"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, dezembro 22, 2013

A prática da Ausência de Objetivo

Thich Nhat Hahn
 
"Nada a fazer, nada a realizar, nenhum programa a ser cumprido, nenhuma agenda". Esse é o ensinamento budista sobre os fins últimos do homem. A rosa tem que fazer alguma coisa? Não, o objetivo da rosa é apenas ser uma rosa. Seu objetivo é ser quem você é. Você não precisa sair correndo e se tornar outra pessoa. Você é maravilhoso do jeito que é.
 
Esse ensinamento do Buda permite que a gente se divirta, contemple o céu azul e tudo o mais que é tão bom e refrescante no momento presente. Não há nenhuma necessidade de inventar objetivos para depois correr atrás deles. Nós já temos tudo o que é necessário, já somos aquilo em que desejamos nos tornar.
 
Somos todos Budas, por isso podemos dar a mão a um outro Buda e praticar a meditação andando. Esse é o ensinamento do Avatamsaka Sutra. Seja você mesmo, a vida é preciosa do jeito que é. Não há necessidade de correr, lutar, carregar fardos nem disputar coisas. Podemos apenas existir. Estar aqui, neste momento, neste lugar, já é uma forma profunda de meditação.
 
A maioria das pessoas não acredita que caminhar sem pressa e despreocupadamente seja o bastante. As pessoas acham que lutar e competir são coisas normais e necessárias. Tente praticar a ausência de objetivos por cinco minutos apenas, e observe como será feliz durante esses cinco minutos.
 
O Sutra do Coração diz que não há nada para ser atingido. Nós não meditamos para atingir a iluminação, porque a iluminação já está em nós, consequentemente não há necessidade de busca-la. Não precisamos de propósitos nem de metas. Nossa prática não visa obter uma alta posição.
 
Quando praticamos a ausência de objetivo, entendemos que nada nos falta, que já somos tudo o que queríamos ser. Nessa altura, nossa luta desesperada começa a cessar. Fazemos as pazes com o momento presente, e conseguimos observar a luz do sol entrando pela janela e ouvir o barulho da chuva. Não precisamos mais correr atrás de coisas externas. Podemos usufruir esse momento. As pessoas discutem como chegar ao Nirvana, mas na verdade já estamos lá.
 
A ausência de objetivo e o Nirvana são uma coisa só.
 
Ao acordar hoje de manhã, eu sorri. Vinte e quatro horas, novinhas em folha, ao meu dispor. Tenho a firme intenção de viver plenamente cada momento do meu dia. E olhar para todos os seres com o olhar da compaixão. Essas vinte e quatro horas são uma dádiva preciosa, que só poderemos usufruir completamente quando tivermos aberto a Terceira Porta da Liberação, que é a ausência de objetivo.
 
Se pensarmos que temos vinte e quatro horas para realizar alguma coisa, o dia de hoje passa a ser um meio para atingir um fim. O momento de cortar madeira ou carregar água é o momento que temos para sermos felizes. Não devemos esperar que essas tarefas estejam terminadas para só então sermos felizes.
 
Ser feliz agora significa não ter metas agora. Se não fizermos isto, andaremos em círculo pelo resto da vida. No momento presente, temos tudo o que necessitamos para fazer desse momento o mais feliz de nossas vidas, mesmo se estivermos com dor de cabeça ou com um resfriado. Não temos que esperar o resfriado acabar para poder ser felizes. Resfriar-se é parte da vida.
 
Alguém me perguntou: "Você não está preocupado com a situação do mundo?" Eu respirei e respondi: "O mais importante é não permitir que a ansiedade em relação aos acontecimentos mundiais encha o seu coração. Se o coração for preenchido pela ansiedade, você ficará doente, e não poderá ajudar quando for necessário."
 
Existem guerras - grandes e pequenas - em muitos lugares, e isso pode nos tornar ansiosos. A ansiedade é a doença de nosso tempo. Estamos sempre preocupados conosco, com a família, com os amigos, com o trabalho, e também com a situação do mundo. Se permitirmos que a preocupação inunde os nossos corações, mais cedo ou mais tarde ficaremos doentes.
 
É verdade que existe uma enorme quantidade de sofrimento por este mundo afora, mas o fato de saber disso não significa que estamos paralisados. Se praticarmos a respiração, a caminhada, a meditação e o trabalho com consciência, e fizermos o melhor que pudermos para ajudar os outros, teremos paz no coração. A preocupação não realiza nada. Mesmo se nos preocuparmos dez vezes mais, isso não melhorará em nada a situação do mundo. Na verdade, a ansiedade só faz piorar as coisas. Mesmo sabendo que nada é como gostaríamos que fosse, devemos ficar contentes mesmo assim, porque estamos dando o nosso melhor, e continuaremos a fazer isso. Se não soubermos respirar, sorrir e viver com atenção e profundidade cada momento de nossa vida, nunca poderemos ajudar ninguém.

Sou feliz agora. Não me falta nada. Não espero nenhum tipo de felicidade adicional nem condições ideais para poder ser mais feliz ainda.
 
A prática mais importante de todas é ausência de objetivo, em vez de ficar correndo atrás das coisas intensamente. Aqueles dentre nós que tiveram a sorte de conhecer e praticar a atenção plena têm a responsabilidade de trazer paz e alegria para as suas vidas, mesmo que as condições do corpo, da mente ou do meio ambiente não sejam exatamente as que gostaríamos. Sem felicidade não poderemos ser um refúgio para os outros.
 
Pergunte a si mesmo: O que estou esperando para ser feliz? Por que não fico feliz agora mesmo?  Meu único desejo é ajudar vocês todos a entenderem isso. Como podemos inserir a prática da atenção plena na sociedade? Como podemos ajudar o maior número possível de pessoas a ser feliz e a ensinar a arte da atenção plena a outras pessoas? O número de pessoas capazes de gerar violência é muito grande, enquanto que um número muito reduzido sabe respirar e gerar felicidade.
 
Todo novo dia representa mais uma oportunidade para ser feliz e ser um  refúgio para os outros. Não precisamos nos tornar nada além do que já somos. Não precisamos desempenhar nenhuma ação específica. Só precisamos ser felizes no momento presente, e dessa forma estaremos sendo úteis às pessoas que amamos e a toda a sociedade.
 
A ausência de objetivo significa parar e entender que a felicidade está ao nosso alcance. Se for perguntado quanto tempo alguém precisa praticar para ser feliz, eu responderei que essa pessoa pode ser feliz imediatamente.
 
A prática da ausência de objetivo é a prática da liberdade.
 
 

quarta-feira, dezembro 18, 2013

O grande valor da Inutilidade (Osho)

 OSHO
 
 
Hui Tzu disse a Chuang Tzu:
“Todo o seu ensinamento se baseia no que não tem utilidade.”
Chuang respondeu: 
“Se você não aprecia o que não tem utilidade, não pode começar a falar do que pode ser útil.
A terra, por exemplo, é ampla e vasta.
Mas de toda a sua extensão, o homem utiliza apenas alguns centímetros sobre os quais ele se mantém de pé.
Suponhamos agora que você tire tudo o que na verdade ele não está usando.
De modo que, em torno de seus pés, um abismo se abra, e ele fique de pé no Vazio, sem nada sólido, a não ser o que se encontra debaixo de cada pé:
Por quanto tempo ele vai ser capaz de utilizar o que está usando?
Hui Tzu disse: “Deixaria de servir a qualquer propósito.”
Chuang Tzu concluiu: “Isso mostra a necessidade absoluta do que não tem nenhuma utilidade”.


A vida é dialética, é por isso que não é lógica. Lógica significa que o oposto é de fato oposto, e a vida implica o oposto em si mesma. Na vida o oposto não é realmente oposto, é o complementar. Sem ele nada é possível. 

Por exemplo, a vida existe por causa da morte. Se não houver morte não pode haver vida. A morte não é o fim e a morte não é o inimigo – em vez disso, pelo contrário, por causa da morte a vida torna-se possível. Então a morte não está em algum lugar no final; ela está envolvida no aqui e agora. Cada momento tem sua vida e sua morte, caso contrário, a existência é impossível. 

Existe a luz, existem as trevas. Para a lógica eles são opostos, e a lógica vai dizer: Se há luz, não pode haver escuridão; se estiver escuro, então não pode haver luz. Mas a vida diz exatamente o contrário. A vida diz: Se há trevas é por causa da luz, se há luz é por causa das trevas. Podemos não ser capazes de ver o outro, mas ele está escondido ao virar da esquina. 

Há silêncio por causa do som. Se não houver som, você pode ficar em silêncio? O oposto é necessário como um pano de fundo. Aqueles que seguem a lógica sempre erram, porque a sua vida torna-se desequilibrada. Eles pensam na luz, então começam a negar a escuridão; eles pensam na vida, então começam a brigar com a morte.

É por isso que não existe nenhuma tradição no mundo que diz que Deus é luz e escuridão. Há uma tradição que diz que Deus é luz, não é a escuridão. Não existe escuridão em Deus para essas pessoas que acreditam que Deus é luz. Há outra tradição que diz que Deus é escuridão – mas para eles não existe luz. Ambas estão erradas, porque ambas são lógicas, negam o oposto. E a vida é tão vasta, ela carrega o oposto em si mesma. Ele não pode ser negado, tem que ser abraçado.

Uma vez alguém disse a Walt Whitman, um dos maiores poetas já nascidos: “Whitman, você continua se contradizendo. Um dia você diz uma coisa, outro dia você diz exatamente o oposto.”

Whitman riu e disse: “Eu sou vasto. Contenho todas as contradições.”

Só as mentes pequenas são coerentes; quando mais estreita a mente, mais coerente ela é. Quando a mente é muito vasta, ela envolve tudo – a luz está lá, a escuridão está lá. Se você entender esse processo misterioso da vida que se move através dos opostos, que é dialético, em que o oposto ajuda, dá equilíbrio, dá o tom, serve de pano de fundo, então você pode entender Chuang Tzu – porque toda a visão taoísta é baseada na complementariedade dos opostos.

Chuang Tzu diz que se você negar o inútil, então não haverá nada de útil no mundo. Se você negar o inútil, o lúdico, a diversão, não pode existir nenhum trabalho, nenhum dever. Isso é muito difícil. E para as pessoas do mundo toda a ênfase está no útil.

Se você olhar para uma porta, você verá as paredes. Se alguém lhe perguntar de que uma casa é constituída, você vai dizer: de paredes. Mas Chuang Tzu diria, assim como seu mestre Lao Tsé, que uma casa não consiste de paredes, mas em portas e janelas. Sua ênfase está em outra parte. Eles dizem que as paredes são úteis, mas seu uso depende do espaço inútil por trás.

Um quarto é um espaço, não paredes. Claro que o espaço é de graça e as paredes têm que ser compradas. Quando você compra uma casa, o que você compra? As paredes, o material, o visível. Mas você pode viver no material? Você pode viver nas paredes? Você tem que viver no quarto, no espaço vago. Você compra o barco, mas você tem que viver no vazio.

Então, na verdade, o que é uma casa? O vazio cercado por paredes. E o que é uma porta? Não há nada. Porta significa que não há nada, nenhuma parede, vazio. Mas você não pode entrar na casa se não houver porta. Se não houver nenhuma janela, então o sol não vai entrar, nenhuma brisa vai soprar. Você vai estar separado das fontes da vida, e sua casa se tornará um túmulo. 

Chuang Tzu diz: Lembre-se de que a casa é constituída de duas coisas: das paredes, o material – que vem do mercado, o utilitário – e do vazio rodeado pelas paredes, o não utilitário, que não pode ser comprado ou vendido, que não pode ser explorado, que não tem nenhum valor econômico.

Como você pode vender o vazio? Mas você tem que viver no vazio – se um homem vive só nas paredes, ele vai enlouquecer. É impossível fazer isso – mas nós tentamos fazer o impossível. Na vida, escolhemos o utilitário.

Por exemplo, se uma criança está brincando você diz: “Pare! O que você está fazendo? Isso é inútil. Faça algo útil. Não fique por aí, como um vagabundo.” Se você continuar insistindo com essa criança, aos poucos você vai matar o inútil. Então a criança vai se tornar apenas útil, e quando uma pessoa é simplesmente útil, ela está morta. Você pode usá-la, ela é uma coisa mecânica agora, um meio e não um fim em si mesmo.

Você é realmente você esmo quando está fazendo algo inútil – pintura, não para vender, apenas por prazer; jardinagem, apenas por prazer; deitado na praia, sem fazer nada, apenas para desfrutar, diversão inútil; sentado em silêncio ao lado de um amigo.

Muito poderia ser feito nesses momentos. Você poderia ir até a loja, ao mercado, você poderia ganhar alguma coisa. Você poderia organizar seus extratos bancários, porque esses momentos não vão voltar. E as pessoas loucas dizem que tempo é dinheiro – porque só conhecem uma maneira de usar o tempo – como convertê-lo em mais dinheiro. No final, você morre com um belo saldo bancário, mas por dentro totalmente pobre, porque a riqueza interior só surge quando você sabe apreciar o inútil.

O que é meditação? As pessoas vêm até mim e dizem: “Qual é a utilidade dela? O que vamos ganhar meditando? Qual é a vantagem disso?”

Meditação... e você pergunta sobre a vantagem? Você não pode entendê-la porque a meditação é simplesmente inútil. No momento em que digo inútil, você se sente desconfortável, porque toda a sua mente tornou-se tão utilitária, tão orientada para a mercadoria, que você precisa de um resultado. Você não pode admitir que algo possa ser um prazer por si só.

Inútil significa que você aprecia, mas não ganha nada com isso; você se deixa absorver profundamente, isso lhe dá felicidade. Mas, quando você está profundamente absorto, você não pode acumular essa bem-aventurança, você não pode fazer dela um tesouro.

Sempre que o mundo fica utilitarista demais, você cria muitas coisas, você possui muitas coisas, você se torna obcecado pelas coisas – mas o mundo interior está perdido, porque o interior pode florescer somente quando não há nenhuma tensão externa, quando você não está indo a lugar algum, apenas descansando. Então o interior desabrocha.

Chuang Tzu fala sobre um homem, um corcunda. Todos os jovens da aldeia eram obrigados a entrar para o serviço militar, para o exército, porque eram úteis. Apenas um homem, um corcunda, que era inútil, foi deixado para trás. Chuang Tzu disse: “Seja como o corcunda, tão inútil que não é morto na guerra.”

Ele vive elogiando o inútil, porque dizem que o útil sempre estará em dificuldade. O mundo vai usar você, todo mundo está pronto para explorar você, para manipular você, para controla-lo. Se você é inútil, ninguém vai olhar pra você, as pessoas vão se esquecer de você, elas vão deixar você em silêncio. 

Chuang Tzu insiste muito nisso: Fique atento e não se torne muito útil, caso contrário as pessoas vão explorá-lo. Então elas vão começar a manipular você e você estará em apuros. E, se você pode produzir coisas, irão forçá-lo a produzir durante toda a sua vida. Se você puder fazer uma determinada coisa, se você for habilidoso, então você não pode ser desperdiçado.

Ele diz que a inutilidade tem sua utilidade intrínseca. Se você pode ser útil para os outros, então você tem que viver para os outros. Inútil, ninguém olha para você, ninguém presta atenção em você, ninguém se incomoda com o seu ser. Você e deixado em paz. No mercado você vive como se vivesse no Himalaia. Nessa solidão você cresce. Toda sua energia se volta para dentro.

O inútil é o outro aspecto do útil. Você só pode falar sobre o útil por causa do inútil. É uma parte vital. Se você ignorá-lo completamente, então nada será útil. As coisas são úteis porque existem coisas que não inúteis.

Mas isso aconteceu com o mundo. Eliminamos todas as atividades lúdicas, pensando que, assim, toda a energia estará se movendo para o trabalho. Mas agora o trabalho tornou-se um aborrecimento. A pessoa tem que se deslocar para o polo oposto – somente então se sente rejuvenescida.

O dia inteiro você fica acordado, à noite você dorme – perdendo tempo – e não é pouco tempo. Se você vive noventa anos, você dorme durante trinta anos, um terço, oito horas por dia. Qual é a utilidade disso?

O que acontece depois de trabalhar o dia inteiro? Você dorme. O que acontece? Você vai do útil ao inútil. É por isso que de manhã você se sente tão revitalizado, tão vivo, tão leve. Suas pernas parecem dançar, sua mente pode cantar, seu coração pode voltar a sentir – toda a poeira do trabalho é espanada, o espelho está novamente cristalino. Você tem uma clareza pela manhã. Como ela vem? Ela vem por meio do inútil.

É por isso que a meditação pode lhe dar os maiores vislumbres, porque é a coisa mais inútil do mundo. Você simplesmente não faz nada, você simplesmente fica em silêncio. É maior do que o sono porque no sono você está inconsciente; por isso tudo o que acontece, acontece inconscientemente. Você pode estar no paraíso, mas não sabe disso.

Na meditação, você se move conscientemente. Então você se torna consciente do caminho: como passar do mundo útil de fora para o mundo inútil interior. E se você sabe o caminho, você pode simplesmente se voltar para dentro a qualquer momento. Sentado num ônibus você não precisa ficar fazendo nada, você está simplesmente sentado; viajando num carro ou trem ou avião, você não está fazendo nada, tudo está sendo feito pelos outros, você pode fechar os olhos e ir para o inútil, o interior. E de repente tudo se torna silencioso, e de repente tudo ganha um frescor, e de repente você está na fonte de toda a vida.

Mas ela não tem valor no mercado. Você não pode vende-la, não pode dizer: ‘Eu tenho uma ótima meditação. Alguém está disposto a compra-la?” Ninguém vai estar disposto a compra-la. Não é uma mercadoria, é inútil.
 
O sutra diz:
 
Hui Tzu disse a Chuang Tzu: “Todo o seu ensinamento se baseia no que não tem utilidade.”
 
Chuang respondeu: “Se você não aprecia o que não tem utilidade, não pode começar a falar do que pode ser útil. A terra, por exemplo, é ampla e vasta. Mas de toda a sua extensão, o homem utiliza apenas alguns centímetros sobre os quais ele se mantém de pé. Suponhamos agora que você tire tudo o que na verdade ele não está usando. De modo que, em torno de seus pés, um abismo se abra, e ele fique de pé no Vazio, sem nada sólido, a não ser o que se encontra debaixo de cada pé: Por quanto tempo ele vai ser capaz de utilizar o que está usando?”

Essa é uma bela metáfora. Chuang Tzu foi ao "x" da questão.  Você está sentado aqui, está usando apenas um espacinho, de dois por dois. Você não está usando toda a terra, toda a terra é inútil, você está aproveitando apenas uma pequena porção, dois por dois. Chuang Tzu diz: Suponhamos que toda a terra seja levada embora, só esse espaço de dois por dois seja deixado para você. Suponhamos que apenas isso lhe reste e toda a terra tenha sido retirada – quanto tempo você vai ser capaz de usar essa pequena parte?

Um abismo, um abismo infinito, se abrirá em torno de você – você vai ficar tonto imediatamente, você vai cair no abismo. A terra inútil suporta o útil e o inútil é vasto, o útil é muito pequeno. E isso é verdade em todos os níveis do ser: o inútil é vasto, o útil é muito pequeno. Se você tentar salvar o útil e esquecer o inútil, mais cedo ou mais tarde vai ficar tonto. E isso aconteceu, você já está tonto e caindo no abismo.

No mundo todo as pessoas pensam que têm um problema: acham que a vida não tem significado, que parece sem sentido. Pergunte a Sartre, Marcel, Jaspers, Heidegger – eles dize que a vida não tem sentido. Por que a vida fica tão sem sentido? Nunca foi assim antes. Buda nunca disse isso; Krishna podia dançar, cantar, se divertir, Maomé podia orar e agradecer a Deus pela bênção da vida que ele derramou sobre si. Chuang Tzu é feliz, tão feliz quanto possível, tão feliz quanto um homem pode ser. Eles nunca disseram que a vida é sem sentido. O que aconteceu com a mente moderna? Por que a vida parece tão sem sentido?

A terra inteira foi tirada e você foi deixado apenas com a parte onde está em pé. Você está ficando tonto. A toda a sua volta, você vê o abismo e o perigo; e você não pode usar a terra em que está de pé agora, porque só poderá usá-la quando o inútil se juntar a ela. O inútil deve estar lá. O que isso significa? Sua vida tornou-se só trabalho e nenhuma brincadeira. A brincadeira é o inútil, o grande; o trabalho é o útil, o trivial, o pequeno. Você tornou a sua vida completamente cheia de trabalho. Sempre que você começa a fazer algo, a primeira coisa que vem à mente é: qual é a utilidade disso? Se houver alguma utilidade, você faz.

A vida parece sem sentido, porque o significado consiste num equilíbrio entre o útil e o inútil. Você negou o completamente inútil. Você fechou a porta. Agora, apenas o útil está presente. O útil se tornou um fardo, você está sobrecarregado demais por ele.

O inútil deve estar presente. O útil é como um jardim, bem arrumado, limpo; o inútil é como uma vasta floresta, natural, não pode ser tão limpo e arrumado. A natureza tem sua própria beleza, quando tudo está arrumado e limpo, ele já está morto. Um jardim não pode ser muito vivo, porque você vai podá-lo, cortá-lo, administrá-lo. Uma vasta floresta tem uma vitalidade, uma alma muito poderosa. Entre numa floresta e você vai sentir o impacto; perca-se numa floresta e você vai ver o poder que ela tem. Num jardim você não pode sentir o poder; ele não está lá, o jardim é feito pelo homem. Você pode olhar para ele – ele é cultivado, ele é administrado, manipulado.

Na verdade, o jardim é uma coisa falsa – a floresta é a coisa verdadeira. O inútil é como uma vasta floresta, e o útil é como um jardim que você cultivou em torno da sua casa. Mas não vá cortar a floresta. Não há problema, o seu jardim é bom, mas deixe que exista uma parte da vasta floresta que não é o seu jardim, mas um jardim de Deus.

E você pode pensar em algo mais inútil do que Deus? Você pode usá-lo de alguma forma? Esse é o problema; é por isso que não podemos encontrar nenhum sentido em Deus. E aqueles que buscam muito o significado das coisas tornam-se ateus. Eles dizem que Deus não existe. Como pode existir um Deus, se Deus parece tão inútil? É melhor deixa-lo de lado, e então o mundo é deixado por nossa conta, para nós o gerirmos e controla-lo. Então podemos fazer do mundo todo um mercado. Mas a inutilidade de Deus é a base de toda a utilidade que existe.

Se você puder brincar, o seu trabalho vai se tornar um prazer. Se você puder se entregar a uma simples diversão, se você puder se tornar como crianças brincando, seu trabalho não será um fardo para você. Quando você entra na vastidão da inutilidade, sua alma se torna grande. 

Sem Deus, o mundo não pode continuar mais. Deus é a vasta inutilidade.
 
O mundo do homem é o mundo utilitário, o útil; sem o inútil, o útil não pode existir. Deus é a brincadeira e o homem é o trabalho; sem Deus, o trabalho fica sem sentido, um fardo a ser carregado. Deus é a diversão, o homem é sério; sem a diversão, a seriedade vai ser demais, será como uma doença. O oposto deve ser levado em conta, e o oposto é maior.

Qual é o propósito da vida? As pessoas continuam vindo e me perguntando. Não há nenhum propósito, não pode haver. Ela é divertida, sem propósito. Você tem que se divertir, você pode apenas se divertir, não pode fazer mais nada a respeito. 

Eu lhe digo: o homem tem um ser que não é de forma alguma orientado para um propósito. Esse ser (no homem) quer desfrutar sem causa e sem razão. Esse ser quer ser feliz, simplesmente por nada. 

A vida em si não tem nenhuma utilidade. Qual é o propósito dela? Aonde você vai? Qual é o resultado? Nenhum propósito, nenhum resultado, nenhum objetivo – a vida é um constante êxtase, a cada momento. Você pode apreciá-la, mas, se começar a pensar em resultados, você para de apreciá-la, suas raízes são arrancadas, você não está mais nela, você se tornou um estranho. Então você vai perguntar sobre o significado, sobre o propósito.

Você já observou que sempre que está feliz você nunca pergunta: “Qual é o propósito da felicidade?” Quando você está apaixonado você não pergunta “Qual é o propósito de tudo isso?”. Quando, de manhã, ao ver o sol nascente e um bando de pássaros riscando o céu, você já se perguntou: “Qual é o propósito disso”? Ao ver uma flor que floresce sozinha à noite, enchendo a noite inteira com sua fragrância, você já se perguntou: “Qual é o objetivo disso”?

Não há nenhum propósito. O propósito faz parte da mente, e a vida existe sem mente, por isso a insistência no inútil. Porque, se você é ligado demais no útil, não consegue soltar a mente. Como você pode soltar a mente se está procurando algum uso, algum resultado? Você só pode soltar a mente quando percebe que não há um propósito e a mente não é necessária. Você, então, pode coloca-la de lado. É uma coisa desnecessária. Claro, se você for ao mercado, leve-a com você. Se você se sentar na loja, use-a; é um dispositivo mecânico, tal como um computador.

Sua mente é um computador natural. Por que sobrecarregá-la o tempo todo? Quando ela não for necessária, coloque-a de lado. Mas você acha que ela é necessária, porque você tem que fazer algo útil. Quem vai dizer o que é útil e o que é inútil? A mente está constantemente classificando: Isto é útil, faça isso; isso é inútil, não faça isso. A mente é o seu gerente. A mente representa o útil. A meditação representa o inútil.

Passe do útil para o inútil, e faça esse movimento de modo tão espontâneo e natural que não haja luta, conflito. Torne-o tão natural quanto entrar e sair de casa. Quando a mente for necessária, use-a como um dispositivo mecânico; quando ela não estiver em uso, quando não houver nenhuma utilidade para ela, coloque-a de lado e esqueça-a. Então, seja inútil e faça algo inútil e sua vida será enriquecida, e sua vida se tornará um equilíbrio entre uso e não uso. E esse equilíbrio transcende ambos. Isso é transcendental – não é nem uso, nem não uso.
 
“Por quanto tempo ele vai ser capaz de utilizar o que está usando?”
 
Hui Tzu disse: “Deixaria de servir a qualquer propósito.”
 
Chuang Tzu concluiu: “Isso mostra a necessidade absoluta do que não tem nenhuma utilidade”.

Mesmo o útil não pode existir sem o inútil. O inútil é a base. Eu digo a você, sua mente não pode existir sem a meditação, e, se você tentar fazer o impossível, vai ficar louco. Isso é o que está acontecendo com muitas pessoas. Elas ficam loucas. O que é a loucura? A loucura é um esforço para viver sem meditação, de viver apenas com a mente. A meditação é a base, nem mesmo a mente pode existir sem ela. E se você tentar, a mente enlouquece, é demais para ela. É insuportável. Um louco é um homem que é um utilitário perfeito. Ele tentou o impossível, tentou viver sem meditação.

Os psicólogos dizem que, se você não puder dormir durante três semanas, você fica louco. Por que? O sono é inútil. Se o inútil é retirado, você fica louco. A loucura está crescendo a cada dia, porque a meditação não é considerada algo valioso. Você acha que só aquilo em que se pode fixar um preço é valioso? Só o que pode ser comprado e vendido é valioso? Então você está errado. Aquilo que não tem preço também é valioso. Aquilo que não pode ser vendido e comprado é muito mais valioso do que tudo o que pode ser comprado e vendido.

O amor é a base do sexo. Se você for completamente privado de amor, o sexo se torna pervertido. A meditação é a base da mente. Se você negar a meditação, a mente enlouquece. A diversão, a brincadeira, é a base do trabalho. Negue o divertimento e o lazer, e o trabalho se torna um fardo, um peso morto.

Olhe para o céu inútil. Sua casa pode ser útil, mas ela existe sob este vasto céu de inutilidade. Se você puder sentir ambos e for capaz de se mover de um para o outro sem nenhum problema, então pela primeira vez o ser humano perfeito nasceu em você.

O ser humano perfeito não sabe o que está dentro e o que está fora – ambos são parte dele. O ser humano perfeito não se preocupa com o que é útil e o que é inútil – ambos são suas asas. O ser humano perfeito usa o que não tem uso. O ser humano perfeito voa no céu com as asas da mente e da meditação, da matéria e da consciência, deste mundo e do outro, de Deus, de nenhum Deus. Ele é uma harmonia maior que extrapola e abrange os opostos.

Chuang Tzu enfatizou muito o que não tem uso, o que não tem utilidade, porque você enfatizou demais o útil. Caso contrário, a ênfase não seria necessária. É só para lhe dar equilíbrio. Você tem pendido muito para a esquerda, agora tem que ser puxado para a direita.

Lembre-se, por causa dessa ênfase excessiva, você pode voltar a passar para o outro extremo. E isso aconteceu com muitos seguidores de Chuang Tzu. Eles se tornaram viciados no inútil, eles ficaram loucos com o inútil. Eles se deslocaram demais para o inútil e esse não era o objetivo – eles o perderam.
 
Chuang Tzu enfatizava isso só porque você se tornou extremamente viciado no útil. É por isso que ele enfatizou o inútil. Mas devo lembra-lo – porque a mente pode se mover para o oposto e continuará na mesma – que a única coisa real é a transcendência. Você tem que chegar a um ponto em que pode usar o útil e o inútil, o propositado e o não propositado. Então você estará além de ambos, ambos vão servi-lo.

Há pessoas que não conseguem se livrar da mente e há pessoas que não conseguem se livrar da meditação. E lembre-se de que a doença é a mesma: a de você não conseguir se livrar de alguma coisa. Primeiro você não conseguia se livrar da mente, de alguma forma você conseguiu. Agora você não consegue se livrar da meditação. Mais uma vez você passa de uma prisão para outra.

Um homem perfeito, de verdade, um homem do Tao, não tem vícios. Ele pode passar facilmente de um extremo ao outro, porque ele permanece no meio. Ele usa as duas asas.

Chuang Tzu não deve ser mal interpretado, é por isso que eu digo isso. Ele pode ser incompreendido. Pessoas como Chuang Tzu são perigosas, você pode entendê-las erroneamente. E há mais possibilidade de um mal-entendido do que de compreensão. A mente diz: “Ok, vou dar um basta nesta loja, nesta família, agora vou me tornar um vagabundo.” Isso é um mal-entendido. Você vai levar a mesma mente, você vai se tornar viciado em sua nova condição, de vagabundo. Então você não será capaz de voltar à loja, ao mercado, à família. Então você vai ter medo.

Assim, a meditação, como um remédio, pode tornar-se uma nova doença, se você ficar viciado nela. Então, o médico deve se assegurar que ver se você ficou curado da doença, mas não ficou viciado no remédio – caso contrário ele não é um bom médico. 

Eu ouvi: o Mulá Nasruddin estava ensinando seu filho de sete anos de idade como abordar uma garota, como convidá-la para dançar, o que dizer e o que não dizer, como convencê-la.

Depois de meia hora, o menino chegou e disse: “Agora me ensine como me livrar dela.”

Isso também tem que ser aprendido, e é a parte mais difícil. Convidar é muito fácil, mas livrar-se é muito mais difícil. 

Para mim, o homem está num equilíbrio profundo, ele está no meio, livre de todos os opostos. Ele pode usar o útil e pode usar o inútil, ele pode usar o que tem propósito e o que não tem propósito, e ainda permanece além de ambos. Ele não é usado por eles. Ele se tornou um mestre.

Basta por hoje.


segunda-feira, dezembro 16, 2013

O Silêncio na Meditação Cristã


"Um motivo pelo qual o silêncio nos é tão perturbador é este: Assim que começamos a nos tornar silentes, experimentamos a relatividade de nossa mente comum cotidiana. Com essa mente medimos nossas coordenadas de espaço e de tempo, calculamos as probabilidades e contabilizamos nossos erros e acertos. 

Trata-se de um nível de consciência muito útil e importante. É um estado mental tão útil e
familiar que, facilmente, acreditamos seja tudo o que somos: a totalidade de nossa mente, nosso verdadeiro eu, nossa inteira significação.

A vida, o amor e a morte, frequentemente nos ensinam o contrário. Encontramos-nos
inesperadamente com o silêncio, em muitas reviravoltas inesperadas da estrada da vida, de maneiras imprevisíveis, em pessoas improváveis. Sua saudação possui um efeito que é, ao mesmo tempo, emocionante, pleno de maravilhamento, ainda que frequentemente apavorante.

A cada momento, nossos pensamentos, medos, fantasias, esperanças, raivas e atrações, estão
todos surgindo e desaparecendo. Identificamos-nos, automaticamente, com esses estados, sejam eles passageiros ou compulsivamente recorrentes, sem pensar o que pensamos. Quando o silêncio nos ensina o quão transitórios e, portanto pouco confiáveis, na verdade, são esses estados, confrontamo-nos com o terrível questionamento de quem somos nós. No silêncio precisamos lutar com a terrível possibilidade de nossa própria irrealidade.

O pensamento budista faz dessa experiência, denominada anatman (ou 
o "não eu"), um dos principais pilares de sabedoria em seu caminho de libertação do sofrimento, e um de seus meios de iluminação essenciais. Incentiva-se o praticante budista a buscar essa experiência da transitoriedade interior e, em vez de fugir dela, mergulhar nela de cabeça, assim como fizeram Meister Eckhart e os grandes místicos cristãos.

É compreensível que anatman seja a idéia budista que representa o maior problema para as
outras pessoas. Tão absurdo, tão terrível, tão sacrílego dizer que eu não existo. De fato, muito do antagonismo cristão ao anatman é infundado ou fundamentado em interpretação errônea. 

Não quer dizer que não existimos, e sim  que não existimos em autônoma independência, que é o tipo de existência que o ego gosta de imaginar que tem; o tipo de fantasia de ser Deus, com que a serpente tentou Eva. Trata-se da arrogância que, frequentemente, acomete as pessoas religiosas.

Não existo independentemente, pois Deus é o fundamento de meu ser. À luz desse entendimento,
lemos as palavras de Jesus no Novo Testamento, com percepção aprofundada: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me..., mas, o que perder a sua vida por causa de mim, a salvará" (Lc 9, 23-24).

Caso, através do silêncio, possamos abraçar esta verdade do anatman, faremos importantes
descobertas acerca da natureza da consciência. Descobriremos que a consciência, a alma, é mais do que o fantástico sistema cerebral que computa, calcula e, julga. Somos mais do que aquilo que pensamos. A meditação não é o que pensamos.

Medite por Trinta Minutos... 
 
Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado, mas, atento.
 
Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente.
 
Não pense nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas deixe-os passar. Simplesmente continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação."
 

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Do nada à Totalidade (Goldsmith)


Joel S. Goldsmith

O propósito de nos afastarmos de pessoas materiais, de ajuda material e de caminhos materiais, a fim de nos voltarmos ao espiritual, é chegar àquele lugar na consciência em que o Cristo assume as rédeas. No momento em que nos afastamos do humano e nos voltamos para o espiritual, torna-se inevitável que o Espírito se imponha, tão inevitável quanto o crescimento da relva após a semeadura, a irrigação e a adubação. Todavia, assim como ocorre entre o plantio e a colheita, há um intervalo entre os primeiros passos dados na senda espiritual e a experiência da atividade do Cristo em nossa vida diária. Esse lapso representa o lixo de humanidade que deve ser varrido do templo de nossa consciência porque este ficou conspurcado pela experiência humana. Parece que o próprio Cristo precisa de algum tempo para nos purificar – para deixar esse templo de nossa consciência pronto para a concepção e para o nascimento da Criança.

Independentemente de há quanto tempo nos afastamos do humano em favor do espiritual, e do número de passos que demos (alguns certos, outros errados), é inevitável que por fim alcancemos aquele lugar na consciência onde o Cristo assume as rédeas.

Primeiro, contudo, deve sobrevir o senso de nulidade, a constatação de que “nada do que eu faça ou pense pode ajudar; nada que eu tente fazer, pode influir nos acontecimentos”. Senso de nulidade: a nulidade do pensamento humano, a nulidade do eu humano, do ser humano, da ação humana, da sabedoria humana, do planejamento humano, da economia humana – de tudo o que é humano. Quando o senso de nulidade é COMPLETO, e percebemos a inteira futilidade do empenho humano, voltando-nos para o Espírito, sobrevém a Totalidade, o silêncio profundo da “Minha Paz”. É a paz espiritual. “A Minha Presença nunca vos deixará ou abandonará”. Trata-se do Eu transcendental na natureza, que não sou eu nem vocês. É a “pequenina voz suave” que dá testemunho da Presença, a qual jamais veremos face a face enquanto vivermos como humanos. Mas, se vivermos como entes espirituais, Ela penetrará na nossa experiência, conforme foi prometido.

Quando isso acontecer, não se tornem um excêntrico aos olhos do mundo. Não saiam por aí dizendo que a sua vida está sendo vivida por uma presença e por um poder invisíveis. Não contem ao mundo que já não se preocupam com a existência, pois o mundo ficará com medo de vocês e fugirá! Entretanto, sempre que houver um pensamento receptivo, sempre que alguém se aproximar de vocês depois de reconhecer o que possuem, estarão livres para compartilhar. De certa forma, sejam normais, falem a língua do mundo, vivam como os demais por fora – mas por dentro obedeçam a seus padrões espirituais.

“O meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

A experiência do Cristo sobrevém apenas depois da morte de uma parte da nossa natureza humana – da eliminação do eu humano (egoísmo), dos desejos, dos anseios e das necessidades humanas. Eliminada a natureza humana, ascendemos para a natureza do Cristo. Entretanto, ninguém sobe tão alto a ponto de permanecer até o momento da ascensão, pois a transição não ocorre enquanto sobejar o menor traço de humanidade. Às vezes, a Presença parece estar sentada no alto ou atrás do nosso coração, ou no nosso ombro. Hoje pode ser um lugar, amanhã outro. Não faz diferença. Se vocês perceberem a Presença aqui ou ali, rejubilem-se! Mas não esperem que lá esteja o tempo todo, porque se desapontarão. Não tentem localizá-La ou capturá-La. Se parecer ausente por um longo tempo, talvez fiquem deprimidos, mas nem isso deve preocupá-los. A vida é feita de colinas e vales. Às vezes, rolamos de uma colina para um vale; outras, achamo-nos num cume mais alto que o Everest. Eu mesmo já me senti nas alturas para, no dia seguinte, sentir-me mais no fundo do que no inferno. Não se preocupem com isso porque nada tem a ver com vocês. Trata-se apenas dos graus desdobrados da consciência e da resposta humana a eles. Assim, se se encontrarem num período depressivo, rejubilem-se, porque é a preparação para a experiência das alturas. Não se pode subir sem antes descer. Em outras palavras, não se pode achar a vida antes de perdê-la.

Como saber que nos despojamos completamente do senso de humanidade? Há um método infalível. Importa-nos viver ou morrer? Se nos importa, existe ainda um traço de humanidade. Quando a humanidade se foi, pouco ligamos para estar aqui na Terra ou no além, para viver neste plano ou no próximo. Por quê? Porque quando eliminamos todos os traços de humanidade, não existe mais “eu”. Somente o “eu” humano deseja viver ou, às vezes, morrer. Somente o “eu” humano pode ser próspero ou carente. Se não houvesse um “eu”, não haveria prosperidade nem carência, nem vida nem morte, nem doença nem saúde. Haveria unicamente o estado do Cristo. Enquanto há traços do “eu”, há humanidade. O fardo da existência humana nunca mais será tão pesado para vocês, que até agora tiveram o senso do “eu”.

“Como chegarei a isso? Como devo chegar a isso? Por que devo chegar a isso?” Doravante, recordarão: “Eu estou com vocês para enfrentar o problema. Jamais o deixarei ou abandonarei.” Hoje, algo aconteceu: a percepção do Cristo. Ele fará o que for preciso, sustentará o que for preciso: em outras palavras, haverá um senso maior da Presença e do Poder invisível que realizarão aquilo que nos foi dado realizar, razão pela qual o fardo parecerá mais leve. O fardo só parece pesado quando nós mesmos temos de carregá-lo, mas é bem mais leve quando sabemos que outros ombros arcarão com ele. Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei… Encontrareis descanso para as vossas almas… Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

Sim, poderão pousar o seu fardo nos Meus ombros. Nos ombros do Cristo, ele não pesará um grama sequer! Quando Ele Se evidenciar em nossa vida, haverá menos um “eu” (nós) suportando o fardo de resolver problemas do que um “Eu", Minha Presença (o Cristo) fazendo isso por nós. O que estudamos, lemos e pedimos deve agora transformar-se em experiência!
 
 

quarta-feira, dezembro 11, 2013

O ser afundando-se abençoadamente no Ser

 
Nisargadatta Maharaj


"A permanência na consciência remove todos os problemas passados e futuros e estabiliza a pessoa no presente – Aqui e Agora.
 
Bem, é bom ter conversas desse tipo, mas embeber e realizar a essência é muito difícil, de fato. Por que? Porque você acredita firmemente que você é o corpo e vive de acordo, enquanto alimenta desejos apaixonados de que você vai conquistar algo bom no mundo, e mais tarde algo ainda melhor. Essas expectativas estão baseadas primeiramente numa noção errônea de que você é o corpo.
 
A consciência é o sentido de se estar ciente, “eu sou” sem palavras, e ela apareceu inconscientemente e sem ser solicitada. Ela é a força vital universal manifesta e, portanto, não pode ser individualista. Ela se estende dentro e fora, como o brilho de um diamante. Você vê um mundo de sonhos dentro de você e um mundo perceptível fora de você, previsto que a consciência prevalece. Do nível do corpo, você pode dizer dentro e fora do corpo, mas do ponto de vista da consciência, onde e o que é dentro e fora? Apenas no reino do sentido de estar ciente “eu sou” – a consciência – pode o mundo existir, e também uma experiência pode existir. Segure-se neste sentido de estar ciente “eu sou”, e a fonte do conhecimento irá nascer dentro de você, revelando o mistério do Universo, do seu corpo e psiquê, da interação dos cinco elementos, dos três gunas e prakriti-purusha; e de tudo o mais.
 
No processo dessa revelação, sua personalidade individualista confinada ao corpo se expandirá no universo manifestado e será realizado que você permeia e abarca o cosmos todo como seu “corpo” apenas. Isso é conhecido como o “Puro Super-Conhecimento” – shuddhavijnana. Não obstante, mesmo no estado sublime shuddhavijnana, a mente se recusa a acreditar que ela é uma não-entidade. Mas conforme afundarmos na consciência, desenvolveremos uma firme convicção de que o conhecimento “eu sou” – o sentido do seu ser – é a própria fonte do mundo. Apenas esse conhecimento faz você sentir que “você é” e que o mundo é. Na verdade, esse conhecimento manifesto, tendo ocupado e permeado o cosmos, reside em você como o conhecimento “você é”.
 
Segure-se a esse conhecimento. Não tente dar-lhe um nome ou um título. Agora chegando numa situação muito sutil: o que é isso em você que entende esse conhecimento “eu sou” – ou do seu ponto de vista “eu sou”, sem nome, título ou palavra? Afunde-se no centro mais íntimo e testemunhe o conhecimento “eu sou” e apenas Seja. Essa é a “bênção do ser” – o swarupananda.
 
Você deriva prazer e felicidade através da ajuda de vários auxílios e processos externos. Alguns gostam de apreciar uma boa comida, alguns gostam de ver um filme, alguns ficam absorvidos na música… e assim por diante. Para todas essas apreciações alguns fatores externos são essenciais. Mas para residir na “bênção do ser”, absolutamente nenhuma ajuda externa é requerida. Para entender isso, tome o exemplo do sono profundo. Uma vez que você esteja em sono profundo, nenhuma ajuda ou tratamento serão requeridos e você aprecia uma felicidade silenciosa. Por que? Porque nesse estado a identidade com um corpo masculino ou feminino é esquecida totalmente.
 
Alguns visitantes me perguntam: “Por favor mostre-nos o caminho que nos levará à Realidade”. Como eu poderia? Todos os caminhos levam à irrealidade. Caminhos são criações dentro do escopo do conhecimento. Portanto, caminhos e movimentos não podem transportá-lo para a Realidade, pois a função deles é enredar você dentro da dimensão do conhecimento, enquanto que a Realidade prevalece antes dessa dimensão. Para compreender isso, você deve fixar-se na fonte da sua criação, no início do conhecimento “eu sou”. Enquanto não atingir isso, você estará enrolado nas correntes forjadas por sua mente e ficará enredado nas correntes das outras pessoas.
 
Portanto, eu repito, você se estabilizar na fonte do seu ser, então todas as correntes irão se romper e você será liberado. Você irá transcender o tempo, estará além dos tentáculos dele e prevalecerá na Eternidade. Esse estado é de beatitude extática – o ser afundando-se abençoadamente no Ser. Esse êxtase está além das palavras, ele é também o estado de estar ciente em total quietude. A quintessência do discurso está clara. Sua posse mais importante é o “conhecimento” que “você é” anterior à emanação da mente. Segure-se a esse “conhecimento” e medite. Nada é superior a isso, nem mesmo a devoção ao guru – guru bhakti – ou a devoção a Deus – Iswara bhakti."
 
 

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Meditar é "perceber"!


 - Núcleo -
 
Divinos personagens!
 
Permitam-me compartilhar algo sobre a meditação.
 
Considerem a água do oceano. Mantenham a água do oceano sob o foco de sua atenção e acompanhem o ciclo que se inicia a partir dela.
 
A água do oceano se vapora, sobe para a atmosfera e na presença de núcleos higroscópicos de condensação formam as nuvens, que são levadas pelas correntes de ar e se precipitam sob a forma de chuva sobre vários relevos, sejam montanhas, vales, planícies, etc. Esta mesma água nutre tanto rios quanto correntes subterrâneas, assim como lagos, nascentes e fontes de água mineral, bem como as poças de água que se estagnam.
 
O algo a ser aqui notado é que se trata da mesma água do oceano em diferentes situações. Ou seja, trata-se da mesma água “aparecendo como” chuva, como lago, como nascentes, como correntes subterrâneas e até como a água estagnada em poças.
 
Façamos uma analogia da água do oceano que “aparece como” com o Eu, o Eu real que também “aparece como”... Notem que o Eu que “aparece como” o Gugu disse: "Eis o que deve ser notado: o que está aqui sendo expressado sou Eu! O Eu Real que todos somos está aparecendo como aquele que pergunta, está aparecendo como aquele que responde, e está também aparecendo como aquele que lê/acompanha o artigo. Essa é a percepção que devemos ter, isso é o que deve ser percebido. Tudo o que ocorre, sem exceção, provém de Mim."
 
Foi dito: “Mantenham a água do oceano sob o foco de sua atenção”. Qualquer que seja a forma em que ela aparece, mantê-la sob o foco de atenção nos mantém conscientes de que se trata da água do oceano!
 
De modo análogo, qualquer que seja a forma em que o “Eu Real” aparece, mantê-lo sob o foco de atenção nos mantém conscientes de que se trata do nosso “Eu Real”, da nossa real identidade!
  
Na passagem em que os judeus questionam Jesus: “Você ainda não tem cinquenta anos e conheceu nosso pai Abraão?”. Jesus responde: “Antes que Abraão existisse Eu Sou.” 
 
Esta passagem evidencia que a visão que os judeus tinham sobre Quem era Jesus era uma visão limitada e temporal; e que a visão que Jesus tinha sobre Quem ele era, era uma visão ilimitada e atemporal.   
 
Jesus mantinha sob o foco de atenção o “Pai”, Deus, o Eu Real, por isso ele se mantinha consciente de sua origem e real identidade de filho de Deus, ou seja, de que era emanado de Deus e de que era Um com Deus! Por isso declarou: “Eu e o Pai somos Um”.
 
Nesse exemplo fica claro que os judeus tinham uma “percepção mental” de Jesus, enquanto ele tinha a “percepção consciencial” sobre si mesmo.  É de se notar que Jesus iniciou seu ministério compartilhando na Sinagoga a leitura da passagem da Escritura onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, e me ungiu...” tornando claro que ele sabia “Quem faz”, “Quem realiza as obras”. 
 
Essa percepção consciente de Quem Somos e de Quem faz é a meditação.
 
A declaração de sua origem divina, de sua unidade com Deus, e de Quem realiza as obras é a evidência de que Jesus vivia em constante meditação.
 
Assim, qualquer que seja a forma em que o “Eu Real” aparece, mantê-lo sob o foco de atenção nos mantém conscientes de que se trata do nosso “Eu Real”, da nossa real identidade. E também nos mantém conscientes de que é o Eu Real Quem faz, que é “Quem realiza as obras”.
 
É preciso aqui notar que a palavra meditação no sentido em que é usada no Núcleo, como sinônimo de percepção consciencial, não tem o mesmo significado que comumente lhe é atribuída, como sendo sinônimo de um “estado alterado de consciência” no qual o indivíduo se funde no Todo ou se percebe em unidade como o Todo. Segundo o ensinamento do Núcleo a meditação é a própria “percepção da Consciência”, é o “estado natural” de percepção do Eu Real. Nesse sentido, a “percepção mental” é que seria um “estado alterado de consciência” ou de percepção; só não o é porque ela não é uma real percepção, pois, não sendo real o personagem, não é real a percepção da mente do personagem, ou seja, a percepção mental.
 
Mas, na “representação” e para o personagem a percepção mental é real. Isto ocorre devido ao realismo, à perfeição da “representação divina”.
 
Inclusive é comum que na “representação” a maioria dos personagens que são tidos como iluminados passem por um episódio em que se iluminam.
 
Conta-se, por exemplo, que o jovem Sathya Narayana quando tinha uns 14 anos de idade foi picado por um escorpião; que ficou dias sem consciência e quando despertou declarou: “Eu sou Sai Baba” - nome de um iluminado, mas que era desconhecido na região onde vivia o jovem Sathya Narayana. Mais tarde, Sai Baba declarou que sempre teve a consciência de Quem ele É, e de Quem Somos; e que o episódio do escorpião nem mesmo foi real.
 
Outro exemplo é o do divino iluminado personagem Masaharu Taniguchi, que teve uma experiência de iluminação na qual percebeu que, tal como Sakyamuni, sempre foi um ser búdico. O próprio Sakyamuni teve uma experiência de iluminação sob uma árvore na qual percebeu que era Buda.
 
Da mesma forma outros iluminados descrevem as experiências nas quais se tornaram conscientes da Realidade divina e de suas reais identidades.
 
Desses exemplos clássicos de “personagens que se iluminaram” surgiu a ideia de que, para se iluminar, todo personagem tem necessariamente que passar por um processo de iluminação, que culmina com a experiência de iluminação. Assim surge o pensamento guiado pela razão e pela lógica de que o personagem precisa fazer algo para se iluminar. Então aparentemente se apresentam dois caminhos para a iluminação:
 
1) O primeiro parte de um pensamento, fundado na razão e no raciocínio de que há algo a ser feito pelo personagem para que ele se ilumine. Nesse caminho, é como se a “iluminação” fosse o momento do encontro da água do rio com a água do oceano, que se funde e se torna um com a água do oceano. Nesse caminho é como se a água do rio (que está prestes a se fundir ou já se fundindo com o oceano, ou seja, se iluminando), dissesse às outras águas: "Há um caminho a ser trilhado. Vocês têm que fazer algo; têm que continuar se movendo até se fundirem com o oceano". Ou como se dissesse à água das poças: "Vocês têm que morrer, têm que nascer novamente, têm que se evaporar para se livrar da condição estagnada em que se encontram ou jamais se fundirão no oceano; jamais se perceberão unidas ao oceano".
 
2) O segundo caminho para a iluminação parte de uma percepção, aquela na qual qualquer que seja a água... “mantém a água do oceano, a sua real origem e identidade, sob o foco de sua atenção”. Assim, qualquer que seja a forma em que a água apareça, manter a água do oceano sob o foco de atenção a mantém consciente de que é e sempre foi a própria água do oceano! É isso o que perceberam os personagens que se iluminaram. Perceberam sua real identidade e a real identidade de todos os seres; perceberam que não é “quem estavam sendo” quem percebe, ou seja, perceberam que não é o personagem (a água das nascentes, a água das poças, a água dos rios) quem percebe, mas a própria água do oceano.
 
Jesus, ao dizer que: “Eu deste mundo não sou, vós também não sois”, tornou evidente que segue o caminho da fé, o caminho da certeza das coisas que não se veem, que é o caminho da percepção, o caminho do segundo tipo, que é o caminho revelado e compartilhado no Núcleo, que diz: “Parta da percepção: da percepção do Ser, da real identidade. Não parta do pensamento, das razões, da lógica, da mente do personagem.”
 
A propósito esta é justamente a diferença entre os dois caminhos: é que o caminho que parte do pensamento, da lógica, da razão humana, parte da “mente do personagem”; ao passo que o caminho que parte da percepção (ou seja, que parte da percepção da Consciência do Ser), parte do próprio Ser, do “Eu real”.
 
A esse respeito há um texto do Núcleo, cujo título é: “Diálogos conscienciais - Grande encontro que nos proporciona este Divino Presente”, publicado no nucleu.com em http://nucleu.com/2012/09/25/dialogos-conscienciais-grande-encontro-que-nos-proporciona-este-divino-presente/, que ressalta essa diferença entre partir do pensamento ou da percepção, cuja leitura é aqui sugerida.
 
Pra finalizar, a percepção compartilhada por Daniel no livro da Bíblia é: "Em imagens noturnas tive esta visão: Entre as nuvens do céu vinha alguém semelhante a um filho do homem" (Dn 7:13). “Alguém semelhante a um filho do homem” é uma alusão ao Cristo, à Consciência ou percepção crística, iluminada, ou consciencial. Essa percepção vem “entre as nuvens do céu”. Significa que vem do céu; vem da Realidade divina; não vem da terra, não vem da representação. Ou seja, não vem do pensamento, nem da lógica, nem das razões humanas.   
 
Há muitas outras passagens nas Escrituras que apontam a origem desta percepção. Contudo, o que importa é ressaltar o que foi dito por Aquele que “aparece como” Gugu: "Eis o que deve ser notado: o que está aqui sendo expressado sou Eu! O Eu Real que todos somos está aparecendo como aquele que pergunta, está aparecendo como aquele que responde, e está também aparecendo como aquele que lê/acompanha o artigo. Essa é a percepção que devemos ter, isso é o que deve ser percebido. Tudo o que ocorre, sem exceção, provém de Mim."
 
Namastê!
 

sábado, dezembro 07, 2013

O ato voluntário inicial na Meditação


Respondendo a uma pergunta enviada pelo internauta Mauro Falleiros sobre a necessidade do ato voluntário nos estágios iniciais da meditação, o nosso Amigo, aparecendo como o personagem Alsibar, aproveitou para fazer um pequeno vídeo com a resposta, além de um artigo sobre o mesmo tema. Tanto a pergunta como a resposta estão excelentes. Eis o que deve ser notado: o que está aqui sendo expressado sou Eu! O Eu Real que todos somos está aparecendo como aquele que pergunta, está aparecendo como aquele que responde, e está também aparecendo como aquele que lê/acompanha o artigo. Essa é a percepção que devemos ter, isso é o que deve ser percebido. Tudo o que ocorre, sem exceção, provém de Mim. Agradeço Aquele que na representação aparece como o personagem Alsibar, por compartilhar com o mundo este belo texto/vídeo. Muito obrigado! Namastê!
 
 
A meditação tem muitos estágios e fases. Nos estágios iniciais, o “querer” exerce papel crucial. Sem ele, o indivíduo não empreenderia a viagem inicial em direção às profundezas do desconhecido de si mesmo. Sendo assim, o ato voluntário inicial, não só é necessário – como é fundamental. Ao se perceber preso ao tempo, à dor e à degradação psicológica,  a pessoa procura uma forma, um caminho, uma maneira de dar um basta a isso tudo. Sem esta vontade inicial, o indivíduo não buscaria o conhecimento profundo de si mesmo. Esse movimento inicial é o que dá a partida, que faz o sujeito procurar uma maneira mais harmoniosa, mais plena de se viver.  Ora, se não fosse necessário tal movimento e se não precisássemos fazer realmente NADA, então  teríamos um mundo de iluminados e a Terra seria o paraíso, não é verdade?
 
Apesar de haver apenas dois movimentos: o da busca e o do abandono da busca, pois o resto não é da competência do sujeito – farei uma descrição mais detalhada desses movimentos com fins didáticos.
 
O primeiro movimento é o da busca, o segundo é o das técnicas e gurus e o terceiro é o do abandono de tudo isso e o quarto movimento? É o do movimento pelo “não-movimento”. Em outras palavras, é quando o movimento do “eu” enquanto “centro” dos desejos, da ânsia, dos pensamentos, do tempo, do vir-a-ser, etc. – cessa completamente. Daí por diante, não há mais a ilusão do “fazedor” e, portanto, nada a ser feito ou realizado, pois tudo passa a ser o que é.
 
Vou dar o exemplo do balão – penso que é uma boa metáfora: ora, para o balão subir é necessário, inicialmente,  que haja bastante "ar quente" em seu interior. Após a subida, o balão voa por si mesmo, levado pelas correntes do vento. O controlador só precisa “aproveitar” esses ventos da maneira mais inteligente – mas ele não os comanda. O erro do Ego é achar que ele controla tudo, quando ele não controla nada. A felicidade e liberdade está em não querer controlar os ventos. Mas deixar-se levar por eles exatamente como no caso do balão.
 
Vamos pegar outro exemplo: as correntes marítimas. É sabido que peixes, baleias, golfinhos e pinguins aproveitam as correntes marítimas pra viajarem milhares de kilomêtros com o mínimo de esforço possível. Ora, mas eles precisam se dirigir até as correntes e só depois aproveitar o impulso das mesmas.
 
Guardando as devidas proporções, podemos fazer as seguintes analogias: o primeiro movimento – o do acionamento do gás hélio no balão – equivale ao movimento inicial da meditação (postura, atenção, lembrança, respiração, observação)  e isso  parte da vontade deliberada do indivíduo. O segundo movimento é quando o balão deixa de estar sob o controle do baloeiro e os ventos “assumem” o comando – seria o estado meditativo. Nesse estado, cessam tanto o controlador, quanto o objeto controlado. Há apenas o movimento do Atemporal, do Indescritível. Ao ego (a pessoa) resta apenas observar e decidir se quer ficar ou não sob a influência deste movimento “desconhecido”. Mas isso não significa – como poderia pensar alguns – um estado mórbido. O movimento do Atemporal é vivo, dinâmico, cheio de nuances, variando de direção, intensidade e profundidade.
 
Tao – o Desconhecido – é uma força/inteligência além do nosso entendimento. Ele está  sempre em nós – todavia, nós (a consciência individual) é que não estamos nele. Como diz a música do Raul parafraseando as palavras de Krishna no Gita: “mas saiba que estou em você, mas você não está em mim”. E por que não estamos nele? Por que nossa consciência está geralmente voltada para o mundo dos sentidos, das cores e das formas. Ou então está identificada com os pensamentos, futuro, sonhos e desejos – criando, assim o tal do “tempo psicológico”.
 
Ao voltar a atenção para o espaço infinito que se manifesta antes dos pensamentos, no intervalo entre eles ou no fim deles. Ou ao observar/contemplar o espaço silencioso no qual os pensamentos se movimentam, o sujeito vai se tornando cada vez mais cônscio da necessidade de se voltar para dentro – e isso depende exclusivamente de sua vontade e iniciativa. Essa é a parte que lhe compete. É a única coisa que  pode realmente ser “feita” – pois além disso, nada mais pode ser feito ou dito. Resta apenas uma profunda entrega e tranquilidade. Apesar da mente não conseguir perceber  sua atuação, esse “algo” atua na consciência do indivíduo,  preparando-o para vôos cada vez mais altos e mergulhos cada vez mais profundos.
 
Então na próxima vez que for “mergulhar no Eterno”, saiba que a iniciativa deve partir de você e somente de você – principalmente nos estágios iniciais da meditação.

Namastê!
 
 
 
*Obs: Acessem o blog sobre meditação do nosso amigo Alsibar no seguinte endereço: www.alsibar.blogspot.com.br

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Não julgueis

 - Núcleo -
 
Julgar é perceber mentalmente!
 
O que pensa estar vendo quando julga? Está vendo o resultado do seu julgamento, da sua visão mental. Ou seja, você não saiu dos limites de sua própria mente. Nada “lá fora” foi de fato percebido, porque não há nada “lá fora”! Você está vendo o “universo mental”, uma concepção da própria mente. Não é o universo Real. Não é o “Jissô”; não é o “Reino de Deus”; não é a “Realidade Consciencial”.
 
Eu [sua real identidade] tem mostrado isso a você de diferentes formas, através de muitos mestres, que são divinos personagens que parecem estar “fora” de você. Um deles disse: “O Reino de Deus está dentro de vós.” O que está sendo dito agora é: Não tente ver isso de forma dual, ou seja, não tente ver isso com a percepção que concebe algo como estando “dentro ou fora”. A mente, que vê de forma dual, concebe o tempo assim: O passado está “fora” do presente; e da mesma forma, o futuro está “fora” do presente. Então, com essa concepção “o presente” vai ficando sempre “fora”, de instante a instante, porque vai se tornando passado… Mas, a vida está sempre presente, está sempre diante do foco de nossa visão. Vivemos o presente. Memória e Imaginação nos auxiliam nessa percepção do que é nossa vida. Instantaneamente concebemos o momento recente na memória e isso passa a ser o passado; e instantaneamente concebemos o momento próximo na imaginação e isso vem a ser o futuro. Memória e imaginação são concepções mentais. A vida é o presente. Passado e futuro são conceitos que estão em nossa mente, na mente do personagem. Mas não estamos passando por um caminho composto de passado, presente e futuro; nós Somos o próprio Caminho; Somos a própria Vida!
 
Nós Somos a Verdade. A revelação de Jesus ao dizer: “Eu Sou o caminho, a verdade e a vida”, não foi apenas uma declaração sobre Quem Ele era, mas sim, é uma revelação sobre Quem você É! Cristo não está vivo no passado, não está fora, Ele está Vivo! Está vivo em você! Mas você não pode chegar a Ele, ou seja, não pode percebê-Lo, a não ser por Ele mesmo. Não podemos perceber o Cristo em nós a não ser através do próprio Cristo que Vive em nós.
 
E aqui voltamos ao ponto em que foi dito: “Julgar é perceber mentalmente.” O que pensa estar vendo quando julga que o Cristo está no passado, que está “fora”? Está vendo apenas o resultado do seu julgamento, da sua visão mental. Com a percepção mental não chegará “ao Pai”, ou seja, não chegará a perceber Deus. Por isso no Núcleo é dito: “Perceba Quem faz”. Isto quer dizer: “Acesse o Cristo” que vive em você. Acesse esta percepção divina. Não julgue!
 
Se quiser você pode apenas receber as palavras de Cristo como revelações de sua própria Consciência, sem julgar. Cristo revelou: Eu e o Pai somos Um. Cristo revelou: Eu neles e tu em Mim, para que sejam todos “aperfeiçoados na Unidade”. Não tente julgar uma revelação dessas. Apenas a aceite “como criança”, com aquele espírito que não julga, mas que apenas desfruta o presente, a revelação que lhe é dada. Num instante qualquer perceberá que isto é verdade; e perceberá que Quem percebe isso em você não é sua mente, é o próprio Cristo em você! E então, por perceber Quem faz, assim como um apóstolo de Cristo você poderá dizer: "Vivo, mas já não sou eu Quem vive, é Cristo Quem vive em Mim."

Namastê.

 
Comentário:

Caros co-criadores,

Verdadeira e precisa é a percepção deste texto que aparece como a manifestação do SER: a causa primordial de nossa desconexão com a divindade é justamente o julgamento.

Apesar de ser algo prejudicial, porquanto embota nossa percepção (nossa ligação com a divindade interna), tem sido por muitos séculos o aspecto mais evidente em nós personagens; em qualquer situação que estejamos inseridos, o julgamento é sempre a primeira experiência que se apresenta.

Isso acontece porque o julgamento é o mecanismo mais eficiente que a mente possui; ela não funciona sem a análise das informações captadas pelos cinco sentidos e uma posterior conclusão. Tal mecanismo é quase que instantâneo.

Para nosso alívio contudo, o SER nunca nos deixou desamparados e, através dos tempos, sempre se manifestou de forma mais expressiva, “aparecendo como” personagens despertos, todos eles divulgando a mesma mensagem: o mestre não sou eu mas sim O EU. Foi assim com Pitágoras, Apolônio de Tiana, Simão Magus, Jesus e TODOS seus apóstolos, Buda, Mohamed, Krishna, Rama, Gandhi, Sai Baba e um sem número de outros personagens, talvez não tão famosos, porém igualmente cientes da unidade onipresente.

Auspicioso porque não depende mais de um mestre distante, inacessível e detentor de todos os poderes do universo, mas sim, através de personagens comuns, que vivem o dia-a-dia igual todos os outros personagens, que não descartam a percepção mental e não propõem nenhum dogma ou fórmula mágica para a ascensão espiritual, exceto a insistência em que alguns princípios devem ser não só praticados, mas também preservados, se é que queremos mesmo viver a Realidade e não mais o que nosso julgamento nos apresenta.

Assim, os princípios de não julgar, de perceber que “EU aparece como”, e de que “O mestre é DEUS”, precisam nortear nossas vidas; não podem ser questionados; não podem ser mudados, não porque seja uma religião com dogmas, mas dado nossa afirmação de que queremos interagir com o SER e não reagir aos personagens (outro ensinamento nuclear), é preciso desligar o automático do julgamento, das percepções puramente mentais, pois caso continuemos nesse automático, não conseguiremos a transcendência que estamos dizendo que queremos.

Os ensinamentos do NÚCLEO, como o de todos os “mestres” que caminharam por este mundo, não são teorias idealizadas por um personagem inteligente, mas sim revelações provenientes de percepções conscienciais profundas; são resultado de interiorização e consequente acesso ao que na Índia é chamado de “registro akáshico”, que nada mais é do que o desvelar do Deus interno, que motiva todas as ações (mais uma revelação nuclear).

Caso nossa real determinação seja esse encontro com a divindade interna, as ferramentas para isso encontram-se nesses princípios, que não são novos, mas que trazem nova roupagem ao “religare”, na medida em que permite a todos, sem exceção de raça, credo, ou dogmas, desvelar esse Deus.

Nossa parte, é fazermos a nós mesmos a pergunta: o que realmente você quer?

OM SAI RAM


terça-feira, dezembro 03, 2013

O Silêncio Contemplativo

- Núcleo -
 
 
Pergunta de um divino personagem em meio a um diálogo:
 
1) A percepção do Ser que somos pode ser ativada por meio do pensamento?
 
2) E também: o pensamento pode ser aquilo que daria “início” ao processo de ativação da percepção consciencial?
 
Respondendo a pergunta:
 
Lembra-se da frase bíblica que o Goldsmith sempre enfatizou? Esta frase: “Nem pela força, nem pelo poder, mas pelo meu espírito”. Ele elucidava que: Nem pela força (física), nem pelo poder (mental), mas pelo meu Espírito.
 
No livro O Trovejar do Silêncio ele até faz uma análise da evolução histórica da busca do homem por poder, que da força física passou a ser a força da mente, por meio de pensamentos positivos, até que se chega ao “poder do espírito”.
 
Pensamentos estão no nível da mente, são produzidos pela atividade mental. O que ativa a percepção consciencial é uma mistura sutil de silêncio e contemplação, que chamo de “silêncio contemplativo”. Não se trata de um silêncio no sentido de “ausência de som”, mas sim de um estado de alerta para a “manifestação do espírito santo” em nós. Alguns chamam isso de “descida do espírito santo”, mas é mais propriamente uma ascensão do foco da atenção ou percepção do nível de pensamentos que estão na mente do personagem que estamos sendo para o nível espiritual de percepção do Ser que somos.
 
No nível do Ser não há pensamento bom ou mau, há apenas uma percepção clara da realidade divina. Nossos pensamentos são atividades mentais sobre informações que nos chegam através dos cinco sentidos. O universo percebido pelos cinco sentidos não é o universo real, mas aparente. O universo criado por Deus é consciencial e não físico como o universo captado pelos cinco sentidos. O universo real está na Consciência de Deus, e tudo o que existe está também neste universo real. Nós somos “seres conscienciais” e existimos neste universo que é essencialmente espiritual e divino.
 
O que nos faz acreditar sermos “seres humanos” vivendo num universo físico é a mente humana, condicionada a pensar que isso é real. Quando o condicionamento é desfeito nos libertamos do emaranhado dos pensamentos e conceitos mentais e percebemos o real, não através de novos pensamentos, mas por um sentido espiritual de percepção. Quando a “trava de nossos olhos”, é removida, quando conceitos e preconceitos são descartados, podemos “perceber” a onipresença do Criador em cada manifestação de Sua criação.
 
Em síntese, não há necessidade de pensar em nada, apenas se concentre no momento presente e contemple o que está acontecendo! Você pode se mover, então contemple seus movimentos. Contemple as maravilhas, os milagres que estão diante de você! Esse é o início do despertar. Creia em Mim. Num instante você percebe que somente Deus pode estar sendo a causa de tudo isso e dessa percepção. Quando perceber que através de você a Vida está contemplando a Si mesma… desfaz-se a ilusão da separatividade e você se reconhece em união com Deus.
 
Por meio do silêncio contemplativo, ativar a percepção consciencial não requer qualquer esforço mental. É uma consequência natural. O sentimento de unidade espiritual com Cristo, o Espírito de Deus vivo que "anda sobre as águas turbulentas da mente"  vem e Se revela: Não temas, sou Eu!
 
Veja! Quem diz isto é a voz consciencial, que expressa ideias divinas, que não provém da mente humana. Estes são pensamentos divinos. Existem. Mas é um tema amplo que requer muitas considerações.
 
Por agora é só.