"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, junho 06, 2013

Preleções Nucleares: A Unidade Essencial - 2/4

Gugu


Na postagem anterior foi explanada a base de todo o ensinamento do Núcleo. Apresentando um resumo do texto anterior, destacamos os seguintes pontos: a) somos Consciência, Atenção ou Percepção; b) valemo-nos da metáfora do Ator e da representação divina para entender a Verdade espiritual profunda; b) Deus – a Consciência do Ser – é tudo o que existe. Ele é a Verdade Suprema; c) a nossa identidade real é a Consciência do Ser, é Quem somos; d) o universo da dualidade é uma representação divina; e) podemos perceber nossa identidade como sendo a Consciência do Ser (Quem somos) ou como sendo um personagem (quem estamos sendo); f) há em cada um de nós duas percepções: a percepção consciencial e a percepção mental; g) identificados com o Ser, percebemos com a Consciência do Ser; ao passo que quando estamos identificados com o personagem, percebemos com a mente do personagem; h) a percepção consciencial revela a percepção que o Ser tem da realidade; e a percepção mental revela a percepção limitada concebida pela mente do personagem.

Com essas lembranças em mente, consideremos a seguinte tabela sinótica apresentada num esquema de duas colunas:



 
Esse quadro comparativo permite ver num só lance as diversas facetas, características e atributos que inerem ao "Eu" e ao "eu".

No Núcleo, a percepção consciencial é a percepção que provém da Consciência do Ser, ou seja, do Ser Real, que é Deus. Aqui, a Consciência do Ser é representada pela palavra "Eu", com "E" maiúsculo. O Eu divino é escrito com "E" maiúsculo. Por sua vez, a percepção mental é a percepção que provém da mente do personagem, e o eu-personagem está representado pela palavra "eu" com "E" minúsculo. Há, portanto, duas identidades que podem ser percebidas por nós: o Eu Real (O Ser Divino, o Cristo, o Buda em todos nós) e o eu fenomênico (o personagem, irreal).

A fim de poder entender ainda melhor o que são essas duas percepções, vamos agora adentrar e explorar cada um dos 18 pontos comparativos da tabela:

1 – Na primeira coluna está revelado Quem somos (Eu). Somos a Consciência do Ser, o Eu todo-abrangente, impessoal, universal, infinito, eterno, imutável, pleno, único. A percepção consciencial nos revela que somos Aquilo que Deus é. Deus é Quem somos.

Na segunda coluna está revelado quem estamos sendo (eu), ou seja, estamos sendo um personagem que tem a característica de ser: específico, pessoal, mutável, efêmero e finito. Um personagem surge, dura pouco tempo e morre. Por isso, não se pode dizer que o personagem "é". Quem é, é sempre – eternamente. Uma vez que o personagem surge e desaparece, ele não é – está temporariamente sendo. Os personagens não são existências reais.

Assim, há uma grande diferença entre "Quem somos" e "quem estamos sendo". Nós somos o Eu Real. E, na representação divina, estamos sendo os nossos personagens.


2 – O Eu "é", ao passo que o eu está apenas sendo. "Quem somos" existia antes do surgimento da representação e continuará a existir após o desaparecimento da representação. O nosso Eu real existe desde "antes que Abraão existisse". "Quem somos" Se revela também na representação. Mas jamais Ele desaparecerá, mesmo que na representação passe completamente a eternidade dos tempos. Ele está situado acima e fora de todo o tempo. A eternidade do Eu não se compõe da eternidade dos tempos que na representação podem passar infinitamente. Eternidade não significa "tempo infinito"; eternidade significa "fora da dimensão do tempo". Eu é eterno em Sua própria dimensão de existência – a dimensão absoluta e real da existência, constante, perene, que sempre É. Somente assim é possível afirmar "Eu sou".

Ao contrário do Eu, o personagem "não é". Um personagem não pode dizer "eu sou", mas ele pode dizer que: "eu estou sendo". Isso é mais exato. Dizer que o personagem "é" é incorrer em erro – pois o personagem é transitório, efêmero. Portanto, palavra que melhor se aplica ao Eu é sou, enquanto que a palavra que melhor se aplica ao personagem é o termo estou.

Não somos quem estamos sendo, somos Quem somos.


3 –  É correto afirmar que Deus é o Ser. E é também correto afirmar que Deus está sendo o personagem. Há uma unidade essencial entre o Ser que somos e o personagem que estamos sendo. Essa unidade essencial existe, e só pode ser percebida pela Consciência do Ser em nós – a mente do personagem jamais percebe essa unidade. É necessário, portanto, despertar para o fato de que a percepção consciencial é uma percepção real e efetiva, que pode ser desfrutada por todos. Jesus, por exemplo, detinha essa percepção consciencial. Quando falava pela percepção mental, chamava a si mesmo de "filho do homem". Porém, quando falava a partir da percepção consciencial, chamava a si mesmo de "filho de Deus". Assim como o personagem Jesus, os nossos personagens também participam de uma Unidade essencial que há entre eles e Deus. Todos nós podemos representar o papel de nossos personagens e ao mesmo tempo permanecer conscientes de Quem somos. Quando estamos de posse dessas duas percepções, estabelece-se uma conexão entre personagem e Ser, então o personagem pode interagir consciencialmente com o Ser que em realidade somos.


4 – O Ser percebe com a Consciência, ao passo que o personagem percebe com a mente. O Ser só pode ser percebido pela própria Consciência do Ser. É a própria Consciência que percebe a Consciência. Tentar perceber Deus ou a Consciência com as faculdades da mente revelará ser um esforço vão e infrutífero. A mente somente pode perceber coisas mentais. Ninguém, com a visão dos cinco sentidos, com a visão mental, jamais viu a Deus. E Deus nunca será visto por essa forma. Somente o próprio Ser, pela “Consciência do Ser”, pode transcender a percepção da mente e perceber-Se! Devemos perceber Deus com a própria visão de Deus – com a visão de Deus em nós. As escrituras sagradas dizem que o que é espiritual só pode ser discernido espiritualmente, de Espírito para Espírito. Do mesmo modo, a nossa visão de Deus e o nosso encontro e interação com Deus dar-se-ão somente pela via da Consciência para a Consciência.


5 – O Ser está sempre em seu estado constante e permanente de Bem-Aventurança. A mente do personagem, por sua vez, ora está feliz, ora está infeliz. A mente existe no âmbito na dualidade, e na dualidade tudo o que existe é relativo, instável e passível de oscilação. A felicidade somente pode existir se houver o contraste com a infelicidade, ou seja, o seu oposto polar. Na dualidade as polaridades existem sempre juntas e ao mesmo tempo. Elas são como os dois lados de uma moeda – se um lado for retirado o outro não pode ser mantido. Felicidade e infelicidade, vida e morte, bem e mal, amor e medo, luz e sombra, são todos relativos e caminham juntos. Assim, devido à dualidade o estado mental deverá oscilar e flutuar constantemente entre essas duas polaridades.

O mesmo não ocorre no âmbito da Consciência do Ser. A dimensão de existência do Ser está situada fora da dualidade; o Ser existe na dimensão da Unicidade. Nessa dimensão existe o Bem absoluto, que não deve ser confundido com o bem relativo da dualidade que somente pode existir em contraposição ao mal. Da mesma forma, o estado de Bem-Aventurança do Ser é um estado absoluto que existe sem a necessidade de contraposição a um estado oposto. O Ser vive em estado imutável e constante de Bem-aventurança.


6 – O Atman está relacionado à Consciência do Ser. O que é o Atman? É o Ser Divino universal que Se manifestou como o Ser Divino individual. A Consciência do Ser é uma existência absoluta, suprema, universal, infinita e toda abrangente, é a Totalidade de todas as coisas. Quando essa Consciência Universal resolve Se manifestar como o Ser individual, nesse momento surge o Atman. Ao Ser Universal todo abrangente os ensinamentos védicos utilizam o termo Paramatman. E, quando Paramatman Se manifesta na forma individual, Ele passa a ser denominado Atman. Paramatman e Atman são Um em todos os seus aspectos! Eles são o mesmo Ser supremo e absoluto.

No ensinamento cristão, Deus enquanto Ser Universal (Paramatman) é designado como "Pai". Ao passo que, enquanto Ser Individual (Atman), Deus é chamado de "Filho". Deus é tudo! E Deus é o único Criador. Tudo o que foi criado por Deus é Deus! Porque não há, em absoluto, separação alguma entre Deus e Sua criação ou entre Deus e o homem. A única diferença que há entre Deus e o homem é a seguinte: o homem é a manifestação de Deus individualizada, enquanto Deus – a Consciência – é a imagem do próprio Ser infinito. Cada ser individual é uma expressão distinta, genuína e autêntica do Ser Divino. Cada ser individualizado é um "filho de Deus", é o próprio Todo manifestado como o indivíduo (parte). E a parte é tão infinita e vasta como o é o próprio Todo. Em qualquer situação, o Infinito continua sendo o Infinito.
 
É importante ter em mente que o homem ao qual nos referimos não é aquele que existe no âmbito da representação. O homem que existe na representação não é o homem verdadeiro (Atman), é apenas um personagem do Ser (Jiva). Quando falamos sobre o Atman, o Filho de Deus, estamos nos referindo ao homem verdadeiro que existe fora da representação. O homem verdadeiro que existe fora da representação não é um ser da representação. Ele vive na Realidade Divina sendo, portanto, um ser consciencial. Todos os seres conscienciais vivem na Realidade Divina e sabem Quem são, porque se percebem consciencialmente, e por isso se percebem como o Ser único. A realidade divina se expressa na representação, mas está fora da representação. O Atman existe em Paramatman. O Filho de Deus tem a sua vida e  existência em Deus. Pai e Filho são um.

A percepção consciencial é a percepção da Consciência do Ser, Deus. Quando acessamos a percepção consciencial e vemos com a visão de Deus, percebemos que a parte é o Todo e o Todo é a parte. Conhecer a "parte" significa conhecer a Totalidade, porque em se tratando de Deus, a parte não é "parte" em absoluto, mas é a própria Totalidade. Conheça a "parte", e você terá conhecido a Totalidade. Conheça o seu Ser Individual, e você terá conhecido o Ser Universal. Conheça o Filho, e você também terá conhecido o Pai. Jesus, que sabia ser o Filho de Deus, nos confirmou isso, dizendo: "Ninguém vai ao Pai senão por Mim.". Este "Mim" é o Filho de Deus.


7 – O Ser é atemporal. Ele habita a dimensão da Eternidade. Ele está fora do tempo, e está fora da representação. Nascimento e morte não O envolvem, são fenômenos que pertencem ao universo da representação. O personagem existe na representação, é temporal e está sujeito a nascimentos e mortes.

A Eternidade é o Presente atemporal. A partir de sua posição atemporal, que está acima da representação, o Ser contém em Si todos os tempos. Passado, presente e futuro existem todos ao mesmo tempo, de uma única vez, num só lance. Do ponto de vista do Ser, o passado não vem antes do presente, e o presente não vem antes do futuro. Na representação, o passado necessariamente ocorre antes do presente, e o presente ocorre antes do futuro. Para o Ser, passado, presente e futuro são imediatos, existem todos ao mesmo tempo. Em decorrência deste princípio, podemos afirmar que o Ser transcende o tempo, fazendo-Se presente (e acessível) em todas as épocas. Passado, presente e futuro da representação estão todos no Presente eterno atemporal que existe na dimensão da Consciência do Ser.

A Consciência do Ser é onipresente. Tudo o que o Ser foi no passado, Ele é no presente e será no futuro. Tudo o que foi válido para o Ser no passado, é também válido hoje e será válido em qualquer época no futuro – porque Deus não muda, Ele é sempre o mesmo. E nesse fato encontramos um outro segredo: toda a verdade afirmada pelos iluminados, avatares e santos do passado é também a verdade sobre nós próprios. Tudo o que eles declararam ser válido para eles, é também válido para nós (que estamos no presente) e para todos aqueles que estão vivos no futuro.

Na Bíblia (Lucas 4: 16-21), encontramos um exemplo perfeito dessa verdade. Num dia de sábado, Jesus compareceu à frente de toda a sinagoga para que lesse, diante de todos, a sagrada escritura. Jesus recebeu em mãos o livro do antigo profeta Isaías e, quando abriu o livro, encontrou o lugar em que estava escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a apregoar a liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor". Após ler tais palavras proferidas por Isaías, Jesus, cerrando o livro, disse a todos os que estavam ouvindo: "Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos".

Este acontecimento comporta um fundamento ou princípio espiritual de grande importância. Em geral, as pessoas pensam que essa passagem bíblica foi escrita meramente para informar ou narrar um fato a mais do dia-a-dia de Jesus, e por isso aproveitam muito pouco do que está ali contido. O significado espiritual dessa passagem está oculto em cada ação e atitude tomadas por Jesus, que não por acaso foram ali registradas. Se pudermos compreender cada uma de suas atitudes, teremos condição de nos colocar na posição de fazer o mesmo que ele, ou seja: acessar a mesma Presença ou Consciência com a Qual ele se identificava.

O que Jesus fez foi tomar como válidas para si mesmo as palavras ditas pelo profeta Isaías. Isaías foi um profeta que viveu no tempo do Antigo Testamento, em época muito anterior à de Jesus. Quando Isaías proferiu as palavras "O Espírito do Senhor está sobre mim, e me ungiu...", ele não estava profetizando, não estava se referindo a um Messias que viria no futuro, ele estava falando a respeito de si mesmo. Mas Jesus tomou as palavras de Isaías como válidas para si mesmo. Jesus compreendeu/reconheceu que a Verdade a respeito de Isaías era também a Verdade sobre de si mesmo, o que permitiu a ele dizer diante de todos: "hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos."

Ao reconhecer que a Verdade válida para Isaías era também a verdade para si próprio, Jesus acessou a percepção adimensional e atemporal (sem tempo ou espaço) da Unidade, onde ele e Isaías estavam integrados, não-separados. Em tal dimensão, o Universo não faz distinção de lugares ou seres; Ele é ao mesmo tempo todos os lugares e todos os seres, impessoalmente. Todos os "seres" e "lugares" são o Universo.
 
É muito importante notar que em sua vida Jesus jamais se encontrou com Isaías, não o conheceu, e nunca teve algum contato com ele. Muito pelo contrário: Isaías viveu na terra centenas de anos antes de Jesus. Apesar da atuação da poderosa força separativa de Maya (tempo e  espaço), Jesus identificou a verdade proferida por Isaías (centenas de anos atrás) como válida para si mesmo (hoje).

E a condição de separação que existia entre Jesus e Isaías é a mesma que há entre Jesus e cada um de nós. Olhando a partir de onde Jesus se encontrava, Isaías estava longe, no passado; olhando a partir daqui onde estamos, Jesus aparenta estar distante há 2000 anos. E hoje nós podemos abrir o livro da Bíblia e ali encontrar palavras/afirmações tremendas da verdade ditas por Jesus: "Eu e o Pai somos um", "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida", "Quem me vê a mim, vê Aquele que me enviou". Através do exemplo e atitude que demonstrou diante de todos os que estavam na sinagoga, Jesus ofereceu-nos a oportunidade de "segui-lo", mostrando que também podemos nos identificar com as palavras e as revelações divinas e sagradas, exatamente como ele fez. A unção que estava com Isaías e Jesus está também com cada um de nós que hoje tomamos o conhecimento dessas palavras.
  
O que Jesus disse de si mesmo é válido para a humanidade inteira, hoje. O que Buda disse de si mesmo também é válido para a humanidade toda, hoje. O que Krishna afirmou sobre si mesmo também é a verdade sobre todos, hoje. É a Unidade do Todo que nos outorga autoridade para afirmar tais verdades sobre nós mesmos.
 
Essa verdade existe devido ao fato (ou princípio)  de o Ser ocupar a posição de viver no Presente atemporal e, consequentemente, fazer-Se presente em todos os tempos e eras.
 

8 – Em contraposição ao Presente atemporal (que existe fora da representação, portanto, fora do tempo), tem-se o presente temporal. O presente temporal existe na representação juntamente com o passado e o futuro. Contudo, mesmo na representação, passado e futuro são irreais – apenas o presente temporal é real.  No universo da representação, o presente temporal espelha o Presente atemporal que existe na dimensão da Consciência do Ser. Assim, o presente temporal é a porta de entrada para o Presente atemporal. A mente do personagem tem à sua disposição o passado, o presente e o futuro. Porém ela evita a todo custo permanecer no momento presente, porque ele é a porta escapatória para a Consciência. Se a mente vier para o momento presente, ela começa a desaparecer e a Consciência passa a se evidenciar. Então, a fim de não perder o seu território para a Consciência, a mente tende a se agarrar ao passado (lembranças) e ao futuro (imaginação).

Estar alerta para o aqui-agora é a maneira de começar a acessar o Silêncio. Desfrutar inteiramente o momento presente é a chave para colocar a mente em estado contemplativo e, assim, desfocar a atenção/percepção da mente para o campo da Consciência. Quando a mente está com demasiada atenção no passado ou no futuro, o Silêncio fica obscurecido pelo ruído mental. E o Silêncio é o lugar onde que tudo acontece.


9 – A mente pensa e a Consciência medita. Pensar é atividade da mente do personagem – e o pensar sempre envolve passado e futuro. Meditar é atividade da Consciência do Ser – e diz respeito ao momento presente. O personagem não pode meditar jamais, por mais que ele queira ou tente. Isso é assim porque o personagem existe na representação enquanto que a meditação é um fenômeno pertencente a fora da representação. A meditação, portanto, está além da capacidade ou alcance do personagem. Se uma meditação ocorre em razão da capacidade ou esforços do personagem, não se trata da verdadeira meditação. A meditação verdadeira é uma atividade da Consciência do ser.

Antes de a meditação ter início é necessário estabelecer um estado de contemplação. A mente é incapaz de meditar, contudo ela pode colocar-se em estado contemplativo a fim de propiciar a ambiência necessária para que a meditação se dê. A mente do personagem só é capaz de chegar ao estágio da contemplação, a partir daí  atua a Consciência – a Consciência assume o comando e a meditação acontece.

Assim, a parte que cabe ao personagem é a de colocar sua mente em estado contemplativo, voltando-se para o momento presente e desfrutando-o por inteiro, até ter o vislumbre de que tudo o que existe (ou seja, tudo o que está acontecendo em seu momento presente, incluindo a própria existência do personagem que ele está representando) está simplesmente acontecendo sem esforço algum da parte de ninguém. Ninguém está fazendo nada, as coisas estão simplesmente acontecendo (a impressão é de que acontecem sozinhas, por si mesmas) sem dependerem de qualquer força ou agente da representação – como se houvesse "Alguém mais" encarregado de realizar todo o trabalho. É então que o indivíduo começa a perceber que há uma Inteligência fazendo tudo, dando andamento a tudo. Nesse ponto que a pessoa começa a perceber "Quem faz" todas as coisas. E somente a partir desse ponto é que emerge a verdadeira meditação, porque "Quem faz" realiza tudo – incluindo a atividade de meditar. Meditar significa perceber "Quem faz".

A meditação é sempre atividade da Consciência do ser.
 
Continua...
 

segunda-feira, junho 03, 2013

Preleções Nucleares: A Unidade Essencial - 1/4

 Gugu


I - INTRODUÇÃO

O objetivo deste texto é facilitar a compreensão que temos da Verdade. Para isso, vou me valer das explicações didáticas ensinadas no Núcleo. O Núcleo é uma instituição (ainda não oficial) que visa difundir ao mundo ensinamentos espirituais profundos, percepções conscienciais, iluminadas. São ensinamentos de grande porte, tal como os de muitos mestres iluminados já tão amplamente conhecidos. Não se trata de algum ensinamento novo, apenas de uma nova e eficiente forma de expor a mesma Verdade conhecida há milênios e expressada pelas diversas grandes religiões e filosofias. A metodologia de ensino do Núcleo tem a característica especial de ser ao mesmo tempo simples e profunda e também prática. Devido a isso, ela tem o poder de facilitar sobremaneira a compreensão (percepção) da Verdade Eterna em contraposição às verdades temporais e efêmeras.
 
A compreensão da Verdade a que me refiro não é uma compreensão intelectual, da mente; é, isto sim, uma compreensão mais profunda, uma compreensão intuitiva. Em geral, é assim que ocorre o processo de aprendizado: inicia-se com o entendimento intelectual e, quando este é bem colocado, as portas para uma compreensão mais profunda (compreensão intuitiva, além do intelecto) se abrem. E a compreensão intuitiva, por sua vez, pode nos levar à percepção da Verdade intuída. A realização da Verdade ocorre somente quando alcançamos a percepção da Verdade, não bastando uma simples compreensão intelectual. Uma palestra ou livro podem ser elaborados contendo explicações muito bonitas, inteligentes e com uma lógica muito bem construída; contudo, por mais que eles contenham todas essas coisas, ainda não poderão nos proporcionar a percepção da Verdade a que se referem. Por isso o ensinamento nuclear, acima de todas as coisas, leva em conta a percepção. Você estará sempre se deparando com o termo "percepção", a fim de que a sua percepção seja direcionada e encontre o seu centro, a sua fonte, a essência, o Núcleo.

O Ser que somos é Consciência/Percepção/Atenção silenciosa, inteligente, indivisa e una. Todavia, para a visão mental, ela parece estar dividida ou fragmentada – porque é assim que a mente percebe. E se estamos identificados com a mente, a percepção nos parecerá estar dividida ou fragmentada. Por isso, a sua percepção deverá ser empurrada de volta para a percepção. A sua atenção deverá voltar-se para a própria atenção, fundir-se nela, e estabelecer-se ali completamente. Não somos corpos físicos e tampouco somos mente. Somos, isto sim, uma Existência misteriosa e insondável, que também pode ser denominada Inteligência, Silêncio, Consciência, Atenção ou Percepção.
 
 
II - O UNIVERSO REAL E A REPRESENTAÇÃO DIVINA

A fim de propiciar um fácil entendimento das verdades profundas, o Núcleo adota a metáfora do ator e da representação. Essa mesma metáfora foi utilizada por Krishna, na escritura sagrada do Bhagavad Gita, para revelar a verdade a Arjuna.

Quando uma peça de teatro está sendo encenada, um ator irá atuar no palco representando o papel de um personagem. Quanto melhor ele representar o personagem, melhor ator ele é. Um ator deve saber tudo a respeito de seu personagem, deve conhecer detalhes, adquirir grande intimidade com o personagem que irá representar; e quanto mais identificado ele estiver, mais fácil para ele será atuar como aquele personagem. Existem inclusive atores tão bons e eficientes que, ao atuarem, mergulham no papel de seus personagens tão profundamente ao ponto de esquecerem completamente de si mesmos. Nos momentos em que a peça teatral está sendo encenada, a história e o universo do personagem são tudo o que existe, e a realidade da vida do ator fica encoberta/esquecida em função de seu profundo envolvimento com a representação. A representação ganha extrema realidade para ele; se na representação ele for insultado, ele vai reagir ao insulto e ficar bravo. Ou, se na representação ele encontrar um ente querido que não via há muito tempo, ele vai ficar muito feliz. Quando o ator está mergulhado na representação, ele passa a agir em função dela; a representação torna-se real para ele.

O que Krishna revelou a Arjuna, no Bhagavad Gita, é que Deus é como um Ator e todo este universo é uma representação divina. Toda a história e todos os personagens que aqui existem estão sendo encenados por Deus. Deus é perfeito em tudo, até no ato de representar!

Neste mundo existem atores que, ao representarem o papel de um personagem, esquecem-se por completo da sua realidade como atores e tornam-se muito identificados com os personagens que estão representando. Eles são excelentes atores, a representação deles é perfeita! Se uma deles se envolver demasiadamente com a trama de uma peça,  a representação de repente poderá cair como um peso para ele. O que se passa numa representação não possui consistência ou peso algum, mas para aquele ator um peso irreal subitamente pode passar a ser real, e sua irritação ou aflição pode extrapolar os limites da realidade teatral. Até mesmo é possível o ator começar a chorar compulsivamente em razão do que está se desenrolando na trama. Nesse caso, basta que um companheiro mais consciente da realidade dê uma cutucada em seu colega ator e diga: "Calma, amigo! Não vê que o que está acontecendo é apenas uma representação? Por que tanta reação ou aflição excessiva? Você parece pensar que é o personagem que está representando, mas o seu personagem é apenas um personagem. Você é o ator, lembra?".

Também há aqueles atores que, enquanto estão representando o papel de seus personagens, mantém-se conscientes/alertas para o fato de que na realidade eles são atores e não o personagem que estão representando. Para eles a representação jamais cai como um peso, eles levam a representação com grande leveza e desenvoltura. Estes são os personagens despertos – eles permanecem conscientes de quem são, mesmo estando em meio à representação; eles em nada são afetados, pois sabem que a representação é apenas uma representação.

Um ser iluminado é aquele que conheceu a sua realidade como sendo Deus – a Consciência iluminada, o Ser Supremo – e manteve-se consciente disto. Ele está ciente de que é o Ator e pode perfeitamente prosseguir representando o papel de seu personagem no palco onde está ocorrendo a representação divina. Seres como Jesus, Buda, Krishna, Lao-Tsé, Yogananda (e toda sua linhagem de mestres), Ramana Maharshi, Nisargadatta Maharaj (e demais mestres da linhagem Advaita), Osho, Krishnamurti, Ramakrishna, Joel Goldsmith, Masaharu Taniguchi, e inúmeros outros... todos eles identificaram-se como sendo o Eu Real e mantiveram suas luzes acessas no mundo da representação, e cutucando aqueles colegas atores que estavam desempenhando uma perfeita representação de seus personagens, dizendo: "Amigo, não vê que tudo isso não passa de uma representação? Você é o Ator! Basta ficar consciente disso e tudo se resolve! Desperte!".

Se não estamos conscientes de nossa realidade divina, é porque ainda estamos demasiadamente identificados com os personagens que estamos representando.  Pensamos ser o Fulano, o Beltrano ou o Cicrano... o nosso senso de "eu sou" está atrelado a um personagem específico. Nesse sentido, "eu sou" não existe de verdade. Se em meditação nós o investigarmos e o perseguirmos até a sua origem (da mesma forma como seguimos uma correnteza de águas rio acima a fim de encontrar a nascente), veremos que no final ele desaparecerá. Se seguirmos o pensamento "eu sou" (que está atrelado ao corpo-mente) rio acima, descobriremos que não existe origem alguma para ele, e então ele desaparece. O senso "Eu sou" somente é real quando há a identificação do indivíduo com a Totalidade de tudo o que existe – então ele é permanente, nunca desaparece.

Não há nada de errado em estarmos inconscientes de Quem somos. "Quem somos" é um Ser perfeito, e Ele é perfeito até quando está representando. Se estamos identificados unicamente com os nossos personagens, isso apenas significa que somos grandes atores, a nossa representação está divina. Não há o julgamento de que "isso não deveria ser assim" ou de que "o ator não deveria estar tão identificado com o personagem". Mesmo nos teatros ou sets de filmagens não há nada de errado nisso. Os atores podem estar sempre à vontade para fazer o que quiserem. É apenas que a situação poderia ser outra – e bem melhor: se a pessoa estiver com a consciência de que é o ator e não o personagem, a qualidade da representação muda totalmente, adquire um sentido de universalidade, totalidade, leveza, abundância, completude. Quando na representação você se mantém consciente de Quem é, o desfrute da representação passa a ser pleno, de pura bem-aventurança, ao invés de ora bom ora ruim. E quem não iria querer algo assim?

Quando finalmente despertarmos, lembraremos de que somos o Ator que existe por detrás de nossos personagens; perceberemos o universo da dualidade como sendo uma representação divina. A Realidade Divina não é o mesmo que representação divina – elas são distintas. Teremos o nosso sentido de "eu sou" transportado para uma dimensão muito mais ampla, abrangente, universal, ilimitada e livre – a dimensão da Consciência do Ser.  No tempo certo, virá para cada  um o momento em que a pessoa despertará e se lembrará de sua realidade como Ator, ao invés do personagem com o qual se identificou e representou tão perfeitamente.


III - CONSCIÊNCIA DO SER vs. MENTE DO PERSONAGEM
 
Começamos fazendo a distinção entre o que é a Consciência e a mente. A Consciência é Deus. Ela é infinita. A Fonte e a Origem, o Pai e a Mãe de tudo o que existe. Ela é atemporal, está completamente fora do tempo: passado, presente e futuro estão contidos nela. É um estado de potencialidade infinita, na qual todas as coisas já existem. Na Consciência do Ser tudo está consumado, terminado, pronto. É o Ser onipresente, onipotente e onisciente. A Consciência existe como tudo e ao mesmo tempo está além de tudo. Devido a isso, é impossível descrever definitivamente o que é a Consciência – porque ela sempre será isso, mas será muito mais. Em algumas tentativas de dizer algo sobre ela, os ensinamentos utilizam as qualificações: Amor, Sabedoria, Luz, Força, Paz, Bem-Aventurança, Vida, Harmonia, Alegria, Liberdade, Plenitude. Todas essas são qualidades divinas que o indivíduo experimenta em si mesmo (e expressa!) ao entrar em contato com Deus.

A Consciência é Universal, impessoal, toda-abrangente. No universo inteiro existe apenas uma única Consciência, e essa Consciência é a consciência de cada ser existente. Pedras, vegetais, animais, homens – são todos detentores da mesma consciência. Tudo está vivo e todos eles são a Consciência se expressando de maneiras distintas. Em um determinado lugar, a Consciência deseja Se manifestar e conhecer a experiência de ser uma pedra. Em outro momento, a Consciência Se manifesta como planta ou árvore a fim de saber o que é ser uma árvore. Depois, a Consciência decide Se expressar como animal porque deseja saber o que é ter essa experiência. E, por fim, manifesta-se também como o indivíduo, homem ou mulher, a fim de experienciar o que é ser homem ou mulher. Todas as coisas são a Consciência aparecendo como – aparecendo como a pedra, o vegetal, o animal, a humanidade. É com esse entendimento sagrado que determinadas religiões reconhecem, louvam e reverenciam tudo como sendo o divino. Toda a existência é divina. "Eu apareço como...".

Não há nada na existência que esteja "acima" ou "além" da Consciência. Ela ocupa a maior posição hierárquica, o grau máximo. A Consciência é suprema. Quando a mente surge, ela é um fenômeno menor. A mente ocupa o papel de ser um instrumento da Consciência do Ser.

Ao contrário da Consciência, a mente não é universal, não é impessoal e não é todo-abrangente. A mente tem a característica de estreitar as coisas. Ela restringe o senso de "Eu Sou" a uma parte (corpo) específico. Com a mente, Eu sou deixa de Se perceber como o Todo-Universal para Se perceber como sendo uma "parte" específica. Também, ao contrário da Consciência, a mente é sempre pessoal. Cada personagem tem uma história pessoal, vivenciou experiências pessoais, e foi construindo a sua visão pessoal (condicionamento) sobre a vida e o mundo. Ninguém jamais vivenciou exatamente as mesmas experiências. Mesmo aqueles que nasceram gêmeos siameses tiveram a sua visão ou interpretação de mundo construída de forma diferente, eles possuem mentes distintas. Neste mundo existem mais de 6 bilhões de pessoas, portanto mais de 6 bilhões de mentes, e cada uma delas pode declarar: "esta é a minha mente", mas ninguém pode afirmar que "esta é a minha consciência", porque a Consciência é uma só e não pertence a uma pessoa específica. A Consciência pertence a todos, ou a ninguém, dá no mesmo.

Sabendo tudo isso, chegamos à consagração de um princípio espiritual: A Consciência é do Ser; a mente é sempre do personagem. O Ser percebe com a Consciência; o personagem percebe com a mente.

Há em nós duas percepções: a percepção da Consciência do Ser (a percepção real) e a percepção da mente de nossos personagens. Em verdade, há apenas uma percepção que é sempre total, completa, una, integrada. A percepção é sempre a mesma. Quando a percepção está focada na mente, ela se adequa e percebe em conformidade com a mente. A mente é apenas um instrumento, ela é como uma lente de percepção, assim como um óculos. Se vestirmos um óculos com a lente azulada, ao olharmos para a paisagem lá fora, nós veremos tudo azulado, embora o que exista lá não seja necessariamente da cor azul. Olhando através desses óculos, a árvore marrom e verde será vista/percebida como azulada. A mente é esse óculos que limita e distorce a realidade. É importante compreender que a percepção que enxerga com os óculos é a mesma percepção que enxerga sem os óculos. Quando a percepção desloca o seu foco/atenção da mente para a Consciência, passamos a perceber do modo como a Consciência percebe.

Assim, podemos perceber a realidade através da percepção da Consciência do Ser ou através da percepção da mente do personagem. O modo como o Ser percebe a realidade é diferente do modo como a mente do personagem concebe (interpreta) a realidade. A mente enxerga muitos onde há apenas Um. E a Consciência enxerga um onde há apenas um – porque essa é de fato a Verdade. Deus, o Universo, é UM.

Devido a tudo o que foi explanado até agora, as percepções provenientes da Consciência do Ser foram chamadas pelo Núcleo de "percepções conscienciais". E as percepções oriundas da mente do personagem foram denominadas "percepções mentais."

A seguir abordaremos um quadro comparativo contrapondo as características da percepção consciencial e da percepção mental.
 
Continua...
 

sexta-feira, maio 31, 2013

Percepções conscienciais compartilhadas por Jesus

- Núcleo -
 
 
Divinos personagens,
 
Os ensinamentos contidos nos evangelhos são em verdade percepções conscienciais compartilhadas por Jesus!
 
Ele mesmo revelou este fato nestes termos: “Eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar. E sei que o seu mandamento é a Vida eterna. As coisas, pois, que eu falo, assim como Ele me tem dito, assim falo.” [ Jo 12:48-50]
 
Dentre os quatro evangelhos canônicos o de João é o que contém a gama mais ampla de percepções conscienciais. Por isso é considerado o mais esotérico dos evangelhos canônicos.
 
Há um excelente livro, cujo título é: “Preleções sobre a interpretação do EVANGELHO SEGUNDO JOÃO à luz do ensinamento da Seicho-No-Ie", de Masaharu Taniguchi, que expõe muitas destas percepções conscienciais e que podem ser conhecidas por todos por ser o ensinamento da Seicho-No-Ie plenamente nuclear.
 
Para efeito didático, as percepções conscienciais podem ser consideradas como revelações da Verdade pelo Ser. Ao expor uma destas revelações Masaharu Taniguchi escreve na página 211 que: “Na literatura cristã existente até hoje, não há este tipo de interpretação mais profunda do Evangelho e não se compreende a Verdade, por mais que se leia as mais variadas preleções a respeito da Bíblia. Isso ocorre porque as preleções são feitas pelo homem carnal, e não pelo Espírito da Verdade. Eu consegui desvendar o mistério nele contido porque o Espírito da Verdade veio a mim e me fez compreender o seu significado.”
 
A forma pela qual o Espírito da Verdade veio a Masaharu Taniguchi e pode também vir a todos nós [porque Deus não faz acepção de pessoas] está contida na seguinte revelação: “Ninguém vem a Mim se meu Pai não lhe trouxer”.
 
Muitos sinceros buscadores espirituais pensam que devem se esforçar para tentar negar ou neutralizar a visão dual – a percepção mental – para ter a visão unitária – a percepção consciencial.
 
Contudo, este esforço do personagem é em vão porque atua sobre a própria “mente do personagem” na tentativa de negá-la ou neutralizá-la, enquanto somente o próprio Ser pela “Consciência do Ser” pode transcender a percepção da mente e perceber-Se! Assim, o sentido da revelação de Jesus: "Ninguém vem a Mim se meu Pai não lhe trouxer” é este: ”Ninguém vem a Mim [o Filho / a porta / a percepção consciencial] se meu Pai [Deus / a Consciência do Ser] não lhe trouxer”. Em termos da linguagem usada no Núcleo pode ser dito que só Deus, que é a própria Consciência, percebe consciencialmente.
 
Cada declaração de Jesus tem um profundo significado espiritual que deve ser apreendido espiritualmente. Assim, ao dizer: “Ninguém vem a Mim se meu Pai não lhe trouxer”, Jesus está revelando que só podemos chegar a Deus, que só podemos ver Deus com a própria visão de Deus – com a “visão de Deus EM nós”; pois, ninguém, com a visão dos cinco sentidos, com a visão mental jamais viu a Deus. Isso não tem nada a ver com negar ou neutralizar a percepção da mente, que é o objetivo de muitos que estão no caminho espiritual, e que se julgam “mais evoluídos” que aqueles que ainda não estão na busca espiritual… Contudo, se há algum objetivo a ser atingido este é perceber Quem percebe EM nós; é perceber que “somos o próprio ator” e não ”personagens”. Aquele que sabe ser “o Ator”, que percebe Quem É, sabe que todos os “personagens” são apenas isso: personagens, ou seja, são “personas”, ”máscaras que velam o Ser”, que encobrem a real identidade de Quem todos Somos!
 
O que cabe ao personagem é tão somente desempenhar na representação divina o seu papel com a consciência de que “não é quem está sendo” e sim, que é “Quem É”, ou seja, com a consciência de que não é o “personagem” mas que é o “Ser Real”, o “Ator”! Isso é “ter fé” na revelação divina, como o fez Jesus ao se defender da acusação de blasfêmia por se declarar Filho de Deus dizendo: “Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo” e complementou: “Se a palavra de Deus a quem é dirigida não pode falhar, dizes que blasfemo por dizer que sou Filho de Deus?”. Esta é uma das passagens bíblicas mais reveladoras entre todas as que formam  compartilhadas por Jesus! Trata-se da passagem bíblica que divide os que apenas “acreditam” nestas palavras ditas por Jesus dos que realmente “crêem” em Jesus, os que têm fé!
 
Acreditar significa literalmente “dar crédito” a uma interpretação mental sobre esta libertadora revelação contida nas Sagradas Escrituras. A visão mental não admite como aplicável a revelação de que “sois todos filhos do Altíssimo” a não ser ao próprio Jesus ou a aqueles “personagens” a quem a palavra de Deus foi dirigida. Ou seja, a visão mental acredita que esta revelação se refere apenas aos personagens aos quais foi dirigida, da forma como o fizeram os judeus que não reconheceram esta revelação divina como aplicável a Jesus, e assim, também não será aplicável a quem vive atualmente. Esta “interpretação mental” não leva em conta que “a palavra de Deus” é dirigida “aos vivos”; por isso Jesus fez a advertência: “Errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” e completou dizendo que: “Ele não é Deus de mortos e sim de Vivos.” [Mt 22:29 e 32]
 
“Ouvindo isso as multidões se maravilhavam de sua doutrina.” [Mt 22:33]
 
Fé é a percepção divina – a percepção consciencial – que existe EM nós; e não deve ser confundida com a simples “crença”, com o mero “acreditar”, que é percepção mental.
 
Enquanto o “acreditar” está no âmbito da “mente do personagem” a “fé” está na dimensão da “Consciência do Ser”; está no “reino de Deus” que está dentro de nós! Por isso “fé” no Núcleo significa “percepção” – a percepção divina – percepção do Espírito de Deus – percepção da Consciência do Ser, do Deus Verdadeiro, que é nossa própria Vida; que nos conscientiza de que: “É Cristo Quem Vive EM nós.”
 
A revelação sobre a percepção divina não vem de um personagem. Cristo não é um “personagem”, mas o Ser Real!
 
Por isso Jesus disse: “Eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar. E sei que o seu mandamento é a Vida eterna. As coisas, pois, que eu falo, assim como Ele me tem dito, assim falo.” [ Jo 12:48-50]
 
Nesse mesmo sentido, outro dos ensinamentos de Jesus, que revela sua percepção de “Quem faz”,  é este: “Eu de mim mesmo nada faço; o Pai em mim é Quem realiza as obras.” O “eu” se refere a sua percepção mental, ou seja, se refere à “mente do personagem Jesus”; e o “Pai em mim” se refere a sua “consciência de Unidade com Deus”, a sua percepção consciencial. A "obra” que só "o Pai em nós" é capaz de realizar é perceber-Se e revelar Quem é o Filho de Deus! Por isso Jesus, que sabe, por revelação do Pai, que é Filho de Deus, conhece também a verdade da revelação divina expressa na declaração: “Eu disse: Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.”
 
Ao revelar que “Ninguém vem a Mim se meu Pai não lhe trouxer”, Cristo está nos libertando da crença de que somos nós, enquanto personagens, que podemos, com nossas crenças, irmos a Ele... Ou seja, este é um esforço inútil, uma pretensão despropositada! A conscientização de “Quem faz” é "Quem realiza as obras"; e é Quem nos revela nosso verdadeiro "Eu", o Ser que nos torna conscientes de que “Eu e o Pai somos Um”;  É a conscientização, a percepção de que “é Cristo que Vive em mim” que EM nós nos conduz ao “reino de Deus”.
 
Na linguagem budista se diria: “É a natureza búdica quem percebe Buda.”
 
Na linguagem de Masaharu Taniguchi se diria: “É a percepção da Imagem Verdadeira que percebe a Imagem Verdadeira.”
 
O sentido de: “Ninguém vem a Mim se meu Pai não lhe trouxer” equivale a: "Ninguém vai ao Pai senão por mim."
 
Assim, o personagem não deve ter a pretensão de “fazer por ele mesmo”, ou seja, de chegar a Cristo negando ou neutralizando a visão da mente do seu personagem, mas sim, conscientizando-se de que não é pela crença, pelo "acreditar nas palavras de Deus" que se chega a Ele, mas pela percepção, pela "fé na palavra de Deus", vivendo-a como verdadeira e aplicável a nós na nossa Vida! É percebendo que o próprio Cristo EM nós, a porta, está dizendo: “Ele não é Deus de mortos e sim de Vivos” que “entramos no reino de Deus”.
 
O caminho para essa "porta", o Cristo que vive EM, nós é este: “Aquietai-vos e sabei que Eu Sou Deus.” [ Sl 46:10 ]
 
Em outras palavras: “Aquieta a sua mente e perceba que Eu Sou Deus”. Trata-se, portanto, de uma “percepção”, algo que está em nós e que emerge quando simplesmente “aquietamos a mente”, sem tentar negá-la e sem neutralizá-la! A mente é apenas um instrumento e continua operando sem interferir quando a colocamos no “modo contemplativo”. Neste modo o Espírito da Verdade vem a nós e nos revela que: “Ninguém vem ao Filho se o Pai não lhe trouxer”.
 
Uma outra metáfora possível pode ser esta: O Pai é a própria “casa”, a Consciência do Ser, que nos revela “a porta” de acesso a Si mesmo, que é a percepção consciencial, o Filho. Assim, em termos práticos, para ativarmos o modo contemplativo da mente, devemos ser guiados pela Consciência, que é Quem Somos, e levarmos a mente ao estado de concentração, a princípio, e em seguida ao estado de contemplação. Com a mente em estado contemplativo tudo passa a revelar a Vida de Deus; a onipresença de Deus, o próprio Deus! É a percepção do universo da Consciência do Ser, de Sua Realidade, por ela mesma; o que no Núcleo é chamada de ”percepção consciencial” ou meditação.
 
Assim, o “Aquietai-vos e sabei que Eu Sou Deus” é uma revelação divina que contém o modo de ativar a percepção em duas etapas: A primeira é “aquietar a mente”; e a segunda é “saber Quem Eu Sou”, ou seja, é perceber-Me, que é a percepção do Eu Verdadeiro, do seu próprio Ser; que é, portanto, perceber-Se [em unidade com Aquele que É]!
 
É assim como o Espírito da Verdade vem a nós. Vem pelo Pai, pois, “ninguém vem a nós se o Pai não lhe trouxer”.
 
Namastê!
 

terça-feira, maio 28, 2013

Negócios (Joel Goldsmith)

 
Joel S. Goldsmith
 
 
Eis a palavra relativa a negócios: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos tornará livres”; e a Verdade que você deve conhecer é que você já é livre.

Todo negócio é negócio de Deus, seja ele de qualquer natureza. O único alimento que há, é o “Pão da Vida”, que somente Deus provê; a água única é a “Água da Vida”, que flui livremente de Deus ao homem, cuja fonte está no Céu. Deus supre tudo isso a Seus filhos (pensamentos receptivos), de forma que Ele possa Se expressar plenamente.

Tire dos seus ombros o peso da responsabilidade. “Aquieta-te”, e deixe que o Amor traga seus clientes, lucros e volume de negócios. Não permita a entrada de ideias de competição. Você não depende de condições materiais em seus negócios. A mentira da mente mortal diz que você é dependente do tempo, da prosperidade, do meio, e da ausência de competição para ter sucesso. Pelo contrário, pensamentos desse tipo são humanos e são justamente o peso que deve ser posto de lado. A Bíblia diz: “(...) deixemos todo o embaraço… e corramos com paciência a carreira que nos está proposta” (Hebreus 12:1).

Prepare o pensamento para os negócios do dia e faça mentalmente o convite ao mundo. Saiba que o Amor enche todo o espaço, que cada canto de seu mundo é preenchido com ideias divinas que expressam alegria, gratidão e amor. Deixe o pensamento fora das transações. Apenas retenha a Verdade de que o Cristo a todos fez o convite “Venham a mim”, para dEle receberem a provisão. Não dê nem receba “tratamentos” para o sucesso nos negócios; saiba constantemente, porém, que a Divina Inteligência continuamente está Se expressando em seu negócio; que o Amor divino está eternamente sendo manifestado nele; que a Mente produz toda a atividade necessária; que o Amor supre o capital; que o Princípio está sempre se expressando num negócio harmonioso, ativo e completo. Não permita que pensamentos sobre condições, clima, competição, surjam para atrapalhar a sua fé, e confie que a Verdade está agora sendo expressa como seu negócio. De fato, a Verdade é seu único negócio, a corporificação da harmonia, da vida completa e da ação permanente. Conserve a mente plena da Verdade de que seu negócio é mantido e governado por Deus.

Não há elemento algum do mal em seu negócio, nenhum elemento de falta ou limitação. A aparente falta de atividade não significa a falta de Deus ou do bem, nem tampouco que algo de mal esteja presente. Ela é Deus batendo à porta de sua consciência, dizendo-lhe: “Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”. Veja que sua salvação não é dependente de um homem ou de condições materiais. Coloque sua fé e confiança no poder da sempre-presente Lei da Mente de Se expressar em harmonia e abundância.

A preocupação é falta de confiança no Princípio, falta de fé no poder onipotente. Nada disso faz parte de sua consciência nem possui presença em qualquer época ou lugar. Temores e preocupações não têm o poder de afastar a “Mão da Onipotência”. A despeito deles, você é Consciência espiritual em que a atividade harmoniosa de negócio contínuo sempre é experienciada. “A criação (negócio) está sempre se manifestando e tem de continuar a manifestar-se eternamente, por causa da natureza de sua fonte inesgotável”. Este é o verdadeiro negócio. Estude II Reis 25: 29-30: “…passou a comer pão na sua presença todos os dias da sua vida. E da parte do rei lhe foi dada substância vitalícia”.

Não há ninguém apartado de Deus; não existe nenhum corpo, ser ou negócio apartado de Deus. Deus faz com que todos estes prosperem. E esta prosperidade se dá mediante a Sua Presença.
 
 

domingo, maio 26, 2013

ORAÇÃO KAHUNA DO PERDÃO



Vamos dedicar um tempo a perdoarmos todas as coisas de nossas vidas. Pessoas, coisas e acontecimentos com os quais criamos uma dissidência interior, guardando tristeza, mágoas e rancores. Coisas e fatos também podem e devem ser perdoados. Estenda o seu perdão a tudo o que existe no céu e na terra. Há um segredo oculto no ensinamento do perdão: quando perdoamos os outros, liberando-os de uma dívida que consideramos terem conosco, estamos na verdade perdoando e liberando a nós mesmos. Na profundidade de todos os ensinamentos místicos, encontramos a verdade de que somente existe um Eu, que está refletido/projetado por todo o universo. E todos nós somos este Eu. Por isso, sempre que o perdão é bem sucedido, ele abre caminhos em nossas vidas. Coisas boas e certas que não aconteceriam de repente passam a ocorrer, quando perdoamos e libertamos o outro (nós mesmos) verdadeiramente. É com esse espírito que apresento essa oração, hoje, nesta postagem. Namastê!


Oração ensinada pelos Kahunas:
 
Buscando eliminar todos os bloqueios que atrapalham minha evolução, dedicarei AGORA alguns momentos para “PERDOAR”.
 
A partir deste momento, eu perdôo todas as pessoas que, de alguma forma, me ofenderam, me machucaram ou me causaram alguma dificuldade desnecessária.

Perdôo sinceramente quem me rejeitou, me entristeceu, me abandonou, me humilhou, me amedrontou ou me iludiu.
 
Perdôo, especialmente, quem me provocou, até que eu perdesse a paciência e acabasse reagindo agressivamente, para depois me fazer sentir vergonha, culpa, ou simplesmente, sentir inadequada.

Reconheço que também fui responsável por estas situações, pois muitas vezes confiei em indivíduos negativos, escolhi usar mal minha inteligência e permiti que descarregassem sobre mim suas amarguras, suas histórias, seus traumas e seu mau humor.
 
Por tempo demais suportei tratamento indigno, humilhações, medo, grosserias e desamor, perdendo muito tempo e energia, na tentativa de conseguir um bom relacionamento com essas criaturas.

 Agora, me sinto livre da necessidade compulsiva de sofrer e livre da obrigação de conviver com pessoas e ambientes que me diminuem e, principalmente, destas pessoas que se sentem incomodadas com a minha presença e a minha luz.
 
Iniciei, agora, uma nova etapa na minha vida em companhia de gente mais positiva, cheia de boas intenções, gente amiga, que se preocupa em ser saudável, alegre, próspera e iluminada. Gente preocupada em melhorar a qualidade de vida não só a nossa, mas de todo o planeta.
 
Queremos compartilhar sentimentos nobres, aprendendo uns com os outros e nos ajudando mutuamente, enquanto trabalhamos pelo nosso progresso material e nossa evolução espiritual sempre procurando difundir nossas idéias de unidade, de paz e de amor.

Procurarei valorizar sempre todas as conquistas que fiz e o amor que tenho em mim, evitando todas queixas desnecessárias, que me seguram nesta freqüência, de onde já consegui sair.

Se, por um acaso, eu tornar a pensar nestas pessoas com quem ainda tenho dificuldade de convivência, lembrarei que elas todas já estão perdoadas.

Embora eu não me sinta na obrigação de trazê-las novamente para minha intimidade, eu o farei, se elas demonstrarem interesse em entrar em sintonia.

Agradeço pelas dificuldades que elas me causaram, pois isso me desafiou e me ajudou a evoluir, do nível humano comum, a um nível de maior amor e compaixão, maior consciência, em que procuro viver hoje.

Quando eu tornar a lembrar destas pessoas que me fizeram sofrer, procurarei valorizar suas qualidades e também liberá-las, pedindo ao Criador que também as perdoe, evitando que elas sofram pela lei de causa e efeito, nesta vida ou em outras.
 
Também compreendo as pessoas que rejeitaram meu amor e minhas boas intenções, pois reconheço que é um direito de cada um, não poder ou não querer corresponder ao meu amor.

Faça agora uma pausa e respire profundamente por algumas vezes para acumular energia...

Quando se sentir pronto(a) continue.

Agora, sinceramente, peço perdão a todas as pessoas a quem, de alguma forma consciente ou inconsciente, magoei, prejudiquei ou fiz sofrer.

 Analisando o que fiz ao longo da minha vida, sei que minhas intenções foram boas, embora nem sempre tenha acertado e que, estas coisas que fiz de bom, são suficientes para resgatar a dor do meu aprendizado, ainda deixando um saldo positivo ao meu favor.

Sinto-me em paz com minha consciência e, de cabeça erguida, respiro profundamente.......... prendo o ar............ e me concentro para enviar uma corrente de energia destinada ao meu EU SUPERIOR. Ao relaxar, minhas sensações revelam que este contato foi estabelecido.

Agora, dirijo uma mensagem de fé, ao meu EU SUPERIOR, pedindo orientação, proteção e ajuda para a realização, de um modo acelerado, de um projeto muito importante que estou mentalizando e para o qual estou trabalhando com dedicação e amor. ( ...citar o projeto... ) e que será, com certeza, para o bem maior de todos os envolvidos.

Também peço que minha fé seja firme e que eu possa, cada vez mais, tornar-me um canal, uma conexão permanente com os Seres de Luz, desenvolvendo todos os potenciais que possam facilitar esta comunicação.
 
Que eu perceba todas as respostas às minhas perguntas e dúvidas, reconhecendo os sinais claros que estiver recebendo, sempre protegida e amparada pelo Universo.
 
Agradeço, de todo o coração, a todas as pessoas que me ajudaram e me comprometo a retribuir trabalhando para o bem do próximo, para sua alegria, seu bem-estar, atuando como agente catalisador de harmonia, entendimento, saúde, crescimento, entusiasmo, prosperidade e auto-realização.

Tudo farei sempre em harmonia com as leis da natureza e com a permissão do nosso Criador eterno e infinito que sinto como único poder real, atuante dentro e fora de mim.

ASSIM SEJA E ASSIM SERÁ.
 
 

quarta-feira, maio 22, 2013

A necessidade de vencer (OSHO)

 

“Quando um arqueiro atira por diversão
Ele está de posse de toda a sua habilidade.
Se atira para ganhar uma fivela de bronze
Já fica nervoso.
Se atira por um prêmio em ouro
Fica cego
Ou vê dois alvos – ele fica louco.
Sua habilidade não mudou.
Mas o prêmio deixa-o dividido.
Ele se preocupa,
Pensa mais em ganhar do que em atirar.
E a necessidade de vencer exaure suas forças.”
 
Continuação... (primeira parte aqui)

Agora, tente entender o sutra de Chuang Tzu: "A necessidade de vencer". De onde vem essa necessidade – a necessidade de vencer? Todo mundo está em busca da vitória, buscando vencer, mas porque surgiu essa necessidade de vencer?

Você não está de forma alguma consciente de que já é vitorioso, que a vida já aconteceu a você. Você já é um vencedor e nada mais é possível, tudo o que poderia acontecer já aconteceu com você. Você já é um imperador e não há nenhum outro reino a ser conquistado. Mas você não reconheceu isso, você não conhece a beleza da vida que já lhe aconteceu. Você não conhece o silêncio, a paz, a felicidade, que já estão presentes.

Porque você não está ciente desse reino interior, você sempre sente que algo é necessário, alguma vitória, para provar que você não é um mendigo.  

Qual é a necessidade de vencer? Você tem de provar a si mesmo. Você se sente tão inferior por dentro, você se sente tão ocioso e vazio – por dentro você se sente como se fosse um ninguém, por isso essa necessidade de provar. Você tem que provar que é alguém, e, a menos que você tenha provado isso, como pode ficar em paz?

Há duas maneiras, e tente entender que estas são as duas únicas maneiras. Uma delas é ir para fora, voltar-se para fora, e perceber que você é ninguém. Se você sair por aí, nunca será capaz de provar que é alguém. A necessidade permanecerá; na verdade, pode aumentar. Quanto mais você provar, mas vai se sentir como um mendigo; você vai se sentir assim sempre. Porque o mero ato de provar aos outros que você é alguém não faz de você alguém. No fundo, o sentimento de ser ninguém permanece. Ele continua açoitando o seu coração – o sentimento de que você é ninguém.

Conquistar reinos não vai ajudar, porque os reinos não vão entrar dentro de você e preencher a lacuna. Nada pode entrar em você. O que está fora permanecerá fora; o que está dentro permanecerá dentro. Não há um encontro. Você pode ter toda a riqueza do mundo, mas como você pode trazê-la para dentro para preencher o seu vazio? Não, mesmo com toda riqueza do mundo você ainda vai se sentir vazio, mais até, porque agora o contraste vai estar diante de você. É por isso que Buda abandonou seu palácio: ver toda a riqueza e ainda sentir o vazio interior, perceber que tudo é inútil.

Outra maneira é se voltar para dentro – não para tentar se livrar deste sentimento de ser ninguém, mas para percebê-lo. Isso é o que Chuang Tzu está dizendo: torne-se um barco vazio, apenas se volte para dentro e perceba que você é ninguém. No momento em que você perceber que é ninguém, você explode numa nova dimensão, porque, quando alguém percebe que é ninguém, também percebe que é tudo.

Você não é alguém, porque você é tudo. Como pode o tudo ser alguém? "Alguém" sempre será uma parte. Deus não pode ser alguém porque ele é tudo, ele não pode possuir nada porque ele é o todo. Apenas os mendigos possuem, porque as posses têm limitações. As posses não podem ser ilimitadas. “Ser alguém”  tem um limite, o “ser alguém” não pode ser sem limites, não pode ser infinito. “Ser ninguém” é infinito, assim como ser tudo. 

Na verdade, ambos são a mesma coisa. Se você está se movendo para fora, você vai sentir seu reino interior como um ninguém. Se você está se movendo para dentro, você vai sentir o mesmo ninguém como tudo. É por isso que Buda diz que shunya, o vazio absoluto, é brahman. Ser ninguém é perceber que você é tudo. Perceber que você é alguém é perceber que você não é tudo. E nada menos servirá.

Assim, a outra maneira é ir para dentro de si, não para lutar com esse sentimento de ser ninguém, não para tentar preencher esse vazio, mas para percebê-lo e tornar-se uno com ele. Seja o barco vazio e, então, todos os mares serão seus. Então você pode passar para o desconhecido, então não existirá qualquer impedimento para esse barco, ninguém pode bloquear seu caminho. Nenhum mapa é necessário. Esse barco avançará para o infinito. Agora todos os lugares são o objetivo, mas a pessoa tem que ir para dentro.

A necessidade de vencer é para provar que você é alguém, e a única maneira que conhecemos de provar isso é provar aos olhos dos outros, porque os olhos deles se tornam reflexos.

Qual é a necessidade de vencer? O que você quer provar? Aos seus próprios olhos você sabe que você é um nada, coisa nenhuma, e esse nada dói no seu coração. Você sofre porque você não é nada – então você tem que provar a si mesmo aos olhos dos outros. Você tem que criar uma opinião na mente das outras pessoas de que você é alguém, de que não é um nada. E olhando nos olhos delas você vai reunir  opiniões, a opinião pública, e por meio dela vai criar uma imagem. Essa imagem é o ego, não é o seu verdadeiro eu. É uma glória refletida, não é a sua própria – ela vem dos outros.

Este tipo sempre vai ter medo dos outros, porque eles podem pegar de volta tudo o que deram. Um político está sempre com medo do público, porque eles podem pegar de volta tudo o que lhe deram. É só emprestado; seu eu é um eu emprestado. Se você tem medo dos outros, você é um escravo, você não é um mestre.

Essa é a diferença entre o eu e o ego – o ego é um eu emprestado, ele depende dos outros, da opinião pública. O eu é o seu ser autêntico, não é emprestado, ele é seu. Ninguém pode pegá-lo de volta.

Veja, Chuang Tzu disse palavras bonitas:

“Quando um arqueiro atira por diversão
Ele está de posse de toda a sua habilidade”

Quando um arqueiro atira por diversão, ele está de posse de toda a sua habilidade. Quando você está brincando, não está tentando provar que você é alguém. Está à vontade, contente. Durante a brincadeira, apenas por diversão, você não está preocupado com o que os outros pensam de você.

Você já viu um pai numa luta simulada com o filho? Ele vai ser derrotado. Ele vai se deitar e a criança vai se sentar sobre o seu peito e rir, e dizer: “Eu sou o vencedor!” – E o pai vai ficar feliz. É só diversão. Na diversão você pode ser derrotado e ficar feliz. A diversão não é uma coisa séria, não está relacionada com o ego. O ego é sempre sério.

Então, lembre-se, se você é sério, você sempre está num tumulto interior. Um santo está sempre brincando, como se atirasse por diversão. Ele não está interessado em atirar num alvo específico, ele está apenas se divertindo.

Um filósofo alemão, Eugene Herrigel, foi ao Japão para aprender a meditar. No Japão eles usam todos os tipos de artifício para ensinar a meditar, incluindo o arco e a flecha. Herrigel era um arqueiro perfeito, acertava cem por cento. Nunca errava o alvo. Então ele procurou um mestre para aprender a meditar através do arco e da flecha, porque ele já era hábil nisso.

Depois de três anos Herrigel começou a sentir que aquilo era um desperdício de tempo, porque o mestre continuava insistindo que ele não deveria atirar. Ele dizia a Herrigel: “Deixe a flecha se lançar por si só. Você não deve estar presente quando aponta a flecha, deixe-a fazer ela mesma a pontaria.”

Era um absurdo. Para um ocidental em particular, era um completo absurdo: “O que quer dizer com isso, deixar que a flecha se lance por si só? Como uma flecha pode se atirar por si só? Eu tenho que fazer alguma coisa.” E ele continuava. E nunca errava o alvo.

Mas o mestre dizia: “O alvo não é o alvo coisa nenhuma. Você é o alvo. Eu não estou vendo se você está atingindo o alvo ou não. Essa é uma habilidade mecânica. Eu estou olhando para você, para ver se você está presente ou não. Atire para se divertir! Divirta-se, não tente provar que nunca perde o alvo. Não tente provar o ego. Ele já está lá, você está lá, não há necessidade de prova-lo. Fique à vontade e permita que a flecha atire a si mesma.”

Herrigel não conseguia entender. Ele tentou e tentou e disse repetidas vezes: “Se minha pontaria é cem por cento correta, por que você não me dá o certificado?”

A mente ocidental está sempre interessada no resultado final e a oriental está sempre interessada no começo, não no final – no arqueiro, não no alvo. O resultado final não tem importância. Então o mestre dizia: “Não!”

Então, completamente decepcionado, Herrigel pediu para ir embora. Ele disse: “Então eu terei que ir. Três anos é muito e não ganhei nada com isso e você continua dizendo não, e continua dizendo que ainda sou o mesmo.”

No dia em que estava para sair, ele tinha acabado de se despedir. O mestre estava ensinando outros discípulos. Naquela manhã, Herrigel não estava interessado em nada; ele estava partindo, tinha desistido de todo o projeto. Então, estava apenas esperando ali até que o mestre estivesse desocupado. Ele se despediria e iria embora.

Sentado em um banco, ele olhou para o mestre, pela primeira vez. Pela primeira vez em três anos ele olhou para o mestre. Na verdade, ele não estava fazendo nada; era como se a flecha estivesse atirando a si mesma. O mestre não estava sério, ele estava brincando, ele estava se divertindo. Não havia ninguém interessado no alvo.

O ego é sempre orientado para o alvo. A diversão não tem meta a alcançar, o divertimento está no início, quando a flecha deixa o arco. Se ela dispara, isso é acidental; se atinge o alvo, isso não é relevante; se atinge o alvo ou não, essa não é a questão. Mas, quando a flecha deixa o arco, o arqueiro deve estar brincando, se divertindo, sem se levar a sério. Quando está sério, você está tendo; quando não está sério, você está relaxado e, quando você está relaxado/à vontade, você está presente. Quando você está tenso, o ego está presente, você está entorpecido.

Pela primeira vez Herrigel olhou – porque agora ele não estava interessado. Aquilo não era mais da conta dele, ele tinha desistido da coisa toda. Ele estava indo embora, então não havia mais por que levar tudo a sério. Ele tinha aceitado o seu fracasso, não havia nada para ser provado. Ele olhou e, pela primeira vez, seus olhos não estavam obcecados com o alvo.

Ele olhou para o mestre e era como se a flecha estivesse atirando a si mesma do arco. O mestre estava só dando energia a ela, ele não estava atirando. Não estava fazendo nada, a coisa toda era feita sem esforço. Herrigel olhou e pela primeira vez entendeu o que significava.

Como que enfeitiçado, ele se aproximou do mestre, tomou o arco da sua mão e recuou a flecha. O mestre disse: “Você compreendeu. Isso é o que eu tenho dito para você fazer há três anos.” A seta ainda não tinha deixado o arco quando o mestre disse: “Concluído: o alvo foi atingido.” Agora ele estava se divertindo, ele não estava sério, ele não estava preocupado com o objetivo.

Essa é a diferença. A diversão não visa um objetivo, ela não tem objetivo. A diversão é apropria meta, o valor intrínseco, nada mais. Você se divertiu, é o que basta. Não há nenhum propósito, você brincou. Isso é tudo.

Quando um arqueiro está atirando por diversão, ele está de posse de toda a sua habilidade. Quando você está atirando para se divertir, você não está em conflito. Não há dois, não há tensão, sua mente não vai a lugar nenhum. Sua mente não está indo – então você está inteiro. Então a habilidade está lá.

Dizem de um pintor zen, um mestre zen... Ele estava fazendo um desenho, um projeto, para um pagode novo, um novo templo. Ele tinha o hábito de manter seu principal discípulo ao seu lado. Ele fazia o desenho, olhava para o discípulo e perguntava: “O que você acha?”.

E o discípulo dizia: “Não é digno de você.” Então ele o jogava fora.

Isso aconteceu 99 vezes. Três meses se passaram e o rei estava sempre perguntando quando o projeto seria concluído, quando o trabalho poderia começar. E um dia aconteceu: o mestre estava fazendo o projeto e a tinta secou, então ele disse ao discípulo para sair e preparar mais tinta.

O discípulo saiu e, quando voltou, ele disse: “O que? Você fez isso! Mas por que durante três meses não conseguiu fazer?”

O mestre disse: “Por sua causa. Você estava sentado ao meu lado e eu estava dividido. Você estava olhando para mim e eu estava preocupado com o resultado, não era divertido. Quando você ficou ausente, eu relaxei. Senti que não havia ninguém ali, fiquei inteiro. Eu não fiz este projeto, ele veio por si só. Durante três meses, ele não veio porque era eu quem o fazia.”

Quando um arqueiro está atirando por diversão, ele está de posse de toda a sua habilidade... porque todo o seu ser está disponível. E quando todo o seu ser está disponível, você tem uma beleza, uma graça, uma qualidade totalmente diferente de ser. Quando você está dividido, sério, tenso, você é feio. Você pode ter sucesso, mas seu sucesso vai ser feio. Você pode provar para alguém que você é alguém, mas você não está provando nada, você está simplesmente criando uma imagem falsa. Mas, quando você é total, descontraído, inteiro, pode ser que ninguém conheça você, mas você é.

E essa totalidade é a bênção, a bem-aventurança, a beatitude, que acontece a uma mente meditativa, que acontece na meditação.  Meditação significa totalidade.

Então, lembre-se, a meditação deve ser divertida, não deve ser um peso, um trabalho. Você não deve fazê-la como um homem religioso, você deve fazê-lo como um jogador. Como quem joga para se divertir. Você deve ser como um esportista, não como um empresário. Deve ser divertido, então toda a sua habilidade estará disponível, então ela irá florescer por si só. Você não será necessário. Nenhum esforço será necessário. Simplesmente todo o seu ser tem de estar disponível, toda a sua energia tem de estar disponível. Então, o florescimento vem por si só.

“Se atira para ganhar uma fivela de bronze, já fica nervoso...”

Se ele está numa competição apenas para ganhar um fivela de bronze, se algo deve ser realizado, um resultado é necessário, ele já fica ervoso, com medo. O medo vem: “Será que vou ter sucesso ou não?” Ele fica dividido. Uma parte da mente diz: “Talvez você tenha sucesso”; a outra parte diz: “Talvez você falhe.” Agora nem toda a sua habilidade está disponível, agora ele é meio a meio. E sempre que você está dividido, todo o seu ser se torna feio e doente. Você fica desassossegado.

“Se atira por um prêmio em ouro, fica cego ou vê dois alvos – ele fica louco...”

Vá ao mercado e observe as pessoas que estão atrás de outro. Elas são cegas. O outro cega mais homens do que qualquer outra coisa, o ouro ofusca os olhos completamente. Quando você está muito preocupado em ter sucesso, em chegar a um resultado, está muito ambicioso, quando você está muito obcecado pela medalha de ouro, você fica cego e começa a ver dois alvos. Você fica tão embriagado que começa a ver dois alvos.

Todo mundo está louco, fora da própria mente. Não são apenas os loucos que estão fora da mente, você também está fora da sua mente. A diferença é apenas de grau, não de qualidade; um pouco mais e a qualquer momento você pode cruzar a linha divisória. É como se você estivesse a 99 graus. Cem graus e você entra em ebulição, atravessou a fronteira. A diferença entre aqueles que estão em manicômios e aqueles que estão fora é só de quantidade, não de qualidade. Todo mundo está fora da própria mente, porque todo mundo está atrás de resultados, metas, propósitos. Algo tem que ser alcançado. Então, vem o nervosismo, o tremor interior, então você não pode ter quietude interior. E, quando você treme por dentro, o alvo se torna dois, ou mesmo quatro ou oito – então é impossível se tornar um arqueiro.

O arqueiro perfeito é sempre aquele que está se divertindo.

O homem perfeito vive a vida como se ela fosse uma diversão, uma brincadeira.

Veja a vida de Krishna. Se Chuang Tzu o tivesse conhecido, teria sido uma beleza. A vida de Krishna é divertida. Buda, Mahavira, Jesus, de um modo ou de outro parecem um pouco sérios, como se algo tivesse que ser alcançado – o moksha, o nirvana, o reino de Deus. Mas Krishna é absolutamente sem propósito – o tocador de flauta que vive apenas para se divertir, para dançar com as garotas, divertindo-se, cantando. Nenhum lugar para ir, está tudo aqui, então por que se preocupar com o resultado? Tudo está disponível agora, por que não aproveitar isso?

Se divertir-se é a indicação de um homem perfeito, Krishna é o homem perfeito. Na Índia, nunca chamamos a vida dele de Krishna charitra, seu caráter, nunca a chamamos assim. Nós a chamamos de Krishna leela, a sua diversão. Não é um caráter, não tem um propósito; é absolutamente despropositado.

É como uma criança pequena. Você não pode perguntar: “O que você está fazendo? Você não pode perguntar: “Qual é o significado disso?” Ela está se divertindo apenas correndo atrás das borboletas. O que ela vai atingir apenas pulando ao sol? A que fim esse esforço levará? A nenhum outro lugar! Ela não vai a lugar algum. Nós a chamamos de infantil e nos consideramos maduros, mas eu lhe digo que, quando você estiver realmente maduro, vai voltar a ser criança. Então, sua vida voltará a ser divertida. Você vai apreciá-la, cada pedacinho dela, você não vai ser tão sério. Um riso profundo vai se espalhar por toda sua vida. Será mais como uma dança e menos como um negócio; vai ser mais como cantar, cantarolar no banheiro, menos como fazer contas no escritório. Não vai ser matemática, vai ser apenas diversão.

“A habilidade dele não mudou.
Mas o prêmio deixa-o dividido.
Ele se preocupa,
Pensa mais em ganhar do que em atirar.
E a necessidade de vencer exaure suas forças.”

Se você parece tão impotente, tão sem forças, indefeso, a culpa é toda sua. Ninguém está exaurindo suas forças. Você tem infinitas fontes de poder, inesgotáveis, mas você parece esgotado, como se a qualquer momento fosse cair, sem que lhe reste nenhuma energia.

Para onde estão indo todas essas energias? Você está criando um conflito dentro de si mesmo – a sua habilidade é a mesma.

“A habilidade dele não mudou. Mas o prêmio deixa-o dividido. Ele se preocupa...”

Eu ouvi uma história. Aconteceu numa aldeia... Um homem pobre, filho de um mendigo, era jovem e saudável – tão jovem e tão saudável que, quando o elefante do rei passava pela aldeia, ele simplesmente agarrava o rabo do elefante e o animal não era capaz de se mover.

Às vezes era muito embaraçoso para o rei, porque ele ficava sentado sobre o elefante e todo o mercado se reunia e as pessoas riam. E tudo por causa do filho de um mendigo.

O rei pediu ao seu primeiro-ministro: “É preciso fazer alguma coisa. Isso é um insulto. Fiquei com receio de passar por aquela aldeia, e o menino às vezes visita outras aldeias também. Em qualquer lugar ele pode agarrar a cauda do elefante e ele não se moverá. Ele é tão forte, faça alguma coisa para esgotar sua energia.”

O primeiro-ministro disse: “Vou ter de consultar um sábio, porque eu não sei como esgotar sua energia. Não há nada para esgotar sua energia, porque ele é um mendigo. Se ele tivesse uma loja, sua energia poderia ser exaurida. Se ele estivesse trabalhando como escriturário num escritório, a energia seria descarregada. Se ele fosse professor numa escola primária, sua energia poderia ser esgotada. Mas ele não tem nada para fazer. Ele vive para se divertir, e as pessoas o adoram e lhe dão comida e leite, por isso nunca lhe falta comida. Ele está feliz, ele come e dorme. Por isso é difícil, mas eu vou.”

Então ele foi procurar um velho sábio. O Sábio lhe disse: “Faça uma coisa. Vá e diga ao rapaz que você vai lhe dar um rúpia de ouro todos os dias se ele lhe prestar um pequeno serviço – e o serviço é muito simples. Ele tem que ir ao templo da aldeia e acender uma lamparina. Ele tem apenas de acender uma lamparina, isso é tudo. E você vai lhe dar uma rúpia de ouro todos os dias.

O primeiro-ministro disse: “Mas como isso vai ajudar? Isso pode torna-lo ainda mais entusiasmado. Ele vai ter uma rúpia e vai se sentir cheio de energia. Ele nem mesmo se preocupará em pedir esmolas.”

O sábio disse: “Não se preocupe, basta fazer o que eu digo.”

Isso foi feito, e na semana seguinte, quando o rei passou, o menino tentou, mas não conseguiu, não conseguiu parar o elefante. Ele foi arrastado por ele.

O que aconteceu? Surgiu a preocupação, surgiu a ansiedade. Ele tinha que lembrar, durante 24 horas por dia ele tinha que lembrar que tinha de ir ao templo, todas as noites, e acender a lamparina. Isso se tornou uma preocupação, que dividiu todo o seu ser. Mesmo durante o sono, ele começou a sonhar que era noite: “O que você está fazendo? Vá e acenda a lamparina e pegue a sua rúpia.”

Então ele começou a guardar as rúpias de ouro – agora são sete, agora oito. Então começou a calcular que, dali a certo tempo, ele teria cem rúpias de ouro – e que essa quantia ia aumentar para duzentas. Entrou a matemática, acabou a diversão.  E ele tinha apenas uma pequena coisa a fazer, acender uma lamparina. Apenas um único minuto, nem mesmo um minuto, apenas uma coisa momentânea – mas tornou-se uma preocupação. E isso exauriu toda a sua energia.  

Se você está esgotado não é de admirar que a sua vida não esteja divertida. Você tem tantos templos e tantas lamparinas para acender, tantos cálculos na sua vida, que ela não pode ser um divertimento.
 
A habilidade dele não mudou – a habilidade é a mesma, mas o arqueiro, quando está atirando para se divertir, tem toda a sua habilidade disponível. A habilidade ele não mudou. Mas o prêmio o dividiu. Ele se preocupa. Surgiu a ansiedade, surgiu o nervosismo. Ele pensa mais em ganhar, agora não está preocupado em disparar a flecha. Agora a questão é como ganhar, e não como disparar a flecha. Ele passou do início ao fim. Agora o meio não é importante, o fim é importante, e sempre que o fim é importante a energia fica dividida, porque tudo o que pode ser feito é para ser feito com o meio, não com o fim. Os fins não estão em suas mãos.
 
No Gita, Krishna diz a Arjuna: "Não se preocupe com o fim, com o resultado. Basta fazer tudo o que é para ser feito aqui e agora e deixe o resultado para Mim, para a existência. Não pergunte o que vai acontecer, você simplesmente faz tudo o que é para ser feito. Fique preocupado com o meio e não pense no fim. Não seja orientado para os resultados."
 
Essa situação é bela e vale a pena considerar as frases de Chuang Tzu, porque Arjuna era um arqueiro, o maior arqueiro que a Índia já produziu. Ele foi o arqueiro perfeito.
 
Mas o fim entrou em sua mente. Ele nunca tinha se preocupado, nunca tinha acontecido antes. Sua arte com o arco era perfeita, sua habilidade era total, absoluta, mas, vendo aquele grande cerco de Kurukshetra, dois exércitos se defrontando, ele ficou preocupado. Qual era a preocupação? Era que ele tinha amigos em ambos os lados. Era um assunto de família, uma guerra entre primos e irmãos, então todo mundo estava ligado. Aqueles que estavam do outro lado também tinham parentesco com os deste lado. Todas essas famílias e parentes estavam divididos, e estavam uns contra os outros – era uma guerra rara, uma guerra familiar.
 
Krishna estava lutando ao lado de Arjuna, mas seu exército estava lutando do outro lado. Krishna dissera: "Vocês me amam tanto assim que terão que dividir meio a meio. Um lado pode ter a mim, e o outro lado pode ter os meus exércitos."
 
Duryodhana, o líder do outro lado, era tolo. Ele pensou: O que vou fazer com Krishna sozinho – e seu exército é tão grande. Então ele disse: "Eu vou escolher o seu exército."
 
Então, Krishna estava com Arjuna e Arjuna estava feliz, porque um Krishna é mais do que o mundo inteiro. O que podem fazer os exércitos – pessoas inconscientes, adormecidas? Um homem desperto vale muito mais.
 
Krishna tornou-se de grande ajuda quando Arjuna ficou confuso e sua mente, dividida. No Gita dizem que, ao olhar para esses dois exércitos, ele ficou perplexo. E estas são as palavras que ele falou a Krishna: "Minha energia está esgotada. Sinto-me nervoso, impotente, não tenho mais forças" – e ele era um homem de habilidade perfeita, um arqueiro perfeito.
 
O seu arco é conhecido como gandiva. Ele disse: "O gandiva parece muito pesado para mim. Fiquei impotente, meu corpo está dormente, e eu não consigo pensar e não consigo ver. Tudo ficou confuso, porque são todos meus parentes e vou ter que matá-los. Qual será o resultado? Carnificina, tantas pessoas mortas, e o que vou ganhar com isso? Um reino sem valor? Eu não estou interessado em lutar, o preço é alto demais. Eu gostaria de fugir e me tornar um sannyasin, um renunciante, para ir para a floresta e meditar. Isto não é para mim. Minha energia está esgotada."
 
Krishna disse a ele: "Não pense no resultado. Não está em suas mãos. E não pense que você é o realizador, porque, se você for o realizador, então o fim está em suas mãos. O realizador é sempre o divino, e você é apenas um instrumento. Preocupe-se com o aqui e o agora, com o meio, e deixe o fim para mim. Eu lhe digo, Arjuna, que essas pessoas já estão mortas, elas estão fadadas a morrer. Você não vai matá-las. Você é apenas o instrumento para revelar-lhes o fato de que elas já foram assassinadas, já estão mortas. Até onde eu posso ver, vejo-as mortas. Elas chegaram ao ponto em que a morte acontece – você é apenas um instrumento."
 
O sânscrito tem uma palavra bonita, não há equivalente em inglês ou em português: é nimitta. Nimitta significa que você não é o realizador, você não é a causa, nem mesmo uma das causas, você é apenas o nimitta. Você é só como um carteiro – o carteiro é o nimitta. Ele chega e entrega uma carta para você. Se a carta contém insultos, você não se zanga com ele. Você não diz: "Por que você me trouxe esta carta?" O carteiro não está preocupado, ele é o nimitta. Ele não escreveu a carta, ele não fez nada, não está preocupado com ela. Ele apenas cumpriu o seu dever. Você não vai ficar zangado com ele. Você não vai dizer: "Por que você trouxe esta carta para mim?"
 
Krishna disse a Arjuna: "Você é como um carteiro, você tem que entregar a morte para elas. Você não é o assassino; a morte vem do divino. Elas já a obtiveram., portanto, não se preocupe. Se você não for matá-las, outra pessoa fará isso." Se este carteiro não fizer isso, então alguém mais vai entregar a carta. Não é uma questão de saber se você vai estar lá ou não, ou se está de férias ou doente, e a carta não será entregue. Um carteiro substituto fará isso. Mas a carta tem de ser entregue. Portanto, não se incomode, não fique preocupado desnecessariamente; você é apenas um instrumento. Esteja preocupado com o meio, não pense no fim, porque, se você pensar no fim, a sua habilidade está perdida, você fica dividido.
 
E essas foram as palavras de Krishna: "É por isso que você está se sentindo tão esgotado, Arjuna. Sua energia não foi a lugar nenhum. Tornou-se uma consciência – então você está dividido. Você está lutando consigo mesmo. Uma parte diz vá em frente, outra parte diz que isso não é bom. Sua integridade se perdeu. E sempre que a totalidade se perde, você se sente impotente."
 
Um homem tão poderoso como Arjuna diz: "Eu não posso carregar este gandiva, este arco é muito pesado para mim. Fiquei nervoso. Eu sinto medo, um medo profundo, uma ansiedade cresceu em mim. Eu não posso lutar."
 
A habilidade é a mesma, nada mudou, mas a mente está dividida. Sempre que você está dividido você fica sem forças, quando você fica indiviso você é poderoso. Os desejos dividem você, a meditação não o divide. Os desejos o levam para o futuro, a meditação traz você para o presente.
 
Lembre-se disto como uma conclusão: não se mova para o futuro. Sempre que você sentir a sua mente indo para o futuro, volte para o presente imediatamente. Não tente completar o salto. Imediatamente, no momento em que você pensar, no momento em que se der conta de que a mente foi para o futuro, para o desejo, volte ao presente. Fique à vontade.
 
Você vai fracassar várias e várias vezes. Muitas e muitas vezes você não vai conseguir, porque este se tornou um hábito arraigado, mas mais cedo ou mais tarde, cada vez mais, você vai ficar à vontade. Então a vida fica divertida, vira um brincadeira. E então você fica tão cheio de energia que ela transborda de você – uma enxurrada de vitalidade. E essa enxurrada é felicidade.
 
Sem forças, esgotado, você não pode estar em êxtase. Como pode dançar? Para dançar, você vai precisar de uma energia infinita. Exaurido, como você pode cantar? Cantar é sempre um transbordamento. Morto como você está, como pode orar? Somente quando você está totalmente vivo um agradecimento brota do seu coração, uma gratidão. Essa gratidão é a oração.
 
Basta por hoje.