"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, julho 07, 2009

O TESOURO ESCONDIDO NO CAMPO

Dárcio Dezolt


“O reino dos céus é semelhante a um tesouro
escondido num campo que um homem achou e escondeu;
e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem,
e compra aquele campo.”
(Mateus 13:44)



A Verdade é a Verdade: não abre mão de nada! É radical, absoluta! A Verdade é revelada; não se presta à avaliação ou aceitação de um intelecto que simplesmente Lhe é desconhecido. Este mundo humano é uma ilusão coletiva, uma falsidade encarada como Realidade. Enquanto a mente ficar dividida, teremos casos como o citado em Lucas 11:14, em que Jesus, ciente da Consciência real única presente, via a “ilusão” de espírito mudo ser expulsa de uma pessoa. Uns ficaram maravilhados: outros atribuíram a ação de Jesus ao "príncipe dos demônios".

Jesus sabia que o Reino de Deus é uma REALIDADE INFINITA E INDIVISÍVEL. Sabia que não há demônios a serem expulsos, mas sim FALSAS CRENÇAS a serem banidas: crenças que admitem “outra mente” além da Mente de Deus.

Sempre que há uma revelação espiritual legítima, esta jamais divide a Existência em pedaços; jamais fala em mundo espiritual e material; jamais fala em seres humanos e seres divinos. A tendência que há em se “adequar” a Verdade ao suposto nível de “ouvintes humanos” parte sempre da suposta mente humana e não de Deus. Para Deus, a humanidade não existe! Existe Sua Onipresença, Sua Onipotência e Sua Onisciência. Em outras palavras, existe somente uma MENTE.

Enquanto alguém se julgar mero mortal, sujeito a “demônios”, ou sujeito a “libertação de demônios”, sem perceber que isso tudo é ILUSÃO da mente humana, que se faz de existente ao lado da Mente que é única, Deus, acabará se sujeitando ao “mal” deste mundo da ilusão, por deixar de se identificar com a UNIDADE da Realidade divina.

“Quando o valente guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem; mas, sobrevindo outro mais valente do que ele, e vencendo-o, tira-lhe toda a sua armadura em que confiava, e reparte os seus despojos” (Lucas 11:21).

Que significa esta passagem? Ela nos previne quanto ao risco que se corre, se não houver plena identificação com a Luz da Mente onipresenteque não reconhece outras mentes ao lado de SI MESMA –, por se identificar com o senso ilusório de proteção da suposta mente humana. A “mente humana” é o “valente”, que se mostra impotente diante de qualquer outro “mais valente do que ele”. E, diz a Bíblia: “Quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares secos, buscando repouso; e, não o achando, diz: 'Tornarei para minha casa, donde saí.' E, chegando, acha-a varrida e adornada (sem a percepção da Presença de Deus). Então, vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro”.

A passagem acima nos alerta quanto à necessidade que há em sermos radicais quanto à existência única da Mente divina. Todo suposto conflito humano decorre da ilusória aceitação de “outras mentes”. A percepção de que JÁ SOMOS a Mente infinita e impessoal de Deus é a solução definitiva para qualquer problema.

Falamos em “solução de problema” pela admissão radical e incondicional da Mente divina como ÚNICA. Entretanto, devemos ir além desse objetivo humano. Precisamos contemplar este fato e assumir a revelação por inteiro! Ela é verdadeira AGORA! Jamais devemos adiar nossa identificação com ela, movidos pela infundada lógica humana!

Falando da universalidade e disponibilidade imediata da Mente “que estava em Cristo Jesus”, diz Joel S. Goldsmith:

“O Caminho Infinito começa com a Revelação de que existe uma Consciência Transcendental, chamada Cristo-Consciência, na mística cristã, e Mente búdica, no Budismo, ou seja, existe uma consciência superior à mente humana. Isto não é de conhecimento geral. De fato, há aqueles que aceitam a idéia de que Buda tinha esta consciência espiritual e que Jesus tinha a Mente do Cristo; porém, são poucos os que entendem que esta Consciência ou Mente crística é UNIVERSAL e comum a todos os homens, e que Ela, tanto quanto estava sendo a consciência de Jesus e de Buda, igualmente está sendo a sua e a minha Consciência.”

A obra Ciência e Saúde, de autoria de Mary Baker Eddy, também ressalta a existência da Mente única: “O céu não é uma localidade, mas um estado divino da Mente, no qual todas as manifestações da Mente são harmoniosas e imortais, porque lá não está o pecado, e verifica-se que o homem não tem retidão própria, mas possui a Mente do Senhor, como dizem as Escrituras” (p. 291). Ao ser chamado de “Bom mestre”, respondeu Jesus: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um só, que é Deus” (Marcos 10: 17). Tudo isso, em resumo, quer dizer: DEUS É A MENTE ÚNICA. Aquele que acha em SI esta Mente, tem o REINO E A GLÓRIA! Este é o “TESOURO” achado no “campo”.

Quando descobrimos que a Mente é ÚNICA, descobrimos o TESOURO que nos faz deixar tudo o que pensávamos possuir, de natureza transitória ou ilusória: DESCOBRIMOS DEUS SENDO NOSSA MENTE! Esta é a iluminação plena, o estado que É, chamado “Nirvana” no Budismo, e “Reino de Deus” no Cristianismo. O Caminho, portanto, é a AUTODESCOBERTA da Mente única. Não leva em conta nenhum tipo de aprimoramento de mente humana.

O volume 14 de "A VERDADE DA VIDA", publicação da Seicho-no-Ie, traz em seu início as palavras de Buda: “Em verdade, através da mente que guarda ódio não se pode extinguir esse ódio. Somente com a mente que não guarda ódio pode-se extinguir o ódio.” Ali, Masaharu Taniguchi explica que Buda, com esse ensinamento, deixa claro que “não se pode eliminar a ilusão da mente com a mente em ilusão”. Que é a “mente em ilusão”? A crença de que a MENTE UNIVERSAL não é única!

A princípio, não é fácil aceitarmos que a existência humana é irreal, ou que a matéria é irreal e o Espírito, sim, é onipresente. Porém, esta dificuldade deve ser transposta pela aceitação da Verdade: DEUS É TUDO. Se ficarmos em silêncio, identificados com a idéia de que a Mente única, Deus, é a nossa Mente deste agora, a veracidade da revelação passa a ser notada. O TESOURO ESTÁ ESCONDIDO DENTRO DE NÓS. Assim, seria inútil procurá-lo noutra parte! O “campo” é a nossa própria Consciência. Desse modo, realmente vale a pena nos dedicarmos a esta BUSCA INTERIOR.

O mundo é ignorante desta Verdade. Acredita que o suposto mundo da aparência seja real. Crê em poderes externos e diversos. Aceita crenças e superstições de todo tipo, sujeitando-se a todas elas. Contudo, há uma REALIDADE aqui mesmo! Existe um REINO PERFEITO DE LUZ! Estamos nEle exatamente AGORA! Quando “vendermos tudo quanto temos”, ou seja, quando abrirmos mão de todas as crendices e idéias errôneas, acharemos o TESOURO, a Mente única do Absoluto, sendo a nossa própria Mente, nosso próprio Universo.

Devemos partir da Verdade imutável, mesmo que aparentemente tenhamos a falsa impressão de que temos mente humana. Esta “mente” é ILUSÃO, e sua natureza ilusória é discernida quando admitimos, em seu lugar, a Mente única do Deus Vivo manifesta como a nossa Mente. Este mecanismo deve ser bem compreendido, para que conclusões equivocadas deixem de surgir. A Mente divina é nossa ÚNICA Mente, agora e eternamente; porém, ao reconhecermos esta Verdade, não estaremos pretendendo mudar, melhorar ou evoluir a mente falsa. Somente estaremos reconhecendo AQUILO QUE É, ou seja, a ONIPRESENÇA da Mente infinita.

A aceitação ilusória de que temos mente humana é o entrave rumo à Iluminação espiritual. Seguidores de filosofias orientais e certas correntes espiritualistas costumam fazer enorme confusão, dificultando a percepção da Verdade pelo “coração de criança”, associando complementos humanamente lógicos ao estudo. A Mente divina é UNICA! A Mente divina é, portanto, a nossa Mente deste AGORA! Somente existe o AGORA! Logo, qualquer idéia contrária a estes princípios absolutos deve ser “vendida”, para que possamos “comprar” o CAMPO em que o TESOURO foi por nós achado: DENTRO DE NÓS!

A chamada “lei do carma” – causa e efeito – veio merecendo mais atenção do que o Caminho verdadeiro. Conselhos do tipo: “Vigiemos nossos pensamentos, pois, deles provêm as ações, e colheremos o que semearmos”, estão presentes em toda parte. O Caminho verdadeiro, porém, é absoluto; não leva em conta “mente humana”, não fala em algo deste “mundo da ilusão”. Ele fala do TESOURO ESCONDIDO NO CAMPO, o REINO DE DEUS, DENTRO DE NÓS. Como são poucos os que aí O buscam! As pessoas do mundo têm por hábito buscar no mundo e nas pessoas os seus tesouros: cura, suprimento, posição, felicidade, bem-estar, etc. Não sabem que isso tudo lhes vêm por acréscimo, e à medida do necessário, quando o TESOURO ESCONDIDO é achado dentro delas mesmas!

Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. Não tente “criar harmonia” onde ela aparenta estar ausente; não tente transformar condições más em boas: BUSQUE O TESOURO ESCONDIDO NO “CAMPO” DE SUA CONSCIÊNCIA. Achando-O, perceberá: A HARMONIA ABSOLUTA SEMPRE ESTEVE INTEGRALMENTE PRESENTE!


domingo, julho 05, 2009

DEUS, O SER INDIVIDUAL (Joel Goldsmith)

[goldsmith.jpg]
Joel S. Goldsmith


Os milagres acontecem quando o “pequeno eu” está ausente. Quando você recebe um pedido de ajuda, se houver a conscientização de que este “eu” é inexistente, a chamada cura já se inicia. Porém, se encarar a pessoa como este “eu”, com a ideia: “Como poderei melhorá-la, curá-la, supri-la?", você estará destruindo sua capacidade curativa, pois este “eu”, levado em consideração, não existe. Deus é o ÚNICO Eu, e Deus não necessita de cura, ensinamento ou enriquecimento.

Se alguém lhe disser: “Eu estou doente”, e sua resposta for do tipo: “Bem, vamos ver o que poderei fazer para torná-lo saudável”, tal procedimento será o de “um cego conduzindo outro cego”. O “paciente” pensa ser alguém apartado de Deus; assim, se você alimentar a mesma idéia, estarão ambos caindo no fosso.

A única forma de vivenciarmos um ministério de cura em elevado nível espiritual consiste em nos convencermos da inexistência de qualquer “eu” apartado de Deus. Se houvesse este “eu”, Deus não existiria. É impossível existir Deus e algum ser mortal, alguém fadado a adoecer, pecar ou morrer.

Nós abolimos não somente a crença em doença física ou a crença numa possível causa mental para ela: abolimos também a crença de que existe alguma pessoa vivenciando a condição doentia, até chegarmos à conscientização de sua REAL IDENTIDADE. Não podemos considerar um ser humano para, depois, querermos torná-lo mais saudável, mais próspero, mais sábio! Nós revelamos Deus como o Ser infinito e Individual. Nosso interesse fica voltado apenas nesta direção: ver Deus como cada Ser, em permanente manifestação. A forma de se conseguir isto está no “morrer diário” para a nossa humanidade, no “renascer” para a nova Identidade espiritual, e na conscientização – quando alguém solicita nosso auxílio – de que a totalidade do Reino de Deus jamais inclui pessoa alguma naquela situação. Mantendo-nos e sustentando-nos nesta atitude, a harmonia começará a ser evidenciada.

Quando alguém de nosso círculo familiar ou de amizade estiver envolvido em algum senso de desarmonia, em vez de procurarmos saber de que forma poderíamos ajudá-lo, sentemo-nos para assim conscientizar: “Ah, não acreditarei na existência de tal pessoa! Deus é a Individualidade infinita; Deus é a Pessoa infinita; Deus é o Um infinito; e, ao lado de Deus, não há nenhum outro”.

A forma verdadeira de prestarmos ajuda está em aprendermos a “morrer diariamente”; e, para tanto, utilizamos a disciplina denominada “Não-eu”. Não-eu! Não! Esta pessoa não me interessa! Ela nada tem a ver comigo. O verdadeiro e único Eu está tomando conta dela.

sexta-feira, julho 03, 2009

Orar a Deus (Joel Goldsmith)


Joel S. Goldsmith



A essência de nosso trabalho é que DEUS É! Todos falamos sobre Deus, pensamos em Deus, oramos a Deus; mas, ao percebermos que Deus não está existindo para receber nossas orações saberemos os motivos que tornam tão infrutíferos o nosso falar e grande parte do nosso pensar sobre Deus.

O primeiro ponto a ficar claro, quando percebemos que DEUS É, é que Deus não existe para estar recebendo nossas orações. Se simplesmente tivéssemos captado o que nos revelou Mary Baker Eddy, fundadora da Ciência Cristã, já teríamos percebido isso há muito tempo. Observemos suas palavras:


“Deus não é movido pelo bafejo louvaminheiro a fazer mais do que já fez, nem pode o infinito fazer menos do que conceder todo o bem, porquanto Ele é sabedoria e Amor imutáveis. Deus é Amor. Podemos pedir-Lhe que seja mais? Deus é Inteligência. Podemos passar à Mente infinita algo que ainda não compreenda? Pedir a Deus que seja Deus é vã repetição. Deus é o mesmo ontem, hoje e o será para sempre; e Aquele que é imutavelmente justo, fará o que é justo sem que seja preciso lembrá-Lo de Seu ofício. Quem se colocaria diante de uma lousa para rogar ao princípio da matemática que lhe resolvesse o problema?”


O primeiro passo é aprendermos a não pedir ou orar a Deus, nem esperar algo dEle. O passo seguinte é aprendermos a nos voltar ao Reino dentro de nós, que é o Reino de Deus. Não por alguma coisa, mas em reconhecimento da harmonia e perfeição presentes em tudo que Deus governa. E Ele governa a Realidade inteira.

Aprendemos, também, que não existe mal em nenhuma pessoa, lugar ou coisa, mas que o mal está no CONCEITO universal de pessoa, lugar ou coisa. Saber que inexiste mal em toda circunstância ou condição nos liberta dos efeitos malignos que poderiam advir da crença no mal.

Se o sentido espiritual é o que dissolve cada chamado problema humano, também é verdadeiro que uma percepção consciente da verdade do ser resulta em harmonia que nunca nos deixa, e que experienciamos conscientemente. Portanto, devemos “conhecer a Verdade”, para que “a Verdade nos liberte” de tudo que aparente nos ocultar a nossa real identidade.

Se somente habitarmos na infinitude e natureza eterna do governo divino e do Universo, reconheceremos e experienciaremos a natureza imutável de toda a criação de Deus. A dependência a um poder supostamente externo a nós mesmos é sempre o erro.

Todo o nosso objetivo é a realização da presença e poder de Deus. “Eu, de mim mesmo, não posso fazer nada”, mas perdura o fato de que “o Pai interior faz a obra”. Como ter consciência do “Pai interior”? Aquietando os sentidos humanos e ouvindo a “pequenina voz suave”. “Eu ouvirei Tua Voz”, pois, a transmissão deve sempre provir da Mente.

terça-feira, junho 30, 2009

ENTREGUE-SE À VERDADE


Dárcio Dezolt


“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”
- LUCAS 23: 46 -




Quantos estão dispostos a se entregar à Verdade? Quantos se dizem estudantes da Verdade, sempre conservando a ideia de que um “outro” é seu mestre, sem notar que esta crença lhes vêm da mente humana justamente para acobertar esta falta de entrega?

O mundo vive a sua mentira: uma suposta criação material. Contudo, temos a Verdade revelada: DEUS É ESPÍRITO! DEUS É TUDO! Desse modo, adiar a entrega da vida a essa totalidade, é o mesmo que renunciar à glória.

As pessoas desejam uma vida perfeita, sem problemas, mas veem a si mesmas, e às demais, como seres imperfeitos, dotados de um suposto “livre-arbítrio” que os capacita a serem bons e maus, conforme as circunstâncias. Livre-arbítrio não passa de outra fantasia do dualismo ilusório! Como haver “livre-arbítrio”, se a Mente, Deus, é TUDO? Mas o mundo continua vivendo suas crenças em pecados e pecadores, em bem e mal. A passagem bíblica da adúltera, em que a multidão procurava apedrejá-la por julgá-la pecadora, e que deixou de fazê-lo diante da colocação feita por Cristo: “Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”, continua se aplicando à vida atual do mundo das aparências. Quase ninguém analisa a si mesmo para se descobrir sendo o ser criado “à imagem e semelhança de Deus”. Quase ninguém se identifica por inteiro com o Deus que constitui sua própria Vida! Desse modo, como é mais fácil julgar pelas “aparências, e buscar defeitos“nos outros”, do que refletir sobre si mesma, a raça humana prossegue em seu “curso de ilusão”, como se nenhuma Verdade Absoluta lhe tivesse sido revelada!

“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Eis o modelo a ser seguido. Alguém disposto a fazê-lo? Que sentido tem esta frase? Um sofredor na cruz entregando a sua alma a um Deus superior, fora dele mesmo? Não. Esta frase retrata o fim da mente humana. O fim da “crença” em vida pessoal. Sem mente humana, inexiste instrumento capaz de registrar uma falsidade, um “quadro hipnótico”, em que um filho de Deus esteja existindo como um sofredor colocado numa cruz! Sem mente humana, surge a Verdade revelada de que a Mente infinita É ÚNICA e É TUDO! O mundo, em sequência à sua ILUSÃO, pode ter retirado da cruz ilusória um também inconsistente “corpo físico” de sua invenção. Contudo, o Cristo sempre esteve, e está, completamente ALHEIO a todo esse “teatro” da mente humana.

“Eu e o Pai somos um”, disse Jesus, antes mesmo que a mente humana criasse a falsa imagem de crucificação. Esta é a lição para todos nós! Não há sentido em estudarmos que DEUS, ESPÍRITO, É TUDO, e continuarmos acreditando em “existência humana”, onde “enviados de Deus” são torturados, crucificados, etc. Deus, sendo TUDO, enviaria enviados para onde? Existe “local” fora da Onipresença? Não! Existe “vida pessoal”? Não! Daí a gloriosa Revelação: “Eu e o Pai somos um”. DEUS É VIDA ÚNICA! DEUS É ONIPRESENÇA! Muitos aguardam a glória divina em “época futura”; há inclusive aqueles que chegam a duvidar que chegarão a vivenciá-la! Quem pensa desse modo? A suposta “mente humana”. E, enquanto perdurar a aceitação desta mente falsa, aparentará existir o “cenário” por ela visto, com sua seqüência de quadros de imperfeições e sua visão finita, limitada e ilusória do homem e do Universo, ou seja, de Deus.

Há uma Verdade infinita Se expressando. Ela já inclui VOCÊ e a todos de modo impessoal e completo. Não existe mundo material! Mas a inexistência do mundo material somente poderá ser constatada através do discernimento de que a mente humana não existe, e que unicamente a Mente divina é Mente real e onipresente.

Façamos como Jesus: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Esta “entrega” é um reconhecimento da farsa do dualismo! É um “despertar” para a Verdade de que Deus é realmente Tudo; é um discernimento de nossa UNIDADE ESSENCIAL ETERNA! Esta Unidade existe; está consumada!

A “entrega” não é atitude pessoal, no sentido de que uma pessoa a faça, isolando em sua visão todas as demais. Não! A “entrega” é feita de modo que TUDO E TODOS estejam sendo entregues ao Pai como UNIDADE. A Visão espiritual contempla o Infinito e cada indivíduo que O forma. O “Pai”, citado por Jesus, é a divina Consciência infinita que agora nos faz discernir que “somos”, que “vivemos”, que somos “conscientes”. Sem a mente humana, esta Consciência única é discernida como TUDO E TODOS. E esta Consciência é a PERFEIÇÃO que abrange o Infinito! Este vislumbre da Realidade nos revela que DEUS, LUZ, É TUDO, e de que jamais houve imperfeição neste Universo de Deus.

“Entregar o espírito nas Mãos do Único” é deixar de ilusoriamente “dividir a Existência” em espírito e matéria, é evitar que a “ilusão de separatividade” atue hipnoticamente em nossas vidas. “Uma casa dividida não subsiste”, disse Jesus! E disse ainda: “Não podeis servir a dois senhores”.

O ensinamento é cristalino: DEUS É TUDO, TUDO É DEUS! Difícil segui-lo? Para a suposta mente humana, esta tarefa não apenas pode ser encarada como difícil, e sim como impossível! Mas a receita nos é dada: “PAI, NAS TUAS MÃOS ENTREGO O MEU ESPÍRITO!” Não há, aqui, NENHUMA incumbência dada à mente humana! Ela não existe! E Deus – Se revelando livremente na Consciência individual que se desfez da crença em imperfeições, em pecados ou pecadores – faz com que VOCÊ perceba que esta “Consciência individual” é o CRISTO, a Consciência infinita, que Se mostra presente como a SUA Consciência Iluminada e única. Contemple, agora, este Fato espiritual! Identifique-se com ele! ENTREGUE AO PAI O SEU ESPÍRITO!

sábado, junho 27, 2009

A Alma (Goldsmith)


Joel S. Goldsmith


A Alma é a parte do homem pouco conhecida e só raramente percebida. Muitas vezes, aqueles que estão imersos em profunda aflição rompem a névoa do sentido material até o recesso do seu ser interior, onde descobrem a Alma, ou a Realidade do ser. Tornam-se conscientes da Alma, encontram novos valores, novos recursos, uma força nova e diferente e uma maneira de ser de natureza totalmente diferente.

Exercer as faculdades da Alma resulta na quebra da ILUSÃO dos sentidos. Toda discórdia humana é o produto do sentido material e é vivenciada através dos cinco sentidos físicos — isto é, todas as desarmonias mortais são vistas, ouvidas, sentidas, saboreadas ou cheiradas. Por existirem apenas neste estado material de consciência, as discórdias e as doenças têm o seu ser em falsas idéias, em ilusões, embora naturalmente pareçam muito reais aos nossos sentidos.

Há muitos meios que nos proporcionam alívio temporário para as condições falazes de suprimento, de saúde ou outras desarmonias que se apresentam na vida diária. A destruição completa e definitiva do erro, porém, só é obtida ao se encontrar e exercitar as faculdades da Alma. A Alma é a parte do homem que jaz enterrada mais profundamente dentro dele, e por isso é raramente percebida. Nós usamos nossas faculdades matemáticas ou musicais porque jazem mais próximas à superfície do nosso ser, e, muito mais do que estas, nossas faculdades habituais de comércio, ou o nosso sentido de orientação, ou mesmo o nosso senso artístico; mas os artistas, os autores e os músicos de talento vão mais fundo dentro do seu ser, e de lá trazem à luz as grandes harmonias da boa música, a boa literatura, pintura, escultura ou arquitetura.

Escondida ainda mais profundamente, embora ao alcance de nossa consciência, jaz a Alma com suas faculdades. Quando tocamos tais poderes da Alma, estes emanam do nosso interior e atingem todos os caminhos da nossa vida cotidiana, trazendo inspiração, beleza, paz, alegria e harmonia para cada instante da nossa existência, e revestem todos os acontecimentos da vida com amor, compreensão e sucesso.

Aqueles, contudo, que estiverem demais envolvidos com as dores e os prazeres dos sentidos não chegarão, com certeza, até o reino da Alma. Ao longo da história, este convite para se dessedentar na fonte de águas vivas foi estendido a toda a humanidade, e todas as gerações têm produzido muitos homens e mulheres que encontraram a eterna paz e juventude dentro se si mesmos. E assim sempre surge aquele que bebeu mais profundamente na fonte da Alma, e todos estes videntes sempre deram notícias do reino interior e da vida que pode ser vivida pela Graça, uma vez atingida esta consciência. Por outro lado, muitos respondem que têm grandes encargos humanos que lhes ocupam todo o tempo; outros despendem tempo demais no prazer dos sentidos, passatempos e recreações; outros ainda estão ocupados em realizar e adquirir.

Cada vez mais, as pessoas começam a perceber que a libertação do medo, da insegurança, da necessidade, e da pouca saúde não se encontra no reino da matéria. As guerras não acabam com a guerra; as aplicações não garantem segurança contra a falta. A medicina alivia as dores, mas não traz uma saúde verdadeira. Devemos extrair um poder que seja maior do que aquele que é encontrado no corpo ou nos pensamentos humanos, um poder que nos dê a felicidade, a harmonia e a paz, que são direitos nossos de nascença. Tal poder está disponível para todos, pois ele JÁ faz parte do nosso ser — na verdade, é a parte maior do nosso ser. Como um iceberg, que mostra apenas uma parte de si fora da água, assim os poderes humanos do corpo e da mente não representam senão uma parcela de nossos poderes e faculdades.

As forças da Alma são mais reais e tangíveis do que qualquer poder material da natureza ou da capacidade inventiva. Elas trabalham num nível mais elevado de consciência, mas se tornam visíveis nas coisas chamadas de humanas.

As forças da Alma agem sobre o corpo humano para produzir e manter a saúde e a harmonia. Permeiam todos os caminhos da vida cotidiana com influências protetoras e são a fonte de suprimento infinito.

As pessoas deste mundo que são conscientes de sua Alma vivem uma vida interior de paz, de contentamento e domínio, e uma vida exterior em completa harmonia consigo mesmas e com o resto do mundo dos homens, dos animais e das coisas. Estão sintonizadas com seus poderes da Alma, e isto constitui sua UNIFICAÇÃO com toda a criação.

Todos podemos ter acesso à Alma. Ela jaz nas profundezas íntimas do nosso próprio ser. O desejo de realizações mais elevadas da vida é o primeiro requisito, e, a partir daí, deve-se manter uma constante orientação para o próprio interior até que a meta tenha sido alcançada.

Um bom começo pode ser a percepção da verdade que há muito mais na existência humana do que saúde física e suprimento material. Quando temos o vislumbre do fato de que mais dinheiro, mais casas ou automóveis não constituem o suprimento, que mais viagens não são recreação, que a ausência de doença não significa necessariamente saúde — em outras palavras, que "meu reino não é deste mundo" —, estamos na direção correta para descobrir o reino da Alma.

Todos sabemos como empregar a força física, como quando usamos o esforço muscular para erguer algum peso, ou fazemos força com os braços ou as pernas; e sabemos também como exercer pressão mental, como em profunda meditação ou pela vontade pessoal.

Sabemos que há um poder da Alma, mas saber que este poder pode fazer muito mais por nós do que os poderes materiais e mentais juntos, isto poucos sabem. Talvez uma 'razão pela falta de interesse por parte do mundo neste tema tão vasto' seja o fato de que este imenso reservatório de poder que está em nós NÃO possa ser utilizado para fins EGOÍSTAS. Pensemos na grandeza disso — um grande e maravilhoso poder à mão, mas que jamais pode ser usado para satisfazer a fins egoístas. Nisto está o segredo do porquê são tão poucos os que atingem a consciência da Alma. Só podemos perceber a presença da Alma após nos termos libertado dos desejos egoístas, e termos individualizado este poder infinito dentro de nós mesmos na medida do nosso desejo de SERVIR aos interesses da humanidade.

É justo, natural e normal que vivamos uma vida plena, próspera e feliz, mas nós podemos viver isto sem nos preocuparmos conosco, com nosso suprimento e mesmo com nossa saúde. Todo o bem necessário ao nosso bem-estar nos será fornecido em grande abundância quando pudermos aceitar que temos de abandonar nossos esforços e desejos de ter, de conseguir ou realizar, e nos aprofundarmos no desejo de cumprirmos apenas nosso destino sobre a terra. Estamos aqui como parte de um plano divino. Somos Consciência, que realiza (de si mesma) e expressa (de si mesma) a si mesma de forma individual; e se aprendermos a desprender o nosso pensamento de nós mesmos, ou da preocupação com nosso lugar, nosso suprimento ou saúde, e a deixar que Deus cumpra seus desígnios através de nós ou como cada um de nós, acharemos de fato que todas as coisas nos serão acrescentadas.

A Bíblia é literalmente verídica quando afirma: "Do Senhor é a terra, e tudo o que nela se contém" e "Filho... tudo que é meu é teu". Não há, pois, necessidade de ter qualquer ansiedade quanto ao nosso bem-estar. Esquecendo de nós mesmos e aprendendo a manter um estado de receptividade, perceberemos ESTAR plenificados pelo poder da Alma, da consciência e recursos da Alma, e nossa vida será aquinhoada com a companhia de outros homens e mulheres que partilharão conosco a alegria de sua descoberta.

A mente que estava em Jesus Cristo não é algo afastado, tampouco é ela a mente de uns poucos líderes religiosos: a mente que estava em Cristo Jesus é a sua, e está pronta para se manifestar em você na medida em que se esqueça do seu ego e se torne receptivo à divina sabedoria que está em seu íntimo. Os recursos da Alma estão à porta de nossa consciência, prontos a se derramar em nós, mais do que possamos receber, mas não para satisfazer algum desejo pessoal ou egoísta. Tais falsos desejos são as pedras de tropeço do nosso desenvolvimento espiritual, e não devemos pensar em usar nossos poderes espirituais para fins pessoais ou egoístas. A canção da Alma é liberdade, alegria e eterna felicidade; a canção da Alma é amor para toda a humanidade; a canção da Alma é você.

Por que demoramos tanto para obter a libertação da doença, da discórdia e de outras mazelas do mundo material? Inteiramente por causa de nossa incapacidade de apanhar a grande revelação: não há realidade no erro.

Pusemos tanta atenção na fé em Deus como nosso benfeitor, ou na fé em algum curador ou mestre, que passamos por cima da grande verdade: o erro não é realnão existe matéria, pois a substância da matéria é de fato mental.

Aprendemos com os cientistas físicos, e também com os metafísicos, que aquilo que tem sido chamado de matéria é uma interpretação equivocada da mente. A mente é um instrumento de Deus, e Deus é Espírito; assim, tudo o que existe é substância espiritual, apesar do nome ou da natureza que lhe tenha sido atribuído pelos sentidos finitos.

Deus é a consciência do indivíduo; assim tudo o que se nos depara como pessoa, coisa ou condição, nos vem como consciência, na consciência e através da consciência; e Deus, a Consciência, é a Alma de todo indivíduo; Deus, o Princípio, é a lei de toda ação; Deus, o Espírito, é a Substância de tudo de que temos consciência.

Pela educação equivocada, que estrutura nossos sentidos finitos, chegamos a temer certos indivíduos, coisas ou condições, sem perceber que estas coisas nos chegam pelo caminho da consciência, e que são todas Seres de Deus, Consciência que se nos revela, consubstanciadas de Espírito. A consciência material é o sentido finito e enganador que considera o homem e o Universo limitados, como bons e maus. A consciência espiritual é a percepção do indivíduo como um ser de Deus, que tem apenas a mente de Deus e o corpo do Espírito. Reconhece o Universo todo como manifestação da mente e governado pelo Princípio divino. A consciência espiritual é a capacidade de ver a realidade além das aparências, perceber e reconhecer que, como Deus é a nossa mente, tudo o que se nos apresenta está em e vem de Deus, nossa única consciência.

A consciência espiritual não supera nem destrói a matéria ou as condições materiais: apenas sabe que tais condições não existem, pelo menos da forma com que nos são mostradas pelos sentidos finitos. Ela traduz para nós as aparências, revelando-nos a verdadeira natureza das coisas que estão presentes.

O poder espiritual provém da Alma — da sua Alma, da minha Alma. É impessoal e imparcial. Todos podemos abrir as janelas da Alma e contemplar as glórias infinitas de um mundo bem acima do universo dos sentidos. O mundo da Alma é muito maior que tudo que possamos ter visto ou ouvido, é o mundo que é observado através do sentido espiritual. Sabemos que o pensamento não iluminado vê o Universo como algo material, enquanto a consciência iluminada, ou sentido da Alma, vê e compreende o Universo como algo espiritual.

No desenvolvimento de nosso sentido espiritual, ou poder da Alma, nada há de só teórico, não aplicável à prática. Esta consciência elevada capacitou Moisés para liderar seu povo em sua libertação da escravidão, através do Mar Vermelho, rumo à conscientização da abundância. Através de Jesus ela curou muitos dos males que afligiam aquela gente, alimentou multidões com alimento real e ressuscitou os mortos. Através de Paulo, ergueu uma parte da humanidade acima dos profundos pesares e persecuções, para a Cristo-consciência e a liberdade espiritual.

A consciência espiritual nos eleva para acima de toda forma humana de limitação e nos permite um sentido mais amplo da vida, da saúde e da liberdade. Onde houver esta consciência espiritual, não haverá escravidão a pessoas, lugares ou coisas, e não haverá limitações para nossas realizações.

Até onde se saiba, Jesus nunca deixou uma palavra escrita e, contudo, seus ensinamentos são os fundamentos morais e éticos de boa parte da humanidade. Muitos outros videntes deixaram apenas as palavras ditas a seus seguidores, embora, pelo seu poder intrínseco, tais mensagens tenham se tornado águas vivas durante épocas sem conta. A sabedoria dos tempos, propalada por homens e mulheres espiritualmente iluminados, que nunca sonharam que seus pensamentos corressem em volta da terra e influenciassem a vida e a conduta das pessoas, não está confinada no tempo e no espaço. O pensamento crístico, que preenche sua consciência, dela irradia como círculos na água atingida por uma pedra, criando círculos cada vez maiores, até atingir toda a humanidade. Sim, a consciência espiritual tem aplicação prática. Nosso desejo de abundância, contudo, deve ser o desejo de abundância para outros, antes que possamos ter a experiência da graça, que é o presente de Deus.

A meditação é a porta para o mundo da Alma, e a inspiração é o seu caminho. Quando aprendemos a ficar cinco ou dez minutos cada manhã, tarde e noite, sentados em silêncio com os ouvidos "de ouvir"; quando nos voltamos para dentro de nós mesmos e aprendemos a esperar pela "pequena voz silenciosa", adquirimos o hábito da meditação e desenvolvemos a habilidade nesta técnica, até que sejamos possuídos pela inspiração e que ela nos leve para o céu de nossa Alma. Este é o princípio de nosso novo nascimento, e aqui aprendemos a nova linguagem do Espírito. E a vida começa a ter um novo significado.


quinta-feira, junho 25, 2009

Você é Vida!





Segue uma reflexão a fim de auxiliar a entender o poema do vídeo:

Não somos corpo carnal, somos Vida! Há uma importante distinção que precisa ser feita. Muitas pessoas confudem "Vida" com "existência". A chamada "existência" é o período durante o qual a Vida está presente na Terra. Tente perceber a diferença e, assim, intuir diretamente o que vem a ser a Vida. A Vida é imaterial, é substância divina, é Espírito. Somos a Vida, não o corpo que nasce, vive e morre. O homem que consegue ver-se nitidamente como Vida, e não como corpo feito de matéria, é o homem que alcançou a imortalidade. Jesus disse de si mesmo: "Antes que Abraão fosse, Eu sou". Ele não estava referindo-se àquela manifestação material chamada "Jesus de Nazaré", pois este era somente o corpo carnal onde o Cristo havia se manifestado. O Cristo, em si, é a própria Vida de Deus, e é eterno - nunca nasceu, portanto nunca morreu. Em termos de expressão, tudo o que pode ser dito à respeito da existência de Cristo é: "Eu sou". Jesus, portanto, conhecia sua verdadeira imagem: a de Cristo, a de filho de Deus e, falando mais verdadeiramente, a do próprio Deus.

Mas Deus não significa corpo carnal, não significa matéria. Deus é Vida. O homem é Vida. "Eu sou" Vida. De hoje em diante não se julgue mais como sendo um ser que um dia nasceu e que um dia deixará de viver. Busquemos conhecer verdadeiramente quem somos! Assim como Jesus, precisamos alcançar a percepção de que "antes que Abraão fosse Eu Sou". Não existe morte para aquele que está desperto espiritualmente e conhece verdadeiramente a Si mesmo. Do ponto de vista do Ser que É "antes de Abraão existir", a matéria não existe. O "Ser que sempre É" nunca nasceu, e nunca vai desaparecer. Ele esteve sempre onde está agora, e é por isso que Ele nunca "entrou" na matéria. Não existe mundo material para Deus. Deus enxerga apenas o Seu Reino. "Entrar no Reino de Deus" significa fazer essa identificação com Ele, tornar-se um com Ele, e ver como é que as coisas realmente existem. É isso que significa a citação bíblica de deixar de ver por "espelho em enigma" e passar a vê-lo "face a face". A matéria não existe! Por mais que pareça existir, não existe realmente. Ela é um sonho. Quando se desperta para a Realidade vê-se o Reino de Deus espalhado em toda parte, em todas as pessoas.

A Vida é eterna e não está inserida da dualidade. A morte, esta sim, está inserida na dualidade e por isso possui um pólo contrário que lhe faça oposição. A oposição da morte é o nascimento. Mas a Vida não tem opositores. A Vida eternamente É. Para percebermos que somos Vida, e não corpo material, precisamos superar a dualidade e passar a enxergar tudo como um. O segredo de todas as espiritualidades está na palavra "Unidade". A religião ou filosofia que não prega a Unidade de tudo o que existe não passa de mera crendice e é pura perda de tempo. Busque conhecer a unidade existente entre todas as coisas! A Vida é Um e é infinita. Não existem duas Vidas. Não existe mais de um Deus. E Deus supre sua Vida por meio de sua própria Vida, Ele se basta a si mesmo. Ele não depende fatores exteriores a Ele para manter-se presente, vivo, alegre, próspero, bondoso, harmonioso. Tudo o que Deus é, tudo o que a Vida é, é retirado da própria Vida pela Vida. A Vida faz-se uma fonte de si mesma. É por isso que Deus pode doar tanto! É por isso que Deus pode amar tanto! Não depende de nada externo, mas vive a partir do centro de seu próprio ser. Entenda, leitor, AGORA, que você é Vida e não um corpo material. Tudo o que for necessário a você, a própria Vida irá lhe providenciar. Tudo já existe nela. Reconheça! Não ore a Deus pedindo, suplicando, ou implorando, como se houvesse a possibilidade de Ele atendê-lo ou não. A sua oração já foi atendida, antes mesmo de você fazê-la. Ao invés de orar suplicando como um pecador necesssitado, ore agradecendo como o filho de Deus que você já é, dizendo: "Deus, agradeço-lhe de coração porque sei que minha oração já foi atendida". Essa forma de oração é mais correta, e está dentro de uma compreensão mais próxima do que vem a ser a natureza de Deus. Foi Jesus quem disse que Deus já havia nos atendido antes mesmo de pedirmos ao Pai em oração. Quando se compreende isso, quando se entende que a Vida basta a si mesma ("Pai, só a Tua Graça me basta!"), e passa a se confiar nela, ela rompe seu estado de limitação e passa a manifestar sua liberdade. Mas se não acreditarmos que "a nossa Vida já é dotada de todas as coisas boas"... então soframos a consequência dessa crença. Porque Jesus disse: "Seja-te feito conforme a tua fé!". A Vida do homem é tão grandiosa que, apenas para continuar proporcionando o livre-arbítrio ao homem, ela é capaz de tolher, de aprisionar, limitar a si mesma. Mas, por ser infinita e grandiosa, também tem o poder de libertar-se de suas limitações na hora em que ela quiser. Procure compreender isso! Veja quem você relmente é. Você é Vida - nada mais, nada menos. Jesus, por conhecer quem ele era, disse: "Eu o Pai somos um". Você também pode dizer o mesmo. Porque só existe uma Vida. E essa Vida é a sua, é a minha, é onipresente.

Reconheça a Vida que você já é e viva à partir de si mesmo, do centro do seu próprio ser. Tudo o que lhe for necessário lhe será dado. Não perca de vista esta conscientização. Se perder, a sua Vida voltará a se expressar dentro dos padrões limitados pelas crenças de tua mente. Permita-a expressar-se livremente! Do referencial da realidade espiritual, não existem crenças a serem conhecidas pela mente, dispa-se de todas elas! Só há uma única coisa que realmente vale a pena ser conhecido: "a Vida". Quem sou eu? A partir desta conscientização, tudo se desdobrará. Por que? Porque a Vida é infinita, só há uma Vida, e esta Vida é a sua. E sua Vida basta-se a si mesma. Experimente manter essa conscientização no seu dia-a-dia, e veja os resultados. Você é filho de Deus! Você é mantido e sustentado por Deus! Você vive agora no Reino de Deus! Você vive pela Graça de Deus. Essa é a sua herança, como o filho de Deus que você é. Mas você precisa aceitar receber e ser digno de tal herança. Do contrário, terá de viver conforme a lei "seja-te feito conforme a tua fé", proferida por Jesus. É disto que se trata a mensagem trazida no vídeo. Você é Vida! Você é um ser absolutamente livre, que, de TÃO livre, possui a liberdade até mesmo para se limitar. Mas, na hora em que você quiser, possui a força para recuperar a sua própria liberdade (iluminação!), que lhe é inata, e permitir que a sua Vida se (auto)expresse livremente.


"Que é destino? Na hora exata, quando eu quiser, eu me liberto do mais triste destino." (Masaharu Taniguchi)



domingo, junho 21, 2009

Assumindo a Imortalidade


Joel S. Goldsmith

No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne... "O Verbo se fez carne" — mas ainda é o Verbo. Não mudou sua natureza, sua qualidade ou substância por ter-se feito carne. A Causa tornou-se visível como efeito, mas a essência ou substância continua sendo o Verbo, o Espírito ou Consciência.

Por este prisma, podemos compreender que não há um universo espiritual e um universo material, mas que o que se nos apresenta como o nosso mundo é o Verbo feito carne, o Espírito tornado visível, ou a Consciência que se expressa como idéia.

Todo o erro que se consumou durante os séculos baseia-se na teoria ou crença em dois mundos, um sendo o reino celeste ou vida espiritual e o outro um mundo material ou existência mortal, separados um do outro.

Apesar desta crença em dois mundos, o homem sempre tentou levar a harmonia às mazelas da existência humana, tentando, por meio da oração, fazer contato com o tal 'outro mundo', ou reino espiritual, para que o Espírito, ou Deus, atue na chamada existência material.

Comecemos por entender que o nosso mundo não é um mundo errôneo, mas trata-se do reino da realidade do qual mantemos um falso conceito. Para obtermos saúde e harmonia em nossa vida, não temos de nos desfazer nem mesmo mudar este universo material e efêmero, mas bastará corrigirmos a visão limitada que temos da nossa existência.

O pesquisador da verdade começa sua busca com um problema — talvez com vários deles. Os primeiros anos de sua busca são empregados na superação da desarmonia e na cura das doenças pela oração a um Poder mais alto ou pela aplicação das leis espirituais ou da verdade às condições humanas. Chega, porém, o dia em que percebe que a aplicação da verdade aos problemas humanos já não funciona mais, ou, pelo menos, não como funcionava no início, e que já não traz a mesma inspiração e satisfação aos seus estudos.

Por fim receberá, eventualmente, a grande revelação: os mortais podem assumir a imortalidade apenas na medida em que anulem a mortalidade — eles não podem acrescentar harmonia de espiritualidade imortal às condições humanas. Deus não criou nem rege as coisas humanas. "O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, pois que lhe parecem loucura: nem pode entendê-las, porque só se podem discernir espiritualmente."

Estaremos nós buscando as "coisas do Espírito de Deus" com algum propósito humano? Ou de fato estamos nos esforçando para nos livrar do que é mortal, para podermos contemplar a harmonia do reino espiritual?

Enquanto lutamos e combatemos os pretensos poderes deste mundo, combatendo a doença, o pecado e a carência, o sentido espiritual, por sua vez, revela-nos que "O meu reino não é deste mundo". Somente quando soubermos transcender o desejo de melhorar nossa vida humana é que nos colocaremos na posição de compreender o sentido desta mensagem vital; quando deixamos os limites do aperfeiçoamento humano, temos o primeiro vislumbre do significado das palavras: "eu venci o mundo".

Não teremos vencido o mundo enquanto mais buscarmos seus prazeres e menos desejarmos suas dores. E se não superarmos a postura de luta contra as coisas do mundo, não entraremos no reino das coisas do céu.

"Porque todo o que é nascido de Deus, vence o mundo." A consciência espiritual vence o mundo — tanto os prazeres como as dores do mundo. Não podemos conseguir a evangelização da humanidade pelo poder mental ou pela força física, mas apenas pela visão espiritual da vida, que pode ser cultivada por todos que devotam seus pensamentos às coisas do Espírito.

"Porque tudo o que está no mundo, os prazeres da carne, os prazeres dos olhos, o orgulho, não vem do Pai — vem do mundo." Observemos, por um pouco de tempo, nossos pensamentos, nossas ambições e interesses e vejamos se a nossa mente está voltada para a nossa saúde, para os prazeres dos sentidos ou para os ganhos mundanos. Se constatarmos tais pensamentos mundanos, aprendamos a afastá-los, pois já não estamos no caminho do aperfeiçoamento das coisas humanas, mas a caminho do reino espiritual.

"Não tenhas amor ao mundo nem ao que é do mundo. Pois no homem que ama o mundo não está o amor do Pai." Significaria isto que devemos nos tornar ascetas? Deveríamos desejar uma vida diferente do que é normal, desprovida de alegria e de sucesso? Não nos enganemos. Somente aqueles que aprenderam a manter sua atenção nas coisas do Espírito saborearam a completa alegria do lar, do companheirismo e dos empreendimentos de sucesso. Somente aqueles que em certo grau se centraram em Deus encontraram segurança, proteção e paz em um mundo combalido pela guerra. O pensamento espiritual não nos afasta do nosso meio normal, não nos priva do amor e do companheirismo tão necessários para uma vida plena. Ele apenas coloca tudo isto em um nível mais alto, onde não mais dependemos da sorte, das mudanças ou do azar, onde se manifesta o valor do que chamamos de cenário da vida.

"Não vos esforceis pelo alimento que perece, mas pelo alimento que dura pela vida eterna... Pois que o Reino de Deus não consiste em comer e beber, mas na justiça, na paz e no contentamento no Espírito Santo."

Quando nos defrontarmos com um problema humano, em vez de nos esforçarmos para melhorar as humanas condições, afastemos essa imagem e concentremo-nos na presença do Espírito divino em nós. Esse Espírito dissolve as aparências humanas e revela a harmonia espiritual, ainda que essa harmonia se nos apresente como uma melhora de saúde ou de riqueza. Quando Jesus alimentou as multidões, o que apareceu como pão e peixe foi a sua consciência espiritual de abundância. Quando curou os doentes, foi o seu sentimento da Presença Divina que se manifestou como saúde, força e harmonia.

Tudo isso pode ser resumido nas palavras de Paulo: "Voltai vosso olhar para as coisas do alto, não para as coisas da terra".

Vivemos em um universo espiritual, mas a finitude de nossos sentidos desenhou para nós uma imagem de limitações. Enquanto tivermos nossos pensamentos voltados para o cenário à nossa frente — "este mundo" —, estaremos nos esforçando para melhorá-lo ou mudá-lo. Mas, assim que elevarmos nosso olhar e não mais nos preocuparmos com o que comer, beber ou vestir, começaremos a perceber a realidade espiritual; e embora nos pareça apenas uma crença mais perfeita, é de fato a manifestação mais intensa da realidade. Esta manifestação traz consigo uma alegria inimaginável, aqui e agora, uma satisfação com a qual nem sonhamos e o amor de todos com quem fazemos contato, mesmo daqueles que desconhecem a fonte da nova vida que descobrimos.

"Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não como o mundo a dá." "Não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus... Coisas que também falamos, não com as palavras ditadas pela sabedoria dos homens, mas como as ensina o Espírito Santo... O homem natural não compreende as coisas do Espírito, que lhe parecem loucura; nem pode compreendê-las porque elas se discernem espiritualmente."

Quantas vezes nos enganamos neste ponto! Com quanta freqüência tentamos compreender a verdade espiritual com nosso intelecto humano! E isso leva à indigestão mental, pois que tentamos digerir alimento espiritual com nossa mente erudita. Isso não funciona. A verdade não é um processo de raciocínio, e por isso só pode ser entendida espiritualmente. A verdade não está normalmente na esfera do nosso entendimento, e, quando parece estar, deve ser investigada mais profundamente para verificar sua autenticidade. Temos de desconfiar de uma verdade que nos pareça fácil de compreender.

Jesus caminhou sobre as águas, alimentou multidões com poucos pães e peixes, curou os doentes e ressuscitou os mortos — parece aceitável para o seu intelecto? Se o princípio subjacente a essas experiências pudesse ser entendido com a inteligência, todas as igrejas o ensinariam como um meio viável e recomendariam seu uso. Este princípio, porém, só é apanhado pelo sentido espiritual, e esta 'consciência espiritual elevada' pode fazer as coisas que o Cristo fez. Aquilo que foi possível à Cristo-consciência no tempo de Jesus, é possível à mesma Consciência agora.

Cultivando este sentido espiritual, nosso sucesso será tanto maior na proporção que abandonarmos o esforço mental e nos tornarmos receptivos às coisas que o Espírito de Deus nos ensina. Em vez de tentarmos fazer que o Espírito atue sobre nossos corpos e nossas coisas materiais, aprendamos a desviar nosso olhar desses quadros terrenos, dirigindo-o para as coisas do alto. Quando "descermos novamente à terra", perceberemos que as desarmonias e as limitações dos sentidos desapareceram, e apareceu mais claramente a Realidade.

O Reino de Deus não consiste em mais e melhor matéria, nem encerra um mais rico vocabulário sobre a verdade. Todavia, os frutos da compreensão espiritual são uma maior harmonia, paz, prosperidade, contentamento e amizades e relacionamentos mais próximos do ideal.

Assim compreendemos que "agradecemos por isso continuamente a Deus pois vós, que recebestes a palavra de Deus ouvida de nós, não a recebestes como palavra humana, mas como ela é de fato — a palavra de Deus, que atua sobre vós para que nela creiais".

Para recebermos a Palavra de Deus, ou sentido espiritual, precisamos mais sentir que raciocinar.

E é a isso que a Bíblia se refere com a expressão receber a palavra "no coração". Notemos que o desenvolvimento da consciência espiritual redunda em maior capacidade de intuir a harmonia do Ser. Compreendemos que nem a visão, nem o ouvido, o tato, o olfato ou o paladar podem nos revelar a verdade espiritual ou sua harmonia; por isso tal revelação só pode nos acontecer através de outra faculdade, a intuição, que atua pelo sentimento.

Até o momento, ao orar ou meditar, vinha-nos de imediato uma enxurrada de palavras e pensamentos. Talvez estivéssemos começando a reafirmar a verdade e a rejeitar o erro. É, porém, evidente que isso ocorria completamente no domínio da mente humana.

Ao cultivarmos o sentido espiritual, tornamo-nos receptivos aos pensamentos que emanam das profundezas do nosso ser. Mais do que falar a Palavra, tornamo-nos seus ouvintes. Nesse estado, a sintonia com o Espírito é tal que sentimos a harmonia do Ser; sentimos a presença real de Deus. Transcendidos os cinco sentidos materiais, nossa faculdade intuitiva fica desperta, receptiva e sensível às coisas do Espírito; e após este renascimento espiritual, começamos uma nova existência.

Estávamos, até aqui, ocupados com a palavra da Verdade; e daqui em diante nos ocuparemos apenas com o Espírito da Verdade. Já não nos interessa saber o que seja a Verdade, mas sim em sentir a Verdade. E isso conseguimos na medida em que dedicarmos menos empenho na letra do que à receptividade e ao sentir. A palavra "sentir", aliás, se refere também à revelação, à consciência e ao sentido da verdade. Agora já não estamos falando da verdade, e sim recebendo a verdade, e aquilo que recebemos no silêncio, podemos falar abertamente e com autoridade.

A cura espiritual é o resultado natural de uma consciência divinamente iluminada. Mas esta iluminação só nos é dada na medida em que estejamos receptivos e sensíveis a ela.

É um mal entendido associarmos a idéia de imortalidade à pessoa humana ou ao sentido individualista de eu. A morte não produz a imortalidade nem põe fim ao sentido do eu, e tampouco a continuação do humano viver leva à obtenção da imortalidade.

Obtemos a imortalidade na medida em que superamos o sentido pessoal do eu, nesta vida ou depois dela. E, ao nos despojarmos do nosso ego e alcançarmos a consciência do nosso Eu verdadeiro — nossa Realidade, ou Consciência divina —, chegamos à imortalidade. E isso pode acontecer aqui e agora.

Ao contrário, o desejo de perpetuarmos nosso falso conceito de corpo e seu bem-estar nos amarra à morte, nos enleia na mortalidade.

Mais que a idéia de "acréscimo" vindo de 'fora', o primeiro passo para obtermos a imortalidade é viver a partir do CENTRO do nosso ser, como uma IDÉIA de DESDOBRAMENTO DO NOSSO ÍNTIMO.

É mais no sentido de DAR do que de receber, de SER mais que obter. Nessa consciência não há julgamento ou crítica, ódio ou medo, e sim um sentimento contínuo de amor e de perdão.

Não é coisa fácil descrever a alegria e a paz da imortalidade, pois para aqueles que não querem abandonar seus atuais conceitos de ser, ela pode transparecer um processo de extinção. Mas não é bem isso: ela é a eterna preservação de tudo o que é real, belo, nobre, harmonioso, gracioso, altruísta e pacífico. É a realidade, trazida à luz, em substituição à ilusão dos sentidos. É o despertar da consciência da infinitude do ser individual, em substituição ao sentido finito de existência. O egoísmo e o amor-próprio se vão de nós quando temos a percepção da divindade do nosso ser.

Esta percepção nos ensina a ser pacientes e indulgentes com aqueles que ainda lutam com a consciência material, mortal. E isto é estar no mundo, mas sem pertencer ao mundo.


quinta-feira, junho 18, 2009

Ensinamentos espirituais (Ramana Maharshi) - Final


Ramana Maharshi


Questão: A mente deve cessar sua atividade. Mas pedir para a mente voltar-se para dentro e buscar sua Fonte não é empregá-la?

R.: É claro, estamos usando a mente. É de conhecimento comum que a mente só pode ser extinta com a ajuda da mente. Mas a diferença é que ao invés de começar dizendo que a mente existe e que eu quero destruí-la, você começa buscando sua fonte, e quando você encontra a Fonte você vê que a mente não existe. A mente voltada para fora resulta em pensamentos e objetos; voltada para o interior, ela se torna ela mesma o Eu Real.

R.: Eu não disse que você deve ficar rejeitando pensamentos. Se você agarrar a si mesmo – ou seja, se você agarrar o pensamento-eu (ou ego) – e mantiver-se interessado apenas nesse único pensamento, então os outros pensamentos serão rejeitados e desaparecerão automaticamente.

R.: A investigação “Quem sou eu?” significa tentar encontrar a fonte do ego ou pensamento-eu. Então você não deve ocupar a mente com outros pensamentos, tais como “eu não sou o corpo”, etc. Buscar a fonte do “eu” é um meio de se livrar de todos os pensamentos.

R.: A individualidade (o pensamento “eu”) é aquilo que está consciente da existência dos pensamentos e da sua seqüência. Essa individualidade é o ego ou, como as pessoas dizem, é o “eu”.

R.: Você não precisa eliminar nenhum falso “eu”. Como pode o “eu” eliminar a si mesmo? Tudo o que você precisa fazer é encontrar a Fonte do “eu”, e permanecer lá. O seu esforço só pode levá-lo até este ponto. A partir daí, o Transcendental vai tomar conta de si mesmo. Você não pode fazer mais nada então. Nenhum esforço pode chegar até Ele.

R.: As noções de prisão e libertação são meras modificações/devaneios mentais. Se, por exemplo, a pessoa investigar (em busca dessa) fonte: “para quem existe a prisão e libertação?”, será descoberto que é “para mim”, isto é, para a própria pessoa. Se, então, ela investigar “Quem sou eu?” sinceramente, descobrirá que não existe o “eu” e “meu”. Aquilo que “sobra”, uma vez que o “eu” desaparece – na verdade este "eu" não desaparece, pois nunca chegou a existir. É mais correto dizer "uma vez que o eu é visto como inexistente"–, é realizado de forma vívida e direta como o Eu que ilumina a si mesmo e que é como é. Essa Realização viva é a experiência direta e imediata da Verdade Suprema, e vem naturalmente, sem nada de especial sobre ela, a todos aqueles que, permanecendo assim como são, mergulham interiormente sem permitir que a mente se exteriorize nem por um momento, e nem desperdiçam seu tempo em conversas vãs.

Questão: Imagine que eu tenha o pensamento “cavalo”, e procure saber de onde ele veio. Fazendo isso eu vejo que ele vem da memória, e que esta surgiu da percepção passada de um “cavalo”, mas isso é tudo.

R.: Quem lhe pediu para pensar tudo isso? Esses também são pensamentos... Qual é o bem que você espera ganhar pensando assim sobre a memória e a percepção? O “eu” que tem essa percepção e memória - de onde ele vem? Descubra. A percepção, a memória e qualquer outra experiência surgem sempre para este “eu”. Você não tem essas experiências durante o sono e mesmo assim você existe enquanto dorme, assim como existe agora. Isso apenas mostra que o EU continua enquanto as outras coisas vão e vem. (...)

R.: Você veio da mesma Fonte em que estava durante o sono.

Questão: Os Upanishads dizem: Aquele que conhece Brahman torna-se Brahman.

R.: Sim, isso ocorre em virtude da Unidade existente entre tudo o que é. Mas na verdade não se trata de “tornar-se” mas sim de Ser. “Não existe o ‘realizar' do Eu Superior” – você pode apenas sê-lO e em verdade você já o é. O Bhagavan costumava assim lembrar, aos que perguntavam, que apenas o Eu Real é, agora e sempre, e que não é algo novo a ser descoberto. Esse paradoxo é a essência do não-dualismo.

R.: Tudo o que você precisa fazer é abandonar a sua identificação com esse corpo e abandonar todos os pensamentos de coisas externas, isto é, de coisas que não são o Eu Real. Por mais que a mente se exteriorize em direção aos objetos dos sentidos, detenha-a e fixe-a no Eu. Esse é todo esforço que você precisa fazer.

R.: Todos buscam apenas aquilo que lhes trará felicidade. A sua mente divaga em direção aos objetos exteriores pois você acredita que encontrará felicidade neles; mas descubra de onde a felicidade realmente vem, mesmo a felicidade que você acredita originar-se dos objetos dos sentidos. Então você perceberá que toda felicidade vem apenas do Eu e, com isso, será capaz de permanecer no Eu (devido à força do seu desejo natural por felicidade).

R.: Concentração não é pensar sobre algo. Pelo contrário, é excluir todos os pensamentos, já que todos os pensamentos obstruem a experiência do verdadeiro ser da pessoa.

Questão: Se o “eu” é uma ilusão, quem é que afasta este “eu”?

R.: O “Eu” afasta a ilusão do “eu” e mesmo assim continua sendo “Eu” – tal é o paradoxo da Auto-Realização. Mas os seres Realizados não vêem nenhum paradoxo nisto.

(...)

R.: Você pode abandonar esta ou aquela das “minhas” posses; mas, ao invés disso, se você abandonar o “eu” e “meu”, tudo é abandonado de uma vez só, e a própria semente da posse é destruída. Com isso corta-se o mal pela raiz. Mas a força do desapego deve ser grande para que isso seja possível. A ânsia de fazer isso deve ser igual à ânsia de alguém que está sendo afogado e tem que subir à superfície para respirar.

R.: O que é necessário é manter-se sempre fixo no Eu Real. Os obstáculos a isso são, por um lado, as distrações causadas pelas coisas do mundo (incluindo objetos dos sentidos, desejos e tendências) e, por outro, o sono. (...) Mas outro método é simplesmente não se preocupar com o sono. Quando ele vem, ele vem sem esperar, e você não pode evitá-lo. Então simplesmente mantenha-se fixo no Eu Real, ou na sua meditação, em cada momento da sua vida desperta, e retorne à meditação no momento em que você acordar. Isso será suficiente. Assim, mesmo durante o sono, a mesma corrente de consciência estará trabalhando.

R.: Você nunca deve ficar satisfeito com qualquer experiência que tenha. Quer você sinta prazer ou medo, pergunte-se quem sente isso e continue seus esforços até que prazer e medo sejam ambos transcendidos e que a dualidade cesse, permanecendo assim apenas a Realidade. Não há nada de errado em experimentar essas coisas, desde que você não pare por aí.

R.: Não se importe se há visões, sons, vazio, ou qualquer outra coisa. Você está presente nessas experiências ou não? Você deve ter estado lá para poder dizer que experimentou um vazio. Permanecer fixo neste “você” do início ao fim é a busca. (...) É a mente que vê objetos e tem experiências que se depara com o vazio quando pára de ver e experimentar, mas essa mente não é você. Você é a iluminação constante que dá vida tanto à experiência quanto ao vazio.

(...) Nos versos 212 e 213 do Vivekachudamani, depois de o discípulo dizer: agora que eliminei os cinco revestimentos como sendo não-Eu, percebo que nada permanece”, o Guru responde que o Eu Real, ou ISTO, pelo qual todas as modificações são percebidas – inclusive o ego e suas criações e a ausência delas (o vazio) –, está sempre lá.

R.: A mente é pura por natureza, mas se contamina quando se envolve com os objetos. O ideal é mantê-la ativa em sua busca sem abrir as portas para as impressões sensoriais e sem pensar em outras coisas.

R.: Para aqueles que seguem jnana marga (o caminho do Conhecimento) a auto inquirição é suficiente para desenvolver todas as qualidades divinas – eles não precisam se preocupar em fazer mais nada.

R.: A Consciência que percebe o vazio é o Eu Real.

R.: Permaneça sem pensar. Enquanto houver pensamento haverá medo.

(...)

R.: Todo mundo está consciente da existência de si mesmo. No entanto as pessoas se esquecem dessa consciência e vão buscar Deus. Qual é a utilidade de fixar a atenção entre as sobrancelhas? O objetivo de tal conselho é ajudar a mente a se concentrar. É um método poderoso de controlar a mente e evitar sua disperção.

R.: Você deve considerar-se o sujeito, o observador; assim, o ponto no qual você fixa a sua atenção se torna o objeto visto. Isto é apenas bhavana. Quando, ao contrário, você vê o próprio observador, você mergulha no Eu Real e torna-se um com ele – isso é o Coração.

Questão: Não é útil fazer um voto de silêncio?

R.: Um voto é apenas um voto. Ele pode ajudar a meditação até certo ponto. Mas qual é a utilidade de meramente manter a boca fechada se você permite à sua mente mover-se desenfreadamente? Por outro lado, se a mente está envolvida na meditação qual a necessidade da fala? Nada é tão bom quanto a própria meditação. Qual é a utilidade de um voto de silêncio se a pessoa está absorta na atividade (mental)?

Questão: O que ajuda a concentração e, também, o que ajuda a superação das distrações?

R.: Fisicamente, o sistema digestivo e demais órgãos devem estar livres de irritação. Para isso a alimentação deve ser regulada em qualidade e quantidade. (...) Mentalmente, tenha interesse em apenas uma coisa e fixe sua mente nisso. Deixe esse interesse absorvêlo completamente excluindo todo o resto. Isso é desapego (vairagya) e concentração.

R.: Tudo o que se fala sobre a entrega é como roubar açúcar de uma imagem de açúcar de Ganesha e depois oferecê-lo ao mesmo Ganesha. Você diz que oferece seu corpo e alma e todas as suas posses a Deus – mas eles são seus para você poder oferecer? No máximo você pode dizer: “Eu erroneamente imaginei até agora que essas coisas, que na verdade são Vossas, eram minhas. Agora percebo que elas pertencem a Vós, e não mais agirei como se minhas fossem”. E isso é a entrega. E esse é o conhecimento de que não existe nada além de Deus (Brahman) ou Eu Real (Atman), de que “eu” e “meu” são meras ficções, e que apenas o Eu Real existe, é Jnana.

Questão: Gostaria de saber quais são os passos por meio dos quais eu posso atingir a entrega?

R.: Há dois caminhos. Um é buscar a fonte do “eu” e mergulhar nessa Fonte; o outro é sentir “eu sou impotente sozinho; apenas Deus é todo-poderoso, e a única maneira de eu estar seguro é me atirando completamente Nele”, assim desenvolvendo gradualmente a convicção de que apenas Deus existe, e de que o ego é irrelevante. Ambos os métodos levam ao mesmo objetivo. A entrega completa é apenas outro nome para Jnana ou Libertação.

R.: “Semelhante ao sono”, está correto. É o estado natural. Como você agora se identifica com o ego, você olha para o estado natural como se fosse algo que interrompesse seu trabalho ou prática. Então você deve ter essa experiência repetida até que você perceba que esse estado é seu estado natural.

Questão: Swami, como pode o domínio do ego ser afrouxado?

R.: Não se acrescentando novas vasanas (tendências mentais) a ele.

R.: O exame da natureza transitória das coisas exteriores leva ao desapego (vairagya). Assim, a investigação ou inquirição é o primeiro e mais importante passo. Quando ela se torna automática resulta em indiferença à riqueza, fama, conforto, prazeres, etc. Então o pensamento “eu” é investigado até chegar-se à fonte do “eu”, o Coração, que é a meta final.

R.: “Não se preocupe com a Libertação. Primeiro descubra se há aprisionamento. Investigue a você mesmo primeiro”.

Questão: Uma vez alcançada, pode a Auto-Realização ser perdida?

R.: A Realização leva tempo para se estabilizar. O Eu Real certamente está dentro da experiência direta de todos, mas não da forma como eles imaginam. Só se pode dizer que ele é como é. (...) Devido à flutuação das vasanas, a Realização demora a se estabilizar. A Realização súbita não é suficiente para acabar com o ciclo de renascimentos, e ela não pode se tornar permanente enquanto houver vasanas. Na presença de um grande mestre as vasanas deixam de ser ativas e a mente se torna quieta, de forma que o samadhi (absorção no Real) resulta, assim como na presença de vários meios (mágicos) o fogo não queima. Assim, na presença do mestre o discípulo ganha conhecimento verdadeiro e uma experiência correta. Mas para isso ser estabilizado é necessário um esforço adicional. Então o discípulo saberá que isso é seu verdadeiro Ser, e assim será libertado mesmo enquanto no corpo.

Questão: Esse método parece ser mais rápido que o método comum de desenvolver as virtudes postas como necessárias à Realização.

R.: Sim. Todos os erros e defeitos estão centrados no ego. Quando o ego desaparece a Realização resulta naturalmente.

R.: A paz só pode reinar quando não há perturbação, e a perturbação existe por causa dos pensamentos que surgem na mente. Quando a mente está ausente, há paz perfeita. A menos que a pessoa tenha "aniquilado" a mente, ela não pode ter paz e ser feliz. E se a própria pessoa não for feliz ela não poderá dar felicidade aos “outros”. Então, “EU-SOU” é Deus.

Questão: O que é samadhi?

R.: No yoga o termo é usado para indicar um certo tipo de transe (ou absorção meditativa), e há vários tipos de samadhi. Mas o samadhi sobre o qual estou falando é diferente; é sahaja samadhi. Nesse estado você permanece calmo e sereno durante a atividade. Você percebe que é movido pelo Eu Real dentro de você, e permanece não afetado por qualquer coisa que você faça, diga, ou pense. Nada te toca.

R.: Tanto o homem Realizado quanto o não Realizado tem sensações. A diferença é que o não realizado se identifica com o corpo que tem sensações, enquanto que o Iluminado sabe que tudo isso é o Eu Real, que tudo é Brahman (O Absoluto). Se há dor, deixe-a ser; ela também faz parte do Eu, e o Eu é perfeito.

Questão: Podemos pensar sem a mente?

R.: Os pensamentos podem continuar, assim como as outras atividades. Eles não perturbam a Consciência Suprema.

R.: Se você agarrar-se ao Eu Real, o surgimento das imagens não irá enganá-lo. Também não vai mais importar se as imagens aparecem ou desaparecem.


Ramana Maharshi fresco

segunda-feira, junho 15, 2009

Ensinamentos espirituais (Ramana Maharshi) - 02


Ramana Maharshi


R.: Por que os seus deveres ou ocupações na vida deveriam atrapalhar o seu esforço espiritual? Por exemplo, há uma diferença entre suas atividades em casa e no trabalho. No trabalho você está desapegado: você apenas cumpre o seu dever e não se importa com o que vai acontecer, não está preocupado com o ganho ou perda do seu chefe ou empregador. Os seus deveres com a família, por outro lado, são desempenhados com apego: você está sempre preocupado se as suas ações vão trazer benefício a você e sua família. Mas é possível desempenhar todas as atividades da vida com desapego e ver apenas o Eu Superior como real. É errado pensar que se você permanecer fixado interiormente no Eu Real os seus deveres na vida não serão bem desempenhados. É como um ator no palco: ele se veste do personagem, age como ele e até sente que é parte da peça, mas na verdade sabe que na vida real não é o personagem, mas outra pessoa. Da mesma maneira, por que deveria a consciência do corpo ou o sentimento “eu-sou-o-corpo” lhe perturbar, uma vez que você saiba que na verdade você não é o corpo mas sim o Eu Real? Nada que o corpo faça deveria afastá-lo da permanência como Eu real. Permanecer fixado no Eu Real não irá interferir com o desempenho adequado e efetivo de quaisquer deveres que o corpo tenha, assim como o fato de o ator saber a sua verdadeira identidade não interfere no personagem que ele representa no palco.

R.: Não há nenhuma lei que diga que as ações só podem ser feitas com base no sentimento “eu-sou-o-agente”, então não há motivo para perguntar se elas podem ser feitas e os deveres serem cumpridos sem essa noção. Pegue como exemplo o caso de um contador que trabalha o dia inteiro no escritório e cumpre suas tarefas diligentemente. Pode parecer aos olhos dos outros que ele está carregando nas costas todas as responsabilidades financeiras da instituição; porém, se ele estiver consciente que não é pessoalmente afetado pelas entradas e saídas de capital ele conseguirá permanecer desapegado e livre da noção “eu-sou-o-agente”, embora desempenhe suas tarefas perfeitamente bem. Da mesma forma, é possível a um sábio pai de família que busque ardorosamente a Libertação cumprir seus deveres sem nenhum apego, considerando a si mesmo apenas como um mero instrumento para isso. Uma atividade assim não é um obstáculo ao Caminho do Conhecimento (jnana-marga), e nem é o Conhecimento um fator que impeça o cumprimento dos deveres da vida. A Compreensão e a atividade nunca são mutuamente excludentes – uma não atrapalha a outra.

R.: Se os objetos tivessem uma existência independente, ou seja, se existissem fora e separados de você, então seria possível você se afastar deles. Mas eles não existem assim – a sua existência depende de você, do seu pensamento. Então onde você pode ir para fugir deles?

R.: A ação feita abnegadamente purifica a mente e a ajuda a concentrar-se na meditação.

Questão: Mas e se eu fosse apenas meditar constantemente sem fazer mais nada?

R.: Tente e veja. As suas tendências mentais inerentes não lhe deixarão em paz. A meditação só acontece passo a passo, através do enfraquecimento dessas tendências por meio da graça do Guru.

Questão: Eu não sinto mais nenhum prazer em minha vida familiar. Não me resta mais nada para fazer lá; eu fiz tudo o que deveria ser feito e agora já tem netos e netas na casa. Eu deveria continuar lá ou deveria abandonar a casa e ir embora?

R.: Você deve ficar onde você está agora. Mas onde está você? Você está na casa ou a casa está em você? Existe alguma casa separada de você? Se você se estabilizar na sua própria morada você verá que todas as coisas desaparecerão em você e perguntas como essas se tornarão desnecessárias.

Questão: Então eu devo continuar em casa?

R.: Você deve continuar no seu verdadeiro estado.

R.: O mundo está apenas na mente. (...) Renúncia é a não-identificação do Eu com o não-Eu. Quando a ignorância desaparece, o não-Eu cessa de existir. Essa é a verdadeira renúncia.

R.: Os esforços sinceros nunca falham – com certeza eles resultarão em sucesso.

R.: No entanto, é mil vezes mais tolo querer carregar o seu próprio fardo uma vez que se tenha iniciado a busca espiritual, quer seja pelo caminho do conhecimento (jnana) quer pelo da devoção (bhakti).

R.: O Senhor do universo carrega todo o fardo – você apenas imagina fazê-lo. Você pode seguramente entregar todos os seus fardos e problemas a Ele. Então o que quer que você precise fazer acontecerá no momento certo, e você será apenas um instrumento para isso. Não imagine que você não possa agir a não ser que tenha o desejo de fazê-lo. Não é o desejo que lhe dá a força necessária [para agir] – a força é a de Deus.

R.: Por que se preocupar com o futuro? Você nem conhece o presente direito. Cuide do presente e o futuro cuidará de si próprio.

R.: Como você é, assim é o mundo. Qual é a utilidade de tentar entender o mundo sem entender a si mesmo? Os buscadores da Verdade não precisam se preocupar com isso. As pessoas desperdiçam sua energia com essas perguntas desnecessárias.

R.: Durante o seu trabalho a pessoa deve se render ao Poder Maior e nunca perder de vista que é este Poder que faz tudo. Então como ficar orgulhoso? A pessoa não deveria nem se preocupar com o resultado de suas ações. Só assim o karma será altruísta.

Questão: Se existissem cem pessoas que realizaram o Eu Real, isso não seria um benefício maior ao mundo?

R.: Quando você diz “Eu Real” você está se referindo ao ilimitado, mas quando você fala em “pessoas” você limita o significado. Há apenas um Eu Infinito.

(...)

Questão: Na Europa as pessoas não entendem que um homem pode ajudar a humanidade mesmo vivendo isolado. As pessoas imaginam que apenas aqueles que trabalham no mundo podem ser úteis. Quando essa confusão vai terminar? A mente dos europeus vai continuar patinando na lama ou vai compreender a Verdade?

R.: Esqueça-se de “Europa” ou “América”. Onde eles estão senão na sua própria mente? Compreenda o seu verdadeiro Eu e então tudo mais é compreendido. Se você vê inúmeras pessoas em um sonho e depois acorda e se lembra do sonho, você vai tentar descobrir se essas pessoas que você criou no sonho também estão acordadas?

Questão: Um Guru é realmente necessário?

R.: Isso depende do que você chama de Guru. Um Guru não precisa necessariamente ter uma forma física. Dattatreya disse que teve vinte e quatro Gurus – os cinco elementos, etc. Isso quer dizer que tudo no mundo era seu Guru. O Guru é absolutamente necessário. Os Upanishads dizem que ninguém além do Guru pode tirar o homem da selva das percepções sensoriais e formações mentais; logo, o Guru é indispensável.

R.: É verdade que o Ser do Guru é idêntico ao do discípulo. No entanto, apenas muito raramente uma pessoa pode compreender seu verdadeiro Ser sem a graça do Guru.

R.: O mestre está no interior. Se ele fosse um ser estranho pelo qual você espera, ele também estaria fadado a desaparecer. De que adianta um ser transitório como esse?

(...)

Questão: Então, o que o devoto deve fazer?

R.: Ele só precisa viver de acordo com as palavras do Mestre e trabalhar no seu interior. Com o tempo você perceberá que a Felicidade só surge quando você deixa de existir. A fim de alcançar esse estado você deve entregar-se. Então o mestre perceberá que você está em um estado propício para receber o ensinamento, e assim Ele irá guiá-lo.

R.: Se o eu individual for buscado ele não será encontrado em lugar algum. Isso é o Guru. Assim era Dakshinamurti.

Questão: Então Bhagavan tem discípulos?

R.: Como eu disse, do ponto de vista do discípulo a Graça do Guru é como um oceano: se ele vier com um copo ele sairá com um copo cheio. Não faz sentido dizer que o oceano é mesquinho; quanto maior for o recipiente mais água ele poderá carregar. Depende tudo do discípulo. Eles dizem que estou morrendo, mas eu não vou embora. Para onde eu poderia ir? Eu estou aqui.

Continua...

sábado, junho 13, 2009

Ensinamentos espirituais (Ramana Maharshi) - 01

Ramana Maharshi


Questão: Existem graus de ilusão?

Ramana: A ilusão é em si ilusória. Ela deve ser vista por alguém que encontra-se fora dela, mas como pode um observador assim estar sujeito a ela? Então, como ele pode falar de graus de ilusão?

R.: A ilusão é aquilo que faz os seres tomarem por real e existente por si aquilo que é inexistente e irreal, isto é, a trilogia mundo-ego-Deus.

R.: A essência da mente é apenas atenção ou consciência. Entretanto, quando o ego nubla a mente, esta adota as funções de raciocínio, pensamento e percepção. A mente universal, não sendo limitada pelo ego, não tem nada exterior a si, e portanto ela é apenas consciência. É isso o que a Bíblia quer dizer com “EU SOU O QUE EU SOU”.

Questão: Quando eu procuro o “eu” eu não vejo nada.

R.: Você diz isso porque você está acostumado a identificar o seu eu com o seu corpo e a sua visão com os seus olhos. O que existe para ser visto? E por quem? E como? (...) Na verdade não há nada para ver. Como você se reconhece agora? Você precisa pôr um espelho na sua frente para reconhecer a si mesmo? A consciência em si é o “eu”. Realize-a e isto é a verdade.

Questão: Quando eu investigo a origem dos pensamentos há a percepção do “eu”, mas isso não me satisfaz.

R.: Exatamente. Isso acontece porque essa percepção de “eu” está associada a uma forma, talvez a forma do corpo físico. Mas nada deveria ser associado ao Eu puro. Tudo o que nasce deve morrer; tudo o que é adquirido será perdido. Você nasceu? Não, você existe eternamente. O Eu Real nunca pode ser perdido.

R.: Se os méritos e deméritos de um homem são iguais ele renasce imediatamente na Terra; se os seus méritos superam seus deméritos ele primeiro vai ao céu em seu corpo sutil, já se seus deméritos superam seus méritos ele vai primeiro ao inferno. Mas em ambos os casos ele renasce posteriormente na Terra. Tudo isso é descrito nas escrituras, mas na verdade não existe nem nascimento nem morte; cada um simplesmente permanece como realmente é. Apenas isso é a Verdade.

Questão: Mas a partir de meu próprio nível de entendimento eu vejo a mim mesma e ao meu filho como reais.

R.: Você pensava sobre o seu filho antes dele nascer? O pensamento veio depois dele nascer, e continua após sua morte (a do filho). Ele só é o seu filho na medida em que você pensa nele. Para onde ele foi? Para a fonte de onde ele surgiu. Enquanto você continuar existindo ele continua também. Mas se você deixar de se identificar com o corpo e realizar o Eu Real, essa confusão desaparecerá. Você é eterna, e verá que os outros também o são. Enquanto isso não for realizado haverá sempre a tristeza e o desgosto, fruto dos falsos valores que são produzidos pelo conhecimento errôneo e pela identificação errônea.

R.: Que felicidade você pode obter das coisas exteriores a você mesmo? E quando você a obtém, quanto tempo ela dura?

R.: Se você negar o ego e ignorá-lo, você estará livre. Se você o aceitar, ele irá lhe impor limitações e levá-lo a lutar em vão para superá-las. Foi assim que o “ladrão” arruinou o Rei Janaka. Ser o "Eu" que você realmente é, é o único meio de realizar a Bem-Aventurança que é sempre sua.

R.: (Palavras ditas à devota que tinha perdido seu filho) - A tristeza só existe enquanto a pessoa pensa que possui uma forma definida, mas se a forma for transcendida, a pessoa conhecerá o Eu Único como eterno. Não existe nascimento nem morte. Apenas o corpo nasce, e o corpo é uma criação do ego. No entanto, o ego não é comumente percebido sem o corpo, e por isso você o identifica com o corpo. O que importa é o pensamento. (...) Se um homem pensa que ele nasceu ele inevitavelmente sentirá medo da morte. Deixe que ele descubra se ele alguma vez nasceu ou se existe nascimento para o Eu Real.

Questão: Se alguém que nós amamos morre isso nos faz sofrer. Nós deveríamos, então, para evitar este sofrimento, amar a todos igualmente ou não amar ninguém em absoluto?

R.: Se alguém que amamos morre isso causa sofrimento àquele que continua vivo. A maneira de se livrar do sofrimento é não continuar vivendo. Mate o sofredor – assim quem estará lá para sofrer? O ego deve morrer, é o único jeito. As duas alternativas que você sugere dão no mesmo. Quando percebemos que todos são apenas o Eu Único, quem está lá para amar ou odiar?

(...)

Questão: Estou com dor de dente – isso é apenas um pensamento?

R.: Sim.

Questão: Então por que eu não consigo simplesmente pensar que meu dente está normal e assim me curar?

R.: Não se sente a dor de dente quando se está absorto em outros pensamentos ou quando se está dormindo.

Questão: Mas ela ainda sim continua.

R.: A convicção humana de que o mundo é real é tão forte que é difícil se libertar dela. Mas o mundo não é mais real do que o sujeito que o vê.

Questão: Atualmene está acontecendo a guerra Sino-Japonesa. Se ela é apenas imaginação, pode o Bhagavan imaginar que ela não está acontecendo e assim acabar com ela?

R.: (Rindo) O Bhagavan que você vê (como um ser exterior) é tanto um pensamento seu quanto a própria guerra Sino-Japonesa.

R.: A Bem-Aventurança do Eu Real só pode se manifestar numa mente que se torna sutil e estável por meio da meditação. Aquele que experimenta essa Bem-Aventurança alcança a libertação ainda neste corpo. Isso é possível, mas insisto e dizer que você necessita buscar e manter uma pureza mental. Se você simplesmente não conseguir resistir às tendências inferiores, será preciso fazer um maior esforço de sua parte. E se mesmo assim você não puder conseguir, apenas confie em Deus.

R.: O livre arbítrio é o presente surgindo para uma faculdade limitada de visão e vontade. Este mesmo ego, quando olha para suas atividades passadas, percebe que elas se desenvolveram segundo certas “leis” ou regras – sendo o seu próprio livre arbítrio um dos elos dessa corrente causal. Então o ego percebe que a Onipotência e Onisciência Divinas agiram através do seu aparente livre arbítrio. Então a pessoa chega à conclusão de que o ego é guiado pelas aparências.

Questão: Os deuses, Ishvara e Vishnu, e seus céus, Kailas e Vaikuntha, são reais?

R.: Tão reais quanto você no seu corpo.

Questão: O que eu quero saber é se eles possuem uma existência fenomenal, tal como o meu corpo, ou se são meras ficções, tais como os chifres de uma lebre?

R.: Eles de fato existem.

Questão: Sendo assim, eles devem estar em algum lugar. Onde eles estão?

R.: Em você. Arunachala está dentro e não fora. O Eu Real é Arunachala. Por que se preocupar com Deus? Nós não sabemos se Deus existe, mas sabemos que existimos, então primeiro concentre-se em si mesmo. Descubra quem você é. Todo o Vedanta está contido nas duas declarações bíblicasEu sou o que Eu sou” e “Aquiete-se, permaneça imóvel e saiba que Eu sou Deus”.

Questão: Então o que me impede de conhecer a mim mesmo ou Deus?

R.: A sua mente que divaga e seus caminhos desvirtuados.

R.: Entregar-se completamente significa que você deve aceitar a vontade de Deus, e não reclamar do que não lhe agrada. As coisas podem se revelar diferentes do que pareciam. O sofrimento e a aflição muitas vezes levam a pessoa a ter fé em Deus.

R.: Eles rezam a Deus e no final da oração dizem: “Seja feita a Vossa vontade”. Se a vontade Dele vai ser feita, então por que eles oram? (...) Não é necessário dizer a Ele o que você precisa. Ele conhece muito bem suas verdadeiras necessidades, e cuidará de atendê-las.

Questão: As nossas preces são atendidas?

R.: Sim, elas são atendidas. Nenhum pensamento é emitido em vão. Cada pensamento produzirá o seu efeito em um ponto ou em outro. A força do pensamento nunca será em vão.

R.: O homem é pecado. Mas você não é o homem - nunca se esqueça disso. Você é o Eu Verdadeiro. Não existe o sentimento de ser um "ser humano" durante o sono profundo. O pensamento-corpo faz nascer a idéia do pecado. O nascimento do pensamento em si é o pecado.

Questão: Mas qual é o método?

R.: Volte para o lugar de onde você veio.

Questão: De onde eu vim?

R.: É exatamente isso que você precisa descobrir.

(...)

Questão: Qual é a prova que tenho?

R.: Alguém precisa de alguma prova de sua própria existência? Apenas esteja consciente de si mesmo e todo o resto será conhecido.

Questão: Então por que os dualistas e não-dualistas discutem tanto?

R.: Se cada um deles se ocupasse apenas da sua tarefa (de buscar a Realização) não haveria discussões.

R.: É verdade que não estamos aprisionados. Quer dizer, para o Eu Real não há prisão. E também é verdade que cedo ou tarde você retornará à sua Fonte. Mas enquanto isso, se você cometer más ações, como você as chama, você terá que enfrentar as suas conseqüências. Você não pode escapar disso. Se um homem lhe bate, você pode dizer “Eu sou livre. Eu não sou afetado pela surra e a dor não existe para mim.” e deixar ele continuar batendo? Se você realmente chegou a esse ponto então você pode fazer o que quiser; caso contrário, qual é a utilidade de apenas dizer em palavras que você é livre [enquanto ainda não é]? Todas as atividades que o corpo deve passar foram determinadas no momento em que ele veio à existência. Não cabe a você aceitá-las ou rejeitá-las. A única liberdade que você tem é voltar-se para dentro e aí renunciar às atividades.

R.: Por que este corpo surgiu? Ele foi feito para passar pelas várias experiências que foram determinadas para a pessoa nesta vida... Quanto à liberdade, o homem é sempre livre para não se identificar com o corpo e para não se deixar afetar pelos prazeres e dores resultantes das atividades do corpo.

Questão: O ser humano tem algum livre arbítrio ou tudo na sua vida é predeterminado?

R.: O livre arbítrio existe junto com a individualidade. Enquanto houver individualidade haverá livre arbítrio. As escrituras todas se baseiam nesse ponto e aconselham direcionar o livre arbítrio na direção certa. Predestinação na teoria, mas o livre arbítrio na prática.

R.: Assim, a consciência natural e não discriminativa só é alcançada depois do esforço da meditação. A forma da meditação vai depender do que lhe atrai mais. Veja o que lhe ajuda a afastar todos os outros pensamentos e adote isso para sua meditação.

R.: Se você consegue apenas permanecer quieto sem se envolver em nenhuma outra atividade, isso é ótimo. Mas se isso não for possível, qual é a utilidade de permanecer inativo apenas em relação à busca pela Realização (e ativo em relação ao resto)? Enquanto houver ego, o esforço é necessário. Quando o ego cessa as ações se tornam espontâneas. Ninguém tem sucesso sem esforço. O controle da mente não é seu direito de nascença – os poucos que dominam a mente alcançaram isso graças ao seu esforço perseverante. O esforço é necessário até o momento da Realização.

R.: Você pensar que deve fazer um esforço para se libertar desse sonho da vigília, mas os esforços que você faz para alcançar a Realização, são tudo partes do sonho.

R.: Entregue-se de uma vez por todas e acabe com o desejo. Enquanto houver a noção de que você é o agente, o desejo vai continuar, e, da mesma forma, o ego também.
Continua...