"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sexta-feira, julho 07, 2017

Preleções Nucleares: A Unidade Essencial - 2/4

- Gustavo -


Na postagem anterior foi explanada a base de todo o ensinamento do Núcleo. Apresentando um resumo do texto anterior, destacamos os seguintes pontos: a) somos Consciência, Atenção ou Percepção; b) valemo-nos da metáfora do Ator e da representação divina para entender a Verdade espiritual profunda; b) Deus – a Consciência do Ser – é tudo o que existe. Ele é a Verdade Suprema; c) a nossa identidade real é a Consciência do Ser, é Quem somos; d) o universo da dualidade é uma representação divina; e) podemos perceber nossa identidade como sendo a Consciência do Ser (Quem somos) ou como sendo um personagem (quem estamos sendo); f) há em cada um de nós duas percepções: a percepção consciencial e a percepção mental; g) identificados com o Ser, percebemos com a Consciência do Ser; ao passo que quando estamos identificados com o personagem, percebemos com a mente do personagem; h) a percepção consciencial revela a percepção que o Ser tem da realidade; e a percepção mental revela a percepção limitada concebida pela mente do personagem.

Com essas lembranças em mente, consideremos a seguinte tabela sinótica apresentada num esquema de duas colunas:




Esse quadro comparativo permite ver num só lance as diversas facetas, características e atributos que inerem ao "Eu" e ao "eu".

No Núcleo, a percepção consciencial é a percepção que provém da Consciência do Ser, ou seja, do Ser Real, que é Deus. Aqui, a Consciência do Ser é representada pela palavra "Eu", com "E" maiúsculo. O Eu divino é escrito com "E" maiúsculo. Por sua vez, a percepção mental é a percepção que provém da mente do personagem, e o eu-personagem está representado pela palavra "eu" com "E" minúsculo. Há, portanto, duas identidades que podem ser percebidas por nós: o Eu Real (O Ser Divino, o Cristo, o Buda em todos nós) e o eu fenomênico (o personagem, irreal).

A fim de poder entender ainda melhor o que são essas duas percepções, vamos agora adentrar e explorar cada um dos 18 pontos comparativos da tabela:


1 – Na primeira coluna está revelado Quem somos (Eu). Somos a Consciência do Ser, o Eu todo-abrangente, impessoal, universal, infinito, eterno, imutável, pleno, único. A percepção consciencial nos revela que somos Aquilo que Deus é. Deus é Quem somos.

Na segunda coluna está revelado quem estamos sendo (eu), ou seja, estamos sendo um personagem que tem a característica de ser: específico, pessoal, mutável, efêmero e finito. Um personagem surge, dura pouco tempo e morre. Por isso, não se pode dizer que o personagem "é". Quem é, é sempre – eternamente. Uma vez que o personagem surge e desaparece, ele não é – está temporariamente sendo. Os personagens não são existências reais.

Assim, há uma grande diferença entre "Quem somos" e "quem estamos sendo". Nós somos o Eu Real. E, na representação divina, estamos sendo os nossos personagens.


2 – O Eu "é", ao passo que o eu está apenas sendo. "Quem somos" existia antes do surgimento da representação e continuará a existir após o desaparecimento da representação. O nosso Eu real existe desde "antes que Abraão existisse". "Quem somos" Se revela também na representação. Mas jamais Ele desaparecerá, mesmo que na representação passe completamente a eternidade dos tempos. Ele está situado acima e fora de todo o tempo. A eternidade do Eu não se compõe da eternidade dos tempos que na representação podem passar infinitamente. Eternidade não significa "tempo infinito"; eternidade significa "fora da dimensão do tempo". Eu é eterno em Sua própria dimensão de existência – a dimensão absoluta e real da existência, constante, perene, que sempre É. Somente assim é possível afirmar "Eu sou".

Ao contrário do Eu, o personagem "não é". Um personagem não pode dizer "eu sou", mas ele pode dizer que: "eu estou sendo". Isso é mais exato. Dizer que o personagem "é" é incorrer em erro – pois o personagem é transitório, efêmero. Portanto, palavra que melhor se aplica ao Eu é sou, enquanto que a palavra que melhor se aplica ao personagem é o termo estou.

Não somos quem estamos sendo, somos Quem somos.


3 –  É correto afirmar que Deus é o Ser. E é também correto afirmar que Deus está sendo o personagem. Há uma unidade essencial entre o Ser que somos e o personagem que estamos sendo. Essa unidade essencial existe, e só pode ser percebida pela Consciência do Ser em nós – a mente do personagem jamais percebe essa unidade. É necessário, portanto, despertar para o fato de que a percepção consciencial é uma percepção real e efetiva, que pode ser desfrutada por todos. Jesus, por exemplo, detinha essa percepção consciencial. Quando falava pela percepção mental, chamava a si mesmo de "filho do homem". Porém, quando falava a partir da percepção consciencial, chamava a si mesmo de "filho de Deus". Assim como o personagem Jesus, os nossos personagens também participam de uma Unidade essencial que há entre eles e Deus. Todos nós podemos representar o papel de nossos personagens e ao mesmo tempo permanecer conscientes de Quem somos. Quando estamos de posse dessas duas percepções, estabelece-se uma conexão entre personagem e Ser, então o personagem pode interagir consciencialmente com o Ser que em realidade somos.


4 – O Ser percebe com a Consciência, ao passo que o personagem percebe com a mente. O Ser só pode ser percebido pela própria Consciência do Ser. É a própria Consciência que percebe a Consciência. Tentar perceber Deus ou a Consciência com as faculdades da mente revelará ser um esforço vão e infrutífero. A mente somente pode perceber coisas mentais. Ninguém, com a visão dos cinco sentidos, com a visão mental, jamais viu a Deus. E Deus nunca será visto por essa forma. Somente o próprio Ser, pela “Consciência do Ser”, pode transcender a percepção da mente e perceber-Se! Devemos perceber Deus com a própria visão de Deus – com a visão de Deus em nós. As escrituras sagradas dizem que o que é espiritual só pode ser discernido espiritualmente, de Espírito para Espírito. Do mesmo modo, a nossa visão de Deus e o nosso encontro e interação com Deus dar-se-ão somente pela via da Consciência para a Consciência.


5 – O Ser está sempre em seu estado constante e permanente de Bem-Aventurança. A mente do personagem, por sua vez, ora está feliz, ora está infeliz. A mente existe no âmbito na dualidade, e na dualidade tudo o que existe é relativo, instável e passível de oscilação. A felicidade somente pode existir se houver o contraste com a infelicidade, ou seja, o seu oposto polar. Na dualidade as polaridades existem sempre juntas e ao mesmo tempo. Elas são como os dois lados de uma moeda – se um lado for retirado o outro não pode ser mantido. Felicidade e infelicidade, vida e morte, bem e mal, amor e medo, luz e sombra, são todos relativos e caminham juntos. Assim, devido à dualidade o estado mental deverá oscilar e flutuar constantemente entre essas duas polaridades.

O mesmo não ocorre no âmbito da Consciência do Ser. A dimensão de existência do Ser está situada fora da dualidade; o Ser existe na dimensão da Unicidade. Nessa dimensão existe o Bem absoluto, que não deve ser confundido com o bem relativo da dualidade que somente pode existir em contraposição ao mal. Da mesma forma, o estado de Bem-Aventurança do Ser é um estado absoluto que existe sem a necessidade de contraposição a um estado oposto. O Ser vive em estado imutável e constante de Bem-aventurança.


6 – O Atman está relacionado à Consciência do Ser. O que é o Atman? É o Ser Divino universal que Se manifestou como o Ser Divino individual. A Consciência do Ser é uma existência absoluta, suprema, universal, infinita e toda abrangente, é a Totalidade de todas as coisas. Quando essa Consciência Universal resolve Se manifestar como o Ser individual, nesse momento surge o Atman. Ao Ser Universal todo abrangente os ensinamentos védicos utilizam o termo Paramatman. E, quando Paramatman Se manifesta na forma individual, Ele passa a ser denominado Atman. Paramatman e Atman são Um em todos os seus aspectos! Eles são o mesmo Ser supremo e absoluto.

No ensinamento cristão, Deus enquanto Ser Universal (Paramatman) é designado como "Pai". Ao passo que, enquanto Ser Individual (Atman), Deus é chamado de "Filho". Deus é tudo! E Deus é o único Criador. Tudo o que foi criado por Deus é Deus! Porque não há, em absoluto, separação alguma entre Deus e Sua criação ou entre Deus e o homem. A única diferença que há entre Deus e o homem é a seguinte: o homem é a manifestação de Deus individualizada, enquanto Deus – a Consciência – é a imagem do próprio Ser infinito. Cada ser individual é uma expressão distinta, genuína e autêntica do Ser Divino. Cada ser individualizado é um "filho de Deus", é o próprio Todo manifestado como o indivíduo (parte). E a parte é tão infinita e vasta como o é o próprio Todo. Em qualquer situação, o Infinito continua sendo o Infinito.

É importante ter em mente que o homem ao qual nos referimos não é aquele que existe no âmbito da representação. O homem que existe na representação não é o homem verdadeiro (Atman), é apenas um personagem do Ser (Jiva). Quando falamos sobre o Atman, o Filho de Deus, estamos nos referindo ao homem verdadeiro que existe fora da representação. O homem verdadeiro que existe fora da representação não é um ser da representação. Ele vive na Realidade Divina sendo, portanto, um ser consciencial. Todos os seres conscienciais vivem na Realidade Divina e sabem Quem são, porque se percebem consciencialmente, e por isso se percebem como o Ser único. A realidade divina se expressa na representação, mas está fora da representação. O Atman existe em Paramatman. O Filho de Deus tem a sua vida e  existência em Deus. Pai e Filho são um.

A percepção consciencial é a percepção da Consciência do Ser, Deus. Quando acessamos a percepção consciencial e vemos com a visão de Deus, percebemos que a parte é o Todo e o Todo é a parte. Conhecer a "parte" significa conhecer a Totalidade, porque em se tratando de Deus, a parte não é "parte" em absoluto, mas é a própria Totalidade. Conheça a "parte", e você terá conhecido a Totalidade. Conheça o seu Ser Individual, e você terá conhecido o Ser Universal. Conheça o Filho, e você também terá conhecido o Pai. Jesus, que sabia ser o Filho de Deus, nos confirmou isso, dizendo: "Ninguém vai ao Pai senão por Mim.". Este "Mim" é o Filho de Deus.


7 – O Ser é atemporal. Ele habita a dimensão da Eternidade. Ele está fora do tempo, e está fora da representação. Nascimento e morte não O envolvem, são fenômenos que pertencem ao universo da representação. O personagem existe na representação, é temporal e está sujeito a nascimentos e mortes.

A Eternidade é o Presente atemporal. A partir de sua posição atemporal, que está acima da representação, o Ser contém em Si todos os tempos. Passado, presente e futuro existem todos ao mesmo tempo, de uma única vez, num só lance. Do ponto de vista do Ser, o passado não vem antes do presente, e o presente não vem antes do futuro. Na representação, o passado necessariamente ocorre antes do presente, e o presente ocorre antes do futuro. Para o Ser, passado, presente e futuro são imediatos, existem todos ao mesmo tempo. Em decorrência deste princípio, podemos afirmar que o Ser transcende o tempo, fazendo-Se presente (e acessível) em todas as épocas. Passado, presente e futuro da representação estão todos no Presente eterno atemporal que existe na dimensão da Consciência do Ser.

A Consciência do Ser é onipresente. Tudo o que o Ser foi no passado, Ele é no presente e será no futuro. Tudo o que foi válido para o Ser no passado, é também válido hoje e será válido em qualquer época no futuro – porque Deus não muda, Ele é sempre o mesmo. E nesse fato encontramos um outro segredo: toda a verdade afirmada pelos iluminados, avatares e santos do passado é também a verdade sobre nós próprios. Tudo o que eles declararam ser válido para eles, é também válido para nós (que estamos no presente) e para todos aqueles que estão vivos no futuro.

Na Bíblia (Lucas 4: 16-21), encontramos um exemplo perfeito dessa verdade. Num dia de sábado, Jesus compareceu à frente de toda a sinagoga para que lesse, diante de todos, a sagrada escritura. Jesus recebeu em mãos o livro do antigo profeta Isaías e, quando abriu o livro, encontrou o lugar em que estava escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a apregoar a liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor". Após ler tais palavras proferidas por Isaías, Jesus, cerrando o livro, disse a todos os que estavam ouvindo: "Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos".

Este acontecimento comporta um fundamento ou princípio espiritual de grande importância. Em geral, as pessoas pensam que essa passagem bíblica foi escrita meramente para informar ou narrar um fato a mais do dia-a-dia de Jesus, e por isso aproveitam muito pouco do que está ali contido. O significado espiritual dessa passagem está oculto em cada ação e atitude tomadas por Jesus, que não por acaso foram ali registradas. Se pudermos compreender cada uma de suas atitudes, teremos condição de nos colocar na posição de fazer o mesmo que ele, ou seja: acessar a mesma Presença ou Consciência com a Qual ele se identificava.

O que Jesus fez foi tomar como válidas para si mesmo as palavras ditas pelo profeta Isaías. Isaías foi um profeta que viveu no tempo do Antigo Testamento, em época muito anterior à de Jesus. Quando Isaías proferiu as palavras "O Espírito do Senhor está sobre mim, e me ungiu...", ele não estava profetizando, não estava se referindo a um Messias que viria no futuro, ele estava falando a respeito de si mesmo. Mas Jesus tomou as palavras de Isaías como válidas para si mesmo. Jesus compreendeu/reconheceu que a Verdade a respeito de Isaías era também a Verdade sobre de si mesmo, o que permitiu a ele dizer diante de todos: "hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos."

Ao reconhecer que a Verdade válida para Isaías era também a verdade para si próprio, Jesus acessou a percepção adimensional e atemporal (sem tempo ou espaço) da Unidade, onde ele e Isaías estavam integrados, não-separados. Em tal dimensão, o Universo não faz distinção de lugares ou seres; Ele é ao mesmo tempo todos os lugares e todos os seres, impessoalmente. Todos os "seres" e "lugares" são o Universo.

É muito importante notar que em sua vida Jesus jamais se encontrou com Isaías, não o conheceu, e nunca teve algum contato com ele. Muito pelo contrário: Isaías viveu na terra centenas de anos antes de Jesus. Apesar da atuação da poderosa força separativa de Maya (tempo e  espaço), Jesus identificou a verdade proferida por Isaías (centenas de anos atrás) como válida para si mesmo (hoje).

E a condição de separação que existia entre Jesus e Isaías é a mesma que há entre Jesus e cada um de nós. Olhando a partir de onde Jesus se encontrava, Isaías estava longe, no passado; olhando a partir daqui onde estamos, Jesus aparenta estar distante há 2000 anos. E hoje nós podemos abrir o livro da Bíblia e ali encontrar palavras/afirmações tremendas da verdade ditas por Jesus: "Eu e o Pai somos um", "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida", "Quem me vê a mim, vê Aquele que me enviou". Através do exemplo e atitude que demonstrou diante de todos os que estavam na sinagoga, Jesus ofereceu-nos a oportunidade de "segui-lo", mostrando que também podemos nos identificar com as palavras e as revelações divinas e sagradas, exatamente como ele fez. A unção que estava com Isaías e Jesus está também com cada um de nós que hoje tomamos o conhecimento dessas  palavras.
  
O que Jesus disse de si mesmo é válido para a humanidade inteira, hoje. O que Buda disse de si mesmo também é válido para a humanidade toda, hoje. O que Krishna afirmou sobre si mesmo também é a verdade sobre todos, hoje. É a Unidade do Todo que nos outorga autoridade para afirmar tais verdades sobre nós mesmos.

Essa verdade é assim devido ao fato (ou princípio) de o Ser ocupar a posição de viver no Presente atemporal e, consequentemente, fazer-Se presente em todos os tempos e eras.


8 – Em contraposição ao Presente atemporal (que existe fora da representação, portanto, fora do tempo), tem-se o presente temporal. O presente temporal existe na representação juntamente com o passado e o futuro. Contudo, mesmo na representação, passado e futuro são irreais – apenas o presente temporal é real.  No universo da representação, o presente temporal espelha o Presente atemporal que existe na dimensão da Consciência do Ser. Assim, o presente temporal é a porta de entrada para o Presente atemporal. A mente do personagem tem à sua disposição o passado, o presente e o futuro. Porém ela evita a todo custo permanecer no momento presente, porque ele é a porta escapatória para a Consciência. Se a mente vier para o momento presente, ela começa a desaparecer e a Consciência passa a se evidenciar. Então, a fim de não perder o seu território para a Consciência, a mente tende a se agarrar ao passado (lembranças) e ao futuro (imaginação).

Estar alerta para o aqui-agora é a maneira de começar a acessar o Silêncio. Desfrutar inteiramente o momento presente é a chave para colocar a mente em estado contemplativo e, assim, desfocar a atenção/percepção da mente para o campo da Consciência. Quando a mente está com demasiada atenção no passado ou no futuro, o Silêncio fica obscurecido pelo ruído mental. E o Silêncio é o lugar onde que tudo acontece.


9 – A mente pensa e a Consciência medita. Pensar é atividade da mente do personagem – e o pensar sempre envolve passado e futuro. Meditar é atividade da Consciência do Ser – e diz respeito ao momento presente. O personagem não pode meditar jamais, por mais que ele queira ou tente. Isso é assim porque o personagem existe na representação enquanto que a meditação é um fenômeno pertencente a fora da representação. A meditação, portanto, está além da capacidade ou alcance do personagem. Se uma meditação ocorre em razão da capacidade ou esforços do personagem, não se trata da verdadeira meditação. A meditação verdadeira é uma atividade da Consciência do ser.

Antes de a meditação ter início é necessário estabelecer um estado de contemplação. A mente é incapaz de meditar, contudo ela pode colocar-se em estado contemplativo a fim de propiciar a ambiência necessária para que a meditação se dê. A mente do personagem só é capaz de chegar ao estágio da contemplação, a partir daí  atua a Consciência – a Consciência assume o comando e a meditação acontece.

Assim, a parte que cabe ao personagem é a de colocar sua mente em estado contemplativo, voltando-se para o momento presente e desfrutando-o por inteiro, até ter o vislumbre de que tudo o que existe (ou seja, tudo o que está acontecendo em seu momento presente, incluindo a própria existência do personagem que ele está representando) está simplesmente acontecendo sem esforço algum da parte de ninguém. Ninguém está fazendo nada, as coisas estão simplesmente acontecendo (a impressão é de que acontecem sozinhas, por si mesmas) sem dependerem de qualquer força ou agente da representação – como se houvesse "Alguém mais" encarregado de realizar todo o trabalho. É então que o indivíduo começa a perceber que há uma Inteligência fazendo tudo, dando andamento a tudo. Nesse ponto que a pessoa começa a perceber "Quem faz" todas as coisas. E somente a partir desse ponto é que emerge a verdadeira meditação, porque "Quem faz" realiza tudo – incluindo a atividade de meditar. Meditar significa perceber "Quem faz".

A meditação é sempre atividade da Consciência do ser.

Continua...


 

quarta-feira, julho 05, 2017

Preleções Nucleares: A Unidade Essencial - 1/4

- Gustavo -


I - INTRODUÇÃO

O objetivo deste texto é facilitar a compreensão que temos da Verdade. Para isso, vou me valer das explicações didáticas ensinadas no Núcleo. O Núcleo é uma instituição (ainda não oficial) que visa difundir ao mundo ensinamentos espirituais profundos, percepções conscienciais, iluminadas. São ensinamentos de grande porte, tal como os de muitos mestres iluminados já tão amplamente conhecidos. Não se trata de algum ensinamento novo, apenas de uma nova e eficiente forma de expor a mesma Verdade conhecida há milênios e expressada pelas diversas grandes religiões e filosofias. A metodologia de ensino do Núcleo tem a característica especial de ser ao mesmo tempo simples e profunda e também prática. Devido a isso, ela tem o poder de facilitar sobremaneira a compreensão (percepção) da Verdade Eterna em contraposição às verdades temporais e efêmeras.

A compreensão da Verdade a que me refiro não é uma compreensão intelectual, da mente; é, isto sim, uma compreensão mais profunda, uma compreensão intuitiva. Em geral, é assim que ocorre o processo de aprendizado: inicia-se com o entendimento intelectual e, quando este é bem colocado, as portas para uma compreensão mais profunda (compreensão intuitiva, além do intelecto) se abrem. E a compreensão intuitiva, por sua vez, pode nos levar à percepção da Verdade intuída. A realização da Verdade ocorre somente quando alcançamos a percepção da Verdade, não bastando uma simples compreensão intelectual. Uma palestra ou livro podem ser elaborados contendo explicações muito bonitas, inteligentes e com uma lógica muito bem construída; contudo, por mais que eles contenham todas essas coisas, ainda não poderão nos proporcionar a percepção da Verdade a que se referem. Por isso o ensinamento nuclear, acima de todas as coisas, leva em conta a percepção. Você estará sempre se deparando com o termo "percepção", a fim de que a sua percepção seja direcionada e encontre o seu centro, a sua fonte, a essência, o Núcleo.

O Ser que somos é Consciência/Percepção/Atenção silenciosa, inteligente, indivisa e una. Todavia, para a visão mental, ela parece estar dividida ou fragmentada – porque é assim que a mente percebe. E se estamos identificados com a mente, a percepção nos parecerá estar dividida ou fragmentada. Por isso, a sua percepção deverá ser empurrada de volta para a percepção. A sua atenção deverá voltar-se para a própria atenção, fundir-se nela, e estabelecer-se ali completamente. Não somos corpos físicos e tampouco somos mente. Somos, isto sim, uma Existência misteriosa e insondável, que também pode ser denominada Inteligência, Silêncio, Consciência, Atenção ou Percepção.


II - O UNIVERSO REAL E A REPRESENTAÇÃO DIVINA

A fim de propiciar um fácil entendimento das verdades profundas, o Núcleo adota a metáfora do ator e da representação. Essa mesma metáfora está implícita nos ensinamentos utilizados por Krishna, na escritura sagrada do Bhagavad Gita, para revelar a verdade a Arjuna.

Quando uma peça de teatro está sendo encenada, um ator irá atuar no palco representando o papel de um personagem. Quanto melhor ele representar o personagem, melhor ator ele é. Um ator deve saber tudo a respeito de seu personagem, deve conhecer detalhes, adquirir grande intimidade com o personagem que irá representar; e quanto mais identificado ele estiver, mais fácil para ele será atuar como aquele personagem. Existem inclusive atores tão bons e eficientes que, ao atuarem, mergulham no papel de seus personagens tão profundamente ao ponto de esquecerem completamente de si mesmos. Nos momentos em que a peça teatral está sendo encenada, a história e o universo do personagem são tudo o que existe, e a realidade da vida do ator fica encoberta/esquecida em função de seu profundo envolvimento com a representação. A representação ganha extrema realidade para ele; se na representação ele for insultado, ele vai reagir ao insulto e ficar bravo. Ou, se na representação ele encontrar um ente querido que não via há muito tempo, ele vai ficar muito feliz. Quando o ator está mergulhado na representação, ele passa a agir em função dela; a representação torna-se real para ele.

O que Krishna revelou a Arjuna, no Bhagavad Gita, é que Deus é como um Ator e todo este universo é uma representação divina. Toda a história e todos os personagens que aqui existem estão sendo encenados por Deus. Deus é perfeito em tudo, até no ato de representar!

Neste mundo existem atores que, ao representarem o papel de um personagem, esquecem-se por completo da sua realidade como atores e tornam-se muito identificados com os personagens que estão representando. Eles são excelentes atores, a representação deles é perfeita! Se uma deles se envolver demasiadamente com a trama de uma peça,  a representação de repente poderá cair como um peso para ele. O que se passa numa representação não possui consistência ou peso algum, mas para aquele ator um peso irreal subitamente pode passar a ser real, e sua irritação ou aflição pode extrapolar os limites da realidade teatral. Até mesmo é possível o ator começar a chorar compulsivamente em razão do que está se desenrolando na trama. Nesse caso, basta que um companheiro mais consciente da realidade dê uma cutucada em seu colega ator e diga: "Calma, amigo! Não vê que o que está acontecendo é apenas uma representação? Por que tanta reação ou aflição excessiva? Você parece pensar que é o personagem que está representando, mas o seu personagem é apenas um personagem. Você é o ator, lembra?".

Também há aqueles atores que, enquanto estão representando o papel de seus personagens, mantém-se conscientes/alertas para o fato de que na realidade eles são atores e não o personagem que estão representando. Para eles a representação jamais cai como um peso, eles levam a representação com grande leveza e desenvoltura. Estes são os personagens despertos – eles permanecem conscientes de quem são, mesmo estando em meio à representação; eles em nada são afetados, pois sabem que a representação é apenas uma representação.

Um ser iluminado é aquele que conheceu a sua realidade como sendo Deus – a Consciência iluminada, o Ser Supremo – e manteve-se consciente disto. Ele está ciente de que é o Ator e pode perfeitamente prosseguir representando o papel de seu personagem no palco onde está ocorrendo a representação divina. Seres como Jesus, Buda, Krishna, Lao-Tsé, Yogananda (e toda sua linhagem de mestres), Ramana Maharshi, Nisargadatta Maharaj (e demais mestres da linhagem Advaita), Osho, Krishnamurti, Ramakrishna, Joel Goldsmith, Masaharu Taniguchi, Sri AmmaBhagavan e inúmeros outros... todos eles identificaram-se como sendo o Eu Real e mantiveram suas luzes acessas no mundo da representação, e cutucando aqueles colegas atores que estavam desempenhando uma perfeita representação de seus personagens, dizendo: "Amigo, não vê que tudo isso não passa de uma representação? Você é o Ator! Basta ficar consciente disso e tudo se resolve! Desperte!".

Se não estamos conscientes de nossa realidade divina, é porque ainda estamos demasiadamente identificados com os personagens que estamos representando.  Pensamos ser o Fulano, o Beltrano ou o Sicrano... o nosso senso de "eu sou" está atrelado a um personagem específico. Nesse sentido, "eu sou" não existe de verdade. Se em meditação nós o investigarmos e o perseguirmos até a sua origem (da mesma forma como seguimos uma correnteza de águas rio acima a fim de encontrar a nascente), veremos que no final ele desaparecerá. Se seguirmos o pensamento "eu sou" (que está atrelado ao corpo-mente) rio acima, descobriremos que não existe origem alguma para ele, e então ele desaparece. O senso "Eu sou" somente é real quando há a identificação do indivíduo com a Totalidade de tudo o que existe – então ele é permanente, nunca desaparece.

Não há nada de errado em estarmos inconscientes de Quem somos. "Quem somos" é um Ser perfeito, e Ele é perfeito até quando está representando. Se estamos identificados unicamente com os nossos personagens, isso apenas significa que somos grandes atores, a nossa representação está divina. Não há o julgamento de que "isso não deveria ser assim" ou de que "o ator não deveria estar tão identificado com o personagem". Mesmo nos teatros ou sets de filmagens não há nada de errado nisso. Os atores podem estar sempre à vontade para fazer o que quiserem. É apenas que a situação poderia ser outra – e bem melhor: se a pessoa estiver com a consciência de que é o ator e não o personagem, a qualidade da representação muda totalmente, adquire um sentido de universalidade, totalidade, leveza, abundância, completude. Quando na representação você se mantém consciente de Quem é, o desfrute da representação passa a ser pleno, de pura bem-aventurança, ao invés de ora bom ora ruim. E quem não iria querer algo assim?

Quando finalmente despertarmos, lembraremos de que somos o Ator que existe por detrás de nossos personagens; perceberemos o universo da dualidade como sendo uma representação divina. A Realidade Divina não é o mesmo que representação divina – elas são distintas. Teremos o nosso sentido de "eu sou" transportado para uma dimensão muito mais ampla, abrangente, universal, ilimitada e livre – a dimensão da Consciência do Ser.  No tempo certo, virá para cada um o momento em que a pessoa despertará e se lembrará de sua realidade como Ator, ao invés do personagem com o qual se identificou e representou tão perfeitamente.


III - CONSCIÊNCIA DO SER vs. MENTE DO PERSONAGEM

Começamos fazendo a distinção entre o que é a Consciência e a mente. A Consciência é Deus. Ela é infinita. A Fonte e a Origem, o Pai e a Mãe de tudo o que existe. Ela é atemporal, está completamente fora do tempo: passado, presente e futuro estão contidos nela. É um estado de potencialidade infinita, na qual todas as coisas já existem. Na Consciência do Ser tudo está consumado, terminado, pronto. É o Ser onipresente, onipotente e onisciente. A Consciência existe como tudo e ao mesmo tempo está além de tudo. Devido a isso, é impossível descrever definitivamente o que é a Consciência – porque ela sempre será isso, mas será muito mais. Em algumas tentativas de dizer algo sobre ela, os ensinamentos utilizam as qualificações: Amor, Sabedoria, Luz, Força, Paz, Bem-Aventurança, Vida, Harmonia, Alegria, Liberdade, Plenitude. Todas essas são qualidades divinas que o indivíduo experimenta em si mesmo (e expressa!) ao entrar em contato com Deus.

A Consciência é Universal, impessoal, toda-abrangente. No universo inteiro existe apenas uma única Consciência, e essa Consciência é a consciência de cada ser existente. Pedras, vegetais, animais, homens – são todos detentores da mesma consciência. Tudo está vivo e todos eles são a Consciência se expressando de maneiras distintas. Em um determinado lugar, a Consciência deseja Se manifestar e conhecer a experiência de ser uma pedra. Em outro momento, a Consciência Se manifesta como planta ou árvore a fim de saber o que é ser uma árvore. Depois, a Consciência decide Se expressar como animal porque deseja saber o que é ter essa experiência. E, por fim, manifesta-se também como o indivíduo, homem ou mulher, a fim de experienciar o que é ser homem ou mulher. Todas as coisas são a Consciência aparecendo como – aparecendo como a pedra, o vegetal, o animal, a humanidade. É com esse entendimento sagrado que determinadas religiões reconhecem, louvam e reverenciam tudo como sendo o divino. Toda a existência é divina. "Eu apareço como...".

Não há nada na existência que esteja "acima" ou "além" da Consciência. Ela ocupa a maior posição hierárquica, o grau máximo. A Consciência é suprema. Quando a mente surge, ela é um fenômeno menor. A mente ocupa o papel de ser um instrumento da Consciência do Ser.

Ao contrário da Consciência, a mente não é universal, não é impessoal e não é todo-abrangente. A mente tem a característica de estreitar as coisas. Ela restringe o senso de "Eu Sou" a uma parte (corpo) específico. Com a mente, Eu sou deixa de Se perceber como o Todo-Universal para Se perceber como sendo uma "parte" específica. Também, ao contrário da Consciência, a mente é sempre pessoal. Cada personagem tem uma história pessoal, vivenciou experiências pessoais, e foi construindo a sua visão pessoal (condicionamento) sobre a vida e o mundo. Ninguém jamais vivenciou exatamente as mesmas experiências. Mesmo aqueles que nasceram gêmeos siameses tiveram a sua visão ou interpretação de mundo construída de forma diferente, eles possuem mentes distintas. Neste mundo existem mais de 6 bilhões de pessoas, portanto mais de 6 bilhões de mentes, e cada uma delas pode declarar: "esta é a minha mente", mas ninguém pode afirmar que "esta é a minha consciência", porque a Consciência é uma só e não pertence a uma pessoa específica. A Consciência pertence a todos, ou a ninguém, dá no mesmo.

Sabendo tudo isso, chegamos à consagração de um princípio espiritual: A Consciência é do Ser; a mente é sempre do personagem. O Ser percebe com a Consciência; o personagem percebe com a mente.

Há em nós duas percepções: a percepção da Consciência do Ser (a percepção real) e a percepção da mente de nossos personagens. Em verdade, há apenas uma percepção que é sempre total, completa, una, integrada. A percepção é sempre a mesma. Quando a percepção está focada na mente, ela se adequa e percebe em conformidade com a mente. A mente é apenas um instrumento, ela é como uma lente de percepção, assim como um óculos. Se vestirmos um óculos com a lente azulada, ao olharmos para a paisagem lá fora, nós veremos tudo azulado, embora o que exista lá não seja necessariamente da cor azul. Olhando através desses óculos, a árvore marrom e verde será vista/percebida como azulada. A mente é esse óculos que limita e distorce a realidade. É importante compreender que a percepção que enxerga com os óculos é a mesma percepção que enxerga sem os óculos. Quando a percepção desloca o seu foco/atenção da mente para a Consciência, passamos a perceber do modo como a Consciência percebe.

Assim, podemos perceber a realidade através da percepção da Consciência do Ser ou através da percepção da mente do personagem. O modo como o Ser percebe a realidade é diferente do modo como a mente do personagem concebe (interpreta) a realidade. A mente enxerga muitos onde há apenas Um. E a Consciência enxerga um onde há apenas um – porque essa é de fato a Verdade. Deus, o Universo, é UM.

Devido a tudo o que foi explanado até agora, as percepções provenientes da Consciência do Ser foram chamadas pelo Núcleo de "percepções conscienciais". E as percepções oriundas da mente do personagem foram denominadas "percepções mentais."

A seguir abordaremos um quadro comparativo contrapondo as características da percepção consciencial e da percepção mental.

Continua...


domingo, julho 02, 2017

Um mergulho na imensidão oceânica do Ser!

 
 - Núcleo -

Há um Ser Real, Oceânico...
Deus é este Oceano de Luz, infinito e eterno. 
De Suas profundezas Deus emerge à superfície de Si mesmo como Ondas do Oceano...
O Ser oceânico, infinito e eterno, é Quem somos!

Quando imergimos nas profundezas, nos percebemos em Unidade com Deus.
Quando emergimos à superfície, aparecemos como Ondas do Oceano de Luz.
Assim, há apenas um Oceano de Luz e Ondas neste Oceano.

Na superfície sou uma Onda e nas profundezas, Oceano.
Quando emerjo Me percebo apenas como a Onda.
Quando imerjo Me percebo como o vasto Oceano.

Vi cada um de nós como essa Unidade oceânica e muitas Ondas.
Sei que esta é a nossa essência e Realidade, é Quem somos.
Saibam que vocês são todos Ondas de um Oceano de Luz.
É o que percebo, o que desfruto e o que aqui compartilho.


Divinos personagens,

Assim como há incontáveis ondas no oceano, há incontáveis personagens no Ser. Assim como o oceano se manifesta como incontáveis ondas e isso não altera Sua natureza e unicidade, o Ser se manifesta como incontáveis personagens e isso não altera Sua natureza e unicidade. Do ponto de vista de uma onda o oceano é imenso, mas há incontáveis outras ondas. Do ponto de vista de um personagem o Ser é imenso, mas há incontáveis outros personagens. Embora possa haver, do ponto de vista do oceano, incontáveis ondas, todas serão percebidas como manifestações do próprio oceano. E embora possa haver, do ponto de vista do Ser, incontáveis personagens, todos serão percebidos  como manifestações do próprio Ser.

Assim como o Ser se percebe como Único, os personagens se percebem como incontáveis. O Ser se percebe como real e os personagens se percebem como reais… Eis a representação divina! Os personagens se percebem como reais. Personagens não são seres reais, a não ser para si mesmos. Assim, a não ser na representação, ou seja, a não ser do ponto de vista dos personagens, a representação é real. Por ser uma representação divina ela é realística, ou seja, parece ser real para os personagens.

Assim, o universo material, por ser uma representação divina, ele é realístico, ou seja, parece ser real para os personagens. O tempo, por ser uma representação divina, ele é realístico, ou seja, parece ser real para os personagens. O espaço, por ser uma representação divina, é realístico, ou seja, parece ser real para os personagens. Os personagens, por serem representações divinas, eles são realísticos, ou seja, parecem ser reais para os personagens. Enfim, todo o cenário material, tempo, espaço e os próprios personagens, por serem representações divinas, eles são todos realísticos, ou seja, parecem ser reais para os personagens.

Há duas percepções possíveis, uma delas percebe o Ser Real; a outra, percebe a representação do Ser. A primeira percepção é real; a outra é realística. No momento em que perceber que a representação é o que é, ou seja, que é apenas uma representação, estará percebendo o real! Não haverá o que temer, pois ela já não será o seu Senhor e não te afetará como pode estar te afetando hoje. Você poderá inclusive descartá-la! O fim da representação não acarreta o fim do Ser, nem sequer o afeta! [Quem você É não é afetado por quem você está sendo!] No Núcleo temos falado sobre as duas percepções possíveis e temos enfatizado que a percepção que vê a representação e o realismo é a percepção mental; e que a percepção que vê o real é a percepção consciencial.

Na Bíblia, em sentido figurado, mas como uma profunda revelação, há a seguinte afirmação: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram." (Ap 21:3-4)

As “primeiras coisas” a que se refere esta revelação bíblica é aquilo percebido pela mente, ou seja, é a representação, na qual existe mundo material, tempo, espaço e personagens.

O capítulo 21 do Apocalipse descreve “o novo céu e a nova terra”, e relata uma experiência consciencial de João. Há que se observar que no Núcleo temos enfatizado que por ser uma “experiência consciencial”, ela não pertence apenas a quem a teve, ou seja, não é válida somente para quem a teve, mas também, é válida para quem a percebe! As “experiências conscienciais” são percepções da realidade do Ser, e como tal são atemporais, são não espaciais, imateriais e impessoais. Isto quer dizer que as “experiências conscienciais” não são experiências da mente de um personagem, são revelações da Consciência do Ser Real [por isso são experiências conscienciais]. E uma vez vivenciadas, podem ser desfrutadas e compartilhadas com todos. Relatos de “experiências conscienciais” estão presentes nas Sagradas Escrituras de todas as religiões e devem ser assimilados consciencialmente. Não fará sentido analisar mentalmente uma “experiência consciencial”, e pretender contextualizá-la como sendo de alguém [personalizá-la]; ou como sendo de algum tempo [passado, presente ou futuro]; ou como sendo de algum lugar [um local na terra, ou no espaço].

Aceite com naturalidade, a princípio, a percepção mental, sem esforço, sem lutar contra a representação, sem negá-la, sem pretender desmascará-la. Apenas observe todo o cenário e os personagens. Observe seus argumentos, seus gestos, suas convicções e não julgue, apenas observe. Observe a tudo. Depois, siga adiante! Imerja-se em sua própria observação e a contemple! Sim, veja seu personagem observando a tudo.

Se seguiu estes dois passos [se observou a tudo sem julgar e se contemplou seu personagem observando a tudo] estará a um passo de meditar, de ter “uma experiência consciencial”! Note que sua parte vai apenas até aqui! Concentração e contemplação. Não pretenda ir além, não tente “meditar”, pois, não é a mente Quem medita, é a Consciência, e ela não é influenciada por nada que a mente [a percepção do personagem] possa fazer.

Quando você decide se concentrar e contemplar o cenário, parece ser você quem está “batendo à porta” da Consciência para que você tenha a “experiência de meditação”, mas não é isso o que realmente está ocorrendo. É algo muito mais divino. É algo além da imaginação! É o próprio Ser Real “Quem” está “batendo à porta” da sua mente e te convidando a deixá-la.

Do ponto de vista do personagem parece que ele se dirigiu ao Ser, mas, em verdade foi o Ser Quem se dirigiu ao personagem! Isto é assim porque todo o enredo do personagem é escrito pelo Ser. Como exemplo, um personagem de quadrinhos, como o “cebolinha” não dá um passo se o Maurício de Souza [se o Autor do personagem “cebolinha”] não o desenhar dando um passo! Assim o “cebolinha” só pode ter a percepção de que ele, “cebolinha”, é um personagem, se o Maurício de Souza escrever este enredo para o “cebolinha”. Mesmo assim, o “cebolinha” jamais terá “esta percepção” [A percepção consciencial é sempre do Autor, nunca do personagem]. É a “Consciência do Ser” Quem percebe “consciencialmente”, não a “mente do personagem”.

Apenas quando o personagem se volta ao Ser Real é que ele está prestes a perceber Quem realmente É. Em qualquer outra busca o personagem está se enveredando na representação. No momento em que percebe Quem É, percebe que não é ele, enquanto personagem, Quem percebe; mas sim, que é Deus Quem percebe; e que há apenas o Ser; que somente Deus é Real.

Este texto é endereçado aos que estão compartilhando a Verdade de si mesmos, a percepção de sua real identidade! Nesta visão não há porque deixar de estar na representação. Nós não somos “personagens”; essa não é nossa real identidade! Somos Quem sempre fomos, Quem sempre seremos! Sabemos que "antes que houvessem personagens, nós somos"! Cada um de nós É Quem realmente É. Somos o Ser Real, a divindade atemporal.

O que muda entre nós, enquanto personagens, é a percepção deste fato! Muitos estão completamente imersos na ilusão, e se vêem separados de Deus, se imaginam “filhos pródigos”. Outros se vêem imersos em Deus, e se percebem “Filhos de Deus”! O que muda é a percepção que cada um quer ter, não o fato em si, pois, a única realidade, a “real identidade” de todos é Deus!

A humanidade sempre teve esse conhecimento. Krishna veio ao mundo e revelou este conhecimento divino; Buda veio ao mundo e revelou este conhecimento divino; Jesus Cristo veio ao mundo e revelou este conhecimento divino. Muitos mestres, como Yogananda, Ramakrishna, Ramana Maharishi e Masaharu Taniguchi vieram ao mundo e revelaram este conhecimento divino. Não é um conhecimento novo, nem uma “verdade nova”. Trata-se apenas de uma “revelação da Fonte”, uma “revelação do Núcleo”. Todos os que convergem para esta Fonte têm esta percepção. É uma percepção para ser desfrutada e compartilhada entre todos, não para ser imposta, mas apenas para ser vivenciada.

Assim, os que estão no Núcleo não devem ter a intenção de reunir seguidores de uma nova doutrina ou de uma nova religião, mas sim, devem ter a intenção de compartilhar com aqueles que quiserem, de todas as religiões, esta visão da divindade!

Afinal, não faz diferença para Deus que o personagem esteja na representação percebendo apenas a representação, mas, faz enorme diferença para o personagem que ele esteja na representação percebendo a divindade! É a diferença entre estar “vivendo o que a mente concebe” ou “vivendo o céu”!

Por fim, lembro esta revelação do Cristo, a divindade que “apareceu como” o divino personagem, o Filho de Deus: O “reino de Deus” está dentro de vós! O Ser Real é o “Oceano de Luz e Bem-aventurança”! E no Núcleo desfrutamos a imensidão deste Oceano. Glorifiquemos a Deus por compartilhar esta percepção!

A paz seja com todos.

Muito obrigado.


 

quinta-feira, junho 29, 2017

A Fábula da Centopeia

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 - Osho -

Aquele que se tornou iluminado, aquele que uniu-se ao Tao, age sem impedimento... Você sempre age com impedimentos, o oposto está sempre ali criando o impedimento; você não é um fluxo.

Se você ama, o ódio está sempre ali como um impedimento. Se você se movimenta, alguma coisa está puxando você para trás, você nunca se move totalmente, alguma coisa sempre fica para trás, o movimento não é total. Você se move com uma perna, mas a outra perna não está se movendo. Como você pode se mover? O impedimento está lá.

E esse impedimento, esse movimento contínuo de apenas metade de você e o não-movimento da outra metade, é a sua angústia. Por que você sente tanta angústia? O que cria tanta ansiedade em você? Seja o que for que você faça, por que a felicidade não acontece para você? A felicidade somente pode acontecer para o todo, nunca para a parte.

Quando o todo se move sem qualquer impedimento, o próprio movimento é felicidade. A felicidade não é algo que vem de fora, é o sentimento que vem quando todo o seu ser se move, o próprio movimento do todo é felicidade. Não é algo acontecendo a você, é algo que surge de dentro de você, é uma harmonia no seu Ser.

Se você está dividido - e você está sempre dividido: metade se movendo, metade se contendo; metade dizendo sim, metade dizendo não; metade amando, metade odiando, você é um reino dividido - há um constante conflito em você. Você diz alguma coisa mas aquilo nunca é o que você quer dizer, porque o oposto está ali impedindo, criando um obstáculo.

Você já ouviu a estória da centopeia? A centopeia estava caminhando - uma centopeia tem cem pernas - é por isso que se chama centopeia. É um milagre andar com uma centena de pernas. Controlar duas já é tão difícil... Controlar cem pernas é realmente impossível, quase impossível, mas a centopeia consegue.

Uma raposa ficou curiosa - e as raposas são curiosas. No folclore a raposa é o símbolo da mente, do intelecto, da lógica. As raposas são seres muito lógicos. A raposa olhou, observou, analisou, ela não podia acreditar ao ver como a centopeia era capaz de andar com tantas pernas. Ela disse: "Espere, só uma pergunta! Como você consegue? Como você não se confunde e sabe qual pé pôr atrás de qual? Cem pernas! Como acontece essa harmonia, como você consegue andar tão bem?"

A centopeia disse: "Eu consigo andar, mas nunca pensei nisso. Dê-me algum tempo para pensar como eu faço".

Então ela fechou os olhos. Pela primeira vez ficou dividida: a mente como observadora e ela mesma como a coisa observada. Pela primeira vez a centopeia tornou-se duas. Ela costumava viver e andar, e sua vida era um todo; não havia um observador olhando para ela, ela nunca fora dividida. Ela era um ser integrado. Pela primeira vez surgiu a divisão. Ela estava olhando para si própria, pensando. Ela tinha se tornado o sujeito e o objeto, tinha se tornado duas, e então começou a andar. Foi difícil, quase impossível. Ela caiu - como pode você controlar cem pernas?

A raposa riu e disse: "Eu sabia que devia ser difícil, sempre soube."

A centopeia começou a chorar, as lágrimas inundaram os seus olhos. Ela disse: "Nunca foi difícil, mas você criou o problema. Agora eu nunca mais vou conseguir andar."

A mente tinha entrado em cena, ela entra em cena quando você está dividido. É por isso que Krishnamurti continua dizendo que, quando o observador se torna o observado, você está em meditação.

O oposto aconteceu com a centopeia. O todo se perdeu, se transformou em dois: o observador e o observado, divididos. o sujeito e o objeto; o pensador e o pensamento. Então tudo ficou perturbado, perdeu-se a felicidade, o fluxo de harmonia foi interrompido. E foi assim que ela ficou paralisada.

Sempre que a mente entra em cena, ela vem como uma força controladora, um gerente. Ela não é o mestre, ela é o gerente. E você não chega ao o mestre enquanto o gerente não for posto de lado. O gerente não vai permitir que você alcance o mestre, o gerente vai estar em pé diante da porta, controlando. E todos os gerentes administram mal - a mente tem feito um ótimo trabalho de má administração.

Pobre centopeia, ela sempre fora feliz. Não tinha problema nenhum. Vivia, cantava, amava, tudo, sem problema nenhum, porque não havia mente. Com a mente veio o problema - com a pergunta, com a indagação. E existem muitas raposas ao seu redor. Cuidado com elas: filósofos, teólogos, professores, todos eles são raposas. Eles levantam perguntas e criam perturbação.

Lao Tzu, o mestre de Chuang Tzu, disse: "Quando não existia nem um único filósofo, tudo estava resolvido, não haviam perguntas e as respostas estavam todas à disposição. Quando surgiram os filósofos, surgiram as perguntas e as respostas desapareceram." Sempre que existe uma pergunta, a resposta está muito longe. Sempre que você pergunta, nunca obtém a resposta, mas se você para de perguntar, você verá que a resposta sempre esteve ali.

Não sei o que aconteceu com essa centopeia. Se ela era tão tola quanto os seres humanos, está em algum hospital, aleijada, paralítica para sempre. Mas eu não acho que as centopeias sejam tão tolas. Ela deve ter deixado a questão de lado. Deve ter dito à raposa: "Guarde suas perguntas para si mesma, e me deixe andar em paz." Ela deve ter descoberto que essa divisão não lhe permitiria viver, porque a divisão causa morte. Indiviso, você é vida; dividido, você é morte. Quanto mais dividido, mais morto.

O que é felicidade? Felicidade é a sensação que surge em você quando o observador se torna o observado. Felicidade é a sensação que surge em você quando você está em harmonia, não fragmentado; quando você é um, não está desintegrado, é indiviso, uno. O sentimento não é algo que vem de fora. É a melodia que brota da sua harmonia interior.



segunda-feira, junho 26, 2017

A linguagem divina do Silêncio

- OSHO -

“O propósito de uma armadilha para peixes é pegar peixes.
E quando são capturados, a armadilha é esquecida.
O propósito das palavras é transmitir ideias.
Quando as ideias são compreendidas, as palavras são esquecidas.
Onde posso encontrar um homem que se esqueceu das palavras?
É com ele que eu gostaria de conversar.”  
(Chuang Tzu)

É difícil esquecer as palavras. Elas se agarram à mente. É difícil jogar fora a rede, porque não só os peixes são capturados, mas o pescador também. Esse é um dos maiores problemas. Trabalhar com palavras é brincar com fogo, porque as palavras tornam-se tão importantes que o significado perde o significado. O símbolo se torna tão pesado que o conteúdo é completamente perdido; a superfície hipnotiza e você esquece o centro.

Isso aconteceu em todo o mundo. Cristo é o conteúdo, o cristianismo é apenas uma palavra; Buda é o conteúdo, o dhammapada é apenas uma palavra; Krishna é o conteúdo, o Gita não é nada além de uma armadilha. Mas o Gita é lembrado e Krishna é esquecido. Se você falar de Cristo, é por causa das igrejas, da teologia, da bíblia, das palavras. As pessoas carregam a rede por muitas vidas, sem perceber que aquilo é apenas uma rede, uma armadilha, como se a pessoa vivesse carregando uma escada.

Buda costumava contar:

Alguns homens estava atravessando um rio. O rio era perigoso, ele estava na cheia – devia ser a estação das chuvas – e o barco salvou suas vidas. Então eles pensaram – eles deviam ser muito, muito inteligentes – eles pensaram: “Este barco nos salvou, como podemos deixa-lo agora? Este é o nosso salvador e será ingratidão deixa-lo aqui!”. Então, eles levaram o barco na cabeça para a cidade.

Alguém lhes perguntou: “O que vocês estão fazendo? Nunca vimos ninguém carregando um barco.”

Eles disseram: “Agora vamos ter de levar este barco por toda a nossa vida, porque ele nos salvou, e não podemos ser ingratos.”

Essas pessoas de aparência inteligente deviam ser estúpidas. Agradeça ao barco, mas deixe-o lá. Não o carregue. Você tem carregado vários tipos de barcos na cabeça. Olhe para dentro. As escadas, os barcos, caminhos, palavras – este é o conteúdo da sua cabeça, da sua mente.

O recipiente se torna importante demais, o veículo se torna importante demais, o corpo se torna importante demais. O veículo era só para lhe transmitir a mensagem – receba a mensagem e esqueça o veículo. Agradeça-lhe, mas não o leve em sua cabeça.

Maomé insistiu muito, quase todos os dias de sua vida: “Eu sou apenas um mensageiro. Não me adorem, eu apenas trago uma mensagem do divino. Não olhem para mim, olhem para o divino, que enviou a mensagem a vocês.” Mas os maometanos parecem ter esquecido a fonte. Maomé se tornou importante, o veículo.

Onde você empreende a sua busca – nas palavras, nas escrituras? Se sua mente está muito sobrecarregada com palavras, teorias, escrituras, então o seu caminho para a existência está fechado, nada real pode lhe acontecer. Nada real poderá penetrar em você, nem o amor, nem a meditação, nem a existência. E tudo o que é belo aconteceu num processo de interiorização. Quando você está em silêncio, sem qualquer apoio das palavras, quando você está esperando... Nesse momento de espera, a beleza acontece, o amor acontece, a devoção acontece, a divindade acontece. Mas, se um homem é muito viciado em palavras, ele vai perder tudo. No final, ele terá uma longa coleção de palavras e teorias, lógica, tudo – mas nada vale a pena porque está faltando o conteúdo.

Você tem a rede, a armadilha, mas não há nenhum peixe lá. Se você tivesse realmente capturado o peixe, você teria jogado fora a rede imediatamente. Quem se importa com a rede? Se você já usou o barco, pode esquecê-lo. Quem pensa no barco? Você transcendeu, ele foi usado.

Assim, sempre que um homem realmente passa a saber, o conhecimento é esquecido. Isso é o que chamamos de sabedoria. Um homem sábio é aquele que foi capaz de desaprender o conhecimento. 

Mas por que esse vício pelas palavras? Porque o símbolo parece ser o real. Você acha que a palavra é a realidade. E, se ela se repete muito, a repetição faz com que você se auto-hipnotize. Repita uma coisa, e aos poucos você vai esquecer que você não sabe. A repetição vai lhe dar a sensação de que você sabe.

Se você vai ao templo pela primeira vez, vai na ignorância. Você não sabe se esse templo realmente contém alguma coisa, se Deus está lá ou não. Mas vá todos os dias e viva repetindo o ritual, as orações; e faça tudo conforme lhe for dito, sempre, todas as vezes, dia após dia, ano após ano. Você vai se esquecer do estado de espírito que havia no começo. Com repetições contínuas a coisa vai para dentro da mente e você começa a sentir que esse é o templo, que Deus vive aqui, que essa é a morada de Deus. 

Você me procura, o problema é o seguinte: na base há palavras e agora você está tentando meditar e ficar em silêncio – a base está sempre lá. Sempre que você começa a ficar em silêncio a base começa a funcionar. Então, você se torna consciente do que pensa quando medita – ainda mais do que normalmente. Por que? O que está acontecendo? Quando você está em silêncio você vai para dentro de si e se torna mais sensível ao absurdo interior que existe ali. Quando você está em meditação você fica voltado para fora, fica extrovertido, envolvido com o mundo e você não pode ouvir o barulho interior que ocorre dentro de você. Sua mente não está lá.

O ruído é contínuo dentro de você, mas você não pode ouvi-lo, você está ocupado. Mas sempre que fecha os olhos e olha para dentro, o hospício se abre. Você pode ver e sentir e ouvir, e então fica com medo e assustado. O que está acontecendo? E você estava pensando que a meditação ia deixá-lo mais silencioso. E está acontecendo isso, exatamente o oposto.

No começo é inevitável que isso aconteça, porque uma base errada foi dada a você. Toda a sociedade, seus pais, seus professores, suas universidades, sua cultura, deram-lhe uma base errada. Sua fonte está envenenada. Esse é o problema – como desintoxicar você. Leva tempo, e uma das coisas mais difíceis é se livrar de tudo o que você conheceu, desaprender.

A repetição contínua de uma palavra cria a realidade, mas essa realidade é falsa. É ilusão, e você só pode voltar para a realidade se todas as palavras desaparecerem da sua mente. Mesmo uma única palavra pode criar a ilusão. As palavras são grandes forças. Se ainda houver uma única palavra na sua mente, ela não está vazia. Tudo o que você está vendo, sentindo, é criado através da palavra, e essa palavra vai mudar a realidade.

Você tem que ficar completamente sem palavras, sem pensamentos. Você tem que ser apenas consciência. Quando você é apenas consciência, a realidade é revelada a você. Só então o real aparece, é revelado. Agora o sutra:

“O propósito de uma armadilha para peixes é pegar peixes.
E quando são capturados, a armadilha é esquecida."

Você se esqueceu completamente do propósito. Você acumulou tantas armadilhas para peixes, vive tão preocupado com essas armadilhas que se esqueceu completamente do peixe.

Se você não consegue esquecer a armadilha, isso significa que o peixe ainda não foi capturado. Lembre-se, se você está continuamente obcecado com a armadilha, isso mostra que os peixes ainda não foram pegos.

"O propósito das palavras é transmitir ideias.
Quando as ideias são compreendidas, as palavras são esquecidas."

Se você realmente me entender, não será capaz de se lembrar do que eu disse. Você vai pegar o peixe, mas irá jogar fora a armadilha. Você vai ser o que eu disse, mas não vai se lembrar das palavras que eu disse. Você vai ser transformado por elas, mas não vai se tornar um homem mais instruído por causa delas. Você estará mais vazio por causa delas, menos cheio; você vai se afastar de mim revigorado, não sobrecarregado.

Não tente acumular o que eu digo, porque tudo o que você acumular será errado. O acúmulo está errado: não acumule, não preencha o seu baú com as minhas palavras. Jogue-as fora, então o significado vai estar lá, e o significado não precisa ser lembrado. Ele nunca se torna parte da memória, torna-se parte da sua totalidade. Você só precisa se lembrar de uma coisa quando ela faz parte da memória, do intelecto. Isso que lhe digo não faz parte da memória, do intelecto. Você nunca precisa se lembrar de uma coisa real, pois se a coisa acontece a você, ela está lá – qual a necessidade de lembrar? Não repita, porque a repetição vai lhe dar uma falsa noção.

Ouça, mas não as palavras – bem ao lado das palavras o que não tem palavras está sendo transmitido a você. Não fique focado demais nas palavras, basta olhar um pouco de lado, porque a coisa real está sendo transmitida ali. Não ouça o que eu digo, ouça-me! Eu também estou aqui, não apenas as palavras. E se você me ouvir, então todas as palavras serão esquecidas.

Foi o que aconteceu... Buda morreu, e os discípulos ficaram muito perturbados, porque nenhuma de suas frases foram registradas enquanto ele estava vivo. Eles haviam se esquecido completamente. Os discípulos iluminados de Buda foram abordados – Mahakashyapa, Sariputta, Moggalyan –, e todos esses que se tornaram iluminados encolheram os ombros: “É difícil, ele disse tantas coisas, mas não nos lembramos.” E esses foram os discípulos que tinham alcançado a iluminação!

Então Ananda foi abordado. Ele não se tornou iluminado enquanto Buda estava vivo, ele tornou-se iluminado depois que Buda morreu. Ele se lembrava de tudo. Ele acompanhou Buda por quarenta anos, e ele ditou tudo, palavra por palavra – um homem que não foi iluminado! Parece paradoxal. Aqueles que tinham alcançado a iluminação deveriam se lembrar, não esse homem que ainda não havia atingido a outra margem. Mas quando a outra margem é atingida, esta margem é esquecida e, se a própria pessoa se tornou um buda, quem se importa em lembrar o que Buda disse?

“O propósito de uma armadilha para peixes é pegar peixes.
E quando são capturados, a armadilha é esquecida."

As palavras de Buda eram armadilhas, Mahakashyapa capturou o peixe. Quem se preocupa com a armadilha agora? Quem se importa em saber para onde o barco foi? Ele cruzou o rio. Claro que vai ser assim. Se Mahakashyapa tornou-se ele próprio um buda, como eles podem estar separados? Os dois não são dois. Contudo Ananda disse: “Eu vou relatar suas palavras”, e ele relatou de modo muito autêntico. A humanidade tem uma grande dívida para com este Ananda, que ainda era ignorante. Ele não havia capturado o peixe, por isso ele se lembrava da armadilha. Ele ainda estava pensando em pegar o peixe, por isso tinha que carregar a armadilha.

Lembre-se disso como uma lei básica da vida: o que é superficial, periférico (e palavras são superficiais, periféricas) parece tão significativo porque você não está consciente do essencial, do centro. Esse mundo parece tão significativo porque você não está consciente de Deus. Quando Deus é conhecido, o mundo é esquecido, nunca o contrário. 

As pessoas tentaram esquecer o mundo para que pudessem conhecer Deus – isso nunca aconteceu e nunca acontecerá. Você pode continuar tentando esquecer o mundo, mas você não vai conseguir. Todos os seus esforços para esquecer o mundo se tornarão uma lembrança contínua. Somente quando Deus é conhecido o mundo é esquecido. Somente quando a outra margem é atingida, esta margem desaparece.  Você pode continuar lutando para abandonar o pensar, mas você não pode abandonar o pensamento enquanto não alcançar a consciência. O pensar é um substituto – como você pode abandonar a armadilha enquanto o peixe ainda não está capturado? A mente dirá: “Não seja tolo, onde está o peixe?”

Como você pode abandonar as palavras se ainda não percebeu o significado? Não tente lutar com as palavras, tentar alcançar o significado. Não tente lutar com os pensamentos. É por isso que eu insisto mais uma vez em dizer que, se os pensamentos o perturbarem, não lute contra eles, não os combata. Se eles vierem, deixe-os vir. Se eles se forem, deixe-os ir. Não faça nada, apenas fique indiferente, seja apenas um observador, um espectador, não se preocupe. Isso é tudo o que você pode fazer agora – ser indiferente.

Não diga: “Não venham.” Não convide, não rejeite, não condene e não aprecie. Basta ficar indiferente. Olhe para eles, eles vêm como nuvens, e depois vão, como as nuvens desaparecem. Deixe-os ir e vir, não fique no caminho, não preste atenção neles. Porque, se você ficar contra eles, você começará a prestar atenção, e logo estará perturbado: “Minha meditação está perdida”. Nada está perdido. A meditação é a sua natureza intrínseca. Nada está perdido. O céu está perdido quando há nuvens? Nada está perdido.

Seja indiferente, não se sinta incomodado pelos pensamentos, desta ou daquela maneira. E, mais cedo ou mais tarde, você vai sentir e perceber que esse ir e vir dos pensamentos se tornou mais lento. Cedo ou tarde você vai ver que agora eles vêm, mas não tanto; às vezes o trânsito para, a estrada fica vazia. Um pensamento passou, outro ainda não chegou; há um intervalo. Nesse intervalo você vai conhecer o seu céu interior em sua glória absoluta. Mas se entrar um pensamento, deixe-o entrar, não fique perturbado.

Se você conseguir, faça isso, pois somente isso pode ser feito; nada mais é possível. Seja desatento, indiferente, sem se importar. Apenas permaneça como uma testemunha, observando, não interferindo, e a mente irá passar, porque nada poderá ser retido no seu interior, se você ficar indiferente.

A indiferença é o corte das raízes, as próprias raízes. Não se sinta antagônico porque assim você também estará alimentando. Se você tem que se lembrar dos amigos, você tem que se lembrar dos inimigos também, até mais. Os amigos você pode esquecer, como pode esquecer os inimigos? Você terá que lembrar constantemente deles, porque você tem medo.

As pessoas ficam perturbadas com os pensamentos. Mas através da luta você presta atenção – e a atenção é o alimento. Tudo cresce se você prestar atenção; cresce rápido, torna-se mais vital. Seja apenas indiferente. 

Uma história:

Foi o que aconteceu... Um homem estava acostumado a ir à pista de corrida todo ano no dia do seu aniversário. O ano inteiro ele acumulava o dinheiro apenas para um aposta em seu aniversário. E ele estava perdendo há muitos anos, mas a esperança sempre o reanimava. Toda vez ele decidia não ir novamente, mas um ano é muito tempo. Por alguns dias, ele se lembrava, mas depois novamente a esperança voltava: "Quem sabe?" Esta ano eu posso ficar rico, então porque não fazer um esforço a mais?"

Quando seu aniversário chegou, ele estava novamente pronto a ir para a pista de corria. E era seu quinquagésimo aniversário, assim ele pensou: "Eu deveria tentar pra valer."

Então ele vendeu todas as suas posses, reuniu uma pequena fortuna, tudo o que ele havia ganhado em toda a sua vida, tudo o que tinha, e disse: "Agora eu tenho que decidir. Ou eu me torno um mendigo ou um imperador, não vou mais ficar no meio, chega!"

Ele foi até o guichê e olhou para o nome dos cavalos: "Há esse cavalo, Adolf Hitler, ele vai se dar bem. Um grande homem, um homem vitorioso. Ele ameaçou o mundo inteiro. Esse cavalo deve ser feroz e forte." Assim, ele apostou tudo – e perdeu. Como todos que apostaram em Hitler, ele perdeu. Agora ele não tinha para onde ir, pois tinha perdido inclusive a própria casa. Então o que fazer? Não havia nada a fazer senão se suicidar.

Ele então se encaminhou para a beira de um precipício, só para pular e acabar com a própria vida. Quando ele estava prestes a saltar, de repente ouviu uma voz, e não a reconheceu; não sabia se ela vinha do exterior ou do interior. Ele ouviu: "Pare! Da próxima vez vou lhe dar o nome do cavalo vencedor – tente mais uma vez. Não se mate."

A esperança reviveu, ele voltou. Ele trabalhou duro naquele ano, porque ia ser a vitória pela qual estivera esperando a vida inteira. O sonho tinha que se realizar. Ele trabalhou duro dia e noite, ganhou muito. Então, no ano seguinte, com o coração trêmulo ele foi até o guichê e esperou. A voz disse: "Ok, escolha este cavalo, Churchill." Sem discutir, sem pensar, sem deixar a mente interferir, ele apostou tudo e venceu. Churchill ficou em primeiro lugar.

Ele voltou novamente ao guichê e esperou. A voz disse: "Agora aposte em Stálin". Ele apostou tudo. Stálin ficou em primeiro lugar. Agora ele tinha uma grande fortuna.

Na terceira vez ele esperou, e a voz disse: "Chega."

Mas ele disse: "Fique quieta, eu estou ganhando, estou com sorte e ninguém pode me derrotar agora." Então, ele escolheu Nixon e Nixon ficou em último.

Toda a fortuna foi perdida e ele se tornou novamente um mendigo. Ali, parado, ele murmurou para si mesmo: "E agora, o que fazer?"

Disse a voz interior: "Agora você pode ir para o precipício e pular!"

No momento em que você vai morrer, a mente para, porque não há nada pelo qual trabalhar. A mente faz parte da vida, não faz parte da morte. Quando não há vida pela frente, a mente para, não há trabalho, ela fica imediatamente desempregada. E quando a mente para, a voz suave interior vem lá de dentro. Ela está sempre lá, mas há tanto barulho que uma voz mansa e suave não pode ser ouvida.

A voz não vinha de fora, não há ninguém fora de nós, tudo está dentro. Deus não está no céu, está em você. Aquele homem ia morrer – a última decisão tomada pela mente. Mas então a mente se aposentou, não havia mais trabalho, e de repente ele ouviu a voz. Essa voz veio de seu núcleo mais profundo, e a voz que vem do âmago mais profundo está sempre certa.

Então o que aconteceu? Duas vezes a voz se fez ouvir, mas a mente interferiu novamente e disse: "Não dê ouvidos a tal absurdo, estamos com sorte e estamos vencendo."

Lembre-se: sempre que você ganha, você ganha por causa da voz interior. Mas a mente sempre vem e toma conta. Sempre que você sente felicidade, ela vem de dentro. Então a mente salta imediatamente à frente e assume o controle, e diz: "É por minha causa." Quando você está apaixonado, isso é como a morte, a mente para - você se sente feliz. Imediatamente vem a mente e diz: "Ok, esta sou eu, isso é por minha causa."

Sempre que você medita, há vislumbres. Então a mente entra e diz: "Seja feliz! Olhe, eu fiz isso!" E imediatamente o contato é perdido.

Lembre-se: com a mente você será sempre um perdedor. Mesmo que você seja vitorioso, suas vitórias serão apenas derrotas. Com a mente não há vitória, com a não-mente não há derrota.

Você tem que mudar toda a sua consciência da mente para a não-mente. Depois que a não-mente estiver presente, tudo é vitorioso. Depois que a não-mente estiver presente, nada dará errado, nada pode dar errado. Com a não-mente, tudo é absolutamente como deveria ser. A pessoa tem contentamento, não resta nem um único fragmento de descontentamento; ela está absolutamente à vontade. Você é um estranho por causa da mente.

Essa mudança só é possível se você se tornar indiferente; caso contrário, essa mudança nunca será possível. Mesmo se você tiver lampejos, esses lampejos serão perdidos. Você já teve lampejos antes – não é só na oração e na meditação que os vislumbres acontecem. Os vislumbres acontecem na vida cotidiana também. Ao fazer amor com uma mulher, a mente para. É por isso que o sexo é tão atraente, é um êxtase natural. Por um momento único, de repente a mente não está lá; você se sente feliz e contente, mas apenas por um único momento. Imediatamente a mente entra e começa a funcionar – como conseguir mais, como ficar mais tempo? Surge o planejamento, o controle, a manipulação, e você se perdeu.

Às vezes, sem mais aquela, você está andando na rua, debaixo das árvores e de repente um raio de sol vem e cai em você, uma brisa toca o seu rosto. De repente é como se o mundo inteiro mudasse, por um único momento você está em êxtase. O que aconteceu? Você estava andando, despreocupado, indo a lugar nenhum, só fazendo a caminhada, numa manhã ou tarde. Naquele momento de descontração, de repente, sem o seu conhecimento, a consciência deslocou-se da mente para a não-mente. Imediatamente há beatitude. Mas a mente vem e diz: "Quero ter mais momentos como este." Então você pode ficar lá durante anos, durante vidas, mas isso nunca vai acontecer de novo – por causa da mente.

Na vida comum, no dia a dia, não só nos templos, mas em lojas e escritórios também, os momentos vêm – a consciência muda e vai da periferia para o centro. Mas a mente assume de novo o controle imediatamente. A mente é o grande controlador. Você pode ser o mestre, mas ela é o gerente, e o gerente absorveu tanto controle e poder que pensa que é o mestre. E o mestre fica completamente esquecido.

Seja indiferente à mente. Sempre que ela interferir, em momentos sem palavras, silenciosos, não a ajude, não coopere com ela. Basta olhar. Deixe-a dizer o que quiser, não preste muita atenção. Ela vai se retirar.

Na meditação, isso acontece a você todos os dias. Muitos me procuram e dizem: "Aconteceu no primeiro dia, mas desde então não aconteceu mais."

Por que aconteceu no primeiro dia? Você está mais preparado agora, no primeiro dia você não estava tão preparado. Aconteceu no primeiro dia porque o gerente não tinha conhecimento do que ia acontecer. Não poderia planejar. No dia seguinte, o gerente sabia muito bem o que ia ser feito. Agora, o gerente sabe, e o gerente faz. Então isso não vai acontecer de novo, porque o gerente tomou a frente.

Lembre-se: sempre que um momento de bem-aventurança acontecer, não peça por ele novamente. Não peça que seja repetido, porque toda a repetição diz respeito à mente. Não peça por ele novamente. Se você pedir, então a mente vai dizer: "Eu sei o truque. Vou fazer isso por você."
Quando esses momento acontecerem, sinta-se feliz e grato e esqueça. O peixe foi pego, esqueça a armadilha. O significado foi capturado, esqueça a palavra.

E a última coisa: sempre que a meditação está completa, você se esquece dela. E só então, quando você se esquece da meditação, ela chega à plenitude, o clímax é atingido. Agora você fica meditativo durante 24 horas por dia. Não há nada a ser feito; ela está ali, é você, é o seu ser.

Se você puder fazer isso, então a meditação torna-se um fluxo contínuo, não um esforço da sua parte – porque todo esforço é da mente.

Se a meditação se torna a sua vida natural, a sua vida espontânea, o Tao, então eu lhe digo, algum dia Chuang Tzu vai encontrar você. Porque ele pergunta:

"Onde posso encontrar um homem que se esqueceu das palavras? É com ele que eu gostaria de conversar."

Ele está procurando. Eu já o vi muitas vezes aqui perambulando em torno de você, apenas esperando, esperando. Se você se esquecer das palavras, ele vai falar com você. E não só Chuang Tzu – Krishna, Cristo, Lao Tsé, Buda, todos eles estão em busca de você; todas as pessoas esclarecidas estão em busca dos ignorantes. Mas elas não podem falar porque conhecem a linguagem do silêncio, e você conhece a linguagem da loucura. Isso não vai levar a lugar nenhum. Eles estão em busca. Todos os budas que já existiram estão em busca. Sempre que estiver em silêncio, você vai sentir que eles sempre estiveram ao seu redor.

Dizem que sempre que o discípulo está pronto o mestre aparece. Sempre que você está pronto a verdade é entregue à você. Não há um intervalo nem mesmo de um instante. Sempre que você está pronto, acontece imediatamente. Lembre-se de Chuang Tzu. A qualquer momento ele pode começar a falar com você, mas antes que ele comece, você precisa parar de falar.

Basta por hoje.

quinta-feira, junho 22, 2017

Como age a verdadeira Seicho-No-Ie (2)

- Núcleo

Divinos Amigos,

O presente texto é uma continuação das explanações contidas nos posts "A Verdadeira Seicho-No-Ie" e "Como age a Verdadeira Seicho-No-Ie".

O tema aqui ainda é: A ação que deve ser praticada de acordo com a "verdadeira Seicho-No-Ie".

Inicialmente atentem que o termo "verdadeira Seicho-No-Ie" não se refere a nenhuma instituição religiosa fenomênica nem a nenhuma das manifestações da Seicho-No-Ie, até porque as instituições religiosas que seguem os ensinamentos do Mestre Masaharu Taniguchi têm em sua essência a "verdadeira Seicho-No-Ie". 

O que se segue relaciona à essência dos ensinamentos do Mestre Masaharu Taniguchi aos ensinamentos védicos (Advaita), evidenciando que realmente, tal como afirmou o Mestre, há uma total identidade de todas as religiões na essência! 

Observem o que fala o Mestre Masaharu Taniguchi sobre a prática dos ensinamentos da Seicho-No-Ie.  O que se segue são transcrições dos ensinamentos do Mestre chamando que falam da "revelação divina".

Na página 57 do livro "A Verdade da Vida, Prática Contemplativa, 8º volume", está escrito:

"Quando abrimos os ouvidos para o "apelo" da Verdade que se aloja em nós, recebemos a orientação da Sabedoria infinita de Deus. Esse "apelo" da Verdade que se aloja em nós, manifesta-se como "consciência" e como "revelação divina". A "consciência" e a "revelação divina" são frente e verso de uma mesma coisa; são manifestações que vem do "eu superior", indícios da "natureza verdadeira" de nós próprios, a voz de Deus que se aloja em nós mesmos."   

E na página 77 Masaharu Taniguchi revela que:

"Se praticarmos sempre a Meditação Shinsokan, criarmos o hábito de fazer coincidir nossa mente com Deus e procurarmos viver de acordo com o modo de viver da Seicho-No-Ie, em consonância com a purificação da mente, as vibrações do corpo carnal vão se purificando e nos tornaremos capazes de captar ainda na condição carnal a revelação que vem do mundo mais elevado. 

Durante a prática da Meditação Shinsokan, ou durante o sono, o nosso corpo carnal não se preocupa com as coisas e os fatos vulgares da vida cotidiana, em consequência disso, o nosso corpo espiritual pode com mais facilidade receber revelações do mundo espiritual, e às vezes do mundo divino. Mas, lamentavelmente, as vibrações do corpo carnal não chegam a ser tão refinadas quanto as vibrações do mundo espiritual e não se sintonizam com elas. Por isso, a revelação transmitida para o nosso corpo espiritual é muitas vezes descartada por não ser percebida pelo consciente do nosso corpo carnal e não ser aproveitada na prática.  [Para uma leitura mais completa acessem neste blog o texto publicado em http://busca-espiritual.blogspot.com.br/2010/11/o-meio-de-captar-sabedoria-infinita_09.html] 

Atentem bem a este trecho: "...nos tornaremos capazes de captar ainda na condição carnal a revelação que vem do mundo mais elevado". 

Esse pequeno trecho contém duas afirmações essenciais sobre a iluminação! É um método que revela como viver de forma iluminada, ou seja, viver com a consciência de unidade com Deus ou viver consciente da Verdade sobre nossa real identidade mesmo estando na condição humana!

A primeira dessas afirmações do Mestre é esta: "ainda na condição carnal"

E a segunda, é esta: "mundo mais elevado".

Notem a profundidade do que está sendo afirmado pelo Mestre! "Ainda na condição carnal" é possível viver de forma iluminada!

Essa é a ponte com o conceito védico de "Jivan Mukti" {ou Jivanmuktha} que significa estar iluminado, ou seja, liberado da ilusão de separatividade, mesmo na condição humana. Também a Bíblia afirma: "Ainda em minha carne verei a Deus". (Jo 19:26)

Notem que esse método ensinado pelo Mestre Masaharu Taniguchi conduz à Percepção de Unidade com o Todo, ou seja, conduz à visão não dual, à visão Advaita! 

Isso significa que aquele que pratica esse ensinamento essencial do Mestre chega a mesma Consciência de Unidade de um Jivanmuktha
  
Notem que o ensinamento Advaita [ensinamento da não dualidade] é todo nesse sentido: de que não há separação entre Deus e Homem, de que a separação é apenas aparente. 

E, indo ainda um passo além, no ensinamento Advaita há a revelação de que Deus é o único Ser Real, a única Realidade, conforme o ensinamento compartilhado no Núcleo de que apenas Deus (o Ator) é a Realidade, sendo o personagem uma identidade que emerge numa Representação Divina.

Isso significa que mesmo na condição humana essa não é nossa real identidade! O fato de aparentemente estarmos ou não conscientes disso não altera a Realidade em si! Essa é a essência dos ensinamentos e da "revelação divina"!

Toda revelação divina provém do "mundo mais elevado". O "mundo mais elevado" é a Realidade, ou Mundo Absoluto, ou Jisso; e a ação praticada de acordo com a "verdadeira Seicho-No-Ie" conduz à Consciência de Unidade, a mesma Percepção de um Jivanmuktha.

Para uma leitura complementar em português sobre ensinamentos advaita acessem os seguintes sites

- http://advaita.com.br/advaita-vedanta/imagens/
- http://ventosdepaz.blogspot.com.br/p/nao-dual.html

Namastê!

terça-feira, junho 20, 2017

Advaita: A sabedoria da Não-Dualidade



A SABEDORIA DA NÃO-DUALIDADE

I. O que é? Princípios Essenciais.

O Advaita Vedanta é uma “filosofia”, por assim dizer, que surgiu há muitos séculos na Índia, tendo a sua origem nos Vedas, as escrituras mais antigas e sagradas do Hinduísmo. Advaita literalmente significa “não-dualidade”, e Vedanta significa “a parte final (ou conclusão) dos Vedas”.

A doutrina principal do Advaita postula que apenas o Absoluto (Brahman) é Real e que o mundo (toda a criação) é irreal, sendo que toda e qualquer modificação, dualidade, pluralidade – seja objetiva ou subjetiva – é apenas uma superimposição, uma imagem que é sobreposta ao Absoluto através do poder da ilusão (Maya). 

Como o Absoluto é imutável e sem atributos, a criação é negada, uma vez que o absoluto não pode criar, devido a sua própria “infinitude”, digamos assim, e também porque não pode haver nada “fora” ou “diferente” dele. O Absoluto é o oceano de Ser-Consciência-Beatitude (sat-chit-ananda), sendo Real, enquanto que tudo o que nele surge e desaparece é transitório, limitado e, portanto, irreal. Nas palavras de Shankara, o ensinamento Advaita central é que “o absoluto é real, o universo é ilusório, e a alma individual não é diferente do absoluto“. Embora a alma individual (Jiva) seja vista como parte do mundo ilusório, e portanto irreal, a “testemunha” que há por trás dela (a Consciência), ou Eu Real, é idêntico ao Absoluto.

Para o Advaita a ilusão, ou ignorância espiritual, não é real, mas apenas uma falsa-percepção. Os Upanishads explicam que Maya (ilusão cósmica) causa o surgimento do universo e que avidya (ignorância individual) é responsável por o Absoluto Ser parecer ser uma multidão de almas individuais (jivas). Assim, através da ação inexplicável da ignorância, o Absoluto ou Eu Real (Brahman ou Atman), cuja natureza é Ser-Consciência-Beatitude, encontra-se preso em um complexo corpo-mente, acreditando-se e vivendo como se fosse um ser limitado e individual, enquanto que na verdade é apenas existência impessoal e eterna. A metáfora mais utilizada pelas escrituras é a situação de um homem que abre a porta de um quarto escuro e, naquele momento, uma corda que estava em uma prateleira cai no chão, e o homem, devido à pouca luz existente no recinto, acredita ter visto uma cobra, enchendo-se de medo. De igual maneira, ensinam os mestres, nós acreditamos ser um ser individual, limitado a um corpo-mente, vivendo em um mundo exterior, objetivo, substancial e real, enquanto que tudo isso não passa de um sonho, um engano, uma miragem. Nós somos, agora e sempre, apenas o Eu Real ou Self.

O obstáculo principal à liberação da alma (Moksha ou Mukti) é a falsa identificação do eu com o corpo-mente – em outras palavras, a ilusão de que o corpo-mente é “eu” ou “meu”, que estamos circunscritos a ele. Assim, os textos de Shankara (e os demais textos Advaita supervenientes) recomendam que a remoção dessa ilusão seja obtida pelo processo inverso de “des-superimposição”. Para isso o aspirante à iluminação deve desenvolver as seguintes características:

1 -  Discernimento espiritual (viveka): saber separar o Real do irreal, o eterno do transitório, e ter a convicção de que apenas o Absoluto é real e tudo o resto é ilusão;

2 - Desapego: (vairagya): não desejar nada, nem neste mundo nem em vindouros. Não buscar a felicidade em nada que não seja o Eu Real;

3 - Seis virtudes: serenidade, autocontrole, cessação das atividades, equanimidade, concentração mental, e confiança (nos ensinamentos e no Guru);

4 - Desejo forte pela libertação (mumukshutva): desejar apenas iluminação, com a exclusão de todo o resto.

E quando afinal a alma individual (Jiva) alcança a liberação (Mukti), ela se torna um Jivamukta (Aquele é está liberado mesmo enquanto vive na condição humana).

Para tanto, o buscador deve aproximar-se de um Guru que seja um mestre espiritual iluminado e ouvir a verdade de que “eu sou Brahman” (shravana), refletir sobre ela até convencer-se completamente do seu conteúdo (manana) e meditar sobre ela (nididhyasana) até que a ilusão de ser um corpo-mente desapareça (samadhi).

Os Upanishads aconselham a prática de mentalmente rejeitar tudo, rejeitar a atenção a qualquer coisa que não seja o Eu Real, através da prática neti-neti, que literalmente significa “não isto, não isto”. Também, através da repetição das chamadas “grandes frases” (mahavakyas), eliminar a falsa impressão de que somos uma personalidade ou individualidade e descobrir nosso verdadeiro ser. Tais frases são:

- Eu sou Brahman (Aham Brahmasmi)
- Você é Aquilo (Tat vam asi)
- Tudo é Brahman (Sarvam khalvidam Brahman)
- A Consciência é Brahman (Prajnam Brahman)
- Eu sou Ele (So Ham)

Em síntese, tais são os princípios do Advaita Vedanta clássico e as práticas por ele aconselhadas. 

Retirado do site: www.advaita.com.br

domingo, junho 18, 2017

Advaita: Oceano e a onda

 - Sri Atmananda Krishna Menon -


ADVAITA (NÃO-DUALIDADE)

I. Jivas (almas individuais), tal qual ondas no oceano, vêm à existência, erguem-se e tombam, lutam uns contra os outros e morrem.

II. Golpeando a beira-mar, ondas recuam, cansadas e desgastadas, à procura de repouso e paz. Similarmente, Jivas procuram o Supremo de várias formas.

III. Ondas têm seu nascimento, vida e morte no próprio oceano; Jivas, no Senhor.

IV. Ondas nada são além de água. Assim é o oceano. Da mesma forma, o Jiva e o Senhor nada são além de Sat, Chit e Ananda (Verdade, Consciência, Bem-aventurança).

V. Quando ondas percebem que o mar é sua base comum, toda luta termina.

VI. Muito não é obtido assim. Não é a palavra final. Encontra-se adiante trabalho para remover o senso de separação.

VII. Quando a água é reconhecida, onda e oceano desaparecem. O que aparecia como dois é então percebido como um.

VIII. A água pode ser alcançada imediatamente, a partir da onda, ao se seguir o caminho direto. Caso assumido o caminho pelo oceano, precisa-se de muito mais tempo.


quinta-feira, junho 15, 2017

Como age a Verdadeira Seicho-No-Ie (1)

- Núcleo


Expressões do Jisso!

Continuando com transcrições dos escritos de Masaharu Taniguchi, no livro Seimei no Jisso, volume 8, que trata da "Prática Contemplativa", o Mestre fala sobre a atitude mental preconizada como prática específica de cada religião, as quais se fundem "numa mesma e única verdade", consistindo em ver-se:

- "Vivificado" pela Grande Vida Infinita (visão da ciência naturalista);
- "Preenchido" por Deus que ilumina todo o Universo (visão xintoísta);
- "Iluminado" pela luz infinita de Amithaba (visão budista);
- "Purificado de todos os pecados" pela luz espiritual do amor que irradia da cruz (visão cristã).    

E explanando esse ponto Masaharu Taniguchi afirma que: "a Seicho-No-Ie não fala mal de nenhuma religião"

Notem que o ensinamento original do Mestre é claro quanto a que a Seicho-No-Ie (original) não fala mal de nenhuma religião, seja xintoísmo, budismo, cristianismo ou qualquer outra religião.

Se é assim em relação a outras religiões é evidente que também deve ser assim em relação às atuais ramificações da própria Seicho-No-Ie, que seguem o ensinamento original da Seicho-No-Ie. E a explicação para que assim seja, dada pelo próprio Mestre é esta: 

"A Seicho-No-Ie não fala mal de nenhuma religião, mas não porque considere "errado" falar mal dos outros, e sim porque ela se funde com a essência de todas as religiões; não há, pois, necessidade de desencadear atritos religiosos." [A Verdade da Vida, volume 8, 2ª edição, Prática Contemplativa, página 19]
    
Os atritos religiosos não tem lugar quando se percebe a identidade de todas as religiões na essência! Notem que esse é outro ensinamento original do Mestre! Nesse sentido, a "verdadeira Seicho-No-Ie" é a própria essência de todas as atuais ramificações da Seicho-No-Ie! Assim, o caminho para não haver atritos religiosos entre as ramificações da Seicho-No-Ie é se fundirem "numa mesma e única verdade" praticando o ensinamento do Mestre quanto ao fato de que: "A Seicho-No-Ie não fala mal de nenhuma religião, porque ela se funde com a essência de todas as religiões".

Namastê.