"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, fevereiro 09, 2014

A Iluminação de Sakyamuni - 2/2

Masaharu Taniguchi


VIVIFICAÇÃO MÚTUA ENTRE OS SERES

Naturalmente, a vaca produz leite com a finalidade de amamentar o filhote; mas o fluxo de leite é tão abundante que acaba sobrando, mesmo que o bezerrinho mame até se fartar. Pode parecer que a vaca leiteira está sendo lesada pela pessoa que lhe tira o leite, mas não é assim. A vaca bem tratada pelo dono afeiçoa-se a ele e produz bastante leite. É desse modo que se manifesta a bênção de Deus, que jamais deixa de vivificar o ser humano. Sakyamuni compreendeu essa Verdade. A Vaca come capim para se manter viva. Isso é natural, e passou a encarar naturalmente como motivo de gratidão todos os acontecimentos naturais do mundo à sua volta. Sakyamuni pensava que este mundo era um lugar de cruéis matanças e saques entre os seres vivos, achando que a vaca tirava a vida dos capins para manter-se viva e produzir leite, e que o ser humano prejudicava a vaca roubando-lhe o leite. Quando, porém, a sua mente mudou, o mesmo mundo mudou de aparência totalmente.

“Os capins que vicejam nos campos brotaram pela graça de Deus; são concretização das bênçãos divinas que vivificam as vacas, as ovelhas e os respectivos filhotes e, por meio deles, beneficiam também os seres humanos” – esta foi a compreensão a que chegou Sakyamuni. Ele deixou de ver o mundo como um palco de matanças mútuas, e passou a vê-lo como um lugar onde todos vivificam uns aos outros. O que estou dizendo não é mera teoria. A teoria pode ser arranjada para justificar qualquer das posições opostas. O fato é que ocorreu uma mudança na postura mental de Sakyamuni. Consequentemente, ele passou a sentir a harmonia. Até então, pensava que a vaca e os capins estavam em conflito, mas compreendeu que, pelo contrário, eles se vivificavam mutuamente.

A vaca se alimenta de capins e, ao defecar, proporciona adubo ao solo, o que faz brotar novos capins. No processo respiratório, a vaca expele gás carbônico; os capins, pelo processo de fotossíntese, absorvem o gás carbônico e liberam oxigênio, beneficiando a vaca. É claro que, na época de Sakyamuni, as pessoas não conheciam tal processo biológico. A compreensão de que os seres vivos vivificam uns aos outros ocorreu-lhe de modo intuitivo. O capim não sente dor ao ser comido pela vaca, e as verduras também não sofrem ao serem comidas pelo ser humano. As verduras, que não são dotadas de meio de locomoção, podem disseminar suas sementes e ampliar as respectivas áreas em várias partes da Terra, graças ao fato de serem comidas pelo ser humano. 

As frutas, quando ficam maduras, tornam-se saborosas e ostentam um aspecto atraente: adquirem cores vistosas, tais como vermelho, amarelo, alaranjado, etc., para chamar a atenção dos seres que delas se alimentam. Em outras palavras, elas “se enfeitam” com cores chamativas, como se anunciassem: “Vejam como somos apetitosas. Sirvam-se à vontade”. Enquanto não estão maduras e suas sementes ainda não podem germinar, as frutas têm sabor amargo, azedo, etc., ou estão cobertas de espinhos, e são verdes como as folhas, para ficarem escondidas. Somente quando ficam maduras e prontas para ser consumidas, elas adquirem belo colorido. Se nenhum pássaro ou animal aparecer para comer as frutas de uma árvore frutífera, esta terá problemas. As frutas maduras acabarão caindo no chão e apodrecendo; as sementes ficarão depositadas, às centenas, no chão debaixo da árvore; os brotos germinados não conseguirão desenvolver-se normalmente porque, além de estarem muito juntos, não receberão suficiente luz solar nem o sereno da noite por ficarem próximos ao tronco da árvore. É preciso que as frutas sejam comidas pelos pássaros e pelos animais frutívoros, para que as sementes se espalhem em terras distantes, possibilitando a disseminação da planta.

Tomemos, por exemplo, um pé de caqui. Se suas frutas amadurecerem e apodrecerem, as sementes irão cair no mesmo lugar, e o pé de caqui não poderá proliferar, mesmo que o queira. As plantas não podem se locomover e, por isso, precisam da ajuda de pássaros e animais, que “transportam” as sementes para diversos lugares. Em compensação, esses pássaros animais alimentam-se da polpa das frutas. Desse modo, tanto as plantas quanto os pássaros e animais se beneficiam.

Quando compreendemos isso, percebemos que este mundo, que parecia ser um lugar onde os seres vivos agridem e destroem uns aos outros, é um mundo de vivificação mútua, onde todos se beneficiam, cada qual suprindo o que falta no outro. Alcançando o despertar, passamos a ver o mundo abençoado, onde todos os seres vivificam uns aos outros. Compreendemos que em todos os seres estão manifestados a Vida, a misericórdia e o amor de Deus e é por isso que todos os seres se amam e se vivificam mutuamente. O mundo, que parecia um lugar de agressões e matanças mútuas, era, na verdade, um mundo maravilhoso, repleto de Vida infinita, amor infinito e sabedoria infinita de Deus.

Mesmo os seres que nos parecem hostis, na verdade, eles funcionam como um esmeril para polir a nossa alma e desenvolver a nossa espiritualidade, sendo, portanto, manifestação do amor de Deus, da misericórdia de Buda. Todos os seres existentes no céu e na terra amam e vivificam uns aos outros; não apenas os que se amam, mas também os que aparentemente são hostis. Este é o mundo onde todos se amam mutuamente e todos se harmonizam. Foi isto o que Sakyamuni compreendeu. Então, o mundo à sua volta, apesar de permanecer o mesmo quanto à forma, transformou-se totalmente para ele. E, contemplando a estrela da manhã no dia 8 de dezembro, expressou o seu despertar espiritual dizendo: “Seres animados e inanimados, todos alcançaram o despertar. Montes, rios, ervas, árvores, terra, tudo está realizado como Buda”. Compreendeu que “seres animados” (todos os seres vivos) e “seres inanimados” (todas as coisas existentes) – tudo é Buda; que montes, rios, ervas, árvores, tudo é manifestação de Buda; que tudo e todos se vivificam e se reverenciam mutuamente. Até então, pensava que este mundo era horrível como o inferno, mas compreendeu que estava equivocado. Assim, Sakyamuni despertou para a Verdade vertical.

MUDANDO A MENTE, MUDA O MUNDO

Mudando a visão de vida, tudo muda. Ninguém mata ninguém; todos são Vidas que se vivificam mutuamente. Se bem que, por exemplo, o capim do pasto desaparece temporária e superficialmente quando cortado pelo homem ou devorado pela vaca. Mas, se isso é realizado de modo adequado, mais tarde o capim cresce mais viçoso do que antes. Hortaliças que não são consumidas pelo ser humano vão-se definhando até chegar ao ponto de se confundirem com ervas daninhas, enquanto aquelas que são consumidas pelos humanos têm as espécies preservadas e vão sendo melhoradas a cada ano que passa. O arroz vem recebendo melhoramentos justamente porque é colhido pelos humanos todos os anos, e essa planta, que naturalmente seria mais frágil, graças aos melhoramentos recebidos, tem novas variedades mais evoluídas. Também as árvores precisam receber todos os anos uma intervenção chamada poda, que consiste em cortar alguns galhos e folhas, para que cresça vigorosamente. Como há quem faça a poda, as árvores crescem altas e vigorosas. Este é um mundo de vivificação mútua. 

Há argumentadores afirmando que cortar árvores para construir nossas casas ou colher hortaliças para alimentação também significa matar esses seres vivos, sendo, portanto, atos condenáveis, e que isso constitui um mundo de matança mútua. Mas esse era o pensamento da época em que Sakyamuni ainda não havia atingido a iluminação. Corretamente falando, o indivíduo em si “não existe”; o que existe verdadeiramente é a Ideia, que permite a manifestação do indivíduo. Isso pode ser mais facilmente compreendido através da filosofia da Seicho-No-Ie, segundo a qual “essencialmente o corpo carnal não existe”. Compreendendo que essencialmente não existe aquilo que chamamos de indivíduo, entendemos que a hortaliça não existe como vida individual; logo, não acontece de ela ser sacrificada e devorada. Hortaliça existe como Ideia, e a Ideia de hortaliça, eternamente indestrutível, não é sacrificada nem destruída; pelo contrário, é vivificada, e no ano seguinte manifesta-se de forma ainda melhor – ou seja, é vivificada de modo ainda mais intenso. Da mesma forma, as árvores crescem  quando algumas delas são podadas. Naturalmente, a poda não deve ser feita de modo indiscriminado. Manifestando-se a sabedoria de Deus em nossos atos, conseguiremos agir dentro do regulamento, assim como um jardineiro que realiza o trabalho de poda adequadamente, e, então, as demais árvores acabarão crescendo bem melhor.

Existem insetos considerados pragas que atacam as plantas, mas, na realidade, eles não são insetos nocivos. Por exemplo, as taturanas são consideradas pragas, mas elas não são pragas, mesmo que elas comam verduras ou folhas de árvore. Taturanas são larvas de borboleta. Que fazem as borboletas? Auxiliam na polinização. Elas visitam as flores e vão disseminando o pólen, mediando, dessa forma, o “casamento” das plantas e auxiliando na reprodução delas. Sendo assim, as taturanas não devem ser odiadas como pragas. Elas são dignas de serem amadas, pois não benfeitoras dos vegetais. Existe muitas espécies de vegetais que seriam extintas sem a existência de taturanas. Portanto, elas são, em vez de praga que faz mal às ervas e árvores, insetos úteis que auxiliam na reprodução dos vegetais. 

Teríamos nós, algum dia, agradecido a taturanas? Pelo contrário, pensamos: “Que atrevimento dessa taturana, comendo esta folha!”. Se elas comem as partes importantes da planta, é porque nelas está refletida a nossa mente carente de sentimento de gratidão, nossa mente egoísta. Se neste mundo não existisse mais nenhuma taturana, seria o mesmo que ficar sem nenhuma borboleta; e, sem borboleta, as plantas não poderiam desenvolver-se como agora. A única inconveniência das taturanas seria o fato de elas comerem os botões que estão para se abrir em flor ou brotos prestes a crescer vigorosamente, provocando assim uma situação de desarmonia. Portanto, o mal não está nas taturanas em si, nem no fato de elas comerem as plantas. Elas não são, originalmente, uma praga. O mal está na manifestação de uma situação desarmônica. Um mundo em que as taturanas comem as partes da planta que os jardineiros vão podar, e, mais tarde, tornando-se borboletas, atuam como transportadoras de pólen – assim é o mundo da verdadeira harmonia. 

Há realmente um mundo tão harmonioso? Na realidade, esse mundo verdadeiramente harmonioso existe, mas, devido à nossa mente em desavença, mente que odeia, mente irada, ele não se manifesta externamente, permanecendo invisível aos olhos carnais. Se plantas e taturanas parecem lutar entre si, é porque se encontra em ilusão a mente das pessoas; e, dependendo do grau de distorção dessa lente (“mente em ilusão”), aparecem como se estivessem em conflito os que não estão em conflito algum, ou aparece uma cena em que um invade a área do outro, tal como se observa numa foto com duas imagens sobrepostas, quando na verdade não está ocorrendo nenhuma invasão. Se eu confeccionasse duas lentes de prisma, uma para o olho direito e outra para o esquerdo, e as colocasse na armação dos óculos e olhasse para os senhores ouvintes através dessas lentes, às vezes eu veria como se os senhores estivessem dando cabeçadas uns nos outros – fato que não está acontecendo na realidade. Da mesma forma, quando vemos através de lentes de ilusão, enxergamos como se as pessoas estivessem brigando, por causa da distorção da lente mental. Isso acontece porque a mente está em ilusão. Quando a mente humana deixar de cair em ilusão e entrar em estado de verdadeira harmonia, os insetos nocivos deixarão de existir. As taturanas continuarão a existir, mas elas surgirão para devorar folhas secas, brotos que deveriam ser podados ou mudas de qualidade inferior que necessitam ser eliminadas. 

Há pessoas que têm medo de bactéria, mas há bactérias muito úteis. Missô (condimento à base de soja, usado pelos japoneses como tempero) e nuka-missô (pasta de farelo de arroz usada para fazer conserva de verduras e legumes) e bebidas fermentadas são produzidos pela ação de bactérias. Dentro dos nossos intestinos vive grande número de bactérias, sendo algumas de grande utilidade, que ajudam na fermentação do alimento ingerido no movimento peristáltico intestinal. Em condições naturais, bactérias nocivas não conseguem penetrar em nossos intestinos. Se existe bactérias nocivas em nosso corpo, isso é materialização do nosso sentimento. Mesmo sendo bactérias, sua vida tem origem na única Grande Vida. As rodas dentadas, fabricadas por um único artífice, que formam a engrenagem de um relógio, ajudam-se mutuamente, mesmo que aparentemente uma esteja dando dentada nas outras. Na realidade, cooperam-se mutualmente, contribuindo para o cumprimento da missão de vida do relógio. Esta é a Imagem Verdadeira.

CASO VERÍDICO DO DESPERTAR ESPIRITUAL DE UM ADEPTO

Há um caso interessante relacionado a isso.  No momento, não consigo me lembrar do nome da pessoa, mas hoje esse adepto realiza reuniões da Seicho-No-Ie numa localidade da região de Tanba. Ele se sentiu desgostoso de continuar vivendo, tal como Sakyamuni antes da iluminação. Pensou em matar-se e tentou suicídio por três vezes, mas falhou em todas as tentativas. Decidiu que, desta vez, iria suicidar-se de verdade, mas, já que iria morrer, desejou, antes, assistir a um show musical apresentado em Takarazuka, e depois escolheria uma linda paisagem como lugar para o suicídio.

Foi para Takarazuka, assistiu ao show e, cansado, saiu do teatro. Teve vontade de comer bananas e as comprou numa frutaria, cujo dono embrulhou-as num jornal. Mastigando a banana, ele abriu esse jornal e começou a lê-lo, quando deparou com a propaganda do livro A Verdade da Vida. “A Verdade da Vida?”, pensou. Parece que alguém que está pensando em morrer torna-se sensível à palavra “vida”. Ele ponderou que não seria mal conhecer a essência da vida antes de morrer. “Vou comprar esse livro e ler; onde estará à venda?”, pensou. Na época, as propagandas dos livros da Seicho-No-Ie vinham com lista de Regionais e postos de venda. Ele procurou e viu que havia um posto de venda em Kobe. “Fui uma vez a Kobe. Antes de morrer, quero rever aquela cidade portuária e comprar lá o livro A Verdade da Vida”, resolveu. A loja Misawa, em frente à loja de departamentos Daimaru, em Kobe, vendia produtos na vanguarda da moda, e era na época o posto de venda de A Verdade da Vida. “Vou ler esse livro antes de me matar” – com esse pensamento, foi até lá, comprou o livro e o leu. Ao ler A Verdade da Vida, ele mudou seu modo de pensar, tal como Sakyamuni no instante em que despertou para a Verdade.

Sakyamuni pensava que este era um mundo repleto de desgraças, em que os seres viviam matando-se uns aos outros, mas descobriu que, na realidade, não é um mundo de matanças, mas sim um mundo em que os seres se vivificam mutuamente. Entendeu que às vezes, superficialmente, pode parecer que se matam uns aos outros, mas, na verdade, este é um mundo de vivificação recíproca; na essência da Vida, os seres vivificam-se mutuamente. Ou seja, compreendeu que este é um mundo digno de gratidão, em que “Seres animados e inanimados, todos, já são Buda”.

Essa pessoa abandonou a ideia de se matar, voltou para a terra natal e foi dedicar-se à lavoura. Até então, achava maçante o trabalho na lavoura, mas, agora, trabalhava com alegria. Era início de primavera e ele estava revolvendo a terra com enxada. Ali, sapos que acabavam de sair da hibernação pulavam para fora da terra, mas nenhum deles se machucava. Antes, quando revolvia a terra no início de primavera, ele acabava mutilando os sapos escondidos debaixo da terra, decepando-lhes as patas ou machucando-lhes a cabeça. Mas, segundo ele, após compreender que este é o “mundo de vivificação mútua”, deixou de machucar esses bichos. “Ah, bati com a enxada na cabeça do sapo”, pensava às vezes e olhava para o sapo, mas ele saía inteiro, pulando contente e agradecendo. Realmente, este é o mundo de vivificação mútua. 

Antes, ele pensava que a enxada do agricultor e os sapos eram inimigos, mas não é essa a Imagem Verdadeira. É que a sua mente, apegada à ilusão, via o mundo através de uma lente tão distorcida como um prisma, e por isso parecia que o gume da enxada e a cabeça do sapo se chocavam, provocando o corte. Quando ele retirou a lente da ilusão e viu a Imagem Verdadeira com a mente sem distorção, mudou o mundo que se desenrola ao seu redor. E percebeu: “Eu pensava que o agricultor é ‘mutilador de sapos’, mas, na realidade, é vivificador de sapos”. Quando abrimos os olhos para a Imagem Verdadeira, não há outro mundo senão aquele em que todos se vivificam mutuamente. Quando chega o inverno, o sapo vai hibernar debaixo da terra, e, quando chega a primavera e a temperatura começa a se elevar, ele sente o desejo de sair para a superfície. Mas, para sair com a própria força, ele precisa despender grande esforço, já que esteve hibernando durante todo o inverno sem se alimentar e tem muita fome. Quando o agricultor chega e retira a terra que o encobria, o sapo pode sair para a superfície com toda a facilidade. Para este, é uma grande ajuda o lavrador revolver e retirar a terra que o encobria. Assim, todos os seres se vivificam mutuamente. Essa pessoa, que compreendeu que o mundo verdadeiro é aquele e que todos os seres se vivificam mutuamente, hoje promove reuniões da Associação da Fraternidade.

Imagino que tenha sido esse o estado espiritual de Sakyamuni quando atingiu a iluminação, despertando para a realidade do mundo da vivificação mútua entre todos os seres. Quando despertamos para a Verdade, compreendemos que tudo é governado pela sabedoria de Buda, protegido pelo amor de Buda, e vivificado pela Vida de Buda. Montanhas, rios, ervas, árvores, animais, insetos, peixes, moluscos, todos são manifestações de Buda. É um mundo de auxílio mútuo, de reverência mútua. Até então Sakyamuni considerava que este mundo era manifestação do inferno, mas compreendeu que na verdade, para sua surpresa, ele é um paraíso.
Cont...

Do livro “A Verdade da Vida, vol. 39”, pp. 46-58

6 comentários:

Silvano disse...

Os leitores que estão acompanhando estes posts poderão notar que na parte 1/2 há o subtítulo - Mudança de Visão; e que na parte 2/2 há o subtítulo - Mudando a Mente Muda o Mundo. Este é o cerne do tema da "iluminação"! Aqui está se falando da iluminação de Sakyamuni, mas, se olharmos com mais profundidade veremos que Masaharu Taniguchi está nos mostrando o que levou o príncipe a se iluminar e de igual forma, o que leva alguém a se iluminar, a perceber a Unidade Essencial entre eu e Eu; a perceber aquilo que Jesus percebeu e disse: eu e o Pai [o Eu] somos Um . Por isso Masaharu Taniguchi retrata a ambiência em que se encontrava o príncipe, sua busca de seis anos pelo caminho do ascetismo, até o momento em que por fim se iluminou. E nesse momento de iluminação ele relata especificamente uma mudança substancial de visão. Notem que aqueles dois subtítulos enfatizam essa mudança substancial de visão. Chamemos a essa mudança de visão de: A mudança da Visão Reativa para a Visão Contemplativa!
A “visão reativa” é a visão baseada nos condicionamentos mentais; é a visão baseada no raciocínio e nas certezas advindas desse processo mental em que consiste o raciocínio, que é realizado sobre os dados coletados pelos cinco sentidos, que apreendem o universo material, ou seja, que percebem o universo fenomênico. Usando essa visão mental o príncipe pensava: “Os cereais também estão vivos, e comê-los significa tirar-lhes a vida. O leite de vaca é alimento dos bezerrinhos; ao toma-lo, o ser humano está roubando o alimento deles. A vida do homem neste mundo consiste em obter alimentos para si roubando e matando outros seres vivos”.
E diz Masaharu Taniguchi que: Ele vivia atormentado por esse pensamento.
Notem o quanto é frágil, o quanto é insustentável o processo mental realizado sobre os dados coletados pelos cinco sentidos... que apreendem o universo material... Basta aqui lembrar que Masaharu Taniguchi teve a revelação de que “a matéria não existe”!
Quanto a esse ponto cabe outro detalhe muito sutil {o detalhe anterior é que na Meditação Shinsokan é a percepção da Imagem Verdadeira que deixa o mundo dos cinco sentidos...} a ser observado por aqueles que seguem os ensinamentos de Masaharu Taniguchi. O detalhe é que a revelação de que “a matéria não existe” não deve ser interpretada com a conclusão de que nada existe, mas que aquilo que a mente percebe com o uso dos cinco sentidos e interpreta como sendo matéria não é “simples matéria”; e que a própria percepção da mente não é real!
Então a revelação de que “a matéria não existe” deve estar sempre associada com a revelação de que “a mente não existe”! Ou seja: “a matéria não existe; a mente também não existe.”

Silvano disse...

Mas algo existe! Acompanhem... A Vida de Deus existe e pode ser percebida, mas apenas pela percepção de Deus mesmo em nós! Nesse ponto é que entra em cena a “visão contemplativa” que no texto Masaharu Taniguchi a introduz nesse trecho assim: Mas naquele instante, por alguma razão, ele conseguiu comer, sem nenhum sentimento de culpa, a papa de arroz cozido com leite, que lhe foi oferecida pela jovem brâmane, e o seu coração se encheu de gratidão.

Diversamente da “visão reativa”, que expressa julgamentos, produtos dos condicionamentos, e então “reage” aos personagens e ao cenário, a Visão Contemplativa advém do interior e se projeta sobre tudo o que é percebido. Sobre a visão contemplativa, que vem do interior Jesus se referiu ao dizer que Eu [o Eu, a essência, a Fonte do Ser] tenho uma fonte de águas vivas... Aquele que beber dessa Fonte nunca mais terá sede...
E comparando essas duas visões Masaharu Taniguchi escreve: Antes, quando ele observava o mundo à sua volta sob o ponto de vista material [com a “visão reativa”], parecia-lhe que o ser humano saqueava e matava outros seres para obter sustento para si próprio. Naquele momento, diante dele [advindo do interior e projetando-se dele pela “visão contemplativa”] não havia matança nem saque. Com o coração repleto de gratidão, pensou [do interior do seu próprio Ser ele percebeu]: “Essa jovem brâmane, desejando vivificar-me, veio-me oferecer espontaneamente um prato de papa de arroz cozido com leite, sem que eu o pedisse. Eu próprio [eu, enquanto personagem] não produzi cereais nem fabriquei o leite. No entanto, o grande amor de Deus[o próprio Deus, que é “Quem faz”], que abençoa e vivifica todos os seres e coisas do Universo, chegou até mim por meio de [“apareceu como”]várias pessoas e manifestou-se sob a forma deste prato de comida. Louvado seja Deus!”.
[Louvado seja Deus em nós que nos faz perceber! Louvado seja Aquele em nós que revelou: Aquieta-te e sabe: Eu Sou Deus.]

Gugu disse...

A partir do comentário feito, eu inferi o seguinte:

A mudança de visão faz com que se mude a interpretação do mundo. O mesmo mundo que parece ser ilusão é, na verdade, o reino de Deus. A mente (visão reativa) vê o mundo como ilusão. A Consciência (Visão Contemplativa) vê o mundo como o reino de Deus. Não existem dois mundos, o mundo é um só. E Masaharu Taniguchi diz que este mundo, assim como já é, é o próprio mundo da Imagem Verdadeira. Só o que temos que fazer é abrir os "olhos da mente".

Muito obrigado pelo ótimo comentário!

Namastê! _/\_

Silvano disse...

Meu Amigo Gugu e demais divinos personagens!

O que é real é o mundo tal como Deus o criou. O cuidado que se deve tomar é que a mente não vê o mundo criado por Deus, e ao mesmo tempo não percebe que o que vê é ilusão. A mente "percebe" o mundo que vê como sendo real; e nisto consiste a ilusão! Ver como real algo que não é real! Por isso só a percepção da Consciência [do Ser] é real porque a percepção da mente [do personagem] é ilusória. Quando Deus disse a Adão e Eva que eles não deveriam comer da "árvore do conhecimento do bem e do mal" foi para que eles não se iludissem; que não tivessem a visão ilusória causada pela percepção dualística, de bem e mal; eu e o outro; tempo e espaço; que é uma percepção realística, porém, ilusória.
É este o "sonho de Adão", a ilusão de uma realidade separada de Deus e de um mundo diferente daquele que Deus criou. Isto pode ser comparado a alguém que dorme e sonha... Enquanto sonha tem uma percepção do sonho e toma o sonho como sendo realidade. A percepção do sonho não é a percepção que vê a realidade e o próprio sonho não é a realidade. Basta o sonhador despertar e perceberá a realidade. Essa percepção é a real e o mundo percebido por ela também é real.
Namastê.

Silvano disse...

Por outro lado, o que a mente percebe não é uma ilusão sem qualquer correspondência com a realidade. Por isso no Núcleo usa-se o termo "representação" em vez de ilusão. E o motivo para isso é este: Quando a mente "vê" por exemplo uma "árvore" ou qualquer outro ser, o que ela está "vendo" é um conceito mental de árvore, não a árvore em si. A árvore real não está sendo vista pela mente!
A "árvore" ou qualquer "ser" visto pela mente está condicionada pela própria mente a seu conceito de que todos os seres estão sujeitos ao nascimento, ao envelhecimento, à doença e à morte. Mas isso não é real no mundo criado por Deus! Por isso é dito que o mundo percebido pela mente é uma representação das coisas que estão no mundo criado por Deus. Assim, quando vemos os seres como eles são, quando os vemos com a percepção de Deus em nós, vemos que eles são divinos, eternos e atemporais. Os seres do mundo de Deus não estão sujeitos à nascimento, envelhecimento, doença e morte. E nós somos estes seres!
Sim, nossa real identidade é a de seres divinos. É Quem todos Somos!
Namastê.

Gugu disse...

Meu Amigo Silvano,

Suas palavras foram uma aula, e explicitaram muito bem o ponto principal do post, que se refere à "mudança de visão" ocorrida quando Sakyamuni despertou para o fato de que ele era Buda, desde sempre.

Muito grato por sua participação e por seus comentários iluminados no estudo destes textos. Isso está fazendo com que haja realmente um estudo das mensagens do Budismo.

Grande abraço!
Namastê!