"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

segunda-feira, março 23, 2009

Satsang com Nisargadatta Maharaj

Nisargadatta Maharaj


Pergunta: Maharaj, você está sentado aí, diante de mim e eu estou aqui a seus pés. Qual a diferença básica entre nós?

Maharaj: Não há nenhuma diferença básica.


Pergunta: Mas, ainda assim parece ter alguma diferença real. Eu vim a você, você não veio até mim.

Maharaj: É porque você imagina essas diferenças que você veio aqui e vai ali em busca de uma pessoa superior.


Pergunta: Mas você é uma pessoa superior. Você alega conhecer a realidade enquanto eu não.

Maharaj: Eu por acaso lhe disse que você não sabe nada e, portanto, que você é inferior? Deixe aqueles que criaram essas distinções, prová-las. Eu não alego conhecer algo que você não conhece. Na verdade eu sei muito menos do que você.


Pergunta: Suas palavras são sábias, seu comportamento é nobre e sua graça é poderosa.

Maharaj: Eu não sei nada sobre tudo isso e não vejo diferença nenhuma entre você e eu. A minha vida é uma sucessão de eventos exatamente como a sua. A única diferença entre nós é que eu estou desapegado e vejo o show que passa somente como um show que passa, enquanto você se apega às coisas e se move com elas de um lado para o outro.


Pergunta: O que o torna uma pessoa tão imparcial?

Maharaj: Nada em especial. Aconteceu que eu acreditei no meu Guru. Ele me disse que eu não sou nada além de mim mesmo, e eu acreditei nele. Acreditando nele, eu passei a me comportar de acordo e parei de me preocupar com tudo o que não era eu ou que não era do meu ser.


Pergunta: Por que você foi tão bem aventurado em acreditar totalmente no seu professor enquanto nossa fé é nominal e verbal?

Maharaj: Quem pode dizer? Isso simplesmente aconteceu. Coisas acontecem sem causa e sem razão e, de qualquer forma, que diferença faz quem é quem? A sua elevada opinião sobre mim é apenas a sua opinião. A qualquer momento você pode mudá-la. Por que dar tanta importância a opiniões, mesmo que sejam as suas?


Pergunta: Ainda assim você é diferente. Sua mente parece estar sempre quieta e feliz e milagres acontecem a sua volta.

Maharaj: Eu não sei nada sobre milagres. E fico pensando se a natureza admite exceções às suas leis, a menos que concordemos que tudo seja um milagre. Para mim, isso não existe. Há uma consciência onde tudo acontece. Esses milagres são bastante óbvios e fazem parte da experiência de todos. Você apenas não olha com o cuidado suficiente. Olhe atentamente e veja o que eu vejo.


Pergunta: E o que você vê?

Maharaj: Eu vejo o que você também pode ver aqui e agora, mas pelo foco errado da sua atenção. Você não dá atenção a si próprio. Sua mente está cheia de coisas, pessoas e idéias, nunca com você mesmo. Coloque a si mesmo dentro do foco. Torne-se consciente da sua própria existência. Veja como você funciona, verifique os motivos e os resultados das suas ações.

Estude a prisão que você, inadvertidamente, construiu a sua volta. Ao descobrir o que você não é, você acabará se conhecendo. O caminho de volta a si mesmo vai através da recusa e da rejeição. Uma coisa é certa: o real não é imaginário, não é produto da mente. Até mesmo o sentido de "eu sou" não é continuo, apesar de ser um sinalizador útil; ele mostra onde procurar mas não o que procurar. Apenas dê uma boa olhada nisso.

Uma vez que você estiver convencido de que você não pode dizer verdadeiramente nada sobre si próprio, exceto "eu sou", e de que nada daquilo que você aponte possa ser você mesmo, a necessidade do "eu sou" termina. Você não mais tentará verbalizar o que você é. Tudo o que você precisa é livrar-se da tendência de definir a si mesmo. Todas as definições aplicam-se somente ao seu corpo e às suas expressões.

Uma vez que esta obsessão com o corpo termine, você reverterá ao seu estado natural, espontaneamente e sem esforço. A única diferença entre nós é que eu estou consciente do meu estado natural, enquanto você está a devanear. Assim como o ouro usado numa jóia não leva nenhuma vantagem em relação ao ouro em pó, exceto quando a mente as cria, assim também somos uno em essência - diferimos apenas na aparência. Descobrimos isto sendo sinceros, procurando, inquirindo, questionando diariamente, a toda hora, dedicando uma vida a essa descoberta.


Pergunta: O que é real?

Maharaj: Aquilo que não depende de nada para sua existência, que não surge quando surge o universo nem se põe quando o universo se põe, que não necessita de qualquer prova, mas dá realidade a tudo que toca. A natureza do falso é parecer real por um momento. Pode-se dizer que a verdade torna-se o pai do falso. Mas o falso está limitado no tempo e no espaço e é produzido pelas circunstâncias.


Pergunta: Como me liberto do falso e obtenho o real?

Maharaj: Com que propósito?


Pergunta: Para viver uma vida melhor, mais satisfatória, integrada e feliz.

Maharaj: O que quer que seja concebido pela mente deve ser falso, pois é obrigado a ser relativo e limitado. O real é inconcebível e não pode ser aparelhado para um propósito. Deve ser desejado por si mesmo.


Pergunta: Como posso querer o inconcebível?

Maharaj: O que mais é digno de desejo? Concordo, o real não pode ser desejado como uma coisa é desejada. Mas você pode ver o irreal como irreal e descartá-lo. É o descarte do falso que abre o caminho para o verdadeiro.


Pergunta: Entendo, mas como se parece na vida diária atual?

Maharaj: O interesse próprio e o egocentrismo são os pontos focais do falso. Sua vida diária vibra entre o desejo e o medo. Observe-a atentamente e verá como a mente assume inumeráveis nomes e formas, como um rio espumante entre as pedras. Siga o motivo egoísta em cada ação e olhe-o atentamente até que se dissolva.


Pergunta: Para viver se deve cuidar de si mesmo, deve-se ganhar dinheiro para si mesmo.

Maharaj: Não necessita ganhá-lo para si mesmo, mas pode ter que ganhá-lo para uma esposa ou um filho. Pode ser que deva seguir trabalhando para os outros. Mesmo só manter-se vivo pode ser um sacrifício. Não há nenhuma necessidade de ser egoísta. Descarte todo motivo egoísta logo que o veja e não necessitará buscar a verdade; a verdade o encontrará.


Pergunta: Há um mínimo de necessidades.

Maharaj: Não foram satisfeitas desde que você foi concebido? Abandone a escravidão do egoísmo e seja o que é – inteligência e amor em ação.


Pergunta: Mas se deve sobreviver!

Maharaj: Você não pode contribuir para a sobrevivência! Seu ser real é eterno e está além do nascimento e da morte. E o corpo sobreviverá enquanto for necessário. Não é importante uma vida longa. Uma vida plena é melhor que uma longa vida.


Pergunta: Quem vai dizer que é uma vida plena? Depende de meu fundo cultural.

Maharaj: Se você buscar a realidade, deverá se libertar de todos os antecedentes, de todas as culturas, de todos os padrões de pensamento e sentimento. Mesmo a idéia de ser um homem ou uma mulher, ou mesmo humano, deve ser descartada. O oceano da vida contém tudo, não apenas os humanos. Assim, em primeiro lugar abandone a auto-identificação, pare de pensar de si mesmo como assim e assado, como "esse" e "aquele", isto ou aquilo. Abandone todo interesse próprio, não se preocupe com seu bem-estar, material ou espiritual, abandone todo desejo grosseiro ou sutil, deixe de pensar em avanços de qualquer tipo. Você é completo aqui e agora, não necessita absolutamente de nada. Isto não quer dizer que deva ser tolo e imprudente, imprevidente ou indiferente; apenas a ansiedade básica por si mesmo deve cessar. Você necessita algum alimento, roupa e abrigo para você e para os seus, mas este desejo não cria problemas enquanto a ambição não passar por necessidade. Viva em sintonia com as coisas como elas são e não como são imaginadas.


Pergunta: O que sou eu se não um ser humano?

Maharaj: Aquilo que o faz pensar que você é humano não é humano. Não é senão um ponto de consciência sem dimensão, um nada consciente; tudo o que pode dizer sobre si mesmo é: "eu sou". Você é puro ser – Consciência – bem-aventurança. Compreenda que este é o fim de toda busca. Você chega a ele quando vir que tudo o que pensa sobre si mesmo é mera imaginação, e permanece distante, na pura consciência do transitório como transitório, do imaginário como imaginário, do irreal como irreal. Isto não é de forma alguma difícil, mas o desapego é necessário. É o apego ao falso que faz tão difícil a visão do verdadeiro. Uma vez que entenda que o falso precisa de tempo e que necessitar de tempo é falso, você estará mais próximo da Realidade, a qual é eterna, sempre no agora. A eternidade no tempo é mera repetição, como o movimento de um relógio. Flui do passado para o futuro interminavelmente, uma perpetuidade vazia. A Realidade é que faz o presente tão vivo, tão diferente do passado e do futuro, os quais são meramente mentais. Se você precisar de tempo para alcançar algo, deverá ser falso. O real está sempre com você; não precisa esperar para ser o que você é. Apenas não deve permitir que sua mente saia de você mesmo na busca. Quando quiser algo, pergunte a si mesmo: realmente necessito disto? E, se a resposta for não, então meramente abandone-o.


Pergunta: Não devo ser feliz? Posso não necessitar de algo, mas se puder me fazer feliz não deverei pegá-lo?

Maharaj: Nada pode lhe fazer feliz mais do que é. Toda busca de felicidade é miséria e leva a mais miséria. A única felicidade digna do nome é a felicidade natural de ser consciente.


Pergunta: Não necessito de grande experiência antes de poder alcançar tão elevado nível de consciência?

Maharaj: A experiência deixa apenas recordações atrás de si e aumenta a carga que é bastante pesada. Não precisa de mais experiências. Bastam as passadas. E se sentir que necessita de mais, olhe para dentro do coração das pessoas a seu redor. Encontrará tal variedade de experiências que você não poderia passar nem em mil anos. Aprenda com as aflições dos outros e salve-se a si próprio. Não é experiência o que você necessita, mas a liberdade de toda a experiência. Não seja ávido por mais experiência, não necessita de nenhuma.


Pergunta: Você não passa por experiências?

Maharaj: As coisas acontecem a meu redor, mas eu não tomo parte nelas. Um evento torna-se uma experiência apenas quando estou emocionalmente envolvido. Estou em um estado que é completo, que não busca melhorar-se. Para mim, qual a utilidade da experiência?


Pergunta: Necessita-se de conhecimento, educação.

Maharaj: Para tratar com as coisas é necessário o conhecimento das coisas. Para tratar com as pessoas, é necessário percepção, simpatia. Para tratar consigo mesmo, não precisa de nada. Seja o que você é – ser consciente, e não se perca.


Pergunta: A educação universitária é muito útil.

Maharaj: Sem dúvida, ajuda-o a ganhar a vida. Mas não o ensina a viver. Você é um estudante de psicologia. Isto pode ajudá-lo em certas situações. Mas você pode viver pela psicologia? A vida é digna deste nome quando reflete a Realidade em ação. Nenhuma universidade o ensinará a viver de modo que, quando chegar a hora da morte, você possa dizer: vivi bem, não preciso viver de novo. A maioria de nós morre desejando viver novamente. Tantos erros cometidos, tanta coisa deixada sem fazer. A maioria das pessoas vegeta, mas não vive. Meramente acumulam experiência e enriquecem suas memórias. Mas a experiência é a negação da Realidade, a qual não é nem sensória nem conceitual, nem do corpo, nem da mente, embora inclua e transcenda a ambos.


Pergunta: Mas a experiência é muito útil. Pela experiência se aprende a não tocar uma chama.

Maharaj: Já disse que o conhecimento é mais útil para tratar com as coisas. Mas não o ensina a como tratar com as pessoas e consigo mesmo, a como viver uma vida. Não estamos falando de dirigir um automóvel, ou ganhar dinheiro. Para isto você necessita de experiência. Mas, para ser uma luz dentro de si mesmo, o conhecimento material não o ajudará. Você necessita algo muito mais íntimo e mais profundo do que o conhecimento mediato, para ser seu ser no verdadeiro sentido da palavra. Sua vida externa não é importante. Você pode tornar-se um vigilante noturno e viver com muita alegria. É o que você é internamente que interessa. Sua paz e alegria interiores devem ser merecidas. É muito mais difícil que ganhar dinheiro. Nenhuma universidade pode ensinar-lhe a ser você mesmo. O único modo de aprender é pela prática. Comece agora mesmo a ser você mesmo. Descarte tudo o que você não é e vá sempre mais profundamente. Como um homem que cava um poço e rejeita o que não é água até chegar ao veio d'água, igualmente você deve descartar o que não é seu até que não fique nada que possa ser rejeitado. Você perceberá que o que fica não é nada ao qual a mente possa agarrar-se. Você nem mesmo é um ser humano. Simplesmente é – um ponto de Consciência, co-extensivo com o tempo e espaço e além de ambos, a causa última, ela mesma incausada. Se me perguntar: "Quem sou eu?" Minha resposta seria: "Nada em particular. Não obstante, eu sou".


Pergunta: Se você não for nada em particular, então você deverá ser o universal.

Maharaj: O que é ser universal – não como um conceito, mas como um modo de vida? Não separar, não opor, mas compreender e amar tudo quanto entra em contato com você é viver universalmente. Ser capaz de dizer verdadeiramente: eu sou o mundo, o mundo sou eu, estou em casa no mundo, o mundo me pertence. Toda existência é minha existência, toda consciência é minha consciência, toda aflição é minha aflição e toda alegria é minha alegria – esta é a vida universal. Mesmo assim, meu ser real – e o seu também – está além do universo e, portanto, além das categorias do particular e do universal. É o que é, totalmente autônomo e independente.


Pergunta: Acho difícil entender.

Maharaj: Você deve dar tempo a si mesmo para pensar sobre estas coisas. Os velhos sulcos em seu cérebro devem ser apagados sem que se formem novos. Você deve se entender como o imóvel, por trás e além do que muda - a silenciosa testemunha de tudo o que acontece.


Pergunta: Quer dizer que devo abandonar toda idéia de uma vida ativa?

Maharaj: Não, de forma alguma. Haverá casamento, filhos, ganhar dinheiro para manter a família; tudo isto acontecerá no curso natural dos eventos porque o destino deve cumprir-se; você passará por isto sem resistência, confrontando as tarefas como vierem, atento e solícito nas pequenas e nas grandes coisas. Mas a atitude geral será de carinhoso desapego, de enorme boa vontade, sem esperar retorno, dando constantemente sem nada pedir. No casamento, você não é nem o marido nem a esposa; você é o amor entre os dois. Você é a clareza e a bondade que tornam tudo ordenado e feliz. Pode parecer vago para você, mas, se pensar um pouco, descobrirá que a dimensão mística é a mais prática, pois faz com que sua vida seja criativamente feliz. Sua consciência é elevada a uma dimensão superior, da qual se vê tudo muito mais claramente e com maior intensidade. Compreenda que a pessoa que você se tornou no nascimento, e que cessará de ser na morte, é temporária e falsa. Você não é criatura sensual, emotiva e intelectual, oprimida por desejos e temores. Descubra seu ser real. O "que sou eu?" é a questão fundamental de toda filosofia e psicologia. Vá profundamente para dentro dela."

*Excertos do livro:


sábado, março 21, 2009

Aprenda a ouvir o Silêncio


ESPERE PELA CLAREZA


Buda está passando por uma floresta. É um dia quente de verão e ele está com sede; então ele pede a Ananda, seu guardião: "Ananda, volte. A uns três ou quatro quilômetros daqui, passamos por um pequeno riacho. Leve minha cumbuca e traga um pouco de água para mim. Estou com muita sede e muito cansado".

Ananda volta, mas, quando chega ao riacho, alguns carros de boi estão acabando de passar por ele e deixam todo o pequeno riacho cheio de lama; folhas mortas que repousavam no fundo do riacho estão boiando por toda parte. Não é mais possível beber a água, ela está muito suja. Ele volta com as mãos vazias e diz: "Você terá de esperar um pouco. Eu seguirei em frente, pois ouvi dizer que a apenas dois ou três quilômetros há um grande rio. Trarei água de lá".

Mas Buda insiste: "Volte e traga a água daquele riacho".

Ananda não consegue entender a insistência, mas se o mestre assim diz, o discípulo precisa seguir. Ele vai, mesmo percebendo o absurdo daquilo: de novo ter de caminhar três a quatro quilômetros e sabendo que a água não é boa para beber.

Quando ele está partindo, Buda diz: "E não volte se a água ainda estiver suja. Se ela estiver suja, simplesmente sente-se à margem em silêncio. Não faça nada, não entre no riacho. Sente-se tranquilamente na margem e observe. Mais cedo ou mais tarde a água ficará limpa de novo, e então encha a cumbuca e volte".

Ananda vai, e Buda está certo: a água está quase limpa, as folhas foram embora e a lama se assentou. Mas ela ainda não está absolutamente limpa, então ele se senta à margem observando o riacho fluir, e lentamente a água fica cristalina. Então ele volta dançando, entendendo agora por que Buda foi tão insistente. Havia uma certa mensagem para ele naquilo, e ele entendeu a mensagem. Ele dá a água a Buda, agradece-lhe e toca os seus pés.

Buda diz: "O que você está fazendo? Eu é que deveria lhe agradecer por ter trazido a água para mim".

Ananda diz: "Agora posso entender. Primeiro eu fiquei com raiva, embora não tivesse demonstrado, mas fiquei com raiva porque era um absurdo ter que voltar. Mas agora entendo a mensagem. Aquilo que era o eu, na verdade, precisava naquele momento. O mesmo acontece com a minha mente; ao ficar sentado na margem daquele pequeno riacho, fiquei consciente de que o mesmo acontece com a minha mente. Se eu pular no riacho, novamente o deixarei sujo. Se eu mergulhar na mente, mais barulho será criado, mais problemas começarão a surgir, a aflorar. Ao ficar sentado ao lado do riacho, aprendi a técnica.

"Agora também ficarei sentado ao lado da minha mente, observando-a com todas as suas sujeiras, problemas, folhas mortas, mágoas, feridas, memórias, desejos... Sem me envolver, eu me assentarei à margem e esperarei pelo momento em que tudo estiver cristalino."
(Osho)


O SILÊNCIO REVELADOR
DA VERDADE

Os mestres de todos os tempos enfatizaram a importância da Prática do Silêncio para o conhecimento da Verdade. Muitos acham que “silêncio” é ficar sem ruídos por perto; porém, o sentido é outro: trata-se de silenciar a mente humana, para que a Consciência Iluminada, a nossa Consciência verdadeira, possa ser percebida. E, quando a percebemos, descobrimos ser ela a Verdade que somos, eternamente dentro de nós mesmos.

A dificuldade apontada por muitos está justamente em “como paralisar a mente humana”. Você não deve ficar preocupado com isto! Durante os minutos no Silêncio, os pensamentos vêm e vão; não é preciso que lute para paralisá-los. Basta não se identificar com eles; e, para tanto, tome algum princípio espiritual ou tema, e retenha-o na mente para ponderar sobre seu sentido mais profundo; em seguida, naturalmente, identifique-se com a Mente de Cristo, discernindo a presença da Consciência iluminada consciente de ser VOCÊ. Este é o “Silêncio Contemplativo” propriamente dito.

Escreve Allen White: “A dificuldade sentida para aquietar a mente se deve ao fato de darmos início às meditações como se fôssemos um “ser humano”, esperançoso de aquietar uma “mente humana”, o que faz prevalecer, do início ao fim da prática, uma verdadeira batalha.”

Allen sugere que comecemos reconhecendo: “eu de mim mesmo não posso meditar ou contemplar, e não posso me aquietar.” Em seguida, que nos posicionemos em condição de “escuta interior”. Os pensamentos estranhos serão desprezados, pelo lembrar constante dessas sugestões, até que uma quietude interna até então nunca sentida seja espontaneamente percebida. Será o próprio Deus em Autocontemplação. Esta é a verdadeira “Prática do Silêncio”.
-Dárcio Dezolt-


quinta-feira, março 19, 2009

Aqui mesmo, agora mesmo (Osho)

Querido Osho,

Enquanto ouvia sua palestra ontem, eu senti como se não estivesse nesta Terra; eu era uma pequena partícula de luz no céu infinito e aberto. Depois da palestra, também uma experiência de claridade e vazio continuou e eu quis me manter perambulando neste céu. Eu não sei o que são conhecimento, karma e devoção, mas na solidão eu quero permanecer imerso neste estado. Todavia algumas vezes surge o sentimento de que isso pode ser loucura, de que isso pode ser um truque do meu ego. Por favor, clareie o meu caminho.





"Nós estamos nesta Terra, mas na verdade nós não podemos estar nela, e nós não estamos. Eu sinto isto: nós somos estranhos nesta Terra. Nós fizemos um lar em nosso corpo, mas o nosso corpo não é o nosso lar.

É como se alguém se estabelecesse no estrangeiro e esquecesse sua terra natal. De repente, no mercado, ele se encontra com alguém que fala a sua língua materna e o faz lembrar de casa. Por um momento o país estrangeiro desaparece e sua terra natal se faz presente.

Este é o significado das escrituras.

Este é o verdadeiro propósito das palavras dos mestres.

Após ouvi-los, por um momento, nós não estamos mais aqui. Nós vamos para o lugar onde pertencemos. Nós fluímos em sua música. As situações que nos haviam envolvido completamente desaparecem e aquilo que estava muito longe se aproxima.

As palavras de Ashtavakra são absolutamente únicas. Ouvindo-as, isso acontecerá muitas vezes, você sentirá que não é desta Terra, mas que se tornou parte do céu, porque essas palavras são do céu. Essas palavras vêm da terra natal, vêm daquela fonte da qual todos nós viemos e à qual todos nós retornaremos. Sem voltar para ela, nós nunca encontraremos paz.

O lugar onde nós estamos é como uma pousada e não um lar. Não importa o quanto nós possamos insistir que ele é um lar, ainda assim uma pousada permanece uma pousada. Para esquecer o lar, tentamos argumentar que ele está longe, mas isso não faz diferença. O espinho continuará nos espetando, a memória continuará retornando. E se em algum momento, nos acontece encontrar uma certa verdade que nos atrai como um magneto e nos mostra um outro mundo, então nós percebemos que não somos parte desta Terra.

Isso é bom: ‘Enquanto ouvia sua palestra ontem, eu senti como se não estivesse nesta Terra.’ Não há quem seja desta Terra. Nós aparentamos ser dela, nós sentimos como se fôssemos dela; na verdade, nós existimos no céu. A nossa natureza é do céu.

O ser significa o céu interior.

O corpo significa a Terra, o corpo é feito com a Terra. Você é feito com o céu.
Esses dois se encontram dentro de você.

Você é o horizonte onde a Terra parece encontrar o céu. Mas alguma vez eles se encontram? Ao longe, no horizonte, parece que o céu está tocando a Terra. Você começa a caminhar naquela direção achando que vai alcançar aquele ponto em um ou dois minutos. Pode continuar caminhando por várias vidas e você nunca alcançará o ponto onde o céu toca a Terra. Ele é apenas uma miragem. Sempre vai parecer que um pouco mais adiante você vai conseguir chegar, só um pouquinho mais adiante.

O horizonte não existe, é só aparência. No nosso interior ocorre o mesmo que no horizonte externo. Internamente nenhum contato jamais aconteceu também. Como o ser toca o corpo? Como o imortal encontra o mortal? O leite se mistura com água, ambos são da Terra. Mas como o ser irá se fundir com o corpo? Suas qualidades básicas são diferentes. Por mais próximo que eles cheguem, eles não conseguem se tocar. Eles podem permanecer próximos para sempre, ainda assim eles não conseguirão se tocar, eles não conseguirão se encontrar. É apenas a nossa suposição, a nossa idéia. O horizonte existe apenas como uma idéia nossa.

Se você permitir que as afirmações de Ashtavakra penetrem seu coração como flechas, elas irão acordá-lo e relembrá-lo. Elas irão despertar aquela memória esquecida há muito tempo. Por um momento o céu se abrirá, as nuvens irão separar-se e a sua vida será preenchida com a luz do sol.

Isto pode ser difícil, pois esta experiência é contra todo o nosso modo de viver. Isto causará desconforto. E não foi você quem dispersou as nuvens no seu interior. Elas foram dispersas pelas palavras de um mestre. Depois elas se reunirão novamente. Antes que você volte para casa, de novo as nuvens o estarão rodeando. Você não abandona seus hábitos assim tão rapidamente. De novo as nuvens irão se reunir e você se sentirá ainda mais incomodado. Você duvidará. Não terá sido um sonho, aquilo que você viu? Não foi um certo tipo de projeção? Será que não foi um truque do ego, da mente? Não teria talvez você entrado numa certa loucura?

Naturalmente, o peso de seus hábitos é grande; eles são muito antigos. A escuridão é antiga, embora ela não tenha existência real. Sempre que os raios da luz do sol explodem internamente, eles são novos, absolutamente frescos. Mas você vê os raios só por um instante e novamente já está perdido na escuridão. A sua escuridão tem uma história muito longa. Quando você coloca os dois na balança, dúvidas surgem sobre a luz do sol, mas não a respeito da escuridão. A escuridão é que deveria ser colocada em dúvida. Ao invés disto, duvida-se da luz do sol, porque os seus raios são novos e a escuridão é muito velha. A escuridão é como uma tradição avançando ao longo dos séculos. Os raios de luz acabaram de chegar, frescos e novos. Tão novos... Como é possível confiar neles?

‘Eu senti como se não estivesse nesta Terra.’ Ninguém é desta Terra. Não podemos ser desta Terra. Pensar de outra maneira é apenas crença e projeção nossa. Parece que é, mas não é a verdade.

'Eu era uma pequena partícula de luz no céu infinito e aberto.’ Isto é apenas o começo. '... uma pequena partícula de luz no céu infinito.’ Logo você sentirá, ‘Eu sou o céu infinito’. Isto é apenas o começo.

Neste exato momento nós não estamos prontos para estar completamente absorvidos no céu infinito. E se nós sentirmos que o vôo está chegando, a tempestade chegando e que os ventos estão nos levando embora, ainda assim nós estaremos nos sentindo separados e nos preservando. ’ ...uma partícula de luz...’ Você não é mais a escuridão, você tornou-se uma partícula de luz. Mas ainda existe ali uma distinção em relação ao céu; a divisão permanece, uma separação permanece. O máximo vai acontecer no dia em que você se tornar o céu. Por ora, a partícula de luz ainda está separada. No dia em que você se tornar integrado, você sentirá: ‘Eu sou o vasto céu vazio.’

É assim que expressamos isto em palavras: ‘eu sou um céu vazio.’ Mas como isto é possível enquanto o ‘Eu’ está ali? Se o ‘Eu’ está, então o céu permanece separado. Quando a percepção de céu vazio chega, então ‘Eu’ já terá ido e somente o céu vazio permanece.

As pessoas dizem, ‘Aham brahmasmi – Eu sou Deus, eu sou Brahma.’ Mas quando Brahma é, como pode ‘Eu’ permanecer? Somente Brahma permanece, não eu. Mas não existe outra maneira de expressá-lo.

A linguagem é para pessoas que estão dormindo. A linguagem pertence àqueles que se estabeleceram num país estrangeiro, mas o consideram como sua terra natal.

O silêncio é para aqueles que sabem.

A linguagem é para o ignorante.

Assim, tão-logo você diz alguma coisa, só por dizê-lo, a verdade se torna não-verdade. ‘Aham Brahmasmi’ – eu sou Brahma, eu sou o céu. Diga e isto se torna uma mentira. Apenas o céu é. Mas dizer, ‘apenas o céu é’ não é a verdade total, porque o ‘apenas’ indica que deve haver alguma coisa mais, caso contrário, por que a ênfase no apenas? ‘Céu é’? Mesmo isto é difícil dizer porque ‘é’ pode tornar-se ‘não é’.

Nós dizemos ‘a casa é.’ Um dia ela deixará de ser. Ela pode desabar, tornar-se uma ruína. Nós dizemos, ‘o homem é’ pois algum dia o homem morrerá. O céu não é como isto, que algumas vezes é e algumas vezes não é. O céu sempre é. Assim, dizer ‘o céu é’’ é uma repetição. A própria natureza do céu é ser. Então, por que repetir ‘é’?É correto dizer ‘é’ para aquelas coisas que um dia deixam de existir. Um homem é. Um dia ele não era, hoje ele é e amanhã novamente não será. O nosso ‘é’ existe entre dois ‘não’.

O ‘é’ do céu, era ontem, é hoje e será amanhã. Qual o sentido de ‘é’ entre dois ‘é’? O ‘é’ tem sentido entre dois ‘não é’. Assim, dizer, ‘o céu é’ também é uma repetição. Vamos dizer ‘céu’. Mas quando eu digo céu significa que existe alguma coisa que é diferente dele, separado dele, caso contrário, qual a necessidade de uma palavra? Se só existe um não há necessidade de dizer um. O um tem sentido quando existe o dois, o três, o quatro, quando existem números. Por que dizer céu?

Por isso a sabedoria é silenciosa. É impossível trazer a sabedoria definitiva ao mundo das palavras.

Mas nós somos afortunados por indivíduos raros como Ashtavakra terem feito esforços incansáveis e impossíveis. O tanto quanto foi possível, eles fizeram para traduzir em palavras a fragrância da verdade. E observe que poucos foram tão bem sucedidos quanto Ashtavakra em suas tentativas. Muitos tentaram traduzir em palavras a verdade e todos foram derrotados. A derrota é certa. Mas se você olhar entre os derrotados, Ashtavakra foi o último a sê-lo. Ele é o que mais sucesso obteve. Se você ouvir corretamente, você se relembrará de seu lar.

É auspicioso você ter sentido que era uma partícula de luz. Prepare-se para se perder. Um dia você perceberá que a partícula de luz também se perdeu e somente o céu permanecerá. Então, a embriaguez dominá-lo-á completamente. Então, você se afogará no vinho da verdade. Então, você dançará e experienciará o sabor total do néctar.

Depois da palestra também uma experiência de claridade e vazio continuou e eu quis me manter perambulando nesse céu.’ Aqui nós cometemos um pequeno engano. Quando nós temos qualquer experiência prazerosa, nós queremos repeti-la várias vezes. Como é fraca a mente humana! Ela é cheia de desejos. Cheia de ganância; tentações continuam surgindo. Ela quer repetir tudo o que é prazeroso. Mas lembre-se de uma coisa: a repetição já está errada. Assim que você deseja, ‘deixe acontecer novamente’, aquilo nunca acontece, porque a primeira vez que ocorreu, não foi por causa do seu desejo. Aquilo aconteceu por si mesmo, não foi um ato seu.

É aqui que Ashtavakra coloca toda a sua ênfase: a verdade acontece. Ela não é um ato, ela é um acontecimento. Isso aconteceu com você enquanto ouvia. O que você estava fazendo? Ouvindo significa que você nada estava fazendo. Você estava sentado completamente vazio. Você estava silencioso, você estava alerta, você estava desperto, você não estava dormindo. Bom! Mas o que você estava fazendo? Você era simplesmente um receptor. Sua mente era como um espelho, o que vinha diante dela era refletido, o que era dito, era ouvido. Você não estava acrescentando coisa alguma. Se você tivesse acrescentado alguma coisa, aquilo nunca teria acontecido. Você não estava fazendo comentários, você não estava dizendo em sua mente: ‘Sim, isto é certo e aquilo é errado. Eu concordo com isto ou eu discordo. Isto está de acordo com as escrituras.’ Ou ‘Isto não é’. Você não estava fazendo afirmações lógicas a respeito daquilo. Se você tivesse se perdido na lógica, este acontecimento nunca teria acontecido.

Eu sei quem fez a pergunta: é o Swami Om Prakash Saraswati. Sua mente já está muito longe da lógica, muito longe das dúvidas e argumentações. Aqueles dias já se foram. Um dia ele formulou argumentos lógicos, levantou dúvidas. Mas agora ele está amadurecido com as experiências da vida. Agora aquela infantilidade não está mais em sua mente. Foi por isto que a experiência pôde acontecer. Ele estava simplesmente ouvindo, sentado, nada fazendo. Ele simplesmente sentou-se e aconteceu.

Aconteceu a primeira vez sem que você tenha feito alguma coisa. Se você quiser que aconteça uma segunda vez, isto irá criar uma perturbação. O desejo não foi causa para que aquilo acontecesse. Assim, quando um raro acontecimento surge, não deseje. Quando ele acontece, aceite-o alegremente. Quando ele não acontece, não reclame, não peça para que ele aconteça. Se pedir, você perderá. Pedir é uma exigência, uma insistência: ‘Aquilo devia acontecer. Aconteceu uma vez, por que não acontece agora?’

Isto ocorre todos os dias. Quando as pessoas vêm aqui para meditar, no começo elas estão frescas e novas. Elas não têm qualquer experiência, por isto acontece. Isto é muito surpreendente. Você precisa compreender isto. Isto irá ajudá-lo a entender melhor o Ashtavakra. Esta é a minha experiência diária. Quando as pessoas vêm novas e frescas e sem qualquer experiência com meditação, ela acontece. Ela acontece e eles ficam preenchidos com alegria. Mas a própria experiência cria dificuldades, pois surge a expectativa. O que aconteceu hoje, deverá acontecer amanhã; e não apenas acontecer, mas ainda com mais força. Mas ela não acontece e eles se aproximam de mim chorando. E dizem, ‘O que aconteceu? Por acaso cometemos algum engano? Ela aconteceu uma vez, mas não agora.’

‘Este é o seu engano’, eu lhes digo. ‘Quando a meditação aconteceu na primeira vez, você não estava esperando coisa alguma; agora você está. Agora a mente não é mais inocente. Ela foi contaminada pela sua expectativa. Agora você não é genuíno, você não está aberto. O questionamento fechou as portas. A expectativa surgiu e ela deteriora tudo. Agora o desejo foi desperto e a ganância entrou.’

Isto acontece todos os dias. Pessoas que meditaram por longo tempo continuam tentando muitos métodos, mas somente conseguem se entregar à meditação com grande dificuldade. A experiência delas torna-se uma barreira.

Algumas vezes alguém simplesmente vem, fluindo com a vibração... sem nem mesmo pensar em meditação. Um amigo estava vindo e então ele pensou, ‘vamos ver o que é isto’. Ele veio só por curiosidade, sem desejos, sem buscas espirituais, sem esforços em direção à meditação; simplesmente veio. Alguma coisa disparou internamente quando ele viu outras pessoas meditando e juntou-se a elas. E então a meditação aconteceu! Ele ficou surpreso: ‘eu não vim para meditar, mas a meditação aconteceu.’ Agora os problemas começam. Agora, quando ele vem novamente, existe expectativa. A mente está interessada; aquilo deve acontecer de novo. Existe uma ganância, um desejo pela repetição. A mente entrou e todo o processo ficou perturbado.

Aconteceu apenas quando não havia mente.

Lembre-se: a mente é o desejo pela repetição.



Deixe que o prazeroso aconteça de novo, não deixe que o desagradável repita; isto é a mente. A mente escolhe: deixe que isto aconteça e que aquilo não aconteça. Deixe que aconteça mais vezes deste jeito e nunca daquele jeito; isto é a mente.

Quando você começa a fluir com a vida, o que acontece está ok, o que não acontece, também está ok. O sofrimento chega e é aceito. O sofrimento chega e não há resistência alguma. A felicidade chega e ela é aceita. A felicidade chega e não há qualquer excitação. Quando há tranqüilidade em ambas as situações, felicidade e sofrimento, uma serenidade começa a surgir. Então, felicidade e sofrimento começam a parecer muito semelhantes, porque nenhuma escolha é feita. Agora está fora de nossas mãos. O que acontecer, aconteceu.

Nós continuamos observando. É a isto que Ashvakra chama de sakshi-bhav, o testemunhar. E ele diz que se o testemunhar é alcançado, tudo é alcançado. Internamente, sakshi-bhav desperta a testemunha, externamente ela traz serenidade. Serenidade é a sombra do testemunhar.

Ou, se você alcançar serenidade, o testemunhar chega. Os dois seguem juntos. Eles são os dois pés ou as duas asas de um mesmo fenômeno.

‘Eu quis me manter perambulando neste céu.’ Fique alerta. Não dê à mente a chance de destruir os momentos de meditação. Essa mesma mente já destruiu sua vida. Ela deteriorou todos os seus relacionamentos. Essa mente fez toda a sua vida ficar seca como um deserto. Onde muitas flores poderiam ter desabrochado, existem apenas espinhos. Não traga essa mente com você em sua jornada interior. Diga-lhe adeus e peça-lhe licença. Amorosamente despeça-se dela. Diga-lhe, ‘já é o bastante. Eu não quero pedir mais nada. Qualquer coisa que aconteça, eu estarei acordado e observando.’

Assim que você pede algo, já não consegue mais ser uma testemunha. Você se torna identificado com aquele que se alegra e sofre. Então a meditação desaparece. Estar identificado significa que você está dizendo: ‘Eu sou aquele que gostou disso, isso me fez feliz’.

'Eu não sei o que são conhecimento, karma e devoção, mas na solidão eu quero permanecer imerso neste estado.’ Jogue fora esse querer e você irá entrar nesse mesmo estado. E não apenas na solidão, mas no meio da multidão você irá entrar nele. Mesmo se você estiver no mercado, você vai permanecer imerso. Este estado nada tem a ver com solidão ou multidão, com mercado ou com templo, com massas ou isolamento. Este estado está relacionado com a sua mente tornando-se quieta, estando em equilíbrio. Esse acontecimento terá lugar onde quer que haja paz, serenidade. Mas não peça para que ele ocorra, do contrário, o próprio pedido se tornará intranqüilidade, criará tensão.

Ashtavakra diz, ‘aqui mesmo, agora mesmo.’ O pedido é sempre pelo amanhã. Ele não pode ser aqui e agora. A natureza do pedido é que ele não está no presente. Ele dá um salto. Pedir significa: ‘deixe que aconteça amanhã ou daqui a uma hora.’ O pedido não consegue ser agora mesmo. Um tempo é requerido. Pode ser um tempo muito curto, mas ainda assim, um tempo é requerido. E o futuro não existe. O futuro significa aquilo que não é. Presente significa aquilo que é. O presente e o pedido não se relacionam.

Quando você está no presente, você descobre que não há o que pedir, não há o querer. E então o acontecimento tem lugar. Quando não há qualquer desejo por ele, ele acontece com abundância.

Compreenda bem esse nó duplo. Familiarize-se com todos os seus aspectos. No dia em que você não pedir coisa alguma, tudo acontecerá. No dia em que você não estiver correndo feito um louco atrás do divino, ele chegará até você. No dia em que você não mostrar ânsia alguma por meditação, quando não houver qualquer tensão dentro de você, naquele dia você estará preenchido, transbordando com meditação.

A meditação não vem de fora. O que fica dentro quando você não está tenso é o que se chama meditação. Aquilo que permanece quando não existe desejo dentro de você, é o que se chama meditação.

É como um lago: ventos tempestuosos vêm de repente e as ondas surgem. A superfície do lago fica coberta com tempestade e ventos, tudo fica turvo. A lua está no céu, mas nenhum reflexo é feito porque a superfície está toda ondulada. Como ela pode ser um espelho? O reflexo da lua está quebrado em milhares de pedaços, como prata espalhada por todo o lago, mas nenhuma imagem é revelada.

O lago se torna quieto. Para onde foram as ondas? De onde elas tinham vindo? Elas vieram do próprio lago. Agora elas voltaram a dormir, retornaram ao lago. O lago recuperou a sua quietude. A lua que estava espalhada como prata por toda a superfície do lago, está agora reunida em um só lugar. A imagem se torna clara.

Assim que as ondas no lago de sua mente desaparecem, ondas de desejo, ondas de exigências, ondas de ‘isto deve ser assim e aquilo não deve ser assim’, quando não mais existem ondas no lago da mente, então a verdade é refletida como ela é. E como a beleza da sua lua interior pode ser descrita? Como o seu êxtase pode ser descrito? Um rio de êxtase banha você. O amado interior é encontrado. Então existe uma lua-de-mel, somente então.

Mas se você desejar isto, você o perde.

E eu sei que este desejo é completamente natural. Mas esta é uma grande barreira. É tanta alegria que vem em tais momentos, como evitar desejá-la? É humano. Eu não digo que você cometeu um grande erro, indigno de um ser humano. É um erro absolutamente humano. Quando por um momento a janela se abre e o vasto céu flui em você, quando por um momento a escuridão desaparece e raios de luz descem, é impossível, quase impossível, não desejar que aconteça mais vezes. Mas o impossível tem que ser aprendido. Aprenda hoje, aprenda amanhã ou aprenda depois de amanhã, mas isto terá que ser aprendido. Quanto mais cedo aprender, melhor. Esteja pronto agora mesmo e isto acontecerá imediatamente. Não haverá necessidade de esperar nem por um instante.

‘...eu quero permanecer imerso neste estado.’ Este estado virá. Ele nada tem a ver com a sua mente. Assim, deixe sua mente de lado. Sempre que ela entrar de mansinho, você terá que dizer-lhe, ‘desculpe-me mas você já se intrometeu o bastante! Você já desarrumou o mundo, não queira desarrumar o divino também. Você deteriorou toda a felicidade da vida. Agora a felicidade está vindo de profundezas mais internas; pelo menos não deteriore isto.’

Permaneça alerta e diga adeus à mente.

Pouco a pouco, cada vez mais, tais momentos irão chegar.

Eles chegam através de sua experiência. Sempre que a mente não está, imediatamente a janela se abre de novo. Então correntes de alegrias celestiais fluem, de novo a luz desce. E você estará outra vez radiante e intoxicado, afogado no néctar.

Quando acontecer repetidas vezes, ficará claro. Você se tornará hábil em manter a mente longe. Quando o momento acontecer, deixe que aconteça. Quando não acontecer, espere quietamente por ele. Ele virá. O que já veio, virá mais vezes; simplesmente não o deseje. Não entre no meio com sua mente. Não crie obstáculo.

‘Todavia algumas vezes surge o sentimento de que isso pode ser loucura...’ Tais sentimentos surgem no intelecto, porque ele não consegue acreditar que a felicidade é possível. O intelecto sente-se absolutamente à vontade com a infelicidade. Ele aceita totalmente a infelicidade porque foi ele quem a criou. Quem não vai aceitar seu próprio filho? Assim o intelecto diz, ‘se existe infelicidade, está absolutamente certo. Mas a felicidade definitiva? Certamente deve ter ocorrido algum engano. Ela tem acontecido sempre? Deve ser imaginação. Você viu um sonho, perdeu-se em algum devaneio. Você está hipnotizado. Certamente você ficou louco.’ O intelecto muitas vezes diz tais coisas. Não escute. Não preste atenção a isto. Se você prestar atenção, a experiência irá parar. Aquelas portas e janelas não irão se abrir de novo.

Lembre-se de uma coisa: felicidade é a definição de verdade. Sempre que você encontrar alegria, saiba que ela é verdade.

É por isto que temos chamado o divino de sat-chit-anand, verdade, consciência, felicidade. Anand é a definição final para isto. A felicidade está mesmo acima da verdade e da consciência. Verdade, consciência e felicidade. A verdade e a consciência são degraus mais baixos e a felicidade é o último degrau. Sempre que a felicidade flui, sempre que você encontra o êxtase, não se preocupe, você está próximo da verdade.

É como alguém se aproximando de um jardim. A brisa se torna mais fresca; o canto dos pássaros começa a ser ouvido, um frescor começa a ser percebido. O jardim ainda não está visível, mas estes sinais lhe dizem que este é o caminho certo, que está se aproximando do jardim. Da mesma maneira, quando você começa a aproximar-se da verdade, fontes de felicidade informam. A mente começa a ficar mais fresca, você fica mais equilibrado, a paciência fica maior, a felicidade aumenta. Uma grande alegria domina você, sem motivo algum. Nenhuma razão pode ser encontrada. Você não ganhou na loteria, não fez um negócio muito lucrativo, nem conseguiu um emprego de muito prestígio. Ou pode acontecer que você perdeu o emprego que tinha, que perdeu o que estava em suas mãos, o seu negócio foi à falência; mas existe uma grande alegria sem motivo que continua dançando internamente e nunca pára. O intelecto dirá, ‘você ficou louco? Estes são os sinais de loucura!’

Este é um mundo muito estranho. Somente os loucos parecem felizes. É por isto que o intelecto diz que você deve ter ficado louco. Existem milhares de motivos para estar feliz, todavia o homem está infeliz. Ele pode ter um grande palácio, riquezas, todo tipo de conforto, ainda assim ele não estará feliz. Este é um mundo de pessoas miseráveis, a maioria é miserável. Se você começar a rir sem motivos, as pessoas vão dizer que você está louco. E se você disser, ‘este riso surgiu sem qualquer razão, ondas de risos surgiram dentro de mim e simplesmente espalharam-se,’ as pessoas dirão, ‘É o bastante! A sua mente está perturbada.’

Mas se você ficar com a cara triste, parecendo tão abatido que mesmo um fantasma ao vê-lo ficará amedrontado, então você está bem, está ok, sem problemas, e tudo acontecerá normalmente para você. Então você é um homem como outro qualquer. Você é humano da maneira como os seres humanos devem ser. Mas quando você começa a sorrir, começa a gargalhar, a cantarolar canções, a dançar nas calçadas, então certamente você enlouqueceu.

É desta maneira que nós temos negado Deus. Se ele viesse aqui, nós o colocaríamos num manicômio. Talvez seja por esta razão que ele não vem. Ele deve ter medo de vir.

A felicidade tem sido boicotada. Nós banimos a alegria de nossas vidas.

Nós nos sentamos abraçados com a infelicidade. Aqui, um homem pessimista parece inteligente, um homem alegre parece insano. Todo o nosso critério está de cabeça para baixo. É natural: se de repente o que você considerou inteligente ao longo de sua vida começar a desaparecer, começar a desmontar; se as bases de sua chamada inteligência começar a chacoalhar e você começar a ver alegria em todo lugar, e lembre-se, ‘sem motivo’ ... Isto é o que as pessoas chamam de insanidade: feliz sem motivo, absolutamente sem motivo. Você está sentado sozinho e começa a rir. É o suficiente. Você ficou louco, porque somente pessoas loucas fazem isto.

Compreenda: o insano e o paramahansa, o iluminado, são um pouco semelhantes. Os insanos riem e são felizes; eles perderam sua inteligência. Os paramahansas também riem e são felizes; eles foram além do intelecto. Ambos riem, o insano porque está abaixo do intelecto e o paramahansa porque foi além. Existe esta pequena semelhança entre os dois. O insano e o paramahansa têm uma coisa em comum: ambos perderam o intelecto. Um abandonou-o conscientemente e o outro, inconscientemente. Por isto a diferença é vasta, tão diferente quanto o céu e a Terra, mas ainda assim existe esta semelhança. Assim, algumas vezes você vê um paramahansa como se fosse um louco e outras vezes vê um louco como se fosse um paramahansa. Enganos continuam acontecendo.

No ocidente há muitas pessoas trancadas em manicômios que não são insanas. Se elas tivessem nascido no oriente, elas seriam respeitadas como paramahansas. No oriente existem muitos loucos que são considerados como paramahansas. Estes enganos acontecem. Esta confusão é natural.

Tenha com você este critério: se a alegria está crescendo, não é preciso se preocupar. Mas a alegria também pode crescer devido à insanidade. Então o critério seguro é: se a sua alegria está crescendo e com isto você não está fazendo a infelicidade de terceiros aumentar, então continue sem se preocupar. A sua alegria não pode ser dependente de violência contra terceiros, agressões, ou de fazer com que os outros sejam infelizes. Não há qualquer razão para se ter medo de enlouquecer. Ainda que você esteja enlouquecendo, isto é um bom sinal. Entre nisto sem qualquer hesitação.

Você precisa se preocupar somente quando começar a fazer mal a alguém. Ninguém é incomodado pela sua dança. Mas se alguém está dormindo e você toca o seu tambor em cima de sua cabeça e começa a dançar...? Dance; não há nenhum problema nisto. Cante suas preces; isto é bom. Mas se no meio da noite você pega seu microfone e começa a cantar um kirtan sem fim, então você está realmente louco, embora na Índia ninguém diga que você está louco por cantar canções devocionais. Muitos loucos fazem isto. Eles dizem, ‘Nós estamos apresentando um kirtan sem interrupção, direto por vinte quatro horas. Se você dorme ou não, o problema é seu. E se você fizer objeção ao nosso programa, é você que não é religioso.’

Observe para que a sua alegria não seja violenta. Isto é o suficiente. A sua alegria deve ser sua. Não perturbe a vida de ninguém com ela. Deixe que suas flores desabrochem, mas não deixe que ninguém seja arranhado pelos seus espinhos. Se você sempre se certificar disto, você estará se movendo na direção certa. Quando você perceber que os outros estão sendo perturbados pelo seu comportamento, preste atenção. O seu movimento não estará sendo em direção à iluminação, mas sim estará no caminho da insanidade.

Ninguém é perturbado pelo Om Prakash. Você pode ir adiante sem hesitação e sem medo.”

OSHO – Enlightenment: The Only Revolution - Cap. 2 – pergunta n° 1
Tradução: Sw. Bodhi Champak

terça-feira, março 17, 2009

O entendimento correto de "esforçar-se"

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Masaharu Taniguchi

Em uma mesa-redonda de discussão sobre a Verdade, da qual eu participava, surgiu o debate da seguinte questão: "O esforço é necessário ao homem?" O sr. Tane Ito externou sua opinião: "O esforço não é necessário. Onde não há esse tipo de tensão chamada esforço é que existe o verdadeiro fluir da Vida". O sr. Akira Sato, referindo-se ao sr. Ito, comentou: "Ele vive dizendo que não é necessário esforçar-se, mas não há ninguém que se esforce mais do que ele". O sr. Yatsuharu Yamane (que é ao mesmo tempo, escultor, carpinteiro, marceneiro, pedreiro, ebanista, empapelador, pintor, e que também possui profundos conhecimentos de astronomia e filosofia) afirmou: "As pessoas dizem que sou um gênio, mas eu não tenho esse dom excepcional. Como percebi que não sou um gênio e que portanto precisava me esforçar, vim somando esforços". Tanto o argumento do sr. Ito como o do sr. Yamane, parecem-me ser, em última análise, a mesma coisa.

Expliquei valendo-me da seguinte frase de alguém da mesa-redonda em Morioka: "Se traçarem uma faixa de 10 centímetros de largura sobre o asfalto da avenida e mandarem-me correr sobre ela de bicicleta, sem me desviar, serei capaz de fazê-lo sem nenhuma dificuldade. Mas se colocarem uma tábua de 10 centímetros sobre um rio bastante largo, e me mandarem passar sobre ela de bicicleta, é quase certeza que fracassarei e cairei no rio".

E acrescentei o seguinte: "Por que será que, sendo a mesma largura de 10 centímetros, quando se trata de uma faixa sobre a avenida, a pessoa não tem dificuldade para manter-se dentro dela, e tratando-se de uma tábua colocada sobre o rio, fracassa? O 'esforço' é uma palavra muito bonita, mas dá a impressão de luta contra a dificuldade, admitindo a existência dela. Se chamarmos de 'esforço' ao fato e agir para vencer a 'dificuldade', reconhecendo-a como dificuldade, isso será como atravessar a ponte de 10 centímetros de largura colocada sobre o rio. A pessoa cai da tábua porque reconhece primeiramente que 'isso é difícil'. Porém, quando a pessoa faz o mesmo trabalho com desembaraço, sem considerá-lo difícil, não se aplica a palavra 'esforço' com o sentido de 'trabalhar para vencer a dificuldade'. Será como andar normalmente, sem embaraço, sobre a faixa traçada de giz sobre a avenida. Aos outros pode parecer que está se esforçando porque está em atividade, mas a própria pessoa não está sob tensão para dizer que seja esforço. Simplesmente está trabalhando sem impedir o fluxo natural da Vida. Uma pessoa assim é que diz não estar se esforçando, quando aos olhos dos que a cercam pareça estar.

Quando a pessoa age obedecendo ao fluxo natural da Vida, a sua Vida tem a maior facilidade para se desenvolver. Nós precisamos efetuar o trabalho com naturalidade, sem considerá-lo como 'uma tábua estreita sobre um rio', mas sim como uma faixa traçada sobre a avenida, acreditando que não há perigo de cair. Não fracassamos porque acreditamos que o solo está nos sustentando. Esse solo que nos sustenta é Deus. Eu creio que quando a pessoa se dedica tranquilamente ao trabalho acreditando que não haverá fracasso porque a onipotência de Deus a guia e a sustenta, o trabalho dessa pessoa terá evolução maior do que quando se esforça reconhecendo a dificuldade como suposto inimigo".

(Do livro 'A Verdade da Vida', vol.5 -- págs 92 à 95)

sexta-feira, março 13, 2009

A linguagem da cura pelo espírito - parte 02 (fim)


Joel S. Goldsmith


A cura pelo espírito é algo maravilhoso, quando se nos torna tão natural como o nadar ou como o respirar. Se não for isto, pode ser mais fatigante que o mais duro trabalho diário. O curador espiritual, quando está alicerçado na Verdade divina, mantém-se livremente suspenso em Deus e permite que o espírito de Deus flua através dele. Deixa jorrar a Verdade, e a Verdade o libertará, seja a ele mesmo, seja o seu paciente. Isto é obra da Verdade, nunca do homem.

É esta a atitude realmente humilde, que repousa no espírito: “Eu, de mim mesmo, nada posso fazer” – mesmo que o tentasse. Flutuando livremente na atmosfera da Verdade, será a obra realizada pela Verdade... Ao nadares, deixa que as águas suspendam o teu corpo – ao curares, deixa que o espírito de Deus realize a cura. Não tentes influenciar a verdade com a tua mente. A Verdade é infinita – o teu intelecto é finito. Não procures modificar a verdade infinita até que caiba dentro do recipiente da tua mente finita.

A inteligência e o corpo nos foram dados como instrumentos a nosso serviço. Não somos daqueles que negam a existência do corpo ou tentam libertar-se dele – assim como não tentamos extinguir a mente ou excluí-la da nossa vida. O corpo nos foi dado para que pudéssemos entrar em contato com esse mundo material. O corpo, com seus órgãos e suas faculdades, é um instrumento a serviço do nosso Todo, admiravelmente sintonizado para esta tarefa. É um instrumento de Deus para manifestar a sua glória. O verdadeiro uso do corpo consiste em que o ponhamos a serviço de Deus e o deixemos guiar e controlar por Ele. E isto nos leva àquele estado de leveza em que “o império repousa sobre os ombros do Senhor”. Não há nenhum caminho capaz de promover, por meio de pensamentos ou preocupações, o processo da alimentação, digestão ou eliminação; a mente não nos foi dada para esse fim. A mente é um intermediário pelo qual percebemos a Verdade, e esta Verdade rege todo órgão e toda função do nosso corpo. A Verdade fortalece os nossos músculos. A Verdade nos dá a possibilidade de sabermos tudo que for necessário.

Toda e qualquer palavra da Verdade que o teu consciente receber se tornará uma parte integrante da tua mente e do teu corpo. Não és tu que dominas o teu corpo, não és tu que dás ordens à tua mente – mas e a atuação da Verdade em tua consciência, atuação essa que se serve naturalmente do teu intelecto, que o conserva puro e claro, ativo, vivo e harmonioso. E o intelecto, por sua vez, orienta o teu corpo, dá-lhe ordens e o domina. A atuação da Verdade funciona como estímulo que purifica tanto a mente como o corpo.

Há em ti um único centro, e neste centro se acha armazenado todo o teu patrimônio espiritual – imortalidade, eternidade, vida, amor, lar, infinita plenitude. Este centro não se encontra em teu corpo, e é tempo perdido procurá-lo ali. Esse centro é o teu consciente, e esse consciente não está no teu corpo; o teu corpo está nesse consciente, que é ilimitado. E é por isso que podes, após pesquisas e exercícios, fechar os olhos e saborear a paz e achar-te dentro ou fora do teu corpo, ou onde quiseres estar; então serás capaz de haurir, de dentro do ilimitado tesouro da consciência, tudo que houveres mister para a tua evolução, hoje, amanhã, até o fim do mundo e para além deles, através de toda a humanidade.

Muitos dos curadores metafísicos acham difícil a terapia de sofrimentos físicos por meios espirituais, porque lhes falta a compreensão da verdadeira natureza do corpo. Esta incompreensão nasce de uma idéia inexata da palavra “matéria”. Desde o início, andaram os adeptos de doutrina metafísica desorientados por esse conceito.

A maior parte dos que usam conscientemente o vocábulo “matéria” ignoram totalmente o seu verdadeiro sentido; ouviram que a matéria é irreal, uma simples ilusão dos sentidos, e que é inanimada; e, em se tratando da matéria do corpo, negam a realidade e a existência do corpo, procurando deste modo superá-lo e aboli-lo.

Como poderia a matéria ser irreal, se ela é indestrutível? A ciência provou que a matéria é uma substância indestrutível; ela pode, sim, mudar a sua forma e assumir outra, mas não pode ser aniquilada; ela pode ser dissolvida em moléculas ou átomos – e o que resta? Resta energia. A matéria não deixou de existir, em consequência desta redução ao seu constitutivo básico; mudou apenas de forma. Não há nenhuma possibilidade de aniquilar a matéria, porque ela é indestrutível.

Na realidade, a substância da matéria é espírito; matéria é espírito tornado visível; espírito tornado visível em forma de matéria. A água, por exemplo, pode transformar-se em vapor; mas este processo nada destrói, e seu peso é conservado em qualquer forma. Um copo de vidro pode ser reduzido a pó de vidro e desaparecer da vista, mas os seus componentes continuam indestrutíveis, e no laboratório se pode provar que continuam a existir e que têm o seu peso.

A mais antiga crença de que a matéria seja irreal e que os objetos que vemos, ouvimos, tangemos, cheiramos e saboreamos sejam ilusórios, é atribuída a Gautama Siddhartha, mais tarde chamado o Buda (Iluminado). Sobre esta base, realizavam, ele e seus discípulos, curas maravilhosas. Os seus discípulos posteriores, porém, descompreenderam a palavra “Maya” ou “ilusão”, e a interpretaram como algo alheio ao seu próprio Ser, como algo externo. Quando, no século passado, o mundo recebeu pela primeira vez a doutrina metafísica, afirmaram seus adeptos que os nossos sentidos estavam sujeitos à ilusão. Em vez de afirmarem esta doutrina, começaram os assim chamados metafísicos a ensinar, infelizmente, que tudo que há no mundo é ilusão, inclusive o corpo. Mas este mundo não é uma ilusão – ilusão é a idéia que nós formamos do mundo.

A cura espiritual baseia-se na afirmação de que pecado, doença e morte não têm realidades em si mesmos, mas que consistem somente na opinião ilusória da nossa parte. Entretanto, a matéria não é irreal, o nosso corpo não é irreal; este mundo não é irreal. Este mundo é belo, imortal, eterno. Este mundo não será jamais dissolvido em nada; mas os nossos conceitos sobre este mundo sofrerão modificação, bem como se modificará a idéia que temos do corpo. Todo adulto admitirá que ultrapassou a idéia do seu corpo de criança e aceitou a idéia de seu corpo adolescente; e ultrapassou também o conceito sobre este, quando se desenvolveu em homem maduro. Na medida que progredir no caminho da compreensão espiritual aceitará uma idéia espiritual do corpo, mas não possuirá um corpo mais espiritual do que esse que já possui agora.

Provavelmente, haverá quem zombe dos metafísicos e dos místicos por causa do uso de palavras como “real” e “irreal”, “realidade” e “irrealidade”. Os metafísicos são, muitas vezes, ridicularizados por causa de expressões como “isto é irreal”. Dois carros colidem na estrada, e se desfazem em fragmentos; aparece o metafísico e afirma: “Isto é irreal; nada aconteceu; pura ilusão”. Poderemos levar a mal o mundo quando se ri de semelhante linguagem? O mundo não compreende o sentido da palavra “irreal” – e o pior é que nem o próprio metafísico, que tais palavras emprega, sabe o que elas querem dizer.

Em nossos livros sobre auto-realização entendemos por “real” ou “realidade” somente aquilo que é espiritual, eterno, imortal, infinito, Real, realidade somente é aquilo que é Deus. E, neste sentido, é evidente que não podemos ver, ouvir, tanger, cheirar ou saborear a realidade.

Por outro lado, os termos “irreal”, “irrealidade” se referem a tudo que não é permanente, seja agradável ou desagradável à nossa percepção.

E, neste ponto particular, costuma o metafísico cometer o seu grande erro: quando vê uma pessoa sadia, ou alguém que considera como bom e moral, diz, geralmente, desta situação que ela é real; mas, se encontra um doente ou um pecador, diz que isto é irreal. Entretanto, essa interpretação é inaceitável à luz da compreensão filosófica. Real é somente aquilo que é do Espírito, de Deus, da alma. Só a alma é capaz de perceber o real. O que não é perceptível pela faculdade interna da alma não é real. A isto se refere Jesus quando diz: “Vós tendes olhos, e não vedes; tende ouvidos e não ouvis”.

Quando falamos de pecado e doença como sendo irreais, não queremos negar a sua existência objetiva. Enganamos a nós mesmos quando afirmamos que essas coisas não existem. Mas como, desde a nossa infância, nos foi impingido que o mundo material é real e que nosso corpo material é real, para nós também existem as doenças. Quando afirmamos que doença, pecado e morte são irreais não queremos com isto afirmar que estas coisas não existem; negamos apenas a sua existência como parte integrante de Deus e como pertencentes à Realidade divina.

No âmbito do real, no reino de Deus, as desarmonias que os sentidos percebem não têm existência, realidade. Mas isto não elimina o fato de que temos de sofrer sob o impacto dessas desarmonias; a sua realidade e inexistência, da parte da realidade divina, não diminui nem elimina as nossas dores, as nossas necessidades, as nossas deficiências, porque, em virtude da nossa percepção sensorial, sofremos com esses fenômenos.

No princípio do toda a sabedoria está o conhecimento de que estas coisas não necessitam de existir. A libertação destas desarmonias não é alcançada pelo fato de recorrermos a Deus por socorro, mas sim pelo fato de descobrirmos o Deus verdadeiro, de subirmos até aquelas alturas da vida onde há somente Deus: Não há tal coisa como libertação de desarmonias, libertação de pecados, libertação de desejos impuros; não há libertação de pobreza – há somente liberdade, a liberdade em Deus, a liberdade no Espírito, o Deus-Liberdade.

Quem descobre o Deus-Liberdade não necessita de libertar-se de coisa alguma, porque na Liberdade não há escravidão.

Se te encheres plenamente com o Espírito, verás que a Lei espiritual te encherá com todas as coisas de que necessitas. E assim se realiza também a cura do corpo; não porque Deus pense em palavras ou conceitos de um corpo doente – nem sequer de um corpo fisicamente sadio – mas porque tu, superando o conceito material pela realização do espiritual, a tua consciência se transformou e realizou harmonia, em uma linguagem e em uma forma que te são compreensíveis.

Não usemos jamais de expressões como estas: “É irreal – não é verdade – não aconteceu”, antes de compreendermos que aquilo de que falamos só é irreal, não-verdadeiro, inexistente na zona do Reino Espiritual. Somente à luz desta compreensão, podemos afirmar que doença, pecado, pobreza, deficiência, são irreais e não participam da verdadeira Realidade.

O divino Mestre via a irrealidade do poder, do poder maligno, quando respondeu à ameaça de Pilatos “Não sabes que eu tenho o poder de crucificar-te, e o poder de soltar-te?”, com as palavras “Não terias poder algum se não te fora dado do alto”. Jesus admitia o poder temporal de Pilatos; mas, em virtude da sua consciência crística, que vivia na Realidade, sabia também que nenhum poder temporal tinha poder sobre a sua consciência espiritual. Do mesmo modo curou a orelha do soldado decepada por Pedro, e não opôs resistência à violência física; também na cruz proferiu as palavras “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Ele enxergava para além desses atos humanos e sabia que não eram reais, isto é, que não participavam da Realidade permanente, eterna, imutável, imortal. Foi também em virtude dessa faculdade de discriminação espiritual que ele foi capaz de sair vivo do sepulcro. À luz da sua consciência espiritual, não havia poder algum na crucificação.

Esta mesma consciência espiritual, iluminada – essa mesma consciência crística – está presente, aqui e agora, através dos séculos e milênios. E é esta mesma consciência crística que dá aos curadores espirituais dos nossos dias a possibilidade de curar doentes e libertar os pecadores; é a convicção de que as formas do mal são irreais, não-participantes da harmonia do reino de Deus, e que essas formas do mal são inconsistentes em face da permanente realidade de Deus. Homem! Cultua a Deus, na firme convicção de que o Reino Espiritual é íntegro e invulnerável, e que nenhuma doença, nenhum pecado, nenhuma pobreza, nenhuma deficiência faz parte do Reino de Deus; que em nada há substância permanente, que em nenhum desses males reside uma lei, uma legalidade real e duradoura.

Depois de firmarmos esta convicção em nosso interior, passemos a considerar mais algumas expressões usadas no ministério da terapia espiritual.

Por via de regra, não falamos de uma enfermidade como sendo doença, mas sim um aspecto, uma aparência. Assim, por exemplo, designamos a tuberculose, o câncer, a paralisia, como aspectos ou fenômenos. Perguntará o leitor se faz alguma diferença usar esta ou aquela palavra. Faz, sim, uma vez que a terapia espiritual representa a atuação da consciência, e enquanto as sutis particularidades do processo curativo não estiverem claramente apreendidas, não pode a verdade exercer a sua atuação nos consciente do curador, realizando a cura.

Tomemos um exemplo. Alguém viaja pelo deserto. De repente, como acontece não raro, vê o caminho todo coberto de água. Automaticamente pára o carro; pois não pode atravessar um lago de automóvel. Provavelmente, o primeiro pensamento será este: “E agora, o que devo fazer? Como atravessar a água? Como remover da estrada essa água?”

O viajante olha em derredor, mas não há possibilidade de socorro. Olha novamente para a estrada, mais atentamente – e verifica que não existe nenhuma água. O que ele vira era uma dessas miragens do deserto, uma fantástica fada-morgana, reflexo aéreo de algum lago longínquo. Sorrindo da sua ilusão, põe em movimento o carro e prossegue viagem. Enquanto o homem via água no caminho, esperava inutilmente que a água fosse removida; mas, no momento em que reconhece que o fenômeno não passa de uma simples ilusão, nada mais o impede de prosseguir.

É exatamente isto que se dá no campo da cura espiritual. Enquanto nos ocupamos com câncer, tuberculose, paralisia, tumor, resfriado, gripe, etc., estamos em um beco sem saída. Que fazer contra esses males? Como libertar-nos deles? Será que temos o poder de os eliminar? Ou haverá algum Deus que os possa remover? Milhares de orações sobem a Deus, pedindo-lhe que cure os nossos males, que modifique as circunstâncias ingratas – mas é inútil... Deste modo nada acontecerá...

Mas, então, o que fazer?

Enquanto a doença permanecer em nossa consciência como doença, nada poderá ser feito contra ela. Mas, se uma consciência mais iluminada nos fizer ver que não se trata de uma doença, mas sim de uma ilusão ou miragem criada por nós, então foi dado o primeiro passo para a cura. Na realidade, é fácil o processo curativo, seja qual for a doença, contanto que o mal, a doença ou pecado seja reconhecido na reconhecido na consciência como inexistente no plano da realidade divina, mas apenas existente no plano do nosso ego humano.

Enquanto uma doença for realidade para ti, enquanto creres que a febre tem de seguir o seu curso, enquanto tentas reduzi-la com certos expedientes, enquanto tentas reprimir um tumor, enquanto acreditas que uma doença deva necessariamente percorrer este ou aquele processo – estás fora da terapia espiritual, embora a tua mente esteja desempenhando o seu papel.

Cura espiritual total consiste em não reconhecer a realidade de uma situação negativa. Eu, tu, ou outro homem qualquer que queira curar pelo espírito, deve crear em si um estado de consciência em que Deus e as obras de Deus – o Verbo de Deus, o Universo de Deus, o Homem de Deus – sejam tão intensamente reais que nenhum contrário, nenhum negativo, nenhum mal, nenhuma doença, possam coexistir com esse Deus do Universo ou esse Universo de Deus. Porque Deus é tudo.

A eficiência do processo curativo baseia-se, sobretudo, na realidade de Deus e na realidade da sua creação – quer ela se manifeste como homem, como corpo ou como Universo: e, em segundo lugar, se baseia no reconhecimento da não-realidade de tudo aquilo que nos aparece em forma de doentes ou pecadores, de enfermidades ou de circunstâncias indesejáveis.

Importa que compreendamos o sentido correto das expressões “real” e “irreal” – a sua significação em sentido espiritual. Com outras palavras: tudo o que podemos perceber com os sentidos físicos não passa de uma ilusória miragem no deserto, porque a mente, servindo-se desse material dos sentidos, o interpreta erradamente. Discernindo essa miragem a doença sede lugar a saúde. Mais ainda: quando o homem começa a compreender espiritualmente todas as coisas que o cercam – flores, nuvens, estrelas, o nascer e o pôr-do-sol – tudo começa a aparecer de modo diferente, ultrapassando a capacidade da mente humana. Para além do invólucro visível destas coisas se revela algo mais, algo que nem os sentidos percebem nem a mente concebe. Quando percebemos as coisas pelo poder espiritual, descobrimos o homem verdadeiro, assim como Deus o creou, segundo a sua imagem e semelhança – e é precisamente esta faculdade, de conhecer a realidade, que realiza a cura pelo espírito.

quarta-feira, março 11, 2009

A linguagem da cura pelo espírito - parte 01


Joel S. Goldsmith

De acordo com o caminho da auto-realização, poucas palavras servem de base à arte de curar pelo espírito. Antes de abordar este assunto, quero dizer brevemente o que se entende por auto-realização: É uma doutrina espiritual baseada em uns poucos princípios, que qualquer pessoa pode observar praticamente, independentemente de sua confissão religiosa. O caminho da auto-realização revela a natureza de Deus como sendo o poder infinito, a inteligência e o amor do Universo; e revela o ser de cada indivíduo como uno com a natureza e os atributos de Deus, ser individual esse que se manifesta em inumeráveis formas e espécies; revela ainda que a natureza e a idéia de que temos das desarmonias deste mundo resultam de uma concepção errônea sobre a revelação da Divindade do Universo. São estes os princípios universais, baseados na mensagem do Cristo, quando ensina que o homem pode realizar a sua unidade com Deus mediante um contato consciente com Deus, e que o homem, assim realizado em Deus, pode trazer ao mundo harmonia, paz e integridade.

A primeira e mais importante palavra neste processo de cura pelo espírito é o pequeno vocábulo “como”, cuja compreensão exclui para sempre o conceito de dualidade: o Deus universal se revela como cada ser individual!

Se isto é verdade, então não há Deus e o homem; não há Deus mais tu, por isto, não pode haver pessoa que se possa dirigir a Deus com alguma necessidade.

Durante os anos em que eu dedicava o meu tempo exclusivamente à terapêutica espiritual, aprendi a não considerar os meus pacientes como seres humanos; nem me dirigia a Deus para que eles recuperassem a saúde. Eu via Deus em cada pessoa que me visitava; eu via Deus como esse ser individual; e esta verdade creava harmonia. Esta verdade revelava a divindade do ser humano e do corpo deles, e esta revelação se tornou a pedra fundamental do edifício da auto-realização.

Há somente Deus, que manifesta a sua infinita essência e sua natureza espiritual, como teu ser, como meu ser: “Eu e o Pai somos um” – não dois. Nesta unidade és tudo o que Deus é. Se compreenderes a idéia “como”, que Deus se manifesta como o teu ser individual, como o meu ser individual, então compreenderás que tudo que Deus é, tu também és.

“Meu filho, tu estás sempre comigo, e tudo que é meu é teu”. Eu sou co-herdeiro com o Cristo de todos os tesouros do reino de Deus. “Nada posso fazer de mim mesmo” – mas, em virtude da minha unidade com o Pai, eu sou tudo que Deus é. Onde quer que eu esteja, está o Pai dentro de mim; por isto, onde quer que eu esteja, o Pai age dentro de mim.

Deus, que aparece como ser individual – Deus que se mostra como sendo tu, como eu – é este o caminho da auto-realização. É este o segredo da cura pelo espírito. Esse “tu” ou “eu” não é um reflexo ou uma idéia separada, ou algo que fosse menos que Deus; esse “tu” ou “eu” é Deus mesmo, feito manifesto – Deus Pai, que aqui na terra aparece como um ser individual. Unidade – é este o mistério.

Depois de assimilares esta verdade; depois de viveres nela e a praticares, considerando cada homem, cada mulher, cada criança, cada planta e cada ser individual no mundo à luz do conhecimento: “Isto não é o que parece ser; isto é Deus, que se manifesta como”... então desenvolverás aquela consciência curativa que nunca enxerga o homem na sua humanidade; mas que logo entra em contato com a consciência espiritual dele. Acostumar-te-ás a não ver o homem segundo a sua aparência, mas o verás através dos seus olhos, para além dos seus olhos, na certeza de que lá está o Cristo de Deus. Fazendo isto, aprender a prescindir da aparência externa, e, em lugar de tentares curar alguém ou restabelecer alguém ou melhorar alguém, te tornarás verdadeiramente uma testemunha da sua natureza crística, da sua essencial identidade com Cristo.

Outra palavra não menos importante que o “como”, é o verbo “é”. Se é verdade que Deus se revela como o ser individual de cada creatura, então a harmonia é a verdade sobre cada indivíduo. E com isto a palavra “é” se torna uma palavra-mestra na oração e no processo curativo. Então desistimos de querer curar alguém, desistimos de querer melhorar ou enriquecer alguém; então vivemos constantemente na harmonia do É, ou do EU SOU. Se Deus é o teu ser, então Deus é a tua harmonia; se tudo o que o Pai tem é teu, então, tu estás, agora mesmo, na plenitude e perfeição de Deus; se Deus é a atividade do teu ser, então é a harmonia e a lei do teu ser. Se deixares de viver no passado ou no futuro, então vives na consciência do permanente É, do eterno EU SOU.

Mesmo quando encontras um bêbado, um doente ou um moribundo, não prestarás atenção à aparência externa, mas dirás a ti mesmo “Ele É”. A conseqüência do “como” é necessariamente o “é”. É isto compreensível ou não? Se Deus se manifesta como o teu “tu”, portanto é a harmonia a tua verdade.

A mais poderosa expressão no vocabulário da oração é a palavrinha “é”. A harmonia é, Deus é, a paz é, a abundância é, a onipresença é. Será que pode haver algo que curar, algo que mudar, algo que renovar, ou algo que aniquilar na presença da onipresença? Percebes os fenômenos externos, as aparências dos sentidos, mas não te deixarás desorientar por elas. Podem os olhos ser testemunhas da doença de alguém, testemunhas da pobreza ou da culpa de alguém – mas o Espírito te diz: “Não! Isto é Deus em sua manifestação: isto é uma individualização de Deus; e por isto, a harmonia é a verdade, independentemente do que meus olhos vêem ou meus ouvidos ouvem”.

A cura espiritual supõe uma consciência altamente desenvolvida. É uma consciência capaz de penetrar as aparências e enxergar para além; é uma visão de dentro, que nos dá a certeza desta verdade, mesmo quando os nossos olhos enxergam um ladrão ou um moribundo. Ninguém pode ser curador espiritual eficiente se não possuir a certeza: “Este é meu filho amado, no qual me comprazo”. É sem importância o testemunho dos sentidos externos. Algo no teu interior deve cantar, e o cântico que teu interior canta deve dizer: “Este é meu filho amado, no qual me comprazo... O Eu no meu interior é poderoso”.

Palavras não resolvem este problema. Deve ser uma convicção interna – e esta só se adquire por meio de exercícios, pela compreensão e pela prática – sem falar da graça de Deus que reside no teu íntimo. Se fores capaz de ficar sentado à cabeceira de um doente moribundo sem um vestígio de temor, porque uma voz canta no teu interior: “Este é meu filho amado... Eu sou onipotente no meu interior... Jamais te abandonarei nem te esquecerei” – então és um curador pelo Espírito. Isto supõe uma evolução que só se alcança por exercícios – até que desponte o dia em que esta voz fala de dentro. Ou alguém recebe esta consciência pela graça de Deus, como um presente.

Entretanto, é difícil alcançar esta convicção, se não forem clarificadas certas circunstâncias que fazem parte da cura espiritual. Uma das mais importantes é a função da mente humana.

Antigamente, nos primórdios das assim chamadas curas metafísicas, ensinava-se que o corpo estava sujeito à mente. Era uma idéia nova, tão provocante que o homem moderno começou a treinar neste sentido, controlando o corpo pela mente. Breve foi o tempo dos sucessos – e ainda em nossos dias alguns principiantes colhem certos resultados com este método. O que há de ilusório nesta praxe é que os seus adeptos se esquecem de que por detrás do pensamento está um pensador, e que esse pensador não é nenhuma pessoa – o pensador é Deus, o Deus no homem, a alma humana.

A mente humana é apenas um instrumento de percepção. Podemos, sim, perceber a verdade com a mente, mas a mente não é creadora. O próprio inventor não haure a sua invenção de dentro da sua mente. Ele percebe a existência de certas leis naturais, que sempre existiram; descobre como essas leis harmonizam-se entre si e como devem ser aplicadas. O reto uso da mente como instrumento de percepção faz dela não somente um poderoso instrumento, mas a sua faculdade cresce com o uso e faz eclodir novas forças.

Sabendo que a mente é um instrumento, devemos saber também de quem ela é instrumento; porque todo instrumento deve ser conduzido e controlado por alguém. Infelizmente, a maior parte dos homens não descobriu ainda aquele centro interior capaz de dirigir eficazmente o intelecto humano. Adeptos das ciências mentais, quando tentam dominar a mente pela força da vontade ou pela modificação de pensamentos, chegam, geralmente, à experiência de que a mente humana não se deixa dominar pelo homem; e a disposição desses estudiosos acaba por ser pior no fim do que era no princípio, revelando-se em estados de esgotamento nervoso.

A mente humana é um instrumento de algo que está acima dela. Esse algo é o verdadeiro Eu do homem, a tua autêntica IDENTIDADE. Se esse teu Eu interno guiar e controlar a tua mente, então encontrarás a paz, uma paz perfeita, que transcende o entendimento humano.

Certas fotografias de Tomás Edison nos dão idéia de uso correto da inteligência: esses retratos mostram o grande inventor, quase sempre, com a mão junto ao ouvido, em uma atitude de intensa auscultação. Os seus colaboradores sabiam contar numerosas histórias sobre isto; Edison lhes distribuía os trabalhos de pesquisa, e cada um elaborava aquilo de que era capaz – e, no fim, apelavam apara a sabedoria do mestre. A mão do inventor ia imediatamente ao ouvido, Edison escutava uma voz inaudível – e depois dava as suas instruções para o próximo passo.

Nesta altura, quero frisar a diferença entre duas atitudes: uns tentam servir-se da mente como de uma força creadora – outros servem-se dela como um simples instrumento de percepção. Se eu trabalhasse no plano puramente mental, dos pensamentos, fecharia os olhos e repetiria incessantemente a mim mesmo: “Teu corpo está sadio; teu corpo funciona normalmente; teu corpo reage a esta verdade, que me é consciente” – e, provavelmente, o resultado desses exercício mental seria um certo alívio benéfico do mal. Com efeito, nos primeiros tempos dessas terapias metafísicas houve uma onda de resultados admiráveis. Na realidade, porém, os curadores não haviam atingido a verdade plena, quando cuidavam que a mente pudesse curar o corpo humano, o próprio ou alheio. Era uma das etapas intermediárias, certamente superior àquele outro estágio em que o homem considerava o corpo material como fonte e origem da vida.

Do ponto de vista da cura espiritual e da vida espiritual, o processo é bem diferente.

Das alturas desta perspectiva, é Deus a alma, a vida e lei única de todos os seres; a mente humana é o instrumento, e o corpo é a sua forma manifestativa externa. Quem trabalha neste plano e recebe um grito de socorro de um doente, fecha os olhos e não pensa pensamento algum. Não reflete o que o doente deva comer ou beber, ou como deveria ser a sua saúde. O curador espiritual senta-se tranquilamente, na consciência de que a sua mente é um vaso receptivo. Receptivo, para receber o que? Para receber em si aquela “voz suave e silenciosa” – e a terra degela!...

De dentro desse silêncio, em que tu te fizeste quase um vácuo -- um vácuo auscultativo – sempre vigilante, nunca dormente, nunca fatigado, nunca hesitante, sempre consciente e ativo, na expectativa da visita do Cristo – de dentro deste grande silêncio, de dentro deste infinito, que é Deus, das profundezas de tua alma, o Deus em ti, se fará ouvir uma voz ou surgirá um sentimento, uma vibração, uma libertação, uma certeza – indiferente o nome que lhes dê -- e lá se foi a ilusão e nasceu a Verdade...

Não importa a natureza do problema, quer seja de caráter físico, mental, moral ou financeiro, ou se trate de harmonizar relações sociais – não faz diferença alguma; pois não é a tua sapiência que vai tratar do assunto. Tu não haures daquilo que aprendeste durante os anos de tua peregrinação na terrestre. Manténs uma atitude completamente receptiva para Aquilo que te creou no princípio e que sabe da situação de cada indivíduo; e se tu permitires que esse Poder se manifeste, estarás lá onde deves estar, sob a jurisdição de teu Pai celeste, sob o domínio desse Alguém, que sabe das tuas necessidades, antes que tu mesmo as conheças; desse Alguém que se compraz em dar-te o reino...

Faze da tua mente um simples instrumento de percepção, em vez de investires com a tua cabeça contra a muralha de um problema aparentemente insolúvel, em vez de preocupares com o pensamento qual seja o próximo passo a dar, amanhã, depois de amanhã – habitua-te a escutar, servindo-te da mente como de um canal para receber as águas vivas da Fonte. Permita que Deus encha a tua mente. Sê uma testemunha do espírito divino, que move, anima e penetra tanto a mente como o corpo.

Percebe, através da tua mente, a Verdade de Deus, e esta Verdade realizará a obra; não tu, nem os teus pensamentos. Não é a atividade da tua mente que libertará alguém; é a atuação da Verdade que, através do canal da tua mente, libertará alguém dos seus males.

Talvez já notaste que, quando um nadador tenta manter o corpo na superfície da água, quanto mais agita os membros, mais vai afundando; o que ele deve fazer é manter-se em estado de calma relaxação, movendo vagarosamente pernas e braços e deslizando suavemente pela água. É esta a atitude do curador espiritual – uma calma e tranqüila receptividade.

Continua...

segunda-feira, março 09, 2009

A Totalidade de Deus: ponto de partida importante para a cura


David Creighton

Há séculos, pessoas de todo o mundo têm tido o desejo de conhecer e entender a Verdade. Essa busca pela realidade fundamental das coisas tomou muitas formas e produziu uma vasta gama de religiões, filosofias e teorias de vida. A despeito da diversidade de crenças, há vários elementos que são comuns a muitas religiões atuais.

Um desses elementos comuns é o ensinamento da existência de um único Ser supremo, perfeito e autoexistente. Porém, um problema que os pensadores religiosos enfrentam, desde tempos imemoráveis, é como conciliar o conceito de uma Deidade totalmente boa e Todo-poderosa com os aparentes sofrimentos e desastres observados na vida diária. Alguns afirmam que, sendo Deus Tudo, Ele deve ser o responsável por todo o mal, tanto quanto é responsável por todo o bem, e que isso explica a existência do ódio, do sofrimento, e da morte. Infelizmente, essa crença não preserva o conceito de Deus como sendo totalmente bom. Outros acreditam que há um poder separado de Deus, chamado Satanás, diabo, ou mal, que se opõe ativamente ao bem. Nesse caso, entretanto, sacrifica-se a idéia de que Deus é Todo-poderoso. Outro ponto de vista é que Deus, mesmo sendo totalmente bom e Todo-poderoso, não se intromete em Sua criação, a ponto de deixar que ela se deteriore e, por fim, se destrua.

O denominador comum a todos esses pontos de vista é a admissão de que as experiências dolorosas da existência humana sejam reais e substanciais. Se forem reais devem, de algum modo, estar conciliadas com a natureza de Deus, ainda que fazer isso comprometa a grandiosidade, a totalidade e a perfeição de Deus.

A Sra. Eddy enfrentou as mesmas dúvidas. Mas, através da revelação e do raciocínio espiritual, foi conduzida a uma conclusão notavelmente diferente. Em vez de partir das aparências, ela raciocinou partindo dos fundamentos dados na Bíblia. A Bíblia declara ser Deus o único Criador. Afirma que Ele é Espírito, Todo-poderoso, eterno, bom, e que Ele criou o homem à Sua própria imagem. Raciocinando a partir dessas premissas, a Sra. Eddy foi levada a concluir que o homem e o universo devem ser espirituais, eternamente bons, expressando a natureza de Seu Criador. Ela compreendeu que, na totalidade de Deus, não há lugar para outro poder, outro criador, outra criação, nem para o estabelecimento da imperfeição, pecado ou mortalidade.

Como, então, se explicam os males que tão obviamente atormentam a humanidade? Em vez de atribuí-los a Deus, a Sra. Eddy, corajosamente, afirmou que esses males não precisam ser aceitos, mas podem e devem ser destruídos pela negação de sua suposta legitimidade e pela compreensão da totalidade e bondade de Deus. Em vez de ceder à tentação de acreditar que o mal tenha uma origem verdadeira, sancionada por Deus, ela se apoiou, fervorosamente, em seu conceito puro de Deus como revela a Bíblia e negou a validade de tudo o que é diferente dEle. Em uma obra intitulada 'Não e Sim', ela escreveu: “Baseada na teoria que as formações de Deus são espirituais, harmoniosas e eternas, e que Deus é o único criador, a Ciência Cristã refuta a validade do testemunho dos sentidos, os quais tomam conhecimento de seus próprios fenômenos –doença, moléstia e morte”. Que rompimento radical com o modo de pensar tradicional!

Mas, uma ideia nova que não possa ser comprovada é somente uma curiosidade de cunho intelectual, não importa quão atraente ela possa ser. Seguindo o exemplo de Cristo Jesus, a Sra. Eddy demonstrou, através da aplicação no trabalho de cura, a validade das verdades que ela expôs. Se a doença fizesse parte da criação de Deus, se existisse com a permissão de Deus ou fosse apoiada por poderes fora de Seu controle, ela não seria passível de tratamento pela oração. Assim, a descoberta da Sra. Eddy, de que a perfeição de Deus exclui toda possibilidade de mal, foi essencial para que ela restabelecesse a cura cristã na era moderna.

Pode ser difícil resistir à tentação de “explicar” o mal, quando ele aparece na experiência de alguém. É raro o estudante de Ciência Cristã que não tenha lutado com o impulso de tentar descobrir a causa de uma doença ou a origem de algum problema na vida pessoal ou nas ocorrências mundiais. Uma vez, Jesus foi interrogado quanto à causa de um problema congênito. Tendo encontrado um cego de nascença, os discípulos perguntaram a opinião do Mestre acerca da origem dessa calamidade. Fora o pecado do homem ou de seus pais, a causa da cegueira? Em vez de levar em consideração essas sugestões, Jesus pôs fim à especulação, declarando: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus”. (João 9:3). E curou o homem.

Precisamos cultivar a mesma vigilância que Jesus expressava. Você nunca se ouviu dizendo: “Sei que Deus é o bem Todo-poderoso, mas…”? Por certo, nenhuma declaração racional pode se seguir, nessa frase, a menos que descartemos primeiro o começo da sentença. Isso é justamente o que não devemos fazer. Nossa única alternativa, então, é descartar a segunda parte. Deus é o Criador único, perfeito, todo-amoroso, sempre-presente. A totalidade de Deus não permite nenhuma legitimidade – nenhuma existência – para o que for diferente dEle. Esse ponto de partida é fundamental para nossa compreensão de Deus e para o êxito de nosso trabalho de cura.

Certamente, as aparentes obras do mal não podem simplesmente ser ignoradas, tanto para o nosso bem-estar quanto para o de qualquer outra pessoa. Precisamos estar alerta para a natureza do pecado e para a forma pela qual o mal parece agir. Quando, porém, começamos nossas orações de um ponto de vista humano, considerando a doença ou a injustiça como algo tangível e real, que precisa ser vencido de algum modo, apelando a uma divindade que o permitiu, invalidamos nossos esforços desde o início. O conceito limitado de onipotência do bem, evidente nesse ponto de vista, não é apoio adequado para a cura espiritual.

Ao contrário, começar com um firme reconhecimento da onipotência e onipresença de Deus, todo-amoroso, e da impossibilidade de que algo diferente dEle possa estar presente ou ter poder, o sanador se arma para vencer o mal. Esse ponto de partida mental não está de acordo com o testemunho dos sentidos, mas é justamente por essa razão que é tão vital para a cura.

O costume geral de raciocinar a partir dos males que aparecem e recorrer a Deus, deixou à humanidade um conceito limitado da Deidade. Muita gente tem, em conseqüência disso, um conceito de Deus que reflete as imperfeições do mundo visível. Por outro lado, raciocinar a partir de Deus, conforme a Ciência Cristã ensina, é a diferença crucial em relação à maneira geral de pensar, na atualidade. Os cristãos precisam, hoje, afastar-se do modo de pensar convencional, se pretendem continuar a obra cristã de vencer o mal através da oração consagrada.

(De O Arauto da Ciência Cristã — agosto 1997)

sexta-feira, março 06, 2009

A inexistência do pecado tirada a limpo

Abaixo, um texto dissertativo escrito por um líder da iluminação da Seicho-no-Ie. Na Seicho-no-Ie, quando alguém se interessa e deseja estudar os ensinamentos da Verdade, precisa passar por um estudo chamado "curso de módulos", que se divide em módulo 1, 2 e 3. O curso todo possui uma extensão de três anos, sendo que as aulas são ministradas uma vez a cada mês, totalizando, assim, uma média de 10 encontros anuais. Contudo, no decorrer desse período, a pessoa realiza "deveres de casa", deve ler livros, escrever dissertações (sempre com base na doutrina dos livros da Verdade da Vida) - e esse post que trago hoje é uma dessas dissertações, escritas por um homem que à época era um estudante do "curso de módulos", e que hoje já é líder da iluminação da Seicho-no-Ie. Texto simplesmente brilhante, lúcido e verdadeiro! Completamente embasado na essência da doutrina.




Faça uma dissertação a respeito do fato de o homem ter cometido o pecado original e porque a Seicho-No-Ie diz que, em verdade, este pecado original nunca existiu, tratando-se apenas de ilusão do homem.

O Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e Deus, após criar todas as coisas que existem verdadeiramente, "viu que era tudo muito bom". Portanto, o Homem é perfeição absoluta, dotado da mesma Sabedoria e do mesmo Amor de Deus, e em tudo o que existe reina a Harmonia Suprema. Logo, não há lugar algum para o pecado, que é imperfeição. "'Então pergunto: considerais perfeição o pecado?' Responde o querubim: 'Mestre, o pecado não é perfeição.'". É inconcebível, no mundo criado por Deus, sequer se pensar na idéia de pecado. Pecado é algo inexistente, é ausência de coisa real. Esse fato é uma Verdade cristalina, e é evidente como podemos distinguir o que existe verdadeiramente daquilo que não existe, sendo apenas ausência da Realidade, isto é, o nada. Isso é o que se diz, no Gênesis, "separar umas águas das outras águas". (Gênesis I, 6-8)

No entanto, uma das coisas mais misteriosas, um verdadeiro "milagre", ocorreu. Os seres vivos, que só poderiam ser perfeitos e harmoniosos, passaram a manifestar desarmonia, infortúnios, doenças e morte. Por algum motivo o homem se considerou separado de Deus, não aceitou os desígnios divinos e "comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal". Uma névoa densa (Gênesis II, 6), um "vapor" começou a encobrir a mente do homem, e este não mais conseguiu distinguir claramente o que existia do que não existia; sua sabedoria espiritual cristalina passou a estar embaçada. Nessa confusão mental, o homem começou a imaginar coisas fictícias, e o problema é que começou também a achar que essas coisas fictícias existiam de verdade. "Supor existente o que é inexistente, nisto consiste a ilusão. Diz-se ilusão o desconhecimento da Verdade."

Que tipos de coisas fictícias o homem começou a imaginar? Ora, o próprio fato de pensar que deveria comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. É claro que tal árvore nunca existiu, pois Deus não a teria criado, mas o ponto aqui é que o homem teve o pensamento ilusório de que precisaria de algo externo a si mesmo para ficar completo; achou que era um ser imperfeito e incompleto, esquecendo-se que era um ser divino e perfeito em todos o sentidos. Como manifestação desse pensamento de ser imperfeito, incompleto, e não merecedor das dádivas divinas, o homem passou a sofrer dificuldades, infortúnios, sofrimentos, doenças, e a necessitar de medicamentos e de assistência.

Portanto, em termos absolutos o pecado é inexistente; mas não deixa de ser um fato aparentemente existente, no mundo fenomênico, que o homem tenha cometido um "pecado original". Chegamos a um paradoxo se nos perguntamos "se o pecado é inexistente, como pode ele manifestar tão fortemente uma aparente existência diante de nós?". Quando faço essa pergunta a mim mesmo, só consigo pensar em duas alternativas:

1- Essa pergunta não faz sentido. O pecado é inexistente, e ponto. Não há sentido em se fazer uma pergunta sobre algo que não existe. Se nós fazemos essa pergunta, talvez nós próprios não tenhamos entendido ainda que o pecado não existe. [Apenas para ilustrar, o que você responderia para a pergunta "o que fica ao norte do pólo norte?"? Stephen Hawking usa esse exemplo quando perguntam para ele o que existia antes do início do tempo, no Big Bang.]

2- Talvez esse "poder" do pecado conseguir fazer parecer-se existente seja apenas um dos efeitos de um outro fato misterioso: o poder da mente projetar os fatos que ocorrem no mundo fenomênico. Neste caso, Deus dá liberdade total ao homem no uso de sua mente, e este tem como opção inclusive manifestar o pecado e seus efeitos.

Na verdade, neste segundo caso, o pecado contém em si mesmo a sua própria desintegração. Este Universo é montado, construído de tal forma que uma pessoa não consegue persistir manifestando o pecado. São tudo lições para o aprimoramento espiritual da própria pessoa. Ela tem que aprender certas lições, e se tenta escapar, fugir desse aprendizado, inevitavelmente aparecerão diante dela situações na vida que a obrigarão, mais cedo ou mais tarde, a aprender a lição que deve ser aprendida, e a superar o pecado. O pecado é como um embrulho, que será retirado e então revelará o presente. No caso, esse presente é a glória de Deus, a compreensão consciente que alcançamos da presença de Deus em nossas vidas. Perguntaram a Jesus: "Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?", ao que Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas foi para que nele se manifestasse a glória de Deus". Então, o pecado inexiste, e talvez, em certo sentido, a aparente existência do pecado seja algo bom, pois a longo prazo nos leva à iluminação, à plena compreensão e presença da Imagem Verdadeira da Vida (Jisso).

Não há pecado original, nem tampouco herdamos ele de Adão e Eva. O que herdamos, sim, como seres fenomênicos, é a idéia de pecado e autopunição que está presente no inconsciente coletivo da humanidade. Se estamos chamando essa idéia de pecado e autopunição de pecado original, para extingui-la basta que acendamos a luz da Verdade que diz "o pecado é originariamente inexistente".

(Leon Iclides - Líder da iluminação da Seicho-no-Ie)

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PS> Agradeço a esse grande líder da iluminação pela contribuição valiosa, que foi ter escrito essa redação de modo tão claro e fiel aos ensinamentos. Com certeza, ajuda a esclarecer a visão e a dúvida de muitos. Abraços a todos.

terça-feira, março 03, 2009

"Não te esqueças de Mim" (parte final)



O post anterior conta a história do Gênesis; revela que Deus, ao individualizar-se e criar seu Universo, sussurra uma pequena advertência a cada uma de Suas consciências individuais: "não coma do fruto da árvore do conhecimento, ou então você me esquecerá".

Antes de Deus desdobrar-Se e criar Seu Universo, Ele era uma existência concentrada, somente o Grande Oceano existia - silencioso, quieto, imóvel, ainda não havia ondas ondulando na superfície do Oceano. Esse "estado anterior à criação do Universo" é o estado em que Deus é compreendido como sendo o "Nada", é o estado em que Deus existe como um Ser Não-Manifesto. Então, de repente, Deus, de Si mesmo, escolhe desconcentrar-Se, individualizar-Se, e Se manifestar em forma de muitos. É infinita a variedade de formas que Deus passa a criar e apresentar de Si mesmo. E é nesse "ponto" que surge o homem. E é exatamente nesse “ponto” que, agora, algo precisa ser dito. Algumas coisas muito importantes precisam ser compreendidas: Quando nasce a alma? Em que momento da história da criação de Deus esse acontecimento de "Deus escolher Se individualizar e Se manifestar" acontece? A resposta é: "a todo momento!".

A história do Gênesis é somente uma alegoria criada para revelar o que está acontecendo, a cada instante, com cada uma das consciências individuais criadas por Deus. Não se trata de algo que aconteceu em algum momento do passado; o Gênesis descreve o que está acontecendo a cada instante; o Gênesis está acontecendo AGORA. A cada momento vivido, o homem está nascendo, está sendo criado e manifestado por Deus. Por que “a cada instante”? Como é possível ao Gênesis estar ocorrendo a cada momento? É possível compreender isso, se entendermos corretamente o significado do que venha a ser o “Agora”.

“Agora” é uma palavra quântica; e em seu sentido espiritual ela procura transmitir o significado de ser um fenômeno quântico. Significa que, assim como Deus, o Agora está livre, desvinculado, desconectado de toda e qualquer espécie de coisas. Isso faz com que possamos dizer: "O Agora é! O Agora é o que é". E nada mais pode ser dito sobre ele - absolutamente nada -, não há coisa alguma que possa ser usada como pretexto para explicar ou justificar o que existe e está inserido dentro do É.

A cada momento o homem está nascendo - e está nascendo pela primeira vez! O homem está sendo constantemente re-criado por Deus. Ele morre e renasce a cada instante, a cada "Agora". O homem só existe Agora! E o que existe Agora nada tem a ver com o que estava existindo no Agora anterior. No plano da superfície parece haver continuidade, mas não é assim. Quando um "Agora" se vai, ele se vai totalmente, não sobrou nada dele, de modo que nada permanece - nem mesmo o rastro. O Agora nunca é uma existência alterada, transformada, modificada a partir do anterior. Não há elos. A Realidade mostra que cada "Agora" existe isolado. Compreender isso lhe dá condições de entender o sentido espiritual do verbo "é". Quando se diz espiritualmente que algo é -- que Deus é, que a Sabedoria é, que o Amor é, que a Harmonia é, que a Vida é -- essas afirmações são feitas a partir desta compreensão espiritual sobre o Agora.

Mas a visão que o mundo conserva do “Agora” é a de que ele vem a ser um instante inserido no contexto linear de tempo (passado, presente e futuro). O mundo apresenta um conceito linear de tempo, e por isso enxerga o “Agora” de uma maneira completamente distorcida. O “agora” mundano nada mais é que o “presente” existente na linearidade do tempo. E o Agora espiritual é não-linear: ele é descontínuo, é desconexo, é quântico, e possui uma qualidade e significado diametralmente opostos àquilo que o mundo conhece e chama de “agora”. É importante ter essa visão em mente. A velha noção acerca do Agora precisa ser abandonada, e o entendimento de um "Agora" descontínuo deve ser conservado na mente. Por que "na mente"? Porque a nós nada é possível ser feito ou percebido sem a mente. Tudo o que existe de Real no Universo existe eternamente, existe intacto, sem nunca mudar. E dependendo do conceito ou idéia (crença) que a mente mantém do Universo que vê, ela distorce a Realidade com que está em contato e a vê segundo suas próprias noções, conceitos, idéias, crenças. A mente que apresenta a distorção da Realidade é semelhante a um espelho embaçado; para que ele possa refletir fielmente a Verdade/Realidade, precisa limpar-se completamente de seus conceitos, suas crenças, idéias. Quando isso é feito, a mente torna-se um espelho límpido, transparente como vidro cristalino, e assim a Realidade, a Verdade, poderá ser percebida pela mente tal como existe verdadeiramente.

O olhar que o mundo conserva do Agora faz com que a mente coletiva da humanidade tenha uma compreensão errada, distorcida; o mundo alimenta a crença/idéia de que cada momento do tempo existe alinhadamente, de modo que o momento presente esteja de alguma forma relacionado ao momento anterior. Isso retira do Agora a liberdade e o poder absolutos que lhe são inerentes, cria para ele uma relação de dependência para com "coisas passadas". E se o homem, com sua mente individual, não conscientizar-se de tal crença coletiva que a humanidade alimenta, e não fizer esforços conscienciais, direcionando-os em sentido contrário, acabará por ser carregado pelas correntezas da mente coletiva, ficando preso às limitadas percepções/compreensões que a humanidade possui do mundo. E permanecerá imerso nessa ignorância junto com a humanidade até que desperte e realize esforços no sentido contrário às crenças e idéias do mundo. O homem pode libertar-se de seu passado a qualquer momento, assim que erradicar as crenças e idéias errôneas que possui arraigadas no fundo da mente. O homem existe em um estado de absoluta liberdade - apenas não sabe disso. E quando, afinal, ele compreender e souber que a Verdade é que ele existe em estado de absoluta liberdade, poderá libertar-se de todas as limitações (as quais ele próprio se agarrava/ segurava em sua mente) e desfrutar de tudo o que já existe na Realidade que Jesus chamou de "Reino de Deus", que já está preparado/pronto "desde o princípio dos tempos". Mas para isso, é importante que o homem compreenda e aceite totalmente a idéia e o sentido de que o Agora é descontínuo, e portanto completamente desvinculado de qualquer acontecimento do passado.

O tempo só existe quando o homem pensa nele em termos de continuidade, linearidade. Não há sentido em se falar de "tempo" quando se compreende que o Agora é não-linear, descontínuo, desconexo, isolado, livre, independente - o tempo simplesmente não existe. O homem que realiza esta compreensão desagarra-se e sai fora da idéia de "tempo", transcende a crença alimentada pela mente coletiva da humanidade, e percebe que, na realidade, o tempo não existe. E passa a viver no eterno Agora.

Tudo isso foi dito apenas por um único motivo: fazê-lo compreender que a existência, o Universo inteiro, está sendo criado por Deus, a cada instante. A cada instante (que na verdade não existe, pois só o Agora existe) Deus está criando o homem e pedindo "não coma da fruto da árvore do conhecimento". E se Agora você escolher "não comer" do fruto, então você não se esquecerá de Deus, então você não se esquecerá de "Quem você é". Você não será "expulso do Jardim do Éden", você permanecerá nele. E estará vivendo aquele estado de ser - de total liberdade, e de total bem-aventurança - que os ensinamentos espirituais chamam "Iluminação". A Iluminação é possível ser atingida a qualquer momento - só pode ser atingida Agora! Esses são os mistérios da existência. O Gênesis está acontecendo na história da criação exatamente Agora. Exatamente Agora, Deus está criando a sua Criação - e pela primeira vez. Entenda isto! PELA PRIMEIRA VEZ! E liberte-se das amarras do tempo! Aprofunde-se nessa percepção, contemplando-a, até finalmente perceber que Deus cria o Universo apenas uma vez: AGORA.