"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, abril 14, 2015

O poder da Presença (Ramana Maharshi)

- Ramana Maharshi -


"Gostaria de começar, fazendo uma referência a uma experiência um tanto "mística", que tive durante a minha estadia no Ashram de Sri Ramana Maharshi. Mesmo que seja difícil de descrevê-la, tentarei transmitir alguma ideia a respeito. (...)

Com aquele primeiro darshan de Ramana Maharshi, que tive na sala, e acabava de chegar, descobri o brilho resplandescente do sol em um só olhar; foi como se esse olhar atravessasse o mais profundo do meu ser. Minha respiração parou por um tempo e a mente ascendeu a uma dimensão espiritual de paz e felicidade inefáveis.

Mediante o desapego e o discernimento se pode aspirar alcançar o estado de sakshibhava, o estado do testemunho; mas existe um estado mais elevado, no qual se toma consciência de existência, com tudo o que existe; este estado se denomina abhinnabhava. Este estado, alcançado por Maharshi, supera qualquer possível forma de compreensão da mente do buscador.

Apesar de estar sentado na sala, observei Maharshi, que descansava no sofá e se mostrava completamente indiferente a tudo o que se sucedia em sua presença, (por exemplo, o ir e vir constante dos visitantes que um após o outro se prostravam diante dele) e mesmo assim pude discernir nele, de forma muito evidente, essa atitude de unidade com o todo chamada de abhinnabhava. Posso afirmar com total confiança que tocava o ser interior de todos os visitantes com aquele abhinnabhava que transcendia os pensamentos e então, os visitantes se viam capacitados para sentir em seu interior a presença do espírito universal.

Ao perceber que era assim que Maharshi irradiava a energia do Ser, decidi perguntar-lhe qual era a melhor forma de preparar-me, apesar de estar sentado em sua presença, para receber aquela transmissão de graça.

Pergunta - Quando estamos sentados perto de ti que estado mental devemos manter para receber a transmissão de teu Ser?

Sri Ramana - Mantenha a mente em silêncio, isso é o bastante. Se te manténs em silêncio, receberás a ajuda espiritual que necessitas nesta sala. O objetivo de qualquer prática é acabar com a mente. Quando a mente se aquieta, experimenta-se a energia do Ser. As ondas do Ser estão por toda parte e se começa a experimentá-las quando a mente está em paz.

Pergunta - O que é melhor para mim: olhá-lo nos olhos ou no rosto? Ou é melhor ficar quieto com os olhos fechados e dirigir a mente a algo determinado?

Sri Ramana - Fixa seu olhar em sua própria natureza. É indiferente que tenhas os olhos abertos ou fechados. O único que existe por todas as partes é a Unidade, e assim não importa se manténs os olhos abertos ou fechados. Se quiser, medite no "EU" que carregas dentro de ti. Esse é o atman, e como não tem olhos, não é necessário abri-los nem fechá-los. Quando alcançar o conhecimento do seu próprio Ser, já não restará nenhum conceito sobre o mundo. Quando estás sentado em sua casa, se as janelas estão abertas ou fechadas, você segue sendo a mesma pessoa, no mesmo estado. Da mesma forma, quando estás estabelecido no estado da realidade, não importa que tenhas os olhos abertos ou fechados: as coisas que acontecem externamente tem escassa importância.

A reciprocidade que existe entre Sri Ramana Maharshi e sua abhinnabhava, e o buscador que está sentado em sua presença, é análoga a do radio-transmissor e o radio-receptor, quando o visitante está verdadeiramente ansioso por obter o máximo benefício de energia de bondade que irradia a presença silenciosa do sábio, deve sintonizar sua mente - receptora - com a longitude adequada de onda.

O silêncio do sábio é constante, e exerce sua influência positiva sem interrupção, tanto que se tem a sensação de que o sábio é consciente do mundo como que não é. Voltando à analogia do transmissor, posso afirmar que no que se refere ao sábio, sua influência espiritual se transmite sem parar, desde o ponto de vista do buscador, que mesmo preso ao poder de maya, o efeito permanentemente benéfico do sábio, não terá efeito aparente a menos que o buscador esteja preparado para recebê-lo. Em uma conversação que manteve com outro devoto durante minha estadia no ashram, o próprio Maharshi comparou a irradiação de sua graça com um radio-transmissor.

Pergunta: Segundo algumas pessoas, é egoísta dedicar-se a alcançar a liberação, e em seu lugar deveria se dedicar a ajudar aos demais, realizando algum tipo de serviço altruísta.

Sri Ramana - Estas pessoas creem que os jñanis são egoístas, e eles não são. Mas isso não é certo. Os jñani vivem a experiência de Brahman e o efeito de sua experiência se estende por todo mundo. Da mesma forma que uma transmissão de rádio se realiza de um lugar determinado, seus efeitos podem sentir em qualquer lugar do mundo e aqueles que quiserem se beneficiar com ele, assim podem fazê-lo. Da mesma maneira, o estado de iluminação do jñani se estende por todas as partes e está a disposição de todos que queiram se conectar com ele. Portanto, não se trata de um serviço menor.

Durante minha estadia no ashram, tomei nota das conversações sobre a auto-indagação que aconteceram entre Maharshi e vários visitantes. Vejamos diretamente o que Maharshi tem a nos dizer sobre isso, ele mesmo nos explica como devemos praticar a auto-indagação.

Pergunta: Quem sou eu? A quem se refere esta pergunta?

Sri Ramana - A pergunta se refere ao "eu" individual, não ao Atman (Ser).

Pergunta - É conveniente que repita "Sou Shiva," cada vez que me pergunto "Quem sou eu"? Não seria melhor responder: "Não sou a mente, não sou o intelecto, não sou o corpo", etc..?

Sri Ramana - No transcurso da auto-indagação, não há que se dar respostas à mente, pois há que se permitir que a resposta surja de dentro. A resposta que provém do "eu" individual não é real. Há que se seguir indagando, até se obter a resposta com o método de jñana marga (o caminho do conhecimento). Esta auto-indagação se chama meditação e a experiência inativa, plena de paz e conhecimento que surge deste estado, é jñana.

Pergunta: Às perguntas "Quem sou eu? Sou de onde?", há que fazer constantemente japa (repetição de palavras sagradas), ou há que se fazer a pergunta uma ou duas vezes mentalmente, até que ela atinja a raiz do "eu", e então que se interrompa todos os pensamentos sobre o mundo?

Sri Ramana -  Não se trata de fazer japa com a pergunta "Quem sou eu? Quem sou eu?". Uma vez que a pergunta seja plantada na mente, há que se buscar a raiz do "eu" e interromper os demais pensamentos. Se alguém se chama Desai, não necessita ficar repetindo: "Sou Desai, Sou Desai." Pelo mesmo motivo, tampouco é necessário que se repita frases como "Sou Brahman, Sou Brahman". Em todas as formas de sadhana se procura manter a mente quieta, mas mesmo que se faça japa, a mente nunca vai se manter quieta. Ao invés de praticá-lo dessa maneira, o que acontece é experimentar que Brahman é o sujeito que vê a mente, isto é, o testemunho. Se deve experimentar Brahman, o testemunho.

Pergunta: Segundo seus ensinamentos, quando se embarca na busca do "eu", a experiência do testemunho acontece?

Sri Ramana - Sim.

Pergunta: Depois, se você apaga completamente o que tem sido, o testemunho se converte na forma de Brahman?

Sri Ramana - Assim é.

Pergunta: É conveniente se praticar pranaiama (controle da respiração) com regularidade, juntamente com a pergunta "Quem Sou eu?", e mesmo repetindo a pergunta permanecer com a atenção focada na entrada e saída do ar?  

Sri Ramana - Não é necessário se fazer pranaiama; é muito melhor que se tente realizar a auto-indagação "Quem Sou eu?" sem centrar a atenção na respiração. O pranaiama existe para os que não são capazes de concentrar a mente de nenhuma outra maneira. À medida que a mente se fortalece, o pranaiama vai deixando de ser necessário. A função principal do pranaiama é proporcionar as rédeas necessárias para se manter sob controle o cavalo da mente. 

Pergunta: Qual sua opinião sobre os siddhis? (poderes sobrenaturais)

Sri Ramana - A iluminação é maior que os siddhis.

Pergunta: Quando me pergunto "Quem Sou eu?", não encontro nenhuma resposta que venha de dentro.

Sri Ramana - Isso se deve a uma crença errônea. Se buscar adequadamente, descobrirá que esse "eu" que está tentando descobrir algo, acabará mais tarde por deixar de existir. A medida que se libertas de pensamentos de nomes e formas, irá se aprofundando cada vez mais em seu interior.

Pergunta: Se conseguir eliminar todos os pensamentos, estaria então meditando adequadamente?

Sri Ramana - Isto está bem em princípio, mas só quando se intensificar a sua atração pelo Ser, começará a auto-indagação, e ao mesmo tempo cessará todo este esforço e aparecerá um novo estado.

Pergunta: Pode-se praticar Sadhana da auto-indagação levando uma vida normal ou há que se sair de casa?

Sri Ramana - É você que está em casa, ou é a casa que está em ti? Fique onde estiver.

Pergunta - Então, posso permanecer em casa.

Sri Ramana - Este não é o significado. O que quero dizer é que deves viver em sua verdadeira natureza. Você não está em casa, na verdade é a casa, assim como o mundo, que está em ti. É o dono da casa que está convencido de que não é o dono de nada, e apesar de viver nela é o autêntico renunciante. Imagina que existe um homem que está dormindo no trem. Ele é o mesmo homem, esteja o trem andando ou parado. Aquele que está adequadamente estabelecido no Atman, lhe acontece o mesmo, porque sabe que neste mundo não se sucede nada, e que ele nunca destrói nada. Só sentimos que sucede algo, quando estamos no estado de pramata - o sujeito conhecedor de algo - mas este estado não constitui nossa verdadeira natureza. Para o jñani que se despojou do  conceito de conhecedor, nunca acontece nada."


domingo, abril 12, 2015

18 regras de vivência (por Dalai Lama)

Dalai Lama


Regra 1. Leve em consideração que grandes amores e grandes conquistas envolvem grandes riscos.

Regra 2. Quando você perder, não perca a lição.

Regra 3. Siga os três R's: 1. Respeito próprio. 2. Respeito ao próximo. 3. Responsabilidade por todas suas ações.

Regra 4. Lembre-se de que não conseguir o que você deseja é algumas vezes um grande golpe de sorte.

Regra 5. Aprenda as regras para que você possa quebrá-las apropriadamente.

Regra 6. Não permita que uma pequena disputa cause danos a uma grande amizade.

Regra 7. Quando você perceber que cometeu um erro, tome atitudes imediatas para corrigi-lo.

Regra 8. Passe algum tempo sozinho todos os dias.

Regra 9. Esteja de braços abertos a mudanças, mas não perca seus valores.

Regra 10. Lembre-se de que o silêncio é algumas vezes a melhor resposta.

Regra 11. Viva uma vida boa e honrada. Então quando você envelhecer e olhar para trás, será capaz de aproveitá-la uma segunda vez.

Regra 12. Um clima amoroso em seu lar é o fundamento de sua vida.

Regra 13. Em desentendimento com pessoas amadas, lide apenas com a situação presente. Não evoque o passado.

Regra 14. Compartilhe seu conhecimento. É uma forma de atingir a imortalidade.

Regra 15. Seja gentil com a Terra.

Regra 16. Uma vez ao ano, visite algum lugar em que nunca esteve antes.

Regra 17. Lembre-se de que o melhor relacionamento é aquele em que seu amor pelo outro é maior do que sua necessidade pelo outro.

Regra 18. Julgue o seu sucesso pelo que você teve que abrir mão para consegui-lo.


terça-feira, abril 07, 2015

Acessando a suprema verdade

- OSHO -


Como pode alguém acessar a suprema verdade? Como pode alguém conhecer aquele supremo mistério que está tão perto e ainda assim permanece desconhecido, que está para sempre conosco e ainda assim está perdido? Como nós podemos alcançá-lo, como alguém já o alcançou? Nestes sutras está a explicação de tal ciência, o processo de tal caminho.

Primeiro vamos entender algumas coisas a respeito de Ilusão. Ilusão significa ver alguma coisa de uma maneira como ela não é. Verdade significa ver alguma coisa da maneira como ela é. Qualquer coisa que nós vemos é ilusão, porque nós envolvemos a nós mesmos em nosso ver, a nossa experiência não permanece objetiva, ela se torna subjetiva. O que quer que esteja do lado de fora, não nos alcança como é. Nossa mente distorce aquilo, embeleza aquilo, ornamenta, recorta – torna-o maior ou menor, modifica-o de muitas, muitas maneiras.

A maior modificação e a mais profunda ilusão é que associamos nós mesmos com tudo, e na verdade nós não estamos associados com nada, absolutamente. Tão logo nós nos associamos, a realidade é perdida e a projeção do sonho começa parecer verdade. Por exemplo, nós chamamos uma coisa de “minha” – “minha casa”... a casa que estava ali quando nós não estávamos e que ainda estará ali quando nós não estivermos mais. Alguma coisa que pode estar antes que eu esteja, que pode ser antes que eu seja, e que continuará depois que eu não estiver mais, que não desaparecerá com o meu desaparecimento – como pode aquilo ser “meu”? (...)

Em qualquer lugar que o homem põe o seu pé, ele rotula aquilo com o seu “Eu”. A natureza não aceita o seu rótulo, mas os outros seres humanos aceitam, senão haveria confrontação. Os outros têm que aceitar os rótulos porque eles também querem colocar os seus próprios rótulos nas coisas. Assim a casa se torna propriedade de alguém e o pedaço de terra se torna de outro alguém. Por que nós somos tão impacientemente ansiosos para cravar esse rótulo do “Eu” em algum lugar? A ansiedade é porque quanto mais lugares e coisas nas quais nós cravamos esse rótulo, ou colocamos as nossas assinaturas, maior se torna o círculo do “meu” e mais se desenvolve dentro de nós o “Eu”. (...)

Em qualquer lugar que o homem vai, ele chega lá com o seu “meu”. Tente compreender as implicações disso. O “Eu” na verdade se torna maior através do “meu”, mas quanto maior for a extensão do “meu”, maior será a infelicidade. O aumento no “Eu” é o aumento da infelicidade, porque o “Eu” é uma ferida. E quanto maior for o “Eu”, maior será a área vulnerável à dor, assim aquela dor crescente vai trazer mais sofrimento. É como se alguém tivesse uma grande ferida no corpo que tende a doer a qualquer momento e então qualquer movimento que a pessoa faz ela provoca dor. A ferida é grande, a área é grande, e qualquer pequeno toque se torna uma dor. Quanto maior for o “Eu”, maior será o sofrimento, maior será a dor.

Com a expansão do “meu” o “Eu” se expande. Na medida que o “Eu” cresce, a dor também cresce. Por um lado a pessoa sente que a felicidade está crescendo, e por outro lado a infelicidade também está crescendo. Quanto mais nós aumentamos essa felicidade, mais a infelicidade segue crescendo – e entre as duas uma ilusão é carregada. Ali onde não há possibilidade de dizer “meu”, ali também nós continuamos a dizer “meu”, falsamente, sem qualquer significado. Esta mão que você chama de “minha”, este corpo que você chama de “meu”, também não são seus. Quando você não estava aqui, mesmo então os ossos, a pele, o sangue de sua mão existiam em algum lugar, e eles continuarão a existir mesmo depois de você. (...)

A vida não aceita reivindicação de ninguém quanto a isso e segue fluindo a cada momento. Mas nós continuamos reivindicando. Essa ilusão de reivindicação é a mais profunda ilusão do homem.

Assim, sempre que uma pessoa diz “meu” ela está caindo na ignorância. Este sutra é para quebrar exatamente essa ilusão. Não apenas a terra não é minha, a casa não é minha, o dinheiro não é meu, mesmo o corpo não é meu. O seu corpo é composto pelos átomos de seus pais. Aqueles átomos existiam antes que você e eles chegaram até você através de uma longa jornada. Antes de seus pais, eles estiveram nos corpos dos pais deles. Esses átomos têm uma jornada de milhões de anos e agora eles constituem o seu corpo. Tal corpo também é um campo, uma terra na qual você está enraizado, mas você não é ele. Você não é o corpo, você é separado dele.

Este sutra diz que um homem não é apenas o corpo, ele vai mais profundo e diz que o homem não é nem mesmo a mente, porque a mente também é um amontoado de várias coisas.

Você tem um simples pensamento que possa ser seu, o qual você pode dizer que é seu? Não há nenhum. Alguns vieram da tradição, alguns vieram das escrituras, alguns vieram de ouvir alguém, alguns vieram de suas leituras – eles vieram de uma ou outra fonte externa. Se você pesquisar o mapa-natal de cada um de seus simples pensamentos, e você olhar para a jornada de cada pensamento, você descobrirá que não tem um único pensamento como sendo seu próprio, todos eles são emprestados, eles chegaram a você de algum lugar.

Nenhum pensamento é original, todos os pensamentos são emprestados. Mas nós reivindicamos até mesmo um pensamento como sendo “meu”.

Lembre-se de que mesmo uma respiração não pode ser chamada de “minha”; pensamento é uma questão muito mais sutil. Indo cada vez mais fundo nessa análise, onde nós chegaremos? Onde os Upanishades chegaram? Onde Buda chegou? Onde Mahavira chegou? Continuando essa análise, usando a negação: Eu não sou isso, eu não sou aquilo, quando no final nada restar a ser negado, quando nada permanecer a respeito do que eu possa mesmo pensar se aquilo é meu ou não... Quando nada ficar para trás para ser cortado, quando todas as relações forem quebradas e nada permanecer que ainda possa ser quebrado, aquilo que ainda assim permanecer é o que os Upanishads chamam sakshi, a testemunha.

Existe um grande mundo ao meu redor – ele não é meu. Reduzindo, eu chego mais perto – este corpo não é meu. Descendo mais fundo nisso – a mente não é minha. Então quem está ali que eu possa chamar de “Eu”? Ou nada existe em mim que possa ser chamado “Eu”? Eu sou, ou eu não sou? Cortando fora o “meu” em sua totalidade, qual a coisa mais pura que permanece dentro? Somente uma coisa permanece que não é descartada; não existe maneira alguma para que isso seja descartado. (...).

É disso que os Upanishads estão em busca. Uma após outra, todas as coisas são eliminadas, assim como se remove camada após camada de uma cebola. Se você continuar descascando uma cebola, no final nada restará em suas mãos. Uma cebola nada mais é do que camadas e mais camadas de pele – revestindo e revestindo – e não há nada a ser encontrado se você continuar descascando- É como se alguém pudesse ter feito uma boneca de pano e nós fossemos removendo suas roupas uma por uma. Ao remover a primeira camada, revela-se a segunda; ao remover a segunda camada a terceira é revelada, e assim por diante, até que todas as camadas tenham sido removidas – e não resta nenhuma boneca mais, apenas nada em suas mãos.

Assim, a maior busca do homem é por descobrir se ele também é nada mais do que um acúmulo de muitas, muitas camadas que nós podemos ir descascando e que no final nada haverá em nossas mãos. Se nós seguirmos negando e dizendo, “eu não sou o corpo”, “eu não sou a mente”, “eu não sou isso”, “eu não sou aquilo”, isso poderá se tornar a história da cebola e no final nada permanecerá do que possa ser dito que “isso sou eu”.

Mas os Upanishads dizem que mesmo se for assim, ainda é necessário conhecer a verdade, mesmo que seja verdadeiro que nada exista dentro, ainda vale a pena conhecer, porque o resultado de se conhecer a verdade é muito significante. Mas buscando profundamente, entretanto, descobre-se no final que o homem não é apenas um acúmulo de roupas, o homem não é apenas camadas sobre camadas sobre camadas. Existe alguma coisa dentro das camadas que é diferente. Mas nós só chegamos a conhecer tal coisa quando, removendo todas as camadas, nós chegamos dentro de nós. Tal elemento que permanece no fim é chamado sakshi pelos Upanishads, a testemunha.

Essa palavra sakshi é muito bela e preciosa. Toda a filosofia, genialidade e sabedoria do Oriente está implícita nessa pequena palavra. O Oriente não contribuiu para o mundo com outra palavra mais importante do que sakshi, a testemunha.

O que significa sakshi? Sakshi significa aquele que vê, a testemunha. Quem é esse que está experienciando que “eu não sou o corpo”? Quem é esse que está experienciando que “eu não sou a mente”? Quem é esse que segue negando que “eu não sou isso, eu não sou aquilo”? Existe um elemento que vê, que observa, o observador dentro de nós que vê, que observa tudo.

Esse que vê é o sakshi, a testemunha. O que é visto é o mundo. Aquele que está vendo é quem eu sou e o que está sendo visto é o mundo. ‘Adhyas’, a ilusão, significa que aquele que está vendo entende mal a si mesmo como se estivesse em tudo que é visto. Essa é a ilusão.

Existe um diamante em minha mão e eu estou vendo ele. Se eu começar a dizer que eu sou o diamante, isso é uma ilusão. Essa ilusão tem que ser quebrada e a pessoa tem que chegar finalmente àquele puro elemento que é sempre o que vê e nunca é visto. Isso é um pouco difícil. Aquele que vê nunca pode ser visto porque ele será visto por quem? Você pode ver tudo no mundo exceto a si mesmo. Como você pode ver a si mesmo? – porque dois serão necessários para se ver, aquele que vê e o outro que é visto. Nós podemos pegar tudo com um par de pinças, exceto as próprias pinças. Esse esforço irá falhar. Nós podemos achar isso embaraçoso, pois se as pinças pinçam tudo, por que elas não conseguem pinçar elas mesmas?

Nós vemos tudo, mas não somos capazes de ver a nós mesmos. E nós nunca seremos capazes disso. O que quer que possa ver, você sabe que não é você. Portanto, tenha uma coisa como certa, que aquilo que você é capaz de ver não é você. Se você for capaz de ver Deus, então uma coisa se torna certa, que você não é Deus. Se você vê luz dentro de você, uma coisa é conclusiva, que você não é a luz. Se você tem uma experiência de êxtase dentro de si, uma coisa é determinada, que você não é o êxtase. Qualquer coisa que tenha sido experienciada, você não é aquilo. Você é aquele que experiencia.

Assim, qualquer coisa que se torna sua experiência, você está além dela. Por conseqüência, será útil compreender um ponto difícil aqui, que espiritualidade não é uma experiência. Tudo no mundo é uma experiência, mas não espiritualidade. Espiritualidade é alcançar aquele que experiencia tudo, mas que ele próprio nunca se torna uma experiência. Ele sempre permanece sendo o experienciador, a testemunha, aquele que vê.

Eu vejo você: você está de um lado, eu estou do outro lado. Você está lá, aquele que está sendo visto; eu estou aqui, aquele que está vendo. Essas são duas entidades.

Não há maneira alguma de dividir alguém em dois, de modo que uma parte vê e a outra parte é vista. Mesmo se fosse possível dividir, então a parte que estaria vendo sou eu, e a parte que está sendo vista não seria eu. Simples assim.

Esse é todo o processo ou metodologia dos Upanishads: neti, neti – nem isso, nem aquilo. O que quer que possa ser visto, é dito que você não é aquilo. O que quer que possa ser experienciado, é dito que você não é aquilo. Você continua dando passos atrás, até que nada permaneça que possa ser negado ou eliminado. Um momento chega em que todo o cenário é perdido. Um momento chega em que todas as experiências são deixadas de lado – todas!

Lembre-se, todas! A experiência de sexo é certamente abandonada, a experiência de meditação também é abandonada. As experiências do mundo, de amor e de ódio são largadas, as experiências de êxtase e iluminação também são largadas. Somente o puro observador permanece. Nada está ali para ser visto, somente o vazio permanece por toda volta. Somente aquele que vê permanece, e o céu vazio por toda volta. E no meio está aquele que vê, o observador, aquele que vê nada porque tudo que poderia ser visto foi negado e eliminado. Agora ele experiencia nada. Ele removeu todas as experiências de seu caminho. Agora ele permanence só, aquele que estava experienciando.

Quando não há qualquer experiência, não há qualquer ver, nada é visto, não há qualquer objeto para ser visto, e permanece a testemunha só. Torna-se muito difícil de se expressar na linguagem o que realmente acontece porque nós não temos outra palavra a não ser “experiência” em nossa linguagem, por isso nós chamamos isso de “auto-experiência” ou “auto-realização”. A palavra experiência não é certa. Nós dizemos “experiência de consciência” ou “experiência de Brahma, o absoluto”, mas nenhuma dessas expressões são corretas porque a palavra experiência pertence àquele mesmo mundo que nós já tínhamos eliminado. A palavra experiência tem um significado no mundo da dualidade, onde havia “o outro” também. Aqui ela não tem qualquer significado em absoluto. Aqui somente o experienciador permanece, a testemunha permanece.

A busca por essa testemunha é espiritualidade. (...)

Se não houver menção alguma à testemunha, compreenda bem tudo isso nada tem a ver com religião. Tudo mais é secundário. Tudo mais pode ser útil, pode não ser útil, pode haver diferenças de opinião a respeito de tudo mais, mas não no que se refere à testemunha.

Por isso, se algum dia no mundo for criada uma ciência da religião, não haverá qualquer menção a Deus, à alma, a Brahma. Essas são questões localizadas – algumas religiões acreditam neles, outras não – mas o sakshi será mencionado porque ele não é uma questão localizada.

Não pode existir religião alguma sem a testemunha. Assim a testemunha sozinha é a base científica para todas as experiências religiosas – de toda busca e jornada religiosa. E é sobre isso e ao redor desse sakshi que todos os Upanishads giram. Todos os princípios e todos os indicadores são para assinalar a testemunha.

Vamos tentar compreender isso um pouco mais. Não é difícil compreender o significado da palavra testemunha, mas a sua prática real é uma coisa complexa.

Nossa mente é como uma flecha, afiada numa das pontas. Você já deve ter visto uma flecha: ela não pode ser atirada nas duas extremidades, uma flecha só vai em uma direção. Ela não pode viajar em direções opostas simultaneamente, ela somente vai em direção ao seu alvo, em uma direção.

Assim, quando a flecha está no arco e então ela é disparada, existem dois aspectos a serem considerados – quando ela deixa o arco no qual ela estava situada, ela começa a se mover para fora dele, e ela começa a se aproximar do alvo, onde ela não estava antes. Um estado era que a flecha estava no arco e, distante dali, numa árvore, estava o alvo. A flecha estava ainda no arco e ainda não havia atingido o alvo. Então a flecha deixa o arco, começa a se mover para fora dele e se aproximar do alvo. E em seguida chega o estado em que a flecha atinge o alvo, o arco permanece vazio e a flecha no centro do alvo.

Isso é o que nós estamos fazendo com nossa consciência o tempo todo. Sempre que a flecha de nossa consciência nos deixa, o arco interno se torna vazio e a flecha, ao alcançar o objeto, se apega a ele. Um rosto parece belo para você, a flecha de sua consciência é lançada. Agora aquela flecha não está dentro de você, a consciência não está dentro de você. A consciência correu para fora e se apegou ao belo rosto.

Existe um diamante no meio da Estrada; a flecha é lançada do arco. Agora a consciência não está dentro de você, agora a consciência se move e alcança o diamante, pinça o centro dele. Agora a sua consciência está com o diamante e não mais dentro de você. Agora a consciência está em algum outro lugar. Assim, todas as flechas de sua consciência tem alcançado e pinçado alguma coisa fora, em algum lugar fora. Você não tem mais a consciência dentro de si, ela está sempre indo para fora. Uma flecha consegue ir apenas em uma direção, mas a consciência pode ser bi-direcional – e quando isso acontece, a testemunha é experienciada. A flecha da consciência consegue ir em ambas as direções, ela pode ter dois gumes.

Quando a sua consciência é puxada para algum lugar, se você puder manejar somente um tanto, um dia então a testemunha acontecerá dentro de você. Quando sua atenção for puxada para fora – uma bela mulher ou um belo homem estiver passando – a sua consciência foi pega ali e agora você esqueceu completamente de si mesmo, a consciência não está mais dentro de você. Agora você não está consciente, agora você se tornou inconsciente porque a sua consciência viajou para algum outro lugar, agora a sua consciência se tornou uma sombra daquela pessoa ou objeto – agora você não está mais consciente.

Agora, se você conseguir fazer essa única coisa: você viu alguém belo, a sua consciência foi puxada para lá. Se no mesmo momento você conseguir estar alerta, consciente do arco de onde a flecha foi lançada, se você conseguir simultaneamente ver ambos – a fonte de onde a consciência foi disparada e o objeto para onde a consciência está indo – se ambos puderem chegar à sua atenção simultaneamente, então você irá experienciar pela primeira vez o que significa a testemunha. De onde a consciência está se levantando, de onde a consciência foi lançada para fora – essa fonte tem que ser encontrada. (...)

Compreenda dessa outra maneira: quando eu estou falando, a sua consciência está em minhas palavras. Faça disso uma flecha apontada para os dois lados... Isso pode acontecer justo agora, neste exato momento. Quando eu estou falando, não escute apenas o que eu estou dizendo, permaneça também simultaneamente consciente de que você está ouvindo. Aquele que fala é um outro alguém, ele está falando, eu sou o ouvinte, eu estou ouvindo. Se mesmo por um momento, aqui, agora, manejar ambas as coisas simultaneamente – ouvindo também se lembrando do ouvinte, essa lembrança interna de que “eu estou ouvindo” – e não há nenhuma necessidade de repetir as palavras. Se você repetir as palavras “eu estou ouvindo” você não será capaz de ouvir ao mesmo tempo, você perderá o que eu disse. Não há necessidade alguma de formar a frase interna “eu estou ouvindo, eu estou ouvindo”. Se você fizer isso, você ficará surdo por aquele período de tempo ao que eu estava dizendo. Naquele momento enquanto você ouvir sua própria voz dizendo “eu estou ouvindo”, você não ouvirá o que eu estiver dizendo.

É uma experiência simultânea de ouvir o que eu estou dizendo e também estar consciente de que você está ouvindo. A sensação, a realização, a experiência de que você é o ouvinte é o segundo aspecto. Alcançar a consciência desse segundo aspecto é difícil. Se você conseguir manejar isso, será muito fácil tornar-se consciente do terceiro aspecto.

O terceiro aspecto é esse: se quem fala é A, quem escuta é B, então quem é aquele que experiencia ambos, o que fala e também o ouvinte? Esse é o terceiro, e esse terceiro ponto é a testemunha. Você não consegue ir além desse terceiro. Esse terceiro é o último ponto. E esses são os três pontos do triângulo da vida: os dois são o objeto e o sujeito, e o terceiro ponto é a testemunha desses dois, o experienciador desses dois, aquele que vê esses dois.




quarta-feira, abril 01, 2015

O Estado de Presença (Eckhart Tolle)

- Eckhart Tolle -


Não é o que você pensa que é

Você continua falando que o estado de presença é a chave. Acho que compreendo a idéia mentalmente, mas não sei se alguma vez vivenciei esse estado. Imagino o que seja. É do jeito que eu penso ou é algo completamente diferente?

Não é o que você pensa que é! Não podemos pensar sobre a presença nem a mente pode entendê-la. Compreender a presença é estar presente.

Faça uma experiência rápida. Feche os olhos e diga: “Imagino qual será o meu próximo pensamento”. Depois fique bem alerta e espere pelo próximo pensamento. Aja como um gato espreitando o buraco do rato. Que pensamento será que vai sair do buraco do rato? Experimente já.

E aí?

Tive de esperar bastante tempo até que surgisse um pensamento.

Exatamente. Enquanto estamos num estado de presença intensa, estamos livres do pensamento. Estamos quietos, embora bem alerta. No instante em que a consciência desce abaixo de um certo nível, os pensamentos surgem aos borbotões. O ruído mental volta a aparecer e perdemos a serenidade. Estamos de volta ao tempo.

Para testar o grau de presença, alguns mestres zen tornaram-se conhecidos por se aproximarem dos alunos por trás e, de súbito, atingi-los com um bastão. Que susto! Se o aluno estivesse totalmente presente e em estado de alerta, se tivesse “mantido seu lombo cingido e sua lamparina acesa”, que é uma das analogias de que Jesus se utiliza para falar da presença, o aluno teria percebido o mestre se aproximar e o teria imobilizado ou se desviado para o lado. Mas, se o aluno fosse atingido, significaria que estava mergulhado em seus pensamentos, o que quer dizer, ausente, inconsciente.
Para ficarmos presentes no dia-a-dia, ajuda muito estarmos profundamente enraizados dentro de nós. Do contrário, a mente, que tem um impulso inacreditável, nos arrastará com ela, como um rio caudaloso.

O que você quer dizer com “enraizado em seu interior”?

Significa ocupar o corpo completamente. Ter sempre a atenção concentrada no campo energético interior do corpo. Sentir o corpo bem lá no fundo, como se diz. A consciência do corpo nos mantém presentes. Ela nos dá uma base firme no Agora.


O sentido "esotérico" de espera

Num certo sentido, o estado de presença poderia ser comparado à espera. Jesus empregou a analogia da espera em muitas de suas parábolas. Não se trata do costumeiro tipo de espera, tediosa ou agitada, que é uma negação do presente e sobre a qual já comentei. Não é uma espera na qual a atenção fica focalizada em algum ponto do futuro e o presente é percebido como um obstáculo indesejável, que nos impede de alcançar o que desejamos. Existe um tipo de espera que requer uma prontidão total. Alguma coisa pode acontecer a qualquer momento e, se não estivermos absolutamente acordados e calmos, vamos perdê-la. Esse é o tipo de espera da qual Jesus falou. Nesse estado, toda a nossa atenção está no Agora. Não há nenhum espaço para fantasias, pensamentos, lembranças, antecipações. Não há tensão, nem medo, apenas uma presença alerta. Estamos presentes com todo o nosso Ser, com cada célula do corpo. Nesse estado, o “você” que tem um passado e um futuro, em outras palavras a personalidade, dificilmente está ali. E, mesmo assim, não se perdeu nada de valor. Você ainda é essencialmente você. Na verdade, você é muito mais inteiramente você do que jamais terá sido, ou melhor, somente agora você é verdadeiramente você.

“Seja como um servo esperando pelo retorno do seu senhor”, diz Jesus. O servo desconhece a que horas o senhor vai chegar. Então fica acordado, vigilante, aprumado e sereno, para não perder a chegada do patrão. Em outra parábola, Jesus fala das cinco mulheres descuidadas (inconscientes) que não tinham levado azeite suficiente (consciência) para manter as lâmpadas acesas (ficar presente) e, assim, perderam a chegada do esposo (o Agora) e não participaram das bodas (iluminação). Essas cinco fazem um contraste com as cinco mulheres prudentes que tinham azeite (fique consciente).

Nem mesmo os homens que escreveram esses Evangelhos compreenderam o sentido dessas parábolas e, assim, os primeiros mal-entendidos e distorções surgiram enquanto eles estavam escrevendo. Com as interpretações equivocadas, perdeu-se completamente o sentido real. Essas parábolas não são sobre o fim do mundo, mas sobre o fim do tempo psicológico. Elas apontam para a transcendência da mente e para a possibilidade de se viver num estado inteiramente novo de consciência.


A beleza nasce da serenidade da sua presença

O que você acabou de descrever é algo que acontece comigo ocasionalmente por breves momentos quando estou só e em meio à natureza.

Sim. Os mestres zen usam a palavra satori para descrever um momento de insight, um momento de mente vazia e presença total. Embora satori não seja uma transformação duradoura, agradeça quando ele surgir porque terá uma amostra da iluminação. Isso já pode ter acontecido muitas vezes, sem que você soubesse o que significava e como era importante. A presença é necessária para tomarmos consciência da beleza, da majestade, do aspecto sagrado da natureza. Você alguma vez contemplou o espaço infinito em uma noite clara, estarrecido por sua calma absoluta e incrível vastidão? Já escutou, de verdade, o som de um riacho numa montanha na floresta? Ou o som de um melro ao cair da tarde em uma tranqüila tarde de verão? Para perceber tudo isso a mente tem que estar serena. Você tem de se despojar por um momento da sua bagagem pessoal de problemas, do passado e do futuro, e também do seu conhecimento. Do contrário, você olhará mas não verá, ouvirá mas não escutará. Estar totalmente presente é fundamental.

Existe algo mais sob a beleza das formas externas. Algo que não pode ser nomeado, que é inefável, uma essência profunda, interna e sagrada. Onde quer que exista a beleza, essa essência interior brilhará de alguma forma. Ela só se revela quando estamos presentes. Será possível que essa essência sem nome e a sua presença sejam coisas idênticas e uma coisa só? Será que a essência estaria lá sem a sua presença? Vá fundo nisso. Descubra por si mesmo.

Quando você vivenciou esses momentos de presença, provavelmente não percebeu que, por breves instantes, esteve em um estado de mente vazia. Isso aconteceu porque o espaço entre esse estado e o fluxo de pensamentos era muito estreito. O seu satori pode ter demorado só uns segundos antes que a mente surgisse, mas ele esteve lá, do contrário você não teria vivenciado a beleza. A mente não pode reconhecer, nem criar a beleza. Por alguns segundos, enquanto você esteve completamente presente, aquela beleza ou algo sagrado esteve lá. O pequeno espaço, sua falta de vigilância e a falha no estado de alerta impediram que você visse a diferença fundamental entre a percepção, a consciência da beleza sem pensamento, e a nomeação e interpretação disso como um pensamento. O espaço de tempo foi tão pequeno que pareceu ser um simples processo. No entanto, a verdade é que, no momento em que o pensamento surgiu, tudo o que lhe restou foi uma lembrança dele.

Quanto maior for o espaço entre a percepção e o pensamento, mais profundos seremos como seres humanos, ou seja, ficaremos mais conscientes.

Muitas pessoas estão tão aprisionadas em suas mentes que a beleza da natureza não existe para elas. Podem dizer “que flor linda”, mas é apenas um rótulo mental mecânico. Como elas não estão serenas, não estão presentes, não vêem a flor de verdade, não sentem a sua essência, do mesmo modo como não conhecem a si mesmas, não sentem a sua própria essência interior, sagrada.

Como vivemos em uma cultura dominada pela mente, a maior parte da arte moderna, da arquitetura, da música e da literatura é desprovida de beleza, de essência interior, com raras exceções. A razão é que as pessoas que criam essas obras não conseguem livrar-se das suas mentes, nem mesmo por um momento. Portanto, nunca estão em contato com aquele lugar interior, onde se originam a verdadeira criatividade e a beleza. A mente pode criar monstruosidades e não só nas galerias de arte. Olhe para as nossas paisagens urbanas e terrenos baldios em zonas industriais. Nenhuma civilização jamais produziu tanta feiura.


Vivenciando a consciência pura

Presença é o mesmo que Ser?

Quando tomamos consciência do Ser, o que de fato acontece é que o Ser se torna consciente de si mesmo. Quando o Ser toma consciência de si mesmo, isso é presença. Como o Ser, a consciência e a vida são sinônimos, podemos dizer que a presença significa a consciência se tornando consciente de si mesma, ou a vida tomando consciência de si mesma. Mas não se apegue às palavras e não se esforce para entendê-las. Não há nada que você precise entender antes de conseguir se tornar presente.

Compreendo o que você acabou de dizer, mas isso parece implicar que o Ser, a realidade transcendental definitiva, ainda não está completo e que está passando por um processo de desenvolvimento. Será que Deus precisa de tempo para um crescimento pessoal?

Sim, mas somente se visto da perspectiva limitada do universo manifesto. Na Bíblia, Deus declara: “Eu sou o Alfa e o Omega, eu sou Aquele que está vivo”. No reino eterno em que Deus habita, que também é a nossa casa, o começo e o fim, o Alfa e o Omega, são uma unidade, e a essência de todas as coisas que existem e existirão está eternamente presente na forma de um estado não manifesto de unidade e perfeição, totalmente além de qualquer coisa que a mente humana possa vir a imaginar ou compreender. Entretanto, em nosso mundo de formas aparentemente separadas, a perfeição eterna é um conceito muito difícil de imaginarmos. Aqui, até mesmo a consciência, que é a luz emanando da Fonte eterna, parece estar sujeita a um processo de desenvolvimento, mas isso se deve à nossa percepção limitada. Não é isso o que acontece em termos absolutos. Ainda assim, vou continuar a falar por um momento a respeito da evolução da consciência em nosso mundo.

Todas as coisas que existem têm um Ser, têm uma essência divina, têm algum grau de consciência. Até mesmo uma pedra tem uma consciência rudimentar, do contrário não existiria e seus átomos e moléculas se dispersariam. Tudo está vivo. O sol, a terra, as plantas, os animais, as pessoas, todos são expressões da consciência em níveis variáveis, a consciência se manifestando como forma.

O universo desponta quando a consciência toma um corpo e uma forma, formas abstratas e formas materiais. Olhe para os milhões de formas de vida só neste planeta. No mar, na terra, no ar e, em seguida, como cada forma de vida se reproduz milhões de vezes. Com que propósito? Será que alguma coisa, ou alguém, está jogando um jogo com a forma? É isso o que os antigos profetas da Índia se perguntavam. Viam o mundo como lila, uma espécie de jogo divino jogado por Deus. As formas de vida individuais não são obviamente muito importantes nesse jogo. No mar, a maioria das formas de vida não sobrevive por mais de alguns minutos depois de ter nascido. A forma humana também vira pó bem rapidamente e, quando ela se vai, é como se nunca tivesse acontecido. Isso é trágico ou cruel? Só se criarmos uma identidade separada para cada forma e esquecermos que a consciência de cada uma é a expressão da essência divina através forma. Mas você não sabe de verdade essas coisas até que vivencia a sua própria essência divina como pura consciência.

Se um peixe nasce no seu aquário e você lhe dá o nome de John, escreve uma certidão de nascimento, conta-lhe a história da família dele e, dois minutos depois, o vê sendo engolido por um outro peixe, isso é trágico. Mas só é trágico porque você projetou um eu interior separado onde não havia nenhum. Você se apoderou de uma fração de um processo dinâmico, uma dança molecular, e fez dela uma entidade separada.

A consciência assume formas tão complexas para se disfarçar que acaba se perdendo completamente nelas. Nos dias atuais, a consciência está totalmente identificada com seu disfarce. Só se conhece como forma e assim vive com medo da destruição da sua forma física ou psicológica. Essa é a mente egoica, e é aqui que surge uma grave disfunção. Agora parece que alguma coisa deu errado em algum ponto ao longo da linha da evolução. Mas mesmo isso é parte da lila, o jogo divino. Por fim, a pressão do sofrimento criada por essa aparente disfunção obriga a consciência a se desidentificar da forma e a faz despertar do sonho da forma. Ela recobra sua autopercepção, mas num nível muito mais profundo do que quando a perdeu.

Esse processo é explicado por Jesus na parábola do filho pródigo, que deixa a casa paterna, esbanja a sua fortuna, vira um mendigo e então é forçado por suas provações a voltar para casa. Ao chegar, seu pai o ama mais do que antes. O estado do filho é o mesmo que anteriormente, ainda que não o mesmo. Tem agora uma dimensão adicional de profundidade. A parábola descreve uma trajetória a partir de uma perfeição inconsciente, passa por uma aparente imperfeição e “demonismo”, até chegar a uma perfeição consciente.

Você consegue perceber agora a profundidade e a grandeza de se tornar presente como o observador da sua mente? Sempre que observamos a mente, livramos a consciência das formas da mente, criando aquilo que chamamos o observador ou a testemunha. Conseqüentemente, o observador – que é a pura consciência além da forma – se torna mais forte, e as formações mentais se tornam mais fracas. Quando falamos sobre observar a mente, estamos personalizando um fato de verdadeiro significado cósmico porque, através de você, a consciência está despertando do seu sonho de identificação com a forma e se retirando da forma. Isso é o prenúncio – e também parte – de um acontecimento que provavelmente ainda está num futuro distante, no que diz respeito ao tempo cronológico. Esse acontecimento é conhecido como o fim do mundo.

Quando a consciência se liberta da sua identificação com as formas física e mental, torna-se o que podemos chamar de consciência pura ou iluminada, ou presença. Isso já aconteceu com alguns indivíduos e parece que está destinado a acontecer em breve em uma escala muito maior, embora não haja garantia absoluta que vá acontecer. Muitos seres humanos ainda estão identificados com a mente e são governados por ela. Se não se libertarem a tempo, serão destruídos por ela. Vão se ver envolvidos em confusões cada vez maiores, conflitos, violência, doenças, desespero, loucura. A mente se transformou em um navio que naufraga. Se você não pular, vai naufragar com ele. A mente egoica coletiva é a entidade mais perigosamente insana e destruidora que jamais habitou nosso planeta. O que você acha que acontecerá ao planeta se a consciência humana não se modificar?

Para a maioria dos seres humanos, a única maneira de descansar a mente é ocasionalmente reverter a um nível de consciência abaixo do pensamento. As pessoas fazem isso todas as noites, durante o sono. Mas, até certo ponto, isso também acontece através do sexo, da bebida e de outras drogas que suprimem a atividade excessiva da mente. Se não fosse pela bebida, por tranquilizantes e antidepressivos, bem como pelas drogas ilegais, todas consumidas em grandes quantidades, a insanidade das mentes humanas seria até mais óbvia do que já é. Acredito que, impedida de usar drogas, uma grande parte da população se transformaria num perigo para ela mesma e para os outros. Essas drogas mantêm as pessoas paralisadas dentro da disfunção. Sua ampla utilização apenas retarda a ruptura das velhas estruturas mentais e o aparecimento de uma consciência superior. Enquanto os usuários individuais puderem obter algum alívio da tortura diária a eles infligi da por suas próprias mentes, estarão sendo impedidos de gerar uma presença consciente o bastante para se elevarem sobre o pensamento e assim encontrarem a verdadeira libertação.

Retomar a um nível de consciência abaixo da mente, que é o nível pré-pensamento dos nossos ancestrais distantes e também dos animais e das plantas, não é uma opção válida para nós. Não há como retomar. Se a raça humana tiver de sobreviver, terá de passar para o estágio seguinte. A consciência está se desenvolvendo por todo o universo através de bilhões de formas. Portanto, mesmo se não conseguirmos, não terá a menor importância numa escala cósmica. Nunca se perde um avanço na consciência cósmica, ele simplesmente vai se expressar através de uma outra forma. Mas o simples fato de eu estar falando aqui e de você estar me ouvindo, ou lendo, é um sinal claro que uma nova consciência está ganhando espaço no planeta.

Não há nada de pessoal nisso: não estou ensinando nada a você. Você está consciente e está prestando atenção. Há um ditado oriental que diz: “O mestre e o ensinamento juntos criam o ensino”. Em qualquer caso, as palavras em si não são importantes. Elas não são a Verdade, só apontam para ela. Falo num momento de presença e, enquanto falo, você pode querer se juntar a mim nesse estado. Embora cada palavra que eu empregue tenha uma história, e, é claro, venha do passado, assim como todas as línguas, as palavras deste momento são condutoras de uma alta freqüência de energia de presença, bem diferente do significado que elas transmitem como simples palavras.

O silêncio é um condutor até mais potente de presença, portanto, quando você ler estas palavras ou me ouvir dizê-las, perceba o silêncio entre e sob as palavras. Perceba os espaços. Ouvir o silêncio, onde quer que você esteja, é um caminho fácil e direto de tornar-se presente. Mesmo quando há barulho, há sempre um pouco de silêncio sob e entre os sons. Ouvir o silêncio cria imediatamente uma serenidade dentro de nós. Só a serenidade dentro de nós percebe o silêncio lá fora. E o que é serenidade senão a presença, a consciência livre das formas de pensamento? Eis aqui a realização exata do que venho falando.

Cristo: a realidade da sua divina presença

Não se apegue a uma única palavra. Você pode substituir “Cristo” por presença, se achar mais significativo. Cristo é a essência de Deus dentro de nós ou o nosso Eu interior, como às vezes é chamado no Oriente. A única diferença entre Cristo e presença é que Cristo remete à nossa existência divina sem se importar se estamos ou não conscientes dela, ao passo que a presença significa a nossa divindade vigilante ou a essência de Deus.

Se admitirmos que não há passado nem futuro em Cristo, poderemos esclarecer muitos mal-entendidos e falsas crenças sobre Ele. Dizer que Cristo foi ou será é uma contradição. Jesus foi. Foi um homem que viveu há dois mil anos e exerceu a sua divina presença, a sua verdadeira natureza. Suas palavras foram: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”. Ele não disse: “Eu já existia antes de Abraão ter nascido”. Isso significaria que Ele ainda estaria dentro da dimensão do tempo e da identidade da forma. As palavras Eu sou utilizadas em uma frase que começa no tempo passado indicam uma mudança radical, uma descontinuidade na dimensão temporal. É uma afirmação, ao estilo zen, de grande profundidade. Jesus tentou transmitir diretamente, e não através de divagações, o significado de presença, de auto- realização. Ele foi além da dimensão da consciência governada pelo tempo e penetrou no domínio da eternidade. Foi assim que a dimensão de eternidade surgiu neste mundo. A eternidade não significa tempo sem fim, mas sim tempo nenhum. Assim, o homem Jesus se tornou o Cristo, um veículo de pura consciência. E qual é a própria definição de Deus na Bíblia? Será que Deus disse: “Eu fui e sempre serei?” Claro que não. Isso teria conferido realidade ao passado e ao futuro. Deus disse: “EU SOU O QUE SOU”. Aqui não existe o tempo, só a presença.

A “segunda vinda” do Cristo é uma transformação da consciência humana, uma mudança do tempo para a presença, do pensamento para a consciência pura, e não a chegada de algum homem ou de alguma mulher. Se “Cristo” estivesse para chegar amanhã, revestido de alguma forma externa, o que ele ou ela poderia nos dizer além do seguinte: “Eu sou a Verdade. Eu sou a Divina Presença. Eu sou a Vida Eterna. Estou dentro de você. Estou aqui. Eu sou o Agora”.

Nunca personalize Cristo. Não dê uma forma de identidade a Cristo. Avatares, mães divinas, mestres iluminados, os pouquíssimos que realmente são, não têm nada de especial como pessoas. Como não têm de sustentar o ego, defendê-lo ou alimentá-lo, são mais simples do que as pessoas comuns. Qualquer pessoa com um ego forte os olharia como insignificantes ou, mais provavelmente, nem os veria.

Se você for atraído para um professor iluminado, é porque já existe presença bastante em você para reconhecer a presença no outro. Houve muitas pessoas que não reconheceram Jesus ou Buda, assim como há – e sempre haverá – pessoas que são levadas a falsos professores. Egos são atraídos por grandes egos. A escuridão não consegue reconhecer a luz. Portanto, não acredite que a luz está fora de você ou que ela só pode vir através de uma forma específica. Se só o seu mestre for a encarnação de Deus, quem é você então? Qualquer espécie de exclusividade é uma identificação com a forma, e a identificação com a forma significa o ego, não importa o quanto ele esteja bem disfarçado. Utilize a presença do mestre para ver um reflexo da sua própria identidade por trás do nome e da forma e para se tornar mais intensamente presente. Em pouco tempo você verá que não existe nenhum “meu” ou “seu” na presença. A presença e única.

O trabalho em grupo também pode ser de grande utilidade para intensificar a luz da nossa presença. Um grupo de pessoas atingindo juntas um estado de presença gera um campo de energia de grande intensidade. Isso não só aumenta o estado de presença de cada membro do grupo, mas também ajuda a libertar a consciência coletiva humana do seu estado normal de dominação da mente. Essa prática vai tornar o estado de presença cada vez mais acessível às pessoas. Entretanto, a menos que um membro do grupo já esteja firmemente estabelecido na presença e consiga sustentar a freqüência de energia desse estado, a mente pode facilmente voltar a dominar e sabotar os esforços do grupo. Embora o trabalho em grupo seja valioso, ele não é o bastante e você não deve depender dele. Nem de um professor ou de um mestre, exceto durante o período de transição, quando você está aprendendo o significado e a prática da presença.



sexta-feira, março 27, 2015

A Verdade é totalmente aqui e agora (Osho)

- OSHO -


Toda a ignorância da mente consiste em não estar no presente. A mente está sempre em movimento: indo para o futuro ou para o passado. A mente nunca está no aqui e agora. Ela não pode estar. A própria natureza da mente é tal que  ela não pode ficar no presente, porque a mente tem de pensar, e no momento presente não há possibilidade de pensar. Você tem que ser, você tem que ouvir, você tem que estar presente, mas  você não pode pensar.

O momento presente é tão estreito que não há espaço para pensar. Você pode estar nele, mas os pensamentos não podem. Como você pode pensar? Se você pensar, isso significa que já é passado, o momento já passou. Ou você pode pensar se não chegou ainda, se está no futuro.

Para pensar, é preciso espaço, porque o pensamento é como uma caminhada – um passeio da mente, uma viagem. É preciso espaço. Você pode caminhar para o futuro, você pode caminhar para o passado, mas como andar no presente? O presente está tão perto... na verdade não está nem perto – o presente é você. Passado e futuro são partes do tempo, o presente é você, que não faz parte do tempo. Não é um tempo: não é de modo algum parte do tempo, não pertence ao tempo. O presente é você, o passado e o futuro estão fora de você.

A mente não pode existir no presente. Se você conseguir estar aqui, totalmente presente, a mente desaparecerá. A mente pode desejar, pode sonhar, sonhar mil e um pensamentos. Ela pode mover-se para o fim do mundo, e pode mover-se para o próprio começo do mundo, mas não pode estar no aqui e agora – isso é impossível para ela. Toda a ignorância consiste em não saber disso. E então você se preocupa com o passado, o qual não existe mais – isso é absolutamente estúpido. Você não pode fazer nada quanto ao passado. Como você pode fazer alguma coisa quanto ao passado que não existe mais? Nada pode ser feito, já passou; mas você se preocupa com isso, e ao se preocupar você desperdiça a si mesmo.

Ou você pensa no futuro, e sonha e deseja. Ele não pode chegar. Tudo o que chega é sempre o presente, e o presente é absolutamente diferente dos seus desejos, dos seus sonhos. É por isso que tudo o que você deseja, sonha, imagina, planeja e se preocupa, nunca acontece. Mas desgasta você. Você continua se deteriorando. Você continua morrendo. Suas energias continuam andando num deserto, não atingindo nenhum objetivo, simplesmente se dissipando. E então a morte bate à sua porta. E lembre-se: a morte nunca bate no passado, e a morte nunca bate no futuro, a morte bate no momento presente.

Você não pode dizer para a morte: "Amanha!". A morte bate no presente. A vida também bate no presente. Deus também bate no presente. Tudo o que existe sempre bate no presente, e tudo o que não existe sempre bate no passado ou no futuro. 

Sua mente é uma entidade falsa, pois nunca bate no presente. Que esse seja o critério para a realidade: tudo o que existe está sempre aqui e agora, e tudo o que não existe nunca faz parte do presente. Largue tudo o que nunca bate no agora. E se você se mover no agora, uma nova dimensão se abre: a dimensão da eternidade.

Passado e futuro movem-se numa linha horizontal. Assim como A se move para B, B para C, C para D, numa linha. A eternidade move-se verticalmente: A move-se mais profundamente em A, mais alto em A, não se move para B; A continua se movendo mais profundamente e para cima, em ambos os sentidos. É vertical. O momento presente move-se verticalmente, o tempo se move horizontalmente. O tempo e o presente nunca se encontram. E você é o presente – todo o seu ser move-se verticalmente. A profundidade está aberta para você, a altura está em aberto, mas você está se movendo horizontalmente com a mente. É assim que você perde Deus.

As pessoas vêm a mim e perguntam como encontrar Deus, como ver, como perceber. Isso não é o que importa. A questão é: como você o está perdendo? Porque ele está aqui e agora batendo à sua porta. Não pode ser de outra forma! Se ele é real, ele tem que estar aqui e agora. Apenas a irrealidade não está aqui e agora. Deus já está na sua porta, mas você não está presente. Você nunca está em casa. Você continua vagando em milhões de palavras, mas você nunca está em casa. Lá você nunca é encontrado, e Deus vai ao seu encontro lá, a realidade rodeia você lá. A verdadeira questão não é como você deveria encontrar com Deus, a verdadeira questão é que você deveria estar em casa, de modo que, quando Deus batesse ele encontrasse você lá. Não é uma questão de você encontrá-lo, é uma questão de ele encontrar você.

Portanto, é uma meditação real. Um homem de entendimento não se preocupa com Deus ou com esse tipo de assunto, porque ele não é um filósofo. Ele simplesmente se empenha em ficar em casa, ele para de preocupar-se em pensar no passado e no futuro, e se estabelece firmemente no aqui e agora, e não sai deste momento. Quando você fica neste momento, a porte se abre. Este momento é a porta!

As pessoas estão realmente dormindo, em todo o planeta, em todos os lugares. Essa é a natureza do sono: você nunca está no aqui e agora, porque, se estiver no aqui e agora, você vai ficar acordado! O sono significa que você está no passado, significa que você está no futuro. A mente é o sono, a mente é uma hipnose profunda – porque qualquer coisa feita durante o sono não vai ser de muita ajuda, pois qualquer coisa feita no sono faz parte do próprio sonho. Sua mente, como ela é, está dormindo. Mas você não consegue sentir como ela está dormindo porque você parece bem acordado, com os olhos abertos. Mas você já viu alguma coisa? Você parece acordado e com ouvidos abertos, mas você já ouviu alguma coisa?

Você está me ouvindo e você diz: "Sim!". Mas você está me ouvindo ou está ouvindo a sua mente aí dentro? A sua mente está sempre comentando. Eu estou aqui, falando com você, mas você não está me ouvindo. Sua mente comenta o tempo todo. Ela diz: "Sim, ele está certo, eu concordo", ou diz "eu não concordo, isso é absolutamente falso"; sua mente está lá, sempre comentando. Através desse comentário, desse nevoeiro mental, eu não posso entrar em sintonia com você. O entendimento vem quando você não está interpretando, quando você simplesmente ouve.

Numa pequena escola, a professora percebeu que um menino não estava escutando. Ele era muito preguiçoso e irrequieto, inquieto. Então ela perguntou: "Por que? Você está com alguma dificuldade? Não está conseguindo me ouvir?"

O menino disse: "A audição está boa, escutar é que é o problema".

Ele fez uma distinção muito sutil. Ele disse: "A audição está boa, eu estou ouvindo você, mas escutar é que é o problema", porque escutar é mais do que ouvir. Escutar é ouvir com plena consciência. Só ouvir é bom, os sons estão todos em torno de você; você ouve, mas não está escutando. Você tem que ouvi-los porque os sons vão continuar batendo no seu tímpano, você tem que ouvir. Mas você não está lá para escutar, porque escutar significa uma atenção profunda – não um comentário interior constante. Não é dizer "sim" ou "não", não é concordar ou discordar; porque se você estiver concordando e discordando, estará realmente me escutando neste momento?

No momento em que você estiver concordando, aquilo que eu disse terá se tornado passado; quando você discorda, o momento já passou. E no momento em que você acenar com a cabeça interiormente, dizendo não ou sim, você estará deixando escapar – isso é uma coisa constante dentro de você.

Você não consegue escutar. E quanto mais conhecimento você tiver, mais difícil fica escutar. Ouvir significa atenção inocente, você simplesmente escuta. Não há necessidade de estar em concordância ou discordância. Não estou em busca da sua concordância ou discordância. Eu não estou tentando de forma alguma convencê-lo.

O que você faz quando um pássaro começa a gritar numa árvore? Você comenta, interpreta? Sim, então você também diz: "Que incômodo!". Você não consegue ouvir nem mesmo um pássaro. Quando o vento está soprando através das árvores e há o farfalhar, você escuta? Às vezes, talvez, quando você é pego de surpresa. Mas então você também comenta: "Sim, lindo!";

Agora observe: sempre que você comenta, você adormece. A mente interferiu, e com a mente o passado e o futuro entraram em cena. A linha vertical é perdida – e você se torna horizontal. No momento em que a mente interfere, você se torna horizontal. Você perde a eternidade.

Simplesmente escute. Não há necessidade de dizer sim ou não. Não há necessidade de se convencer ou não. Simplesmente escute, e a verdade será revelada a você – ou a inverdade! Se alguém está falando bobagem, e você simplesmente escutar, o absurdo será revelado a você – sem qualquer comentário da mente. Se alguém estiver falando a verdade, ela será revelada a você. A verdade ou a inverdade não é um acordo ou desacordo da sua mente, é um sentimento. Quando você está em harmonia total, você sente, e você simplesmente sente que é verdade ou não é verdade – e a coisa termina aí! Sem você ter que se preocupar mais com isso, sem pensar sobre isso. O que o pensar pode fazer?

Se você foi criado de uma certa forma, se você é cristão, ou hindu ou muçulmano, e eu estiver dizendo algo que por acaso esteja de acordo com a sua educação/cultura, você vai concordar dizendo "sim". Se por acaso não estiver, você vai dizer que "não". Você está aqui, ou é apenas a sua cultura? E sua educação é apenas acidental.

A mente não consegue encontrar o que é verdadeiro, a mente não consegue encontrar o que é inverdade. A mente pode raciocinar sobre isso, mas todo o raciocínio é baseado no condicionamento. Se você é hindu, você raciocina de uma maneira; se você é muçulmano, raciocina de uma maneira diferente. E todo tipo de condicionamento é passível de ser racionalizado. Não se trata de fato de raciocínio, mas de racionalização.

O Mulá Nasrudin ficou muito idoso; ele fez 100 anos. Um repórter foi vê-lo porque ele era o cidadão mais velho daquela região. O repórter disse: "Nasrudin, há algumas perguntas que eu gostaria de fazer. Uma delas é: você acha que vai conseguir viver mais 100 anos?"

Nasrudin disse: "Claro, porque cem anos atrás eu não era tão forte quanto sou agora". Cem anos antes ele era uma criança recém-nascida, por isso ele disse: "Cem anos atrás eu não era tão forte quanto sou agora, e se aquela criancinha indefesa, fraca, conseguiu sobreviver durante cem anos, por que eu não conseguirei?"

Isso é a racionalização. Parece lógico, mas falta alguma coisa. É a realização de um desejo. Você gostaria de sobreviver por mais tempo, então você cria uma lógica em torno disso: você acredita na imortalidade da alma. Você foi criado numa cultura que diz que a alma é eterna. Se alguém diz: "Sim, a alma é eterna", você concorda, e diz: "Sim, isso está certo". Mas isso não está certo – ou errado. Você diz "sim" porque é um condicionamento arraigado em você. Esteja aberto à verdade e descubra por si mesmo, sem depender da educação que lhe foi incutida pela sociedade. Então você realmente saberá. Há outros: metade do mundo – hindus, budistas, jainistas – acredita que a alma é eterna, e também que existem muitos renascimentos. E metade do mundo – cristãos, muçulmanos, judeus – acreditam que a alma não é eterna e não existem renascimentos, apenas uma vida e depois a alma se dissolve no final.

Metade do mundo acredita nisso, a outra metade acredita naquilo, e todos têm seus próprio argumentos, todos têm as suas próprias racionalizações. Tudo em que você quiser acreditar, você vai acreditar; mas no fundo seu desejo será a causa da sua crença, não a razão. A mente parece racional, mas não é. É um processo de racionalização: tudo o que você quiser acreditar, a mente dirá que "sim". E de onde vem esse querer? Ele vem da sua educação.

Escutar é um assunto totalmente diferente, que tem uma qualidade totalmente diferente. Quando você escuta, você não pode ser hindu, nem muçulmano, nem jainista, nem cristão. Quando você escuta, você não pode ser teísta ou ateu. Quando você escuta, você não pode fazê-lo através da pele dos seus "ismos" ou escrituras – você tem que colocar todos eles de lado, você tem simplesmente que ouvir.

Eu não estou pedindo para você concordar, não tenha medo! Basta escutar sem se incomodar em demonstrar concordância ou discordância, e então o correto raciocínio acontece.

Se a verdade está ali, de repente você é atraído – todo o seu ser é puxado como que por um ímã. Você derrete e se funde, e seu coração sente "Isso é verdade" sem nenhuma razão, sem nenhum argumento, sem nenhuma lógica. É por isso que as religiões dizem que a razão não é o caminho para o divino. Elas dizem que é a fé, dizem que é a confiança.

E o que é confiança? É uma crença? Não, porque a crença pertence à mente. Confiar é um rapport. Você simplesmente coloca de lado todas as suas medidas de defesa, sua armadura, você se torna vulnerável. Você escuta algo, e você escuta tão totalmente que o sentimento surge em você dizendo se é verdade ou não. Se não é verdade, você sente isso. Por que isso acontece? Se é verdade, você sente isso. Por que isso acontece?

Isso acontece porque a verdade reside em você. Quando você está totalmente no "não pensamento", a sua verdade interior sempre pode sentir a verdade – isso porque o igual sempre sente o igual: ele se encaixa. De repente, tudo se encaixa, tudo cai num padrão e o caos se torna um cosmos. As palavras caem em linha... e uma poesia surge. Então tudo simplesmente se encaixa.

Se você está em rapport, e a verdade surge, seu ser interior simplesmente concorda com ela, mas não é uma concordância da mente que te leva embora para o passado (ou futuro). Você sente uma sintonização, você se torna uno. Isso é confiar. Se algo está errado, isso simplesmente se esvai de você: você nem pensa outra vez, você nunca olha para isso uma segunda vez – não há sentido nisso. Você nunca diz: "Isto não é verdade", aquilo simplesmente não se encaixa – você segue em frente! Se se encaixa, torna-se a sua casa. Se não se encaixa, você segue adiante.

Por meio do escutar vem a confiança. Mas, para escutar é preciso ouvir com mais atenção. E você está dormindo – como você pode estar atento? Mas, mesmo dormindo, um fragmento de atenção permanece flutuando em você. Você pode estar numa prisão, mas as possibilidades sempre existem – você pode sair. Pode haver dificuldades, mas não é impossível, porque se sabe que prisioneiros têm escapado de lá. Um Buda escapa, um Mahavira, um Jesus escapa – eles também estavam presos como você. Prisioneiros escaparam antes. Resta em algum lugar uma porta, uma possibilidade, você simplesmente tem que procurá-la.

Se não for possível, se não houver nenhuma possibilidade, então não há nenhum problema. O problema surge porque a possibilidade existe – você está um pouco alerta. Se você estivesse absolutamente adormecido, então não haveria nenhum problema. Se você estivesse em coma, então não haveria nenhum problema. Mas você não está em coma, você está dormindo, mas não totalmente. Uma lacuna, uma brecha existe. Você tem que encontrar dentro de si mesmo essa possibilidade de ficar atento.

Às vezes você fica atento. Se alguém vem bater em você, a atenção vem. Se você estiver em perigo, passando por uma floresta à noite e estiver escuro, você anda com uma qualidade diferente de atenção. Você está acordado, o pensar não está presente. Você está em plena harmonia com a situação, com tudo o que está acontecendo. Se uma folha faz barulho, você fica totalmente alerta. Você é exatamente como uma lebre ou um cervo – que está sempre acordado. Sua audição está maior, seus olhos estão bem abertos, você está sentindo o que está acontecendo ao seu redor, porque o perigo existe. Em perigo o seu sono é menor, a sua consciência é maior. Se alguém encosta um punhal no seu coração e está prestes a cravá-lo, nesse momento não há pensamento. O passado desaparece, o futuro desaparece, você está no aqui e agora.

Então lembre-se: encontre a atenção, deixe que ela se torne uma continuidade em você 24 horas por dia, em tudo o que você faz. Coma, mas tente ficar atento: coma com consciência. Caminhe, mas caminhe com consciência. Ame, mas ame plenamente consciente. Experimente!

Aqui, me ouvindo, fique alerta. Sempre que você sentir que caiu novamente no sono, traga-se de volta: basta se sacudir um pouco e se trazer de volta. Ao andar na rua, se você sentir que está andando dormindo, agite-se um pouco, leve um pouco de vibração a todo o seu corpo. Fique alerta. Esse estado de alerta permanecerá por alguns instantes, e mais uma vez você irá perdê-lo, porque você tem vivido dormindo há tanto tempo que se tornou um hábito.

Isso não vai se tornar total em apenas um dia, mas, mesmo se um raio for pego, você vai sentir uma satisfação profunda – porque a qualidade é a mesma se você atingir um raio ou a totalidade do sol. Se você provar uma gota d'água do oceano ou todo o oceano, o gosto salgado é o mesmo – e o gosto se torna o seu satori, o seu vislumbre. Então você provará da verdade, e finalmente você saberá.


segunda-feira, março 23, 2015

O Sublime Vazio

- OSHO -


Subhuti era um dos discípulos de Buda. 
Ele era capaz de entender o poder do vazio – o ponto de vista de que nada existe, exceto em sua relação de subjetividade e objetividade. 
Um dia, quando Subhuti estava sentado debaixo de uma árvore, num espírito de sublime vazio, flores começaram a cair em torno dele.
"Estamos louvando você pelo seu discurso sobre o vazio", os deuses lhe sussurraram.
"Mas eu não falei do vazio", disse Subhuti.
"Você não falou do vazio, nós não ouvimos o vazio", responderam os deuses. 
Esse é o verdadeiro vazio.
E flores se derramaram sobre Subhuti como chuva.
.

Sim, isso acontece. Não é uma metáfora, é um fato, portanto não encare essa história metaforicamente. É literalmente verdade... porque toda a existência se sente feliz, exultante, extasiada, quando ao menos uma alma individual atinge o supremo.

Nós fazemos parte do todo. E o todo não é indiferente a você, não pode ser. Como a mãe pode ficar indiferente ao filho – ao seu próprio filho? É impossível. Quando o filho cresce, a mãe também cresce com ele. Quando o filho é feliz, a mãe também fica feliz com ele. Quando o filho dança, algo dança dentro dela também. Quando o filho está doente, a mãe fica doente. Quando o filho é infeliz, a mãe é infeliz... porque eles não são dois, eles são um só. O coração deles estão em sintonia.

O todo é como sua mãe. O todo não é indiferente a você. Que esta verdade penetre o mais profundamente possível em seu coração, porque até mesmo essa consciência – de que o todo se sente feliz com você – irá transformá-lo. Depois disso você não será mais um alienado, depois disso você não será mais um estrangeiro aqui. Depois disso você não será mais um andarilho sem-teto, depois disso isto aqui será um lar. E o todo cria você como mãe, ele cuida de você, ama você. Por isso, é natural que, quando alguém se torna um buda, quando alguém atinge o ápice, toda a existência dance, toda a existência cante, toda a existência celebre. É literalmente verdade. Não é uma metáfora; caso contrário, você não vai entender o principal.

Flores se derramam, e então continuam a se derramar – elas nunca param. As flores que se derramaram sobre Buda ainda estão se derramando. As flores que se derramaram sobre Subhuti ainda estão se derramando. Você não pode vê-las, não porque elas não estejam se derramando, mas porque você não é capaz de vê-las. A existência continua celebrando infinitamente todos os budas que aconteceram, todos os budas que estão acontecendo e todos os budas vão acontecer – porque, para a existência, passado, presente e futuro não existem. É uma continuidade, é a eternidade. Só o agora existe, o infinito agora.

Elas ainda estão se derramando, mas você não pode vê-las. A menos que elas se derramem sobre você, você não poderá vê-las, e depois que as vir se derramando sobre você, você vai ver que elas se derramam sobre cada buda, sobre cada alma iluminada.

A primeira coisa: a existência se importa com o que acontece com você. A existência está continuamente rezando para que o ápice aconteça a você. Na verdade, você não é nada a não ser uma mão estendida pelo todo para chegar ao ápice. Você é nada mais do que uma onda provinda do todo para tocar a Lua. Você é nada mais do que uma flor se abrindo, de modo que o todo se encha de perfume através de você.

Se você conseguir se soltar, aquelas flores podem se derramar esta manhã, neste momento. Os deuses estão sempre prontos, as mãos deles estão sempre cheias de flores. Eles simplesmente observam e esperam. Sempre que alguém se torna um Subhuti, vazio, sempre que alguém está ausente, de repente as flores começam a se derramar.

Este é um dos fatos básicos. Sem ele, não há possibilidade de confiança; sem ele não há possibilidade de um dia você chegar à verdade. A menos que o todo ajude, não há nenhuma possibilidade de você chegar – como poderia chegar? E, normalmente, nossa mente pensa exatamente o oposto. Pensamos no todo como o inimigo, não como o amigo, nunca como a mãe. Pensamos no todo como se o todo estivesse tentando nos destruir. Nós olhamos para o todo através da porta da morte, não através da porta do nascimento. É como se o todo estivesse contra você, brigando com você, não permitindo que você alcance suas metas e objetivos, não permitindo que você se realize. Por isso você vive constantemente em guerra com ele. E quanto mais você luta, mais seu equívoco se revela verdadeiro – porque, se você lutar, sua própria luta é refletida pelo todo.

O todo apoia você, lembre-se. Mesmo quando você luta, o todo apoia você; mesmo quando você luta e está errado, o todo apoia você. Essa é uma segunda verdade que precisa ser muito bem compreendida. Se você não compreender, vai ficar muito difícil prosseguir. Mesmo se você lutar contra o todo, o todo o apoia – porque o todo não pode fazer nada a não ser apoiar. Se você errar, ainda assim o todo cuida de você. Mesmo se você errar, o todo segue com você. Se um filho erra, a mãe ainda assim se importa com ele. Se um filho vira ladrão e fica doente, a mãe ainda assim vai se importar com ele, Ela não pode dar veneno para o filho. Se o filho estiver completamente errado, perdido, a mãe ainda vai rezar por ele. Esse é o significado da história de Jesus sobre os dois irmãos.

Um irmão foi embora – não só foi embora, mas se desencaminhou, desperdiçou sua parte da herança e tornou-se um mendigo, um jogador, um bêbado. O outro irmão permaneceu ao lado do pai, ajudou nos negócios, trabalhou na fazenda e nas plantações, aumentou o patrimônio, ajudou em todos os sentidos, servindo ao pai com rendição de espírito. E, de repente, chegou a notícia de que o outro irmão tinha se tornado um mendigo, que estava pedindo esmola nas ruas, e todo o coração do pai começou a se condoer por esse filho, e todas as suas orações eram para ele. Ele se esqueceu completamente do filho que estava perto, lembrava-se apenas do que estava distante. Em seus sonhos à noite, o outro estava presente, mas não o que estava do lado e trabalhava para ele, que era bom em todos os sentidos.

E então, um dia, o filho mendigo voltou e o pai deu uma grande festa. O filho bom estava voltando para casa, da fazenda, e alguém lhe disse: "Olhe a injustiça de seu pai! Você o ama, você se importa com ele e o ajuda, e você permaneceu com ele, foi absolutamente bom, de boa índole, nunca fez nada contra a vontade dele, mas ele nunca deu uma festa para você. O cordeiro mais gordo foi abatido para o seu irmão que se desencaminhou. Ele chegou maltrapilho, e toda a casa está comemorando!". O filho, o bom filho, se sentiu muito mal, isso era um absurdo! Ele voltou para casa com raiva. E falou para o pai: "O que você está fazendo? Nunca houve uma festa para mim, e eu vivo para servi-lo! O que seu outro filho fez por você? Apenas desperdiçou sua herança, apostou tudo no jogo, e agora voltou para casa como um mendigo".

O pai disse: "Sim, como você já está tão perto e é tão bom e tão feliz, eu não preciso me preocupar com você. Mas aquele que se perdeu, minhas orações o acompanham e meu amor o acompanha."

Jesus costumava contar essa história para os discípulos, porque, como ele disse, Deus pode esquecer os santos, não há necessidade de se lembrar deles, mas não pode se esquecer dos pecadores. Se ele é pai... e eu disse que ele não é um pai, ele é uma mãe... O pai não é um fenômeno tão profundo quanto a mãe. É por isso que os hindus o chamam de mãe – Deus é mãe, é maternidade. Jesus disse que, sempre que acontece de um pastor estar voltando para casa e uma ovelha se perder, ele deixa todas as outras ovelhas no pasto e sai à procura da ovelha perdida. E quando a ovelha perdida é encontrada, ele a carrega nos ombros e se alegra, e volta para casa muito feliz, porque aquela que estava perdida foi encontrada.

Sempre que isso acontece – todos nós somos ovelhas perdidas –, sempre que uma ovelha é reencontrada, o pastor se alegra. Flores começam a se derramar.

Divindades, deuses, não são pessoa no Oriente; são forças naturais. Tudo foi personificado apenas para dar um coração àquela força, a batida de um coração – apenas para torná-la mais afetiva. Por isso, hindus, budistas, eles converteram todas as forças naturais em deuses, e estão certos! Quando Subhuti atingiu o vazio, os deuses começaram a derramar flores. E o significado é muito bonito: o Sol é um deus para os hindus e os budistas, o céu é um deus; cada árvore tem seu próprio deus, a sua própria divindade. O ar é um deus; a terra é um deus. Tudo tem coração – esse é o sentido. Tudo sente – esse é o sentido. Nada é indiferente a você – esse é o sentido. Quando você atinge a iluminação, tudo celebra. Então o Sol brilha de uma maneira diferente; a qualidade é outra.

Para aqueles que são ignorantes, tudo permanece a mesma coisa. O Sol brilha da mesma maneira, porque a mudança de qualidade é muito sutil, e só aquele que está vazio pode sentir. Não é algo grosseiro, o ego não pode sentir. O grosseiro é o campo do ego. O sutil só pode ser sentido quando não existe ego, porque é tão sutil que, se você estiver presente, vai deixar escapar. Mesmo a sua presença será perturbação suficiente.

Quando se está totalmente vazio, a qualidade do Sol muda instantaneamente. Ele tem uma poesia de boas-vindas com relação a isso. Seu calor não é só calor, torna-se um amor – um calor amoroso. O ar é diferente, ele fica um pouco mais perto de você, toca você com mais sentimento, como se tivesse mãos. O toque é totalmente diferente; o toque passa a ter uma sensibilidade através ao redor de você. A árvore vai florir, mas não da mesma maneira. Agora, as flores brotam da árvore como se estivessem saltando.

Dizem que, sempre que Buda caminha pela floresta, as árvores começam a florescer, mesmo quando não é a estação delas. Tem que ser assim! O homem pode se enganar no reconhecimento de um Buda, mas como as árvores podem se enganar? O homem tem mente e pode errar, mas como as árvores podem errar? Elas não têm mente, e quando um Buda passa pela floresta elas começam a desabrochar. É natural, tem que ser assim! Não é um milagre. Mas você pode não conseguir ver as flores, porque essas flores não são físicas. Essas flores são os sentimentos das árvores. Quando Buda passa, a árvore estremece de uma forma diferente, pulsa de uma forma diferente, não da mesma forma. Esse é o significado. O todo se preocupa com você, o todo é sua mãe.

Agora tente entender essa parábola. Ela é uma das melhores.

"Subhuti era um dos discípulos de Buda..."

Buda tinha milhares de discípulos. Subhuti era apenas um deles. Não havia nada de especial nele. Na verdade, ninguém sabe muito sobre Subhuti, essa é a única história sobre ele. Havia grandes discípulos bem conhecidos, famosos – grandes eruditos, príncipes. Eles tinham grandes reinos e, quando os deixaram e renunciaram e se tornaram discípulos de Buda, eles já tinham fama. Mas as flores não se derramaram sobre eles. As flores escolheram esse Subhuti, que era apenas mais um discípulo, não havia nada de especial nele.

Só então as flores se derramam; caso contrário, você também pode se sentir especial perto de um buda – e você pode se enganar! Você pode se sentir egoísta por estar perto de um buda, pode criar uma hierarquia. Você pode dizer: "Eu não sou um discípulo comum, sou alguém especial. Estou ao lado do Buda. Os outros são apenas gente comum, uma multidão, mas eu não faço parte da multidão, eu tenho um nome, uma identidade própria. Mesmo antes de me aproximar do Buda eu era alguém" – e você continua sendo alguém.

Sariputta procurou o Buda. Quando chegou, ele estava com seus próprios quinhentos discípulos. Ele era um mestre – claro que um mestre ignorante, sem saber nada, e ainda sentido que sabia porque era um grande estudioso. Ele sabia todas as escrituras. Nasceu brâmane e era muito talentoso, um gênio. Desde a mais tenra infância era conhecido por sua excelente memória – conseguia memorizar qualquer coisa. Só precisava ler a escritura uma vez, depois disso já a memorizava. Era conhecido em todo o país; quando procurou o Buda, ele já era alguém. Esse fato de ser alguém se tornou uma barreira.

Esses deuses parecem muito irracionais – eles escolheram um discípulo, Subhuti, que era apenas um na multidão, não tinha nada de especial. Esses deuses parecem loucos! Eles deveriam ter escolhido Sariputta, ele era o homem mais indicado para ser escolhido. Mas eles não o escolheram. Eles não escolheram Ananda, primo-irmão de Buda, que foi como a sombra de Buda durante quarenta anos – nesses quarenta anos, nem por um só instante ele ficou longe de Buda. Ele dormia no mesmo quarto, sempre acompanhava Buda, estava continuamente ao lado dele. Era a pessoa mais bem conhecida. Todas as histórias que Buda contava, ele as contava primeiro a Ananda. Ele dizia: "Ananda, aconteceu desta maneira... Ananda, uma vez aconteceu...". Ananda, Ananda e Ananda – ele continuava repetindo o nome dele. Mas esses deuses são loucos, eles escolheram Subhuti, um joão-ninguém.

Lembre-se, apenas os joões-ninguém são escolhidos – porque se você é alguém neste mundo, você não é ninguém no outro. Se aqui você é um joão-ninguém, você se torna alguém no outro mundo. Os valores são diferentes. Aqui, as coisas mais grosseiras são valorizadas; lá, as coisas sutis são valorizadas. E o mais sutil, o mais sutil de tudo, é não-ser. Subhuti viveu no meio da multidão – ninguém sequer sabia seu nome – e, quando chegou a notícia de que as flores estavam se derramando sobre Subhuti, todo mundo perguntou: "Quem é esse Subhuti? Nós nunca ouvimos falar dele. Será que aconteceu por acidente? Porventura os deuses escolheram mal?". Porque havia muitos que eram superiores na hierarquia. Subhuti devia ser o último. 

Essa é a única história sobre Subhuti. Entenda bem. 

Quando você estiver perto de um grande mestre, seja um joão-ninguém. Os deuses são loucos, eles só vão escolher você quando você não for ninguém. E se você tentar ser alguém, quanto mais você conseguir, mais vai se perder. Isso é o que estamos fazendo no mundo e isso também é o que começamos a fazer quando estamos perto de um buda. Você almeja riquezas. Por quê? Porque com riquezas você se torna alguém. Você almeja prestígio e poder. Por quê? Porque com poder e prestígio você não é uma pessoa comum. Você almeja aprender, estudar, ter conhecimento. Por quê? Porque com o conhecimento você tem algo do que se orgulhar.

Mas os deuses não vão escolher você desse jeito. Eles têm sua própria maneira de escolher. Se você está se vangloriando demais, não há necessidade de os deuses derramarem flores sobre você – você está derramando flores sobre si mesmo! Não há necessidade. Quando você parar de se sentir orgulhoso por alguma coisa, de repente toda a existência começa a se sentir orgulhosa de você. Jesus diz: "Aqueles que são os primeiros neste mundo serão os últimos no reino do meu Pai, os últimos serão os primeiros".

Aconteceu de um homem muito rico morrer e no mesmo dia um mendigo da cidade também morrer. O nome do mendigo era Lázaro. O homem rico foi diretamente para o inferno, e Lázaro foi diretamente para o céu. O homem rico olhou para cima e viu Lázaro sentado perto de Deus; então gritou para o céu: "Parece que houve um engano. Eu deveria estar aí e esse mendigo Lázaro deveria estar aqui".

Deus sorriu e disse: "Aqueles que são os últimos serão os primeiros, e aqueles que estão em primeiro deverão ser os últimos. Você já usufruiu o primeiro lugar por tempo suficiente, agora vamos deixar Lázaro se divertir um pouco".

E o homem rico estava se sentindo muito quente – é claro que no inferno ninguém tem ar-condicionado, o calor é abrasante. Ele estava sentindo muita sede e não havia água. Assim, gritou novamente e disse: "Deus, por favor, pelo menos mande Lázaro trazer um pouco de água, estou com muita sede".

E Deus disse: "Lázaro ficou com sede muitas vezes, moribundo na sua porta, e você nunca lhe deu nada. Ele estava morrendo de fome à sua porta e havia banquetes todos os dias, e muitos eram convidados, mas ele sempre era escorraçado por seus servos, porque os convidados estavam chegando, convidados poderosos, políticos, diplomatas, homens ricos, e um mendigo ali ia parecer estranho. Seus servos o afugentavam e ele tinha fome, e as pessoas que eram convidadas não estavam com fome. Você nunca olhou para Lázaro. Agora é impossível".

E dizem que Lázaro riu.

Essa se tornou uma história profunda para muitos e muitos místicos cristãos meditarem sobre ela. Ela se tornou assim como um koan zen, e nos mosteiros os místicos cristãos sempre perguntam porque Lázaro riu.

Ele riu do absurdo das coisas. Ele nunca soube como alguém como Lázaro, um leproso, um mendigo, um dia poderia entrar no céu. Ele não podia acreditar que isso iria acontecer um dia. E não podia acreditar na outra coisa também – que um homem rico, o mais rico da cidade, pudesse ir para o inferno. Ele riu.

E Lázaro ainda ri. Ele vai rir quando você morrer também: se você for alguém ele vai rir, porque você vai ser mandado embora. Se você não é ninguém, apenas alguém comum, ele vai rir, porque você vai ser recebido.

Neste mundo, como existem egos, todas as avaliações pertencem ao ego. No outro mundo, na outra dimensão, a avaliação pertence aos destituídos de ego. Por isso a ênfase de Buda no não-eu, anatta. Ele disse: "Não acredite nem mesmo em 'Eu sou uma alma', porque isso também pode se tornar um ego sutil. Não diga 'aham brahmasmi – Eu sou brahman, eu sou o supremo'. Não diga nem isso, porque o 'eu' é muito traiçoeiro. Ele pode enganá-lo. Ele o enganou por muitas e muitas vidas. Pode enganar você. Basta dizer: 'Eu não sou' e permanecer nesse estado de não ser; permaneça nesse nada – torne-se vazio de si mesmo".

A pessoa tem que se desvencilhar do eu. Depois que o eu é deixado para trás, nada fica faltando.Você começa a transbordar e as flores começam a se derramar sobre você.

"Subhuti era um dos discípulos de Buda..."

Lembre-se... um dos.

"Ele era capaz de entender o poder do vazio..."

Ele era apenas um entre muitos, é por isso que era capaz de compreender o poder do vazio. Ninguém falava sobre esse discípulo, ninguém sabia a respeito dele. Ele caminhava com o Buda, ele seguia Buda em muitos e muitos caminhos em suas viagens. Ninguém nem sabia que ele estava lá; se ele tivesse morrido ninguém teria se dado conta. Se ele tivesse ido embora ninguém saberia, porque ninguém se deu conta que Subhuti estava lá. Ele sabia – pouco a pouco, sendo um joão-ninguém, ele conheceu o poder do vazio.

Qual é o significado disso? ...porque quanto mais ele se tornava uma pessoa sem importância, mais ele sentia que Buda estava se aproximando dele. Ninguém mais estava consciente disso, mas Buda estava. Todo mundo se perguntava por que as flores se derramaram sobre ele, mas isso não foi uma surpresa para Buda. Quando lhe relataram que havia algo acontecendo a Subhuti, Buda disse: "Eu esperava. A qualquer momento ia acontecer, porque ele se apagou/se anulou muito, qualquer dia iria acontecer. Isso não me surpreende".

"Ele era capaz de entender o poder do vazio..."

... ficando vazio! Você não conhece o poder do vazio. Você não sabe o poder que tem ao estar totalmente ausente de si. Você só conhece a pobreza do ego.

Mas tente entender. com o ego você já se sentiu realmente poderoso? Com o ego você sempre se sente impotente. É por isso que o ego diz: "Torne o seu império um pouco maior para que você possa se sentir poderoso. Não, esta casa não vai ser suficiente, é preciso uma casa maior; não, esse tanto de fama não vai ser suficiente, um pouco mais".

O ego sempre pede mais. Por quê? Se ele é poderoso, por que continua pedindo mais? O próprio anseio por mais revela/mostra que o ego se sente impotente. Você tem um milhão de rúpias e você é impotente. O ego diz: "Não, um milhão não vai ser suficiente, tenha dez milhões de rúpias". E eu digo a você – com dez milhões de rúpias você será dez vezes mais impotente, isso é tudo. E então, o ego vai dizer: "Não, isso não vai ser suficiente...".

Nada vai ser suficiente para o ego. Tudo só prova que você é impotente, não tem poder nenhum. Quanto mais poder você adquire, mais impotente você se sente, em contraste. Quanto mais rico você se torna, mais pobre se sente. Quanto mais saúde tiver, mais medo da morte; quanto mais jovem, mais irá sentir que a velhice está chegando perto. O oposto está virando a esquina e, se você tiver um pouco de compreensão, o contrário vai alcança-lo – vai estar diante do seu nariz. Quanto mais belo você for, mais vai sentir a sua feiura interior.

O ego nunca se sente poderoso. Ele só sonha com poder, pensa em poder, contempla o poder – mas esses são simplesmente sonhos e nada mais. E sonhos existem apenas para esconder a impotência que está dentro de você. Mas os sonhos não podem esconder a realidade. Faça o que fizer, aqui ou ali, para se evadir, a realidade sempre vai vir e destruir todos os sonhos.

O ego é a coisa mais impotente do mundo. Mas ninguém percebe isso, porque ele continua pedindo mais, ele nunca dá a você espaço para olhar a situação. Antes que você tome consciência, ele empurra você cada vez mais em direção a algum lugar. O objetivo está sempre em algum lugar perto do horizonte. E é tão perto que você pensa: "à noite eu vou chegar".

A noite nunca chega; o horizonte permanece sempre à mesma distância. O horizonte é uma ilusão, todos os objetivos do ego são apenas ilusões. Mas eles dão esperança, e você continua sentindo: "um dia desses eu vou me tornar poderoso". Neste momento você continua impotente, sem poder, inferior, mas, no futuro, em suas esperanças, nos sonhos, você se torna poderoso. Você já deve ter percebido que, muitas vezes, basta se sentar na sua cadeira e você já começou a sonhar acordado: você se torna o imperador do mundo todo ou o presidente dos Estados Unidos, e imediatamente você começa a apreciar isso. Todo mundo olha para você, você se sente o centro de todas as atenções. Mesmo esse sonho lhe traz alegria, o inebria. Se sonhar desse jeito, você vai avançar num caminho diferente.

É isso o que está acontecendo com todo mundo: seu poder permanece nos sonhos, você permanece impotente. A verdade é exatamente o oposto: quando você não busca, a coisa vem; quando você não pede, lhe é dado; quando você não almeja, acontece; quando você não busca o horizonte, de repente, percebe que ele sempre foi seu – só que você nunca o viveu. Ele está lá dentro, e você procura fora. Está dentro de você, e você vive sem. Você o carrega: o poder mais supremo, o próprio divino, está em você. E você fica procurando daqui e dali, como um mendigo.

"Ele era capaz de entender o poder do vazio..."

Basta ficar vazio e você vai entender – não há outra forma de entendimento. Seja o que for que você queira entender, faça isso, porque essa é a única maneira. Tente ser um homem comum, um joão-ninguém, sem nome, sem identidade, sem nada a reclamar, sem poder para impor sobre os outros, sem nenhum esforço para dominar, sem nenhum desejo de possuir, sendo apenas uma "não entidade". Experimente – e veja como você se torna poderoso, cheio de energia transbordante, tão poderoso que você pode compartilhar seu poder, tão feliz que você pode dá-lo para muitos, para milhões. E quanto mais você dá, mais rico você fica. Quanto mais você compartilha, mais ele cresce. Você se torna uma inundação.

"Ele era capaz de compreender o poder do vazio..."  – apenas sendo um joão-ninguém.

"O ponto de vista de que nada existe, exceto na sua relação de subjetividade e objetividade"

Esta é uma das meditações mais profundas que Buda descobriu. Ele diz que tudo existe numa relação, é uma relatividade; não é uma coisa substancial, absoluta.

Por exemplo: você é pobre, eu sou rico. É uma coisa substancial ou somente algo relativo? Eu posso ser pobre em relação a outra pessoa, e você pode ser rico em relação a outra pessoa. Até mesmo um mendigo pode ser rico em relação a outro mendigo, há mendigos ricos e mendigos pobres. Um homem rico, em comparação com um homem ainda mais rico, é um homem pobre. Você é pobre – a sua miséria é existencial ou apenas um relacionamento? É um fenômeno relativo. Se não há ninguém com que se relacionar, quem você vai ser? Um homem pobre ou um homem rico?

Pense... de repente toda a humanidade desaparece e você é deixado sozinho sobre a Terra: o que você vai ser? Pobre ou rico? Você vai ser simplesmente você – nem rico, nem pobre –, porque com quem se comparar? Não há um Bill Gates com quem se comparar, não há um mendigo com quem se comparar. Você será bonito ou feio se estiver sozinho? Você não será nenhum dos dois, vai ser simplesmente você. Com nada com que se comparar, como você pode ser feio ou bonito? É assim com a beleza e a feiura, a riqueza e a pobreza, e com todas as coisas. Você será sábio ou um tolo? Louco ou sábio? Nenhum dos dois!

Então Buda disse que todas essas coisas existem numa relação. Elas não são existenciais porque são relativas. E vivemos muito preocupados com essas coisas que não existem. Você vive muito preocupado em saber se é feio. Você vive muito preocupado em saber se é bonito. A preocupação é criada por algo que não existe.

A coisa relativa não existe. É apenas uma relação, como se tivesse feito um desenho no céu, ou uma flor de vento. Até mesmo uma bolha na água é mais substancial do que as relatividades. Quem é você quando está sozinho? Ninguém. A condição de ser alguém vem da relação com outra pessoa/objeto.

Isso significa que ser simplesmente ninguém é estar na natureza, ser simplesmente ninguém é estar na existência.

E você está sozinho, lembre-se. A sociedade só existe fora de você. Lá no fundo você está sozinho. Feche os olhos e veja se você é bonito ou feio; ambos os conceitos vão desaparecer, porque por dentro não há beleza, não há feiura. Feche os olhos e contemple quem você é. Alguém respeitado ou não respeitado? Moral ou imoral? Jovem ou velho? Negro ou branco? Um senhor ou um escravo? Um mestre ou um discípulo? Quem é você? Feche os olhos e na sua solidão todo conceito vai abaixo. Você não pode ser coisa nenhuma. Então surge o vazio. Todos os conceitos são anulados, apenas a sua existência permanece.

Essa é uma das meditações mais profundas que Buda descobriu: Ser ninguém. E isso não tem que ser forçado. Você não deve pensar que não é ninguém, você tem que perceber, caso contrário a sua condição de ser ninguém ficará muito pesada. Você não tem que pensar que você não é ninguém, você tem que simplesmente perceber que todas as coisas que você pensa que é são relativas. E a verdade é absoluta, não é relativa. A verdade não é relativa: ela não depende de nada, ela simplesmente é.

Assim, encontre a verdade dentro de você e não se preocupe com relacionamentos. Eles diferem, interpretações diferem. E, se as interpretações mudam, você muda. Algo está na moda – se você usa, você é moderno, admirado. Então uma coisa sai de moda – se você usa, você está ultrapassado, não é respeitado. Cinquenta anos antes, aquilo estava na moda e você teria sido moderno. Cinquenta anos depois, pode voltar a ficar na moda e, então, mais uma vez, você vai ser moderno. Agora você está ultrapassado. Mas quem é você – modas passageiras, conceitos passageiros, relatividades?

Um dos meus amigos era comunista, mas um homem muito rico – e ele nunca percebeu a contradição. Ele era um burguês, bem alimentado, nunca trabalhou com as próprias mãos. ele tinha muitos servos, pertencia a uma antiga família real. E então ele foi para a Rússia em 1940. Quando voltou para a Índia, ele me disse: "Onde quer que eu fosse, começava a me sentir culpado, porque sempre que apertava a mão de alguém, eu podia sentir imediatamente que o outro sentia que as minhas mãos não tinham os calos de trabalhador. Elas não eram mão de um proletário, eram mãos de um burguês: macias, delicadas. E imediatamente o rosto da outra pessoa mudava, e ela soltava minha mão como se eu fosse um intocável". Ele me disse: "Na Índia, sempre que eu aperto as mãos de alguém, minhas mãos são admiradas. Elas são bonitas, delicadas, artísticas. Na Rússia, eu me senti tão culpado por minhas mãos que até comecei a pensar numa maneira de acabar com a suavidade delas, para que ninguém olhasse para mim como se eu abusasse das pessoas – um burguês, um homem rico"... Porque lá, o trabalho tornou-se um valor. Se você for um proletário na Rússia soviética, você é alguém; mas se for um homem rico, você é um pecador. Tudo é apenas um conceito relativo.

Na Índia temos bhikus, swamis, sannyasins respeitados. E o mesmo também ocorria na China – antes de Mao. O homem que renunciava ao mundo era o mais respeitado e a sociedade o valorizava. Ele era o apogeu da humanidade. E então o comunismo se instaurou na China e milhares de mosteiros foram completamente destruídos, e todos os monges, homens respeitados do passado, tornaram-se pecadores. Eles tinham que trabalhar. Só podia comer quem trabalhasse, e mendicância era exploração. Ela foi proibida por lei; agora ninguém mais pode esmolar.

Se Buda tivesse nascido na China atual, teria sido muito difícil para ele. Ninguém permitiria que ele pedisse esmolas, ele seria considerado um explorador. Mesmo se Marx tivesse nascido na China ou na Rússia, ele teria enfrentado dificuldades, porque em toda a sua vida ele nunca fez outra coisa senão ler na biblioteca do Museu Britânico. Ele não era um proletário, não era um trabalhador – e seu amigo e colaborador, Friedrich Engels, era um homem muito rico. Eles são reverenciados como deuses pelos adeptos do comunismo. Mas se Frierich Engels fosse visitar a Rússia soviética, estaria em dificuldades. Ele nunca trabalhou, viveu do trabalho dos outros, e ajudou Marx; sem a ajuda dele, Marx não poderia ter escrito O Capital ou o Manifesto Comunista. Mas, na Rússia soviética, ele estaria encrencado, a moda é outra. Os conceitos mudaram. Lembre-se disto: o que muda é relativo, e o que permanece imutável é absoluto – e seu ser é absoluto, não é parte da relatividade.

"... o ponto de vista de que nada existe, exceto na sua relação de subjetividade e objetividade"

Se você entender bem esse ponto de vista, contemplá-lo, meditar sobre ele, de repente ficará iluminado por dentro e verá que tudo é vazio.

"Um dia, quando Subhuti estava sentado debaixo de uma árvore, num espírito de sublime vazio..."

Lembre-se das palavras "sublime vazio", porque às vezes você também se sente vazio, mas esse vazio não é sublime. Às vezes você também se sente vazio, mas não é um vazio extasiante – uma depressão, um vazio negativo, não um vazio positivo. Essa distinção tem que ser lembrada.

Um vazio negativo significa que você está se sentindo um fracasso, não significa que você está compreendendo. Você tentou conquistar algo no mundo e não conseguiu. Você se sente vazio, porque a coisa que desejava você não conseguiu; a mulher que você queria você não conseguiu ter – você se sente vazio. O homem de quem você estava atrás escapou, você se sente vazia. O sucesso dos seus sonhos não aconteceu, você se sente vazio. Esse vazio é negativo. É uma tristeza, uma depressão, um estado de espírito de frustração. Se você está se sentindo vazio dessa forma, lembre-se, as flores não vão se derramar sobre você. Seu vazio não é real, não é positivo. Você ainda está buscando coisas, é por isso que está se sentindo vazio. Você ainda está buscando o ego, você queria ser alguém e não conseguiu. É um fracasso, não um entendimento.

Então, lembre-se, se você renunciar ao mundo por meio de um fracasso, isso não é renúncia, não é sannyas, não é verdade. Se você renunciar ao mundo por meio de um entendimento, isso é totalmente diferente. Você não renuncia a ele como se fosse um esforço triste, com frustração por dentro, se sentindo um completo fracasso. Você não faz isso como um suicídio, lembre-se. Se o seu sannyas for um suicídio, então as flores não vão se derramar sobre você. Então você está desistindo, porque...

Você já deve ter ouvido a fábula de Esopo. Uma raposa estava passando e viu uvas, mas a videira ficava no alto de uma árvore. Ela tentou e tentou e pulou, mas estavam fora do seu alcance. Então ela foi embora, dizendo: "Essas uvas não valem a pena, ainda não estão doces e maduras. Estão azedas". Ela não conseguiu alcançá-las.

É muito difícil para o ego perceber: "Eu sou um fracasso". Em vez de reconhecer que "eu falhei, elas estavam fora do meu alcance", o ego vai dizer: "Elas não valiam a pena...".

Muitos sannyasins são como essa raposa de Esopo. Eles renunciaram ao mundo não porque entenderam a futilidade dele, mas porque eram fracassados e o mundo estava além do seu alcance – e eles ainda estão cheios de rancor e de reclamações. Você vai até esses assim chamado "santos", e eles ainda são contra o mundo, dizendo: "O dinheiro é sujo! E o que é uma mulher bonita? Nada além de ossos e sangue!". A quem eles estão tentando convencer? Estão tentando se convencer de que as uvas estão azedas e amargas.

Por que falar sobre as mulheres, se você deixou este mundo? Por que falar sobre dinheiro se você não se preocupa com ele? Mas no fundo ainda existe uma preocupação. Você ainda não consegue aceitar o fracasso, o entendimento ainda não aconteceu.

Sempre que você é contra alguma coisa, lembre-se, é porque o entendimento não aconteceu – porque no entendimento, a favor ou contra, ambos desaparecem. No entendimento, você não é hostil ao mundo. No entendimento, você não condena o mundo e as pessoas que vivem nele. Se você continua condenando, a sua condenação mostra que, em algum lugar, há uma ferida, e você ainda está com inveja – porque sem inveja não pode haver condenação. Você condena as pessoas porque, de alguma forma, em algum lugar, inconscientemente você sente que elas estão se divertindo e você não.

Você continua dizendo que este mundo é apenas um sonho, mas, se ele é realmente um sonho, então por que insistir que é um sonho? Ninguém insiste quando se trata de sonhos. Pela manhã você acorda e sabe que foi um sonho – ponto final. Você não vai ficar dizendo às pessoas que era tudo um sonho.

Lembre-se de um truque da mente: tentar convencer as pessoas sobre algo apenas para convencer a si mesmo, porque quando o outro se sente convencido você se sente bem. Se você sair por aí dizendo às pessoas que sexo é pecado e elas se convencerem disso, ou se elas não puderem refutar o que você está dizendo, você fica feliz. Você convenceu a si mesmo. olhando nos olhos dos outros, você está tentando encobrir o próprio fracasso.

O vazio negativo é inútil. Ele é simplesmente a ausência de alguma coisa. O vazio positivo é a presença de alguma coisa, não a falta; é por isso que o vazio positivo torna-se um poder. O vazio negativo torna-se um estado de espírito triste, deprimido – você simplesmente desaba, só isso. Sentindo-se um fracasso, sentindo-se deprimido, deparando-se em todos os lugares com uma muralha que você não consegue cruzar, e sentindo-se impotente, você denuncia, você condena.

Mas isso não é um crescimento, isso é uma regressão. E lá no fundo você não pode florescer, porque só a compreensão floresce, nunca a depressão. E, se você não puder florescer, a existência não vai derramar flores sobre você. A existência simplesmente responde ao que você é: seja o que você for, a existência lhe dará mais disso. Se muitas flores desabrocham no seu ser, um milhão de vezes mais vão se derramar sobre você. Se você tiver uma depressão profunda, a existência também o ajuda nisso – um milhão de vezes mais depressão você terá. Tudo o que você é vai bater à sua porta. Tudo o que você é vai ser dado a você numa quantidade cada vez maior.

Portanto, tenha cuidado e fique alerta. E, lembre-se, o vazio sublime é um fenômeno positivo. A pessoa não é um fracasso, simplesmente olha para a coisa e entende que os sonhos não podem ser realizados. Então, nunca se sente triste, ela se sente feliz, pois "Eu cheguei a esse entendimento de que os sonhos não podem ser realizados". Nunca se sente deprimida, sem esperança, sente-se simplesmente feliz e exultante, porque "Eu cheguei a um entendimento. Agora eu não vou tentar o impossível, agora não vou tentar algo inútil". E ela nunca diz que o objeto do desejo é errado; quando você está no vazio sublime, positivo, você diz que o desejo é errado, não o objeto do desejo – essa é a diferença. No vazio negativo, você diz que o objeto do desejo é errado, então altera o objeto. Se é a riqueza, o dinheiro, o poder, deixe isso de lado. Faça de deus, da libertação, do céu, o objeto – mude o objeto.

Se o vazio é perfeito e sublime e positivo, você não vê o objeto como algo errado. Você simplesmente vê que o desejo é fútil; os objetos são ok, mas o desejo é fútil. Então você não muda o seu desejo de um objeto para outro, você simplesmente abandona o próprio desejo.

Não desejando, você floresce. Desejando, você se torna cada vez mais paralisado e morto.

"Um dia, quando Subhuti estava sentado debaixo de uma árvore num espírito de sublime vazio..."

... Vazio mas feliz; vazio, mas preenchido; vazio, mas sem faltas; vazio, mas transbordante; vazio, mas à vontade, em casa.

"... flores começaram a cair em torno dele..."

Ele ficou surpreso, porque era um joão-ninguém. Ele nunca esperava. Se você esperar, as flores nunca vão se derramar; se você não esperar, elas se derramam – mas então você é surpreendido. Por quê? Subhuti deve ter pensado que tinha ocorrido algum erro. Derramaram-se sobre Subhuti, um ninguém, um zero à esquerda, e justo quando ele estava vazio? Nem pensando em Deus, nem sequer pensando em libertação, nem mesmo meditando – porque quando você está meditando, você não está vazio; ao invés disso, você está se empenhando em fazer algo e, portanto, está preenchido com o seu esforço. Subhuti deve ter ficado alerta e pensado que algo estava errado: "Os deuses enlouqueceram! Por que essas flores? E não é a estação delas". Ele deve ter olhado para a árvore e depois olhado para si mesmo novamente: "Em mim, as flores estão se derramando?". Ele não podia acreditar.

Lembre-se, sempre que o supremo acontecer a você, você vai se surpreender, porque nunca esperava. Você não estava esperando, não estava na expectativa. E aqueles que estão esperando, nutrindo esperanças e rezando e desejando – isso nunca acontece a eles, porque estão tensos demais. Eles nunca estão vazios, nunca relaxam.

O universo vem até você quando você está relaxado, porque nesse estado você está vulnerável, aberto – todas as portas se abrem. De qualquer lugar, Deus é bem-vindo. Mas você não está orando, não está pedindo a Deus para vir; você não está fazendo nada. Quando você não está fazendo nada, está apenas num espírito de sublime vazio, você se torna o templo e Ele vem.

"Num estado de sublime vazio, flores começaram a cair em torno dele..."

Ele olhou ao redor – o que está acontecendo?

"Estamos louvando você pelo seu discurso sobre o vazio", os deuses lhe sussurraram...

Ele não podia acreditar. Ele nunca esperava. Não podia acreditar que fosse digno, ou que fosse capaz, ou que tivesse se desenvolvido.

"Estamos louvando você pelo seu discurso sobre o vazio", os deuses lhe sussurraram...

Eles têm que sussurrar. Devem ter visto os olhos espantados desse Subhuti, tão surpreso! Eles disseram: "Nós estamos louvando você. Não fique tão surpreso nem tão assombrado. Fique tranquilo! Estamos apenas louvando você pelo seu discurso sobre o vazio".

"Mas eu não falei do vazio", disse Subhuti. 
"Você não falou do vazio, nós não ouvimos o vazio", responderam os deuses. 
Esse é o verdadeiro vazio.
E flores se derramaram sobre Subhuti como chuva.

Tente compreender. Eles disseram: "Nós estamos louvando você pelo seu discurso sobre o vazio", e ele não estava falando com ninguém, não havia ninguém. Ele não estava falando consigo mesmo, porque ele estava vazio, não dividido. Ele não estava falando absolutamente, ele estava simplesmente ali. Nada estava sendo feito por ele – nenhuma nuvem de pensamento estava passando pela mente dele, nenhum sentimento brotando em seu coração; ele estava simplesmente como se não existisse. Estava simplesmente vazio.

E os deuses disseram: "Estamos louvando o seu discurso sobre o vazio".
Então ele ficou mais surpreso ainda e disse: "O quê? Eu não falei do vazio, eu não disse nada!".
Eles disseram: "Você não falou e nós não ouvimos. Esse é o verdadeiro vazio".

Você não pode discursar sobre o vazio, você só pode ficar vazio – esse é o único discurso. Todo o resto pode ser falado, tudo pode se tornar um sermão, objeto de um sermão, todo o resto pode ser discutido, argumentado – mas não o vazio, porque o próprio esforço para dizer alguma coisa sobre ele o destrói. No momento em que você diz, ele não está mais lá. Basta uma única palavra e o vazio se perdeu. Mesmo uma única palavra pode preencher você, e o vazio desaparece. Não, nada pode ser dito sobre ele. Ninguém nunca disse nada sobre ele. Você só pode ficar vazio e esse é o discurso. Ser é o discurso.

O vazio nunca pode se tornar um objeto do pensamento, o não pensamento é a sua natureza. Então, os deuses disseram: "Você não disse nada e nós não ouvimos. Essa é a beleza disso! É por isso que estamos louvando você. Raramente acontece de alguém ficar simplesmente vazio. Esse é o verdadeiro vazio". E Subhuti não estava nem mesmo consciente de que estava vazio, porque se você está consciente algo estranho o invade: você fica dividido, você sofre uma cisão. Quando a pessoa está realmente vazia, não há nada mais do que vazio, nem mesmo a consciência do vazio. Nem mesmo a testemunha está lá. A pessoa está perfeitamente alerta, não está adormecida –, mas a testemunha não está lá. O vazio vai além do testemunho, porque, sempre que você testemunha algo, existe uma ligeira tensão interior, um esforço sutil, e nesse caso o vazio é uma coisa e você é outra coisa. Você o testemunha, você não está vazio; então o vazio é apenas um pensamento na mente.

As pessoas vêm a mim e dizem: "Eu experimentei um momento de vazio". E eu digo a elas: "Se você o experimentou então esqueça, porque quem experimenta o vazio? A pessoa que o experimenta já é uma barreira. Quem vai experimentá-lo?". O vazio não pode ser experimentado. Não é uma experiência, porque o experimentador não está presente: o experimentador e a experiência se tornaram uma coisa só. O vazio é um experimentar.

Permita-me cunhar esta palavra: o vazio é um experimentar, é um processo, indivisível. Ambos os polos desapareceram, ambas as margens desapareceram, e só existe o rio. Você não pode dizer "Eu experimentei", porque você não estava lá – como pode experimentar? E depois que você entra em cena, não pode torná-lo uma experiência do passado, você não pode dizer: "Eu experimentei". Senão torna-se uma lembrança do passado.

Não, o vazio nunca pode se tornar uma lembrança, porque o vazio não pode nunca deixar um rastro. Ele não pode deixar pegadas. Como o vazio pode se tornar uma lembrança do passado? Como você pode dizer "Eu experimentei"? É sempre no agora, é experimentando. Não é nem passado nem futuro, é sempre um processo contínuo. Quando você entra em cena você interfere. Você não pode sequer dizer: "Eu experimentei" – é por isso que Subhuti nem estava consciente do que estava acontecendo. Ele não estava lá. qualquer distinção entre ele e o universo não estava lá. Não há distinção, todos os limites tinham se dissolvido. O universo começou a se desvanecer nele, e ele se desvaneceu no universo, imergindo, fundindo-se, unindo-se. E os deuses disseram: "Esse é o verdadeiro vazio".

"E as flores se derramaram sobre Subhuti como chuva."

Essa última linha tem que ser entendida com muito, muito cuidado, porque, quando alguém diz que você está vazio, o ego pode imediatamente voltar – porque você se tornará consciente, e vai sentir que algo foi alcançado. De repente, os deuses vão torná-lo consciente de que você está vazio.

Mas Subhuti é raro, extraordinariamente raro. Mesmo que os deuses gritassem em torno dele, sussurrassem em seus ouvidos, e as flores se derramassem sobre ele como chuva, ele não se incomodou. Ele simplesmente ficou em silêncio. Eles disseram: "Você falou, você deu um discurso!". Ele escutou sem se voltar. Eles disseram: "Você não falou, nós não ouvimos. Esse é o verdadeiro vazio". Não havia nenhum ego dizendo: "A verdadeira felicidade me aconteceu. Agora eu me tornei iluminado" – caso contrário, ele teria perdido a chance no último instante. Imediatamente as flores teriam parado de se derramar sobre ele, se ele tivesse se voltado. Não, ele deve ter fechado os olhos e deve ter pensado: "Esses deuses estão loucos e estas flores são sonhos – não se incomode com isso".

O vazio era tão belo que agora nada poderia ser mais bonito do que isso. Ele simplesmente permaneceu no seu vazio sublime – é por isso que as flores se derramaram sobre Subhuti como chuva. Agora, elas não estavam caindo um pouco aqui e um pouco lá, agora elas estavam se derramando como chuva.

Essa é a única história sobre Subhuti, nada mais foi dito sobre ele. Em nenhum outro lugar ele é mencionado. Mas eu digo a você que as flores ainda estão se derramando. Subhuti não está mais sob nenhuma árvore – porque, quando uma pessoa se torna de fato totalmente vazia, ela se desvanece no universo. Mas o universo ainda celebra. As flores continuam se derramando.

Mas você só vai ser capaz de conhecê-las quando elas se derramarem sobre você. Quando Deus bate à sua porta, só então você sabe que é Deus, nunca antes. Todos os argumentos são fúteis, todos os discursos são em vão, a menos que Deus bata à sua porta. A menos que isso aconteça a você, nada pode se tornar uma convicção.

Eu falo sobre Subhuti porque isso aconteceu comigo, e não é uma metáfora  é literal. Eu já tinha lido sobre Subhuti antes, mas pensava que era uma metáfora bonita, poética. Eu nunca tive sequer uma ligeira noção de que isso realmente acontece. Eu nunca pensei que esse era um fenômeno real, uma coisa real que acontece. Mas agora eu digo que isso acontece. Aconteceu comigo, pode acontecer com você... mas um sublime vazio é necessário.

E nunca se confunda. Nunca pense que o seu vazio negativo poderá algum dia se converter em sublime. Seu vazio negativo é como a escuridão; o sublime vazio é como a luz, é como um Sol nascente. O vazio negativo é como a morte. O sublime vazio é como a vida, a vida eterna. É feliz.

Deixe que esse estado de espírito penetre em você cada vez mais fundo. Vá e sente-se sob as árvores. Basta se sentar e não fazer nada. Tudo para – quando você para, tudo para. O tempo não vai passar, como se de repente o mundo chegasse a um apogeu e não houvesse mais movimento. Mas não pense: "Agora estou vazio", caso contrário você vai se perder. E mesmo que os deuses comecem a derramar flores sobre você, não preste muita atenção.

E agora que você conhece a história, nem sequer pergunte por quê. Subhuti tinha que perguntar, mas você não precisa. Mesmo que eles sussurrem: "Ouvimos o verdadeiro vazio e o discuso sobre ele", não se preocupe, permaneça vazio, e as flores vão se derramar como chuva sobre você também.

Basta por hoje.