"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, maio 10, 2018

O Caminho Foi Encontrado


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"Tendo adquirido o uso dos sentidos internos, tendo vencido os desejos dos sentidos externos, tendo vencido os desejos da alma individual, e tendo adquirido conhecimento, prepare-se agora, ó discípulo, para entrar realmente no caminho. O caminho foi encontrado: esteja pronto para trilhá-lo."

Tendo adquirido o uso dos sentidos internos... Conhecemos a respeito de nossos sentidos externos, mas cada sentido possui uma dupla dimensão. Por exemplo, os olhos. Eles podem olhar para fora. Esta é apenas uma dimensão de sua função. Eles podem também olhar para dentro. Esta é sua outra função. Ou os ouvidos. Você pode ouvir o que está acontecendo no exterior. Esta é uma função, uma dimensão. Você pode também ouvir o que está acontecendo no interior. Esta é a outra função, a outra dimensão.

Cada sentido possui duas portas. Uma se abre para o mundo exterior; a outra se abre para o mundo interior. Cada sentido é tanto externo como interno, mas usamos nossos sentidos somente de uma única maneira. Tornamo-nos fixos; esquecemos que esses mesmos sentidos podem ser usados para se alcançar o interior.

Tendo adquirido o uso dos sentidos internos... Tendo adquirido as dimensões ocultas dos sentidos, muitas coisas podem tornar-se possíveis. Um novo mundo se abre diante de você. O interior é tão vasto quanto o exterior, o interior é tão imenso quanto o exterior. Você se encontra exatamente no meio: encontra-se entre o universo interior e o universo exterior.

O exterior é vasto. Dizem que é infinito, sem fim, sem começo – que não há limites para ele. A mesma coisa também é verdadeira para o interior. Nenhum limite. O espaço interior é, por sua vez, infinito. O exterior está sendo pesquisado por métodos científicos. O interior pode ser pesquisado através de métodos iogues.

A ciência se desenvolveu bastante e adquiriu um imenso conhecimento a respeito do mundo exterior. Mas o mundo interior foi esquecido; não se pensa mais nele. Atualmente, somos ricos no que diz respeito ao mundo exterior, às experiências exteriores, e tornamo-nos absolutamente pobres, mendigos, no que diz respeito ao interior. Mas qual a vantagem de conquistar o mundo exterior se, ao conquistá-lo, você perde a si mesmo? Perdendo-se a si mesmo, o que se ganha? Mesmo se você conquistar o mundo todo, nada será ganho. Se você perde a si mesmo, então, o próprio sentido da vida, sua própria significação, a beleza, a verdade, o bem, tudo é perdido. O homem pode acumular coisas, acumular poderes, à custa de perder a si mesmo. Então, o ponto fundamental é perdido.

A ciência tenta ampliar os sentidos externos. Hoje em dia, através de aparelhos mecânicos, podemos olhar para o espaço longínquo. Os olhos são ampliados pelo método científico. Podemos, atualmente, ouvir a longas distâncias. A tecnologia científica amplia nossos ouvidos.

A mesma coisa também é possível para os sentidos internos. Através da meditação, da ioga, do tantra – tecnologias internas – seus sentidos internos são ampliados. E, uma vez ampliados, muitas coisas são reveladas a você.

A menos que elas lhe sejam reveladas, sempre parecerão ser mitos, superstições. Ouvimos e lemos muitas coisas sobre Buda, Jesus, Krishna, nas quais não conseguimos acreditar. Maomé, Zaratustra, Moisés – todos eles parecem, hoje, mitológicos, porque tudo o que eles dizem não podemos experimentar por nós mesmos. Perdemos o contato. Moisés diz que ouviu a voz de Deus no Monte Sinai. Como podemos acreditar nisso? Jamais ouvimos algo semelhante.

Se você for a uma tribo primitiva e contar que, através do rádio, podemos ouvir vozes emitidas a partir de enormes distâncias, as pessoas dessa tribo não poderão acreditar nisso. Ou, se você contar-lhes que, pela televisão, vemos imagens de coisas que estão acontecendo em lugares bastante distantes, eles não acreditarão, porque nunca experimentaram tal coisa.

Do mesmo modo, tornamo-nos primitivos no que diz respeito ao interior. Moisés diz que ouve Deus. Jesus conversa com seu pai que está no céu. Aos nossos olhos, eles parecem neuróticos. Devem ser loucos. Há muitos estudos sobre Jesus, estudos psicológicos, que afirmam que ele deve ter sido insano. “O que ele quer dizer com conversar com Deus? Onde está Deus? Como você pode conversar com ele? E como pode Deus conversar com você? Jesus deve ter sido insano. Deve ter tido algumas alucinações e deve ter acreditado nelas. Era um neurótico.” Ele parece um neurótico porque nos tornamos primitivos no que diz respeito ao mundo interior.

Se seus sentidos forem apurados, se seus sentidos interiores estiverem vivos, se você chegar a conhecer o modo de usá-los, poderá também entrar em sintonia com o divino. Você poderá ouvir, poderá escutar, poderá ver, poderá entrar em contato com os mistérios. Eles existem sempre. Moisés não é um neurótico – nós é que nos tornamos primitivos. Jesus não é um louco – nós é que perdemos o contato com o interior.

Tendo adquirido o uso dos sentidos internos, tendo vencido os desejos dos sentidos externos... Porque, se os desejos dos sentidos externos ainda estão vivos, você não pode se mover para dentro. Desejo significa o modo de se ir para fora; o desejo é o caminho que leva para fora. Se sua mente ainda está desejando, você não pode se mover para dentro.

É por isso que há tanta insistência no estar-sem-desejo. Não se trata de um conceito moral. O estar-sem-desejo é um conceito científico. Se você quer se mover para dentro, sua mente precisa perder todo o desejo de se mover para fora. De outro modo, como você pode se mover para dentro? É pura matemática. Se você quer ir para a esquerda, precisa abandonar o desejo de ir para a direita. Caso contrário, uma perna se move para a direita, enquanto a outra se move para a esquerda. Você enlouquecerá; ficará insano. É impossível se mover em duas direções ao mesmo tempo. O desejo leva para fora. O estar-sem-desejo, para dentro.

"...tendo vencido os desejos externos, tendo vencido os desejos da alma individual...". Se você ainda é egocêntrico, pensa sempre em função de seu próprio ego; pensa sempre em função de sua própria individualidade, de seu próprio interesse. Nesse caso, as mais profundas verdades da existência não lhe podem ser reveladas. Você não está pronto para elas; não é digno delas. Além disso, essa revelação, nesse momento, pode ser perigosa. Tente entender isso.

A ciência, por exemplo, conseguiu compreender atualmente alguns mistérios básicos a respeito da matéria. A ciência forçou a matéria a lhe revelar alguns segredos a respeito da energia atômica. Isso tornou-se destrutivo. O homem ainda não está pronto, ainda não é digno de conhecer um segredo tão poderoso. A ciência forçou a matéria. A ciência é agressiva.

Atribuem-se a Einstein as seguintes palavras: “Se eu nascesse de novo, não desejaria ser um cientista. Preferiria ser um encanador. Tudo o que fiz é destrutivo. Tudo o que revelei, durante toda minha vida, é inútil e nocivo. Tudo indica que poderei ser uma das pessoas responsáveis pela destruição de toda a humanidade.”

Seus últimos dias foram de profundo sofrimento. Um segredo havia sido revelado, mas a humanidade ainda não estava pronta, ainda não era digna dessa revelação. O homem ainda é infantil, estúpido, tolo. Esse imenso poder – a energia atômica – não lhe podia ser entregue.

Mas agora os políticos se apoderaram do segredo. E os políticos só podem ser estúpidos, não podem ser outra coisa, porque qualquer pessoa que tenha ambições políticas é egoísta. O desejo de conquistar o poder é o desejo do ego, e o ego é a coisa mais estúpida que pode haver. Obriga-o a fazer qualquer coisa; o ego é louco. A ambição política é uma obsessão do ego.

Os cientistas descobriram alguns segredos e os políticos se apoderaram desses segredos. Então eles destruíram Hirochima e Nagazaki. E agora, estão prontos para destruir todo o planeta. A Terra inteira pode ser destruída a qualquer momento. Temos atualmente mais forças destrutivas do que seria necessário para destruir a Terra; temos sete vezes mais. Podemos destruir sete Terras iguais a esta; esta não é nada. E estamos desenvolvendo mais e mais poderes destrutivos. Para quê? Por que há tanto desejo de morte e destruição? Einstein diz que foi uma tolice da parte dos cientistas forçar a natureza a revelar certos segredos, dos quais o homem ainda não era digno. Mas você pode fazê-lo, porque a matéria pode ser violentada.

Você não pode fazê-lo interiormente. A consciência não pode ser forçada. Nenhum segredo interior lhe pode ser revelado, a menos que você esteja pronto para isso. A não ser que ele seja benéfico a você e aos outros, não pode ser revelado. Assim, este sutra diz, "tendo vencido os desejos da alma individual" – a ambição, o ego, o desejo de poder, a ideia de se considerar o centro do universo –, a menos que você tenha vencido esses desejos, os segredos mais profundos da consciência não lhe podem ser revelados.

"...tendo vencido os desejos da alma individual, e tendo adquirido conhecimento, prepare-se, agora, ó discípulo, para entrar realmente no caminho." 

Tudo aquilo com o que nos ocupamos até agora foi um trabalho dedicado à consciência: à sua própria consciência, à consciência subjetiva. Até o momento, todos os sutras eram para trabalhar, atuar, alterar, transformar, mudar a consciência subjetiva. Quando alguém se torna totalmente consciente de seu mundo subjetivo, pode entrar na realidade.

Lembre-se disto: se você se move para dentro, move-se para o subjetivo; se você se move para fora, move-se para o objetivo. E se você se move para além de ambos, move-se na realidade. O objetivo não é realidade; o objetivo é apenas uma parte da realidade. O subjetivo também não é a realidade. Ele é, por sua vez, uma parte da realidade. Quando a subjetividade e a objetividade são, ambas, transcendidas, você entra na realidade.

Se você usar seus sentidos para a jornada exterior, alcançará os objetos. Se usar seus sentidos para a jornada interior, alcançará o sujeito, o conhecedor. Através do exterior, o objeto: o conhecido. Através do interior, o conhecedor: o sujeito, o eu. Mas cada um deles é apenas uma parte. A realidade consiste em ambos.

De fato, os dois são um. A isso denominamos brahma: a realidade suprema. Você não pode entrar na realidade suprema através do objeto ou através do sujeito. Precisa perder os dois. É por isso que para conhecer a alma você precisa usar os sentidos internos, e para conhecer a matéria precisa usar os sentidos externos; mas para conhecer brahma não precisa usar nenhum sentido, seja externo, seja interno. Se você quer entrar na realidade suprema, os sentidos precisam ser totalmente abandonados, tanto os externos quanto os internos. Sem os sentidos, entra-se na realidade.

É por isso que Shankara não pode admitir que a ciência conheça a realidade. Ele diz que a ciência conhece apenas o objetivo. E ele não pode admitir que aqueles que defendem a inexistência de brahma conheçam a realidade, porque conhecem apenas o eu subjetivo. Somente aqueles que vão além de ambos – além dessa dualidade de sujeito-e-objeto – conhecem a verdade suprema.

"... prepare-se, agora, ó discípulo, para entrar realmente no caminho. O caminho foi encontrado: esteja pronto para trilhá-lo."

"Pergunte à terra, ao ar e à água, a respeito dos segredos que eles guardam para você."

Se você está disposto a abandonar as distinções entre o objetivo e o subjetivo, pode perguntar diretamente. 

"Pergunte à terra, ao ar e à água, a respeito dos segredos que eles guardam para você."

Você pode perguntar diretamente aos elementos. Se você está disposto a abandonar a divisão entre o sujeito e o objeto, se está disposto a abandonar todos os pensamentos, se está disposto a abandonar sua mente, sua ação mental, se está disposto a abrir espaço em você e se tornar vazio, pode perguntar aos elementos a respeito dos segredos que eles reservam para você.

E que segredos eles guardam? Buda aconteceu neste mundo. Ele está registrado na terra, no ar, na água, no céu, no espaço, em todas as coisas. O acontecimento de um Buda é um fenômeno tão imenso que o universo registra como ele acontece. Krishna dançou nesta terra. Ele está registrado. O próprio fenômeno é tão culminante que a terra não pode esquecê-lo, o céu não pode esquecê-lo. Eles o registram. Tudo o que acontece de tamanha magnitude é registrado pelos elementos.

Você pode perguntar diretamente. Se você se encontra totalmente vazio, pode perguntar diretamente, e a terra revelará seus segredos. Se Krishna proferiu realmente o sermão do Gita no campo de batalha de Kurukshetra, isso deve estar oculto em alguma parte do ar, no coração do ar. Se você está pronto, se você merece, o ar pode lhe revelar as mais secretas doutrinas.

Você se sentirá muito estranho quando isso lhe for revelado, sentir-se-á muito confuso, porque o Gita que foi registrado pelo homem nada significa; está profundamente errado. Muitas coisas foram projetadas nele, muitas coisas foram suprimidas dele. Ele não é a coisa real; é apenas um registro humano. E é natural à mente humana errar.

Mas as forças elementares da natureza também registram, e seus registros são absolutamente verdadeiros, porque não há nenhuma mente que interprete, altere, acrescente ou suprima. O mais puro está ali registrado. Se Maomé falou, se Jesus falou, isso está registrado ali. A Terra não pode perder o contato com seres tão altamente evoluídos, tão altamente desenvolvidos, com seres transformados. Ela não pode perder o contato com eles; o contato permanece. Ele pode ser revelado a você. O desenvolvimento de seus sentidos interiores fará com que você se torne capaz de penetrar nisso.

"Pergunte aos santos da Terra a respeito dos segredos que eles guardam para você. A conquista dos desejos dos sentidos externos lhe fornecerá esse direito."

"Pergunte aos santos da Terra a respeito dos segredos que eles mantém para você." Nós existimos no corpo, mas há muitos santos ao seu redor que existem num estado incorpóreo. O espírito humano pode existir tanto num corpo como numa forma não-corpórea. A forma não-corpórea ainda faz parte do universo; ainda está no mundo. Não escapou dele; a liberação não aconteceu ainda. Essa forma incorpórea está sujeita a voltar, tende a voltar. Simplesmente aguarda pelo útero certo.

Há muitos mestres sagrados que existem numa forma não-corpórea, que não estão totalmente iluminados. Quando um ser se ilumina totalmente, ele desaparece do corpo e da própria forma. Desaparece completamente; dissolve-se na fonte do mundo. Buda, Jesus – eles se dissolveram, regressando à Fonte original. Porém, há muitos outros que não estão totalmente iluminados, mas que chegaram a conhecer muitas coisas, a compreender muitas coisas belas, muitas verdades (mas não “a” verdade). Eles compreenderam muitas, muitas coisas e alcançaram um certo nível. Eles não estão iluminados, mas alcançaram um certo nível. Por isso, são denominados “santos”. Eles podem ajudá-lo muito. Se você está aberto a eles, pode entrar em contato com eles. Na teosofia, eles são denominados “os Mestres”.

O livro Luz no Caminho foi ditado pelos Mestres a Mabel Collins. Os Mestres conhecem muitos segredos que desapareceram da Terra, dos registros da humanidade, ou foram distorcidos. Ou simplesmente não podemos lê-los porque a linguagem foi esquecida. Ainda não é possível saber o que está escrito na cultura Harappa Mohenjodaro. Continua a ser um segredo. Sabemos que alguma coisa está escrita, mas o que está escrito não sabemos. A forma permanece, mas as chaves estão perdidas. Conhecemos muitas escrituras de diversas culturas, mas a linguagem se perdeu.

Esses santos podem revelar muitas coisas que permanecem conservadas. Eles podem fazer-nos lembrar. Você pode entrar em contato com elas se estiver silencioso, inocente, movendo-se para dentro. Se você está usando seus sentidos internos, pode entrar em contato com eles e sua vida pode ser transformada muito facilmente. Você, sozinho, pode levar muitas vidas para alcançar a meta; mas, com esses santos, isso pode se tornar mais fácil.

E há muitos deles. Você precisa apenas estar aberto, sem medo, disposto a receber a orientação, e então a orientação lhe será dada. Mas antes que possa recebê-la, você precisa predispor-se à receptividade, à profunda receptividade. Através da meditação, essa receptividade se manifestará em você. E não há outro caminho. Apenas através do silêncio você se tornará capaz de ouvir alguma coisa que venha do além.

Lembre-se constantemente de uma coisa: você precisa se tornar cada vez mais silencioso e concentrado em seu interior. Sempre que tiver algum tempo, feche os olhos e mova-se para dentro. Não se ocupe quando não houver nenhuma ocupação, não permaneça ocupado desnecessariamente.

Vejo pessoas que estão desnecessariamente atarefadas. Tenho visto pessoas que leem o mesmo jornal várias vezes. Elas não têm nada para fazer, então leem o mesmo jornal repetidas vezes. Não podem permanecer vazias, não podem permanecer desocupadas. Ser meditativo significa aprender a permanecer desocupado, vazio.

Feche os seus sentidos externos e dirija-se para dentro. Utilize qualquer tempo que encontrar para isso, e logo chegará o dia em que isso se tornará tão fácil quanto entrar e sair de sua casa. Você sai de sua casa sem nenhuma dificuldade; você volta para sua casa sem nenhuma dificuldade. Você não precisa nem sequer pensar a respeito de como sair e entrar. Você sai quando precisa sair; entra quando precisa entrar. O fenômeno de ir para dentro de si mesmo torna-se igualmente simples se você o praticar. Então, você pode saltar para fora a qualquer momento, e pode saltar para dentro a qualquer momento.

E, uma vez que você se torna capaz desse simples movimento, torna-se livre. Então, o mundo não pode perturbá-lo. Nada pode perturbá-lo, porque nada o atinge quando você se encontra em seu centro mais profundo. Quando você está na periferia, o mundo o atinge. Quando está no centro, você está além do mundo.


segunda-feira, maio 07, 2018

Soltar as Amarras da Personalidade

Osho Video DVDs
- OSHO - 


"Respeite mais intensamente o seu coração."

"Pois através do seu coração surge a única luz que pode iluminar a vida e torná-la clara a seus olhos."

“... Só uma coisa é mais difícil de se conhecer: o seu coração. Antes que as amarras da personalidade sejam soltas, o profundo mistério do Eu não pode começar a ser visto. Enquanto você não sair do caminho, ele não se revelará, de modo algum, à sua compreensão. Só então, e jamais antes, você poderá apreendê-lo e governá-lo. Só então, e jamais antes, você poderá usar todos os seus poderes e devotá-los a um trabalho valioso.”

A coisa fundamental a ser entendida é que você não pode conhecer sua própria natureza, seu próprio coração, seu próprio ser, por causa de sua personalidade, por causa de uma entidade falsa que você criou ao seu redor. Vivemos encerrados dentro de personalidades. As personalidades são falsas. Elas são, simplesmente, máscaras, fachadas a serem mostradas aos outros. Mas esse hábito torna-se tão arraigado que você se esquece completamente de sua face original. Mostrando suas falsas faces aos outros, aos poucos você se identifica com elas e começa a pensar que elas são as suas faces. Então sua face original, sua face real, permanece oculta.

O que quer que você faça, como quer que você aja, seja o que for que você diga, lembre-se sempre de ver se isso vem de seu coração ou de sua personalidade. Distinga claramente. Isso lhe será de grande auxílio na busca interior.

Quando você diz a alguém: “Eu te amo” – de onde estão vindo estas palavras? De onde? Qual é a sua origem? Estão vindo do seu coração? Seu coração está realmente repleto de amor? Ou estão vindo meramente de sua personalidade, de sua face falsa? Você as está dizendo apenas de um modo polido, como uma formalidade, uma etiqueta, ou as está dizendo para expressar algo mais?

Por exemplo, se você se sente magoado, triste interiormente, mesmo assim, você continua a sorrir. Considere se o seu sorriso é apenas um sorriso pintado em seus lábios, um exercício dos lábios ou se ele nasce lá dentro e se espalha pelos lábios. A fonte se encontra em algum lugar lá dentro, ou não há nenhuma fonte, e ele é apenas um sorriso pintado? Quando você sorrir, observe o seu sorriso e poderá saber se ele é falso ou real.

Quando alguém está triste, ou sofrendo, por ter perdido um amigo, a namorada, o marido ou a esposa, aproxime-se dele. Você se mostrará triste e pesaroso. Lembre-se, e observe profundamente em seu interior, se essa tristeza é real, ou se você está apenas aparentando-a enquanto no fundo está enfadado, tentando descobrir uma desculpa para ir embora, ou está pensando em outras coisas e não está de modo algum interessado na pessoa: em seu sofrimento, em sua mágoa. Fique observando isso e conhecerá duas camadas diferentes das personalidades em seu interior. A camada falsa é a personalidade.

A palavra “personalidade” é muito significativa. Ela se origina da palavra grega persona. Persona significa “máscara”. Nos dramas gregos, os atores usavam máscaras, faces falsas. Essas faces falsas eram chamadas personae. E foi dessa palavra que se originou a palavra “personalidade”. Ela é perfeita. Significa que você está agindo com uma face falsa. Ela não é você. Você está se ocultando por trás da face falsa, porque não pode revelar a sua verdadeira face.

Não estou dizendo para você sair por aí mostrando sua verdadeira face por toda parte. Não é necessário. Em alguns lugares, a persona é necessária. Mas deve ficar claro que, nesses casos, trata-se da persona, não se trata de você. Interiormente, você precisa saber quando está representando e quando é verdadeiro. Você não deve se deixar enganar por sua representação! Não deve se identificar com a sua representação! Eu sei que as faces são necessárias. De outro modo, seria difícil viver em sociedade, muito difícil. De certo modo, as faces são boas. Elas facilitam, servem para lubrificantes. E numa grande sociedade, com tantas pessoas, você não precisa revelar sua realidade por toda parte.

Alguém se encontra com você pela manhã. Você se sente incomodado com esse encontro. Você pensa: “Por que tenho de ver esse homem esta manhã? Sua presença pode estragar todo o meu dia.” Mas, exteriormente, você sorri e diz: “Bom-dia. Fico feliz em vê-lo.” Interiormente, você não está de modo algum feliz!

Contudo, no que se refere à educação, não há nada de errado nisso. Não seria adequado dizer ao homem: “Sinto-me totalmente infeliz. Você estragou a minha manhã. Sua presença é um infortúnio. Receio que, pelo fato de tê-lo visto, meu dia esteja arruinado.” Isso não seria adequado. Desnecessário. Iria perturbar desnecessariamente o outro homem. Não há necessidade disso.

Mas você precisa saber o que é uma máscara e o que é real. Precisa estar ciente daquilo que está acontecendo dentro. O que acontece no interior é o seu ser real e o que acontece na superfície é apenas uma utilidade social. Se você pode fazer uma distinção nítida entre você e sua personalidade, então a personalidade torna-se como uma roupa. Você pode abandoná-la a qualquer momento e ficar nu.

Se você pode abandoná-la, isso significa que você está tão preso a ela que não consegue distinguir-se dela, separar-se dela; não há nenhuma distinção. Essa distinção é necessária para que, pelo menos em seu quarto, em seu banheiro, você possa colocar sua personalidade de lado e tornar-se real; pelo menos em meditação, você pode jogar sua personalidade fora e tornar-se real. Ali ela não é necessária.

A meditação não é social. Ela não diz respeito a ninguém mais; só diz respeito a você mesmo. Assim, nenhuma máscara é necessária; você pode ser autêntico. Mas você não pode ser autêntico porque não conhece a distinção. Até mesmo ao meditar, eu sinto que você está fazendo muitas coisas falsas.

Freud se conscientizou – quando iniciou a psicanálise ele ainda não havia se conscientizado disso, mas, aos poucos, percebeu que os pacientes diziam coisas que não eram verdadeiras, apenas para deixá-lo feliz, para confirmar suas teorias porque, quando Freud ficava feliz, eles também ficavam felizes – somente depois de vinte anos de psicanálise foi que ele se conscientizou de que o que os pacientes diziam não era verdadeiro.

Por exemplo: Freud diz que o sexo é a raiz de toda perturbação mental. Os pacientes iam vê-lo e contavam-lhe a respeito de suas perturbações. Então eles revelaram que o sexo era a raiz de suas perturbações. Freud pensava que suas teorias estavam sendo confirmadas por centenas e centenas de exemplos. Só mais tarde, ele se conscientizou de que muitos de seus pacientes estavam mentindo, apenas para deixá-lo feliz, para confirmar sua teoria.

Às vezes, eu sinto a mesma coisa. Quando digo: “Fique louco!” – e você fica louco, sei que você está fazendo isso apenas para me deixar feliz. Mas não há necessidade. Eu já sou muito feliz! Não há necessidade. Não faça nada que não seja verdadeiro, pelo menos em sua meditação – porque ela só diz respeito a você.

Tillich disse, em algum lugar, que a religião é algo que diz respeito ao indivíduo, é um assunto totalmente pessoal de cada um consigo mesmo. Ela não diz respeito a ninguém mais. A religião é individual; portanto, durante a meditação, você não precisa se preocupar com mais ninguém, nem mesmo comigo. Seja verdadeiro. Jogue fora suas máscaras. Qualquer coisa autêntica o ajudará a mover-se para dentro, qualquer coisa não verdadeira o ajudará a mover-se para fora.

Essa é a razão pela qual Shankara chama o mundo de ilusão. Quanto mais você se move para fora de si mesmo, tanto mais você se move na ilusão; e quanto mais você vai para dentro, mais você se move na realidade. Sua personalidade é a porta para a ilusão, para um mundo irreal de sonhos. Livre-se dessa parte, livre-se completamente dessa ponte. Pelo menos na meditação.

Não estou lhe dizendo para ser autêntico ao comportar-se na sociedade. Você ficará em dificuldades. Se tiver vontade de fazê-lo, pode fazê-lo, mas não estou pedindo isso; não me responsabilize. A sociedade lhe criará problemas. Ela não quer as suas faces verdadeiras; quer as suas faces falsas.

Mas, no que se refere à sociedade, não há nenhum problema quanto à isso. Use uma face falsa quando se dirigir para fora, mas quando se dirigir para dentro livre-se completamente dessa face. Não permaneça identificado com ela, não a carregue para dentro. Um dia poderá vir no qual você se tornará tão forte que até mesmo na sociedade você gostará de se comportar com sua face verdadeira, mas isso depende de você. Primeiro olhe para dentro e, pelo menos momentaneamente, coloque de lado sua personalidade.

"Pois, através de seu coração, surge a única luz que pode iluminar a vida e torná-la clara a seus olhos."

“... Só uma coisa é mais difícil de se conhecer: o seu coração. Antes que as amarras da personalidade sejam soltas, o profundo mistério do eu não pode começar a ser visto.”

A personalidade age como uma barreira e a luz de seu coração não pode chegar até você. Desfaça-se da personalidade, mesmo que momentaneamente, temporariamente, e a luz o inundará, e você penetrará num mundo diferente: o mundo do coração.

“Enquanto você não sair do caminho, ele não se revelará, de modo algum, à sua compreensão.”

Você precisa se colocar de lado: sua personalidade, seu ego.

"Enquanto você não sair do caminho, ele não se revelará de modo algum à sua compreensão. Só então, e jamais antes, você poderá apreendê-lo e governá-lo. Só então, e jamais antes, você poderá usar todos os seus poderes e devotá-los a um trabalho valioso.”

E enquanto você mesmo não entrar em profundo contato com o âmago do seu coração, não poderá fazer nada que seja bom, que seja valioso. Não poderá prestar nenhuma ajuda a ninguém. Tudo o que você fizer, mesmo que seja com boa intenção, criará o mal, porque aquele que faz o mal é ignorante. O que você faz não é importante. Mais importante é quem você é.

Se você é ignorante, se vive em total escuridão – se a luz do coração não penetrou em você, ainda não o preencheu – você pode ter boas intenções, boa vontade, mas tudo o que fizer resultará em mal, porque nada de bom pode vir de um coração escuro. Assim, não tente prestar nenhuma ajuda a alguém, a menos que você tenha alcançado a luz interior. Então, toda a sua vida tornar-se-á uma ajuda. Não haverá mais necessidade de fazer disso um dever; você não ajudará mais a alguém por mera obrigação. Então, a ajuda fluirá espontaneamente de você.

E quando a ajuda se torna espontânea, isenta de qualquer noção de dever, quando ela se torna amor, você não pode fazer outra coisa senão ajudar; quando não há a preocupação de fazer os outros felizes, quando, na verdade, ocorreu o contrário: você está tão feliz que agora a felicidade transborda de você e atinge os outros – só então tudo o que você fizer terá bons resultados.

Se você está repleto de luz, de felicidade, o bem acontece, sem que qualquer boa vontade se faça necessária. Contudo, boa vontade em demasia, sem que haja luz interior, pode ser perigosa aos outros. As pessoas que se ocupam em ajudar os outros, sem possuírem qualquer sadhana interior, criam muito mal. Toda a sociedade está sofrendo por causa dessas pessoas que se põem a ajudar os outros sem terem, de algum modo, realizado sua própria luz interior. Lembre-se disto: a primeira coisa é a sua própria auto-realização. Ajudar os outros é secundário. E não pense que, por ajudar os outros, você pode se realizar. É realizando-se que você poderá ajudar os outros, e não o contrário.

“É impossível ajudar os outros antes de ter alcançado algum conhecimento de si próprio. Quando você tiver aprendido as primeiras 21 regras e tiver penetrado no Saguão do Saber com seus poderes desenvolvidos e sua inteligência liberada, então você descobrirá que há em seu interior uma fonte da qual nascerá a fala.”

“...Essas palavras estão escritas só para aqueles que podem ler o que escrevi tanto com o sentido interior como o exterior.”

Lembre-se disto. É impossível ajudar os outros antes de ter alcançado algum conhecimento de si próprio. Resista à tentação de ajudar os outros. Será desastroso, a menos que você tenha algum conhecimento de si próprio. Não tente ser um guru, não tente prestar nenhuma ajuda, porque você causará danos, criará mais problemas. Não se esqueça de que você não pode ajudar, não pode orientar ninguém, a menos que tenha alcançado a luz interior. Quando a luz interior está presente, a ajuda, a orientação, fluirá de você.

Resista à tentação. A tentação é enorme porque o ego se sente muito satisfeito. Alguém lhe pede um conselho. Você é tentado a dar o conselho sem saber o que está fazendo, sem estar consciente de que não sabe. Se alguém lhe pergunta se Deus existe, você não é suficientemente forte para dizer: “Eu não sei.” Você diz alguma coisa. Ou diz: “Sim, Deus existe. Sou um crente” – ou então “Não, Deus não existe. Sou um descrente” – mas, em ambos os casos, você deu a sua opinião. Em ambos os casos, você confirmou algo que não sabe.

Lembre-se disto: trata-se de um ponto básico, muito importante a qualquer buscador espiritual: confirme aquilo que você sabe realmente. Se não sabe, é melhor dizer: “Não sei.”

Uma vez perguntaram a Albert Einstein: “Qual a diferença entre ciência e filosofia?”

Sua resposta foi uma das mais sábias. Ele disse: “Se você procurar um cientista e lhe fizer uma centena de perguntas, para noventa e nove dessas perguntas ele lhe dirá: ‘Não sei.’ Apenas a uma delas ele dirá: ‘Eu sei.’ Contudo, acrescentará: ‘Mas trata-se apenas de um conhecimento relativo. Amanhã ele pode mudar. Não é absoluto. Mas se você procurar um filósofo e lhe fizer uma única pergunta, ele lhe dará uma centena de respostas. E com absoluta convicção de que essas são as respostas corretas. Se alguém der alguma outra, será escorraçado. O filósofo dirá: ‘Ele está errado!’.”

É por isso que a filosofia não leva a parte alguma. Respostas e respostas e respostas não levam a parte alguma. Tantas respostas para não responder nem mesmo a uma única pergunta. Falta o fundamental: o filósofo não é bastante forte para dizer: “Não sei.”

O cientista é mais forte. Ele pode dizer: “Não sei.” E mesmo quando ele diz: “Eu sei” – acrescenta: “Até o momento isto é considerado verdadeiro. Mas nada posso dizer quanto ao amanhã. As coisas podem mudar, muitos fatos novos podem se tornar conhecidos e então a verdade terá de ser reajustada.”

Eu gostaria de dizer que a ioga também é uma ciência; não é uma filosofia. A meditação é uma ciência; não é uma filosofia. Lembre-se disto: não dê nenhuma orientação a ninguém, a menos que você tenha algum conhecimento, alguma experiência. E, mesmo nesse caso, não deixe de dizer aos outros que “essa é a minha experiência. Pode não ser assim para você. É a maneira pela qual eu cheguei a isso. Seu caminho pode ser outro; isto pode não se mostrar verdadeiro para você. Portanto, não siga o meu conselho cegamente. Você pode experimentá-lo. É uma experiência aberta.”

Então você pode ser de alguma ajuda. De outro modo, poderá criar perturbações. Não se deixe levar pelas tentações. Não aconselhe, a menos que saiba realmente. Não oriente. Primeiro, seja um discípulo; não tente ser um mestre. Um dia você será um mestre. Quando tiver se tornado um discípulo total e completo, o mestre emergirá de você. Mas não antes desse momento, não antes desse tempo. Aguarde. O tempo virá.


quinta-feira, maio 03, 2018

Reverenciando a Vida e o Coração dos Homens


- OSHO -


"Respeite intensamente toda a vida que o rodeia."

"...Respeite a vida que o rodeia e que está em constante mudança e movimento, pois ela é formada pelos corações dos homens; e quando você aprender a compreender a constituição e o significado deles, será capaz, gradualmente, de interpretar o mundo mais amplo da vida."

Reverência pela vida, respeito pela vida.

Geralmente, os assim-chamados religiosos são negativos em relação à vida. Eles estão contra a vida. Observe seus rostos, observe seus olhos. Eles condenam todas as coisas. Essa atitude negativa causou em todo o mundo uma negação da vida. A religião parece ter se tornado um aliado da morte e não um amigo da vida. Ela parece ser contra a vida, pois lhe diz constantemente: “Abandone a vida. Transcenda-a. Mova-se na direção da outra vida, que se encontra além desta vida.”

Deus parece não concordar que você seja uma parte da vida. É como se a vida fosse considerada uma punição. “Você está aqui porque pecou. Você não estaria aqui se não houvesse nenhum pecado em sua vida.” Mas essa atitude é inteiramente doentia, patológica. Na verdade, o divino e a vida não são duas coisas. Ao contrário, são uma extensão de um único fenômeno.

Aqui e ali (isto e o além) não são duas coisas. O que está aqui, esta vida, é um degrau na direção do além. Se você negar esta vida, não alcançará a outra – não poderá ir além. Para se ir além disto não é preciso nenhuma negação.

Para se ir além, é preciso uma profunda compreensão desta vida. Como conseguir uma profunda compreensão desta vida? Isso será impossível se você não reverenciar a vida. Reverencie a vida sempre que a encontrar.

Estes sutras são muito significativos. Eles dizem para reverenciar a vida em todas as suas formas, porque quanto mais você a reverenciar mais profundamente poderá ir. Na verdade, Deus não se encontra além desta vida, mas dentro dela. Deus é o centro, o próprio centro, e a vida é apenas a periferia. Penetre profundamente na vida e você chegará ao verdadeiro centro, ao verdadeiro fundamento da própria vida.

Deus não é o criador; ele é a própria criatividade. As concepções cristãs e maometanas a respeito de um “Deus criador” criaram muita confusão. Essas atitudes são um tanto infantis. São admissíveis se você estiver conversando com crianças, mas absurdas se estiver conversando com pessoas de discernimento.

Conclui-se dos dogmas cristão e maometanos que Deus criou o mundo em algum lugar no passado. Ele criou o mundo em seis dias e, no sétimo dia, descansou. E, depois disso, não fez mais nada. O mundo começou a caminhar por si mesmo.

Essa concepção cria uma atitude dividida: que Deus e o mundo são duas coisas diferentes. Isso não é verdade. Deus não criou o mundo tornando-o separado de si mesmo. Ele não é como o pintor que pinta um quadro. O pintor é uma coisa e o quadro é outra. A concepção hindu é mais profunda. Ela diz que Deus não é como um pintor, mas sim como um dançarino: Shiva, o dançarino.

Deus é semelhante a um dançarino – porque a dança e o dançarino não são dois. Você não pode separá-los. O pintor pode ser separado da sua pintura, mas o dançarino não pode ser separado da sua dança. O dançarino é uno com sua dança.

Deus não é um criador no sentido de uma entidade separada. Deus é a própria criatividade, a própria vida. Assim, se você é contra a vida, você é contra Deus.

Se você entrar profundamente na dança, alcançará o dançarino. A dança é apenas a forma. Se entrar profundamente na dança, alcançará o próprio coração do dançarino. E se você entrar profundamente na vida, alcançará o princípio originador da vida: Deus.

Deus é criatividade. Ou, se me permitem dizê-lo, eu preferiria dizer que Deus é a própria existência. Deus é vida.

Jesus disse: “Deus é amor.” Essa foi uma das razões pelas quais ele foi crucificado – porque ele chamou Deus de “amor”. O amor é condenado, é um pecado, e ele chamou Deus de “amor”. Isso fez com que ele parecesse muito rebelde; ele deve ter se mostrado demasiadamente a favor da vida. A velha mente judaica, a velha mente religiosa, não pôde tolerar isso. Era um sacrilégio! Jesus falando sobre Deus em termos de amor? Deus está além da vida e do amor! Você precisa abandonar todas as coisas: a vida, o amor, tudo. Somente então você pode encontrá-lo. E esse homem, Jesus, traz Deus aqui para a Terra e fala em termos de amor!

Na verdade, Deus é vida, Deus é amor. Deus é este próprio mundo. Não crie uma divisão, não crie um dualismo. Somente então você pode reverenciar a vida. Sempre que, em qualquer lugar, você se deparar com a vida – uma semente germinando, uma árvore florescendo, estrelas se movendo, um rio fluindo, uma criança rindo – lembre-se, Deus está perto de você. Quando uma criança ri, observe o riso. Entre nele. Você terá entrado no próprio templo. Quando o rio fluir, observe-o amorosamente. Una-se a esse fluxo, permaneça em profunda reverência.

Os hindus chamaram todos os rios de deuses; chamaram todas as montanhas de divindades. Eles tornaram a Terra sagrada. Essa é uma das coisas mais belas que já aconteceram à consciência humana. Os hindus chamam o Ganges de Mãe. Isso significa reverência pela vida. As montanhas eles chamam de deuses. Isso significa reverência pela vida. Eles veneram as árvores. Os que se tornaram intelectualmente sofisticados pensam que os hindus são estúpidos, um povo supersticioso, mas eles não o são. A árvore não é o ponto importante. Quando eles estão venerando uma árvore ou um rio, estão venerando a vida.

Uma árvore é mais viva do que qualquer templo, do que qualquer igreja; um rio é mais vivo do que qualquer mesquita. Os ídolos de pedra em seus templos estão mortos; uma árvore é mais viva. Você pode ser supersticioso, mas a pessoa que está venerando uma árvore não o é. Ela pode não estar ciente do que está fazendo, mas há uma profunda reverência pela vida em todas as suas formas, um profundo respeito.

E celebre. Onde quer que você sinta que a vida está crescendo, celebre-a, ame-a, acolha-a, e uma grande transformação acontecerá a você. Se a vida é reverenciada em todas as suas formas, você se torna mais vivo. Torna-se mais receptivo à vida, e a vida começa a fluir abundantemente em você; ela transborda em você. Bem-aventurança é isso: vida transbordando.

Mas você está mais interessado na morte e menos interessado na vida. Mais interessado na destruição, no ódio; mais interessado nas guerras do que no amor, na vida. Isso o torna morto e insensível. Antes de morrer realmente, você já está morto. Quando a morte lhe sobrevém, você já está morto. Você se transformará naquilo que você reverenciar. Se você reverenciar a vida, tornar-se-á, cada vez mais, vida. Se reverenciar a morte, tornar-se-á, cada vez mais, morte.

Lembre-se disto: 

"Respeite a vida que o rodeia e que está em constante mudança e movimento, pois ela é formada pelos corações dos homens; e quando você aprender a compreender a constituição e o significado deles, será capaz, gradualmente, de interpretar o mundo mais amplo da vida."

"Aprenda a olhar inteligentemente para os corações dos homens."

"... Estude os corações dos homens, a fim de que possa saber o que é este mundo no qual você vive e do qual você será uma parte."

Jamais olhamos diretamente para o coração de alguém. Isso é perigoso, inseguro, porque então você pode ficar envolvido; você precisará fazer alguma coisa. Assim, jamais tocamos em alguém. Permanecemos apenas à distância, longe, afastados.

Movimentamo-nos sem tocar em ninguém. E, quando digo isto, não o estou dizendo apenas no sentido físico. Psicologicamente também. Movimentamo-nos sem tocar em ninguém fisicamente. Temos medo de tocar em alguém ou de ser tocados por alguém. Psicologicamente, também vivemos dentro de uma casca: fechados, encapsulados.

Há motivos para isso. Se você penetrar no coração de alguém, terá de fazer alguma coisa a respeito. Você será inundado de amor, de valores mais nobres, superiores. Então não poderá permanecer tão mesquinho como você é, tão cruel e insensível como você é, tão egocêntrico como você é. Se olhar para o coração do outro, você terá de se dissolver. O próprio ato de olhar para o coração do outro tornar-se-á uma fusão (dissolução) de seus egos.

Assim, ninguém olha para ninguém. Nem sequer olhamos para os corações de nossos amigos. Nós os tomamos como algo conhecido. Nunca olhamos sequer para os corações de nossas esposas ou de nossos maridos, de nossos amantes ou amados. Criamos uma imagem e vivemos com a imagem. Nunca conversamos um com o outro diretamente, porque se você conversa diretamente não se sente seguro, torna-se vulnerável. Lembre-se disto: se você penetrar no coração de alguém, simultaneamente o seu próprio coração se torna vulnerável. Não é possível de outra maneira. Se olho profundamente para dentro de você, torno-me acessível a você. Você também poderá olhar profundamente para dentro de mim.

Mas isso parece perigoso. Não quero que ninguém olhe profundamente para dentro de mim porque, na superfície, sou diferente, uma pessoa falsa. Lá dentro, lá no fundo, sou outra pessoa. Na superfície, continuo a sorrir – muito gentil, muito amável –, e lá dentro há muito ódio, muita feiúra. Assim, não quero que ninguém penetre em meu interior.

Mas se eu penetrar em seu interior, o próprio esforço para penetrar em você torna-me simultaneamente acessível a você. Temos medo. Não queremos que ninguém nos invada, olhando para dentro de nós. É perigoso olhar para dentro do coração de alguém e ter nosso interior exposto aos olhos de alguém. Tornamo-nos encapsulados, mortos. Ficamos nos movendo dentro de uma prisão.

Dessa maneira, como você pode conhecer a vida? Se até mesmo um coração humano lhe é estranho, e se você nunca olhou para dentro dele, como pode penetrar profundamente no interior do imenso coração divino, do próprio centro da existência? Aprenda a olhar. Olhando os corações dos outros, você pode aprender a olhar profundamente. Trata-se das profundezas das pessoas. A profundeza da pessoa é o seu coração.

Conversamos através da mente, mas a mente não é o profundo. A mente está na superfície, na periferia. Conversamos, discutimos, comunicamo-nos apenas com palavras. Jamais ficamos em silêncio, nem mesmo por alguns instantes. Mesmo os que estão amando continuam a conversar incessantemente, porque, se você estiver em silêncio, o coração pode ser penetrado. Assim, continuamos a conversar e a conversar.

O marido chega em casa. Começa a falar. Coisas bobas, irrelevantes. O que aconteceu no mercado, o que aconteceu na loja, o que está nos jornais, o que se falou no rádio. Continua a falar. E a esposa também fala sem cessar: o que as outras esposas estão falando a respeito de suas casas e assim por diante. Falam, falam, falam sem cessar até caírem adormecidos. Por que tanta conversa? Qual é o propósito disso? Eles estão realmente interessados em comunicar alguma coisa? Não! Eles estão com medo de comunicar. Se ficarem em silêncio, então seus corações começarão a se comunicar; por isso, eles continuam a falar. A conversa cria uma barreira. Eles se encontram de mente para mente para que não se encontrem de coração para coração. Um encontro de corações só é possível em silêncio.

É assim que vivemos. Então dizemos que nossa vida é uma miséria. Que mais poderia ser? A miséria será inevitável. Mas não se trata do seu destino. A miséria é criação sua você mesmo a produziu. Encapsulado, você estará na miséria. Aberto, vulnerável, você se tornará capaz de ser bem-aventurado. Essa abertura será aprendida olhando-se dentro do coração dos homens.

Este sutra diz:

"Aprenda a olhar inteligentemente para o coração dos homens."

“...A inteligência é imparcial: nenhum homem é seu inimigo; nenhum homem é seu amigo. Todos, sem distinção, são seus professores. Seu inimigo torna-se um mistério que precisa ser resolvido, mesmo se levar muito tempo: pois o homem precisa ser compreendido. Seu amigo torna-se uma parte de você mesmo, uma extensão de você mesmo, um difícil enigma a ser decifrado.”

O sutra diz: "Aprenda a olhar inteligentemente"... Por “inteligentemente” quer-se dizer: ser imparcial. Se você é parcial, não pode chegar ao coração. Toda parcialidade deixa-o focado na mente; apenas a consciência imparcial chega ao coração.

O coração é imparcial; a mente sempre é parcial. A mente sempre é partidária, sectária, a favor disto e contra aquilo. O coração não é nem a favor nem contra. O coração está simplesmente aberto, receptivo, acolhedor. Ele não tem inimigos nem amigos; apenas a mente tem inimigos e amigos. “Inteligência” significa imparcialidade. Somente então você é inteligente.

Se você é parcial, não é inteligente. Você pode dar a impressão de ser sofisticado, instruído, lógico, mas não é sábio, não é realmente inteligente. A inteligência se caracteriza por não ser preconceituosa, parcial, com sentimentos a favor ou contra – pois somente assim você pode olhar para o todo.

Por exemplo: se digo que você é meu amigo, será impossível para mim entrar no seu coração. Ou se digo que você é meu inimigo, também será impossível alcançar o seu coração. Quando digo que você é meu amigo, ou meu inimigo, já o rotulei. Sinto que o conheço. Penso que já o compreendi. De outro modo, como seria possível a amizade? Quando digo que você é meu amigo, demonstro que gosto de você; estou dizendo que gosto de você. E quando digo que gosto de você, torno-me parcial. Então não posso alcançar o seu coração. Minha preferência tornar-se-á uma barreira.

Quando digo que gosto de você, estou, na verdade, impondo-me a você. Você é a minha preferência. Digo que você é bom porque seu modo de ser está de acordo com a minha preferência. Então, eu entrei em você, eu me impus a você. Não posso atingir o seu coração, não posso conhecê-lo como você é, por causa da minha preferência.

Quando digo que você é meu inimigo, estou dizendo que não gosto de você, que não simpatizo com você. Essa antipatia torna-se uma barreira. Quando digo que gosto de você, procuro descobrir as coisas de que eu gosto. Quando digo que não gosto de você, procuro descobrir as coisas de que não gosto. Então, estou apenas tentando comprovar essas coisas, e não tentando conhecê-lo como você é. Simpatia/amizade, antipatia/inimizade são minhas interpretações, minhas ficções. Sua realidade nua, aquilo que você é realmente, fica esquecido.

Inteligência significa que você não é nem meu amigo nem meu inimigo. Você é você, eu sou eu. Não me imporei a você. Tentarei compreender o que você é. Não segundo minhas simpatias e antipatias, mas pelo que você de fato é. Cada homem é um mistério, cada homem é um enigma. Se você tentar solucionar o mistério de pelo menos um único indivíduo, se for capaz de decifrar pelo menos um único enigma, tornar-se-á capaz de muito mais, porque mesmo um único indivíduo só é compreendido através do coração. Você terá conseguido descobrir a arte de como penetrar no coração.

E a mesma técnica, o mesmo método, ajudará você a penetrar no coração divino. O coração divino é imenso, infinito, mas o coração humano é um lampejo dele. O coração humano é um fragmento dele, vivo. Assim, não fique morto em relação à humanidade que está ao seu redor. Aprenda a amá-la, a reverenciá-la. "E aprenda a olhar inteligentemente para o coração dos homens."

Esse aprendizado o tornará mais maduro; esse aprendizado o tornará mais sensível em relação a um aprendizado superior, que é divino. O coração do divino pode ser penetrado somente por aqueles que se tornaram capazes de conhecer o coração humano tal como ele é.

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segunda-feira, abril 30, 2018

Lição de Harmonia

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- OSHO -


"Guarde em sua memória a melodia que você ouve."

"... Somente fragmentos do som magnífico chegam a seus ouvidos enquanto você é apenas um homem. Mas se você o ouvir, recorde-o fielmente, para que nada desse som tenha chegado até você, se perca, e esforce-se para aprender com ele o significado do mistério que circunda você. Com o correr do tempo, você não precisará de nenhum professor. Pois, como o indivíduo tem voz, assim também tem aquilo no qual o indivíduo existe."

"Guarde em sua memória a melodia que você ouve." Há momentos, raros, únicos, mas, ainda assim, há momentos em que você chega mais perto da melodia da existência. As circunstâncias podem ser diferentes, mas a melodia é a mesma. Uma criança que corre atrás de uma borboleta, uma criança que colhe flores no jardim, ou uma criança simplesmente deita sobre a grama – ela sente certa harmonia na existência, sente certa melodia. Nesse momento, deitada sobre a grama, relaxada ou correndo... correndo atrás da borboleta, ou correndo para colher as flores, ou não fazendo nada: apenas brincando com seixos na praia – nesse momento, a criança está totalmente unida à existência. Não há nenhuma tristeza ou pesar, nenhuma negatividade. A criança aceita a existência como ela é, e é aceita pela existência.

Quando você aceita a existência, a existência o aceita. Quando você rejeita, você é rejeitado. A existência é um eco do que você faz. Tudo o que fizer com ela será feito com você.

A criança aceita. Para a criança não existe passado, nem futuro. O momento, o momento presente, é suficiente. A criança existe aqui e agora. Então, ela sente uma certa harmonia; uma melodia é sentida.

É por isso que, mais tarde, mesmo quando você fica muito velho, você continua a se recordar de sua infância; vive dizendo que a infância era um paraíso. Por quê? Porque houve muitos momentos nos quais você aceitava tudo totalmente. E uma criança é aceita totalmente. No instante em que a criança começa a rejeitar, deixa de ser criança. A infância é perdida, o paraíso é perdido.

Recorde alguns momentos de sua infância nos quais você teve o sentimento de que a vida era uma bem-aventurança, de que simplesmente ser era um êxtase. Simplesmente ser, respirar, era o bastante. Você não precisava de mais nada para ser feliz. Seja o que for que você fosse, era o suficiente para ser feliz.

Reúna esses momentos. Recorde-os, reviva-os. De vez em quando esqueça a sua idade. Feche os olhos e retorne, retroceda, seja novamente uma criança. Não se recorde apenas, mas reviva. Seja novamente uma criança. Em sua memória, corra como uma criança, cante como uma criança, brinque como uma criança. Simplesmente reviva novamente sua infância e obterá uma nova luz, um novo despertar. Uma nova energia vital correrá através de você.

Quando você era jovem, amou alguém. Novamente houve êxtase. Outra vez você se sentiu totalmente bem. Nada estava errado. A vida era ótima; tudo era como devia ser. Novamente, um momento. Reúna esses momentos, mantenha-os em seu íntimo. Entre neles repetidas vezes.

Então, você envelheceu – sentado em algum templo, meditando, ou em alguma mesquita, rezando, ou em alguma igreja. E novamente sentiu um silêncio penetrar em você.

Reúna todos esses momentos, porque eles o tornarão mais capaz e mais sensível para ouvir a música sublime das esferas. Eles são apenas fragmentos, mas neles você ouviu algo que está além de você. Seja qual for a circunstância, se uma certa felicidade o invadiu, guarde com carinho esse momento e deixe um espaço para ele em seu coração, livre de todas as outras recordações. Reúna essas recordações da música bem-aventurada que você ouviu algumas vezes. Isso será útil.

Você não pode ouvir, repentinamente, a música toda. Pode ouvi-la apenas em fragmentos, porque a mente é uma coisa pequena. O raio de visão da mente é muito pequeno e o céu é muito grande. Você só pode ver fragmentos. Mas reúna esses fragmentos. Crie uma unidade entre eles, sinta uma certa unicidade neles, e você se tornará mais capaz, mais sensível, mais vivo para receber mais. Você se tornará mais receptivo.

Mas olhe para a mente humana. Ela coleciona misérias, coleciona sofrimentos, coleciona amarguras. Jamais coleciona momentos felizes. Vive coletando miséria após miséria. Então a vida se torna um inferno. Essa é a sua coleção, é o seu modo de olhar para as coisas.

Você sempre diz que a felicidade é apenas momentânea. Mas ninguém diz que o sofrimento é momentâneo, ninguém diz que a angústia é momentânea. Você continua a sentir que a angústia é permanente, que o sofrimento é permanente, e que a felicidade é momentânea. Isso está errado. Angústia e felicidade são similares e equivalentes; ambas são momentâneas.

E, no final das contas, o contrário é verdadeiro: o sofrimento revela-se momentâneo e a bem-aventurança revela-se eterna. Mas, por ora, com essa mente, tudo é momentâneo. O sofrimento vai e vem, a bem-aventurança vem e vai. Mas você continua a colecionar sofrimento, logo, ele parece permanente; você nunca coleciona, nunca trata com carinho, nunca nutre os momentos felizes e alegres. Assim, eles dão a impressão de serem momentâneos.

É você quem escolhe assim. Mude a sua escolha. Porque, com tanto sofrimento reunido, você acumulará mais sofrimento. O sofrimento aumentará; você está colaborando para que ele aumente. Desse modo, chegará um momento em que você estará tão coberto de sofrimento que não poderá visualizar qualquer possibilidade de bem-aventurança. Então você se tornará totalmente negativo.

Faça exatamente o contrário – somente isso será de ajuda à sua meditação. Sempre que o sofrimento se manifesta, não o guarde. Deixe-o manifestar-se, mas não o alimente. Para quê continuar a falar a seu respeito? Todo mundo vive falando sobre seu sofrimento. Por que enfatizá-lo tanto? Por que dar tanta atenção a ele? Lembre-se de uma das leis: se você der muita atenção a uma coisa, seja o que for, ela crescerá. A atenção é um elemento que ajuda o crescimento. Se você der atenção a qualquer coisa, ela crescerá mais ainda.

Atualmente, os biólogos afirmam que uma criança crescerá mais se for amada porque, através do amor, ela recebe maior atenção. Até mesmo uma planta crescerá mais se o jardineiro lhe der atenção. Se ela for negligenciada, mesmo se tudo o mais for dada a ela – o solo certo, fertilizantes, chuva, luz do Sol, se tudo lhe for dado, exceto atenção consciente – ela levará muito tempo para crescer. Isso é atualmente um fato científico: observado e considerado verdadeiro. Se você amar a planta e lhe der bastante atenção, se conversar com ela, se lhe disser, às vezes: “Eu amo você”, ela crescerá mais depressa. A atenção é uma vitamina.

A coisa mais vital na existência é a atenção. Se ninguém o ama, você começa a murchar. Se ninguém presta atenção em você, a morte se estabelece. Você quer morrer. Se alguém lhe dá atenção, você revive novamente. Atenção é vida, é o “élan” vital.

Se ninguém o amar, você se suicidará, porque não é capaz de amar a si próprio. Se você for capaz de amar a si próprio, se fosse capaz de dar atenção a si próprio, não necessitaria da atenção de ninguém mais. Um Buda pode viver sozinho nesta terra. Você não pode. Se ficar sozinho, suicidar-se-á imediatamente. Você dirá: “Qual é o sentido? Por que devo viver? Quem me amará? A quem amarei?”

A mesma lei se aplica também interiormente, psicologicamente. Se você dá muita atenção ao sofrimento, ajuda-o a crescer. Se dá muita atenção à felicidade, ajuda-a a crescer. Não seja o seu próprio inimigo. Se você se encontra imerso em sofrimento é porque tem dado muita atenção às coisas erradas. Mude o foco da sua atenção. Mesmo se você possui somente uma única lembrança de um instante bem-aventurado, é o suficiente. Dê-lhe atenção e ele crescerá. A semente crescerá e se tornará uma grande árvore. Então você poderá descansar à sua sombra, poderá dançar à sua sombra. Poderá relaxar debaixo dela.

Este sutra diz: "Guarde em sua memória a melodia que você ouve." Seja qual for a circunstância em que você tenha ouvido a melodia da vida, em qualquer circunstância. Felicidade significa melodia. Sofrimento significa uma experiência anárquica, uma experiência caótica. Sofrimento significa uma multidão de experiências desconexas: barulho, sem nenhuma música. Felicidade significa música. Nenhum barulho, mas uma harmonia interior; nenhum caos, mas uma unidade interior.

Guarde em sua memória a melodia que você ouve, e então ela crescerá e, um dia, você será capaz de ouvir a música universal em sua totalidade. Então você não precisará de nenhum professor. Não terá de aprender com mais ninguém. Você entrará em contato direto com o divino e nenhum mediador será necessário.

Um professor é um mediador. Você não pode ouvir, e ele pode ouvir. Você não pode ver, e ele pode ver. Você não pode sentir, e ele pode sentir. Ele é necessário somente até o momento em que você mesmo se torna capaz de ouvir, de ver, de se dissolver. Então o professor não tem mais nenhuma utilidade. Você entra em contato direto e imediato com a força universal. Então, você está no próprio rio.

E uma vez que você se tornou capaz de permanecer em bem-aventurança, de permanecer na melodia, uma vez que entrou no rio, então Deus pode conversar com você diretamente.

Lembro-me de uma estória sobre um místico sufi chamado Bayazid, que permaneceu numa aldeia durante muitos anos. Um dia os aldeões disseram a Bayazid: “Já faz pelo menos cinco anos que temos estado observando você, e ouvindo você. Você esteve sempre orando e falando com Deus. Agora vemos que você não fala, nem ora mais. Por que essa mudança? Você se tornou um ateu? Perdeu sua crença no divino? Você nunca mais fala, nunca mais ora.”

Bayazid sorriu e disse: “Antes, eu falava e orava. Agora, Deus começou a falar comigo; por isso, devo ficar calado e ouvir. O processo todo se inverteu. Agora, não preciso falar. Agora, ele fala comigo.”

Esse momento chega. Porém, esse momento chega somente quando seu coração está repleto de melodia e um silêncio divino penetra em você. Não há mais barulho. Para onde quer que você olhe, sente a música; para onde quer que você olhe, sente a unidade; para onde quer que você olhe, sente o uno nas diferentes formas. Agora você tornou-se consciente do mar. As ondas desapareceram para você. Não há mais ondas; apenas o Oceano existe. Então, o divino fala diretamente com você.

Não é uma metáfora. A existência fala com você diretamente; não é uma metáfora, não se trata de uma expressão poética. Isso acontece! Mas você precisa estar pronto. E essa prontidão significa um coração repleto de música, um coração repleto de silêncio.
 
"Aprenda com ela a lição da harmonia."

"... A própria vida tem sua maneira de falar e nunca se cala. E sua elocução não é, como supõem aqueles que estão surdos, um grito: é uma canção. Aprenda com ela que você faz parte da harmonia; aprenda com ela a obedecer as leis da harmonia."
 
Da maneira como você é agora, a vida lhe parece ser um grito. Ela não é. Parece ser um grito porque você está perturbado. A vida é uma canção, mas, para ouvir a canção, você precisa tornar-se uma canção, porque só o semelhante pode compreender o semelhante.

Você é um grito. É por isso que a canção da vida se parece com um grito, com um guincho. É por sua causa. Você a destrói, perturba-a, distorce-a. Quando ela vem até você, vem como uma canção; mas quando ela o atinge, transforma-se num grito, porque você é um grito. Você está doente, está enfermo. Você é fragmentado, não é total. A canção é destruída dentro de você. Torne-se uma canção e então a vida inteira parecerá uma canção. Então não haverá nenhuma negatividade. Quando você é positivo, a vida em sua totalidade torna-se positiva.

É isso o que eu quero dizer por teísta. O teísmo não significa uma crença em Deus, não significa acreditar numa teologia. O teísmo significa um sim total à existência – dizer sim à existência. Mas quando você pode dizer sim? Você só pode dizê-lo quando ouviu a canção. Como você pode dizer sim a um grito; como pode dizer sim a um barulho, um barulho infernal? Como pode dizer sim a uma insanidade que se manifesta por toda parte, à morte, à miséria? Como pode dizer sim a isso? Mas isso ocorre por sua causa, por causa de seus olhos. Seus olhos são um elemento de deformação. É por causa também do coração. Seu coração está repleto de sofrimento, de miséria, assim ele não pode encontrar outra coisa. Tudo isso é o seu próprio eco.

Este sutra diz: "Aprenda com ela a lição da harmonia."

Sejam quais forem os belos instantes, sejam quais forem os instantes de êxtase, os instantes felizes que você teve, reúna-os, trate-os com carinho, viva com eles – viva-os. Você se tornará mais sensível à felicidade. A felicidade será mais atraída em sua direção, o amor lhe acontecerá mais intensamente, a meditação lhe chegará mais facilmente. A vida se tornará uma benção; a existência se tornará uma celebração. Porém, você precisa criar um coração feliz.

Então, na experiência fragmentária da bem-aventurança, descubra a característica comum. Uma criança colhendo flores, um jovem amando uma jovem, um velho sentado sob uma árvore, meditando. Todos eles dizem que esse é um momento bem-aventurado, que deve haver algo comum a todos eles. Na periferia, do exterior, parece não haver nada em comum. Uma criança colhendo flores, um jovem amando uma jovem, um velho entoando um mantra... parece não haver nada em comum entre eles. Mas se todos eles dizem: “Foi um momento bem-aventurado!” – deve haver algo em comum nisso. Descubra esse elemento comum. Descubra o que é que se encontra sempre presente e sem o qual eles não poderiam dizer que todos esses momentos são bem-aventurados.

Talvez o velho negue a existência de algum elemento comum. Ele pode dizer: “Aquele jovem é apenas um tolo. Não há nada nas garotas. Apenas ossos e carne e todas as coisas sujas. Aquele jovem é apenas um tolo. Está desperdiçando o seu tempo.”

Ou o jovem pode dizer: “Aquela criancinha colhendo flores está vivendo num mundo de fantasias. Não é real. Quando ela conhecer mais a vida, deixará de lado essas flores. É uma estupidez. Colecionar flores é algo inútil; ela está desperdiçando o seu tempo. É ignorante.”

Mas, ainda assim, deve haver algo em comum a todos eles. Se o velho diz que o jovem é tolo (ou se o jovem diz que a criança é tola), isso significa apenas que a vida, para esse velho, não se tornou ainda uma unidade. Significa apenas que esse velho ainda está revoltado com sua própria infância. Ele não a pôde absorver no curso da vida. Sua juventude não se tornou parte de sua vida. Esse velho está fragmentado, dividido.

Se esse velho fosse realmente não-dividido, se estivesse à procura do elemento comum a todas as experiências, isso seria sabedoria. Encontrar o elemento comum a todas as experiências – o elemento essencial – é sabedoria. Se esse velho chegasse a compreender o que é essencial a todas as experiências bem-aventuradas, veria que quando esteve com uma jovem, amando-a profundamente, aconteceu a mesma coisa que agora acontece em sua meditação. Quando ele, em sua infância, estava colhendo flores no jardim, ou brincando com os seixos à beira-mar, aconteceu a mesma coisa.

Qual é o elemento comum? A atenção, a profunda atenção. A absorção. A criança estava absorta com suas pedras, brincando com elas. A existência toda foi esquecida. A criança esqueceu-se de si mesma. Naquele momento, não existia nada, não existia nenhuma mente. A criança estava totalmente absorta. Devido a essa absorção, a essa anulação total do ego, a bem-aventurança aconteceu. Tornou-se uma meditação.

O jovem estava absorto com sua amada. A existência toda sumiu como se nada mais existisse. Somente a amada existia. Até isso desapareceu: o amante e a amada desapareceram. Apenas o amor existia. Havia um momento que era eterno, um momento que era a própria eternidade. Nenhum passado, nenhum futuro. Agora era tudo. Era meditação. O amor é uma meditação. E então a bem-aventurança aconteceu.

Hoje, o velho está cantando sob uma árvore, ou está sentado num templo ouvindo os sinos, e sente-se muito feliz, em êxtase. O que está acontecendo? A mesma coisa está acontecendo numa situação diferente, numa idade diferente, numa experiência diferente. A mesma coisa está acontecendo. O mundo desaparece. O velho não existe mais, o templo desaparece. O momento presente torna-se total. O velho está aqui e agora. Os sinos continuam a tocar. Eles não tocam no futuro; tocam no presente. Nenhuma lembrança do passado interfere, nenhum desejo futuro. O velho está aqui e agora.

Sempre que você está aqui e agora, a bem-aventurança acontece. Como uma criança a brincar com as pedras, como um jovem a brincar com sua amada ou como um velho a brincar com seu canto e com sua meditação. Se todas as três experiências puderem ser sentidas como harmoniosas, você descobriu uma das supremas leis da vida. Você tornou-se sábio. A sabedoria aconteceu a você.


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quinta-feira, abril 26, 2018

A Canção da Vida

- OSHO - 


“A canção da vida. Procure-a e ouça-a, primeiro, em seu próprio coração. A princípio, você pode pensar que ela não está aí; quando a procuro, encontro apenas barulho. Procure mais profundamente. Se novamente você se desapontar, espere, e então procure mais profundamente ainda. Há uma melodia natural, uma fonte oculta em cada coração humano. Ela pode estar demasiadamente escondida, totalmente encoberta e silenciada  mas está aí.”

Ouça a canção da vida. A vida é uma melodia; a existência é musical – por inúmeras razões.

A existência é harmonia; não é anarquia. Ela não é um caos; é um cosmos, uma unidade. Tão complexa, tão vasta, mas, ainda assim, unida. E a vida pulsa, desde o ínfimo átomo à mais elevada estrela. Os comprimentos de onda diferem, as pulsações são de frequências diferentes, mas o todo pulsa numa profunda unidade, numa harmonia. Plotino chamou a isso de “a música das esferas”. A existência inteira é uma música.

Ela é musical também num outro sentido. A ioga, o tantra e todas as escolas que têm estado trabalhando esotericamente na jornada interior da consciência humana afirmam que a vida consiste em sons; a existência consiste em sons.

A ciência discorda, mas não muito. A ciência diz que a partícula básica é a eletricidade e não o som. Mas a ciência também diz que o som é um modo da eletricidade, uma espécie de expressão elétrica – que o som consiste em partículas elétricas.

A ioga afirma que o elemento básico, a unidade básica da existência é o som, e que a eletricidade é um modo de som. É por esse motivo que temos o mito de que o fogo pode ser criado através da música. Se o fogo (ou a eletricidade) é apenas uma combinação de sons, então o fogo pode ser criado.

Essa diferença entre a atitude científica e a atitude iogue precisa ser entendida. Por que a ciência afirma que o som é apenas eletricidade e a ioga afirma que a eletricidade é apenas som? É porque a ciência aborda a existência através da matéria e a ioga a aborda através da vida.

Quanto mais profundamente você penetrar dentro de si mesmo, mais descobrirá um novo mundo de som e silêncio. Quando você alcançar o âmago de seu ser, descobrirá o som silencioso. É a isso que os hindus chamaram de nad anahat nad – o som que é incriado, que é a sua própria vida. Ele não é criado por nada, não é produzido. Apenas está aí. Ele é cósmico.

Aum é o símbolo desse som. Se você se dirigir profundamente para dentro, quando o centro supremo for alcançado, você ouvirá o som aum. Não é você quem o produz. Ele simplesmente está ali, vibrando. E o elemento básico da vida.

Este sutra diz: "Ouça a canção da vida." Mas você não pode ouvi-la a menos que já a tenha ouvido dentro do seu próprio coração. Tudo o que você pode ver deve, primeiro, ser visto dentro de seu próprio coração, senão você não poderá vê-lo, não poderá ouvi-lo. A experiência básica precisa ser a interior. Somente então a exterior pode ser vivenciada.

Tudo o que você conhece no mundo exterior é apenas um reflexo ou uma projeção. Se você está repleto de amor, a vida toda parece estar repleta de amor. Se você está sentado ao lado da pessoa que ama, então toda a existência está em ordem. Nada está errado, não há aflição alguma. Toda a existência é preenchida por uma profunda música porque você está preenchido por uma profunda música. Não há em você nenhuma desarmonia; seu coração sente uma profunda harmonia. Você está de tal modo unido à pessoa amada, que essa unicidade se espalha por tudo.

Se você está em profunda agonia – sofrendo, triste, deprimido – a existência inteira parece estar deprimida. É você, não a existência. A existência permanece a mesma, mas os estados de sua mente mudam. Num determinado estado, a existência parece estar em festa; em outro, ela parece estar triste. Ela não está; a existência é sempre a mesma. Mas você está sempre mudando e sua mente sempre sendo projetada. A existência atua como um espelho. Você se reflete nele.

Se você pensar que tudo aquilo que interpretou é um fato ao invés de uma projeção, mergulhará em ilusões cada vez mais profundas. Mas se puder entender que não se trata de um fato mas de uma ficção da mente – que tudo depende de você e não da própria existência – então você pode mudar. Pode passar por uma mutação, uma revolução interior por acontecer, porque agora depende de você.

O mundo pode ser um caos, se você for um caos. O mundo pode ser um cosmo, se você for um cosmo. O mundo pode estar morto, se você estiver morto interiormente. O mundo pode estar vivo, abundantemente vivo, se você estiver vivo interiormente. Depende de você. Você é o mundo. Apenas você existe realmente, nada mais. Tudo o mais é apenas um espelho.

Lembro-me de uma pequena história.

Um imperador, um imperador muito poderoso, criou um palácio, um palácio de espelhos. Por todos os lados, em todo o palácio, havia espelhos. O imperador era uma pessoa muito bonita e estava tão fascinado por sua própria beleza que jamais se sentiu atraído por alguma outra pessoa. Era um Narciso. Amava somente a si mesmo e achava que todos os demais eram feios. Finalmente, ele proibiu a qualquer pessoa de entrar em seu palácio. Vivia ali sozinho, a olhar para seu próprio rosto, em todo o palácio. Havia espelhos por toda parte, milhares e milhares de reflexos de seu próprio rosto.

Contudo, aos poucos, ele começou a se entediar, a ficar farto daquilo. Começou a não gostar de si mesmo. O dia todo encontrava-se consigo mesmo. Ficou doente, tornou-se triste e deprimido. Ficou tão melancólico que estava quase à beira da morte. Simplesmente cansou-se de si mesmo.

Então, de súbito, ele se lembrou: “Este palácio foi criado por mim mesmo. Não preciso permanecer aqui. Não há ninguém que me obrigue a permanecer aqui.”

Então, ele quebrou uma das paredes de espelhos – atirou uma cadeira contra ela. E, pela primeira vez em muitos anos, o céu penetrou naquele recinto. Era uma noite de Lua cheia, e a Lua irrompeu ali dentro. Um mundo novo, fresco, vivo surgiu. O imperador entrou em contato com esse mundo.

Ele saltou para fora daquele buraco infernal, para fora daquela prisão. E então não estava morto, nem melancólico, nem às portas da morte. Pôs-se a dançar, a celebrar. Esqueceu-se completamente de seu rosto. E conta-se que nunca mais ele se olhou novamente no espelho.

É isso o que está acontecendo a cada um de nós. Não se trata de uma história sobre algum imperador desconhecido. Ela se refere a você. Você vive numa casa de espelhos. Quando olha para o rosto da sua esposa, não é o verdadeiro rosto dela que você vê. É uma projeção. É o seu próprio rosto refletido no rosto da sua esposa. Quando você olha para uma flor, não é para essa flor que está olhando. Você está olhando para a sua própria flor mental projetada sobre a flor real.

Por toda a parte, você se move com seus próprios espelhos, suas próprias imagens. E então, naturalmente, você fica entediado, farto de tudo isso, e diz: “A vida é uma miséria.” Você diz: “Parece que a vida não tem nenhum sentido.” Você diz: “seria melhor me suicidar. Parece que a vida não tem nenhum propósito. Não estou indo a lugar algum, fico apenas dando voltas num círculo. Isso não leva a nada. Todo dia é a mesma coisa, a mesma repetição.”

Mas não é por causa da existência; é por causa de você. Jogue fora esses espelhos, quebre esses espelhos. Saia do seu palácio, saia da sua prisão e olhe para o mundo – não através de pensamentos, não através de seus estados de espírito. Olhe para o mundo com o olho nu, ouça-o com o ouvido nu. Não permita que nenhum estado mental se coloque entre você e o mundo.

É a isso que eu chamo de meditação: olhar para o mundo sem a mente. Então tudo é novo, fresco. Tudo está vivo, eternamente vivo; tudo é divino. Mas, para chegar a esse ponto, você precisará realizar um profundo contato, uma profunda penetração em seu próprio coração; porque ali o sumo da vida espera por você. Pode chamá-lo de “elixir”. Ele espera por você.

Este sutra diz:

"Ouça a canção da vida. Procure-a e ouça-a, primeiro, em seu próprio coração. A princípio você pode pensar que ela não está aí; quando a procuro, encontro apenas barulhos. Procure mais profundamente. Se novamente você se desapontar, espere, e então procure mais profundamente ainda. Há uma melodia natural, uma fonte oculta em cada coração humano. Ela pode estar demasiadamente escondida, totalmente encoberta e silenciada – mas está aí.”

Quando se tenta, pela primeira vez, ir para dentro, encontra-se barulho: multidões, pensamentos, loucura – tudo, menos silêncio. Mas não se deixe abater. Seja indiferente a todo esse barulho que você encontrar em seu interior.

Quando digo “Seja indiferente”, quero dizer não faça nada a respeito; apenas permaneça indiferente. Não diga: “Isso é mau.” Não diga: “Como posso acabar com isso?” Não tente acabar com o barulho – você não pode. Deixe que ele flua... como nuvens flutuando no céu enquanto você as observa. Ou como o tráfego que passa pela rua e você observa. Simplesmente fique à parte e observe o movimento do tráfego, ou permaneça na margem e olhe o rio fluindo. Não faça nada; apenas permaneça ali. Indiferente, desinteressado, de modo algum envolvido.

Se você puder fazer isso... isso é o que significa testemunhar. Se você puder fazê-lo, aos poucos penetrará cada vez mais fundo. Não se deixe abater, porque, no fim, por último, uma profunda fonte musical, uma profunda harmonia, uma profunda existência rítmica espera por você. Penetre nesse barulho e você a alcançará.

O sutra prossegue:

“Na base de sua natureza você encontrará fé, esperança e amor. Aquele que escolhe o mal recusa-se a olhar para dentro de si próprio, tapa seus ouvidos à melodia do coração, como se vendasse os olhos à luz de sua alma. Assim age, porque acha mais fácil viver nos desejos. Mas, debaixo de toda a vida, está a fonte corrente que não pode ser detida; as poderosas águas, na realidade, estão ali. Encontre-as...”

“Na base de sua natureza você encontrará fé, esperança e amor” – essas três coisas. Se você conseguir entrar em contato com sua música interior, essas três coisas florescerão espontaneamente dentro de você: fé, esperança e amor. Mas essas palavras possuem significados bastante diferentes. Não têm o significado que comumente damos a elas.

Quando dizemos fé, queremos dizer crença. Crença não é fé. Crença significa algo imposto. A dúvida encontra-se aí, oculta, mas você se envolve numa crença e empurra a dúvida para dentro.

Por exemplo, você diz: “Creio em Deus.”. O que você quer dizer? Não há realmente nenhuma dúvida? A dúvida está presente. A crença não pode destruir a dúvida; pode apenas ocultá-la. Na verdade, você acredita por causa da dúvida. Você teme a dúvida. Se você não acreditar, você fica em dúvida... sente-se incomodado. A crença lhe proporciona comodidade, consolo, alívio, conforto. Você se sente à vontade. Mas a crença é apenas uma fachada mental, intelectual. Por trás dela, a dúvida está sempre à espreita.

Você encontrará a dúvida oculta no interior de cada crença. Se você diz “Creio firmemente”, isso significa que você tem fortes dúvidas por trás dessa crença. Aqueles que dizem “Creio totalmente” têm grandes dúvidas dentro de si. Por que a crença é necessária? Porque a dúvida está presente e você se sente incomodado por ela.

É por isso que tantas pessoas são teístas e tão poucas são ateístas. Mas, na verdade, o mundo está cheio de ateístas e é muito difícil encontrar-se um teísta; é impossível. Tudo não passa de um artifício. As pessoas dizem que acreditam em Deus porque parece difícil não acreditar; é inconveniente. Socialmente, formalmente, não é bom.

Não que elas acreditem. Elas duvidam, sabem que duvidam, mas enganam a si mesmas. Suas vidas permanecem incólumes às suas crenças; suas religiões são religiões domingueiras. Suas vidas não são afetadas de modo algum. Aos domingos elas vão à igreja e rezam, como uma formalidade social, como parte das boas maneiras. Depois, fora da igreja, continuam as mesmas. Durante seis dias permanecem irreligiosas; por um dia tornam-se religiosas. Isso é possível? Durante seis dias você permanece feio e em um dia se torna bonito? Durante seis dias você permanece ruim e em um dia se torna bom? Durante seis dias você permanece diabólico e em um dia, de repente, você se torna santo? É possível isso?

É impossível. O sétimo dia deve ser o dia falso; os seis dias são reais. O sétimo dia é apenas um truque para enganar-se a si mesmo e aos outros.

A crença é falsa. Ela é útil, utilitária, mas falsa. A fé é totalmente diferente. Crença significa que a dúvida está oculta. Fé significa que a dúvida desapareceu. Essa é a diferença.

Fé significa que a dúvida desapareceu. Crença significa que a dúvida está presente e você criou uma crença contra ela. Você duvida se Deus existe ou não, mas diz: “Eu acredito”. Sua esposa pode estar doente, e se você não acreditar, quem sabe? Deus pode existir. Ou você corre o risco de perder o emprego. Quem sabe? – Deus pode ajudar. E se você não acreditar, então ele não o ajudará. É uma crença utilitária; ela lhe é de alguma utilidade. Mas a dúvida está presente.

Fé significa que a dúvida desapareceu. Ela é a ausência de dúvida. Mas esta só pode desaparecer quando você conhecer alguma coisa em seu interior; quando a crença não lhe foi dada, o conhecimento nasce em você. Quando você conseguiu conhecer, compreender, então a fé nasce.

E a esperança. Esta esperança não é aquela do desejo. Esta esperança não significa esperança por um futuro. Não está de modo algum relacionada com o futuro. Esta esperança significa simplesmente uma atitude esperançosa acerca de todas as coisas. Acerca de todas as coisas. Uma visão otimista, uma atitude esperançosa. Um olhar para o lado bom das coisas. Aconteça o que acontecer, você permanece esperançoso, não fica deprimido.

A depressão se manifesta apenas se você olhar para o lado ruim das coisas. Todas as coisas têm dois lados: o lado ruim e o lado bom. Você pode olhar para o lado ruim e então ficará deprimido, ou pode olhar para o lado bom, o lado benigno, e ficará feliz. Portanto, depende.

A pessoa que é desesperançada olha sempre para o que é ruim. A primeira coisa que ela procura é o que está ruim. Se digo a ela: “Este homem é um ótimo flautista”, imediatamente ela olhará para ele e dirá: “Não, não posso acreditar que ele possa tocar flauta, pois ele é um ladrão.” Qual é a relação? Um homem pode ser um ladrão e um ótimo flautista. Mas a pessoa negará essa possibilidade. Dirá: “Não, não pode ser. Ele é um ladrão, um notório ladrão. Como pode ser um ótimo flautista?”

Essa é a mente desesperançada. A uma mente cheia de esperança, se eu disser: “Este homem é um ladrão”, a pessoa responderá: “Mas como pode ser um ladrão? Ele é um ótimo flautista.”

Como você olha para as coisas? Com esperança ou sem esperança? Comumente, a não ser que tenha entrado em contato com a música interior, você olhará para o mundo com uma atitude desesperançada. Então tudo estará ruim, e qualquer coisa que se faça será ruim, errada. E de toda parte você extrairá miséria. Tornar-se-á um perito em ser miserável. Qualquer coisa ajudará você a ser miserável – qualquer coisa.

Quando você entra em contato com esse silêncio interior, com essa música interior, torna-se esperançoso; torna-se a esperança. Seja o que for, você vê. Você sempre toca o íntimo, o coração das pessoas. E então, não há depressão.

E o amor. Comumente, o amor é um relacionamento. Mas quando você entra em contato com o ser mais íntimo, o amor torna-se o seu estado – não um relacionamento. Ele não ocorre entre você e alguém mais. A partir de agora você tornou-se amor, tornou-se amoroso. Não se trata de um relacionamento. Mesmo se você estiver sozinho, sentado embaixo de uma árvore, será amoroso. Sozinho, solitário, com mais ninguém ali, você será amoroso.

É como uma flor solitária que cresce num caminho desconhecido. Ninguém passa por ali, mas a flor continua a espalhar seu perfume. É o seu estado. Não é verdadeiro que ela dará seu perfume somente se um rei passar por ali, e o negará se, por ali, passar um mendigo. Se passar um mendigo, a flor dará o seu perfume. Se passar um rei, a flor dará o seu perfume. Se ninguém passar, mesmo assim a flor continuará a espalhar o seu perfume. O perfume é o modo de ser da flor. Não é um relacionamento.

Nosso amor é um relacionamento. E quando o amor é um relacionamento, ele cria a miséria. Quando o amor é um modo de ser, cria a bem-aventurança. Buda também está amando, mas ele não procura amar você. Simplesmente, em virtude de seu modo de ser, seu amor se espalha. Seu amor torna-se um perfume e se espalha pelos mais longínquos cantos da Terra.

Estas três qualidades se desenvolverão: fé, esperança e amor. E se as três estão presentes, você não precisa de mais nada. Elas o conduzirão ao cume supremo da vida e da existência.

“...Saiba que, seguramente, ela se encontra dentro de você. Procure-a aí, e, uma vez tendo-a ouvido, você a reconhecerá imediatamente ao seu redor.”

Se você puder sentir sua música interior – sua verdade interior, sua fé interior, seu amor interior, sua esperança interior –, começará a reconhecê-los ao seu redor. Todo o universo mudará a seus olhos porque você mudou. E tudo o que sentir em seu interior, será agora sentido ao seu redor.

O mundo permanece o mesmo; mas quando você muda, tudo muda. De acordo com você, seu universo torna-se diferente. Se você está enraizado no divino, toda a existência está enraizada no divino. Se você está enraizado na maldade, toda a existência é um inferno. Depende de você. Ela é você, ampliado.