"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sexta-feira, abril 16, 2010

O dedo de Gutei (Osho)


O Mestre Zen Gutei
Tinha o costume de erguer um dedo
Ao esclarecer uma questão sobre o Zen.
Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo:
Quando alguém lhe perguntava
A respeito do que seu Mestre havia pregado,
Ele erguia um dedo.

Gutei ficou sabendo disso.
Um dia, ao encontrar o menino imitando-o,
Pegou o dedo do discípulo, puxou uma faca,
Cortou o dedo e jogou-o fora.

Enquanto o menino corria, berrando,
Gutei gritou: “Pare!”.
O menino parou- virou-se
e olhou para o seu mestre através das lágrimas.

Gutei estava com um dedo levantado.
Quando o rapaz foi levantar o seu,
Percebeu que o seu dedo não estava lá
E inclinou-se.

Nesse instante, tornou-se iluminado.






Essa é uma estranha história. É possível que você não a compreenda. Na vida, a coisa mais difícil de compreender é o comportamento de um iluminado.

As pessoas têm seus próprios valores e olham tudo com base neles. Um iluminado está numa dimensão totalmente diferente: vive sem valores, sem critérios, sem moralidade; vive simplesmente sem o ego. E todos os valores pertencem ao ego. Um iluminado simplesmente vive. Ele não manipula sua vida; é como uma nuvem branca flutuando. Não tem para onde ir, nada para alcançar. Para ele, nada é bom ou mau. Não conhece nenhum Deus, nenhum demônio. Conhece apenas a beleza que a vida é na sua totalidade.

Até mesmo um deus é feio porque é apenas uma parte, não um todo. Um demônio também é feio porque também é uma parte, e não o todo. Deus não está vivo; o demônio também está morto porque a vida existe como um ritmo entre os dois – o bom e o mau, Deus e o demônio. A vida existe entre esses dois pólos. Não pode existir em apenas uma polaridade. Eles são duas margens no meio das quais a vida flui. Um iluminado sabe disso. Nunca está a favor nem contra algo. Responde a cada momento sem qualquer julgamento. Eis por que é difícil compreendê-lo.

Um iluminado sempre tem alguma semelhança com um louco. Portanto, a primeira coisa a ser compreendida é: não avalie um iluminado com base nos seus próprios valores. Isso é muito difícil – mas o que mais você pode fazer?

Ouvi dizer que, certa vez, um grande pintor pediu a um médico amigo seu que viesse ver uma de suas telas, uma que acabara de pintar. O pintor achava que essa era sua obra-prima, o pico de toda sua arte. Por isso, naturalmente quis que seu amigo fosse vê-la. O médico observou a tela minuciosamente, olhou-a de um lado a outro. Passaram-se dez minutos. O artista ficou um pouco apreensivo e perguntou: “O que há? O que você acha do quadro?” O médico respondeu: “Parece que está com pneumonia dupla.”

Isso está acontecendo com todo mundo. Um médico tem suas próprias atitudes, seu modo de olhar as coisas. Ele olhou para a pintura à sua maneira sempre fixa; não poderia ter sido de outro modo. O médico diagnosticou o quadro... um quadro não necessita de qualquer diagnóstico. Ele não compreendeu, e uma bela pintura virou pneumonia.

É assim que a mente funciona. Quando você olha para algo, sua mente entra no meio modificando. Não faça isso com um iluminado. Não fará qualquer diferença para ele, mas a sua oportunidade de ver a beleza do fenômeno estará perdida.

Segunda coisa: um iluminado age do centro, nunca da periferia. Você sempre age a partir da periferia, você vive nela, na circunferência. Para você, ela é o que existe de mais importante. Você mata a sua alma para salvar o seu corpo. O iluminado pode sacrificar o seu corpo, mas não permite que a sua alma se perca. Está pronto para morrer a qualquer momento; isso não é mais um problema. Mas ele não está disposto a perder o seu centro, o âmago do seu ser.

Para o iluminado, o corpo é apenas um meio. Se for necessário, ele lhe dirá: – Deixe o corpo, mas não abandone o seu interior. É assim que toda tapascharya, toda a sua austeridade nasce. A circunferência tem de ser sacrificada em favor do centro. Se for necessário cortar a cabeça – se isso auxiliar, se com a sua cabeça o ego cair, o Iluminado lhe dirá: “Abandone a cabeça. Não a carregue. Ela mantém o ego. Por nada, você está perdendo tudo!”

Isto deve ser lembrado: quando se vive no centro, a perspectiva é totalmente diferente. Então, ninguém morre, ninguém pode morrer – a morte é impossível. Quando se vive na periferia, todos morrem. A morte é o ponto final para todos. Não há vida eterna.

Quando Krishna fala à Arjuna, no Gita, é realmente o centro falando para a periferia. Arjuna vive na periferia, pensa a partir do corpo, não sabe coisa alguma sobre a alma. Krishna fala do centro: “Não se preocupe com esses corpos. Eles já morreram muitas vezes e ainda morrerão. A morte é apenas uma transformação: como alguém que deixa suas roupas, sua velha casa, e entra numa casa nova. Esses corpos não são nada. Não se preocupe com eles, Arjuna. Olhe para o interior!” Mas como pode Arjuna olhar para o interior dos outros se ainda não conseguiu olhar para o seu?

Lembre-se: este Mestre Zen Gutei é Krishna. Vive do centro e age de acordo com ele. E esse incidente ocorreu com um discípulo que estava na periferia. Gutei poderia não ter cortado o dedo dele. Mas o discípulo valia isso, ele merecia. Só quando o discípulo merece é que o Mestre vai a tal extensão. Para Gutei ter chegado a tal extensão, o discípulo deve ter aprendido, deve ter merecido; de outro modo, Gutei não teria feito isso. Mesmo Arjuna não valia tanto quanto esse discípulo de Gutei porque Krishna apenas falou com ele, enquanto Gutei fez algo.

Observe a diferença. Um Mestre só chega a agir quando você merece. Do contrário, ele apenas fala. A ação só ocorre quando você está pronto, quando o momento está tão próximo que não pode ser perdido; quando nada pode ser dito; pode apenas ser feito. Quando uma pessoa fala, um tempo é necessário: o outro tem de compreender o que foi dito. Algumas vezes, algo tem de ser feito imediatamente, instantaneamente. Mas o mestre só o faz quando você está na beira. Então, falar não ajudará; é preciso empurrá-lo; você está bem na porta. Se um simples momento passar, a oportunidade estará perdida. E muitas vidas talvez sejam necessárias para você chegar novamente à porta.

A vida é muito complexa. Raramente se está perto da porta. Se o Mestre diz: “Olhe, a porta está aqui!” e começa a lhe explicar, até você compreender a porta não estará mais lá. A vida está em constante movimento. O Mestre precisa fazer algo. Se ele achar que matá-lo irá auxiliar, ele o matará. Eis por que a rendição é necessária.

A rendição não é fácil porque render-se significa dizer ao Mestre: “De agora em diante, minha vida e minha morte são suas. Estou pronto. Se você disser ‘morra’, eu morrerei sem perguntar por quê”.

Se houver pergunta, a rendição não existirá, nem a confiança. Nos velhos tempos, muitas pessoas conseguiram iluminar-se porque puderam render-se. A confiança estava na própria atmosfera, a fé circundava tudo, a confiança florescia em toda parte. Não era possível passar um dia sem cruzar com um homem cheio de confiança. E um homem com confiança é uma pessoa tão maravilhosa que, ao vê-lo, você sente ciúme.

Hoje em dia, isso tornou-se quase impossível. É difícil conseguir cruzar com um homem desses. Essa beleza desapareceu. Só se cruza com céticos, com pessoas cheias de dúvida que sempre dizem não. Elas são feias, mas estão por toda parte. Então, pouco a pouco, você também se enche de dúvidas. Desde o primeiro dia, desde a primeira vez em que sua mãe o amamentou, você tem se alimentado de dúvidas. Todas as descobertas da ciência dependem da dúvida. É preciso ser cético, duvidar; só assim a ciência pode trabalhar.

A religião trabalha num rumo totalmente oposto. É preciso ser confiante, é preciso dizer um profundo sim; só assim a rendição é possível. O discípulo de Gutei havia se rendido. Eis por que o incidente tornou-se a sua Iluminação.

Agora entraremos nessa estranha história. Nela, cada palavra é significativa.

“O Mestre Zen Gutei tinha o costume de erguer um dedo ao esclarecer uma questão sobre o Zen.”

Os Mestres nunca fazem algo desnecessariamente, nem mesmo levantar um dedo. O desnecessário desapareceu. Com o Mestre, existe apenas o essencial. Ele não fará um simples movimento, um simples gesto, se isso não for essencial. O não-essencial existe com a ignorância. Com ela, o que quer que se faça é trivial, não-essencial. Se for paralisada, nada estará perdido.

Olhe para a sua vida. Se você interromper o que quer que esteja fazendo, o que será perdido? Nada se ganha com o seu fazer. De manhã à noite você se ocupa com coisas triviais. Então, no fim do dia, fica cansado e vai dormir. Na manhã seguinte está pronto para reiniciar outra vez as mesmas coisas não-essenciais. É um circulo vicioso: um não-essencial encontra um outro não-essencial e os dois se ligam. Mas você tem tanto medo de olhar a trivialidade da vida que se mantém sempre de costas para ela. Se a olhar, você sentirá muita depressão, pensará: “O que estou fazendo?”

Se você vir que tudo o que está fazendo é absolutamente inútil, seu ego estará perdido. O ego pode sentir-se significante somente quando você está fazendo algo significante. Por isso você cria significados para as coisas triviais. Sente que está desempenhando grandes feitos para a nação, para a família, para a humanidade; como se, sem você, a existência fosse acabar. Nada do que você está fazendo é importante. Mas você tem de dar significado a tudo, porque por meio da significação seu ego é alimentado e fortalecido.

Na ignorância, tudo é não-essencial. O que quer que seja feito – mesmo sua meditação, sua prece, sua ida ao templo –, tudo é trivial. Até mesmo sua prece não é mais profunda do que a leitura de um jornal. Porque a questão não é a prece, é você. Se você tem profundidade, então cada movimento, cada ação é um ato de profundidade. Mas quando ela não existe, mesmo ir a um templo não faz nenhuma diferença: você entra no templo como se estivesse entrando num hotel. Você é o mesmo: assim, se é um templo ou um hotel, isso não faz diferença. Dê a uma criança um brinquedo caríssimo feito de diamantes. Ela fará com ele o mesmo que faria com um brinquedo comum, porque é uma criança. Brincará com ele por alguns momentos; depois o jogará num canto e irá embora.

Sua profundidade traz profundidade às suas ações. Quando um Iluminado levanta um dedo, até mesmo isso é importante, profundo, repleto de significado. Por que Gutei costumava levantar um dedo “quando costumava explicar alguma questão sobre o Zen”? Não sempre – apenas quando explicava uma questão sobre o Zen? Por que? É porque estava explicando e demonstrando ao mesmo tempo. Pois o que quer que se pergunte sobre religião, um dedo erguido é a resposta.

Todos os seus problemas existem por não ser um. Porque está fragmentado, em desunião, em caos – não em harmonia. O que é Zen, o que é Yoga, o que é Meditação? Nada mais do que chegar à unidade. A própria palavra “Yoga” significa unidade, único, total.

Quando Gutei estava explicando sobre o Zen, a explicação era secundária; o dedo levantado era o mais importante. Gutei explicava e demonstrava simultaneamente. É assim que um Iluminado vive: fala e demonstra. Seu próprio ser, seus gestos, seus movimentos demonstram o que é religião.

Se você não pode ver, se está cego ou se perdeu nessa dimensão de entendimento, de visão, ouve apenas as palavras. Mas se você sabe como olhar, as palavras são desnecessárias. As palavras são inúteis, podem ser dispensadas, tornam-se secundárias. Mas o dedo levantado não pode ser suprimido; ele é primário, é a única resposta. Todos aqueles que conheceram em qualquer parte do mundo, todos levantaram um dedo. Estavam falando de UM e você está vivendo na diversidade.

Quando se vive na diversidade, os problemas são criados, porque mover-se em muitas direções simultaneamente torna-o dividido, impede sua união. Um desejo o conduz para o norte, outro para o sul. Uma parte da mente ama, outra odeia. Uma parte da mente quer acumular riquezas e a outra diz: “Isto é inútil, renuncie!” Uma das mentes quer meditar, tornar-se profunda, silenciosa, e a outra diz: “Por que você está perdendo seu tempo?”

Ouvi dizer que uma vez aconteceu o seguinte: Um homem renunciou ao mundo quando ainda era muito jovem e foi para os Himalaias. Meditou lá por quase vinte anos. Aos 40, continuava sentado, meditando, sem fazer coisa alguma. Os pássaros e os animais selvagens, pouco a pouco, perderam o medo dele. Ele ficava lá, simplesmente sentado, o próprio amante da paz. Os animais sentavam-se ao seu redor e quando iam caçar, deixavam seus filhos para que ele tomasse conta. Seu cabelo tornou-se muito grande e os pássaros vinham fazer ninhos e pôr seus ovos nele. E o homem tinha que cuidar deles.

Depois de vinte anos ele se fartou de tudo isso. Disse: “Se estou tomando conta dos filhos dos outros, por que não me caso e tomo conta dos meus próprios filhos? Isso que estou fazendo é um absurdo, não estou chegando a nada. Esses vinte anos que passaram estão perdidos. Agora, não tenho mais tempo a perder. Já tenho 40 anos e logo a vida começará a declinar.”

Qual era o problema? Ele estava realmente meditando. Qual era o problema? Vinte anos é um longo tempo – mas sua mente continuava fragmentada. Uma parte meditava e a outra dizia: “É inútil. Por que você está perdendo tempo? Os outros estão se divertindo. Volte para os vales. As pessoas de lá estão felizes, dançando, bebendo, comendo, amando. O mundo está em êxtase e você aqui sentado como um tolo.” Ouvindo continuamente esse outro fragmento durante vinte anos, o primeiro fragmento tornou-se fraco.

Na superfície, ele repetia mantras: Ram, Ram, Ram. Mas, no fundo, este era o mantra: “Inútil! Sentado como um tolo e os outros aproveitando a vida enquanto a minha se acaba. Logo serei incapaz de aproveitar algo. Estou me tornando velho.” Este era o mantra real. Na superfície rezava: Ram, Ram, Ram; mas no íntimo, o mantra verdadeiro era outro.

Quando sua mente está dividida, você não pode orar nem meditar porque uma parte fica sempre contra a outra. E, mais cedo ou mais tarde, ela vencerá. Lembre-se disto: a parte que está em ação perde energia a cada instante e a que não está, a que critica, não perde nenhuma energia. Assim, mais cedo ou mais tarde será a mais poderosa.

Uma de suas partes ama uma mulher e a outra odeia. A parte do ódio fica escondida – todos escondem essa parte – e, a menos que você se torne um Iluminado, ela permanece no seu interior. A parte que ama começa a se tornar fraca porque está sendo usada, sua energia está sendo aplicada. A parte escondida, a do ódio, fica cada vez mais forte. Assim, todos os casamentos caminham para o divórcio. Quer o divórcio seja efetuado, quer não, todo casamento acaba em divórcio, a menos que se esteja casado com um Iluminado, o que é muito difícil.

Um dia, o homem se fartou. Começou a descer dos Himalaias. Pensou: “Por onde vou começar?” Tinha se esquecido completamente de como era o mundo! Tinha estado fora por tanto tempo! “Por onde vou começar? Se quero ser iniciado neste mundo preciso de um guia, exatamente como se quisesse conhecer o outro mundo. Quem será o guia certo para este mundo?” Então, lembrou-se de que antigamente os reis mandavam seus filhos para as prostitutas a fim de aprenderem como entrar neste mundo. Não existe melhor guia para este mundo do que uma prostituta. Ela é o mundo encarnado. Até mesmo o amor tornou-se um negócio para ela – este é o último estágio do mundo. Até o amor tornou-se uma profissão, uma comodidade; ela o vende. O dinheiro tornou-se mais importante do que o amor. Esta é a última coisa no mundo e pode tornar-se a porta.

Então, ele foi diretamente a uma prostituta. Era noite e ela estava se aprontando para ir a um rei. Ela lhe disse: “Você é bem-vindo, mas eu fui convidada por um rei. Ele é um avarento e, por isso, não espero ganhar muito. Mas quem sabe? Às vezes até os avaros dão. Venha divertir-se conosco.” O monge foi.

Durante toda a noite, a prostituta dançou e cantou. O rei ficou sentado em silêncio, sem lhe dar nada. Então, a última parte da noite já estava se esvaindo; logo haveria luz e a mulher estava cansada. Então, numa canção, ela disse a seu marido que tocava tabla: “Agora já fiz tudo o que poderia fazer.” Ela cantou de modo que ninguém pudesse compreender – este era um código para com seu marido. Disse: “Tudo o que podia ser feito, já fiz. Agora parece não haver nenhuma esperança. É melhor partirmos.”

Dentro de sua mente, o monge pensou: “Ela está na mesma situação em que eu me encontrava: tudo o que eu podia fazer já havia feito. Nada mais poderia ser feito e o melhor era partir.” Então, ele ouviu atentamente quando o marido disse: “Tudo o que podíamos fazer, nós já fizemos. Mas a noite ainda não acabou. Quem sabe? Devemos ir até o final. Só falta um pouco mais. Seja paciente.”

Ouvindo isso, o monge pensou: “E agora, o que devo fazer? Talvez eu estivesse na beira quando deixei os Himalaias. Talvez um pouco mais de paciência...”

O monge possuía apenas um lençol. Estava nu por baixo. Mas sentiu-se tão encantado que atirou seu lençol aos pés da prostituta e começou a correr para fora do palácio. O rei, então gritou,: “Pare: isso é contra a convenção.”

A convenção era a seguinte: quando uma pessoa rica estava presente, ela deveria contribuir primeiro; senão, seria um insulto. O rei estava presente e aquele homem havia contribuído primeiro.

O monge respondeu: “Se é contra a convenção, pode me matar, mas ela salvou a minha vida. Foi um momento de tão grande êxtase que tive de dar algo. Eu não tinha mais nada além desse lençol, mas não posso esperar por você, estou indo para os Himalaias. Esta mulher e este homem que estava tocando tabla revelaram-me um segredo: um pouco mais de paciência.” Dizem que o homem tornou-se Iluminado naquele momento e que nunca mais voltou aos Himalaias. Ao descer as escadas do palácio, iluminou-se.

O que aconteceu? Pela primeira vez as duas partes tornaram-se uma. Eis o significado da paciência. Paciência significa permitir que a outra parte lute. Paciência significa estar pronto para esperar infinitamente. Quando você está pronto para esperar pelo infinito, não existe nenhuma possibilidade de a outra parte dizer: “Não aconteceu ainda.” Não existe sentido em dizer: “Você está perdendo o seu tempo”. Se você está pronto para esperar infinitamente, então nada é perdido. Se a sua espera é eterna, infinita, então a outra parte fica sem ter o que dizer.


A unidade é necessária. Se não há unidade, a luta é constante. Eis por que Gutei costumava levantar um dedo quando explicava sobre o Zen. Estava dizendo: “Seja um! – e todos os seus problemas estarão solucionados.”

Existem muitas religiões, muitos caminhos, vários métodos, mas o ponto essencial é o mesmo: a UNIDADE. Seja qual for a sua escolha, seja um. Se puder render-se totalmente, tornar-se-á um, a unidade virá.

Se você puder trabalhar num jardim totalmente absorto, de modo que nenhuma pessoa exista, nem mesmo quem está cavando; se você se transformar no ato de cavar, então o agente será a ação, o observador a observação, o meditador a meditação – de repente, todas as ondas de maya desaparecerão, todas as ilusões terminarão. Você será elevado a uma camada diferente, a um diferente plano de ser.

Quando você for um, alcançará o Um. Enquanto for muitos, estará no mundo. O mundo é muitos e Deus é um. Para conhecer o Um, é preciso, antes, tornar-se um. Não existe outro modo. Só quando você se transformar Nele é que será capaz de conhecê-lo.

“O Mestre Zen Gutei costumava erguer um dedo ao esclarecer uma questão sobre o Zen.”

Zen é um termo sânscrito vindo da palavra dhyan. É a forma japonesa de dhyan. Quando Bodhidharma levou para a China as técnicas de Buda, dhyan tornou-se Chan. Quando Chan foi levado ao Japão, tornou-se Zen. Mas o termo original é dhyan. Quando Gutei falava sobre dhyan (meditação), levantava um dedo. A unidade é dhyan, a unidade é tudo o que deve ser atingido – é o fim.

“Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo...”

É claro. Deve ter sido um discípulo bem jovem, pois só as crianças imitam. Quanto mais maduro se é, menos se imita; quanto mais imaturo, mais se imita. Se você ainda imita, ainda é um adolescente, ainda não atingiu a maturidade, ainda não se tornou um adulto. O que é ser adulto? É compreender que você tem de ser você mesmo e não um imitador, isso é que é maturidade.

Se você olhar para si mesmo, não encontrará essa maturidade. Você tem estado imitando os outros. Alguém tem um carro novo – de repente, você começa a imitar, precisa de um carro novo também. Os vizinhos sempre o deixam nervoso. Estão sempre comprando isso e aquilo e você tem de imitá-los. E quando isso ocorre, você é exatamente como os macacos.

Não imite! Seja maduro! Imitar não o levará a lugar algum. Por que? O que é imitar e o que é ser autêntico, verdadeiro?

Imitar significa estabelecer um ideal a partir dos outros; significa ter um ideal que não é seu, um ideal que não vem de dentro de você, que não é um florescimento natural vindo do seu interior. Algum outro estabeleceu o ideal e você vai atrás. Se não o alcança, sente-se miserável por não ter conseguido atingi-lo. Se o alcança, sente-se miserável também porque esse nunca foi o seu ideal. Você nunca o quis, isso nunca ocorreu no seu interior.

Eis por que existe tanta miséria no mundo: as pessoas ficam se imitando. Se falham, sentem-se miseráveis porque não atingiram. Se são bem-sucedidas, também se sentem na miséria. Observe: nada fracassa tanto quanto o sucesso, se este sucesso advier de uma imitação. É possível alcançar um objetivo após longa e extenuante jornada, após muito esforço e perda de tempo e energia. Mas então você descobre: “Eu nunca quis ser isso. Alguma pessoa deve ter querido e eu peguei emprestado o seu ideal.” Não pegue ideais emprestado dos outros, isso é infantil.

“Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo...”

Deve ter sido um discípulo bem jovem mesmo, infantil. Começou a imitá-lo.

“Quando alguém lhe perguntava sobre o que o seu Mestre havia pregado, ele levantava um dedo” – do mesmo modo, com o mesmo gesto que o Mestre havia feito.

As pessoas devem ter gostado disso, devem ter rido. O rapaz era um imitador perfeito: fazia a mesma cara, levantava o mesmo dedo, tentava olhar do mesmo jeito. Ele representava muito bem.

Quanto mais eficiente é a representação, mais imaturo se permanece. É preciso ser verdadeiro consigo mesmo. Se você não é muito eficiente, isso não importa; o que importa é que você seja verdadeiro consigo mesmo, porque apenas a sua própria verdade poderá levá-lo à Verdade Última. A verdade de nenhuma outra pessoa poderá ser a sua.

Você tem uma semente no seu interior. Só quando essa semente germinar e tornar-se uma árvore é que você florescerá, entrará em êxtase, terá a bênção. Mas se você estiver seguindo os outros, essa semente continuará morta. É possível acumular todos os ideais do mundo e tornar-se bem-sucedido, mas você se sentirá vazio porque nada poderá preenchê-lo. Só a sua semente, quando se tornar árvore, é que poderá satisfazê-lo. Você só se sentirá completo quando a sua verdade florescer, nunca antes.

As pessoas podem apreciar seu sucesso na imitação – elas sempre o apreciam. Esse rapaz deve ter sido apreciado no mosteiro por estar representando exatamente como o Mestre. Deve ter ficado famoso; os imitadores ficam famosos. Eles não sabem que estão cometendo suicídio. Entretanto, para que os outros o apreciem, você é capaz até de se suicidar.

Ouvi dizer que um ator morreu. Seu funeral atraiu milhares de pessoas. Sua mulher batia no peito, chorava e gritava. Quando ela viu que milhares de pessoas tinham vindo, disse: “Se ele soubesse que tantas pessoas viriam, teria morrido mais cedo.”

Você pode se suicidar para ser apreciado. Você está se suicidando apenas porque os imitadores são apreciados. Uma pessoa autêntica não, porque ela é rebelde. Não imita ninguém. Ela diz: “Eu não serei Buda, nem Krishna, nem Jesus. Um já é o suficiente! Um Jesus já é o suficiente. Por que imitá-lo?” Um segundo Jesus, embora belo, é apenas uma cópia, não tem valor. Por que imitar Jesus? Deus não lhe perguntará, no fim, por que você não se tornou Jesus, mas sim por que não se tornou você mesmo.

Ouvi falar sobre um místico hasid chamado Magid. Ele era muito pobre e ninguém sabia muito a seu respeito, mas ele era um homem realmente autêntico. Quando estava morrendo, alguém lhe perguntou: “Magid, você rezou a Deus para fazê-lo como Moisés?” Ele abriu os olhos e disse: “Pare! Não diga tais coisas enquanto eu estou morrendo. Deus não irá me perguntar por que eu não me tornei Moisés. Ele perguntará: ‘Magid, por que você não se tornou um Magid real?’”

Os outros não o compreenderam, não podiam compreender, pois isso parecia um insulto a Moisés. Não é. Isso não é um insulto. Moisés tornou-se Moisés: essa é sua beleza. Magid tem de se tornar Magid: essa é a sua beleza. E somente a beleza, somente o ser florescido pode ser ofertado a Deus. Como poderia Deus perguntar a uma rosa: “Por que você não se tornou um lótus?” Como poderia Deus ser tão tolo? Não! Ele não é tão tolo quanto você pensa. Ele perguntará à rosa: “Por que não floresceu totalmente? Por que voltou como um botão e não como uma flor?”

Florescer é o essencial. Se você é um lótus ou uma rosa ou alguma flor não especificada, desconhecida, não faz diferença. Quem você é não é o essencial. O essencial é que você possa chegue à porta do Divino como uma flor aberta, florescida e não fechada como um botão.

“Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo...”

Quando você chega perto de um Mestre, esta é a possibilidade – a primeira possibilidade: começar a imitá-lo. Lembre-se de que isso não irá ajudá-lo, de que isto é perigoso, de que estará cometendo suicídio. Compreenda o Mestre, beba sua presença, alimente-se dela o máximo que puder, mas não se torne um imitador. Não se torne falso.

“Gutei ficou sabendo disso. Então, um dia, ao encontrar o menino imitando-o, pegou o dedo do discípulo, puxou uma faca, cortou o dedo e jogou-o fora.”

Parece que esse Mestre era muito duro, muito cruel. Os Mestres são cruéis. Se não o forem, não poderiam auxiliá-lo. São cruéis por que têm uma profunda compaixão. Por que o Mestre cortou o dedo dele? Se ele fosse um pouco menos duro, não teria sido de nenhuma utilidade ao rapaz. Algo muito severo era necessário. Algo que fosse direto ao coração. Isso deve ser compreendido.

Ouça-me. Se você está aqui apenas por curiosidade, não poderá ir muito a fundo. Se sua curiosidade é apenas intelectual; se você está interessado apenas em saber o que estou dizendo, não poderá ir muito a fundo; não será capaz de compreender o que estou dizendo. Mas, se a vida lhe deu muito sofrimento e você está aqui por causa disso: para compreender como transcendê-lo, então o que direi poderá ir até lá dentro. O sofrimento lhe dá profundidade, o conduz em direção ao centro.

Se você me ama, se você não tem comigo um relacionamento intelectual – o qual não é absolutamente um relacionamento – mas uma relação de amor; se está emocionalmente tocado por mim, então irá compreender. Porque quando você ama uma pessoa, você a ouve com o coração, não com a cabeça. A cabeça é a pior coisa que existe: tola, fútil, exatamente como um cesta de lixo – nada mais. Tudo o que é tolice vai sendo colecionado por sua cabeça. As futilidades nunca entram no coração, são acumuladas na cabeça. Só o que é essencial vai para o coração. Assim, se você estiver aqui apenas por curiosidade, conseguirá me ouvir apenas na superfície. Pouco poderá lhe acontecer. Mas se você estiver aqui porque sofreu: se não veio como um curioso, mas como alguém que tem conhecido a vida, conhecido seu sofrimento e por meio dele a maturidade; se você quiser ser transformado – então, me ouvirá com muito mais profundidade.

Mas sua profundidade poderá ir mais além ainda. Se você me amar, se tiver confiança, estará mais aberto – só a confiança pode abrir; se você não confiar estará sempre com medo e o medo é sempre fechado. Quando você está totalmente aberto – você sofreu, a vida lhe deu profundidade e, além disso, você confia, além disso, está totalmente aberto – então, o que eu disser poderá ir imediatamente ao seu coração. E, depois de ouvir, você nunca mais será o mesmo.

“Gutei ficou sabendo disso.” Um Mestre sempre fica sabendo quem são os imitadores. Eles são tão aparentes, tão óbvios! Eu sei muito bem quem são os imitadores aqui. Um imitador não pode enganar a quem está imitando. Pode enganar aos outros, mas não a quem está imitando. Sua falsidade é patente.

As pessoas vêm a mim e repetem minhas próprias palavras, meus próprios gestos e pensam que podem me enganar. Elas podem enganar aos outros, mas não a mim porque suas palavras são tão superficiais! Você pode repetir as mesmas palavras, não há problema: as palavras não são o problema – mas a intensidade que você dá a elas, isso vem do seu próprio ser. A palavra pode ser usada por qualquer um. Você pode recitar todo o Gita, mas suas palavras não serão as mesmas pronunciadas por Krishna.

Você pode repetir toda a Bíblia, mas quando aquelas palavras foram usadas por Jesus elas tinham uma tremenda energia, uma força de transformação – porque Jesus estava naquelas palavras. Seu ser se movia através de cada uma delas.

Você pode usar as mesmas palavras. Para cada cristão, existem milhões de padres repetindo as mesmas palavras. Repetem o Sermão da Montanha... e as palavras são tão superficiais que acabam sendo um grande prejuízo. Seria melhor que eles não as repetissem porque quando se repete muito certas palavras, elas perdem a magia, tornam-se usadas e as pessoas ficam tão acostumadas a ouvi-las que se tornam muito inúteis, apenas clichês.

Gutei ficou sabendo a respeito do jovem que o imitava e “...um dia, ao encontrar o menino imitando-o, pegou seu dedo, puxou uma faca, cortou o dedo e jogou-o fora.”

Quanta severidade! Mas Gutei deve ter tido muita, muita compaixão. Só desse modo é que se pode ser tão duro. É difícil compreender porque pensamos que a crueldade, a austeridade acontecem apenas quando não existe compaixão. Não – se você pensar assim nunca entenderá um Mestre. Um Iluminado só é vigoroso com o discípulo quando está repleto de compaixão. Se assim não fosse, porque se preocuparia? Ele é rígido justamente porque se preocupa, porque está aflito a seu respeito, quer auxiliá-lo. E menos do que tal atitude de nada adiantará.

O que aconteceu? Quando ele puxou sua faca, pegou o dedo do rapaz, cortou-o e jogou-o fora, o que aconteceu? Quando o rapaz viu o Mestre puxar sua faca, o que lhe ocorreu? Se alguém chega, de repente, perto de você com uma faca, o que lhe acontece? – Seus pensamentos param.

Você não pode pensar, é tudo tão novo, tão inédito. A velha mente simplesmente pára, ela não pode compreender o que está acontecendo. Ninguém poderia sequer supor que Gutei carregasse uma faca. É possível alguém me imaginar carregando uma faca? É tão impossível, tão incompreensível. Mas Gutei puxou a faca – o rapaz deve ter ficado em estado de choque, com o pensamento parado. Era um tratamento de choque. Aquilo vindo de Gutei – quase impossível! O rapaz não pensaria nisso nem em sonhos... e então Gutei não somente puxou a faca, mas cortou o seu dedo também.

Enquanto Gutei estava cortando o dedo do discípulo, enquanto o dedo era decepado da mão, o que estava acontecendo dentro do rapaz? Pela primeira vez em sua vida, ele estava atento, sem pensamentos. Não podia estar adormecido num momento desses. Você pode estar adormecido enquanto alguém corta o seu dedo? Não, é impossível.

A dor foi tão intensa, o sofrimento foi tão intenso, que nesse exato momento o rapaz se transformou. Deixou de ser uma criança, tornou-se maduro. Isso pode ocorrer em apenas um instante, pode não acontecer por muitas vidas. A imitação deve ser severamente cortada. O dedo era apenas simbólico. O rapaz tinha de ser atingido severamente e o sofrimento devia ir até a raiz de seu ser. Devia ser tão desconhecido que ele não pudesse teorizar a respeito. Não pudesse pensar, nem filosofar, mas simplesmente ficar chocado. Assim, sua mente não poderia mover-se para lugar algum.

Pela primeira vez, ele deve ter olhado com olhos novos, sem pensamentos flutuando, se interpondo. A dor foi tão severa e súbita que deve ter atingido diretamente seu coração.

Lembre-se, o prazer nunca atinge tanto quanto a dor. O prazer nunca vai tão a fundo! Não pode, A própria natureza do prazer é superficial. Assim, as pessoas que vivem no prazer são sempre superficiais, frívolas. Você não pode encontrar profundidade num homem rico, é muito difícil. Mas pode encontrá-la num mendigo. Você pode não olhar para um mendigo porque pensa que ele é simplesmente um mendigo; mas não se fixe em suas idéias. Quando cruzar com um mendigo, olhe-o. Ele sofreu muito, sentiu muita dor e a dor dá profundidade. Um rico é sempre superficial, frívolo. Vive no prazer e, por isso, não pode ir muito a fundo.

No sofrimento do discípulo de Gutei, a dor foi tanta e tão repentina que a mente parou de revolver e o coração foi atingido.

“Enquanto o rapaz corria, berrando, Gutei gritou: ‘Pare!’”

É sobre isso que eu estava falando. Primeiro, você deve estar em profundo sofrimento, gritando; somente então o “Pare” pode ser significativo. O rapaz correu uivando de sofrimento e dor e Gutei gritou: “Pare!” Se o “pare” é dito no momento certo, ele atinge diretamente.

De repente, ele parou! O que aconteceu nessa parada? Não havia mais dor. Se você pára repentinamente, toda sua atenção move-se para o som “pare”. O corpo é deixado para trás e você se torna atento. Quando você está realmente atento, o corpo não pode perturbá-lo, não pode distraí-lo. O dedo não estava mais lá, o sangue fluía – havia dor, mas esse “pare” levou toda a atenção do discípulo para o Mestre.

Quando não há atenção, não existe dor. A dor só existe no corpo se atenção for dada para o corpo. Quando você está doente, deitado na cama, o que você faz? Fica continuamente prestando atenção à sua doença, fica alimentando-a. Algo deve ser feito a esse respeito, pois isso tornou-se um grande problema em todo o mundo.

Os médicos sugerem que você se deite e descanse quando está doente. Mas descansando, o que você fará? Prestará atenção à dor e assim a estará alimentando; a atenção alimenta a dor. Então, você estará pensando nela continuamente; isso se torna um mantra, um canto interno: “Estou doente, estou doente. Alguma coisa está errada.” Você reclama e percorre o corpo (com sua atenção) diversas vezes, tentando encontrar o que está errado. Você fica remoendo isso. Que coisa mais patológica! Isso faz com que a doença continue. Torna você hipnotizado pela doença!

Se muita atenção é dada à doença, você se torna uma vítima hipnotizada. Se você reclama, se queixa constantemente de algo, isso entra num ciclo vicioso: você reclama e, com isso, convida a doença a entrar ou permanecer, porque cada queixa significa dar atenção outra vez e outra vez; torna-se algo repetitivo.

O que acontece? Ouvi dizer – e isso já aconteceu muitas vezes – que um homem estava doente, paralisado há quinze anos sem poder andar. Uma noite, de repente, sua casa começou a pegar fogo. Havia o fogo, a casa estava em chamas e todos correram para fora. O homem esqueceu que estava paralisado e correu para fora da casa. Só lá fora, quando sua família o viu correndo e lhe disse “Como? Você está paralisado!”, é que o homem se incapacitou de ficar em pé e caiu.

O que aconteceu? Nesse acidente, nesse particular momento de intensidade – a casa estava em chamas – o homem esqueceu que estava paralisado. Por um momento sua atenção abandonou essa crença, ignorou essa ilusão, e por isso o homem pôde correr para fora da casa. Se você puder se esquecer da sua doença, ela irá embora mais rápido do que com qualquer remédio. Se não puder esquecê-la, se ficar continuamente remoendo-a estará mexendo na ferida. E quanto mais você a remexe mais profunda ela se torna.

O que aconteceu quando Gutei gritou: “Pare”? O rapaz olhou-o, sua atenção moveu-se do corpo para o Mestre. Seu grito parou e a dor desapareceu como se o dedo não tivesse sido cortado.

“O menino parou, virou-se e olhou para o seu Mestre através das lágrimas”.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas, ele estava gritando, chorando e soluçando. Mas parou! Sua dor desapareceu, mas as lágrimas não podiam desaparecer tão de repente – elas estavam lá.

“Gutei estava com um dedo levantado. Quando o rapaz foi levantar o seu, percebeu que o dedo não estava lá, e inclinou-se. Nesse instante, tornou-se iluminado.”

“Gutei estava com um dedo levantado.” Esse foi um momento de intensa consciência; um grande truque foi feito, uma situação foi criada pelo Mestre. A mente não estava mais lá, a dor havia desaparecido porque a atenção havia se desviado para outro lugar... Como se o rapaz não fosse capaz de respirar. “Pare!” – e a respiração parou, o pensamento parou e ele se esqueceu de que não tinha mais um dedo. De acordo com o velho hábito, quando o Mestre levantava um dedo, o rapaz levantava também o seu – mas agora o dedo não estava mais lá. Isso mostra que ele havia se esquecido completamente do que havia ocorrido. O discípulo levantou o seu dedo como em todas as outras vezes que o fizera, quando ainda possuía o dedo. O simples fato de ter repetido o hábito de levantar o dedo, após o Mestre levantar o seu, demonstra que nesse momento ele esqueceu-se de que não tinha mais o dedo.

Nesse momento, ele não era o corpo; de outro modo, como poderia ter esquecido a dor, o dedo cortado, sangrando, os olhos ainda cheios de lágrimas? Há apenas um momento ele uivava de dor. O “Pare” provocou o milagre.

“O rapaz parou, virou-se, olhou para seu Mestre através das lágrimas. Gutei estava com um dedo levantado.”

De acordo com o seu velho hábito, o menino levantava o dedo sempre que o Mestre ensinava sobre o Zen. Ele ficava em pé, ao lado ou atrás da cadeira, e quando o Mestre levantava um dedo ele também levantava. Isso tornou-se um gesto automático. O corpo é um autômato, é um mecanismo, é mecânico.

O rapaz foi levantar o seu dedo e quando percebeu que não estava lá – só então ele viu que o dedo não estava lá – inclinou-se.

O que aconteceu? Por que ele ficou tão agradecido e inclinou-se? Porque, pela primeira vez, percebeu que não era o corpo. Que ele era a atenção, não o corpo; a consciência, não o corpo. O dedo não estava lá e a dor desaparecera, os gritos desapareceram. O pensamento não estava mexendo na ferida, remoendo-a. Ele não era mais o corpo, que importância então teria o fato de ele não ter mais o dedo? – Aquele corpo não era ele. Nada de real valor foi perdido. Ele despegou-se do corpo, abandonou-o. Não estava mais encarnado, estava simplesmente fora do corpo. Pela primeira vez, pôde saber o que é a alma, a consciência, o verdadeiro Ser; pôde saber que o corpo é apenas a casa.

Você não é o corpo; está nele, mas não é ele. Se a sua atenção puder chegar a tal intensidade, você perceberá que não é o corpo. Ao perceber isso, ficará sabendo que é imortal. Quem então poderá lhe cortar o dedo? Como alguém poderá ser violento com você? Ninguém poderá destruí-lo. Eis por que ele se inclinou para o Mestre em profunda gratidão. “Por você ter me dado esta oportunidade de conhecer o meu mais profundo ser que é imortal.”

“Nesse instante, iluminou-se.”

O que é iluminar-se? É chegar a entender, a perceber que você não é o corpo. É a luz interna. Não o lampião, mas a chama. Não é o corpo, nem a mente. A mente pertence ao corpo - ela não está além dele. Ela é a parte do corpo mais sutil, mais refinada, mas ainda assim é parte do corpo. A mente é tão atômica quanto o corpo.

Você não é nem o corpo nem a mente, Então, fica sabendo quem é. E ficar sabendo quem você é, é iluminar-se.

Quando Gutei cortou o dedo do discípulo, o pote, o velho pote caiu, quebrou-se, a água escorreu - nem água, nem lua! O discípulo iluminou-se.

Gutei deve ter esperado pelo momento certo. O menino fazia aquilo há muitos e muitos anos. Ele esperou e esperou. Não se pode forçar o momento certo. Quando ele chega, chega. Você cresce em direção a ele e o Mestre espera. Quando ele chega, quando ele está presente, qualquer coisa pode tornar-se a desculpa, qualquer coisa. Mesmo um grito, “Pare!”, pode ser o suficiente para despedaçar o velho pote. De repente, os reflexos desapareceram porque não há mais água. Você olha para a lua real, você está iluminado.

Iluminação significa compreender quem você é.

- Osho



3 comentários:

Palavras de Osho disse...

Maravilhoso...

Isabel Cruz disse...

Não é dedo! É o conteúdo! O mestre tinha o conteúdo da iluminação e não precisava de palavras para expressá-lo, bastava 1 dedo.
O aluno ao imitá-lo mostrava que não só não estava iluminado como ainda ajudava outros a se iludirem mais e mais. O mestre cortou seu dedo. Ação possível. Impossível é fazer o outro iluminar-se.
Mais uma vez o mestre apontou o dedo. E o aluno, no hábito de imitar, viu agora que não tinha dedo. Para ser iluminado igual ao mestre, tinha que destruir o ego e não apontar um dedo!!!!

Anônimo disse...

muito bom!