"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, maio 03, 2018

Reverenciando a Vida e o Coração dos Homens


- OSHO -


"Respeite intensamente toda a vida que o rodeia."

"...Respeite a vida que o rodeia e que está em constante mudança e movimento, pois ela é formada pelos corações dos homens; e quando você aprender a compreender a constituição e o significado deles, será capaz, gradualmente, de interpretar o mundo mais amplo da vida."

Reverência pela vida, respeito pela vida.

Geralmente, os assim-chamados religiosos são negativos em relação à vida. Eles estão contra a vida. Observe seus rostos, observe seus olhos. Eles condenam todas as coisas. Essa atitude negativa causou em todo o mundo uma negação da vida. A religião parece ter se tornado um aliado da morte e não um amigo da vida. Ela parece ser contra a vida, pois lhe diz constantemente: “Abandone a vida. Transcenda-a. Mova-se na direção da outra vida, que se encontra além desta vida.”

Deus parece não concordar que você seja uma parte da vida. É como se a vida fosse considerada uma punição. “Você está aqui porque pecou. Você não estaria aqui se não houvesse nenhum pecado em sua vida.” Mas essa atitude é inteiramente doentia, patológica. Na verdade, o divino e a vida não são duas coisas. Ao contrário, são uma extensão de um único fenômeno.

Aqui e ali (isto e o além) não são duas coisas. O que está aqui, esta vida, é um degrau na direção do além. Se você negar esta vida, não alcançará a outra – não poderá ir além. Para se ir além disto não é preciso nenhuma negação.

Para se ir além, é preciso uma profunda compreensão desta vida. Como conseguir uma profunda compreensão desta vida? Isso será impossível se você não reverenciar a vida. Reverencie a vida sempre que a encontrar.

Estes sutras são muito significativos. Eles dizem para reverenciar a vida em todas as suas formas, porque quanto mais você a reverenciar mais profundamente poderá ir. Na verdade, Deus não se encontra além desta vida, mas dentro dela. Deus é o centro, o próprio centro, e a vida é apenas a periferia. Penetre profundamente na vida e você chegará ao verdadeiro centro, ao verdadeiro fundamento da própria vida.

Deus não é o criador; ele é a própria criatividade. As concepções cristãs e maometanas a respeito de um “Deus criador” criaram muita confusão. Essas atitudes são um tanto infantis. São admissíveis se você estiver conversando com crianças, mas absurdas se estiver conversando com pessoas de discernimento.

Conclui-se dos dogmas cristão e maometanos que Deus criou o mundo em algum lugar no passado. Ele criou o mundo em seis dias e, no sétimo dia, descansou. E, depois disso, não fez mais nada. O mundo começou a caminhar por si mesmo.

Essa concepção cria uma atitude dividida: que Deus e o mundo são duas coisas diferentes. Isso não é verdade. Deus não criou o mundo tornando-o separado de si mesmo. Ele não é como o pintor que pinta um quadro. O pintor é uma coisa e o quadro é outra. A concepção hindu é mais profunda. Ela diz que Deus não é como um pintor, mas sim como um dançarino: Shiva, o dançarino.

Deus é semelhante a um dançarino – porque a dança e o dançarino não são dois. Você não pode separá-los. O pintor pode ser separado da sua pintura, mas o dançarino não pode ser separado da sua dança. O dançarino é uno com sua dança.

Deus não é um criador no sentido de uma entidade separada. Deus é a própria criatividade, a própria vida. Assim, se você é contra a vida, você é contra Deus.

Se você entrar profundamente na dança, alcançará o dançarino. A dança é apenas a forma. Se entrar profundamente na dança, alcançará o próprio coração do dançarino. E se você entrar profundamente na vida, alcançará o princípio originador da vida: Deus.

Deus é criatividade. Ou, se me permitem dizê-lo, eu preferiria dizer que Deus é a própria existência. Deus é vida.

Jesus disse: “Deus é amor.” Essa foi uma das razões pelas quais ele foi crucificado – porque ele chamou Deus de “amor”. O amor é condenado, é um pecado, e ele chamou Deus de “amor”. Isso fez com que ele parecesse muito rebelde; ele deve ter se mostrado demasiadamente a favor da vida. A velha mente judaica, a velha mente religiosa, não pôde tolerar isso. Era um sacrilégio! Jesus falando sobre Deus em termos de amor? Deus está além da vida e do amor! Você precisa abandonar todas as coisas: a vida, o amor, tudo. Somente então você pode encontrá-lo. E esse homem, Jesus, traz Deus aqui para a Terra e fala em termos de amor!

Na verdade, Deus é vida, Deus é amor. Deus é este próprio mundo. Não crie uma divisão, não crie um dualismo. Somente então você pode reverenciar a vida. Sempre que, em qualquer lugar, você se deparar com a vida – uma semente germinando, uma árvore florescendo, estrelas se movendo, um rio fluindo, uma criança rindo – lembre-se, Deus está perto de você. Quando uma criança ri, observe o riso. Entre nele. Você terá entrado no próprio templo. Quando o rio fluir, observe-o amorosamente. Una-se a esse fluxo, permaneça em profunda reverência.

Os hindus chamaram todos os rios de deuses; chamaram todas as montanhas de divindades. Eles tornaram a Terra sagrada. Essa é uma das coisas mais belas que já aconteceram à consciência humana. Os hindus chamam o Ganges de Mãe. Isso significa reverência pela vida. As montanhas eles chamam de deuses. Isso significa reverência pela vida. Eles veneram as árvores. Os que se tornaram intelectualmente sofisticados pensam que os hindus são estúpidos, um povo supersticioso, mas eles não o são. A árvore não é o ponto importante. Quando eles estão venerando uma árvore ou um rio, estão venerando a vida.

Uma árvore é mais viva do que qualquer templo, do que qualquer igreja; um rio é mais vivo do que qualquer mesquita. Os ídolos de pedra em seus templos estão mortos; uma árvore é mais viva. Você pode ser supersticioso, mas a pessoa que está venerando uma árvore não o é. Ela pode não estar ciente do que está fazendo, mas há uma profunda reverência pela vida em todas as suas formas, um profundo respeito.

E celebre. Onde quer que você sinta que a vida está crescendo, celebre-a, ame-a, acolha-a, e uma grande transformação acontecerá a você. Se a vida é reverenciada em todas as suas formas, você se torna mais vivo. Torna-se mais receptivo à vida, e a vida começa a fluir abundantemente em você; ela transborda em você. Bem-aventurança é isso: vida transbordando.

Mas você está mais interessado na morte e menos interessado na vida. Mais interessado na destruição, no ódio; mais interessado nas guerras do que no amor, na vida. Isso o torna morto e insensível. Antes de morrer realmente, você já está morto. Quando a morte lhe sobrevém, você já está morto. Você se transformará naquilo que você reverenciar. Se você reverenciar a vida, tornar-se-á, cada vez mais, vida. Se reverenciar a morte, tornar-se-á, cada vez mais, morte.

Lembre-se disto: 

"Respeite a vida que o rodeia e que está em constante mudança e movimento, pois ela é formada pelos corações dos homens; e quando você aprender a compreender a constituição e o significado deles, será capaz, gradualmente, de interpretar o mundo mais amplo da vida."

"Aprenda a olhar inteligentemente para os corações dos homens."

"... Estude os corações dos homens, a fim de que possa saber o que é este mundo no qual você vive e do qual você será uma parte."

Jamais olhamos diretamente para o coração de alguém. Isso é perigoso, inseguro, porque então você pode ficar envolvido; você precisará fazer alguma coisa. Assim, jamais tocamos em alguém. Permanecemos apenas à distância, longe, afastados.

Movimentamo-nos sem tocar em ninguém. E, quando digo isto, não o estou dizendo apenas no sentido físico. Psicologicamente também. Movimentamo-nos sem tocar em ninguém fisicamente. Temos medo de tocar em alguém ou de ser tocados por alguém. Psicologicamente, também vivemos dentro de uma casca: fechados, encapsulados.

Há motivos para isso. Se você penetrar no coração de alguém, terá de fazer alguma coisa a respeito. Você será inundado de amor, de valores mais nobres, superiores. Então não poderá permanecer tão mesquinho como você é, tão cruel e insensível como você é, tão egocêntrico como você é. Se olhar para o coração do outro, você terá de se dissolver. O próprio ato de olhar para o coração do outro tornar-se-á uma fusão (dissolução) de seus egos.

Assim, ninguém olha para ninguém. Nem sequer olhamos para os corações de nossos amigos. Nós os tomamos como algo conhecido. Nunca olhamos sequer para os corações de nossas esposas ou de nossos maridos, de nossos amantes ou amados. Criamos uma imagem e vivemos com a imagem. Nunca conversamos um com o outro diretamente, porque se você conversa diretamente não se sente seguro, torna-se vulnerável. Lembre-se disto: se você penetrar no coração de alguém, simultaneamente o seu próprio coração se torna vulnerável. Não é possível de outra maneira. Se olho profundamente para dentro de você, torno-me acessível a você. Você também poderá olhar profundamente para dentro de mim.

Mas isso parece perigoso. Não quero que ninguém olhe profundamente para dentro de mim porque, na superfície, sou diferente, uma pessoa falsa. Lá dentro, lá no fundo, sou outra pessoa. Na superfície, continuo a sorrir – muito gentil, muito amável –, e lá dentro há muito ódio, muita feiúra. Assim, não quero que ninguém penetre em meu interior.

Mas se eu penetrar em seu interior, o próprio esforço para penetrar em você torna-me simultaneamente acessível a você. Temos medo. Não queremos que ninguém nos invada, olhando para dentro de nós. É perigoso olhar para dentro do coração de alguém e ter nosso interior exposto aos olhos de alguém. Tornamo-nos encapsulados, mortos. Ficamos nos movendo dentro de uma prisão.

Dessa maneira, como você pode conhecer a vida? Se até mesmo um coração humano lhe é estranho, e se você nunca olhou para dentro dele, como pode penetrar profundamente no interior do imenso coração divino, do próprio centro da existência? Aprenda a olhar. Olhando os corações dos outros, você pode aprender a olhar profundamente. Trata-se das profundezas das pessoas. A profundeza da pessoa é o seu coração.

Conversamos através da mente, mas a mente não é o profundo. A mente está na superfície, na periferia. Conversamos, discutimos, comunicamo-nos apenas com palavras. Jamais ficamos em silêncio, nem mesmo por alguns instantes. Mesmo os que estão amando continuam a conversar incessantemente, porque, se você estiver em silêncio, o coração pode ser penetrado. Assim, continuamos a conversar e a conversar.

O marido chega em casa. Começa a falar. Coisas bobas, irrelevantes. O que aconteceu no mercado, o que aconteceu na loja, o que está nos jornais, o que se falou no rádio. Continua a falar. E a esposa também fala sem cessar: o que as outras esposas estão falando a respeito de suas casas e assim por diante. Falam, falam, falam sem cessar até caírem adormecidos. Por que tanta conversa? Qual é o propósito disso? Eles estão realmente interessados em comunicar alguma coisa? Não! Eles estão com medo de comunicar. Se ficarem em silêncio, então seus corações começarão a se comunicar; por isso, eles continuam a falar. A conversa cria uma barreira. Eles se encontram de mente para mente para que não se encontrem de coração para coração. Um encontro de corações só é possível em silêncio.

É assim que vivemos. Então dizemos que nossa vida é uma miséria. Que mais poderia ser? A miséria será inevitável. Mas não se trata do seu destino. A miséria é criação sua você mesmo a produziu. Encapsulado, você estará na miséria. Aberto, vulnerável, você se tornará capaz de ser bem-aventurado. Essa abertura será aprendida olhando-se dentro do coração dos homens.

Este sutra diz:

"Aprenda a olhar inteligentemente para o coração dos homens."

“...A inteligência é imparcial: nenhum homem é seu inimigo; nenhum homem é seu amigo. Todos, sem distinção, são seus professores. Seu inimigo torna-se um mistério que precisa ser resolvido, mesmo se levar muito tempo: pois o homem precisa ser compreendido. Seu amigo torna-se uma parte de você mesmo, uma extensão de você mesmo, um difícil enigma a ser decifrado.”

O sutra diz: "Aprenda a olhar inteligentemente"... Por “inteligentemente” quer-se dizer: ser imparcial. Se você é parcial, não pode chegar ao coração. Toda parcialidade deixa-o focado na mente; apenas a consciência imparcial chega ao coração.

O coração é imparcial; a mente sempre é parcial. A mente sempre é partidária, sectária, a favor disto e contra aquilo. O coração não é nem a favor nem contra. O coração está simplesmente aberto, receptivo, acolhedor. Ele não tem inimigos nem amigos; apenas a mente tem inimigos e amigos. “Inteligência” significa imparcialidade. Somente então você é inteligente.

Se você é parcial, não é inteligente. Você pode dar a impressão de ser sofisticado, instruído, lógico, mas não é sábio, não é realmente inteligente. A inteligência se caracteriza por não ser preconceituosa, parcial, com sentimentos a favor ou contra – pois somente assim você pode olhar para o todo.

Por exemplo: se digo que você é meu amigo, será impossível para mim entrar no seu coração. Ou se digo que você é meu inimigo, também será impossível alcançar o seu coração. Quando digo que você é meu amigo, ou meu inimigo, já o rotulei. Sinto que o conheço. Penso que já o compreendi. De outro modo, como seria possível a amizade? Quando digo que você é meu amigo, demonstro que gosto de você; estou dizendo que gosto de você. E quando digo que gosto de você, torno-me parcial. Então não posso alcançar o seu coração. Minha preferência tornar-se-á uma barreira.

Quando digo que gosto de você, estou, na verdade, impondo-me a você. Você é a minha preferência. Digo que você é bom porque seu modo de ser está de acordo com a minha preferência. Então, eu entrei em você, eu me impus a você. Não posso atingir o seu coração, não posso conhecê-lo como você é, por causa da minha preferência.

Quando digo que você é meu inimigo, estou dizendo que não gosto de você, que não simpatizo com você. Essa antipatia torna-se uma barreira. Quando digo que gosto de você, procuro descobrir as coisas de que eu gosto. Quando digo que não gosto de você, procuro descobrir as coisas de que não gosto. Então, estou apenas tentando comprovar essas coisas, e não tentando conhecê-lo como você é. Simpatia/amizade, antipatia/inimizade são minhas interpretações, minhas ficções. Sua realidade nua, aquilo que você é realmente, fica esquecido.

Inteligência significa que você não é nem meu amigo nem meu inimigo. Você é você, eu sou eu. Não me imporei a você. Tentarei compreender o que você é. Não segundo minhas simpatias e antipatias, mas pelo que você de fato é. Cada homem é um mistério, cada homem é um enigma. Se você tentar solucionar o mistério de pelo menos um único indivíduo, se for capaz de decifrar pelo menos um único enigma, tornar-se-á capaz de muito mais, porque mesmo um único indivíduo só é compreendido através do coração. Você terá conseguido descobrir a arte de como penetrar no coração.

E a mesma técnica, o mesmo método, ajudará você a penetrar no coração divino. O coração divino é imenso, infinito, mas o coração humano é um lampejo dele. O coração humano é um fragmento dele, vivo. Assim, não fique morto em relação à humanidade que está ao seu redor. Aprenda a amá-la, a reverenciá-la. "E aprenda a olhar inteligentemente para o coração dos homens."

Esse aprendizado o tornará mais maduro; esse aprendizado o tornará mais sensível em relação a um aprendizado superior, que é divino. O coração do divino pode ser penetrado somente por aqueles que se tornaram capazes de conhecer o coração humano tal como ele é.

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segunda-feira, abril 30, 2018

Lição de Harmonia

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- OSHO -


"Guarde em sua memória a melodia que você ouve."

"... Somente fragmentos do som magnífico chegam a seus ouvidos enquanto você é apenas um homem. Mas se você o ouvir, recorde-o fielmente, para que nada desse som tenha chegado até você, se perca, e esforce-se para aprender com ele o significado do mistério que circunda você. Com o correr do tempo, você não precisará de nenhum professor. Pois, como o indivíduo tem voz, assim também tem aquilo no qual o indivíduo existe."

"Guarde em sua memória a melodia que você ouve." Há momentos, raros, únicos, mas, ainda assim, há momentos em que você chega mais perto da melodia da existência. As circunstâncias podem ser diferentes, mas a melodia é a mesma. Uma criança que corre atrás de uma borboleta, uma criança que colhe flores no jardim, ou uma criança simplesmente deita sobre a grama – ela sente certa harmonia na existência, sente certa melodia. Nesse momento, deitada sobre a grama, relaxada ou correndo... correndo atrás da borboleta, ou correndo para colher as flores, ou não fazendo nada: apenas brincando com seixos na praia – nesse momento, a criança está totalmente unida à existência. Não há nenhuma tristeza ou pesar, nenhuma negatividade. A criança aceita a existência como ela é, e é aceita pela existência.

Quando você aceita a existência, a existência o aceita. Quando você rejeita, você é rejeitado. A existência é um eco do que você faz. Tudo o que fizer com ela será feito com você.

A criança aceita. Para a criança não existe passado, nem futuro. O momento, o momento presente, é suficiente. A criança existe aqui e agora. Então, ela sente uma certa harmonia; uma melodia é sentida.

É por isso que, mais tarde, mesmo quando você fica muito velho, você continua a se recordar de sua infância; vive dizendo que a infância era um paraíso. Por quê? Porque houve muitos momentos nos quais você aceitava tudo totalmente. E uma criança é aceita totalmente. No instante em que a criança começa a rejeitar, deixa de ser criança. A infância é perdida, o paraíso é perdido.

Recorde alguns momentos de sua infância nos quais você teve o sentimento de que a vida era uma bem-aventurança, de que simplesmente ser era um êxtase. Simplesmente ser, respirar, era o bastante. Você não precisava de mais nada para ser feliz. Seja o que for que você fosse, era o suficiente para ser feliz.

Reúna esses momentos. Recorde-os, reviva-os. De vez em quando esqueça a sua idade. Feche os olhos e retorne, retroceda, seja novamente uma criança. Não se recorde apenas, mas reviva. Seja novamente uma criança. Em sua memória, corra como uma criança, cante como uma criança, brinque como uma criança. Simplesmente reviva novamente sua infância e obterá uma nova luz, um novo despertar. Uma nova energia vital correrá através de você.

Quando você era jovem, amou alguém. Novamente houve êxtase. Outra vez você se sentiu totalmente bem. Nada estava errado. A vida era ótima; tudo era como devia ser. Novamente, um momento. Reúna esses momentos, mantenha-os em seu íntimo. Entre neles repetidas vezes.

Então, você envelheceu – sentado em algum templo, meditando, ou em alguma mesquita, rezando, ou em alguma igreja. E novamente sentiu um silêncio penetrar em você.

Reúna todos esses momentos, porque eles o tornarão mais capaz e mais sensível para ouvir a música sublime das esferas. Eles são apenas fragmentos, mas neles você ouviu algo que está além de você. Seja qual for a circunstância, se uma certa felicidade o invadiu, guarde com carinho esse momento e deixe um espaço para ele em seu coração, livre de todas as outras recordações. Reúna essas recordações da música bem-aventurada que você ouviu algumas vezes. Isso será útil.

Você não pode ouvir, repentinamente, a música toda. Pode ouvi-la apenas em fragmentos, porque a mente é uma coisa pequena. O raio de visão da mente é muito pequeno e o céu é muito grande. Você só pode ver fragmentos. Mas reúna esses fragmentos. Crie uma unidade entre eles, sinta uma certa unicidade neles, e você se tornará mais capaz, mais sensível, mais vivo para receber mais. Você se tornará mais receptivo.

Mas olhe para a mente humana. Ela coleciona misérias, coleciona sofrimentos, coleciona amarguras. Jamais coleciona momentos felizes. Vive coletando miséria após miséria. Então a vida se torna um inferno. Essa é a sua coleção, é o seu modo de olhar para as coisas.

Você sempre diz que a felicidade é apenas momentânea. Mas ninguém diz que o sofrimento é momentâneo, ninguém diz que a angústia é momentânea. Você continua a sentir que a angústia é permanente, que o sofrimento é permanente, e que a felicidade é momentânea. Isso está errado. Angústia e felicidade são similares e equivalentes; ambas são momentâneas.

E, no final das contas, o contrário é verdadeiro: o sofrimento revela-se momentâneo e a bem-aventurança revela-se eterna. Mas, por ora, com essa mente, tudo é momentâneo. O sofrimento vai e vem, a bem-aventurança vem e vai. Mas você continua a colecionar sofrimento, logo, ele parece permanente; você nunca coleciona, nunca trata com carinho, nunca nutre os momentos felizes e alegres. Assim, eles dão a impressão de serem momentâneos.

É você quem escolhe assim. Mude a sua escolha. Porque, com tanto sofrimento reunido, você acumulará mais sofrimento. O sofrimento aumentará; você está colaborando para que ele aumente. Desse modo, chegará um momento em que você estará tão coberto de sofrimento que não poderá visualizar qualquer possibilidade de bem-aventurança. Então você se tornará totalmente negativo.

Faça exatamente o contrário – somente isso será de ajuda à sua meditação. Sempre que o sofrimento se manifesta, não o guarde. Deixe-o manifestar-se, mas não o alimente. Para quê continuar a falar a seu respeito? Todo mundo vive falando sobre seu sofrimento. Por que enfatizá-lo tanto? Por que dar tanta atenção a ele? Lembre-se de uma das leis: se você der muita atenção a uma coisa, seja o que for, ela crescerá. A atenção é um elemento que ajuda o crescimento. Se você der atenção a qualquer coisa, ela crescerá mais ainda.

Atualmente, os biólogos afirmam que uma criança crescerá mais se for amada porque, através do amor, ela recebe maior atenção. Até mesmo uma planta crescerá mais se o jardineiro lhe der atenção. Se ela for negligenciada, mesmo se tudo o mais for dada a ela – o solo certo, fertilizantes, chuva, luz do Sol, se tudo lhe for dado, exceto atenção consciente – ela levará muito tempo para crescer. Isso é atualmente um fato científico: observado e considerado verdadeiro. Se você amar a planta e lhe der bastante atenção, se conversar com ela, se lhe disser, às vezes: “Eu amo você”, ela crescerá mais depressa. A atenção é uma vitamina.

A coisa mais vital na existência é a atenção. Se ninguém o ama, você começa a murchar. Se ninguém presta atenção em você, a morte se estabelece. Você quer morrer. Se alguém lhe dá atenção, você revive novamente. Atenção é vida, é o “élan” vital.

Se ninguém o amar, você se suicidará, porque não é capaz de amar a si próprio. Se você for capaz de amar a si próprio, se fosse capaz de dar atenção a si próprio, não necessitaria da atenção de ninguém mais. Um Buda pode viver sozinho nesta terra. Você não pode. Se ficar sozinho, suicidar-se-á imediatamente. Você dirá: “Qual é o sentido? Por que devo viver? Quem me amará? A quem amarei?”

A mesma lei se aplica também interiormente, psicologicamente. Se você dá muita atenção ao sofrimento, ajuda-o a crescer. Se dá muita atenção à felicidade, ajuda-a a crescer. Não seja o seu próprio inimigo. Se você se encontra imerso em sofrimento é porque tem dado muita atenção às coisas erradas. Mude o foco da sua atenção. Mesmo se você possui somente uma única lembrança de um instante bem-aventurado, é o suficiente. Dê-lhe atenção e ele crescerá. A semente crescerá e se tornará uma grande árvore. Então você poderá descansar à sua sombra, poderá dançar à sua sombra. Poderá relaxar debaixo dela.

Este sutra diz: "Guarde em sua memória a melodia que você ouve." Seja qual for a circunstância em que você tenha ouvido a melodia da vida, em qualquer circunstância. Felicidade significa melodia. Sofrimento significa uma experiência anárquica, uma experiência caótica. Sofrimento significa uma multidão de experiências desconexas: barulho, sem nenhuma música. Felicidade significa música. Nenhum barulho, mas uma harmonia interior; nenhum caos, mas uma unidade interior.

Guarde em sua memória a melodia que você ouve, e então ela crescerá e, um dia, você será capaz de ouvir a música universal em sua totalidade. Então você não precisará de nenhum professor. Não terá de aprender com mais ninguém. Você entrará em contato direto com o divino e nenhum mediador será necessário.

Um professor é um mediador. Você não pode ouvir, e ele pode ouvir. Você não pode ver, e ele pode ver. Você não pode sentir, e ele pode sentir. Ele é necessário somente até o momento em que você mesmo se torna capaz de ouvir, de ver, de se dissolver. Então o professor não tem mais nenhuma utilidade. Você entra em contato direto e imediato com a força universal. Então, você está no próprio rio.

E uma vez que você se tornou capaz de permanecer em bem-aventurança, de permanecer na melodia, uma vez que entrou no rio, então Deus pode conversar com você diretamente.

Lembro-me de uma estória sobre um místico sufi chamado Bayazid, que permaneceu numa aldeia durante muitos anos. Um dia os aldeões disseram a Bayazid: “Já faz pelo menos cinco anos que temos estado observando você, e ouvindo você. Você esteve sempre orando e falando com Deus. Agora vemos que você não fala, nem ora mais. Por que essa mudança? Você se tornou um ateu? Perdeu sua crença no divino? Você nunca mais fala, nunca mais ora.”

Bayazid sorriu e disse: “Antes, eu falava e orava. Agora, Deus começou a falar comigo; por isso, devo ficar calado e ouvir. O processo todo se inverteu. Agora, não preciso falar. Agora, ele fala comigo.”

Esse momento chega. Porém, esse momento chega somente quando seu coração está repleto de melodia e um silêncio divino penetra em você. Não há mais barulho. Para onde quer que você olhe, sente a música; para onde quer que você olhe, sente a unidade; para onde quer que você olhe, sente o uno nas diferentes formas. Agora você tornou-se consciente do mar. As ondas desapareceram para você. Não há mais ondas; apenas o Oceano existe. Então, o divino fala diretamente com você.

Não é uma metáfora. A existência fala com você diretamente; não é uma metáfora, não se trata de uma expressão poética. Isso acontece! Mas você precisa estar pronto. E essa prontidão significa um coração repleto de música, um coração repleto de silêncio.
 
"Aprenda com ela a lição da harmonia."

"... A própria vida tem sua maneira de falar e nunca se cala. E sua elocução não é, como supõem aqueles que estão surdos, um grito: é uma canção. Aprenda com ela que você faz parte da harmonia; aprenda com ela a obedecer as leis da harmonia."
 
Da maneira como você é agora, a vida lhe parece ser um grito. Ela não é. Parece ser um grito porque você está perturbado. A vida é uma canção, mas, para ouvir a canção, você precisa tornar-se uma canção, porque só o semelhante pode compreender o semelhante.

Você é um grito. É por isso que a canção da vida se parece com um grito, com um guincho. É por sua causa. Você a destrói, perturba-a, distorce-a. Quando ela vem até você, vem como uma canção; mas quando ela o atinge, transforma-se num grito, porque você é um grito. Você está doente, está enfermo. Você é fragmentado, não é total. A canção é destruída dentro de você. Torne-se uma canção e então a vida inteira parecerá uma canção. Então não haverá nenhuma negatividade. Quando você é positivo, a vida em sua totalidade torna-se positiva.

É isso o que eu quero dizer por teísta. O teísmo não significa uma crença em Deus, não significa acreditar numa teologia. O teísmo significa um sim total à existência – dizer sim à existência. Mas quando você pode dizer sim? Você só pode dizê-lo quando ouviu a canção. Como você pode dizer sim a um grito; como pode dizer sim a um barulho, um barulho infernal? Como pode dizer sim a uma insanidade que se manifesta por toda parte, à morte, à miséria? Como pode dizer sim a isso? Mas isso ocorre por sua causa, por causa de seus olhos. Seus olhos são um elemento de deformação. É por causa também do coração. Seu coração está repleto de sofrimento, de miséria, assim ele não pode encontrar outra coisa. Tudo isso é o seu próprio eco.

Este sutra diz: "Aprenda com ela a lição da harmonia."

Sejam quais forem os belos instantes, sejam quais forem os instantes de êxtase, os instantes felizes que você teve, reúna-os, trate-os com carinho, viva com eles – viva-os. Você se tornará mais sensível à felicidade. A felicidade será mais atraída em sua direção, o amor lhe acontecerá mais intensamente, a meditação lhe chegará mais facilmente. A vida se tornará uma benção; a existência se tornará uma celebração. Porém, você precisa criar um coração feliz.

Então, na experiência fragmentária da bem-aventurança, descubra a característica comum. Uma criança colhendo flores, um jovem amando uma jovem, um velho sentado sob uma árvore, meditando. Todos eles dizem que esse é um momento bem-aventurado, que deve haver algo comum a todos eles. Na periferia, do exterior, parece não haver nada em comum. Uma criança colhendo flores, um jovem amando uma jovem, um velho entoando um mantra... parece não haver nada em comum entre eles. Mas se todos eles dizem: “Foi um momento bem-aventurado!” – deve haver algo em comum nisso. Descubra esse elemento comum. Descubra o que é que se encontra sempre presente e sem o qual eles não poderiam dizer que todos esses momentos são bem-aventurados.

Talvez o velho negue a existência de algum elemento comum. Ele pode dizer: “Aquele jovem é apenas um tolo. Não há nada nas garotas. Apenas ossos e carne e todas as coisas sujas. Aquele jovem é apenas um tolo. Está desperdiçando o seu tempo.”

Ou o jovem pode dizer: “Aquela criancinha colhendo flores está vivendo num mundo de fantasias. Não é real. Quando ela conhecer mais a vida, deixará de lado essas flores. É uma estupidez. Colecionar flores é algo inútil; ela está desperdiçando o seu tempo. É ignorante.”

Mas, ainda assim, deve haver algo em comum a todos eles. Se o velho diz que o jovem é tolo (ou se o jovem diz que a criança é tola), isso significa apenas que a vida, para esse velho, não se tornou ainda uma unidade. Significa apenas que esse velho ainda está revoltado com sua própria infância. Ele não a pôde absorver no curso da vida. Sua juventude não se tornou parte de sua vida. Esse velho está fragmentado, dividido.

Se esse velho fosse realmente não-dividido, se estivesse à procura do elemento comum a todas as experiências, isso seria sabedoria. Encontrar o elemento comum a todas as experiências – o elemento essencial – é sabedoria. Se esse velho chegasse a compreender o que é essencial a todas as experiências bem-aventuradas, veria que quando esteve com uma jovem, amando-a profundamente, aconteceu a mesma coisa que agora acontece em sua meditação. Quando ele, em sua infância, estava colhendo flores no jardim, ou brincando com os seixos à beira-mar, aconteceu a mesma coisa.

Qual é o elemento comum? A atenção, a profunda atenção. A absorção. A criança estava absorta com suas pedras, brincando com elas. A existência toda foi esquecida. A criança esqueceu-se de si mesma. Naquele momento, não existia nada, não existia nenhuma mente. A criança estava totalmente absorta. Devido a essa absorção, a essa anulação total do ego, a bem-aventurança aconteceu. Tornou-se uma meditação.

O jovem estava absorto com sua amada. A existência toda sumiu como se nada mais existisse. Somente a amada existia. Até isso desapareceu: o amante e a amada desapareceram. Apenas o amor existia. Havia um momento que era eterno, um momento que era a própria eternidade. Nenhum passado, nenhum futuro. Agora era tudo. Era meditação. O amor é uma meditação. E então a bem-aventurança aconteceu.

Hoje, o velho está cantando sob uma árvore, ou está sentado num templo ouvindo os sinos, e sente-se muito feliz, em êxtase. O que está acontecendo? A mesma coisa está acontecendo numa situação diferente, numa idade diferente, numa experiência diferente. A mesma coisa está acontecendo. O mundo desaparece. O velho não existe mais, o templo desaparece. O momento presente torna-se total. O velho está aqui e agora. Os sinos continuam a tocar. Eles não tocam no futuro; tocam no presente. Nenhuma lembrança do passado interfere, nenhum desejo futuro. O velho está aqui e agora.

Sempre que você está aqui e agora, a bem-aventurança acontece. Como uma criança a brincar com as pedras, como um jovem a brincar com sua amada ou como um velho a brincar com seu canto e com sua meditação. Se todas as três experiências puderem ser sentidas como harmoniosas, você descobriu uma das supremas leis da vida. Você tornou-se sábio. A sabedoria aconteceu a você.


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quinta-feira, abril 26, 2018

A Canção da Vida

- OSHO - 


“A canção da vida. Procure-a e ouça-a, primeiro, em seu próprio coração. A princípio, você pode pensar que ela não está aí; quando a procuro, encontro apenas barulho. Procure mais profundamente. Se novamente você se desapontar, espere, e então procure mais profundamente ainda. Há uma melodia natural, uma fonte oculta em cada coração humano. Ela pode estar demasiadamente escondida, totalmente encoberta e silenciada  mas está aí.”

Ouça a canção da vida. A vida é uma melodia; a existência é musical – por inúmeras razões.

A existência é harmonia; não é anarquia. Ela não é um caos; é um cosmos, uma unidade. Tão complexa, tão vasta, mas, ainda assim, unida. E a vida pulsa, desde o ínfimo átomo à mais elevada estrela. Os comprimentos de onda diferem, as pulsações são de frequências diferentes, mas o todo pulsa numa profunda unidade, numa harmonia. Plotino chamou a isso de “a música das esferas”. A existência inteira é uma música.

Ela é musical também num outro sentido. A ioga, o tantra e todas as escolas que têm estado trabalhando esotericamente na jornada interior da consciência humana afirmam que a vida consiste em sons; a existência consiste em sons.

A ciência discorda, mas não muito. A ciência diz que a partícula básica é a eletricidade e não o som. Mas a ciência também diz que o som é um modo da eletricidade, uma espécie de expressão elétrica – que o som consiste em partículas elétricas.

A ioga afirma que o elemento básico, a unidade básica da existência é o som, e que a eletricidade é um modo de som. É por esse motivo que temos o mito de que o fogo pode ser criado através da música. Se o fogo (ou a eletricidade) é apenas uma combinação de sons, então o fogo pode ser criado.

Essa diferença entre a atitude científica e a atitude iogue precisa ser entendida. Por que a ciência afirma que o som é apenas eletricidade e a ioga afirma que a eletricidade é apenas som? É porque a ciência aborda a existência através da matéria e a ioga a aborda através da vida.

Quanto mais profundamente você penetrar dentro de si mesmo, mais descobrirá um novo mundo de som e silêncio. Quando você alcançar o âmago de seu ser, descobrirá o som silencioso. É a isso que os hindus chamaram de nad anahat nad – o som que é incriado, que é a sua própria vida. Ele não é criado por nada, não é produzido. Apenas está aí. Ele é cósmico.

Aum é o símbolo desse som. Se você se dirigir profundamente para dentro, quando o centro supremo for alcançado, você ouvirá o som aum. Não é você quem o produz. Ele simplesmente está ali, vibrando. E o elemento básico da vida.

Este sutra diz: "Ouça a canção da vida." Mas você não pode ouvi-la a menos que já a tenha ouvido dentro do seu próprio coração. Tudo o que você pode ver deve, primeiro, ser visto dentro de seu próprio coração, senão você não poderá vê-lo, não poderá ouvi-lo. A experiência básica precisa ser a interior. Somente então a exterior pode ser vivenciada.

Tudo o que você conhece no mundo exterior é apenas um reflexo ou uma projeção. Se você está repleto de amor, a vida toda parece estar repleta de amor. Se você está sentado ao lado da pessoa que ama, então toda a existência está em ordem. Nada está errado, não há aflição alguma. Toda a existência é preenchida por uma profunda música porque você está preenchido por uma profunda música. Não há em você nenhuma desarmonia; seu coração sente uma profunda harmonia. Você está de tal modo unido à pessoa amada, que essa unicidade se espalha por tudo.

Se você está em profunda agonia – sofrendo, triste, deprimido – a existência inteira parece estar deprimida. É você, não a existência. A existência permanece a mesma, mas os estados de sua mente mudam. Num determinado estado, a existência parece estar em festa; em outro, ela parece estar triste. Ela não está; a existência é sempre a mesma. Mas você está sempre mudando e sua mente sempre sendo projetada. A existência atua como um espelho. Você se reflete nele.

Se você pensar que tudo aquilo que interpretou é um fato ao invés de uma projeção, mergulhará em ilusões cada vez mais profundas. Mas se puder entender que não se trata de um fato mas de uma ficção da mente – que tudo depende de você e não da própria existência – então você pode mudar. Pode passar por uma mutação, uma revolução interior por acontecer, porque agora depende de você.

O mundo pode ser um caos, se você for um caos. O mundo pode ser um cosmo, se você for um cosmo. O mundo pode estar morto, se você estiver morto interiormente. O mundo pode estar vivo, abundantemente vivo, se você estiver vivo interiormente. Depende de você. Você é o mundo. Apenas você existe realmente, nada mais. Tudo o mais é apenas um espelho.

Lembro-me de uma pequena história.

Um imperador, um imperador muito poderoso, criou um palácio, um palácio de espelhos. Por todos os lados, em todo o palácio, havia espelhos. O imperador era uma pessoa muito bonita e estava tão fascinado por sua própria beleza que jamais se sentiu atraído por alguma outra pessoa. Era um Narciso. Amava somente a si mesmo e achava que todos os demais eram feios. Finalmente, ele proibiu a qualquer pessoa de entrar em seu palácio. Vivia ali sozinho, a olhar para seu próprio rosto, em todo o palácio. Havia espelhos por toda parte, milhares e milhares de reflexos de seu próprio rosto.

Contudo, aos poucos, ele começou a se entediar, a ficar farto daquilo. Começou a não gostar de si mesmo. O dia todo encontrava-se consigo mesmo. Ficou doente, tornou-se triste e deprimido. Ficou tão melancólico que estava quase à beira da morte. Simplesmente cansou-se de si mesmo.

Então, de súbito, ele se lembrou: “Este palácio foi criado por mim mesmo. Não preciso permanecer aqui. Não há ninguém que me obrigue a permanecer aqui.”

Então, ele quebrou uma das paredes de espelhos – atirou uma cadeira contra ela. E, pela primeira vez em muitos anos, o céu penetrou naquele recinto. Era uma noite de Lua cheia, e a Lua irrompeu ali dentro. Um mundo novo, fresco, vivo surgiu. O imperador entrou em contato com esse mundo.

Ele saltou para fora daquele buraco infernal, para fora daquela prisão. E então não estava morto, nem melancólico, nem às portas da morte. Pôs-se a dançar, a celebrar. Esqueceu-se completamente de seu rosto. E conta-se que nunca mais ele se olhou novamente no espelho.

É isso o que está acontecendo a cada um de nós. Não se trata de uma história sobre algum imperador desconhecido. Ela se refere a você. Você vive numa casa de espelhos. Quando olha para o rosto da sua esposa, não é o verdadeiro rosto dela que você vê. É uma projeção. É o seu próprio rosto refletido no rosto da sua esposa. Quando você olha para uma flor, não é para essa flor que está olhando. Você está olhando para a sua própria flor mental projetada sobre a flor real.

Por toda a parte, você se move com seus próprios espelhos, suas próprias imagens. E então, naturalmente, você fica entediado, farto de tudo isso, e diz: “A vida é uma miséria.” Você diz: “Parece que a vida não tem nenhum sentido.” Você diz: “seria melhor me suicidar. Parece que a vida não tem nenhum propósito. Não estou indo a lugar algum, fico apenas dando voltas num círculo. Isso não leva a nada. Todo dia é a mesma coisa, a mesma repetição.”

Mas não é por causa da existência; é por causa de você. Jogue fora esses espelhos, quebre esses espelhos. Saia do seu palácio, saia da sua prisão e olhe para o mundo – não através de pensamentos, não através de seus estados de espírito. Olhe para o mundo com o olho nu, ouça-o com o ouvido nu. Não permita que nenhum estado mental se coloque entre você e o mundo.

É a isso que eu chamo de meditação: olhar para o mundo sem a mente. Então tudo é novo, fresco. Tudo está vivo, eternamente vivo; tudo é divino. Mas, para chegar a esse ponto, você precisará realizar um profundo contato, uma profunda penetração em seu próprio coração; porque ali o sumo da vida espera por você. Pode chamá-lo de “elixir”. Ele espera por você.

Este sutra diz:

"Ouça a canção da vida. Procure-a e ouça-a, primeiro, em seu próprio coração. A princípio você pode pensar que ela não está aí; quando a procuro, encontro apenas barulhos. Procure mais profundamente. Se novamente você se desapontar, espere, e então procure mais profundamente ainda. Há uma melodia natural, uma fonte oculta em cada coração humano. Ela pode estar demasiadamente escondida, totalmente encoberta e silenciada – mas está aí.”

Quando se tenta, pela primeira vez, ir para dentro, encontra-se barulho: multidões, pensamentos, loucura – tudo, menos silêncio. Mas não se deixe abater. Seja indiferente a todo esse barulho que você encontrar em seu interior.

Quando digo “Seja indiferente”, quero dizer não faça nada a respeito; apenas permaneça indiferente. Não diga: “Isso é mau.” Não diga: “Como posso acabar com isso?” Não tente acabar com o barulho – você não pode. Deixe que ele flua... como nuvens flutuando no céu enquanto você as observa. Ou como o tráfego que passa pela rua e você observa. Simplesmente fique à parte e observe o movimento do tráfego, ou permaneça na margem e olhe o rio fluindo. Não faça nada; apenas permaneça ali. Indiferente, desinteressado, de modo algum envolvido.

Se você puder fazer isso... isso é o que significa testemunhar. Se você puder fazê-lo, aos poucos penetrará cada vez mais fundo. Não se deixe abater, porque, no fim, por último, uma profunda fonte musical, uma profunda harmonia, uma profunda existência rítmica espera por você. Penetre nesse barulho e você a alcançará.

O sutra prossegue:

“Na base de sua natureza você encontrará fé, esperança e amor. Aquele que escolhe o mal recusa-se a olhar para dentro de si próprio, tapa seus ouvidos à melodia do coração, como se vendasse os olhos à luz de sua alma. Assim age, porque acha mais fácil viver nos desejos. Mas, debaixo de toda a vida, está a fonte corrente que não pode ser detida; as poderosas águas, na realidade, estão ali. Encontre-as...”

“Na base de sua natureza você encontrará fé, esperança e amor” – essas três coisas. Se você conseguir entrar em contato com sua música interior, essas três coisas florescerão espontaneamente dentro de você: fé, esperança e amor. Mas essas palavras possuem significados bastante diferentes. Não têm o significado que comumente damos a elas.

Quando dizemos fé, queremos dizer crença. Crença não é fé. Crença significa algo imposto. A dúvida encontra-se aí, oculta, mas você se envolve numa crença e empurra a dúvida para dentro.

Por exemplo, você diz: “Creio em Deus.”. O que você quer dizer? Não há realmente nenhuma dúvida? A dúvida está presente. A crença não pode destruir a dúvida; pode apenas ocultá-la. Na verdade, você acredita por causa da dúvida. Você teme a dúvida. Se você não acreditar, você fica em dúvida... sente-se incomodado. A crença lhe proporciona comodidade, consolo, alívio, conforto. Você se sente à vontade. Mas a crença é apenas uma fachada mental, intelectual. Por trás dela, a dúvida está sempre à espreita.

Você encontrará a dúvida oculta no interior de cada crença. Se você diz “Creio firmemente”, isso significa que você tem fortes dúvidas por trás dessa crença. Aqueles que dizem “Creio totalmente” têm grandes dúvidas dentro de si. Por que a crença é necessária? Porque a dúvida está presente e você se sente incomodado por ela.

É por isso que tantas pessoas são teístas e tão poucas são ateístas. Mas, na verdade, o mundo está cheio de ateístas e é muito difícil encontrar-se um teísta; é impossível. Tudo não passa de um artifício. As pessoas dizem que acreditam em Deus porque parece difícil não acreditar; é inconveniente. Socialmente, formalmente, não é bom.

Não que elas acreditem. Elas duvidam, sabem que duvidam, mas enganam a si mesmas. Suas vidas permanecem incólumes às suas crenças; suas religiões são religiões domingueiras. Suas vidas não são afetadas de modo algum. Aos domingos elas vão à igreja e rezam, como uma formalidade social, como parte das boas maneiras. Depois, fora da igreja, continuam as mesmas. Durante seis dias permanecem irreligiosas; por um dia tornam-se religiosas. Isso é possível? Durante seis dias você permanece feio e em um dia se torna bonito? Durante seis dias você permanece ruim e em um dia se torna bom? Durante seis dias você permanece diabólico e em um dia, de repente, você se torna santo? É possível isso?

É impossível. O sétimo dia deve ser o dia falso; os seis dias são reais. O sétimo dia é apenas um truque para enganar-se a si mesmo e aos outros.

A crença é falsa. Ela é útil, utilitária, mas falsa. A fé é totalmente diferente. Crença significa que a dúvida está oculta. Fé significa que a dúvida desapareceu. Essa é a diferença.

Fé significa que a dúvida desapareceu. Crença significa que a dúvida está presente e você criou uma crença contra ela. Você duvida se Deus existe ou não, mas diz: “Eu acredito”. Sua esposa pode estar doente, e se você não acreditar, quem sabe? Deus pode existir. Ou você corre o risco de perder o emprego. Quem sabe? – Deus pode ajudar. E se você não acreditar, então ele não o ajudará. É uma crença utilitária; ela lhe é de alguma utilidade. Mas a dúvida está presente.

Fé significa que a dúvida desapareceu. Ela é a ausência de dúvida. Mas esta só pode desaparecer quando você conhecer alguma coisa em seu interior; quando a crença não lhe foi dada, o conhecimento nasce em você. Quando você conseguiu conhecer, compreender, então a fé nasce.

E a esperança. Esta esperança não é aquela do desejo. Esta esperança não significa esperança por um futuro. Não está de modo algum relacionada com o futuro. Esta esperança significa simplesmente uma atitude esperançosa acerca de todas as coisas. Acerca de todas as coisas. Uma visão otimista, uma atitude esperançosa. Um olhar para o lado bom das coisas. Aconteça o que acontecer, você permanece esperançoso, não fica deprimido.

A depressão se manifesta apenas se você olhar para o lado ruim das coisas. Todas as coisas têm dois lados: o lado ruim e o lado bom. Você pode olhar para o lado ruim e então ficará deprimido, ou pode olhar para o lado bom, o lado benigno, e ficará feliz. Portanto, depende.

A pessoa que é desesperançada olha sempre para o que é ruim. A primeira coisa que ela procura é o que está ruim. Se digo a ela: “Este homem é um ótimo flautista”, imediatamente ela olhará para ele e dirá: “Não, não posso acreditar que ele possa tocar flauta, pois ele é um ladrão.” Qual é a relação? Um homem pode ser um ladrão e um ótimo flautista. Mas a pessoa negará essa possibilidade. Dirá: “Não, não pode ser. Ele é um ladrão, um notório ladrão. Como pode ser um ótimo flautista?”

Essa é a mente desesperançada. A uma mente cheia de esperança, se eu disser: “Este homem é um ladrão”, a pessoa responderá: “Mas como pode ser um ladrão? Ele é um ótimo flautista.”

Como você olha para as coisas? Com esperança ou sem esperança? Comumente, a não ser que tenha entrado em contato com a música interior, você olhará para o mundo com uma atitude desesperançada. Então tudo estará ruim, e qualquer coisa que se faça será ruim, errada. E de toda parte você extrairá miséria. Tornar-se-á um perito em ser miserável. Qualquer coisa ajudará você a ser miserável – qualquer coisa.

Quando você entra em contato com esse silêncio interior, com essa música interior, torna-se esperançoso; torna-se a esperança. Seja o que for, você vê. Você sempre toca o íntimo, o coração das pessoas. E então, não há depressão.

E o amor. Comumente, o amor é um relacionamento. Mas quando você entra em contato com o ser mais íntimo, o amor torna-se o seu estado – não um relacionamento. Ele não ocorre entre você e alguém mais. A partir de agora você tornou-se amor, tornou-se amoroso. Não se trata de um relacionamento. Mesmo se você estiver sozinho, sentado embaixo de uma árvore, será amoroso. Sozinho, solitário, com mais ninguém ali, você será amoroso.

É como uma flor solitária que cresce num caminho desconhecido. Ninguém passa por ali, mas a flor continua a espalhar seu perfume. É o seu estado. Não é verdadeiro que ela dará seu perfume somente se um rei passar por ali, e o negará se, por ali, passar um mendigo. Se passar um mendigo, a flor dará o seu perfume. Se passar um rei, a flor dará o seu perfume. Se ninguém passar, mesmo assim a flor continuará a espalhar o seu perfume. O perfume é o modo de ser da flor. Não é um relacionamento.

Nosso amor é um relacionamento. E quando o amor é um relacionamento, ele cria a miséria. Quando o amor é um modo de ser, cria a bem-aventurança. Buda também está amando, mas ele não procura amar você. Simplesmente, em virtude de seu modo de ser, seu amor se espalha. Seu amor torna-se um perfume e se espalha pelos mais longínquos cantos da Terra.

Estas três qualidades se desenvolverão: fé, esperança e amor. E se as três estão presentes, você não precisa de mais nada. Elas o conduzirão ao cume supremo da vida e da existência.

“...Saiba que, seguramente, ela se encontra dentro de você. Procure-a aí, e, uma vez tendo-a ouvido, você a reconhecerá imediatamente ao seu redor.”

Se você puder sentir sua música interior – sua verdade interior, sua fé interior, seu amor interior, sua esperança interior –, começará a reconhecê-los ao seu redor. Todo o universo mudará a seus olhos porque você mudou. E tudo o que sentir em seu interior, será agora sentido ao seu redor.

O mundo permanece o mesmo; mas quando você muda, tudo muda. De acordo com você, seu universo torna-se diferente. Se você está enraizado no divino, toda a existência está enraizada no divino. Se você está enraizado na maldade, toda a existência é um inferno. Depende de você. Ela é você, ampliado.


segunda-feira, abril 23, 2018

Você tem Colhido, Agora Compartilhe!

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- OSHO -


A busca espiritual começa como uma procura da felicidade eterna, como uma procura da libertação eterna, como uma procura da luz divina e da vida divina. Mas o centro é sempre você. No início, trata-se de uma busca egocêntrica. Seja o que for que você esteja buscando, está buscando para si mesmo.

Esse egocentrismo se revelará, finalmente, uma barreira, pois você não poderá estar em êxtase total se for egocêntrico. Esse egocentrismo é um forte obstáculo, mas no início tem que ser assim. É natural que se deva iniciar buscando-se algo para si mesmo. Não há outro jeito. Você não pode começar buscando para outra pessoa.

No início, a busca precisa ser egocêntrica, mas não deve ser assim no fim. No início, está bem. No fim, é perigoso. Chega o momento em que seu egocentrismo precisa acabar. Só então seu ser florescerá em total bem-aventurança.

É exatamente assim: você respira para dentro, inspira. Isso é uma respiração pela metade. Você também precisa expirar. Essa é a outra metade. E as duas respirações – inspiração e expiração – fazem um círculo, uma respiração completa. Se você pensar apenas em inspirar e não achar necessário expirar, você morrerá. A inspiração, que é necessária à vida, tornar-se-á perigosa à vida se não houver a expiração. O ar precisa ser expelido.

A mesma coisa acontece quando você começa a viver momentos de bem-aventurança, quando começa a viver momentos de êxtase, quando o eterno começa a se derramar em você. A primeira coisa é inalar – você inalará bem-aventurança – mas, a seguir, exale-a. De outro modo, você morrerá de sua própria bem-aventurança. Essa bem-aventurança tornar-se-á venenosa. Exale-a, distribua-a, dê-a aos outros.

Quando você sentir que está repleto de bem-aventurança, expresse-a. Compartilhe-a; não tente conservá-la em seu interior. Não a restrinja, não a torne alguma coisa só sua. Não tente possuí-la; compartilhe-a com todos. Celebre-a, realmente, de tal modo que toda a existência possa compartilhá-la. Uma flor desabrocha e o perfume se espalha. Os ventos a levam para longe, para bem longe, para os mais longínquos recantos da Terra. Permita que o seu perfume, a sua bem-aventurança, seja levada para longe, seja compartilhada, seja compartilhada por toda a existência.

Por quê? Porque então a bem-aventurança torna-se total: inspiração e expiração. Torna-se um círculo. E quanto mais você a distribui, mais obtém. Quanto mais joga-a para fora, mais a encontra, porque agora você está em contato com a fonte inesgotável.

Não seja avarento. De outro modo, destruirá todo o processo. No início, se você é egocêntrico, está bem; mas quando a bem-aventurança começa a se manifestar, é perigoso. Este sutra diz respeito à exalação:

"De dentro do silêncio, que é paz, uma voz ressonante se levantará. E essa voz dirá: 'Não está certo; tu tens colhido, agora deves semear.' E sabendo que essa voz é o próprio silêncio, obedecerás."

Você tem colhido. Tem colhido bem-aventurança, tem colhido êxtase. Agora, semeie-o para os outros. No mundo, você primeiro semeia e depois colhe. Na dimensão espiritual, tudo é exatamente ao contrário. Primeiro você colhe e depois semeia.

Você tem colhido aquilo que Buda semeou, aquilo que Jesus, que Krishna e Maomé semearam. Eles plantaram as sementes e você as colheu. Agora, plante sementes para os outros. E lembre-se bem: semear significa simplesmente exalar. É uma parte de todo o processo. Você permanecerá pela metade, incompleto, imperfeito, a menos que a bem-aventurança comece a fluir de você em direção a todas as coisas.

Essa é uma lei realmente necessária. Quando você se torna silencioso, você a ouve. Ninguém a está dizendo para você. Seu próprio coração – seu ser mais profundo – é quem lhe diz isso. Essa indicação, esse ensinamento, essa mensagem não vem de fora. Vem do seu próprio íntimo. E por essa razão, você a obedecerá. Não há possibilidade de não obedecê-la; ela vem de você mesmo. Mas, se você a conhecer bem, será fácil.

Será fácil se você souber que isso faz parte do processo: que a bem-aventurança precisa ser distribuída e compartilhada; só então ela se expandirá mais ainda. Se você não conhece esta lei, sua avareza, seu velho egocentrismo pode adiar a conclusão do processo.

Pode-se unicamente adiar esse processo; não se pode desobedecê-lo para sempre. Mas por que adiá-lo? Lembre-se disto: sempre que sentir um instante de bem-aventurança se manifestando, compartilhe-o.

É por isso que insisto, e insisto bastante, em que após a meditação, você deve expressar sua bem-aventurança; você deve celebrá-la. Empenhe-se nisso, seja o que for que lhe aconteça, compartilhe-o. Dance e cante. A dança e o canto são apenas simbólicos, servem somente como uma recordação contínua.

Quando você for embora daqui, muitas coisas lhe acontecerão se você continuar a meditação. Mas sempre que alguma coisa lhe acontecer, não a guarde para você. Compartilhe-a. Mesmo se não puder fazer alguma coisa, apenas sorria, sorria para algum estranho e talvez seja suficiente. Apenas segure as mãos de algum estranho e sinta o amigo dentro dele. Ou compartilhe alguma coisa, mesmo que simbolicamente. Ou, se não houver ninguém por perto e você estiver sentado embaixo de uma árvore, então, dance e sinta que está dançando com a árvore. Cante, e sinta que está cantando com os pássaros. E, mais cedo ou mais tarde, você compreenderá que, quando compartilha, até mesmo uma árvore está pronta a compartilhar com você.

Uma pesquisa foi feita recentemente numa universidade russa. Através de muitas experiências, um psicanalista, Pushkin, chegou à conclusão de que as árvores possuem emoções semelhantes às do homem. E mais ainda – que as árvores podem ser hipnotizadas. E não é só isso: se uma pessoa for hipnotizada embaixo de uma árvore e, sob hipnose, lhe fizerem a seguinte sugestão: “Você está muito triste”, a pessoa ficará triste e, simultaneamente, a árvore ficará triste.

Trata-se de conclusões experimentais. Existem atualmente aparelhos de registro mecânico que podem registrar se você está triste ou feliz, se está deprimido, ou raivoso, ou predisposto ao sexo. Para cada emoção, uma onda elétrica específica é emitida por sua mente. Essa onda elétrica pode ser registrada.

Mas o que é estranho é que a mesma onda também é captada da árvore. Você está dançando embaixo de uma árvore, feliz. Sua mente emitirá um sinal de que você está feliz e esse sinal será registrado. Se o aparelho também estiver sintonizado com a árvore, registrará igualmente a mesma coisa. Assim, Pushkin afirma que se você estiver dançando embaixo de uma árvore, muito feliz, a árvore compartilhará dessa felicidade. Ela ficará muito feliz, junto com você.

E se uma árvore pode compartilhar, por que não os pássaros? Eles são mais sensíveis. Por que não os animais? Eles são mais sensíveis ainda. E por que não a existência inteira? Mais cedo ou mais tarde, descobriremos que até mesmo as pedras compartilham. Suas almas podem estar profundamente ocultas, mas estão ali; e um dia descobriremos instrumentos que nos fornecerão indícios de que mesmo uma pedra, uma rocha, tem emoções.

Assim, onde quer que você se encontre, sempre que sentir que algum sentimento de êxtase lhe aconteceu, dance em harmonia com ele, cante em seu tom e compartilhe sua felicidade do modo que lhe ocorrer, da maneira que lhe convier. Mas compartilhe-a! Ela se expandirá mais ainda. Compartilhando-a, ela se expande. Com avareza – sem compartilhá-la – ela se contrai, se extingue.

A morte é uma contração. Contração é morte; vida é expansão. Deixe que ela se expanda. E a partir do momento em que você conhecer o sentimento de expansão, permitirá que ele aconteça, porque é seu próprio eu mais íntimo quem está ordenando.

"Tu, que agora és discípulo, capaz de permanecer em pé, capaz de ouvir, capaz de ver, capaz de falar, que tens conquistado o desejo e alcançado o autoconhecimento, que viste tua alma em seu florescer e reconheceste e ouviste a voz do silêncio, vai ao Saguão do Saber e lê o que ali está escrito para ti."

“... ouvir a voz do silêncio é compreender que a única orientação verdadeira vem do interior; ir ao Saguão do Saber é entrar no estado em que o saber se torna possível. Então, muitas palavras estarão escritas ali para ti, e escritas em letras de fogo para que possas ler facilmente. Pois, quando o discípulo está pronto, o Mestre também está pronto.”

“Ouvir a voz do silêncio é compreender que a única orientação verdadeira vem do interior.” Quando você está silencioso, verdadeiramente silencioso – depois que a tormenta passou, quando você entrou espontaneamente, no silêncio – você não o cultivou, ele veio até você, manifestou-se espontaneamente em você – nesse silêncio, você sentirá, compreenderá e saberá que agora a orientação verdadeira é possível a partir do âmago do seu ser. Agora, o mestre, o mestre interior se revelará a você.

Seu próprio centro mais profundo é o seu mestre verdadeiro. O mestre exterior pode ajudar, mas sua ajuda é fundamentalmente dirigida para a descoberta do mestre interior. E quando o mestre interior é descoberto, não há mais necessidade do mestre exterior. Você tornou-se mestre por direito próprio.

Mas isso só acontece quando você consegue realizar um total silêncio interior, sem quaisquer pensamentos, sem quaisquer palavras, sem nenhuma imaginação, sem ondulações de qualquer tipo. Quando você tiver compreendido e sentido um silêncio sem ondulações, sem pensamentos, um silêncio imóvel – esse silêncio tornar-se-á seu mestre interior. Agora, a partir desse silêncio, a orientação lhe será dada.

“Pois, quando o discípulo está pronto, o Mestre também está pronto.” Quando você está pronto para receber a orientação interior, a orientação interior surge naturalmente, automaticamente. Mas o discípulo precisa estar pronto.

O que significa dizer que o discípulo está pronto? Significa que ele tornou-se totalmente receptivo, humilde, sem ego, entregue, sem resistência. Quando você não diz nada, mas apenas está receptivo para ouvir, quando não impõe nenhuma teoria à verdade – você está nu, vazio e disposto a permitir que a verdade se revele à sua maneira; você não está, de modo algum, consciente ou inconscientemente, impondo alguma coisa à verdade; você parou de impor; está pronto para ser levado a qualquer parte que a verdade o conduzir – então, você é um discípulo.

Há uma diferença entre um estudante e um discípulo. O estudante deseja informação. O discípulo não anseia por informação. Sua busca é pelo conhecimento, pela experiência autêntica. Não está interessado no que os outros dizem. Está interessado naquilo que pode sentir. O estudante coletará informação; treinará sua memória. E quando mais sua memória for treinada, quanto mais informação for acumulada, mais egoísta ele se tornará. O estudante nunca poderá ser humilde, o erudito nunca poderá ser humilde. Sua busca básica é egoísta.

Uma pessoa acumula riqueza e uma outra acumula conhecimento. Não há nenhuma diferença. Qualquer acúmulo alimenta o ego. Seja o que for que você acumule – quanto maior a quantidade, mais egoísta você se sentirá. Dessa maneira, um estudante ou um erudito não são discípulos. A própria dimensão é diferente. Um discípulo não está em busca de acumulação; pelo contrário, está disposto a se livrar de todas as acumulações. Se a verdade só se manifesta no vazio, ele está pronto a se tornar vazio, está pronto a jogar fora todas as acumulações, todo o conhecimento.

Conta-se que Sócrates, em sua velhice, teria dito: “Agora posso dizer que nada sei. Sou um ignorante.” Ele foi um discípulo.

Aconteceu que um vidente proclamou Sócrates como sendo o homem mais sábio de Atenas. Os que ouviram o vidente correram para dizer a Sócrates: “Sócrates, você ouviu? O vidente disse que você é o homem mais sábio de Atenas.”

Sócrates disse: “Deve ter havido algum engano. Voltem lá e digam ao vidente que Sócrates diz que não sabe nada, e que é totalmente um ignorante.”

As pessoas voltaram ao vidente e lhe disseram: “Sua profecia foi negada pelo próprio Sócrates. Ele disse, ‘Não sei nada. Sou um ignorante’.”

O vidente riu e disse: “É exatamente por isso que digo que ele é o homem mais sábio” – porque apenas um homem perfeitamente sábio pode dizer: “Eu não sei.”

As pessoas ignorantes sempre afirmam que sabem. Quanto mais ignorantes, mais afirmam que sabem. Isso faz parte da ignorância. Um estudante, um pândita, um erudito – estão sempre declarando que conhecem. Eles não são discípulos.

E, lembre-se, se você é um estudante, pode tornar-se um professor, mas nunca um mestre. Somente um discípulo pode tornar-se mestre. Se você é um estudante, um erudito, pode tornar-se um professor – nunca um mestre. Somente um discípulo pode tornar-se um mestre. Ser discípulo significa entregar-se sem ego. E uma vez que você se entregou, seu eu mais profundo é revelado a você. Esse é o mestre que está à sua espera. Ele tem estado à sua espera por muitas vidas.

Em algum momento de entrega, o mestre lhe será revelado. E esse mestre não é uma pessoa. Ele é o seu próprio eu mais profundo, é o seu próprio Atman. Desse modo, pode-se realmente dizer: quando você é um discípulo perfeito, tornou-se um mestre. Você não é mais um discípulo. Tendo se tornado um discípulo, você se transforma num mestre.

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quinta-feira, abril 19, 2018

A Quietude que Sucede à Tormenta



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"Espere a flor florescer na quietude que sucede à tormenta: não se adiante."

Uma das leis mais fundamentais da vida precisa ser entendida.

A vida baseia-se na polaridade; cada coisa existe com o seu pólo oposto. De outro modo, não é possível. A mente existe devido à matéria; a mente é o pólo oposto. A consciência existe devido à inconsciência, o dia existe devido à noite, a vida existe devido à morte, a felicidade existe devido à infelicidade, e assim por diante. Cada coisa existe devido ao seu pólo oposto. Você não pode experimentar a felicidade a não ser que tenha experimentado profundamente a infelicidade, e não pode alcançar o êxtase supremo se não tiver passado pela agonia suprema. Esse é o significado do mundo, o sentido de todo esse sofrimento. Ele não é sem sentido.

As pessoas me procuram e perguntam por que Deus criou este mundo de sofrimento. “Por que há tanto sofrimento, se Deus é compaixão?” Sim, Deus é compaixão. Por esse motivo há tanto sofrimento. A menos que você passe através do sofrimento, não alcançará o êxtase supremo. O sofrimento é o aprendizado básico. A infelicidade é o aprendizado básico para o florescimento supremo da felicidade.

Como você pode alcançar o êxtase se não conhece a agonia? Se você alcançar o mundo do êxtase sem saber o que é a agonia, não será capaz de reconhecê-lo. O reconhecimento é impossível. Somente através da escuridão se pode reconhecer a luz. Você pode estar vivendo na luz mas, se não conhece a escuridão, não pode saber que está vivendo na luz. Um peixe do mar não pode saber que o mar existe. Somente se o peixe for lançado fora do mar é que poderá reconhecê-lo. Se for jogado outra vez para dentro do mar, esse peixe será totalmente diferente e o mar também será totalmente diferente. A partir de então o peixe será capaz de reconhecê-lo. Sansara, o mundo, é apenas um local de aprendizado. Você precisa entrar profundamente na matéria. Só assim poderá retornar ao outro pólo, ao pico da consciência.

Este sutra diz: "Espere a flor florescer no silêncio que sucede à tormenta; não se adiante." 

O silêncio real, autêntico, ocorre somente depois de você ter passado pela tormenta. Apenas quando cessa a tormenta é que o silêncio pode explodir dentro de você; nunca antes. Você pode criar uma quietude falsa, antes da tormenta; mas nesse caso estará apenas se iludindo. Você pode criar uma quietude – artificial, cultivada, imposta a partir do exterior – mas ela não será espontânea, não pertencerá ao seu ser interior.

Há muitos artifícios para se aquietar a mente. Você pode usar um mantra. Pode sentar-se calado na postura de Buda e ficar repetindo aum, aum, aum. Se continuar repetindo esse mantra uma, duas, três, muitas vezes, acabará entediado. Esse tédio terá o aspecto de uma quietude. Quando você se entediar, o mantra cessará. Uma espécie de sono interno surgirá. Hipnose – uma espécie de sono. Você se sentirá bem, mas esse sono não é dhyana (meditação), esse sono não é silêncio. Esse sono é simplesmente negativo. Você se torna entorpecido em virtude da repetição. Toda repetição cria entorpecimento. Você se torna simplesmente entorpecido. Através do entorpecimento você não pode experimentar a miséria, não pode experimentar o sofrimento. O entorpecimento é um anestésico. Ele torna você inconsciente.

Isso é negativo. Sem dúvida, você ficará menos tenso, mas não estará mais vivo. A quietude autêntica surge somente depois da tormenta.

Não force a tormenta a desaparecer. Antes, viva-a; permita que ela aconteça. Traga-a para fora, expulse-a. Permita que a tormenta o abandone, deixe que ela se dissipe. Não a reprima. Reprimida, ela permanecerá em você. Reprimida no inconsciente, ela persistirá; aguardará o momento certo para explodir. Você sempre receará sua explosão, precisará combatê-la continuamente. E você nunca sairá vitorioso, pois aquilo que é reprimido precisa ser combatido repetidas vezes, precisa ser reprimido muitas vezes. Sua quietude estará assentada sobre um vulcão e, a qualquer momento, o vulcão poderá entrar em erupção.

Então você sempre temerá a vida, porque a vida pode criar situações nas quais o vulcão poderá entrar em erupção. Você negará a vida, tentará fugir dela. Desejará ir para o Himalaia, pois ali não haverá ninguém que lhe forneça uma oportunidade para que seu vulcão entre em erupção. Mas o vulcão ainda estará aí e o Himalaia não poderá ajudar, a menos que o vulcão seja expulso.

E é bom expulsa-lo. Você está perdendo uma experiência básica, a de expulsar completamente o vulcão, de liberar totalmente a loucura, de trazer para fora tudo o que se encontra ali: a tormenta interior. Deixe-a sair e não resista, não reprima. Deixe-a sair totalmente. Então chegará o momento em que a tormenta passará.

Nesse momento, a quietude real acontece em você. Real no sentido de que, agora, não é cultivada; é espontânea. O rio está fluindo. Não se trata de algo que você criou; não é algo que está acontecendo devido ao seu esforço. Pelo contrário, você não está aí. Apenas a quietude está. E essa quietude é destemida. Nada pode perturbá-la, porque aquilo que poderia ser distúrbio foi expulso. A tormenta se dissipou.

Por isso é que insisto, e insisto bastante para que você expulse a sua loucura. Dentro, ela é perigosa. Expulse-a e ela desaparece. Seu coração torna-se vazio; um certo espaço é criado. Somente nesse espaço a quietude pode acontecer. Então você tem um lugar para ela, está pronta para ela, aberto para ela.

"Espere a flor desabrochar na quietude que sucede à tormenta: não se adiante."

O que é a flor?

O florescimento do seu ser só ocorrerá quando a quietude real acontecer em você; nunca antes. Você não pode forçar a flor a se abrir. Ela se abre por si mesma. Você não pode forçar o seu ser a se abrir; isso é impossível. Você não pode violentá-lo, não pode ser violento com ele. Ele será simplesmente destruído.

A flor se abre por si mesma. O único solo necessário é a quietude autêntica, real e espontânea. A partir de uma quietude cultivada, a flor nunca se abrirá. Com uma quietude cultivada, você simplesmente se tornará entorpecido. Seu ser ficará menos vivo, apenas isso. Com menos vida, você estará menos inquieto. Isso parece bem, mas lembre-se de que a inquietude é um aprendizado. Você não deve tentar ter menos inquietações. Fique com as suas inquietações e mova-se através delas. Não as abandone, não fuja delas. Chegará um momento em que você terá ido além delas, mas só se atinge esse momento passando-se através delas. Passe através da tormenta e permita que surja uma verdadeira quietude. Só então seu ser florescerá, nunca antes.

"Ela se desenvolverá, crescerá rapidamente, produzirá ramos e folhas, e formará botões, enquanto a tormenta continua, enquanto a batalha prossegue. Porém, até que toda a personalidade do homem seja dissolvida e desfeita... até que toda a natureza se renda e se submeta ao seu superior, a flor não poderá desabrochar."

Não pense que a tormenta é sua inimiga. Ela não é. Essa tormenta é a sua maior amiga, pois sem ela não haverá quietude, sem ela não haverá florescimento, sem ela não haverá liberação. Assim, nunca pense em termos de inimizade. Não há nada que seja seu inimigo; a existência inteira é amiga. Até mesmo aquilo que parece estar contra você – até mesmo isso não é seu inimigo. Jesus diz: “Ame o seu inimigo.” O verdadeiro inimigo que você precisa amar não é o seu vizinho ou o inimigo do seu país. Eles não são os seus verdadeiros inimigos. Seus verdadeiros inimigos são a tormenta, o mundo, o mal. A sexualidade, a raiva, a paixão, o ódio – estes são os seus verdadeiros inimigos.

Jesus diz: “Ama a teus inimigos como a ti mesmo.” Por quê? O cristianismo nunca pôde entender isso. O ensinamento de Jesus foi completamente perdido. Tudo o que existe sob o nome de cristianismo não pertence de modo algum a Jesus Cristo. Pertence a São Paulo. Ele é o verdadeiro fundador do cristianismo que existe na Terra.

Jesus é muito esotérico. Quando diz: “Ama a teus inimigos como a ti mesmo”, ele quer dizer: através do pólo oposto, através do inimigo, alcança-se o amigo supremo. Viva o inimigo em sua totalidade para que possa transcendê-lo. Qualquer experiência total torna-se transcendental. QUALQUER experiência, eu disse. Viva com a sua totalidade e terá ido além dela. Ela nunca ficará presa a você; você terá ido acima dela. Terá passado através dela, terá aprendido tudo a seu respeito. Esse conhecimento é revolucionário. Cria uma mutação; transforma você.

"Enquanto a tormenta continua..." Não pense que a tormenta é sua inimiga, pois enquanto ela prossegue embaixo da terra, oculta na escuridão, a flor se desenvolverá.

"...crescerá rapidamente, produzirá ramos e folhas, e formará botões, enquanto a tormenta continua, enquanto a batalha prossegue. Porém, até que toda a personalidade do homem seja dissolvida e desfeita... até que toda a natureza se renda e se submeta ao seu superior, a flor não poderá desabrochar."

Quando a tormenta cessar, a flor desabrochará. Mas ela já estava se preparando durante a tormenta. Através da tormenta, ela estava se preparando para desabrochar. Estava acumulando energia, vida, vitalidade. Estava se aprontando para explodir. A tormenta é o solo. Sem ela, a flor não pode desabrochar.

"Então virá uma calma semelhante àquela que, num país tropical, sucede à chuva intensa. E na profunda quietude ocorrerá o evento misterioso que revelará que o caminho foi encontrado."

Somente passando pela tormenta é que você poderá alcançar uma calma em seu interior, semelhante àquela que, num país tropical, sucede à chuva intensa. Lembre-se disso profundamente, pois lhe será de grande ajuda.

Com cada sofrimento, você está criando a possibilidade de algum êxtase. Após cada sofrimento, o êxtase se seguirá imediatamente. Mas se você estiver muito preso ao sofrimento, poderá perder o êxtase. Se você estiver doente, um momento de saúde, um momento de bem-estar virá a você após essa doença. Mas você pode estar tão preocupado com a doença que, quando o momento vier, poderá perdê-lo – estará muito envolvido com a doença que não existe mais. O momento é instantâneo; você pode perdê-lo facilmente. Após cada dor, o momento vem e visita você.

Após cada sofrimento, o êxtase vem bater à sua porta; mas você continua perdendo-o porque o passado é muito intenso. A doença já passou, mas você continua doente. Ela permanece na memória, cobrindo sua mente de névoas, e você perde esse momento fugaz.

Lembre-se disto: sempre que você estiver deprimido, espere pelo momento em que a depressão for embora. Nada permanece eternamente; a depressão irá embora. E quando ela o deixar, espere – fique atento e alerta – porque após a depressão, após a noite, virá a aurora e o Sol nascerá. Se você puder estar alerta nesse momento, ficará feliz por ter estado deprimido. Ficará grato por ter estado deprimido, porque somente por intermédio dessa depressão é que esse momento de felicidade tornou-se possível.

Mas o que é que fazemos? Movemo-nos numa regressão infinita. Ficamos deprimidos. Então, ficamos deprimidos por causa da depressão; segue-se uma segunda depressão. Se você está deprimido, ótimo. Não há nada de errado nisso. É bom, pois através da depressão você aprenderá e amadurecerá. Mas você se sente mal. “Por que estou deprimido? Não quero ficar deprimido.” Então começa a lutar com a depressão. A primeira depressão é boa, mas a segunda depressão é irreal. E essa depressão irreal cobrirá sua mente de névoas. Você perderá o momento que se seguiria à depressão real.

Quando estiver deprimido, continue deprimido. Simplesmente, continue deprimido. Não fique deprimido por causa da sua depressão. Não lute, não procure se desviar, não force a depressão a ir embora. Apenas permita que ela aconteça; ela irá embora por si mesma. A vida é um fluxo; nada permanece o mesmo. Você não é requisitado; o rio move-se por si mesmo, não precisa que você o empurre. Se está tentando empurrá-lo, você está sendo tolo. O rio fluir por si mesmo. Deixe-o fluir.

Quando a depressão se manifesta, permita que ela se manifeste. Não fique deprimido por causa dela. Se você quiser afastá-la cedo demais, ficará deprimido. Se lutar com ela, você criará uma depressão secundária que é perigosa. A primeira depressão é boa, uma dádiva divina. A segunda depressão é criação sua. Não é uma dádiva divina; é algo mental. Então você entrará em esquemas mentais, e eles são infinitos.

Se você ficar deprimido, fique feliz por estar deprimido e permita que a depressão se manifeste. Então, de repente, a depressão desaparecerá e surgirá um espaço, uma brecha. Não haverá nuvens e o céu estará claro. Por um único momento, o céu se abrirá para você. Se você não estiver deprimido por causa de sua depressão, poderá entrar em contato, estar em comunhão, atravessar o portão celeste. E quando o conhecer, terá aprendido uma das leis supremas da vida: que a vida usa o oposto como um professor, como uma base ou trampolim.

Nada é errado; tudo acontece para o bem. É a isso que eu chamo de uma atitude religiosa. Você pode não acreditar em Deus – isso não faz nenhuma diferença. Buda nunca acreditou em Deus, Mahavir nunca acreditou em Deus, mas eles eram religiosos. Não há necessidade de se acreditar numa vida após a morte, nenhuma necessidade. Ainda assim você pode ser religioso. Não há nem mesmo necessidade de se acreditar na alma. Você pode ser religioso sem acreditar nela.

Então o que é religião? Religião significa essa confiança de que tudo acontece para o bem. Essa confiança de que tudo acontece para o bem constitui a mente religiosa; isso é religiosidade.

E se você confiar que tudo acontece para o bem, conseguirá compreender o divino. O divino pode ser compreendido através dessa confiança. Até mesmo a tormenta existe em benefício do silêncio. O mal existe em benefício do bem; a morte existe em benefício da vida; o sofrimento e a agonia são apenas situações nas quais o êxtase pode acontecer.

Olhe a vida deste modo, e não estará distante o momento em que o sofrimento desaparecerá completamente, em que a dor desaparecerá completamente, em que a morte desaparecerá completamente. Aquele que sabe que a agonia existe em benefício do êxtase não ficará agoniado. Aquele que sabe, sente e compreende que o sofrimento existe em benefício da felicidade, jamais sofrerá. É impossível. Ele usa o próprio sofrimento para ser mais feliz, usa a própria agonia como um degrau para o êxtase. Vai além do domínio do mundo, salta para fora da roda de sansara.

“O desabrochar da flor é o momento glorioso no qual a percepção desperta: com ele surge a confiança, o conhecimento, a certeza.”

“...Quando o discípulo está pronto para aprender, então ele é aceito, admitido, reconhecido. Não pode ser de outro modo, pois ele acendeu seu luzeiro e este não pode ser oculto.”

"Estes escritos constituem as primeiras regras que estão escritas nas paredes do Saguão do Saber. Aqueles que procurarem, encontrarão. Aqueles que desejarem ler, lerão. Aqueles que desejarem aprender, aprenderão."

"QUE A PAZ ESTEJA CONVOSCO."

Há mais duas coisas que devem ser entendidas: “O desabrochar da flor é o momento glorioso no qual a percepção desperta: com ele surge a confiança, o conhecimento, a certeza.” A menos que você experimente, não pode ter certeza. A menos que você experimente, não conheceu ainda. A menos que você experimente, não pode haver fé. Antes que você experimente, toda crença é falsa, toda certeza é apenas fachada, todo conhecimento é apenas informação e nada mais. Lembre-se: antes de experimentar alguma coisa por si mesmo, não esteja tão seguro dela, pois certeza em demasia é apenas um truque da mente para ocultar a incerteza interior. Antes de vivenciar alguma coisa por si mesmo, não diga que a conhece, porque seu conhecimento é apenas um truque para ocultar sua ignorância.

Você pode ter lido o Gita, pode ter lido o Alcorão, pode ter lido a Bíblia. Então você sabe “a respeito de”, mas não sabe de verdade. Pode saber muito a respeito de Deus, mas isso não significa nada, a menos que você conheça Deus. Saber “a respeito de” não é conhecimento. Você pode saber o que Jesus disse, mas isso é emprestado, secundário, inútil. Você pode repetir o que Krishna disse, mas isso é apenas mecânico. Você pode memorizá-lo, pode sabê-lo de cor, mas nunca estará em seu coração; permanecerá na memória. A memória é mecânica; não é conhecimento. O conhecimento surge somente através de sua própria experiência. Insista em sua própria experiência. Se você insistir, conseguirá.

"Aqueles que procurarem, encontrarão." Mas você nunca procura; contenta-se com um conhecimento emprestado. Nunca diz: “Preciso conhecer por mim mesmo.” Se você procurar, a existência estará pronta para lhe dar; mas você se contenta com livros, com escrituras, com informação de empréstimo. Nunca procura o verdadeiro conhecimento. Procure o real. E o real significa a sua experiência, a sua própria experiência. Os Budas não são de nenhuma ajuda. Podem apenas mostrar o caminho, mas você precisa andar com seus próprios pés. Insista em conhecer por si mesmo, em sua própria experiência. Não se contente antes disso.

"Aqueles que desejarem ler, lerão." Se você insistir muito em ler as leis supremas, elas se revelarão a você. A Bíblia verdadeira não se encontra na Bíblia, o Alcorão verdadeiro não se encontra no Alcorão, o Gita verdadeiro não se encontra no Gita. A Bíblia verdadeira, ou o Alcorão, ou o Gita, estão escritos na existência, na própria vida. Se você não acreditar nas escrituras, as escrituras verdadeiras se revelarão a você.

Insista: “Quero ler a existência”, e a ocasião lhe será dada. Mas se você não insistir, se se contentar em carregar um livro morto, então a existência não se imporá. A existência é absolutamente não-violenta; ela não se impõe a você. Você pode continuar com suas escrituras e, se está feliz, ótimo. Mas você está vivendo num mundo falso, está vivendo no mundo das palavras. Abra o livro da existência. Jogue fora todas as escrituras para que a escritura verdadeira possa ser encontrada.

"Aqueles que desejarem aprender, aprenderão." Aprender é difícil porque aprender significa render-se, aprender significa entregar-se, aprender significa tornar-se semelhante a um útero, tornar-se feminino, permitindo que a existência entre em você. Porém, aqueles que desejarem aprender, aprenderão. Nós também desejamos, mas não aprender. Desejamos coletar mais informações. Isso não é aprender.

Muitas pessoas me procuram e dizem: “Vamos aos campos de meditação porque aqui conhecemos muitas coisas novas.” Elas coletam informação, coletam algumas palavras e então partem felizes. São pessoas tolas. E sua felicidade é suicida, porque tudo o que digo não será de nenhuma utilidade se você não o vivenciar.

Você pode carregar minhas palavras. Mas estará carregando um peso morto. Ele o oprimirá; você não será livre. Minhas palavras não podem libertá-lo. Ao contrário: podem aprisioná-lo, podem tornar-se grilhões para você. Teria sido melhor se você não tivesse vindo. Tudo o que digo, seja o que for, não é para ser lembrado. É para ser vivido. E se você o vive, torna-se seu. Então essas palavras não me pertencem mais. Agora, aquela experiência tornou-se a sua própria experiência. Agora, você conhece alguma coisa através de seus próprios olhos, sente alguma coisa através de seu coração. Isto é conhecimento. E isso proporciona certeza e fé.

"Que a paz esteja convosco" – pois somente na paz o divino torna-se possível.


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terça-feira, abril 17, 2018

Fragmentos Sem Coerência

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- OSHO


"Toda a natureza humana precisa ser usada sabiamente por aquele que deseja ingressar no caminho. Cada homem é, absolutamente por si mesmo, o caminho, a verdade e a luz. Busque-a pelo estudo das leis da existência, das leis da natureza, das leis do sobrenatural: e busque-a através da profunda reverência da alma à pequena estrela que ilumina o interior. À medida que você observar e venerar essa luz, com serenidade e firmeza, ficará mais forte. Então você saberá que encontrou o início do caminho. E quando encontrar o fim, sua luz se transformará, repentinamente, na luz infinita."

“...Não se apavore nem se aterrorize diante da escuridão interior; mantenha seus olhos fixos na pequena luz e ela crescerá. Mas permita que essa escuridão o ajude a compreender o desamparo dos que não vêem a luz, cujas almas se encontram em profunda depressão.”

"Toda a natureza humana precisa ser usada sabiamente por aquele que deseja ingressar no caminho." Isso é muito significativo. Você todo precisa ser usado. Qualquer fragmento que for usado criará um problema, qualquer fragmento que não for usado criará um problema.

Você pode rejeitar alguma coisa em seu interior, mas, nesse caso, nunca será um homem total. Você pode rejeitar a raiva, por exemplo; ou o sexo, por exemplo. Muitos mestres, muitas religiões, ensinam que se deve rejeitar o sexo. Dizem que o sexo é o inimigo: “Rejeite-o!” Você pode rejeitá-lo, mas estará rejeitando uma parte bastante significativa do seu ser. E se você a rejeita, como ela poderá ser transformada? Assim, você sempre será um homem pela metade. Seja o que for que você se torne, você nunca será total. E, não sendo total, você nunca poderá ser livre. A parte rejeitada se vingará. A parte reprimida continuará borbulhando em seu interior, tentando encontrar uma saída, e você estará sempre inquieto.

A sabedoria dos antigos diz: “Use toda a sua energia. Crie uma harmonia em seu interior.” Cada energia pode ser tanto destrutiva como criativa. Não há nada que seja mau em si mesmo. Cada coisa pode ser usada de tal modo que até mesmo o veneno pode tornar-se um remédio. A sabedoria nunca rejeitará coisa alguma. Ela usará tudo de um modo criativo. Usará a sua raiva, o seu sexo, o seu ódio.

Como você pode usá-los? Como você pode usar o seu sexo? Ele parece ser o seu inimigo mortal. Como você pode usá-lo?

Três coisas significativas devem ser lembradas. Em primeiro lugar, por que essa ânsia pelo sexo? Por que o desejamos ardentemente? O que ganhamos através dele? Observe-o. Em breve, à medida que a observação se aprofundar, o sexo se dissolverá.

Qual é o verdadeiro significado disso tudo? Por que você deseja tanto o sexo? Porque ele lhe proporciona um momento de profunda meditação. Ele é um processo natural de meditação. No sexo, seus pensamentos cessam, sua mente se dissolve; por um instante, você não se encontra mais na mente. Você está ali, sem a mente. Essa ausência de mente lhe proporciona um vislumbre da bem-aventurança.

Observe o sexo; não o rejeite. Conheça-o. Entre nele com plena consciência e procure descobrir o que ele é, em sua essência. Você chegará até essa essência: o sexo lhe proporciona uma espécie de instante de meditação natural. Você fica sem pensamentos, e isso lhe traz bem-aventurança. A partir do momento em que você descobrir essa essência, poderá entrar nesse estado sem pensamentos, sem precisar do sexo. Essa essência, esse centro profundo, poderá ser alcançado sem a necessidade de sexo. Então, aos poucos, o sexo desaparecerá. A partir desse momento, a mesma energia se moverá para a meditação, a mesma energia se tornará espiritual.

Toda energia precisa ser usada sabiamente. Nada deve ser rejeitado. Essa é uma das coisas fundamentais que ensino: nada deve ser rejeitado, nada, seja o que for. Você tem de ingressar na espiritualidade com o seu ser total. Nós transformaremos as suas energias, transformaremos a sua disposição. Faremos novas disposições, novas harmonias. Novas sintonias serão criadas, mas nada será rejeitado.

Neste exato momento, você é um quebra-cabeça: fragmentos sem nenhuma coerência, sem nenhuma unidade interior. E cada fragmento está lutando com um outro. Você é uma multidão; muitas notas musicais, mas nenhuma melodia. Essas notas podem ser dispostas numa melodia. E a menos que você faça isso, permanecerá na miséria.

Este sutra diz: "Toda a natureza humana precisa ser usada sabiamente por aquele que deseja ingressar no caminho." Se você quer realmente ingressar no caminho que conduz ao supremo, tem que usar toda a sua energia. Nada pode ser reprimido ou rejeitado. Cada coisa precisa ser aceita com profunda gratidão.


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