"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

segunda-feira, setembro 28, 2009

Uma história com Ramana

Um sadhu (monge mendicante) surgiu inesperadamente à porta da casa de Hariwansh Lal Poonja em Lyalpur, distrito do Punjab - Norte da Índia.

Hariwansh buscava, ardentemente, em todas as oportunidades que lhe surgissem, conhecer pessoalmente Deus. Então, aproveitou o ensejo, pela enésima vez, para colocar, a questão diante daquele homem que deveria manter uma relação estreita com o Divino:



Ramana Maharshi



Hariwansh: “Pode mostrar-me Deus, senão..., conhece alguém que o possa fazer?”

Sadhu: “Sim, eu conheço uma pessoa que lhe pode mostrar Deus. Se o visitar, tudo ficará bem consigo. O seu nome é Ramana Maharshi.”

E o sadhu dera-lhe também a indicação que essa pessoa vivia num Ashram (Ramanasramam) situado no sopé da montanha sagrada de Arunachala-Shiva, nos arredores da cidade de Tiruvannamalai - Sul da Índia.

Mas quando finalmente chegou a esse local, descobriu, para sua surpresa e frustração, que Ramana Maharshi era o sadhu que lhe aparecera à porta de casa em Lyalpur. Sentindo-se enganado, esteve prestes a deixar o lugar, quando foi informado por um devoto residente que Ramana Maharshi jamais havia saído de Tiruvannamalai. Intrigado, decidiu ficar.

E na primeira ocasião em que se encontrou com Ramana Maharshi no Ashram, expôs-lhe o que o intrigava:

Hariwansh: “É o homem que me apareceu à porta da minha casa no Punjab?”

Ramana permaneceu em silêncio.

Hariwansh: “Já viu Deus, em caso afirmativo, pode permitir-me vê-Lo?”

Ramana: “Eu não posso mostrar-te Deus porque Deus não é um objeto que possa ser visto. Ele é o sujeito. Ele é aquele que vê. Não te preocupes com objetos que possam ser vistos. Descobre quem é aquele que vê. Apenas tu és Deus.”

Mas Hariwansh, embora não estando disposto a seguir tal conselho, mesmo assim, recebeu a Graça do Iluminado, numa experiência transformadora diante da sua presença; e relata assim:

Hariwansh: “As suas palavras não me impressionaram. Elas pareceram-me mais uma desculpa na longa lista daquelas que eu já havia ouvido de diversos swamis por todo o país. Prometera mostrar-me Deus (quando apareceu em minha casa no Punjab), mas agora tentava dizer-me que não só não me pode mostrar Deus, como ninguém poderá!

Tê-lo-ia abandonado imediatamente e às suas palavras sem pensar duas vezes, se não fosse a experiência que tive de seguida, após me dizer para descobrir quem era o “eu” que queria ver Deus.

Ao concluir as suas palavras, olhou-me, e à medida que olhava profundamente nos meus olhos, todo o meu corpo começou a tremer e a sacudir-se. Um eletrizante disparo de energia nervosa atravessou-o. Sentia como se as minhas terminações nervosas estivessem dançando; e os meus pêlos permaneceram em pé. Tornei-me consciente do Coração espiritual dentro de mim. Este não é o coração físico. É, isto sim, a fonte e apoio de tudo o que existe. Dentro do coração, vi ou senti algo como um botão de flor fechado. Era brilhante e azulado.

Com o Maharshi a olhar-me e eu num estado de silêncio interior, senti esse botão a abrir-se e a florescer. Uso a palavra “botão”, mas essa não é uma descrição exata. Seria mais correcto dizer como algo que parecia um botão que abriu e floresceu no meu Coração. E quando digo “coração”, não quero dizer que a florescência estava localizada num sítio particular do corpo. Este Coração, este Coração do meu Coração, não estava dentro do corpo ou fora dele.

Não consigo dar uma melhor descrição exata do que aconteceu. Tudo o que posso dizer é que na presença do Maharshi, e sob o seu olhar, o Coração abriu e floresceu.

Foi uma experiência extraordinária que nunca tinha vivido antes. Não tinha ido procurar nenhum tipo de experiência, assim aquilo surpreendeu-me totalmente quando aconteceu.”

Hariwansh decidiu, apesar dessa experiência, que os ensinamentos de Ramana não eram para si. Foi então para o outro lado da montanha de Arunachala e continuou as suas meditações em Krishna que lhe aparecia inúmeras vezes.

A dada altura, mais uma vez, resolveu ir à presença do Sábio para o questionar sobre o significado de ter visões constantes de Krishna. Mas, novamente, Ramana pareceu subestimar a importância dessas visões, comentando:

Ramana: “Qual é a utilidade de um Deus que aparece e desaparece? Se Ele é um Deus real, deve estar contigo permanentemente.”

Entretanto, Hariwansh passou a viver em Madras, uma cidade bastante afastada do Ashram de Ramana.

Algum tempo depois, intensificando a sua prática de repetir o nome de Krishna, foi surpreendido pela visão de Ram, Sita e Lakshman, durante toda uma noite.

A partir dessa experiência, sentiu-se incapaz de continuar a sua disciplina. Perplexo com esse novo desenvolvimento, retornou ao Ashram de Ramana para indagar sobre o seu predicado ao Maharshi. Este escutou-o e comparou a sua prática com o comboio que o trouxera até ali:

Ramana: “O comboio (de Madras à Tiruvannamalai) trouxe-te até ao destino. Desceste dele porque não mais precisavas do veículo. Trouxe-te ao local que querias chegar... Foi isso que ocorreu com a tua prática de repetição. O teu japa (repetição do nome de Deus), as tuas leituras, a tua meditação, trouxeram-te ao teu destino espiritual. Não precisas mais deles. Não os abandonaste: eles deixaram-te por convenção de si mesmos porque alcançaram o seu propósito. Tu chegaste.”

Hariwansh: “Então ele olhou-me atentamente. Eu conseguia sentir todo o meu corpo e mente sendo lavados por ondas de pureza. Estavam a ser purificados pelo seu olhar silencioso. Sentia-o fazendo diretamente para o meu Coração.

Sob o efeito daquele olhar encantador, senti cada átomo do meu corpo sendo purificado. Era como se um novo corpo estivesse a ser criado para mim. Um processo de transformação estava a ocorrer: o velho corpo estava a morrer, átomo a átomo, e um novo corpo estava sendo criado no seu lugar.

Então, repentinamente, Eu entendi. Compreendi que este homem com quem havia falado era, na realidade, aquilo que Eu já era, aquilo que sempre fui. Ocorreu um súbito impacto de reconhecimento, à medida que Me tornei consciente do Ser.

Uso a palavra “reconhecimento” propositadamente, uma vez que eu sabia, assim que essa experiência me foi revelada, sem dúvida alguma, que este era o mesmo estado de paz e felicidade, no qual tinha ficado imerso, quando era uma criança de seis anos de idade em Lahore, numa ocasião em que recusei aceitar um sumo de manga.

O olhar silencioso do Maharshi restabeleceu em mim esse estado original. O desejo de buscar um Deus externo extinguiu-se no conhecimento direto e experiência do Ser que o Maharshi me relevou. (...) Eu sabia que a minha busca espiritual havia terminado. (...)”




(Extraído do texto traduzido a partir da Introdução do livro “The Fire of Freedom – Satsang with Papaji I”)

6 comentários:

Anônimo disse...

Permitam-me um breve comentário...

A frase essencial deste texto é:
"Então, repentinamente, Eu entendi. Compreendi que este homem com quem havia falado era, na realidade, aquilo que Eu já era, aquilo que sempre fui. Ocorreu um súbito impacto de reconhecimento, à medida que Me tornei consciente do Ser." Observem com atenção esta revelação: "Me tornei consciente do Ser". Esta é a mais elevada das percepções: tornar-se consciente do Ser, do "Ser Real", Aquele que em verdade Eu Sou! Tudo o que tem forma e se revela externamente é apenas uma aparência; O que Eu Sou é essência... O mestre externo sou Eu aparecendo como... Por isto houve a percepção/ reconhecimento imediato: "Compreendi que este homem com quem havia falado era, na realidade, aquilo que Eu já era, aquilo que sempre fui." Não há realidade na aparência; o real está na essência, mas se revela na aparência. Assim, devemos observar com atenção! O Ser Real não está na aparência, mas estando atentos podemos perceber sua manifestação e Presença. São os olhos atentos do observador que percebem o Ser em cada um e em todos. Este olhar, esta visão é a que desvela o Ser, que subjaz a todas as aparências.
Mystico

Gugu disse...

Permitimos, sim!

Aliás, o seu comentário foi muito elucidativo para o post.

Muito obrigado.

Abraços.

Washington de A. Vieira disse...

É este ao meu ver o principal motivo do budismo dizer que toda o desejo é a causa de todo o sofrimento humano, e suprimir o desejo é o meio de encontar o nibana.

Neste post por exemplo o desejo Hariwansh era conhecer Deus pessoamente ou encontrar que já o havia conhecido, enquanto ele continuasse a perseguir este desejo não iria ter o magnífico encontro consigo mesmo que ele teve através do encontro com Ramana.

Enquanto desejamos aquilo que esta fora de nós manifestado na forma, seja isto algo material ou um determinado idolo estaremos enconbrindo aquilo que já esta presente aqui e agora no Ser.

Ou seja, aquilo que eu preciso encontar já está aqui, para que preciso desejar? O desejo me leva para longe do meu Ser, e daquilo que já Sou em minha essência.

Magnifico texto.

Guga mais uma vez, muito obrigado,
muito obrigado e muito obrigado!

Mizi disse...

Eu desejo encontrar Deus, e nunca me separar Dele. É o que eu mais desejo.

Gugu disse...

Olá, Washington, mais uma vez, muito obrigado a você, também.

Realmente, o desejo só encobre a Autorealizaão do Ser que somos, apenas por um único e simples motivo: Se desejamos alcançar, significa que ainda não temos a compreensão/a convicção de que já O somos. Não há nada para ser adquirido realmente; tudo o que precisamos fazer é nos convencer (conseguir vir a ver/saber intimamente) que já somos Aquilo que tanto buscamos.

Eu não acredito que o desejar seja algo absolutamente ruim ou inconveniente. O desejo é inconveniente somente para quem ainda não percebeu o essencial. Uma pessoa iluminada como o Ramana não tem de se preocupar em manter-se distanciado ou unido ao desejo. Não desejar é apenas um método que nos permite aproximar da percepção de quem já somos. E acredito que esse seja o motivo do budismo insistir na questão do não-desejo.

Mas é isso aí, você disse tudo.
Grande abraço e até a próxima.

Gugu disse...

Mizi,

Realmente, desejar Deus é o que todo ser humano procura, é tudo o que ele mais quer. Mesmo as pessoas mais mundanas buscam por Deus mas não sabem disso, elas estão inconscientes. Por causa disso, elas buscam indiretamente nas coisas materiais e todas espécies de coisas mundanas que o mundo tem a oferecer. Só que somente Deus é a resposta definitiva para a ansiedade que cada homeme e mulher traz consigo: o desejo de retornar à Unidade. Unidade é Deus, Unidade é Amor.

A meu ver você está no seu caminho, um caminho muito correto.

Desejo que você O encontre o mais breve possível. Quero acreditar - e acho - que não está longe.

Que Deus te guie.

Abraços.