"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, junho 10, 2010

O recebimento da Verdade e o surgimento da Seicho-No-Ie - 02

Masaharu Taniguchi


Finalmente, eu encontrara Deus e também o meu Eu verdadeiro. Compreendera que o meu Eu Verdadeiro era a própria Grande Vida eterna, que transcende não só o mundo fenomênico, que é projeção da mente, como também a mente que o projeta. A partir daquele momento, o mundo se transformou a meus olhos. Passei a ver tudo e todos não como mera matéria, mas sim como seres vibrantes que pareciam emitir uma luz semelhante à auréola. Eu gostava muito de ir ao banho público pela manhã, bem cedo. Nos dias outonais, que tardavam clarear, o Sol começava a nascer por detrás das árvores do bosque próximo quando eu voltava do banho público. Foi numa dessas caminhadas que compus os seguintes versos:


De manhã,
O Sol desponta por detrás das árvores,
resplandecente como a própria Vida.
Que alegria!
Que alegria saber que sou a própria Vida!



Meu coração estava repleto de júbilo, e eu via o mundo e a paisagem a meu redor completamente transformados: tudo me parecia vibrante e luminoso.

Chegando em casa, saí para a varanda e, sentado com a face voltada para o sol nascente, reverenciei Deus. Além da luz material do Sol, eu conseguia ver uma outra luz misteriosa e sublime, que parecia ser o corpo espiritual do Sol.

Desejei transmitir a toda a humanidade a alegria daquele despertar. Senti que essa era minha missão. Desde então, passei a ter o misterioso poder de curar doenças. Sucederam-se casos de pessoas que ficaram curadas só por ter ouvido meu relato sobre como alcancei o despertar, ou só por tê-las visitado em suas casas. Porém, materialmente, eu ainda continuava pobre. Na verdade, não era pobre, mas, vendo meu estado fenomênico, continuava a julgar-me pobre. Pensava: "Para publicar regularmente uma revista doutrinária, é necessário dispor de recursos consideráveis. Publicações desse tipo não vendem muito no início, de modo que eu preciso estar preparado para prejuízos. A única fonte de renda de que disponho para financiar a publicação de revista doutrinária é o salário que recebo da firma onde trabalho". Mas, devido à minha saúde precária, quando voltava para casa após um dia de trabalho na firma, estava completamente exausto. Nessas condições parecia impossível redigir artigos para a revista que pretendia publicar. Achava que, enquanto continuasse a trabalhar na firma, não havia possibilidade de concretizar o plano de publicar a revista doutrinária, pois não tinha condição física para isso. Então, deveria eu demitir-me do emprego e empenhar-me inteiramente na publicação da revista doutrinária, que eu julgava ser a minha missão? Mas, se fizesse isso, deixaria de receber salário e, consequentemente, não teria mais recursos para arcar com as despesas de publicação da revista.

Depois de muito pensar, concluí que o melhor seria adotar uma posição intermediária, a que a maioria das pessoas adotaria nessas circunstâncias. Escolheria uma das alternativas: 1) reservaria mensalmente parte de meu salário e, quando tivesse economizado o suficiente, demitir-me-ia da firma e passaria a ocupar-me inteiramente do trabalho de redação e publicação de revista doutrinária, empregando como capital o dinheiro economizado; ou 2) levando em consideração o fato de que, na empresa onde trabalho, todo funcionário que tivesse trabalhado mais de vinte anos pode aponsentar-se aos 55 anos com direito à pensão, eu continuaria no emprego até enquadrar-me nessas condições, e só então iniciaria a publicação da revista doutrinária.

Era triste pra mim ter de optar por uma dessas alternativas, mas parecia não haver outro jeito, devido à precariedade de minha condição física e falta de recursos financeiros. Sentia-me triste ao pensar que o anseio de dedicar-me ao trabalho que julgava ser minha missão estava sendo reprimido por fatores externos e circunstâncias materiais. O fato é que, apesar de ter despertado para a Verdade de que "A matéria é inexistente; o corpo carnal é inexistente", eu ainda estava me deixando arrastar pelas ilusões do passado. Assim, na vida prática, considerava os bens materiais e o corpo carnal como existências reais, e pensava que a falta de recursos financeiros e a fraqueza física constituiam obstáculos reais. Às vezes, chegava a pensar que meu anseio de publicar revista doutrinária e de promover a iluminação da humanidade talvez fosse, em última análise, uma ambição egoística de quem quer fazer-se de santo, e então escrevia em versos em que condenava tal anseio, procurando encontrar nisso um consolo para mim. Certo dia escrevi os seguintes versos:


Viver como os lírios do campo

Quero viver como os lírios do campo.
Ele não "trabalham nem fiam",
não têm ambição da glória.
Humildes e serenos são os lírios do campo.

Onde há ambição não haverá paz e harmonia,
ainda que seja a ambição de restabelecer
a paz no mundo.
Pensar que se pode obter paz através da ambição
é uma tolice tão grande quanto pescar no mato.

Já tive a grande ambição de tornar-me
um pregador da salvação do mundo.
Para tal, eu precisaria ter o meu nome
amplamente divulgado.
E isso envolve uma série de autopromoção, táticas,
expedientes e estratagemas.

Pesaroso, noto que até mesmo um certo pregador
que exalta a a "vida de contrição",
a quem estimo e respeito,
parece esta sendo contaminado pela ambição.

Apesar de pregar a "vida de contrição"
e a "vida norteada pela humildade",
os textos de seu editorial, na primeira página
da revista por ele publicada,
são meras palavras de autopromoção

Aquele que é verdadeiramente humilde
vive o Caminho sem fazer alardes.
Os lírios do campo não pregam o Caminho
com atitudes altaneiras.
Eles vivem o Caminho, simplesmente.

O Caminho está ao alcance de todos.
Os lírios do campo vivem tranquilos
no lugar a eles concedido,
absorvem os nutrientes a eles oferecidos,
são belas flores no tom e no formato permitidos
e fenecem silenciosamente quando chega sua hora.

Os lírios do campo
não pensam em fugir do seu lugar,
nem em absorver outros nutrientes
além daqueles que que lhe são destinados.
Fazem desabrochar suas flores,
na cor e no formato peculiares~
e não pensam em fugir dos desígnios de Deus.
Isso é viver o Caminho.
Os lírios do campo vivem o caminho.

Os lírios do campo não têm a pretensão de salvar o mundo.
Eles simplesmente vivem o Caminho.
Se alguém lhes perguntar o Caminho,
eles nada dirão,
pois a resposta está no seu próprio viver.
Confesso, envergonhado,
que já tive a ambição
de tornar-me rico e poderoso
e promover grandes obras assistenciais
para salvar os pobres do mundo inteiro.

Para isso, queria ter muito dinheiro.
Passava noites em claro,
pensando num meio de obter dinheiro,
imaginando a vida miserável dos pobres
e a vida luxuosa dos ricos.

A comiseração para com os pobres
e a rejeição contra os ricos -
Que entendam a primeira como amor
e a segunda como ódio,
mas ambas são humanas paixões;
e neste sentido eram igualmente grilhões que me aprisionavam.

Onde há humanas paixões, não há paz.
Como pode alguém estabelecer a paz no mundo,
se não consegue alcançar sua própria paz?

- Eis por que muitas das revoluções sociais
não conseguiram alcançar seus objetivos.

Mas vejo, agora, o verdadeiro caminho da paz.
Os lírios do campo não pretendem angariar fundos
em prol do movimento de salvação do pobres.
Experimente apelar a eles:
"Irmaõs, estou faminto; salvem-me!"
Certamente eles se limitarão a lhe oferecer
seus próprios bulbos, dizendo:
"Irmaõ, queira aceitar isto. É tudo o que tenho".

Eis o verdadeiro Caminho.
Eis a verdadeira paz.
Os lírios do campo não pregam o Caminho
nem têm a pretensão de distribuir dinheiro
para os pobres.
Eles se contentam em viver no lugar que lhes
foi destinado,
absorvendo os nutrientes que lhe são oferecidos.
Vivem segundo os desígnios de Deus,
sem recorrer a mentiras, estratégias e artimanhas.
Não pregam nem Mahayana nem Hinayanas.
Não têm a pretensão de fomentar a reforma social,
nem de tornar-se um pregador da salvação do mundo,
e vivem uma simples vida comum.
Seu próprio viver já é uma grande pregação.

Este é o verdadeiro Caminho.
É o Caminho a ser trilhado pelas pessoas
simples e comuns.
É o Caminho que qualquer um pode seguir
agora mesmo, bastando a ele querer.
O Caminho deve ser acessível a todos.
O viver singelo dos lírios do campo -
nele está o caminho a ser trilhado por nós.
Quero trilhar esse Caminho, a partir de agora.
Quero trilhar esse Caminho, a partir de agora.

Porém, eis que minha esposa me indaga:
"Mas não achas que, no palco deste mundo,
são necessários diversos tipos de personagens?
Se todos se tornarem lírios do campo,
que será deste mundo?
Não é verdade que o progresso do mundo
foi promovido por pessoas que não se
contentavam em ser lírios do campo?".

E eu respondo:
"Falas em progresso?
Pois estás iludida...
Quanto o mundo progrediu com ambições humanas?"

"Imponenetes arranha-céus,
isso é progesso?
Belas roupas da moda,
isso é progresso?
Grande número de cientistas,
isso é progresso?
Admitindo-se que tudo isso seja progresso,
até que ponto os sofrimentos humanos diminuíram
desde o nascimento de Buda há três milênios?
"Quanto maior o progresso material,
mais aumentam as aflições do ser humano.
Já pensaste no porquê disso?
Digo-te, pois: é porque o progresso de que falas
baseia-se nas ambições humanas.
É preciso abandonar as ambições.
Só assim se alcança o verdadeiro progresso -
o progresso da alma -, em vez do progresso aparente.

"Disse que quero viver como os lírios do campo,
mas não disse que todos devem ser como os lírios
do campo.
O que quis dizer é que cada um seja autêntico,
seja como ele é.
É assim que se alcançam a paz e a tranquilidade."

Os lírios do campo não têm a pretensão de fazer
desabrochar rosas em seus ramos;
Eles produzem flores que lhes cabe produzir.
Não distorcem a Natureza.
Os lírios do campo não têm a pretensão de transformar
Seus bulbos em batatas;
Eles simplesmente produzem bulbos que lhes cabe produzir.
Não distorcem a natureza.

Falei dos lírios do campo.
Mas tudo o que disse aplica-se também a outras plantas e outros seres.
É natural que na roseira desabrochem rosas.
Quando a roseira vive plenamente sua própria vida,
assim como os lírios do campo vivem sua vida,
em seus ramos desabrocham naturalmente belas rosas.

Militantes da revolução social
e pregadores da salvação da humanidade,
se vocês são simples e sem ambição,
como os lírios ou as roseiras que florescem naturalmente,
e conseguem realizar com êxito a revolução ou a obra de salvação
Com naturalidade e humildade,
então vocês estarão vivendo a vida de que falei:
A vida simples, pura e autêntica,
Como a dos lírios do campo.

Quando terminei de escrever esses versos e levantei os olhos, percebi que o chefe estava me observando. Levei um susto e voltei a me concentrar no trabalho que me havia sido atribuído: a tradução de um livro técnico.
Cont...

(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 20", pgs. 164 à 177)


Um comentário:

José Jurandir disse...

Muito profundo este depoimento... Esse é um grande sábio iluminado por Deus: Taniguchi.