quarta-feira, setembro 05, 2012

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 2/2

Masaharu Taniguchi


6 – ESSÊNCIA E O FENÔMENO; O FENÔMENO AUTÊNTICO E O FENÔMENO FALSO

Nakamura – Estou me empenhando para transmitir aos meus conhecidos a verdade pregada pela Seicho-No-Ie, mas nem sempre consigo dar respostas convincentes às perguntas com que me contra-atacam. Dentre as perguntas destaca-se em primeiro lugar a seguinte: “Por que Deus não Se limitou a criar somente criaturas boas e criou também as más?”. A segunda pergunta é: “O amor de Deus deveria ser imparcial. No entanto, a existência de ricos e pobres não é prova de que Deus é injusto na distribuição de Suas dádivas?”. A terceira pergunta é: “Se a Seicho-No-Ie prega que a riqueza vem infinitamente de Deus, por que ainda não surgiram muitos bilionários entre seus adeptos?”. Quanto à cura de doenças pela prática da Meditação Shinsokan, a revista Seicho-No-Ie traz fartos depoimentos de pessoas que receberam tal graça, e eu me incluo entre as que já tiveram experiência nesse sentido. Mas, quanto à obtenção de riqueza, parece-me que são poucos os adeptos que receberam esse tipo de graça. Naturalmente, quem faz a última pergunta quer acreditar em Deus em troca de benefícios materiais quando, na verdade, as graças materiais são consequência da crença em Deus e do aprimoramento espiritual. Acho impura a fé de quem coloca a recompensa em primeiro plano, mas gostaria que o senhor desse uma resposta acessível às pessoas que se encontram nesse estágio.

Taniguchi – A primeira pergunta denota que a pessoa está confundindo o mundo fenomênico com o mundo criado por Deus. Aquele que ler todos os volumes da coleção A Verdade da Vida poderá compreender que Deus jamais criou nada mau. “Criatura má não existe porque Deus não a criou” – este é um dos pensamentos básicos da Seicho-No-Ie. Logo, é fora de propósito perguntar justamente à Seicho-No-Ie “por que Deus criou pessoas más”. Então poderá surgir a pergunta: “Se Deus não criou pessoas más, por que há tantas delas neste mundo?”. A resposta é esta: “Deus não criou o ser humano mau, mas a mente humana cria esse falso ser, manifesta-o no mundo fenomênico e faz com que ele pareça existir. Portanto, o ser humano mau não existe na verdade. Todos os seres humanos são bons na Essência. Entretanto, alguns não conscientizam sua Essência, que é bondade, e se consideram maus; esse pensamento é que se projeta no mundo fenomênico, fazendo parecer que existem maus elementos.

Alguns teorizam que o fenômeno é manifestação ou extensão da Essência, que a Essência se compara ao oceano e o fenômeno às ondas que se formam na superfície do oceano e que, portanto, todo e qualquer tipo de fenômeno é manifestação da Essência. Mas isso não é verdade. Devemos distinguir fenômenos “autênticos” e “falsos”. Os “fenômenos autênticos” são imagens projetadas do mundo da Essência para dentro dos moldes e limites do mundo fenomênico, enquanto que os “fenômenos falsos” são manifestações da mente em ilusão.  Os “fenômenos autênticos” são expressões fiéis das imagens perfeitas do mundo da Essência, portanto, sua existência tem fundamento sólido. Os “fenômenos falsos”, porém, sendo manifestações da mente em ilusão, não têm fundamento algum; tal qual miragem, eles não existem verdadeiramente. O “homem mau” sobre o qual perguntou o senhor, é uma falsa criação dessa mente em ilusão, portanto, embora pareça existir, não é existência verdadeira; é um “homem irreal” completamente diferente do homem verdadeiro, que existe verdadeiramente.

A teoria de que todos os fenômenos são existências reais chama-se realismo ingênuo. Se estudarmos a história da filosofia, constataremos que os primitivos e os silvícolas tinham essa concepção. A teoria de que os fenômenos são criações de Deus foi adotada desde a Antiguidade até hoje por muitos religiosos e filósofos espiritualistas. Entretanto, se aceitássemos essa teoria, teríamos de aceitar também os fenômenos imperfeitos como obras de Deus, e isso nos levaria a pensar que Deus é um ser imperfeito e incapaz, e sermos filhos de Deus significaria sermos criaturas imperfeitas, uma conclusão nada agradável. É por isso que Schopenhauer, apesar de ver o mundo como “criação de uma única e vasta Vontade”, entregou-se ao pessimismo. Portanto, como já disse, é preciso distinguir o “fenômeno falso”, imperfeito,  do “fenômeno autêntico”, perfeito.

Isto compreendido, fica respondida também a segunda pergunta: “Por que Deus criou ricos e pobres?”. Segundo a Seicho-No-Ie, todo homem é filho de Deus e foi criado por Ele como um ser infinitamente rico, de modo que não existe um pobre sequer. Tanto os mendigos que perambulam pelas ruas pedindo esmola, como os ricaços que vivem comodamente em seus palacetes, ambos são herdeiros de Deus, que é dono da riqueza infinita; portanto, na Essência, todos são infinitamente ricos, não existindo diferença alguma entre mendigos e ricaços. Mas, então, por que no aspecto fenomênico os mendigos e os ricaços se apresentam de forma tão contrastante? Porque no mundo fenomênico cada um projeta sua mente: manifesta imagem de riqueza infinita como projeção da mente sintonizada com a Essência, ou manifesta imagem de pobreza como projeção da mente em ilusão, dessintonizada com a Essência. Concluindo, podemos estar ricos ou pobres conforme a nossa mente.

E finalmente chegamos à sua terceira pergunta. Como faz anos que a Seicho-No-Ie vem propagando a Verdade de que “o homem é filho de Deus e infinitamente rico na Essência”, é natural pensarem que já é tempo de surgirem pessoas infinitamente ricas para comprovar essa Verdade. Entretanto, é preciso compreender que “pessoa infinitamente rica” não significa um “bilionário possuidor de uma fortuna determinada”. Mesmo um bilionário não passa de um pobretão, quando comparado a uma “pessoa infinitamente rica”. Ser infinitamente rico não significa possuir uma fortuna limitada que possa ser calculada em bilhões ou trilhões de dólares. “Pessoa infinitamente rica” é aquela a quem a riqueza flui em quantidade necessária na medida do necessário e se reduz automaticamente quando não é necessária. Em outras palavras, rico é aquele que, sem avareza, possui riqueza “nula” e ao mesmo tempo “infinita”, que aumenta ou diminui livremente em harmonia com a necessidade.

Compreendendo isso, o senhor compreenderá também que “ser infinitamente rico” não é ser um ricaço que concentra a riqueza de modo a provocar má distribuição de bens, o que constitui um câncer no mundo econômico. Para dizer a verdade, os ricaços mesquinhos são dominados pela ideia de que “a riqueza diminui se for usada”, e por isso acumulam dinheiro e bens materiais com avareza, mesmo acusados de exploradores. A riqueza obtida dessa forma é concretização de uma “ilusão” ao invés de manifestação da “riqueza infinita do mundo da Essência”. Portanto, também é fora de propósito perguntar por que os conhecedores da Essência não conseguem enriquecer como tais ricaços.

Entre os adeptos da Seicho-No-Ie, há “pessoas infinitamente ricas” que atraem naturalmente para si tudo de que precisam na medida do necessário. Podemos citar, por exemplo, o sr. Hiroshi Fukushima, da província de Gumma. Ele esteve enfermo durante três anos e encontrava-se em situação financeira tão precária que não podia comprar sequer uma pasta de dentes. Entretanto, curou-se completamente após ler os ensinamentos da Seicho-No-Ie. Pensou então em construir uma academia de aprimoramento espiritual. Imediatamente, surgiram pessoas oferecendo gratuitamente terreno, materiais de construção, mão-de-obra e até a mobília. Um pedreiro se ofereceu para cuidar da manutenção ou das reformas do prédio dessa academia, que ainda nem estava construído. O sr. Fukushima não possui posse alguma, mas tudo que deseja lhe chega às mãos automaticamente. Quando precisa sair de casa, até a chuva cessa e o tempo melhora. Os moradores da redondeza até comentam que o sr. Fukushima é protegido pela divindade da montanha Akagui. Um milionário, por mais dinheiro que tenha, não pode criar um aparelho que controle as intempéries. Entretanto, o sr. Fukushima, apesar de nada possuir, conta sempre com o tempo bom quando necessário, proeza esta que milionário algum consegue. Isto é que é ser infinitamente rico. Mesmo tendo à mão muito dinheiro, de nada adiantará se não puder conseguir o que é necessário. Aquele que, apesar de estar desprovido de dinheiro, recebe tudo que lhe é necessário no momento preciso e o usa melhor que uma pessoa que tem muito dinheiro, pode ser considerado mais rico do que um bilionário. “Provisão ilimitada” significa provisão infinita de tudo e todos os sentidos. Aquele que tem uma grande soma de dinheiro mas não tem liberdade nem conforto em outros aspectos, não é uma pessoa “infinitamente rica”.


7 – SOBRE A ORAÇÃO DE COMUNICAÇÃO AFETIVA COM DEUS

Tanaka – Aprendi muito, lendo no sento volume da coleção A Verdade da Vida a parte intitulada “Oração para manifestar a Essência”. Compreendi perfeitamente que na Essência somos providos de tudo, independentemente de orarmos ou não. Entretanto, deixa-me um tanto insatisfeito a afirmação de que a oração consiste apenas no ajuste de nossa mente à perfeição interior e não em súplica para ser atendida por Deus. Eu, pessoalmente, prefiro pedir à Deus e crer que sou atendido por Ele, pois assim estreito meu relacionamento com Deus e sinto aumentar mais meu sentimento religioso. Será que isso é uma ilusão minha decorrente dos hábitos religiosos de até agora? Tenho lido que o senhor também ora a Deus. O senhor ora simplesmente para ajustar sua mente ou para se comunicar com Deus-Pai, como um filho se comunica com seu pai? Gostaria que o senhor esclarecesse esse ponto, pois para mim é uma questão muito importante.

Taniguchi – A oração é, por um lado, uma prática para ajustar a mente para contemplar a Essência, mas, ao mesmo tempo, é uma comunicação afetiva com Deus-Pai vivo, num verdadeiro relacionamento entre filho e Pai. O texto mencionado pelo senhor se refere a uma das funções da oração, que é a de fazer manifestar a Essência, e não à outra, que consiste em comunicarmo-nos afetivamente por Deus. Compreender apenas a primeira função não é suficiente, pois nesse caso estaremos encarando Deus apenas como lei universal e não como “Ser vivo” com o Qual podemos nos comunicar. Em outros termos, estaremos tendo compreensão parcial de Deus. Deus existe não só como lei universal, mas também como Ser que pode nos mostrar uma imagem personificada e falar conosco. Portanto, há casos em que oro a Deus rogando-Lhe algo. O Canto Evocativo de Deus, por exemplo, diz: “Ó Deus-Pai, que dais vida a todos os seres viventes, abençoai-me com o Vosso Espírito”. Certa pessoa argumentou que seria um erro pedir a Deus que nos abençoe, uma vez que Ele já está nos abençoando com Suas infinitas dádivas e, portanto, a expressão “abençoai-me” deveria ser substituída por “sou abençoado”. Mas o Canto Evocativo de Deus não está errado.  Deus Absoluto revela-Se sob a imagem de Cristo para quem chama por Cristo, e sob a imagem de “Divindade da Seicho-No-Ie” para quem O chama por este nome.

Se oramos a Deus, é para chamá-lO do mundo da Essência (mundo absoluto de Deus) para que Se manifeste no mundo fenomênico. Na verdade, Deus é onipresente, mas, quando O chamamos, estabelecemos uma comunicação afetiva com Ele, que então Se manifesta assumindo uma imagem. Comparemos Deus a um pai de família: o pai protege toda a sua família e toma todas as providências para que nada falte em sua casa, mesmo que ninguém o chame. Entretanto, quando um filho vem correndo chamando-o “papai”, e se lança em seus braços, estabelece-se um relacionamento afetivo. O mesmo acontece quando oramos a Deus. Concluindo, há dois tipos de oração: a oração para manifestar a Essência e a oração de comunicação afetiva com Deus.

Há quem pense que “o mundo da Essência é de amorfia absoluta, onde não existem relações do tipo Deus/homem, pai/filho, polo positivo/negativo, etc., e que onde a unidade se dualiza em polos positivo e negativo não é o mundo absoluto, mas sim mundo fenomênico”. Mas tal teoria difere da doutrina da Seicho-No-Ie. Se admitirmos que o mundo da Essência é anterior ao surgimento dos polos positivo e negativo, estaremos dividindo o mundo em anterior e posterior e estaremos limitando o absoluto mundo da Essência apenas ao mundo anterior. Nesse caso, o mundo da Essência deixaria de ser absoluto porque estaria em posição de confronto com o mundo fenomênico, que é relativo. Se o mundo da Essência fosse apenas uma existência anterior à bipolarização e não existisse após isso, não teria nada a ver com nossa vida atual. O mundo da Essência de que fala a Seicho-No-Ie não é um mundo do passado e anterior à bipolarização, ele é o mundo que existe agora e sempre; é um mundo absoluto, mas não confronta com o mundo relativo; ele contém dentro de si todas as existências relativas. Podemos representar graficamente o mundo do absoluto como um círculo contendo inúmeros pontos que correspondem às existências relativas.

Quando afirmo que somos um com Deus, algumas pessoas argumentam: “Então não precisamos orar a Deus, mesmo porque o fato de orar pressupõe que o homem seja uma existência separada de Deus”. Mas esse argumento não procede. Cada um dos inúmeros pontos contidos no círculo, mesmo sendo “um com o círculo” pode dirigir-se ao círculo todo. E “dirigir-se ao todo” é “comunicar-se afetivamente com Deus”. Cada um dos pontos dentro do círculo corresponde ao “eu individual” ou “filho de Deus”, e o círculo corresponde ao “Eu universal”, que é chamado de “Deus” ou “Pai”. O filho de Deus, como integrante do todo (Deus), é sustentado pela força do todo. Em outras palavras, o “eu individual” é um com o “Eu universal”. Entretanto, para o “eu individual” conscientizar esse fato, precisa reconhecê-lo por meio do pensamento e da palavra, e isso é a oração.


8 – A ILUMINAÇÃO PODE SER ALCANÇADA ATRAVÉS DO FENÔMENO?

Nonaka – Professor, o senhor diz que “o fenômeno não existe” e que “existe unicamente a Essência”, mas acredito que o fenômeno é manifestação ou extensão da Essência, e por isso acho que podemos conhecer a Essência através do fenômeno. Acho também um erro desprezar o fenômeno, considerando-o “nada” ou “inexistente”. Creio que a Essência não existe isolada do fenômeno; no fenômeno está a Essência. Se analisarmos bem, concluímos que não podemos conhecer diretamente a Essência. Para mim, é fato indiscutível que somente através do fenômeno podemos conhecer a Essência, isto é, alcançar a iluminação. Se o fenômeno fosse inexistente, como prega o senhor, não poderíamos alcançar a iluminação através dele, pois através de algo inexistente não se pode alcançar nada. Então, como o senhor explica o fato de alcançarmos a iluminação através do fenômeno?

Taniguchi – o senhor diz que se pode conhecer a Essência através do fenômeno, mas isso não é verdade. Não é através do fenômeno que se conhece a Essência. Esta somente pode ser conhecida pela Essência da própria pessoa. No budismo se diz que “somente Buda pode conhecer Buda”. Em termos cristãos, diríamos que “ninguém conhece o Pai, senão o Filho” (Mt. 11;27) ou “ninguém vai ao Pai senão pelo Cristo interior”. Por mais que analisemos o fenômeno, não conheceremos a Essência. Por mais que dissequemos o homem carnal, não encontraremos o homem-Essência. Somente alcançamos a iluminação quando a nossa Essência e a Essência do Universo se tocam diretamente, isto é, por meio da percepção direta, por meio do sentido da Essência. O pretenso conhecimento da Essência (iluminação) que não foi alcançado através dessa percepção direta é falso, por mais que pareça verdadeiro. Quem diz ter alcançado a iluminação através do fenômeno alcançou, quando muito, um estado de espírito semelhante à iluminação. Tal estado de espírito sofre abalo ou cai por terra quando a pessoa presencia um fenômeno negativo, pois não se alicerça no conhecimento da Essência pela percepção direta. Por exemplo, alguém que se convencer de que “o homem é filho de Deus” ao presenciar a cura de um enfermo que abandonou os remédios, perderá essa convicção se presenciar um fenômeno oposto, isto é, o agravamento da doença devido ao abandono dos remédios. Logo, a compreensão da Essência do “homem-filho-de-Deus” alcançada através do fenômeno não constitui a verdadeira iluminação, sendo mera imitação.

Alguns pregam que, observando as extraordinárias perfeição e precisão com que se desencadeiam os fenômenos da Natureza, pode-se compreender a existência de Deus. Para alguns físicos, por exemplo, a exatidão matemática com que os diversos tipo de átomo são formados por um número certo de elétrons não pode ser explicada como obra do acaso, devendo-se portanto admitir a atuação da sabedoria de Deus por detrás dessa precisão. Outros, observando o movimento ordenado e harmônico dos astros e corpos siderais, descobrem a existência de uma ordem cósmica e a chama de Deus. Mas essa visão, que considera o fenômeno como existência verdadeira e o criador desse fenômeno como Deus, não nos leva jamais à compreensão da “inexistência da matéria” pregada pela Seicho-No-Ie. Teorizar considerando “existente” aquilo que aparenta existir é uma tarefa fácil e isso leva inclusive à elaboração de teorias filosóficas ou teológicas, mas compreender a filosofia da Seicho-No-Ie, que declara inexistente aquilo que parece existente aos cinco sentidos, é uma façanha de mestre.

A Seicho-No-Ie diz, por exemplo, que “a doença não existe”, mas para os cinco sentidos ela existe. Se extrairmos uma porção do tecido afetado e a examinarmos com o auxílio do microscópio, constataremos a presença de micróbios patogênicos. Portanto, segundo a observação científica do fenômeno em que se baseiam inclusive algumas doutrinas panteístas, a doença existe. Mas a Seicho-No-Ie considera inexistente a doença, que cientificamente existe. Observando o fenômeno, é impossível chegar à conclusão de que “o fenômeno não existe”. O conhecimento da Verdade da “inexistência do fenômeno” não é algo que possa ser alcançado por uma pessoa como o senhor, crente de que “a iluminação é alcançada somente através do fenômeno”. Pelo contrário, a iluminação é alcançada somente quando se dispensa o fenômeno, isto é, quando a mente se liberta do fenômeno, da mesma forma como se pode ver a luz do Sol somente quando se dissipam as nuvens. Se alguém que viu por acaso o Sol através de uma nuvem tênue afirmasse, com base nessa experiência própria, que “somente através da nuvem pode-se ver o Sol”, seria ridículo. Se se dissipar a nuvem, mais claramente se verá o Sol. Da mesma forma, podemos ver a Essência, o filho de Deus perfeito, quando afastamos o fenômeno. Seria igualmente ridículo se alguém afirmasse que “para se ver o Sol é preciso primeiramente que haja uma nuvem e depois ela se dissipe”, só porque teve a experiência de ver o Sol através de uma brecha que se abriu entre as nuvens. Sem a nuvem, vê-se melhor o Sol, como já disse. Porém, se o céu estiver nublado, veremos o Sol quando se abrir uma brecha entre as nuvens. Da mesma forma, conhecemos a Essência ou alcançamos a iluminação quando subitamente se abre uma brecha na “nuvem” do fenômeno.

Existem ocasiões em que dizem “Conheci a Essência da Vida através do fenômeno”. Podemos citar, por exemplo: (1) caso em que um doente elimina sua dependência em relação a tdos os tipos de remédio e tratamento médico e, como consequência dessa libertação mental, ocorre a cura; e (2) caso em que alguém, ao prestar ao próximo uma ajuda física num trabalho extremamente árduo, experimenta uma satisfação extasiante apesar de estar sofrendo fisicamente, e compreende que ele e o outro são um na Essência, apesar de fisicamente separados um do outro.

No primeiro caso, tem-se a impressão de que se conhece a Essência da Vida através do fenômeno da cura, mas não é assim. A verdade é que, após tentar todos os recursos fenomênicos, tais como remédios e tratamentos médicos, a pessoa se decepciona com todos eles, pára de depender deles, e sua mente deixa de se prender inclusive à doença de seu corpo, e então abre-se uma brecha na “nuvem” do fenômeno e aparece a luz da Essência; o fenômeno, refletindo a imagem da Essência, passa  apresentar o corpo sadio. A iluminação mental vem primeiro, e o fenômeno aparece depois. Compreender este ponto é essencial. Se alguém ficar pensando que “alcançou a iluminação através do fenômeno da cura”, ficará abalado quando presenciar ou tiver um fenômeno chamado “corpo doente”. Essa é uma falsa iluminação, que desmorona com a mudança do fenômeno. Também no segundo caso, a impressão é de que a iluminação é alcançada através de um ato fenomênico chamado ajuda ao próximo, mas, na verdade, a Essência resplandece através da brecha do fenômeno, assim como o sol se mostra através de um brecha nas nuvens. Convém frisar que “brecha na nuvem” significa “um espaço onde não há nuvem”, o que é totalmente diferente de “através da nuvem”.

Os homens fenomênicos dotados de cinco sentidos (homens carnais) são seres isolados uns dos outros, de modo que o prazer de um nem sempre constitui prazer para outro; mesmo que um considere uma comida saborosa, um outro não sente o mesmo sabor. Entretanto, se o homem transcende os cinco sentidos e sente a alegria do próximo como alegria sua, a satisfação alheia como satisfação sua, e sente um com o outro, isso é prova inegável de que ele o sente, não através dos sentidos fenomênicos, que separam as pessoas, mas na ausência deles. Torno a afirmar que, embora se tenha a impressão de que se compreende a Essência (Jissô) através do fenômeno perceptível aos sentidos, na verdade a Essência (Jissô) se compreende por meio da negação da percepção sensorial.


(Do livro: A Verdade da Vida, vol. 18, pp. 122-134)

2 comentários:

  1. Estes dois textos, digo, "Ensinamentos Essenciais da SNI 1 e 2", bem como outros, são ALIMENTOS. Obrigado, blogueiro!

    Rick

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  2. Grato, Rick!

    Estamos às ordens. Grande Abraço!

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