"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, abril 09, 2006

Busca Espiritual...



A primeira coisa que deve ser compreendida por aqueles que buscam a espiritualidade é: se você tentar conquistar ou possuir a verdade, você falhará. Buscar a espiritualidade significa tentar alcançar alguma coisa a mais. E todo mundo sempre está em busca de alguma coisa a mais.
O que significa "buscar"?
Por que as pessoas estão "buscando"?
Você só pode buscar algo quando você está num estado de não satisfação. Você sente que alguma coisa está faltando, então você entra na busca, na esperança de poder satisfazer seus desejos e anseios. Você só pode buscar se você tiver desejos e anseios, do contrário a busca não tem sentido algum. Mas todo mundo está sempre buscando algo a mais. O ser humano está sempre buscando... Ele busca e, por mais anseios e desejos que ele consiga realizar, ele nunca está satisfeito; está sempre querendo mais... Ninguém está satisfeito, porque a verdadeira meta nunca foi alcançada. Você segue vários caminhos, passa por experiências diferentes, consegue muitas coisas ... mas um vazio ainda continua a existir dentro de você. E a meta é preencher esse vazio. E, uma vez que ele desapareça, a busca cessa, simultaneamente. Todo mundo sente a necessidade de preencher um espaço desconhecido dentro de si; eis o por quê da busca.
O ser humano precisa buscar; ele necessita disso. Ele não sabe o que perseguir para fazer preencher esse vazio interno. É aí que a espiritualidade entra. Ela não é algo como um objeto ou uma meta relacionada com o mundo das coisas. E é por isso que ela é algo a mais... por isso que ela é considerada mais importante; é por isso que todo mundo necessita de um suprimento espiritual: porque ninguém consegue nada apenas perseguindo a matéria, por mais que se tenha êxito.
Mas é preciso buscar corretamente. "Buscar", apenas, não é o suficiente. E isso é uma coisa muito sutil.
Qualquer busca que você faça "lá fora" será falha; você não conseguirá atingir seu objetivo. O lugar certo para se buscar é do lado de dentro. Você não é um mero corpo feito de carne e ossos, não é matéria, não é algo que nasce, vive e morre. O seu corpo morrerá um dia, porque ele nasceu. Pela lei, tudo o que nasce tem de morrer. A morte é oposição do nascimento. Vida e morte não estão relacionados, porque a morte está relacionada com o nascimento. A vida não tem opositores. Morte e nascimento existem; cima e baixo existem; bem e mau existem... mas a vida é simplesmente o que ela é. Logo, você não pode deixar de estar sempre vivo. Você continuará vivo mesmo depois de seu corpo ter morrido.
Você - o seu ser - não tem nada a ver com o mundo das coisas. Se você procurar atingir o seu objetivo ali, será inútil... o vazio não será preenchido; você apenas tampará a superfície, mas o buraco continuará lá. Tudo o que você terá é uma "aparência". O seu vazio é algo que não pertence à matéria... é algo mais profundo, sublime.
Siga o caminho interior. Primeiramente você necessitará buscá-lo. Seja lá o que for que você estiver buscando será útil, porque esse primeiro caminho o levará até a segunda etapa, que é a mais importante. O importante é conseguir chegar nela. Mas, para isso, aquilo em que você põe toda a sua busca não importa. Apenas continue buscando... e buscando... e buscando... Leia livros, ou vá a alguma igreja, ou vá a algum mestre, ou persista numa determinada prática... mas continue buscando. E uma hora você cairá dentro da segunda etapa: você terá cessado a sua busca. Quando você chega aqui, você percebe que a busca só era importante até você perceber/compreender (por sua própria experiência) que a busca não era necessária... nunca foi necessária.
O primeiro caminho não é o importante, porque uma hora você terá que desistir dele... ele nunca vai conseguir satisfazer você. Assim, uma hora você terá de cansar. E estará tão cansado que você haverá desistido. Mas isso só acontece depois que você buscou com todas as suas forças, de todo o seu coração. Aí você se entrega. E quando você faz isso toda busca cessa. Automaticamente, você passa do lado de fora para o lado de dentro... e você encontra exatamente aquilo que você sempre esteve procurando. Você estará totalmente preenchido, num verdadeiro encontro consigo mesmo.
Você estará num estado de tanta graça, que tudo o mais no mundo parecerá sem importância para você. Tudo o que brotará de ti é um imenso estado de gratidão, sem desejar mais nada. Nesse estado, ter ou não ter algo que você queria antes não faz a menor diferença. Você não desejará mais nada e, por incrível que pareça, paradoxalmente, tudo aquilo que você desejava começa a vir até você sem que haja esforço algum de sua parte. Todas as situações, coisas e pessoas... tudo dá certo para você. Isso é muito misterioso.
Assim, a primeira etapa do caminho não é ruim. Ela lhe conduzirá a um entendimento muito importante. Ou, se você for capaz de compreender exatamente a segunda etapa do caminho, você dará um grande salto e já começará no lugar correto.
Quando você compreende isso, fica mais fácil "buscar corretamente" e abandonar a busca.
Quando se trata da verdade, todo caminho é paradoxal. Tem de ser assim, do contrário, não seria a verdade.

"Então me invocareis e passareis a orar a mim e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de TODO O VOSSO CORAÇÃO. Serei achado de vós, diz o Senhor, e FAREI MUDAR A VOSSA SORTE." (Jr 29.11-14)

"Buscai primeiro o reino de Deus, e as outras coisas vos serão acrescentadas" (Mt. 6:33)

7 comentários:

RMA disse...

Mas quanto a verdade, n se trata de ser direta e comum quando abrimos os olhos pra ela? e n paradoxal.

Grato de já
Abraço

Gugu disse...

Olá RMA,

A Verdade é comum e direta, para aqueles que têm olhos para ver. Para os homens despertos, paa aqueles que sabem, a Vedade está em todos os lugares - ela é onipresente. E não apenas isso - a Verdade também é tudo! É tudo, e todavia está além de tudo. E todas as coisas que você conhece são abarcadas/acolhidas por ela. A Verdade é unidade, por isso, ela nada exclui; ao contrário, ela inclui todas as coisas: bem e mal, alto e baixo, negativo e positivo... mas também transcende a todos estes.

Para as pessoas que vêem a Verdade de um único ponto de vista apenas, ela parecerá paradoxal, porque a Verdade sempre é paradoxal do ponto de vista da dualidade. Mas, na Unidade (realidade a que ela pertence), não há paradoxalidade alguma. Tudo é coerente, coeso, perfeito. "A casa que se divide contra si mesma está fadada à ruína"... Por isso, a Verdade é uma harmonia de tudo com tudo... ela é o todo.

Obrigado por sua pergunta.
Grande Abraço.

Matheus disse...

Estava lendo um livro do Osho - "Meditação: a arte do êxtase" e ele fala sobre a iluminação de Buda, bem em sintonia com o post que você escreveu.

PERGUNTA: "O desejo de Buda pela realização não era um desejo?"

Sim, era um desejo: Buda teve o desejo. Quando Buda disse:"Não deixarei este lugar. Não o vou deixar, a não ser que consiga a iluminação", isso era um desejo. E, com esse desejo, um círculo vicioso se instalou. Mesmo para Buda, ele se instalou.
Buda não pôde obter a iluminação durante muito tempo, por causa desse desejo. Por causa dele dele, buscou e buscou durante seis anos. Fez de tudo o possível, tudo quanto pôde. Fez tudo, mas não se aproximou sequer uma polegada. Permaneceu o mesmo, ainda mais frustrado. Tinha deixado o mundo, renunciado a tudo, por amor da realização, e nada conseguira. Durante seis anos, continuamente, todos os esforços foram feitos, mas nada foi obtido.
Então um dia, nas proximidades de Bodh Gaya, ele foi tomar um banho no rio Niranjana (o rio que ali existe). Estava tão fraco por causa do excesso de jejuns, que não podia sair do rio. Ficou ali, então, junto à raiz de uma árvore.
Tão fraco estava, que nem podia sair do rio! Veio-lhe à mente o pensamento de que, se tão fraco se tornara a ponto de não poder sequer cruzar um pequeno rio, como poderia, então, cruzar o grande oceano da existência? Então, a partir desse dia em particular, mesmo o desejo de realização tornou-se fútil. Ele disse: "Chega!"
Saiu da água, sentou-se sob uma árvore (a árvore Bodhi). Naquela noite o próprio desejo de alcançar tornou-se fútil. Ele desejara o mundo e descobrira que o mundo não passava de um sonho. E não apenas um sonho - mas um pesadelo. Durante seis anos, continuamente, desejara a iluminação, e também aquilo provara ser um sonho, apenas. E não apenas um sonho: provara ser um pesadelo ainda mais profundo.
Ele estava completamente frustrado; nada ficara a desejar. Tinha conhecido muito bem o mundo - conhecera-o muito bem - e não podia voltar para o mundo. Ali, nada havia para ele. Conhecera o esforço das chamadas religiões(de todas as religiões importantes da Índia); praticara todas as suas técnicas, e nada conseguira com isso. Nada mais havia a tentar, agora, não restava qualquer motivação, assim ele se deixou cair no chão, junto da árvore Bodhi e durante toda a noite ali permaneceu - sem qualquer desejo. Nada ficara para desejar; o próprio desejo tornara-se fútil.
Pela manhã, ao acordar, a última estrela ia desaparecendo. Buda olhou para a estrela, e pela primeira vez em sua vida, seus olhos não tinham qualquer nuvem, porque ele estava sem desejo. A última estrela ia desaparecendo... e, ao desaparecer da estrela, algo murchou dentro dele: o eu (porque o eu não pode existir sem desejo). E ele tornou-se iluminado!
Essa iluminação veio no momento em que não havia desejo. E isso fora evitado, durante seis anos de desejo. Realmente, o fenômeno ocorre apenas quando estás fora do círculo. Assim, mesmo Buda, por causa do desejo de iluminação, teve de perambular, inutilmente, durante seis anos. Esse momento de transformação - esse saltar para fora do círculo, para fora da roda da vida - só vem, só acontece, quando não há desejo.



Interessante é que estava lendo este trecho do livro quando resolvi dar uma lida nos seus posts antigos rs.
Abraços!

Gugu disse...

Matheus,

É bem isso. O estado de iluminação é o próprio reconhecimento de que JÁ somos iluminados. Se nós já o somos, por que iríamos desejar isso? Como exemplo, acaso nós desejamos a casa que já temos, o carro que já temos, ou o trabalho que já temos? Não desejamos porque já reconhecemos que o temos, então apenas desfrutamos tudo isso. Não sobra assim espaço para "desejar". A iluminação também é um estado de desfrute, que ocorre sempre no presente, e o estado de desfrute não condiz com o estado de busca ou de querer "atingir" (esse não está no presente, mas focalizado no futuro).

Belo texto do Osho! Obrigado por compartilhar.

Grande Abraço!

Anônimo disse...

E que tal desejar RECONHECER a Verdade?

Gugu disse...

"Reconhecer a verdade" é uma expressão melhor do que "conhecer a Verdade". Muito bem colocado, obrigado!

Namastê!

Anônimo disse...

Tá vendo? Tenho aprendido muito nesse blog! Namastê!