"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, abril 19, 2018

A Quietude que Sucede à Tormenta



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"Espere a flor florescer na quietude que sucede à tormenta: não se adiante."

Uma das leis mais fundamentais da vida precisa ser entendida.

A vida baseia-se na polaridade; cada coisa existe com o seu pólo oposto. De outro modo, não é possível. A mente existe devido à matéria; a mente é o pólo oposto. A consciência existe devido à inconsciência, o dia existe devido à noite, a vida existe devido à morte, a felicidade existe devido à infelicidade, e assim por diante. Cada coisa existe devido ao seu pólo oposto. Você não pode experimentar a felicidade a não ser que tenha experimentado profundamente a infelicidade, e não pode alcançar o êxtase supremo se não tiver passado pela agonia suprema. Esse é o significado do mundo, o sentido de todo esse sofrimento. Ele não é sem sentido.

As pessoas que procuram e me perguntam por que Deus criou este mundo de sofrimento. “Por que há tanto sofrimento se Deus é compaixão?” Sim, Deus é compaixão. Por esse motivo há tanto sofrimento. A menos que você passe através do sofrimento, não alcançará o êxtase supremo. O sofrimento é o aprendizado básico. A infelicidade é o aprendizado básico para o florescimento supremo da felicidade.

Como você pode alcançar o êxtase se não conhece a agonia? Se você alcançar o mundo do êxtase sem saber o que é a agonia, não será capaz de reconhecê-lo. O reconhecimento é impossível. Somente através da escuridão se pode reconhecer a luz. Você pode estar vivendo na luz mas, se não conhece a escuridão, não pode saber que está vivendo na luz. Um peixe do mar não pode saber que o mar existe. Somente se o peixe for lançado fora do mar é que poderá reconhecê-lo. Se for jogado outra vez para dentro do mar, esse peixe será totalmente diferente e o mar também será totalmente diferente. A partir de então o peixe será capaz de reconhecê-lo. Sansara, o mundo, é apenas um local de aprendizado. Você precisa entrar profundamente na matéria. Só assim poderá retornar ao outro pólo, ao pico da consciência.

Este sutra diz: "Espere a flor florescer no silêncio que sucede à tormenta; não se adiante." 

O silêncio real, autêntico, ocorre somente depois de você ter passado pela tormenta. Apenas quando cessa a tormenta é que o silêncio pode explodir dentro de você; nunca antes. Você pode criar uma quietude falsa, antes da tormenta; mas nesse caso estará apenas se iludindo. Você pode criar uma quietude – artificial, cultivada, imposta a partir do exterior – mas ela não será espontânea, não pertencerá ao seu ser interior.

Há muitos artifícios para se aquietar a mente. Você pode usar um mantra. Pode sentar-se calado na postura de Buda e ficar repetindo aum, aum, aum. Se continuar repetindo esse mantra uma, duas, três, muitas vezes, acabará entediado. Esse tédio terá o aspecto de uma quietude. Quando você se entediar, o mantra cessará. Uma espécie de sono interno surgirá. Hipnose – uma espécie de sono. Você se sentirá bem, mas esse sono não é dhyana, esse sono não é silêncio. Esse sono é simplesmente negativo. Você se torna entorpecido em virtude da repetição. Toda repetição cria entorpecimento. Você se torna simplesmente entorpecido. Através do entorpecimento você não pode experimentar a miséria, não pode experimentar o sofrimento. O entorpecimento é um anestésico. Ele torna você inconsciente.

Isso é negativo. Sem dúvida, você ficará menos tenso, mas não estará mais vivo. A quietude autêntica surge somente depois da tormenta.

Não force a tormenta a desaparecer. Antes, viva-a; permita que ela aconteça. Traga-a para fora, expulse-a. Permita que a tormenta o abandone, deixe que ela se dissipe. Não a reprima. Reprimida, ela permanecerá em você. Reprimida no inconsciente, ela persistirá; aguardará o momento certo para explodir. Você sempre receará sua explosão, precisará combatê-la continuamente. E você nunca sairá vitorioso, pois aquilo que é reprimido precisa ser combatido repetidas vezes, precisa ser reprimido muitas vezes. Sua quietude estará assentada sobre um vulcão e, a qualquer momento, o vulcão poderá entrar em erupção.

Então você sempre temerá a vida, porque a vida pode criar situações nas quais o vulcão poderá entrar em erupção. Você negará a vida, tentará fugir dela. Desejará ir para Himalaia, pois ali não haverá ninguém que lhe forneça uma oportunidade para que seu vulcão entre em erupção. Mas o vulcão ainda estará aí e o Himalaia não poderá ajudar, a menos que o vulcão seja expulso.

E é bom expulsa-lo. Você está perdendo uma experiência básica, a de expulsar completamente o vulcão, de liberar totalmente a loucura, de trazer para fora tudo o que se encontra ali: a tormenta interior. Deixe-a sair e não resista, não reprima. Deixe-a sair totalmente. Então chegará o momento em que a tormenta passará.

Nesse momento, a quietude real acontece em você. Real no sentido de que, agora, não é cultivada; é espontânea. O rio está fluindo. Não se trata de algo que você criou; não é algo que está acontecendo devido ao seu esforço. Pelo contrário, você não está aí. Apenas a quietude está. E essa quietude é destemida. Nada pode perturbá-la, porque aquilo que poderia ser distúrbio foi expulso. A tormenta se dissipou.

Por isso é que insisto, e insisto bastante para que você expulse a sua loucura. Dentro, ela é perigosa. Expulse-a e ela desaparece. Seu coração torna-se vazio; um certo espaço é criado. Somente nesse espaço a quietude pode acontecer. Então você tem um lugar para ela, está pronta para ela, aberto para ela.

"Espere a flor desabrochar na quietude que sucede à tormenta: não se adiante."

O que é a flor?

O florescimento do seu ser só ocorrerá quando a quietude real acontecer em você; nunca antes. Você não pode forçar a flor a se abrir. Ela se abre por si mesma. Você não pode forçar o seu ser a se abrir; isso é impossível. Você não pode violentá-lo, não pode ser violento com ele. Ele será simplesmente destruído.

A flor se abre por si mesma. O único solo necessário é a quietude autêntica, real e espontânea. A partir de uma quietude cultivada, a flor nunca se abrirá. Com uma quietude cultivada, você simplesmente se tornará entorpecido. Seu ser ficará menos vivo, apenas isso. Com menos vida, você estará menos inquieto. Isso parece bem, mas lembre-se de que a inquietude é um aprendizado. Você não deve tentar ter menos inquietações. Fique com as suas inquietações e mova-se através delas. Não as abandona, não fuja delas. Chegará um momento em que você terá ido além delas, mas só se atinge esse momento passando-se através delas. Passe através da tormenta e permita que surja uma verdadeira quietude. Só então seu ser florescerá, nunca antes.

"Ela se desenvolverá, crescerá rapidamente, produzirá ramos e folhas, e formará botões, enquanto a tormenta continua, enquanto a batalha prossegue. Porém, até que toda a personalidade do homem seja dissolvida e desfeita... até que toda a natureza se renda e se submeta ao seu superior, a flor não poderá desabrochar."

Não pense que a tormenta é sua inimiga. Ela não é. Essa tormenta é a sua maior amiga, pois sem ela não haverá quietude, sem ela não haverá florescimento, sem ela não haverá liberação. Assim, nunca pense em termos de inimizade. Não há nada que seja seu inimigo; a existência inteira é amiga. Até mesmo aquilo que parece estar contra você – até mesmo isso não é seu inimigo. Jesus diz: “Ame o seu inimigo.” O verdadeiro inimigo que você precisa amar não é o seu vizinho ou o inimigo do seu país. Eles não são seus verdadeiros inimigos. Seus verdadeiros inimigos são a tormenta, o mundo, o mal. A sexualidade, a raiva, a paixão, o ódio – estes são os seus verdadeiros inimigos.

Jesus diz: “Ama a teus inimigos como a ti mesmo.” Por quê? O cristianismo nunca pôde entender isso.O ensinamento de Jesus foi completamente perdido. Tudo o que existe sob o nome de cristianismo não pertence de modo algum a Jesus Cristo. Pertence a São Paulo. Ele é o verdadeiro fundador do cristianismo que existe na Terra.

Jesus é muito esotérico. Quando diz: “Ama a teus inimigos como a ti mesmo”, quer dizer: através do pólo oposto, através do inimigo, alcança-se o amigo supremo. Viva o inimigo em sua totalidade para que possa transcendê-lo. Qualquer experiência total torna-se transcendental. QUALQUER experiência, eu disse. Viva com a sua totalidade e terá ido além dela. Ela nunca ficará presa a você; você terá ido acima dela. Terá passado através dela, terá aprendido tudo a seu respeito. Esse conhecimento é revolucionário. Cria uma mutação; transforma você.

"Enquanto a tormenta continua..." Não pense que a tormenta é sua inimiga, pois enquanto ela prossegue embaixo da terra, oculta na escuridão, a flor se desenvolverá.

"...crescerá rapidamente, produzirá ramos e folhas, e formará botões, enquanto a tormenta continua, enquanto a batalha prossegue. Porém, até que toda a personalidade do homem seja dissolvida e desfeita... até que toda a natureza se renda e se submeta ao seu superior, a flor não poderá desabrochar."

Quando a tormenta cessar, a flor desabrochará. Mas ela já estava se preparando durante a tormenta. Através da tormenta, ela estava se preparando para desabrochar. Estava acumulando energia, vida, vitalidade. Estava se aprontando para explodir. A tormenta é o solo. Sem ela, a flor não pode desabrochar.

"Então virá uma calma semelhante àquela que, num país tropical, sucede à chuva intensa. ...E na profunda quietude ocorrerá o evento misterioso que revelará que o caminho foi encontrado."

Somente passando pela tormenta é que você poderá alcançar uma calma em seu interior, semelhante àquela que, num país tropical, sucede à chuva intensa. Lembre-se disso profundamente, pois lhe será de grande ajuda.

Com cada sofrimento, você está criando a possibilidade de algum êxtase. Após cada sofrimento, o êxtase se seguirá imediatamente. Mas se você estiver muito preso ao sofrimento, poderá perder o êxtase. Se você estiver doente, um momento de saúde, um momento de bem-estar virá a você após essa doença. Mas você pode estar tão preocupado com a doença que, quando o momento vier, poderá perdê-lo – estará muito envolvido com a doença que não existe mais. O momento é instantâneo; você pode perdê-lo facilmente. Após cada dor, o momento vem e visita você.

Após cada sofrimento, o êxtase vem bater à sua porta; mas você continua perdendo-o porque o passado é muito intenso. A doença já passou, mas você continua doente. Ela permanece na memória, cobrindo sua mente de névoas, e você perde esse momento fugaz.

Lembre-se disto: sempre que você estiver deprimido, espere pelo momento em que a depressão for embora. Nada permanece eternamente; a depressão irá embora. E quando ela o deixar, espere – fique atento e alerta – porque após a depressão, após a noite, virá a aurora e o Sol nascerá. Se você puder estar alerta nesse momento, ficará feliz por ter estado deprimido. Ficará grato por ter estado deprimido, porque somente por intermédio dessa depressão é que esse momento de felicidade tornou-se possível.

Mas o que é que fazemos? Movemo-nos numa regressão infinita. Ficamos deprimidos. Então, ficamos deprimidos por causa da depressão; segue-se uma segunda depressão. Se você está deprimido, ótimo. Não há nada de errado nisso. É bom, pois através da depressão você aprenderá e amadurecerá. Mas você se sente mal. “Por que estou deprimido? Não quero ficar deprimido.” Então começa a lutar com a depressão. A primeira depressão é boa, mas a segunda depressão é irreal. E essa depressão irreal cobrirá sua mente de névoas. Você perderá o momento que se seguiria à depressão real.

Quando estiver deprimido, continue deprimido. Simplesmente, continue deprimido. Não fique deprimido por causa da sua depressão. Não lute, não procure se desviar, não force a depressão a ir embora. Apenas permita que ela aconteça; ela irá embora por si mesma. A vida é um fluxo; nada permanece o mesmo. Você não é requisitado; o rio move-se por si mesmo, não precisa que você o empurre. Se está tentando empurrá-lo, você está sendo tolo. O rio fluir por si mesmo. Deixe-o fluir.

Quando a depressão se manifesta, permita que ela se manifeste. Não fique deprimido por causa dela. Se você quiser afastá-la cedo demais, ficará deprimido. Se lutar com ela, você criará uma depressão secundária que é perigosa. A primeira depressão é boa, uma dádiva divina. A segunda depressão é criação sua. Não é uma dádiva divina; não é mental. Então você entrará em esquemas mentais, e eles são infinitos.

Se você ficar deprimido, fique feliz por estar deprimido e permita que a depressão se manifeste. Então, de repente, a depressão desaparecerá e surgirá um espaço, uma brecha. Não haverá nuvens e o céu estará claro. Por um único momento, o céu se abrirá para você. Se você não estiver deprimido por causa de sua depressão, poderá entrar em contato, estar em comunhão, atravessar o portão celeste. E quando o conhecer, terá aprendido uma das leis supremas da vida: que a vida usa o oposto como um professor, como uma base ou trampolim.

Nada é errado; tudo acontece para o bem. É a isso que eu chamo de uma atitude religiosa. Você pode não acreditar em Deus – isso não faz nenhuma diferença. Buda nunca acreditou em Deus, Mahavir nunca acreditou em Deus, mas eles eram religiosos. Não há necessidade de se acreditar numa vida após a morte, nenhuma necessidade. Ainda assim você pode ser religioso. Não há nem mesmo necessidade de se acreditar na alma. Você pode ser religioso sem acreditar nela.

Então o que é religião? Religião significa essa confiança de que tudo acontece para o bem. Essa confiança de que tudo acontece para o bem constitui a mente religiosa; isso é religiosidade.

E se você confiar que tudo acontece para o bem, conseguirá compreender o divino. O divino pode ser compreendido através dessa confiança. Até mesmo a tormenta existe em benefício do silêncio. O mal existe em benefício do bem; a morte existe em benefício da vida; o sofrimento e a agonia são apenas situações nas quais o êxtase pode acontecer.

Olhe a vida deste modo, e não estará distante o momento em que o sofrimento desaparecerá completamente, em que a dor desaparecerá completamente, em que a morte desaparecerá completamente. Aquele que sabe que a agonia existe em benefício do êxtase não ficará agoniado. Aquele que sabe, sente e compreende que o sofrimento existe em benefício da felicidade, jamais sofrerá. É impossível. Ele usa o próprio sofrimento para ser mais feliz, usa a própria agonia como um degrau para o êxtase. Vai além do domínio do mundo, salta para fora da roda de sansara.

“O desabrochar da flor é o momento glorioso no qual a percepção desperta: com ele surge a confiança, o conhecimento, a certeza.”

“...Quando o discípulo está pronto para aprender, então ele é aceito, admitido, reconhecido. Não pode ser de outro modo, pois ele acendeu seu luzeiro e este não pode ser oculto.”

"Estes escritos constituem as primeiras regras que estão escritas nas paredes do Saguão do Saber. Aqueles que procurarem, encontrarão. Aqueles que desejarem ler, lerão. Aqueles que desejarem aprender, aprenderão."

"QUE A PAZ ESTEJA CONVOSCO."

Há mais duas coisas que devem ser entendidas: “O desabrochar da flor é o momento glorioso no qual a percepção desperta: com ele surge a confiança, o conhecimento, a certeza.” A menos que você experimente, não pode ter certeza. A menos que você experimente, não conheceu ainda. A menos que você experimente, não pode haver fé. Antes que você experimente, toda crença é falsa, toda certeza é apenas fachada, todo conhecimento é apenas informação e nada mais. Lembre-se: antes de experimentar alguma coisa por si mesmo, não esteja tão seguro dela, pois certeza em demasia é apenas um truque da mente para ocultar a incerteza interior. Antes de vivenciar alguma coisa por si mesmo, não diga que a conhece, porque seu conhecimento é apenas um truque para ocultar sua ignorância.

Você pode ter lido o Gita, pode ter lido o Alcorão, pode ter lido a Bíblia. Então você sabe “a respeito de”, mas não sabe. Pode saber muito a respeito de Deus, mas isso não significa nada, a menos que você conheça Deus. Saber “a respeito de” não é conhecimento. Você pode saber o que Jesus disse, mas isso é emprestado, secundário, inútil. Você pode repetir o que Krishna disse, mas isso é apenas mecânico. Você pode memorizá-lo, pode sabê-lo de cor, mas nunca estará em seu coração; permanecerá na memória. A memória é mecânica; não é conhecimento. O conhecimento surge somente através de sua própria experiência. Insista em sua própria experiência. Se você insistir, conseguirá.

"Aqueles que procurarem, encontrarão." Mas você nunca procura; contenta-se com um conhecimento emprestado. Nunca diz: “Preciso conhecer por mim mesmo.” Se você procurar, a existência estará pronta para lhe dar; mas você se contenta com livros, com escrituras, com informação de empréstimo. Nunca procura o verdadeiro conhecimento.

Procure o real. E o real significa a sua experiência, a sua própria experiência. Os Budas não são de nenhuma ajuda. Podem apenas mostrar o caminho, mas você precisa andar com seus próprios pés. Insista em conhecer por si mesmo, em sua própria experiência. Não se contente antes disso.

"Aqueles que desejarem ler, lerão." Se você insistir muito em ler as leis supremas, elas se revelarão a você. A Bíblia verdadeira não se encontra na Bíblia, o Alcorão verdadeiro não se encontra no Alcorão, o Gita verdadeiro não se encontra no Gita. A Bíblia verdadeira, ou o Alcorão, ou o Gita, estão escritos na existência, na própria vida. Se você não acreditar nas escrituras, as escrituras verdadeiras se revelarão a você.

Insista, “Quero ler a existência” e a ocasião lhe será dada. Mas se você não insistir, se se contentar em carregar um livro morto, então a existência não se imporá. A existência é absolutamente não-violenta; ela não se impõe a você. Você pode continuar com suas escrituras e, se está feliz, ótimo. Mas você está vivendo num mundo falso, está vivendo no mundo das palavras. Abra o livro da existência. Jogue fora todas as escrituras para que a escritura verdadeira possa ser encontrada.

"Aqueles que desejarem aprender, aprenderão." Aprender é difícil porque aprender significa render-se, aprender significa entregar-se, aprender significa tornar-se semelhante a um útero, tornar-se feminino, permitindo que a existência entre em você. Porém, aqueles que desejarem aprender, aprenderão.

Nós também desejamos, mas não aprender. Desejamos coletar mais informações. Isso não é aprender.

Muitas pessoas me procuram e dizem: “Vamos aos campos de meditação porque aqui conhecemos muitas coisas novas.” Elas coletam informação, coletam algumas palavras e então partem felizes. São estúpidas. E sua felicidade é suicida, porque tudo o que digo não será de nenhuma utilidade se você não o vivenciar.

Você pode carregar minhas palavras. Mas estará carregando um peso morto. Ele o oprimirá; você não será livre. Minhas palavras não podem libertá-lo. Ao contrário: podem aprisioná-lo, podem tornar-se grilhões para você. Teria sido melhor se você não tivesse vindo. Tudo o que digo, seja o que for, não é para ser lembrado. É para ser vivido. E se você o vive, torna-se seu. Então essas palavras não me pertencem mais. Agora, aquela experiência tornou-se a sua própria experiência. Agora, você conhece alguma coisa através de seus próprios olhos, sente alguma coisa através de seu coração. Isto é conhecimento. E isso proporciona certeza e fé.

"Que a paz esteja convosco" – pois somente na paz o divino torna-se possível.


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terça-feira, abril 17, 2018

Fragmentos Sem Coerência

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- OSHO


"Toda a natureza humana precisa ser usada sabiamente por aquele que deseja ingressar no caminho. Cada homem é, absolutamente por si mesmo, o caminho, a verdade e a luz. Busque-a pelo estudo das leis da existência, das leis da natureza, das leis do sobrenatural: e busque-a através da profunda reverência da alma à pequena estrela que ilumina o interior. À medida que você observar e venerar essa luz, com serenidade e firmeza, ficará mais forte. Então você saberá que encontrou o início do caminho. E quando encontrar o fim, sua luz se transformará, repentinamente, na luz infinita."

“...Não se apavore nem se aterrorize diante da escuridão interior; mantenha seus olhos fixos na pequena luz e ela crescerá. Mas permita que essa escuridão o ajude a compreender o desamparo dos que não vêem a luz, cujas almas se encontram em profunda depressão.”

"Toda a natureza humana precisa ser usada sabiamente por aquele que deseja ingressar no caminho." Isso é muito significativo. Você todo precisa ser usado. Qualquer fragmento que for usado criará um problema, qualquer fragmento que não for usado criará um problema.

Você pode rejeitar alguma coisa em seu interior, mas, nesse caso, nunca será um homem total. Você pode rejeitar a raiva, por exemplo; ou o sexo, por exemplo. Muitos mestres, muitas religiões, ensinam que se deve rejeitar o sexo. Dizem que o sexo é o inimigo: “Rejeite-o!” Você pode rejeitá-lo, mas estará rejeitando uma parte bastante significativa do seu ser. E se você a rejeita, como ela poderá ser transformada? Assim, você sempre será um homem pela metade. Seja o que for que você se torne, você nunca será total. E, não sendo total, você nunca poderá ser livre. A parte rejeitada se vingará. A parte reprimida continuará borbulhando em seu interior, tentando encontrar uma saída, e você estará sempre inquieto.

A sabedoria dos antigos diz: “Use toda a sua energia. Crie uma harmonia em seu interior.” Cada energia pode ser tanto destrutiva como criativa. Não há nada que seja mau em si mesmo. Cada coisa pode ser usada de tal modo que até mesmo o veneno pode tornar-se um remédio. A sabedoria nunca rejeitará coisa alguma. Ela usará tudo de um modo criativo. Usará a sua raiva, o seu sexo, o seu ódio.

Como você pode usá-los? Como você pode usar o seu sexo? Ele parece ser o seu inimigo mortal. Como você pode usá-lo?

Três coisas significativas devem ser lembradas. Em primeiro lugar, por que essa ânsia pelo sexo? Por que o desejamos ardentemente? O que ganhamos através dele? Observe-o. Em breve, à medida que a observação se aprofundar, o sexo se dissolverá.

Qual é o verdadeiro significado disso tudo? Por que você deseja tanto o sexo? Porque ele lhe proporciona um momento de profunda meditação. Ele é um processo natural de meditação. No sexo, seus pensamentos cessam, sua mente se dissolve; por um instante, você não se encontra mais na mente. Você está ali, sem a mente. Essa ausência de mente lhe proporciona um vislumbre da bem-aventurança.

Observe o sexo; não o rejeite. Conheça-o. Entre nele com plena consciência e procure descobrir o que ele é, em sua essência. Você chegará até essa essência: o sexo lhe proporciona uma espécie de instante de meditação natural. Você fica sem pensamentos, e isso lhe traz bem-aventurança. A partir do momento em que você descobrir essa essência, poderá entrar nesse estado sem pensamentos, sem precisar do sexo. Essa essência, esse centro profundo, poderá ser alcançado sem a necessidade de sexo. Então, aos poucos, o sexo desaparecerá. A partir desse momento, a mesma energia se moverá para a meditação, a mesma energia se tornará espiritual.

Toda energia precisa ser usada sabiamente. Nada deve ser rejeitado. Essa é uma das coisas fundamentais que ensino: nada deve ser rejeitado, nada, seja o que for. Você tem de ingressar na espiritualidade com o seu ser total. Nós transformaremos as suas energias, transformaremos a sua disposição. Faremos novas disposições, novas harmonias. Novas sintonias serão criadas, mas nada será rejeitado.

Neste exato momento, você é um quebra-cabeça: fragmentos sem nenhuma coerência, sem nenhuma unidade interior. E cada fragmento está lutando com um outro. Você é uma multidão; muitas notas musicais, mas nenhuma melodia. Essas notas podem ser dispostas numa melodia. E a menos que você faça isso, permanecerá na miséria.

Este sutra diz: "Toda a natureza humana precisa ser usada sabiamente por aquele que deseja ingressar no caminho." Se você quer realmente ingressar no caminho que conduz ao supremo, tem que usar toda a sua energia. Nada pode ser reprimido ou rejeitado. Cada coisa precisa ser aceita com profunda gratidão.


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sábado, abril 14, 2018

Em Busca do Caminho

- OSHO - 

Busque o caminho.

“...Pare e reflita um pouco. É o caminho que você deseja ou, há, em suas visões, uma vaga perspectiva de grandes alturas a serem escaladas por você mesmo, um grande futuro a ser alcançado? Cuidado. Saiba que o caminho deve ser buscado por causa dele mesmo e não como algo que seus pés trilharão.”

Busque o caminho. O caminho não é conhecido. Ninguém pode ensinar-lhe o caminho; ele não lhe pode ser dado. O caminho não pode ser mostrado, não pode ser transmitido. Você precisa buscá-lo.

Pensamos, geralmente, que devemos buscar a meta, mas que o caminho já se encontra determinado. Há tantos caminhos que não há razão de se continuar a falar sobre eles; e todos levam à mesma meta. A meta é que precisa ser encontrada, a meta é que precisa ser alcançada, não o caminho. O caminho já está à mão. Na verdade, está totalmente à mão, pois existem muitíssimos caminhos.

Mas isso não é verdade, porque a meta e o caminho não são duas coisas. O próprio caminho torna-se a meta. O primeiro passo é também o último, pois o caminho e a meta não são duas coisas. O caminho, à medida que se avança através dele, transforma-se na meta. O mais importante é não pensar sobre a meta. O pensamento básico deve ser a respeito do caminho. Descubra o caminho: Busque o caminho.

Porém, nossas mentes encontram-se de tal modo condicionadas que pensamos ter recebido um caminho de nascença. Uma pessoa é cristã, outra, hindu, e outra, maometana. Elas pensam que o caminho lhes foi dado pela sociedade, pela cultura, por sua educação. Não é verdade; o caminho não pode ser dado por ninguém. Nem a sociedade, nem a cultura, nem a educação podem lhe dar o caminho. Você precisará buscá-lo, pois através da busca você será transformado.

Um caminho que se tomou emprestado é um caminho morto. Através dele, você não conseguirá avançar; ele não o levará a lugar algum. Você pode acreditar nele, pode consolar-se nele, pode adiar sua jornada por causa dele – pois como você o conhece, poderá trilhá-lo qualquer dia –, mas quando você iniciar sua marcha, verá que o caminho que se toma emprestado, que é dado, não será de nenhuma ajuda.

Você precisará buscar o seu próprio caminho. É difícil buscá-lo; muitos erros são possíveis. Mas nada se obtém sem erros; portanto, seja suficientemente corajoso para errar. Você poderá enveredar por caminhos errados, mas é preferível andar por caminhos errados do que permanecer absolutamente parado, pois pelo menos você aprenderá a caminhar, aprenderá o que é um caminho errado. Isso também é bom, pois a exclusão será útil. Você andará por um caminho e descobrirá o que está errado. Andará por outro caminho e descobrirá o que está errado. Desse modo, sabendo o que está errado, você chegará a compreender o que está certo.

Portanto, não tenha medo de errar, de percorrer caminhos errados. Aqueles que têm muito medo de cometer erros e de percorrer caminhos errados ficam paralisados. Permanecem onde estão; jamais se movem.

Seja corajoso e busque o seu caminho. Jamais imite o caminho de alguém. A imitação não o levará à liberdade. Não se trata de seguir um caminho ou outro; trata-se de buscar. Seja um buscador e não um seguidor. E conheça bem a diferença.

Um seguidor é um imitador. Um buscador também segue, mas não é um imitador. Um buscador também segue, mas segue a fim de buscar, de descobrir. Ele permanece atento, permanece consciente. Um seguidor torna-se cego, torna-se dependente – espiritualmente, um escravo. Joga sua responsabilidade sobre os ombros de um outro e aí se pendura. Um buscador é responsável por si mesmo. Está atento, é responsável – descobrindo algo novo a cada dia, experimentando algo novo a cada dia. Ele é destemido, vulnerável, aberto a qualquer luz nova, pronto a ser mover em qualquer dimensão que se apresente à sua visão. Se sente que o caminho no qual se move está errado, não dirá: “Mas investi tanto neste caminho. Agora não posso mudar.” Ele abandonará o caminho, abandonará tudo que investiu nele, retornará para onde estava antes, e começará a aprender novamente o ABC.

Um buscador está sempre pronto a mudar, mas um seguidor é teimoso, inflexível. Diante da luz, preferirá cerrar os olhos em vez de vê-la, pois ele investiu muito.

Um monge jaina me procurou. Disse que fora um monge jaina durante trinta anos. “Hoje eu sei que escolhi um caminho que não me serve, mas agora não posso abandoná-lo porque, se o abandonar, o que farei? Não tenho instrução. Fui iniciado no mosteiro quando ainda era uma criança. Estes trinta anos de vida monástica tornaram-me totalmente dependente dos outros. Não posso fazer nada; não posso fazer nenhum trabalho físico. Eu sou tão respeitado! Até mesmo pessoas importantes vêm até mim e curvam suas cabeças. Se eu deixar de ser monge – e sei agora que isso não me serve – essas mesmas pessoas que hoje tocam os meus pés, não me empregarão nem mesmo como criado. Assim, o que posso fazer?”

Há muito investimento. Todo o prestígio, respeito, honra, estão agora em jogo. Então eu lhe disse: “Se você é realmente um buscador, jogue tudo isso fora. Seja um mendigo ou um louco, mas não seja falso. Se você sabe que esse caminho não lhe serve, então abandone tudo aquilo que obteve através dele. Não seja falso, não seja inautêntico”.

Ele disse: “Pensarei a respeito. Mas acho difícil.”

Há três anos ele vem pensando a respeito. Não me procurou mais. Não me procurará. Ele é um seguidor, não um buscador. Um buscador abandona tudo no instante em que percebe que algo não lhe serve. Não há hesitação. Este sutra diz: Busque o caminho. Seja um buscador, não um crente.

"Busque o caminho retirando-se para dentro."

E sempre que você se deparar com alguma coisa que o atrai, algo que seja atraente à sua razão, à sua lógica, à sua mente – que pareça racional, pareça ser verdadeiro – lembre-se: não é suficiente. Pode parecer verdadeiro à sua razão, mas isso não significa que seja verdadeiro. A não ser que você o experimente, que você experimente algo através dele, nada foi descoberto. Através da lógica, não se descobre nada. A lógica é um instrumento útil, mas não a considere o critério supremo. O critério supremo encontra-se sempre em seu íntimo. Experimente e sinta. E, a menos que você experimente alguma coisa, não acredite que a encontrou, que o caminho lhe foi revelado. Somente através da experiência é que as teorias se transformam em verdade.

Busque o caminho retirando-se para dentro. Sempre que você descobrir uma técnica, um caminho, recolha-se, vá para dentro de si. Experimente-o aí: em sua subjetividade, em seu coração. Experimente-o. Não fique apenas refletindo sobre o que é meditação. Medite! Somente assim você poderá saber o que é a meditação. Uma técnica pode não lhe servir. Abandone-a e tente outra. Há centenas de técnicas de meditação. Uma delas certamente lhe servirá. A humanidade vem se esforçando por sua libertação há milhares de anos e todos os tipos de homem alcançaram a libertação. Todos os tipos de homens alcançaram a libertação. Todos os tipos de técnica foram encontradas. Você não é novo; já esteve aqui antes. Muitos iguais a você já estiveram aqui antes e trilharam o caminho. Muitas técnicas foram descobertas.

Tente. Mas seja autêntico; quando tentar, tente seriamente. E tente com toda a sua energia. Se uma técnica não lhe trouxer resultado, abandone-a e comece outra.

Antigamente, quando um discípulo procurava um mestre, a primeira coisa que o mestre tentava observar era se o discípulo lhe convinha ou se ele convinha ao discípulo. Se o mestre achasse que o discípulo não devia ficar com ele, se sentisse que o discípulo poderia ser mais bem auxiliado por algum outro mestre – mesmo se esse outro lhe fosse contrário – ele dizia ao discípulo: “Procure aquele mestre!”.

O discípulo poderia dizer: “Mas ouvi contar que ele é contra você; diz que tudo o que você está fazendo é errado”.

O mestre diria: “Não se incomode com o que ele diz. Ele lhe será conveniente, o caminho dele convirá a você. Procure-o. Tente com ele”.

Continue tentando diferentes técnicas, mas faça isso de todo o coração. Caso contrário, você poderá desistir de uma técnica que lhe serviria. Assim, tente de todo o coração. Se algo acontecer, ótimo. Entre nisso, entre profundamente. Porém, se você se dedicar totalmente a ela, com toda a sua energia, e nada acontecer, então, abandone essa técnica; ela não lhe serve. Mas não a abandone antes de tenta-la – antes de entregar-se totalmente a ela. Busque o caminho retirando-se para dentro.

"Busque o caminho avançando corajosamente para fora."

Mesmo que você experimente uma técnica e sinta alguma coisa em seu interior, há toda a possibilidade de se tratar apenas de uma ilusão. Talvez não passe de uma projeção da mente, ou seja apenas um sonho, um desejo de realização. Não pense que você encontrou o caminho. Seja o que for que você tenha alcançado interiormente, transforme-o agora em seu caráter, viva-o. Você já teve a experiência. Agora viva-a, transforme-a em sua própria vida. Se sentir que a tranqüilidade lhe aconteceu através dessa experiência, permita que ela se mova, permita que as ondulações da tranqüilidade ao redor de você movam-se para além de você. Deixe que a sua tranqüilidade alcance os outros. Deixe que os sonhos também sintam que você se tornou aquilo.

Se você continuar exteriormente irado, mas disser: “Sou um grande meditador” – estará apenas iludindo a si mesmo. Não se iluda, não se engane, porque você será o único perdedor, ninguém mais. Tudo o que acontecer dentro de você – se você achar que sentiu a luz interior... Qual o critério para saber se é ilusão ou realidade? O critério é que a sua vida exterior mudará em conformidade com a interior.

Se você realmente experimentou a luz interior, o sexo desaparecerá. O amor lhe acontecerá, mas o sexo desaparecerá; a sexualidade desaparecerá. O amor, uma personalidade muito amorosa, a substituirá. Não haverá mais desejo sexual. Se o desejo sexual permanece, você não experimentou a luz interior. Nesse caso, a luz interior nada mais é que uma projeção da mente.

E assim por diante. Seja o que for que você tenha experimentado interiormente, isso precisa ser exteriorizado. É preciso que isso se mostre em sua vida, pois esse é o verdadeiro teste, o verdadeiro critério. Se você alcançou uma profunda tranqüilidade, o ódio desaparecerá. Se ele permanece, se não se transformou totalmente em amor, então você não sentiu a tranqüilidade interior. Se há ódio, a tranqüilidade interior é impossível. Você deve ter sentido algo cultivado, deve ter cultivado uma tranqüilidade...

Se você continuar repetindo um mantra, criará uma tranqüilidade que é cultivada, falsa, mas sua vida exterior permanecerá a mesma. Se o interior muda, o exterior também muda, mas o contrário não é verdadeiro. Você pode mudar o exterior e não há necessidade de que o interior mude. Esse é o significado da hipocrisia. Você pode mudar o exterior – pode ser muito amoroso exteriormente – e continuar cheio de ódio em seu interior. Você muda o exterior, cria uma máscara falsa, uma fachada.

Pode-se observar isso por toda parte, especialmente neste país onde tanta religião tem sido ensinada. O único resultado final é este: uma sociedade hipócrita. Máscaras, e não rostos verdadeiros. Olhe para qualquer rosto e descobrirá que não é verdadeiro. Alguma outra coisa se oculta por trás dele, alguma coisa inteiramente diversa.

Você pode mudar o exterior e não há necessidade de que o interior mude. Porém, se o interior muda, a mudança exterior é inevitável. Quando o interior muda, o exterior muda automaticamente. Se ele não está mudando, então sua mudança interna não passa de uma ilusão.

Estes três sutras são muito significativos:

Busque o caminho.
Busque o caminho retirando-se para dentro.
Busque o caminho avançando corajosamente para fora.


terça-feira, abril 10, 2018

O Poder que o tornará Nada

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- OSHO -

"Deseje ardentemente o poder.
... E o poder pelo qual o discípulo ansiará é aquele que, aos olhos dos homens, o fará parecer nada."

Estaremos entrando cada vez mais em contradições. A linguagem da religião é, obrigatoriamente, contraditória. Aparentemente, isso parece irracional. De certo modo, a religião é irracional, pois vai além da razão, transcende a razão. Este sutra diz: "Deseje ardentemente o poder - mas aquele poder que o torna nada". Você se torna inexistente.

Desejamos o poder a fim de nos tornarmos alguma coisa. O poder que a riqueza pode oferecer, o poder que a política pode fornecer, o poder que o prestígio pode fornecer. Desejamos o poder para sermos alguma coisa, e esse sutra diz: Deseje ardentemente o poder – mas aquele poder que o tornará ninguém, nada.

Há dois tipos de poder. Primeiro, aquele poder que você pode acumular a partir dos outros – aquele poder que lhe pode ser dado pelos outros ou que você pode tomar dos outros. Ele depende dos outros. O poder que depende dos outros fará com que você se torne alguém aos olhos dos outros. Você permanecerá o mesmo de antes mas, aos olhos dos outros, tornar-se-á alguém. Esse “ser alguém” é uma pretensão do ego. E o ego é a barreira.

Deseje esse poder – o do segundo tipo – que lhe faz sentir-se ninguém. É difícil sentir que “eu sou ninguém”. Todo mundo pensa que é alguém, quer os outros concordem ou não. Todo mundo pensa que é alguém! Isso é ser comum; toda mente comum pensa que é alguém. No momento em que você compreender que é ninguém, tornar-se-á extraordinário, raro, uma flor única, incomparável. O sentimento de ser ninguém cria um espaço dentro de você. O ego se dissolve, seu falso centro deixa de existir. Você se torna espaçoso. Agora, o eterno pode entrar em você. Esse espaço, esse vazio, pode permitir que a existência floresça em você.

Você está repleto desse sentimento de ser alguém. Você é isto, você é aquilo. A mente é tão astuta que você pode até mesmo tornar o ser ninguém em algo importante. Vou contar-lhes uma historieta.

Um imperador, um imperador maometano, estava rezando numa mesquita, num dia santificado. Ele estava orando a Deus e dizia: “Eu sou ninguém. Sou nada. Tenha piedade de mim”.

Então, subitamente, ele ouviu um mendigo que também estava rezando próximo a ele. O mendigo também dizia: “Eu sou ninguém. Tenha piedade de mim”.

O imperador sentiu-se ofendido! Olhou para o mendigo e disse: “Ouça, quem é você para competir comigo? Quando eu digo, ‘Eu sou ninguém’, quem mais se atreve a dizer ‘Eu sou ninguém’? Quem é você para tentar competir comigo?”.

Até mesmo no estado de “ser ninguém” você pode ser um competidor. Então, o essencial, o ponto principal, é perdido. O imperador não podia tolerar que um outro, diante dele, reivindicasse para si o ser ninguém. Quando ele dizia para Deus que era ninguém, ele não queria dizer que era ninguém. Através do “ser ninguém” ele estava criando o “ser alguém”. Você também pode criar o ego a partir do nada.

Lembre-se de que o ego é poder em relação ao mundo, mas é impotência no que se refere ao divino. Tudo o que parece ser poder no mundo é impotência na dimensão divina. Nessa dimensão, a ausência de poder é poder. Jesus sempre dizia a seus discípulos: “Seja pobre de espírito.” Não apenas pobre, pois você pode ser pobre sem ser pobre de riqueza. Se você tiver um sentimento egoístico em relação à pobreza, então sua pobreza não é pobreza. Ela não é pobreza de espírito.

Por isso, Jesus sempre repetia: “Seja pobre, pobre de espírito”. Do contrário, você pode ser um mendigo na rua, pode ter abandonado tudo, mas então, você se apega a esse fato de ter abandonado tudo; apega-se à sua renúncia. Transforma sua pobreza em riqueza; orgulha-se dela. Olhe para os sannyasins, os monges, os bhikkhus. Olhe em seus olhos. Eles possuem um profundo orgulho pelo fato de terem abandonado o mundo, de terem renunciado. Eles renunciaram ao mundo, mas agora sua renúncia tornou-se um crédito bancário. Orgulham-se disso; sentem-se superiores. Quando Jesus diz: “Seja pobre de espírito” – ele quer dizer: não seja superior a ninguém.

Mas, lembre-se: ele não quer dizer para você ser inferior. Esse é o problema. Ele não quer dizer: seja inferior, porque se você for inferior – se sentir que é inferior – isso será, outra vez, uma superioridade de cabeça pra baixo, nada mais. Superioridade de ponta-cabeça torna-se inferioridade. Se você se sente inferior, a ânsia de ser superior está presente.

Quando Jesus diz “seja pobre de espírito”, ele não quer apenas dizer "não seja superior". Ele quer dizer isso, mas também quer dizer: não seja inferior; seja apenas você mesmo. Não se compare aos outros; fique tranqüilo consigo mesmo.

Então, você será ninguém, porque para ser alguém é necessário comparação. Como você pode ser alguém se não há comparação: Você é mais bonito, nunca é simplesmente bonito. Você jamais pode ser simplesmente bonito; é sempre bonito em comparação a algum outro. Você é rico em comparação a algum outro, é mais inteligente em comparação a algum outro. A superioridade e a inferioridade são sempre comparações. Você é alguém quando comparado a outros. Se não houver comparação, quem você será? Você não pode ser apenas bonito, pode? Você não pode ser apenas inteligente, pode?

Imagine o seguinte: Você está sozinho na Terra; toda a humanidade desapareceu. O que você será? Inteligente ou tolo? Bonito ou feio? Um homem notável ou apenas um homem comum? O que você será? Sozinho na Terra – toda a humanidade desapareceu – você será apenas você mesmo. Não será capaz de dizer: “Eu sou isto ou aquilo.” Você não será alguém. Você será ninguém.

O verdadeiro sannyas, a verdadeira renúncia significa que você está totalmente sozinho, como se todo o universo, toda a humanidade tivesse desaparecido. Não há possibilidade de comparação. Nesse caso, quem é você? Ninguém. Esse estado de ser ninguém é poder – poder no mundo divino.

Jesus diz: “Aqueles que são os primeiros neste mundo, serão os últimos no reino de Deus, e aqueles que aqui são os últimos, serão os primeiros no reino de Deus.” Aquilo que neste mundo é poder, na jornada divina é ausência de poder, e aquilo que neste mundo é a ausência de poder, é poder na jornada divina.

Este sutra diz: Deseje ardentemente o poder – mas lembre-se do significado de “poder”. Significa uma ausência de poder. É um sentimento de ser ninguém, de nada, de vazio. E o poder pelo qual o discípulo ansiará é aquele que, aos olhos dos homens, o fará parecer nada.
 
"Deseje fervorosamente a paz.

...A paz que você desejará é aquela paz sagrada que nada pode perturbar e na qual a alma floresce como o faz a flor sagrada nas lagoas calmas."
 
Deseje fervorosamente a paz. Ninguém deseja a paz. Você vive falando de paz e se iludindo dizendo que a deseja, mas ninguém a deseja – porque quando a paz é desejada, ela acontece, e ela não aconteceu para você.

Ninguém deseja a paz. Mesmo que você diga que deseja a paz, você não a deseja, porque uma das leis supremas afirma: se você deseja a paz, ela acontece. Então, onde está o erro?

Muitas pessoas me procuram. Um estudante procurou-me – ele estava indo prestar seu exame final de mestrado. Perguntou-me: “Como posso manter-me em paz? Como posso manter-me calmo? Ajude-me. Desejo a paz. Ando tão inquieto, tão tenso.”

Eu lhe perguntei: “Por que você deseja a paz?”

Ele disse: “Desejo conseguir a melhor nota. O exame será em breve. Sempre obtive as melhores notas, mas este será meu último exame e eu desejo obter a melhor nota. Mas se minha mente está tão tensa, como vou consegui-la? Assim, ajude-me a ficar em paz.”

Veja a contradição! E isso está acontecendo com todo o mundo. Eu disse ao jovem: “Se não houvesse nenhum exame, se você não sentisse nenhum desejo de tirar a melhor nota, se não tivesse nenhuma ambição de ser o melhor da classe, haveria alguma inquietação em seu interior? Sua paz seria perturbada?”.

Ele disse: “Não. Não haveria motivo. Não haveria nenhum problema. Eu estaria em paz. Mas agora, o exame está próximo e desejo obter a melhor nota. Assim, ajude-me a ficar em paz.”

A ambição estava destruindo a sua paz. Ele permanecia preso à sua ambição e ao mesmo tempo desejava a paz. A paz não pode estar a serviço da ambição; é impossível, contraditório. A ambição não pode ser pacífica. A ganância de ser bem-sucedido não pode ser pacífica.

Se você desejar a paz, deseje-a por si mesma. Não faça dela um meio para obter algo mais. Ela não pode tornar-se um meio. Quando este sutra diz: Deseje fervorosamente a paz ele se refere à paz como um fim e não como um meio. Ninguém deseja os meios. Os fins é que são desejados e, por causa dos fins, os meios são desejados. Mas a paz não pode jamais ser um meio. Na existência, tudo aquilo que é belo, verdadeiro, bom, profundo, não pode ser transformado num meio. É sempre o fim. Mas até mesmo Deus é desejado como um meio. Ninguém deseja Deus por si mesmo; desejamos Deus por algum outro propósito. Então, o desejo é falso.

É isso o que quero dizer quando afirmo que ninguém deseja verdadeiramente a paz, a não ser que a deseje por si mesma. Você pode alcançá-la facilmente se desejá-la como um fim. Deseje-a por si mesma e ela acontece, pois no verdadeiro desejo pela paz a ambição se extingue; no verdadeiro desejo pela paz, a ansiedade desaparece; no verdadeiro desejo pela paz, a angústia desaparece. Se você continuar a ser ambicioso – desejando o sucesso, desejando ser isto ou aquilo, ser alguém –então a paz não lhe acontecerá. Você continuará inquieto, dominado pela ansiedade, tenso. Continuará angustiado e nada do que fizer poderá lhe ser de alguma ajuda. Assim, esteja ciente disso. Se você quer a paz, deseje-a diretamente, como um fim. Nesse caso, o próprio desejo pela paz transformará você.

Na verdade, a paz é natural. Não se trata de algo que precise ser desejado. Você, você mesmo, a perturba. Ela já está presente. A paz é natural em você; ela é o seu próprio ser. Você a perturba devido à ambição, à ganância, à raiva, à violência. Ela já está presente, mas você a perturba.

Não a perturbe! Se você a deseja realmente, não a perturbe. E então, você começará a senti-la.

Para se alcançar a paz, é preciso remover tudo aquilo que a está obstruindo. Descubra por que você não está em paz. Por quê? Então, remova a causa. Se a ambição estiver perturbando a paz, livre-se da ambição e a paz acontecerá. A paz já está presente; você não precisa aspirá-la. Torne-se apenas consciente de como você a está perturbando, e não a perturbe; isso é tudo. E ela acontecerá. É por isso que eu digo que quando a paz é realmente desejada, ela acontece imediatamente. Não se precisa esperar nem mesmo um único instante.
 
"Deseje, acima de tudo, posses."
 
Este sutra parece muito perigoso: "Deseje, acima de tudo, posses." Posses? A própria palavra produzirá uma perturbação em sua mente, pois todos os grandes mestres ensinam: não deseje posses. Buda diz: “Seja não-possessivo.” Mahavir diz: “Aparigraha: nenhuma posse.” Jesus diz: “Abandone todas as riquezas, todas as posses”.

Jesus diz: “Até mesmo um camelo pode passar através do orifício de uma agulha, mas um homem rico não pode passar através da porta do reino de meu Deus.” E este sutra diz: Deseje, acima de tudo, posses. Mas o sutra é belo. Ele quer dizer a mesma coisa que Mahavir, Buda e Jesus estão dizendo, mas o diz de uma maneira muito contraditória.

Ele diz que todas aquelas coisas que você considera posses não são posses, porque você não pode possuí-las realmente. Você pode possuir as coisas? Pode possuir os outros? Pode possuir alguma coisa no mundo? Você pode apenas se iludir de que possui alguma coisa. Na verdade, você não pode possuir nada, pois a morte destruirá tudo.

Outra coisa: tudo o que você possui, seja o que for, torna-se o seu possuidor. O possuidor é possuído pelas suas posses. Você se torna um escravo; você não é o senhor. Assim, o que adianta dizer que você possui o mundo? Ninguém possui coisa alguma. Somente uma coisa pode ser possuída: o seu próprio eu. Nada mais pode ser possuído.

Você só pode tornar-se o senhor do seu próprio eu. Se tentar ser o senhor de qualquer outra coisa, será apenas um escravo. Você pode considerar esta escravidão como um “domínio”, pode rotulá-la de “domínio”, mas estará apenas se enganando. Mentiras são mentiras. O fato de se alterar o rótulo não muda nada.

Olhe para as suas posses. Você as possui? Se sua casa for destruída, você chorará, gritará, ficará furioso; mas se você morrer, sua casa não chorará, não ficará furiosa. Assim, quem era o verdadeiro proprietário? A casa possui você. Ela não está nem um pouco preocupada se você mora nela ou não. Na verdade, ela se sentirá muito melhor se você for embora. Será mais tranqüilo. Ela não depende de você. Você está justamente perturbando a sua paz. Se você morrer, a casa se sentirá ótima. Assim, quem é o possuidor?

Nesse sentido, este sutra é significativo: somente o eu pode ser possuído, nada mais. E se você não pode possuir o seu eu, que mais você pretende possuir?

Assim, seja um senhor – o senhor do seu próprio eu – e não faça nenhum esforço para possuir coisa alguma. Não quero dizer que você deva abandonar todas as coisas. Essa não é a questão. Use todas as coisas, mas não pense em termos de posse. Use a casa, mas não seja o proprietário. Use a riqueza, mas não seja o dono dela. Use o mundo todo, mas não pense que você o possui. Você é apenas um viajante de passagem. Quando cansado, você descansa sob uma árvore. Mas você não possui a árvore. E se você não a possuir, sentirá uma profunda gratidão pela árvore. Ao anoitecer, quando estiver de partida, você a agradecerá. Sentir-se-á agradecido porque, quando estava cansado e a estrada estava quente, a árvore deu-lhe abrigo; a árvore estava fresca. Mas não procure possuir a árvore, pois assim, você não se sentirá agradecido.

Quando você possui, não sente gratidão. Não possua a sua esposa, não possua o seu marido. Quando estiver cansado, sua esposa lhe dará amor. Sinta-se grato.

E se você não possuir a sua esposa, não será possuído por ela. O relacionamento só acontece quando não há posse. Se há posse, há sempre conflito. Maridos e esposas estão sempre brigando; você não encontrará inimigos mais profundamente envolvidos. Eles são inimigos íntimos; vivem juntos apenas para brigar um com o outro. Todo o relacionamento fica envenenado porque o marido tenta possuir a esposa e a esposa tenta possuir o marido, mas ninguém pode possuir ninguém; a posse é impossível. Você pode apenas possuir a si mesmo; somente isso é possível, tudo o mais é impossível. Mas quando se tenta possuir e fazer o impossível, tudo vai mal; o relacionamento fica envenenado. A vida torna-se uma miséria.
 
"Deseje, acima de tudo, posses."

Mas essas posses devem pertencer somente à alma pura e, portanto, serem igualmente possuídas por todas as almas puras, sendo, dessa maneira, propriedade especial do todo, apenas quando unido. Deseje essas posses que podem ser possuídas pela alma pura, e você acumulará riqueza para aquele espírito unido de vida que é o seu único eu verdadeiro.


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sexta-feira, abril 06, 2018

Desejando o Inacessível

- OSHO - 


"Deseje apenas o que está dentro de você."

Parece absurdo, paradoxal, ilógico: Deseje apenas o que está dentro de você. Desejamos, basicamente, aquilo que não está em nós. Desejar significa querer algo que não está em nós. Se já estivesse em nós, qual seria então a necessidade de desejá-lo?

Nós nunca nos desejamos tal como somos. Sempre desejamos algo mais. Ninguém deseja a si mesmo; não há necessidade. Você já é isso; não está faltando nada. Você deseja aquilo que está faltando.

O sutra diz: Deseje apenas o que está dentro de você – por muitas razões. Em primeiro lugar, se você desejar algo que não está dentro de você, poderá obtê-lo, mas ele nunca será seu. Não pode ser. Na verdade, você nunca poderá ser o senhor dele; tornar-se-á apenas um escravo. O possuidor é sempre possuído por suas posses. Quanto maior a quantidade de coisas possuídas, maior a escravidão criada.

Você é possuído por suas posses e deseja ser o senhor. A frustração se inicia porque toda a sua esperança foi frustrada. Você chega a um ponto no qual as coisas que desejava estão presentes, tudo o que você desejou aconteceu, mas você se tornou o escravo. Agora, o reino parece ter se tornado uma prisão, e tudo o que você possui, ou pensa possuir, não é realmente possuído, pois lhe pode ser tomado a qualquer momento. Mesmo se ninguém o tomar, a morte certamente o tomará.

Na terminologia religiosa, aquilo que pode ser tomado pela morte não lhe pertence. A morte é o critério. Há apenas um critério para julgar se você realmente possui alguma coisa. Julgue levando em consideração a morte, e veja se você ainda possuirá aquela coisa após a morte. Se a morte a tomar de você, você nunca a possuiu. Era apenas uma ilusão.

Há algo que a morte não lhe pode tirar? Se não há nada, então a religião é inútil, sem sentido. Mas há algo que a morte não pode tomar, e esse algo está oculto dentro de você. Você já o possui. Se não a possuísse, ela poderia ser tomada.

Você é ela; ela é o seu próprio ser. É a sua própria base, sua existência. É isso que é chamado de Atman. Atman significa aquilo que você já é. Ninguém pode tomá-lo de você; nem mesmo a morte pode destruí-lo. O sutra diz: "Deseje apenas o que está dentro de você." Deseje o atman, deseje seu eu mais profundo, deseje o centro que você já possui, mas do qual se esqueceu completamente.

Por que o homem se esquece? Isso é uma necessidade. Para sobreviver, precisa-se prestar atenção ao mundo exterior. Para sobreviver, existir, permanecer vivo, você precisa continuar prestar atenção às coisas: comer, abrigar-se. O corpo necessita de atenção. Ele fica doente, está propenso a sofrer. O corpo está continuamente se esforçando para sobreviver, porque, para o corpo, há morte. O corpo está em constante luta com a morte; portanto, uma atenção permanente deve ser dada a ele.

O corpo sempre se encontra em estado de emergência, porque a morte pode ocorrer a qualquer momento. Você precisa estar ininterruptamente atento e consciente acerca dessa luta contra a morte; portanto, toda a sua atenção se move para o exterior. Não sobra nenhuma energia para se mover para dentro. Trata-se de uma necessidade de sobrevivência. Por esse motivo, continuamos a esquecer que existe dentro de nós um centro imortal, um centro eterno, um centro de bem-aventurança absoluta.

A dor atrai a atenção; o sofrimento atrai a atenção. Se você está com dor de cabeça, sua atenção se dirige para a cabeça; você se torna consciente de que possui uma cabeça. Se não há dor, você se esquece de sua cabeça. Torna-se sem cabeça – como se você não tivesse cabeça.

O corpo é sentido apenas quando está doente. Se seu corpo está absolutamente saudável, você não o sente. Você fica leve. Na verdade, você se torna incorpóreo. Esse é o único critério da autêntica saúde: o corpo não é absolutamente sentido. Sempre que o corpo é sentido, significa que há alguma doença, algum distúrbio. Sua atenção é reclamada.

Há tantos problemas oriundos do exterior que sua atenção está constantemente ocupada com ele. Por isso, você se esquece de que alguma coisa existe exatamente no centro do seu ser, alguma coisa imortal, divina, bem-aventurada. O sutra diz:

"Deseje apenas o que está dentro de você. (...) Pois dentro de você está a luz do mundo  a única luz que pode iluminar o Caminho. Se você é incapaz de percebê-la em seu interior, é inútil procurá-la em outra parte."

O sutra seguinte:

"Deseje apenas o que está além de você."

Deseje apenas o que está além de você. Deseje sempre o impossível, porque só através desse desejo você cresce. E o que é impossível? Escalar o Monte Everest não é impossível; tampouco ir à Lua. Ambos tornaram-se possíveis. Alguém já escalou o Everest. Mesmo se ninguém o tivesse escalado, isso não seria impossível. Difícil, mas não impossível. Está ao alcance da capacidade humana escalá-lo. Ir à Lua também está dentro de nossa capacidade e, em breve, o homem alcançará igualmente outros planetas. Isso não é impossível, apenas difícil. Algum dia tornar-se-á possível. Somente uma coisa é impossível, está além de você: seu eu mais profundo.

Por quê? Afirmo que a Lua não é tão difícil de se alcançar, embora esteja tão distante; e afirmo que seu eu mais profundo é mais impossível de se alcançar, embora esteja exatamente dentro de você. Por que então é tão difícil alcançá-lo? Porque está dentro de você – justamente por isso. Você sabe apenas alcançar o que está fora. Suas mãos podem alcançar o que está fora, seus olhos podem ver o que está fora. Seus sentidos abrem-se para o exterior; você não possui sentidos que possam ajuda-lo a olhar para dentro. Sua mente se move para fora; não pode se mover para dentro. É por isso que a mente precisa ser abandonada. Somente então você pode entrar em meditação.

A mente é basicamente um movimento para fora. Você pode observar isso muito facilmente. Sempre que você pensa, está pensando em algo que está fora de você. Seja qual for o seu pensamento, ele é sempre a respeito de algo que está fora. Você já pensou sobre alguma coisa que está dentro de você? Não há necessidade de pensar sobre algo interior, pois você pode experimentá-lo. Não há necessidade de pensar a seu respeito; o pensamento é um substituto. Você pode perceber o que está dentro de você. Está bem próximo. Basta mudar sua atitude, mudar sua direção. De fora, você se volta para dentro, e pode experimentá-lo. Qual a necessidade de pensar sobre ele?

Porém, estamos sempre pensando sobre o de dentro. Pensamos sobre o que é atman. Pensamos: “O que é o eu?” – Criamos filosofias e sistemas. Criamos teorias de que o eu significa “isto”, de que a definição é “esta” e de que ninguém tenta senti-lo. Ele está tão perto de você – qual a necessidade de teorias?

Teorias são necessárias para o que está distante, pois você não pode alcançá-lo neste exato momento. Precisa criar uma ponte. Precisa-se de teorias para se alcançar a Lua, mas elas não são necessárias para alcançar o seu centro interior, pois não há nenhuma distância. Não há nada para se transpor; você já está ali. É necessário apenas uma mudança de atitude, e você pode perceber esse centro. Não há necessidade de teorizar, de filosofar. Mas continuamos a criar filosofias. Criamos milhares e milhares de filosofias, e os filósofos continuam desperdiçando suas vidas a pensar sobre aquilo que já se encontra dentro deles. Eles poderiam saltar para dentro a qualquer momento.

Mas isso está além. Além dos sentidos, pois os sentidos não podem se abrir para aquilo que está dentro; eles se abrem na direção oposta. E também está além da mente, pois a mente não pode conduzi-lo até ali; ela sempre o conduz a outro lugar. A mente é um instrumento para o mundo; é um mecanismo que permite o movimento para fora, para longe de você. Ela serve para isso. Por essa razão, enfatiza-se tanto que em samadhi não há mente. Samadhi é um estado de não-mente; a mente cessa.

Nas técnicas de meditação que estamos fazendo, todo o esforço consiste em se deixar de ser uma mente, em abandonar a mente, em parar de pensar, em atingir um instante onde não exista nenhum pensamento, onde apenas a atenção, apenas a consciência existe. “Não pensar” significa que não há nenhuma nuvem no céu; apenas o céu está ali. “Não pensar” significa que não há nuvens na mente, apenas a consciência. Nessa consciência, você está dentro.

Quando você está na mente, está fora; quando você está na não-mente, está dentro. Nessa transferência, da mente para a não-mente, consiste toda a jornada. Se você puder acrescentar “não” à sua mente, você alcançou o conhecimento. Por isso é denominado além.

Deseje apenas o que está além de você – além de seus sentidos, além da sua mente, além de seu ego. “Você” não estará ali. Seu centro mais profundo não é você; você é apenas a periferia. A periferia não pode estar no centro. Quando você se move em direção ao centro, abandona a periferia. A periferia não pode existir no centro. Ela pertence ao centro, mas existe fora do centro, ao seu redor.

Tudo quanto você conhece a seu respeito é apenas a periferia: seu nome, sua identidade, sua imagem. Você é hindu ou maometano ou cristão; você é negro ou branco; você é isto ou aquilo. Seu país, raça, cultura – tudo isso pertence apenas à periferia; todos os seus condicionamentos estão apenas na periferia.

O mundo não pode penetrar em seu centro. Ele só pode cultivar a periferia, só pode atingir você em sua superfície. Apenas a sua superfície pode ser hindu, apenas a sua superfície pode ser cristã, apenas a sua superfície pode ser jaina. “Você” não é; você não pode ser. Somente sua superfície pertence à Índia, ou ao Paquistão, ou à América. Você não pode pertencer a nenhuma nação, a nenhuma raça. Você pertence à própria existência. No centro, todas as divisões são falsas; elas só são significantes na periferia.

Tudo quanto você conhece a respeito de si mesmo refere-se ao seu ego. “Ego” é apenas uma palavra utilitária. Toda a sua periferia significa “você”. Mas esse “você” desaparecerá quando você começar a ir para dentro; esse “você” se desvanecerá aos poucos; esse “você” desaparecerá; esse “você” se evaporará. Então, surgirá um momento em que você será, autenticamente, você mesmo; seu velho eu não estará mais presente. Por isso é que se diz: Deseje apenas o que está além de você... Está além de você, pois quando você o alcança, você se perde.

"Deseje apenas o que é inacessível." O que é inacessível? Olhe ao redor – todas as coisas são acessíveis. Pode ser que você não as tenha conseguido, mas elas são acessíveis. Se você fizer o esforço necessário, poderá obtê-las. Potencialmente, elas são acessíveis.

Alexandre construiu um grande império. Pode ser que você não tenha construído um, mas o que Alexandre pôde fazer, você também pode. Não é impossível; não é inacessível. Pode ser que você não tenha acumulado tanta riqueza quanto Rockefeller ou algum outro, mas o que Rockefeller pôde fazer, você também pode. Isso é humano; está ao alcance da sua capacidade. Você pode fracassar, pode não ser capaz de obter essa riqueza, mas ela é alcançável. Seu fracasso é o seu próprio fracasso; potencialmente você poderia ter sido um sucesso; portanto, um objeto não pode ser considerado inacessível.

Assim sendo, o que é inacessível? Aquilo que não pode ser atingido? Se esse é o significado, então qual a finalidade de se desejá-lo? Se algo não pode ser alcançado, então o desejo é fútil. Por que desejar o que é inacessível? O que isso significa?

O significado é muito profundo, muito esotérico. O significado é que seu eu mais profundo é inacessível porque ele já foi alcançado. Você não pode alcançá-lo porque você é ele. Não pode tornar isso uma conquista. Não se trata de algo a ser alcançado. Ele já está aí, você nunca esteve longe dele. Nunca o perdeu; ele é a sua própria natureza. Ele é você, o seu ser mais profundo. Você não pode alcançá-lo; pode apenas descobri-lo. Não pode chegar até ele; pode apenas reconhecê-lo.

Não é possível inventá-lo; ele já está aí. Não é para ser adquirido; já está aí. Você precisa apenas lhe dar a sua atenção. Precisa focar sua consciência nele e, subitamente, aquilo que nunca foi perdido é encontrado.

Quando Buda alcançou a iluminação, alguém lhe perguntou: “O que você alcançou?”

Buda disse: “Nada, porque qualquer coisa que eu tenha alcançado, sei agora que sempre esteve presente. Nunca foi perdida. Simplesmente, eu a descobri. Tomei conhecimento de um tesouro que sempre esteve dentro de mim.”

"... É inacessível porque reflui continuamente. Você penetrará a luz, mas nunca tocará a chama."

É também inacessível num outro sentido. Você nunca será capaz de dizer: “Eu o alcancei (o conhecimento)” – pois quem dirá que o alcançou? Aquele “eu” que pode reivindicar não existe mais. Aquele ego – a periferia – não existe mais. Para alcançar o conhecimento, para descobri-lo, ele precisa ser perdido. O ego precisa ser jogado fora, abandonado. Você só pode alcançar o conhecimento quando se tornou sem ego. Não pode alcançar o conhecimento com o ego, porque o próprio ego é a barreira.

Dessa forma, quem estará ali para reivindicar? Os Upanishads dizem que se alguém afirma que alcançou o conhecimento, não tenha dúvidas, ele não o alcançou, pois a própria afirmação é egoística. Se alguém diz: “Conheci Deus” – não tenha dúvidas: ele não conheceu Deus. Pois quando Deus é conhecido, quem está ali para afirmar? O conhecedor se perde no próprio fenômeno do conhecimento. O conhecimento só ocorre quando o conhecedor não está presente. Quando o conhecedor está ausente, o conhecimento ocorre – assim, quem lhe afirmará?

Havia um monge zen, Nan-in. Alguém lhe perguntou: “Você conhece a verdade?”

Ele riu, mas continuou em silêncio. O homem disse: “Não posso compreender esse riso misterioso. Tampouco posso compreender seu misterioso silêncio. Use palavras. Diga-me. E seja claro. Diga-me sim ou não. Você conhece a verdade, o divino?”

Nan-in disse: “Você está tornando as coisas difíceis para mim. Se eu disser sim, as escrituras dizem: ‘Aquele que diz, ‘Eu conheço', não conhece.' Portanto, se eu disser sim, significará não. E se eu disser não, isso não será verdadeiro. Assim, o que devo fazer? Não me obrigue a usar palavras. Tornarei a rir e a manter silêncio. Se você puder compreender, ótimo. Se não puder compreender, ótimo também. Mas não usarei palavras. Não me obrigue a isso, porque se eu disser sim, significará que não conheço, e se eu disser não, isso não será verdade.”

Você alcançará o conhecimento, mas em sua pureza. Nessa pureza, seu ego não estará presente. O ego é o elemento impuro, estranho, dentro de você – apenas a poeira acumulada ao seu redor. Ele não é você. Nu, você alcançará o conhecimento. Seu ego é exatamente como suas roupas. Ele não estará presente.

Deseje apenas o que é inacessível.


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terça-feira, abril 03, 2018

O Desejo de Sensação

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- OSHO - 

Destrua o desejo de sensação.

...Aprenda a partir da sensação e observe-a, pois somente assim você poderá se iniciar na ciência do autoconhecimento e galgar o primeiro degrau da escada.

"Destrua o desejo de sensação."

Vivemos em busca de sensações, ansiamos por sensações. Estamos sempre à procura de sensações cada vez mais novas; toda a nossa vida é um esforço para obter novas sensações. Mas o que acontece? Quanto mais sensações você busca, menos sensível você se torna. A sensibilidade é perdida.

Parece paradoxal. Nas sensações, a sensibilidade é perdida. Então você necessita de mais sensações, e esse “mais” aniquila cada vez mais a sua sensibilidade. Então você necessita de mais ainda e, finalmente, chega um momento em que todos os seus sentidos ficam embotados e mortos. O homem nunca foi tão insensível e morto quanto nos dias atuais. Antigamente, o homem era mais vivo, porque não havia tantas possibilidades de usufruir tantas sensações. Mas agora a ciência, o progresso, a civilização, a educação criaram inúmeras oportunidades de se penetrar cada vez mais no mundo da sensação. E no final, você se torna uma pessoa morta; sua sensibilidade está perdida. Saboreie mais comidas – com mais temperos, mais picantes – e seu paladar se perderá. Se você andar pelo mundo sempre à procura de coisas cada vez mais bonitas, acabará cego; a sensibilidade de seus olhos se perderá.

Mude diariamente o objeto de seu amor – sua namorada ou namorado, sua esposa ou marido. Se muda-los a cada dia, sua sensibilidade para amar morrerá. Você estará se movendo num terreno perigoso. Nunca irá fundo; permanecerá apenas na superfície, na periferia. Quanto mais coisas você experimentar, menor se tornará a sua capacidade de experimentar. E então, finalmente, quando todas as coisas ao seu redor estiverem mortas, você desejará o divino, a bem-aventurança, a verdade. Mas um homem morto não pode experimentar o divino. Para experimentar o divino, você precisa de total sensibilidade; precisa estar vivo. Lembre-se: apenas o semelhante pode atrair o semelhante.

Se você quer o divino – o “divino” significa o mais vivo, o sempre-vivo, sempre-jovem, sempre-verde –, se você quer encontrar o divino, precisará estar mais vivo. Como fazer isso? Destrua todo desejo de sensação. Não busque a sensação; busque a sensibilidade, torne-se mais sensível.

Essas duas coisas são diferentes. Se você procura sensações, procurará coisas; acumulará coisas. Mas, se procura a sensibilidade, todo o trabalho deverá ser feito em seus sentidos, não nas coisas. Você não precisará acumular coisas. Você terá que aprofundar seus sentimentos, seu coração, seus olhos, seus ouvidos, seu nariz. Cada sentido deverá ser intensificado de tal modo que se torne capaz de sentir o sutil. Não podemos nem sentir o grosseiro e precisamos nos tornar capazes de sentir o sutil. O mundo parece grosseiro apenas porque não podemos sentir o sutil. O invisível oculta-se no visível. Olhe para essas árvores. Você olha para o grosseiro; o corpo da árvore. Você nunca olha, nunca sente a vida interior. O crescimento! A árvore em si mesma não está crescendo; a árvore é apenas um corpo. Uma outra coisa – o invisível – está crescendo nela. E por causa disso, a árvore cresce. O interior está crescendo e, por causa dele, o exterior está crescendo. Mas você olha apenas para a árvore, e assim, só o exterior é visto.

Olhe ao seu redor. Olhe dentro dos olhos do seu amigo. Você apenas olha para os olhos, não para aquele que vê através deles. Toque o corpo de seu amigo. Você apenas toca o grosseiro; nunca sente o sutil interno. Apenas o corpo, o externo é sentido, pois seus olhos (seus sentidos) ficaram tão embotados que não podem sentir o interno, o invisível.

Precisamos de mais sensibilidade. Busque menos sensação e cresça em sensibilidade. Quanto tocar; torne-se o toque. Quando olhar, torne-se os olhos. Quando ouvir, deixe que toda a sua consciência venha aos ouvidos. Ao ouvir uma música, ao escutar os pássaros, torne-se os ouvidos. Esqueça tudo o mais, como se você fosse apenas os ouvidos. Vá para os ouvidos com todo o seu ser. Então, seus ouvidos tornar-se-ão mais sensíveis.

Quando estiver olhando para alguma coisa – uma flor, um belo rosto ou as estrelas – torne-se os olhos. Esqueça tudo o mais, como se o restante de seu corpo tivesse cessado de existir e sua consciência tivesse se transformado apenas em olhos. Então, seus olhos serão capazes de olhar mais profundamente e você será capaz de olhar também para o invisível. O invisível também pode ser visto, mas você precisa de olhos mais penetrantes para vê-lo.

Destrua todo o desejo de sensação e cresça em sensibilidade. Preocupe-se menos com o mundo e mais com seus sentidos. Purifique-os. Quando você não busca sensações, seus sentidos se purificam. Ao desejar cada vez mais sensações, estará destruindo seus sentidos.

O homem que descobre o divino é aquele cujos sentidos estão totalmente vivos, em sua capacidade máxima. Então, você não apenas pode ver o divino, mas também pode prová-lo, pode cheirá-lo. O divino pode entrar em você através de qualquer um dos sentidos. Só quando o divino penetrar em você por todos os sentidos, acontecerá a realização suprema. Se você pode apenas ver o divino, trata-se apenas de uma realização parcial. Neste caso, você não está realmente iluminado. Se você não pode tocar o divino, se não pode prová-lo, você está apenas parcialmente iluminado.

O uso dessas palavras parece ilógico. Saborear Deus? Ele é um alimento? Sim, ele é tudo. Você pode saboreá-lo, mas para isso necessita de uma capacidade muito sutil. Seu alimento simples tornar-se-á divino. Através do alimento, o divino será sentido. Os rishis upanishádicos disseram que o alimento é brahma. “Anna é brahma.” Eles devem tê-lo saboreado, devem tê-lo comido.

Nós pensamos que Deus é um problema lógico; assim, continuamos a questionar quanto a isso, a favor ou contra. Continuamos a discutir se Deus existe ou não. Isso é irrelevante. Deus não é uma questão de argumento, de lógica, de raciocínio. Na verdade, Deus é uma questão de sensibilidade. Se você não o sente, torne-se mais sensível. Nenhum pensamento lógico será de qualquer ajuda. Torne-se mais sensível! Se você é sensível, ele está aí. Ele sempre esteve aí, mas você não é sensível. As coisas o tornam entorpecido, as sensações o tornam entorpecido. Destrua todo desejo de sensação.

"Destrua o desejo de crescimento."

Este sutra é muito revolucionário, muito perigoso.

Destrua o desejo de crescimento. Parece absurdo, pois se você destruir todo o desejo de crescimento, que necessidade haverá então de crescer para o divino? Como alguém poderá então alcançar a verdade, tornar-se iluminado? De que servirá a meditação e todo este rebuliço? Precisamos mergulhar profundamente neste sutra.

Destrua o desejo de crescimento. Há dois tipos de crescimento. Um, a respeito do qual você pode fazer algo; e outro, a respeito do qual você nada pode fazer. Para um, seu esforço é necessário; para o outro, a ausência de esforço é necessária.

O crescimento espiritual é do segundo tipo. Seu esforço não será de nenhuma ajuda; apenas criará barreiras. Você nada pode fazer quanto ao crescimento espiritual. A única coisa que você pode fazer é entregar-se, e isso é um não-fazer. Você pode apenas fazer uma coisa: permitir que o divino aja em seu interior. Pode simplesmente cooperar; isso é tudo. Pode simplesmente flutuar, não é necessário nadar – apenas um profundo deixar acontecer. É este o significado de Destrua o desejo de crescimento.

"... Cresça como cresce a flor, inconscientemente, mas ansiosamente desejosa de abrir sua alma ao ar. Assim você também deve compelir sua alma para se abrir ao eterno."

Mas é necessário que seja o eterno!

Mas deve ser o eterno quem induz sua força e beleza a se expandirem, não o desejo de crescimento. Pois, no primeiro caso, você se desenvolve na exuberância da pureza, e no outro, você se torna insensível pela paixão impetuosa pelo desenvolvimento pessoal.

Repetirei: Mas deve ser o eterno quem induz sua força e beleza a se expandirem, não o desejo de crescimento – porque todo desejo é um obstáculo, até mesmo o desejo de alcançar o divino; todo desejo é uma escravidão, mesmo o desejo de ser libertado. O desejo, como tal, é o problema; portanto você não pode desejar o divino. Isso é contraditório. Você só pode desejar o mundo, não pode desejar o divino; porque o desejo é o mundo, o desejo é sansara. Você não pode desejar moksha. Quando você está num estado de não-desejo, moksha­­­­ acontece a você; quando você está num estado de ausência de desejo, a liberação acontece a você, o divino acontece a você.

Permita que o divino gere tudo o que está oculto em você. Não busque o crescimento. Entregue-se, para que o crescimento aconteça. O crescimento ocorrerá, mas não através de seu esforço, e sim, de sua própria graça. Virá por intermédio dele mesmo.

Há razões para que seja assim.

O que for que você fizer, nunca será maior do que você. Não pode ser. Qualquer coisa que você fizer será sempre menor do que você. O agente é sempre superior ao ato. O contrário não é possível. O pintor é superior à sua pintura, o meditador é superior à sua meditação. Tudo o que você fizer será sempre inferior a você; portanto, como você poderá alcançar o divino? O divino não é inferior a você, assim, você não pode alcançá-lo. Se você pudesse alcançar Deus por seus próprios esforços, esse Deus seria inferior a você, não superior; esse Deus não passaria de um objeto utilizável – algo que você seguraria em suas mãos, algo que você teria conquistado. Assim sendo, lembre-se, Deus não pode ser alcançado através de seus esforços. Deus pode acontecer a você, mas não se trata de uma conquista.

Assim sendo, o que pode ser feito? O que você pode fazer por seu lado? Você precisa fazer apenas um esforço negativo. Esse esforço negativo significa: não criar barreiras, não criar obstáculos. Permanecer aberto, esperando, e pronto a se mover, pronto a ir. Se o ímã começar a agir, você permitirá que ele aja.

Dessa maneira, qual a função da meditação que eu tanto enfatizo? Ela serve apenas para destruir suas barreiras; é um esforço negativo. Através da meditação você não alcançará o divino. Através da meditação você se tornará acessível à ação do divino. Através da meditação, você se tornará aberto; sua prece chegará até ele. Você estará dizendo que está pronto, que, a partir de agora, cooperará.

Isso é tudo o que é necessário de sua parte. Permitir, deixar acontecer, entregar-se. Através da vontade, nada pode ser feito. Na dimensão do divino, nada pode ser feito através da vontade; somente através da entrega. E então tudo acontece.

Através das meditações que estamos fazendo aqui, você está apenas derrubando suas barreiras. É por isso que enfatizo que você deveria ser como as crianças. Volte a ser criança. Esqueça sua civilização, sua cultura, seus modos, suas posturas, sua personalidade, suas faces. Tudo isso é uma fachada. Jogue-a fora! Torne-se como as criancinhas.

Parecerá loucura. Abandonar sua mente e retornar à sua infância parecerá loucura. Pois seja louco! Seja qual for o preço, seja novamente como as crianças. Jesus diz que somente aqueles que são como crianças entrarão no reino do meu Deus. Eu também digo o mesmo. Retorne ao ponto onde a civilização começou a corrompê-lo, ao ponto onde a educação começou a corrompê-lo, ao ponto onde a sociedade penetrou em você. Volte ao ponto onde você era não-social, onde não havia sociedade coagindo você. Até esse ponto você era inocente e puro e, a menos que retorne novamente até esse ponto, as barreiras permanecerão.

Torne-se criança novamente. Durante esse processo, você sentirá que enlouqueceu, pois estará jogando fora todos os seus valores de adulto: educação, cultura, religião, escrituras, comportamentos. Estará jogando tudo fora. Estará retornando ao ponto onde você era você mesmo, onde ainda nenhuma sociedade o havia corrompido.

O processo todo parecerá loucura, mas não é. É uma catarse. E se você puder atravessá-la, sairá mais são, menos louco. A loucura será jogada fora. Você se tornará mais puro, mais são.


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