"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

segunda-feira, abril 19, 2010

O dedo de Gutei (Masaharu Taniguchi) - 01

Masaharu Taniguchi



O terceiro item do livro Mumonkan (zen-budismo) diz o seguinte: “O bonzo Gutei levanta o dedo”.

O bonzo Gutei, superior do templo Kinzakan, apenas mostrava um dedo em posição ereta, quaisquer que fossem as perguntas a ele dirigidas pelos visitantes que vinham à procura da Verdade. Vendo seu dedo, alguns despertavam para a Verdade, enquanto outros iam embora sem nada entender. Aquele que vê apenas a forma exterior do dedo e não vê a Vida-essência não consegue despertar para a Verdade. Certo dia, um jovem monge desse templo, ao ser indagado por um visitante acerca dos ensinamentos, levantou o dedo, imitando o seu mestre. Mas o jovem monge imitou apenas o gesto do mestre Gutei, sem conhecer a razão porque ele levantava o dedo, isto é, sem compreender a Vida-essência do homem. Quando o mestre soube disso, cortou o dedo indicador do jovem monge. Este tentou fugir, gritando de dor. Ato contínuo, o mestre chamou-lhe pelo nome. Este olhou para trás a fim de ouvir o que o mestre teria a dizer, mas o mestre, como de costume, levantou o dedo. Naquele instante, o jovem monge compreendeu uma grande Verdade. O que o jovem monge compreendeu? Quem souber o que ele compreendeu, também terá despertado para a Verdade.

O jovem monge, enquanto tinha dedo para levantar, estava apegado à forma do dedo e não conseguia ver a Vida-essência. Todavia, agora que lhe fora cortado o dedo, não possuía mais o dedo a ser levantado. Apesar disso, o mestre bonzo ordenava-lhe que levantasse o dedo, assim como ele fazia. Como levantar o dedo que não existe mais? Na sua resposta está a essência do Zen. O dedo a ser levantado não era o dedo físico. Um dedo que pode ser levantado apenas formalmente não poderá ser levantado quando ele não existir mais. O verdadeiro “dedo” é aquele que pode ser levantado, mesmo depois que se perdeu o dedo, mesmo depois que se perdeu tudo. O que o mestre quis mostrar era o “dedo da Vida”, absolutamente livre e que não sofre restrição alguma, mesmo quando se perde tudo. Aquele que se queixa das privações, dizendo que falta isso ou aquilo, é uma pessoa que não conhece a Imagem Verdadeira da Vida (o Jissô). A Imagem Verdadeira da nossa Vida é aquela que não sofre de privação alguma, mesmo quando não possuímos nada.

São muitos os testemunhos de cura de pessoas que leram as revistas sagradas Seicho-No-Ie ou o livro sagrado A Verdade da Vida e abandonaram os remédios e os tratamentos médicos. Mas não devemos nos equivocar, pensando que a moléstia foi curada porque se abandonou o tratamento médico ou porque se deixou de tomar remédios. A verdadeira cura da doença – não o desaparecimento temporário da doença – será possível somente pela conscientização de que o aspecto real e original (A Imagem Verdadeira) da Vida é filho de Deus, perfeito e harmonioso por natureza. Embora a doença seja aparentemente curada por outros métodos, não se trata de uma cura verdadeira. Isso deve ficar especialmente gravado em nossa mente.

Muitos dos adeptos alegram-se dizendo que foram curados ao pararem de tomar remédios, mas o fato de parecer que a doença foi curada com o abandono dos remédios forma um bom par com o fato de parecer que foi curada pela ingestão de remédios. Isso é apenas a aparência. Uma vez que a Vida é filho de Deus originado de Deus, jamais poderá ser beneficiada ou prejudicada pelos remédios. Isto é a Imagem Verdadeira da Vida. Ao despertarmos para a Imagem Verdadeira da Vida, ocorre a cura da doença. Esta simplesmente revela a sua inexistência. Desta forma, quando se conscientiza o aspecto verdadeiro da Vida, os remédios tornam-se desnecessários.

A causa primeira da cura está na compreensão do aspecto verdadeiro da Vida do homem, filho de Deus, e dessa causa primeira decorrem as consequências tais como a cura da doença ou o ato de abandonar os remédios. Tanto a cura da doença como o abandono dos remédios são igualmente consequências. Por conseguinte, o fato de abandonar os remédios não constitui a causa da cura. Expressando isso em termos do zen-budismo, teríamos a seguinte sequência de perguntas e respostas:

- Qual o efeito de se tomar remédios?
- Nenhum.
- Qual o efeito de se parar de tomar remédios?
- Nenhum.

Sendo assim, é uma grande insensatez abandonar os remédios sem despertar para o aspecto real e original da Vida, pensando que basta parar de tomar remédios para curar a doença. Isso é o mesmo que considerar os remédios como uma espécie de corda que “amarra” a Vida. Quem acha que abandonando os remédios vai se livrar dessa corda, está acreditando que a matéria tenha o poder de “amarrar” a Vida, e que a Vida seja algo passível de ser “amarrada” pela matéria. Com uma crença tão duvidosa em relação à Vida, mesmo que a pessoa pare de tomar remédios, não haverá efeito algum. Já que no recôndito de sua mente essa pessoa está admitindo a idéia errônea de que a matéria tem o poder de “amarrar” a vida, o seu ato de abandonar os remédios nada mais é que uma outra maneira de expressar o pensamento de que “a Vida é impotente”.

Então, não é preciso dispensar os remédios? Na verdade, se o enfermo dispensar os remédios, ser-lhe-á mais fácil despertar para a Imagem Verdadeira da sua Vida. Como foi dito no início, o bonzo Gutei apenas mostrava o dedo em posição ereta a qualquer visitante que viesse à procura da Verdade. Um jovem monge, imitando o bonzo, mostrou o seu dedo a um visitante. Mas ele imitou apenas o gesto exterior do mestre, pois o seu dedo levantado não continha o despertar espiritual. Por isso, o bonzo Gutei, quando soube disso, acabou decepando o dedo do jovem monge. Este tentou fugir, chorando e gritando de dor. Gutei chamou-o: “Espere, jovem”. No exato momento em que o jovem se voltou, o bonzo levantou o dedo, como se lhe ordenasse a fazer o mesmo. Mas o jovem monge já não tinha mais aquele dedo para levantar, e foi então que ele despertou espiritualmente. Ele compreendeu que o “dedo a ser levantado não era o dedo material”.

O ato de dispensar remédios tem o mesmo significado que o ato do bonzo Gutei, que decepou o dedo do jovem monge. Quando a pessoa se coloca numa situação extrema, em que não tem mais o dedo material a levantar ou não tem mais o remédio a que recorrer, ela desperta naturalmente para a Imagem Verdadeira de sua própria Vida. Acreditar demasiadamente na eficácia dos remédios é tão errôneo quanto acreditar demasiadamente na eficácia do abandono de remédios. A única coisa em que podemos acreditar é o fato de que a Imagem Verdadeira de nossa Vida é divina. Se não conscientizarmos que a Imagem Verdadeira da Vida é de um filho de Deus perfeito, a doença não será verdadeiramente curada, quer tomemos remédios, quer deixemos de tomá-los. Pode parecer que houve a cura, mas não passa de desaparecimento temporário da doença. Não há nada mais errôneo do que interpretar o ensinamento da Seicho-No-Ie sobre a inexistência da doença como uma simples afirmação de que “a doença se cura quando se deixa de recorrer aos remédios”. Naturalmente, como há pessoas de diferentes níveis de compreensão entre os leitores da Seicho-No-Ie, varia também o modo de pregar os ensinamentos. Ora se prega o ensinamentos do “pequeno veículo”, ora segundo o do “grande veículo”. Os ensinamentos do “pequeno veículo” que Sakyamuni (Buda) pregou no início e os do “grande veículo”, como a Sutra do Lótus ou a Sutra do Nirvana, que ele pregou no fim de sua vida parecem contraditórios à primeira vista; mas isso ocorre porque Sakyamuni foi mudando o modo de pregar conforme ia se elevando a consciência dos fiéis. No início, Sakyamuni pregou que o homem oculta sob sua pele imunda vísceras e sangue, e que, portanto, não é nada belo como parece. Assim pregou para que as pessoas desprezassem o homem carnal como algo imundo. Essa negação do homem carnal foi um recurso para posteriormente afirmar a existência do homem indestrutível, verdadeiro, eterno. Esse recurso corresponde ao ato do bonzo Gutei, que cortou o dedo do jovem monge. Pregando-se a fealdade do homem carnal e eliminando-se o apego ao mesmo, estimula-se a conscientização e manifestação do homem verdadeiro, dotado de Vida eterna.

Pode ser que algumas pessoas, ao conhecer os ensinamentos de Sakyamuni a respeito da fealdade do homem carnal, julguem ser necessário libertar-se da vida carnal e desperdicem a vida inteira, retirando-se para lugares ermos e isolando-se do mundo; e, outras, pensando que o homem verdadeiro não poderá manifestar-se enquanto existir o corpo carnal, decidam aniquilar o seu corpo através do suicídio. Mesmo que isso aconteça, a culpa não será dos ensinamentos de Sakyamuni, mas das pessoas que não conseguem compreender o verdadeiro significado de seus ensinamentos e os interpretam de maneira errada. Qualquer ensinamento torna-se nocivo para quem não o compreende verdadeiramente, e o mesmo acontece com a medicina. Quem compreende realmente a medicina faz dela um verdadeiro caminho da salvação. Entretanto, muitas pessoas estão se prejudicando por acreditarem cegamente no aspecto material da medicina.

Aos portadores de doenças crônicas para as quais os remédios são ineficazes, a Seicho-No-Ie aconselha afastar resolutamente os remédios e por isso dá a impressão de estar pregando a inutilidade dos remédios; mas isso é um expediente semelhante àquele utilizado por Sakyamuni, que pregou a fealdade do homem carnal a fim de que as pessoas despertassem para a Imagem Verdadeira da Vida, para o fato de que o homem, sendo filho de Deus, jamais é dominado pela matéria. Aquele que fica sempre apoiando-se na matéria e curvando-se diante dela tem dificuldade em conscientizar-se de que, sendo ele filho de Deus, é um ser espiritual. Por isso, afirmo-lhe energeticamente: “Não se apóie na matéria!” E digo ainda: “Os remédios são elementos estranhos à Vida! O grande médico é aquele que conhece a Verdade a tal ponto que é capaz de curar um tuberculoso ministrando-lhe, se é que vai ministrar, apenas bicarbonato de sódio, do começo ao fim.” Este golpe verbal equivale à pancada que o bonzo desfere nos praticantes do zen (bambuzadas), com um instrumento denominado nyoi-bo. Uns despertam para a Verdade da Vida ao receberem a pancada, enquanto outros não conseguem despertar. Mesmo que alguém não tenha conseguido despertar para a Verdade após a pancada, seria ridículo concluir-se que a causa do não-despertar foi o fato de ter tomado a pancada de nyoi-bo. “Não se apóie na matéria! Não se preocupe com o que comer e beber! Saiba que a Vida é perfeita e auto-suficiente!” – esta é a pancada verbal que se aplica às pessoas dominada pela ilusão. Mas elas não devem apegar-se à expressãoNão se apóie na matéria e, no intuito de cumpri-la ao pé da letra, decidir deixar de ingerir a matéria chamada alimento, deixar de vestir a matéria chamada roupa, deixar de andar sobre a matéria chamada chão, deixar de respirar a matéria chama ar, etc. De nada adianta deixar de “apoiar-se na matéria” apenas na forma, sem despertar para a perfeição da Vida.

Quando despertamos para a perfeição de nossa Vida, os alimentos necessários para o nosso sustento e todas as demais coisas necessárias passam a vir naturalmente a nós, pois o nosso corpo e tudo que nos cerca são projeções daquilo que concebemos na nossa mente. Se reconhecermos que esses alimentos vêm naturalmente a nós são 'projeções dos alimentos a nós dados por Deus no mundo do Jisso', e os comermos reconhecendo que por trás desses alimentos está a maravilhosa e infinita força de Deus que a tudo vivifica, o nosso corpo refletirá automaticamente a perfeição da Vida e nos tornaremos saudáveis. Além do mais, se conscientizarmos realmente que somos filhos de Deus, que somos a Vida, e compreendermos realmente que a matéria é o “nada”, que o corpo carnal não é existência verdadeira, não nos apegaremos mais à matéria, não haverá mais a necessidade de tentarmos abandoná-la a todo custo, nem precisaremos tentar obtê-la a todo custo; e caso alguém nos ofereça remédios com amor, tomaremos também esses remédios.

Durante as viagens, em que me servem alimentação um tanto desequilibrada, às vezes recebo algumas vitaminas, ofertadas espontaneamente por algum adepto. Essas vitaminas não são propriamente remédios; são alimentos concentrados e são também a concretização do amor das pessoas que as oferecem. Entre os produtos considerados como remédios, há muitos que, na verdade, são alimentos apropriados. Ao ingerirmos tais produtos, ofertados por alguém, não o fazemos considerando-os matéria, mas o fazemos agradecendo à força vivificante do amor dessa pessoa. Mesmo que não consigamos obter tais remédios ou nutrientes, não precisamos ficar tristes. Como a matéria é originariamente o “nada”, o fato de tomarmos ou deixarmos de tomar as vitaminas não traz conseqüência alguma sobre a Imagem Verdadeira da Vida. A maioria das vitaminas pode ser produzida a partir de outras substâncias dentro do nosso próprio organismo, quando conscientizamos que a Imagem Verdadeira da nossa Vida é filho de Deus. Portanto, o que decide o nosso destino é o fato de conseguirmos ou não fazer com que a nossa mente se desprenda da matéria através do despertar para a Verdade.
Cont...


(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 04"; pgs. 37 à 45)





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