"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, dezembro 26, 2019

A Verdade da Budificação do Homem - 5/7

- Masaharu Taniguchi -


Além disso, assume as figuras de divindade Vajradhara, de bodisatva Samantabhadra, de bodisatva Padmapani e dentre outros, e as manifesta em todo o Universo, pregando palavras da Verdade e frases puras da Verdade. (Sutra do Grande Sol)

Comentei anteriormente que os diversos bodisatvas constituem o assento leonino de Buda e que este está manifestado nos bodisatvas. Mas as divindades tais como Vajradhara – que é uma espécie de anjo que protege as leis búdicas, tendo na mão a espada diamantina da sabedoria – também são manifestações da unidade e da igualdade dos três mistérios, isto é, das ações corporais, verbais e mentais de Buda. Este não tem opositores. Tudo e todos são manifestações da grande Vida do próprio Buda. É o mundo monista de Buda (ou seja, tudo é Buda e tudo é manifestação de Buda). Buda não tem oposição. Oposição é falsa aparência. Buda envolve dentro de si as confrontações. Olhando do ângulo do absoluto, a confrontação não existe. É como se olhássemos os dedos da mão. Do ponto de vista dos dedos, há confrontação. O polegar e o indicador se confrontam. Porém, visto pela Vida do homem, o polegar, o indicador, o dedo médio e os demais dedos constituem Ela própria (a própria Vida do homem), e portanto, não há confronto. Cada um da humanidade é como cada um dos dedos. Os dedos se confrontam entre si, assim como os seres humanos. Mas cada um de nossos dedos é autoexpressão, autorrealização e meio de atuação de nossa própria Vida. Do mesmo modo, visto por Buda, cada uma das pessoas da humanidade é autorrealização, autoexpressão e meio da atuação do próprio Buda. Buda vive aqui, agora, em nós. A vida presente em nós é Buda. É Buda que vive aqui. Conscientizar esse fato é o despertar. Fechar os olhos para esse fato, ignorá-lo e pensar em outras coisas constitui ilusão.

Todas as ações corporais, todas as ações verbais e todas as ações mentais estão pregando palavras da Verdade e frases sobre o Caminho, em todos os lugares e em todos os tempos, no mundo dos seres sensíveis. (Sutra do Grande Sol)

Como se vê, as ações corporais (vibrações que o corpo manifesta), as ações verbais (vibrações verbais) e as ações mentais (vibrações mentais) de Vairocana, que é a Grande Vida do Universo, estão vibrando em todos os lugares, em todas as mentes e em todos os seres sensíveis (todos os seres viventes). A esse fato de estarem vibrando, a referida sutra diz "estão pregando". Como diz o trecho da sutra, é a vibração de palavras da Verdade e "frases sobre o Caminho". Resumindo, significa que as ações, as leis e as palavras da Vida de Buda estão vibrando e repercutindo em todos os lugares, em todos os momentos e no interior de todos os seres viventes.

Conscientizar Buda que se aloja dentro de nós, isto é, Buda que vive aqui, neste corpo, no estado presente – conduzir a esta conscientização é a função do budismo esotérico Shingon, e isso se assemelha muito à fé em "Cristo que se aloja em nós" que o Dr. Harvey Hardman pregou em suas Teologia e Psicologia, a qual apresentei aqui, no Japão. A fé nesse esoterismo traz benefícios ao mundo atual, e vi perfeita identificação entre o budismo esotérico e o cristianismo de Hardman.

A substância da Grande Vida do Universo (Buda) "assume as figuras de divindades Vajradhara, de bodisatva Fugen (Samantabdhara), de bodisatva Rengeshu (Padmapani) e outras e as manifesta em todo o Universo, pregando palavras da Verdade e frases sobre o Caminho" (Sutra do Grande Sol).

Sobre Vajradhara, já expliquei antes. Quando ao bodisatva Fugen (Samantabdhara), é um erro pensar que ele seja um bodisatva com aspecto humano. No primeiro volume do Dainichi-Kyôsho, está escrito: "Fu significa onipresente. Gen significa o bem supremo. Seus votos e suas práticas para alcançar o despertar, e também seu corpo, sua palavra e seu pensamento são todos iguais e estão presentes em todos os lugares. Fugen é o bem supremo e puro e é plenamente dotado de virtudes". Em outras palavras, Fugen é a expressão personificada das virtudes maravilhosas de Buda-Vairocana que preenchem todos os lugares.

Samantabdhara Sutra diz que o bodisatva Fugen está sentado no assento feito de citámani colocado no dorso do elefante branco de seis marfins, e isso simboliza o fato de que ele é um bodisatva dotado de seis poderes paranormais (clarividência, clariaudiência, leitura de pensamento, profecia, bilocação e poder de eliminar paixões mundanais) e capaz de fazer acontecer tudo, conforme sua vontade. Objetivamente, ele é um corpo-expediente com que Buda protege a humanidade, mas, como ele é onipresente, está presente inclusive dentro de nós, como Deus interior e transcendente. Por conseguinte, cada um de nós é bodisatva Fugen. Este é o significado arcano (secreto, misterioso) do esoterismo. Para experienciarmos o fato de que somos Buda assim mesmo como somos, precisamos visualizar introspectivamente que nós próprios somos bodisatva Fugen. A Sutra do Lótus prega que a duração da vida de Buda é eterna, e que a vida do ser humano também não difere da de Buda. E, para realizar essa Imagem Verdadeira, recomenda a seguinte prece meditativa: "Visualize o bodisatva Fugen a todo momento, dia e noite".

A mente que contempla uma flor torna-se ela própria uma flor. A mente que contempla o bodisatva Fugen torna-se bodisatva Fugen. A mente humana, se visualizar o mortal, torna-se mortal. Se visualizar Buda, torna-se Buda. Se visualizar os pecados alheios, ela própria se torna pecadora. Se ficar olhando apenas o mundo dos mortais, realizar-se-á um mundo cheio de problemas e conflitos. Por isso, não se deve visualizar o mundo humano cheio de conflitos. É necessária a mudança de visão. Se Sudhana (Zenzai Dôji) entrou repentinamente no mirante cujo portão se abriu com o estalido dos dedos de Maitreya, foi devido ao poder da visão.

Quando a bodisatva Padmapani, trata-se de Avalokitésvara (Kanzeon Bosatsu) que segura um botão de lótus em sua mão direita. Enquanto Fugen-bosatsu (bodisatva Samantabdhara) é expressão da virtude racional de Buda-Vairocana, Padmapani é expressão da virtude da misericórdia de Buda. A Sutra do Grande Sol aborda primeiramente três santos do budismo, a saber: Vajradhara (Shukongô), Samantabdhara (Fugen-bosatsu) e Avalokitésvara (Kanzeon bosatsu). Isso porque todas as virtudes de Buda-Vairocana estão representadas por esses três santos.

As virtudes maravilhosas da Imagem Verdadeira são representadas por Fugen-bosatsu; a força de sabedoria para dominar as ilusões é representada por Shukongô; e a virtude da misericórdia para eliminar sofrimentos é representada por Kanzeon Bosatsu. Eles se manifestam com seu respectivo corpo-expediente, de forma adequada para salvar a humanidade, de modo a melhorar o seu caráter e seus desejos. Porém, na verdade, eles estão dentro de nós, como Deus interior e transcendente. Logo, tanto Shukongô, quanto Fugen-bosatsu e também Kanzeon bosatsu estão no interior da mente do ser humano. Nós próprios somos Shukongô bosatsu, Fugen-bosatsu e Kanzeon bosatsu. Mas, para quem não consegue acreditar nisso, eles aparecem com aspectos de terceiros, como expediente.

Entre os Shujongô (existem vários graus de Shukongô), o mais elevado é o Himitsushu (o senhor dos segredos).

Nesse momento, o Shukongô-Himitsushu, durante a reunião, posta-se diante de Buda e lhe pergunta: "Por que Vairocana obtém a sabedoria de todas as sabedorias?". A resposta: "Ele obtém a sabedoria de todas as sabedorias para divulga-la amplamente, pelo bem de uma infinidade de pessoas da humanidade; propaga-a utilizando diversos expedientes, de acordo com as diversas tendências e os diversos desejos carnais das pessoas". (Sutra do Grande Sol)

"Sabedoria de todas as sabedorias" é tradução do sânscrito sarvajuána e significa a sabedoria mais elevada entre todas as sabedorias. É a sabedoria que permite conhecer cabalmente todas as existências e, ao mesmo tempo, é a sabedoria da Imagem Verdadeira com que Buda desperta a si próprio. "Todas as existências" englobam todos os fenômenos experienciais, todas as coisas e todos os fatos do mundo fenomênico, ideias e conceitos.

Bem, iniciou-se um diálogo entre Himitsushu e Buda, mas é um diálogo fictício. Na verdade, Himitsushu disseca e esclarece com sua espada da sabedoria a Verdade secreta de Buda. Desse ponto de vista, podemos dizer que a Sutra do Grande Sol é uma criação. De fato, não existe nenhum registro de anotação do suposto diálogo entre Buda e Himitsushu. O mestre Kobo, referindo-se à Sutra do Grande Sol, em que baseia a teoria de budificação do homem, e à Sutra Vajrasekhara, explica em sua obra Interpretação das Sutras Principais que as duas sutras acima referidas são a base dos ensinamentos secretos de Buda, extraídos pelo bodisatva Nagarjuna de dentro da Torre de Ferro de Nanten (céu do sul)".

E o que é a Torre de Ferro de Nanten? O mestre Kobo diz: "Essa torre não é feita por força humana; é feita pelo divino poder de Buda". Pelo visto, a Torre de Ferro de Nanten não é uma existência objetiva fora de nossa mente, e sim uma existência interna da mente de quem a compreendeu, isto é, uma torre intramental. Por isso, o fato de bodisatva Nagarjuna ter aberto a Torre de Ferro e transmitido as referidas sutras significa que o próprio Nagarjuna-bodisatva abriu a Torre de Ferro intramental de Buda Vairocana (Grande Vida do Universo), isto é, abriu o indestrutível mundo da Imagem Verdadeira. Isso tem o mesmo significado de Nagarjuna ter entrado no Palácio do Reino do Mar e trazido de lá a Avatamsaka Sutra. A Torre de Ferro de Nanten e o Palácio do Fundo do Mar são, ambos, o mesmo mundo da Imagem Verdadeira. Ao fato de intuir o verbo da Imagem Verdadeira e expressá-lo, diz-se obtê-lo na Torre de Ferro de Nanten ou buscá-lo no Palácio do Reino do Mar.

Bodisatva Nagarjuna nasceu setecentos anos após o desencarne de Sakyamuni, e é dito que na época ainda não existia na face da Terra nenhuma sutra do budismo mahayana. Por essa razão, pode-se dizer que o budismo mahayana é criação de Nagarjuna-bodisatva. Porém, Sakyamuni, Nagarjuna e todos os outros grande bodisatvas são corpos-expecientes pelos quais se manifesta Buda Vairocana. Assim sendo, mahayana e hinayana devem ser englobados sob a denominação de budismo. Mesmo que a investigação histórica não possa confirmar que Sakyamuni físico pregou o budismo mahayana, não há necessidade de apregoar a teoria de que mahayana não foi pregada por Sakyamuni.

Se compreendermos a Verdade antes explicada – de que todo ser humano, na sua Imagem Verdadeira, é manifestação de Buda Vairocana –, poderemos abrir a porta da Torre de Ferro ou do Palácio do Reino do Mar imanente na nossa Imagem Verdadeira e compreender a Imagem Verdadeira de nós mesmos e que estamos no mundo indestrutível do paraíso secreto. Compreenderemos que, na Imagem Verdadeira, nós próprios somos Shukongô, somos Fugen-bosatsu e somos Kanzeon Bosatsu. O mundo da Imagem Verdadeira é chamado de "Mundo secreto" porque é um mundo majestoso e misterioso, oculto aos cinco sentidos. E o ensinamento que desvendou esse mundo secreto é esoterismo.

Concluindo, o diálogo entre Buda Vairocana e Himitsushu citado nas sutras Kongô-chô-kyô e Dainichi-Kyô que Nagarjuna trouxe da Torre de Ferro de Nanten – esse diálogo é a expressão da Verdade que o próprio bodisatva Nagarjuna compreendeu internamente e expressou em forma de diálogo.

Buda, para salvar a humanidade, manifesta ora o corpo de Buda, ora o de srávaka (aquele que ouve os ensinamentos), ora do de pratyekabudha (aquele que compreendeu a verdade de causa e efeito), ora o de bodisatva, ora o de brahma (uma das divindades do Bramanismo), ora o de narayana (divindade que combate o mal e protege o bem), ora o de vaisravana (divindade protetora dos mundos do norte), ora o de demônio, de humano, de desumano (ser inferior ao humano) etc., de acordo com o som verbal de cada um. (Dainichi-kyô)

Este texto mostra a visão religiosa de Nagarjuna, segundo a qual todas as religiões têm a mesma origem, afirmando que Buda Vairocana assume a forma de diferentes bodisatvas e líderes religiosos para pregar a Verdade e mostrando que todas as religiões são expedientes doutrinários de Buda Vairocana (Deus).

Se um fundador de religião (seja ele Sakyamuni ou Jesus) prega o seu ensinamento e quem o ouve alcança a salvação, como isso é possível? É porque a essência da Vida das pessoas e a essência da Vida de Deus (ou de Buda) é um coisa só. Se a budificação do homem é possível, é unicamente porque o homem e Buda são um só corpo.

Se existe unidade até entre as pessoas e Buda, não é possível que não haja unidade entre os fundadores de religião ou líderes religiosos. É uma tolice muito grande os fundadores ou líderes religiosos incitarem conflitos religiosos, considerando-se um alheio ao outro.

Se o paraíso é o estado conscientizado na mente de Buda, o ser humano também conscientizando a sua essência, deverá concretizar o paraíso. Se isso não ocorre, é porque ele não a vê. Basta mudar a visão, que ele despertará para a Verdade de que o ser humano e Buda constituem um só corpo. em outras palavras, compreenderá que ele já é Buda, assim mesmo como é. Por isso a sutra Dainichi-kyô diz:

Além disso, o caminho de todas as sabedorias é um só, o da libertação por Buda.

O primeiro volume do Dainichi-kyô, interpretando a citação acima, diz: "A sutra diz que o caminho de todas as sabedorias é um só, o da libertação por Buda. A razão disso é que a Imagem Verdadeira de toda a humanidade é, desde o princípio, a sabedoria imparcial (a suprema sabedoria segundo a qual todos, imparcialmente, sem distinção, possuem natureza búdica) de Vairocana. Buda, com seu espírito imparcial, desenvolveu a grande mandala (um desenho que simboliza o estado do despertar de Buda, contendo figuras de budas, bodisatvas e divindades) infinitamente majestosa na mente imparcial da humanidade". Isso quer dizer que Vairocana manifesta os budas imanentes dentro dele em forma de majestosa e grande mandala do mundo diamantino (Mundo diamantino é a manifestação as sabedoria de Vairocana, em contraposição ao mundo uterino, que é a manifestação da misericórdia de Vairocana) e, invertendo-a utiliza-a para desenvolver a semente de Buda (Imagem Verdadeira) da humanidade.

Explicando melhor, isso significa que os budas do mundo diamantino se alojam dentro de nós como budas do mundo uterino (mundo já explicado acima), para promover a germinação e crescimento de nossa semente búdica. A imagem do mundo diamantino concebido por Vairocana e a do mundo uterino dos budas imanentes na humanidade – mandala – são uma coisa só e indivisíveis. Por isso, da mesma forma como nossa imagem fica clara diante de um espelho, o Buda interior – Imagem Verdadeira – da humanidade fica evidente diante da luz de Vairocana, e dessa forma o homem se realiza como Buda "assim mesmo como ele é".

Então, o que fazer, na prática, para o homem se realizar como Buda assim mesmo como é? Como já disse várias vezes, se não se manifesta a Imagem Verdadeira na qual o homem já é Buda, é porque ele não a visualiza, não a mentaliza. Ver (visualizar) é manifestar. Mentalizar é criar forma. Mesmo que, na realidade, o indivíduo esteja dormindo num colchão de ouro, se a sua mente, não vê essa realidade e, sonhando pensa que é um mendigo maltrapilho perambulando pelas ruas, só poderá experienciar a vida de mendigo maltrapilho durante o sonho.

Se nós, seres humanos, perambulamos na vida como seres carnais sujeitos à pobreza, à doença, à velhice e à morte, é porque perambulamos em ilusão no sonho chamado cinco sentidos. Mas, quando despertamos do sonho e vemos o nosso corpo da Imagem Verdadeira, percebemos que este corpo, neste mesmo estado, é Buda Vairocana, é bodisatva Fugen.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 206-217

sábado, dezembro 21, 2019

A Verdade da Budificação do Homem - 4/7

- Masaharu Taniguchi -


Os adamantinos se reuniram todos (Mahavairocana Sutra ou Sutra do Grande Sol)

Voltemos ao Palácio Diamantino e vasto, protegido por Buda. Ali "reuniram-se todos os adamantinos", além de inúmeros bodisatvas. Mahavairocana-Buda no centro, seu assento leonino formado de diversos bodisatvas, e em seu redor uma infinidade de adamantinos brilhando como as estrelas. Imaginem essa cena majestosa. Assim é o mundo da Imagem Verdadeira.

"Diamantino" é símbolo da sabedoria de Buda. Como a sabedoria de Buda é infinita, o número de diamantes também é infinito. E os adamantinos, que são possuidores desses diamantes e expressões da sabedoria de Buda, também existem em número incontável. Eles têm a figura de um lutador robusto, de fisionomia valente, a parte superior do corpo nua, segurando uma espada de sabedoria como que protegendo Buda. Toda a vista do mundo da Imagem Verdadeira, inclusive os bodisatvas e adamantinos, tudo é expressão do poder sábio, versátil e misterioso de Buda.

O dia búdico, que transcende os três tempos, e a igualdade entre o corpo, a palavra e o pensamento são a porta de entrada para a Verdade (Sutra do Grande Sol)

A referida reunião ocorreu num momento que transcende o tempo do mundo fenomênico. É por isso que está escrito "O dia de Buda, que transcende os três tempos" (passado, presente e futuro). Não uma determinada hora, mas agora, aqui,  é o dia de Buda.  É o agora eterno.

No primeiro volume do Dainichi Kyosho (Interpretação da Mahavairocana Sutra), de autoria de Ichigyo, consta:

Esse dia do Jissô (Imagem Verdadeira) é claro e eterno, puro e calmo como o firmamento, e nele não há diferença entre o tempo curto e longo.

Se mudarmos a visão agora, aqui e já, podemos entrar instantaneamente no vasto palácio do mundo da Imagem Verdadeira mostrado por Maitreya. O problema é como mudar a visão. Para isso, é necessária a concordância dos três carmas, isto é, carma corporal, verbal e mental. A isso, o esoterismo Shingon chama de "adequação dos três mistérios". Nós costumamos pensar em corpo, palavra e pensamento, separando-os em três elementos, mas, na verdade, no espírito de Buda, o corpo, a palavra e o pensamento constituem um só elemento, no mesmo tempo e no mesmo lugar. Por isso, a mencionada sutra diz "igualdade entre o corpo, a palavra e o pensamento". Mentalmente, nós separamos em corpo, palavra e pensamento aquilo que é originariamente um só elemento, e depois os reunimos mentalmente em um só elemento. Isto é, praticamos com o corpo a vontade de Buda, pronunciamos com a boca as palavras da Verdade e afirmamos em pensamento as palavras de Buda. Quando, dessa forma, os três elementos se tornam um só elemento, as vibrações mentais da misericórdia de Buda se concretizam em nós, e este corpo, assim mesmo como é, torna-se um com Buda, isto é, realizamo-nos como Buda.

Buda Vairocana, pelo seu poder de amor, entra em estado leonino de concentração mental e manifesta o seu corpo magnífico (Sutra do Grande Sol)

Este trecho refere-se ao momento em que Buda-Vairocana entrou em estado leonino de concentração mental e manifestou o seu majestoso corpo da Imagem Verdadeira conscientizado internamente. Sobre esse fato, a interpretação da Sutra do Grande Sol, diz:

Vairocana manifesta o seu corpo protetor em cada um dos infinitos mundos de todo o Universo. E em cada um de seus corpos existem dez terras búdicas, uma infinidade de bodisatvas e uma multidão de adamantinos; e o poder polivalente e a bela fisionomia de todas essas multidões também são infinitos, tanto que preenchem todo o Universo tal como óleo de sésamo, sem deixar espaço vazio.

O corpo protetor búdico (corpo expediente, que é manifestação das ondas mentais de amor com que Buda protege a humanidade) é infinito em tamanho e quantidade, aparecendo em todas as partes, mas ele não é visível às pessoas de estado mental diferente. Buda se encontra agora, aqui e em todas as partes. A Avatamsaka Sutra também diz: "sem sair de seu lugar, subiu ao pico da montanha Shumisen".

Certa feita, o bodisatva Jogaishô (aquele que elimina obstáculos) quis saber o tamanho de Buda e pediu ao Mahamaudgalyayana para medi-lo. Essa passagem consta no primeiro volume do Dainichi Kyôsho: Mahamaudgalyayana subiu até o Jobongu, que fica na última camada de Shozenten (mundo celeste onde não há olfato, nem gustação, havendo apenas visão, audição, tato e percepção mental), e olhou para Buda, mas este continuava diante dos seus olhos, do mesmo jeito. A sua postura, a sua voz de pregação e outros detalhes continuavam exatamente iguais, sem alteração alguma. Mahamaudgalyayana usou todo o seu poder sobrenatural e foi bem longe, até outras terras búdicas, mas Buda continuava diante de seus olhos, do mesmo modo. Por mais longe que fosse, não foi possível medir o corpo de Buda, porque ele é infinito. Então, o bodisatva Jogaishô foi ele mesmo observar: atravessou mundos tão numerosos quanto os grãos de areia do rio Ganges, mas, cada vez que ele parava para olhar, via Buda fazendo pregação do mesmo jeito, diante de seus olhos. Ainda atravessou todo o Universo e foi até onde seu poder sobrenatural possibilitasse, mas Buda continuava do mesmo jeito diante dele. Isso mostra que Buda-Vairocana é a Vida central do Universo, e, como tal, identifica-se com Deus do cristianismo, que é onipresente. Não devemos pensar que Buda seja um ser antagônico a Deus apenas por causa da denominação diferente.

Assim, manifesta energeticamente o seu corpo imensurável e majestoso, no qual a palavra e a mente são iguais. Mas a palavra ou a mente não surge do corpo de Buda-Vairocana. Este pode aparecer e desaparecer em todo e qualquer lugar ilimitadamente. (Sutra do Grande Sol)

Aqui diz que Buda-Vairocana manifesta o seu corpo majestoso, sem limite e indestrutível, e isso é devido à ação ilimitada e grandiosa da unidade e da igualdade entre o corpo, a palavra e a mente. As suas palavras e o seu pensamento não são produzidos pelo corpo, como acontece com o homem, que pronuncia as palavras com a boca e produz os pensamentos por meio de vibração dos neurônios. Onde está presente o corpo de Buda-Vairocana existem, ao mesmo tempo, as suas palavras e o seu pensamento. O corpo, as palavras e o pensamento de Buda preenchem o Universo de modo uno e igual, sem limitação.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 200-206

terça-feira, dezembro 17, 2019

A Verdade da Budificação do Homem - 3/7

- Masaharu Taniguchi -


A seguir, vou fazer uma tradução ideológica de uma parte da Avatamsaka Sutra:

Foi quando Sakyamuni fez pregação no majestoso Templo de Teto Duplo na cidade de Sravasti. O Templo de Teto Duplo, visto do mundo fenomênico, parece uma construção simples e pobre, onde monges pobres ouvem a pregação de Sakyamuni, mas, visto do Mundo da Imagem verdadeira, é um templo infinitamente majestoso, infinitamente grande, onde uma infinidade de bodisatvas estão ouvindo a pregação. Quem não compreende isso não compreende a Avatamsaka Sutra. A imagem do mundo fenomênico e a imagem do mundo da Imagem Verdadeira estão sobrepostas, mas quem não abre os olhos da sabedoria para ver a Imagem Verdadeira não enxerga o panorama majestoso, mesmo que queira vê-lo, nem ouve o seu som, mesmo que queira ouvi-lo. Os dois mundos coexistem sobrepostos, da mesma forma como as ondas de transmissão da emissora A e as da emissora B coexistem no mesmo espaço. Quem sintoniza as ondas da emissora A acessa a sua programação. Quem sintoniza as ondas da emissora B vê ou ouve o programa da emissora B. As ondas do mundo fenomênico e as ondas do mundo da Imagem Verdadeira coexistem como se estivessem sobrepostas, umas sobre as outras. É por isso que o referido templo é chamado de "teto duplo", e vemos apenas o lado com o qual sintonizamos as nossas ondas mentais. "Teto duplo" não significa simplesmente que o templo possui dois tetos sobrepostos.

A física moderna reduziu a ondas todos os fenômenos. Nossa mente, utilizando os órgãos visuais, transforma as ondas recebidas em formas visíveis. Se a nossa mente não fizer isso, as formas não vão aparecer. O mundo visto por um sapo e o mundo visto por um ser humano são diferentes, apesar de estarem olhando o mesmo mundo no mesmo espaço. É como se dois aparelhos de rádio colocados no mesmo ambiente captassem, cada um, programas diferentes um do outro.

Os seres vivos, sejam eles sapos ou humanos, são todos um aparelho receptor vivo, cada um com sua respectiva frequência. Até as pessoas (A, B, C, etc.) que vivem no mesmo lar manifestam vidas diferentes umas das outras, umas tendo uma vida paradisíaca, e outras, uma vida infernal.

O próprio Sakyamuni, visto com os olhos sintonizados apenas no mundo fenomênico, não passa de um monge hindu, com cabelos encarapinhados. Porém, quando sintonizamos nossa mente com a Imagem Verdadeira, Sakyamuni é Buda, com sua luz iluminando tudo e todos. Buda não é um indivíduo; ele se aloja em nosso interior como Vida interna de toda a humanidade; é a fonte da felicidade interna de toda a humanidade, que gera do nosso interior todas as coisas boas. Em termos cristãos, é o "Cristo Interno" ou "Cristo que está em vós". Mas ele não é visível para quem ainda não abriu os olhos da mente e cuja frequência mental não está sintonizada com ele.

Contudo, o público reunido no Templo do Teto Duplo desejou que a majestosa Imagem Verdadeira fosse mostrada inclusive para os que ainda não tinham olhos mentais abertos, nem aprimoramento suficiente para sintonizar com suas ondas mentais. Então eles mentalizaram:

"Ó Buda, vossa luz ilumina tudo; vós entrais livremente em todos os seres e sois a fonte da suprema felicidade para todas as criaturas. Derramai vossa bênção sobre toda a humanidade, utilizando vossos poderes corporais e mentais, mostrai-nos concretamente a cena em que já estamos salvos por vós".

Nesse momento, Sakyamuni-Buda percebeu o desejo da multidão e entrou em estado de concentração leonina. "Concentração leonina" significa concentração mental energética e poderosa. Quando o rei dos animais (leão) urra, todos os outros animais estremecem e emudecem. Da mesma forma, quando Buda, que é considerado o rei dos seres humanos e celestiais, emite energeticamente as poderosas ondas espirituais da Imagem Verdadeira, emudecem as vibrações de ilusão da humanidade, e se manifesta unicamente a Imagem Verdadeira.

Quando uma emissora de rádio transmite algum programa através de poderosas ondas eletromagnéticas, as demais transmissões de ondas mais fracas são anuladas, manifestando-se apenas o programa de ondas poderosas. Analogamente, quando Buda concentra sua mente de modo energético como um leão, as ondas mentais de ilusão do mundo fenomênico são anuladas, e manifesta-se apenas o aspecto majestoso do mundo da Imagem Verdadeira.

A cena do momento em que aparece a configuração do mundo da Imagem Verdadeira está descrita na Avatamsaka Sutra como segue:

Quando Buda acabou de entrar em estado de concentração, apareceu subitamente o Templo de Teto Duplo majestoso, infinitamente vasto e indestrutível.

O Templo de teto Duplo, que até então se apresentava como um simples edifício de dois tetos no mundo fenomênico, subitamente se transformou em mundo paradisíaco, majestoso, infinitamente vasto e eternamente indestrutível. Essa descrição coincide exatamente com a Sutra do Grande Sol, onde se diz: "O grande templo manifestado pelo misterioso poder de Buda é infinitamente alto e não tem limitações".

O termo "subitamente", aqui usado, não tem o simples significado de imediatamente ou logo. Esse advérbio, em japonês, é composto de dois ideogramas que significam respectivamente sem ação e mente. Portanto, esse advérbio é algo que a mente não consegue definir. Logo, a súbita transformação retro mencionada é inexplicável. Esse é o significado de "subitamente se transformou".

No teatro, quando gira o palco giratório, vemos a sequência em que desaparece um cenário e aparece outro. Mas, quando o palco não gira e o cenário muda de repente como num passe de mágica, não vemos o processo nem a sequência de transformação. A isso se diz "transformação súbita". Quando uma doença se cura repentinamente sem que percebamos o processo de cura, dizemos que ocorreu "cura súbita". De modo análogo, quando Sakyamuni-Buda entrou energeticamente em estado de concentração mental, desapareceu a imagem do Templo de Teto Duplo e surgiu a majestosa cena do mundo da Imagem Verdadeira, como se o cenário do teatro fosse mudado rapidamente no escuro. Essa cena, descrita na Avatamsaka Sutra, traduzida em termos modernos e fáceis, seria como segue:

O solo é límpido como diamante e é infinitamente majestoso. Ele está forrado de uma infinidade de citámani (espécie de pérola mágica que tem o poder de atrair as coisas desejáveis e afastar coisas indesejáveis), tal como um pátio forrado de cascalho. Desabrocham, por toda parte, maravilhosas e belas flores. Dessas flores caem sublimes pedras preciosas como se fossem pólen. Erguem-se colunas de safira, as quais são majestosamente ornadas de límpidas pedras preciosas. Sua quantidade é incontável e estão incrustadas minuciosamente, quase sem deixar espaços. O palácio é construído reunindo todos os tesouros existentes no mundo. É ornamentado majestosamente com balaústres e corrimões admiráveis e cercado de muralhas altas. Tesouros indestrutíveis, provenientes de diversos seres celestiais, são utilizados para decorá-lo. O seu teto é coberto por tela tecida de citámani resplandecentes. São hasteados vários pendões. Tem-se a impressão de que todo o recinto está coberto com uma grande rede de luz. As demais partes estão respectivamente ornadas com joias sublimes. As escadarias ao redor são feitas de tesouros variados (...).

Esta é a cena do Templo de Teto Duplo, visto do ângulo da Imagem Verdadeira. Além disso, temos a paisagem do arrebalde como segue:

O bosque Seitarin, que até então se mostrava um pequeno bosque ao redor do Mosteiro Guion-Shôja, subitamente se amplia. Sua amplitude é infinita, do mesmo modo que outras incontáveis terras búdicas. É ornado de inumeráveis tesouros. Tesouros indescritíveis por toda a parte. As cercas são feitas de materiais preciosos. Nas duas margens das estradas, estão plantadas preciosas árvores de talá, formando belas alamedas. No leito do rio, corre perfume quase transbordando, e suas ondas parecem flores feitas de pedras preciosas. O som das ondas é pregação dos ensinamentos de Buda. As flores de nenúfar, cuja beleza supera a imaginação, cobrem a superfície da água. As árvores preciosas que se erguem à sua margem estão carregadas de lindas flores. Ali se ergue um belo castelo de variados andares e, para torna-lo ainda mais belo, uma tela tecida de citámani o cobre como um véu. Além disso, jóias de beleza indescritível enfeitam todos os cantos, e a sua luz ilumina toda parte. O solo é majestosamente forrado com uma infinidade de citámani. O ambiente é perfumado com inúmeros incensos suaves. Inúmeras faixas verticais de seda, bordadas com fios dourados e magníficas pedras, pendem como se fossem cortinas celestiais. O céu é decorado com nuvens variadas tais como cirros-cúmulos, cúmulos-nimbos e fumos de avião, todas elas emitindo luzes esplêndidas. Elas emitem também música sublime que supera qualquer som produzido por instrumentos deste mundo, como que louvando a Buda. Outros inúmeros tesouros flutuam no céu, colocados sobre almofadas de nuvens que se estendem na planície celeste...

Este é o espetáculo que se manifestou quando Sakyamuni-Buda entrou em estado de concentração leonina. Assim é a cena do mundo da Imagem Verdadeira. Porém, naquele momento, os dez grandes discípulos de Sakyamuni não viram esse espetáculo. A Avatamsaka Sutra continua dizendo:

Nesse momento, os grandes discípulos como Sariputra, Mahamaudgalyayana, Mahakasyapa, Subhuti, Nanda, Kumbhira, Mahakatyayana e outros, mesmo estando no bosque Seitarin, não viram a onipotência de Buda. Nenhum deles viu a magnificência, a força, a flexibilidade, a eloquência, o poder propagador e a terra pura de Buda.

Por que ele não viram? Em termos modernos, foi devido à diferença de frequência do receptor mental. A referida sutra prossegue:

Qual a razão? É porque não aprenderam a praticar virtudes. É porque não aprenderam a acumular virtudes necessárias para ver a onipotência de Buda, nem praticaram atos para purificar o país. Mesmo vendo a onipotência de Buda, não louvaram o seu mérito, não doutrinaram a humanidade, não manifestaram o desejo de alcançar o supremo despertar (...), negligenciaram várias práticas de aprimoramento espiritual, deixaram de louvar a excelsa sabedoria búdica que beneficia a humanidade (...), não acumularam virtudes para atingir o estado de bodisatva (...), não alcançaram a sabedoria pura para a prática de virtudes (...); e, devido a essas causas, os dez grandes discípulos não puderam ver, ouvir, entrar, sentir nem contemplar (...). Por essa razão, os grandes discípulos, estando no bosque Seitarin, não viram o poder versátil e sobrenatural de Buda (...). É como se houvesse vários tesouros nas arcas subterrâneas mas imperceptíveis, exceto aos videntes, os quais podem conhecer esses tesouros, registrá-los, usufruí-los e utilizá-los para beneficiar seus pais, ajudar seus parentes e salvar os necessitados (...).

A referida sutra cita ainda várias outras metáforas para explicar por que as pessoas, mesmo estando no majestoso mundo da Imagem Verdadeira, não conseguem vê-lo com seus cinco sentidos. Essa sutra fala, em seguida, sobre Sudhana Sresthi-dakara, o qual fez peregrinação procurando vários mestres a fim de lhes pedir ensinamentos para abrir a porta do mundo da Imagem Verdadeira e entrar no diamantino mundo da Verdade. E, finalmente, Sudhana aprendeu do bodisatva Maitreya o caminho para entrar no diamantino mundo da Verdade.

Quando sudhana, após aprender com vários mestres em sua peregrinação, finalmente visitou Maitreya para aprender o caminho da libertação da vida e da morte, recebeu desse mestre as seguintes palavras de elogio:

Caro Sudhana, tu chegaste até mim buscando unicamente as práticas de bodisatva, com sabedoria e coração puro e sincero. Sê bem-vindo: és como nuvem de grande misericórdia. Fazendo chover néctar da Verdade e tendo os três olhos puros (três olhos puros são olhos de misericórdia, olhos de sabedoria, sem apegos mundanais, e olhos espirituais para ver a Imagem Verdadeira) , não te cansas de aprimorar-te nas práticas de bodisatva (salto). Tu, Sudhana, vendo as dores de nascimento, envelhecimento, doença e morte da humanidade, buscas o despertar búdico, a fim de manifestar o sentimento de grande misericórdia. Vendo a transmigração da humanidade pelos cinco mundos e pressionado por seus sofrimentos, buscas o círculo diamantino da sabedoria, para destruir o círculo vicioso dos sofrimentos.

O trecho cita outros méritos da prática do caminho do bodisatva, mas, em suma, quer dizer que o sentimento de misericórdia consiste no desejo de eliminar os sofrimentos de nascer, envelhecer, adoecer e morrer, de destruir – com o círculo diamantino da sabedoria – os sofrimentos provenientes da transmigração nos cinco mundos (inferno, mundo dos famintos, mundo animalesco, mundo dos humanos e mundo das fúrias) e de conduzir a humanidade ao estado de felicidade. E as práticas para isso se chama práticas do bodisatva.

Então Sudhana indaga:

– Como aprender as práticas do bodisatva e assimilar o caminho do bodisatva?
– Se agora, aqui, entrares no iluminado, purificado, majestoso e grandioso mirante, poderás instantaneamente aprender as práticas do bodisatva e assimilar o caminho do bodisatva, e obterás inúmeras graças. – respondeu o mestre.

Sudhana roga:

– Mestre, abre a porta do mirante e permite-me entrar nele.

Naquele momento, o bodisatva Maitreya produziu um estalido com os dedos polegar e médio. Ao som do estalo, abriu-se a porta do mirante, e Sudhana se viu dentro do grande mirante iluminado, purificado e majestoso.

O estalido com os dedos simboliza um tempo minúsculo, isto é,  simboliza a redução do tempo infinito em um ponto. A junção dos dois dedos simboliza a redução do espaço em um ponto. Quando o mundo do fenômeno – constituído de tempo e espaço – foi reduzido em um mundo sem tempo e espaço, manifestou-se o majestoso e oculto mundo da Imagem Verdadeira.

Avatamsaka Sutra refere-se a essa passagem como segue:

Nesse momento, quando o bodisatva Maitreya estalou os dedos, a porta se abriu naturalmente, e Sudhana entrou. Quando acabou de entrar, a porta se fechou.

Essa expressão "Quando acabou de entrar, a porta se fechou" mostra simbolicamente a separação entre o mundo da Imagem Verdadeira e o mundo do fenômeno falso. Quem está no mundo da Imagem Verdadeira não pode ver o imperfeito mundo do fenômeno. Quem está vendo o imperfeito mundo do fenômeno não consegue ver o majestoso mundo da Imagem Verdadeira. Nele não existe porta, mas, ao mesmo tempo, ela existe. Essa porta se abre com a visãoVer é criar. Por isso, no conto infantil intitulado Como Deus criou o céu e a terra, escrevi que, no princípio, Deus era olho. O mundo do grande e majestoso castelo mostrado pelo bodisatva Maitreya chama-se Grandioso Mirante porque é o Mundo do Ver (contemplar).

Quando Sudhana perguntou "Como aprender as práticas do bodisatva e assimilar o caminho de bodisatva?", Maitreya disse para entrar "agora, aqui, no iluminado, purificado, majestoso e grandioso mirante". Coloquei as palavras agora aqui em negrito porque esse iluminado, puro e majestoso mundo da Imagem Verdadeira existe aqui e agora, mas ele não aparecerá se não o contemplarmos.

Em vez de "agora, aqui", podemos dizer "agora, neste", pois o significado não muda. O termo "este" se refere a um objeto que está imediatamente diante de nós. Seja como for, o iluminado, purificado e majestoso mirante está aqui, agora, diante de nossos olhos. Ele aparecerá, se o contemplarmos (virmos). Para vivenciar o mundo da Imagem Verdadeira aqui e agora, não há outro meio senão mudar a visão.

O estalo de dedos simboliza voz sem som. É preciso ouvir voz sem som e ver o que não é perceptível aos cinco sentidos. Se a porta do mirante se abriu com o estalo dos dedos de Maitreya, foi porque Sudhana ouviu a voz sem som e ocorreu a conversão na sua visão mental. Então se desenrolou diante dele um mundo vasto e majestoso. Essa cena está descrita como segue:

Nesse momento, Sudhana observou que o mirante é infinitamente vasto como o firmamento. O solo é constituído de inúmeros tesouros. Veem-se incontáveis janelas. Os balaústres são feitos de pedras e metais preciosos. Os inumeráveis pendões são ornamentados majestosamente (...).

Essa cena é semelhante à do majestoso Templo de Teto Duplo citada anteriormente. Esse mundo belo e infinitamente majestoso existe agora, aqui, eternamente, mas nem os dez maiores discípulos de Sakyamuni conseguiram vê-lo. Para eliminarmos os sofrimentos provenientes do nascer e do morrer e transcender as dores que acompanham a transmigração pelos cinco mundos, não há outro meio senão entrar no mundo do agora, aqui e eternidade. E, para consegui-lo, é necessária a completa mudança de visão (modo de ver). É para isso que no budismo existem vários tipos de meditação. Na Seicho-No-Ie, se pratica a Meditação Shinsokan. Este é o único meio para transcender o nascer e o morrer e apreender a Vida eterna.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39" pp. 187-200

sábado, dezembro 14, 2019

A Verdade da Budificação do Homem - 2/7


- Masaharu Taniguchi -


Dentre as escrituras de budismo esotérico que o mestre Kobo trouxe da China, a mais importante é a Sutra Mahavairocana (Grande Sol que ilumina todo o Universo). Essa sutra pode ser considerada uma criação posterior, mas também apresenta descrições maravilhosas. Descortinando o primeiro ato do capítulo "Nyu-shingon-mon-jushin-ron", temos:

"Assim ouvi, certa feita, Buda se assentou no vasto palácio do Universo espiritual e indestrutível, palácio esse protegido por Mahavairocana (É chamado também Grande Sol ou Luz onipresente, porque a sua luz ilumina todo o Universo)."

Vou explicar detalhadamente o trecho citado: Ao se abrir a cortina, vê-se a cena do vasto palácio do mundo diamantino. Esse palácio não é material. Ele é projeção e concretização do amor protetor de Mahavairocana, e no seu centro está assentado Tathágata (Buda). É tão majestoso que não existe adjetivo para descrevê-lo. Tathágata significa aquele que veio da Realidade. Realidade, isto é, a Substância da Grande Vida Universal (Mahavairocana), está manifestando e projetando o seu amor protetor em forma de Tathágata. Em outras palavras, o corpo substancial da Grande Vida do Universo manifesta o misterioso e maravilhoso poder de seu amor protetor e salvador por meio de seu corpo projetado (aquele que veio da Realidade).

A Grande Vida Original é infinita; portanto, o Palácio do Universo Espiritual e Indestrutível, que é projeção da primeira, é também infinitamente vasto. Sua vastidão e magnificência estão descritas na Sutra do Grande Sol as seguinte forma:

"Esse palácio-tesouro, que é originado pela fé e pelo poder misterioso e recreativo de Mahavairocana, é alto, sem barreiras, ornado de vários modos, por inúmeros tesouros, e os bodisatvas constituem o assento real."

Essa edificação é infinitamente alta, não há barreiras em sua volta, sendo infinitamente extensa. É uma edificação manifestada pelo poder misterioso e recreativo de Mahavairocana. Como é bela e majestosa, é chamada também de tesouro. O "poder recreativo" é o poder de utilizar livremente vários recursos para alegrar a humanidade. É dito que os bodisatvas constituem "assento real" porque Mahavairocana, por meio de Tathágata (seu corpo projetado), se coloca no assento formado por inumeráveis bodisatvas aí reunidos. Existem várias graduações de bodisatva: do 1º ao 11º grau. Consta que, quando chegar ao 11º grau, terá concluído o seu aprimoramento, tanto para o seu próprio despertar quanto para conduzir seus semelhantes ao despertar, manifestará a Imagem Verdadeira de Buda e se realizará como Buda. A etapa compreendida entre o 1º e o 11º grau, na qual vai aperfeiçoando paulatinamente a sua fé e a compreensão da Verdade até se realizar como Buda, é denominada shin-ge-ji (etapa da fé e compreensão).

O palácio do mundo diamantino infinitamente vasto, tendo no seu centro Mahavairocana rodeado por uma infinidade de bodisatvas do 1º ao 11º grau, é manifestação do amor e da força protetora de Mahavairocana. Esse é o Diamantino e Indestrutível Mundo da Imagem verdadeira, onde se manifesta a Sabedoria de Mahavairocana. Por isso, no budismo esotérico, ele é denominado Mundo Diamantino. Quando se fala em sabedoria de Mahavairocana, tem-se a impressão de que o mundo é somente de sabedoria e sem amor, mas a sabedoria encerra amor em seu interior. Por trás do Mundo Diamantino, existe o Mundo Uterino da Grande Misericórdia. Este não aparece externamente porque está oculto no "útero", mas tem a misericordiosa função de desenvolver a nossa natureza búdica interior.

Esse mundo Diamantino – o mundo diamantino e indestrutível projetado e manifestado pela sabedoria de Mahavairocana – é o mundo da Realidade (mundo da Imagem Verdadeira); é o mundo do Fenômeno Autêntico referido na Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade com as seguintes palavras: "Quando a Mente de Deus entra em vibração e se torna Palavra, desenvolve-se todo o Fenômeno, e  todas as coisas passam a ser". Existem dois tipos de fenômenos: os fenômenos autênticos e os fenômenos falsos. O mundo do Fenômeno autêntico é indestrutível, porque é projeção da sabedoria e do amor protetor de Mahavairocana (Deus).

Normalmente, quando se fala em fenômeno, está-se falando do fenômeno falso, que é captado pelos cinco sentidos. Entre o fenômeno (falso) e a Imagem Verdadeira, existe uma diferença muito grande.

O Mestre Shin do zen-budismo, quando recebeu a pergunta "Como é o corpo verdadeiro e indestrutível?", respondeu: "O corpo todo supurando". Esta resposta deixa bem claro que, ainda que o corpo fenomênico esteja coberto de pus, na Imagem Verdadeira o corpo verdadeiro é indestrutível. Esta verdade não se aplica apenas ao corpo do ser humano, mas também ao mundo. O mundo da Imagem Verdadeira é indestrutível, mas isso não visível do ângulo do fenômeno. Por não ser visível, é chamado mundo oculto. E o que ensina sobre o mundo oculto e o homem oculto chama-se esoterismo. A sutra que revela o mundo oculto é a Sutra Mahavairocana (Sutra do Grande Sol). A Avatamsaka Sutra, que constitui a primeira pregação de Sakyamuni logo após o seu despertar, revela esse mundo oculto. Podemos, portanto, dizer que o budismo, na verdade, é o ensinamento que revela o oculto mundo da Imagem Verdadeira.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 183-187

terça-feira, dezembro 10, 2019

A Verdade da Budificação do Homem - 1/7

- Masaharu Taniguchi -


O pensamento básico do budismo é o da budificação do homem. Se o homem fosse um ser que não se realizasse como Buda, o budismo não teria razão de ser. Budismo significa "ensinamento de Buda", mas significa também "ensinamento que realiza o homem como Buda". Praticando o ensinamento de Buda, o homem se realiza como Buda. Em outras palavras, budismo é a doutrina que "ensina o homem a se realizar como Buda". Concluindo, o budismo deve ser religião de budificação do homem.

Afirmei que o budismo é o ensinamento pelo qual o homem se realiza como Buda. Mas não basta que isso seja apenas uma especulação filosófica ou teórica, pois seria  o mesmo que pregar sobre a composição nutritiva dos alimentos, mas não ter o que comer. A realização do homem como Buda não pode ser apenas teoria. É preciso ensinar como realiza-lo, e o homem, praticando esse ensinamento, deve realizar-se como Buda.

Quando se fala que o homem pode ser salvo pela religião, é preciso compreender em que consiste essa salvação. Há pessoas que vão aos templos para orar, pedindo cura de doença ou melhora de situação financeira. Se elas receberem graças, livrando-se das dores físicas ou das dificuldades financeiras, poderemos dizer que foram realmente salvas, mas esses resultados podem ser obtidos por médicos, assistentes sociais ou entidades beneficentes. Isso não constitui especialmente uma salvação pela religião. A salvação do homem pela religião deve ser uma salvação mais básica, essencial. Dizendo em termos modernos, essa salvação consiste em democratizar o homem. Democratizar consiste no fato de o homem tornar-se verdadeiramente livre e independente, sem ser dominado por nada; consiste em ser dono de si próprio; ser dono, não apenas de si próprio, mas das circunstâncias e do momento. Isto é, consiste na liberdade absoluta, e não em ser dominado por pessoas, ou por circunstâncias, ou por ocasiões. Se o homem não alcançar essa liberdade absoluta, não adiantará obter e acumular bilhões de reais em barras de ouro, pois isso vai pesar muito, vai dar trabalho para guardar e trazer preocupação com a possibilidade de roubo. Isso será um empecilho a tolher a liberdade do homem e um constante risco de agressão. Isso não constitui, de modo algum, liberdade absoluta do homem.

Creio que, com isso, o leitor compreendeu que a liberdade absoluta do homem não se obtém por meio de dinheiro ou outros bens recebidos exteriormente. A verdadeira liberdade deve vir de dentro, do interior do próprio homem. A liberdade dada por outros pode ser roubada por outros. A liberdade que está sempre sujeita a perigo de ser roubada por outrem não é uma liberdade absoluta e inviolável.

A salvação pela religião consiste em dar ao homem a liberdade perfeita e absolutamente inviolável, que não pode ser roubada jamais. Eu disse "dar a liberdade", mas esse dar não é de fora pra dentro. O ensinamento é dado de fora, mas a liberdade interior é estimulada pelo ensinamento e se manifesta. Esta é a salvação pela religião.
  
O ser humano sempre busca a liberdade. Os reformistas sociais e militantes políticos procuram promover a libertação do ser humano por meio de reforma ou de revolução dos sistemas e organismos externos. Isso constitui libertação externa. Contudo, se não for desenvolvida a liberdade de dentro do ser humano, a liberdade dada de fora só causará confusão.

Vou relatar um episódio. Dois detentos foram libertados e colocados fora do presídio, mas não sabiam onde conseguir emprego, nem como obter comida. Então, um praticou assalto, foi novamente preso e mandado para o presídio. O outro voltou espontaneamente ao presídio e pediu para ficar preso de novo. Isso mostra que a libertação externa não é suficiente para tornar o ser humano verdadeiramente livre. Se não for desenvolvida a liberdade inata do interior, o mundo exterior refletirá a privação interna, e a pessoa projetará novamente em seu mundo exterior um ambiente privado de liberdade.

Bem, já disse que todo o ser humano busca a liberdade. Por quê? É porque, dentro do ser humano, se aloja a liberdade fundamental. Se não fosse assim, ele não buscaria a liberdade. Ou melhor, nem conheceria a liberdade. Justamente porque aloja em seu interior a liberdade inata, ele procura manifestá-la e avança, rompendo os obstáculos que porventura surjam no caminho. Essa liberdade interior inata ou liberdade fundamental interior é chamada Buda (liberto). Na Sutra do Nirvana existe a seguinte frase: "A libertação é Buda". Aquele que conseguiu liberar plenamente a liberdade fundamental inata, que ele próprio amarrava com suas cordas mentais, é chamado liberto ou Buda.

O mestre Kobo-Daishi (fundador da seita Shingon, no Japão), cita em sua obra Sokunshin-gi (variante) o trecho da Avatamsaka Sutra que diz "busca tornar-se Buda percorrendo todo o Universo, sem saber que sempre foi Buda de corpo e alma", e escreve que o ser humano, já dotado de liberdade fundamental, isto é, plenamente livre das amarras e realizado como Buda, ainda perambula buscando tornar-se Buda.

Fazer as pessoas compreenderem que já são Budas (libertas) de corpo e alma, desde o princípio – nisto consiste a salvação pela religião.

Pois bem. Referi-me acima à obra variante do Sokunshin-gi (significado de "este corpo, assim mesmo como é"). Além dessa obra, estão compiladas no 11º volume da Grande Coleção do mestre Kobo mais seis variantes. Existem opiniões de que essas variantes não são de autoria do mestre Kobo, mas, aqui, o importante não é a autoria da obra. Seja quem for o autor, o importante é que a obra fala da Verdade: "Este corpo é Buda, assim mesmo como é". O próprio fato de o homem ter alcançado o pensamento e a fé de que "Este corpo é Buda, assim mesmo como é" – isto constitui a prova de que o ser humano traz Buda em seu interior, desde o princípio.

A expressão "assim mesmo como é" pode ser usada na expressão "A é B, assim mesmo como é". Isso significa que A é o mesmo que o B, sem tirar nem pôr nada. Existem expressões como "Um ordinário e Buda são a mesma pessoa" ou "Um ordinário e um santo são a mesma pessoa". Se olharmos uma pessoa como ordinária, ela parecerá ordinária; se a olharmos como Buda, veremos que ela é Buda; ela é Buda, assim mesmo como é.

Ouvindo esta explicação, algumas pessoas poderão ficar meio confusas, pensando: "Parece que entendi, mas também parece que não entendi bem". Quando se diz "Este corpo é Buda, assim mesmo como é", o importante é entender a que se refere "este corpo". Por exemplo, quando digo "Eu sou Taniguchi", o problema é entender a quem se refere esse "eu". Se alguém apontar o meu braço e perguntar "Você é Taniguchi?", o braço não irá responder que ele é Taniguchi, pois não passa de braço de Taniguchi. Esse "de" é uma preposição que indica o possuidor. Se fizermos a mesma pergunta à minha perna, à minha mão, ao meu tronco, ou mesmo ao meu cérebro, nem este último responderá que é Taniguchi. "Taniguchi" não é cérebro, nem músculo, nem medula óssea, nem pele, nem órgãos internos, nem mesmo o conjunto de tudo isso; tampouco é o corpo vital e fisiológico formado por esses elementos.

Suponhamos que alguém resolva sacrificar o seu corpo carnal em benefício da humanidade, tal como Jesus Cristo. Creio que ele sentirá satisfação pelo seu ato humanitário, transcendendo a perda física. Isso porque o corpo carnal é uma propriedade sua, e não ele mesmo. Por não se esclarecer essa questão é que surge a dúvida: "Como é que um medíocre preso à ilusão pode ser Buda, assim mesmo como ele é?". O mestre Dogen (fundador da seita Soto, do zen-budismo), ao ler o Daizô-kyô (coleção de todas as sutras) e encontrar a expressão "o homem é, por natureza, puro desde o princípio", teve a dúvida: "Por que o homem cai em ilusão, se é puro desde o princípio?". Então, para resolver essa questão, ele foi à China estudar melhor o ensinamento de Buda. Também o mestre Kobo foi à China procurando resolver a questão: "Como pode tornar-se Buda puro, este homem em ilusão?". A colocação dessas duas questões parecem diferentes, mas, na essência, a questão é uma só: "Como unificar um medíocre impuro e Buda, que é puro".

O mestre Dogen, estando na China, encontrou o mestre Nyojô. Este, certa feita, admoestou em voz alta um monge que cochilava: "Para o aprimoramento no zen-budismo, deves alcançar o estado de total liberdade e desprendimento do corpo e da mente; no entanto, ficas simplesmente a dormir!". Ouvindo isso, sem querer, Dogen atingiu casualmente o maravilhoso estado de libertação do corpo e da mente, e compreendeu que, estando com o corpo e mente livres, ele já era Buda puro, assim mesmo como é, sem pôr nem tirar nada.

O mestre Kobo, também na China, aprendeu do mestre Keika o método de concentração mental e compreendeu que, quando entra no estado de completa concentração, ele já é Buda puro, por natureza, e se realiza como Buda, assim mesmo como é. E voltou ao Japão trazendo inúmeros materiais sobre segredos do budismo esotérico.

Ambos os casos citados mostram que o homem é Buda puro por natureza, desde o princípio. Ambos os mestres alcançaram a solução, isto é, o método para enxergar o homem búdico e puro: acalmar a mente agitada e concentrá-la; Tanto a meditação zen, do mestre Dogen, como a concentração mental do mestre Kobo são métodos para conseguir o mesmo objetivo.

Cont...

Do livro, "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 177-183

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Interpretação da Avatamsaka Sutra - 2/2


- Masaharu Taniguchi -


A SEDE DO BUDISMO

Por quem e onde foi pregada essa doutrina do mahayana? Vou explicar isso pela ótica da Seicho-No-Ie. Como já discorri na preleção do Kojiki (história e mitologia do Japão), o deus Hohodemi – filho do Sol – foi ao Ryugu (Palácio do Fundo do Mar), lá desposou a deusa Toyotama-hime, que então engravidou e, vindo à face da Terra, deu à luz ao deus Ugaya-fukiaezu. Para ir ao Ryugu, o deus Hohodemi embarcou no barco Menashi-katsuma (que transcende o tempo e o espaço), e isso significa que ele pregou no Ryugu o conteúdo da Avatamsaka Sutra. O Menashi-katsuma é um barco indestrutível e invulnerável, e simboliza a Verdade da Imagem Verdadeira do mahayana. Destarte, o budismo mahayana está sob a proteção da grande divindade do Ryugu, que é a divindade Sumiyoshi, e ele sempre existiu no mundo da Imagem Verdadeira. E a Seicho-No-Ie é o movimento em que a divindade Sumiyoshi se manifestou na atualidade, como Movimento de Iluminação da Humanidade.


UM MOMENTO SÃO TODOS OS MOMENTOS, E UM LOCAL SÃO TODOS OS LOCAIS

Para compreender como a Avatamsaka Sutra foi pregada inicialmente no Ryugu, é preciso, antes, compreender o que significam as Verdades tais como “um momento são todos os momentos”, “um local são todos os locais” e “um Buda são todos os Budas”, os quais transcendem o tempo e o espaço.

No mundo material visível aos nossos olhos carnais, “um local” é só um lugar, e “aqui” não é “acolá”. Isso quer dizer que o “Ryugu” não fica na “Índia”. Porém, no mundo da Imagem Verdadeira (Jissô) tudo pode acontecer concomitantemente. Inclusive na Avatamsaka Sutra, consta que toda ela foi pregada de uma só vez por Sakyamuni no décimo quatro dia após o seu despertar. Mais precisamente, Sakyamuni pregou, naquele dia, oito vezes, em oito localidades diferentes. Essas oito localidades não se limitam apenas à face da Terra. Oito (8) significa vários ou uma infinidade. A Avatamsaka Sutra diz que essas oito localidades foram as seguintes:

Primeiramente, Sakyamuni falou sob a árvore bodhi onde alcançara o despertar. Em seguida, fez pregação no palácio Fukô-Hodo. Depois, sucessivamente, no mundo celeste onde reside Tague-jizaiten. A sétima vez, voltou a pregar no Fukô-Hodo. E, por último, no mosteiro Guion-shôja, erigido no bosque Seitarin.

Acontece que, apesar de o mosteiro Guion-shôja ter sido construído seis anos após o despertar de Sakyamuni, este fez pregação nesse local no décimo quarto dia do seu despertar. Esse fato supõe que “uma pregação feita num dado momento” constitui várias pregações, em vários momentos, em várias localidades.

Como vimos, a Avatamsaka Sutra é constituída de uma infinidade de pregações feitas num só dia, em localidades diferentes.

Para os que não entendem a Verdade da “simultaneidade do tempo e do espaço”, isto é, a verdade de que “um momento são todos os momentos, e um local são todos os locais”, não existe nada mais absurdo do que a Avatamsaka Sutra. Para eles, não pode haver uma coisa tão estúpida: uma pessoa falar ao mesmo tempo em diferentes tempos e lugares, como se fosse um conto de fadas.

Vejamos, então, por que isso é possível. Quando Buda Vairocana central (Aquele que ilumina todo o Universo) faz pregação, a sua vibração é captada em todas as terras búdicas do Universo, e, assim, inúmeros Budas fazem a mesma pregação, ao mesmo tempo, no Universo todo. E, por conseguinte, reúnem-se inúmeros bodisatvas em suas respectivas terras búdicas, para ouvir a pregação de Buda.

Na foto da estátua do Grande Buda em Nara vimos, dentro de sua auréola, inúmeros Budas pequenos. Isso simboliza o fato de que, quando o Buda central faz pregação, inúmeros Budas do Universo fazem a mesma pregação, ao mesmo tempo, do mesmo modo, em suas respectivas terras búdicas; e, em cada um desses locais, se reúnem inúmeros bodisatvas para ouvir essa pregação. Em outras palavras, a pregação da Avatamsaka Sutra realizada no Ryugu (Palácio do Reino do Mar) por Hohodemi-no-mikoto (isto é, a vibração da pregação de Deus no mundo da Imagem Verdadeira) reflete-se no mundo fenomênico como pregação de Sakyamuni na Índia, como pregação de Jesus na Judeia, etc. Por isso, a fonte do cristianismo também está no mundo da Imagem Verdadeira. 

Avatamsaka Sutra, que é o grande ensinamento, foi pregada primeiramente no Ryugu, cujas primeira e segunda partes estão ocultas no tamatebako (caixa misteriosa que transcende o tempo e o espaço). Quando o tamatebako for aberto, será esclarecida a Imagem Verdadeira do mundo.


A MISSÃO DE BUDA

O dever de Buda é fazer pregação. Isso pode parecer estranho, mas inclusive segundo o cristianismo “tudo foi feito pela palavra (Verbo)” e o “Verbo é Deus”. No budismo, Sakyamuni, ao terminar a pregação da Sutra da Vida Imensurável, disse: “O que eu devia fazer, já está feito”.

O termo japonês “jobutsu” é formado de dois ideogramas. O ideograma “naru” (significa “tornar-se”) e o ideograma “hotoke” (significa Buda). Muitas pessoas pensam que “jobutsu” significa tornar-se Buda. Porém, se jobutsu significasse “tornar-se Buda”, deveríamos concluir que quem se torna Buda não é Buda, isto é, que alguém que não é Buda torna-se Buda. Porém, jobutsu é o fato de Buda vibrar e soar. Isso significa que todos somos Buda desde o princípio, mas ficamos calados e não soamos. Ficar calado não é jobutsu. Jobutsu é o fato de Buda entrar em vibração, soar e manifestar-se. Quando Ame-no-Minaka-Nashi-no-Kami (Deus Senhor do Centro do Universo) vibrou e soou, realizou-se o Mundo do Lótus (Imagem Verdadeira). Nós somos Buda desde o princípio, mas não parecemos Buda se ficamos calados, pois Buda não está soando (vibrando).

Na Sutra do Lótus, consta que Buda Dai-tsuchi-shô ficou sentado na posição de meditação no templo, durante dez ciclos (um ciclo significa quase infinitos anos), mas não se realizou como Buda. Mas ele é Buda desde o princípio. Um koan (questão do zen-budismo) pergunta por que aquele que é Buda desde o princípio não se realizou como Buda. A resposta é: “É ele que não se realizou como Buda”. Aquele que é Buda desde o princípio não se realiza como Buda porque não começa a vibrar e soar. É porque ainda não começou a pregar a Verdade. Somos Buda desde o princípio e realizamo-nos como Buda quando pronunciamos Namu-Amida-Butsu (A minha Vida retorna a Amida-Buda). Mesmo sendo Buda desde o princípio, a pessoa não se realizará como Buda se não começar a soar.


UM BUDA SÃO TODOS OS BUDAS

Como já disse anteriormente, quando um Buda entra em vibração, soa e prega a Verdade, os Budas de uma infinidade de mundos pregam a mesma Verdade. Na Avatamsaka Sutra, está escrito o seguinte: “Nesse momento, Sakyamuni emitiu dez bilhões de luzes e iluminou centenas de bilhões de locais terrenos e celestiais de um trilhão de mundos, e manifestaram-se todas as coisas desses mundos todos. Buda está sentado no trono de lótus, e uma infinidade de bodisatvas de dez mundos búdicos se postam em torno dele, o mesmo ocorrendo também em dez bilhões de mundos.”

“O mesmo ocorrendo também em dez bilhões de mundos” quer dizer que existem dez bilhões de mundos semelhantes ao globo terrestre, e que em todos esses mundos também está Buda fazendo a mesma pregação.

A estátua do Grande Buda no Templo Todai-ji, em Nara, está assentada no trono da flor de lótus, e cada uma de suas pétalas representa um dos mundos búdicos. Olhando de perto, vemos linhas horizontais, as quais representam as linhas limítrofes entre os vários mundos celestiais e humanos. E, em cada um desses mundos celestiais e humanos, isto é, em cada pétala, está esculpida a imagem de Buda. Isso representa o fato de que, quando o Grande Buda central prega a Verdade, os Budas de todo o Universo pregam a mesma Verdade, ao mesmo tempo.

A Avatamsaka Sutra diz, mais adiante:

“Nesse momento, Sakyamuni, usando seu poder sobrenatural, está sentado sob a respectiva árvore do despertar de cada uma das inúmeras terras búdicas de todo o Universo, sem exceção. Os inúmeros bodisatvas, recebendo cada um o poder sobrenatural de Buda, pregam variadas Verdades, e todos eles pensam que estão juntos a Buda. Nesse momento, Sakyamuni, pelo seu poder sobrenatural, sobe ao pico Shumisen (a montanha mais alta do mundo búdico, onde residem as mais altas divindades) sem sair de seu lugar e se dirige ao palácio Taishaku-ten (a divindade protetora do mundo espiritual, que fica no topo do Shumisen)."

Como vimos, Sakyamuni, sentado sob a árvore do despertar, sem sair de seu lugar, subiu ao topo do Shumisen e se dirigiu ao palácio Taishaku-den. É como se nós, sentados aqui, no auditório do andar térreo, estivéssemos ao mesmo tempo no topo do prédio. Isso parece um conto de fada bobo, mas não é.

Já foi dito que, quando Buda principal e central faz pregação, manifesta-se uma infinidade de Budas em todos os mundos do Universo, fazendo a mesma pregação. Quando se compreende esse fato, compreende-se também que não há nada de estranho no fato de Sakyamuni pregar sobre o conteúdo da Avatamsaka Sutra que deus Hohodemi pregou no Ryugu. E também não é nada estranho que Jesus tenha aparecido na Judeia e pregado, nos campos da Galileia, a mesma Verdade contida na Avatamsaka Sutra. Do mesmo modo, não é estranho que o bodisatva Nargajuna tenha trazido do Ryugu e traduzido a Avatamsaka Sutra.

Bem, conforme eu disse anteriormente, o mundo do Jissô (Imagem Verdadeira) – Takaamahara (mundo de Deus, em termos xintoístas) – é um mundo infinitamente belo e majestoso, e não um mundo vazio. Quando se fala em Jissô, muitos budistas pensam que “Jissô é vazio”, que “vazio é o Jissô”. O mundo da Imagem Verdadeira é o mundo Avatamsaka, é o majestoso mundo da flor de lótus. E a Seicho-No-Ie diz que ele é um mundo infinito-dimensional. Todavia, o tamatebako do mundo Ryugu ainda não pode ser totalmente aberto.

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Do livro “A Verdade da Vida, vol. 39”, pp. 167-175 

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Interpretação da Avatamsaka Sutra - 1/2

- Masaharu Taniguchi -


INTERPRETAÇÃO DA AVATAMSAKA SUTRA  (Sutra Guirlanda de Flores)

ESTÁTUA DE DAIBUTSU (GRANDE BUDA) EM NARA

Nesta gravura, vemos a estátua de Daibutsu (Grande Buda) no Templo Todai-ji, em Nara. Nesta outra, vemos a estátua de Daibutsu no Templo Tosho-daiji: a impressão não está muito nítida, mas creio que dá para vê-las, mesmo a certa distância.

Outro dia, quando fui a Kansai proferir uma palestra, o monge do Templo Todai-ji, em Nara, que é leitor da revista Seicho-No-Ie, conduziu-nos até bem próximo à grande estátua, aonde o público em geral não tem acesso.

Esse monge, que se chama Sagawa, contou à nossa comitiva a origem e a história de Daibutsu (Grande Buda). Segundo ele, o nome Daibutsu não depende do tamanho da estátua; ele é abreviação de Dai-Hoko-Butsu (grande e onipresente Buda).

Este Templo Todaiji é o templo matriz do Kengon-shu (Ramificação do budismo surgida na Índia, tendo como base doutrinária a Avatamsaka Sutra, uma das sutras do budismo Mahayana), e seu alvo de adoração é o Daibutsu, isto é, Buda Vairocana (que brilha; Sol). O Buda Vairocana é chamado Grande Buda, não porque está representado nesta estátua grande. Mesmo sendo pequena a sua estátua, Ele é Grande Buda porque é Buda Vairocana – assim explicou.

A propósito, minha filha, que está no último ano do curso primário, foi a Nara há aproximadamente uma semana, integrando uma excursão escolar, e comprou como lembrança uma pequena estátua de Daibutsu (Grande Buda). Ela me disse:

- Papai, eu lhe trouxe este Daibutsu como presente.
- Mas como é pequenino este Grande Buda! – brinquei.
- Mesmo sendo pequeno, é Grande Buda – respondeu ela, e essas palavras foram de grande valia para o meu aprendizado.

Que vem a ser, então, esse Buda Dai-Hoko (grande e onipresente)? Sakyamuni ficou durante seis anos praticando ascese (espécie de penitência para aprimoramento espiritual) na floresta dos ascetas, mas compreendeu que as práticas ascéticas não levam à iluminação. Tal vida religiosa baseada no ascetismo corresponderia, no cristianismo, ao batismo na água feito por João Batista. Sakyamuni percebeu que o verdadeiro despertar (ou iluminação) está na compreensão da Imagem Verdadeira da Vida, saiu da floresta dos ascetas, banhou-se no rio Nairanjana, recebeu um prato de mingau de arroz cozido com leite ofertado por uma mulher e tomou-o sentindo a sua delícia. Sentado tranquilamente sob uma árvore bodhi (árvore do despertar), compreendeu que esse estado vívido – de delícia e de alegria e vívido de vida – é o próprio estado do despertar, e que isso é a Vida. Quatorze dias depois, ele falou sobre o estado de seu despertar (ou iluminação), não especialmente a alguém ou a algumas pessoas; ele expressou em palavras o estado de seu despertar, e isso é o que constitui o teor da sutra chamada Avatamsaka Sutra (Sutra Guirlanda de Flores).


QUE É KENGON-KYO (AVATAMSAKA SUTRA)

O termo Kengon de Kengon-kyô significa magnífica flor de lótus. Ele se refere ao mundo em forma de flor de lótus, ornado de modo infinitamente belo, isto é, ao mundo da Imagem Verdadeira (Jissô).

Os budistas costumam interpretar o termo Jissô como “vazio”, mas o mundo do Jissô (Imagem Verdadeira) não é vazio; ele é um mundo infinitamente belo. A Seicho-No-Ie prega que o mundo da Imagem Verdadeira é o mundo da “magnífica flor de lótus”. Sakyamuni pregou sobre isso na Kengon-kyô (Avatamsaka Sutra).

Em vida, Sakyamuni pregou várias sutras. Primeiramente, quatorze dias após o seu despertar, pregou a Kengon-kyô, mas, como eram poucos os discípulos que a compreendiam, pregou em seguida sutras como a Agon-kyô (uma sutra do budismo hinayana, ou pequeno veículo). 

Com o passar do tempo, quando seus discípulos alcançaram maior aprimoramento, pregou sutras tal como a Prajna-paramita-sutra (Sutra da Sabedoria). Em seguida, pregou outras de tendência mahayana (grande veículo) tais como Bonmô-kyô e Gujin-mikkyô. Mais tarde, antes de seu desencarne, pregou a Hoke-kyô (Sutra do Lótus), a Dai-muryôju-kyô (Sutra da Vida Imensurável) e a Nehan-Kyô (Sutra do Nirvana). Parece que a Sutra da Vida Imensurável e a Sutra do Nirvana foram pregadas na mesma época, pois o conteúdo de ambas as sutras comprovaria essa hipótese, mas não há registro cronológico.

Na verdade, a Avatamsaka Sutra, que Sakyamuni pregou quatorze dias após o seu despertar, contém tanto a Verdade descrita na Sutra do Lótus como a Verdade exposta na Sutra da Vida Imensurável. A Avatamsaka Sutra encerra em si o conteúdo de todas as demais sutras, mas, na época, os seus discípulos não puderam compreender essa sutra mahayana (do grande veículo). Como achou que ainda não era chegado o momento, Sakyamuni voltou a pregar as verdades mais fáceis, expondo as sutras tais como a Agon-kyô e as demais do hinayana (pequeno veículo).


QUE SÃO AS ESCRITURAS DO MAHAYANA?

Vejamos, então, o que pregam as escrituras do budismo mahayana (grande veículo). Elas pregam que o homem é Buda. Todas as escrituras do grande veículo pregam que originariamente o homem é Buda, por natureza, e pode manifestar a imagem Verdadeira de Buda. As escrituras ou sutras do budismo hinayana (pequeno veículo) proporcionam apenas despertar de grau médio, pregando verdades medianas que permitem às pessoas alcançar o nível de Arahant. Arahant é o nome genérico dado a pessoas que compreenderam a Verdade da causa-e-meio, mas que ainda não conseguiram atingir o estado búdico que transcendem a causa e o meio.

Repetindo, Sakyamuni pregou inicialmente ensinamentos do grande veículo (hinayana), segundo os quais o homem é originariamente Buda, mas como os seguidores não compreenderam essa Verdade pura, ele pregou vários ensinamentos do pequeno veículo (hinayana) a fim de conduzi-los à compreensão da Verdade do grande veículo (mahayana).

A respeito da Avatamsaka Sutra, não se sabia a sua origem; a transmissão dessa sutra é atribuída ao bodisatva Nargajuna. Segundo a biografia de Nargajuna, este não encontrou a Avatamsaka Sutra na face da Terra, por mais que a procurasse. Então foi ao Ryugu (Palácio do Fundo do Mar ou Palácio do Dragão Rei) e, de lá, trouxe essa sutra.

Portanto, a Avatamsaka Sutra estava no Ryugu. A que existe atualmente na face da Terra, isto é, a que foi trazida a este mundo visível aos olhos carnais, é apenas uma pequena parcela da Avatamsaka Sutra guardada no Ryugu. Essa sutra completa é dividida em três partes, e somente a Avatamsaka Sutra que temos hoje é a tradução dessa última parte. E, mesmo sendo a terça parte, ela constitui um grande volume.

Pois bem, supomos que a maior parte da Avatamsaka Sutra que ficou no Ryugu deve ter conteúdo maravilhoso, mas ela permanece oculta e não pode ser exposta porque ainda não chegou o momento.

A respeito do bodisatva Nargajuna (Ryuju, em japonês), que trouxe do Palácio do Fundo do Mar a Avatamsaka Sutra, não se sabe exatamente a época em que vivei, mas, de acordo com uma lenda, ele nasceu trezentos anos após a morte de Sakyamuni e viveu cem anos. Seja como for, ele foi uma pessoa que viveu bem posterior a Sakyamuni. E, como ele é considerado o responsável por trazer do Ryugu a primeira sutra do grande veículo, existem teorias de que Sakyamuni não pregou sobre o grande veículo, mas penas sobre doutrinas moralistas. Segundo essas teorias, as sutras que falam sobre a budificação do homem foram pregadas mais tarde, teórica e filosoficamente, por eruditos e sábios como Nargajuna e outros. Existem, obviamente, contestações a tais teorias. Há muita polêmica acerca disso.

Mesmo na atualidade, existem estudiosos do budismo afirmando que o grande veículo (mahayana) não foi pregado por Sakyamuni, e que são de autoria dele somente as doutrinas moralistas contidas nas sutras Ágama, Dhammapada e similares. Segundo esses budistas, as doutrinas mahayanas ou do grande veículo – isto é, os ensinamentos de que “o homem pode tornar-se Buda” ou de que “o homem é originariamente Buda” – são impossíveis de ser compreendidas. Existem até budistas pregando que no homem não existe espírito. Certa feita, um intelectual budista escreveu o seguinte em um texto de crítica à Seicho-No-Ie: “Na atualidade, ninguém acredita que existe algo chamado espírito e que este possa ir para o céu”. É espantoso um budista fazer tal afirmação.

Na Sutra da Vida Imensurável, está claramente escrito que Sakyamuni “deixou o palácio celestial, colocou a sua alma no útero materno e nasceu pela axila direita”. Essa alma é espírito. É espantoso que alguns budistas neguem a existência do espírito, mas essa é a posição dos que professam o hinayana (pequeno veículo). Eles não compreendem a Imagem Verdadeira do ser humano; entendem apenas da vida fenomênica restrita à vida terrena. Não entendem nem o que acontece com a vida no mundo pós-morte.

Bem, a doutrina que prega a Vida sempiterna da Imagem Verdadeira é a do mahayana (grande veículo), e a que prega sobre a vida fenomênica e a do hinayana (pequeno veículo). Esta é uma diferenciação bem simples das duas doutrinas.

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Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 161-167

segunda-feira, novembro 25, 2019

Assim se identificam o Budismo e o Cristianismo - 11/11

- Masaharu Taniguchi -


Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixa-la secretamente. Enquanto ponderava nestas cousas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. (Mateus 1:18-20)

Não se turbe o vosso coração nem se assuste. Ouviste que eu vos disse: Vou, e venho a vós. Se vós me amásseis, certamente havíeis de vos alegrar de eu ir para o Pai (...) como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; (...) para que sejam um, como nós o somos; eu (estou) neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade. (João 14:27-28 e 17:22-23)

A primeira citação refere-se à concepção de Jesus pelo Espírito Santo. A segunda são palavras proferidas por Jesus imediatamente antes de sua prisão para ser pregado na cruz. O termo "eu" refere-se a Jesus, e "nós" refere-se a Pai e Cristo. A finalidade da crucificação de Jesus está bem clara nessas palavras. Isto é, por meio da cruz (negação do corpo carnal), Cristo vem a nós [segundo suas palavras "Vou, e venho a vós (homens)] para que Deus, Cristo e os homens "sejam aperfeiçoados na unidade" (they may be made perfect in one). Ou melhor, pela negação do corpo carnal, isto é, pela crucificação de Jesus, já foi eliminada a ideia de que "o homem é corpo carnal", que era o último obstáculo que separava Deus e o homem, e este "foi aperfeiçoado" e retornou à original perfeição. O homem é originariamente perfeito e saudável. O homem, originariamente, não é corpo carnal, mas, sim, espírito santo em si. Entretanto, adquiriu a ilusão de que ele é "corpo carnal" por meio dos cinco sentidos (fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, sugerido pela serpente), e consequentemente foi expulso do jardim do Éden, passando a vagar no mundo dos cinco sentidos. Porém, essa ilusão foi agora desfeita. Nós, seres humanos, ressuscitamos como Vida Eterna juntamente com Jesus; Pai, Filho e o homem se tornaram um. Nós já fomos aperfeiçoados; somos o próprio espírito santo. Nós não nascemos da carne, não nascemos da relação carnal, não nascemos do útero de mulher; nascemos de Deus. O útero por meio do qual viemos ao mundo é apenas uma passagem sob o ponto de vista dos cinco sentidos, pois a nossa origem verdadeira é Deus.

Que o homem não é filho do homem carnal pode ser comprovado pelo fato de alguém desejar um filho e não o conseguir, e de nascer um de vários, mesmo quando ele não o deseja. Mesmo recorrendo a métodos anticoncepcionais, uma criança nasce quando tem de nascer.

No jornal Asahi Shinbum de 7 de agosto de 1944, está publicado, na coluna doméstica, um artigo do doutor em medicina Kanenobu Sakuma. Segundo ele, há casos em que ocorre a gravidez, mesmo quando se eliminam as duas trompas uterinas para impedir que o óvulo desça do ovário para o útero. Ele diz que o mistério da Vida é algo inexplicável.

O dr. Katsumi Tokuhisa, ginecologista, no seu livro A relação entre Marido e Mulher, publicado em 1943, cita uma doença chamada incontinência urinária: a bexiga se rompe e a urina corre direto para a vagina, vazando sem parar. Nesses casos, a única solução consiste em fechar a entrada da vagina, costurando-a. Mas há casos em que, mesmo com a vagina fechada, pode ocorrer a gravidez. E o referido livro cita um caso verídico.

Em 1944, quando fui a Shangai, a futura esposa de um leitor da Seicho-No-Ie chamado sr. Obara retirou os dois ovários, em intervenção cirúrgica no Hospital Dojunkai. Isso foi antes de ela se tornar leitora da Seicho-No-Ie. Posteriormente, eles se casaram e tiveram um filho. Eles vieram agradecer, com a criança no colo.

Pela lógica, parece impossível engravidar sem ter nenhum dos ovários, mas Deus torna possível o impossível. O ser humano é espírito santo; por isso, mesmo não tendo ovários, o espírito santo pode engravidar e gerar prole.

Os leitores poderão pensar que, sem ovário, é impossível o homem nascer. Então pergunto: nos primórdios da história de nossos ancestrais, de onde nasceu o primeiro homem? Obviamente não vamos pensar que Deus criou primeiramente apenas o ovário e que desse ovário nasceu o primeiro homem. Só podemos pensar que primeiramente nasceu a Ideia (pode-se dizer "espírito santo") de homem e que o homem surgiu conforme a imagem dessa Ideia. [Deus criou o homem à Sua imagem (Ideia). (Gênesis)] O nascimento do homem não é o nascimento do corpo carnal, mas a vinda (do alto) da Sagrada Ideia. O homem é a própria Sagrada Ideia que desceu do alto. O que parece corpo carnal é a atmosfera que envolve essa Sagrada Ideia (Vida). Se essa atmosfera for conturbada pelas ondas mentais, aparecerá doença no corpo carnal. Para curar a doença, é necessário serenar as ondas mentais e purificar a atmosfera que envolve a Sagrada Ideia.

Então, como serenar as ondas mentais? Se ficarmos olhando o que está conturbado, as ondas mentais ficarão ainda mais conturbadas. Portanto, se ficarmos olhando a doença, a cura será impossível. Por mais que estudemos sobre a doença, não vai aparecer a saúde. Para exteriorizar a saúde, precisamos fitar a saúde pertinente à Vida. O mundo se manifesta exatamente conforme a imagem que visualizamos (o mundo fenomênico é projeção da mente). Não pensem que o homem seja uma existência carnal fadada a perecer. Não fiquem vendo o homem carnal. Os doentes costumam ficar pensando apenas no corpo carnal. Quem tem doença gástrica fica com a mente concentrada apenas no estômago. Por conseguinte, a atmosfera vital que está manifestada como "estômago" fica ainda mais conturbada, e, consequentemente, o estômago não se cura. Neguem o corpo carnal. Fitem apenas o homem eterno, o homem verdadeiro, o homem-Ideia, que é espírito santo, que já é perfeito, que é filho de Deus, que é harmônico. Nisso consiste a Meditação Shinsokan, a prática do Prajnā Paramitā.

O budismo prega "seis paramitās", isto é, seis métodos para alcançar a "outra margem", ou melhor, para apreender, aqui, a "outra margem". E, entre eles, é considerado o primeiro e o melhor aquele que "vê claramente que os cinco agregados são vazios". O corpo carnal não existe, a matéria não existe, os cinco agregados não existem; eles são vazios, no exato estado em que existem. Com esta compreensão, contempla-se o corpo verdadeiro (ou ser verdadeiro) indestrutível neste próprio corpo carnal, tal qual ele é. Na Seicho-No-Ie, o método ensinado para realizar isso é a Meditação Shinsokan.

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Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 154-159