"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, maio 12, 2015

Tao Te Ching (Eckhart Tolle) - 1/4

Eckhart Tolle


"Estaremos falando - não apenas falando -, mas entrando na essência de um livro que me tem acompanhado nos últimos trinta anos. Um livro que sempre consulto diariamente, e sigo consultando todos os dias. Leio uma página, ou duas ou três, e medito...

Trata-se de um dos grandes tesouros da literatura espiritual.
É um livro escrito na China há 2.500 anos atrás, o TAO-TE-CHING.

Pode parecer que se passou muito tempo desde aquela época, e sem dúvida o livro continua sendo imensamente vivo. E para um livro escrito há tanto tempo ainda estar tão vivo, significa que foi escrito a partir de uma dimensão muito profunda, apontando algo que está fora do tempo (dimensão atemporal). Se não tivesse sido escrito a partir dessa dimensão - que está fora do tempo - e não apontasse esse algo atemporal, um livro escrito há 2.500 seria irrelevante, não teria sentido e seria na verdade incompreensível.

Isso ocorre com muitos livros, que foram escritos há 20 anos atrás! Até mesmo o jornal de ontem pode hoje estar desatualizado. Logo, existe algo para que este livro continue vivo agora e siga tendo profundo em significado para muitas pessoas. Deve haver algo aí que está fora do tempo.

Essa é a essência deste livro, e isso é o que eu gostaria de aprofundar com vocês.

Assim, não é um livro que abordaremos, mas, não vamos analisar o texto, vamos usar o texto para ir profundamente para nosso interior, e descobrir algo dentro de nós mesmos. O livro não é mais que um recurso, que nos ajuda a descobrir, ajuda a ver nossa conexão com o Todo, com o Universo, ou como vocês o chamam.

Vou explicar brevemente o contexto histórico; pode nos ser útil saber um pouco mais sobre isso.

Este livro foi escrito por volta de 2.500 ou 2.600 anos, na China. Em outras palavras, há 500-600 anos antes de Cristo. Esse foi um período muito apaixonante e significativo, algo incrível estava acontecendo nesses 150-200 anos.

Pela primeira vez na humanidade, pelo que podemos ver, estava acontecendo uma onda universal de despertar espiritual por todo planeta. O autor do Tao Te Ching, Lao-Tse, é um contemporâneo de Buda, que estava na Índia. Os ensinamentos de Buda surgiram aproximadamente na mesma época dos ensinamentos de Lao-Tse, o autor de Tao-Te-Ching.

O Buda começava a ensinar na Índia, e lá também havia outro mestre muito importante, Mahavira, cujos ensinamentos não foram muito longe neste momento, nem tampouco hoje em dia, mas se manteve como algo muito significativo naquele País. Era aproximadamente a mesma época que viveu Buda. Mahavira deu início ao Jainísmo, uma religião muito bonita, que continua sendo praticada na Índia, embasada no termo "ahimsa", que quer dizer "não-violência", isto é, um profundo respeito por todos os seres vivos.

Neses tempos, todos esses ensinamentos estavam sendo revelados e ensinados.

Temos Buda e Mahavira na Índia. Também Zoroastro estava surgindo na Pérsia (não confundir com Zaratrusta de Nietszche). Zoroastro, o Profeta da Pérsia. Temos também na antiga Grécia - e estou falando de antes dos grandes filósofos como Platão, Aristóteles, Sócrates, começarem a ensinar. Estamos falando de antes disso.

Estamos falando dos filósofos pré-Socráticos, pois precediam a Sócrates. Somente encontramos fragmentos de suas filosofias, mas são suficientes para nos mostrar que seus ensinamentos eram, em alguns aspectos, mais profundas que os de Platão, Sócrates e Aristóteles, que eram de outro tipo.

Meus filósofos pré-socráticos favoritos são Heráclito e Parménides. Só temos pequenos fragmentos, mas estes fragmentos nos mostram que estes ensinamentos estavam em contato com a fonte do Ser, a fonte da Vida. A Unidade que existe na essência de todos os fenômenos. E depois, à medida que a filosofia foi se diferenciando, isso foi se perdendo. Os filósofos se tornaram interessados nas diferenças, e a conexão com a raiz da vida, a unidade imanifestada, a dimensão transcendental, gradualmente foi se perdendo.

Estes filósofos de 500-600 anos a.C. ainda tinham esta conexão. Eles também se haviam dado conta de que a humanidade havia perdido essa dimensão, assim foi que tudo se tornou numa onda de despertar, que estava passando por todo o planeta. Vejam que não estamos falando da filosofia como a vemos hoje em dia, tratava-se de uma transformação interior, e não de uma especulação, como ocorre hoje.

Aqueles, eram filósofos que investigavam a si mesmos. Buda e Mahavira não eram especulativos, eram investigadores de si mesmos. Seus ensinamentos eram vivenciados. Tudo era em função de uma transformação interior, e não de se entender algo com sua mente.

Assim, o que temos é: o despertar na Pérsia, o despertar na Índia, o despertar na antiga Grécia... e também Lao-Tsé e seus ensinamentos que surgiam na mesma época na China. Ocorreu uma onda de despertar global, a qual também estamos vivendo nos dias de hoje - só que em uma escala muito maior do que naquela época.

Estamos em um período similar a aquele, exceto porque desta vez a onda de despertar espiritual é muito mais poderosa, está em uma escala muito maior e muito mais generalizada que antigamente. Estamos no meio disso.

Há 200 anos ninguém no Ocidente falava do Tao-Te-Ching. Agora estamos despertando, e é por isso que agora podemos falar do Tao-Te-Ching e compreendê-lo.

Lao Tse estava - pouco se sabe de sua vida... - dizem que ele estava a cargo dos arquetipos de um reino chamado Zhou.Não sabemos com que idade estava, mas começou a se sentir cansado com a corrupção, de como atuava a corte e os conflitos a sua volta, e então ele decidiu deixar seu trabalho e partir sozinho para as montanhas.

A história conta isso, mas não sabemos se é verdade. Diz-se que ele chegou até a fronteira do reino, onde havia uma porteira, e o guardião da fronteira disse que Lao-Tse não poderia passar a menos que escrevesse sua sabedoria. Ele tinha a reputação de um sábio mas nunca havia escrito nada. Então, ele disse: "Está bem vou escrever."

Não sabemos quanto tempo levou, mas escreveu. Após isso a porteira se abriu e o guardião o deixou partir. Este pequeno livro é o Tao-Te-Ching. Esse é o ensinamento, esse é o livro. E então, de acordo com uma versão do que se conta, Lao-Tse montou em um búfalo e partiu para as montanhas e nunca mais foi visto. Em outra versão, dizem que ele seguiu ensinando e chegou a viver até os seus 160 anos.

Tao-Te-Ching é o título do livro, e geralmente não se traduz. Alguns tentaram traduzir o título, mas não tiveram sucesso. Às vezes se coloca um sub-título, que diz assim: "Tao Te Ching - o caminho da virtude". E essa é uma das traduções errôneas. Tao poderia ser traduzido por "O caminho", mas não é possível traduzir o que seja Tao. Mesmo que se traduza como "O caminho", faz pouco sentido. E se você for chinês, isso pouco importa, seguirá sem saber o que significa Tao.

O Tao não se pode nomear - logo falaremos disso.

Em um subtítulo "O caminho da virtude"; Virtude é uma tradução errônea para "Te". Virtude em nosso idioma inglês, não tem vida. Quando foi a última vez que você usou a palavra virtude? Provavelmente há muito tempo, se é que usou alguma vez. Virtude não se usa; O termo "Te" realmente quer dizer é "poder".

Logo, Tao-Te-Ching, seria "O Poder do Espírito", "O Poder da dimensão transcendental". "O Caminho e seu poder" é um subtítulo mais adequado para o Tao-Te-Ching.

O caminho se refere a como viver. O caminho é viver alinhado com o único poder que subjaz no universo. A única coisa que não pode se nomear, que não é uma "coisa". Viver alinhado com o Absoluto, que às vezes chamamos de Deus. Mas quando se diz "Deus", o transformamos em algo, e isso não é certo. Por que Deus não é "algo". É uma "não-coisa" que flui por todo o universo, que confere vida ao universo, e ao mesmo tempo está além dele. Isso é Tao. E somente podes descobri-Lo em si mesmo. Podes viver de uma maneira em que estejas conectado com essa Fonte interior de toda a vida, de todo ser.

"O Caminho e seu poder" - Isto nos ensina como nos alinharmos com esse poder que subjaz a toda a vida; E como disse Lao Tsé: "Por não existir uma palavra adequada para designa-Lo, eu o chamarei de Tao."

Está bem chamá-lo assim, porque é uma palavra que não se presta a distintos significados. Não se pode entender o que exatamente significa.

Da mesma forma, Buda usava a palavra "vazio". Não se pode venerar o vazio. É um termo negativo, que nega a existência da forma. Os humanos sempre tiveram a tendência a venerar a forma. O conceito de Deus surge na mente, que logo começa a falar Dele. Assim Deus se transforma em um conceito, em um ídolo, porque passou a ser nada mais que um pensamento.

Mas não se pode fazer o mesmo com Tao, porque não se pode imaginá-lo, formar uma imagem dele, da mesma maneira que não se pode imaginar o vazio.

Essa é a realidade transcendental da qual o livro fala, e se mostra como um caminho. Existe um grande poder aí.

O Tao Te Ching veio a mim na década dos meus 20 anos. Alguém me disse: "dê uma olhada nisso, é interessante". E fui ver, e algo do livro me atraiu, mas estava tão oculto que não pude compreender. Eu sabia que havia algo ali, alguma verdade, mas não sabia o que era, não podia decifrá-la. Então, o coloquei de lado, e me dediquei a outras coisas. Depois de uns anos, no início dos meus 30 anos, redescobri o livro em outra tradução, que já não existe mais, e não só me encontrei com uma tradução melhor, mas havia ocorrido algo em mim, um despertar, uma mudança de consciência, e através desta nova consciência, li o livro e disse: "Uau!! É a isso que ele se refere!!". Me dei conta da profundidade dessas palavras.

Desde então, o livro em suas diversas versões - não me refiro ao livro físico, mas ao que o Tao-Te-Ching se refere -, nunca mais me abandonou. Sempre esteve comigo, de uma forma ou de outra.

Esta é a história por trás do Tao-Te-Ching. Agora podemos, sim, adentrar nele mais profundamente.

Continua...

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