"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Transcendendo o Jakkô (mundo da claridade serena) - 01



Carta do sr. Hyakuzo Kurata*

Há algum tempo, comecei a escrever-lhe uma carta, mas acabei interrompendo porque não me sentia totalmente satisfeito com o seu ponto de vista. Explico: embora tenha grande simpatia e interesse pelo seu espiritualismo absoluto, pela sua teoria de que a matéria não existe originalmente, há dentro de mim um bloqueio que me impede de aderir totalmente a essa teoria. Por isso, não consigo agir como o senhor, isto é, afirmar corajosa e energeticamente que é possível curar as doenças físicas por meio da força espiritual. Entretanto, do ponto de vista da epistemologia, reconheço que tenho grande inclinação pela teoria espiritualista, e, no tocante à ciência, sei que a ciência moderna, na área da teoria dos elétrons (Nota: esse diálogo ocorreu na década de 30. Hoje em dia, a Ciência comporta a teoria quântica, estando ainda bem mais adiantada), tem uma faceta bastante "espiritualista". Essa constatação me deixa muito satisfeito. O que me agrada especialmente é a maneira clara e firme com que o senhor apresenta sua teoria diametralmente oposta à afirmação marxista de que "matéria é elemento dominante e o espírito se sujeita a ela". Considero-me uma testemunha viva da ação do espírito sobre o corpo, pois consegui curar-me de uma doença com a força espiritual - proveniente principalmente do despertar alcançado através da religião. No entanto, ainda não consigo acreditar realmente que "retornar à original união com a Grande Fonte do Universo" garantirá a cura de doença, melhora do destino, felicidade e prosperidade. De fato, uma vida em conformidade com a Grande Fonte do Universo é uma vida de luz. Contudo, essa luz não é aquela em oposição à treva, mas sim uma claridade difusa que está além da luz e treva, e que no budismo se diz jakkô. Por isso, há quem prefira usar a expressão seian ("treva sagrada"), em vez do termo jakkô - luz difusa que pode ser descrita como claridade suave ou penumbra. Vendo ocorrer doenças, infortúnios e calamidades neste mundo, deduzo que tudo isso esteja no grande jakkô, mas não consigo deduzir o contrário, ou seja, que do mundo do jakkô só podem vir coisas positivas como cura de doenças, felicidade e benefícios. Não posso saber se o Universo abrange por natureza a saúde, a felicidade e os benefícios. Quando adoeço, sinto que é o Universo que está doente, que é Deus que está doente. Então, como posso ter a certeza de obter a cura?

Essa ideia de fatalidade me ocorre principalmente quando se trata de adoecimento de animais. Creio que eles vivem em conformidade com a vontade de Deus; então por que adoecem? Em relação ao ser humano, tenho várias dúvidas. Pode-se fazer distinção entre morte natural e morte por doença? Entendo que é preciso viver conforme a vontade de Deus, mas não consigo acreditar que, procedendo desse modo, ocorra realmente a cura da doença. Consigo aceitar a crença de que, dependendo da vontade de Deus, pode-se obter a cura ou não. E foi assim que me curei da doença. Curei-me quando deixei de buscar ansiosamente a cura e me conformei, pensando: "Devo aceitar com resignação a doença, se essa é a vontade de Deus". Portanto, acho que a forma pela qual obtive a cura é diferente do seu método de cura, de cunho positivista e calcado na Ciência Cristã.

Entretanto, não significa que eu negue o seu ensinamento positivista sobre cura de doenças, felicidade e benefícios, e a respeito disso discorri de maneira detalhada e lógica no meu livro Mikagura Uta o Yumo (Lendo Hinos Sagrados). Pelo contrário, não posso deixar de concordar com suas afirmações. Porém, como eu próprio não tenho base suficiente, não posso fazer as mesmas afirmações aos outros.

Quando penso em Deus com uma visão panteísta, desenvolvo o seguinte raciocínio: já que Ele se manifesta através da mente humana, teria de possuir, necessariamente, uma natureza espiritual e também "pessoal". Por conseguinte, a vontade divina deve se manifestar não apenas como infalibilidade da lei natural, mas também como liberdade individual. A relação entre Deus e o ser humano baseia-se num livre intercâmbio de pensamentos e, portanto, é possível ocorrer milagres (fatos que transcendem a lei de causa e efeito). Acho que é possível a mente mover coisas. Devo reconhecer que Deus age segundo Seus propósitos. Só de pensar no mecanismo das válvulas do coração, fico maravilhado. É inconcebível que tal mecanismo, comparável ao da válvula de bomba que os homens fabricam com determinado propósito, tenha sido gerado por acaso ao longo do processo de selação natural das espécies, e sem o conhecimento do próprio indivíduo.

Por essa razão, estou inclinado a admitir a obtenção de cura, de bênçãos, e de benefícios por meio da fé. Contudo, não me parece que essa seja a essência da fé religiosa. Penso que a essência da fé está em manter-se um com Deus em toda e qualquer circunstância e viver conforme Seus desígnios. Se é vontade de Deus, temos de aceitar com resignação a doença e a morte - é assim que penso. No máximo, pediria a Deus: "Se é Vossa vontade, afastai de mim esse cálice". Por enquanto, não consigo ir além desta postura mental.

Por isso, não posso seguir seus passos. Como não tenho prova de que "doença não é desígnio de Deus", não posso recomendar ou divulgar esse ensinamento que o senhor vem pregando.

Pelas explicações acima, creio que o senhor entenderá as minhas razões.

Acho que existe uma diferença básica entre o meu conceito de jakkô (luz difusa) e o seu conceito de Luz. Segundo o meu conceito, jakkô é uma luz mesclada com treva, e não a luz em oposição à treva. Assim, ele abrange também as doenças, infortúnios e calamidades. É muito diferente da luz resplandecente, diante da qual a treva se afasta.

Por causa dessa diferença de conceitos, não estou em condição de escrever um texto apoiando inteiramente o seu ponto de vista. Não sei se os leigos me compreenderão.

Apesar disso, lendo o seu livro, percebo que na explicação da razão e do processo de cura existe fé, o que deixa bem claro que sua religião não visa simplesmente curar doenças, como criticam alguns segmentos da sociedade. Para curar doença, é preciso tornar-se um com o Universo. A iluminação ocorre como resultado da comunhão com o Universo; portanto, a iluminação é a prova da fé.

Uma vez esclarecidos o motivo e o meio pelo qual ocorre a cura da doença, com certeza as pessoas compreenderão que o senhor não está fazendo propaganda enganosa e que a cura é uma consequência natural da fé.

Só que, no meu caso - conforme expliquei no início desta carta -, tenho um conceito de fé um pouco diferente do seu, pois acredito que, mesmo que se torne um com o Universo, pode continuar existindo a treva. Por isso, não consigo seguir o seu caminho.

Concordo com o seu modo de pensar no que concerne à visão de mundo, até o ponto em que o senhor passa a tratar de intricados princípios de fé, como um entendido no assunto. Inclino-me a concordar que é possível obter benefícios por meio da devoção religiosa, mas não acredito que essa seja a essência da fé, e acho que o senhor também pensa assim.

Quanto à propaganda que o senhor publicou nos jornais, creio que seja um expediente para conduzir a massa para o caminho da fé. Como eu próprio participo de um campanha nacional, tenho real compreensão sobre estratégia de propaganda dirigida à massa. Porém, acho inevitável que tal propaganda cause ressentimentos em algumas pessoas vaidosas da própria integridade moral. Creio que essa questão só poderá ser esclarecida com base no meu conceito sobre "luz que pode conter uma parcela de treva". Se quisesse uma propaganda sem essa "parcela de treva", teria de optar por uma publicação dirigida a uma minoria, como a revista Seikatsusha. Bungei-Shunju e a Iwanami. De outro modo, não se pode gerar benefício em grande escala.

Não me importo nem um pouco que esta carta seja publicada. As questões que levantei são questões muito importantes do ponto de vista religioso, e as minhas considerações talvez contribuam para desfazer o equívoco e as críticas da sociedade quanto à forma de divulgação e ao modo de realizar curas.

(Hyakuzo Kurata)




Masaharu Taniguchi
RESPOSTA AO SR. HYAKUZO KURATA:
Prezado sr. Hyakuzo Kurata:

Recebi o seu livro Shinran Shonin, de cunho religioso, e pensei em fazer comentários sobre ele ou em apresentá-lo ao público. Mas decidi não fazê-lo porque constatei em seu livro a mesma divergência sobre o conceito de fé a que o senhor se refere ao afirmar que até certo ponto identifica-se com a minha fé, mas que a partir desse ponto discorda de mim em vários aspectos e, por essa razão, não consegue se decidir a transmitir aos outros o ensinamento da Seicho-No-Ie. Eu receava que, escrevendo um artigo citando esses pontos, poderia ser interpretado como uma crítica ao senhor, e a intenção de apresentar sua obra ao público acabaria tendo resultado negativo, o que seria lastimável. Entretanto, ao ler sua carta, compreendi melhor a sua postura mental no tocante à fé. Considerando que o senhor mesmo disse: "Não me importo nem um pouco que esta carta seja publicada. As questões que levantei são questões muito importantes do ponto de vista religioso, e as minhas considerações talvez contribuam para desfazer o equívoco e as críticas da sociedade quanto à forma de divulgação e ao modo de realizar curas", e considerando que também devem existir pessoas que estão no nível de fé semelhante ao seu e outras que têm dúvidas iguais às suas no que concernem à Verdade que a Seicho-No-Ie prega, decidi enumerar os pontos divergentes de nossas opiniões, mencionados em sua carta, esperando que os meus comentários a respeito sejam úteis para quem busca o caminho da verdadeira fé. Mesmo porque, conforme sua afirmação, os pontos divergentes de nossas opiniões constituem uma questão bastante grave no âmbito da religião, e eu penso que nessas diferenças está a razão pela qual a fé por nós preconizada realiza milagres no cotidiano, enquanto religiões tradicionais como o budismo e o cristianismo raramente operam milagres no dia a dia.

O senhor é uma pessoa que realmente vivenciou a cura divina. Na carta, afirma: "Considero-me uma testemunha viva da ação do espírito sobre o corpo, pois consegui curar-me de uma doença com a força espiritual - proveniente principalmente do despertar alcançado através da religião". Mas, em seguida, diz: "No entanto, ainda não consigo acreditar realmente que 'retornar à original união com a Grande Fonte do Universo' garantirá a cura de doença, melhora do destino, felicidade e prosperidade", e tece a seguinte consideração: "De fato, uma vida em conformidade com a Grande Fonte do Universo é uma vida de luz. Contudo, essa luz não é aquela em oposição à treva, mas sim uma claridade difusa que está além da luz e treva, e que no budismo se diz jakkô. Por isso, há quem prefira usar a expressão seian ('treva sagrada'), em vez do termo jakkô - uma luz difusa que pode ser descrita como claridade suave ou penumbra".

Não sei exatamente o que o senhor quer dizer com a expressão "Grande Fonte do Universo", usada nessa parte de sua teoria; talvez esteja se referindo ao Criador, do ponto de vista do cristianismo; ao "vazio original" da filosofia budista, ou ao mundo Sumikiri - mundo absoluto anterior ao surgimento dos fenômenos do universo -, de que fala o xintoísmo ortodoxo. Suponho que, segundo o seu conceito, a "Grande Fonte" seja algo comparável a raios solares originalmente "incolores", que no arco-íris estão decompostos em raios de sete cores. Os "raios incolores" do Sol corresponderiam ao Ser Absoluto, e os raios decompostos, aos fenômenos manifestados neste mundo. Pensando desse modo, posso entender a sua ideia de que na "Grande Fonte do Universo" estão abrangidos todos os fenômenos, inclusive doenças, infortúnios e calamidades. Se o senhor pensa que todos os fenômenos do mundo fenomênico, tanto as doenças, os infortúnios e as calamidades como a saúde, a felicidade e outros benefícios estão abrangidos na Grande Fonte, da mesma forma que as cores do arco-íris estão abrangidas nos raios solares "incolores" (que corresponderiam ao grande jakkô), é natural que tenha chegado à seguinte conclusão: "Vendo ocorrer doenças, infortúnios e calamidades neste mundo, deduzo que tudo isso esteja no grande jakkô, mas não consigo deduzir o contrário, ou seja, que do mundo do jakkô só podem vir coisas positivas como cura de doenças, felicidade e benefícios. Não posso saber se o Universo abrange por natureza a saúde, a felicidade e os benefícios. Quando adoeço, penso que isso é consequência do 'adoecimento' do Universo - diria, até, que é proveniente de Deus. Então, como posso ter a certeza de obter a cura?"

Prosseguindo a leitura da carta, percebi que sua ideia de "Grande Fonte do Universo" é bastante parecida com o conceito de "vontade cega do Universo" preconizado por Schopenhauer. Não pude deixar de me lembrar de um trecho da coletânea de pensamentos Seichi (Reflexões) que o senhor publicou há mais de dez anos, no qual expressa a sua visão de mundo com as seguintes palavras: "Penso que este mundo segue a sua trajetória abrangendo em si o 'incêndio' e a 'festa das flores', mas que vai dominando gradativamente o 'incêndio' e fazendo predominar cada vez mais a 'festa das flores'". Lembrando-me dessas palavras, concluí que o senhor vê como Grande Fonte do Universo a força incompleta que, "abrangendo o 'incêndio' e a 'festa das flores' e lutando contra essa incoerência, vai se ampliando e intensificando. Sob esse prisma, talvez a "Grande Fonte do Universo" seja a "treva sagrada", como disse alguém. Por outro lado, já que é um mundo que transcende a matéria, talvez seja o "vazio original". Mas se o ser que rege nossa vida fosse alguém imperfeito que fizesse surgir várias tragédias da "treva sagrada" ou gerasse diversos infortúnios do "vazio original", e se afligisse, sofresse e lutasse junto com o homem carnal, então ele seria um ente destituído de sabedoria e não mereceria ser chamado de Deus.Da frase: "Quando adoeço, penso que é consequência do 'adoecimento' do Universo", constante na sua carta, depreendo que, no seu entender, quem cria um corpo doente e o mantém é uma força proveniente da Grande Fonte do Universo. Se a Fonte do Universo fosse uma força que nos traz infortúnios, não se poderia chamá-la Deus, e sim Mumyo (Ausência de Luz, ilusão). Dizer que é essa a força motriz que sustenta a existência deste mundo é confirmar a teoria budista dobre mumyo-engi ("Tudo surge a partir da ilusão primordial do mundo") e negar a teoria cristã sobre a criação do Universo por Deus.

Tentando provar a sua teoria de que na Fonte do Universo estão abrangidas até mesmo doenças e, portanto, elas não são consequências das ilusões das pessoas, o senhor diz: "Essa ideia de fatalidade me ocorre principalmente quando se trata de adoecimento de animais. Creio que eles vivem conforme a vontade de Deus; então, por que adoecem?". O senhor não estaria se baseando numa observação equivocada ao questionar isso? É sabido que as aves e os animais, enquanto vivem de modo natural em seu habitat, não adoecem. Mas tornam-se vulneráveis a doenças quando são domesticados e passam a viver em contato com o ambiente humano. Os pardais procriam duas vezes por ano, na primavera e no outono; devido à rápida multiplicação, com certeza existe uma enorme população desses pássaros. Se eles fossem vulneráveis a doenças, o número de mortes seria elevadíssimo, e veríamos pardais mortos em toda parte. Porém, esses pássaros não morrem prematuramente, a não ser quando são vítimas de meninos malvados que atiram neles com espingarda de pressão ou quando sofrem algum acidente. Os animais e as aves só morrem prematuramente quando são domesticados e passam a conviver com o ser humano. Não nos leva este fato à conclusão de que eles só se tornam vulneráveis a doenças quando entram em contato com as emanações da mente ilusória do ser humano?

Existem casos que comprovam que animais domésticos doentes curam-se quando alguém lhes dirige vibrações positivas. Isto nos leva a inferir que o adoecimento de animais não é algo que ocorre longe dos humanos, que é o principal de todos os seres viventes. Talvez o senhor questione se havia ou não doenças no mundo animal, anteriormente ao surgimento da existência do homem na Terra. Como não existe nenhuma prova seja para afirmar, seja para negar, acho que não vale a pena discutir o assunto com base na imaginação. Limito-me a opinar que, anteriormente ao aparecimento do homem na Terra, os animais devem ter tido destinos condizentes com a mente deles, muitos como vítimas de erupções vulcânicas e outros cataclismos.

O sr. Yaomura, gerente da empresa Han-wa Dentetsu, contou-me que a esposa dele conseguiu curar, por meio da Meditação Shinsokan, o seu cachorro que estava com o corpo coberto de sarna e em estado de fraqueza extrema. O animal sarou quando a sra. Yaomura passou a mentalizar a natureza búdica do cachorro. A pergunta "Existe natureza búdica ou não?" é um koan (questão para meditação) do budismo zen. Já que o cachorro do casal Yaomura ficou curado quando recebeu a mentalização positiva que dissipou a nuvem de ilusão que encobria a sua natureza búdica, penso que a manifestação da natureza búdica só pode resultar na cura de doenças, na felicidade, em tudo o que é bom. (...) (o restante foi suprimido) (Existem vários outros casos verídicos, mas as pessoas envolvidas me pediram para não citá-los, alegando que o ponto de vista segundo o qual o estado de saúde dos animais depende da energia espiritual emanada do ser humano poderá trazer consequências danosas. Por isso, abstive-me de mencionar esses casos verídicos, apesar do receio de que a não-citação deles poderá fazer com que o meu ponto de vista seja considerado uma teoria vazia ou argumento vazio.)

Existem fatos comprovando que os animais mantêm-se sadios quando recebem do ser humano vibrações mentais positivas e adoecem quando recebe vibrações mentais negativas. Diante disso, não posso deixar de pensar que a doença dos animais estão abrangidas na Grande Fonte do Universo, mas se originam da mente do ser humano. O seian ("treva sagrada"), que na sua interpretação abrange doenças e infortúnios, seria a própria mente humana, e não a Grande Fonte do Universo ou o próprio Deus. Obviamente, na mente humana encontram-se não apenas as causas das doenças, dos infortúnios e da degradação, como também as da saúde, da felicidade e da prosperidade, o que pode ser comprovado pelo fato de que, quando uma pessoa pratica a Meditação Shinsokan, lê a Chuva de Néctar da Verdade e passa a exteriorizar a luz que existe em seu interior, consegue proporcionar saúde e felicidade não somente às pessoas à sua volta, como também aos animais domésticos. Podemos, pois, chamar a mente humana de seian, que abrange simultaneamente coisas ruins como doenças, infortúnios, degradação e coisas boas como saúde, felicidade, prosperidade, e que está evoluindo pouco a pouco, dominando o que é ruim e desenvolvendo o que é bom.

Acho que podemos substituir o termo seian por um outro, seimumyo (sei = "sagrada" + mumyo = expressão do budismo, que significa "ilusão", "ausência de luz"). E considerando que o prefixo sei ("sagrada") não se aplica a algo que abrange coisas maléficas como doenças, infortúnios e degradação, creio que convém dizer simplesmente mumyo. Sob este prisma, pode-se concluir que o senhor, apesar de usar as expressões "Grande Fonte do Universo" e "Deus", que evocam o Criador, na verdade pensa que aforça motriz do Universo seja o mumyo (que corresponde à "vontade cega do Universo", teoria de Schopenhauer).

Creio ser natural que o senhor, com essa postura mental, afirme: "Entendo que é preciso viver conforme a vontade de Deus, mas não consigo acreditar que, procedendo desse modo, ocorra realmente a cura da doença". O senhor fala em "viver conforme a vontade de Deus", mas o que o senhor quer dizer, na verdade, é "viver conforme o mumyo". Eu também não acredito que "vivendo conforme o mumyo, ocorra realmente a cura da doença". O senhor diz: "Consigo aceitar a crença de que, dependendo da vontade de Deus, pode-se obter a cura ou não." A meu ver, o que o senhor quer dizer é: "A ocorrência ou não da cura depende do mumyo".

O senhor afirma que sarou quando deixou de buscar ansiosamente a cura e se resignou, pensando: "Devo aceitar com resignação a doença, se essa é a vontade de Deus". Parece que o senhor chama de "vontade de Deus" o seimumyo, que abrange tanto a enfermidade como a cura e que às vezes provoca doença e outras vezes propicia uma cura gradativa. Se é assim, podemos dizer que a sua afirmação de ter-se curado quando se conformou pensando "Devo aceitar com resignação a doença, se essa é a vontade de Deus" implica em admitir que você obteve a cura quando se entregou ao mumyo. Acho que, neste ponto, o senhor me apresentou um tema muito interessante para ser discutido.

Considero perfeitamente natural que ocorra a cura da doença quando a pessoa se entrega nas mãos de Deus, confiando na vontade divina, que é a expressão da perfeição suprema, bondade suprema e amor supremo; mas não me parece natural a cura como a que o senhor experienciou, ou seja, a cura que o senhor obteve quando se entregou aos "desígnios do mumyo". Dos inconstantes e arbitrários desígnios do mumyo ou seian não se pode esperar exclusivamente a cura, a felicidade, a prosperidade, e é por isso que o senhor afirma: "Se é vontade de Deus, temos de aceitar com resignação a doença e a morte - é assim que penso. No máximo, pediria a Deus: 'Se é vossa vontade, afastai de mim esse cálice'. Por enquanto não consigo ir além desta postura mental". Lendo esta afirmação, penso que o senhor não avançou nenhum passo da postura demonstrada na época em que escreveu Shuke to Sono Deshi (O Monge e Seu Discípulo), no qual fez o personagem Shinran proferir, num trecho, uma frase semelhante.

O senhor diz: "Não posso seguir seus passos". É compreensível o senhor alegar que "não tem prova de que a doença não é desígnio de Deus", pois a seu ver, a vontade que é o emissor dos desígnios seria a "vontade cega do Universo", de que falou o filósofo Schopenhauer.

Não importa o nome que o senhor atribua à força que sustenta o Universo - seian, seimumyo, daijakko ou Grande Fonte do Universo -, se a sua ideia sobre essa força corresponde à da "vontade cega do Universo" preconizada por Schopenhauer, estará admitindo a ação de uma força cega que gera consequências imprevisíveis, e, portanto, não poderá chegar à conclusão de que "doença não existe". Do mesmo modo que um cego andando pela cidade ora pode se chocar com um poste, ora pode caminhar sem topar com nenhum obstáculo, uma vida regida pela "vontade cega", pode se deparar ora com o infortúnio, ora com a felicidade. Assim, é natural que, segundo essa teoria da "vontade cega do Universo", as pessoas estejam sujeitas a "colidir com um poste" ou "cair numa valeta" uma vez ou outra. O fato de alguém obter a cura mesmo seguindo a "vontade cega do Universo" é comparável a atravessar são e salvo uma avenida, conduzido por um guia cego; podemos dizer que foi pura sorte.

Entretanto, não quero pensar que o fato de o senhor ter-se curado quando se resignou pensando "Devo aceitar a doença se essa é a vontade do céu" foi pura sorte, isto é, devido à ação da "vontade arbitrária" do seian ou seimumyo, que o favoreceu por acaso. O motivo da cura é perfeitamente explicável à luz dos ensinamentos da Seicho-No-Ie a respeito da lei mental. É o seguinte:

Somente o que é bom, como a harmonia, a perfeição, a saúde, a felicidade, os benefícios, a luz, a sabedoria, e, sobretudo, a Vida, tem existência real. O mundo fenomênico é uma projeção da imagem do mundo da Existência Verdadeira na "tela" de tempo e espaço, feita através da "lente mental". Portanto, se a "lente mental" estiver opaca ou distorcida, o mundo projetado através dela (o mundo fenomênico) terá aspecto imperfeito; nesse caso, o corpo carnal, que é uma manifestação fenomênica, deixará de ser sadio; e a situação da pessoa será de infortúnio. O senhor afirma ter-se curado de uma doença que já durava mais de dez anos quando atingiu o estado mental de "entregar-se totalmente à vontade do seian". Mas não foi pela obra da "vontade arbitrária" do seian que a cura ocorreu. Quando o senhor, não conseguindo escapar do sofrimento apesar das tentativas, percebeu que só lhe restava entregar-se à vontade de algo superior e assumiu a atitude mental de abnegação total, sua mente se sublimou e atingiu o estado de completa serenidade; então, a sua "lente mental" - através da qual o mundo fenomênico se projeta na "tela" de tempo e espaço - tornou-se límpida e sem distorção e, em consequência, o seu corpo carnal passou a apresentar maior semelhança com a Imagem Verdadeira que é perfeita. Assim, o senhor recuperou a saúde, de forma inesperada. Se o corpo carnal torna-se sadio mesmo que a pessoa se entregue à vontade do seian em vez de confiar na luz suprema, é porque as agitações da mente se amainam.

Na antiga seita Hito-no-Michi, muitas pessoas obtiveram a cura da doença quando adotaram a postura mental de obediência absoluta aos goshisnen ("sentenças divinas"), abandonando o criticismo, anulando o ego e confiando em ofurikae (transferência de problemas a orientador-mediador). Esse fato mostra que, quando a pessoa alcança o estado mental de entrega total, ou seja, assume a postura mental de receber com docilidade todas as coisas, as ondas agitadas da sua mente se amainam, o que propicia a projeção, no mundo fenomênico, do cenário harmonioso e perfeito do mundo da Existência Verdadeira que está à disposição de todos desde o princípio. Assim, ocorrem a cura da doença e o advento da felicidade.

Constatamos, pois, o profundo significado das afirmações feitas pelo fundador da seita Konko: "As graças estão à nossa disposição mesmo que não as peçamos" e "Não podemos obter as graças se não adotarmos a atitude mental de total entrega". "As graças que estão à nossa disposição mesmo que não as peçamos" são a perfeição e a harmonia do mundo da Existência Verdadeira, que nos são concebidas desde o princípio, independentemente de assumirmos ou não a atitude mental de total entrega, ou de orarmos ou não. Essas graças existem de verdade desde o princípio; são a perfeição, a harmonia, os benefícios, a felicidade e a saúde que existem no mundo da Existência Verdadeira independentemente de termos fé ou não. Mas como o mundo da Existência Verdadeira é o mundo que transcende o tempo e o espaço, a sua perfeição não está manifestada sob a forma de graças tangíveis. Para que isto aconteça, é preciso adotar a postura mental de entrega total preconizada pelo fundador da seita Konko e tornar a "lente mental" límpida e sem distorção. Quando uma pessoa passa a ter a postura mental de entrega total e amaina as agitações da mente, consegue fazer com que se manifeste no mundo fenomênico o cenário perfeito do mundo da Existência Verdadeira, independentemente da crença que lhe proporcionou a serenidade mental; por exemplo, a pessoa pode conseguir a cura da doença tendo fé em qualquer coisa, tomando pílulas de feitas de farinha de trigo pensando tratar-se de um remédio precioso, acreditando na eficácia de ofurikae, ou crendo que o mumyo é a "Grande Fonte do Universo" e dispondo-se a aceitar docilmente os desígnios do mumyo. Em suma, quando passamos a viver com a mente serena, manifesta-se no mundo fenomênico o cenário perfeito do mundo da Existência Verdadeira ("as graças que estão à nossa disposição mesmo que não as peçamos").

Cont...
(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pgs. 59-78)


domingo, janeiro 16, 2011

A natureza do Homem

Ramana Maharshi


Bhagavan: O indivíduo que identifica a sua própria existência com a existência da vida no corpo físico, e o toma como “eu”, é chamado de ego. O Eu Real, que é pura Consciência, não tem sentimento de ego ligado ao corpo. Nem pode o corpo físico, que é por si só inerte, ter esse sentimento de ego. Entre os dois – ou seja, entre o Eu ou pura Consciência e o corpo físico inerte – surge misteriosamente a sensação de ego, ou noção de ‘eu’, este híbrido que não é nenhum dos dois e que floresce como ser individual. Este ego ou ser individual é a raiz de tudo o que é fútil e desagradável na vida. Por isso ele deve ser destruído por qualquer meio possível; então permanece apenas o brilho d’Aquilo que sempre é. Isso é a Libertação, Iluminação ou Auto-Realização.

Discípulo: O Bhagavan muitas vezes diz: “o mundo não é exterior a você” ou, “tudo depende de você”, ou “o que existe fora de você?”. Para mim isso tudo é muito enigmático. O mundo existia antes de eu nascer e vai continuar a existir depois da minha morte, assim como continuou a existir depois da morte de todas as pessoas que já viveram como eu.

B: Alguma vez eu disse que o mundo existe por sua causa? Eu apenas lhe coloquei a questão ‘o que existe além de você mesmo?’ Você deve compreender que ‘você mesmo’ não se refere ao corpo físico nem ao corpo sutil, mas ao Eu Real. O que lhe foi dito é que uma vez que você conheça o Eu Real dentro do qual todas as idéias existem, incluindo a idéia de ‘eu mesmo’, ‘outros como eu’ e ‘mundo’, você pode compreender a verdade de que existe uma Realidade, uma Verdade Suprema que é o Eu Real de todo o mundo que você agora percebe, o Eu de todos os eus, o Real, o Supremo, o Eu eterno, distinto do ego ou ser individual, que é impermanente. Você não deve confundir o ego, ou noção de corpo, com o verdadeiro Eu.

D.: Então o Bhagavan quer dizer que o Eu Real é Deus?

B.: Você percebe a dificuldade disso? A auto-inquirição “Quem sou eu?” é uma técnica diferente da meditação “Eu sou Shiva” ou “eu sou Ele”. Eu prefiro enfatizar o autoconhecimento, porque você primeiro está preocupado consigo mesmo antes de querer saber do mundo ou seu Senhor. A meditação “Eu sou Ele” ou “Eu sou Brahman” é mais ou menos mental, mas a busca pelo Eu de que eu falo é um método direto, e de fato superior a ela. Pois, na medida em que você começa a busca pelo eu e vai se aprofundando, o Eu Real está lá esperando para lhe receber; então, o que quer que seja feito é feito por algo além, e você, como ser individual, não é responsável por isso. Neste processo são automaticamente abandonadas todas as dúvidas e discussões, assim como um homem que dorme esquece todas as suas preocupações por hora.

D.: Que certeza existe de que há alguma coisa me esperando lá para me receber?

B.: Quando a pessoa é suficientemente madura ela se convence disso naturalmente.

D.: Como alcançar essa maturidade?

B.: Vários caminhos são ensinados. No entanto, qualquer que seja o desenvolvimento prévio da pessoa, a prática ardente da auto-inquirição o acelera.

D.: Mas isso é uma argumentação circular: eu sou forte o bastante para praticar a autoinquirição se eu sou maduro, e é a própria prática da auto-inquirição que me torna maduro.

B.: A mente tem dificuldade de entender isso. A mente quer uma teoria para se satisfazer. Na verdade, entretanto, o homem que ardentemente busca a Deus ou ao seu Eu verdadeiro não precisa de nenhuma teoria.

Todos são o Eu Real e são, de fato, infinitos. No entanto, cada um confunde o seu corpo com o Eu Real. Para se conhecer qualquer coisa precisa-se de uma iluminação, e esta só pode ser da natureza da Luz – no entanto, ela ilumina tanto a luz física quanto a escuridão física. Ou seja, esta Luz está além da luz e escuridão aparentes. Ela em si não é nenhuma das duas, mas é chamada de Luz porque ilumina ambas. Ela é infinita e é Consciência. A Consciência é o Eu de que todos estão conscientes. Ninguém nunca está afastado do Eu Real, e portanto todos são de fato Auto-Realizados; o que acontece é que – e este é o grande mistério – as pessoas não sabem disso e buscam realizar o Eu Real. A Realização consiste apenas em se libertar da falsa noção de que não somos realizados. Não é nada novo a ser adquirido. Ela deve já existir, caso contrário ela não seria eterna, e apenas vale a pena se esforçar por aquilo que é eterno. Uma vez que a falsa visão “eu sou o corpo” ou “eu não sou realizado” for removida, apenas a Consciência Suprema ou Eu Real permanece; e é isso o que as pessoas chamam de “Realização” no seu estado atual de conhecimento. Mas a verdade é que a Realização é eterna e já existe aqui e agora. A Consciência é conhecimento puro. A mente surge dela e é constituída de pensamentos. A essência da mente é apenas atenção ou consciência. Entretanto, quando o ego nubla a mente, esta adota as funções de raciocínio, pensamento e percepção. A mente universal, não sendo limitada pelo ego, não tem nada exterior a si, e portanto ela é apenas consciência. É isso o que a Bíblia quer dizer com “EU SOU O QUE EU SOU”. A mente que é dominada pelo ego tem sua força drenada e por isso é muito fraca para resistir a pensamentos perturbadores. A mente sem ego é feliz, como nós percebemos no sono profundo, sem sonhos. Portanto, claramente se percebe que perturbação e felicidade são apenas estados da mente.

D.: Quando eu procuro o “eu” eu não vejo nada.

B.: Você diz isso porque você está acostumado a identificar o seu 'eu' com o seu corpo e a sua visão com os seus olhos. O que existe para ser visto? E por quem? E como? Existe apenas uma Consciência e esta, quando se identifica com o corpo, projeta a si mesma através dos olhos e vê os objetos a sua volta. O indivíduo está limitado ao estado de vigília; ele espera ver algo diferente e aceita a autoridade dos seus sentidos. Ele não vai aceitar que aquele que vê, os objetos vistos, e o ato de ver são todos manifestações da mesma Consciência – o “Eu-Eu”. A prática da meditação ajuda a superar a ilusão de que o Eu Real é alguma coisa [objetiva] para ser vista. Na verdade não há nada para ver. Como você se reconhece agora? Você precisa por um espelho na sua frente para reconhecer a si mesmo? A consciência em si é o “eu”. Realize-a e isto é a verdade.

D.: Quando eu investigo a origem dos pensamentos há a percepção do “eu”, mas isso não me satisfaz.

B.: Exatamente. Isso acontece porque essa percepção de “eu” está associada a uma forma, talvez à forma do corpo físico. Mas nada deveria ser associado ao Eu puro. O Eu Real é a Realidade pura em cuja luz brilha o corpo, o ego, e tudo mais. Quando todos os pensamentos são aquietados sobra apenas a pura Consciência.

D.: Como o ego surgiu?

B.: Não existe ego. Se existisse, você teria que admitir a co-existência de dois “eus” em você. Portanto, também não existe ignorância. Se você investigar dentro do Eu, a ignorância, que já é não-existente, vai ser vista como tal, e então você dirá que ela sumiu. A ausência de pensamentos não significa um vazio. Alguém deve estar consciente desse vazio. Conhecimento e ignorância são duais e pertencem apenas à mente – o Eu Real está além de ambos. Ele é pura Luz. Não é necessário que um eu veja o outro. Não existem dois eus. O que não é o Eu é apenas não-Eu, e não pode ver o Eu. O Eu Real não possui visão ou audição, mas está além deles brilhando sozinho como pura Consciência.

(O Bhagavan muitas vezes apontava a existência contínua do homem mesmo durante o sono sem sonhos como uma prova de que ele existe independente do ego e do sentimento de ter um corpo. Ele também se referia ao estado de sono profundo como um estado sem corpo e sem ego. )

D.: Eu não sei se o Eu é diferente do ego.

B.: Em que estado você estava quando dormia profundamente?

D.: Eu não sei.

B.: Quem não sabe? O eu do estado de vigília? Mas você não nega que existia durante o sono profundo, certo?

D.: Eu existia no sono profundo e existo agora, mas não sei quem estava em sono profundo.

B.: Exatamente! O homem no estado de vigília diz que ele não sabia de nada no estado de sono profundo. Agora ele vê objetos e sabe que ele existe, mas no sono profundo não havia objetos e nem o observador. No entanto, a mesma pessoa que fala agora existia também no sono profundo. Qual é a diferença entre esses dois estados? Agora existem os objetos e a atividade dos sentidos, enquanto que no sono profundo não havia. Surgiu uma nova entidade: o ego. O ego age através dos sentidos, percebe objetos, se confunde com o corpo, e afirma ser o Eu. Na realidade, aquilo que era no sono profundo continua a ser agora. O Eu Real é imutável. É o ego que surgiu entre os dois. Aquilo que surge e desaparece é o ego; aquilo que permanece imutável é o Eu Real.

(Tais exemplos às vezes davam a idéia equivocada de que o estado de Realização – ou permanência no Eu Real – que Bhagavan prescrevia, era um estado de inconsciência como o sono físico, e por isso ele buscava evitar essa idéia. )

B.: A vigília, o sonho e o sono são apenas fases da mente. Eles não são o Eu Real. O Eu Real é a testemunha desses três estados. A sua verdadeira natureza continua existindo enquanto você dorme.

D.: Mas nós somos aconselhados a não pegar no sono enquanto meditamos.

B.: O que você deve evitar é o torpor. O sono que se alterna com o estar desperto não é o verdadeiro sono; o estar desperto que se alterna com o sono não é o verdadeiro estar desperto. Você está desperto agora? Não. O que você precisa fazer é acordar para o seu estado verdadeiro. Você não deveria nem cair no falso sono e nem ficar falsamente acordado.

B.: Apesar de o Eu Real estar presente no sono também, ele não é percebido neste estado. Ele não pode ser conhecido no sono imediatamente. Deve-se primeiro realizá-lo no estado de vigília, pois ele é a nossa verdadeira natureza por trás dos três estados. O esforço deve ser feito no estado de vigília e o Eu Real deve ser realizado aqui e agora. Então ele será percebido como o Eu contínuo e intocado pela alternância vigília-sonho-sono.

(Com efeito, um dos nomes do verdadeiro estado de um ser realizado é o ‘Quarto Estado’, que existe eternamente e está além dos três estados de vigília, sonho e sono. Ele é comparado ao estado de sono profundo pois, como este, é sem forma e não dual; no entanto, como mostra a citação acima, está longe de ser o mesmo. No Quarto Estado o ego é absorvido pela Consciência, enquanto que no sono ele fica imerso na inconsciência.)


(Do livro: "Os Ensinamentos De Ramana M. em Suas Próprias Palavras")

quarta-feira, janeiro 12, 2011

"Fazei isto em memória de mim"



"E, quando chegou à casa, os cegos se aproximaram dele; e Jesus disse-lhes: Credes vós que possa fazer isto? Disseram-lhe: Sim, Senhor. Tocou, então, os olhos deles, dizendo: Seja-vos feito segundo a vossa fé. E os olhos se lhes abriram." (Mateus 9, 28-30)

"É lamentável que as pessoas busquem longe, sem saber que está bem perto o que buscam. É como se reclamassem de sede estando dentro da água. Não diferem de um filho de milionário perdido na ilusão de pobreza." (Hakuin, mestre zen-budista)




Masaharu Taniguchi
O ser humano se torna saudável pelo poder da palavra porque a essência do ser humano é a própria saúde. Mas a própria saúde, que está alojada por natureza no ser humano não se manifesta para quem não se conscientiza disso. Quando o homem entende que o ser humano é filho de Deus, e a doença não existe originariamente, é varrida a crença ilusória de que "a doença existe", desaparece o temor, some a preocupação e, assim como a lua cheia clareia quando desaparecem as nuvens, manifesta-se claramente a perfeição da Imagem Verdadeira (Jisso) do ser humano. Se a lua cheia clareia majestosamente após desaparecerem as núvens, é porque ela existe.

Não é após a cura da doença que a saúde aparece; originariamente, a Imagem Verdadeira do ser humano é saudável; por isso, a saúde aparece quando se retira a ilusão. A função de todas as religiões consiste em fazer o ser humano conscientizar a sua saudável Imagem Verdadeira, que é o próprio Deus, o próprio Buda.

O citado caso da Bíblia não se trata da cura de um só cego, mas de dois. Pelo poder da palavra e por meio do toque nos olhos, a fé das pessoas foi despertada profundamente, e consequentemente ambos os cegos ficaram curados e passaram a ver. Por que ocorreu a cura? Foi porque o ser humano é originariamente filho de Deus e saudável.

O Mestre Hakuin também disse: "A humanidade é originariamente Buda". A Sutra do Nirvana diz: "A libertação constitui Buda". A Imagem Verdadeira da Vida, que é plenamente livre por natureza, está encoberta de "gelo" de ilusão e não está podendo manifestar a sua original liberdade. Desfazendo essa cobertura, a Vida se liberta, e a esse estado de liberdade diz-se Buda. A budificação do homem, isto é, "tornar-se Buda", consiste na eliminação da ilusão e consequente restauração do estado de plena liberdade inerente ao homem filho de Deus. Neste ponto, o budismo e o cristianismo se identificam. O significado de "homem filho de Deus", na etimologia da língua japonesa, é "hito", ou "hiko" e "hime". Hito significa que a ramificação do espírito de Buda Grande Sol se aloja em nossa Vida. O filho de Buda Grande Sol é Hiko. E a filha de Buda Grande Sol é Hime. Em termos cristãos, diz-se que o ser humano é filho de Deus.

O ser humano é filho de Deus, mas se ele não se conscientizar disso, as suas qualidades inerentes não irão se manifestar. Foi visando essa conscientização que Sakyamuni praticou ascese durante seis anos, e Jesus Cristo jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Esse tipo de ascetismo tem sentido como negação do corpo carnal. A Vida chamada "filho de Deus" se manifesta por meio do corpo carnal; este, por si só, não é a Vida que se chama de filho de Deus. Por isso, para manifestar a Vida que é filho de Deus, é preciso, primeiramente, negar o corpo carnal. A crucificação de Jesus constitui o último degrau de negação do corpo carnal. Na Sutra do Lótus, no capítulo "Yakuô bosatsu honji hon", também consta que Issaishujô-kiken-bosatsu, negando o corpo carnal, queimou-o e depois manifestou o corpo de ouro indestrutível.




"E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo:Isto é o meu corpo oferecido a vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós." (Lucas 22, 19-20)
A crucificação de Jesus significa x (xis - anulação) e ao mesmo tempo + (positivo, afirmativo), isto é, ressureição. Caro leitor, enquanto você considerar como seu Eu verdadeiro o seu corpo carnal que está vendo com os olhos carnais, não poderá descobrir a Vida eterna do homem. A Vida eterna poderá ser conscientizada unicamente pela negação do corpo carnal e pela afirmação de uma dimensão mais elevada. A inteligência que faz ver o corpo carnal como sendo o homem em si, não passa de "fruto da árvore do conhecimento" sugerido pela serpente. Por terem comido desse fruto, Adão e Eva (representantes da humanidade) foram expulsos do Jardim do Éden (mundo da Vida eterna). O "fruto da árvore do conhecimento" sugerido pela serpente é o conhecimento baseado nos cinco sentidos, pois a serpente é um animal que rasteja na terra, isto é, na superfície da matéria.

Vendo o homem com o conhecimento baseado nos cinco sentidos, ele não passa de aglomerado de "pó da terra" e não é Vida eterna. O homem enganado pela serpente foi declarado por Deus como vida limitada (vida sujeita à morte) com as seguintes palavras: "Porque tu és pó e ao pó voltarás". O pecado original de Adão consistiu em ver o ser humano apenas com a inteligência dos cinco sentidos, considerando-o equivocadamente como existência carnal. Como tal, o homem é eterno pecador. Ele terá de se alimentar matando seres vivos, viver envolvido em conflitos e matanças. Enfim, será possível apenas uma vida de pecados. Mas o ser humano não consegue suportar tanto sentimento de culpa. Ele precisa absolutamente se livrar do homem carnal, que é um acúmulo de pecados, transcendê-lo, lançar-se no mundo sem pecado e conscientizar-se de que ele próprio é sem pecado. Do contrário, terá de sofrer de eterna autocontradição, a incoerência entre o desejo de ser puro e a vida maculada de lama. Para o homem se livrar dessa autocontradição e conscientizar-se de sua natureza perfeita e sem contradição como santo filho de Deus, precisa, a todo custo, negar o corpo carnal. Somente por meio dessa negação o ser humano pode atingir a conscientização de sua natureza espiritual sagrada e imaculada. Até conseguí-lo por completo, ele continuará sendo descendente de Adão e não deixará de ser um mortal que "veio do pó e ao pó voltará".

Mas, como será possível a aniquilação do corpo carnal? Será por meio de suicídio? Matar a si próprio viola o mandamento "não matarás". Então o único meio que nos resta é a comunhão com Cristo. Comendo da carne de Cristo, bebendo de seu sangue, identificando-nos com a carne e o sangue de Cristo e ligando-nos à anulação do corpo (crucificação) de Cristo, teremos concluído a anulação do nosso corpo juntamente com a crucificação de Cristo, mesmo possuindo na realidade o corpo carnal. A redenção de cristo tem duplo significado. O primeiro significado da redenção (atonment, em inglês) é a aniquilação comutativa da ideia de que o corpo carnal existe, e o segundo é a consequente união (at-one-ment) com Deus. A conscientização da união com Deus só é possível com a negação do corpo carnal. Entre as pessoas que, como nós, explicam a redenção de Cristo como "at-one-ment", temos a fundadora da Ciência Cristã, a sra. Mary Baker Eddy. Ela diz:

"A ressureição é a prática concreta por meio da qual o homem se une a Deus e, com isso, o homem passa a refletir a Verdade, a Vida e o amor como filho de Deus. Jesus de Nazaré pregou a Verdade de que pai e filho (Deus e homem) são um, e comprovou isso. Jesus negou corajosamente as provas sensoriais mostradas pelos cinco sentidos, fez oposição a mandamentos materialistas e dogmas farisaicos e, pelo seu poder de cura, refutou concretamente todos os seus opositores.

A redenção de Cristo foi para que o homem se reconciliasse com Deus,e não para que Deus se reconciliasse com o homem. O "princípio de salvação por Deus", que é o Cristo, é o próprio Deus; assim sendo, que necessidade haveria de Deus Se crucificar para consolar a Si mesmo? Cristo é a Verdade (...)

Cristo é a Verdade proveniente do amor eterno, e por isso não tem necessidade de se reconciliar com a sua própria origem. Por essa razão, o objetivo de Cristo era fazer o homem se reconciliar com Deus, e não Este Se reconciliar com o homem. O Amor e a Verdade não podem alimentar maldade contra o homem, que é realizador da vontade de Deus e imagem concretizada de Deus. (...) Jesus possibilitou ao homem ver a Imagem Verdadeira por meio do amor (o princípio básico de seu ensinamento) e lhe ensinou a se reconciliar com Deus. Quando contemplar (vir) a Imagem Verdadeira com amor e intuição, que é superior aos cinco sentidos, o homem será salvo das leis materiais do pecado e da morte, graças à lei da Imagem Verdadeira, isto é, lei do amor de Deus." (Science and Health - Imagem Verdadeira e Saúde, na tradução japonesa, pp. 18-19, de autoria da sra. Eddy)
Se o homem está doente, é porque ele próprio não está reconciliado com Deus. Mesmo que ele seja aparentemente ateu, ele pensa na parte profunda da mente: "Sendo como sou, será que mereço ser perdoado por Deus?".

Por isso, podemos dizer que a sua infelicidade ou doença constitui uma espécie de autopunição. No subconsciente coletivo da humanidade, existe a ideia de que o pecado se extingue quando se impõe sofrimento ao corpo carnal. Essa ideia é difícil de ser erradicada por esforços individuais de aprimoramento espiritual. É aí que se torna necessário um redentor como Jesus. As doenças congênitas podem ser consideradas formas de autopunição para expiar erros de encarnações passadas. Jesus curou doenças congênitas (tais como cegueira), eliminando o sentimento de culpa (pecado).

Na Seicho-No-Ie também, existem alguns casos verídicos de cura de mudos de nascença. Segundo contou um membro do setor de censura telefônica do Exército de ocupação americano sediado em Tóquio, uma criança de seis anos de idade que nascera surda-muda foi curada por um adepto da Seicho-No-Ie do Havaí. De que forma Jesus curou doentes? Ele usou palavras como "tende ânimo", "teu pecado foi perdoado", "é a vontade de Deus: sê puro", "a tua fé te salvou", etc. Com isso, o doente sente que foi perdoado dos pecados, que foi salvo, que foi purificado, e sua mente se tranquiliza. Além disso, às vezes, Jesus tocava com sua mão a parte afetada do doente, para lhe dar mais tranquilidade. Dessa forma, até as doenças incuráveis acabavam curando-se quando a pessoa adquire paz de espírito após a eliminação do temor e do sentimento de autopunição do subconsciente.

Mas, então, como eliminar do subconsciente o sentimento de autopunição e temor? Uma das formas consiste em realizar o at-one-ment (tornar-se um) com Deus por meio da expiação. Mas expiar totalmente vários pecados e carmas negativos por meio de esforços individuais é muito difícil. Torna-se então, necessária uma expiação mais forte, isto é, uma expiação poderosa, feita por uma pessoa de grande caráter, tal como a redenção por Jesus. Nas igrejas cristãs, de modo geral, as pessoas, comungando com essa redenção, acreditam que ficam unidas à carne e ao sangue de Jesus e que, por meio dessa fé, vinculam-se ao amoroso ato de anulação da carne (crucificação) de Jesus; dessa forma, mesmo tendo corpo carnal, conscientizam que são libertadas de todos os pecados relacionados com o corpo carnal, e essa conscientização elimina a ideia de autopunição do subconsciente. Este é o mecanismo de cura pela eliminação do sentimento de culpa. Porém, na atualidade, as doenças não se curam só pelo fato de as pessoas se tornarem adeptas de igrejas cristãs comuns, porque a Verdade sobre a anulação do corpo, a Verdade sobre a redenção e a consequente Verdade da inexistência do pecado e da desnecessidade de autopunição não são compreendidas a fundo, verdadeiramente.

Mas, na Ciência Cristã estão obtendo muitas curas somente pela leitura de livros sobre a Verdade, porque ela ensina a fundo a Verdade sobre a redenção. Na Seicho-No-Ie também ocorrem curas somente com a leitura de livros, o que foi alvo de polêmica durante algum tempo. Tais curas são possíveis devido à Verdade de que o homem é, por natureza, isento de doença, e, como diz a Bíblia, "a Verdade vos torna livres". O ritual de comer pão e beber vinho não passa de ato simbólico para se chegar à compreensão dessa Verdade. Quando se conscientiza realmente a Verdade da inexistência do corpo carnal, são resolvidos os problemas de nascimento, envelhecimento, doença e morte, relacionados ao corpo carnal, e todos os sofrimentos cármicos. A cura de doença é apenas uma parte dessas soluções.


(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pgs. 92-105)

domingo, janeiro 09, 2011

VOCÊ JÁ ESTÁ SALVO - 02 (FINAL)

Masaharu Taniguchi

Alguns budistas pregam que a Imagem verdadeira é vazia. Segundo eles, "o ser humano é vazio e Buda também o é, pois Buda é a Realidade absoluta, que é vazia; e, como o vazio (Buda) e o vazio (o homem) são da mesma natureza, o primeiro pode atuar sobre o segundo". Porém, se Buda e o homem fossem ambos "vazios", suas respectivas forças seriam igualmente nulas, e Buda não poderia exercer seu poder sobre o homem. Certas pessoas pensam que "Buda, que veio do princípio absoluto, que é vazio, ilumina e salva o homem, que veio igualmente do princípio absoluto, que é vazio, da mesma forma como a luz, que é uma das manifestações do elemento vazio chamado éter, ilumina os objetos materiais, que também são manifestações do éter". Porém, não é correta essa idéia de que um ser proveniente do "vazio" ilumina outro ser proveniente do mesmo "vazio", porque o "vazio" é efêmero e, assim como a luz que ilumina os objetos materiais vai se enfraquecendo com o desgaste de sua energia, Buda também, se fosse uma das formas de manifestação do "vazio" (efêmero), mudaria de aspecto com o passar do tempo e deixaria de ser Buda.

Se Buda fosse proveniente do "vazio", Ele seria um ser instável, mutável, e poderia se transformar em criatura mortal. Acreditando em um ser tão instável, é impossível ser salvo. Por isso a Seicho-No-Ie não diz que Buda veio do "vazio".

Quando o Budismo diz que "a Imagem Verdadeira é vazia", quer dizer que "a natureza verdadeira (Imagem Verdadeira) do fenômeno é vazia". Entretanto, a natureza verdadeira (Imagem Verdadeira) da existência verdadeira não é vazia. É louvável compreender que a Imagem Verdadeira (natureza verdadeira) do fenômeno é vazia, mas considerar vazia também a Imagem Verdadeira da existência verdadeira é um erro, e tal modo de ver constitui "visão interruptiva", que Sakyamuni reprovou. Mas muitos dos eruditos budistas pensam que a Imagem Verdadeira da existência verdadeira é "vazia", razão pela qual o budismo atual não possui força para influir na vida cotidiana, e os sacerdotes budistas se tornaram pessoas distantes da vida prática, orando apenas pelos mortos. Aos olhos desses eruditos budistas, o budismo pregado pela Seicho-No-Ie pode parecer estranho ou errado, mas, se possui força para mudar a vida prática, é porque apreendeu verdadeiramente a Verdade.

Certos estudiosos do budismo pregam que "Buda é a Imagem Verdadeira e a Imagem Verdadeira é vazia", mas, por outro lado, pregam que "Buda é a Imagem Verdadeira, um ser imutável e indestrutível". Se, por um lado, eles consideram que a Imagem Verdadeira e Buda são o "vazio" (algo efêmero e mutável), é uma contradição afirmar, por outro lado, que "Buda é imutável e indestrutível". Então eles dão a seguinte explicação: "Imagem Verdadeira ou Buda é o elemento que pode se tornar falsa existência, assim como os átomos que, sendo indestrutíveis e imutáveis, podem constituir a matéria que muda constantemente de aspecto. E a Imagem Verdadeira é como os átomos, que são onipresentes, indestrutíveis e imutáveis. Assim é a Imagem Verdadeira, assim é Buda".

Parece que são muitos os budistas que pensam dessa forma (pelo menos no meu círculo de conhecimento, pois não creio que todos os budistas pensem assim). Mas, se é nesse sentido que Buda é indetrutível, e se é que o homem se torna Buda quando se destrói o fenômeno, já que este é falsa existência, então "tornar-se Buda" seria retornar ao elemento vago e universal parecido com o átomo. Se é para isso, não são necessários nem a oração a Buda, nem budismo, nem religião alguma. Seguindo o raciocíno deles, o homem seria uma existência falsa (corpo carnal) mas constituído de "elementos, como átomos, indestrutíveis e imutáveis, porém que podem se tornar falsa existência". Ele seria ao mesmo tempo "corpo carnal" (falsa existência) e "corpo búdico" (semelhante a átomo). Segundo eles, o corpo carnal é falsa existência porque é destrutível, mas Buda (átomo) é Vida eterna porque é indetrutível. Se encararmos a "Vida eterna" dessa maneira, não sentiremos alegria alguma pelo fato de sermos Vida eterna; seria o mesmo que termos vida mortal. Todo mundo sabe que o corpo carnal retorna à terra quando morre e que, por enquanto, o homem vive manifestando-se fisicamente, assim como os átomos estão manifestados como matéria.

Mas tal explicação de "eternidade da Vida" não satisfaz o anseio do nosso íntimo, e é por isso que buscamos a religião. Tal filosofia, que vê o homem apenas como matéria, é materialista. Ela diz: "O homem, quando morre, retorna ao mundo de origem, tal como um copo de água despejada no oceano; esse mundo é de quietude; é o vazio. Isto é a Imagem Verdadeira". Este pensamento é do budismo do pequeno veículo (hinayana), ou melhor, do budismo materialista. Esse budismo, segundo o qual a finalidade da Vida é alcançar a quietude, caiu no niilismo e não possui força para dinamizar a vida. É por isso que a Seicho-No-Ie não diz que a Imagem Verdadeira é vazia. O que é verdadeiro é consistente. O vazio é sempre vazio, e o que é consistente é sempre consistente.

A Seicho-No-Ie não compartilha a idéia de que Buda veio da transformação do vazio. O que surgiu da transformação (inclusive aquilo que está manifestado como Buda) um dia se transformará e desaparecerá. A Seicho-No-Ie nega o "Buda que surgiu da transformação", dizendo categoricamente que o "Buda" da trindade "mente, Buda e criaturas", citado no Avatamska Sutra, não existe. A imitação de ouro muda de cor facilmente e logo se descobre que é falso. Também o "Buda que veio da transformação do vazio" transformar-se-á um dia e se revelará falso. "O ser que se transforma em criatura quando cai em ilusão e se torna Buda quando se ilumina" - esse Buda, que é produto de transformações, é tal qual uma imitação de ouro e não é o Buda verdadeiro. O Buda verdadeiro não se transforma, assim como o ouro verdadeiro; Ele é Buda desde o princípio. O homem não se torna Buda pela combinação de vários elementos tais comp doutrina e práticas religiosas, como se fosse uma liga de ouro formada pela combinação de diversos elementos. O homem traz a natureza búdica dentro de si; ele é precioso desde o princípio, tal como o ouro.

Na Sutra do Nirvana está escrito: "Todas as criaturas possuem natureza búdica". Entretanto, quando se diz que "possuímos natureza búdica", temos a sensação de que somos um recipiente que contém a natureza búdica e não sentimos que somos a própria natureza búdica. Por isso, a Seicho-No-Ie não diz que "todas as criaturas possuem natureza búdica"; ela diz: "Criaturas não existem; existe unicamente a natureza búdica, e esta constitui o nosso Eu verdadeiro".

A natureza búdica é que pronuncia oração a Buda; é ela que mentaliza "Eu sou Deus" ou "Eu sou Buda". É a natureza búdica (divina) que se torna Verbo e se manifesta como prática religiosa; esta é a manifestação do Jitsu (conteúdo) de Buda (Deus). O fato de orar a Buda (Deus) constitui prova de que o homem é Buda (Deus). A prática da Meditação Shinsokan é, em si, manifestação de Buda (Deus) desde o princípio. "A grande prática consiste em pronunciar o nome de Buda de luz infinita" (Kyo-gyo-shin-shô, de autoria de Shinran).

Realmente, "oração a Buda" não é um ato em que uma criatura mortal se dirige a Buda; é o ato em que Buda vive o Buda, em que a Imagem Verdadeira vive a Imagem Verdadeira. Logo, não há prática maior que esta. E, quando Buda vive o Buda, quando a Imagem Verdadeira vive a Imagem Verdadeira, desaparecem todas as formas de "falso eu", que não é existência verdadeira. E nesse momento, como o corpo carnal não é existência verdadeira, já estamos experienciando o "supremo nirvana", mesmo parecendo possuir ainda o corpo carnal.

Agora vamos ver o que é "oração a Buda". Shinran (fundador da seita Shin) disse: "A grande prática consiste em pronunciar o nome de Buda de luz infinita". E como é o nome dele? A pronúncia correta de seu nome completo, em sânscrito, consta que é Amithaba Amitayus Tathagata Arhat Samyaksambuddha. Se fosse indispensável pronunciar corretamente o nome de Buda de luz infinita para sermos salvos (para sermos Buda), então quase nenhum de nós o seria, pois no Japão o nome de Buda é Amida-Butsu. Não é necessário pronunciar tantas palavras, em sânscrito, para sermos Buda; basta que o sentido seja o mesmo. Então podemos pronunciar outros nomes além de Amida-Butsu. Podemos, por exemplo, dizer Amaterassu-oomikami, Deus Myo-hô, God ou simplesmente Imagem Verdadeira, e estaremos igualmente sendo Budas.

Aqui também vemos o ponto de identificação de todas as religiões. Se mentalizarmos a Imagem Verdadeira ao pronunciarmos qualquer um desses nomes no mesmo sentido em que se pronuncia o nome "Buda de luz infinita", nesse momento estará ocorrendo aqui, em nós, a "grande prática" da própria Imagem Verdadeira, pois existe unicamente a Imagem Verdadeira e porque quem mentaliza a Imagem Verdadeira é a própria Imagem Verdadeira. É a "grande prática" da força externa, ou melhor, a "grande prática" da força absoluta, que transcende tanto a força do ego como a força externa.

A Força Absoluta realiza, aqui, a grande prática. Quando digo "aqui", não estou me referindo a nenhum local geográfico. A Força Absoluta, sendo absoluta, não é relativa e não confronta com nada; logo, Ela vive a força absoluta dentro de Sua própria força absoluta. O espaço onde se desenrola o Verbo da Força Absoluta é projeção dEla mesma. Não existem palavras para exprimir a natureza sumamente bela e sublime da Força Absoluta, contudo uso as expressões "sabedoria infinita", "amor infinito", "Vida infinita" e "provisão infinita", resumindo nelas todos os atributos da Força Absoluta. É Ela que mentaliza Buda, isto é, verbaliza a Imagem Verdadeira ou realiza a grande prática através do Verbo. E o mundo que então surge como projeção desse Verbo é o Paraíso. Para quem perguntou onde é o Paraíso, a Sutra da Vida Imensurável diz: "Buda não vem de lugar algum nem vai para lugar algum; não nasce nem morre; não está no passado nem no presente nem no futuro. Entretanto, a fim de atender aos rogos das criaturas e salvá-las, Ele se encontra no Oeste, distante daqui trilhões de léguas, onde se localiza o mundo búdico, que se chama Paraíso. E Buda é Vida eterna. Ele Se tornou Buda há dez ciclos". (Sutra da Vida Imensurável, tradução de Hôken)

A frase "Não vem de lugar algum nem vai para lugar algum" quer dizer que Buda transcende o espaço. E o trecho "não nasce nem morre; não está no passado nem no presente nem no futuro" indica que Ele transcende o tempo. No entanto, ao mesmo tempo, o texto indica um lugar no espaço, dizendo "encontra-se no Oeste", e também se refere ao tempo quando diz "há dez ciclos" (no budismo, um ciclo corresponde a um tempo quase infinito).

Uns contestam a existência de tal Paraíso localizado no tempo e no espaço, e outros acham que esse Paraíso acabará se destruindo porque não é existência eterna, já que surgiu há apenas dez ciclos. Como interpretar esse trecho da sutra?

Se compreendermos que a verdadeira oração a Buda é a "grande prática" realizada pelo próprio Verbo da Imagem Verdadeira e que a vibração desse Verbo se manifesta como Paraíso no plano de tempo e espaço, compreenderemos também que Buda-Imagem-Verdadeira - o que não vem de lugar algum nem vai para lugar algum; não nasce nem morre - pode manifestar objetivamente o 'Paraíso do Oeste' por meio de Seu Verbo, surgindo então um mundo maravilhoso como aquele que Sakyamuni descreveu à Ananda: "No país da Vida eterna, todos os seus habitantes se vestem com elegância, têm o que comer e beber em abundância, são cercados de flores aromáticas e adornados com jóias preciosas; suas vozes são maviosas; suas moradas, de variados tamanhos, são como palacetes ou palácios; atraem poucos, muitos ou infinitos tesouros conforme desejam e mentalizam".

Esse "Paraíso do Oeste" é o mundo onde se projeta o Verbo de Buda e também o verbo das pessoas que vivem o Verbo de Buda (ou de Deus). Portanto, ele é "Paraíso do Oeste", mas, ao mesmo tempo, não o é. É o lugar "de onde não se vem e para onde não se vai", isto é, que transcende o espaço. Quando a nossa Imagem Verdadeira realiza a "Grande Prática" através do Verbo, nesse momento já somos Buda, e a vibração de nosso Verbo projeta-se ao nosso redor como Paraíso. Logo, podemos viver no Paraíso manifestado aqui, agora mesmo, "sem vir de lugar algum e sem ir a lugar algum". Compreendendo isto, não seremos mais iludidos pela idéia de que "só poderemos ser Budas e ir para o Paraíso após a morte carnal".

Na Seicho-No-Ie, quando as pessoas praticam a Meditação Shinsokan, seus lares se harmonizam, as coisas desejadas são atraídas naturalmente e surge um mundo igual ao paraíso descrito na referida sutra. Isso acontece porque, através da "Grande Prática" em que a Imagem Verdadeira mentaliza a Imagem Verdadeira, as vibrações de Seu Verbo manifestam-se em forma de situação paradisíaca neste mundo palpável. A mentalização da Imagem Verdadeira pela Imagem Verdadeira, é a Budificação, é a manifestação do sublime Paraíso no mundo palpável.


(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 27"; pgs. 100 à 108)

sexta-feira, janeiro 07, 2011

VOCÊ JÁ ESTÁ SALVO - 01



"A grande fé é a própria natureza búdica, e a natureza búdica é o próprio Buda." (Sutra do Nirvana)
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"O Mestre pregou que aquele que se alegra por ter alcançado a fé é igual a Buda; a grande fé é a natureza búdica e a natureza búdica é Buda." (Louvor a Buda, de Shinran)
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"Os mortais entregues a paixões mundanais e a multidão pecadora sujeito a nascimento e morte, se recorrerem ao poder salvador de Buda, nesse exato momento integrarão o grupo dos que receberam a promessa de alcançar o paraíso. Alcançando o paraíso, terão felicidade constante. A felicidade constitui a Imagem Verdadeira. A Iimagem Verdadeira á a natureza búdica. A natureza búdica é a Verdade. A Verdade é o absoluto. O Amita-Buda vem da Verdade e manifesta-se sob diferentes formas." (Ken-jodô-shinjitsi-kyô, gyô-shô-mon, lui-yon - hisshi-motsudo-no-gan, compilado por Shinran)
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"As paixões mundanais não existem de modo verdadeiro. Buda é existência verdadeira, é a Imagem Verdadeira, é a suprema Verdade. Tudo o mais surge e desaparece segundo as leis relativas, de causa e efeito. Somente Buda é constante. Se, para atingir a Imagem Verdadeira de Buda, fosse necessário destruir paixões mundanais, então Buda e as paixões mundanais seriam elementos que se contraporiam: o primeiro seria elemento desejável, enquanto as segundas seriam elementos indesejáveis. Os elementos que se contrapõem são todos frutos das relativas leis de causa e efeito. A Imagem Verdadeira é absoluta e não se contrapõe a nada; está acima de toda relatividade. Portanto, quem prega que 'o homem não pode alcançar o nirvana enquanto não aniquilar paixões mundanais', ainda não compreendeu a suprema Verdade da Imagem Verdadeira e permanece em nível inferior. Em outras palavras, está pregando a verdade relativa, ou seja, a lei da causalidade. Segundo a suprema Verdade da Imagem Verdadeira, existe unicamente Buda, e nada existe além dEle. Logo, Ele é absoluto. Não é correto o dualismo que admite, de um lado, as paixões mundanais e, de outro lado, a iluminação por Buda. Existe unicamente Buda e a iluminação absoluta, que está acima de toda relatividade. Isto é a Imagem Verdadeira." (Coleção Koozui Ootani, vol. 5, p. 160)
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"Um iluminado, ao ver as criaturas, o faz com total transcendência. Diz-se que ele conduz uma infinidade de criaturas ao nirvana, mas, na verdade, não existe sequer tal criatura que precise alcançar o nirvana. É como se o iluminado estivesse brincando de conduzir as criaturas ao nirvana." (Ken-jodô-shinjitsi-kyô, gyô-shô-mon, lui-yon - shuuloku no donlan daishi no lontyu, compilado por Shinran)
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"Força externa de salvação é força salvadora de Buda." (Ken-jodô-shinjitsi-kyô, gyô-shô-mon - lui-ni, compilado por Shinran)



Masaharu Taniguchi


Certa vez, quando eu disse que "a maioria dos adeptos da seita budista Shin pensa que só é possível tornar-se buda após a morte do corpo carnal, mas a Seicho-No-Ie prega o homem já é buda, aqui, agora, neste mundo", alguém retrucou: "Também na seita Shin, no momento em que a pessoa tiver a verdadeira fé em Buda, é como se já tivesse se tornado buda e estivesse no paraíso; as prações que se fazem, portanto, são de gratidão. O senhor não entendeu bem a doutrina da seita Shin".

A seita Shin, que prega a salvação pela força externa, assemelha-se muito à Seicho-No-Ie. Shinran, o fundador dessa seita, disse: "Os mortais entregues a paixões mundanais e a multidão pecadora sujeito a nascimento e morte, se recorrerem ao poder salvador de Buda, nesse exato momento integrarão o grupo dos que receberam a promessa de alcançar o paraíso. Obtendo essa promessa, certamente alcançarão o paraíso".

Receber a promessa de alcançar o paraíso é o mesmo que reservar um lugar no paraíso como seu membro efetivo. Referindo-se a isso, o sr. Koozui Ootani disse o seguinte: "É como se tivesse adquirido a passagem para embarcar no navio. No momento em que a pessoa tiver adquirido a passagem, é como se já tivesse chegado ao destino. O barco de Buda é infalível. Portanto, no momento em que a pessoa resolve recorrer ao poder salvador de Buda e pronunciar namu-amida-butsu, é como se já tivesse se tornado buda e entrado no paraíso".

A afirmação de que "é como se já tivesse se tornado buda" e a de que "já é buda" são muito semelhantes, mas existe entre elas uma diferença sutil. "Ter adquirido passagem" não é o mesmo que "ter chegado ao destino". Quem adquiriu passagem apenas reservou seu lugar, e isso não é o mesmo que ter chegado ao destino.

A Seicho-No-Ie prega que o homem já é buda, já está no paraíso. Não estabelece um espaço de tempo necessário para se alcançar o paraíso, isto é, o tempo compreendido entre o momento em que se recebe a promessa de ir ao paraíso e o momento da morte carnal. O fundador da seita Shin, no entanto, diz: "O sábio Miroku, por alcançar a fé inabalável através de grande treinamentos espirituais, atingirá o estado de buda cinco bilhões e seiscentos e setenta milhões de anos após o desencarne de Sakyamuni, mas as criaturas que recorrem a Buda e adquirem a fé verdadeira graças ao poder salvador de Buda, alcançarão a iluminação no momento do desencarne." Em outra obra intitulada Shôzo matsu wassan, diz: "O sábio Miroku levará 5.670.000.000 anos, mas aqueles que têm fé verdadeira alcançarão a iluminação desta vez. Com isso, ele quis dizer que a seita Shin possibilita alcançar a iluminação em tempo muito menor que o de Miroku. realmente, em comparação com quase seis bilhões de anos que Miroku leva para alcançar a iluminação, devemos dizer que é muito rápida a consecução do mesmo objetivo através da seita Shin, que será "no momento do desencarne". Mas, por que esperar até desencarnar? Na verdade, quando adquirimos a fé verdadeira, neste momento já somos budas e já estamos no paraíso. A expressão "desta vez" da frase "alcançarão a iluminação desta vez" como o momento em que se ouve o nome de Buda e se acredita nele. Eliminando assim o tempo necessário para alcançar a iluminação, a Seicho-No-Ie completa o ensinamento de Shinran. Entretanto, se ele usou a expressão "desta vez" no sentido de "neste momento", então podemos dizer que os ensinamentos dele e da Seicho-No-Ie se identificam plenamente. Mas, como ele já não está entre nós, e não podemos consultá-lo pessoalmente, o único meio de descobrir o seu pensamento consiste em consultar suas obras. Ele escreveu que quem ouvir o nome de Buda, acreditar nele e adquirir grande fé ficará destinado a se tornar buda infalivelmente no momento do desencarne. Portanto, parece que ele acreditava que o homem ainda não é buda mas "é como se o fosse". Ora, "é como se fosse buda" não é o mesmo que "já é buda"; há uma diferença.

Os budistas da seita Shin não dizem claramente que o homem "já é buda", mas que "já é como se fosse buda", e que leva anos ou dezenas de anos até se tornar buda no momento do desencarne. Por que eles estipulam esse período de tempo? É porque durante esse tempo continua existindo o corpo carnal. Dizem que, mesmo para os que adquiriram a "passagem" para o paraíso através da fé verdadeira, será difícil entrar no paraíso enquanto existir o corpo carnal. Se consideram o corpo carnal como um empecilho, é porque possuem em algum canto de sua mente a idéia de que o corpo carnal é uma existência que se opõe à força salvadora de Buda. Mas, na verdade, o corpo é projeção da mente, e não uma existência verdadeira. Compreendendo isto, podemos atingir o paraíso no exato momento em que adquirimos a fé verdadeira.

Quando se fala em "ir para o paraíso", certas pessoas imaginam uma espécie de jardim que fica a uma distância de um trilhão de mundos a oeste e pensam que a alma vai para esse lugar e se instala sobre uma flor de lótus que flutua no lago desse jardim. Se assim fosse, realmente não poderíamos ir para lá enquanto não nos livrássemos do corpo carnal; mesmo tendo adquirido a passagem do barco que vai para o paraíso, não poderíamos embarcar nele enquanto não desencarnássemos. Por isso, tal pensamento está errado. O corpo carnal não existe verdadeiramente. Em termos budistas, o corpo "é como miragem, é como a imagem ilusória apresentada por um ilusionista". O fato de esse "corpo inexistente" estar ou não manifestado COMO SE EXISTISSE, não altera nem um pouco a força salvadora de Buda. Experimentem vocês fechar os olhos, mentalizar que "o corpo não existe" e pronunciar namu-amida-butsu. Quem é cristão pronuncie "Eu e Deus somos um". Quem é xintoísta pronuncie "Deus-Senhor-do-Universo e eu somos um". Estando com os olhos fechados, tem-se a sensação de que o corpo carnal não existe. Quanto mais aumenta essa sensação, mais profundamente nos sentimos identificados com Buda ou com Deus. Se a pessoa não se sente identificada com Buda apesar de pronunciar namu-amida-butsu, é porque ainda tem a sensação de que "o corpo carnal existe", prcisa esperar até ele morrer, para então ir ao paraíso. Mas, compreendendo que o corpo carnal não existe verdadeiramente, não é preciso esperar a "morte", pois o que não existe não tem como morrer. Se pensarmos que algo inexistente vai morrer e ficarmos esperando por essa morte, jamais poderemos alcançar o paraíso. O que não existe é sempre inexistente. Logo, não precisamos esperar até a sua morte. Quando temos "grande fé", nesse momento já somos budas e estamos no paraíso.

Que é então "ter grande fé"? Em termos da seita Shin, é ter fé total na força salvadora de Buda e pronunciar namu-amida-butsu. Em termos cristãos, é ter a seguinte convicção: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim".

De onde vem essa grande fé? Na Sutra do Nirvana está escrito: "A grande fé é a natureza búdica; e a natureza búdica é Buda". Quando se diz "ter grande fé", não se quer dizer que um mortal pecaminoso vá adquirir fé e se tornar buda. "A grande fé é a própria natureza búdica" - assim diz a Sutra do Nirvana. Isso quer dizer que quem suscita a grande fé em nós é a natureza búdica. E, se "a natureza búdica é o próprio Buda", então Buda é quem suscita grande fé em nós. Não é o mortal entregue às paixões mundanais que irá adquirir fé para evoluir até se tornar buda, como se costuma pensar vulgarmente. Se surge grande fé em nós, é porque nossa natureza búdica (ou divina) vibra ao entrar em contato com a Natureza Búdica Universal (Deus). É Buda quem reverencia Buda. Quem se torna Buda é o próprio Buda. Não há mistério algum nisso.

Shinran disse: "Força externa da salvação é força salvadora de Buda". Surge a fé nessa força salvadora porque (e quando) esta se dirige a nós e se manifesta dentro de nós. Não é o ego mortal pecaminoso que adquire fé. Há grande diferença entre adquirir e ter. Diz-se adquirir fé quando o ego tenta alcançá-la com sua própria força. E se diz ter fé quando a força salvadora de Buda se dirige a nós e se torna nossa fé. Por isso, quando se obtém essa fé, pronuncia-se o nome de Buda. E pronunciar é uma "prática" (exercício para aprimoramento espiritual). A seita Shin menospreza a "prática", dizendo que isso é inútil. Entretanto, pronunciar o nome de Buda é uma "prática". O próprio Shinran reconheceu isso como prática, pois disse que "a grande prática consiste em pronunciar o nome de Buda. (...) Entretanto, essa grande prática se origina do grande desejo salvador de Buda". Ele quis dizer que quem pronuncia o nome de Buda não é o mortal pecaminoso, mas o "grande desejo salvador de Buda", que atua dentro da pessoa. Dizendo mais claramente, é o próprio Buda quem pronuncia o nome de Buda. Buda é que invoca Buda, e Buda é que se torna Buda. Não é o mortal que invoca Buda para se tornar Buda. É impossível a salvação através da invocação feita pela força do ego de um mortal. É nesse sentido que a seita Shin menospreza a "prática".

Desta forma, quando pronunciamos namu-amida-butsu (oração para invocar Buda), é Buda que o está pronunciando. Portanto, por mais que recitemos essa oração, não o fazemos com a força do nosso ego. Buda é que está vivendo a vida de Buda. Buda é que está fazendo Buda vibrar. Logo, quem pronuncia o nome de Buda já é Buda. É por isso que Shinran disse: "Aquele que se alegra por ter alcançado grande fé é igual a Buda. A grande fé é a natureza búdica".

Quando praticamos a Meditação Shinsokan, fechamos os olhos, juntamos as mãos e mentalizamos "Neste momento, deixo o mundo dos cinco sentidos e entro no mundo da Imagem Verdadeira" (Obs: Mundo da Imagem Verdadeira = mundo absoluto de Deus, de suma perfeição, onde todos os seres e todas as coisas são projeções da Mente de Deus, portanto perfeitos também) e em seguida visualizamos esse mundo, afirmando: "Aqui, onde estou, é o mundo da Imagem Verdadeira...". Alguns adeptos da seita Shin (do budismo), a qual prega a "salvação pela força externa", criticam a Meditação Shinsokan, pensando que ela seja um meio de "salvação pela força de eu". Entretanto, no momento em que mentalizamos "Neste momento, deixo o mundo dos cinco sentidos", quem mentaliza essas palavras já não é o eu fenomênico; é o Eu que transcende o mundo dos cinco sentidos, o Eu absoluto, o Eu-Imagem-Verdadeira. No budismo, a boca que articula os sons namu-amida-butsu é a boca carnal, a boca mortal, mas quem pronuncia o Verbo namu-amida-butsu é a natureza búdica, o próprio Buda. Da mesma forma, na prática da Meditação Shinsokan, quem toma a postura de oração, juntando as mãos, é o corpo carnal, mas quem deixa o mundo dos cinco sentidos (deixar o mundo dos cinco sentidos significa ao mesmo tempo deixar o "eu dos cinco sentidos", pois este pertence ao mesmo plano daquele) e mentaliza "estou no mundo da Imagem Verdadeira" é o Eu-Imagem-Verdadeira. Este é que mentaliza o fato de estarmos no mundo da Imagem Verdadeira. Assim como na oração budista é Buda quem mentaliza Buda, na Meditação Shinsokan é a Imagem Verdadeira quem mentaliza a Imagem Verdadeira. Portanto, não é pela força do eu carnal que mentalizamos, mas pela "força externa" de que falam os budistas. A expressão "força externa" não é adequada, pos confronta com a "força do eu". A única existência verdadeira é a Imagem Verdadeira (Deus), razão pela qual a Seicho-No-Ie não diz "força externa", e sim "força absoluta", que transcende a força externa e a força do eu. "Sou Imagem Verdadeira e estou no mundo da Imagem Verdadeira" - a mente que assim mentaliza é a mente da Imagem Verdadeira, que se manifesta pelo divino poder da Imagem Verdadeira. Logo, o Eu que mentaliza a Imagem Verdadeira é o "Eu que é Buda desde o princípio" (Eu-Imagem-Verdadeira). Por conseguinte, a Meditação Shinsokan não é uma "pequena prática" realizada pelo "pequeno eu"; é a "grande prática" em que a Imagem Verdadeira mentaliza a Imagem Verdadeira. O fato de a Imagem Verdadeira mentalizar a Imagem Verdadeira - isto é "tornar-se Buda".

A Imagem Verdadeira mentalizar a Imagem Verdadeira; a natureza búdica invocar Buda - esta "grande prática", este Verbo em ação que invoca Buda, é, em si, o ato de "tornar-se Buda". Quando se fala em "tornar-se Buda", muitos pensam que o homem se torna Buda só após ser purificado da ilusão e das paixões mundanais pelo poder sobrenatural de Buda. Entretanto, já que a "ilusão" e as "paixões mundanais" não existem verdadeiramente, não há como "tornar-se Buda" purificando algo que não existe. Isso é impossível. Por mais que se tente purificar a treva, esta não se transforma em luz. Um local escuro se ilumina quando se introduz a luz. Nesse caso, não é a treva que se converte em luz através de uma transformação química. A treva é inexistente, e o que inexiste será sempre inexistente, por mais que se transforme. Quando se introduz a luz da existência verdadeira, a inexistência revela a sua natureza e desaparece. Então se compreende que existe unicamente a luz, unicamente a Imagem Verdadeira.

Certas pessoas, quando compreendem que "a matéria não existe", que "o corpo carnal não existe", pensam que o homem seja como uma miragem, que na verdade não existe. Sakyamuni reprovou tal visão sobre o homem, chamando-a de "visão interruptiva". Quando se compreende que "a matéria não existe", é preciso, ao mesmo tempo, compreender que existe a Imagem Verdadeira; quando se compreende que "o corpo carnal não existe", é preciso, ao mesmo tempo, compreender: Existe Buda (Deus), que é o Eu Verdadeiro. Entretanto, quando se diz que "Existe a Imagem Verdadeira, existe o Eu", certas pessoas pensam que a Imagem Verdadeira seja este eu carnal e que o corpo carnal exista. Sakyamuni também reprovou essa visão, classificando-a de "visão continuísta". Para se ter a compreensão correta da Verdade (visão correta), é preciso não cair nem na "visão interruptiva" nem na "visão continuísta". A compreensão correta da Verdade está na compreensão, ao mesmo tempo da inexistência e da existência, que são opostos, isto é, da compreensão da "inexistência do corpo carnal" e da "existência da indestrutível Imagem Verdadeira". Nisso consiste a "visão correta", que não tende nem para a "visão interruptiva" nem para a "visão continuísta". Quando a pessoa adquire essa "visão correta", compreende a "existência dentro da inexistência", isto é, mesmo que esteja vendo o corpo carnal, compreende que ele NÃO EXISTE e, mesmo que não esteja vendo o Eu-Imagem-Verdadeira, compreende que ele EXISTE. Por conseguinte, compreende que já é Buda, sem precisar esperar a morte física.
Cont...


(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 27"; pgs. 89 à 100)


terça-feira, janeiro 04, 2011

Os dois pactos

"Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. Todavia, o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas o que era da livre, por promessa. O que se entende por alegoria; porque estes são os dois concertos (pactos); um do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar. Ora, essa Agar é Sinai, um monte da Arábia que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós". (Gálatas 4: 22, 23, 24, 25, 26)



Joel S. Goldsmith


Em nossa humanidade somos filhos da escrava, subjugados pela carne e suas imposições, presos às coisas, aos pensamentos e às atividades da carne, quer se trate da carne do corpo, quer seja a carne chamada dinheiro ou outras formas do humano viver.

Vivendo na e pela carne, como descendentes da escrava, estamos sob as leis da matéria, as leis da economia, da raça, da religião e da nacionalidade - sob o contrato "que foi gerado pela escravidão". O outro pacto, que é o de nossa adoção espiritual, que acontece pela atividade consciente dentro de nosso próprio ser e no momento em que estivermos prontos para a transição, já que a transição de humanidade para a filiação espiritual se dá exclusivamente pela Graça.

Quando alguém diz que gostaria de ser um filho de Deus e de ser livre das mazelas da carne, geralmente não quer dizer exatamente isso. Quer dizer que gostaria de ser livre das mazelas da carne, mas sem abrir mão de seus proveitos e prazeres. É por essa razão que, como seres humanos, não podemos escolher ser filhos de Deus.

Mas virá um dia, na consciência de cada um de nós - para alguns agora mesmo e para outros daqui a diversas existências -, quando pela Graça interior seremos capazes e desejosos não só de nos livrar dos desgostos da carne, mas também de seus proveitos e prazeres; desejaremos nos familiarizar com nossa identidade espiritual, ou seidade, com essa nova criatura, outra que não a antiga, saudável e honrada, uma criatura nova nascida do Espírito. Essa é a experiência de transição.

Ser nascido pelo Espírito significa renascer por uma transformação da consciência, e esse renascimento pode ocorrer enquanto estamos neste plano de existência terrena, assim como pode ter lugar após termos deixado esta esfera.

É bom lembrar que se não conseguirmos fazer a transição aqui, sempre haverá para nós uma oportunidade em outro momento, pois no reino de Deus não existe tempo. Ali é sempre o agora, e o agora sempre se nos apresenta com novas oportunidades. Esse momento é agora. Esse momento, esse agora, nos dá a oportunidade de abdicar de nossa humanidade para aceitar a divindade do nosso ser. Se porém isso estiver além de nossa capacidade imediata de fazê-lo neste momento, mais tarde descobriremos que também é agora, e nesse novo agora estaremos de novo diante da oportunidade de aceitar ou não a divindade do nosso ser.

Se não estivermos preparados para um tal recebimento, haverá amanhã, o ano que vem ou o seguinte; e a cada vez que se apresentar a oportunidade de descobrir nossa filiação divina, será o agora. Daqui a cem anos, será agora para nós.

Agora é sempre o momento de aceitar nossa divindade, embora para alguns possa ter ocorrido anos atrás e para outros possa acontecer daqui a anos. Quer ocorra neste exato momento ou a qualquer outra hora, quando acontecer será agora.

Cada um de nós terá de o defrontar, a qualquer momento de qualquer dia da eternidade, e aqueles de nós que, por uma razão ou outra forem incapazes de aceitar o "convite" de nossa liberdade nesse momento particular - liberdade com que estaremos revestidos quando da aceitação do Cristo - tranquilamente terão uma nova oportunidade ao longo do tempo. Para aqueles que se foram antes de nós - alguns dos quais em profunda escuridão espiritual, outros em estado de pecado mortal e de degradação - também existe o agora e eles também têm a mesma oportunidade agora que tiveram e rejeitaram aqui na terra; e agora podem ter desenvolvido uma maior capacidade de aceitação.

O que significa aceitar a revelação espiritual em nossa experiência? Sem a compreensão do que seja a revelação espiritual não podemos estar preparados para aceitá-la. Apesar de a maioria das pessoas afirmar acreditar em Deus, na verdade muitas delas não acreditam. De fato, podem acreditar que há um Deus ou ter uma crença acerca de Deus, mas não têm fé, nem percepção e nem convicção; isso porque a natureza do escravo é estar ligado aos efeitos - ao amor, à adoração, e ao temor de qualquer coisa que tenha forma, que tenha efeitos visíveis. Podem ser fisicamente saudáveis, de coração, fígado ou pulmões; podem ter montanhas de dinheiro, investimentos ou imóveis, porém o amor, a devoção ou o medo de muitos seres humanos está sempre voltado para algo ou para alguém do reino do visual. O filho da escrava está ligado a algum pensamento, coisa ou pessoa, e é o que constitui a humanidade em sua quase totalidade.







O novo "contrato", da nova criatura, começa a valer quando descobrimos que "Eu e o Pai somos um" e "Tudo o que o Pai tem, é nosso. Eu olho para uma única direção, a do Infinito Invisível. Então, o que vem de dentro eu reparto gloriosamente, com liberdade e júbilo".

A transição para a filiação divina implica mudar a fé no que é visível para a fé no Infinito Invisível, no que jamais pderá ser visto, ouvido, saboreado, tocado, cheirado, ou mesmo pensado e argumentado. Tem de ser uma fé em si mesma, que não pede razões. Deve ser uma convicção avassaladora, condizente com essa fé, mesmo antes de se saber o que é - ou seja, um instinto profundo, uma intuição, uma graça interior.

"Não haverá sinais a seguir": os sinais seguem aquele que crê. Quando a fé se instala, os sinais vêm. Se nos dedicarmos a qualquer sinal, qualquer coisa ou pensamento em que podemos nos apegar, então tal coisa ou pensamento é algo sobre o qual repousa a nossa fé, em vez de estasr no Invisível, que é Deus. É possível pensar e repensar na verdade - e até certo ponto isso é natural e certo -, porém virá o momento em que o pensamento pára, se faz um branco, quase um vazio, e então nesse vazio jorra a própria Presença e Força de Deus.

Podemos atingir essa Presença apenas estando despidos, num momento de completo silêncio, quando todo processo de pensamento estiver parado, quando nada tivermos para nos apoiar, nada em que fixarmos nossa felicidade, e tivermos nos tornado estéreis e vazios.

Esse é o momento em que percebemos que, mesmo sem poder conhecê-Lo, senti-Lo, ou pensá-Lo, aí está uma Presença invisível, um Algo inatingível que todavia é atuante, e que de dentro da própria invisibilidade manifestará tudo o que for necessário ao nosso desenvolvimento.

Se acharmos que somos alguma coisa, erraremos gravemente. Apenas quando atingirmos a renúncia a nós mesmos é que a divina Seidade de nosso próprio Ser revelar-se-á. E o caminho é o Silêncio. O silêncio não é ausência de som, mas um estado de consciência que nos torna capazes de refrear qualquer reação da mente ao que é visto ou ouvido. Por exemplo, podemos ver e reconhecer uma sombra na parede, uma figura assustadora, e não ter uma reação de medo, sabendo que é uma sombra. Quando a consciência tiver atingido o conhecimento de uma força, de uma lei, uma substânbcia, uma causa - a unidade - não mais responderemos com medo, dúvida ou horror a qualquer coisa vista ou ouvida; e então a consciência terá ido além da força e atingido o Silêncio - a cura da consciência.