sexta-feira, agosto 28, 2015

A experiência da "Iluminação"

- Núcleo -


A questão é: Pode um “personagem” se iluminar?

Pode o “cebolinha” [personagem criado por Maurício de Souza] se tornar consciente de que ele é uma ficção do próprio Maurício de Souza?

Mesmo que o Maurício de Souza escreva um texto no qual o cebolinha adquira esta consciência, ou seja, se “ilumine”, seria esta uma experiência real do cebolinha? O fato é que a “experiência de iluminação”, como toda “experiência”, está no campo da “representação”, na qual estão inseridos os personagens do Ser. Assim, a experiência de iluminação ocorre apenas na “representação”. O que todos os que se “iluminaram” descrevem é que eles se tornaram conscientes de que eles não são “personagens”, e que sua real identidade é a de Quem sempre foram, que é o Ser Real, porque nenhum personagem é real.

Se o “personagem” não é real, não há alguém [real] para se iluminar… e Aquele que é o real iluminado, a real identidade de todos os seres, o Real “Autor” dos personagens criados, não está na representação, mas sim em Sua própria Realidade! Assim, a experiência de iluminação é isso: uma experiência que ocorre apenas no âmbito da própria representação e que, então , altera “a fala” do personagem a respeito de Quem ele É e de Quem todos Somos.

O algo a ser notado aqui é que a “percepção” de Quem Somos não está na “mente do personagem” que estamos sendo, mas sim, está na “Consciência do Ser” que [já] somos. Ou seja, esta percepção está em Quem sempre fomos e sempre seremos; está além da realidade de “quem estamos sendo”, pois, a “realidade de quem estamos sendo” é uma representação divina e não a Realidade.

Apenas em certo sentido é possível que um personagem se ilumine… no sentido de que ele perceba que não é quem está sendo, que é Quem sempre foi, “antes que houvesse mundo…”, ou seja, antes que houvesse a representação. Aqui a palavra “antes” é empregada não no sentido temporal, mas no sentido de “a despeito de haver” ou “independentemente de” haver alguma representação. A percepção é a de que não há um personagem que se ilumina; não há um personagem que percebe Sua real identidade, e que é o próprio Ser Real Quem Se percebe, como sempre Se percebeu. Na representação vai parecer que um personagem teve a “experiência de que se iluminou”!

Porém, nossa real identidade é que somos o Ator, não os personagens! Já somos Quem Somos, somos o Ser Real antes que houvesse mundo [antes que houvesse a representação divina…].

O que a “mente do personagem” pensa sobre isso não altera a realidade! Se pensa que a iluminação é possível ou que não é possível; se pensa que é algo real ou não, isso não altera a realidade de que a “iluminação” é uma “percepção”, não um pensamento. Essa percepção não é do personagem e nem mesmo de um personagem específico. Apenas o Próprio Ser Se percebe, e percebe que não há nenhum “outro”, não há nada além de Si mesmo e de Sua Realidade! E a bem-aventurança dessa percepção divina também só é percebida por Si mesmo!

Mas, enquanto se identificando como sendo um personagem, ninguém deve se desesperar pensando que não terá a experiência de iluminação. Não pense assim, pois, ela é inevitável! É o próprio ato de “pensar” que ativa a percepção da mente do seu personagem e cria a “ilusão de separação”, a visão dual de que existe o personagem e o Ser; você e Deus... Pois só o Ser é real. Enquanto a mente do personagem pensa em termos de “existência” [que significa “ex-sistere”, ou seja, algo que está fora] a Consciência do Ser percebe a “seidade”, no sentido de aquilo que É em si mesmo, ou seja, algo que é o próprio “Ser”, e que É em “Si mesmo”; aquilo que É o que É! Portanto, não pense! Simplesmente perceba! Perceba Quem percebe em você e perceberá que não há um “você”, mas apenas Quem percebe… “Aquieta-te e saiba: Eu Sou Deus!”

Perceba apenas: “Eu Sou Aquilo”
É o que na representação divina… percebo, desfruto e compartilho!

Assim seja!
Assim É…


8 comentários:

  1. A esse respeito vejam que texto elucidativo!

    Um grupo de três pessoas estava visitando Maharaj pela primeira vez. Embora padecendo na cama e extremamente fraco, Maharaj lhes perguntou se tinham alguma pergunta a fazer. Eles conversaram entre si e decidiram fazer apenas uma pergunta:
    “Maharaj, todos nós fizemos certa Sadhana por algum tempo, mas o progresso não parece adequado. O que devemos fazer?”
    Maharaj disse que o propósito de qualquer esforço é obter algo, algum benefício que não se possui.
    “O que é isto que tentam atingir?”
    A resposta foi rápida e positiva:
    “Nós queremos ser como você – iluminados.”

    Maharaj riu e se empertigou na cama. Quando estava mais confortável com dois travesseiros para apoiar suas costas, ele continuou:
    “É nisto que a idéia errada está enraizada: em pensar que vocês são entidades que devem alcançar algo para que possam se tornar como a entidade que vocês pensam que eu sou! Este é o pensamento que constitui a ‘escravidão’, a identificação com uma entidade – e nada, absolutamente nada, exceto a desidentificação causará a ‘liberação’.
    Como eu disse, vocês vêem a si mesmos e a mim como entidades, entidades separadas; eu vejo vocês exatamente como me vejo. Vocês são o que eu sou, mas vocês se identificaram com o que pensam ser – um objeto – e buscam a liberação para este objeto. Não é uma enorme piada? Poderia algum objeto ter existência independente e vontade de agir? Poderia um objeto estar escravizado? E liberado?”

    O interlocutor juntou suas mãos em namaskar e, muito respeitosamente, sugeriu que o que Maharaj tinha dito não poderia talvez ser questionado como um ideal teórico, mas que, certamente, disse ele, ainda que as pessoas possam ser entidades fictícias, nada mais que meras aparições na consciência, como viveríamos no mundo a menos que aceitássemos as diferentes entidades como suficientemente ‘reais’ na vida?
    Esta discussão pareceu animar extraordinariamente o Maharaj, e a debilidade em sua voz desapareceu gradualmente.
    Ele disse:
    “Você vê quão sutil é este assunto? Você respondeu sua própria pergunta, mas a resposta lhe escapou. O que você disse é que você sabe que a entidade como tal é totalmente fictícia e não tem autonomia própria; é apenas um conceito. Mas a entidade fictícia deve viver sua vida normal. Onde está o problema? É muito difícil viver uma vida normal, sabendo que a vida em si é um conceito? Você compreendeu? Uma vez que tenha visto o falso como falso, uma vez que tenha visto a natureza dual do que chama ‘vida’ – que na realidade é viver – o restante será simples; tão simples como um ator desempenhando seu papel com entusiasmo, sabendo que é apenas um papel que ele está desempenhando em uma peça ou um filme, e nada mais.
    Reconhecer este fato com convicção, apercebendo-se desta posição, é toda a verdade. O resto é mera atuação.”

    De: "Sinais do Absoluto"

    FONTE: Editora Advaita http://editoraadvaita.blogspot.com.br/2013/06/uma-entidade-nao-pode-alcancar.html

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  2. Saudações, Silvano!

    Este texto do Maharaj caiu como uma luva para a postagem de hoje! É o mesmo texto, porém com palavras um pouco diferentes. Parece até uma Leela do Ser, que "aparece como" para confirmar que todos os "iluminados" falam da mesma mensagem divina.

    Namastê!!

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  3. Quero compartilhar aqui as palavras dAquele que na representação divina apareceu como o divino personagem, Joel Goldsmith:

    "O senso de auto-preservação é a nota dominante na experiência humana. Em geral os seres humanos respondem à vida através da lei número 1 da natureza: a lei da auto-preservação. No cenário humano, essa lei é a responsável pela grande maioria dos males que acometem este mundo. Uma pessoa não cometeria um crime de roubo se não estivesse tentando preservar o seu senso de vida pessoal. Tal pessoa espera manter-se a salvo da fome, da miséria e outras formas de limitação. Em resumo, ela está preservando o próprio senso humano de identidade. O que é que se encontra por trás de cada guerra senão o senso de auto-preservação? Os homens chamam isso de 'patriotismo', mas em última análise, tudo ocorre devido ao senso de auto-preservação.

    Quando atiramos uma bomba em alguém - quer essa bomba seja feita de átomos nucleares, ódio, inveja, fofoca - ou quando tiramos a vida de alguém em defesa própria, estamos agindo exatamente como o mundo tem agido: estamos operando a partir da lei da auto-preservação - lutamos para preservar o senso finito de um 'eu' que não possui contato com Deus. E é justamente por isso que estamos tentando salvá-lo. Se nós compreendêssemos nossa identidade como sendo una com Deus, nós não lutaríamos para salvá-la."


    Neste texto Goldsmith transmite a ideia de que neste mundo a maioria dos seres humanos segue uma lei ou instinto de "auto-preservação" a fim de obterem um senso de salvação para si mesmos. Goldsmith diz que essa é uma maneira equivocada, ilusória, de tentar obter a salvação. Enquanto houver a identificação com o personagem, nada que a pessoa faça poderá trazer-lhe a salvação. Em outras palavras: enquanto ficarmos insistindo em salvar um "eu que não possui contato com Deus", o sentido de salvação não virá. Por outro lado, a salvação é automaticamente experienciada quando compreendemos que o nosso ser já é uno com Deus.

    Um personagem não pode se iluminar porque é feito para viver uma representação cuja natureza é dualidade, separação. E enquanto não ocorrer a nossa desidentificação com o personagem (o senso finito de 'eu', que não possui contato com Deus), não veremos a liberação. A liberação não ocorre para nós enquanto personagens. A nossa liberação é do personagem.

    Namastê!

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  4. Exatamente esse entendimento equivocado, é o que ocorre 'por aí'.Por ex."egos cristãos" querendo que Jesus os salvem,e os levem para o céu.

    Mas...a "Salvação/Liberação" não é PARA si, e sim DE SI, do "encosto",do objeto,da persona. O chamado "renascer no Espírito".

    Pois,notemos:ora,quem é "deste mundo,é deste mundo e,portanto (e "a porta é estreita"),não vai para o céu!

    Quando Jesus disse " vós deste mundo não sois" -claro,quando entendido-, significa que ele está referindo-Se à Verdadeira Identidade, o Eu Sou, o Cristo Onipresente,que é a Identidade Real de todos os supostos personagens.

    Ou,ainda em outra cultura da representação,:"você já É o Buda" ...que mais "você" quer?

    VoSer não é "você"(o 'papel').

    Agora,essa nossa discussão sobre a "experiência da iluminação"
    ou não, só funciona (como já disse o Núcleo) no teatro da vida. Do ponto de vista do SER o que É ja É.


    Bem,caros Amigos,foi só para acrescentar "novos tons".

    Namastê!

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  5. Excelente comentário, caro amigo!
    Nunca é demais repetir, reforçar e acrescentar! Novos tons podem fazer toda a diferença para alguém, pois o que a pessoa não identifica em um texto, pode passar a identificar em outro.

    Muito grato pelas palavras!

    Grande Abraço!
    Namastê!

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  6. Personificações do Ser Real,

    Excelente o que enfatizou Aquele que na Representação aparece como o divino personagem Gustavo: "Nunca é demais repetir, reforçar e acrescentar! Novos tons podem fazer toda a diferença para alguém, pois o que a pessoa não identifica em um texto, pode passar a identificar em outro."

    Esta ênfase é assim tão relevante porque aquilo que Quem na Representação divina aparece como SERgio chamando de "novos tons" o que comentou é o que no Núcleo se enfatiza como o "compartilhar". Por isso é dito: "Perceba, desfrute e compartilhe".

    Deus mesmo tem compartilhado Sua "percepção" através de incontáveis linguagens, que são os ensinamentos dos Mestres, os "personagens despertos" de todos os tempos.

    Esse "compartilhar" [o compartilhar dos que percebem e desfrutam a Realidade divina] é o que ilumina a humanidade [ Desta percepção do Real Masaharu Taniguchi iniciou o Movimento de Iluminação da humanidade chamado Seicho-No-Ie, cujo significado é "Lar do Progredir Infinito"; Desta mesma percepção da Realidade Joel Goldsmith iniciou o "Caminho Infinito" ]. Eles compartilharam aquilo que perceberam e desfrutaram! Esse "compartilhar" ou "novos tons" é o que torna possível aos demais divinos personagens elevarem seus paradigmas de percepção, pois, realiza o que se pede na prece védica: "Senhor, conduz-nos do irreal ao Real; das trevas à Luz; e da morte à Imortalidade".

    Sobre essa espiral de ascensão infinita e sobre a importância de se "compartilhar", etá escrito em certo trecho do texto "Diálogos conscienciais" publicado em http://nucleu.com/2012/09/25/dialogos-conscienciais-grande-encontro-que-nos-proporciona-este-divino-presente/

    "Isto significa que em cada ciclo apreendemos algo dos ensinamentos e que devemos desfrutá-los e compartilhá-los integralmente, para que possamos estar aptos ao ciclo
    subsequente de percepções mais elevadas.
    Muitas pessoas se engajam para atingir os 100% de “percepção e desfrute” de Deus, mas não se engajam na mesma intensidade para compartilhar o que já percebem e desfrutam… o que causa um desequilíbrio no ciclo, que só avança ao ciclo posterior e mais elevado quando o atual está plenificado.

    Gratidão Àquele que na Representação aparece como os que compartilham Sua percepção.


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  7. Assim seja!

    Viram o quanto é valioso um simples compartilhar? Aquilo que o nosso amigo SERgio chamou de "novos tons" desencadeou o surgimento deste comentário elucidativo do Silvano, que provavelmente não teria surgido, se não fosse por aquele compartilhar.

    Agradeço a todos!

    Namastê!

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