"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, agosto 07, 2011

Mente vazia, mente tranquila

Monja Coen


Alguns dizem que é preciso esvaziar a mente. Eu pergunto: como esvaziar o que já está vazio?

Há uma história Zen muito interessante. Certo dia um jovem aspirante pediu ao Mestre Zen que aquietasse sua mente. O Mestre disse:

- “Traga sua mente aqui, entregue-a a mim e eu a aquietarei.”

O jovem saiu procurando pela mente. Onde estaria? Seria pensamentos, memórias? Seria silëncios e quietude? Seria sonhos e pesadelos? Seria feita de palavras, conceitos? Seria apenas a massa encefálica, a matéria? O jovem pensava e não pensava. Cada vez que acreditava ter apanhado a mente, percebia que ela fugia, que já estava em outro pensamento, em outra idéia. Que o próprio conceito se desfazia. Cansado, voltou a procurar o Mestre e disse:

- “Senhor, é impossível apanhar a mente.”

O Mestre disse com alegria:

- “Pois então, já está aquietada.”

O jovem se reverenciou em profunda gratidão, pois pela primeira vez compreendia que a mente não é algo fixo e constante, mas flui com o fluir da vida, sem que possa jamais se fixar quer em inquietude ou em silêncio, quer em alegria ou tristeza, quer em iluminação ou delusão.

Outra história do século VII na China foi a seguinte: o abade de um grande mosteiro pediu a seus monges que fizessem um poema no qual expressassem sua compreensão dos ensinamentos de Buda. O Chefe dos Monges, muito querido e respeitado pelos seus mais de mil companheiros, escreveu solenemente:

“O corpo é a árvore Bodhi. A mente é como um espelho brilhante. Cuide para mante-la sempre limpa. Não permitindo que o pó se assente”

Um jovem semi-alfabetizado, que ajudava separando a palha do arroz viu o poema na parede, pediu que alguém o lessse e exclamou:

- “Não é isso”

E pediu a um monge letrado que escrevesse seu poema:

“O corpo não é a árvore Bodhi. A mente não é como um espelho brilhante. Se não há nada desde o princípio. Onde o pó se assenta?”

Este segundo poema reflete a essência dos ensinamentos do Sexto Ancestral da China, o Venerável Mestre Hui-neng e do Zen.

A prática da meditação do Zazen não é para polir o espírito, não é para limpar a mente, não é para esvaziar nada. É tornar-se uno com nossa essência verdadeira, com aquele Eu imenso que contem todos os sentimentos, emoções, percepções, formações mentais, consciência e a forma física.

Retornar à verdade e ao caminho é retornar à vida. Assim falamos em renascer. Deixar morrer idéias abstratas e fantasiosas sobre estar separado do tudo e dos outros e perceber a sabedoria suprema presente em todos os seres, vivenciá-la, tornar-se uno com todos os Budas e Ancestrais do Darma.

Basta perceber que nada é fixo, nada permanente – isto é o vazio. A mente vazia é aberta e flexível. Chora e ri. Pensa e não pensa. Não precisa ser esvaziada – já é vazia. Sendo vazia é clara e iluminada, em constante atividade e transformação.

Apenas escolha com o que alimentá-la. Você mesma(o) é o programa e o programador, o computador e seus acessórios. Cuide-se bem.

Doshin, o mestre zen considerado o Quarto Ancestral da China, disse:


“Todos os ensinamentos de Buda estão centrados na Mente, de onde incomensuráveis tesouros surgem. Todas as faculdades sobrenaturais e suas transformações reveladas na disciplina, meditação e sabedoria são suficientemente contidas em sua própria mente e nunca saem dela. Todos os obstáculos em obter-se bodhi surgem das paixões que geram carma e são originalmente não-existentes. Cada causa e cada efeito é apenas um sonho. Não há mundo triplo a abandonar nem nada a ser procurado. A realidade interna e a aparência externa do ser humano e das mil coisas são idênticas. O Grande Caminho é ilimitado e transcende a forma. Livre de pensamento e de ansiedade. Agora você entendeu o ensinamento de Buda. Não há nada faltando em você e você não é diferente de Buda. Não há outra maneira de obter o estado de Buda além de permitir sua mente ser livre em si mesma. Não contemple nem tente purificar sua mente. Deixe que não haja apego nem aversão, ansiedade nem medo. Esteja completamente aberta e absolutamente livre de todas as condições. Esteja livre para ir em qualquer direção que queira. Não aja para fazer o bem, nem procure o mal. Quer ande ou fique, sente ou deite, e seja o que for que aconteça a você, tudo são as maravilhosas atividades do Grande Iluminado. Tudo é alegria, livre de ansiedade – isto é chamado Buda.”


É preciso entender que estamos falando do ponto de vista do absoluto, de quem percebeu e se tornou o próprio corpo de Buda, que são em si os Preceitos, a Disciplina, a Meditaçao e a Sabedoria. Alguns podem interpretar erroneamente que fazer qualquer coisa é ação iluminada. Só se é Buda quando há a verdadeira compreensão do Caminho, que é tornar-se o Caminho de Sabedoria e Compaixão.

Não é ser bonzinho, nem querer ser mau. É tornar-se o próprio Bem.

Mente vazia e livre, clara e ativa em tranqüilidade, tranqüila em atividade.

Mãos em prece.

Possam todos os seres se beneficiar.



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*Nota: Bodhi - do Sânscrito, iluminação
Visitem: www.monjacoen.com.br

2 comentários:

Matheus disse...

"Basta perceber que nada é fixo, nada permanente – isto é o vazio. A mente vazia é aberta e flexível. Chora e ri. Pensa e não pensa. Não precisa ser esvaziada – já é vazia. Sendo vazia é clara e iluminada, em constante atividade e transformação."

Mas tenho uma dúvida:

Pelo que entendi de ensinamentos, tanto de Osho, como Eckhart Tolle a mente é poluída pelos pensamentos e emoções. De modo algum está vazia.
Tanto que eles nos ensinam o exercício do "observador", em que a mente seria uma espécie de entidade. Sei que todos já estão cansados de saber, mas a teoria é que quanto mais observarmos a mente, como um agente separado, maior e maior serão os "espaços" entre um pensamento e outro, entre uma emoção e outra.
Esses "espaços" são o que seria o vazio. E a tendência é que esses espaços cresçam mais e mais.
É isso que entendo sobre mente vazia.
É que as vezes alguns ensinamentos podem nos confundir.
Grato.

Gugu disse...

Olá, Matheus,

Mt boa a sua indagação. Gostaria de acrescentar algo à observação que fez em seu comentário.

O texto diz que a mente, assim mesmo como é, é vazia. É vazia, apesar de todo seu conteúdo imperfeito, instável, passageiro. A mente é vazia apesar de todas as suas mutações/variações.

Um aspecto que acho importante é tomarmos o cuidado de não confundir ou associar o "vazio" que é a mente (com todos os seus conteúdos) com o vazio dos "espaços" que aparecem quando passamos a observar a mente. Esses dois vazios não são a mesma coisa. O vazio da mente é um vazio inexistente, enquanto que o vazio que aparece nos "espaços" não a verdadeira existência. Quando percebe os espaços, percebe que esse vazio/espaço é você, o Ser que você é. Enquanto isso, diante dos seus olhos (de observaor) a mente desfila com todas as suas imagens, conteúdos, brincadeiras... mas tanto a mente projetora das imagens quanto as próprias imagens são irrealidades, porque o Ser ("espaço") que você é ocupa eternamente tudo o que há para ser ocupado.

Ajuda não pensar que a mente é "poluída" por pensamentos e emoções, como se pensamentos e emoções fossem coisas feias que não deveriam estar ali. Se encararmos assim, será mt mais difícil fazer a desidentificação com a mente - porque estaremos por demais presos a ela. Se pudermos encará-la da forma como o texto sugere, as coisas ficam mais fáceis. Pensamentos e emoções não são "lixos", mas são coisas da própria natureza da mente. Não são bons, nem maus, apenas são da própria natureza da mente. Assim, fica mais fácil observá-los, ver a mente como "nada" ou "vazio", e também perceber o seu próprio Ser, que é puro espaço - não apenas vazio, mas também totalmente cheio. É um vazio que é ao mesmo tempo tudo e nada. Esse é o ser que somos.

Grande Abraço.