"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Postura mental correta para ler obras da Verdade


- Gustavo -


A partir de hoje darei início a uma série de textos nos quais a Verdade é explicada de forma maravilhosa por Masaharu Taniguchi. A fim nos prepararmos devidamente para a leitura dos textos que virão, é importante atentarmos para a maneira como iremos ler estes textos. Um texto da Verdade – que comporta a Verdade, que busca revelar a Verdade – não é um texto qualquer. Por isso não deve ser lido de uma "maneira qualquer". Há uma forma correta de nos posicionarmos diante de um livro ou obra da Verdade. Se fizermos isso, conseguiremos aproveitar de fato a leitura de um texto sagrado; nossa mente e nosso espírito serão verdadeiramente enriquecidos. Do contrário as palavras nos servirão apenas para acumular mais e mais "informação intelectual".

Este é, portanto, o objetivo do presente post: preparar nossa postura mental (interna) a fim de nos tornarmos receptivos ao conteúdo sublime (transcendente) de uma escritura sagrada. Isso é o que ajudará nossa mente a despertar. Atentem para o que será dito no presente post e o empreguem na leitura de todos os textos, livros e escrituras sagradas.

A Verdade é Sagrada. A palavra "santo" ou "sagrado" significa "aquilo que está aparte, aquilo que está separado". A Verdade está separada do mundo. Isso é assim porque ambos apresentam naturezas distintas e incompatíveis. A luz está separada das trevas – as trevas não podem coabitar com a luz. A realidade está separada da ilusão – a ilusão não pode existir no mesmo espaço onde existe a realidade. O divino está separado do mundano – o mundano é de natureza física, material, dualística; e o divino é de natureza metafísica, mística, de unidade. O que é de natureza mística não pode estar presente/misturado ao que tem natureza material – ele permanece separado, transcendente, inviolável, sagrado. Coisa alguma de natureza mundana é capaz de se aproximar da Verdade Sagrada. Para que haja a aproximação do divino, é necessário afastar-se do mundo e consagrar-se.

E o que é a Verdade? É a realização (sentimento/experiência) de que o homem é filho de Deus. Por ser filho herdeiro de Deus, o homem compartilha da mesma natureza (essência) de Deus, sendo um ser totalmente realizado, amoroso, bem-aventurado, livre, feliz. O filho de Deus é uno com Deus e, por conseguinte, uno com todos os filhos de Deus. Assim, todos os filhos de Deus, juntos, constituem a Filiação Divina, ou seja, são o Filho Unigênito de Deus. Em todo o universo só existe a unicidade, e essa unicidade em si é Amor. Deus é Amor. Deus é todo esse universo divino e glorioso Se expressando. Essa verdade sagrada pode ser vista e experienciada. Quando essa verdade está presente na consciência (no interior) do homem, a vida no mundo físico reflete todas as qualidades conscientizadas.

Em todos os lugares pessoas estão se empenhando para conhecer Deus. Buscam alcançar o divino através de ensinamentos contidos em livros, em palestras, ou até mesmo mediante contato direto e pessoal com professores espirituais. Em todos esses casos, as práticas mencionadas devem ser realizadas com imensa veneração e sacralidade para que se obtenha um resultado realmente frutífero, proveitoso. Qualquer atividade ligada ao sagrado deve ser encarada como uma sadhana (prática espiritual realizada com espírito de reverência e disciplina), porque isso é o que ela realmente é: uma prática espiritual.

A Seicho-No-Ie, por exemplo, considera fundamental a prática concomitante de três disciplinas espirituais a fim de que o homem possa realizar em si a vida de Deus: 1) Leitura constante de livros da Verdade; 2) Dedicação de amor ao próximo através de atos concretos; 3) Prática diária de Oração/Meditação. Todas essas práticas, se imbuídas do correto estado de espírito (estado de espírito consagrado), conduzem o ser humano ao verdadeiro conhecimento da Verdade. Mas o  objetivo deste texto é falar principalmente sobre a melhor maneira de se proceder à leitura das obras espirituais, sagradas – principalmente aquelas que intentam comunicar a Verdade indizível. É muito importante termos a compreensão de que o estudo de uma obra sagrada não serve apenas de instrumento para conduzir à execução de determinada prática espiritual. Ou seja, não se trata só de um "meio" para  se atingir um "fim". Sua leitura é um fim em si mesmo, constituindo ela própria prática espiritual. Nem todo ensinamento ou mestre apresenta essa visão.

A Verdade Sagrada não pode ser comunicada através das palavras. Palavras, por si só, são limitadas, fragmentadas, dualísticas, e não conseguem expressar o que é de natureza transcendental, inteira, unida. Conhecer a Verdade é ser a Verdade. Diferentemente dos conhecimentos acadêmicos que podem ser adquiridos no mundo, o conhecimento da Verdade ao mesmo tempo que é "conhecimento" é também "experiência", "vivência", "realização". A natureza do mundo é tal que permite que as coisas primeiro sejam conhecidas e posteriormente executadas. A natureza mundana permite existir separação entre conhecimento e prática. Com a Verdade, o mesmo não ocorre. Em se tratando da Verdade, "conhecer a Verdade é ser a Verdade".

Por isso, uma obra espiritual não deve ser lida do mesmo modo como se faz com artigos escritos nas enciclopédias, livros, revistas e jornais. A leitura de livros sagrados feita por meio de uma postura mental (ou estado de espírito) mundana mantém a separação entre "conhecimento" e "experiência", e o conhecimento da Verdade fica reduzido a algo puramente intelectual, teórico – estéril e infrutífero. Mediante tal procedimento não se alcança grandes resultados na caminhada espiritual. A leitura de uma obra da Verdade deve ser feita com total sacralidade.

Através da leitura de livros (ou audiência de palestras), o entendimento da profunda verdade espiritual não depende (nem ocorre através) das habilidades de pensamento, raciocínio, reflexão, contemplação, inteligência e demais capacidades da mente. A Verdade Sagrada transcende completamente a mente humana. Sempre que um indivíduo alcança a percepção, a compreensão (ou mesmo um lampejo) da Verdade, isso ocorre mediante processo sublime: a fonte emissora do conhecimento transcendental está situada em um espaço sagrado que não pode ser alcançado ou violado pela mente. A transmissão do conhecimento ocorre no âmbito desse mesmo espaço sagrado, além da mente. Por sua vez, a fonte receptora em nós que capta e apreende o conhecimento também habita esse espaço sagrado e misterioso para a mente.

Em outras palavras, eis o modo como se dá este processo: a vibração divina impregnada no livro (ou que emana das palavras e da presença do palestrante) se comunica com a mente divina em nós. Com isso, a presença divina em nós é tocada tal qual um sino que passa a vibrar e soar... e então desperta. E enquanto ocorrer a ressonância (enquanto estiver desperta) tem-se a compreensão ou lampejo. Todo o processo de comunicação (emissão, transmissão e recepção) ocorre a nível supra mental. O que desperta o Sagrado em nós é a vibração das palavras pronunciadas pelo Sagrado presente na fonte emissora da mensagem. Então o conhecimento sagrado é verdadeiramente captado (sentido, experienciado). Nesse sentido, Masaharu Taniguchi assim explica:

A definição da Imagem Verdadeira da Vida do homem é impossível de ser feita através de palavras, por mais que se tente, e o zen-budismo diz que não se chega à conclusão alguma, por mais que alguém discorra sobre isso. Dizem também que, sendo difícil transmitir através das palavras, transmite-se de mente para mente. Desse modo, a Imagem Verdadeira é algo que acreditamos ter compreendido para, no instante seguinte, acharmos que nada entendemos a seu respeito, sendo muito difícil compreendê-la e transmiti-la a outrem. É difícil transmitir, mas isso não significa que devemos ficar quietos, sem nada falar sobre ela. Se num Grande Seminário o palestrante ficasse calado, ninguém iria ouvi-lo. Isso deixa o preletor que tenta explicar sobre a Imagem Verdadeira numa situação desesperadora.

Diz-se que houve certa ocasião em que Sakyamuni subiu ao púlpito  e permaneceu imóvel sem nada dizer. Olhando bem, ele estava dormindo, soltando até baba pela boca. Então, Manjusri bateu um pedaço de madeira contra outro, avisando o termo do sermão, deixando perplexas as pessoas presentes. Isso consta numa escritura de certa escola zen-budista.

Sendo impossível explicar sobre a Imagem Verdadeira através de palavras, é preferível tirar uma soneca no púlpito, como fez Sakyamuni, a proferir uma palestra malfeita. Tal é a dificuldade de expressar em palavras a Imagem Verdadeira. Portanto, não adianta o leitor interpretar mecanicamente as palavras que escreverei a seguir, porque não conseguirá entender realmente. É preciso compreender telepaticamente, captando a atmosfera das palavras. (Livro: Descoberta e conscientização da verdadeira natureza humana)

É curioso notar os termos que o autor utiliza para expressar o modo como se dá a transmissão do conhecimento da Verdade. Não somos nós – pessoas dotadas de mente cerebral que analisa, disseca, pondera, interpreta e forma conclusões – quem captamos o conteúdo vivo, verdadeiro, existente nas palavras do livro ou do palestrante. Em cada um de nós há um lugar mais profundo (e, nesse lugar, uma presença / inteligência divina) que assimila o conteúdo verdadeiro de um texto sagrado. O conteúdo formado a partir da literalidade (ou da interpretação mental) das palavras não é o conteúdo vivo e verdadeiro ao qual nos referimos. As palavras do escritor podem estar registradas no material físico (páginas do livro), mas também estão presentes em um espaço invisível onde fica depositado o conteúdo verdadeiro, resultante do estado de consciência, da inspiração, do grau de concentração, e também da intenção que o autor projeta ao fazer o arranjo dos vocábulos e das ideias utilizadas para se comunicar. A combinação de todos esses fatores cria uma "atmosfera viva" que se faz presente no texto sagrado. O que todo o leitor deve fazer é buscar perceber e entrar contato com essa atmosfera sutil que permeia o texto espiritual. Por isso, Masaharu Taniguchi diz: "transmite-se de mente para mente"... "é preciso compreender telepaticamente, captando a atmosfera das palavras".

Se conseguirmos nos conectar com essa atmosfera sutil, a verdade captada produz efeito imediato em nossa consciência. O efeito é imediato porque (ao contrário da mente humana) a mente verdadeira não oferece resistência à palavra que está sendo comunicada. No interior (espaço sagrado) de cada ser humano existe o coração puro de criança que não contesta a veracidade da Verdade. A mente humana acredita na dualidade "bem e mal" (e, consequentemente, na imperfeição), e não é capaz de aceitar a Verdade que todo o Universo é uma existência una, harmoniosa e perfeita. Portanto, a mente humana irá sempre descrer, desconfiar, duvidar, contestar e questionar. E é justamente a descrença que constitui barreira a impedir o conhecimento das verdades transcendentais. Por isso, o estado de espírito de docilidade e pureza é muito importante. Vejamos o que Masaharu Taniguchi ensina a  esse respeito:

As palavras de Deus não são meras teorias

Certo adepto da Seicho-No-Ie adoeceu e estava acamado havia mais de um mês, sem sinal de melhora. Ele sabia que a causa era a atitude mental errônea. Dizia a si mesmo que não devia guardar rancor e procurava perdoar os que o haviam magoado, mas não conseguia. Sabia que a Seicho-No-Ie, diferente de muitas outras doutrinas morais que pregam o "esforço para perdoar", ensina que o espírito de perdão deve brotar naturalmente; entretanto, não sabia o que fazer para que isso acontecesse.

Certa tarde, ele abriu o volume 1 de A Verdade da Vida e leu o trecho inicial da Revelação Divina do "Acendedor dos Sete Candeeiros", que consta nas primeiras páginas: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra". O fato interessante é que, sem se dar conta, ele tomara a postura de meditação ao ler a Revelação Divina. Em seguida, leu outra Revelação Divina que consta no livro "Deus fala ao homem", e que, entre outras coisas, diz: "Antes de tomares a refeição, reconcilia-te com teus irmãos".

Ele já havia lido essas Revelações Divinas em outras ocasiões, mas era a primeira vez que lia com sentimento de reverência e com a convicção de que se tratavam de palavras transmitidas diretamente por Deus. Enquanto as lia, experimentou uma agradável sensação de leveza, e percebeu que já não nutria ressentimento contra ninguém. Foi como se tivesse se livrado de um fardo pesado. A agradável sensação de leveza tomou conta dele, e a doença sarou como que por encanto.

Ele compreendeu, então, como era importante a postura mental correta quando se lê livros que contêm as palavras de Deus. Até então, a postura mental dele quando lia as Revelações Divinas era a de procurar analisar, compreender e assimilar o ensinamento nelas contido. Pela primeira vez, compreendeu realmente que as palavras contidas no livro A Verdade da Vida são palavras de Deus e que, lendo-as com fé e espírito de reverência, as vibrações que delas emanam produzem grande efeito, mesmo que não sejam entendidas ou memorizadas. Foi uma descoberta maravilhosa compreender que as palavras de Deus não são teorias a serem analisadas e compreendidas, e que cabe a nós simplesmente acreditar nelas e reverenciá-las.

Em Gênesis 1;3, assim consta: "Exista a luz. E a luz existiu". Não nos cabe argumentar ou discutir "por que Deus ordenou que existisse a luz?", "por que a luz surgiu conforme a ordem de Deus?", etc. As palavras de Deus são sublimes e cumprem-se infalivelmente, pelo próprio fato de serem palavras de Deus. Assim, uma vez que Deus disse: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra", não nos cabe questionar o por quê. Quando lemos essas palavras com muita fé e reverência, vemo-nos reconciliados naturalmente com todas as coisas do céu e da terra. (Livro: A Verdade da Vida, volume 34)

Concluindo: não somos nós (pessoas dotadas de mente humana) que temos poder para abraçar a Verdade. Somente Deus em nós é capaz de aceitar a veracidade da Verdade. Também não somos nós quem percebemos a Verdade – Deus em nós é que percebe. E é também Deus quem realiza as obras. Isso é o que torna possível experimentarmos resultados imediatos, mesmo em caso de não entendermos ou de não prestarmos atenção ao conteúdo comum das palavras contidas num livro sagrado. Apreendendo o sentido dessa Verdade, constatamos também que as palavras presentes na literatura sagrada são palavras de Deus, que não foram escritas por criatura humana, mas que provêm do próprio Eu, que é a fonte divina da qual emana todo ensinamento verdadeiro. A compreensão da Verdade somente se torna possível ao receber a Graça divina. A percepção da Verdade também ocorre somente pela Graça divina. E o que fazer para receber a Graça? A Graça vem somente onde há sacralidade. Graça e sacralidade caminham sempre juntas, de mãos dadas. Por isso, as obras da Verdade devem ser vistas como sagradas. E de fato o são! Todo ato de ler um livro ou texto espiritual consiste em sadhana, uma prática espiritual sagrada.

Namastê!

 

terça-feira, janeiro 30, 2018

Oração para eliminar a ilusão e contemplar o mundo da Imagem Verdadeira


- Masaharu Taniguchi -


Oração para eliminar a ilusão e contemplar o mundo da Imagem Verdadeira de felicidade eterna:

Existem muitas pessoas que vivem temendo a ocorrência de infortúnios, doenças ou acidentes, considerando-os castigos de Deus. Há também religiosos que amedrontam as pessoas com ameaças de "punição divina" ou "castigo do céu", para induzi-las a se converterem à seita ou religião deles. Tanto esses religiosos, como as pessoas que neles acreditam, estão errados.

A Bíblia ensina que onde existe o amor perfeito não há medo, e que o amor perfeito é manifestação de Deus. Portanto, o verdadeiro cristianismo não suscita temor nas pessoas, e os verdadeiros cristãos não procuram converter as pessoas com ameaças de "castigo divino".

Também no budismo, o Hannya Shingyō (Prajfiã-paramitã-sutra) diz: "Eliminando-se a ilusão, desaparece o temor". Isto significa que a fé religiosa que suscita temor não é verdadeira, sendo apenas ilusão camuflada de fé. Ilusão é como sonho; é ver aspectos contrários à realidade. Pode acontecer de alguém, no sonho, ver-se submetido a um terrível castigo e, acordando, perceber que estivera sonhando e soltar uma risada de alívio. Julgar "existente" o que "não existe" - este pensamento contrário à realidade é ilusão. Pode acontecer, também, de alguém sonhar que perdeu algo e, acordando, constatar que esse algo permanece ali, diante de seus olhos. O mesmo ocorre com a ilusão. Pode-se dizer, portanto, que ilusão é "pensamento invertido", ou seja, julgar "existente" o que "não existe", e vice-versa. Por isso, o Hannya Shingyō afirma que o estado de ilusão é como o sonho no qual a pessoa julga ser real o que não existe realmente; ensina que neste mundo criado por Deus não há criatura alguma e coisa alguma capaz de nos infundir medo, e diz que é preciso abandonar o "pensamento invertido", isto é, a ilusão, pois assim o medo desaparecerá.

Tudo que existe de verdade é obra criada pelo Deus único. Deus, o Criador, é Bem infinito, é possuidor de Sabedoria infinita. Portanto, neste mundo criado pela Sabedoria infinita de Deus não existem falhas nem incoerências. Este mundo só pode ser um mundo perfeito onde todos os seres vivem em total harmonia, ajudando e complementando uns aos outros. Por isso, basta abrirmos os olhos da mente, eliminarmos a ilusão e contemplarmos a Imagem Verdadeira para que todos os males - originalmente inexistentes - desapareçam por completo. Desaparecendo a ilusão, ocorre a cura da doença, cessa o conflito, ninguém permanece pobre ou feio. E assim podemos descortinar, neste mundo que habitamos, o aspecto perfeito do mundo da Imagem Verdadeira onde existe a felicidade eterna.

Eliminemos a ilusão. Na verdade, o mundo que habitamos aqui e agora é a manifestação exata do mundo da Imagem Verdadeira, onde reinam o bem e o belo supremos e a felicidade eterna. Tendo recebido a revelação desta Verdade, contemplo neste momento o mundo onde reinam o bem, o belo e a felicidade eterna, e o meu coração pulsa de alegria infinita.

Agradeço a Deus por esta bênção. Muito obrigado.

(Do livro: A Verdade em Orações, vol. 2)

sexta-feira, janeiro 26, 2018

Agradecer a Deus porque já somos saudáveis!

- Masaharu Taniguchi -


AGRADEÇAMOS A DEUS ADMITINDO QUE JÁ SOMOS SAUDAVEIS.

Se um doente não consegue recuperar a saúde, é porque está agarrado à idéia de que está doente. Se os diversos métodos de terapia, as orações e a leitura de livros sagrados não surtem efeito, é porque ele pensa: “Preciso me curar porque estou doente.” Dessa forma, ele está agarrado á idéia “porque estou doente” e está lutando contra ela. “A doença não existe” – isto é a Verdade, é o Jissô. Se queremos despertar em nós esse Jissô saudável, não devemos ficar mantendo a ideia “porque estou doente”. Assim, não conseguiremos firmar a ideia de que a “doença não existe”. Se abandonarmos a ideia “eu estou doente” e a substituirmos pela ideia “eu sou saudável”, a doença será curada.

Então, como faremos para consegui-lo? Para isso, devemos agradecer a Deus, admitindo que já somos saudáveis e que fomos criados perfeitos. Tomemos a postura de Shinsokan e agradeçamos a Deus da seguinte forma: "Deus é o todo de tudo, é Vida de Deus, sabedoria de Deus e amor de Deus. E eu, não fugindo à regra, também sou preenchido pela Vida perfeita, sabedoria perfeita e amor perfeito de Deus. Por isso, tenho saúde perfeita. Realmente, tenho saúde perfeita. Obrigado, Obrigado. Realmente, agora tenho saúde perfeita. Obrigado, Obrigado...".

Estas palavras de agradecimento, ditas com a real sensação de que somos saudáveis, têm força para afastar o pensamento "quero me curar porque estou doente". É bom repetirmos mentalmente várias vezes o último trecho, com emoção, até que se crie essa sensação dentro de nós: "Realmente, agora tenho saúde perfeita".



segunda-feira, janeiro 22, 2018

O profundo significado da "tentação"

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- Joel S. Goldsmith - 


"Em seguida, foi Jesus levado pelo espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome. Então se aproximou dele o tentador e disse-lhe: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pão. Respondeu-lhe Jesus: Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus." (Mateus 4: 1-4)

Vemos aqui o grande e profundo significado da tentação.

Esta passagem mostra o exemplo típico de fidelidade à essência de todos estes ensinamentos, ante à tentação que sentimos de concentrar o pensamento e a atenção nas coisas deste mundo, isto é, nas necessidades externas, e demonstrar o poder de produzir efeitos extraordinários, como a provisão de alimentos mediante a operação de um milagre.

Jesus sabia que essa não era a maneira de se demonstrar a presença de Deus como suprimento de nossas necessidades.

O meio de demonstrá-la consiste em se viver permanentemente numa atitude interna que se pode traduzir nestes termos: Uma vez que Deus é consciência divina, e que a consciência é a substância e atividade criadora de todas as formas, enquanto eu viver, me mover e tiver ao meu ser como consciência espiritual, todas as formas de suprimento aparecerão sem que eu me preocupe com elas. Esta era a resposta de Jesus a todas as tentações.

Esta deve ser também a tua resposta. Em vez de trabalhar, isto é, de fazer trabalho mental, quando se te apresente qualquer problema, lembra-te de que já aceitaste os dois grandes mandamentos de Jesus: "Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir" e "Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e Sua justiça (verdade), e estas coisas vos serão dadas de acréscimo."

Quando te sentires tentado a usar esta verdade para obter um emprego, ou para efetuar uma cura ou fazer alguma coisa no plano externo, dize como Jesus, a ti mesmo:

"Eu não vivo somente de pão, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus. Não vivo de suprimentos externos. Estes são coisas recebidas de acréscimo, que me vêm às mãos espontaneamente, como um desdobramento natural do meu estado de autorrealização em Deus, a Consciência divina, que está sempre Se manifestando como minha consciência individual. Ela é a fonte do meu suprimento; logo, não preciso fazer magia. Não preciso que o eu pessoal se arvore em demonstrador de poderes. O único EU, o grande EU SOU, está governando, mantendo e sustendo Sua própria imagem e semelhança. Se tentar fazer milagre, se tentar fazer demonstração de poder, estarei criando um eu separado de Deus, revestindo-me, assim, de uma personalidade que não é de Deus. Deus está sempre mantendo o que é Seu."

Por ceder à tentação de demonstrar poderes é que a mente humana entra em conflito e cria sofrimentos. Por exemplo, o filho pródigo, não estava satisfeito em viver só dos bens de seu pai, e por isso, saiu de casa, partiu para o mundo, com o desejo de abrir se próprio caminho na vida. E sabes como acabou.

Na Antiguidade, deu-se à origem do mal o nome de “diabo”. O diabo não é nem nunca foi uma pessoa. O diabo, ou mal, é algo de natureza impessoal. É possível que ele apareça como pecado, delinquência juvenil, falso desejo, doença incurável, pobreza, ou morte.

Entretanto, seja qual for o nome ou natureza, aquilo que se põe à sua frente é um mal único.  Empregamos para ele a designação “mente carnal”, dada por Paulo, ou algum outro termo, como “aparência” - matéria, por exemplo.  A discórdia ou tentação não é uma entidade ou identidade física; ela é uma “aparência”, um produto da mente carnal: a crença em dois poderes.


"Então o diabo o levou à cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: 'Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Recomendou-te a seus anjos que te guardem ... para que não tropeces em alguma pedra.'"

"Replicou-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus." (Mateus 4: 5-7)

Se temos o próprio Deus como nossa consciência, se Deus é a nossa Alma, Mente e o Ser que Somos, acaso precisaremos produzir anjos, alguma espécie de efeitos extraordinários para nos segurar, amparar e ajudar?

Precisaremos de alguma coisa além de Deus? Não nos tornaremos idólatras quando recorremos a algo que não seja Deus, a algo menos que Deus para nos manter? Acaso não será isso pecado contra o nosso próprio senso de vida espiritual?

Quando formos tentados a recorrer ao homem cujo fôlego está no seu nariz, quando formos tentados a confiar em alguma forma humana de Deus, ainda que nos pareça como um anjo, lembremo-nos da tentação de Jesus. Perguntemo-nos a nós mesmos: Tenho alguma necessidade de anjos? Necessito de algum auxílio? Necessito de alguma forma menor de ajuda, mesmo que seja a do pensamento humano?


Ainda o diabo o transportou a um monte muito elevado, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, e disse-lhe: Todas estas coisas te darei se, prostrando-te em terra, me adorares.

Ordenou-lhe Jesus: Vai para trás, Satã, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás!

Então o diabo o deixou, e eis que vieram anjos e o serviram. (Mateus 4: 10-11)

Quando compreender a Deus como Onipotência, estará habilitado a se livrar do mal sob todas as formas, mediante as seguintes palavras: “Nenhum poder terás sobre mim, a não ser que tu venhas de Deus. Ao lado de Deus não há nenhum outro poder; e o Poder divino é presente tanto no céu como exatamente aqui onde eu estou.” Mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

De vez em quando, todos nós somos tentados a dar as costas ao nosso mais elevado senso de Alma, a fim de melhorar nosso destino neste mundo; somos tentados a melhorar nossa situação descendo da altura espiritual em que nos sentimos em Unidade com Deus para adotarmos uma forma de tratamento inferior; somos tentados a confiar em alguma coisa separada e independente de Deus.

E aí é que devemos resistir à tentação e aprender a ficar em silêncio, nesse estado de paz que não vê poderes em aparências.

Uma vez que Deus é a consciência individual de cada um, não precisaremos de nenhuma forma de tratamento inferior ao representado por esta certeza; não precisaremos de nenhuma ajuda humana, nem sequer sob forma mental.

Precisaremos somente estar sempre seguros de que Deus é a nossa consciência individual.
      
Comecei dizendo que devemos todos chegar a um nível de consciência que nos permita saber o que é Deus. E agora volto ao assunto. Deus é o princípio deste universo, mas se manifesta como consciência individual. É o principio do teu e do meu universo individual e a lei para a tua e para minha vida.  

Nossa experiência externa é determinada pelo nosso, o teu e o meu grau de autorrealização em Deus – a Lei, a Vida Divina-, que atua como tua consciência individual. Isto, porém, não significa que cada um de nós seja ou tenha um Deus separado, mas quer dizer que, não obstante cada indivíduo possuir consciência ilimitada, essa consciência individual ó o único Deus, o Onipotente.
       
No entanto, enquanto não soubermos que, como consciência individual, temos o nosso ser em Deus e que em Sua eterna presença vivemos e nos movemos, não estaremos recebendo Sua orientação e proteção no que estejamos fazendo neste mundo.

Para isso, precisamos saber que Ele é a divina realidade de nosso ser; precisamos senti-lo mais perto que o próprio ar que respiramos. Este é o segredo.

Não basta saber intelectualmente que Deus é a Vida eterna. Precisamos estar extremamente conscientizados disso, como estava Jesus, quando declarou: Eu sou a vida eterna. Nesse estado de ser, ele não disse que Deus era a vida eterna, nem que Deus era o caminho, mas afirmou: Eu sou o caminho. 

Em outras palavras: Tudo o que Deus é, Eu sou; tudo o que Deus tem, Eu tenho, porque Eu e o Pai somos um.

Compreendes que para poderes ajudar alguém não deves voltar as costas à tua própria consciência, à Consciência-Deus? Antes, pelo contrário, deves permitir que haja em ti aquela paz e confiança que Jesus demonstrou ao vencer as tentações.

Não deves esquecer essa história das tentações no deserto. Lembra-te que Jesus estava no cume do monte, mas com sua consciência divina. Lembra-te de que ele sabia que sua própria consciência era a fonte de todo bem.

Cada um de nós, uma ou outra vez, será solicitado a ajudar alguém. Alguns serão chamados para ajudar a muitos. Para isso, nenhuma lição será de maior valor que esta que te estou dando agora. Começa hoje, neste momento: Lembra-te de que o que atua em benefício da tua família, dos teus negócios, de teu lar, do teu corpo, é a tua consciência, e não um deus distante. É a tua própria consciência individual, quando em silêncio e paz.

Tudo o que tens ou terás de fazer quando fores chamado, será conseguir esse estado de paz.

Não te preocupes em aprender grandes verdades. Provavelmente não existe verdades maiores do que as que já conheces.

Há, porém, uma coisa que deves conseguir pela prática da meditação: um estado de paz interior ligado à compreensão de que o Cristo que cura é a tua própria consciência.

Quando houver em ti aquela mente que havia em Cristo Jesus, e que é o que cura, tu o saberás. Estarás então nesse estado de paz que resulta da compreensão espiritual de que o erro não é poder, porque não é real. E não o combaterás, não lutarás com ele, não procurarás algemá-lo, nem passarás a noite sentado, de vigília, para teres a certeza de que ele não te vencerá. O que deves fazer é procurar aprender como encontrar a tua paz.

Quando andares pelo mundo com essa sensação de paz – com essa paz que só se pode experimentar quando se compreende que Deus É Tudo e que o erro não é -, quando sentires essa sensação de paz, será porque já terás atingido a Consciência Crística, que é a tua consciência individual, quando já não temes, não odeias nem amas o erro, qualquer que seja seu nome ou natureza.

Não temos feito os trabalhos de cura que deveríamos fazer, e em quase todos os casos a razão é sempre a mesma. É a nossa curiosidade em saber quando a mente de Deus fará alguma coisa em benefício do paciente, ou quando o Amor divino começará o trabalho, ou quando entraremos em contato com o Amor divino, o Espírito que cura.

Deste modo, não podemos e nunca faremos o trabalho que deveríamos, porque, no caso, a curiosidade implica em negar a verdade de que Mente de Deus é a nossa mente individual, de que o Espírito é o nosso espírito individual, e o Amor divino é o amor de que estamos impregnados como consciência individual. E só alcançamos o nível de consciência que faz o trabalho de cura quando nossa mente está em paz.

Se alguém te pedir ajuda, estarás no dever de entrar no estado de paz que excede todo o entendimento humano, e então este estado de paz será para toda crença errônea o mesmo que foi a ordem de Jesus para aquela tempestade no lago Tiberíades.

O praticante de cura espiritual precisa viver, mover-se e ter seu ser nesse estado de paz que produz a cura, nesse estado de harmonia, bem-estar e confiança, nesse estado de transparência espiritual.

Nesse estado de transparência, tua consciência individual (e a minha) é Deus! E Deus, a verdadeira consciência do indivíduo, é o que cura.


sexta-feira, janeiro 19, 2018

"Eu vim para que tenham Vida"

- Omraam Mikhaël Aïvanhov -


No “Sermão da Montanha” Jesus dirige-se aos discípulos, assim como à multidão de homens e mulheres que o haviam seguido, e lhes ensina a orar. Diz a eles: “Portanto, orai vós deste modo: Pai nosso que estás no Céu...”

Então, reflitamos. O que nos permite chamar um homem de “pai”? O fato de reconhecermos quem nos transmitiu a vida. Os filhos reconhecem no pai aquele de quem receberam a vida, e o pai vê nos filhos o prolongamento de sua própria existência/vida... Portanto, se quisermos saber o que Jesus tinha em mente ao apresentar a relação de seres humanos com Deus como uma relação de filhos para pai, devemos nos debruçar sobre esse imenso e misterioso campo que é a vida. Por toda parte existe vida, toda a natureza vive, todos os seres são vivos, e, no entanto, como são poucos os homens e mulheres que sabem o que é a vida!

Quando estão passando por dificuldades, infelicidades, eles exclamam: “Fazer o que... é a vida!” Entendem a vida como algo exterior, que devem suportar passivamente. Insucessos, acidentes, doenças, sofrimentos, “é a vida!”. Se amaram, casaram-se, e, agora, divorciam-se, então, mais uma vez, “é a vida!”. Não, a vida não é isso. Eles chamam de vida uma sucessão de erros, fraquezas, fracassos, sem se darem conta de que foram eles que produziram essa existência lamentável. O Criador havia prescrito uma outra vida para eles!

Jesus dizia: “O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” De que vida estamos falando? Nós já estamos vivos!... Foram essas palavras de Jesus que me levaram a tantas explorações no âmbito da vida. Leia atentamente os Evangelhos e você verá que Jesus só fala da vida. Por isso é necessário sempre retornar a essa questão da vida, para estudá-la sob todas as suas formas.

Os seres humanos buscam o poder, a riqueza, o conhecimento, o amor... Mas não, é a vida que devem buscar. Vocês dirão: “Mas por que buscar a vida? Já a temos, estamos vivos. O que precisamos fazer é buscar aquilo que não temos.” Vocês estão vivos, é verdade, mas a vida não é a mesma em todos os seres, a vida tem graus. Do mineral até Deus, passando pelos vegetais, os animais, os homens, os anjos, tudo está vivo. Não basta viver, é preciso perguntar a si mesmo que tipo de vida se está vivendo. Por sua conformação física, o homem, naturalmente, leva uma vida de homem. Mas no seu interior a vida pode assumir formas e cores infinitas. A vida a que Jesus se refere e deseja levar a todos os seres humanos é a vida divina, semelhante a uma corrente que brota pura e límpida da Fonte original.

A vida costuma ser comparada ao fluir da água. E quanta diferença entre a água da nascente, no alto da montanha, e aquela que chega à desembocadura do rio, depois de receber todo tipo de sujeira e produtos tóxicos! Essa água de que os homens tanto precisam para viver – mais necessária até que o alimento (podemos ficar mais tempo sem comer do que sem beber) – é uma fonte de regeneração, mas também pode ser causa de morte. Quando um rio chega à planície e atravessa uma grande cidade, ninguém teria a idéia de beber nele para matar a sede. Sim, vejam o Sena em Paris... Não quero nem descrever tudo o que foi atirado nele ao longo de seu percurso. É sempre o mesmo curso d’água, mas não é mais a água pura que brotou lá no alto da montanha!

Pura ou poluída, a água continua sendo água, como a vida continua sendo vida; mas nada é mais vivificante do que a água pura, ao passo que a água poluída traz a morte. Ainda hoje, quantas pessoas não ficam doentes e morrem por ter bebido água poluída!

A Vida brota no seio de Deus e desce para dar de beber a todas as criaturas. Mas os seres humanos não têm consciência do caráter sagrado presente nela, eles sujam a vida de Deus, a água de Deus. Espantados, vocês se perguntam: “Mas como é que poderíamos sujar a vida divina?”. Toda vez que lhes falta sabedoria, amor, desinteresse, é como se estivessem jogando lixo no rio do Senhor. E o rio não protesta, ele aceita tudo, para ajudar os seres humanos.

Guardemos a imagem do rio, pois ela nos esclarece sobre essa unidade infinita que é a vida. Entre a fonte e a foz de um rio, quantas regiões diferentes não foram atravessadas, e que enorme diferença, portanto, na qualidade da água! No entanto, é o mesmo rio. Quando falamos da vida é preciso ter consciência de que nela está abarcada a totalidade das existências. Nada nem ninguém pode prescindir da vida. É dessa vida que se alimentam todas as criaturas, e isso quer dizer que se alimentam da vida umas das outras. Então, não se surpreenda se eu disser que, num nível ou outro, cada um come e é comido.

É muito fácil de entender: quando vocês são tomados por pensamentos e sentimentos egoístas, injustos e maus, é como se tivessem se alimentado nas regiões inferiores da vida. Aceitando esses pensamentos e esses sentimentos, vocês os fortalecem; mas não apenas os fortalecem, pois, como os pensamentos e sentimentos também emitem ondas que se propagam, vocês projetam emanações insalubres que servem de alimento a outras pessoas e mesmo às entidades infernais. Ao passo que quando se esforçam por cultivar pensamentos e sentimentos de harmonia e generosidade vocês não só se ligam às entidades superiores como esse alimento divino vai nutrir outras criaturas luminosas, e é assim que vocês viverão com elas, pois as terão alimentado.

A vida é feita de transformações, de incessantes transferências de uma criatura para outra. Cada um absorve a vida dos outros e, em troca, também os alimenta com sua própria vida. Portanto, sejam vigilantes, sabendo que só depende de vocês o alimento que vão receber e aquele que vão dar, de quem vai recebê-lo e a quem vão dá-lo. Tanto as criaturas angélicas quanto as diabólicas podem alimentar-nos ou se alimentar de nós.

Vocês dirão que os demônios estão no inferno e que é impossível nos alimentarmos deles ou que eles se alimentem de nós... Mas como é que vocês imaginam o inferno? Onde ele fica? Ele também faz parte do rio da vida; apenas não está na fonte, mas na desembocadura, e também é alimentado pela vida divina. Deus é a fonte da vida, foi Ele que tudo criou, e nada nem ninguém existe fora Dele. Todo ser vivo vive a vida de Deus. Assim sendo, devemos aceitar que esses seres que chamamos de demônios também tenham recebido a vida de Dele. Pois eles vivem, não podemos negá-lo, e se Deus não lhes retira a vida, é porque aceita sua existência.

A luz, o amor, a paciência de Deus alimentam todas as criaturas. Naturalmente, as que não permanecem junto a Ele provam-se dessas bênçãos. Mas são elas que se privam, não é o Senhor que as retirou delas. Alguns ficarão escandalizados com a maneira como apresento o inferno e os demônios. Pois bem, não adianta ficar escandalizado, é preciso raciocinar. Se as entidades tenebrosas não obtiveram sua vida de Deus, de quem a receberam? Acaso teriam criado elas mesmas ou a receberam de algum outro criador? Se Deus não é o único dono da vida, isso significaria que tampouco é o dono único do universo, e, portanto, não é todo-poderoso. Vejam só quantas contradições... Portanto, entendam que, se os espíritos infernais receberam a vida de Deus, também se alimentam da vida de Deus. Mas qual é o alimento que recebem? Certamente não é o mesmo alimento dos anjos, mas as cascas, os detritos deixados por outras criaturas à medida que a água do rio se afasta da Fonte; pois nessas cascas ainda sobram algumas partículas de vida lá do alto.

É preciso que isso fique bem claro. Deixando a fonte divina, o rio da vida desce, e ao descer atravessa as regiões chamadas pelos cristãos de hierarquias angélicas, e pelos cabalistas de sephirot. Mas a vida que sai de Deus não se detém aí, compreendendo também, mais embaixo, as regiões designadas pelos cristãos como “inferno” e pelos cabalistas como “kliphoth”, cujo significado é crosta, casca. Essas regiões ainda contêm alguns átomos da vida oriunda de Deus, é preciso repeti-lo sempre, pois não pode existir nenhuma vida fora de Deus. Se houvesse uma vida fora de Deus, é porque haveria um outro criador, e nesse caso teríamos o direito de sair em busca dele: o primeiro não sendo todo-poderoso, teríamos motivo para procurar um outro.

E como essa questão da unidade da criação não foi claramente explicada pela Igreja, diversos homens e mulheres quiseram pôr-se a serviço de Satã para combater o Senhor. Quanta ignorância! Que vitória imaginavam obter? Eles não sabiam que iriam absorver todas as imundícies, todos os restos caídos da vida divina. Mas que benefício, hein!

No plano físico, um malfeitor, um monstro, pode comer o alimento mais suculento e servi-lo a seus convidados. Mas no plano psíquico/sutil só podemos comer ou dar de comer um alimento que se assemelhe a nós, que corresponda ao que somos em nosso coração, nosso intelecto, nossa alma e nosso espírito. Atraímos aquilo que tem afinidade conosco e damos aquilo que emana de nós. E de acordo com a qualidade desse alimento, nos fortalecemos, nos enriquecemos... ou então nos debilitamos.

“O ladrão vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida...”. Por que será que Jesus opõe as intenções do ladrão às suas próprias? O ladrão vem para tomar e Jesus vem para dar. E se ele vem para dar a vida é porque esse ladrão ao qual se opõe vem para tomá-la. Quem é esse ladrão que vem furtar os seres humanos? Na realidade, são muitos ladrões, e dos mais diferentes tipos. Alguns estão do lado de fora, mas muitos estão sobretudo neles mesmos: são os desejos e as ambições que eles se mostram sempre dispostos a satisfazer, sacrificando o que têm de mais precioso: a vida, a vida divina.

Vocês certamente leram no Antigo Testamento a história dos dois filhos de Isaac: Esaú e Jacó. Esaú, o mais velho, passava o dia caçando ou trabalhando no campo, enquanto Jacó se ocupava tranquilamente na tenda. Certo dia, retornando do campo cansado e faminto, Esaú encontrou Jacó preparando uma sopa de lentilha. Incapaz de resistir ao alimento, ele cedeu a Jacó seu direito de primogenitura, em troca de um prato de lentilha. Perder o direito de primogenitura, com as honrarias e vantagens decorrentes, por uma sopa de lentilha – que troca mais desproporcional! Mas trata-se de mais um relato simbólico que precisa ser interpretado.

Aceitando abrir mão de seu direito de primogenitura para poder imediatamente saciar a fome, Esaú é o ser humano disposto a sacrificar o que lhe confere grande valor aos olhos de seu Pai celeste em troca de prazeres imediatos. Devemos entender o direito de primogenitura num sentido bem amplo; não é questão de ir agora dizer aos primogênitos de todas as famílias para não abrirem mão das prerrogativas de sua posição. Estou aqui falando a vocês sobre o plano espiritual, não a respeito do plano físico.

Nas famílias terrenas, existe necessariamente o filho que nasceu primeiro, o segundo, o terceiro, etc., pois estamos no plano físico, e no plano físico, regido pelas leis do espaço e do tempo, há sempre uma ordem uma classificação: um objeto depois do outro, uma pessoa depois da outra; eles não podem apresentar-se todos juntos no mesmo lugar. Mas no plano espiritual, na família divina, os seres humanos ocupam todos a mesma posição. Todos desfrutam, portanto, do “direito de primogenitura”, ou seja, da condição de filhos e filhas de Deus. Depende apenas deles se conscientizarem disso e trabalharem para preservar a sua posição. Só aquele que põe em primeiro lugar seus apetites, seus instintos, perde essa condição de filho de Deus: seu pai não é mais Deus ou o Espírito Santo, mas essa entidade que é chamada por Jesus, nos Evangelhos, de Mammom, e que não passa de outro aspecto desse mesmo Satã que veio tentá-lo no deserto.

A sopa de lentilhas representa a satisfação do estômago, mas fome também é sinônimo de todos os apetites, de todas as cobiças. Quantas outras fomes não impelem os seres humanos a se atirar sobre outras satisfações, fazendo-os perder seu direito de primogenitura, sua dignidade de filhos de Deus! Toda vez que um ser cede a um instinto – gula, sensualidade, cólera, ciúme, ambição, ódio – está vendendo seu direito de primogenitura, sua realeza interior, por um prato de lentilhas, e com isso empobrece, submete-se, torna-se escravo. Ele deu algo de extremamente precioso em si mesmo, partículas da vida divina, em troca de uma coisa que não valia a pena.

E mais tarde, quando Isaac, à beira da morte, quer dar a benção a Esaú, sua mulher, Rebeca, dá um jeito para que Jacó receba a bênção. Quando Esaú chega, é tarde demais; Isaac tinha dado tudo a Jacó, e pode apenas dizer: “Eis que o tenho posto por senhor sobre ti, e todos os seus irmãos lhe tenho dado por servos; e de trigo e mosto o tenho fortalecido; que te farei, pois agora, meu filho?” Esaú já não é senhor de si mesmo, foi a seu irmão que Isaac deu o trigo e o vinho... O trigo e o vinho... O trigo, de que é feito o pão, e o vinho: será por acaso que aí estão os dois alimentos simbólicos que Melquisedec trouxera a Abraão e que Jesus dará a seus discípulos ao despedir-se deles? Quantas coisas não poderíamos descobrir na Bíblia se soubéssemos interpretar todas essas narrativas e, principalmente, relacioná-las umas às outras!

Ao dizer “eu vim para que tenham vida” Jesus nos obriga a tomar consciência de que nossa compreensão da vida é insuficiente. Nós recebemos a vida e vivemos... Nós a utilizamos, tomamos dela para satisfazer nossos desejos e necessidades, julgando assim nos desenvolver, quando na verdade nos debilitamos. E Deus, que nos deu a vida para que sejamos fortes, belos, poderosos, luminosos, na plenitude, vê apenas seres infelizes, franzinos, pálidos, encolhidos.

Portanto, se há uma coisa que eu compreendi, é que a única ciência que vale a pena ser estudada é a ciência da vida. E gostaria de convencê-los, pois todos os outros temas que abordarão, todas as atividades que empreenderão só poderão realmente proporcionar-lhes algo se vocês tiverem entendido essa realidade essencial: a vida. A consideração que vocês têm por essa vida divina que receberam determina a qualidade do seu comportamento e das suas ocupações.

Os seres humanos se esgotam na busca do poder, do sucesso, do prestígio, do dinheiro. Admitamos que os obtenham (o que nem é garantido), mas desperdiçam sua vida nesse processo, que lhes resta? Eles transformam a vida num meio de obter tudo que desejam, quando, pelo contrário, deveriam considerá-la como um objetivo, valendo-se de todas as faculdades para fortalecer, esclarecer e purificar a vida neles próprios. Em vez de estudar a vida, eles estudam a doença e a morte. A vida é assim por eles debilitada, diminuída. E no entanto, sem a vida nada há. Não nego o valor de certas aquisições, mas é graças à ciência da vida que cada coisa encontra lugar e sentido.

É a vida que alimenta o intelecto, o coração e a vontade. Quando o homem preserva essa vida em si mesmo, seu intelecto compreende, seu coração ama e se alegra, sua força de vontade cria e se revigora. Caso contrário, seu intelecto se entorpece, seu coração esfria e sua força de vontade vacila. Sem a vida não existe mais a possibilidade da ciência, da arte, da filosofia. Por isso é que lhes digo que a ciência da vida é a chave de todas as realizações. Ampliem a vida, limpem a fonte em vocês, para que a água corra mais livremente: poderão então encher os reservatórios e enviar essa vida ao intelecto, que será esclarecido, ao coração que se abrirá para as dimensões do universo, e à força de vontade, que se tornará criadora, incansável.

A vida é como a gasolina em um carro: se não tiver mais gasolina ou se você colocar qualquer outro líquido, ele não andará; porém, não falta nenhuma peça!.... A vida também pode ser comparada ao sangue: o sujeito mais vigoroso torna-se inanimado se for privado de seu sangue. Mas pergunte a alguém: “O que você faz da sua vida? Por acaso pensa em preservá-la, em torná-la mais forte, mais rica?” A pessoa olhará para você com espanto, pois, para ela, preservar a vida significa apenas não se expor imprudentemente aos perigos e se tratar quando estiver doente. No resto do tempo, a vida lhe serve para correr atrás dos prazeres, das aquisições materiais, para ganhar dinheiro ou prestígio. Esse ignorante não sabe ainda que o verdadeiro dinheiro é a sua própria vida. Sim, a vida é dinheiro! E um dinheiro que permite fazer compras em lojas muito melhores que as lojas daqui da Terra.

O dinheiro é a expressão material de todas as possibilidades que a vida nos oferece, sim, mas apenas a expressão material. É necessário aprender a transpô-lo para os outros planos – afetivo, mental, espiritual – para obter nesses planos o equivalente do que podemos obter no plano físico.

A vida é o óleo para a lâmpada, a água para o moinho, a gasolina para o automóvel, a corrente elétrica para a usina, o sangue para o organismo. É ela que permite que tudo funcione. Mas, apesar disso, é a mais ignorada, a mais desprezada. “Como?”, pergunta alguém. “Eu considero a vida o bem mais precioso. Ontem à noite um assaltante me abordou no escuro, numa esquina, ameaçando: ‘a bolsa ou a vida!’ Óbvio que eu entreguei a bolsa.” Muito bem, isto é verdade, quando a questão se apresenta assim, é a vida que escolhemos. Mas em outras circunstâncias não pensamos nela, a desperdiçamos, a depreciamos. É preciso ser posto contra a parede para entender. Antes, porém, as pessoas não têm consciência, desperdiçam a vida na busca de satisfações e vantagens que nunca são tão importantes quanto a vida em si. Para ganhar alguns trocados, para ter o prazer de se vangloriar de alguns sucessos, quantas pessoas são capazes de desperdiçar a própria vida! Em sua balança interior, diante do pouco que ganharam, elas nunca pensam em avaliar os tesouros da vida que perderam.

E para quantos homens e mulheres a vida só tem interesse quando vivida nos excessos! Preferem até matar-se, desde que possam viver sensações intensas... Será que se perguntam se foi para isso que Deus lhes deu a vida, e se não haveria outras maneiras de viver intensamente?... Não, a maioria dos seres humanos tem uma concepção da vida que os conduz à morte, à morte física ou espiritual, e, muitas vezes, às duas. Claro, todos morreremos um dia, mas isso nunca nos deve impedir de estudar a única verdadeira ciência: a ciência da vida. É a vida o que temos em comum com Deus e com tudo que existe no universo. Portanto, é nos tornando vivos que entramos em comunicação com Deus, com todas as criaturas e com o universo.

Querem vocês, então, tornar-se mais vivos? Querem que sua vida se torne mais intensa em suas vibrações, em suas emanações? Entre os milhares de conselhos que posso lhe dar, guarde pelo menos um. Tomem consciência de toda a vida que existe ao redor, e tratem de respeitá-la como uma manifestação da vida divina. Se pelo menos os homens aprendessem a respeitar essa vida nos outros, ao redor deles, já seria um grande progresso. Mas como é que eles consideram uns aos outros? Quando se encontram, será que pensam: “Eis uma criatura que, como eu, contém uma parcela da Divindade; então, devo tratar de respeitá-la, de protegê-la”? Não, não, muitas vezes eles se vêem apenas como sombras ou autômatos; maltratam uns aos outros, procuram servir-se uns dos outros como se fossem objetos ou instrumentos, e quando se sentem demasiado incomodados, um logo trata de eliminar o outro. Mas que vida esperam ter com tal comportamento?

Tornar-se vivo é despertar para as manifestações infinitas da vida ao nosso redor, saudar as pessoas que encontramos, ver nelas a centelha de vida divina, agradecer-lhes por tudo que fazem por nós, às vezes sem que sequer o saibamos. Tornar-se vivo é maravilhar-se sempre, ver sempre os seres e as coisas como se fosse a primeira vez. Sim, isso é tornar-se vivo da vida do próprio Deus. Como esse é o vínculo mais forte que nos une a Deus, para sermos verdadeiros filhos e filhas de Deus devemos trabalhar para tornar divina a nossa própria vida. É possível encontrar a verdadeira religião nas igrejas, mas ela está, antes de mais nada, na vida, cabendo portanto a nós estabelecer uma relação consciente com todas as melhores manifestações da vida.


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