"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Interpretação da Avatamsaka Sutra - 2/2


- Masaharu Taniguchi -


A SEDE DO BUDISMO

Por quem e onde foi pregada essa doutrina do mahayana? Vou explicar isso pela ótica da Seicho-No-Ie. Como já discorri na preleção do Kojiki (história e mitologia do Japão), o deus Hohodemi – filho do Sol – foi ao Ryugu (Palácio do Fundo do Mar), lá desposou a deusa Toyotama-hime, que então engravidou e, vindo à face da Terra, deu à luz ao deus Ugaya-fukiaezu. Para ir ao Ryugu, o deus Hohodemi embarcou no barco Menashi-katsuma (que transcende o tempo e o espaço), e isso significa que ele pregou no Ryugu o conteúdo da Avatamsaka Sutra. O Menashi-katsuma é um barco indestrutível e invulnerável, e simboliza a Verdade da Imagem Verdadeira do mahayana. Destarte, o budismo mahayana está sob a proteção da grande divindade do Ryugu, que é a divindade Sumiyoshi, e ele sempre existiu no mundo da Imagem Verdadeira. E a Seicho-No-Ie é o movimento em que a divindade Sumiyoshi se manifestou na atualidade, como Movimento de Iluminação da Humanidade.


UM MOMENTO SÃO TODOS OS MOMENTOS, E UM LOCAL SÃO TODOS OS LOCAIS

Para compreender como a Avatamsaka Sutra foi pregada inicialmente no Ryugu, é preciso, antes, compreender o que significam as Verdades tais como “um momento são todos os momentos”, “um local são todos os locais” e “um Buda são todos os Budas”, os quais transcendem o tempo e o espaço.

No mundo material visível aos nossos olhos carnais, “um local” é só um lugar, e “aqui” não é “acolá”. Isso quer dizer que o “Ryugu” não fica na “Índia”. Porém, no mundo da Imagem Verdadeira (Jissô) tudo pode acontecer concomitantemente. Inclusive na Avatamsaka Sutra, consta que toda ela foi pregada de uma só vez por Sakyamuni no décimo quatro dia após o seu despertar. Mais precisamente, Sakyamuni pregou, naquele dia, oito vezes, em oito localidades diferentes. Essas oito localidades não se limitam apenas à face da Terra. Oito (8) significa vários ou uma infinidade. A Avatamsaka Sutra diz que essas oito localidades foram as seguintes:

Primeiramente, Sakyamuni falou sob a árvore bodhi onde alcançara o despertar. Em seguida, fez pregação no palácio Fukô-Hodo. Depois, sucessivamente, no mundo celeste onde reside Tague-jizaiten. A sétima vez, voltou a pregar no Fukô-Hodo. E, por último, no mosteiro Guion-shôja, erigido no bosque Seitarin.

Acontece que, apesar de o mosteiro Guion-shôja ter sido construído seis anos após o despertar de Sakyamuni, este fez pregação nesse local no décimo quarto dia do seu despertar. Esse fato supõe que “uma pregação feita num dado momento” constitui várias pregações, em vários momentos, em várias localidades.

Como vimos, a Avatamsaka Sutra é constituída de uma infinidade de pregações feitas num só dia, em localidades diferentes.

Para os que não entendem a Verdade da “simultaneidade do tempo e do espaço”, isto é, a verdade de que “um momento são todos os momentos, e um local são todos os locais”, não existe nada mais absurdo do que a Avatamsaka Sutra. Para eles, não pode haver uma coisa tão estúpida: uma pessoa falar ao mesmo tempo em diferentes tempos e lugares, como se fosse um conto de fadas.

Vejamos, então, por que isso é possível. Quando Buda Vairocana central (Aquele que ilumina todo o Universo) faz pregação, a sua vibração é captada em todas as terras búdicas do Universo, e, assim, inúmeros Budas fazem a mesma pregação, ao mesmo tempo, no Universo todo. E, por conseguinte, reúnem-se inúmeros bodisatvas em suas respectivas terras búdicas, para ouvir a pregação de Buda.

Na foto da estátua do Grande Buda em Nara vimos, dentro de sua auréola, inúmeros Budas pequenos. Isso simboliza o fato de que, quando o Buda central faz pregação, inúmeros Budas do Universo fazem a mesma pregação, ao mesmo tempo, do mesmo modo, em suas respectivas terras búdicas; e, em cada um desses locais, se reúnem inúmeros bodisatvas para ouvir essa pregação. Em outras palavras, a pregação da Avatamsaka Sutra realizada no Ryugu (Palácio do Reino do Mar) por Hohodemi-no-mikoto (isto é, a vibração da pregação de Deus no mundo da Imagem Verdadeira) reflete-se no mundo fenomênico como pregação de Sakyamuni na Índia, como pregação de Jesus na Judeia, etc. Por isso, a fonte do cristianismo também está no mundo da Imagem Verdadeira. 

Avatamsaka Sutra, que é o grande ensinamento, foi pregada primeiramente no Ryugu, cujas primeira e segunda partes estão ocultas no tamatebako (caixa misteriosa que transcende o tempo e o espaço). Quando o tamatebako for aberto, será esclarecida a Imagem Verdadeira do mundo.


A MISSÃO DE BUDA

O dever de Buda é fazer pregação. Isso pode parecer estranho, mas inclusive segundo o cristianismo “tudo foi feito pela palavra (Verbo)” e o “Verbo é Deus”. No budismo, Sakyamuni, ao terminar a pregação da Sutra da Vida Imensurável, disse: “O que eu devia fazer, já está feito”.

O termo japonês “jobutsu” é formado de dois ideogramas. O ideograma “naru” (significa “tornar-se”) e o ideograma “hotoke” (significa Buda). Muitas pessoas pensam que “jobutsu” significa tornar-se Buda. Porém, se jobutsu significasse “tornar-se Buda”, deveríamos concluir que quem se torna Buda não é Buda, isto é, que alguém que não é Buda torna-se Buda. Porém, jobutsu é o fato de Buda vibrar e soar. Isso significa que todos somos Buda desde o princípio, mas ficamos calados e não soamos. Ficar calado não é jobutsu. Jobutsu é o fato de Buda entrar em vibração, soar e manifestar-se. Quando Ame-no-Minaka-Nashi-no-Kami (Deus Senhor do Centro do Universo) vibrou e soou, realizou-se o Mundo do Lótus (Imagem Verdadeira). Nós somos Buda desde o princípio, mas não parecemos Buda se ficamos calados, pois Buda não está soando (vibrando).

Na Sutra do Lótus, consta que Buda Dai-tsuchi-shô ficou sentado na posição de meditação no templo, durante dez ciclos (um ciclo significa quase infinitos anos), mas não se realizou como Buda. Mas ele é Buda desde o princípio. Um koan (questão do zen-budismo) pergunta por que aquele que é Buda desde o princípio não se realizou como Buda. A resposta é: “É ele que não se realizou como Buda”. Aquele que é Buda desde o princípio não se realiza como Buda porque não começa a vibrar e soar. É porque ainda não começou a pregar a Verdade. Somos Buda desde o princípio e realizamo-nos como Buda quando pronunciamos Namu-Amida-Butsu (A minha Vida retorna a Amida-Buda). Mesmo sendo Buda desde o princípio, a pessoa não se realizará como Buda se não começar a soar.


UM BUDA SÃO TODOS OS BUDAS

Como já disse anteriormente, quando um Buda entra em vibração, soa e prega a Verdade, os Budas de uma infinidade de mundos pregam a mesma Verdade. Na Avatamsaka Sutra, está escrito o seguinte: “Nesse momento, Sakyamuni emitiu dez bilhões de luzes e iluminou centenas de bilhões de locais terrenos e celestiais de um trilhão de mundos, e manifestaram-se todas as coisas desses mundos todos. Buda está sentado no trono de lótus, e uma infinidade de bodisatvas de dez mundos búdicos se postam em torno dele, o mesmo ocorrendo também em dez bilhões de mundos.”

“O mesmo ocorrendo também em dez bilhões de mundos” quer dizer que existem dez bilhões de mundos semelhantes ao globo terrestre, e que em todos esses mundos também está Buda fazendo a mesma pregação.

A estátua do Grande Buda no Templo Todai-ji, em Nara, está assentada no trono da flor de lótus, e cada uma de suas pétalas representa um dos mundos búdicos. Olhando de perto, vemos linhas horizontais, as quais representam as linhas limítrofes entre os vários mundos celestiais e humanos. E, em cada um desses mundos celestiais e humanos, isto é, em cada pétala, está esculpida a imagem de Buda. Isso representa o fato de que, quando o Grande Buda central prega a Verdade, os Budas de todo o Universo pregam a mesma Verdade, ao mesmo tempo.

A Avatamsaka Sutra diz, mais adiante:

“Nesse momento, Sakyamuni, usando seu poder sobrenatural, está sentado sob a respectiva árvore do despertar de cada uma das inúmeras terras búdicas de todo o Universo, sem exceção. Os inúmeros bodisatvas, recebendo cada um o poder sobrenatural de Buda, pregam variadas Verdades, e todos eles pensam que estão juntos a Buda. Nesse momento, Sakyamuni, pelo seu poder sobrenatural, sobe ao pico Shumisen (a montanha mais alta do mundo búdico, onde residem as mais altas divindades) sem sair de seu lugar e se dirige ao palácio Taishaku-ten (a divindade protetora do mundo espiritual, que fica no topo do Shumisen)."

Como vimos, Sakyamuni, sentado sob a árvore do despertar, sem sair de seu lugar, subiu ao topo do Shumisen e se dirigiu ao palácio Taishaku-den. É como se nós, sentados aqui, no auditório do andar térreo, estivéssemos ao mesmo tempo no topo do prédio. Isso parece um conto de fada bobo, mas não é.

Já foi dito que, quando Buda principal e central faz pregação, manifesta-se uma infinidade de Budas em todos os mundos do Universo, fazendo a mesma pregação. Quando se compreende esse fato, compreende-se também que não há nada de estranho no fato de Sakyamuni pregar sobre o conteúdo da Avatamsaka Sutra que deus Hohodemi pregou no Ryugu. E também não é nada estranho que Jesus tenha aparecido na Judeia e pregado, nos campos da Galileia, a mesma Verdade contida na Avatamsaka Sutra. Do mesmo modo, não é estranho que o bodisatva Nargajuna tenha trazido do Ryugu e traduzido a Avatamsaka Sutra.

Bem, conforme eu disse anteriormente, o mundo do Jissô (Imagem Verdadeira) – Takaamahara (mundo de Deus, em termos xintoístas) – é um mundo infinitamente belo e majestoso, e não um mundo vazio. Quando se fala em Jissô, muitos budistas pensam que “Jissô é vazio”, que “vazio é o Jissô”. O mundo da Imagem Verdadeira é o mundo Avatamsaka, é o majestoso mundo da flor de lótus. E a Seicho-No-Ie diz que ele é um mundo infinito-dimensional. Todavia, o tamatebako do mundo Ryugu ainda não pode ser totalmente aberto.

Cont...

Do livro “A Verdade da Vida, vol. 39”, pp. 167-175 

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Interpretação da Avatamsaka Sutra - 1/2

- Masaharu Taniguchi -


INTERPRETAÇÃO DA AVATAMSAKA SUTRA  (Sutra Guirlanda de Flores)

ESTÁTUA DE DAIBUTSU (GRANDE BUDA) EM NARA

Nesta gravura, vemos a estátua de Daibutsu (Grande Buda) no Templo Todai-ji, em Nara. Nesta outra, vemos a estátua de Daibutsu no Templo Tosho-daiji: a impressão não está muito nítida, mas creio que dá para vê-las, mesmo a certa distância.

Outro dia, quando fui a Kansai proferir uma palestra, o monge do Templo Todai-ji, em Nara, que é leitor da revista Seicho-No-Ie, conduziu-nos até bem próximo à grande estátua, aonde o público em geral não tem acesso.

Esse monge, que se chama Sagawa, contou à nossa comitiva a origem e a história de Daibutsu (Grande Buda). Segundo ele, o nome Daibutsu não depende do tamanho da estátua; ele é abreviação de Dai-Hoko-Butsu (grande e onipresente Buda).

Este Templo Todaiji é o templo matriz do Kengon-shu (Ramificação do budismo surgida na Índia, tendo como base doutrinária a Avatamsaka Sutra, uma das sutras do budismo Mahayana), e seu alvo de adoração é o Daibutsu, isto é, Buda Vairocana (que brilha; Sol). O Buda Vairocana é chamado Grande Buda, não porque está representado nesta estátua grande. Mesmo sendo pequena a sua estátua, Ele é Grande Buda porque é Buda Vairocana – assim explicou.

A propósito, minha filha, que está no último ano do curso primário, foi a Nara há aproximadamente uma semana, integrando uma excursão escolar, e comprou como lembrança uma pequena estátua de Daibutsu (Grande Buda). Ela me disse:

- Papai, eu lhe trouxe este Daibutsu como presente.
- Mas como é pequenino este Grande Buda! – brinquei.
- Mesmo sendo pequeno, é Grande Buda – respondeu ela, e essas palavras foram de grande valia para o meu aprendizado.

Que vem a ser, então, esse Buda Dai-Hoko (grande e onipresente)? Sakyamuni ficou durante seis anos praticando ascese (espécie de penitência para aprimoramento espiritual) na floresta dos ascetas, mas compreendeu que as práticas ascéticas não levam à iluminação. Tal vida religiosa baseada no ascetismo corresponderia, no cristianismo, ao batismo na água feito por João Batista. Sakyamuni percebeu que o verdadeiro despertar (ou iluminação) está na compreensão da Imagem Verdadeira da Vida, saiu da floresta dos ascetas, banhou-se no rio Nairanjana, recebeu um prato de mingau de arroz cozido com leite ofertado por uma mulher e tomou-o sentindo a sua delícia. Sentado tranquilamente sob uma árvore bodhi (árvore do despertar), compreendeu que esse estado vívido – de delícia e de alegria e vívido de vida – é o próprio estado do despertar, e que isso é a Vida. Quatorze dias depois, ele falou sobre o estado de seu despertar (ou iluminação), não especialmente a alguém ou a algumas pessoas; ele expressou em palavras o estado de seu despertar, e isso é o que constitui o teor da sutra chamada Avatamsaka Sutra (Sutra Guirlanda de Flores).


QUE É KENGON-KYO (AVATAMSAKA SUTRA)

O termo Kengon de Kengon-kyô significa magnífica flor de lótus. Ele se refere ao mundo em forma de flor de lótus, ornado de modo infinitamente belo, isto é, ao mundo da Imagem Verdadeira (Jissô).

Os budistas costumam interpretar o termo Jissô como “vazio”, mas o mundo do Jissô (Imagem Verdadeira) não é vazio; ele é um mundo infinitamente belo. A Seicho-No-Ie prega que o mundo da Imagem Verdadeira é o mundo da “magnífica flor de lótus”. Sakyamuni pregou sobre isso na Kengon-kyô (Avatamsaka Sutra).

Em vida, Sakyamuni pregou várias sutras. Primeiramente, quatorze dias após o seu despertar, pregou a Kengon-kyô, mas, como eram poucos os discípulos que a compreendiam, pregou em seguida sutras como a Agon-kyô (uma sutra do budismo hinayana, ou pequeno veículo). 

Com o passar do tempo, quando seus discípulos alcançaram maior aprimoramento, pregou sutras tal como a Prajna-paramita-sutra (Sutra da Sabedoria). Em seguida, pregou outras de tendência mahayana (grande veículo) tais como Bonmô-kyô e Gujin-mikkyô. Mais tarde, antes de seu desencarne, pregou a Hoke-kyô (Sutra do Lótus), a Dai-muryôju-kyô (Sutra da Vida Imensurável) e a Nehan-Kyô (Sutra do Nirvana). Parece que a Sutra da Vida Imensurável e a Sutra do Nirvana foram pregadas na mesma época, pois o conteúdo de ambas as sutras comprovaria essa hipótese, mas não há registro cronológico.

Na verdade, a Avatamsaka Sutra, que Sakyamuni pregou quatorze dias após o seu despertar, contém tanto a Verdade descrita na Sutra do Lótus como a Verdade exposta na Sutra da Vida Imensurável. A Avatamsaka Sutra encerra em si o conteúdo de todas as demais sutras, mas, na época, os seus discípulos não puderam compreender essa sutra mahayana (do grande veículo). Como achou que ainda não era chegado o momento, Sakyamuni voltou a pregar as verdades mais fáceis, expondo as sutras tais como a Agon-kyô e as demais do hinayana (pequeno veículo).


QUE SÃO AS ESCRITURAS DO MAHAYANA?

Vejamos, então, o que pregam as escrituras do budismo mahayana (grande veículo). Elas pregam que o homem é Buda. Todas as escrituras do grande veículo pregam que originariamente o homem é Buda, por natureza, e pode manifestar a imagem Verdadeira de Buda. As escrituras ou sutras do budismo hinayana (pequeno veículo) proporcionam apenas despertar de grau médio, pregando verdades medianas que permitem às pessoas alcançar o nível de Arahant. Arahant é o nome genérico dado a pessoas que compreenderam a Verdade da causa-e-meio, mas que ainda não conseguiram atingir o estado búdico que transcendem a causa e o meio.

Repetindo, Sakyamuni pregou inicialmente ensinamentos do grande veículo (hinayana), segundo os quais o homem é originariamente Buda, mas como os seguidores não compreenderam essa Verdade pura, ele pregou vários ensinamentos do pequeno veículo (hinayana) a fim de conduzi-los à compreensão da Verdade do grande veículo (mahayana).

A respeito da Avatamsaka Sutra, não se sabia a sua origem; a transmissão dessa sutra é atribuída ao bodisatva Nargajuna. Segundo a biografia de Nargajuna, este não encontrou a Avatamsaka Sutra na face da Terra, por mais que a procurasse. Então foi ao Ryugu (Palácio do Fundo do Mar ou Palácio do Dragão Rei) e, de lá, trouxe essa sutra.

Portanto, a Avatamsaka Sutra estava no Ryugu. A que existe atualmente na face da Terra, isto é, a que foi trazida a este mundo visível aos olhos carnais, é apenas uma pequena parcela da Avatamsaka Sutra guardada no Ryugu. Essa sutra completa é dividida em três partes, e somente a Avatamsaka Sutra que temos hoje é a tradução dessa última parte. E, mesmo sendo a terça parte, ela constitui um grande volume.

Pois bem, supomos que a maior parte da Avatamsaka Sutra que ficou no Ryugu deve ter conteúdo maravilhoso, mas ela permanece oculta e não pode ser exposta porque ainda não chegou o momento.

A respeito do bodisatva Nargajuna (Ryuju, em japonês), que trouxe do Palácio do Fundo do Mar a Avatamsaka Sutra, não se sabe exatamente a época em que vivei, mas, de acordo com uma lenda, ele nasceu trezentos anos após a morte de Sakyamuni e viveu cem anos. Seja como for, ele foi uma pessoa que viveu bem posterior a Sakyamuni. E, como ele é considerado o responsável por trazer do Ryugu a primeira sutra do grande veículo, existem teorias de que Sakyamuni não pregou sobre o grande veículo, mas penas sobre doutrinas moralistas. Segundo essas teorias, as sutras que falam sobre a budificação do homem foram pregadas mais tarde, teórica e filosoficamente, por eruditos e sábios como Nargajuna e outros. Existem, obviamente, contestações a tais teorias. Há muita polêmica acerca disso.

Mesmo na atualidade, existem estudiosos do budismo afirmando que o grande veículo (mahayana) não foi pregado por Sakyamuni, e que são de autoria dele somente as doutrinas moralistas contidas nas sutras Ágama, Dhammapada e similares. Segundo esses budistas, as doutrinas mahayanas ou do grande veículo – isto é, os ensinamentos de que “o homem pode tornar-se Buda” ou de que “o homem é originariamente Buda” – são impossíveis de ser compreendidas. Existem até budistas pregando que no homem não existe espírito. Certa feita, um intelectual budista escreveu o seguinte em um texto de crítica à Seicho-No-Ie: “Na atualidade, ninguém acredita que existe algo chamado espírito e que este possa ir para o céu”. É espantoso um budista fazer tal afirmação.

Na Sutra da Vida Imensurável, está claramente escrito que Sakyamuni “deixou o palácio celestial, colocou a sua alma no útero materno e nasceu pela axila direita”. Essa alma é espírito. É espantoso que alguns budistas neguem a existência do espírito, mas essa é a posição dos que professam o hinayana (pequeno veículo). Eles não compreendem a Imagem Verdadeira do ser humano; entendem apenas da vida fenomênica restrita à vida terrena. Não entendem nem o que acontece com a vida no mundo pós-morte.

Bem, a doutrina que prega a Vida sempiterna da Imagem Verdadeira é a do mahayana (grande veículo), e a que prega sobre a vida fenomênica e a do hinayana (pequeno veículo). Esta é uma diferenciação bem simples das duas doutrinas.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 161-167

segunda-feira, novembro 25, 2019

Assim se identificam o Budismo e o Cristianismo - 11/11

- Masaharu Taniguchi -


Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixa-la secretamente. Enquanto ponderava nestas cousas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. (Mateus 1:18-20)

Não se turbe o vosso coração nem se assuste. Ouviste que eu vos disse: Vou, e venho a vós. Se vós me amásseis, certamente havíeis de vos alegrar de eu ir para o Pai (...) como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; (...) para que sejam um, como nós o somos; eu (estou) neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade. (João 14:27-28 e 17:22-23)

A primeira citação refere-se à concepção de Jesus pelo Espírito Santo. A segunda são palavras proferidas por Jesus imediatamente antes de sua prisão para ser pregado na cruz. O termo "eu" refere-se a Jesus, e "nós" refere-se a Pai e Cristo. A finalidade da crucificação de Jesus está bem clara nessas palavras. Isto é, por meio da cruz (negação do corpo carnal), Cristo vem a nós [segundo suas palavras "Vou, e venho a vós (homens)] para que Deus, Cristo e os homens "sejam aperfeiçoados na unidade" (they may be made perfect in one). Ou melhor, pela negação do corpo carnal, isto é, pela crucificação de Jesus, já foi eliminada a ideia de que "o homem é corpo carnal", que era o último obstáculo que separava Deus e o homem, e este "foi aperfeiçoado" e retornou à original perfeição. O homem é originariamente perfeito e saudável. O homem, originariamente, não é corpo carnal, mas, sim, espírito santo em si. Entretanto, adquiriu a ilusão de que ele é "corpo carnal" por meio dos cinco sentidos (fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, sugerido pela serpente), e consequentemente foi expulso do jardim do Éden, passando a vagar no mundo dos cinco sentidos. Porém, essa ilusão foi agora desfeita. Nós, seres humanos, ressuscitamos como Vida Eterna juntamente com Jesus; Pai, Filho e o homem se tornaram um. Nós já fomos aperfeiçoados; somos o próprio espírito santo. Nós não nascemos da carne, não nascemos da relação carnal, não nascemos do útero de mulher; nascemos de Deus. O útero por meio do qual viemos ao mundo é apenas uma passagem sob o ponto de vista dos cinco sentidos, pois a nossa origem verdadeira é Deus.

Que o homem não é filho do homem carnal pode ser comprovado pelo fato de alguém desejar um filho e não o conseguir, e de nascer um de vários, mesmo quando ele não o deseja. Mesmo recorrendo a métodos anticoncepcionais, uma criança nasce quando tem de nascer.

No jornal Asahi Shinbum de 7 de agosto de 1944, está publicado, na coluna doméstica, um artigo do doutor em medicina Kanenobu Sakuma. Segundo ele, há casos em que ocorre a gravidez, mesmo quando se eliminam as duas trompas uterinas para impedir que o óvulo desça do ovário para o útero. Ele diz que o mistério da Vida é algo inexplicável.

O dr. Katsumi Tokuhisa, ginecologista, no seu livro A relação entre Marido e Mulher, publicado em 1943, cita uma doença chamada incontinência urinária: a bexiga se rompe e a urina corre direto para a vagina, vazando sem parar. Nesses casos, a única solução consiste em fechar a entrada da vagina, costurando-a. Mas há casos em que, mesmo com a vagina fechada, pode ocorrer a gravidez. E o referido livro cita um caso verídico.

Em 1944, quando fui a Shangai, a futura esposa de um leitor da Seicho-No-Ie chamado sr. Obara retirou os dois ovários, em intervenção cirúrgica no Hospital Dojunkai. Isso foi antes de ela se tornar leitora da Seicho-No-Ie. Posteriormente, eles se casaram e tiveram um filho. Eles vieram agradecer, com a criança no colo.

Pela lógica, parece impossível engravidar sem ter nenhum dos ovários, mas Deus torna possível o impossível. O ser humano é espírito santo; por isso, mesmo não tendo ovários, o espírito santo pode engravidar e gerar prole.

Os leitores poderão pensar que, sem ovário, é impossível o homem nascer. Então pergunto: nos primórdios da história de nossos ancestrais, de onde nasceu o primeiro homem? Obviamente não vamos pensar que Deus criou primeiramente apenas o ovário e que desse ovário nasceu o primeiro homem. Só podemos pensar que primeiramente nasceu a Ideia (pode-se dizer "espírito santo") de homem e que o homem surgiu conforme a imagem dessa Ideia. [Deus criou o homem à Sua imagem (Ideia). (Gênesis)] O nascimento do homem não é o nascimento do corpo carnal, mas a vinda (do alto) da Sagrada Ideia. O homem é a própria Sagrada Ideia que desceu do alto. O que parece corpo carnal é a atmosfera que envolve essa Sagrada Ideia (Vida). Se essa atmosfera for conturbada pelas ondas mentais, aparecerá doença no corpo carnal. Para curar a doença, é necessário serenar as ondas mentais e purificar a atmosfera que envolve a Sagrada Ideia.

Então, como serenar as ondas mentais? Se ficarmos olhando o que está conturbado, as ondas mentais ficarão ainda mais conturbadas. Portanto, se ficarmos olhando a doença, a cura será impossível. Por mais que estudemos sobre a doença, não vai aparecer a saúde. Para exteriorizar a saúde, precisamos fitar a saúde pertinente à Vida. O mundo se manifesta exatamente conforme a imagem que visualizamos (o mundo fenomênico é projeção da mente). Não pensem que o homem seja uma existência carnal fadada a perecer. Não fiquem vendo o homem carnal. Os doentes costumam ficar pensando apenas no corpo carnal. Quem tem doença gástrica fica com a mente concentrada apenas no estômago. Por conseguinte, a atmosfera vital que está manifestada como "estômago" fica ainda mais conturbada, e, consequentemente, o estômago não se cura. Neguem o corpo carnal. Fitem apenas o homem eterno, o homem verdadeiro, o homem-Ideia, que é espírito santo, que já é perfeito, que é filho de Deus, que é harmônico. Nisso consiste a Meditação Shinsokan, a prática do Prajnā Paramitā.

O budismo prega "seis paramitās", isto é, seis métodos para alcançar a "outra margem", ou melhor, para apreender, aqui, a "outra margem". E, entre eles, é considerado o primeiro e o melhor aquele que "vê claramente que os cinco agregados são vazios". O corpo carnal não existe, a matéria não existe, os cinco agregados não existem; eles são vazios, no exato estado em que existem. Com esta compreensão, contempla-se o corpo verdadeiro (ou ser verdadeiro) indestrutível neste próprio corpo carnal, tal qual ele é. Na Seicho-No-Ie, o método ensinado para realizar isso é a Meditação Shinsokan.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 154-159

quinta-feira, novembro 21, 2019

Assim se identificam o Budismo e o Cristianismo - 10/11

- Masaharu Taniguchi -


Prajnā, em termo sânscrito, significa inteligência e sabedoria. Passando por diversas situações, a mente contraria a verdade, e por isso não conhece a inexistência do eu; o eu é o corpo total da ignorância. O ato de se afastar da ignorância chama-se inteligência, e o expediente para tal chama-se sabedoria. A inteligência é o corpo da sabedoria, e esta é o emprego da inteligência. A humanidade está originariamente provida delas. É por meio delas que os budas todos os três mundos, todos os fundadores das religiões e os grandes mestres anciãos realizaram trabalhos admiráveis, manifestaram poderes divinos, fizeram pregações a instruíram seus discípulos. A verdadeira sabedoria não está nas letras; ela constitui a natureza verdadeira dos shundo-ganrei (Chushin-kyô, de autoria do mestre zen-budista Rankei)

Shundo-ganrei são as criaturas que se remexem e dotadas de espírito; são, portanto, todos os seres viventes. O trecho acima citado diz que a natureza verdadeira e originária de todos os seres viventes, isto é, a Imagem Verdadeira, não é matéria, mas o próprio prajnā, a própria sabedoria suprema. A nossa essência não é matéria, não é corpo carnal, mas corpo de sabedoria suprema; é a sabedoria kan-jizai (*Nota: Kan = visão ou ver; Jizai = plena liberdade). A própria Sabedoria Universal (Fu = Universal; Gen = Sabedoria), "encolhendo e diminuindo" (Sutra Kan-fugen-bosatsu), manifesta-se transitoriamente com aparência de corpo físico – isto somos nós, seres humanos.

Por isso, nós, seres humanos, com este corpo tal qual é, somos bodisatva Fugen (ser universal de sabedoria). Esse bodisatva é chamado também Kan-jizai-bosatsu porque, sendo plenamente livre (jizai) na visão (kan) e na sabedoria (gen), manifesta livremente corpos-expedientes conforme ele visualiza. Nós, com este corpo, em estado natural, somos Kanzeon-bosatsu, somos Fugen-bosatsu. Onde, a doença? Onde, a preocupação? Onde, a infelicidade? Isso não existe! Não existe absolutamente! Se você sofre, é porque não sabe disso. Saiba, saiba que o seu corpo da Imagem Verdadeira é Kanzeon-bosatsu, é Fugen-bosatsu! Então, a sua doença ou a infelicidade se autodesintegrará imediatamente.

Se nós estamos vivendo aqui, é a Vida de filho-de-Deus que está vivendo. Somos concebidos imaculadamente. Isso, em inglês, se diz imaculate conception. Trata-se de gravidez sem mácula. Nós não nascemos pelo desejo carnal, nem pelo adultério. No livro Imagem Verdadeira da coleção A Verdade da Vida, está claramente escrito que "o homem jamais nasceu do útero de mulher". Esta afirmação pode parecer absurda do ponto de vista do senso comum, mas o conceito do homem baseado no senso comum é uma ilusão baseada no conhecimento dos cinco sentidos, e é por essa razão que o homem que comeu do fruto da árvore do conhecimento (conhecimento dos cinco sentidos) teve a Vida eterna negada com a sentença "Tu és pó e ao pó tornarás". Para retomar a Vida eterna (Vida que não morre), é necessário negar o conhecimento dos cinco sentidos. A imagem que se vê nem sempre é a Imagem Verdadeira. A Imagem Verdadeira se apreende com a negação do conhecimento dos cinco sentidos ("vi claramente que os cinco agregados são vazios"). E, para essa apreensão, é necessário "deixar o mundo dos cinco sentidos, transcendendo-o, e entrar no mundo da Imagem Verdadeira". É para isso que nós praticamos o Prajnā Paramitā, isto é, a Meditação Shinsokan.

Esse termo "profundo" da Sutra da Sabedoria é abreviação da expressão "extremamente profundo e indescritivelmente sublime". O "Prajnā", como já expliquei anteriormente, significa "sabedoria"; não a inteligência humana ou dos cinco sentidos, mas a "sabedoria as Imagem Verdadeira". "Paramitā" significa "alcançar a outra margem", passar para a outra margem. "Outra margem" é o mundo do outro lado (mundo da Imagem Verdadeira, o mundo que existe verdadeiramente), que transcende o mundo fenomênico (o mundo aparente). Caro leitor, feche imperiosamente os olhos para o mundo fenomênico, que "considera o homem como corpo carnal", e passe para o mundo do outro lado. E apodere-se do mundo da Imagem Verdadeira. Traga o "outro lado" para "agora, aqui". Não veja o paraíso no distante mundo do outro lado; realize-o agora, aqui; apreenda-o agora, aqui. Esta é a revolução copernicana do conceito do homem. Este é o verdadeiro arrependimento. "Arrependei-vos, porque o reino de Deus está aqui, agora". Esta é a tradução do trecho bíblico em inglês: "Repent, for the Kingdom of heaven is at hand". Na Bíblia em japonês, está traduzido "o reino de Deus está próximo", mas essa tradução está equivocada. "At hand" quer dizer "ao alcance das mãos" isto é, à nossa disposição, agora. Portanto, o reino de Deus (pode-se dizer Terra Pura) está ao alcance de nossas mãos, à nossa disposição.

Caro leitor, acredite nisso. Fé é poder. Tendo fé, o reino de Deus se realiza aqui, agora, imediatamente. Primeiramente, acredite que você é filho de Deus. Acredite em Deus disponível agora, no mundo real. Tome posse dessa fé. Os pensadores otimistas da Inglaterra e dos Estados Unidos chamam a "Deus disponível na prática" de available God. Quando se apreende a Deus agora, aqui, isto é, no agora eterno, realiza-se agora, aqui, o viver de Deus. Agora é a hora de Deus; aqui é o lugar de Deus; este eu é a pessoa de Deus. Com esta compreensão, a tradicional visão a respeito do mundo e a visão acerca do homem sofre um giro de 360 graus. (Com o giro de 180 graus, não é possível praticar o Caminho na vida natural e comum  – "a mente em estado normal é o caminho". Com o giro de apenas 180 graus, a fé degenera ao nível de despertar do pequeno veículo, em que um ermitão nega a carne e passa a viver em ascese na floresta. O despertar do grande veículo consiste em ver o "vazio" no corpo carnal na exata circunstância em que existe, conscientizando que ele é corpo indestrutível. Isto é o giro de 360 graus da visão atinente ao homem.)

Ver o mundo da matéria como "vazio" assim mesmo como é e conscientizar que ele é o mundo da Vida-Espírito, o reino de Deus (Terra Pura) repleto de sabedoria suprema, agora, aqui  – isto é o despertar do grande veículo. Sakyamuni também atingiu esse despertar do grande veículo. E, a partir disso, foi que surgiram milagres. Também entre os leitores da Seicho-No-Ie ocorrem curas milagrosas e provisões infinitas porque, com o giro dos 360 graus na visão respeitante ao mundo e ao homem, concretiza-se agora, aqui, o reino de Deus (ou Terra Pura de Buda).

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 150-154

segunda-feira, novembro 18, 2019

Assim se identificam o Budismo e o Cristianismo - 9/11

- Masaharu Taniguchi -


O bodisatva Avalokitésvara, ao praticar o profundo Prajnā Paramitā (sabedoria), viu claramente que os cinco agregados (*Nota: cinco agregados são a forma/matéria, a sensibilidade, o pensamento, a ação e a consciência) são vazios e, assim, eliminou todos os sofrimentos.

Ó Shariputra, a forma não é diferente do vazio, e o vazio não é diferente da forma. A forma é exatamente o vazio, e o vazio é exatamente a forma. Assim, são também a sensibilidade, o pensamento, a ação e a cognição.

Ó Shariputra, todos os fenômenos são vazios; não aparecem, nem desaparecem; não são impuros, nem puros; não aumentam nem diminuem. Por isso, no vazio não há nem forma, nem sensibilidade, nem pensamento, nem ação, nem cognição; não há olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente; não há cor, som, odor, sabor, tato, fenômeno; não há mundo visível (objetivo) nem mundo da cognição; não há ignorância nem o fim da ignorância; não há velhice-e-morte, nem o fim da velhice-e-morte; não há sofrimento, nem origem, nem fim, nem caminho; não há inteligência, nem há ganho, pois não há posse. Devido à prática do Prajnā Paramitā (sabedoria perfeita), o bodisatva não tem obstáculo na mente; não tendo obstáculo, não tem temor, afasta o pensamento invertido (ilusão) e atinge o supremo estado de despertar. Os budas do três mundos (*nota: mundos do passado, do presente e do futuro) também alcançam o supremo despertar devido à prática do Prajnā Paramitā. Portanto, saiba que o Prajnā Paramitā é o grande mantra divino, o grande mantra de luz, o mantra supremo, o mantra incomparável. Ele afasta todos os sofrimentos e desgraças; isso é verdade, não é mentira. Então, recite o mantra da sabedoria suprema. Recite como segue (...) (Sutra Prajnā Paramitā)

Este é um trecho da Sutra da Sabedoria traduzida por Genjô Sanzô, da China. Conforme diz essa sutra, não havendo ignorância, não há também o fim da ignorância. Não havendo velhice-e-morte, não há também o fim da velhice e morte. "A forma é exatamente o vazio", isto é, a matéria (a forma), assim mesmo como ela é, constitui o vazio. É vazia assim mesmo como ela é. Não é depois de ser negada que a matéria vai ser vazia. Ela é vazia assim mesmo como é, independentemente de ser negada ou não. O vazio está aparentando ser matéria. O vazio não é simples "inexistência", mas a substância indestrutível que não aumenta nem diminui. Para conscientizar essa substância (essência) indestrutível que não aumenta nem diminui, é necessário negar os cinco órgãos do sentido e o sexto sentido. Por isso, a referida sutra nega-os, dizendo que a visão, a audição, o olfato, a gustação, o tato e a mente não existem. Desse modo, o bodisatva, por conscientizar que este corpo, assim mesmo como é, constitui o corpo espiritual eterno e indestrutível, eliminou o obstáculo da mente, alcançou a plena liberdade e ficou livre do temor. Todos os budas dos três mundos alcançaram o despertar pela prática da sabedoria suprema.

Quando compreendemos que este corpo, assim mesmo como é em seu estado original, é o corpo búdico (espiritual) indestrutível, já estamos realizados como Buda; este corpo, assim mesmo como é, já é o corpo espiritual de Mahāvairocana (Buda Grande Sol). Seja qual for a imagem que se apresenta materialmente como corpo carnal, nós a transcendemos e compreendemos que, com este corpo tal qual ele é, somos corpo búdico, corpo espiritual, corpo indestrutível, homem eterno. É a conversão do corpo carnal para o corpo búdico, infinito, universal. Compreendemos que nós próprios somos o "filho de Deus" que desceu do céu, ao qual Cristo se referiu quando disse: "ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, a saber, o filho do homem". Não se deve pensar que "filho de Deus" seja somente uma pessoa determinada. Todo homem já é filho de Deus, assim mesmo como é. Visto pela inteligência da serpente (inteligência do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal – dos cinco sentidos), o homem é corpo material ("és pó, e ao pó tornarás"); porém, visto pela sabedoria do Prajnā (sabedoria segundo a qual "os cinco agregados são vazios" e "olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente não existem"), o homem, em seu estado atual e natural, já é ser espiritual indestrutível, já é buda, já é filho de Deus. Assim, transcendemos o mundo sujeito a doenças, velhice, morte, tristezas e sofrimentos, e reconquistamos o jardim do Éden.

O homem que, visto pelos olhos dos cinco sentidos, não passa de um "fungo que nasceu na face da Terra", é, na verdade, o próprio corpo espiritual de Deus ou de Buda, se visto pelos olhos da sabedoria do Prajnā (a sabedoria do Prajnā é a sabedoria que vê a Imagem Verdadeira). A isso Cristo se referiu com as palavras "nascer de novo". Corpo espiritual, aqui, significa corpo da Verdade, à qual Cristo se referiu quando disse "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida".

O homem fenomênico é um ser enigmático que perambula entre duas convicções: de um lado, a ilusória convicção de que o homem é carne, que deverá morrer; e, de outro lado, a convicção interior de que o homem é um ser espiritual, eterno e indestrutível. Enquanto não for destruída a falsa convicção de que o homem nasceu da carne, a inevitável exigência interna da Vida não será satisfeita. O que satisfaz essa inevitável exigência interna é, no budismo, a mitologia segundo a qual Sakyamuni foi concebido na axila direita da sra. Maya; e, no cristianismo, a mitologia da concepção imaculada de Jesus. Isso constitui a conversão para a convicção de que o homem não é carne que nasceu da carne. Cristo disse: "O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito". Quando renascemos para esta convicção, desaparecem todos os sofrimentos pertinentes ao corpo carnal.

Sakyamuni pregou que Avalokitésvara (Kazeon Bosatsu), para salvar a humanidade de todos os sofrimentos e desgraças, esclareceu que todos os cinco agregados são vazios. Essa pregação constitui a Prajnā Paramitā Sutra (Sutra da sabedoria suprema).

Desde os tempos idos, é dito que doenças são curadas e males espirituais são eliminados até pela leitura rápida da Prajnā Paramitā Sutra. Isso porque, pela negação da matéria, do corpo carnal, dos cinco sentidos, dos seis sentidos e de todos os obstáculos que tolhem a liberdade da Vida, recupera-se, como consequência, a plena liberdade da Vida, e então se torna possível afirmar o mundo do vazio absoluto, verdadeiro e sumamente maravilhoso.

Caros leitores, para afirmar a Imagem Verdadeira (Jisso) na qual o homem é filho de Deus e conscientizá-la, precisam uma vez passar por essa filosofia da negação e, dando mais um passo, conscientizar o corpo verdadeiro, sumamente maravilhoso, que é "vazio" e livre, tendo ao mesmo tempo o corpo carnal, material. Para isso, não basta entender apenas com a cabeça, lendo um livro a respeito. É preciso compreensão absoluta da realidade absoluta, praticando o Prajnā Paramitā de Kanzeon Bosatsu. É preciso apreender a Vida diretamente com a Vida. O Prajnā Paramitā que Avalokistésvara praticou corresponde à Meditação Shinsokan que a Seicho-No-Ie orienta e recomenda praticar.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 144-149

terça-feira, novembro 12, 2019

Assim se identificam o Budismo e o Cristianismo - 8/11

- Masaharu Taniguchi -


Então esbocei o seguinte pensamento: "A velhice e a morte não existem devido à inexistência de quê? A velhice e a morte se extinguem devido à extinção de quê?" (...) "A velhice e a morte não existem, porque não existe o nascer. A velhice e a morte se extinguem, porque se extingue o nascer". Da mesma forma, prego amplamente sobre o nascer, o existir, o segurar, o amor, a percepção, o contato, as seis entradas, o nome-e-forma, a faculdade cognitiva, a ação. (Sutra Agama)

Como já foi dito, os sofrimentos relativos à velhice, à doença, e à morte não existiriam se o homem não tivesse nascido. Nós precisamos nos libertar da ideia de que o homem carnal "nasceu e está aqui". Parece que ele nasceu, mas isso é ilusão dos cinco sentidos, assim como o Sol parece despontar do leste e se pôr no oeste, quando na verdade é a terra que está girando em sentido oposto. Quando negarmos os órgãos sensoriais e as funções sensoriais e chegarmos até à negação da "faculdade cognitiva", que é a origem das funções sensoriais, somente então compreenderemos que o corpo carnal não existe verdadeiramente.

Então, como poderemos negar a "faculdade cognitiva"? Para negá-la, precisamos esclarecer a causa pela qual ela surge. O que existe verdadeiramente não pode ser eliminado, mas o que foi gerado por uma causa pode ser eliminado quando desfazemos a causa. Então, a questão é sabermos se a "faculdade cognitiva" é algo que existe originariamente ou algo que foi gerado por uma causa. Segundo observou Sakyamuni, a "faculdade cognitiva", que é a causa que nos faz ver o corpo carnal como existente, surge devido à "ação". Essa "ação" é o "carma", termo que usamos quando dizemos "fulano tem carma". Trata-se de obra, atuação, ondas. É a inércia de movimento que se propaga ininterruptamente. Esta é a causa que gera a "faculdade cognitiva". Se eliminarmos essa "ação", será eliminada a "faculdade cognitiva".

"Pregar amplamente" significa pregar aplicando amplamente as sucessivas indagações sobre as doze causas intermediárias, por exemplo, concluindo que, eliminando-se a "ação", desaparece a "faculdade cognitiva"; eliminando-se a "ignorância", desaparece a "ação". Em seguida, Sakyamuni indagou: "A ação se extingue devido à extinção de quê?". E, finalmente, chegou à seguinte conclusão: "A ação não existe, porque a ignorância não existe; a ação se extingue, porque se extingue a ignorância".

"Ignorância" é a ilusão básica. Há vários graus de ilusão, e a básica é a "ignorância". Trata-se de um pensamento invertido que consiste em ver como existente aquilo que não existe. É ver como existente o carma (ação), que não existe verdadeiramente. Devido a isso, o carma não desaparece. Tendo o carma como causa, surge a segunda ilusão (faculdade cognitiva). Constituem terceira e quarta ilusões os erros dos sentidos: a ideia de que o corpo carnal existe, a ideia de que existem a velhice, a doença e a morte. Estas não existem. Para começar, o nascimento inexiste. Não existindo o nascimento, não existem nem a velhice, nem a doença, nem a morte. Na verdade, o próprio corpo carnal inexiste. As imagens captadas pelos sentidos são simples ondas vibratórias solidificadas pelas posição e ideias própria de cada indivíduo. Havendo diferença na posição da mente receptora e no conteúdo de sua ideia, as mesmas ondas vibratórias serão traduzidas (captadas) de formas diferentes. Um determinado som que um ser humano sente como um tênue vibração, uma certa espécie de peixe ouve-o como um som alto. Um estrondo que parece estourar o tímpano de um ser humano pode ser quase imperceptível para uma determinada espécie de ser vivo. A nuvem que para uma pessoa é uma enorme nimbo, parece uma neblina que embaça a vista de quem está dentro dela. Um vaso de cerâmica, que para o homem é um objeto compacto e duro, para os micro-organismos tais como vírus, parece uma montanha cheia de túneis livremente atravessáveis. Em suma, as coisas não são vistas exatamente tal como elas existem (tal como são na Imagem Verdadeira); simplesmente elas são reconhecidas relativamente como se fossem existentes. O que é relativo indica relação, e não constitui Realidade (existência verdadeira). A mente relativa (mente que resulta de uma relação) é chamada de "ignorância"; logo, ela não existe originariamente, e se extingue com a extinção da relação. E, já que os sofrimentos relacionados ao nascimento, à velhice, à doença e à morte são produtos da "ignorância", que não existe originariamente, esses sofrimentos já não existem quando se compreende que a "ignorância" não existe. Por mais que pareça existir, o que não existe é absolutamente inexistente. (*Nota: Normalmente os livros especializados em budismo explicam que a "ação" e a "ignorância" são duas causas pertencentes a encarnações passadas, mas eu penso que não é preciso, necessariamente, leva-las a encarnações passadas. Como expus acima, expliquei a "ignorância" como ilusão básica, e a "faculdade cognitiva" como segunda ilusão.)

Prosseguindo, Sakyamuni compreendeu o seguinte:

Por não existir ignorância, não existe ação; por se extinguir a ignorância, extingue-se a ação. Devido à extinção da ação, extingue-se a faculdade cognitiva; devido à extinção da faculdade cognitiva, extingue-se o nome-e-forma; devido à extinção do nome-e-forma, extinguem-se as seis entradas; devido à extinção das seis entradas, extingue-se o contato; devido à extinção do contato, extingue-se o captar; devido à extinção do captar, extingue-se o amor; devido à extinção do amor, extingue-se o segurar; devido à extinção do segurar, extingue-se o existir; devido à extinção do existir, extingue-se o nascer; devido à extinção do nascer, extinguem-se a velhice, a doença, a morte, a tristeza, a aflição, o remorso, o sofrimento; assim se extingue o grande conjunto de sofrimentos. (Sutra Agama)

Quando desaparecem todos os sofrimentos, que eram manifestações da ignorância (ilusão básica), o que existe é unicamente o mundo búdico, é unicamente o mundo de Deus; e quem aí vive são unicamente budas, unicamente filhos de Deus. Esse é o mundo em que "seres animados e inanimados estão, ao mesmo tempo, realizados como Buda e iluminados". O homem que parece um ser carnal nascido como produto da "ignorância" (ilusão) não é existência verdadeira, pois, se a "ignorância" é originariamente nada, o homem carnal, que constitui a terceira e quarta ilusões originadas do nada, também é nada.

A propósito, a Sutra da Sabedoria (Prajnā Paramitā Sutra) prega que o corpo carnal é nada, que a matéria é nada (que os cinco agregados são vazios), repetindo negação após negação, e afirma o homem da Imagem Verdadeira, plenamente livre, que existe por trás das aparências. Neste ponto, ela se identifica com a Seicho-No-Ie.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 140-144

sexta-feira, novembro 08, 2019

Assim se identificam o Budismo e o Cristianismo - 7/11

- Masaharu Taniguchi -


Sem desfazer minha postura, cheguei a eliminar o vazamento. Busquei o nirvana de suprema tranquilidade e sem doença, e o obtive. Busquei o nirvana de suprema tranquilidade sem velhice, sem morte, sem tristezas, sem aflições e sem preocupações, e o obtive; obtive o saber, obtive a visão, e encontrei o caminho e a dignidade. O viver já está extinto, a prática de Brahma já está efetivada, o comportamento já está correto, e conheci a Verdade sem me prender ao viver. (Sutra Rama)

Estas foram as palavras de Sakyamuni quando despertou para (compreendeu) o mundo da Imagem Verdadeira, onde não há velhice, nem morte, nem sofrimento.

Sakyamuni, vendo os quatro sofrimentos do mundo fenomênico – que são o nascimento, o envelhecimento, a doença e a morte –, quis saber como transcende-los ou dominá-los. Ele fez voto para consegui-lo e, para isso, praticou ascese durante seis anos, e acabou compreendendo que as práticas ascéticas (de mortificação do corpo) não levam ao despertar espiritual. Deixou o bosque dos ascetas Uruvela, chegou às margens do rio Nairanjana, lavou o seu corpo emagrecido, purificou-se das ilusões acumuladas durante anos, tomou a papa de arroz cozido com leite oferecido por uma jovem brâmane e recuperou a força física. Com o ânimo renovado, assentou-se sob uma árvore de figueira-dos-pagodes para meditar (árvore bodhi) e, fechando os olhos para a falsa imagem das mortificações fenomênicas, visualizou claramente a Imagem Verdadeira da Realidade do Universo, e, finalmente, despertou para o mundo da Imagem Verdadeira, onde não há velhice nem morte nem tristezas, compreendendo que estas não passavam de projeções de ideias, pensamentos e sentimentos.

"Sem desfazer minha postura" significa permanecer em postura e estado de meditação. É fazer o que em inglês é dito contemplation. É meditar sobre a Verdade. "Vazamento" significa ilusão ou desejos mundanais. Portanto, "eliminar o vazamento" significa eliminar a ilusão de que "existe o corpo carnal", "existe o fenomênico", ilusão esta originada do conhecimento baseado nos cinco sentidos. Eliminada a ilusão, Sakyamuni se conscientizou da Imagem Verdadeira do homem, isenta de velhice, morte e tristeza; isto é, alcançou o nirvana tranquilo, sem velhice, sem morte, sem tristeza...

Aos olhos carnais, Sakyamuni não passava de um homem carnal de aspecto deselegante, magérrimo, com as costelas salientes, representado na estátua conhecida como "Imagem de Sakyamuni pós-ascese". Mas tal fenômeno não existe, o corpo carnal também não existe, existindo unicamente o homem eterno perfeito, isento de doença, velhice, morte, tristeza, aflição e preocupação. Nirvana não significa morte. Ele consiste na morte da consciência do homem carnal e no renascimento da consciência espiritual do homem eterno, que resulta no desaparecimento de todos os tormentos e na obtenção do estado espiritual de total tranquilidade. Referindo-se a esse estado espiritual, Sakyamuni diz no Dammapada (uma coleção de máximas de Sakyamuni, de 758 versos, obra de iniciação ao budismo, explicando o caminho para se viver corretamente): "A minha vida já é tranquila, sem padecer de doença, Eu pratico a inexistência da doença. A minha vida já é tranquila sem me entristecer, e pratico a inexistência da tristeza. A minha vida já é tranquila, naturalmente pura; alimento-me da felicidade. Sou como os anjos de som luminoso".

"Anjos de som luminoso" são, segundo a lenda, os anjos que vivem no mundo da felicidade perene, sempre repleto de luz. Um ser como esses anjos espirituais é o homem verdadeiro. Ao fato de Sakyamuni ter visto e conhecido esse homem da Imagem Verdadeira, ele diz na Sutra Rama: "obtive o saber, obtive a visão". E ao fato de ter encontrado o caminho e as regras de boa conduta que decorrem naturalmente dessa conscientização, ele diz: "encontrei o caminho e a dignidade". Referindo-se à extinção da ilusão de estar vivendo como corpo carnal, ele diz: "o viver já foi extinto". Consequentemente, as práticas de brahma, isto é, as práticas de purificação, passaram a ser realizadas naturalmente, e seu comportamento não infringiu mais as regras, mesmo agindo conforme a sua vontade. Atingindo esse estado espiritual, não se tornou mais prisioneiro do "existir", isto é, da ilusão de que "o corpo carnal existe", e apreendeu a Verdade, isto é, a Imagem Verdadeira da Realidade tal qual ela é.

É importante alcançarmos, em vida, o estado de "o viver já foi extinto". Para isso, precisamos, por meio negação do fenômeno, isto é, por meio da compreensão da inexistência da matéria, da inexistência do fenômeno, da inexistência do corpo carnal e da inexistência da doença-velhice-morte, compreender a existência do mundo ideal, eterno e indestrutível, e a existência do homem eterno, indestrutível, perfeito, isento de doença, velhice, morte e sofrimento. Quem possui inteligência poderá compreender isso por meio da inteligência. Porém, o caminho mais fácil consiste em compreendê-lo com o coração de criança, tal como o filhinho da senhora Michiko Yokoyama. Sakyamuni, como foi o maior filósofo de toda a história da humanidade, alcançou o despertar por meio da meditação sobre a Verdade e da reflexão filosófica. A meditação sobre a Verdade consiste na meditação zen, e a reflexão filosófica consiste em refletir sobre as 12 causas diretas e indiretas do sofrimento, isto é, questionar por que existem os quatro sofrimentos relacionados a vida-velhice-doença-morte, e, se eles não existem, por que parecem existir.

Por que existem velhice e morte? É devido ao nascer. Por que existe o nascer? É devido ao existir. Por que existe o existir? É devido ao segurar. Por que existe o segurar? É devido ao amor. Por que existe o amor? É devido ao receber. Por que existe o receber? É devido ao contato. Por que existe o contato? É devido às seis entradas. Por que existem as seis entradas? É devido ao nome-e-forma. Por que existe nome-e-forma? É devido à faculdade cognitiva. (Sutra Zo-agon 12.5)

"Por que existem velhice e morte?" – a solução desta questão era o primeiro e maior objetivo de Sakyamuni quando abandonou o lar em busca do despertar. Aqui estão mencionada apenas "velhice e morte", mas essas duas palavras representam a velhice, a doença, a morte e todos os demais sofrimentos, tristezas, aflições, preocupações, etc. Por que o homem envelhece, por que adoece, por que morre, porque precisa passar por tristezas, aflições e preocupações? Quando meditamos detidamente sobre essas questões, concluímos que isso é devido ao fato de termos nascido fisicamente. É devido ao "nascer". Para nos libertarmos dos sofrimentos causados por velhice, doença e morte, precisamos transcender o "nascer". Devemos sair para o mundo onde não existe o "nascer". E, para isso, precisamos indagar por que ocorre o "nascer", qual é a causa do "nascer", investigar a origem do "nascer", descobri-la e rompê-la. Por isso, Sakyamuni foi perseguindo e observando causas após causas (ou causas das causas), e esse processo se chama "observação das causas". E, como resultado de suas meditações e observações, concluiu que o homem carnal surgiu pela sucessão de 12 causas intermediárias, as quais vou enumerar a seguir:

1 – Velhice e morte (incluindo doenças e todos os tipos de sofrimentos)
2 – Nascer
3 – Existir
4 – Segurar
5 – Amor
6 – Captar
7 – Contato
8 – Seis entradas
9 – Nome-e-forma
10 – Faculdade cognitiva
11 – Ação
12 – Ignorância

Os sofrimentos relacionados à doença, à velhice e à morte ocorrem pelo fato de termos nascido neste mundo. Se não tivéssemos nascido, não existiriam os sofrimentos relacionados à velhice, à doença e à morte, nem dores causadas pela separação das pessoas amadas, nem o desconforto de encontrar pessoas odiosas. Por isso, precisamos superar o nascer. Então, o suicídio bastaria para superar o nascer? Não, porque o suicídio provoca carma, que deverá ser resgatado futuramente. Assim como uma energia não se extingue por si só devido à lei da inércia, a inércia dos carmas físicos, verbais e mentais irá manifestar-se nas próximas encarnações, num círculo vicioso, tal como uma roda que continua girando. O fato de a alma reencarnar várias vezes se diz Rinne-tenshô em japonês e significa metempsicose rotativa, pois esse processo cíclico se sucede indefinidamente como uma roda que gira sem parar. Assim sendo, de nada adianta alguém se suicidar para superar sofrimento e dor. Precisamos negar o "nascer" sem praticarmos o suicídio. Precisamos transcender o "nascer", vivendo. Tendo nascido como corpo carnal, precisamos afirmar que não somos corpo carnalManifestando o corpo carnal, precisamos compreender que o corpo carnal não existe, que o nascer não existe. Em outras palavras, precisamos alcançar um despertar igual ao de Sakyamuni, que, sob a estrela-d'alva do dia 8 de dezembro, aos 35 anos de idade, vivendo com o corpo carnal, afirmou: "o viver já se extinguiu".

Então, como poderemos adquirir a consciência da inexistência do corpo, da inexistência do "nascer", quando estamos manifestando o corpo carnal?

Sakyamuni, questionando dentro de sua mente sobre a causa e a origem do "nascer", indagou: "Por que existe o nascer?". E a resposta foi: "É devido ao existir". Esse "existir" não significava a existência verdadeira ou realidade. Ele é o pensamento, a ideia, a visão de que a matéria existe. Na sutra Agon-Kyô está escrito: "O pensamento significa existência. O pensamento significa existência de todas as coisas". Portanto, esse "existir" consiste em pensar que são "existentes" todos os fenômenos materiais, inclusive o homem carnal, em vez de considerá-los meras formas manifestadas. Se não considerarmos o homem carnal como "existente", não surgirá a questão "por que nasceu" o corpo carnal, que não existe. E no corpo carnal, que não existe, também não podem existir nem velhice, nem doença, nem morte, nem tristeza, nem aflição, nem sofrimento, e todos os problemas estão resolvidos. Portanto, o único meio para transcender e dominar o corpo carnal consiste em não considerar os fenômenos materiais e corporais como "existentes", mas vê-los como "inexistentes". Os que se deixam enganar pelos cinco sentidos (tal como Adão, que comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal) pensam que o corpo carnal e a matéria existem e se apegam ao corpo carnal, confundindo-o com o seu Eu verdadeiro, e é por isso que sofrem temendo a velhice, a doença e a morte.

Se o corpo carnal não é existência verdadeira, o "nascer" também não existe verdadeiramente. Eles são como uma visão ou uma imagem projetada na tela de cinema. Compreendendo que eles não são existências verdadeiras, atingimos o nirvana tranquilo, "sem nascimento, sem velhice, sem doença e sem morte" mesmo vivendo a vida em que se nasce, envelhece, adoece e morre. Não é após a morte do corpo carnal que se alcança tal estado de nirvana; este se alcança quando desaparece o apego ao corpo carnal e a pessoa se liberta das amarras desse apego, pela compreensão de que o corpo carnal não existe, mesmo existindo. Portanto, alcançar o nirvana não consiste em abandonar este mundo; pelo contrário, consiste em concretizar neste mundo o estado de felicidade perene do mundo da Imagem Verdadeira. Isto é, realizar no mundo atual o estado paradisíaco, o jardim do Éden, o estado do palácio Ryugu (reino do mar). Sakyamuni, que atingiu esse estado, expressa-o na Sutra Rama com as seguintes palavras:

Sou um ser excelente,
não me apego a nada,
libertei-me de todos os apegos.
Assim é um vitorioso.
Todas as ilusões se extinguiram.
Aniquilei todos os males.

"Aniquilei todos os males" – esta declaração expressa o seu despertar para a Verdade de que "o mal não existe". Esse despertar tem como base a absoluta convicção de que a matéria não existe, o corpo carnal não existe. É desse modo que o homem alcança o seu estado mental de total liberdade também neste mundo fenomênico e se torna vitorioso. Na Sutra Agama (Agon-kyô, em japonês), consta a seguinte passagem:

Foi quando Sakyamuni permanecia na aldeia Sekishu-Shakushi. Inúmeros discípulos seus, reunidos no templo, estavam consertando suas vestes. Nesse momento, o demônio Papias, metamorfoseado em um monge brâmane, vestindo pele de animal e com uma bengala na mão, veio aonde estavam reunidos os discípulos de Sakyamuni e lhes perguntou: "Vocês, que abandonaram seus lares na juventude, tendo pele alva e cabelos pretos, e que estão na flor da idade e são robustos, não deveriam satisfazer os prazeres dos cinco sentidos (desejo de posse, desejos carnais, a gula, a fome e o sono)levar uma vida luxuosa e se divertir? No entanto, abandonaram os prazeres deste mundo e buscam a felicidade póstuma. Por que fazem isso?"

Buscar a felicidade póstuma significa abrir mão da felicidade presente e real para alcançar a felicidade no mundo pós-morte, após terminar a vida no mundo presente. Continuando a passagem:

Os discípulos responderam: "Nós não buscamos a felicidade póstuma, abandonando a felicidade presente. Nesta própria vida presente, já abandonamos a felicidade póstuma e já estamos desfrutando da felicidade presente". Então o falso brâmane indagou: "Como desfrutar da felicidade presente, abandonando a felicidade póstuma?". Os discípulos de Sakyamuni responderam: "O nosso mestre prega que a busca da felicidade do outro mundo é sem graça, acarreta muito sofrimento, traz pouca vantagem e muita preocupação. A felicidade do mundo presente de que fala o venerável Sakyamuni é aquela que vem naturalmente, sem esperarmos a hora, quando afastamos as diversas queimações, e que atingimos aqui mesmo. Caro brâmane, isso se chama felicidade do mundo atual".

"Queimação" significa o fogo das paixões mundanais que arde; são as amarras do apego. Se afastarmos os apegos e as paixões mundanais que ardem, compreendendo que o corpo carnal não existe verdadeiramente, que a matéria não existe verdadeiramente, atingiremos o estado de plena liberdade e teremos felicidade no mundo atual, "sem esperarmos a hora", isto é, sem esperarmos a hora da morte carnal, realizando-se assim o paraíso sereno neste mundo profano. Esta foi a resposta. Assim era o budismo, não o budismo filosófico da posteridade, mas da fase inicial em que vivia Sakyamuni.

Em todo caso, para alcançarmos o estado de plena liberdade neste mundo presente, precisamos aniquilar a ideia do "existir". E a que se deve o aparecimento desse "existir"? "É devido ao segurar" – concluiu Sakyamuni. "Segurar" consiste no fato de a pessoa se apegar a algo e segurá-lo. Pensando "eu desejo, eu quero", segura-o com apego. Podemos apreender a Vida em seu estado de fluidez, sem imobilizá-la, sem segurá-la. Quando apreendemos a Vida tal qual ela é, desaparece a sensação de estarmos vivendo como corpo carnal e alcançamos o estado em que a Vida em si está vivendo, em que a Vida está fluindo naturalmente como ela é. Algo não vai bem devido ao "segurar", isto é, quando nos apegamos a ele e o prendemos. Então, de onde vem esse apego? A resposta é: Por que existe o segurar? É devido ao amor. Quando nos apegamos a algo devido ao amor-apego e o seguramos, esse "segurar" imobiliza a Vida, e não podemos apreendê-la em seu estado de fluidez. O termo "amor", no cristianismo, significa amor puro, desinteressado e divino; mas no budismo, esse termo é sinônimo de ilusão, de apego pegajoso. Mas isso não significa desacordo entre budismo e cristianismo. É apenas que a mesma palavra está sendo empregada em sentido diferente.

Bem, agora vamos ver por que surge esse amor-apego, pegajoso. Sakyamuni compreendeu o seguinte: Por que existe o amor? É devido ao captar. Aqui, "captar" significa sensibilidade. Se não existisse a sensibilidade, não surgiria o "amor" de apego pegajoso. Então, como surge a sensibilidade? Por que existe o captar? É devido ao contato. Somente é possível sentir algo porque há contato com ele. E se contata porque existem órgãos sensoriais, que são as "seis entradas". São seis meios para receber as vibrações vindas de fora, ou seja: visão, audição, olfato, gustação, tato e mente. Então, como se desenvolveram esses seis órgãos sensoriais: Sakyamuni disse: Por que existem as seis entradas? É devido ao nome-e-forma.

"Nome" é palavra, são ondas; e "forma" é matéria. A matéria também são ondas solidificadas. Logo o "nome" e a "forma", afinal, são da mesma natureza. Os órgãos sensoriais não se desenvolveram por si sós; eles se desenvolvem de acordo com a mudança das ondas do ambiente. Entre os peixes que vivem nas profundezas do mar, existem alguns que não têm olhos. Em Akiyoshi, província de Yamaguchi, há uma caverna com estalactite onde corre um rio subterrâneo, e lá vivem enguias sem olhos, porque lá não chegam os raios solares. Quando se fala em ambiente, temos a impressão de que ele é um elemento puramente externo a nós, mas o ambiente também é constituído de ondas vibratórias (verbo). Assim sendo, o interior e o exterior são uma coisa só: o ambiente constitui a nossa mente, e a mente constitui o ambiente. Sobre esse assunto irei discorrer posteriormente com maiores detalhes. As "seis entradas" (órgãos sensoriais) se desenvolveram graças a nome-e-forma (ondas vibratórias). É como acontece com a evolução do radar, graças ao desenvolvimento da tecnologia eletromagnética. Acompanhando as mudanças do meio ambiente, muda também o sistema de adaptação a ele. Vamos agora ver por que surge o nome-e-forma.

"Por que existe nome-e-forma? É devido à faculdade cognitiva" – esta foi a conclusão de Sakyamuni. As ondas vibratórias da matéria são consideradas diferentes das ondas mentais, mas, em síntese, são as mesmas ondas da "faculdade cognitiva". Se a faculdade cognitiva não atuasse no Universo, não existiria nem mundo objetivo (nome-e-forma), nem o mundo subjetivo (faculdade cognitiva). Em suma, podemos dizer que o Universo é manifestação da faculdade cognitiva. E, sobre a causa do surgimento dessa "faculdade cognitiva", não é mais possível conjecturar. A Sutra Agama (Agon-kyô) diz:

Certa vez, Sakyamuni permaneceu no Guion-shôja, erigido no bosque Seitarin. Lá, ele disse aos monges: "Eu pensei no destino quando ainda não havia alcançado o verdadeiro despertar e, a sós, num local silencioso, meditei seriamente com a mente concentrada e formulei a seguinte questão: 'Por que razão existem velhice e morte? Por qual causa intermediária da razão existem velhice e morte?'. Concentrei-me corretamente e cheguei à seguinte conclusão: 'Velhice e morte existem porque existe o nascimento; velhice e morte existem devido à causa intermediária do nascimento'. Assim, fui indagando sucessivamente sobre existir, segurar, amor, contato, seis entradas e nome-e-forma. Depois indaguei: 'Por que razão existe nome-e-forma?'. Concentrei-me corretamente e cheguei à conclusão: 'Nome-e-forma existe porque existe a faculdade cognitiva, é devido à causa intermediária da faculdade cognitiva'. Nessa sucessão de indagações, cheguei até a faculdade cognitiva e retrocedi, sem conseguir ir mais além".

Desse modo, existe primeiramente a "faculdade cognitiva", que é a base, cujas ondas vibratórias se manifestam como "nome-e-forma", isto é, manifestam-se como ondas invisíveis (nome) e ondas visíveis (forma), e, tendo estas como causa intermediária, surgem as "seis entradas", que são órgãos para captar as ondas acima referidas. Por intermédio desses órgãos sensoriais se produz o contato, e este produz o "captar". Este gera o "amor", este gera o apego (segurar), este gera o "existir", que consiste em pensar que as coisas existem materialmente, o que, por sua vez, gera o "nascer", isto é, a ideia de que o corpo carnal nasce e existe aqui. E, como as pessoas pensam que o corpo carnal é o seu eu, veem como existentes a velhice, a doença e a morte (resumindo, "velhice e morte"), que aparecem no corpo carnal, e consequentemente surgem diversos tipos de sofrimento. Assim concluiu Sakyamuni. Então, como eliminar esses sofrimentos? Para isso, basta fazer o percurso inverso com o pensamento.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 125-140

terça-feira, novembro 05, 2019

Assim se identificam o Budismo e o Cristianismo - 6/11

- Masaharu Taniguchi -


E qualquer que receber em meu nome um menino, tal como este, a mim recebe. Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem! Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olhos te escandalizar, arranca-o, e atira-o longe de ti; (Mateus 18: 5-9)

Jesus disse "em meu nome". Esse "nome" é o Verbo, é a Imagem Verdadeira, é a Verdade (Jesus disse: "Sou a Verdade, a Vida"). Para receber a Verdade, é necessário o coração de criança. Receber docilmente a imagem perfeita do homem eterno é o significado das seguintes palavras de Jesus: "E qualquer que receber em meu nome um menino, a mim recebe". O obstáculo para se entrar no reino do céu são os cinco sentidos do corpo carnal; por isso, se os olhos carnais encobrem a perfeição da Imagem Verdadeira, Jesus diz, com veemência, para arrancá-los e atirá-los longe. Isso constitui total negação do corpo carnal e dos seis sentidos – visão, audição, olfato, gustação, tato e mente – mencionada na Sutra da Sabedoria (Prajnā Paramitā Sutra). Dessa forma, "prosseguindo, prosseguindo, chega-se ao paraíso" (gate-gate-paragate); o paraíso se realiza aqui; o perdido jardim do Éden é reconquistado; o homem eterno, isento de nascer-envelhecer-adoecer-morrer, é ressuscitado; e desaparece o mundo real onde pareciam existir doenças e calamidades.

Quando se aceita docilmente, com o coração de criança, a Verdade homem-filho-de-Deus, desaparecem subitamente até as doenças consideradas incuráveis pela Medicina. No livro Vida de Vitória Infalível, é citado um caso verídico de desaparecimento súbito de uma doença chamada tuberculose miliar. Vou transcrever resumidamente esse caso, pois o referido livro está atualmente esgotado.

Residia em Kobe uma senhora chamada Michiko Yokoyama. Ela é uma testemunha viva da Verdade, pois continua viva. Seu filho de seis anos de idade contraiu tuberculose miliar. É uma doença caracterizada pelo surgimento de grânulos que cobrem todo o corpo, acompanhada de febre alta e prolongada. É uma tuberculose que afeta o corpo todo e é mais grave do que a tuberculose pulmonar. E os médicos não falam na possibilidade de cura. No estado avançado, a duração de vida terrena desse tipo de paciente é questão de dias ou horas. Porém, certa pessoa emprestou à sra. Michiko um volume de A Verdade da Vida, da Seicho-No-Ie, e lhe disse: "Se você ler este livro à cabeceira de seu filho, ele será curado". A sra. Michiko leu fervorosamente A Verdade da Vida para seu filho, com a intenção de fazê-lo compreender o conteúdo. E que está escrito nessa obra? Está escrito que o corpo carnal é imagem falsa do homem, mas, na Imagem Verdadeira, a Vida do homem é de filho de Deus; que Deus é perfeito, e, por conseguinte, na Imagem Verdadeira do homem, que é filho de Deus perfeito, não existe nem doença nem infelicidade. E o menino ouviu isso. Um intelectual talvez não aceitasse tal colocação, mas, como ele é uma criança, ouviu ingenuamente essa Verdade, acreditou nela docilmente, e disse à sua mãe: "Então eu sou filho de Deus!".

– Sim, meu filho, você é filho de Deus – respondeu a mãe.
– Já que sou filho de Deus, a doença não existe, não é mesmo?
– Sim, a doença não existe porque você é filho de Deus.
– Então vou-me levantar, porque não estou doente – dizendo assim, o menino se levantou como se nada tivesse acontecido, pois estava completamente curado.

Os leitores talvez fiquem um pouco admirados pelo fato de essa criança – aceitando simples e incondicionalmente a Verdade de que a Vida vem de Deus e que  Deus é a saúde absoluta – manifestar a saúde absoluta própria de um filho de Deus. Mas "coração de criança" não é questão de idade. Os idosos também, tornando-se dóceis como o coração de criança e recebendo dentro do seu coração a Verdade de que o homem é filho de Deus, verão concretizados em seu organismo um poder de cura admirável.

Na cidade de Okayama, residia uma anciã chamada Kyu Baba. Ela era adepta da seita Konkô e pensava que seria punida pela divindade dessa religião, se acreditasse em qualquer outra religião. Porém, ouvindo a palestra do sr. Yasusuke Kurihara, que é divulgador da Seicho-No-Ie, compreendeu que no Universo só existe um único Deus, que não existem outros deuses; e que, se a denominação de Deus difere conforme a religião, isso é como se um mesmo ator representasse diferentes personagens e palcos de teatro. Ouvindo essa Verdade, ela passou a ler tranquilamente as revistas da Seicho-No-Ie. Certa noite, após o jantar, quando estava lendo a revista Seicho-No-Ie, sentiu penetrar profundamente em sua alma a verdade de que o homem é filho de Deus, perfeito e isento de doença, por natureza. Ela tinha, havia dezenas de anos, uma verruga bem saliente na parte lateral na nuca. E tinha a mania de beliscar essa verruga com a ponta de seus dedos sempre, mesmo quando lia um livro ou conversava com amigas. Entretanto, naquela noite, lendo a revista Seicho-No-Ie, tentou beliscar a verruga mas não a encontrou. Ela ficou sem saber o que fazer com a mão que sempre beliscava a verruga. "Que será que aconteceu?" – assim pensando, ela foi-se olhar no espelho e não viu nem sinal de verruga.

Na página da revista Seicho-No-Ie que ela lia naquele momento, estava escrito: "O homem é filho de Deus, e o corpo carnal não existe verdadeiramente. Se está manifestado em forma algo que não existe, isso é projeção da mente. Se a mente mudar, mudará o estado do corpo carnal".

Pensando bem, não deveria haver, por natureza, algo deselegante como verruga no homem, que é perfeito e harmônico. Se uma parte do corpo estava saliente, isso era prova de que havia saliência (insatisfação) na mente. Mas, quando ela compreendeu que o ser humano é, por natureza, filho de Deus, que mora no reino de Deus e que não existe neste mundo motivo algum para ficar com a mente insatisfeita, desapareceu a sua "mente saliente" (sentimento de insatisfação). E, quando desapareceu a "mente saliente", desapareceu também a verruga do corpo carnal.

A sra. Baba, naquele momento, lembrou-se de que tinha um lombinho (protuberância) do tamanho de uma xícara na axila. Pensando "Se desapareceu a verruga, talvez tenha desaparecido também o lombinho", ela enfiou a mão pela manga para apalpá-lo e notou que ele havia desaparecido. Desde então, a sra. Baba ficou famosa pelo apelido de "vovó que perdeu o lombinho". Espalhou-se na redondeza a fama de que, ouvindo as palavras da sra. Baba sobre a Verdade, as doenças se curam. Inúmeras pessoas passaram a frequentar a casa dela para ouvir suas palavras sobre a Verdade, e muitas delas foram curadas.

Quando houve um Grande seminário no Centro Empresarial de osaka, a sra. Baba relatou uma experiência. Segundo disse ela, uma senhora a procurou, acompanhada de sua filha de aproximadamente 20 anos de idade. Essa moça tinha pequena impigem na coxa. Ela tentou a cura, passando pomada para doença de pele, mas a impigem se alastrou, cobrindo-a da cintura para baixo, chegando até a extremidade dos dedos de ambos os pés. Tornou-se necessária grande quantidade de pomada, o que causou problema financeiro. Ela estava na idade casadoira, mas não poderia casar-se enquanto não se curasse da doença na pele. Justamente nessa época, a mão ouviu a fama da sra. Baba e procurou-a para curar a filha.

– A doença não existe, pois o ser humano é filho de Deus – disse a sra. Baba.
– Mas minha filha está doente desse jeito, e justamente por isso viemos para ser curada pela senhora – disse a mãe.
– O que eu faço não é curar doenças. Eu simplesmente faço as pessoas compreenderem que a doença não existe.
– Como a doença não existe, se minha filha está tão gravemente enferma?
– O que não existe, não existe.
– Mas viemos buscar a cura por que a doença existe.
– Se eu disse que não existe, é porque não existe. A doença não existe, porque Deus não a criou.
– Como pode saber que a doença não existe?
– Mas o que não existe, simplesmente não existe. Não há outra alternativa senão acreditar. Se existisse, poderia argumentar o porquê, mas não há como argumentar sobre o que não existe.
– Mas da cintura para baixo, está coberta de erupções.
– Isso não existe, porque Deus não o criou!
– Mas está cheia de erupções da cintura para baixo!
– Assim parece porque a sua mente está em erupção. Elimine as erupções da sua mente, que elas vão desaparecer do corpo. Deus criou o homem à Sua própria imagem, e por isso é perfeito e não tem doença.
– Então, por que eu vejo o que não existe?
– Isso é projeção da sua mente. Acreditem na perfeição da Criação de Deus! Eliminem da vida de vocês os descontentamentos e as erupções mentais.
– Mas, por favor, gostaria que a senhora curasse a impigem da minha filha.
– Quando desaparecerem as erupções da mente, não haverá mais erupções no corpo. Deixe-me ver se as erupções mentais já desapareceram – assim dizendo, a sra. Baba levantou a borda do vestido da moça e mostrou à mãe a metade inferior do corpo.

Para a sra. Baba, ver as partes afetadas não era ver o corpo carnal, mas o estado mental.

Por incrível que pareça, as infecções que cobriam a parte inferior do corpo da moça haviam desaparecido.

Para quem pensa que a impigem é uma infecção causada por uma espécie de parasitas patogênicos, tal cura deve parecer um milagre espantoso. Não estou negando que a impigem seja um dermatose causada por parasitas patogênicos. O que quero dizer é que ela é consequência da concretização do estado mental, e que a causa está no estado mental. A filosofia segundo a qual o mundo visto é manifestação do estado mental da mente de quem o vê, não é mera filosofia especulativa, mas uma filosofia praticável.

Caro leitor, vendo o seu estado mental refletido no "espelho", não pense que seja real o estado físico, que não passa de projeção da mente. Essa Verdade se aplica não apenas a doenças dermatológicas, mas também à tuberculose pulmonar, ao câncer, às protuberâncias etc. Não se decepcione por não encontrar neste livro o nome da doença que você tenha contraído. O princípio é um só, e a Verdade é válida para todos os casos. Por pior que pareça a imagem que esteja vendo, não duvide da perfeição do mundo e do homem criado por Deus. Somente isso é Realidade. A Realidade é sempre perfeita. Realidade não significa "aquilo que é visível". Realidade significa "o que existe verdadeiramente". Realidade é o conteúdo da Criação de Deus. E ela é sempre perfeita.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 117-125