"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, novembro 11, 2010

"Não te assentes no primeiro lugar"

Dárcio Dezolt


Na “Párabola dos Primeiros Assentos” (Lc. 14:7), Jesus pede que, “ao ser convidado às bodas, ninguém se assente no primeiro lugar!". Há “outro convidado” mais digno, e este é o CRISTO, o verdadeiro Eu do homem. Todo ego terá de deixar o “primeiro lugar” reservado ao Eu, que é Deus sendo realmente quem somos.

Entre na “Prática do Silêncio” deixando completamente desocupado o “primeiro assento”. Ego algum o ocupará jamais! Este ego é o nada que pensa ser alguma coisa ou ter lugar de destaque na vida de alguém. Lembre-se de que nunca há mudanças no Reino da Verdade! Antes que um suposto “ego” fosse reconhecido pela ilusória mente humana, o Eu Sou - Deus sendo VOCÊ -, já estava ocupando, e em definitivo, a totalidade do espaço infinito. A parábola explica que este assento não é de nenhum ser humano! Já tem dono! Está eternamente reservado! Você saberá que este “dono” é Deus sendo seu Eu, o Cristo eterno, a Vida em Si. Ao repetir Jesus, dizendo: “De mim mesmo nada faço, nada sou, o Pai em mim faz as obras”, você estará deixando de exaltar o ego e seus supostos feitos, deixando espaço para que a glória do Pai seja, em unidade, a glória do Filho, e, esta Verdade é verdadeira já!

“Deixar o assento livre” é, principalmente, não achar que sabedoria humana, mesmo a de cunho espiritual, seja divina! “Deixar o assento livre” é não confiar em aprendizados intelectuais da Verdade, exceto naquele em que a Onisciência é reconhecida como já estando no lugar do “intelecto sábio”. Não limitar Deus a algo do conhecimento humano é a base do “primeiro assento desocupado”; reconheça, já presente e ocupando aquele assento, unicamente o próprio Deus, enquanto ao mesmo tempo, você faz o reconhecimento de que a totalidade de Deus ocupa o primeiro lugar, o segundo, o terceiro, enfim, ocupa todos os lugares! DEUS É TUDO! Todos os assentos já estão ocupados! Não há vagas para o ego, em todo o Universo! Nem seriam necessárias! Todo suposto “ego” é nada! Contemple estas Verdades!



terça-feira, novembro 09, 2010

O meio de captar a Sabedoria Infinita - Final

Masaharu Taniguchi

Para manifestarmos o grau máximo do poder da palavra, precisamos acreditar com a singeleza das crianças na Verdade de que nós e Deus, que é a fonte da provisão infinita, estamos verdadeiramente unidos. Entre os leitores da Seicho-No-Ie, há muitas pessoas que, antes de se tornarem adeptas, não conseguiam nada do que queriam, fracassavam nos negócios, ficavam constantemente doentes, não só elas como os familiares, chegando ao abismo do desespero. Ao conhecerem a Seicho-No-Ie e obterem a consciência de unidade com Deus, fonte da provisão infinita de Vida, Sabedoria e Amor, não só elas próprias como também os familiares recuperaram totalmente a saúde, os negócios começaram a prosperar, conquistaram a verdadeira paz e otimismo de tal maneira que até parece ser mentira o desespero passado. Entre a pessoa ter sua mente unida a Deus e o não conhecimento de Deus reside essa grande diferença.

Acredite no Deus verdadeiro! Acredite n'Ele e confie os seus desejos a Ele. Mesmo que os homens o traiam, Deus jamais o trairá. Você só consegue resultados parciais, porque não acredita n'Ele de verdade. Não existe em nenhum lugar nada mais seguro do que Deus. O desejo daquele que acredita e confia em Deus será ouvido infalivelmente. Portanto, a fórmula secreta para nos tornarmos vencedores na vida e vivermos sempre tranquilos e ricos é chamar por Deus dia e noite, constantemente, e não esquecer por um segundo sequer a sensação de união com Deus. Não somos orientados e protegidos por Deus somente quando estamos acordados; somos orientados e protegidos por Ele mesmo enquanto dormimos. De fato, mesmo dormindo nosso coração pulsa, nossos pulmões respiram, o sangue circula, os resíduos são excretados e as células novas são produzidas. Aliás, enquanto estamos acordados com a atenção voltada para o mundo exterior, passa-nos despercebida a revelação de Deus que advém do mundo interior. Enquanto dormimos, muitas vezes recebemos mais nitidamente a revelação de Deus do mundo interior, porque nossa atenção não se desvia para coisas e fatos externos transitórios.

O que adormece durante o sono são somente os órgãos que têm relação com o mundo exterior. Os órgãos que se relacionam com o mundo interior jamais dormem; ao contrário, de acordo com o estado espiritual, conseguem perceber melhor as revelações internas durante o sono.

Costumamos dizer geralmente que o nosso corpo carnal é "matéria", mas quando assim dizemos estamos nos referindo à vibração energética grosseira, de frequência adequada a ser captada pelos nossos cinco sentidos. Porém, teorias físicas modernas provam que existem em número ilimitado outras vibrações etéreas de tipo não captável pelos cinco sentidos, de modo que não se pode afirmar que não possuímos outros corpos de virações mais sutis. De fato, de acordo com as pesquisas realizadas por estudiosos de ciências espirituais modernas, além do corpo carnal nós somos dotados de diversos corpos sutis, tais como o corpo etéreo, corpo astral, corpo espiritual.

Mas mesmo a vibração do nosso corpo carnal, por se tratar de "corporificação da idéia", poderá captar oscilações de frequência mais sutil se procurarmos, sempre, evitar pensar sobre coisas e fatos grosseiros e impuros, e manter somente pensamentos calmos, pacíficos e bons. Com a purificação do pensamento, nossa vibração vai paulatinamente se tornando mais fina e capaz de captar não só as revelações dos espíritos mas também as vibrações sutis da revelação de Deus, além de continuar captando com os cinco sentidos as coisas e fatos do mundo exterior.

Quando o corpo carnal é constantemente purificado por pensamentos puros, pela ação purificadora das ondas mentais os sistemas orgânicos do corpo carnal evoluem gradativamente do estado turvo e grosseiro para o estado delicado e límpido, e concomitantemente a natureza dos alimentos necessários à sua manutenção também vai aos poucos mudando, da dieta animal, pesada, para a dieta vegetariana, leve. Se a pessoa tornar-se vegetariana porque é saudável, ou porque a alimentação animal faz mal, isso ainda é uma atitude forçada. O natural é o sistema do próprio corpo carnal ir se tornando delicado e puro, e com isso passar a exigir alimentos mais leves.

Quando a mente se purifica e juntamente com ela a organização do corpo carnal, passa-se a preferir alimentos leves e, ao mesmo tempo, perde-se a necessidade de consolar a inquietante solidão do espírito através da excitação ou do entorpecimento das sensações físicas por meio de drogas; por isso, ou o gosto pela bebida alcoólica ou pelo fumo espontaneamente desaparece de sua vida cotidiana, ou é regulado de modo a exigi-los em quantidade mais controlada. Se a vida e preferências estão contra a Natureza, é porque há desarmonia no espírito. Embora se deva também ao hábito, o ato de fumar ao dialogar com alguém, por exemplo, acontece pelo desejo natural de entorpecer alguma inquietação ou solidão existente no espírito e tranquilizá-lo. A Seicho-No-Ie não é abolicionista do álcool e do fumo, que propõe que nos esforcemos para deixar de tomar esses produtos excitantes. Ela apenas defende que, se o espírito se tornar realmente pacífico e harmonioso, a preferência também se modifica automaticamente e tais inclinações contrárias à Natureza desaparecem. Se a mente despertar para a Imagem Verdadeira da Vida que é o estado de espírito pacífico, esse estado mental se concretiza e até a organização do corpo carnal se torna refinada. Concomitantemente, a preferência quanto à alimentação também muda, passando-se gradativamente a exigir comida leve, e em relação à quantidade tornam-se desnecessárias porções abusivas. Isto é, como a organização do corpo carnal se torna refinada, não há mais o desperdício durante o processo de transformação do alimento em energia humana, sendo suficiente uma pequena porção de alimento. Além disso, como a eficiência do sistema físico também aumenta, diminui o cansaço e bastam poucas horas de sono para manter tal sistema.

O corpo carnal é a concretização de ondas vibratórias mentais grosseiras, captáveis pelos cinco sentidos, e, por ser assim constituído, está sujeito a desajustes e danos; por isso ele necessita do sono para descansar e restaurar-se. Já o corpo astral (onde se assenta a nossa alma), constituído de vibrações mais refinadas, possui organização refinada e, mesmo sendo bastante usado, sofre pouco atrito, tem pouca necessidade de repouso e de reparo, e por conseguinte, de modo geral, não necessita de sono. Pelo estudo experimental de ciências espirituais modernas, está comprovado que o corpo espiritual, ou corpo astral, que após a morte fica adormecido por muito tempo devido ao choque da morte, é corpo astral de espírito baixo, e que o corpo astral de espírito elevado, mesmo submetido a choque igual, sofre menos danos e não precisa restaurar-se através do sono. Desta maneira, também o corpo carnal, à medida que suas vibrações mentais se tornam refinadas, passa a necessitar de poucas horas de sono.

Ao processo pelo qual as vibrações vitais dos nossos corpos carnal, astral e espiritual evoluem de vibrações grosseiras para vibrações mais refinadas, através da purificação da mente, chamamos crescimento de nossa vida (vida fenomênica). É natural que o corpo espiritual ou astral possam captar vibrações que o corpo carnal normalmente não capta, mas mesmo o nosso corpo carnal, à medida que suas vibrações se tornam refinadas, passa a sintonizar frequências vibratórias que normalmente não podem ser captadas pelos cinco sentidos. Quando o corpo carnal atinge o ponto máximo da purificação, o comprimento de suas ondas vibratórias atinge o âmbito das vibrações do corpo espiritual, podendo ele próprio ser corpo espiritual. Isso é raro acontecer, mas não é impossível. No Japão existe desde a Antiguidade pessoas conhecidas como shigesen, que passam para o mundo espiritual sem deixar restos mortais. Nesse caso, como as vibrações do corpo carnal, em consequência da constante purificação do mesmo, atingiram a mesma frequência das vibrações do corpo espiritual, consegue-se entrar no mundo espiritual sem a necessidade de se despojar de um corpo carnal cuja frequência vibratória seja completamente diferente. Isso é Shigesen.

Se praticarmos sempre a Meditação Shinsokan, criarmos o hábito de fazer coincidir nossa mente com Deus e procurarmos viver de acordo com o modo de viver da Seicho-No-Ie, em consonância com a purificação da mente, as vibrações do corpo carnal vão se purificando e nos tornaremos capazes de captar ainda na condição carnal a revelação que vem do mundo mais elevado. Durante a prática da Meditação Shinsokan, ou durante o sono, o nosso corpo carnal não se preocupa com as coisas e os fatos vulgares da vida cotidiana, em consequência disso, o nosso corpo espiritual pode com mais facilidade receber revelações do mundo espiritual, e às vezes do mundo divino. Mas, lamentavelmente, as vibrações do corpo carnal não chegam a ser tão refinadas quanto as vibrações do mundo espiritual e não se sintonizam com elas. Por isso, a revelação transmitida para o nosso corpo espiritual é muitas vezes descartada por não ser percebida pelo consciente do nosso corpo carnal e não ser aproveitada na prática.

Para podermos contar com a revelação do mundo espiritual, é necessário procurarmos sempre moderar o ritmo da mente, a fim de refinarmos o ritmo do corpo carnal para que este possa captar as vibrações mais refinadas do mundo espiritual e do mundo divino. Deparamos frequentemente com casos reais de vibrações espirituais, emitidas no instante da morte, que atingem os parentes próximos sob a forma de aparições. Mas, mesmo não sendo no momento da morte, durante o sono, uma parte do nosso corpo espiritual se desprende do corpo carnal, vai até o mundo dos espíritos, recebe a orientação de espíritos mais elevados, volta com ela e transmite-a ao consciente carnal.

Ilustremos com o caso de um jornalista.

Certa tarde, ele recebeu ordem do redator-chefe para escrever um artigo sobre determinada matéria até a manhã do dia seguinte. Ele, sendo totalmente leigo no assunto, procurou subsídios em vários lugares mas, por ser exíguo o tempo, não conseguiu encontrar dados adequados e ficou totalmente embaraçado. Finalmente ele teve uma boa idéia: confiar essa questão à "tranquilidade". Então orou calmamente: "Sendo Deus a Sabedoria infinita, não há nada que seja impossível. Eu confio essa questão à Sabedoria de Deus. Por favor, quando eu acordar amanhã, concedei-me boas idéias para resolvê-la", e dormiu. Ele dormiu bem e, na manhã seguinte, ao despertar, a primeira coisa de que se lembrou foi a questão que confiara à "tranquilidade" na noite anterior. Ele contemplou por alguns instantes a sua mente, e percebeu que o artigo que não conseguira escrever na noite anterior apesar dos esforços aflorava de maneira bem ordenada. Pegando a caneta, sem sair da cama, escreveu o artigo que lhe surgiu na mente. Conta-se que esse foi um artigo notável. Casos semelhantes são frequentes entre os adeptos da Seicho-No-Ie. Por exemplo, a sra. Shizuko Takeuchi, da província de Kochi (que se restabeleceu de uma tuberculose praticando a Meditação Shinsokan), ao prestar exame oral para habilitação como parteira não sabia a resposta de uma questão. Mas, como tinha praticado a Meditação Shinsokan antes da prova, a resposta veio-lhe à boca e ela passou no exame.

O fato de o corpo humano procurar coisas e encontrá-las é um fenômeno do mundo material, e o fato de o corpo espiritual (ou astral) receber orientação de um espírito elevado é um fenômeno do mundo espiritual. E a força vital que provoca tais fenômenos é a nossa "idéia". Movendo-se a "idéia", movem-se o corpo carnal e o corpo espiritual. O que traz as coisas até nós é a força da idéia, e mesmo para o espírito receber uma revelação é necessário aprimorar a sua "idéia", pois só assim ele poderá atrair para si a revelação correta ou ir ao encontro dela. Enquanto não se aprimora a "idéia", ainda que busquemos avidamente aquilo que desejamos no estado desperto, não o achamos; mas aprimorando-se a "idéia", durante a prática da Meditação Shinsokan ou mesmo durante o sono, aquilo que desejamos aproxima-se de nós. A essa propriedade da mente chamamos "força de atração da mente", a qual age segundo o princípio de que "os semelhantes se atraem".

No capítulo I do presente volume, recomendei a prática da Meditação Shinsokan durante dez minutos antes de dormir porque, enquanto despertos, nossa "mente" tem sua atenção desviada para as transformações do mundo exterior, tornando difícil manter a "mente" voltada para uma mesma direção. Mas se dormimos após praticar a Meditação Shinsokan, deixando a "mente" voltada para a direção correta, pela força do hábito ela manterá "idéias corretas"; e, pela "força de atração", durante o sono ela atrairá continuamente idéias corretas e de prosperidade, as quais, desenvolvendo-se, geram acontecimentos pacíficos, felizes e prósperos.

Há várias maneiras de mentalizar durante a Meditação Shinsokan, e a citada no capítulo II deste volume é o método básico. Treinando-se bem esse método, a respiração, por hábito, torna-se correta e calma. Ocorrendo isso, deve-se mentalizar o aspecto perfeito e harmonioso da Imagem Verdadeira, sem preocupar-se com a respiração. Como outra maneira, sugiro que mentalizem as palavras do "Canto para contemplar a Imagem Verdadeira", que se encontra no início deste volume. Mentalizando repetidamente essas palavras do Canto, ou outras palavras com o mesmo sentido que melhor se coadunam à característica individual, surge a sensação de expansão do eu, atinge-se o estágio de "Imagem Verdadeira = eu" ou de "Universo = eu" e experimenta-se a sensação de identidade com o Eu global que tudo abraça, onde não existe o pequeno eu meu, nem o eu do outro. Como a Meditação Shinsokan não é "técnica", mas sim "oração perfeita", seu efeito é perfeito desde que haja fé, não havendo necessidade de prender-se à forma ou às palavras a serem utilizadas. Aos que gostariam de participar como adeptos do nosso Movimento de Iluminação, damos orientação minuciosa na Sede Central da Seicho-No-Ie.

Em seguida, vou ensinar uma maneira de mentalizar para receber a revelação de Deus sobre determinado problema. (Eu disse "revelação", mas ela nem sempre é captada pela audição ou visão espirituais. Como "Deus é o Todo", com a prática da Meditação Shinsokan pode acontecer de o problema ser encaminhado e dirigir-se sozinho para a solução ideal.) Após recitar mentalmente ou em voz alta os quatro versos do "Canto Evocativo de Deus", mentalize várias vezes o "Canto para contemplar a Imagem Verdadeira", colocando assim a sua mente na paz infinita. Em seguida, repita mentalmente:

"Em Deus, eu sou um com todas as coisas. Eu me reconciliei com todas as coisas, e perdoei todas as coisas. Entre eu e todas as coisas, não há rancor nem ódio; estamos em perfeita paz, voltamos a ser como éramos originariamente".

Assim, procure manter um estado de espírito de paz, fundamentado na consciência da unidade originária, sem um mínimo de rancor, ódio ou temor. E, quando atingir esse estado de espírito, mentalize repetidas vezes:

"Eu sou um com todas as coisas; por isso, tudo se move em função da minha pessoa, toda a Sabedoria age para me orientar".

Desse modo, sinta-se em união profunda com a Sabedoria infinita que preenche o Universo, e depois tenha a convicção de que Deus lhe dará infalivelmente a Sabedoria e a solução necessárias para você. Conclua a Meditação Shinsokan sentindo-se profundamente mergulhado nessa providência de Deus; e, se estiver para deitar-se, durma tranquilo, confiante que a partir do dia seguinte a providência de Deus surgirá como idéia. Se o seu desejo tratar de algo que não prejudica os outros, durante a prática da Meditação Shinsokan, poderá apelar a Deus, sem nenhuma cerimônia, ainda que seja para melhorar a si próprio. Sinta-se como se tivesse depositado todo o seu desejo em Deus, e que você próprio é o Universo, que todo o Universo está movimentando-se para a realização do referido desejo, que a força do Universo inteiro vive dentro de você. Uma vez atingido tal estado de espírito, e harmonizado com todas as coisas e com Deus, não há razão para não se realizarem as coisas boas para nós. Deus jamais rejeitará um desejo do filho de Deus que nós somos.



(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 08"; pgs. 74 à 84)


sábado, novembro 06, 2010

O meio de captar a Sabedoria Infinita - Parte 2

Masaharu Taniguchi

Pensa você que não é possível haver "tesouro interno inesgotável" dentro do homem é que limitado? Se alguém vê o homem como ser limitado, é porque não vê o homem da Imagem Verdadeira que é filho de Deus, e vê o homem somático que é a imagem provisória. Você deve conhecer a fábula dos sapos do poço: em certo lugar havia um bando de sapos habitando um poço. A boca desse poço era muito estreita e não permitia ter ampla visão do exterior, sendo possível apenas enxergar um pedaço do céu azul. Certo dia, um sapo que morava num lago, em sua caminhada, passou por esse poço e olhou para dentro dele. "Quem está olhando daí?", perguntou um dos sapos de dentro do poço. "Sou o sapo que veio do lago. Por que você mora num lugar tão apertado como esse?", disse lá de cima o sapo do lago. "Lago? O que é lago? Onde existe isso?", perguntaram do poço. "O lago é um lugar que tem bastante água. Não é tão longe. Tanto é que pude vir passear até aqui". "O lago é grande?". "Se é grande? É bem maior do que isto!". "Que tamanho tem? Dessa pedra?", perguntaram apontando uma das pedras que cercavam a boca do poço. "Não é pequeno assim, não". "Então tem o tamanho desse poço inteiro?". "Que nada! Tem extensão bilhões de vezes maior do que este poço. Daqui também dá para ver o lago. Venham até aqui, que mostro para vocês", assim respondeu o sapo do lago, mas os sapos do poço não quiseram acreditar. E começaram a gritar ruidosamente em coro: "Onde se viu tamanho absurdo! Você deve ser mentiroso. Deve estar tramando alguma coisa contra nós. Não queremos mais saber da sua conversa. Vá embora daqui!".

O que vocês acharam dessa fábula? Se dessem um passo fora do poço, os sapos veriam o lago, quão vasto era o lago e quão livre é a vida fora do poço. "A verdade vos libertará". Sendo todos nós filhos de Deus, na verdade deveríamos estar vivendo num oceano vasto e sem restrições. Mas estamos vivendo num mundo cheio de inconveniências, insatisfações, provações e deficiências em todos os sentidos, porque iludimos a nós próprios e nos negamos a sair para o oceano da Verdade, como "os sapos do poço" desta fábula. Antes de mais nada, precisamos sair do poço pequeno. Esse "poço pequeno" simboliza a "sagacidade medíocre do homem". Se nós não abandonarmos a sagacidade medíocre do homem, jamais perceberemos que o nosso eu é capaz de alcançar a Sabedoria infinita e inesgotável de Deus. Dizer que não existe o oceano da Grande Sabedoria de Deus, não compreendê-lo, é iludir a si próprio.

A verdadeira evolução do homem ocorre quando ele se une internamente com a Sabedoria infinita e inesgotável de Deus; e com isto ela passa a manifestar-se externamente. Deixar fechado o canal da provisão infinita que vem do interior e desejar realizar a prosperidade somente no exterior é o mesmo que não deixar a água da rega penetrar até a raiz da planta e mortificar-se desejando que nasçam flores e folhas bonitas. Quanto mais tentamos fazer folhas crescerem numa planta sem raiz, mais depressa ela secará. Quando transplantamos uma muda, se as raízes da planta estão afetadas, deixamos os galhos e folhas podados até que as raízes se recuperem totalmente. Para cultivar a raiz, é preciso, por algum tempo, deixar podados os galhos e folhas que ficam do lado de fora. Quero dizer com isto que, se "podarmos" totalmente a "inteligência humana" externa por algum tempo, em breve a raiz interna se fortalecerá, e então, graças à força dessa raiz, brotará para fora também uma sabedoria realmente útil. Esta, sim, mesmo sendo sabedoria que surge no lado de fora, é sabedoria verdadeira, que, por estar ligada com o manancial que é sua fonte, não há como secar.

Se acontecer de errarmos o caminho a seguir na vida cotidiana, ficarmo doentes ou fracassarmos financeiramente, não foi porque nos faltou a "água subterrânea" da Grande Sabedoria de Deus, mas porque não firmamos bem as raízes para absorvê-la. Não é Deus o culpado; nós próprios somos os culpados. O defeito está em nós, assim como o fracasso; portanto, o meio de solucionar não é culpar Deus nem chorar as mágoas para Ele. Para a solução, basta cultivar as nossas próprias raízes para que passem a absorver a "água subterrânea" que vem de Deus. Se for para alguém cultivar por nós, pode parecer incerto; mas, como somos nós mesmos que o fazemos, o resultado é seguro e fácil.

Se procurarmos constantemente receber do "manancial da Grande Sabedoria" a provisão da sabedoria para o dia-a-dia, jamais cometeremos falhas. Isto porque do interior do nosso espírito surge uma luz para guiar-nos, que é a luz da sabedoria de Deus, infinita e perfeita, e jamais dá orientação errada.

Se você deparar com algum problema cuja a solução não é encontrada mesmo procurando em todas as direções exteriores, deve sentar-se, praticar a Meditação Shinsokan, orar e mentalizar por algum tempo: "Eu, sendo um com Deus, estou em harmonia com todas as coisas e fatos. Sendo assim, a inteligência necessária para resolver este problema nascerá dentro de mim espontaneamente". E obedecer à revelação que surgir na mente. Há entre os adeptos da Seicho-No-Ie muitos casos verídicos como o de uma pessoa que, não conseguindo encontrar o objeto desaparecido por mais que o procurasse, fez uma concentração mental através da Meditação Shinsokan, levantou-se em seguida e, no primeiro armário que ela abriu, achou o objeto procurado.

Se todas as manhãs praticarmos a Meditação Shinsokan, concentrarmo-nos mentalmente, mentalizando repetidas vezes que "a inteligência necessária para o trabalho de hoje fluirá do oceano da grandiosa Sabedoria de Deus e de maneira alguma fracassaremos", e só depois disso nos dirigirmos para o trabalho concreto, infalivelmente nascerão boas idéias para realizá-lo da melhor maneira possível. Nesse ponto, a Meditação Shinsokan pode ser considerada o "pão espiritual nosso de cada dia". Para a nossa vida é necessário também o pão material, mas o "pão espiritual" é muito mais necessário. Se a melhor idéia para cada dia nascer através da Meditação Shinsokan que fazemos pela manhã, nós não teremos necessidade de nos preocuparmos com os problemas de amanhã desde hoje - "A cada dia bastará o seu cuidado" -, nós já não correremos o perigo de ficar com insônia, stress ou neurastenia causados pela preocupação com o amanhã.

Nosso espírito provém de Deus, e, no momento em que ele se fundir com o Espírito infinito, que é a sua fonte, e se tornar transparente, tudo será dado ao nosso conhecimento, conforme se fizer necessário. Quando reconhecemos esse fato, libertamo-nos de todo tipo de ansiedade pelo futuro. Se, de acordo com a necessidade, podemos conhecer tudo, para que precisamos nos preocupar com o futuro? Há pessoas que não conseguem deixar de se preocupar por mais que lhe digamos para não fazê-lo. Mas isto acontece porque elas não acreditam realmente que, de acordo com a necessidade, tudo que é necessário será levado ao seu conhecimento. Por isso, em vez de lhes dizer "Não se preocupem desnecessariamente", o melhor é fazê-las conscientizar-se que elas são filhas de Deus que se originam de Deus, e que o Pai onisciente lhes ensina tudo o que a elas for preciso, conforme a necessidade. Se tivermos essa conscientização, poderemos realmente manter um estado de espírito pacífico, sem nos inquietarmos jamais com o futuro.

Quantas e quantas pessoas estão sendo constantemente perseguidas pela ansiedade, tornando-se prisioneiras do medo, buscando salvação para lá e para cá, perdendo dinheiro lá, a fortuna aqui, encurtando a vida do corpo carnal a cada dia que passa, só porque não conseguem acreditar em Deus como ser onisciente e amor infinito, que lhes dá as coisas materiais e também a inteligência, de acordo com a necessidade! Somente quando reconhecermos que TODA a provisão advém de Deus, que a verdadeira paz vem de Deus, e que ao mesmo tempo esse Deus é provisão infinita que preenche o Universo, tornamo-nos um internamente com essa provisão infinita; então, a verdadeira paz, a verdadeira tranquilidade tomam conta do nosso espírito.

Assim sendo, a verdadeira paz espiritual, a felicidade espiritual e a tranquilidade suprema são aquelas "paz", "felicidade" e "tranquilidade" que coisa alguma no mundo pode nos dar; não poderão ser conseguidas enquanto estivermos perseguindo-as no exterior. Não adianta acumularmos coisas materiais, dinheiro, e construir a casa pensando pensando que tendo coisas materiais não teremos mais ansiedades pelo futuro, que tendo dinheiro não teremos mais preocupação, que tendo casa não teremos mais insegurança, pois nem a ansiedade pelo futuro, nem a preocupação, nem a insegurança deixarão de existir. O que possui forma desintegra-se rapidamente quando, no mundo da mente, deixa de existir a força que mantinha essa forma. É o mesmo que um corpo carnal desprovido de espírito desintegrar-se rapidamente. Por isso, os artifícios e esforços no sentido de manter no mundo das formas os "bens materiais", o "dinheiro", a "casa", a "fortuna", quando não há em nosso interior força espiritual capaz de mantê-los, só podem deixar-nos exaustos e provocar depressão nervosa.

É por esse motivo que a maioria das religiões abomina os "bens materiais" ou o "dinheiro" como coisas que aumentam o apego e o sofrimento do homem, e aconselha a manter distância delas. Mas a Seicho-No-Ie não abomina os "bens materiais" e o "dinheiro", porque considera que eles não existem por si próprios e que não passam de sombra da mente; por isso, para a Seicho-No-Ie tanto faz ter ou não ter; mesmo que tenhamos em excesso, não há necessidade de afastá-los; e, da mesma maneira, mesmo que os percamos, não há necessidade de correr atrás deles. Se a mente se tornar rica, automaticamente os bens também se tornarão abundantes. Se a mente estagnar, automaticamente os bens também estacionarão. Mas, como a mente é originariamente LIVRE e ELÁSTICA, o acúmulo da riqueza estática não está revelando o aspecto elástico originário do espírito. Circular abundantemente, fartamente, de acordo com a necessidade, sem se ficar em nenhum lugar - este é o estado de riqueza projetada pela mente que conseguiu a liberdade. O mesmo acontece com o corpo carnal: acúmulo de gordura não quer dizer saúde, intestino preso não é saúde. O estado em que a energia flui abundantemente para dentro e para fora de nós, circulando sem estagnar, e no qual o metabolismo se realiza de modo perfeito - este é o estado de saúde no qual está se manifestando no corpo carnal a liberdade mental da pessoa.

Talvez o comum das pessoas pense que tanto os objetos como o dinheiro ou a saúde física surjam em consequência dos artifícios "externos" e do fato de terem se preocupado com isso. Mas os objetos, o dinheiro e a saúde conseguidos dessa maneira, ainda que temporariamente se tornem realidade, se não tiverem as raízes firmadas no mundo da mente acabarão se desintegrando rapidamente. Seja a verdadeira riqueza, seja a verdadeira saúde ou qualquer provisão, realizam-se quando, pelo fato de o nosso espírito se ligar firme e profundamente a Deus, naturalmente começar a atuar em nosso interior e em nosso ambiente idéias que não foram elaborações nossas. Assim sendo, como estaremos num outro mundo, firmemente arraigados na provisão infinita chamada Deus, mesmo que aos olhos alheios pareça estarmos numa situação insegura, não há estado mais seguro do que esse.

O cavalo que corre no zootrópico, mal desaparece, e surge de novo. Isto porque no centro há uma luz, e em volta dela existe uma placa na qual está recortada a silhueta do cavalo; desde que essa silhueta não seja desfeita, a imagem desaparece mas reaparece; vai mas volta, isto é, não desaparece para sempre, não é uma coisa que corre e vai embora. Ele está ligado à provisão infinita, a qual vem e escoa sem cessar. Compreendendo isso, podemos permanecer em paz sem que a mente se prenda às transformações do fenômeno, pois a provisão necessária flui conforme a necessidade e, seja sabedoria, seja força vital, "bens" ou "dinheiro", nada faltará quando se fizer necessário.

Ilustremos isso com a minha própria experiência:

Nos primeiro anos da revista mensal Seicho-No-Ie, eu a redigia ao mesmo tempo que trabalhava num emprego. Até me demitir da firma, em agosto de 1942, era pequeno o número de tiragem porque eram poucos os leitores, de modo que a renda da assinatura era escassa e eu precisava custear as despesas de publicação de cada mês com o salário que recebeia do emprego. Quando resolvi demotir-me da empresa, algumas pessoas ficaram preocupadas porque eu não teria como viver, mas eu, imperturbável, não recuei. Assim, dediquei-me apenas à Seicho-No-Ie. Então, paulatinamente o número de leitores começou a aumentar espontaneamente. Paralelamente, o livro sagrado A Verdade da Vida foi sendo vendido com velocidade de cinco a dez vezes maior do que o da revista; o "Folheto da Seicho-No-Ie" alcançou vendagens quase cem vezes maior. Naturalmente, tais vendas não constituíam altas rendas; mesmo assim, o intenso movimento começou a gerar o dinheiro necessário para a manutenção. Atualmente estou aliviado pois, afora os escritos e as palestras, tudo está a cargo de outras pessoas, desde a administração até a publicação, e eu só me encarrego da doutrinação. Naquela época, eu tinha de pensar também no custo da manutenção; mas quando faltava o dinheiro para a manutenção acontecia, por exemplo, de surgir alguém que nos enviava alguma importância, como gratidão pela cura de doença com a leitura do livro sagrado. Dessa forma, o necessário para a publicação da revista sempre fluiu sem parar, circulando livremente, surgindo, de fato, em nosso cotidiano, uma pequena concretização da "Imagem Verdadeira da Vida".

Alguns dias atrás, inclusive, uma pessoa relatou que antes de conhecer a Seicho-No-Ie despendia grande soma de dinheiro em medicamentos, e ainda vivia preocupada com sua eficácia. Seis meses depois de conhecer a Seicho-No-Ie, gastou só um décimo do que costumava gastar num mês, e mesmo assim em remédio de uso tópico.

Exemplos desse tipo são frequentes entre os leitores da revista Seicho-No-Ie. Aliás, muito mais do que frequentes: quase cem por cento deles parece ter tal experiência, e, como a alegria que sentem é muito grande, eles não deixam a Seicho-No-Ie permanecer no anonimato. Entre eles, há muitos que se curaram depois de serem desenganados por vários médicos, e a alegria daqueles que se salvam tem um valor infinito, impossível de ser calculado em dinheiro. Podemos dizer que tudo isso fica depositado no celeiro do Céu, para ser fornecido sempre que necessário; por isso, podemos dizer também que, embora seja pobre, a Seicho-No-Ie é possuidora de riqueza infinita.

Se chamarmos a riqueza, confirme surja a necessidade, ela virá. Como a riqueza é algo que, se deixar estagnada ao redor de mim em quantidade demasiada, apodrece e causa problemas, eu não a convoco desmesiradamente. Mas é frequente minha filha chamar doces ou frutas: às vezes, quando quer dices, diz para céu "Dê-me doces", e curiosamente, no dia seguinte, infalivelmente, alguém nos traz doces. Quando quer frutas, grita para o céu "Dê-me frutas", e alguém nos traz frutas. Consta que Jesus Cristo disse: "(...) se a este monte disserdes: Ergue-te e lança-te no mar, tal sucederá". A fé da criança é dócil e sincera, pois, ouvindo o que nós pais dizemos, acredita singelamente; por isso é pura e poderosa. Portanto, se nós nos dirigirmos ao céu com a singeleza da fé da criança, chamando a coisa que desejarmos e ordenando "Tal coisa, surja", o desejo se realizará. Este é o poder da fé e da palavra.
Cont...
(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 08"; pgs. 65 à 74)


sexta-feira, novembro 05, 2010

O meio de captar a Sabedoria Infinita - Parte 1

Masaharu Taniguchi

O Deus verdadeiro de que fala a Seicho-No-Ie é o Criador de tudo, a Grande Fonte da Sabedoria infinita, da Vida infinita, da Provisão infinita. A Sapiência de Deus não é coisa pequena como a inteligência humana. Uma Sabedoria infinita enche todo o Universo - isto é a Sapiência de Deus. E, na mesma proporção que abrimos a porta do coração para Ele, a Sua Sabedoria flui para dentro de nós. Quanto mais diminui em nós o sentimento egoísta, quanto mais diminui o sentimento arbitrário, mais diretamente a Sabedoria de Deus flui para o nosso interior, e torna-se o nosso guia em todos os aspectos.

Por isso, não temos necessidade de pôr em funcionamento a inteligência humana e, através dessa pequenina sabedoria, ficar preocupando-nos com os problemas da vida. À medida que deixarmos de agir pelo raciocínio humano, a limitação individual da nossa inteligência se desfaz, e à proporção que ela se desfaz manifesta-se a Sabedoria universal - isto é, a Sabedoria de Deus, sabedoria sem arbítrio, sabedoria de grandeza imensurável. Se nós podemos obter esta Sabedoria, por que motivo precisaríamos tentar obter a orientação para a vida apenas do pequeno círculo do nosso eu?

Imensa quantidade de ar puro preenche o espaço todo. Se esse ar está ao nosso alcance, por que teríamos de respirar apenas o ar do interior do estreito quarto? Se existe o oxigênio natural em abundância, por que teríamos de respirar o oxigênio artificial? Precisamos confiar na Natureza. Se não saímos para respirar o ar de fora é porque não acreditamos no seu valor. Se acreditássemos, não poderíamos deixar de escancarar as portas e as janelas e respirar o ar de fora. Então, se não buscarmos a fonte da sabedoria na Grande Sabedoria de Deus que preenche o Universo, deve ser, em última análise, porque não confiamos nessa Grande Sabedoria. Se confiássemos nela, não poderíamos deixar de escancarar as portas e as janelas do coração para respirar a Grande Sabedoria de Deus.

Pois bem, quando assim escancararmos totalmente as portas e as janelas do coração e buscarmos na Grande Sabedoria de Deus a orientação direta, em nós próprios já estará manifestada a Imagem Verdadeira do filho de Deus, e já não seremos mais escravos da pequena inteligência, da ciência, do poder, tornando-nos o próprio filho de Deus, que encerra em si a Sabedoria infinita e que é por ela orientado.

O grande poeta inglês Browning, sendo profundo conhecedor da Verdade, escreve em seus versos:


"A Sabedoria está sempre dentro de nós.
Por mais que confiemos nas coisas externas,
das coisas externas não nasce a Sabedoria.
Nós temos nosso centro no âmago de nós mesmos.
Nesse centro aloja-se a Verdade infinita.
Escavar essa Verdade -
a isso chamamos extrair a Sabedoria".



Deus Se aloja no nosso interior, a Verdade se aloja no nosso interior. Se Deus, a Sabedoria e a Verdade não estivessem alojados no nosso interior e existissem apenas fora de nós, os homens não conseguiriam eternamente a sua liberdade. Se Deus ou a Verdade existissem somente fora de nós, obedecer a eles significaria ficarmos amarrados pelas coisas exteriores, e portanto nunca seríamos livres. Exatamente porque Deus ou a Verdade é a Natureza Divina que se encontra latente em nosso interior, obedecer a Deus ou à Verdade significa fazer com que a verdadeira natureza que se encontra oculta se manifeste livremente.

Quando abrimos os ouvidos para o "apelo" da Verdade que se aloja em nós, recebemos a orientação da Sabedoria infinita de Deus. Esse "apelo" da Verdade que se aloja em nós manifesta-se como consciência e como revelação divina. A consciência e a revelação divina são frente e verso de uma mesma coisa; são manifestações que vêm do "eu superior", indícios da "natureza verdadeira" de nós próprios, a voz de Deus que se aloja em nós mesmos. A "revelação divina" é de natureza absoluta, isto é, na linguagem xintoísta tradicional, é a ação do espírito naobi, ou seja, a ação resultante da unificação harmônica de quatro espíritos que são kushi-mitama, nigi-mitama, sachi-mitama e ara-mitama. Em contrapartida, a "revelação espiritual" consiste em sermos orientados através da propagação da vibração espiritual proveniente de um mundo espiritual; por esse motivo, dependendo do grau em que é manifestada a "natureza divina" desse orientador do mundo espiritual, ou se o orientador é ainda um amontoado de apegos, haverá variações nas características e no valor dessa revelação.

A "revelação espiritual", por ser orientação de um espírito com apego, às vezes pode ser um bom conselheiro se o problema envolve apego; mas justamente por ter apego, outras vezes pode se tornar um mau conselheiro.

A revelação divina é aquilo que se revela de dentro de nós à medida que nos livramos do apego, à medida que esquecemos o nosso livre arbítrio, à medida que lapidamos a nós próprios - algo como um diamante que irradia intensa luz do seu interior. Desejar receber a revelação divina com o sentimento de apego é o cúmulo da contradição. Nós, por sermos Deus em nossa essência, somos perfeitamente capazes de ouvir a revelação divina independentemente de termos ou não dons mediúnicos, à medida que nos afastamos do apego. O verdadeiro homem é Deus. Por isso, se nos despirmos do revestimento que se chama egoísmo e deixarmos surgir o revelação divina tudo o que nós pensarmos e sentirmos será revelação divina. Em certa religião, chama-se a isso de afluxo da qualidade divina, considerado diferente da revelação espiritual obtida através dos médiuns.

A revelação divina, sendo afluxo interior, transmite-se ao cérebro, revelando-se geralmente de modo intuitivo. Já a "revelação espiritual" é transmitida para o metencéfalo, e geralmente se manifesta através dos médiuns ou em forma de dupla personalidade. A revelação divina brota de dentro de nós, e não pressupõe nenhum confronto; mas a "revelação espiritual" é a opinião de uma segunda ou terceira pessoa que se confronta com a nossa. A revelação divina não atende ao egoísmo, e se revela espontaneamente quando o abandonamos, mas a "revelação espiritual" atende também ao egoísmo, podendo dar respostas oportunas ou, às vezes desapontarnos com respostas totalmente sem nexo.

Seja como for, é bom consultamos o professor humano, no caso de educação escolar, ou então o professor do mundo espiritual, através do médium; mas pode haver erro nos ensinamentos do professor da escola, assim como nas respostas do médium. Só não há erro na revelação da nossa "qualidade divina" ou "natureza divina" que aflui de dentro de nós. Por isso, devemos agir sempre de conformidade com a revelação advinda do interior da nossa própria "qualidade divina".

Se nos habituarmos a anular o egoísmo e a ouvir atentamente o sussurro da qualidade divina que aflui do nosso interior, gradativamente esse sussurro começará a ser captado mais nitidamente. Se nos limitarmos a ouvir esse sussurro e o ignorarmos, deixando de colocá-lo em prática, estaremos menosprezando a nossa própria natureza divina; por isso, prosseguindo dessa forma, o sussurro passará a não ser ouvido, por mais que o tentemos. Portanto, se pretendemos ouvir constantemente a revelação da nossa própria natureza, precisamos obedecer sempre à "revelação que vem de dentro", anular a nós próprios e colocá-la em prática na vida cotidiana.

Se digo que devemos obedecer à "revelação que vem de dentro", anulando a nós próprios, e tudo praticar na forma como surge, sem a interferência da inteligência humana, talvez surjam dúvidas sobre dever ou não praticar obedientemente atos imorais, no caso de algo desse gênero ser revelado de dentro; mas afirmo que não há tal perigo. Mesmo porque, de maneira geral, o "mal" ou a "imoralidade" surgem porque o "ego" se sobressai, ou seja, porque o ego não está anulado. Querer conseguir vantagem somente para si, sem se importar com os outros - isso é que é o "mal", a "imoralidade". Portanto, uma vez anulado o ego, não há como surgir na mente o "mal" ou a "imoralidade" ao ouvir a "revelação que vem de dentro". Ao recorrermos a um médium na busca da revelação espiritual para a solução de um certo problema, geralmente não o fazemos para "esquecer de nós próprios", mas sim para consultar sobre interesses particulares, preocupados em "como dar vantagem ao ego"; por isso, tanto podemos fracassar como ser bem sucedidos.

Se você, estando diante de um problema, sentar-se silenciosamente e praticar a Meditação Shinsokan, e nesse momento surgir algum pensamento vantajoso para si mas em detrimento de outrem, este não é o verdadeiro "afluxo da sua natureza divina". Em outras palavras, não é a voz de Deus, mas sim a revelação do "eu falso" que usa a máscara do "eu verdadeiro". Por isso, não deve obedecer tal revelação.

A "consciência" é o afluxo da qualidade divina que se aloja em nosso interior, por isso não podemos desprezar a "consciência". A revelação divina é maior do que a chamada "consciência"; é um esplendor que vem do interior de modo a abranger ampla e totalmente o interior e o exterior; mas na sua essência ela provém da mesma fonte que a "consciência". Portanto, aquilo que não condiz com o sussurro da consciência não pode ser revelação divina de maneira alguma. Isso não passa de sugestão de algum espírito baixo, ou de sussurro do subconsciente duvidoso do "eu falso".

A fonte da nossa "Vida" é alimentada pela "Vida" que corre com Deus; por isso, se procurarmos, da melhor forma, escutar com os ouvidos da mente a sabedoria da fonte sem criarmos barreiras mentais contra essa fonte, toda sabedoria que se fizer necessária a nós fluirá para o interior de nossa mente.

Nós precisamos apenas abrir a janela e contemplar a paisagem: o mundo belo já se encontra neste lugar, antes mesmo de abrirmos a janela. Basta abrirmos a janela que a paisagem desse mundo belo torna-se nossa. Isto é uma alegoria que mostra que o mundo ideal da Imagem Verdadeira já existe, e que, se abrirmos a janela do coração, ele se tornará o nosso mundo presente. Ao mesmo tempo, ela é uma alegoria que simboliza o fato da fluência da Sabedoria de Deus para dentro de nós. Abra, portanto, a janela do coração, e a Sabedoria de Deus passará a ser sabedoria sua. Para abrir a janela do coração, é preciso saber o que está travando essa janela. Essa trava que mantém fechada a janela do coração é a sagacidade humana medíocre. Abandonando a sagacidade humana medíocre estaremos abrindo também a porta do coração.

A Higiene da Seicho-No-Ie é considerada higiene dos bobalhões. Bobalhão e sábio se identificam. Se há frequentes casos de pessoas que se restabelecem de doenças antes incuráveis, que abandonaram os tratados de fisiologia e moderníssimos métodos de profilaxia por terem conseguido aceitar o que diz o livro sagrado A Verdade da Vida e colocaram-no em prática, qual poderá ser a razão disso senão o fato de ter fluído para o interior dessas pessoas a verdadeira sabedoria, a Sabedoria de Deus, a sabedoria que tudo vivifica, quando elas conseguiram desvencilhar-se da medíocre sagacidade humana?

Quando compreendemos profundamente a Verdade contida no livro sagrado A Verdade da Vida, quando vivemos e agimos acreditando nela, não apenas são curadas as doenças incuráveis pela medicina, como também resolvem-se os problemas econômicos, sociais, familiares, enfim, todos os tipos de problemas. Isto porque a Sabedoria de Deus explanada nesse livro sagrado é ilimitada, e porque o interior da Imagem Verdadeira do filho de Deus já está provido de tudo. Quem não consegue acreditar na Verdade de que "a natureza real do homem é filho de Deus, e no interior dele tudo está contido em quantidade infinita, seja amor, Vida ou provisão", não poderá receber a corrente da perfeita provisão que vem de Deus. Quer dizer, recebendo pouca Sabedoria e provisão de Deus, nós fracassamos em tudo; recebendo pouco amor, a relação com os familiares torna-se fria e os amigos distanciam-se de nós; recebendo pouca "Vida", surgem vários tipos de doença; recebendo pouca provisão, seja de que espécie for, nada vem a nós em abundância.

Quem não conhece a provisão infinita e inesgotável que se encerra dentro de si próprio comete pecado (encobrimento) contra si próprio. Quem não permite aos outros conhecerem que tal provisão encontra-se alojada no interior deles comete pecado (encobrimento) contra esses semelhantes. Dentre todas as caridades, a maior é permitir que o outro descubra o reservatório do inesgotável tesouro que se encontra dentro de si. Quando nós doamos dinheiro ou tesouros materiais a alguém, estamos doando coisas que "desaparecem" tão logo a pessoa os utilize; mas, se nós o fazermos despertar para o inesgotável tesouro interno, este jamais desaparecerá, jamais se esgotará.
Cont...


(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 08"; pgs. 57 à 65)


terça-feira, novembro 02, 2010

Transcendendo a fronteira do bem e do mal

Masaharu Taniguchi


VEJA APENAS A IMAGEM VERDADEIRA, O BEM ABSOLUTO

A base de tudo é o pensamento. Tudo foi criado através do pensamento. Portanto, se pensarmos no mal, se manifestará o mal. Isaías também disse algo que tem o seguinte significado: “Não vejas o mal. Quem vê o mal será afastado de Deus, porque para Ele não existe o mal”. Apenas o Bem existe verdadeiramente. Se em pensamento observamos o mal e não o soltamos da mente, perdemos de vista a Realidade de Deus. A verdadeira Realidade foi criada por Deus, e apenas essa criação existe eternamente, é indestrutível e seu valor não desaparece jamais.

Por que se diz que apenas o Bem existe verdadeiramente? Tanto o bem quanto o mal são existências mentais, pois são reconhecidos pela nossa mente. Contudo, o mal é sempre destrutivo. Tudo que for construído sobre o mal só poderá desmoronar. Mas é questão de suma importância saber o que é o mal e o que é o Bem. São muitos os fatos que durante a guerra eram considerados bons, mas, após a conquista da paz, passaram a ser considerados um mal. Há quem afirme que o bem e o mal são, em última análise, existências relativas, não existindo o mal absoluto nem o bem absoluto. Entretanto, nós afirmamos “Deus é Bem, logo, este mundo criado por Ele só pode ser bom”. O Bem, nesse caso, não é aquele bem relativo, que muda conforme a época e o ambiente. O Bem a que nos referimos na expressão “Só o Bem existe verdadeiramente” é o Bem absoluto, que jamais muda, transcendendo julgamentos baseados na relatividade.

Em linhas gerais, explicando sob a visão mitológica, o conceito de bem e mal consiste no conhecimento dualístico originado no momento em que Adão e Eva comeram o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, em outras palavras, o fruto da árvore do conhecimento. Enquanto permanecermos nessa dualidade, a humanidade só terá de ser expulsa do jardim do Éden, ou seja, do Paraíso.

Por esse motivo Jesus Cristo disse: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Surgiu a infelicidade do ser humano quando passaram a julgar como bom ou mau o seu semelhante. Quando o homem comeu o fruto da árvore as ciência do bem e do mal, foi expulso do Paraíso. Isso significa que, enquanto vivermos no mundo da relatividade, estaremos rodeados de diversas maldades e teremos de viver constantemente preocupados e angustiados com elas.


TRANSCENDENDO A FRONTEIRA DO BEM E DO MAL

Há uma antiga poesia que diz: “Se eu não pensar ‘Isso é bom, aquilo é mau, ele é odioso, ela é graciosa’, o mundo é todo meu, agora”. Em suma, sofremos neste mundo e somos expulsos do Paraíso porque comemos o fruto da ciência do bem e do mal e julgamos uns aos outros, pensando “aquilo é bom, aquilo é mau”. Quando abandonamos o pensamento que julga como bom ou mau e visualizamos o mundo do Bem absoluto, realiza-se o paraíso eterno.

Enquanto estivermos julgando “Isto é bom, aquilo é mau”, será inevitável observarmos a parte sombria, pois em tudo existe o lado sombrio. Com isso, visto que neste mundo fenomênico toma forma aquilo que reconhecemos na mente, seremos apartados do bem e passaremos a visualizar o mal em maior quantidade. Quando visualizamos o mal, preenchemos a nossa consciência com maus pensamentos. Enquanto mantemos tal hábito, vemos o lado mau de tudo e de todos, pintando completamente o mundo com as cores do mal. Mesmo que exista a luz, não a vemos se olharmos apenas o lado da sombra. Ao acordarmos de manhã, mesmo que os pássaros estejam cantando, não ouviremos seu canto; mesmo havendo lindas flores, não as veremos; mesmo que o céu esteja limpo e iluminado, não acharemos que o céu está azul. Veremos somente notícias desagradáveis nos jornais e observaremos as partes negativas e doentias do nosso trabalho e do nosso corpo. Se o Sol estiver brilhando, resmungaremos “Que dia quente!”, se o céu estiver nublado, reclamaremos “Hoje está realmente sombrio!”. Desse modo, tudo nos parecerá ruim. Não devemos nos tornar pessoas assim.

A pessoa que sabe existir, por trás dos raios solares o Amor de Deus que tudo vivifica, que percebe no interior das nuvens escuras a misericórdia divina que tudo favorece, que vê no canto dos pássaros os irmãos da Vida que se regozijam com a Vida de filho de Deus, esta sim é aquela que visualiza o Bem absoluto no âmago dos fenomênicos bem e mal relativos. Ou seja, não pensa no bem nem no mal fenomênico ao se defrontar com uma situação desesperadora, mas reconhece o que é a sua Vida. Essa é a Vida de Deus, e a pessoa só sente gratidão. E as palavras que surgem espontaneamente em seus lábios são “Obrigado, obrigado, muito obrigado”. Disso aflora uma vida iluminada. O Bem absoluto da Imagem Verdadeira é transportado através do pensamento de gratidão. Assim, projeta-se no mundo fenomênico o mundo do Bem absoluto da Imagem Verdadeira.


PURIFIQUE O PENSAMENTO E NELE SÓ EXISTIRÁ O BEM

Por longo tempo viemos introduzindo ideias do mal no mundo do pensamento, que é a origem do mundo fenomênico. Viemos lançando a lama da ideia do mal no mundo da Imagem Verdadeira, puro e límpido como a água fresca e clara; remexemos essa água e dizemos: “Este mundo está repleto do mal”, como se disséssemos “Esta água está turva”. Estamos, afinal, olhando a sombra do nosso pensamento e, na verdade, o mal não existe de fato. A água parece estar turva, mas ela é a combinação de oxigênio com hidrogênio e não está suja. Suja é apenas a lama contida nela. De modo semelhante, não é a Imagem Verdadeira que está suja, mas o nosso pensamento que a tornou maculada. Basta purificar o nosso pensamento que enxergaremos este mundo exatamente como é sua Imagem Verdadeira, tão pura e límpida quanto a genuína água. Assim se concretiza o reino do céu aqui na Terra.


O QUE PARECE SER MATÉRIA É CONCRETIZAÇÃO DO PENSAMENTO

Mesmo no século XX, a maior descoberta da humanidade é o fato de que aquilo que existe na raiz de todas as coisas não é algo material, mas pensamento. Com o desenvolvimento da Física, descobriu-se que a matéria não passa de éter se agitando em torvelinho, o nada. Descobriu-se que a força que movimenta o éter é uma energia inteligente sem forma. Descobriu-se, portanto, que essa energia inteligente nada mais é que o pensamento, que a Fonte que preenche o Universo é Deus e que todos os corpos celestes, os minerais, vegetais e os seres vivos são concretizações dessa grandiosa energia inteligente de Deus.

Essa energia inteligente se aloja em nós e se tornou nossa Vida. Consequentemente, o nosso pensamento é uma parcela do pensamento de Deus e está interligado no todo, sendo fato natural que o nosso pensamento tem o poder de criar tudo. Por isso, apesar de a Imagem Verdadeira deste mundo ser fundamentalmente o Bem absoluto, podemos criar provisoriamente o mal com o nosso pensamento e sofrermos.


ESTABELECER UMA NOVA VIDA COM A VERDADEIRA SABEDORIA

Este mundo apresenta a imagem do mal porque comemos o fruto da ciência do bem e do mal e passamos a nos preocupar pensando no bem ou no mal. Preocupamo-nos com a ideia do bem e do mal porque vemos as manifestações fenomênicas dos cinco sentidos e pensamos que sejam a Imagem Verdadeira. A isso se diz “ser ludibriado pela sabedoria da serpente”. Foi a serpente que nos ensinou a comer o fruto da sabedoria. A serpente se movimenta rastejando sobre o solo, isto é, sobre a matéria. É símbolo da sabedoria dos cinco sentidos que reconhecem a matéria como existente.

Não devemos concluir que existe aquilo que reconhecemos através dos cinco sentidos. A água límpida é quase invisível. Enxergamos a água porque ela está turva e toda água contém alguma impureza. De modo similar, a Imagem Verdadeira não é visível aos cinco sentidos. O que vemos são sombras de nosso pensamento impuro e dizemos que este mundo tem impurezas, tem maldades. E, emitindo tal pensamento, damos origem a mais impurezas. Assim, uma impureza gera outra, sucessivamente. Dizemos com isso que o mundo fenomênico está repleto de sofrimentos. O caminho para interceptar essas impurezas é conhecer a lei da mente e procurar não suscitar mais impurezas mentais. Para isso, devemos, antes de tudo, desviar os olhos das impurezas fenomênicas e serenar a mente, visualizando o mundo da Imagem Verdadeira semelhante a uma esfera cristalina.

Lance os olhos da mente em direção à Imagem Verdadeira. Veja o mundo da Imagem Verdadeira. Veja o homem da Imagem Verdadeira. Deus é só Bem. Este mundo criado por Deus é só Bem. E o filho de Deus criado por Deus é só Bem. Não só eu sou o Bem, mas todas as pessoas são o Bem. Mentalize isso constantemente. E veja em você e ao seu redor a imagem perfeita e harmoniosa da Criação de Deus. Aí se manifestará Deus. Aí se concretizará o reino de Deus.

Este é o verdadeiro significado das palavras de Cristo “O reino de Deus está dentro de vós”. Apenas o bem existe verdadeiramente, e, se desejarmos estabelecer a nossa vida sobre o pensamento do mal, no final a nossa vida se desmoronará, porque estaremos construindo-a sobre uma base inexistente. Apenas o bem existe verdadeiramente e, portanto, a força real que nos sustenta é só o bem. Aquilo que não é sustentado pelo bem, acaba se desmoronando. O princípio que nos faz prosperar é descobrir a Realidade, e, sendo essa Realidade o Bem absoluto, quando estabelecemos nossa vida sobre esse bem, no mundo fenomênico também se manifesta o verdadeiro bem.


sábado, outubro 30, 2010

Você é o Ser

[RAMANA_MAHARSHI_ARUNASHALA_3.jpg]
Ramana Maharshi


Pergunta: Como posso atingir o Ser (Self)?

Bhagavan: Não existe atingir o Ser. Se o Ser fosse para ser alcançado, significaria que o Ser não está aqui e agora e que ainda está para ser obtido. O que é conseguido de novo também será perdido. Portanto será impermanente. Não vale a pena lutar para obter o que não é permanente. Então, digo que o Ser não é alcançado. Você é o Ser, você já é isso.

O fato é que você é ignorante do seu estado bem-aventurado. A ignorância sobrevém e lança um véu sobre o puro Ser, o qual é bem-aventurança. As tentativas são direcionadas apenas para remover esse véu da ignorância que é meramente conhecimento errôneo. O conhecimento errôneo é a falsa identificação do Ser com o corpo e a mente. Essa falsa identificação tem que ir, e então apenas o Ser permanece.

Portanto, a realização é para todos, a realização não faz diferença entre os aspirantes. Essa própria dúvida, se você pode Realizar, e a noção 'eu-não-Realizei' são os obstáculos em si. Livre-se desses obstáculos também.

P: Quanto tempo leva para atingir a liberação (mukti)?

B: Mukti não é para ser ganhada no futuro. Ela existe para sempre, aqui e agora.

P: Eu concordo, mas não experimento isso.

B: A experiência está aqui e agora. Não se pode negar seu próprio Ser.

P: Isso significa existência e não felicidade.

B: Existência é o mesmo que felicidade e felicidade é o mesmo que Ser. A palavra mukti é muito provocante. Por que deveríamos buscá-la? Acreditamos que há aprisionamento e portanto buscamos isso. Mas o fato é que não há aprisionamento, apenas liberação. Por que chamá-la por um nome e então buscá-la?

P: Verdade, mas nós somos ignorantes.

B: Apenas remova a ignorância. Isso é tudo o que precisa ser feito. Todas as questões relacionadas com mukti são inadmissíveis. Mukti significa livrar-se do aprisionamento, o que implica a presente existência do aprisionamento. Não há aprisionamento e portanto não há liberação também.

P: De que natureza é a realização dos ocidentais que relatam que tiveram flashes de consciência cósmica?

B: Ela veio como um flash e desapareceu da mesma maneira. Aquilo que tem um começo deve também ter um fim. Apenas quando a consciência sempre-presente for realizada ela será permanente. A consciência de fato está sempre conosco. Todos conhecem 'eu sou'. Ninguém pode negar seu próprio Ser. O homem em sono profundo não está ciente, enquanto está acordado ele parece estar ciente. Mas é a mesma pessoa. Não há mudança naquele que dormiu e naquele que está acordado agora. No sono profundo ele não estava ciente de seu corpo, e, portanto, não havia consciência-corpo (ego). No estado desperto ele está ciente de seu corpo e, portanto, há consciência-corpo. Portanto, a diferença está no emergir da consciência-corpo e não em nenhuma mudança na consciência real.

O corpo e a consciência-corpo emergem juntos e submergem juntos. Tudo isso corresponde a dizer que não há limitações no sono profundo, enquanto que há limitações no estado desperto. Essas limitações são o aprisionamento. O sentimento 'o corpo sou eu' é o erro. Esse falso sentido de 'eu' tem que ir embora. O 'Eu' real está sempre aí. Ele está aqui e agora. Ele nunca aparece como algo novo e depois desaparece novamente. Aquilo que É deve persistir para sempre também. Aquilo de novo que aparece também será perdido. Compare o estado desperto com o sono profundo. O corpo aparece em um estado mas no outro não. Portanto o corpo será perdido. A consciência era pré-existente e irá sobreviver ao corpo.

Não há ninguém que não diga 'eu sou'. O conhecimento errôneo 'eu sou o corpo' é a causa de todo prejuízo. Esse conhecimento errôneo deve ir embora. Isso é a realização. A realização não é a aquisição de nada novo nem é uma nova faculdade. É apenas a remoção de toda camuflagem.

A verdade última é tão simples! Não é nada mais do que estar no estado original. Isso é tudo o que precisa ser dito.


sexta-feira, outubro 29, 2010

Turiya: O estado natural do Ser

Ramana Maharshi



Pergunta: O que é o estado Turiya?

Bhagavan: Existem apenas três estados, vigília, sonho e sono. Turiya não é um quarto estado, ele é o que sublinha esses três. Mas as pessoas não o compreendem de imediato. Por isso, é dito que esse é o quarto estado e é a única Realidade. Na verdade ele não está à parte de tudo, pois forma o substrato de todos os acontecimentos, ele é a única verdade e é o teu próprio Ser. Os três estados aparecem como fenômenos fugazes sobre ele e depois se afundam para dentro dele. Portanto, eles são irreais. As imagens em um cinema são apenas sombras passando sobre tela. Elas tem seu aparecimento, se movem para frente e para trás, mudam de uma para outra, dessa forma são irreais, enquanto que a tela o tempo todo mantém-se inalterada. Da mesma forma, numa pintura: as imagens são irreais e a tela é real. Assim também é conosco: o mundo dos fenômenos, dentro ou fora, são apenas fenômenos passageiros e não são independentes de nosso Ser. Somente o hábito de olhar para eles como sendo reais e localizados fora de nós é que é responsável por deixar escondido o nosso verdadeiro Ser e aparente todo o restante. A única Realidade sempre presente, o Ser, ao ser encontrado, fará todas as outras coisas irreais desaparecerem, deixando como resíduo o conhecimento de que elas não são nada além do Ser. Turiya é apenas um outro nome para o Ser. Cientes dos estados de vigília, sonho e sono, continuamos inconscientes do nosso próprio Ser. No entanto, o Ser está aqui e agora, é a única Realidade. Não há nada mais. Enquanto dura a identificação com o corpo o mundo parece estar fora de nós. Apenas realize o Ser e ele não estará mais fora.

P: Eu consigo entender a unidade na variedade, mas não consigo percebê-la.

B: Porque você está na variedade você diz que entende a unidade, que tem flashes da realidade, que se lembra dela, etc., você considera esta variedade como sendo real. Por outro lado, a Unidade é a realidade, e a variedade é falsa. A variedade deve ir antes que a unidade se revele, antes que revele a sua realidade. Ela é sempre real. Ela não envia flashes de seu ser nesta variedade falsa. Pelo contrário, esta variedade obstrui a verdade.

P: A graça é necessária para a remoção da ignorância.

B: Com certeza. Mas a Graça está o tempo todo aí. A Graça é o Ser. Não é algo a ser adquirido. Tudo o que é necessário é conhecer sua existência. Por exemplo, o sol é só brilho. Ele não vê escuridão. Ao passo que as pessoas falam da escuridão fugindo do sol enquanto ele se aproxima. Da mesma forma, a ignorância também é um fantasma e não é real. Devido à sua irrealidade, ao descobrirmos sua natureza irreal, se diz que ela foi removida. Novamente, o sol está lá e também está brilhando. Você está rodeado pela luz solar. Ainda assim, para você conhecer o sol você tem que voltar seus olhos na direção dele e olhar para ele. Da mesma forma, a Graça só é encontrada através de práticas, embora esteja aqui e agora.

P: Espero eu, que pelo constante desejo de me render, uma Graça crescente seja experimentada.

B: Renda-se de uma vez por todas e acabe com os desejos. Enquanto o senso de ser o fazedor é mantido existe os desejos; isso também é a personalidade. Se isso for embora o Ser será descoberto brilhando de maneira pura. O senso de 'fazedor' é o aprisionamento, e não as próprias ações. "Aquietai-vos e sabeis que Eu sou Deus." Aqui, quietude é a rendição total, sem nenhum vestígio de individualidade. A quietude prevalecerá e não haverá agitação da mente. A agitação da mente é a causa do desejo, do senso de fazedor e da personalidade. Se ela é interrompida, há serenidade. Desse modo, "Saber" significa "Ser". E não é um conhecimento relativo envolvendo a tríade - conhecimento, sujeito e objeto.

P: Após o retorno da consciência-corpo...

B: O que é a consciência-corpo? Diga-nos isso primeiro. Quem é você à parte da consciência? O corpo é encontrado porque há consciência-corpo que surge da "consciência-eu", que novamente surge da Consciência.



Consciência → 'consciência-eu' → consciência-corpo → corpo.



Há sempre a consciência e nada mais que isso. O que você está agora considerando ser a consciência-corpo deve-se à sobreposição. Se houvesse somente a consciência e nada além dela, o significado da Escritura 'Atmanastu kamaya bhavati priyam sarvam' (Todos são queridos por causa do amor do Ser) se tornaria claro.

terça-feira, outubro 26, 2010

O que não tem princípio, é Eterno


Nisargadatta Maharaj


Pergunta: No outro dia perguntei a você sobre os dois caminhos de crescimento: a renúncia e o desfrute (yoga e bhoga). A diferença não é tão grande quanto parece, o iogue renuncia ao prazer; o bhogi aprecia a renúncia. O iogue renuncia em primeiro lugar; o bhogi primeiro desfruta.

Maharaj: E daí? Deixe o iogue com sua Ioga e o bhogi com sua Bhoga.

P: O caminho da Bhoga me parece o melhor. O iogue é como uma manga verde, separada prematuramente da árvore e posta para amadurecer em uma cesta de palha. Sem ar e superaquecida, amadurece, mas o sabor e a fragrância verdadeiros se perderam. A manga deixada na árvore cresce até o tamanho normal, tem cor e doçura, um prazer em todas as formas. No entanto, a Ioga obtém todos os louvores e a Bhoga – todas as maldições. Tal como eu vejo, a Bhoga é a melhor das duas.

M: O que o faz dizer isto?

P: Tenho observado os iogues e seus enormes esforços. Mesmo quando se realizam, nota-se certa amargura ou austeridade. Parece que passam muito tempo em transes e, quando falam, meramente citam suas escrituras. No melhor dos casos, tais gnanis são como flores – perfeitas, mas pequenas, espalhando suas fragrâncias em um curto raio. Há outros que são como florestas – ricos, variados, imensos, cheios de surpresas, um mundo em si mesmos. Deve existir alguma razão para esta diferença.

M: Você mesmo o disse. Segundo você, um atrofiou-se em sua Ioga, enquanto o outro floresceu em sua Bhoga.

P: Não é assim? O iogue teme a vida e busca a paz, enquanto o bhogi é aventureiro, cheio de vigor, indo adiante. O iogue está limitado por um ideal, enquanto o bhogi sempre está disposto a explorar.

M: É uma questão de querer muito ou ficar satisfeito com pouco. O iogue é ambicioso, enquanto o bhogi meramente é aventureiro. O bhogi parece ser mais rico e interessante, mas, na realidade, não é assim. O iogue é estreito como o fio de uma lâmina. Tem que ser – para cortar profunda e suavemente, para penetrar sem erro as múltiplas coberturas do falso. O bhogi adora em muitos altares; o iogue não serve a ninguém, exceto a seu próprio Ser verdadeiro.

Não tem sentido opor o iogue ao bhogi. O caminho de saída (pravritti) precede necessariamente ao caminho de regresso (nivritti). Julgar – e repartir qualificações – é ridículo. Tudo contribui para a perfeição final. Alguns dizem que há três aspectos da realidade – Verdade-Sabedoria-Felicidade. Aquele que busca a Verdade torna-se um iogue, aquele que busca a sabedoria se converte em gnani; aquele que busca a felicidade se converte em homem de ação.

P: Falaram-nos da felicidade da não-dualidade.

M: Tal felicidade é mais da natureza de uma grande paz. O prazer e a dor são os frutos das ações – corretas ou incorretas.

P: O que faz a diferença?

M: A diferença está entre o dar e o tomar. Qualquer que seja o modo de aproximação, no fim todos se tornarão um.

P: Se não há diferença na meta, por que discriminar entre várias aproximações?

M: Deixe que cada um atue de acordo com sua natureza. Em qualquer caso, o propósito derradeiro não deixará de ser cumprido. Todas as suas discriminações e classificações estão bastante bem, mas não existem em meu caso. Assim como a descrição de um sonho pode ser detalhada e acurada embora sem qualquer fundamento, igualmente o seu modelo não se ajusta exceto a suas próprias presunções. Você começa com uma ideia e termina com a mesma ideia vestida diferentemente.

P: Como você vê as coisas?

M: O um e o todo são o mesmo para mim. A mesma consciência (chit) aparece como o ser (sat) e como felicidade (ananda); Chit em movimento é Ananda; Chit imóvel é ser.

P: Não obstante, ainda está fazendo uma distinção entre movimento e imobilidade.

M: A não-distinção fala em silêncio. As palavras transmitem distinções. O imanifesto (nirguna) não tem nome, todos os nomes se referem ao manifesto (saguna). É inútil lutar com palavras para expressar o que está além delas. A consciência (chidananda) é espírito (purusha), a consciência é matéria (prakriti). O espírito imperfeito é a matéria, a matéria perfeita é o espírito. No princípio, como no fim, tudo é um.

Todas as divisões estão na mente (chitta); não há nenhuma na realidade (chit). O movimento e o repouso são estados da mente e não podem existir sem seus opostos. Por si mesmo nada se move, nada repousa. É um grave erro atribuir existência absoluta a construções mentais. Nada existe por si mesmo.

P: Parece que você identifica o repouso com o Estado Supremo.

M: Existe o repouso como estado mental (chidaram) e existe o repouso como um estado de ser (atmaram). O primeiro vem e vai, enquanto o verdadeiro repouso é o próprio coração da ação. Por desgraça, a linguagem é uma ferramenta mental e funciona só com opostos.

P: Como testemunha, você está trabalhando ou em repouso?

M: Testemunhar é uma experiência, e o repouso é a liberação da experiência.

P: Não podem coexistir como o tumulto das ondas e a quietude das profundezas coexistem no oceano?

M: Além da mente (chit) não existe tal coisa como a experiência. A experiência é um estado dual. Você não pode falar da realidade como de uma experiência. Uma vez que isto seja entendido, você não mais verá o ser e o devir como separados e opostos. Na realidade são um e inseparáveis, como raízes e ramos da mesma árvore. Ambos só podem existir à luz da consciência que, de novo, surge no despertar do sentido de ‘Eu sou’. Este é o fato primário. Se você não percebe o sentido exato disto, você perdeu tudo.

P: A sensação de ser é apenas um produto da experiência? O grande dito (Mahavakya) tat-sat é um mero modo de atividade mental?

M: Qualquer coisa que diga é apenas fala. Qualquer coisa que pense é apenas pensamento. O significado real é inexplicável, embora experimentável. O Mahavakya é verdadeiro, mas suas ideias são falsas, pois todas as ideias (kalpana) são falsas.

P: A convicção ‘Eu sou Aquilo’ é falsa?

M: Certamente. A convicção é um estado mental. No ‘Aquilo’ não existe nenhum ‘Eu sou’. Quando surge o sentido de ‘Eu sou’, ‘Aquilo’ é obscurecido, da mesma forma que ao sair o sol as estrelas se apagam. Mas como com o sol vem a luz, assim, com a sensação de ser, vem a felicidade (chidananda). A causa da felicidade é buscada no ‘não-eu’ e, desse modo, começa a escravidão.

P: Em sua vida diária é sempre consciente de seu estado real?

M: Nem consciente, nem inconsciente. Eu não necessito de convicções. Eu vivo da coragem. A coragem é minha essência, a qual é amor à vida. Estou livre de recordações e antecipações, sem preocupar-me com o que sou e com o que não sou. Não sou viciado em autodescrições; soham e brahmasmi (‘Eu sou Ele’, ‘Eu sou o Supremo’) não me servem para nada, porque tenho a coragem de ser como nada e de ver o mundo como é, isto é, nada. Soa simples, mas tente-o!

P: Mas, o que lhe dá coragem?

M: Quão distorcido é seu modo de ver! A coragem é algo que se dá? Sua pergunta implica que a ansiedade é o estado normal e que a coragem é anormal. É ao contrário. A ansiedade e a esperança nascem da imaginação – eu estou liberado de ambas. Sou um ser simples e não necessito nada em que me apoiar.

P: A menos que conheça a si mesmo, de que lhe serve seu ser? Para ser feliz com o que você é, você deve conhecer o que é.

M: O ser brilha com o conhecer, e o conhecer é cálido em seu amor. Tudo é um. Você imagina divisões e cria problemas para si mesmo com perguntas. Não se interesse demasiadamente em formulações. O ser puro não pode ser descrito.

P: A menos que uma coisa seja conhecida e apreciada, não me servirá para nada. Antes de tudo, deverá converter-se em parte de minha experiência.

M: Você está reduzindo a realidade ao nível da experiência. Como pode a realidade depender da experiência, quando é seu próprio fundamento (adhar)? A realidade está no próprio fato da experiência, não em sua natureza. Depois de tudo, a experiência é um estado mental, enquanto o ser não é de nenhum modo um estado mental.

P: Outra vez estou confuso! O ser (sat) está separado do conhecer (chit)?

M: A separação é uma aparência. Como o sonho não está separado do sonhador, assim o conhecer não está separado do ser. O sonho é o sonhador, o conhecimento é o conhecedor, a distinção é meramente verbal.

P: Agora posso ver que sat e chit são um. Mas o que acontece com ananda? O ser e a consciência sempre estão juntos, mas a felicidade apenas brilha ocasionalmente.

M: O estado despreocupado do ser é felicidade; o estado perturbado é o que aparece como o mundo. Na não-dualidade há felicidade; na dualidade – experiência. O que vem e vai é a experiência com sua dualidade de prazer e dor. A felicidade não é para ser conhecida. Sempre se é felicidade, mas nunca se é feliz. A felicidade não é um atributo.

P: Tenho outra pergunta a fazer. Alguns iogues alcançam sua meta, mas ela não serve para os outros. Não sabem ou não podem compartilhar com os demais. Aqueles que podem compartilhar o que têm iniciam outros. Onde está a diferença?

M: Não há diferença. O seu ponto de vista é incorreto. Não há outros a quem ajudar. Um homem rico, quando transferiu toda sua fortuna para sua família, não tem nem uma moeda para dar a um mendigo; do mesmo modo é o sábio (gnani), despido de todos seus poderes e posses. Nada, literalmente nada, pode ser dito dele. Não pode ajudar a ninguém porque ele é todos. Ele é o pobre e também sua pobreza, o ladrão e também seu roubo. Como se pode dizer que ajuda quando ele não está separado? Aquele que se crê separado do mundo que o ajude.

P: Ainda assim há dualidade, aflição, há necessidade de ajuda. Denunciá-lo como um mero sonho não serve para nada.

M: A única coisa que pode ajudar é despertar do sonho.

P: Um despertador é necessário.

M: O qual, novamente, está no sonho. O despertador significa o começo do fim. Não existem sonhos eternos.

P: Mesmo quando não têm princípio?

M: Tudo começa com você. Que outra coisa não tem princípio?

P: Eu começo ao nascer.

M: Isso é o que lhe disseram. É assim? Viu-se a si mesmo começando?

P: Eu começo agora mesmo. Tudo o mais é memória.

M: Correto. O que não tem princípio é para sempre. Do mesmo modo, eu dou eternamente porque nada tenho. Ser nada, ter nada, não guardar nada para si mesmo é o maior presente, a mais elevada generosidade.

P: Não resta nenhum interesse próprio?

M: Certamente que há interesse próprio, mas o ser é tudo. Na prática, toma a forma de boa vontade, universal e inesgotável. Pode chamá-lo amor que abarca tudo, que redime tudo. Tal amor é supremamente ativo – sem a sensação de fazer.


sábado, outubro 23, 2010

Sobre o perdão (Osho)

Pergunta: "Por favor, você poderia dizer algo sobre o perdão?"



[osho3.jpg]



Osho: É uma das coisas mais fundamentais para entender.

As pessoas geralmente pensam que o perdão é para aqueles que são dignos disso, que ele apenas para aqueles que o merecem. Mas, quando somente alguém que merece ser digno de receber o perdão é perdoado, isso não é muito um perdão. Você não está fazendo nada de sua parte - é ele quem merece. Você não está sendo amoroso e compassivo. Seu perdão só será autêntico quando até mesmo aqueles que não merecem puderem recebê-lo. Não se trata de se a pessoa merece ou não. A questão é se seu coração está preparado ou não.

Recordo-me de uma das místicas mais significantes, Rabiya al-Adabiya. Ela era uma mulher Sufi conhecida pelo seu comportamento muito excêntrico. Porém, em todo seu comportamento excêntrico havia um grande insight.

Uma vez, outro místico Sufi - Hasan - esteve com Rabiya. Devido ao fato de ele ter ido para estar com Rabiya, ele não trouxe seu sagrado Corão, que ele costumava ler toda manhã como parte de sua disciplina. Ele pensou que poderia pegar emprestado o sagrado Corão de Rabiya, e foi por isso que ele não trouxe a sua própria cópia.

Pela manhã ele pediu a Rabiya e ela lhe deu uma cópia sua. Ele não podia acreditar no que via. Quando ele abriu o Corão ele viu algo que nenhum Maometano podia acreditar: em muitas partes a Rabiya o tinha corrigido. Isso é o maior pecado para os Maometanos pois, segundo eles, o Corão é a palavra de Deus. Como você pode alterá-lo? Como é que você pode até mesmo se achar capaz de melhorá-lo? Ela não apenas o mudou, ela simplesmente eliminou algumas palavras, algumas linhas - ela as removeu.

Hasan disse a ela: "Rabiya, alguém destruiu seu Corão!" Rabiya disse: "Não seja tolo, ninguém toca em meu Corão. O que você está olhando fui eu que fiz". Hasan disse: "Mas como é que você pode fazer uma coisa dessas?". Ela disse: "Eu tinha que fazê-lo, não havia outro jeito. Por exemplo, veja aqui: o Corão diz, 'Quando você encontrar o diabo, odeie-o'. Desde que me tornei desperta não posso encontrar nenhum ódio dentro de mim. Mesmo se o diabo ficar diante de mim só posso banhá-lo com meu amor, porque não tenho mais nada para dar. Não importa se é Deus ou o diabo que está diante de mim; ambos irão receber o mesmo amor. Tudo que tenho é amor; o ódio desapareceu. No momento em que o ódio desapareceu de mim, eu tinha que efetuar mudanças no meu livro do sagrado Corão. Se você não o mudou, isso simplesmente significa que você ainda não chegou no espaço onde só o amor permanece."

Eu vou lhes dizer: pessoas que são dignas ou pessoas que não são dignas... não faz nenhuma diferença para o homem que chegou no espaço do perdão. Ele irá perdoar sem considerar quem o merece. Ele não pode ser tão mesquinho que só os dignos possam recebê-lo. E onde ele irá encontrar essa implacabilidade para perdoar? Essa é uma perspectiva totalmente diferente. A resposta não está relacionada com o outro. Quem é você para julgar se o outro é digno ou indigno? O próprio julgamento é feio e medíocre.

Há um homem, Rudolph Hess... Ele certamente é um dos maiores criminosos já conhecidos. E o crime dele se torna um milhão de vezes maior porque no julgamento de Nuremburg, com os outros companheiros de Adolf Hitler - que matou quase oito milhões de pessoas na Segunda Guerra Mundial -, ele disse diante da corte: "Não me arrependo de nada!". Não apenas isso, ele também disse: "E se eu pudesse começar do princípio, eu faria o mesmo novamente". É muito natural achar que esse homem não merece nenhum perdão; esse será o entendimento comum. Todos irão concordar com você.

Mas não posso concordar com você. Não importa o que Rudolph Hess tenha feito, o que ele está dizendo. O que importa é que você é capaz de perdoar até mesmo ele. Isso irá elevar sua consciência às alturas. Se você não puder perdoar Rudolph Hess você irá permanecer apenas um ser humano comum, com todo tipo de julgamento de merecimento ou de não merecimento. Mas basicamente você não pode perdoá-lo porque seu perdão não é suficientemente grande.

Posso perdoar o mundo inteiro pelo simples motivo de que meu perdão é absoluto; não depende de julgamento. Vou lhe contar uma pequena história Tibetana que irá tornar o ponto absolutamente claro para você.

Um antigo grande mestre, adorado por milhões de pessoas, recusou-se a iniciar qualquer um como discípulo. Durante toda sua vida, consistentemente, reis lhe pediram, pessoas ricas lhe pediram, grandes ascetas lhe pediram - homens santos! -, para serem iniciados como seus discípulos, e ele continuou recusando. Ele sempre dizia, "A menos que encontre um homem que o mereça, a menos que eu encontre um homem digno disso... Não vou iniciar nenhum."

Ele tinha um jovem que costumava cozinhar para ele, lavar suas roupas, comprar vegetais no mercado. O próprio garoto foi lentamente crescendo, e por toda sua vida ele escutou o velho homem, que havia vivido quase cem anos, e que sempre recusava quem quer que o procurasse. Sem exceção: ninguém era digno! "Posso morrer sem iniciar ninguém", ele dizia, "mas não irei iniciar alguém que seja indigno".

As pessoas ficaram cansadas, frustradas. Elas amavam o homem, ele tinha qualidades imensas, mas não podiam entender aquela atitude tão teimosa, a qual mostrava-se sem nenhuma ternura, nenhuma compaixão.

Mas, numa manhã, o velho acordou seu companheiro, que já tinha envelhecido, e lhe disse: "Corra imediatamente morro abaixo até o mercado e diga a todos que quem quiser ser iniciado deve vir logo, porque nesse entardecer, quando o sol se pôr, eu vou morrer".

Seu companheiro respondeu: "Mas e quanto ao merecimento? Não sei quem é digno e quem é indigno. A quem devo trazer?"

O velho homem falou: "Não se preocupe com isso. Era apenas uma tática, porque eu mesmo não era digno de iniciar ninguém. No entanto, era contra minha própria dignidade dizer isso. Então escolhi outro modo. Eu estava dizendo, 'A menos que encontre alguém bastante digno, bastante merecedor, eu não irei iniciar'. Mas a verdade é que eu não era digno de ser um mestre. Agora sou, só que agora o tempo é curto. Somente na manhã de hoje quando o sol estava surgindo, minha própria consciência atingiu o pico supremo. Agora estou pronto. Agora não importa quem é digno e quem é não é. O importante agora é que eu sou digno. Vá e traga qualquer um! Vá e avise a toda a vila que esse é o último dia da minha vida e qualquer um que queira ser iniciado deve vir imediatamente. Traga tantos quanto possível".

O companheiro do velho homem ficou perplexo, mas não havia tempo para argumentar. Ele desceu o morro correndo, chegou ao mercado e gritou por toda a vila: "A todos que queriam se tornar um discípulo, o velho homem agora está pronto!"

As pessoas não podiam acreditar nisso. Mas por curiosidade alguns pensaram: "Não há nenhum problema em ir pelo menos para ver o que está acontecendo". O homem havia se recusado por toda sua vida, e no último dia da sua vida uma mudança tão grande havia ocorrido. A esposa de alguém tinha falecido e ele estava se sentindo muito só, então ele pensou, "Isso é bom. Se ele vai iniciar todo mundo, sem nenhuma questão de merecimento...". Alguém havia sido libertado da prisão na noite anterior, e igualmente pensou, "Ninguém vai me dar emprego; isso é uma boa oportunidade de virar um santo".

Todo tipo de pessoas estranhas foram para a caverna do velho homem, e seu companheiro ficou tão embaraçado pelo tipo de pessoas que ele tinha trazido: Um é criminoso, a esposa de outro havia falecido, é por isso que ele pensa, "Assim é melhor... oq ue mais farei agora?" Alguém tinha ido a falência e estava pensando em cometer suicídio, mas agora pensava que isso era melhor que o suicídio.

Alguns tinham vindo por curiosidade; eles não tinham nenhum outro trabalho. Eles estavam tocando jazz e pensaram: "Podemos tocar jazz amanhã, mas hoje não há nenhum problema, nós vamos lá ver o que é essa iniciação. De qualquer maneira, esse homem vai morrer ao entardecer e assim estaremos livres para permanecermos discípulos ou não. Podemos tocar jazz amanhã - não há nenhum problema".

O companheiro do velho homem estava se sentindo muito embaraçado. "Como irei apresentar essa gente estranha quando esse velho homem recusou reis, santos, sábios, que tinham vindo com profunda seriedade para ser iniciados? E agora ele vai iniciar esse bando!" Ele estava até mesmo envergonhado, mas ele entrou e perguntou: "Devo chamar as pessoas? Onze deles estão aí".

O velho homem disse: "Chame-os rápido, porque já entardeceu. Você demorou muito tempo e só pôde trazer onze pessoas?"

Seu companheiro disse: "O que posso fazer? É um dia de trabalho; não é um feriado. Só consegui esses. Todos são absolutamente inúteis; mesmo eu não poderia iniciá-los. Não apenas que eles não sejam dignos - eles são absolutamente indignos. Porém você insistiu em trazer alguém; só ninguém mais estava disponível".

O velho homem disse: "Não há nenhum problema. Traga-os para dentro". E ele os iniciou a todos. Mesmo eles estavam chocados. E disseram para o velho homem: "Esse é um comportamento estranho. Toda sua vida você insistiu que nós precisávamos merecer ser um discípulo. O que aconteceu com o seu principio?"

O velho homem sorriu. Ele disse: "Isso não era um principio, era apenas para esconder minha própria indignidade. Eu ainda não estava preparado para ser um mestre. E não posso trapacear ninguém, não posso enganar ninguém. Daí eu ter me ocultado atrás da atitude julgadora de que, a menos que vocês mereçam, não conseguirão a iniciação".

Obviamente ninguém é digno.

Todo mundo tem seus próprios defeitos, fraquezas. Todos fizeram coisas que nunca quiseram fazer. Todo mundo se desviou. Ninguém pode dizer que é absolutamente puro, todos estão poluídos. Assim quando o velho homem insistiu dizendo: "A menos que você seja digno não volte para mim", ninguém discutiu com ele - ele estava certo. Primeiro eles tinham que ser merecedores!

No último dia, ele disse para aqueles onze discípulos: "Eu os abençôo e inicio vocês. Não importa se vocês são merecedores ou não, mas pela primeira vez sou digno. E se sou realmente digno, basta minha presença para purificar vocês. Meu mérito de ser um mestre irá tornar vocês discípulos dignos. Agora não preciso depender do merecimento de vocês. Meu mérito é suficiente."

"Sou como uma nuvem carregada de chuva; irei banhar todo o lugar - sobre as montanhas, nas ruas, nas casas, nas fazendas, nos jardins. Irei banhar todo lugar, porque estou sobrecarregado demais com minha água de chuva. Não importa se o jardim merece... Não faço qualquer distinção entre o jardim e as pedras. Irei simplesmente chover a partir da minha abundância".

Se sua Meditação lhe traz para esse estado de nuvem de chuva, você irá perdoar sem nenhum julgamento a partir da sua abundância, do seu amor, da sua compaixão.

De fato, eu gostaria de declarar que o homem que é indigno merece mais do que aquele que é digno. O homem que não merece, merece mais - porque ele é tão pobre! Não seja duro com ele. A vida tem sido difícil para com ele. Ele se perdeu, ele tem sofrido por causa de seus atos errados. Agora não seja duro com ele. Ele precisa de mais amor do que aqueles que são merecedores. Ele precisa de mais perdão do que aqueles que são dignos.

Essa deve ser a única abordagem de um coração religioso.

Essa questão foi trazida perante Gautama Buda, porque ele estava prestes a iniciar um assassino no sannyas - e o assassino não era um assassino comum. Rudolph Hess não é nada comparado a ele. Seu nome era Angulimala. Angulimala significa "um homem que usa um colar de dedos humanos".

Ele fez o juramento de que mataria mil pessoas, e não menos que isso, porque a sociedade não o tratava bem. Ele jurou que de cada dessas mil pessoas ele retiraria um dedo e faria um rosário de dedos em volta do pescoço. Na ocasião da história, ele já tinha novecentos e noventa e nove dedos coletados - no seu colar só estava faltando um. E esse último dedo estava faltando devido ao fato que a estrada onde esse homem ficava estava fechada; ninguém passava por esse caminho. Ele matou 999 pessoas. Ninguém ia onde ele estava; quando as pessoas ficavam sabendo onde ele estava, o tráfego deixava de ir para aquela direção. E assim ficou muito difícil para ele encontrar uma pessoa, e apenas mais uma era necessária.

Gautama Buda, porém, entrou naquela estrada fechada. O rei tinha colocado guardas na estrada para impedir as pessoas, principalmente estrangeiras, que não sabiam que um homem perigoso vivia por trás das colinas. Os guardas deram o aviso a Gautama Buda: "Essa não é uma estrada para ser usada. Você terá que tomar um caminho mais longo, mas é melhor caminhar um pouco mais do que penetrar na boca da própria morte. Esse é o lugar onde Angulimala vive. Até mesmo o rei não tem coragem de andar por essa estrada. Esse homem é simplesmente louco."

A mãe dele costumava chegar até ele. Ela era a única pessoa que podia ir de vez em quando vê-lo, mas até mesmo ela deixou de ir. Na última vez que ela foi, ele disse a ela: "Agora só está faltando um dedo e apenas porque você é minha mãe... quero lhe avisar que se você vier outra vez, você não voltará mais. Preciso desesperadamente de um dedo. Até agora não lhe matei porque outras pessoas estavam disponíveis, mas agora ninguém mais passa por essa estrada exceto você. Então quero que você saiba que da próxima vez, se você vier, será sua responsabilidade, não minha." Desde aquela vez a mãe dele não veio mais.

Os guardas disseram a Buda: "Não corra um risco tão desnecessário". E vocês sabem o que Buda disse a eles? "Se eu não for, então quem irá? Apenas duas coisas são possíveis: Ou eu conseguirei mudá-lo - e não posso perder esse desafio -, ou irei provê-lo com mais um dedo para que o desejo dele seja realizado. De qualquer maneira, irei morrer algum dia. Dar minha cabeça para Angulimala pelo menos será de alguma utilidade. Do contrário, um dia certamente morrerei e vocês me colocarão na pira funerária. Acho que é melhor me arriscar a realizar o desejo de alguém e lhe dar paz mental. Ou ele irá me matar ou irei matá-lo, mas esse encontro irá acontecer. Agoram, mostrem-me o caminho."

É isto o que os budas fazem: arriscam a própria vida. Buda foi, e mesmo os discípulos mais íntimos que juraram permanecer com ele até o final começaram a ficar para trás, pois era perigoso! Assim, quando Buda chegou à colina onde Angulimala estava sentado sobre uma pedra, não havia ninguém atrás dele; ele estava sozinho, pois todos os discípulos haviam desaparecido. Angulimala olhou para aquele homem inocente, como uma criança, tão belo, e pensou: "mesmo um assassino sentiria compaixão por esse homem". Ele pensou: "esse homem parece não saber que eu estou aqui, porque ninguém vem por esse caminho."

Angulimala estava sentado sobre sua rocha observando. Ele não podia acreditar em seus olhos. Um homem muito bonito, de um carisma tão imenso, estava vindo em sua direção. Quem seria tal homem? Ele nunca tinha ouvido falar de Gautama Buda, mas mesmo o coração duro de Angulimala começou a sentir uma certa ternura para com aquele homem. Ele parecia tão belo... e estava vindo na direção dele. Buda estava chegando cada vez mais perto.

Finalmente, Angulimala desembanhou sua espada e, com ela em mãos, gritou, "Volte! Pare aí mesmo e volte!" Gautama Buda estava a alguns metros de distância, e Angulimala disse: "Não dê outro passo porque então a responsabilidade não será minha. Talvez você não saiba quem sou!".

Buda disse: "Você sabe quem você é?".

Angulimala disse: "Isso não tem importância. Esse não é o lugar nem a hora para discutir tais coisas. Sua vida está em perigo!"

Buda disse: "Penso de outra maneira - sua vida é que está em perigo."

Angulimala disse: "Eu costumava pensar que era louco - mas é você que é simplesmente louco. E você continua chegando mais perto. Assim não diga que matei um homem inocente. Você parece tão inocente e tão bonito, que quero que você volte. Pode passar. Encontrarei outra pessoa. Posso esperar, não há nenhuma pressa. Se já consegui novecentos e noventa e nove... é somente mais um, mas não me force a matá-lo". Mas Buda continuou a se aproximar.

Então Angulimala pensou: "Ou esse homem é surdo ou é louco!". De novo ele gritou: "Pare, não se mova!"

Buda disse: "Eu parei há muito tempo, Angulimala, não estou me movendo - você é que está. Pare você. Você está cego. Você não pode ver uma simples coisa: eu não estou me movendo na sua direção, você está se movendo na minha direção."

Angulimala estava sentado sobre uma pedra e começou a rir; ele disse: "Você é realmente louco! Estou sentado e você está me dizendo que estou me movendo. E você está se movendo e diz que está parado. Você realmente é um tolo, um louco ou alguém muito estranho!"

Buda disse: "Bobagem! A verdade é que, desde o dia que me tornei iluminado não me movi mais nem uma simples polegada. Estou centrado, totalmente centrado, nenhum movimento. E sua mente está perdida, movendo-se continuamente em círculos."

Buda chegou muito perto, e as mãos de Angulimala estavam tremendo. O homem era tão belo, tão inocente, tão infantil. Ele já estava apaixonado. Ele havia matado tanta gente... nunca antes ele tinha sentido essa fraqueza. Ele nunca havia conhecido o que é amor. Pela primeira vez ele estava cheio de amor. Assim, havia uma contradição: a mão dele estava segurando uma espada para matar a pessoa, mas seu coração estava dizendo "ponha a espada de volta na bainha".

Buda disse: "Ouvi dizer que você precisa de mais um dedo. No que se refere a este corpo, o meu objetivo foi alcançado; este corpo é inútil. Você pode usá-lo, seu juramento pode ser cumprido. Corte meu dedo e corte a minha cabeça."

Angulimala ficou parado e olhando perplexo.

Buda continuou: "Estou pronto, mas porque suas mãos estão tremendo? Você é um grande guerreiro, até mesmo os reis e os generais o temem, e eu sou apenas um pobre mendigo. Exceto a tigela de esmolas, não tenho mais nada. Você pode me matar e sentir-me-ei imensamente satisfeito de que pelo menos minha morte realiza o desejo de alguém. Minha vida tem sido útil. Assim minha morte também será útil. Mas antes que você corte minha cabeça tenho um pequeno desejo, e acho que você pode me conceder um pequeno desejo antes de me matar"

Diante da morte, até mesmo o maior inimigo tem boa vontade de realizar qualquer desejo.

Angulimala disse: "O que você deseja?"

Buda disse: "Quero que você apenas corte da árvore um galho que esteja cheio de flores. Nunca mais verei essas flores novamente. Quero ver essas flores bem de perto, sentir a fragrância delas e sua beleza nessa manhã ensolarada".

Então Angulimala cortou com sua espada todo um galho cheio de flores. E antes que ele pudesse dá-lo a Buda, Buda lhe disse: "Isso era somente metade do desejo. A outra metade é: por favor, ponha o galho de volta e junte-o novamente à árvore".

Angulimala disse: "Eu achava desde o começo que você era maluco. Agora este é o desejo mais louco. Como é que posso colocar esse galho de volta?"

Buda disse: "Se você não pode criar, você não tem o direito de destruir. Se você não pode dar a vida, você não tem o direito tirar a vida de nenhuma coisa viva".

Foi momento de silêncio e um momento de transformação... A espada caiu de suas mãos. Angulimala fechou os olhos, jogou-se aos pés de Gautama Buda e disse: "Não sei quem você é, mas quem quer que seja, conduza-me por esse cmainho, por favor me inicie".

Nesse momento, os seguidores de Gautama Buda chegaram cada vez mais perto. Vendo que Buda estava agora de pé na frente de Angulimala, já não havia mais nenhum problema, nenhum receio, a despeito do fato de ele precisar apenas de mais um dedo. Eles ficaram ao redor e, quando ele caiu aos pés de Buda, eles imediatamente se aproximaram.

Alguém levantou a questão: "Não inicie esse homem, ele é um assassino. E ele não é um assassino qualquer, ele assassinou novecentos e noventa e nove pessoas, todos inocentes. Eles não fizeram nada de errado a ele. Ele nunca os tinha visto antes!"

Buda disse novamente: "Se eu não iniciá-lo, quem irá fazê-lo? E eu amo esse homem, amo sua coragem. Posso ver tremendas possibilidades nele: um simples homem lutando contra o mundo inteiro. Quero um tipo de pessoa assim que pode enfrentar o mundo inteiro com uma espada; agora ele irá enfrentar o mundo com uma consciência que é muito mais afiada do que qualquer espada. Eu lhes disse que um assassinato estava para acontecer, mas não tinha certeza de quem iria ser assassinado: ou eu iria ser assassinado, ou Angulimala. Agora vocês podem ver que Angulimala foi morto. E quem sou eu para julgar?"

Ele iniciou Angulimala.

No dia seguinte, ele era um bikkhu, um mendigo, um monge de Buda, e pedia esmola na cidade. Toda a cidade se fechou, pois as pessoas estavam com muito medo e diziam: "Mesmo que ele tenha se tornado um mendigo, não se pode confiar nele. Esse homem é muito perigoso!" As pessoas não saíam às ruam. Quando Angulimala foi pedir esmolas, ninguém lhe deu comida, pois quem correria o risco? As pessoas estavam na cobertura de suas casas olhando para baixo. E então começaram a atirar pedras nele, pois ele havia matado 999 pessoas, incluindo muitas pessoas daquela cidade. Praticamente todas as famílias tinham sido vítimas, então elas começaram a jogar pedras.

Angulimala caiu na rua, sague escorria por todo o seu corpo; ele tinha muitos machucados. E Buda foi até ele e perguntou: "Angulimala, como você está se sentindo?"

Angulimala abriu os olhos e disse: "Estou muito grato a você. Eles podem matar o meu corpo, mas não podem me tocar. E foi isso que por toda minha vida fiz, e nunca percebi." Graças à compaixão de Buda, Angulimala iluminou-se, tornou-se um brâmane, um conhecedor de Brahma.

A questão não é se alguém merece ou não, se é digno ou não. A questão é se você possui a consciência, a abundância de amor: assim o perdão irá surgir dele espontaneamente. Isso não é um cálculo, isso não é aritmética.

Vida é amor, e viver uma vida de amor é a única vida religiosa - é a única vida de oração, paz, a única vida de gratidão, grandeza, esplendor. "


Osho - "The Great Pilgrimage: From Here To Here" - cap. #24