"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

segunda-feira, junho 08, 2009

A inquirição silenciosa




Pergunta – Mestre, essa "não-mente" da qual o senhor fala, seria o fluir da intuição, ou algo diferente disso?

Mooji - Isto que não é esta mente, não é um outro tipo de mente. É como se fosse um espaço, mas eu não quero dar uma imagem a isso, porque a mente em si, ela rapidamente dá uma imagem a algo que não tem uma imagem. A única coisa que eu posso falar seria: tudo que você percebe é um pensamento, sensação, emoção, sentimentos, objetos, o que você chama de mente, memórias, qualquer coisa que é percebida, não pode existir sem você que a perceba.

Isto é um ponto muito simples, um senso comum. Você não deve pensar que é algo complexo, ou profundo. No momento em que você entende o que eu falei, você vê o quão simples é. Você está observando todas estas coisas. Então experimenta quem você é, experimenta quem percebe todas as coisas. Pode você, que está observando todo o resto, pode você ser observado? Tente ver. O que é você? Não pense sobre isso. Olhe, encontre!

É tão fácil simplesmente perder esta oportunidade. Eu me pergunto se você entende a profundidade desta oportunidade. Poucas pessoas percebem. Esta é a descoberta mais alta que você pode fazer. Porque põe um fim à separação. E talvez a gente esteja ainda investindo em separação. A sua mente ainda está investindo em separações. E enquanto a sua mente ainda está investindo em separações, você está na roda da existência. Enquanto sua mente está ainda investindo em separação, e você está investindo na mente, você não vai conhecer a liberdade completa. Talvez você nem queira! Porque se você estiver tão profundamente hipnotizado com a associação com a mente, o que estou falando não vai ter interesse pra você.

Pergunta - E esse sem-esforço, de onde vem? Como se percebe este sem-esforço?

Mooji - Parando de fazer esforço. Você pergunta de onde a falta de esforço vem, mas você deve entender que todo o esforço surge do não-esforço. A falta de esforço é estável, o esforço é instável. O esforço é variável. A falta de esforço é constante. E você é esta falta de esforço.

Mas se você usa sua mente para aceitar o que eu estou falando, a mente diz: mas como eu posso achar esta falta de esforço? Qual é o esforço certo para ser "sem esforço"? Quando você observa esta resposta que vem vindo da mente, não se identificando com ela, não comprando a sua sugestão, você mantém-se quieto. Observe, então, que isto é mais só um pensamento. Deixe o pensamento acontecer. Mas não entre em nenhuma relação com isso. Então, qual será sua experiência? Sua experiência é que nada te toca. Você não consegue se achar como um objeto fenomenológico. Você não é um fenômeno. Você é a testemunha do fenômeno.

Você entende isso, você vê isso? Isso é direto. Você não tem que ir a uma universidade pra aprender isso. Você não tem que ir morar numa caverna pra entender isso, você não tem que ser iniciado pra entender isso. Você não tem que recitar nenhum mantra pra saber disso. Essa é a verdade indissolúvel e transparente.

Quem é você? Você pode escrever algo sobre você que seja verdade, na luz do que estou compartilhando com você? Você pode ser descrito? Ou você é aquilo que percebe aquela descrição?

(...) Dizem que a coisa mais simples é a mais difícil de ser reconhecida. O que está longe é o mais fácil de ver. Aquilo que é o mais íntimo não pode ser visto. E a verdade está mais próxima do que a intimidade. Como e por quem pode ser vista? Algo diferente da verdade?

A maioria das pessoas quer um tipo de experiência porque quando você tem uma experiência, você pensa: algo especial aconteceu. Mas aquele que é verdadeiramente livre está além da experiência. Ele experimenta a experiência. Vocês entendem o que estou falando?

Aquele que testemunha a experiência, pode Aquele ser experimentado? Você está absorvendo a pergunta, ou você está só ouvindo mentalmente? Existe coragem para convidar esta pergunta pra dentro do coração? Você tem que ter a coragem do Buda. E o que é esta coragem do Buda? Esta pergunta é como uma granada. A coragem do Buda é aquele que vai para um lugar quieto com esta pergunta, que é uma granada, e tira o pino. Quem entende isso?

Se você se identificar com a mente, você vai deixar a mente escapar, porque você tem medo da possibilidade deste descobrimento. Mas por que você deveria ter medo de descobrir aquilo que você já é? É tão tolo assim. Não escute somente mentalmente. Aceite dentro de você. Eu fiz pergunta a vocês, mas eu não quero nenhuma resposta. Porque a maioria das respostas vem da mente. Fiz a pergunta. Coloquei esta pergunta como uma granada na sua mão. Você vai puxar o pino?

Pergunta - Pode repetir a pergunta?

Mooji - Você vê tudo. Tudo o que você vê e experimenta no mundo, tudo o que está preso na sua mente, tudo o que você percebe ser importante neste mundo, incluindo a idéia que você tem de você mesmo, tudo isso está sendo guardado na sua memória, existe somente em você.

Você pode acreditar que existe dentro de cada um, mas em cada pessoa isso existe de forma única como uma percepção subjetiva. Então, você é o centro do seu universo.

Você é experiência do seu universo. Então, quem é você? Quem é você que percebe todas essas coisas?

Se tem um sentimento dentro de você que o está perturbando, pode este sentimento estar dentro de você sem você, pode existir sem você, que o percebe? Mesmo a mudança mais sutil que acontece dentro de você, você é o que está consciente desta mudança.

Quem ou o que é você?
Você pode ser visto?
Você pode se apresentar?
Qual sua forma?
Você tem desejos?
Você tem data de nascimento?
Você tem um signo?
Aquilo que vê todo o resto...

Olhe e veja! Você pode passar os próximos 10 anos fazendo isso, mas você também pode achar em 10 segundos. Você escolhe.

O que acontece com você quando você olha através desta pergunta? Eu não quero sua resposta mental. Ela não é fresca. Ela é velha.

sexta-feira, junho 05, 2009

A natureza adora se ocultar (Osho)

“É melhor que as coisas não aconteçam às pessoas
Exatamente como elas querem.
A menos que você espere o inesperado,
Jamais encontrará a verdade,
Pois é árduo descobri-la,
É árduo atingi-la.
A natureza adora se ocultar.
O senhor cujo oráculo está em Delfos
Nem fala nem encobre – mas dá sinais.”

(Heráclito, 500 a.C)




A existência não tem linguagem e, se você depender da linguagem, não poderá haver comunicação com a existência. A existência é um mistério, você não pode interpretá-la. Se você interpretar, errará o alvo. A existência pode ser vivida, mas não pensada. Ela é mais como a poesia e menos como a filosofia. Ela é um sinal, uma porta. Ela mostra, mas nada diz.

É por isso que, por meio da mente, não há acesso à existência. Se você pensar sobre ela, pode continuar a pensar e a pensar, sobre isto e aquilo, mas nunca a alcançará – porque a barreira é precisamente o pensar.

Olhe, perceba, sinta, toque – e você estará mais próximo. Mas não pense. No momento em que entra o pensamento, você saiu da trilha e caiu num mundo particular. O pensar é um mundo particular, ele lhe pertence. Então você fica fechado, encapsulado, aprisionado dentro de si mesmo. Se não pensar, você deixa de estar, deixa de ficar fechado. Se não pensar, você se abre, fica poroso; a existência flui em você e você nela.

Mas a tendência da mente é interpretar. Antes de perceber algo, você já o interpretou. Você me ouve – mesmo antes de eu dizer algo, você já está pensando algo a respeito. É assim que o ouvir se torna impossível.

Você precisará aprender a ouvir. Ouvir significa estar aberto, vulnerável, receptivo, mas você não está de maneira nenhuma pensando. O pensar é uma ação positiva, o ouvir é passividade: você se torna como um vale, como um útero, e recebe. Se você puder ouvir, então a natureza fala – mas não é uma linguagem. A natureza não usa palavras. O que a natureza usa? Heráclito diz que ela usa sinais. Uma flor está presente – qual o sinal que ela transmite? Ela não está dizendo coisa nenhuma, mas você pode dizer realmente que ela não está dizendo coisa nenhuma? Ela está dizendo muito, mas não está usando nenhuma palavra – uma mensagem sem palavras.

Para ouvir a ausência de palavras, você precisará não ter palavras, porque somente semelhante pode ouvir semelhante. Ao sentar-se ao lado de uma flor, não seja um ser humano, seja uma flor; ao sentar-se ao lado de uma árvore, não seja um ser humano, seja uma árvore; ao tomar banho num rio, não seja um ser humano, seja um rio. E então, milhões de sinais serão transmitidos a você, e não se trata de uma comunicação, mas de uma comunhão. A natureza fala, fala em milhares de línguas, mas não em linguagem. Ela fala por meio de milhões de direções, mas você não pode consultar um dicionário a respeito, não pode perguntar a um filósofo o que ela quer dizer. No momento em que você começa a pensar o que ela quer dizer, já está se extraviando.

Um homem muito instruído, um crítico, foi visitar Picasso. Ele olhou para as pinturas de Picasso e disse: “São bonitas, mas o que você quer dizer com elas? Por exemplo, esta pintura, o que ela quer dizer?”

Picasso deu de ombros e disse: “Olhe para fora da janela – o que aquela árvore quer dizer? E aquele pássaro cantando? E qual é o sentido do alvorecer? E, se este todo existe sem significar coisa nenhuma, por que minhas pinturas precisam ter algum significado?”

Por que você pergunta pelo significado? Você quer interpretar, quer dar um padrão lingüístico, quer comunicar, e não comungar. Não, a natureza não quer dizer coisa nenhuma. Ela está presente em sua glória total. Ela é um significado, mas não quer dizer coisa nenhuma. O significado é existencial. Olhe, observe, sinta, penetre nela, deixe que ela penetre em você – mas não faça perguntas. Se você quer fazer perguntas, entre numa universidade; você não pode entrar no Universo. Se você quer entrar no Universo, não pergunte – não há ninguém para lhe responder. Você precisará ter uma qualidade de ser totalmente diferente e, somente então, estará em contato com ele.

Há um relato sobre um mestre zen – um fenômeno muito raro, inacreditável, porque a mente se assusta – que estava fazendo uma pintura no palácio do rei. E o rei repetidamente lhe perguntava se ela já estava pronta.

O mestre dizia: “Espere um pouco mais, espere um pouco mais”.

Passaram-se anos e o rei disse: “Está levando muito tempo. Você não deixa nem mesmo eu dar uma olhada” – porque ele trancava o quarto em que pintava – “e estou ficando velho. Estou cada vez mais curioso para saber o que você está pintando. A pintura ainda não está pronta?”

O mestre respondeu: “A pintura está pronta, mas estou esperando você – você não está pronto. A pintura ficou pronta há muito tempo, mas esse não é o ponto. A menos que você esteja pronto, para quem eu a mostrarei?

A existência está aí, pronta, sempre esperando. A cada momento, a cada curva da estrada, logo na esquina, ela está sempre esperando e esperando. Ela tem uma paciência infinita – mas você não está pronto.

Diz-se que finalmente o rei ficou pronto e o pintor disse: “Tudo bem, chegou a hora”. Eles entraram no quarto – ninguém mais teve permissão de entrar. A pintura era realmente maravilhosa. Era difícil dizer se era realmente uma pintura – ela parecia real. O mestre fez uma pintura de colinas e vales que pareciam tridimensionais, como se existissem de fato. Entre as colinas havia um pequeno caminho levando a algum lugar.

Agora vem a parte mais intricada da história. O rei perguntou: “Esse caminho vai dar aonde?”

O pintor disse: “Ainda não andei por ele, mas espere, vou ver”. Ele entrou no caminho e desapareceu além das colinas e nunca mais voltou.

É isto o que significa um mistério: ele diz muitas coisas sem nada dizer.

Se você for à natureza para descobrir aonde ela vai dar, não fique de fora para perguntar, porque assim nada pode ser feito. Você precisa penetrar nela. Se você penetrar, nunca voltará, porque o próprio movimento em direção à existência... e você perde o seu ego, você desaparece. Você atingirá o objetivo, mas nunca voltará para relatar a história. O pintor nunca voltou. Ninguém voltou, ninguém pode voltar, porque quanto mais existencial você se tornar, mais seu ego se perderá.

A existência abre milhões de portas para você, mas você fica de fora e quer saber algo à respeito de fora. Na natureza, não existe fora. Tudo está dentro... porque como algo pode existir fora da natureza? O todo é o interior. E a mente está tentando o impossível, está tentando ficar de fora, observar, perceber o que ela significa. Não, você precisa participar, precisa entrar nela, se integrar e se dispersar como uma nuvem – em algum lugar desconhecido.


Agora preste atenção nestas palavras de Heráclito:

“É melhor que as coisas não aconteçam às pessoas exatamente como elas querem...”

Por que? Por que não seria melhor? Porque tudo o que você deseja está errado, pois você está errado – como você pode desejar ou querer algo certo? Para desejar algo certo, em primeiro lugar, você precisa estar certo. A partir da ignorância, tudo o que for desejado o levará a um inferno cada vez mais profundo, porque um desejo é parte de você, ele vem de você. Como algo diferente pode vir? Tudo o que vier será você. É por isso que seus desejos criam cada vez mais problemas. Quanto mais você desejar, mais problemas criará. Quanto mais satisfizer seus desejos, mais estará em dificuldades. Mas não há retorno, você precisa seguir em frente. Daí a insistência de todos os que sabem: para encontrar a existência, o primeiro ponto é entrar num estado de ausência de desejos.

Nada está errado em desejar; desejar, em si, é belo... se um Buda desejar. Mas você desejar? Como você pode desejar algo que o conduzirá ao estado de graça? Não – porque o desejo vem de você, ele é parte de você. Ele é uma continuidade e, se você estiver errado, o desejo estará errado. Ele continuamente repetirá você – em diferentes situações, é claro, em diferentes mundos, em diferentes planetas, em diferentes vidas, mas seu desejo repetirá você. Seu desejo não pode transformá-lo. É por isso que digo às pessoas: “Se você tem intenção de ser iniciado, se tem a intenção de dar um salto no desconhecido, não pense a respeito – deixe isso comigo”. Por que a ênfase em deixar comigo? Somente para que você não o deseje. Deixe que seja algo que não venha de você, porque tudo o que vier de você será você – modificado, colorido de maneiras diferentes, mas será você.

Se você for um negociante e deseja moksha, a libertação, isso será um negócio, e não pode ser de outra maneira. Você estará procurando lucros – no outro mundo, é claro, mas tudo o que vier de sua mente será a partir do seu passado. E uma quebra é necessária, uma completa cisão é necessária, uma cisão intransponível.

Esse é o significado de ir até um mestre e se entregar. O que você entrega? Você entrega o seu desejar – o que mais você pode entregar? Você não tem mais nada. Você diz: “Agora não desejarei. Agora diga algo e o farei”. Você está permitindo que uma outra coisa entre em seu passado. Se você disser: “Sim, estou convencido, estou pronto a ser iniciado”, a iniciação será inútil. Se a iniciação acontecer a partir da sua convicção, ela não tem sentido. Mas este é o problema: primeiro você gostaria de ser convencido, primeiro gostaria de argumentar a respeito. Sua mente gosta de decidir.

Pessoas me procuram e dizem: “A menos que o desejo nasça em nós, como poderemos dar o salto?” Mas o problema é precisamente esse. Continuamente você tem desejado a partir de você mesmo, por muitas vidas, e isso não o levou a lugar nenhum – não pode levar. Você pode perceber o ponto? Você está errado, você deseja, e o desejo está errado. É isto. Você está errado, você acredita, e a crença está errada.

Você ouviu falar do rei Midas? Tudo o que ele tocava transformava-se em ouro. Tudo o que você toca, mesmo se for ouro, imediatamente se transforma em poeira. A questão não é um desejo correto ou incorreto. A questão não é um ato correto ou incorreto. Não existe tal coisa como um ato correto ou incorreto, e não existem desejos corretos ou incorretos. Existe somente um ser que deseja. Se ele for ignorante, tudo o que vier dele será incorreto. E, se o ser que deseja não for ignorante, algo totalmente diferente nasce a partir dele.

Lembre-se: o ser importa, e somente o ser importa – e nada mais.

“É melhor que as coisas não aconteçam às pessoas exatamente como elas querem...”

Pare de querer! Você tem vivido em infernos porque tem desejado. Pare de desejar! Pare de desejar e as portas se abrem. O desejo reforça a sua mente.

Tente entender a natureza do desejo. Desejar significa projetar o seu passado no futuro. E o futuro é desconhecido, e tudo o que você pedir será a partir do passado. Todo desejo repetirá continuamente o passado. Como você pode desejar o desconhecido? Como pode desejar o que está no futuro? Você não o conhece. O futuro é o desconhecido, o passado é o conhecido. Se você desejar será a partir do passado.

Mulla Nasruddin estava em seu leito de morte. Alguém lhe perguntou: “Se você nascer de novo, gostaria de viver de modo novo, ou gostaria de ter a mesma vida?”

Mulla ruminou bastante e, finalmente, abriu os olhos e disse: “Sempre quis partir o cabelo ao meio. Essa seria a única mudança. Eu sempre penteio o cabelo para a direita, e sempre quis parti-lo ao meio. Quanto ao resto, tudo seria igual ao que é”.

Parece estúpido, mas é assim que acontece. Se você pensar, se um outra chance for dada a você, o que você faria? Todas as mudanças que você gostaria de fazer não seriam mais do que o pedido de Mulla. Elas seriam apenas partir o cabelo ao meio. Você gostaria de ter uma outra mulher – mas que diferença faria? Você gostaria de ter outra profissão. Que diferença isso faria? Não seria mais do que partir o cabelo ao meio.

Você não pode pedir o passado, e o futuro é desconhecido. Por você ficar pedindo o passado, caminha num círculo vicioso. Esse círculo é o mundo, o sansar, o ir e vir, o nascer de novo e o morrer de novo. Repetidamente você faz a mesma coisa. Nenhuma mudança básica! Não pode haver, porque tudo o que você pensar, pensa a partir do conhecido. O conhecido é o seu passado. Então, o que fazer? Não deseje. Deixe que o futuro venha sem desejá-lo. O futuro virá – ele não precisa ser desejado. Ele já está vindo! Você não precisa forçar as suas projeções sobre ele. Seja passivo, não seja ativo a respeito. Deixe que ele venha. Não peça nada – esse é o significado da ausência de desejo. Não se trata de sair do mundo, de renunciar ao mundo e ir para o Himalaia – todas essas coisas são imaturas.

Partir, renunciar, significa não desejar – e esperar sem qualquer desejo, apenas esperar: “Tudo o que acontecer, serei uma testemunha”. Se você puder esperar sem desejar, tudo acontecerá a você – e acontecerá a partir da totalidade, do todo, do próprio Deus. Se você pedir, se desejar, acontecerá, mas acontecerá a partir de você mesmo. Você se fecha em si mesmo e nunca permite que a existência lhe aconteça.

“É melhor que as coisas não aconteçam às pessoas exatamente como elas querem...”

Heráclito diz: “É bom que as coisas não aconteçam como você quer.” Essa é a única possibilidade para o seu despertar. Por isso ele diz que é bom – porque, se todo desejo fosse satisfeito, você ficaria completamente em coma, pois em você não haveria mais perturbação. Você desejou riquezas e as riquezas estão aí; você desejou belas mulheres e belas mulheres estão aí; você desejou sucesso e o sucesso está aí; você desejou uma escada para alcançar o paraíso e a escada está aí. Você ficaria em coma, estaria num sonho. Se tudo fosse satisfeito, você jamais tentaria procurar a verdade. Não haveria intervalo para você... porque somente a miséria, dukkha, a infelicidade, o inferno que você cria à sua volta o ajudará a despertar. Isso o chacoalha para acordá-lo.

Na mitologia hindu está escrito que, num paraíso de deuses, todos os desejos são satisfeitos imediatamente, sem nenhum intervalo de tempo. Na concepção hindu do paraíso, existem árvores que satisfazem os desejos, kalptarus. Você se senta sob elas e deseja qualquer coisa, e sem nenhum intervalo de tempo... aqui você deseja e aqui recebe. Nem mesmo um único momento é perdido. Você pede uma bela mulher e ela aparece. Mas esses deuses devem estar vivendo em sonhos, devem estar vivendo drogados.

Os hindus dizem que do paraíso não há caminho que leve à verdade. Isso é muito belo. Eles dizem que, se um deus deseja se libertar completamente, terá de vir à terra. Por que? Porque no paraíso não existe infelicidade, não existe miséria para despertar alguém. Trata-se de um sono longo e tranqüilo, onde os sonhos são continuamente satisfeitos. Se todo sonho é satisfeito, porque o sonhador deveria abrir os olhos? Mesmo os deuses precisam vir à terra, e somente então podem ser libertados. Essa é uma concepção rara. Os cristãos não têm esse tipo de concepção; o paraíso deles é a última coisa. Mas os hindus dizem que ele não é a última coisa – ele é apenas um estado de sono bom e belo. Bom, belo, longo, muito longo, pode durar milhares de anos, mas é um estado de sonho. Para os deuses serem libertados, eles precisam descer de volta à terra. Por que à terra? Porque na terra existe miséria, dor, angústia... e somente a angústia é necessária. Somente isso pode sobressaltá-los e tirá-los de sua soneca.

“É melhor que as coisas não aconteçam às pessoas exatamente como elas querem...”

Uma coisa ou outra sempre sai errada, e isso é belo! Se nada sair errado, se tudo o que acontecer for o que você gostaria que acontecesse, quem desejaria a verdade, quem procuraria a existência, quem desejaria a liberdade, a liberdade total, moksha? Ninguém!

Por meio das drogas, as pessoas estão tentando ser como deuses do paraíso hindu. Você fuma maconha ou haxixe, ou toma LSD, e entra num estado de sonho, um belo estado de sonho, e fica sob uma árvore que satisfaz seus desejos. As drogas são contra a verdade, porque a verdade necessita de um despertar – despertar do passado, despertar dos sonhos, despertar de seus desejos para perceber toda a falsidade que você criou à sua volta e para abandoná-la. E abandoná-la sem nenhum esforço, apenas perceber que ela está errada e abandoná-la.

Lembre-se: se você fizer muito esforço para abandoná-la, o próprio esforço o torna feio. A compreensão não precisa realmente de muito esforço. Você compreende algo, percebe a realidade e o abandona. Você não pode perceber que está infeliz devido a seus desejos? Isso é algo para argumentar, algo a se convencer? Você não pode perceber isso? É muito claro que a partir dos desejos você criou um inferno. Então, por que se esforçar? Num puro e intenso momento de compreensão, por que não abandoná-los imediatamente? E, se você puder abandoná-los imediatamente, terá uma beleza e uma graça. Você não encontrará essa graça nos pretensos monges. Por todo o mundo, você não encontrará essa graça nos monges católicos, hindus e jainistas, porque eles estão tentando abandonar os desejos. O próprio esforço de abandonar mostra que eles ainda estão apegados; senão, por que se esforçar? Eles gostariam de parar de desejar, mas esse também é um desejo – e por isso há esforço. Eles se apegam e gostariam de abandonar os desejos. Eles não atingiram um momento de compreensão, um momento de verdade.

Todo o meu esforço para com você é levá-lo a um momento de compreensão no qual o esforço seja inútil. O entendimento é tão intenso, tão ardente, que tudo simplesmente se incendeia. Você percebe, e sua própria percepção se torna o abandonar.

Isso é possível, aconteceu comigo e pode acontecer com você. De maneira nenhuma sou excepcional; sou apenas uma pessoa comum. Se aconteceu comigo, uma pessoa comum, por que não com você? Simplesmente faça uma busca intensa em direção à compreensão. Compreensão é transformação, é mutação, é revelação. A compreensão liberta.

Preste atenção nestas palavras:

“É melhor que as coisas não aconteçam às pessoas
exatamente como elas querer.
A menos que você espere o inesperado,
jamais encontrará a verdade,
pois é árduo descobri-la
e é árduo atingi-la.”


Deixe que estas palavras entrem no seu coração:

“A menos que você espere o inesperado, jamais encontrará a verdade...”

Porque a verdade não pode ser sua expectativa. Tudo o que você esperar será uma mentira, uma projeção, uma parte de sua mente. Não, a verdade não pode ser prevista. Ela o toma de surpresa. Na realidade, ela vem quando você não espera por ela. Ela é uma iluminação repentina.

A expectativa significa que o seu conhecido se projeta no futuro, no desconhecido. Por isso, digo que, se você for cristão, hindu, budista ou jainista, errará o alvo – pois o que significa ser cristão? Significa uma expectativa cristã, significa um Deus visto por meio de olhos cristãos, significa uma concepção, uma filosofia. O que significa ser hindu? Significa um sistema de crença. Isso lhe dá uma expectativa, você espera um Deus, espera a verdade. A verdade será de uma certa maneira, o Deus será de uma certa maneira – a face, a figura, a forma, o nome que você esperou. Sua expectativa é a barreira, porque Deus é o inesperado, a verdade é o inesperado. Ela nunca foi teorizada, nunca foi trazida à linguagem e não pode ser forçada em palavras; ninguém jamais conseguiu e jamais conseguirá. Ela permanece o inesperado! Ela é uma estranha.

Sempre que Deus bater à sua porta, você não encontrará uma face familiar, não. Ele é o não-familiar, o estranho. Você nunca pensou sobre ele, nunca ouviu falar sobre ele, nunca leu sobre ele. Apenas o estranho... E, se você não pode aceitar o estranho, se pedir o familiar, a verdade não é para você. A verdade é uma estranha, ela vem sem dar aviso de que está vindo, ela vem quando você não está esperando, não está aguardando.

Lembre-se disto: as pessoas meditam continuamente, e isso é uma necessidade, mas a verdade nunca ocorre na meditação. Ela acontece fora. Mas a meditação ajuda-o, deixa-o alerta, faz com que você fique atento, faz com que você fique cada vez mais perceptivo e consciente. E subitamente, em algum lugar... ela acontece em momentos inesperados, você não pode entender o motivo de Deus escolher momentos tão inesperados.

Uma monja está carregando água, a alça de bambu quebra e o pote de barro cai e a água escorre... e, repentinamente, ela desperta. O que aconteceu? Por quarenta, cinqüenta anos ela meditou e ele nunca veio – porque meditação significa que você está esperando, está observando algo que irá acontecer. Sua mente está presente, funcionando muito sutilmente – muito, muito sutilmente, você pode até não detectar onde ela está. Você pode achar que agora tudo está em silêncio, nenhum pensamento, mas isso também é um pensamento. Você sente silêncio absoluto, mas mesmo essa impressão de que agora existe um silêncio absoluto e que logo a porta irá se abrir... isso é um pensamento. Quando você fica absolutamente silencioso, mesmo esse pensamento não está presente, que “Estou silencioso”. Mas isso significa que você não deve estar “meditando”. E este é o paradoxo: medite tanto quanto puder para trazer um momento de meditação não-meditativa.

Isso aconteceu com a monja. Ao carregar água, ela não estava preocupada com Deus; a alça de bambu era velha e ela estava preocupada com o bambu. Ela o segurava dessa e daquela maneira, com receio de que ele quebrasse a qualquer momento. E o pote era de barro e ele quebraria. Ela de maneira nenhuma estava à porta da verdade, e a porta estava aberta porque ela meditou por quarenta anos. Assim, a porta estava aberta, mas ela não estava lá... Subitamente, o bambu rompeu, o porte caiu e quebrou e a água fluiu. Foi um choque! Por um momento, mesmo essa preocupação de dissolveu. O que tinha de acontecer, aconteceu. Agora ela está em um momento não-meditativo e Deus está presente, e aconteceu.

Sempre acontece dessa maneira – e tais momentos a pessoa nunca espera. Quando você espera, você perde, porque você está presente em sua expectativa. Quando você não espera, acontece, porque o eu não está presente – ninguém está presente. Quando sua casa está totalmente vazia, tão vazia a ponto de você nem estar ciente de que “estou vazio”... porque esse tanto já será uma perturbação suficiente... Quando mesmo o vazio é jogado fora, ele vem.

“A menos que você espere o inesperado...”

Abandone todas as suas noções sobre Deus. Todas elas são falsas. Deixe que Deus mesmo diga quem Ele é a você. Você deve ter ouvido os hindus dizerem que as noções cristãs são falsas, os cristãos dizerem que as noções hindus são falsas, os jainistas dizerem que as noções cristãs e hindus são falsas, os budistas dizerem que as noções jainistas, cristãs e hindus são falsas – digo que todas as noções são falsas. Não que a minha noção esteja correta – não! Noção, como tal, é falsa, porque ela faz uma teoria a partir do desconhecido, o que não é possível. Todas as teorias são falsas, sem exceção. Todas as teorias são falsas – absolutamente, categoricamente, incluindo as minhas – porque o inesperado permanece o inesperado.

“A menos que você espere o inesperado,
jamais encontrará a verdade,
pois é árduo descobri-la
e é árduo atingi-la”


Na realidade, não é árduo atingi-la e não é árduo descobri-la. Por sua causa, é árduo atingi-la e descobri-la – pois como colocar essa mente de lado? A mente é sutil, ela permanece mesmo ao colocá-la de lado. Ela diz: “Tudo bem, não estarei aqui”. Mas isso também é mente. Ela diz: “Agora, deixe que Deus bata à porta. Eu não estou”. Mas isso também é a mente. A mente diz: “Meditarei, abandonarei todos os pensamentos”. Ela diz: “Olhe, abandonei todos os pensamentos. Olhe! Estou vazia”. Mas isso também é mente. Esse é o problema, tudo o que você faz, a mente está por lá.

Perceba o ponto – nenhum esforço ajudará. Apenas perceba o ponto – a mente existe por meio de pretensões... Perceba o ponto! Por que digo para perceber o ponto? Porque, se você perceber o ponto, não haverá pretensão. Se você não perceber o ponto, a mente poderá enaltecer-se: “Estou aqui sem pretensões”. Perceba o ponto! O vazio é necessário, não a pretensão de que estou vazio. A consciência é necessária, não a pretensão de que sou a consciência – porque sempre que surge o “eu”, você entrou na noite escura da mente. Quando o “eu” não está presente, há luz, tudo fica claro. Uma clareza, uma percepção infinita – você pode perceber amplamente, pode perceber o todo.

Dessa maneira, a única coisa que pode ser feita é observar as artimanhas da mente. E não tente fazer o oposto. Por exemplo, sua mente está repleta de pensamentos – não tente lutar contra os pensamentos, porque esse lutador é a mente. E, se você lutar, a mente alegará o oposto: “Olhe! Abandonei todos os pensamentos. Agora, onde está Deus? Onde está a iluminação?” Não faça o oposto, não crie uma luta, porque com a luta vem a pretensão.

Simplesmente observe e relaxe. Simplesmente observe e divirta-se com as artimanhas da mente. Divirta-se, elas são tão belas! Quão enganadoras, quão ilusórias! Como elas insistem em vir sem parar! Os hindus sempre dizem que elas são como a cauda de um cão. Mesmo se ela for mantida na reta por doze anos, no momento em que o esforço for interrompido, a cauda se curva novamente.



Um dia eu conversava com uma criança e ela disse: “Estamos nos esforçando para endireitar um amigo – porque ele não acredita em Santa Clara”. Num outro dia ele continuou: “Depois de sete dias de esforço, ele se rendeu e afirmou que agora acredita nela”. Mas, no dia seguinte, o menino disse: “Precisamos nos esforçar mais”.

Perguntei: “O que aconteceu? Ontem você disse que ele tinha se endireitado. Então, pra que se esforçar agora?”

O menino respondeu: “Ele deu pra trás de novo – nós o endireitamos, mas ele sempre dá para trás”.

Essa é a natureza da mente. Não há o que fazer. Essa é a natureza da mente – entenda-a, e isso é tudo. O entendimento é suficiente. Se não for assim, fica difícil... Você pode insistir, mas a mente o seguirá como uma sombra, e tudo o que você alegar será uma alegação da mente. É por isso que todos os sábios dizem: “Os que alegam que sabem, não sabem. Os que dizem que atingiram, não atingiram”. Por que? Porque a própria alegação é perigosa.

“A menos que você espere o inesperado
jamais encontrará a verdade,
pois é árduo descobri-la
e é árduo atingi-la.
A natureza adora se ocultar.”


Esse é um jogo de esconde-esconde. Ele é belo assim como é! A natureza não está na superfície, ela está oculta no centro. A natureza é como as raízes das árvores, ela fica na profundidade do solo – o mais essencial está oculto. Nunca considere que a árvore é o mais essencial. Ela é apenas a periferia de onde vêm as flores, as folhas, os frutos; ela é a periferia. A árvore verdadeira existe no subsolo, no escuro; ela está oculta no útero escuro da terra. Pode-se cortar a árvore e uma nova árvore brotará, mas corte as raízes e tudo desaparece.

Você não está na superfície de sua pele; essa é a periferia. Você é o subsolo profundo e oculto. E Deus não está na superfície. A ciência aprende cada vez mais sobre a superfície, aprende cada vez mais sobre a pele. Não importa o quão fundo a ciência vá, ela nunca vai realmente fundo, porque ela aprende de fora. De fora pode-se aprender somente sobre a pele. O real está oculto no interior, no santuário mais íntimo. Também em você ele está oculto no santuário mais íntimo. Você vive na periferia e assim o perde. E a existência tem um centro – o centro está oculto.

“A natureza adora se ocultar(...)”

Por que? Por que a natureza adora se ocultar? Porque esse é um jogo. Em sua infância você deve ter brincado de esconde-esconde. Para Heráclito, a existência é um jogo, é uma leela, uma brincadeira. Ela se oculta, e isso é belo! – e você precisa descobrir. E no próprio esforço de descobrir, você cresce.

Existem dois tipos de pessoa. Um chamo de não-descobridoras: elas permanecem na periferia. E as descobridoras: elas caminham e direção ao centro. As pessoas que vivem na periferia são mundanas. O mundo dos negócios é periferia, a política é periferia, sucessos e conquistas são periferia. Elas não são descobridoras, não são aventureiras. Mesmo se forem para a lua, isso não é uma aventura, porque elas permanecem na periferia. A aventura verdadeira é religiosa, é caminhas para o próprio centro do ser.

Primeiro você precisa entrar em você mesmo, porque você é um mundo em miniatura. Você caminha para o seu centro e, a partir desse centro, tem o primeiro vislumbre de como as coisas são. O real está oculto. Na periferia estão as ondas, os sonhos; na periferia há apenas uma representação. Na profundidade, no âmago mais profundo da existência, está o oculto. Heráclito o chama de harmonia oculta.

Caminhe em direção ao ser, ao centro, à própria base. Procure sempre as raízes, e não se deixe enganar pelas folhagens. Mas você é enganado pelas folhagens – se uma pessoa é bonita na superfície, você se apaixona; você se apaixonou pela folhagem. Mas a pessoa pode não ser bonita por dentro, ela pode ser absolutamente feia – e você caiu na armadilha. Há uma graça interior quando a luz brilha por dentro e chega também na periferia; não se pode ver de onde ela está vindo. Você pode ver uma pessoa bonita e, ainda assim, feia, e pode ver justamente o oposto também acontecendo: uma pessoa feia e, ainda assim, bonita.

Quando uma pessoa feia é bela, não se pode encontrar a fonte, onde ela está, porque a pele as superfície, a estrutura e a fisiologia não são atraentes – mas algo interior o atrai. Quando acontece da pessoa ser bela na superfície e também no ser interior, trata-se de algo muito misterioso. Então, o que acontece é carisma. Algumas vezes você sente um carisma à volta de uma pessoa – carisma significa que existe alguma harmonia oculta entre a superfície e o centro; a personalidade tem um magnetismo, algo do divino. Esse encontro da periferia com o centro é uma harmonia oculta.

“A natureza adora se ocultar(...)”

Por que? Porque somente por meio do ocultar-se o jogo pode continuar; do contrário, o jogo cessará. O jogo continua, ele é eterno.

E lembre-se também disto: mesmo se você encontrar, o jogo continua, mas então ele também tem uma qualidade diferente. Nunca ache que o jogo terminará quando você encontrar o âmago mais profundo. Não, o jogo continua. Agora com consciência, muitas vezes você se afasta do centro oculto; com consciência, você dá uma chance para a natureza se ocultar novamente – mas agora é proposital. É como duas crianças brincando, e uma sabe onde a outra está escondida. Para dar certa qualidade ao jogo, ela procura em todos os lugares e corre por toda parte, exceto naquele lugar. Ela sabe onde a outra está escondida, ela poderia pegá-la de cara, mas fica dando voltas.

Os budas continuam a jogar, mas o jogo muda. Agora eles sabem, agora não há ansiedade, não há desejos, nada a ser atingido. Agora, trata-se de um simples jogo. Não há objetivo nele – ele continua.

Assim, há duas possibilidades. Um jogo ignorante... é isso o que está acontecendo com você. Por você ser ignorante, você leva o jogo muito a sério – a seriedade se torna uma doença – e fica triste a respeito. Pessoas me procuram... se elas meditam e não alcançam, ficam muito sérias e frustradas. Eu digo para não ficarem sérias e frustradas, porque este é todo o ponto a ser entendido: trata-se de um jogo! Não há pressa para terminá-lo; ele não é um negócio. Deixe que ele se estenda tanto quanto possível. Por que tanta pressa? Por que ficar tão tenso? A infinidade está à frente, um tempo eterno está à frente, não há pressa. Você sempre estará presente e o jogo sempre estará presente – ele sempre existiu e sempre existirá. Tome-o com leveza... leve-o numa boa! Ele está sempre na esquina, a qualquer momento pode ser descoberto.

Mas por que tanta pressa? Relaxe – se você puder relaxar, chegará mais cedo ao centro. E, se estiver com pressa, permanecerá na superfície, pois uma mente apressada e tensa não pode se dirigir aos reinos mais profundos do ser. Somente a paciência o ajuda a se estabelecer na essência, na verdadeira essência.

“A natureza adora se ocultar(...)”

É belo a natureza adorar se ocultar. A natureza não é exibicionista. Ela não é exibicionista. A impressão de que ela consiste na folhagem é apenas uma maneira de se ocultar. De uma maneira sutil, Deus está se ocultando na flor. Se você simplesmente perceber a flor, errará o alvo.

Um poeta inglês, Tennyson, disse corretamente: “Se eu puder entender uma flor em sua totalidade, compreenderei Deus”. Ele está certo! Se você puder entender uma pedrinha na praia em sua totalidade, compreenderá Deus, pois esses são todos os esconderijos. Uma flor é um esconderijo, uma pedrinha também é um esconderijo. Ele está oculto em todos os lugares – milhões de formas. Onde você estiver, ele estará presente em todas as formas à sua volta. Qualquer forma pode passar a ser uma porta. Ao ter prontidão para entrar, ao não ter expectativa, ao não desejar, ao não pedir ou projetar algo, repentinamente a porta se abre.

“(...) O senhor cujo oráculo está em Delfos nem fala nem encobre – mas dá sinais.”

Em Delfos há um velho santuário grego, e as pessoas costumavam ir ao oráculo de Delfos par fazer perguntas. Mas o oráculo de Delfos nunca disse nada, ele simplesmente dava sinais. Heráclito o usa como uma parábola. Ele diz que Deus, o total, o todo, nunca fala em termos de sim ou não – ele simplesmente dá sinais. Ele é poético, ele lhe dá símbolos. Não tente interpretá-los. Se você interpretar, perderá. Apenas observe e deixe o sinal penetrar mais fundo em você e ser impresso em seu coração. Não tente encontrar o significado imediatamente, pois quem descobrirá o significado? Se você encontrar o significado, ele será o seu significado. Apenas deixe o sinal, o símbolo, ser impresso em seu coração e, algum dia, a vida revelará o significado. Você simplesmente vive com ele, simplesmente deixa que ele esteja presente.

Por exemplo, você vem a mim e pergunta: “como a minha meditação está indo?” Você me pergunta e eu sorrio. Eu lhe dei um sinal. O que você fará com isso? Você pode interpretar. Essa é a primeira tendência da mente. Você pensará: “Tudo bem, ele sorriu, e isso significa que estou chegando lá. Ele disse sim e tudo está indo bem. Estou no caminho certo”. Seu ego fica satisfeito. Se você estiver numa disposição de ânimo positiva, essa será a interpretação. Mas, se você estiver numa disposição de ânimo negativa, pensará: “Ele sorriu – ele não disse sim e apenas foi gentil, mas não estou indo a lugar nenhum”.

Das duas maneiras você errou o alvo, pois, se houvesse um sim a ser dito, eu o teria dito. Eu não o teria colocado numa tal dificuldade para encontrar a interpretação. Se houvesse um sim a ser dito, eu o teria dito; se houvesse um não a ser dito, eu também o teria dito. Mas eu simplesmente lhe sorri, não disse nem sim nem não. Na realidade, eu nada lhe disse – eu lhe dei um sinal. Não o interprete! Deixe que esse sorriso penetre fundo em seu coração, deixe que esse sorriso esteja presente. Algumas vezes lembre-se dele, coloque-o de volta no coração, deixe que ele se dissolva em você e não tente encontrar o significado – e isso ajudará na sua meditação. Um dia, subitamente, num profundo estado meditativo, você começará a sorrir da mesma maneira que eu sorri, porque esse momento será o momento da compreensão. Então, você poderá sorrir, pois saberá qual era o significado.

A vida é sutil. O “sim” e o “não” não podem ser usados. A vida é tão sutil que, se você disser sim, você o falsifica, e, se disser não, você o falsifica também. A linguagem é muito pobre, ela conhece somente duas coisas, sim e não. E a vida é muito rica, ela conhece infinitas posturas e posições entre o sim e o não – infinitas gradações. Trata-se de um espectro de milhões e milhões de cores. Sim e não são muito pobres – você nada diz com eles. Sim e não significam que você dividiu a vida em preto e branco. Mas a vida tem milhões de cores, ela é um arco-íris.

Na realidade, o preto e o branco não são cores. Tirando o preto e o branco, todas as cores existem. Você precisa entender isso. O preto é a ausência de todas as cores, ele não é uma cor. Quando nenhuma cor está presente, o vazio é escuro; em si mesmo, ele não é uma cor. É por isso que o preto não é muito encontrado na natureza. Ele é uma ausência. E o branco também não é uma cor, mas uma mistura de todas as cores, elas viram branco; ele não é uma cor. Branco é um pólo, preto é outro. A presença de todas as cores é o branco, a ausência de todas as cores é o preto. Entre essas duas polaridades, existem cores reais – verde, vermelho, amarelo e todas as suas variações, milhões de variações.

Quando lhe sorrio, não estou dizendo preto ou branco, sim ou não – estou lhe dando uma cor no espectro, uma cor real. Não tente interpretar, pois se o fizer, dirá que é preto ou branco, e não se trata de nenhum dos dois. A cor está em algum lugar no meio, e ela é tão sutil que palavras não podem expressá-la. Se palavras pudessem expressá-la, eu lhe daria uma palavra e não o teria colocado desnecessariamente em dificuldade.

Você me procura, diz algo e eu não respondo. Algumas vezes acontece de você vir me ver e eu nem mesmo lhe faço uma pergunta e simplesmente o esqueço. Eu interpelo outros e deixo você de lado. Você interpretará isso: “Por que?” Não interprete, simplesmente deixe esse ato entrar fundo em você. Algum dia, numa disposição de ânimo muito meditativa, o significado florescerá. Estou pondo sementes em você, e não lhe dando palavras e teorias.

Quando eu me for, por favor, lembre-se de mim como um poeta, e não como um filósofo. A poesia precisa ser entendida de maneira diferente – você precisa amar a poesia, e não interpretá-la. Você precisa repeti-la muitas vezes, de tal modo que ela se misture com o seu sangue, com os seus ossos, com a sua própria medula. Você precisa recitar poesia muitas vezes, de tal modo que possa sentir todas as nuanças, as suas formas sutis. Você precisa sentar-se simplesmente e deixar a poesia entrar em você, para que ela passe a ser uma força viva. Você a digere e depois se esquece dela; ela entra cada vez mais fundo e o transforma.

Deixe que eu seja lembrado como um poeta. É claro, não estou escrevendo poesias em palavras. Estou escrevendo num veículo mais vivo – em você. E é isso o que toda a existência está fazendo.

Heráclito diz: “O senhor cujo oráculo está em Delfos nem fala nem encobre – mas dá sinais.”

Um sinal não deve ser interpretado, um sinal deve ser vivido. Sua mente terá a tentação de interpretá-lo. Não seja tentado pela mente; apenas diga a ela: “Isso não lhe diz respeito, não é para você. Vá brincar com outras coisas. Deixe que isso penetre mais fundo em meu ser”. E é isso o que faço quando me comunico com você.

Não estou me comunicando com sua mente, mas com você como ser, como ser luminoso, como deus encarnado, como uma possibilidade, como uma potencialidade infinita. Estou me comunicando com o seu futuro, e não com o seu passado. Seu passado é lixo – jogue-o fora! Não o carregue. Estou me comunicando com o seu futuro, o inesperado, o desconhecido. Aos poucos você será capaz de ouvir esta música, a música do desconhecido, a música em que todos os opostos desaparecem e surge uma harmonia oculta.

Sim, a natureza adora se ocultar, porque ela é um mistério. Ela não é uma questão, não é um quebra-cabeça a ser resolvido. Ela é um mistério a ser vivido, desfrutado, celebrado.



Osho

segunda-feira, junho 01, 2009

O Cristo (Joel S. Goldsmith)

Joel S. Goldsmith


Uma antiga escritura revela: "É difícil de se entender: doando nosso pão, nos tornamos mais fortes; dando nossas roupas aos outros, ganhamos em formosura; fundando moradas de pureza e verdade, adquirimos grandes tesouros".

Abraão, pai dos hebreus, baseou a prosperidade do seu povo na idéia do dízimo — doar um décimo dos ganhos para propósitos espirituais e caritativos, sem pensar em retorno ou recompensa.

"A imortalidade pode ser alcançada apenas pela prática contínua de atos de benevolência, e a perfeição se obtém pela compaixão e pela caridade." Quanto maior o degrau de amor altruísta que galgamos, mais nos aproximamos da compreensão do Eu universal como nosso ser real.

O sentido pessoal de "eu" (ego) está ocupado em ter, em obter, em desejar, em conseguir e acumular; enquanto nosso Eu verdadeiro está empenhado em dar, conceder, repartir e abençoar.

O sentido pessoal de "eu" representa a corporificação de todas as nossas experiências humanas, muitas das quais limitadas e indesejáveis. O Eu verdadeiro corporifica as idéias e atividades infinitas, espirituais, que se manifestam continuamente, sem limites ou restrições.

O pequeno "eu" preocupa-se basicamente com seus problemas pessoais e seus negócios, dilatando seus limites para incluir neles seus parentes próximos e seus amigos. O sentido pessoal, muitas vezes, avança além, envolvendo-se em trabalhos caridosos e de assistência comunitária, mas quando analisamos seus motivos percebemos tratar-se de ação governada pelo próprio sentido pessoal.

O "Eu" verdadeiro alimenta sua vida do centro do seu próprio ser, abençoando todos os que dele se aproximam; é reconhecido pelo seu altruísmo e desinteresse, por não buscar o reconhecimento, a recompensa ou qualquer engrandecimento pessoal. Não se trata de uma entidade sem vigor ou de um boneco que possa ser manipulado pelos mortais — de fato não pode nunca ser visto nem compreendido pelos mortais.

Recordo-me de dois belos exemplos que, em quadros comoventes, revelam as diferenças entre o pequeno eu pessoal e o Eu imortal.

Sidharta, que abandonara o lar e a família em busca da Verdade, recebeu por fim a iluminação, tornando-se o Buda, o Iluminado ou, poderíamos dizer, o Cristo do seu tempo. Seu pai, grande rei, sentindo a morte se aproximar e desejando rever o filho, mandou procurá-lo, pedindo que retornasse. Ao rever o filho, percebeu que o perdera, em sentido pessoal de pai e filho, mas assim mesmo tentou reconquistá-lo. Disse o rei: "Eu te daria meu reino, mas se o fizesse, teria para ti o mesmo valor da cinza". Buda respondeu-lhe: "Sei que o coração do rei transborda de amor... mas deixe que os laços do amor que te prendem ao filho que perdeste enlacem igualmente todos os teus súditos; assim em lugar de Sidharta receberás algo muito maior: receberás o Iluminado, o Mestre da Verdade, o Pregador da Retidão e ainda a Paz de Deus em teu coração".

O outro exemplo diz respeito ao grande Mestre. "E falando ainda à multidão, estavam fora sua mãe e seus irmãos que desejavam falar-lhe. E disse-lhe alguém: Eis que estão lá fora tua mãe e teus irmãos querendo te falar. Mas ele respondeu àquele que o chamara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E abrindo seus braços, apontando seus discípulos, disse: Pois qualquer um que faça a vontade do meu Pai que está no céu, este é minha mãe, minha irmã e meu irmão."

À medida que nos tornamos espiritualmente iluminados, somos procurados por aqueles que buscam se libertar de diversas formas de trevas materiais — da doença, do pecado, do medo, da limitação, da agitação e da ignorância. E nós podemos defrontar estas necessidades impersonalizando tanto o bem como o mal, e compreendendo que a harmonia é uma atividade e uma qualidade da Alma, que se expressa universal e individualmente.

Na meditação, ou comunhão, nos tornamos receptivos à Verdade que se desdobra dentro de nós — e a isto nós chamamos de oração. Nosso orar não deve ter ligação com o chamado paciente. De fato, a oração não é um processo, uma combinação de palavras ou pensamentos, de colocações, de declarações, de afirmações ou de negações. A oração é um estado de consciência no qual experimentamos a percepção da harmonia, da perfeição, da unidade, da alegria, da paz e do domínio. Com freqüência, a meditação ou comunhão traz ao indivíduo alguma verdade específica, e esta verdade aparece externamente como o fruto de sua própria conscientização do ser real.

Foi revelado, vezes incontáveis, que o talento, habilidade, educação e a experiência de cada indivíduo são de fato a Consciência que se desdobra em caminhos individuais — como artista, músico, vendedor, homem de negócios ou ator. Segue-se disso que a Consciência, que expressa a Si mesma, nunca está sem oportunidade, reconhecimento e aceitação. Assim, não pode haver dom sem reconhecimento, um talento ou habilidade sem expressão, um esforço sem recompensa, uma vez que todos os esforços e ações são Consciência expressando suas infinitas capacidades e possibilidades. A percepção consciente desta verdade fará dispersar a ilusão de desemprego, a falta de recompensa ou de reconhecimento. Contudo, guarde isso muito bem: a repetição destas palavras sem uma parcela de "sentimento" da verdade que encerram, será como "nuvens sem chuva", "vãs repetições", nada.

Desta mesma maneira já foi revelado que há apenas uma Vida, e que esta única Vida nunca está sujeita ao perigo de doença, de acidente ou morte. Esta Vida é a vida do ser individual. Nunca é necessário tratar diretamente uma pessoa ou um animal, mas estar sempre alerta para nunca aceitar a idéia ou sugestão de qualquer outra presença, poder ou atividade que não a única Vida, a única Lei, a única Alma. O viver constantemente nesta consciência do bem, da harmonia, dissipará a ilusão dos sentidos, quer se manifeste como pessoa doente ou pecadora. O simples declarar ou afirmar constante desta verdade nos seria de bem pouca valia, enquanto sua conscientização ou sentimento se nos manifestará como cura, como modificação, como renovação e até mesmo como ressurreição.

Recentemente, escrevi a um amigo por ocasião de seu aniversário, e creio que ele gostaria que eu compartilhasse com vocês as idéias que me ocorreram no caso:

“Quanto aos votos de aniversário, eu apenas gostaria que não tivesse qualquer aniversário, de modo que se lhe tornasse familiar a idéia de continuidade da existência consciente, sem parada ou interrupção — a conscientização do desenvolvimento progressivo.”

Na verdade, não há interrupção na continuidade da consciência que desenvolve, nem pode a consciência deixar de estar cônscia do corpo, assim como você jamais perde a consciência musical ou artística, ou qualquer outro talento que porventura possua.

A consciência se desdobra de dentro para fora de uma fonte ilimitada, da infinitude do seu ser, para a percepção individual de si mesma, em infinitas variedades, formas e expressões.

A morte é a crença de que a consciência perde a percepção do seu corpo. A imortalidade é a compreensão da verdade de que a consciência está eternamente ciente de sua própria identidade, corpo, forma ou expressão.

A consciência, cônscia do seu infinito ser e corpo eterno, é a imortalidade atingida no aqui e agora. A percepção de que "a consciência mantém sua própria identidade e forma" é a vida eterna. A percepção de que a consciência se desdobra eternamente nas formas individuais da criação ou manifestação, é a imortalidade demonstrada aqui e agora. "Esta consciência é VOCÊ."

A consciência espiritual é o abandono do esforço pessoal na realização de que a harmonia é algo que "já é". Esta consciência, com a renúncia ao esforço pessoal, é atingida quando percebemos o Cristo dentro de nós como uma realidade presente. O Cristo é a atividade da Verdade na consciência individual. É mais uma receptividade à Verdade do que a sua verbalização. Na medida em que conseguimos a quietude interior, tornamo-nos sempre mais receptivos à Verdade que se nos revela, dentro de nós mesmos. A atividade desta Verdade na nossa consciência é o Cristo, a própria presença de Deus. A Verdade recebida e mantida continuamente em nossa consciência é a lei da harmonia em todas as nossas vicissitudes. Ela governa, dirige, orienta e suporta todas as nossas atividades da vida cotidiana. Quando nos aparecer a idéia de doença ou carência, esta Verdade onipresente será o nosso curador e nosso recurso; será mesmo nossa saúde e nosso suprimento.

Para muitos, a palavra Cristo continua sendo um termo mais ou menos misterioso, uma entidade desconhecida, algo raramente ou nunca vivenciado diretamente. Se, porém, quisermos nos beneficiar com a revelação da Presença divina ou Poder dentro de nós, feita por Cristo Jesus e outros, teremos de modificar este estado de coisas. Devemos chegar à experiência do Cristo como uma revelação permanente e contínua. Temos de viver com a percepção consciente e contínua da verdade interior ativa; mantendo sempre uma atitude receptiva — ouvidos atentos —, não demorará para que tenhamos a experiência do despertar interior. Esta é a atividade da Verdade dentro da consciência, ou o Cristo que alcançamos.

Uma tal compreensão do Cristo nos esclarecerá a respeito da oração. Todas as definições do dicionário são unânimes em conceituar a oração com base na crença errônea de que haja um Deus, em algum lugar, a esperar que Lhe imploremos de algum modo. Então, se pudermos encontrar este Deus bem disposto, teremos nossas orações respondidas favoravelmente; a menos que, logicamente, nossos pais ou avós, até a terceira ou quarta geração tenham pecado e, neste caso, seremos imputáveis pelos seus pecados e teremos nossas orações jogadas na cesta de lixo do céu.

Nós temos um sentido diferente do que seja a oração. Percebemos que qualquer bem que nos aconteça é o resultado direto da nossa própria compreensão da natureza do nosso próprio ser. Nossa compreensão da vida espiritual se desenvolve à medida da nossa receptividade à Verdade, não orando a Deus, mas deixando que Deus Se revele e Se manifeste a nós. Este é o mais alto conceito de oração; é alcançado quando dedicamos alguns minutos, tanto de dia como de noite, à meditação, a comungar, a escutar. Na quietude, chegamos a um estado de receptividade que nos abre o caminho para sentir ou para perceber a presença real de Deus. Esta percepção, ou sentimento, é a atividade de Deus, a Verdade em nossa consciência, é o Cristo, nossa Realidade.

Normalmente, vivemos imersos num mundo sensorial (material), e nos preocupamos apenas com o objeto de nossos sentidos. E isso nos traz nossa experiência de bem e de mal, de dor e de alegria. Se nós, através do estudo e da meditação, nos voltarmos mais para o lado mental da vida, veremos que nossos pensamentos se tornam mais elevados e, com isso, teremos melhores condições. A medida que refinamos nossas qualidades mentais e manifestamos mais paciência, mais gentileza, caridade e perdão, estas qualidades se refletirão sobre nossa experiência humana. Mas não paremos por aqui.

Mais alto que o plano do corpo e da mente está o domínio da Alma, o reino de Deus. Aqui encontramos a realidade do nosso ser, nossa natureza divina — não que o corpo e a mente estejam separados ou afastados da Alma; apenas que a Alma é o recôndito mais profundo do nosso ser.

Nos domínios da Alma encontramos completa tranqüilidade, paz absoluta, harmonia e domínio. Aqui não encontramos nem bem nem mal, nem dor nem prazer, apenas a alegria de ser. Estamos no mundo, mas não pertencemos a ele, pois não mais vemos o mundo dos sentidos como aparenta ser, mas, tendo despertado nosso sentido espiritual, nós o "vemos como ele é" — vemos a Realidade através das aparências.

Até aqui, buscamos nossa felicidade no universo objetivo, em pessoas, lugares ou coisas. Agora, porém, através do sentido espiritual, do sentido da Alma, o mundo todo tende a nos trazer seus presentes, embora não mais pela busca direta de pessoas ou coisas, mas servindo-se destas como canais. No sentido material, pessoas e coisas são os objetivos — aquilo que desejamos. Através do sentido da Alma, nosso bem se desdobra a partir do nosso interior, embora se apresente como pessoas e condições melhoradas. O sentido da Alma não nos priva dos amigos, da família e do conforto da existência humana, mas nos dá isso com maior segurança, num nível de consciência mais alto, mais belo e duradouro.

Por muitos séculos, a atenção foi focalizada em Jesus Cristo como o Salvador do homem, e ao longo deste século o sentido espiritual da vida oscilou entre dois extremos, entre a luz e as trevas. Um mestre do século XVI escreveu: "Cristo (Jesus) chamou a Si mesmo de Luz do mundo, mas completou dizendo que Seus discípulos também eram a Luz do mundo. Todo cristão em quem esteja vivo o Espírito Santo, isto é, os verdadeiros cristãos, são um com o Cristo em Deus e são como o Cristo (Jesus). Portanto, eles terão experiências semelhantes, e o que Cristo (Jesus) fez, eles também farão".

Nossa tarefa é a descoberta do Cristo na própria consciência. Reconhecemos com alegria e amor profundo o quanto do Cristo foi alcançado, não só por Jesus, mas por muitos videntes espirituais e profetas de todos os tempos. Nosso coração está cheio de gratidão pela revelação do Cristo para tantos homens e mulheres de nossos dias. E olhamos agora para a frente, para a realização do Cristo em nossa própria consciência. "O reino de Deus está em vós, e aquele que o procura fora de si mesmo nunca o encontrará, pois fora de si mesmo ninguém pode ver ou achar Deus; pois aquele que procura Deus, em verdade já O tem."

Temos de compreender a palavra "consciência", pois só podemos comprovar aquilo de que estamos conscientes. Como estamos em termos de consciência? Somos ainda mortais? Ou já renunciamos à nossa individualidade material e reconhecemos ser o Cristo a plenitude, a presença de Deus? Algum dia teremos de abandonar o esforço para tudo conseguir e reconhecer a nós mesmos como sendo o eterno Doador em ação. Temos de alimentar cinco mil pessoas sem ter a preocupação de onde virá o alimento. A multidão pode ser alimentada pela nossa cristicidade. E onde estaria, pois, a carência a não ser na crença de que somos apenas humanos? Temos de nos livrar desta crença e proclamar nossa verdadeira identidade.

Quando nos deparamos com pessoas ou circunstâncias que têm aparência de mortalidade, devemos reconhecer: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo", e aquilo que nos aparece como mortal é ilusão, é nada. Não temos de temer nenhuma circunstância mortal ou material, uma vez que reconhecemos sua nulidade.

A Verdade é simples. Não há verdade metafísica profunda ou misteriosa. Ou é verdade ou não é verdade; e não pode haver verdade profunda ou superficial nem pode haver diversos graus de verdade. Para a verdade ser verdade, deve ser verdade absoluta. Ocupamo-nos agora com a verdade de que nós individualizamos o poder infinito. Não devemos procurar um poder fora ou separado de nós mesmos. Nós individualizamos o poder infinito na medida de nossa conscientização da Verdade.

A Vida, que é Deus, é nossa vida. Há apenas uma Vida, e esta é a vida de todos os seres, de todos os indivíduos. Nós individualizamos esta vida eterna, e não há menos Deus em alguns seres do que em outros. E esta vida, em todos, é sem doença e imortal. Nossa consciência desta verdade é a influência curadora dentro de nós.

Existe apenas uma Consciência, Deus. Esta Consciência onipotente e onisciente se indivualiza em nós; por isso, nossa consciência é o socorro sempre presente em qualquer circunstância. Por esta razão não oramos ou buscamos a um Ser longínquo, mas percebemos a onipresença da divina Consciência como nossa consciência, e deixamos que o aparente problema se vá. A percepção desta verdade nos confirma na consciência da presença da Vida, da Verdade, de Deus. A compreensão da unidade da Consciência como a nossa consciência, da Vida como a nossa vida, é a Verdade eterna.

O próximo passo no desenvolvimento é a descoberta de que, como individualização da Consciência, nós incorporamos em nossa própria consciência nosso corpo, nossos negócios e nosso lar. Podemos comprovar nosso domínio sobre o tempo, o clima, a renda, a saúde e o corpo apenas na medida em que sabemos serem idéias da consciência que somos. O lar, o trabalho e o corpo são idéias nossas, sujeitas à nossa compreensão, e a conscientização desta verdade nos confere o domínio. Isto não nos exalta como seres humanos nem nos torna divinos: isto varre de nós a natureza humana e revela nossa divindade.

Podemos medir nosso desenvolvimento espiritual observando se estamos, ou não, tentando melhorar uma condição física. Temos de lembrar que a vida orgânica do homem, do animal ou da planta não é a Vida, Deus, e sim conceitos humanos e limitados da Vida real; assim, qualquer tentativa de curar, mudar ou corrigir o universo físico é uma evidência de que não temos desenvolvido o suficiente a consciência espiritual.

A Cristo-consciência reconhece que toda a vida é Deus — mas percebe que aquilo que nos aparece como visão ou som materiais não é a Vida, mas mera ilusão ou um falso sentido de existência. A consciência espiritual distingue a vida que é real.

Já que não podemos resolver um problema em seu próprio nível, temos de subir além das aparências para trazer às claras a harmonia do ser. Aquilo que recai sob os cinco sentidos não é a realidade das coisas; assim não podemos julgá-las neste nível. Deixando de lado as aparências, damos as costas ao quadro que se apresenta aos nossos sentidos e começamos a ter consciência da Realidade — daquilo que é eterno.


quinta-feira, maio 28, 2009

O que o homem realmente é

"Eu vim para que tenham Vida, e que a tenham em abundância" (DEUS)
(João 10:10)


Hoje estive contemplando algumas coisas, algumas situações que acontecem muito neste mundo. Me pediram pra fazer uma caridade. Concordei. Era apenas fazer uma doação para poder ajudar uma creche abrigadora de crianças carentes. Me disseram que lá estava faltando comida, alimentos básicos como arroz, óleo de cozinha e leite. E não apenas isso: faltava também outras coisas importantes, como sabonetes, para que eles pudessem fazer sua higiene. Isso também é importante. Só que as pessoas, em geral, não se apercebem disso, e sempre que fazem alguma doação ou caridade, doam coisas consideradas "comuns", ou seja, na maioria das vezes, alimentos e roupas. Ajudei com alguma quantia que tinha comigo naquela hora. Mas depois fiquei pensando e contemplando sobre essas situações existentes não só ao meu redor, na cidade onde moro, mas também em toda e qualquer localidade deste mundo.





"Até quando as coisas serão assim"? - Foi essa a pergunta que deu início à uma série de pensamentos meus à respeito desse tipo de situação.

É legal ajudar o próximo, fazendo algo em prol de suas necessidades. Sem dúvida alguma é um feito nobre, virtuoso, bonito de se fazer, mas "será que as coisas terão sempre de ser assim"? Ajudar alguém é uma virtude, mas é uma coisa bonita para aquele que está ajudando. Se eu ajudo o meu próximo, referencialmente a mim isso foi algo virtuoso; significa que eu fui "alguém bom", que se compadeceu do meu próximo, e portanto, os créditos são meus. Por isso, ser caridoso é uma virtude em relação a mim. Mas e o mundo? Essas coisas deveriam acontecer/existir neste mundo? Quando alguém está passando necessidade, de forma a depender totalmente da vontade de alguém que ele nem conhece -- quando tem sua vida nas mãos da sorte --, não podendo fazer nada por si mesmo... isso é algo bonito/virtuoso para o mundo? Isso deveria existir no mundo? Para o mundo isso é um fenômeno feio.

Não há nada de errado em ajudar o próximo com leite, comida e sabonete. Essas coisas precisam serem feitas enquanto perdurar esse tipo de situação. É uma pena que a comida, o sabonete e o leite sejam coisas que acabam tão rápido. Você pode doar R$100,00 para comprar leite, pão, objetos higiênicos, mas em pouco tempo todas essas coisas terão deixado de existir. Em alguns dias, elas desaparecerão e a situação de necessidade ou fome surgirá novamente. Então será preciso mais outros R$100,00, ou aquelas pessoas irão definhar nas mãos da realidade. Quando chegará o dia em que as pessoas poderão ter condições de fazerem algo por si mesmas, sem precisar ficar dependendo de ninguém? Eu acredito que esse dia pode chegar. Mas a solução, definitavamente, não é somente ficar fazendo doações de dinheiro, roupas, alimentos, utensílios íntimos. Todos esses esforços são materiais. E é a natureza da matéria surgir, passar, e desaparecer.




Surgir, passar e desaparecer - isso acontece com tudo neste mundo: com alimento, bebida, todas as coisas importantes para suprir a necessidade do homem, e, até mesmo, com o próprio homem. O nosso próprio corpo é uma existência efêmera e passageira. Assim como todas aquelas coisas - comida, leite, sabonetes -, em questão de anos o corpo deixa de existir. A nossa Vida existe em meio a todo este contexto material. Nossa Vida está cercada pela materialidade, que surge, acontece, e acaba. O que significa isso? O que a Vida, Deus, está tentando nos "dizer" com todas essas coisas? A Vida não é matéria. Ela está em meio à matéria, mas a Vida em si não é substância material. Só há uma Vida. E a Vida é espiritual. "Estar rodeada de coisas materiais", de "coisas efêmeras", é uma pista, um sinal, uma mensagem; nada mais é que um "meio" muito significativo que a Vida tem e se utiliza para nos transmitir algo. Quantos são os que entendem a mensagem? O que a Vida está dizendo é: "Viu? Aquilo passou, mas você ainda está aqui, e, note, você É sem necessitar realmente daquilo, pois aquilo já não existe mais", a mensagem é essa. A Vida não está na dependência da matéria, não está sequer presa "dentro" da matéria. Ela está fora. A Vida é absolutamente livre de toda e qualquer espécie de coisa que não seja ela própria, é uma existência absolutamente transcendente, imaculável, incontaminável, irremendável e pura. Quando desaparece, a matéria vai-se para sempre. Mas a Vida fica. Fica sempre, exatamente, no único lugar onde ela existe: onde quer que ela exista, é "aqui". Todas as coisas que surgem e desaparecem passam pelo "aqui". Não existe outro lugar para elas "passarem por". A Vida é espiritual. Todas as coisas que são fenomênicas, são matéria. Afinal, o que somos? Nascemos algum dia? Entramos "neste mundo" alguma vez na Vida? Um dia, quando tudo acabar para a matéria, morreremos?

O erro que perpetua e prolifera cada vez mais a dependência de um ser humano em relação a outro, está em dedicar a ele somente esforços no sentido material. Apenas pão, leite, comida e sabonete não são o suficente para resolver a situação. São remédios paliativos: você ministra uma dose hoje, o suficiente para que amanhã o paciente volte com a necessidade de lhe pedir por mais. A doença nunca se cura - apenas é remediada (em doses homeopáticas). Esse tipo de coisa, apenas, não irá mudar ou resolver o quadro ridículo que existe no mundo. Se o mundo continuar agindo assim, nada nunca mudará. O que os homens têm feito é "pescarem" eles mesmos e oferecerem o peixe ao próximo, na esperança de ajudá-los. É necessário que eles ensinem as pessoas a "pescarem" elas mesmas. Não devemos ficar esperando que um dia as coisas resolvam-se sozinhas, ou que sejam resolvidas por Deus. Deus não resolverá as coisas por nós. E Deus não irá um dia voltar numa núvem, cercado de anjos tocando trombetas, como acreditam muitos cristãos, para aniquilar o mal e levar os bons para o paraíso. Os textos revelados no Apocalipse são profecias que realmente irão (ou podem) acontecer, mas tudo o que é dito lá está colocado de forma simbólica. Por isso, mesmo que alguns arguam: "não é necessário resolver a situação de modo definitivo, ensinando-os a pescarem. Apenas continuemos dando-lhes o peixe, porque um dia, Deus virá e porá um fim definitivo em toda esta cruel realidade", isso é alienação. Não esperem que Deus venha e resolva as coisas por nós. Não devemos deixar com Deus, nem colocar nEle a responsabilidade, porque Ele não é o responsável por tudo o que está acontecendo. O retorno de Deus, a segunda vinda de Cristo, está acontecendo exatamente agora, da mesma forma que o Gênesis também está acontecendo exatamente agora.

O que o homem precisa receber, principalmente, é alimento espiritual. Precisa aprender a saber/identificar quem ele realmente é. O homem é a Vida, que passa pela matéria, mas que nunca se prende ou se torna um escravo dela. O tempo todo ele é livre - livre de todos os acontecimentos bons e maus que existem neste mundo -, não importa o que esteja sendo mostrado pelos acontecimento/aparências deste mundo. Quando o homem toma consciência disto, quando a mente do homem entra em contato com esta percepção, ela se desprende de todos os acontecimentos fenomênicos -- principalmente dos acontecimentos malévolos. Ao desprender-se do mal e recuperar sua liberdade inata, seu estado originário -- quando o homem recupera o estado mental exatamente na forma em que ele o recebeu de Deus --, o mal começa a se extinguir sozinho. Por que? Porque o mal só existe na mente do homem. Mais do que alimento material, o homem precisa aprender a se alimentar de alimento espiritual. Mas as pessoas que mais precisam de aprender/saber receber alimento espiritual, só recebem benefícios materiais. A Verdade precisa ser expandida ao máximo, até alcançar o entendimento da mente do mundo todo. Assim, as pessoas começarão a perceber que elas são Vida, e que não são dependentes de situações, que não precisam ficar esperando receber alimentos, que a Vida, por si só, sabe como providenciar alimentos, assim como qualquer outra coisa que a pessoa realmente esteja necessitando.

Pediram a Jesus que se alimentasse de comida, mas a eles Jesus respondeu: "Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis". Quando ele disse: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”, referia-se àquele pão/alimento espiritual, e não a alimentos ou circunstâncias exteriores. Também há um registro onde uma mulher, ao conversar com Jesus, pensou que ele falava à respeito da água que havia dentro de um poço localizado perto deles, mas Jesus disse a ela: "Qualquer que beber desta água (do poço) tornará a ter sede; Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.". Na Revelação do Apocalipse foi dito: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido.”(Apocalipse 2:17). Esse "maná escondido" é alimento espiritual. A Vida não necessita nada, não depende de coisa alguma neste mundo. Essa Vida é Aquele a quem Jesus, por conhecer tão bem e saber tão intimamente, chamou de "Pai", de "meu Deus e vosso Deus". Era só isso o que ele queria: que nós conhecêssemos e soubéssemos quem realmente é Deus. E também que, em virtude dessa Unidade nossa, em Deus, nos amássemos uns aos outros. E, nisso, o ensinamento de Cristo está completo. Mas o mundo não conheceu a Deus da forma que Jesus veio nos ensinar. O mundo muitas vezes amou ao próximo, tentou amar ao próximo, mas o fez fora dessa Unidade. Por não compreender a unidade mística e transcendental dos ensinamentos de Jesus, mesmo amando ao próximo, amou-os com a consciência/compreensão de uma vida material, ao invés de espiritual, e nada se resolveu, o mundo tem ficado cada vez pior. Somente amar ao próximo não é o bastante. Pelo menos, não o bastante para resolver de vez as circunstâncias deste mundo. Primeiro é preciso compreender Deus, e a partir daí, a partir Dele, tudo será feito. Deus não é uma entidade que vive exterior a nós. Deus é tudo. Deus é simplesmente a Vida. Onde a Vida estiver, Deus está. Mas quem não conhecer/souber disto, sofrerá as consequências de acordo com sua própria mente.


"Por que te afliges, se o Pai conhece todas as tuas necessidades antes mesmo de a pedirdes"?


Se a humanidade não souber que ela própria é Vida, todo mal que vemos existir neste mundo continuará acontecendo. O mal não é existência real. Ele existe ou parece existir, mas originariamente o mal não existe. Quando Deus criou o mundo, Ele o fez, e viu que tudo era "muito bom". Deus jamais cria coisas imperfeitas. Mas, após algum tempo, o mal "infiltrou-se" na criação, não porque Deus o tenha criado, mas porque o homem o concebeu em sua mente. Quando estava no Éden, o homem encontrava-se em sua "condição original", como Deus o tinha feito. E só quando, por meio de sua própria mente, teve pensamentos que o afastaram de sua condição original, é que ele se viu num mundo completamente diferente da criação originária e perfeita. Com a mente, o homem velou a própria consciência. A mente tem o poder de manifestar tudo o que ela reconhece, tornando a criação originária de Deus encoberta/velada - esse é o livre arbítro do homem. Sabendo disso, tudo o que o ser humano precisa é retirar o véu que foi colocado com a mente. Aquilo que foi velado pela mente deve ser revelado pela Consciência. E durante a história deste mundo, muitos homens vieram aqui, através dos tempos, para nos revelar a Verdade que estava oculta/escondida. Jesus não foi o único, Buda também veio. E não só ele, também Krishna, Abraão, Moisés, Lao-Tsé, Shankara, e todos os místicos em torno dos quais foram reunidos ensinamentos espirituais, vieram para transmitir àqueles que não compreendiam a Verdade de que "o homem é Vida", a verdade de que o homem é "filho de Deus".

Todos os ensinamentos espirituais são válidos. Prefiro citar mais Jesus porque é nEle que quase todo mundo do ocidente acredita. Se Jesus não for mencionado, ninguém vai querer aceitar, ninguém irá sequer cogitar a possibilidade de considerar a Verdade "homem filho de Deus". Mesmo citando Cristo, e colocando-o no foco de todos os ensinamentos, ainda assim será difícil a aceitação por parte dos cristãos. Porque todos estão tão profundamente condicionados/enraizados nas crenças que foram construídas... Os ensinamentos de Cristo não são falsos. As crenças que foram construídas e admitidas sobre os ensinamento de cristo é que, em parte, são falsas e superficiais. Colocaram Deus lá longe, num lugar inalcançável, e disseram que tínhamos que rezar para Ele. Se fôssemos bons, seríamos recompensados. Aqueles que fossem ruins seriam condenados e iriam pro inferno pelas mãos do próprio Deus. Quem não acreditasse em Deus do modo como era ensinado, era um traidor, um pecador. Instituiram uma firme crença no pecado e até criaram teorias, argumentações e sistemas lógicos para justificar sua existência (fruto do conhecimento!). O pecador até poderia ser salvo (afinal, Deus era infinito Amor, infinita bondade, infinito perdão), se voltasse a se comportar e crer dentro dos moldes nos quais o ensinamento de Cristo era propagado. Para ser salvo, precisaria atender a algumas condições. "Deus impõe condições para salvar o homem". - Isso é o que está alojado dentro da mente de muitos cristãos. Mesmo mostrando a Verdade através do Cristianismo, muitos resistirão, pois suas mentes estão carregadas de culpa. "Se deixarmos de crer da forma como o fazemos, acabaremos no inferno", isso é o que está plantado no fundo da mente consciente e inconsciente, individual e coletiva, da maioria dos cristãos. Se eles não entenderem a Verdade, terão de experienciar suas vidas conforme a natureza da crença que existe em suas mentes. Se a crença for boa, o que se seguirá será bom. Mas se a crença for voltada mais para o lado negativo -- do medo, do pecado, da doença, do sofrimento, da violência, da morte, da escassez (o que tende a acontecer, pois essa é e será a tendência da mente coletiva até o dia em que a maioria da humanidade mudar de pensamento e reverter esse quadro) --, o que se seguirá será condizente com a natureza de suas crenças. De qualquer forma, seja a crença boa ou má, ela é uma "ilusão", é um "conhecimento" obtido quando o homem escolheu comer do "fruto da árvore do conhecimento". A Verdade está além de qualquer crença; ela não necessita da força de "crenças" para existir - só aquilo que é ilusão necessita de crença. A Verdade existe por si só. É ela que Jesus ensina o homem a viver -- não uma crença, mas a Verdade.




Jesus disse de si mesmo: "Eu e o Pai somos Um". E nos ensinou: "Pai nosso...". Ele não disse "Pai meu, que cuida do resto da humanidade", mas ensinou-nos a orar chamando a Deus por "Pai". Jesus também disse a nós: "Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus". E em sua última oração junto com os discípulos, no Evangelho de João, cap.17, Jesus ora no sentido de que todos nós sejamos um.


"Para que TODOS sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que TAMBÉM eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste."


Essa Unidade vem sendo pregada em todos os tempos, em todos os lugares, e ninguém compreende ela. A maioria sequer dá "atenção" a ela. Se o mundo não conhecer a unidade existente entre "Deus e o homem" e entre "o homem e o seu próximo", tudo o que vimos acontecendo até agora continuará a acontecer. Aliás, a tendência delas será piorar conforme a mente humana for sendo concentrada e fixada cada vez mais no mal, acreditando ser ele uma existência real. E Deus nunca irá "voltar" para pôr fim a este mundo injusto. A volta de Deus significa apenas a compreensão da Unidade pelo homem. Quando o homem compreende a Unidade, ele compreende Deus e realiza Deus. E essa é a segunda vinda do Cristo. Assim, Deus pode estar voltando para mim, hoje, mas não para você. Você verá a segunda vinda de Jesus quando compreender que tudo é Um. Se só existe Um, só existe Deus. E se só existe Deus, você finalmente entrou no lugar secreto que Jesus chamou "Reino de Deus".


"O Reino de Deus não é deste mundo."


A maior obra de caridade que pode ser feita em favor do nosso próximo é trabalhar no sentido de que ele "veja" a segunda vinda de Cristo. Eu realmente acredito no potencial do resultado que o conhecimento espiritual pode provocar. Sei que a verdadeira transformação do mundo não irá decorrer de guerras, revoluções sociais, mudança de sistema econômico, caridade de bens materiais... nada disso irá resolver o problema. Não me importo de fazer doações e de ajudar ao próximo, mas eu sentiria culpa dentro de mim se minha atividade consistisse somente em fazer "ofertas materiais" aos outros. Sem dúvida, esses atos seriam atos de amor, expressariam amor, mas é a Verdade que precisa ser conhecida. O homem precisa conhecer com a mente a Verdade, e a partir deste conhecimento mudar a própria mente. Se não houver uma mudança mental, pode existir o sistema econômico que for -- a mente irá projetar neste mundo uma situação condizente com aquilo que ela concebe. Se o homem abriga "medo", "violência", "pobreza" no fundo de sua mente, podem ser tirados do poder todos aqueles que exploram os "mais fracos" e colocarem outras pessoas em seus lugares. Podem substituir o sistema capitalista econômico por um outro que seja melhor planejado e mais justo. Mas a mente encontrará uma forma de continuar fazendo aparecer tudo o que existe lá dentro dela. Se a mente da humanidade for mudada, não será preciso sequer trocar de sistema econômico, as coisas darão um jeito de se ajustar dentro do próprio sistema capitalista. O que importa não é o exterior, mas o que existe "dentro". Brincar com o exterior é ilusão, pois o exterior é "sombra". O que libertará a humanidade é somente o conhecimento da Verdade de que "o homem é Vida", "o homem é filho de Deus", um ser originariamente livre, absolutamente liberto. Em seu estado original, o homem encontra-se em sua natureza búdica, ele é o Cristo, a Verdade. "A Verdade liberta" - outra frase célebre de Jesus. Somente a Verdade é livre. Sendo o homem a Verdade, ele é livre, e já vive no Reino de Deus.


" Também vós, deste mundo, não sois"


Por isso, este é o meu trabalho principal, e será até o fim dos meus dias neste mundo - viver pela Verdade. Não importa se eu A tenha realizado ou não dentro de mim, a minha vida será dedicada à Ela. Além da Verdade, nada mais realmente me importa. Amarei a Deus e a meu próximo, principalmente, através da Verdade. E espero que este texto um dia frutifique, incentivando as pessoas ao mesmo feito -- sem nunca deixar de ajudar aos outros usando os meios materiais, pois isso ainda é algo bastante necessário no mundo como ele se encontra --, mas esforçando-se para transmitir ao próximo o conhecimento da Verdade. Se isso acontecer, a minha vida neste mundo terá valido muito a pena.

quarta-feira, maio 27, 2009

Sabedorias da Seicho-No-Ie (Fim)


*A religião tem a função de despertar o homem para a perfeição da sua própria Vida.

*Àqueles que custam a compreender a Verdade, não há outro meio senão avançar às cegas.

*Tudo o que é bom concretiza-se onde existe harmonia.

*Deves acreditar em Deus que está dentro de ti mesmo, presente em todos os seres e em todas as coisas, vivificando-os, e não em Deus distante, separado do ser humano.

*Devemos acreditar em Deus que é Amor, Sabedoria, Vida. Crer que somos filhos d’Ele constitui a verdadeira fé. Tendo essa fé como alicerce, será inabalável a nossa firmeza.

*Deus irascível, implacável, vingativo e inconstante, que age somente quando recebe donativos e apenas beneficia os que o bajulam – quem crê num Deus tão instável, que muda de atitude segundo os seus caprichos, não consegue manter uma fé constante. E, conforme a oscilação da fé, ora consegue graças, ora não as consegue.

*Mesmo que alguém à beira da morte suplique “Salvai-me, Senhor, e vos pagarei a quantia que for necessária”, Deus não poderá atender a tal pedido, pois Ele não se move por dinheiro. Mas, quando a mente da pessoa desperta a Verdade, a salvação de Deus é uma conseqüência natural.

*"Sou alegre e feliz” – constantemente lembra isto a ti mesmo.

*Sou saudável – pensando sempre assim, poderás ser sempre saudável. Há pessoas que pensam: “Estou cansado”, “Estou exausto”, “Estou com o corpo dolorido”. Se também pensas assim, abandona esse mau hábito e procura pensar o contrário; brevemente gozarás de perfeita saúde.

*A causa da insônia está na crença errônea de que “a insuficiência de sono prejudica a saúde”. Segundo a lei mental que diz “manifesta-se aquilo que se teme”, temendo-se a insônia, ela se manifesta.

*A vida não é grafite de lápis; portanto não se “quebra” por mais que se exteriorize. Se parece “quebrar”, isto se deve à mente temerosa que pensa “vai quebrar”.

*O que aumenta quando acumulado é apenas a matéria. A Vida, pelo contrário, aumenta quando é partilhada com os outros.

*O tempo não tem forma. No entanto dele são extraídas todas as coisas boas e preciosas. Quem desperdiça o tempo está desperdiçando tudo.

*Quem não aproveita bem o tempo vive em vão. Se não queres passar a vida em vão, aprende a usar proveitosamente o tempo. Quem usa proveitosamente o tempo sempre acaba exteriorizando seus talentos inatos e descobre grandes tesouros nesta vida.

*Um grande período de tempo colocado inesperadamente à nossa disposição tende a ser desperdiçado. Já os pequenos espaços de tempo, de cinco, dez minutos, podem até ser bem aproveitados, desde que estejamos dispostos a isso. O dinheiro ganho no jogo é facilmente desperdiçado, mas o obtido através do trabalho pode formar uma grande fortuna. O mesmo se pode dizer do tempo. Aquele que aproveita os poucos momentos de folga para aprimorar seu talento torna-se gênio. A diferença entre o gênio e o medíocre está na atitude mental do dia-a-dia.

*Encare o tempo como se estivesses encarando tua própria Vida. Tua Vida constitui-se de tempo. Quem mata o tempo está pondo fim à sua própria Vida.

*Tendo-se pensamentos grandiosos, manifesta-se a grandiosidade. Quem não idealiza a perfeição, não pode produzir obras-primas. Um gato pode acidentalmente estragar uma obra-prima, porém é incapaz de produzi-la. As obras-primas só podem ser produzidas por seres capazes de concebê-la mentalmente. Se o gato não consegue produzir obras-primas, é porque a mente dele não é capaz de concebê-las. Homem, não sejas igual a um gato.

*Em vez de enumerar as coisas que não consegue fazer, conta as realizações que já conseguistes. E, avançando mais um passo, procura aumentar a quantidade das coisas que és capaz de fazer. Teu progresso certamente será notório.

*Maus hábitos são desperdício de Vida. Aquele que aumenta dia a dia os bons hábitos, vive em dobro a sua Vida.

*Não enfatizes os males em demasia. Se possível, ignora-os; caso contrário, tua mente se sugestionará e os males proliferarão. O bem é que deve ser enfatizado.

*As pessoas se zangam e brigam porque pensam que elas mesmas estão com raiva. Se elas compreenderem que aquele que está zangado ou brigando não é o seu “Eu verdadeiro”, certamente perceberão a tolice de zangar-se ou brigar.

*Um ser é constituído de luz e sombra, do mesmo modo que um quadro é constituído pelo jogo de cores claras e cores escuras. Não há quadros ou gravuras sem efeitos de sombra, pois estas têm a função de realçar a vida.

*Não fiques aborrecido quando alguém apontar teu defeito. Aquele que se aborrece, quando lhe apontam um defeito, é carente de reflexão. Se refletisse bem, compreenderia que esse defeito foi manifestado pelo seu falso eu, que não tem direito de protestar quando repreendido.

*Os subalternos, quando repreendidos por seu superior, tendem a pensar: “Ele me repreende, esquecendo-se de que ele próprio tem tais e tais defeitos” e, em vez de se corrigirem, muitas vezes não reconhecem seus próprios defeitos. Aquele que ao ser repreendido é capaz de reconhecer honestamente seu defeito, tornar-se-á uma grande personalidade.

*A sociedade é uma “academia para se aprender o autocontrole”. Sob este aspecto, pode-se dizer que nossa alma recebe maior polimento no âmbito da sociedade, do que no lar.

*Não há coisa mais terrível que a “espada verbal”. Desde tempos remotos, o número de pessoas vitimadas pela “espada verbal” tem sido bem maior que o de baixas de guerras.

*É preferível simular o bem a simular o mal, pois quem imita o bem acaba aprendendo o bem, ao passo que aquele que imita o mal acaba enveredando pelo caminho do mal.

*Ter utilidade é importante. Não menosprezes a utilidade. Um objeto útil, quando impregnado de amor e Vida, torna-se uma perfeita obra de arte.

*As águas que fluem continuamente não apodrecem e chegam afinal ao grande oceano. As pessoas que crêem no crescimento infinito e não param de evoluir por um momento sequer, finalmente alcançam o grande êxito.

*O mal não existe realmente. Todos os males são falsas existências. Não te deixes arrastar pelo mal. Afinal, és filho de Deus, que é Bem.

* “Nada existe”. Interpreta de mil maneiras o significado desta expressão.

*Se usas a doença como pretexto, será impossível ficares curado.

*É preciso que a humanidade, da mesma forma que considera o mau caráter, passe a considerar a doença como algo ignominioso. Isto porque a doença é sombra da distorção da mente.

*Confiar é deixar-se conduzir docilmente pelas mãos daquele que orienta. Confiar em Deus é caminhar docilmente segundo as orientações de Deus; é viver segundo a vontade de Deus. Quem vive segundo a vontade própria não está confiando em Deus.

*A força criadora é força de Deus. A força ativa é força de Deus que deve ser empregada para o bem em geral. Portanto, desperdiçar essa força alegando razões particulares é um pecado.

*Que a Vida se eleve cada vez mais, até a altura da Imagem Verdadeira.