, enquanto que os “fenômenos falsos” são manifestações da mente em ilusão.  Os “fenômenos autênticos” são expressões fiéis das imagens perfeitas do mundo da Essência, portanto, sua existência tem fundamento sólido. Os “fenômenos falsos”, porém, sendo manifestações da mente em ilusão, não têm fundamento algum; tal qual miragem, eles não existem verdadeiramente. O “homem mau” sobre o qual perguntou o senhor, é uma falsa criação dessa mente em ilusão, portanto, embora pareça existir, não é existência verdadeira; é um “homem irreal” completamente diferente do homem verdadeiro, que existe verdadeiramente.

A teoria de que todos os fenômenos são existências reais chama-se realismo ingênuo. Se estudarmos a história da filosofia, constataremos que os primitivos e os silvícolas tinham essa concepção. A teoria de que os fenômenos são criações de Deus foi adotada desde a Antiguidade até hoje por muitos religiosos e filósofos espiritualistas. Entretanto, se aceitássemos essa teoria, teríamos de aceitar também os fenômenos imperfeitos como obras de Deus, e isso nos levaria a pensar que Deus é um ser imperfeito e incapaz, e sermos filhos de Deus significaria sermos criaturas imperfeitas, uma conclusão nada agradável. É por isso que Schopenhauer, apesar de ver o mundo como “criação de uma única e vasta Vontade”, entregou-se ao pessimismo. Portanto, como já disse, é preciso distinguir o “fenômeno falso”, imperfeito,  do “fenômeno autêntico”, perfeito.

Isto compreendido, fica respondida também a segunda pergunta: “Por que Deus criou ricos e pobres?”. Segundo a Seicho-No-Ie, todo homem é filho de Deus e foi criado por Ele como um ser infinitamente rico, de modo que não existe um pobre sequer. Tanto os mendigos que perambulam pelas ruas pedindo esmola, como os ricaços que vivem comodamente em seus palacetes, ambos são herdeiros de Deus, que é dono da riqueza infinita; portanto, na Essência, todos são infinitamente ricos, não existindo diferença alguma entre mendigos e ricaços. Mas, então, por que no aspecto fenomênico os mendigos e os ricaços se apresentam de forma tão contrastante? Porque no mundo fenomênico cada um projeta sua mente: manifesta imagem de riqueza infinita como projeção da mente sintonizada com a Essência, ou manifesta imagem de pobreza como projeção da mente em ilusão, dessintonizada com a Essência. Concluindo, podemos estar ricos ou pobres conforme a nossa mente.

E finalmente chegamos à sua terceira pergunta. Como faz anos que a Seicho-No-Ie vem propagando a Verdade de que “o homem é filho de Deus e infinitamente rico na Essência”, é natural pensarem que já é tempo de surgirem pessoas infinitamente ricas para comprovar essa Verdade. Entretanto, é preciso compreender que “pessoa infinitamente rica” não significa um “bilionário possuidor de uma fortuna determinada”. Mesmo um bilionário não passa de um pobretão, quando comparado a uma “pessoa infinitamente rica”. Ser infinitamente rico não significa possuir uma fortuna limitada que possa ser calculada em bilhões ou trilhões de dólares. “Pessoa infinitamente rica” é aquela a quem a riqueza flui em quantidade necessária na medida do necessário e se reduz automaticamente quando não é necessária. Em outras palavras, rico é aquele que, sem avareza, possui riqueza “nula” e ao mesmo tempo “infinita”, que aumenta ou diminui livremente em harmonia com a necessidade.

Compreendendo isso, o senhor compreenderá também que “ser infinitamente rico” não é ser um ricaço que concentra a riqueza de modo a provocar má distribuição de bens, o que constitui um câncer no mundo econômico. Para dizer a verdade, os ricaços mesquinhos são dominados pela ideia de que “a riqueza diminui se for usada”, e por isso acumulam dinheiro e bens materiais com avareza, mesmo acusados de exploradores. A riqueza obtida dessa forma é concretização de uma “ilusão” ao invés de manifestação da “riqueza infinita do mundo da Essência”. Portanto, também é fora de propósito perguntar por que os conhecedores da Essência não conseguem enriquecer como tais ricaços.

Entre os adeptos da Seicho-No-Ie, há “pessoas infinitamente ricas” que atraem naturalmente para si tudo de que precisam na medida do necessário. Podemos citar, por exemplo, o sr. Hiroshi Fukushima, da província de Gumma. Ele esteve enfermo durante três anos e encontrava-se em situação financeira tão precária que não podia comprar sequer uma pasta de dentes. Entretanto, curou-se completamente após ler os ensinamentos da Seicho-No-Ie. Pensou então em construir uma academia de aprimoramento espiritual. Imediatamente, surgiram pessoas oferecendo gratuitamente terreno, materiais de construção, mão-de-obra e até a mobília. Um pedreiro se ofereceu para cuidar da manutenção ou das reformas do prédio dessa academia, que ainda nem estava construído. O sr. Fukushima não possui posse alguma, mas tudo que deseja lhe chega às mãos automaticamente. Quando precisa sair de casa, até a chuva cessa e o tempo melhora. Os moradores da redondeza até comentam que o sr. Fukushima é protegido pela divindade da montanha Akagui. Um milionário, por mais dinheiro que tenha, não pode criar um aparelho que controle as intempéries. Entretanto, o sr. Fukushima, apesar de nada possuir, conta sempre com o tempo bom quando necessário, proeza esta que milionário algum consegue. Isto é que é ser infinitamente rico. Mesmo tendo à mão muito dinheiro, de nada adiantará se não puder conseguir o que é necessário. Aquele que, apesar de estar desprovido de dinheiro, recebe tudo que lhe é necessário no momento preciso e o usa melhor que uma pessoa que tem muito dinheiro, pode ser considerado mais rico do que um bilionário. “Provisão ilimitada” significa provisão infinita de tudo e todos os sentidos. Aquele que tem uma grande soma de dinheiro mas não tem liberdade nem conforto em outros aspectos, não é uma pessoa “infinitamente rica”.


7 – SOBRE A ORAÇÃO DE COMUNICAÇÃO AFETIVA COM DEUS

Tanaka – Aprendi muito, lendo no sento volume da coleção A Verdade da Vida a parte intitulada “Oração para manifestar a Essência”. Compreendi perfeitamente que na Essência somos providos de tudo, independentemente de orarmos ou não. Entretanto, deixa-me um tanto insatisfeito a afirmação de que a oração consiste apenas no ajuste de nossa mente à perfeição interior e não em súplica para ser atendida por Deus. Eu, pessoalmente, prefiro pedir à Deus e crer que sou atendido por Ele, pois assim estreito meu relacionamento com Deus e sinto aumentar mais meu sentimento religioso. Será que isso é uma ilusão minha decorrente dos hábitos religiosos de até agora? Tenho lido que o senhor também ora a Deus. O senhor ora simplesmente para ajustar sua mente ou para se comunicar com Deus-Pai, como um filho se comunica com seu pai? Gostaria que o senhor esclarecesse esse ponto, pois para mim é uma questão muito importante.

Taniguchi – A oração é, por um lado, uma prática para ajustar a mente para contemplar a Essência, mas, ao mesmo tempo, é uma comunicação afetiva com Deus-Pai vivo, num verdadeiro relacionamento entre filho e Pai. O texto mencionado pelo senhor se refere a uma das funções da oração, que é a de fazer manifestar a Essência, e não à outra, que consiste em comunicarmo-nos afetivamente por Deus. Compreender apenas a primeira função não é suficiente, pois nesse caso estaremos encarando Deus apenas como lei universal e não como “Ser vivo” com o Qual podemos nos comunicar. Em outros termos, estaremos tendo compreensão parcial de Deus. Deus existe não só como lei universal, mas também como Ser que pode nos mostrar uma imagem personificada e falar conosco. Portanto, há casos em que oro a Deus rogando-Lhe algo. O Canto Evocativo de Deus, por exemplo, diz: “Ó Deus-Pai, que dais vida a todos os seres viventes, abençoai-me com o Vosso Espírito”. Certa pessoa argumentou que seria um erro pedir a Deus que nos abençoe, uma vez que Ele já está nos abençoando com Suas infinitas dádivas e, portanto, a expressão “abençoai-me” deveria ser substituída por “sou abençoado”. Mas o Canto Evocativo de Deus não está errado.  Deus Absoluto revela-Se sob a imagem de Cristo para quem chama por Cristo, e sob a imagem de “Divindade da Seicho-No-Ie” para quem O chama por este nome.

Se oramos a Deus, é para chamá-lO do mundo da Essência (mundo absoluto de Deus) para que Se manifeste no mundo fenomênico. Na verdade, Deus é onipresente, mas, quando O chamamos, estabelecemos uma comunicação afetiva com Ele, que então Se manifesta assumindo uma imagem. Comparemos Deus a um pai de família: o pai protege toda a sua família e toma todas as providências para que nada falte em sua casa, mesmo que ninguém o chame. Entretanto, quando um filho vem correndo chamando-o “papai”, e se lança em seus braços, estabelece-se um relacionamento afetivo. O mesmo acontece quando oramos a Deus. Concluindo, há dois tipos de oração: a oração para manifestar a Essência e a oração de comunicação afetiva com Deus.

Há quem pense que “o mundo da Essência é de amorfia absoluta, onde não existem relações do tipo Deus/homem, pai/filho, polo positivo/negativo, etc., e que onde a unidade se dualiza em polos positivo e negativo não é o mundo absoluto, mas sim mundo fenomênico”. Mas tal teoria difere da doutrina da Seicho-No-Ie. Se admitirmos que o mundo da Essência é anterior ao surgimento dos polos positivo e negativo, estaremos dividindo o mundo em anterior e posterior e estaremos limitando o absoluto mundo da Essência apenas ao mundo anterior. Nesse caso, o mundo da Essência deixaria de ser absoluto porque estaria em posição de confronto com o mundo fenomênico, que é relativo. Se o mundo da Essência fosse apenas uma existência anterior à bipolarização e não existisse após isso, não teria nada a ver com nossa vida atual. O mundo da Essência de que fala a Seicho-No-Ie não é um mundo do passado e anterior à bipolarização, ele é o mundo que existe agora e sempre; é um mundo absoluto, mas não confronta com o mundo relativo; ele contém dentro de si todas as existências relativas. Podemos representar graficamente o mundo do absoluto como um círculo contendo inúmeros pontos que correspondem às existências relativas.

Quando afirmo que somos um com Deus, algumas pessoas argumentam: “Então não precisamos orar a Deus, mesmo porque o fato de orar pressupõe que o homem seja uma existência separada de Deus”. Mas esse argumento não procede. Cada um dos inúmeros pontos contidos no círculo, mesmo sendo “um com o círculo” pode dirigir-se ao círculo todo. E “dirigir-se ao todo” é “comunicar-se afetivamente com Deus”. Cada um dos pontos dentro do círculo corresponde ao “eu individual” ou “filho de Deus”, e o círculo corresponde ao “Eu universal”, que é chamado de “Deus” ou “Pai”. O filho de Deus, como integrante do todo (Deus), é sustentado pela força do todo. Em outras palavras, o “eu individual” é um com o “Eu universal”. Entretanto, para o “eu individual” conscientizar esse fato, precisa reconhecê-lo por meio do pensamento e da palavra, e isso é a oração.


8 – A ILUMINAÇÃO PODE SER ALCANÇADA ATRAVÉS DO FENÔMENO?

Nonaka – Professor, o senhor diz que “o fenômeno não existe” e que “existe unicamente a Essência”, mas acredito que o fenômeno é manifestação ou extensão da Essência, e por isso acho que podemos conhecer a Essência através do fenômeno. Acho também um erro desprezar o fenômeno, considerando-o “nada” ou “inexistente”. Creio que a Essência não existe isolada do fenômeno; no fenômeno está a Essência. Se analisarmos bem, concluímos que não podemos conhecer diretamente a Essência. Para mim, é fato indiscutível que somente através do fenômeno podemos conhecer a Essência, isto é, alcançar a iluminação. Se o fenômeno fosse inexistente, como prega o senhor, não poderíamos alcançar a iluminação através dele, pois através de algo inexistente não se pode alcançar nada. Então, como o senhor explica o fato de alcançarmos a iluminação através do fenômeno?

Taniguchi – o senhor diz que se pode conhecer a Essência através do fenômeno, mas isso não é verdade. Não é através do fenômeno que se conhece a Essência. Esta somente pode ser conhecida pela Essência da própria pessoa. No budismo se diz que “somente Buda pode conhecer Buda”. Em termos cristãos, diríamos que “ninguém conhece o Pai, senão o Filho” (Mt. 11;27) ou “ninguém vai ao Pai senão pelo Cristo interior”. Por mais que analisemos o fenômeno, não conheceremos a Essência. Por mais que dissequemos o homem carnal, não encontraremos o homem-Essência. Somente alcançamos a iluminação quando a nossa Essência e a Essência do Universo se tocam diretamente, isto é, por meio da percepção direta, por meio do sentido da Essência. O pretenso conhecimento da Essência (iluminação) que não foi alcançado através dessa percepção direta é falso, por mais que pareça verdadeiro. Quem diz ter alcançado a iluminação através do fenômeno alcançou, quando muito, um estado de espírito semelhante à iluminação. Tal estado de espírito sofre abalo ou cai por terra quando a pessoa presencia um fenômeno negativo, pois não se alicerça no conhecimento da Essência pela percepção direta. Por exemplo, alguém que se convencer de que “o homem é filho de Deus” ao presenciar a cura de um enfermo que abandonou os remédios, perderá essa convicção se presenciar um fenômeno oposto, isto é, o agravamento da doença devido ao abandono dos remédios. Logo, a compreensão da Essência do “homem-filho-de-Deus” alcançada através do fenômeno não constitui a verdadeira iluminação, sendo mera imitação.

Alguns pregam que, observando as extraordinárias perfeição e precisão com que se desencadeiam os fenômenos da Natureza, pode-se compreender a existência de Deus. Para alguns físicos, por exemplo, a exatidão matemática com que os diversos tipo de átomo são formados por um número certo de elétrons não pode ser explicada como obra do acaso, devendo-se portanto admitir a atuação da sabedoria de Deus por detrás dessa precisão. Outros, observando o movimento ordenado e harmônico dos astros e corpos siderais, descobrem a existência de uma ordem cósmica e a chama de Deus. Mas essa visão, que considera o fenômeno como existência verdadeira e o criador desse fenômeno como Deus, não nos leva jamais à compreensão da “inexistência da matéria” pregada pela Seicho-No-Ie. Teorizar considerando “existente” aquilo que aparenta existir é uma tarefa fácil e isso leva inclusive à elaboração de teorias filosóficas ou teológicas, mas compreender a filosofia da Seicho-No-Ie, que declara inexistente aquilo que parece existente aos cinco sentidos, é uma façanha de mestre.

A Seicho-No-Ie diz, por exemplo, que “a doença não existe”, mas para os cinco sentidos ela existe. Se extrairmos uma porção do tecido afetado e a examinarmos com o auxílio do microscópio, constataremos a presença de micróbios patogênicos. Portanto, segundo a observação científica do fenômeno em que se baseiam inclusive algumas doutrinas panteístas, a doença existe. Mas a Seicho-No-Ie considera inexistente a doença, que cientificamente existe. Observando o fenômeno, é impossível chegar à conclusão de que “o fenômeno não existe”. O conhecimento da Verdade da “inexistência do fenômeno” não é algo que possa ser alcançado por uma pessoa como o senhor, crente de que “a iluminação é alcançada somente através do fenômeno”. Pelo contrário, a iluminação é alcançada somente quando se dispensa o fenômeno, isto é, quando a mente se liberta do fenômeno, da mesma forma como se pode ver a luz do Sol somente quando se dissipam as nuvens. Se alguém que viu por acaso o Sol através de uma nuvem tênue afirmasse, com base nessa experiência própria, que “somente através da nuvem pode-se ver o Sol”, seria ridículo. Se se dissipar a nuvem, mais claramente se verá o Sol. Da mesma forma, podemos ver a Essência, o filho de Deus perfeito, quando afastamos o fenômeno. Seria igualmente ridículo se alguém afirmasse que “para se ver o Sol é preciso primeiramente que haja uma nuvem e depois ela se dissipe”, só porque teve a experiência de ver o Sol através de uma brecha que se abriu entre as nuvens. Sem a nuvem, vê-se melhor o Sol, como já disse. Porém, se o céu estiver nublado, veremos o Sol quando se abrir uma brecha entre as nuvens. Da mesma forma, conhecemos a Essência ou alcançamos a iluminação quando subitamente se abre uma brecha na “nuvem” do fenômeno.

Existem ocasiões em que dizem “Conheci a Essência da Vida através do fenômeno”. Podemos citar, por exemplo: (1) caso em que um doente elimina sua dependência em relação a tdos os tipos de remédio e tratamento médico e, como consequência dessa libertação mental, ocorre a cura; e (2) caso em que alguém, ao prestar ao próximo uma ajuda física num trabalho extremamente árduo, experimenta uma satisfação extasiante apesar de estar sofrendo fisicamente, e compreende que ele e o outro são um na Essência, apesar de fisicamente separados um do outro.

No primeiro caso, tem-se a impressão de que se conhece a Essência da Vida através do fenômeno da cura, mas não é assim. A verdade é que, após tentar todos os recursos fenomênicos, tais como remédios e tratamentos médicos, a pessoa se decepciona com todos eles, pára de depender deles, e sua mente deixa de se prender inclusive à doença de seu corpo, e então abre-se uma brecha na “nuvem” do fenômeno e aparece a luz da Essência; o fenômeno, refletindo a imagem da Essência, passa  apresentar o corpo sadio. A iluminação mental vem primeiro, e o fenômeno aparece depois. Compreender este ponto é essencial. Se alguém ficar pensando que “alcançou a iluminação através do fenômeno da cura”, ficará abalado quando presenciar ou tiver um fenômeno chamado “corpo doente”. Essa é uma falsa iluminação, que desmorona com a mudança do fenômeno. Também no segundo caso, a impressão é de que a iluminação é alcançada através de um ato fenomênico chamado ajuda ao próximo, mas, na verdade, a Essência resplandece através da brecha do fenômeno, assim como o sol se mostra através de um brecha nas nuvens. Convém frisar que “brecha na nuvem” significa “um espaço onde não há nuvem”, o que é totalmente diferente de “através da nuvem”.

Os homens fenomênicos dotados de cinco sentidos (homens carnais) são seres isolados uns dos outros, de modo que o prazer de um nem sempre constitui prazer para outro; mesmo que um considere uma comida saborosa, um outro não sente o mesmo sabor. Entretanto, se o homem transcende os cinco sentidos e sente a alegria do próximo como alegria sua, a satisfação alheia como satisfação sua, e sente um com o outro, isso é prova inegável de que ele o sente, não através dos sentidos fenomênicos, que separam as pessoas, mas na ausência deles. Torno a afirmar que, embora se tenha a impressão de que se compreende a Essência (Jissô) através do fenômeno perceptível aos sentidos, na verdade a Essência (Jissô) se compreende por meio da negação da percepção sensorial.


(Do livro: A Verdade da Vida, vol. 18, pp. 122-134)

domingo, setembro 02, 2012

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 1/2

Masaharu Taniguchi


1 –  O MUNDO ABSOLUTO

Uezawa – Mestre, gostaria de alcançar o estado mental em que não se teme absolutamente nada. Desejo ouvir seus conselhos para consegui-lo.

Taniguchi – Para isso, é preciso contemplar com os olhos mentais unicamente a perfeição do mundo absoluto de Deus, sem considerar como existência verdadeira o inconstante mundo fenomênico, pois este é falsa existência. Assim procedendo, sua mente não se prenderá às transformações deste mundo. Somente o mundo absoluto é existência verdadeira, e portanto não é preciso inquietar a mente, temendo as transformações fenomênicas.

Uezawa – O que é o mundo absoluto? Refere-se ao mundo espiritual?

Taniguchi – Não, ele não se refere ao mundo espiritual. O mundo absoluto pode ser chamado também de “mundo do Jisso”. Dizemos “absoluto” para caracterizar sua natureza eterna, transcendental e indestrutível em contraposição com o mundo fenomênico, que é relativo, inconstante e destrutível. Há quem confunda o mundo absoluto com o mundo espiritual, mas este faz parte do mundo fenomênico e é habitado por espíritos, inclusive por aqueles inferiores e sofredores. O mundo absoluto é aquele onde a perfeição criada por Deus perdura para sempre e se faz presente, digamos, no âmago, no interior ou por trás do relativo mundo fenomênico. No mundo absoluto, tudo é absolutamente belo, bom e perfeito, pois foi criado por Deus; nele, tudo é dotado de infinita sabedoria, infinito amor, infinita Vida e infinita força de Deus.

Uezawa – Gostaria que o senhor explicasse em que se fundamenta para afirmar isso, pois não consigo ver tal mundo absoluto.

Taniguchi – O mundo absoluto não é perceptível aos cinco sentidos, nem ao sexto sentido. Assim sendo, não posso me basear em coisas relativas e palpáveis para convencê-lo de que tudo que existe no mundo absoluto é belo e perfeito. A existência desse mundo só pode ser compreendida através da “iluminação”, que é uma espécie de percepção espiritual. Essa iluminação vem como um raio de luz e revela a existência do mundo absoluto. O mundo fenomênico pode ser comparado à escuridão, onde só se pode ter ideia aproximada dos objetos, tateando-os. Algumas pessoas, “tateando” o mundo fenomênico, conseguem ter uma ideia aproximada do mundo absoluto.  Por exemplo, existem sábios que, observando o cumprimento rigoroso de todas as leis da Natureza, a precisão com que os astros se movimentam no espaço, a germinação da Vida alojada em uma semente, etc., chegam à conclusão de que existe uma fonte absoluta. Entretanto, essa conclusão se baseia em fenômenos do mundo relativo, e portanto não chega a ser iluminação. O modo mais fácil de abrir a porta do mundo do absoluto e conhecê-lo consiste em contemplar a Realidade, praticando a Meditação Shinsokan (Shin = Deus/Espírito Absoluto; So = ver; Kan = Mente; portanto o significado dessa palavra é “Contemplar Deus com os Olhos da Mente”) e contemplando a Essência da existência e a Essência de sua própria Vida.

Uezawa – Para conhecer o mundo absoluto basta praticar a Meditação Shinsokan?

Taniguchi – Como já disse, a conclusão a que se chega tateando o mundo fenomênico na escuridão é resultado da inteligência cerebral, e não o conhecimento absoluto. Para conhecê-lo, precisamos contemplar corretamente, através da Meditação Shinsokan, a Essência da existência e a Essência de nossa própria Vida.

Uezawa – O que quer dizer “contemplar corretamente a Essência da existência e a Essência de nossa própria Vida”?

Taniguchi – Uma existência possui essência e aparência. A aparência é o fenômeno relativo,  o qual parece existir, mas não é existência absoluta, tanto assim que se transforma a todo instante. E como a preocupação com o que se transforma incessantemente não leva a nada, devemos deixar de olhar para o fenômeno inconstante e, da mesma forma como observamos os astros com a visão concentrada em um telescópio, devemos contemplar a Essência de nossa existência, concentrando a visão mental. Nisto consiste a Meditação Shinsokan. E quando assim visualizamos nossa Essência, que é perfeita, compreendemos que ela existe no interior de toda e qualquer existência.

Uezawa – Quando o senhor diz “toda e qualquer existência”, está se referindo a todas as pessoas, coisas e fatos?

Taniguchi – Isso mesmo. Em todas as pessoas, coisas e fatos há a Essência e aparência. Devemos, pois, deixar de ver a aparência imperfeita e passar a ver sempre a Essência perfeita de todas as pessoas, coisas e fatos.

Uezawa – “Essência perfeita” significa “natureza divina”?

Taniguchi – Exatamente. Tanto faz chamá-la de “natureza divina”, “natureza búdica” ou “natureza verdadeira”. Sakyamuni disse que todos os seres vivos, como também todas as coisas inanimadas e todos os fatos contêm em seu âmago a Essência, a perfeição. Esta não pode ser conhecida pelos cinco sentidos nem pelo sexto sentido; não há outro meio senão intuí-la com a nossa própria Essência.

Uezawa – O senhor disse “Intuir com a nossa própria Essência”. Gostaria que me explicasse isso de modo mais compreensível. 

TaniguchiSomente uma Essência pode reconhecer outra Essência. Os cinco sentidos podem reconhecer apenas coisas e fatos fenomênicos, pois somente as vibrações de mesma frequência podem se sintonizar. Se procurarmos a Essência entre as coisas perceptíveis aos sentidos, confundiremos a Essência com o que é perceptível, e não conseguiremos conhecer a Essência, da mesma forma que um rádio mal sintonizado capta duas transmissões ao mesmo tempo e não consegue transmitir nitidamente nenhuma delas. Por isso, precisamos “desligar” os cinco sentidos por algum tempo e sintonizar o nosso ser exclusiva e totalmente com o mundo da Essência. Assim, a “nossa Essência” entrará em contato direto com a “Essência da existência”, com a “Essência da Vida”, e então perceberemos que, na verdade, sempre estivemos preenchidos e ao mesmo tempo envoltos por ela. Isto é o verdadeiro despertar, a verdadeira iluminação.

Uezawa - Quando o senhor diz “Essência da existência” e “Essência da Vida”, está dizendo o mesmo com palavras diferente ou cada um dessas expressões encerram significados distintos?

Taniguchi – “Essência da existência” pode ser expressa também como “Essência de todos os seres animados e inanimados”. Significa a “natureza verdadeira da coisa em si”. O mundo que se apresenta aos nossos sentidos não é, como já expliquei, o mundo verdadeiro em si. Por exemplo, os fatos imperfeitos que sucedem no mundo fenomênico não são verdadeiros, isto é, eles não estão ocorrendo no mundo do absoluto de Deus; a nossa mente é que deforma os fatos perfeitos e os apresenta como imperfeitos. O mesmo se pode dizer em relação às dificuldades de sobrevivência: para o homem verdadeiro não existem dificuldades de sobrevivência, mas elas se manifestam pelo poder da mente. Entretanto, isso se refere ao mundo fenomênico, porque no mundo absoluto não há semelhante problema. Portanto, se fitarmos a “Essência da existência”, isto é, a “original perfeição interior”, e agirmos conforme a solicitação que brotar espontaneamente do interior, as dificuldades de sobrevivência desaparecerão. Assim, estaremos manifestando no mundo fenomênico a perfeição da Essência da existência, bem como a imagem fiel da nossa própria Essência, que é divina. 

Vejamos agora se as expressões “Essência da existência” e “Essência da Vida” têm o mesmo significado. Se considerarmos que “tudo que existe é Vida”, as duas expressões terão o mesmo sentido. Entretanto, a expressão “Essência da existência” é empregada na maioria das vezes para se referir à essência das coisas, dos fatos ou dos acontecimentos externos, enquanto que a expressão “Essência da Vida” é usada para falar da Essência do ser humano, e ainda significa “Vida de Deus que rege o Universo” quando temos a convicção de que “nossa Vida é Vida de Deus”.

Quando procuramos contemplar constantemente a perfeição interior de tudo que nos cerca, nossa mente ilumina tudo ao nosso redor; consequentemente, as imagens ou situações imperfeitas acabam desaparecendo. Como já foi dito, no mundo absoluto criado por Deus não há imperfeições nem infelicidades; se, no entanto, elas surgem no ambiente de uma pessoa, é porque sua mente faz com que a “perfeição da existência verdadeira” se projete distorcidamente no plano fenomênico. Portanto, quando purificamos nossa mente e contemplamos unicamente a perfeição do mundo do absoluto, melhoram o ambiente, a situação e inclusive o corpo carnal, pois nossa mente, infiltrada em todas as células do nosso corpo, torna-se sadia e acaba restaurando todas as células e todos os tecidos.

Uezawa – O senhor falou em “perfeição da existência verdadeira”. Posso interpretá-la como “perfeição de Deus” ou seria mais correto dizer “perfeição de nossa Vida no mundo da existência verdadeira”?

Taniguchi – Se partirmos da premissa de que “somente Deus é existência verdadeira”, podemos dizer que “perfeição da existência verdadeira” significa também “perfeição de Deus”. Mas quando se refere ao homem, ela significa “perfeição do homem verdadeiro”. E esse homem verdadeiro jamais deixou de ser saudável; mesmo que o corpo carnal esteja doente, o homem verdadeiro não está doente.

Uezawa – Esse “homem verdadeiro” – que não adoece, mesmo quando o corpo está enfermo – pode ser entendido como “homem-espírito” ou “homem-Vida”?

Taniguchi – A expressão “homem-espírito” pode suscitar ambiguidade, pois a palavra “espírito” pode significar tanto “espírito universal” como “espírito individual”, e este é classificado em “absoluto” e “fenomênico”. O "espírito individual absoluto” é o próprio filho de Deus, enquanto que a expressão “espírito individual fenomênico” pode abranger “espírito em ilusão” ou “espírito não evoluído”. Portanto, dizendo simplesmente “homem-espírito”, não fica claro se se trata de “espírito individual em ilusão” ou de “espírito individual absoluto”. O “homem verdadeiro” é o “espírito individual absoluto”, é a Vida individual exatamente como foi criada por Deus. Quando a mente do homem se tornar correta, limpa e sem distorção, sua Essência criada por Deus projetar-se-á do mundo absoluto para o mundo fenomênico, com fidelidade e perfeição; então o homem manifestará plenamente a perfeição de que é dotado originariamente.

O mundo fenomênico é, segundo a filosofia da Seicho-No-Ie, projeção do mundo absoluto através da mente, e pode ser denominado também “mundo da projeção”. Este mundo da projeção deve refletir cada vez mais fielmente o mundo absoluto até tornar-se tão perfeito quanto o original. A lente utilizada para “fotografar” o original e produzir a cópia chamada mundo fenomênico, é a nossa mente. Quando conscientizamos a “Essência da existência” e vivemos visualizando a “Essência de nossa própria Vida”, que é Deus, nossa lente mental se torna límpida e perfeita, e então o homem fenomênico torna-se a projeção perfeita do homem verdadeiro, que é divino. Assim, temos o homem carnal saudável num ambiente feliz.


2 – SOBRE O EU VERDADEIRO E O FALSO EU

Uezawa – Penso que a expressão “sou Vida de Deus” significa que o eu é a força vital. Se é assim, não poderia haver distinção entre o que se chama de “Eu verdadeiro” e o “falso eu”, pois este também seria uma das manifestações da força vital do “Eu verdadeiro”. Quando a força vital do Eu verdadeiro atua em relação à matéria, assume a forma de “eu fenomênico”. Portanto, não é possível existir um “falso eu” do “Eu verdadeiro”, mas sou da opinião de que ambos são diferentes formas de manifestação da mesma força vital, portanto uma coisa só e não seres distintos. Gostaria que o senhor me desse esclarecimento a esse respeito.

Taniguchi – A ideia de que o eu é a força vital surgiu, na Antiguidade, com a filosofia dos Vedas. Na era moderna, o grande filósofo Schopenhauer abraçou essa ideia. E Rolland e Henri Bergson. Sakyamuni contestou a teoria védica, pregando na Sutra do Lótus que tal “eu” não existe. Se considerarmos o “eu fenomênico (dos cinco sentidos)” como “Eu verdadeiro”, deveremos admitir a satisfação dos desejos carnais ou egoísticos como manifestação natural e correta do Eu verdadeiro; deverá ser considerado bom e correto o conflito entre os seres vivos, isto é, a exploração dos fracos pelos fortes. Schopenhauer considerou a “Vontade de viver” como princípio fundamental da manifestação da Natureza, mas sua visão não lhe permitiu transcender o conflito existencial, e ele acabou criando a filosofia mais pessimista de todos os tempos: “Viver é sofrer”. Isso mostra que, enquanto considerarmos uma força fenomênica como Essência do nosso Eu verdadeiro, não conseguiremos alcançar a verdadeira salvação. Esta é conseguida quando compreendemos que o “eu fenomênico” é o “falso eu”, portanto inexistente, e volvemos a mente para o Eu verdadeiro, que é puro, perfeito e repleto de luz. Esta é a iluminação ou o despertar que a Seicho-No-Ie proporciona. 

Se alguém pensa que o “eu fenomênico” não é falso nem inexistente, e o considera como uma das manifestações do Eu verdadeiro, ele está em ilusão. Segundo a Seicho-No-Ie, o “falso eu” e o “ego” que procura defender tão somente seus interesses, mesmo prejudicando o próximo. Se o ego não fosse o “falso eu”, e sim manifestação do Eu verdadeiro, deveríamos louvar a manifestação desenfreada do egoísmo como manifestação do Eu verdadeiro e deveríamos também incentivar atitudes egoísticas, a corrupção, os assaltos, as guerras, etc. A Seicho-No-Ie não adota essa concepção. O Eu verdadeiro, o Eu que existe verdadeiramente, não contém egoísmo. Os conflitos egoísticos, as guerras, os assaltos, a corrupção, etc., não são existências verdadeiras, mas a “humanidade acredita ilusoriamente que tais males sejam existências verdadeiras”, como diz a Sutra do Lótus. Esta é a visão da Verdade da Seicho-No-Ie. Peço, portanto, que não se equivoque.


3 – A INTERFERÊNCIA DE PENSAMENTOS BANAIS NA PRÁTICA DA MEDITAÇÃO SHINSOKAN NÃO AFETA A ESSÊNCIA

Kakizaki – Durante a prática da Meditação Shinsokan para penetrar no mundo da Essência (no mundo perfeito e absoluto de Deus), surgem-me pensamento banais que atrapalham minha concentração. Que devo fazer?

Taniguchi – os pensamentos banais não prejudicam absolutamente a Meditação Shinsokan. O pensamento do Eu Verdadeiro dirigido à Essência (Deus) é um pensamento consistente, mas os pensamentos banais não têm consistência; são ilusórios. Portanto, por mais que eles surjam, não podem anular o pensamento dirigido à Essência divina. O senhor pode prosseguir a mentalização, sem ligar para os pensamentos banais que surgirem; não precisa eliminá-los primeiro para depois mentalizar a Essência divina. Mentalizando a Essência, os pensamentos banais irão desaparecendo naturalmente. O principal não é eliminar os pensamentos banais, mas mentalizar a Essência divina.

Kawahara – Mestre, o senhor diz que o principal é mentalizar a Essência, mas acho que a meditação não terá efeito se não for eliminada a interferência dos pensamentos banais.

Taniguchi – O senhor pensa assim porque tem a ilusão de que os pensamentos banais possuem força concreta. Se mentalizar a Essência sem se importar com os pensamentos banais que surgirem, estes desaparecerão automaticamente, assim como a treva desaparece automaticamente quando se acende a luz, sem que façamos esforço algum para eliminá-la, e haverá somente o efeito da mentalização da Essência, da perfeição interior.

Alguém indagou ao grande mestre budista Hônen: “procuro concentrar-me nas orações, mas minha mente se distrai, pensando em coisas mundanais. Será que minhas orações não me conduzirão ao paraíso?”. O mestre respondeu: “Pensar em coisas mundanais durante a oração não te prejudicará, se orares sinceramente. Mesmo que um filho contrarie um pouco a vontade do pai, receberá sua herança, a não ser que ele próprio renuncie a esse direito”.

Mentalizar Deus não é firmar com Ele um contrato que poderá ser desfeito a qualquer momento. Deus é nosso Pai. Logo, se contemplarmos Deus, a herança dEle (o paraíso) se manifestará natural e automaticamente, por mais que surjam pensamentos banais.


4 – A MEDITAÇÃO SHINSOKAN E A ALIMENTAÇÃO

Takimoto – Pratico a Meditação Shinsokan todas as manhãs durante uma hora ao me levantar. Desde que passei a praticá-la, meu apetite aumentou tanto que o desjejum, que antes se restringia a duas tigelinhas de sopa que eu tomava a muito custo, hoje chega a cinco ou seis tigelinhas de arroz, que esvazio com muito gosto. Isso me deixa satisfeito e passo o dia todo de bom humor. Há quem diga que a prática da Meditação Shinsokan espiritualiza o corpo carnal e vai reduzindo a necessidade de alimentação material, até que esta se torne dispensável. Entretanto, comigo ocorre o contrário. Afinal, a Meditação Shinsokan aumenta ou diminui a capacidade de se alimentar?

Taniguchi – Como a prática da Meditação Shinsokan consiste na contemplação da perfeição interior, ela determina ao organismo o que é necessário para que a pessoa exteriorize essa perfeição. Quanto à alimentação, tal dúvida corresponde à pergunta: “É mais certo a água subir em forma de vapor ou cair em forma de chuva?”. É correto a água evaporar e subir ao céu, assim como é correto ela precipitar em forma de chuva. Por isso, tanto é correto aumentar o apetite como diminuir. E quanto à quantidade de alimentos, a dúvida do senhor corresponde à pergunta: “É melhor que chova bastante, ou que chova pouco?”. Na época de plantio é bom que chova abundantemente, enquanto que muita chuva no período de colheita pode prejudicar a safra. Prender-se a uma forma não condiz com o modo de viver da Seicho-no-Ie. A abundância é benéfica, a escassez também. Tudo é bom quando ocorre de modo adequado às circunstância, à hora e à pessoa. Todo ato é bom quando se procede desprendida e adequadamente como as nuvens que flutuam no céu ou as águas que fluem. Nada de mal acontece, desde que se contemple a perfeição da Essência. Portanto, sr. Takimoto, não se prenda inutilmente ao aumento ou à diminuição de apetite; este aumenta quando é preciso alimentar mais o organismo e diminui quando é preciso reduzir a alimentação.


5 – OS DESEJOS MUNDANOS E A ILUMINAÇÃO

Toyoda – Certa pessoa disse: “As pessoas consideradas mestres não diferem das pessoas comuns, pois eles também têm os mesmos defeitos e desejos mundanos. Se os mestres conseguem proezas admiráveis, é porque não se prendem a seus defeitos e desejos. Os que conseguem seriamente sem se prender a seus defeitos são verdadeiros mestres”. Mas, no meu entender, no momento em que o homem se tornar um mestre de verdade, não terá defeitos nem desejos mundanos; se alcançar a iluminação, emitirá luz de seu interior, que o iluminará e a todos os lugares aonde se dirigir, e consequentemente desaparecerão todos os defeitos. Estou certo pensando assim?

Taniguchi – Certa vez, o grande mestre Dharma dirigiu-se a três de seus discípulos e perguntou-lhes qual era a relação entre os desejos mundanos e a iluminação. Um dos discípulos respondeu: “Eliminando-se os desejos, alcança-se a iluminação”. Eliminar os desejos corresponde a “transcender os desejos e defeitos” a que o senhor se referiu. Conta-se que o mestre Dharma elogiou esse discípulo, dizendo: “Você conquistou meus músculos!”. O outro discípulo respondeu: “Os desejos conduzem à iluminação”. Esse discípulo quis dizer que não há iluminação separada dos desejos mundanos, que não existe paraíso separado do mundo terreno, que a dor é o processo pelo qual a Vida sobrepuja e faz desaparecer a doença. O mestre Dharma então elogiou o segundo discípulo, dizendo: “Você conquistou meus ossos!”. O terceiro discípulo respondeu: “Os desejos mundanos não existem verdadeiramente! Há unicamente a iluminação!”. O mestre Dharma louvou-o, dizendo: “Você conquistou a minha medula!”. 

Também segundo a Seicho-No-Ie, os desejos mundanais não existem verdadeiramente, existindo unicamente a iluminação; o fenômeno não existe verdadeiramente, existindo unicamente a Essência; o corpo carnal não existe verdadeiramente, existindo unicamente a Vida. Entretanto, se aparecem desejos mundanos, é porque por trás existe a Essência, da mesma forma como as sombras aparecem porque por detrás existe luz. Não se apreende a Essência fugindo dos desejos mundanos; vive-se a Essência, estando no mundano. Se a luz da Essência for projetada sem distorção, o mundano, que é sombra projetada por essa luz, tornar-se-á puro e perfeito, e os desejos serão purificados. Portanto, quando se alcança esse estado, pode-se manifestar a perfeição da Essência sem eliminar os desejos, pois estes se tornam sadios, possibilitando realizar quaisquer empreendimentos com grande entusiasmo.

(Do livro: A Verdade da Vida, vol. 18, pp. 111-122)