"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

segunda-feira, abril 19, 2010

O dedo de Gutei (Masaharu Taniguchi) - 01

Masaharu Taniguchi



O terceiro item do livro Mumonkan (zen-budismo) diz o seguinte: “O bonzo Gutei levanta o dedo”.

O bonzo Gutei, superior do templo Kinzakan, apenas mostrava um dedo em posição ereta, quaisquer que fossem as perguntas a ele dirigidas pelos visitantes que vinham à procura da Verdade. Vendo seu dedo, alguns despertavam para a Verdade, enquanto outros iam embora sem nada entender. Aquele que vê apenas a forma exterior do dedo e não vê a Vida-essência não consegue despertar para a Verdade. Certo dia, um jovem monge desse templo, ao ser indagado por um visitante acerca dos ensinamentos, levantou o dedo, imitando o seu mestre. Mas o jovem monge imitou apenas o gesto do mestre Gutei, sem conhecer a razão porque ele levantava o dedo, isto é, sem compreender a Vida-essência do homem. Quando o mestre soube disso, cortou o dedo indicador do jovem monge. Este tentou fugir, gritando de dor. Ato contínuo, o mestre chamou-lhe pelo nome. Este olhou para trás a fim de ouvir o que o mestre teria a dizer, mas o mestre, como de costume, levantou o dedo. Naquele instante, o jovem monge compreendeu uma grande Verdade. O que o jovem monge compreendeu? Quem souber o que ele compreendeu, também terá despertado para a Verdade.

O jovem monge, enquanto tinha dedo para levantar, estava apegado à forma do dedo e não conseguia ver a Vida-essência. Todavia, agora que lhe fora cortado o dedo, não possuía mais o dedo a ser levantado. Apesar disso, o mestre bonzo ordenava-lhe que levantasse o dedo, assim como ele fazia. Como levantar o dedo que não existe mais? Na sua resposta está a essência do Zen. O dedo a ser levantado não era o dedo físico. Um dedo que pode ser levantado apenas formalmente não poderá ser levantado quando ele não existir mais. O verdadeiro “dedo” é aquele que pode ser levantado, mesmo depois que se perdeu o dedo, mesmo depois que se perdeu tudo. O que o mestre quis mostrar era o “dedo da Vida”, absolutamente livre e que não sofre restrição alguma, mesmo quando se perde tudo. Aquele que se queixa das privações, dizendo que falta isso ou aquilo, é uma pessoa que não conhece a Imagem Verdadeira da Vida (o Jissô). A Imagem Verdadeira da nossa Vida é aquela que não sofre de privação alguma, mesmo quando não possuímos nada.

São muitos os testemunhos de cura de pessoas que leram as revistas sagradas Seicho-No-Ie ou o livro sagrado A Verdade da Vida e abandonaram os remédios e os tratamentos médicos. Mas não devemos nos equivocar, pensando que a moléstia foi curada porque se abandonou o tratamento médico ou porque se deixou de tomar remédios. A verdadeira cura da doença – não o desaparecimento temporário da doença – será possível somente pela conscientização de que o aspecto real e original (A Imagem Verdadeira) da Vida é filho de Deus, perfeito e harmonioso por natureza. Embora a doença seja aparentemente curada por outros métodos, não se trata de uma cura verdadeira. Isso deve ficar especialmente gravado em nossa mente.

Muitos dos adeptos alegram-se dizendo que foram curados ao pararem de tomar remédios, mas o fato de parecer que a doença foi curada com o abandono dos remédios forma um bom par com o fato de parecer que foi curada pela ingestão de remédios. Isso é apenas a aparência. Uma vez que a Vida é filho de Deus originado de Deus, jamais poderá ser beneficiada ou prejudicada pelos remédios. Isto é a Imagem Verdadeira da Vida. Ao despertarmos para a Imagem Verdadeira da Vida, ocorre a cura da doença. Esta simplesmente revela a sua inexistência. Desta forma, quando se conscientiza o aspecto verdadeiro da Vida, os remédios tornam-se desnecessários.

A causa primeira da cura está na compreensão do aspecto verdadeiro da Vida do homem, filho de Deus, e dessa causa primeira decorrem as consequências tais como a cura da doença ou o ato de abandonar os remédios. Tanto a cura da doença como o abandono dos remédios são igualmente consequências. Por conseguinte, o fato de abandonar os remédios não constitui a causa da cura. Expressando isso em termos do zen-budismo, teríamos a seguinte sequência de perguntas e respostas:

- Qual o efeito de se tomar remédios?
- Nenhum.
- Qual o efeito de se parar de tomar remédios?
- Nenhum.

Sendo assim, é uma grande insensatez abandonar os remédios sem despertar para o aspecto real e original da Vida, pensando que basta parar de tomar remédios para curar a doença. Isso é o mesmo que considerar os remédios como uma espécie de corda que “amarra” a Vida. Quem acha que abandonando os remédios vai se livrar dessa corda, está acreditando que a matéria tenha o poder de “amarrar” a Vida, e que a Vida seja algo passível de ser “amarrada” pela matéria. Com uma crença tão duvidosa em relação à Vida, mesmo que a pessoa pare de tomar remédios, não haverá efeito algum. Já que no recôndito de sua mente essa pessoa está admitindo a idéia errônea de que a matéria tem o poder de “amarrar” a vida, o seu ato de abandonar os remédios nada mais é que uma outra maneira de expressar o pensamento de que “a Vida é impotente”.

Então, não é preciso dispensar os remédios? Na verdade, se o enfermo dispensar os remédios, ser-lhe-á mais fácil despertar para a Imagem Verdadeira da sua Vida. Como foi dito no início, o bonzo Gutei apenas mostrava o dedo em posição ereta a qualquer visitante que viesse à procura da Verdade. Um jovem monge, imitando o bonzo, mostrou o seu dedo a um visitante. Mas ele imitou apenas o gesto exterior do mestre, pois o seu dedo levantado não continha o despertar espiritual. Por isso, o bonzo Gutei, quando soube disso, acabou decepando o dedo do jovem monge. Este tentou fugir, chorando e gritando de dor. Gutei chamou-o: “Espere, jovem”. No exato momento em que o jovem se voltou, o bonzo levantou o dedo, como se lhe ordenasse a fazer o mesmo. Mas o jovem monge já não tinha mais aquele dedo para levantar, e foi então que ele despertou espiritualmente. Ele compreendeu que o “dedo a ser levantado não era o dedo material”.

O ato de dispensar remédios tem o mesmo significado que o ato do bonzo Gutei, que decepou o dedo do jovem monge. Quando a pessoa se coloca numa situação extrema, em que não tem mais o dedo material a levantar ou não tem mais o remédio a que recorrer, ela desperta naturalmente para a Imagem Verdadeira de sua própria Vida. Acreditar demasiadamente na eficácia dos remédios é tão errôneo quanto acreditar demasiadamente na eficácia do abandono de remédios. A única coisa em que podemos acreditar é o fato de que a Imagem Verdadeira de nossa Vida é divina. Se não conscientizarmos que a Imagem Verdadeira da Vida é de um filho de Deus perfeito, a doença não será verdadeiramente curada, quer tomemos remédios, quer deixemos de tomá-los. Pode parecer que houve a cura, mas não passa de desaparecimento temporário da doença. Não há nada mais errôneo do que interpretar o ensinamento da Seicho-No-Ie sobre a inexistência da doença como uma simples afirmação de que “a doença se cura quando se deixa de recorrer aos remédios”. Naturalmente, como há pessoas de diferentes níveis de compreensão entre os leitores da Seicho-No-Ie, varia também o modo de pregar os ensinamentos. Ora se prega o ensinamentos do “pequeno veículo”, ora segundo o do “grande veículo”. Os ensinamentos do “pequeno veículo” que Sakyamuni (Buda) pregou no início e os do “grande veículo”, como a Sutra do Lótus ou a Sutra do Nirvana, que ele pregou no fim de sua vida parecem contraditórios à primeira vista; mas isso ocorre porque Sakyamuni foi mudando o modo de pregar conforme ia se elevando a consciência dos fiéis. No início, Sakyamuni pregou que o homem oculta sob sua pele imunda vísceras e sangue, e que, portanto, não é nada belo como parece. Assim pregou para que as pessoas desprezassem o homem carnal como algo imundo. Essa negação do homem carnal foi um recurso para posteriormente afirmar a existência do homem indestrutível, verdadeiro, eterno. Esse recurso corresponde ao ato do bonzo Gutei, que cortou o dedo do jovem monge. Pregando-se a fealdade do homem carnal e eliminando-se o apego ao mesmo, estimula-se a conscientização e manifestação do homem verdadeiro, dotado de Vida eterna.

Pode ser que algumas pessoas, ao conhecer os ensinamentos de Sakyamuni a respeito da fealdade do homem carnal, julguem ser necessário libertar-se da vida carnal e desperdicem a vida inteira, retirando-se para lugares ermos e isolando-se do mundo; e, outras, pensando que o homem verdadeiro não poderá manifestar-se enquanto existir o corpo carnal, decidam aniquilar o seu corpo através do suicídio. Mesmo que isso aconteça, a culpa não será dos ensinamentos de Sakyamuni, mas das pessoas que não conseguem compreender o verdadeiro significado de seus ensinamentos e os interpretam de maneira errada. Qualquer ensinamento torna-se nocivo para quem não o compreende verdadeiramente, e o mesmo acontece com a medicina. Quem compreende realmente a medicina faz dela um verdadeiro caminho da salvação. Entretanto, muitas pessoas estão se prejudicando por acreditarem cegamente no aspecto material da medicina.

Aos portadores de doenças crônicas para as quais os remédios são ineficazes, a Seicho-No-Ie aconselha afastar resolutamente os remédios e por isso dá a impressão de estar pregando a inutilidade dos remédios; mas isso é um expediente semelhante àquele utilizado por Sakyamuni, que pregou a fealdade do homem carnal a fim de que as pessoas despertassem para a Imagem Verdadeira da Vida, para o fato de que o homem, sendo filho de Deus, jamais é dominado pela matéria. Aquele que fica sempre apoiando-se na matéria e curvando-se diante dela tem dificuldade em conscientizar-se de que, sendo ele filho de Deus, é um ser espiritual. Por isso, afirmo-lhe energeticamente: “Não se apóie na matéria!” E digo ainda: “Os remédios são elementos estranhos à Vida! O grande médico é aquele que conhece a Verdade a tal ponto que é capaz de curar um tuberculoso ministrando-lhe, se é que vai ministrar, apenas bicarbonato de sódio, do começo ao fim.” Este golpe verbal equivale à pancada que o bonzo desfere nos praticantes do zen (bambuzadas), com um instrumento denominado nyoi-bo. Uns despertam para a Verdade da Vida ao receberem a pancada, enquanto outros não conseguem despertar. Mesmo que alguém não tenha conseguido despertar para a Verdade após a pancada, seria ridículo concluir-se que a causa do não-despertar foi o fato de ter tomado a pancada de nyoi-bo. “Não se apóie na matéria! Não se preocupe com o que comer e beber! Saiba que a Vida é perfeita e auto-suficiente!” – esta é a pancada verbal que se aplica às pessoas dominada pela ilusão. Mas elas não devem apegar-se à expressãoNão se apóie na matéria e, no intuito de cumpri-la ao pé da letra, decidir deixar de ingerir a matéria chamada alimento, deixar de vestir a matéria chamada roupa, deixar de andar sobre a matéria chamada chão, deixar de respirar a matéria chama ar, etc. De nada adianta deixar de “apoiar-se na matéria” apenas na forma, sem despertar para a perfeição da Vida.

Quando despertamos para a perfeição de nossa Vida, os alimentos necessários para o nosso sustento e todas as demais coisas necessárias passam a vir naturalmente a nós, pois o nosso corpo e tudo que nos cerca são projeções daquilo que concebemos na nossa mente. Se reconhecermos que esses alimentos vêm naturalmente a nós são 'projeções dos alimentos a nós dados por Deus no mundo do Jisso', e os comermos reconhecendo que por trás desses alimentos está a maravilhosa e infinita força de Deus que a tudo vivifica, o nosso corpo refletirá automaticamente a perfeição da Vida e nos tornaremos saudáveis. Além do mais, se conscientizarmos realmente que somos filhos de Deus, que somos a Vida, e compreendermos realmente que a matéria é o “nada”, que o corpo carnal não é existência verdadeira, não nos apegaremos mais à matéria, não haverá mais a necessidade de tentarmos abandoná-la a todo custo, nem precisaremos tentar obtê-la a todo custo; e caso alguém nos ofereça remédios com amor, tomaremos também esses remédios.

Durante as viagens, em que me servem alimentação um tanto desequilibrada, às vezes recebo algumas vitaminas, ofertadas espontaneamente por algum adepto. Essas vitaminas não são propriamente remédios; são alimentos concentrados e são também a concretização do amor das pessoas que as oferecem. Entre os produtos considerados como remédios, há muitos que, na verdade, são alimentos apropriados. Ao ingerirmos tais produtos, ofertados por alguém, não o fazemos considerando-os matéria, mas o fazemos agradecendo à força vivificante do amor dessa pessoa. Mesmo que não consigamos obter tais remédios ou nutrientes, não precisamos ficar tristes. Como a matéria é originariamente o “nada”, o fato de tomarmos ou deixarmos de tomar as vitaminas não traz conseqüência alguma sobre a Imagem Verdadeira da Vida. A maioria das vitaminas pode ser produzida a partir de outras substâncias dentro do nosso próprio organismo, quando conscientizamos que a Imagem Verdadeira da nossa Vida é filho de Deus. Portanto, o que decide o nosso destino é o fato de conseguirmos ou não fazer com que a nossa mente se desprenda da matéria através do despertar para a Verdade.
Cont...


(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 04"; pgs. 37 à 45)





sexta-feira, abril 16, 2010

O dedo de Gutei (Osho)


O Mestre Zen Gutei
Tinha o costume de erguer um dedo
Ao esclarecer uma questão sobre o Zen.
Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo:
Quando alguém lhe perguntava
A respeito do que seu Mestre havia pregado,
Ele erguia um dedo.

Gutei ficou sabendo disso.
Um dia, ao encontrar o menino imitando-o,
Pegou o dedo do discípulo, puxou uma faca,
Cortou o dedo e jogou-o fora.

Enquanto o menino corria, berrando,
Gutei gritou: “Pare!”.
O menino parou- virou-se
e olhou para o seu mestre através das lágrimas.

Gutei estava com um dedo levantado.
Quando o rapaz foi levantar o seu,
Percebeu que o seu dedo não estava lá
E inclinou-se.

Nesse instante, tornou-se iluminado.






Essa é uma estranha história. É possível que você não a compreenda. Na vida, a coisa mais difícil de compreender é o comportamento de um iluminado.

As pessoas têm seus próprios valores e olham tudo com base neles. Um iluminado está numa dimensão totalmente diferente: vive sem valores, sem critérios, sem moralidade; vive simplesmente sem o ego. E todos os valores pertencem ao ego. Um iluminado simplesmente vive. Ele não manipula sua vida; é como uma nuvem branca flutuando. Não tem para onde ir, nada para alcançar. Para ele, nada é bom ou mau. Não conhece nenhum Deus, nenhum demônio. Conhece apenas a beleza que a vida é na sua totalidade.

Até mesmo um deus é feio porque é apenas uma parte, não um todo. Um demônio também é feio porque também é uma parte, e não o todo. Deus não está vivo; o demônio também está morto porque a vida existe como um ritmo entre os dois – o bom e o mau, Deus e o demônio. A vida existe entre esses dois pólos. Não pode existir em apenas uma polaridade. Eles são duas margens no meio das quais a vida flui. Um iluminado sabe disso. Nunca está a favor nem contra algo. Responde a cada momento sem qualquer julgamento. Eis por que é difícil compreendê-lo.

Um iluminado sempre tem alguma semelhança com um louco. Portanto, a primeira coisa a ser compreendida é: não avalie um iluminado com base nos seus próprios valores. Isso é muito difícil – mas o que mais você pode fazer?

Ouvi dizer que, certa vez, um grande pintor pediu a um médico amigo seu que viesse ver uma de suas telas, uma que acabara de pintar. O pintor achava que essa era sua obra-prima, o pico de toda sua arte. Por isso, naturalmente quis que seu amigo fosse vê-la. O médico observou a tela minuciosamente, olhou-a de um lado a outro. Passaram-se dez minutos. O artista ficou um pouco apreensivo e perguntou: “O que há? O que você acha do quadro?” O médico respondeu: “Parece que está com pneumonia dupla.”

Isso está acontecendo com todo mundo. Um médico tem suas próprias atitudes, seu modo de olhar as coisas. Ele olhou para a pintura à sua maneira sempre fixa; não poderia ter sido de outro modo. O médico diagnosticou o quadro... um quadro não necessita de qualquer diagnóstico. Ele não compreendeu, e uma bela pintura virou pneumonia.

É assim que a mente funciona. Quando você olha para algo, sua mente entra no meio modificando. Não faça isso com um iluminado. Não fará qualquer diferença para ele, mas a sua oportunidade de ver a beleza do fenômeno estará perdida.

Segunda coisa: um iluminado age do centro, nunca da periferia. Você sempre age a partir da periferia, você vive nela, na circunferência. Para você, ela é o que existe de mais importante. Você mata a sua alma para salvar o seu corpo. O iluminado pode sacrificar o seu corpo, mas não permite que a sua alma se perca. Está pronto para morrer a qualquer momento; isso não é mais um problema. Mas ele não está disposto a perder o seu centro, o âmago do seu ser.

Para o iluminado, o corpo é apenas um meio. Se for necessário, ele lhe dirá: – Deixe o corpo, mas não abandone o seu interior. É assim que toda tapascharya, toda a sua austeridade nasce. A circunferência tem de ser sacrificada em favor do centro. Se for necessário cortar a cabeça – se isso auxiliar, se com a sua cabeça o ego cair, o Iluminado lhe dirá: “Abandone a cabeça. Não a carregue. Ela mantém o ego. Por nada, você está perdendo tudo!”

Isto deve ser lembrado: quando se vive no centro, a perspectiva é totalmente diferente. Então, ninguém morre, ninguém pode morrer – a morte é impossível. Quando se vive na periferia, todos morrem. A morte é o ponto final para todos. Não há vida eterna.

Quando Krishna fala à Arjuna, no Gita, é realmente o centro falando para a periferia. Arjuna vive na periferia, pensa a partir do corpo, não sabe coisa alguma sobre a alma. Krishna fala do centro: “Não se preocupe com esses corpos. Eles já morreram muitas vezes e ainda morrerão. A morte é apenas uma transformação: como alguém que deixa suas roupas, sua velha casa, e entra numa casa nova. Esses corpos não são nada. Não se preocupe com eles, Arjuna. Olhe para o interior!” Mas como pode Arjuna olhar para o interior dos outros se ainda não conseguiu olhar para o seu?

Lembre-se: este Mestre Zen Gutei é Krishna. Vive do centro e age de acordo com ele. E esse incidente ocorreu com um discípulo que estava na periferia. Gutei poderia não ter cortado o dedo dele. Mas o discípulo valia isso, ele merecia. Só quando o discípulo merece é que o Mestre vai a tal extensão. Para Gutei ter chegado a tal extensão, o discípulo deve ter aprendido, deve ter merecido; de outro modo, Gutei não teria feito isso. Mesmo Arjuna não valia tanto quanto esse discípulo de Gutei porque Krishna apenas falou com ele, enquanto Gutei fez algo.

Observe a diferença. Um Mestre só chega a agir quando você merece. Do contrário, ele apenas fala. A ação só ocorre quando você está pronto, quando o momento está tão próximo que não pode ser perdido; quando nada pode ser dito; pode apenas ser feito. Quando uma pessoa fala, um tempo é necessário: o outro tem de compreender o que foi dito. Algumas vezes, algo tem de ser feito imediatamente, instantaneamente. Mas o mestre só o faz quando você está na beira. Então, falar não ajudará; é preciso empurrá-lo; você está bem na porta. Se um simples momento passar, a oportunidade estará perdida. E muitas vidas talvez sejam necessárias para você chegar novamente à porta.

A vida é muito complexa. Raramente se está perto da porta. Se o Mestre diz: “Olhe, a porta está aqui!” e começa a lhe explicar, até você compreender a porta não estará mais lá. A vida está em constante movimento. O Mestre precisa fazer algo. Se ele achar que matá-lo irá auxiliar, ele o matará. Eis por que a rendição é necessária.

A rendição não é fácil porque render-se significa dizer ao Mestre: “De agora em diante, minha vida e minha morte são suas. Estou pronto. Se você disser ‘morra’, eu morrerei sem perguntar por quê”.

Se houver pergunta, a rendição não existirá, nem a confiança. Nos velhos tempos, muitas pessoas conseguiram iluminar-se porque puderam render-se. A confiança estava na própria atmosfera, a fé circundava tudo, a confiança florescia em toda parte. Não era possível passar um dia sem cruzar com um homem cheio de confiança. E um homem com confiança é uma pessoa tão maravilhosa que, ao vê-lo, você sente ciúme.

Hoje em dia, isso tornou-se quase impossível. É difícil conseguir cruzar com um homem desses. Essa beleza desapareceu. Só se cruza com céticos, com pessoas cheias de dúvida que sempre dizem não. Elas são feias, mas estão por toda parte. Então, pouco a pouco, você também se enche de dúvidas. Desde o primeiro dia, desde a primeira vez em que sua mãe o amamentou, você tem se alimentado de dúvidas. Todas as descobertas da ciência dependem da dúvida. É preciso ser cético, duvidar; só assim a ciência pode trabalhar.

A religião trabalha num rumo totalmente oposto. É preciso ser confiante, é preciso dizer um profundo sim; só assim a rendição é possível. O discípulo de Gutei havia se rendido. Eis por que o incidente tornou-se a sua Iluminação.

Agora entraremos nessa estranha história. Nela, cada palavra é significativa.

“O Mestre Zen Gutei tinha o costume de erguer um dedo ao esclarecer uma questão sobre o Zen.”

Os Mestres nunca fazem algo desnecessariamente, nem mesmo levantar um dedo. O desnecessário desapareceu. Com o Mestre, existe apenas o essencial. Ele não fará um simples movimento, um simples gesto, se isso não for essencial. O não-essencial existe com a ignorância. Com ela, o que quer que se faça é trivial, não-essencial. Se for paralisada, nada estará perdido.

Olhe para a sua vida. Se você interromper o que quer que esteja fazendo, o que será perdido? Nada se ganha com o seu fazer. De manhã à noite você se ocupa com coisas triviais. Então, no fim do dia, fica cansado e vai dormir. Na manhã seguinte está pronto para reiniciar outra vez as mesmas coisas não-essenciais. É um circulo vicioso: um não-essencial encontra um outro não-essencial e os dois se ligam. Mas você tem tanto medo de olhar a trivialidade da vida que se mantém sempre de costas para ela. Se a olhar, você sentirá muita depressão, pensará: “O que estou fazendo?”

Se você vir que tudo o que está fazendo é absolutamente inútil, seu ego estará perdido. O ego pode sentir-se significante somente quando você está fazendo algo significante. Por isso você cria significados para as coisas triviais. Sente que está desempenhando grandes feitos para a nação, para a família, para a humanidade; como se, sem você, a existência fosse acabar. Nada do que você está fazendo é importante. Mas você tem de dar significado a tudo, porque por meio da significação seu ego é alimentado e fortalecido.

Na ignorância, tudo é não-essencial. O que quer que seja feito – mesmo sua meditação, sua prece, sua ida ao templo –, tudo é trivial. Até mesmo sua prece não é mais profunda do que a leitura de um jornal. Porque a questão não é a prece, é você. Se você tem profundidade, então cada movimento, cada ação é um ato de profundidade. Mas quando ela não existe, mesmo ir a um templo não faz nenhuma diferença: você entra no templo como se estivesse entrando num hotel. Você é o mesmo: assim, se é um templo ou um hotel, isso não faz diferença. Dê a uma criança um brinquedo caríssimo feito de diamantes. Ela fará com ele o mesmo que faria com um brinquedo comum, porque é uma criança. Brincará com ele por alguns momentos; depois o jogará num canto e irá embora.

Sua profundidade traz profundidade às suas ações. Quando um Iluminado levanta um dedo, até mesmo isso é importante, profundo, repleto de significado. Por que Gutei costumava levantar um dedo “quando costumava explicar alguma questão sobre o Zen”? Não sempre – apenas quando explicava uma questão sobre o Zen? Por que? É porque estava explicando e demonstrando ao mesmo tempo. Pois o que quer que se pergunte sobre religião, um dedo erguido é a resposta.

Todos os seus problemas existem por não ser um. Porque está fragmentado, em desunião, em caos – não em harmonia. O que é Zen, o que é Yoga, o que é Meditação? Nada mais do que chegar à unidade. A própria palavra “Yoga” significa unidade, único, total.

Quando Gutei estava explicando sobre o Zen, a explicação era secundária; o dedo levantado era o mais importante. Gutei explicava e demonstrava simultaneamente. É assim que um Iluminado vive: fala e demonstra. Seu próprio ser, seus gestos, seus movimentos demonstram o que é religião.

Se você não pode ver, se está cego ou se perdeu nessa dimensão de entendimento, de visão, ouve apenas as palavras. Mas se você sabe como olhar, as palavras são desnecessárias. As palavras são inúteis, podem ser dispensadas, tornam-se secundárias. Mas o dedo levantado não pode ser suprimido; ele é primário, é a única resposta. Todos aqueles que conheceram em qualquer parte do mundo, todos levantaram um dedo. Estavam falando de UM e você está vivendo na diversidade.

Quando se vive na diversidade, os problemas são criados, porque mover-se em muitas direções simultaneamente torna-o dividido, impede sua união. Um desejo o conduz para o norte, outro para o sul. Uma parte da mente ama, outra odeia. Uma parte da mente quer acumular riquezas e a outra diz: “Isto é inútil, renuncie!” Uma das mentes quer meditar, tornar-se profunda, silenciosa, e a outra diz: “Por que você está perdendo seu tempo?”

Ouvi dizer que uma vez aconteceu o seguinte: Um homem renunciou ao mundo quando ainda era muito jovem e foi para os Himalaias. Meditou lá por quase vinte anos. Aos 40, continuava sentado, meditando, sem fazer coisa alguma. Os pássaros e os animais selvagens, pouco a pouco, perderam o medo dele. Ele ficava lá, simplesmente sentado, o próprio amante da paz. Os animais sentavam-se ao seu redor e quando iam caçar, deixavam seus filhos para que ele tomasse conta. Seu cabelo tornou-se muito grande e os pássaros vinham fazer ninhos e pôr seus ovos nele. E o homem tinha que cuidar deles.

Depois de vinte anos ele se fartou de tudo isso. Disse: “Se estou tomando conta dos filhos dos outros, por que não me caso e tomo conta dos meus próprios filhos? Isso que estou fazendo é um absurdo, não estou chegando a nada. Esses vinte anos que passaram estão perdidos. Agora, não tenho mais tempo a perder. Já tenho 40 anos e logo a vida começará a declinar.”

Qual era o problema? Ele estava realmente meditando. Qual era o problema? Vinte anos é um longo tempo – mas sua mente continuava fragmentada. Uma parte meditava e a outra dizia: “É inútil. Por que você está perdendo tempo? Os outros estão se divertindo. Volte para os vales. As pessoas de lá estão felizes, dançando, bebendo, comendo, amando. O mundo está em êxtase e você aqui sentado como um tolo.” Ouvindo continuamente esse outro fragmento durante vinte anos, o primeiro fragmento tornou-se fraco.

Na superfície, ele repetia mantras: Ram, Ram, Ram. Mas, no fundo, este era o mantra: “Inútil! Sentado como um tolo e os outros aproveitando a vida enquanto a minha se acaba. Logo serei incapaz de aproveitar algo. Estou me tornando velho.” Este era o mantra real. Na superfície rezava: Ram, Ram, Ram; mas no íntimo, o mantra verdadeiro era outro.

Quando sua mente está dividida, você não pode orar nem meditar porque uma parte fica sempre contra a outra. E, mais cedo ou mais tarde, ela vencerá. Lembre-se disto: a parte que está em ação perde energia a cada instante e a que não está, a que critica, não perde nenhuma energia. Assim, mais cedo ou mais tarde será a mais poderosa.

Uma de suas partes ama uma mulher e a outra odeia. A parte do ódio fica escondida – todos escondem essa parte – e, a menos que você se torne um Iluminado, ela permanece no seu interior. A parte que ama começa a se tornar fraca porque está sendo usada, sua energia está sendo aplicada. A parte escondida, a do ódio, fica cada vez mais forte. Assim, todos os casamentos caminham para o divórcio. Quer o divórcio seja efetuado, quer não, todo casamento acaba em divórcio, a menos que se esteja casado com um Iluminado, o que é muito difícil.

Um dia, o homem se fartou. Começou a descer dos Himalaias. Pensou: “Por onde vou começar?” Tinha se esquecido completamente de como era o mundo! Tinha estado fora por tanto tempo! “Por onde vou começar? Se quero ser iniciado neste mundo preciso de um guia, exatamente como se quisesse conhecer o outro mundo. Quem será o guia certo para este mundo?” Então, lembrou-se de que antigamente os reis mandavam seus filhos para as prostitutas a fim de aprenderem como entrar neste mundo. Não existe melhor guia para este mundo do que uma prostituta. Ela é o mundo encarnado. Até mesmo o amor tornou-se um negócio para ela – este é o último estágio do mundo. Até o amor tornou-se uma profissão, uma comodidade; ela o vende. O dinheiro tornou-se mais importante do que o amor. Esta é a última coisa no mundo e pode tornar-se a porta.

Então, ele foi diretamente a uma prostituta. Era noite e ela estava se aprontando para ir a um rei. Ela lhe disse: “Você é bem-vindo, mas eu fui convidada por um rei. Ele é um avarento e, por isso, não espero ganhar muito. Mas quem sabe? Às vezes até os avaros dão. Venha divertir-se conosco.” O monge foi.

Durante toda a noite, a prostituta dançou e cantou. O rei ficou sentado em silêncio, sem lhe dar nada. Então, a última parte da noite já estava se esvaindo; logo haveria luz e a mulher estava cansada. Então, numa canção, ela disse a seu marido que tocava tabla: “Agora já fiz tudo o que poderia fazer.” Ela cantou de modo que ninguém pudesse compreender – este era um código para com seu marido. Disse: “Tudo o que podia ser feito, já fiz. Agora parece não haver nenhuma esperança. É melhor partirmos.”

Dentro de sua mente, o monge pensou: “Ela está na mesma situação em que eu me encontrava: tudo o que eu podia fazer já havia feito. Nada mais poderia ser feito e o melhor era partir.” Então, ele ouviu atentamente quando o marido disse: “Tudo o que podíamos fazer, nós já fizemos. Mas a noite ainda não acabou. Quem sabe? Devemos ir até o final. Só falta um pouco mais. Seja paciente.”

Ouvindo isso, o monge pensou: “E agora, o que devo fazer? Talvez eu estivesse na beira quando deixei os Himalaias. Talvez um pouco mais de paciência...”

O monge possuía apenas um lençol. Estava nu por baixo. Mas sentiu-se tão encantado que atirou seu lençol aos pés da prostituta e começou a correr para fora do palácio. O rei, então gritou,: “Pare: isso é contra a convenção.”

A convenção era a seguinte: quando uma pessoa rica estava presente, ela deveria contribuir primeiro; senão, seria um insulto. O rei estava presente e aquele homem havia contribuído primeiro.

O monge respondeu: “Se é contra a convenção, pode me matar, mas ela salvou a minha vida. Foi um momento de tão grande êxtase que tive de dar algo. Eu não tinha mais nada além desse lençol, mas não posso esperar por você, estou indo para os Himalaias. Esta mulher e este homem que estava tocando tabla revelaram-me um segredo: um pouco mais de paciência.” Dizem que o homem tornou-se Iluminado naquele momento e que nunca mais voltou aos Himalaias. Ao descer as escadas do palácio, iluminou-se.

O que aconteceu? Pela primeira vez as duas partes tornaram-se uma. Eis o significado da paciência. Paciência significa permitir que a outra parte lute. Paciência significa estar pronto para esperar infinitamente. Quando você está pronto para esperar pelo infinito, não existe nenhuma possibilidade de a outra parte dizer: “Não aconteceu ainda.” Não existe sentido em dizer: “Você está perdendo o seu tempo”. Se você está pronto para esperar infinitamente, então nada é perdido. Se a sua espera é eterna, infinita, então a outra parte fica sem ter o que dizer.


A unidade é necessária. Se não há unidade, a luta é constante. Eis por que Gutei costumava levantar um dedo quando explicava sobre o Zen. Estava dizendo: “Seja um! – e todos os seus problemas estarão solucionados.”

Existem muitas religiões, muitos caminhos, vários métodos, mas o ponto essencial é o mesmo: a UNIDADE. Seja qual for a sua escolha, seja um. Se puder render-se totalmente, tornar-se-á um, a unidade virá.

Se você puder trabalhar num jardim totalmente absorto, de modo que nenhuma pessoa exista, nem mesmo quem está cavando; se você se transformar no ato de cavar, então o agente será a ação, o observador a observação, o meditador a meditação – de repente, todas as ondas de maya desaparecerão, todas as ilusões terminarão. Você será elevado a uma camada diferente, a um diferente plano de ser.

Quando você for um, alcançará o Um. Enquanto for muitos, estará no mundo. O mundo é muitos e Deus é um. Para conhecer o Um, é preciso, antes, tornar-se um. Não existe outro modo. Só quando você se transformar Nele é que será capaz de conhecê-lo.

“O Mestre Zen Gutei costumava erguer um dedo ao esclarecer uma questão sobre o Zen.”

Zen é um termo sânscrito vindo da palavra dhyan. É a forma japonesa de dhyan. Quando Bodhidharma levou para a China as técnicas de Buda, dhyan tornou-se Chan. Quando Chan foi levado ao Japão, tornou-se Zen. Mas o termo original é dhyan. Quando Gutei falava sobre dhyan (meditação), levantava um dedo. A unidade é dhyan, a unidade é tudo o que deve ser atingido – é o fim.

“Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo...”

É claro. Deve ter sido um discípulo bem jovem, pois só as crianças imitam. Quanto mais maduro se é, menos se imita; quanto mais imaturo, mais se imita. Se você ainda imita, ainda é um adolescente, ainda não atingiu a maturidade, ainda não se tornou um adulto. O que é ser adulto? É compreender que você tem de ser você mesmo e não um imitador, isso é que é maturidade.

Se você olhar para si mesmo, não encontrará essa maturidade. Você tem estado imitando os outros. Alguém tem um carro novo – de repente, você começa a imitar, precisa de um carro novo também. Os vizinhos sempre o deixam nervoso. Estão sempre comprando isso e aquilo e você tem de imitá-los. E quando isso ocorre, você é exatamente como os macacos.

Não imite! Seja maduro! Imitar não o levará a lugar algum. Por que? O que é imitar e o que é ser autêntico, verdadeiro?

Imitar significa estabelecer um ideal a partir dos outros; significa ter um ideal que não é seu, um ideal que não vem de dentro de você, que não é um florescimento natural vindo do seu interior. Algum outro estabeleceu o ideal e você vai atrás. Se não o alcança, sente-se miserável por não ter conseguido atingi-lo. Se o alcança, sente-se miserável também porque esse nunca foi o seu ideal. Você nunca o quis, isso nunca ocorreu no seu interior.

Eis por que existe tanta miséria no mundo: as pessoas ficam se imitando. Se falham, sentem-se miseráveis porque não atingiram. Se são bem-sucedidas, também se sentem na miséria. Observe: nada fracassa tanto quanto o sucesso, se este sucesso advier de uma imitação. É possível alcançar um objetivo após longa e extenuante jornada, após muito esforço e perda de tempo e energia. Mas então você descobre: “Eu nunca quis ser isso. Alguma pessoa deve ter querido e eu peguei emprestado o seu ideal.” Não pegue ideais emprestado dos outros, isso é infantil.

“Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo...”

Deve ter sido um discípulo bem jovem mesmo, infantil. Começou a imitá-lo.

“Quando alguém lhe perguntava sobre o que o seu Mestre havia pregado, ele levantava um dedo” – do mesmo modo, com o mesmo gesto que o Mestre havia feito.

As pessoas devem ter gostado disso, devem ter rido. O rapaz era um imitador perfeito: fazia a mesma cara, levantava o mesmo dedo, tentava olhar do mesmo jeito. Ele representava muito bem.

Quanto mais eficiente é a representação, mais imaturo se permanece. É preciso ser verdadeiro consigo mesmo. Se você não é muito eficiente, isso não importa; o que importa é que você seja verdadeiro consigo mesmo, porque apenas a sua própria verdade poderá levá-lo à Verdade Última. A verdade de nenhuma outra pessoa poderá ser a sua.

Você tem uma semente no seu interior. Só quando essa semente germinar e tornar-se uma árvore é que você florescerá, entrará em êxtase, terá a bênção. Mas se você estiver seguindo os outros, essa semente continuará morta. É possível acumular todos os ideais do mundo e tornar-se bem-sucedido, mas você se sentirá vazio porque nada poderá preenchê-lo. Só a sua semente, quando se tornar árvore, é que poderá satisfazê-lo. Você só se sentirá completo quando a sua verdade florescer, nunca antes.

As pessoas podem apreciar seu sucesso na imitação – elas sempre o apreciam. Esse rapaz deve ter sido apreciado no mosteiro por estar representando exatamente como o Mestre. Deve ter ficado famoso; os imitadores ficam famosos. Eles não sabem que estão cometendo suicídio. Entretanto, para que os outros o apreciem, você é capaz até de se suicidar.

Ouvi dizer que um ator morreu. Seu funeral atraiu milhares de pessoas. Sua mulher batia no peito, chorava e gritava. Quando ela viu que milhares de pessoas tinham vindo, disse: “Se ele soubesse que tantas pessoas viriam, teria morrido mais cedo.”

Você pode se suicidar para ser apreciado. Você está se suicidando apenas porque os imitadores são apreciados. Uma pessoa autêntica não, porque ela é rebelde. Não imita ninguém. Ela diz: “Eu não serei Buda, nem Krishna, nem Jesus. Um já é o suficiente! Um Jesus já é o suficiente. Por que imitá-lo?” Um segundo Jesus, embora belo, é apenas uma cópia, não tem valor. Por que imitar Jesus? Deus não lhe perguntará, no fim, por que você não se tornou Jesus, mas sim por que não se tornou você mesmo.

Ouvi falar sobre um místico hasid chamado Magid. Ele era muito pobre e ninguém sabia muito a seu respeito, mas ele era um homem realmente autêntico. Quando estava morrendo, alguém lhe perguntou: “Magid, você rezou a Deus para fazê-lo como Moisés?” Ele abriu os olhos e disse: “Pare! Não diga tais coisas enquanto eu estou morrendo. Deus não irá me perguntar por que eu não me tornei Moisés. Ele perguntará: ‘Magid, por que você não se tornou um Magid real?’”

Os outros não o compreenderam, não podiam compreender, pois isso parecia um insulto a Moisés. Não é. Isso não é um insulto. Moisés tornou-se Moisés: essa é sua beleza. Magid tem de se tornar Magid: essa é a sua beleza. E somente a beleza, somente o ser florescido pode ser ofertado a Deus. Como poderia Deus perguntar a uma rosa: “Por que você não se tornou um lótus?” Como poderia Deus ser tão tolo? Não! Ele não é tão tolo quanto você pensa. Ele perguntará à rosa: “Por que não floresceu totalmente? Por que voltou como um botão e não como uma flor?”

Florescer é o essencial. Se você é um lótus ou uma rosa ou alguma flor não especificada, desconhecida, não faz diferença. Quem você é não é o essencial. O essencial é que você possa chegue à porta do Divino como uma flor aberta, florescida e não fechada como um botão.

“Um discípulo muito jovem começou a imitá-lo...”

Quando você chega perto de um Mestre, esta é a possibilidade – a primeira possibilidade: começar a imitá-lo. Lembre-se de que isso não irá ajudá-lo, de que isto é perigoso, de que estará cometendo suicídio. Compreenda o Mestre, beba sua presença, alimente-se dela o máximo que puder, mas não se torne um imitador. Não se torne falso.

“Gutei ficou sabendo disso. Então, um dia, ao encontrar o menino imitando-o, pegou o dedo do discípulo, puxou uma faca, cortou o dedo e jogou-o fora.”

Parece que esse Mestre era muito duro, muito cruel. Os Mestres são cruéis. Se não o forem, não poderiam auxiliá-lo. São cruéis por que têm uma profunda compaixão. Por que o Mestre cortou o dedo dele? Se ele fosse um pouco menos duro, não teria sido de nenhuma utilidade ao rapaz. Algo muito severo era necessário. Algo que fosse direto ao coração. Isso deve ser compreendido.

Ouça-me. Se você está aqui apenas por curiosidade, não poderá ir muito a fundo. Se sua curiosidade é apenas intelectual; se você está interessado apenas em saber o que estou dizendo, não poderá ir muito a fundo; não será capaz de compreender o que estou dizendo. Mas, se a vida lhe deu muito sofrimento e você está aqui por causa disso: para compreender como transcendê-lo, então o que direi poderá ir até lá dentro. O sofrimento lhe dá profundidade, o conduz em direção ao centro.

Se você me ama, se você não tem comigo um relacionamento intelectual – o qual não é absolutamente um relacionamento – mas uma relação de amor; se está emocionalmente tocado por mim, então irá compreender. Porque quando você ama uma pessoa, você a ouve com o coração, não com a cabeça. A cabeça é a pior coisa que existe: tola, fútil, exatamente como um cesta de lixo – nada mais. Tudo o que é tolice vai sendo colecionado por sua cabeça. As futilidades nunca entram no coração, são acumuladas na cabeça. Só o que é essencial vai para o coração. Assim, se você estiver aqui apenas por curiosidade, conseguirá me ouvir apenas na superfície. Pouco poderá lhe acontecer. Mas se você estiver aqui porque sofreu: se não veio como um curioso, mas como alguém que tem conhecido a vida, conhecido seu sofrimento e por meio dele a maturidade; se você quiser ser transformado – então, me ouvirá com muito mais profundidade.

Mas sua profundidade poderá ir mais além ainda. Se você me amar, se tiver confiança, estará mais aberto – só a confiança pode abrir; se você não confiar estará sempre com medo e o medo é sempre fechado. Quando você está totalmente aberto – você sofreu, a vida lhe deu profundidade e, além disso, você confia, além disso, está totalmente aberto – então, o que eu disser poderá ir imediatamente ao seu coração. E, depois de ouvir, você nunca mais será o mesmo.

“Gutei ficou sabendo disso.” Um Mestre sempre fica sabendo quem são os imitadores. Eles são tão aparentes, tão óbvios! Eu sei muito bem quem são os imitadores aqui. Um imitador não pode enganar a quem está imitando. Pode enganar aos outros, mas não a quem está imitando. Sua falsidade é patente.

As pessoas vêm a mim e repetem minhas próprias palavras, meus próprios gestos e pensam que podem me enganar. Elas podem enganar aos outros, mas não a mim porque suas palavras são tão superficiais! Você pode repetir as mesmas palavras, não há problema: as palavras não são o problema – mas a intensidade que você dá a elas, isso vem do seu próprio ser. A palavra pode ser usada por qualquer um. Você pode recitar todo o Gita, mas suas palavras não serão as mesmas pronunciadas por Krishna.

Você pode repetir toda a Bíblia, mas quando aquelas palavras foram usadas por Jesus elas tinham uma tremenda energia, uma força de transformação – porque Jesus estava naquelas palavras. Seu ser se movia através de cada uma delas.

Você pode usar as mesmas palavras. Para cada cristão, existem milhões de padres repetindo as mesmas palavras. Repetem o Sermão da Montanha... e as palavras são tão superficiais que acabam sendo um grande prejuízo. Seria melhor que eles não as repetissem porque quando se repete muito certas palavras, elas perdem a magia, tornam-se usadas e as pessoas ficam tão acostumadas a ouvi-las que se tornam muito inúteis, apenas clichês.

Gutei ficou sabendo a respeito do jovem que o imitava e “...um dia, ao encontrar o menino imitando-o, pegou seu dedo, puxou uma faca, cortou o dedo e jogou-o fora.”

Quanta severidade! Mas Gutei deve ter tido muita, muita compaixão. Só desse modo é que se pode ser tão duro. É difícil compreender porque pensamos que a crueldade, a austeridade acontecem apenas quando não existe compaixão. Não – se você pensar assim nunca entenderá um Mestre. Um Iluminado só é vigoroso com o discípulo quando está repleto de compaixão. Se assim não fosse, porque se preocuparia? Ele é rígido justamente porque se preocupa, porque está aflito a seu respeito, quer auxiliá-lo. E menos do que tal atitude de nada adiantará.

O que aconteceu? Quando ele puxou sua faca, pegou o dedo do rapaz, cortou-o e jogou-o fora, o que aconteceu? Quando o rapaz viu o Mestre puxar sua faca, o que lhe ocorreu? Se alguém chega, de repente, perto de você com uma faca, o que lhe acontece? – Seus pensamentos param.

Você não pode pensar, é tudo tão novo, tão inédito. A velha mente simplesmente pára, ela não pode compreender o que está acontecendo. Ninguém poderia sequer supor que Gutei carregasse uma faca. É possível alguém me imaginar carregando uma faca? É tão impossível, tão incompreensível. Mas Gutei puxou a faca – o rapaz deve ter ficado em estado de choque, com o pensamento parado. Era um tratamento de choque. Aquilo vindo de Gutei – quase impossível! O rapaz não pensaria nisso nem em sonhos... e então Gutei não somente puxou a faca, mas cortou o seu dedo também.

Enquanto Gutei estava cortando o dedo do discípulo, enquanto o dedo era decepado da mão, o que estava acontecendo dentro do rapaz? Pela primeira vez em sua vida, ele estava atento, sem pensamentos. Não podia estar adormecido num momento desses. Você pode estar adormecido enquanto alguém corta o seu dedo? Não, é impossível.

A dor foi tão intensa, o sofrimento foi tão intenso, que nesse exato momento o rapaz se transformou. Deixou de ser uma criança, tornou-se maduro. Isso pode ocorrer em apenas um instante, pode não acontecer por muitas vidas. A imitação deve ser severamente cortada. O dedo era apenas simbólico. O rapaz tinha de ser atingido severamente e o sofrimento devia ir até a raiz de seu ser. Devia ser tão desconhecido que ele não pudesse teorizar a respeito. Não pudesse pensar, nem filosofar, mas simplesmente ficar chocado. Assim, sua mente não poderia mover-se para lugar algum.

Pela primeira vez, ele deve ter olhado com olhos novos, sem pensamentos flutuando, se interpondo. A dor foi tão severa e súbita que deve ter atingido diretamente seu coração.

Lembre-se, o prazer nunca atinge tanto quanto a dor. O prazer nunca vai tão a fundo! Não pode, A própria natureza do prazer é superficial. Assim, as pessoas que vivem no prazer são sempre superficiais, frívolas. Você não pode encontrar profundidade num homem rico, é muito difícil. Mas pode encontrá-la num mendigo. Você pode não olhar para um mendigo porque pensa que ele é simplesmente um mendigo; mas não se fixe em suas idéias. Quando cruzar com um mendigo, olhe-o. Ele sofreu muito, sentiu muita dor e a dor dá profundidade. Um rico é sempre superficial, frívolo. Vive no prazer e, por isso, não pode ir muito a fundo.

No sofrimento do discípulo de Gutei, a dor foi tanta e tão repentina que a mente parou de revolver e o coração foi atingido.

“Enquanto o rapaz corria, berrando, Gutei gritou: ‘Pare!’”

É sobre isso que eu estava falando. Primeiro, você deve estar em profundo sofrimento, gritando; somente então o “Pare” pode ser significativo. O rapaz correu uivando de sofrimento e dor e Gutei gritou: “Pare!” Se o “pare” é dito no momento certo, ele atinge diretamente.

De repente, ele parou! O que aconteceu nessa parada? Não havia mais dor. Se você pára repentinamente, toda sua atenção move-se para o som “pare”. O corpo é deixado para trás e você se torna atento. Quando você está realmente atento, o corpo não pode perturbá-lo, não pode distraí-lo. O dedo não estava mais lá, o sangue fluía – havia dor, mas esse “pare” levou toda a atenção do discípulo para o Mestre.

Quando não há atenção, não existe dor. A dor só existe no corpo se atenção for dada para o corpo. Quando você está doente, deitado na cama, o que você faz? Fica continuamente prestando atenção à sua doença, fica alimentando-a. Algo deve ser feito a esse respeito, pois isso tornou-se um grande problema em todo o mundo.

Os médicos sugerem que você se deite e descanse quando está doente. Mas descansando, o que você fará? Prestará atenção à dor e assim a estará alimentando; a atenção alimenta a dor. Então, você estará pensando nela continuamente; isso se torna um mantra, um canto interno: “Estou doente, estou doente. Alguma coisa está errada.” Você reclama e percorre o corpo (com sua atenção) diversas vezes, tentando encontrar o que está errado. Você fica remoendo isso. Que coisa mais patológica! Isso faz com que a doença continue. Torna você hipnotizado pela doença!

Se muita atenção é dada à doença, você se torna uma vítima hipnotizada. Se você reclama, se queixa constantemente de algo, isso entra num ciclo vicioso: você reclama e, com isso, convida a doença a entrar ou permanecer, porque cada queixa significa dar atenção outra vez e outra vez; torna-se algo repetitivo.

O que acontece? Ouvi dizer – e isso já aconteceu muitas vezes – que um homem estava doente, paralisado há quinze anos sem poder andar. Uma noite, de repente, sua casa começou a pegar fogo. Havia o fogo, a casa estava em chamas e todos correram para fora. O homem esqueceu que estava paralisado e correu para fora da casa. Só lá fora, quando sua família o viu correndo e lhe disse “Como? Você está paralisado!”, é que o homem se incapacitou de ficar em pé e caiu.

O que aconteceu? Nesse acidente, nesse particular momento de intensidade – a casa estava em chamas – o homem esqueceu que estava paralisado. Por um momento sua atenção abandonou essa crença, ignorou essa ilusão, e por isso o homem pôde correr para fora da casa. Se você puder se esquecer da sua doença, ela irá embora mais rápido do que com qualquer remédio. Se não puder esquecê-la, se ficar continuamente remoendo-a estará mexendo na ferida. E quanto mais você a remexe mais profunda ela se torna.

O que aconteceu quando Gutei gritou: “Pare”? O rapaz olhou-o, sua atenção moveu-se do corpo para o Mestre. Seu grito parou e a dor desapareceu como se o dedo não tivesse sido cortado.

“O menino parou, virou-se e olhou para o seu Mestre através das lágrimas”.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas, ele estava gritando, chorando e soluçando. Mas parou! Sua dor desapareceu, mas as lágrimas não podiam desaparecer tão de repente – elas estavam lá.

“Gutei estava com um dedo levantado. Quando o rapaz foi levantar o seu, percebeu que o dedo não estava lá, e inclinou-se. Nesse instante, tornou-se iluminado.”

“Gutei estava com um dedo levantado.” Esse foi um momento de intensa consciência; um grande truque foi feito, uma situação foi criada pelo Mestre. A mente não estava mais lá, a dor havia desaparecido porque a atenção havia se desviado para outro lugar... Como se o rapaz não fosse capaz de respirar. “Pare!” – e a respiração parou, o pensamento parou e ele se esqueceu de que não tinha mais um dedo. De acordo com o velho hábito, quando o Mestre levantava um dedo, o rapaz levantava também o seu – mas agora o dedo não estava mais lá. Isso mostra que ele havia se esquecido completamente do que havia ocorrido. O discípulo levantou o seu dedo como em todas as outras vezes que o fizera, quando ainda possuía o dedo. O simples fato de ter repetido o hábito de levantar o dedo, após o Mestre levantar o seu, demonstra que nesse momento ele esqueceu-se de que não tinha mais o dedo.

Nesse momento, ele não era o corpo; de outro modo, como poderia ter esquecido a dor, o dedo cortado, sangrando, os olhos ainda cheios de lágrimas? Há apenas um momento ele uivava de dor. O “Pare” provocou o milagre.

“O rapaz parou, virou-se, olhou para seu Mestre através das lágrimas. Gutei estava com um dedo levantado.”

De acordo com o seu velho hábito, o menino levantava o dedo sempre que o Mestre ensinava sobre o Zen. Ele ficava em pé, ao lado ou atrás da cadeira, e quando o Mestre levantava um dedo ele também levantava. Isso tornou-se um gesto automático. O corpo é um autômato, é um mecanismo, é mecânico.

O rapaz foi levantar o seu dedo e quando percebeu que não estava lá – só então ele viu que o dedo não estava lá – inclinou-se.

O que aconteceu? Por que ele ficou tão agradecido e inclinou-se? Porque, pela primeira vez, percebeu que não era o corpo. Que ele era a atenção, não o corpo; a consciência, não o corpo. O dedo não estava lá e a dor desaparecera, os gritos desapareceram. O pensamento não estava mexendo na ferida, remoendo-a. Ele não era mais o corpo, que importância então teria o fato de ele não ter mais o dedo? – Aquele corpo não era ele. Nada de real valor foi perdido. Ele despegou-se do corpo, abandonou-o. Não estava mais encarnado, estava simplesmente fora do corpo. Pela primeira vez, pôde saber o que é a alma, a consciência, o verdadeiro Ser; pôde saber que o corpo é apenas a casa.

Você não é o corpo; está nele, mas não é ele. Se a sua atenção puder chegar a tal intensidade, você perceberá que não é o corpo. Ao perceber isso, ficará sabendo que é imortal. Quem então poderá lhe cortar o dedo? Como alguém poderá ser violento com você? Ninguém poderá destruí-lo. Eis por que ele se inclinou para o Mestre em profunda gratidão. “Por você ter me dado esta oportunidade de conhecer o meu mais profundo ser que é imortal.”

“Nesse instante, iluminou-se.”

O que é iluminar-se? É chegar a entender, a perceber que você não é o corpo. É a luz interna. Não o lampião, mas a chama. Não é o corpo, nem a mente. A mente pertence ao corpo - ela não está além dele. Ela é a parte do corpo mais sutil, mais refinada, mas ainda assim é parte do corpo. A mente é tão atômica quanto o corpo.

Você não é nem o corpo nem a mente, Então, fica sabendo quem é. E ficar sabendo quem você é, é iluminar-se.

Quando Gutei cortou o dedo do discípulo, o pote, o velho pote caiu, quebrou-se, a água escorreu - nem água, nem lua! O discípulo iluminou-se.

Gutei deve ter esperado pelo momento certo. O menino fazia aquilo há muitos e muitos anos. Ele esperou e esperou. Não se pode forçar o momento certo. Quando ele chega, chega. Você cresce em direção a ele e o Mestre espera. Quando ele chega, quando ele está presente, qualquer coisa pode tornar-se a desculpa, qualquer coisa. Mesmo um grito, “Pare!”, pode ser o suficiente para despedaçar o velho pote. De repente, os reflexos desapareceram porque não há mais água. Você olha para a lua real, você está iluminado.

Iluminação significa compreender quem você é.

- Osho



quarta-feira, abril 14, 2010

Estados de consciência

Dárcio Dezolt


A percepção de que Deus é a Consciência única permite que nos identifiquemos com essa unidade e possamos conhecer a Verdade de que "temos a Mente de Cristo". Esta identificação correta anula a falsa, ligada à suposta mente humana; e, assim, as crenças hipnóticas universais acabam se mostrando como são: inoperantes e sem qualquer poder.

Suponhamos que alguém experiencie este Despertar espiritual de que sua consciência atual é a própria Consciência crística ou divina. Para as demais pessoas, que ainda se identificam com a mente humana, o homem "Desperto" passa a ser rotulado de "iluminado", "mestre", "praticista espiritual" etc. Desse modo, para a "mente humana", estará existindo, por exemplo, um curador espiritual e seus pacientes. Se este praticista se dedicar a contemplar os supostos pacientes com o "Olho Crístico", verá a Consciência infinita Se desdobrando em cada um deles, no lugar de vê-los como seres humanos em diversos estágios mentais de consciência. Quando as pessoas são receptivas à ação pura desta Consciência única, indivisível e onipresente, "curador" e "pacientes" são transcendidos, e, como efeito visível, teremos as chamadas "curas espirituais".

Este efeito curativo é recebido igualmente por todas as pessoas? Não. O envolvimento com as crenças humanas, tanto por parte do "curador" quanto por parte dos "pacientes" influi na receptividade à Verdade. Em vista disso, em muitos ensinamentos espirituais, surgiu a propalada questão dos estados ou estágios de consciência.

Didaticamente, podemos subdividir a mente humana em consciente e subconsciente. A receptividade espiritual se relaciona com a habilidade ou facilidade com que a pessoa consiga deixar de lado a análise puramente lógica ou intelectual, em termos humanos, para permitir a percepção da atuação transcendental da Consciência única nela própria. Como essa facilidade difere de indivíduo para indivíduo, em função de diversos fatores, todos ligados ao envolvimento de cada um com o mundo das aparências, alguns autores de temas metafísicos dão o nome de "estados de consciência" a cada uma dessas supostas graduações de receptividade.

As palavras são meramente expedientes que buscam elucidar uma idéia. Se, por um lado, essas explicações agradam ao intelecto humano, por tratarem de algo aparente, por outro lado, se não ficarmos atentos, teremos o endosso de que a ILUSÃO existe! Que é ilusão? A crença na inexistência! A VERDADE ABSOLUTA É CLARA: DEUS, A CONSCIÊNCIA ILUMINADA, É A ÚNICA CONSCIÊNCIA.

Assim, por mais que os supostos "estados de consciência" pareçam existir, são todos ILUSÃO! Aceitá-los como existentes, quando estudamos a Verdade Absoluta, seria negar a BASE do estudo: a UNIDADE.

Por difícil que possa parecer, devemos deixar de lado todas as "diferenças humanas", baseadas no "julgamento segundo as aparências". Disse Jesus: "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos." (Mateus 11:25).

Há pessoas que justificam a permanência de seus problemas com argumentos do tipo: "Eu não pude elevar a minha consciência o suficiente para resolvê-los". Este é o perigo de encararmos os "estágios de consciência" como existentes! Somos levados a acreditar que tudo depende de nossa elevação de consciência, quando, na verdade, nossa posição é a de nos tornarmos receptivos à atuação da Consciência única, que é Deus. Jamais a suposta "mente humana" se elevará à Consciência divina, assim como jamais a escuridão atingirá a luz. A "mente humana" é NADA! As curas espirituais e a solução espiritual para todos os tipos de problemas não dependem de nada que seja ilusório; assim, independem dos chamados "estados de consciência". Para explicar esta Verdade, disse Jesus: "O Pai, que permanece em mim, faz as obras".

A compreensão deste princípio é fundamental, pois nele está implícito o motivo de não haver esforços mentais na prática da Verdade. Não meditaremos para "elevar a consciência", e sim para "aguardar a descida do Espírito Santo", ou seja, a revelação espontânea de que a Consciência infinita já é a nossa única Consciência individual. O Caminho não é o do "esforço", mas o da "dedicação". Iremos nos dedicar a manter a mente voltada para o nosso íntimo, para o Reino de Deus "dentro de nós". Aos olhos da crença, estaremos "evoluindo"; porém, aos nossos olhos, estaremos somente reconhecendo continuamente a nossa verdadeira e única IDENTIDADE DIVINA.

A mente ilusória estabelece, por exemplo, diferentes estados de consciência para um religioso e para um ladrão; além disso, aceita que estamos em constantes flutuações mentais, ora calmos, ora nervosos, etc. Precisamos sair desta esfera de crenças mortais, abrindo-nos à AÇÃO ÚNICA do Absoluto! TODOS OS SERES JÁ SÃO ILUMINADOS! TODOS SÃO O FILHO DE DEUS! Este reconhecimento é o ponto de partida, caso contrário, inexiste estudo da Verdade. Se formos "julgar segundo as aparências", os princípios espirituais não terão qualquer propósito. Deles nos utilizamos justamente para que as aparências sejam transcendidas. Que significa "transcender as aparências"? Significa RECONHECER a Onipresença de Deus e o puro NADA que são a "mente humana" e todos os seus supostos "julgamentos".

Habituando-nos à meditação correta, sabendo aguardar, aguardar e aguardar em silêncio e quietude, com a Mente em contemplação direta da Realidade iluminada já presente, perceberemos que jamais estivemos separados de Deus. E esta comunhão consciente surgirá também visivelmente COMO condição de harmonia nos vários segmentos de nossas vidas.


domingo, abril 11, 2010

Estados e Estágios da Consciência (Fim)

Joel S. Goldsmith


COMO VIVER PELO "MEU ESPÍRITO"

Não deixe ninguém acreditar que viver sem preocupações tem a ver com assumir um vazio mental. Pelo contrário, no momento em que você aprende a viver sem cuidados, você será a pessoa mentalmente mais ativa da comunidade, porque então você não é mais governado pelo sentido limitado que é a mente. A mente que estava em Cristo Jesus começa a funcionar como você: se quer escrever, será um escritor; se quer pintar, será um pintor, porque não haverá mais limitação.

Você não assume um vazio mental e não vive em um vácuo, mas está tão animado por essa consciência espiritual que, mesmo quando está dormindo, está pensando. Você não está apreensivo, o que é uma coisa bem diferente, mas está recebendo impulsos divinos através da mente, sua via de percepção, e está sempre consciente de uma experiência que se expande de modo infinito.

Nunca acredite que viver sem apreensão conduzirá à ociosidade de qualquer espécie. Pelo contrário, isso traz à vida tal atividade, que o admirável é que você, mesmo assim, possa dormir. Não há fim para a atividade que se manifesta na pessoa cujo ser está animado pela mente de Cristo. Quando essa mente de Cristo se apossa de sua experiência, pensamentos criativos e inspiradores, os pensamentos de Deus -- os pensamentos de Deus extravasando-se como homem -- passam a fluir através de você, em lugar de você estar buscando em seu cérebro velhos pensamentos ou verdades frias.

E o que é uma verdade fria? Uma verdade fria é algo que você recorda como uma citação, alguma coisa que lhe vem do armazém da memória. Quando um pensamento chega a essa consciência que é receptiva e aberta, ela surge como uma verdade quente/fresca, uma verdade viva, e traz em si a cura, ou traz em si novas idéias. Isso é o que acontece quando recebemos uma comunicação direta da Consciência divina.

Uma pessoa pode procurar em todos os velhos livros de eras passadas -- e essas verdades remontam realmente a longo tempo -- mas as verdades neles não terão valor até que encontrem acolhida em uma consciência aberta, quando então se tornam vivas. Portanto, o aspecto mais importante deste ensinamento é não oferecer conhecimento ou dar declarações da verdade, porque cada declaração que estou fazendo a você agora já era conhecida através dos tempos.

O verdadeiro valor deste ensinamento é desenvolver em você um estado de receptividade espiritual, de modo que possa ser receptivo à mente de Cristo; abrir sua consciência para que você possa receber estas verdades; abrir sua consciência ao influxo do Cristo, de modo que sua consciência aberta torne-se o Cristo vivo e, dessa forma, a luz do mundo.

Muitas pessoas acreditam que em breve haverá uma outra vinda do Cristo, mas estou convencido de que eu e você somos essa vinda, na proporção em que o Cristo é despertado em nós. Cada um de nós está agora chegando a esse estado de consciência onde podemos aceitar a declaração de Jesus de que o Consolador virá até nós quando cessarmos de confiar nas pessoas e nas formas e meios humanos. Quando você pode abrir sua consciência para o Cristo total infinito, então Cristo, o Cristo da segunda vinda, virá para você e para mim. Todavia, não posso acreditar, nem por um minuto, que uma segunda vinda do Cristo será vivenciada pela pessoa que não empregou seu tempo em aprender a conhecer o Cristo.

Precisamos vivenciar o Cristo, não por ouvir dizer, mas por demonstração real, por contato real. Alguns discípulos sabem que essa experiência é possível e, ao trabalhar com pessoas de pensamento receptivo, observei posso elevá-las até onde elas podem ter a mesma visão que tenho -- não através da transferência de pensamento, mas através do seu próprio desenvolvimento individual. Eles ouviram "a pequena voz silenciosa" e receberam revelações, através do desenvolvimento de sua capacidade de meditar.

Veja a presença de Deus abrir sua consciência para o influxo do bem. Não pense na forma como ele aparecerá, através de quem ou com quem, ou onde ou quando. Abra sua consciência para Deus e deixe que Ele se torne evidente ou manifesto -- não com trabalho mental, não por repetição ou afirmação, "não pelo prestígio nem pelo poder, mas por meu Espírito".

quinta-feira, abril 08, 2010

Estados e Estágios da Consciência - 04


Joel S. Goldsmith



O CORPO É VIDA FORMADA

A campainha do telefone soa e uma voz grita: "Trabalho para viver; eu estou morrendo" -- mas a Bíblia diz: "Não estejais apreensivos pela vossa vida". Portanto, minha resposta ao chamado é: "Sim, eu trabalharei para realizar Deus". -- A vida é um sinônimo de Deus. Você não vê que se fizer qualquer trabalho mental pela vida, provavelmente estará pensando em termos de vida como o oposto da morte; mas, já que Deus é apenas vida, a vida não tem um oposto?

Um prático disse certa vez a um paciente: "Não há vida em seu corpo"; mas o paciente, naturalmente, queria manifestar a vida mais abundantemente, senão dentro dele, pelo menos como um corpo. Muitos de nós estamos tentando nos livrar de nosso corpo, negando-o. Você pode visualizar que pereceríamos sem um corpo? Não negue o corpo nem jogue fora; é muito bom possuí-lo. Você tem um corpo e Deus o deu a você -- não os seus pais. Nenhum de vocês que seja pai ou mãe sabe o suficiente para fazer um corpo. Deus forma o corpo, não os pais, ou como eu disse numa ocasião a uma mãe: "Na melhor das hipóteses, você foi o forno no qual foi feito o seu filho".

Deus é Espírito e Se expressa de um modo infinito e individual, e tem Sua prória maneira de produzir Sua imagem e semelhança. Isto que vemos é apenas o nosso conceito de uma atividade divina. A ascendência humana, ou a assim chamada criação, não é espiritual; não é de Deus. Se o fosse, todos seriam bem proporcionados e normais, e não existiriam crianças doentes ou deformadas. Somente porque deixamos Deus fora disso é que temos tais condições.

A maioria das pessoas considera a experiência do nascimento humano como se fosse apenas um ato animal. Essa é uma interpretação falsa. O nascimento não é animal: em si próprio, é divino e maravilhoso. Nós é que o tornamos algo de natureza animal. Precisamos aprender a reinterpretá-lo, e quando aprendermos a fazer isso, haverá mais casamentos felizes e menos divórcios.

A única razão para o divórcio é que um homem e uma mulher se vêem apenas como homem e mulher. É uma coisa difícil para um homem e uma mulher viverem juntos por muitos anos, salvo se houver um terreno comum de encontro e, o que é mais importante ainda, uma ligação espiritual. Se ao menos, muito antes do casamento, eles pudessem compreender que não estão buscando um casamento, um lar ou companhia, mas estão realmente procurando a presença de Deus em forma visível, haveria mais casamentos felizes e cada criança nascida dessa união seria, então, Deus manifesto.


IMORTALIDADE, NÃO LONGEVIDADE

Assim, chegamos à seguinte questão: Qual o motivo do seu estudo? Disso depende o futuro de vocês neste trabalho. Não quero dizer que aqueles de vocês que não compreenderem devam voltar ao nível mental. Se for necessário, é o que terão de fazer, até serem capazes de atingir o nível espiritual. Mas, para aqueles de vocês que vislumbrarem um lampejo do significado da vida espiritual, todo o seu futuro irá depender de poderem ou não se decidir a procurar apenas a consciência da presença de Deus e ficarem satisfeitos em deixar que as demais coisas lhes venham por acréscimo. A extensão em que forem capazes de fazer isso será a medida da sua demonstração.

O motivo para este estudo é apenas converter doença em saúde, solidão em companhia, desamparo em lar? Ou vocês estão prontos, neste momento, para cessar de se preocupar com coisas deste mundo, que não pertencem ao reino espiritual, e rezar honestamente: "Tudo o que eu quero é o reino de Deus na Terra. Tudo o que eu desejo é o reino de Deus em minha experiência individual, o governo de Deus em meus afazeres individuais"?

Quando atingimos esse ponto, estamos procurando o reino de Deus e sua integridade; não o nosso senso de integridade -- mais dinheiro, mais companhia, mais saúde -- mas Sua integridade, o sentido espiritual do bem. Se entendêssemos o sentido espiritual de suprimento, constataríamos que ele é muito diferente do que julgamos ser atualmente, da mesma forma que o sentido espiritual se saúde é muito diferente daquele do padrão humano que define sessenta ou setenta anos como período normal de vida. Mas a Sua integridade -- o Seu padrão de suprimento, o Seu padrão de saúde -- nos permitirá viver abundantemente na Terra por quanto tempo desejarmos ou até que nos sintamos solitários pela falta daqueles que se foram antes de nós.

Existem pessoas vivendo atualmente na Terra que, dizem, têm duzentos anos de idade, inclusive um homem que teria seiscentos anos. Essas idades avançadas são possíveis se o desejo de vida as manifestar através do sentido espiritual de Deus, de saúde e de imortalidade -- não apenas pelo sentido físico de saúde, vida ou longevidade.

Acaso a imortalidade é apenas viver um longo período? Apenas longevidade? Não: imortalidade é vida eterna sem começo nem fim. Nenhum daqueles que buscam o espírito acreditariam que sua consciência pode chegar a um fim, embora ele creia que é inevitável que o corpo desapareça. Mas esse é um pensamento que deve ser corrigido imediatamente. Seu corpo não desaparece nem envelhece, a menos que você o permita. É você quem precisa tomar a decisão consciente de que a vida é eterna e de que seu corpo, o templo do Deus vivo, está sob jurisdição dessa Vida. Se você não tomar essa decisão conscientemente, a mente coletiva, a nível do seu inconsciente, continuará tomando as deciões por você, conforme as crenças coletivas.

Já que a vida é eterna e a vida é consciência, como pode a consciência estar morta? A continuidade da vida pode ser compreendida quando você percebe que, através da sua própria consciência de ser, você existiu e existirá eternamente. "Antes que Abraão existisse, eu sou". Em sua iluminação interior, você pode continuar existindo sem esse momento de passagem, sem essa transferência, que o mundo chama de morte, mas que é apenas transição. Quando você consegue efetuar a transição para fora do mundo das crenças mortais, você realizou a transição "deste mundo" para o mundo da realidade espiritual, no qual você vive sem apreensão.
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quarta-feira, abril 07, 2010

Estados e Estágios da Consciência - 03

Joel S. Goldsmith



A AVALIAÇÃO DA MENTE QUE ESTAVA EM CRISTO JESUS

Precisamos ir além da ciência da mente e da cura mental, precisamos chegar àquele lugar onde trabalhamos de acordo com a revelação ou ensinamento do Cristo Jesus. Jesus viveu "não por força nem por violência, mas pelo Meu espírito"(Zacarias 4:6). Existe maneira melhor de curar do que essa, ou qualquer maneira que deixe seu paciente mais livre para agir normalmente, sem a influência indevida de outros seres humanos? "Não pelo poder, nem pela força, mas pelo Meu espírito", por Meu Espírito, o Espírito de Deus, por aquela Mente que também estava no Cristo Jesus, que é não só a mente do Cristo, mas a sua mente, a minha mente.

A mente que estava em Cristo Jesus está tão disponível para você, hoje, como se Jesus estivesse sentado nessa sala. Se você não acredita que isso seja verdadeiro, tente essa experiência: alguma vez, quando você estiver se sentindo cansado ou doente e tiver a oportunidade de ficar só, feche os olhos e pergunte a si mesmo se a mente que estava em Cristo Jesus estava dentro do cérebro ou do corpo dele, ou se ele estava declarando uma verdade profunda quando disse: "Antes que Abraão existisse, eu sou... E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos... Porque se eu não for, o Consolador não virá a vós".

Se você acreditar que essas palavras são a verdade, você se aquietará com este pensamento: "muito bem! Mente de Cristo Jesus, Pai interior, o Cristo! Enquanto estiverdes comigo, posso recostar-me e descansar em paz!". Então descanse nessa paz e veja se não sente uma cura instantânea sem "recorrer à formulação do pensamento".

De início você pode não estar curado de seus problemas mais sérios, porque a maioria de nós ainda está naquele lugar onde poderíamos não ser capazes de aceitar tais curas sem pensar que presenciamos um "milagre". Mas comece de maneira simples com problemas menores. Descanse na mente que estava em Cristo Jesus e veja se ela não está disponível para você aqui e agora, como se Jesus estivesse nessa sala.

Não importando onde o prático esteja, você não vai procurá-lo como uma pessoa, mas como a mente que estava em Cristo Jesus - que é a mente do prático. Você jamais deve limitar-se à mente humana de qualquer pessoa. A mente do Cristo Jesus compreendida é a mente de você e de mim, ao alcance de todos, esteja próxima ou distante. Esse é o segredo de viver na consciência de Cristo, o segredo do Caminho Infinito. A declaração de Paulo "E vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim", é verdadeira, e cada vez que alguém busca uma pessoa que tenha compreendido a consciência de Cristo, ele está buscando o Cristo, que está vivendo através dessa pessoa e como essa pessoa.

Seja grato pelo fato de que toda verdade é uma verdade universal, não apenas a respeito de Jesus Cristo, mas também a respeito de todos os que no mundo abrem sua consciência e aceitam essa verdade -- aceitam-na não sobre um ser humano, porque um ser humano é limitado por sua mente humana, educada, ou por sua experiência, personalidade e nascimento, mas a aceitam a respeito de qualquer indivíduo que abrir sua consciência e reconhecer: "Sim, qualquer coisa que foi verdadeira para Moisés, Elias, Eliseu, Jesus, João ou Paulo, é verdadeira para mim. Do contrário, não seria verdadeira, mas apenas teria um significado pessoal".

Por isso, se você quer ter essa mente que estava em Cristo Jesus continuamente, abra a sua consciência. Você não precisa exercer um poder mental; você não tem de dirigir o seu pensamento a uma certa parte do corpo, nem a uma certa causa da doença ou para qualquer pessoa, porque o erro não está no corpo ou no pensamento de quem quer que seja.

No minuto em que você começa a perceber que a mente que estava no Cristo Jesus é a sua mente, desse momento em diante ela está fazendo alguma coisa para o seu corpo, os seus negócios, a sua renda, os seus relacionamentos humanos. Isso pode parecer lento, no começo, salvo se você vivenciar uma luz inclusa tal como Saulo quando ele se tornou Paulo. Nesse caso, isso poderia acontecer rapidamente; porém, mesmo com Saulo, isso levou nove anos depois de ele ter tido sua grande experiência antes de tornar-se Paulo e sair em sua primeira missão. Levou todo esse tempo para que a verdade fosse absorvida, se desenrolasse e surgisse.

Assim é conosco. Algumas vezes captamos uma inclusa luz, mas podemos não compreender todo o seu significado até algum tempo depois. Percebi isso nos primeiros dias de minha prática de cura quando estava enviando uma carta semanal. Apesar de saber da verdade que havia escrito, foi apenas relendo essas cartas dois anos depois que compreendi certas declarações e senti uma convicção interior ou a compreensão delas.

Você pode constatar que esta é também a sua experiência, porque muitas verdades com as quais hoje você concorda intelectualmente só poderão enraizar-se em você um ou dois anos, a partir de agora. Muitas vezes leva tempo para ascender do nível do sentido egoísta para uma consciência mais elevada. Se você estivesse em um ponto suficientemente alto de consciência espiritual, o que leu até agora neste texto teria elevado você até o céu. Mas o fato é que uma declaração está enraizada em uma pessoa aqui, e alguma outra declaração em outra pessoa lá. Essas palavras estão vindo através do Espírito, mas é necessário um grau de percepção espiritual para ser capaz de diferí-las e apreendê-las. Frequentemente constato que muitas declarações que fiz em ocasiões diferentes me surpreendem quando as ouço de novo e me pergunto onde as arranjei.


COMO VIVER NO "MEU REINO"

Uma declaração de Jesus: "O meu reino não é deste mundo" tem sido a minha vida, o meu sangue, os meus ossos há muitos anos. Depois que foi dito que o "Meu reino não é deste mundo", o que você pensaria de mim, se eu começasse a fazer algum trabalho mental para garantir o aluguel do próximo mês? O que você pensaria de uma pessoa que, depois de lhe terem dito que o reino de Cristo nada tem a ver com este mundo, saísse por aí preocupando-se em ser casada ou solteira? Se essas coisas não são uma parte deste mundo, eu não sei quais serão! É verdade que, em certo sentido, sempre estamos no mundo, mas não porque temos qualquer preocupação com ele: deixamos que ele se manifeste -- suas pessoas e coisas -- e se torne parte de nosso ser, de um modo normal e natural.

Para dar um exemplo: você está lendo este livro e, no entanto, talvez na própria sala em que você esteja sentado, existe um rádio ou uma televisão, apenas esperando o virar de um botão para levar-lhe a todas as formas de entretenimento -- comédia leve ou drama sentimental, rock and roll ou sinfonia. Mas você está lendo um livro sobre a vida espiritual! Pergunte a dezenas ou milhares de pessoas se alguma coisa no mundo poderia ser mais maçante, sem graça ou desinteressante do que tal leitura.

Então por que você gosta dela? Por que você passa o seu tempo fazendo isso? Porque você já está vivendo em um mundo diferente do mundo habitual da maioria das pessoas, e não foi necessário que você morresse para chegar lá. Uma citação espiritual, um pensamento espiritual lhe dão mais prazer do que o filme de cinema mais espetacular. Por que? Porque você já não está mais em um mundo onde isso é a medida do seu prazer. Você deixou esse mundo -- não através do ato de morrer ou de fazer qualquer coisa ridícula como parar de comer ou abolir o uso de roupas, nem através de atitudes excêntricas. E, no entanto, você deixou este mundo.

Vejamos outro exemplo: quantas novelas policiais e de terror, de preço ínfimo, você imagina que são vendidas hoje em nosso país? E, no entanto, você aqui está: em vez de pagar um preço baixo por uma daquelas novelas, você compra este livro, muito mais caro! O que há de errado com você? Nada! Você está simplesmente vivendo em um mundo diferente. Você deixou aquele outro mundo.

Outra coisa: quantas pessoas acreditam, verdadeiramente, que não podem viver de maneira honesta, sem usar de tapeação, de fraude ou de influência política? Entretanto, você aprendeu que há um princípio que age no seu interior e que lhe permite viver plenamente de acordo com a lei de Cristo Jesus, com a lei estabelecida no preceito áureo do Evangelho, e você pode adotar para si um princípio como este, a ser provido com abundância -- e repito, com abundância! -- se você quiser fazer um esforço para se beneficiar dele.

Isso é o que quero dizer com a expressão "viver em um outro mundo". Existem os que nunca poderiam concordar que a inventiva humana, a força física, a compulsão mental e o capital ilimitado não são necessários. Mas você sabe que, pela aplicação de princípios espirituais, você pode viver uma vida normal e harmoniosa, atraindo para si tudo que faz parte da sua totalidade. Você pode vivenciar essa plenitude, não através de afirmações, mas compreendendo: "Minha união consciente com Deus constitui a minha união com cada idéia espiritual, e essa idéia espiritual se expressará como lar, amigo, discípulo, paciente, livro ou mestre -- qualquer coisa da qual eu tenha necessidade".

Você não tem de sair por aí demonstrando coisas. Você precisa apenas demonstrar sua unidade com Deus, abrindo sua consciência para essa verdade, aceitando-a e deixando que ela se torne parte de sua consciência. Depois, essa verdade faz o trabalho.

No momento em que você começa a se preocupar com qualquer coisa que no mundo possa ser conhecida através das sensações físicas, você estará se preocupando com este mundo e o "Meu reino não é deste mundo". Ao lidar com os problemas de sua vida pessoal, você estará pensando numa atividade, em negócios, no suprimento, na companhia ou no casamento adequados -- e durante todo o tempo estaria pensando num lugar determinado onde isso poderia ocorrer; embora, nesse exato momento, a demonstração de tudo isso pudesse estar na África. No entanto, ao pensar em como e de que maneira você gostaria que sua vida se desenrolasse, você dirigiu todo o seu pensamento para outro lugar que não onde essa realização se encontra, pois a África talvez nem tenha passado pela sua imaginação.

Se, entretanto, em vez de ficar com algo que se relacione com uma pessoa, lugar ou coisa, seu trabalho todo tiver sido para a compreensão consciente da mente que também estava em Cristo Jesus, então é possível que ouça isso ser proclamado em seu interior, ou é possível que receba uma carta dizendo-lhe que estava esperando por você na África, na China, ou em qualquer outro lugar.

Em outras palavras, é um pecado limitar. É pecado tudo o que impõe qualquer espécie de limitação mental à sua manifestação. Como você sabe onde vai ser, quando ou com quem? Se há um Deus governando o Seu próprio universo, como podemos, você e eu, ter a presunção de limitar ou delinear essa manifestação? A verdade é que não temos o direito de limitar. Temos apenas o direito de cumprir o princípio da vida espiritual, que é 'não estar apreensivo pela nossa vida'.
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domingo, abril 04, 2010

Estados e Estágios da Consciência - 02


Joel S. Goldsmith



NÃO HÁ CAUSA MENTAL PARA A DOENÇA

Quantas vezes você soube de alguém que estava convencido de que tinha artrite, ou câncer, ou tuberculose e que depois foi curado tão depressa que mais tarde convenceu-se de que não poderia ter tido uma doença tão séria? Provavelmente a doença não existia, mas o ponto a ressaltar é: suponhamos que o prático aceite o diagnóstico como este lhe foi apresentado e comece a trabalhar no caso. Nove vezes em dez ele estaria trabalhando para curar a doença errada. Ainda que seu paciente lhe trouxesse o diagnóstico de um médico, este ainda poderia estar cinquenta e cinco por cento errado. Em seu prórpio levantamento, o Massachussets General Hospital ficou sabendo que apenas quarenta e cinco por cento dos diagnósticos feitos no próprio hospital estavam corretos, e isto até mesmo com radiografias, exames de sangue, exames de urina e todos os outros testes criados pela medicina moderna.

Você pode notar que, mesmo que um prático recebesse o diagnóstico médico de um caso, este tanto poderia estar certo como errado. Portanto, qual a eficácia de um tratamento aplicado a um caso específico? Se o paciente ficar curado, isso poderia ter acontecido mesmo sem o tratamento.

Além disso, visto que a doença é irreal, e desde que se acredite que ela não pode ser verdadeiramente localizada, toda essa manipulação mental -- essa sondagem para encontrar uma causa mental correspondente a um estado ou doença -- é falta de bom senso. Em toda minha vida nunca encontrei alguém com ódio suficiente para causar algo tão violento quanto o câncer; ou com luxúria suficiente para causar definhamento ou tuberculose. Uma pessoa com tanto ódio ou luxúria assim, estaria trancada num hospício. As pessoas não são assim tão más -- deve haver outra razão para isso.

Há algum tempo, li um artigo sobre uma mulher com pés chatos. Um prático, ao analisar seu pensamento, descobriu que ela sentira tanta tristeza pela morte de um filho na guerra a ponto de haver perdido a lucidez. Resultado: pés chatos. Outra mulher tinha pé-de-atleta e não podia ser curada. Ao examiná-la, um prático descobriu que ela desejava apenas mais afeto humano. Meu comentário na ocasião foi que, se aquilo era verdadeiro, os práticos iriam ficar muito ocupados com pés-de-atletas, já que há tão grande carência de afeto no mundo.

Se houvesse ocasião em que alguma cura foi realizada através de tratamentos de causas mentais, podem acreditar que foram curas de "crença"; uma crença na cura de doença causada pela crença numa causa e numa cura, uma crença agindo sob a influência de outra crença. Li o Novo Testamento até desgastar o livro, e em nenhum lugar encontrei qualquer palavra de Jesus acerca do ódio, luxúria ou desejo de afeição como causadores de doença. Pelo contrário, ele disse que nem mesmo o pecado faria com que o homem nascesse cego.

Chocou-me saber que o erro não é o resultado do pensamento de uma pessoa, porque sempre me foi ensinado que o mal é causado pelo tratamento errado, porém descobri, no primeiro ano de minha prática, que isso não era verdade. Como poderia um bebê sofrer porque os pais tiveram pensamentos iníquos? Não, ele sofre por causa de crenças comuns a todos, as quais seus pais não sabem como abandonar. As pessoas não contraem resfriados, gripes ou pólio nos seus surtos por causa do seu modo de pensar errôneo: essa é uma crença universal que elas não sabem como combater, e se elas se aferram a esse negócio de Deus-é-amor, sem saberem como enfrentar aquelas crenças, ficarão extremamente deslocadas como se nunca tivessem descoberto que Deus é amor.

A fragilidade da prática metafísica está no fato de que a maioria dos metafísicos gosta de falar no quanto Deus é maravilhoso, mas detesta dizer a qualquer pessoa o que fazer quanto à manifestação do pecado e da doença. Haveria alguém no mundo que sentisse luxúria, animalidade, medo ou ansiedade se soubesse como evitar isso? Há uma lei de Deus que anula tudo isso, mas você precisa saber que lei é essa. Dizer apenas "Deus é amor" não anula nada, já que temos muito disso no mundo -- até mesmo entre as pessoas que têm a certeza de que Deus é amor.

Nunca se esqueça que toda circunstância prejudicial à sua vida pode ser evitada. Ninguém é vítima de alguma coisa, senão pela ignorância das leis da vida. Deus nunca teve a intenção de que alguém sofresse de decrepitude; Deus nunca teve a intenção de que existissem aleijados, alcoólatras ou viciados em drogas, e não há razão no mundo pela qual elas existam, exceto que o mundo jamais aprendeu a enfrentar estes problemas, fazendo com que eles deixem de fazer parte do modo de pensar da humanidade.

O mal não existe como algo criado por Deus. Deus não pune as pessoas, ainda que a antiga lei hebraica ensinasse que os pecados dos pais recairiam sobre os filhos. Mas quando os hebreus viram como essa lei era injusta, eles a repeliram duzentos anos mais tarde: "... eles nunca mais dirão, os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram" (Jeremias 31:29). Sim, eles aprenderam há três ou quatro mil anos a não aceitarem uma idéia tão cruel como essa, de que os pecados dos pais recaem sobre os filhos, e certamente deveríamos estar pelo menos tão adiantados como eles. Mesmo assim, aceitamos as leis da hereditariedade, que nos vinculam à crença de que as doenças dos pais recaem sobre os filhos, netos e tataranetos. Precisamos nos elevar mais alto que isso, começando por entender que existe uma lei de Deus agindo no ser individual e coletivo, em indivíduos, em grupos, nas raças e nações.


PENSAMENTO NÃO É PODER

Existe uma lei de Deus, mas temos de começar a pô-la em prática, primeiramente abandonando nossas crenças egoístas de que qualquer pensamento que possamos ter é um poder, ou que tomando uma afirmação e fazendo-a penetrar em nossa mente, faremos afinal com que ela se torne verdade. Isso é trabalho árduo; não é permanente nem espiritual; e, além disso, permite que outros dominem nossos pensamentos, e também nos tira a compreensão do único Poder que existe, que é Deus, cujo reino está dentro de nós.

Repetir que "duas vezes dois são quatro" não fará com que seja assim, uma vez que isso apenas nos ajuda a lembrar que é assim.

A repetição de uma afirmação ajudará a nos impressionar com a sua verdade, mas seria muito melhor ouvir ou ler uma verdade, e, melhor ainda, ter a Verdade revelada no íntimo de nosso ser e deixar que ela entre em ação, já que 'Verdade' é um sinônimo de 'Deus'. Por que depender da manipulação da Verdade? Por que não deixar a Verdade fazer isso por si só?

Quantas pessoas acreditam, realmente, que existe um Deus? Ó, sim, elas aceitam Deus e falam a Seu respeito. Mas quantos dos que dizem acreditar em Deus ao mesmo tempo se agarram a um remédio ou a um pensamento? Nem o remédio nem o pensamento podem ser Deus. Deus não é pensamento. Pensamento não é poder-de-Deus: Pensamento é uma via de percepção. Esta é uma informação que você deveria memorizar, não para torná-la verdadeira; mas se você alguma vez se sentir tentado a manipular pensamentos, lembre-se desta afirmação e compreenderá nitidamente que nenhum pensamento é poder.

Quando entendi a verdade de que 'pensamento não é poder', mas penas uma via de percepção, fiquei espantado por um momento. Depois percebi que, através de meu pensamento -- através da via do pensamento -- eu podia conscientizar-me das pessoas ao meu redor e saber se estavam vestidas de marrom, de verde ou de preto, porém nenhum pensamento meu podia mudar o tom do marom para verde, nem o verde para o preto. Nem meu pensamento, nem todo pensamento do mundo poderia mudar isso. Daí por diante, o pensamento tornou-se para mim uma via de percepção.

Através do pensamento você pode conscientizar-se da grande verdade de que você é o Cristo de Deus. Eis o que você é e tem sido desde o início dos tempos. Isso sempre foi verdade: "Em verdade vos digo que, antes que Abraão existisse, eu sou" (João 08:58) -- e o pensamento de ninguém pode tornar isso verdadeiro. Isso é verdadeiro porque é uma lei de Deus: "E eis que eu estou convosco todos os dias" -- mesmo até o fim dessa crença humana nas coisas. Esse Eu estará com você, e esse Eu é o Cristo -- a mente que estava em Cristo Jesus, a Alma ou o Espírito de Deus.

Uma parcela mínima do Cristo faz milagres quando deixada agir sem manipulação mental, sem o desejo mental de lançar-se em busca da consciência, nem da mente, ou do pensamento do indivíduo que está procurando ajuda. Quantas vezes você teve a experiência de estar no consultório de um prático de consciência espiritual altamente desenvolvida e sentir algum efeito benéfico, uma sensação de elevação ou de paz? Mas você acredita que é necessário estar na mesma sala ou na presença real do prático para ter essa experiência? O corpo ou o cérebro tem alguma coisa a ver com isso? Não, você poderia estar sentado em sua casa, na China, e receber o mesmo impulso divino de qualquer indivíduo em quem a mente do Cristo estivesse em supremacia mesmo que de forma pequena.
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sábado, abril 03, 2010

Estados e Estágios da Consciência - 01


Joel S. Goldsmith



Apesar de há muitos anos o mundo metafísico acreditar que cura mental e espiritual são sinônimos, na realidade elas estão tão longe uma da outra quanto a cura material e a cura espiritual. A cura mental e a material são em grande parte a mesma coisa, exceto que operam em diferentes níveis de consciência. A mental é um pouco superior e mais fina do que a material, mas essencialmente elas são dois momentos da mesma crença.

Por outro lado, usar os termos "mentalmente espiritual" ou "espiritualmente mental" é o mesmo que dizer "um diabo religioso". O espiritual e o mental são diametralmente opostos, o que não quer dizer que um seja certo e o outro errado, mas funcionam em níveis tão diferentes de consciência que estão tão separados quanto os pólos da Terra.

No que toca ao metafísico, existem dois ramos distintos -- o mental e o espiritual, embora muitas poucas pessoas estejam dispostas a reconhecer que isso é verdade. Em nenhuma passagem do Novo Testamento, entretanto, pode ser encontrada sustentação para a maior parte do que atualmente é conhecido como prática mental, mesmo que essa prática mental ainda faça uso do nome do Cristo.


"PREOCUPAR-SE" NÃO É CURA ESPIRITUAL

Jesus ensinou: "Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto a vosso corpo, pelo que haveis de vestir" e, todavida, quantos de nossos práticos mentais hoje em dia estão prontos e dispostos a uma tentativa de fazer uma demonstração de oferta de uma casa ou de um automóvel?

'Demonstrar' significa manifestar algo. Fazer a demonstração/a manifestação de alguma coisa é dar forma a uma atividade consciente da consciência. Quantos pacientes pedem a seus práticos para "demonstrarem" um apartamento ou uma casa para viverem, para conseguirem marido ou para livra-se de um. Não existe um prático de qualquer experiência que não tenha tido, às vezes, a bem triste experiência de pessoas que chegam a ele pedindo ajuda para obter um lar, um automóvel, um marido, uma esposa -- toda espécie de demonstração concebível.

Até mesmo o mais alto nível desse tipo de prática é contra o ensinamento do Cristo. O ensinamento do Cristo é não cuidar de sua vida, de seu suprimento ou de seu vestuário. Jesus dá uma longa lista do que não pedir, diz por que a encerra com esta promessa: "Mas vosso Pai sabe que haveis mister delas... [e] porque a vosso Pai agradou dar-vos o Reino". Logo, ir para Deus com algum problema finito seria ir contra os ensinamentos do Mestre.

Em Lucas, Jesus também disse: "E qual de vós, sendo solícito, pode acrescentar um côvado à sua estatura?" Quando você sentar para "pensar" a fim de acrescentar alguma coisa a seu suprimento ou à sua necessidade, você falhará. Além do mais, a bíblia declara: "Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos". E, no entanto, pense em todos os metafísicos do mundo que acreditam que, se eles apenas pensarem direito -- mantiverem ou enviarem o pensamento certo --, este fará qualquer coisa por eles ou por seus pacientes, embora ao praticarem esta doutrina de 'pensamento certo' estejam violando o próprio ensinamento que alegam estar seguindo.

A transferência de pensamento de um indivíduo para outro é a atividade da mente humana. Embora isso muitas vezes resulte no que chamamos de cura ou melhora, na melhor das hipóteses, algumas vezes, isso é temporário, porque se o prático mental tem sucesso hoje, ele precisa trabalhar duas vezes mais na semana seguinte. Qual pode ser o fim de toda esta prática mental senão uma dor de cabeça! As pessoas que se tornam adeptas do trabalho mental começam a ficar constrangidas porque estão trabalhando sob pressão -- pressão mental. Alguns de você podem ter observado a reação dos que dão ou recebem tratamentos mentais; vocês podem ter visto práticos que executaram seus trabalhos sob terrível pressão mental e testemunhando a confusão que isso acarretou.

Durante meus dezesseis anos na prática da Ciência Cristã, observei que a prática mental era ali tão predominante como em outros movimentos metafísicos. Na realidade, há exatamente tanta autoridade nos escritos da Sra. Eddy para a prática mental como para a prática espiritual. Ambas as coisas são ensinadas e podem ser facilmente encontradas em seus escritos, e qualquer pessoa pode fazer a sua escolha, dependendo de qual ensinamento a atrai mais. Embora eu nunca tenha sido capaz de fazer concessões à prática mental, tenho visto o resultado dos que se deixaram submeter ao tratamento mental de outra pessoa, tornando-os "apreensivos", dominando-os e às vezes quase controlando-os.

Os que trabalham sem esse processo ativo de contínua formulação de pensamento, permanecem relaxados. Em lugar de tentarem ser uma força ou poder, apenas se tornam o veículo através do qual o Espírito trabalha; e, portanto, raramente há qualquer nervosismo ou irritabilidade, porque o Espírito está sempre renovando e reconstruindo. O Espírito está fazendo o trabalho e não "formulando pensamentos".

Sob o domínio do Espírito, dessa mente que estava em Cristo Jesus, seria impossível a quem quer que fosse violar sua integridade espiritual. Ninguém poderia enganar, fraudar ou ser infiél em seu dever para com um paciente, porque o Espírito não lhe permitiria -- Ele não lhe daria tal pensamento ou impulso. Além disso, quando um prático fica sob o domínio dessa Mente que também estava em Cristo Jesus, ele cura sem esforço mental ou pessoal, quer o paciente esteja acordado ou dormindo -- e até mesmo quando o prático está dormindo.

Quando uma pessoa está trabalhando mentalmente, ela tem a escolha de ser boa ou má, sem que haja um poder controlador para impedí-la de fazer o que ela quer, exceto o seu próprio bom-senso. Isso não significa que os que trabalham com base nessa linha mentalista sejam pessoa más; contudo, se são boas, isso ocorre exatamente por serem boas, e não porque ficaram sob a influência daquela Mente que estava em Cristo Jesus, que não lhes permitiria serem menos do que Deus em ação.

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