"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, novembro 06, 2016

Preleções Nucleares: A Unidade Essencial - 3/4

- Gustavo -


Continuando a explanação da tabela sinótica:




10 – A Consciência é dotada de percepção, a mente é dotada de sentimento. Isso significa que "Quem percebe" é o Eu Real, e não o eu fictício, o eu do personagem. O personagem tem apenas sentimentos, mas não tem a verdadeira percepção. O senso de "eu sou"  do personagem não é verdadeiro, mas o personagem sente que é. Trata-se de um sentido falso de "eu sou", pois o eu sou do personagem apresenta o sentido de "eu existo como entidade específica, separada e isolada". No personagem, a percepção está dividida, fragmentada; consequentemente  "eu sou" aparentará  estar isolado, dividido, fragmentado. A natureza da percepção é ser inteira, total. Uma percepção fragmentada é uma percepção distorcida, ilusória, irreal. Portanto, a mente do personagem não é a detentora da percepção.

A percepção é dividida ou fragmentada quando nossa atenção está voltada para o exterior, mas não está em si mesma. Com percepção fragmentada, a pessoa percebe o mundo a sua volta, percebe as pessoas que estão em volta, mas não percebe a si mesma. A pessoa percebe até o próprio corpo, mas não olha para a si mesma. Parece que somente o mundo, as pessoas e o corpo são fenômenos dignos de atenção. Mas a percepção – a própria percepção em si – também é um fenômeno que está acontecendo. E esse fenômeno é a fonte, a origem de tudo. Mas ninguém está alerta para ele. Ao invés de dirigirmos a atenção para a própria atenção e o mundo ao mesmo tempo (considerando a dignidade de ambos, ao invés de apenas um), nossa atenção observa apenas o mundo. Esse é o mecanismo da mente do personagem: encaminhar o fluxo de atenção para o mundo exterior e evitar que o mesmo fluxo dirija-se para a atenção em si.  É então que a atenção/percepção torna-se dividida, fragmentada, não integrada.

No Ser a percepção está inteira, não fragmentada, total, una, integrada. A percepção está imersa em si mesma, em contato consigo mesma. Como uma gota que caiu no mar, a percepção caiu e dissolveu-se e perdeu-se completamente em si mesma. A percepção se integrou à percepção, tornou-se absoluta. Ela não está mais voltada somente para os fenômenos externos. O fenômeno interno, central, nuclear, foi encontrado. Quando a atenção está assim inteira, o senso "Eu sou" da Consciência do Ser emerge e o indivíduo percebe que ele – a parte, a gota – é na verdade a Totalidade, o Oceano inteiro.


11 – A percepção consciencial revela a unidade, o Eu que somos. “Eu” vive no universo consciencial infinito. “Eu”, que é infinito, é UM com seu o próprio universo consciencial infinito. O Infinito só pode ser o UM em Si mesmo. Portanto, a Unidade é a realidade da Consciência do Ser. 

Na unidade tudo já é. Tudo está imediatamente ao alcance, disponível, manifestado. Na Unidade não existe separação em absoluto. Todavia isso é constatado somente mediante a percepção consciencial. A percepção mental concebe a dualidade, ou seja, o senso de divisão, separação, isolamento. A mente divide todas as coisas. Para a mente, não é apenas o senso de “eu” que existe separado de tudo o mais – todas as coisas parecem estar separadas de todas as coisas. Ela cinde a realidade em “passado”, “presente” e “futuro”. A mente concebe uma divisão/separação absoluta.

Na dimensão da Consciência do Ser, “Eu” está em unidade com todas as coisas, com todos os seres, com o universo inteiro. Isso é assim porque Deus é tudo o que existe, e tudo o que existe existe em Deus. É como um mecanismo perfeito, completo, fechado em si mesmo. Deus é o Ser individual que somos. O Ser individual (a Parte) contém o Todo dentro de si; em decorrência disso, a Parte também encerra todas as outras Partes dentro de si. Deus é uma Unidade perfeita sendo –  o Universo Infinito funciona assim. Somos a plenitude, o próprio Universo Infinito. O Reino de Deus inteiro está dentro de nós. Tudo o que é do Pai, é também nosso, e nisso somos glorificados.

Tendo compreendido isso, podemos dar um passo adiante e compreender que se estamos em Unidade com Deus consequentemente somos unos com a paz, a sabedoria, a bem-aventurança, tudo já existe dentro de nós. Esse é um outro segredo: A nossa unidade com Deus garante a nossa unicidade com todas as coisas. 

Jesus, em uma de suas parábolas, enfatiza essa verdade valendo-se da imagem da Videira e dos ramos. Ele diz:

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo o ramo que em Mim não der fruto, Ele o cortará; e todo o que der fruto, Ele o limpará para que dê ainda mais. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado. Estai em Mim como Eu em vós; como o ramo de si mesmo não pode dar fruto se não estiver na videira, assim também vós não podereis se não estiverdes em Mim. Eu sou a videira, vós os ramos; quem está em Mim, e Eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Se vós estiverdes em Mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai: para que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos.” (João 15:1-8)

Jesus está revelando a Unidade ao dizer que Ele é a videira e todos os personagens são ramos ou galhos da videira. Ao afirmar “eu sou a videira”, Ele não está fazendo menção ao seu personagem, mas está se referindo ao Cristo para o qual ele despertou. O personagem Jesus também é um ramo da videira.

A fim de compreender melhor as implicações desta analogia, visualize em sua mente um tronco de árvore do qual crescem muitos ramos. Remova, agora, o tronco. Tudo o que sobrou são muitos ramos soltos e pendentes no espaço, desligados uns dos outros e de qualquer coisa. Estando soltos no ar, desligados da videira, como os galhos manter-se-ão suspensos no ar? De onde eles retirarão os nutrientes ou substâncias necessárias para o seu sustento? Em pouco tempo cada um destes galhos terá consumido a pouca vida que estava em si e caído. Um galho sozinho não consegue suprir a própria vida. Agora restaure em sua mente o tronco da árvore e note o que aconteceu aos ramos. Todos eles estão ligados à Árvore, que está enraizada e fundada na Terra, retirando para si todos os nutrientes necessários ao crescimento e desenvolvimento e fluí-las aos ramos. Os ramos não precisam se preocupar e lutar por seu sustento. A Árvore, o tronco principal (o Ser individual, o Cristo, o Filho de Deus, o Atman) retira da Terra (O Ser universal, o Pai Eterno, Paramatman) todo o bem necessário a fim de abastecer a vida dos ramos.

E Jesus afirma claramente que nós somos ramos ligados à videira. Podemos então compreender que a nossa vida não depende de nosso próprio poder, força ou sabedoria pessoais. O Cristo em nós é "Quem faz", é Ele quem providencia para todas as nossas necessidades. Por causa desta videira (Cristo), não há necessidade de lutarmos por nossas vidas, de vivermos afastados uns dos outros, ou de lutarmos uns contra os outros. Este Cristo invisível, o tronco invisível da árvore enraizada em Deus, recebe todo o bem para Si e o lança para nós. O nosso suprimento não depende de nós, assim como o suprimento do ramo não depende de si mesmo. Estamos unidos na videira, somos um em Cristo! A plenitude do ramo depende unicamente do seu CONTATO (a percepção consciente de sua unidade) com a Videira. A menos que reconheçamos a nossa unicidade consciente com Deus, seremos como galhos desligados da Videira, cairemos e secaremos.
A chave para fazer manifestar no mundo da representação as riquezas existentes no Universo Infinito da Consciência é a oração ou meditação na qual conscientizamos o nosso bem como já manifestado. Orações ou meditações que utilizam a mentalização também são meios eficientes de trazer ao mundo visível tudo o que já existe no Universo da Consciência do Ser. Todos esses ensinamentos possuem como base o princípio de que tudo o que existe é UM.

Essas palavras não são apenas para serem lidas mentalmente. Neste momento, aproveite a própria leitura para exercitar a percepção consciencial – agora! Tudo o que está sendo aqui exposto não é conhecimento para ficar na teoria, é para ser treinado, praticado. Portanto, comece a treinar a sua percepção durante a própria leitura deste texto. E não é apenas com o texto – isso vale para tudo, esteja sempre alerta. Neste instante, volte-se inteiramente para o momento presente e perceba Quem está fazendo aparecer este texto diante de você. Perceba Quem está aparecendo como aquele que escreve; perceba Quem está aparecendo como a mensagem que está sendo lida; e perceba Quem está aparecendo como aquele que está lendo. Mais do que isso, perceba Quem está movendo a sua mão, perceba Quem está aparecendo como a sua visão, perceba Quem está enxergando com os seus olhos; perceba Quem está sendo por inteiro o seu personagem. Por fim, perceba Quem está percebendo em você. Tudo está acontecendo simultaneamente na Consciência do Ser e ninguém da representação está fazendo coisa alguma. Se estiver percebendo consciencialmente, verá que estas palavras emergem de Mim, emergem de Quem Sou e se destinam a Você, que é Quem Sou, pois, em realidade, só há UM de nós. Se tudo isso for apenas lido e não praticado, essa teoria servirá só de conhecimento para a mente e não será de nenhum valor real.


12 – O Silêncio pode ser compreendido como o estado de máxima atenção e receptividade ao Ser. Ele pertence à sublime dimensão espiritual. Ele é o solo, o ambiente no qual a Realidade Divina floresce. No Silêncio tudo está acontecendo. Significa que o Infinito inteiro está acontecendo de uma única vez, num só lance – tudo está dentro! Na representação as coisas não ocorrem assim, tudo o que existe nela não pode ocorrer ao mesmo tempo. Não há "espaço" para todas – enquanto algumas delas acontecem outras devem esperar lá fora. O Silêncio é o meio para percebermos o universo consciencial.

Para compreendermos o que é o Silêncio, vamos, por um momento, entende-lo como vazio. Silêncio é o vazio. E vazio é sinônimo de espaço. Existem diferentes categorias de vazio ou espaço. Algumas delas são mais utilitárias que outras. Por exemplo: o vazio (espaço) que existe entre os planetas do sistema solar é diferente do espaço vazio que existe aqui dentro do nosso planeta Terra. O vazio do espaço cósmico é mais aéreo, abstraído, aberto, espaçoso. Graças a isso, a sua utilidade é maior, ele é capaz de comportar maiores conteúdos. Por sua vez, o vazio que existe aqui em nosso planeta (por exemplo, o espaço vazio de nosso quarto) não é tão vazio, aéreo ou abstraído como é o vácuo espacial. O vazio aqui da Terra está cheio de ar. Porém, mesmo estando cheio de ar e não sendo tão vazio (útil) quanto o espaço cósmico, é possível utilizá-lo para colocarmos os nossos móveis lá dentro. Assim, podemos perceber que o "vazio do universo" é mais vazio (útil) do que o "vazio terrestre". Da mesma forma, o Silêncio é mais vazio do que o espaço (vazio) onde existe a representação. Graças a isso, um universo grandioso pode acontecer ali. O Universo consciencial é um fenômeno grande demais para caber dentro de um vazio tão pequeno. Seria muito desconfortável para o Divino se manifestar no espaço (vazio) onde ocorre a representação. O Universo Divino sente-se a vontade para acontecer no Silêncio, porque esse é o ambiente ideal para ele.

Outra forma de conceber o Silêncio poderia ser esta: a Realidade Divina é como um programa de computador de alta tecnologia que, para poder funcionar, necessita utilizar configurações de altíssima resolução e bastante pesadas. Não é qualquer máquina que aguentaria rodar um programa de porte tão alto. Seria necessário ter o equipamento adequado. O Silêncio é esse equipamento de alto nível que permite rodar o superior programa de computador.

Vibração [palavra]. As escrituras védicas revelam que OM (Verbo) é o som ou vibração primordial que colocou em movimento as energias latentes do cosmo e fez surgir o universo da representação. Tudo o que existe no universo do personagem é resultante de vibração ou palavra. A palavra é força criadora. Neste universo  tudo é energia, e as energias variam segundo a frequência (faixas) de vibração ou aceleração. A luz é energia acelerada (faixa de alta frequência vibratória); e a matéria em seu estado bruto é energia condensada (faixa de baixa frequência vibratória).  O corpo é energia e a mente também é energia. São a mesma energia – corpo e mente são um. O corpo é o aspecto "denso" e "grosseiro" da mente; enquanto que a mente é o aspecto "sutil" e "refinado" do corpo. Em razão dessa unidade, tudo o que existe na mente manifesta-se também no corpo e na matéria. Esse é o princípio ensinado pela ciência mental.

A ciência mental diz que tudo o que for pensado na mente tende a se manifestar no corpo concreto e também no mundo físico. O pensamento é energia, vibração, palavra.  E palavra é emissão de comando para o universo. O universo está sempre respondendo "sim" aos nossos comandos. O termo "palavra", aqui, deve ser compreendido em seu sentido amplo. As palavras que saem de nossa boca são todas vibração/palavra/comando. Nossos comportamentos e ações são "palavra". Nossos sentimentos também são palavra, energia. Até mesmo a postura corporal ou expressão fisionômica que assumimos constitui força ou palavra. Cara feia e fechada é palavra negativa; e uma cara descontraída, sorridente, feliz e alegre é palavra positiva. Tudo isso é energia (força, vibração, palavra!) que emitimos para o universo. E em nossa vida atraímos de volta tudo o que emitimos. Ao emitirmos palavras positivas de saúde, otimismo e alegria, a mente universal capta e recebe essa energia (comando) e os devolve à fonte emissora com intensidade aumentada. O mesmo vale quando emitimos palavras negativas: cedo ou tarde deveremos colher o fruto dessas palavras. Nossas palavras criam a nossa realidade. É importante notar é que o universo não responde ao que queremos, ele responde às forças (palavras) que brotam e existem em nós. O universo responde ao que somos. Se o nosso ser (pensamentos, sentimentos, palavras, condutas e atos) não está alinhado com o que estamos pedindo, dificilmente teremos os nossos desejos atendidos.

Tudo aquilo que desejamos ou pensamos, para nós ou para outrem, retorna para nós. O universo inteiro funciona como um espelho. Aquilo que oferecemos reflete no espelho único do universo e retorna para nós infalivelmente. Uma das leis ou regras que regem o universo da representação é a lei do "dá e receberás". Aquilo que damos, recebemos. Com essa lei, o universo tem uma mensagem para nos dizer. Eles está nos dando a dica de que na realidade (mesmo no universo da representação) existe um único "eu". Foi em razão disso que Jesus recomendou que deveríamos fazer ao nosso próximo somente aquilo que gostaríamos que fosse feito para nós. Deus permitiu que essa lei regesse o universo da representação a fim de que cedo ou tarde, pela lei da evolução, descobríssemos que na realidade o outro não existe. Há unicamente um "eu".


13 – O Universo da Consciência do Ser é pleno, absoluto, completo em si mesmo. Está pronto, consumado; nele, tudo já é. O universo do personagem não é absoluto e não apresenta a mesma plenitude, não está consumado. O Ser não carece de coisa alguma. Devido a isso, a palavra "Conhecimento" que está inserida na coluna do Eu Real refere-se ao conhecimento absoluto. É diferente do conhecimento relativo o qual está relacionado à mente do personagem. Em geral, os personagens acreditam ser necessário adquirirem um prévio conhecimento espiritual para poderem perceber a Consciência; primeiro eles acumulam  muitas informações para somente depois passarem à prática. Esse pode constituir um caminho, mas não é realmente necessário ser assim. Os conhecimentos relativos não atuam como condições obrigatórias para perceber a Consciência do Ser. Não é necessário ler pilhas e pilhas de livros. Há um caminho direto que consiste em compreender que: Deus é um ser completo. O Conhecimento necessário para perceber o Ser já existe no próprio Ser. O Ser que somos contém si tudo o que é necessário. Por isso os conhecimentos relativos podem ser dispensados. Se compreendermos realmente que o Ser não depende de "conhecimentos" para perceber-Se ou conhecer-Se, a própria compreensão provoca a transformação, a alquimia, a mágica: subitamente percebemos que é o Ser quem percebe em nós. A percepção mental dá lugar a percepção consciencial.

Da mesma forma – por ser completa – a Consciência do Ser dispensa a necessidade da experiência. Seria incorreto afirmar que o Universo do Ser "existe" ou que ele "não existe", e entrar em debates acerca de sua existência ou inexistência. Isso porque o Universo Consciencial não carece da experiência da existência ou inexistência. Ele está acima disso. Ele está completo! O Ser simplesmente é. A experiência de "existir" ou "não existir" é para o personagem e seu universo. Nós não devemos tentar compreender o Universo Consciencial com base nas características conhecidas assumidas pelo universo da representação. A Consciência do Ser existe ao seu próprio modo – ela é!

O universo da representação é como uma peça de teatro: as coisas que nele estão sendo encenadas são ficções, irrealidades. Um ator não necessita representar ou encenar a sua vida real – ele a vive. O personagem teatral não surge enquanto não entrar a irrealidade. A realidade nunca é encenada, mas é diretamente vivida. No teatro é encenado somente aquilo que "não é". Com isso em mente, consideremos o seguinte: Amor é o que Deus é, ao passo que o medo é aquilo que Deus não é. Unidade é o que Deus é, ao passo que a dualidade/separação é aquilo que Deus não é. Eternidade/Atemporalidade é o que Deus é, ao passo que  morte/temporalidade é aquilo que Deus não é. Como não é da natureza de Deus ser "separação", "medo", "temporalidade", Ele irá encená-los: é então que surge a experiência do universo da representação. Assim, a luz, o amor, a sabedoria, a vida, a alegria, a bem-aventurança, a harmonia e a paz existem como existências verdadeiras, enquanto que as trevas, o medo, o mal, o sofrimento, as infelicidades e a morte existem como representações. O universo da representação existe com a finalidade de permitir a experiência daquilo que "não é". Apesar disso, em razão de uma unidade essencial que existe entre personagem e Ser (também entre o Universo da Consciência e a representação), Deus se expressa na representação.

Continua...

quinta-feira, novembro 03, 2016

Preleções Nucleares: A Unidade Essencial - 2/4

- Gustavo -


Na postagem anterior foi explanada a base de todo o ensinamento do Núcleo. Apresentando um resumo do texto anterior, destacamos os seguintes pontos: a) somos Consciência, Atenção ou Percepção; b) valemo-nos da metáfora do Ator e da representação divina para entender a Verdade espiritual profunda; b) Deus – a Consciência do Ser – é tudo o que existe. Ele é a Verdade Suprema; c) a nossa identidade real é a Consciência do Ser, é Quem somos; d) o universo da dualidade é uma representação divina; e) podemos perceber nossa identidade como sendo a Consciência do Ser (Quem somos) ou como sendo um personagem (quem estamos sendo); f) há em cada um de nós duas percepções: a percepção consciencial e a percepção mental; g) identificados com o Ser, percebemos com a Consciência do Ser; ao passo que quando estamos identificados com o personagem, percebemos com a mente do personagem; h) a percepção consciencial revela a percepção que o Ser tem da realidade; e a percepção mental revela a percepção limitada concebida pela mente do personagem.

Com essas lembranças em mente, consideremos a seguinte tabela sinótica apresentada num esquema de duas colunas:




Esse quadro comparativo permite ver num só lance as diversas facetas, características e atributos que inerem ao "Eu" e ao "eu".

No Núcleo, a percepção consciencial é a percepção que provém da Consciência do Ser, ou seja, do Ser Real, que é Deus. Aqui, a Consciência do Ser é representada pela palavra "Eu", com "E" maiúsculo. O Eu divino é escrito com "E" maiúsculo. Por sua vez, a percepção mental é a percepção que provém da mente do personagem, e o eu-personagem está representado pela palavra "eu" com "E" minúsculo. Há, portanto, duas identidades que podem ser percebidas por nós: o Eu Real (O Ser Divino, o Cristo, o Buda em todos nós) e o eu fenomênico (o personagem, irreal).

A fim de poder entender ainda melhor o que são essas duas percepções, vamos agora adentrar e explorar cada um dos 18 pontos comparativos da tabela:


1 – Na primeira coluna está revelado Quem somos (Eu). Somos a Consciência do Ser, o Eu todo-abrangente, impessoal, universal, infinito, eterno, imutável, pleno, único. A percepção consciencial nos revela que somos Aquilo que Deus é. Deus é Quem somos.

Na segunda coluna está revelado quem estamos sendo (eu), ou seja, estamos sendo um personagem que tem a característica de ser: específico, pessoal, mutável, efêmero e finito. Um personagem surge, dura pouco tempo e morre. Por isso, não se pode dizer que o personagem "é". Quem é, é sempre – eternamente. Uma vez que o personagem surge e desaparece, ele não é – está temporariamente sendo. Os personagens não são existências reais.

Assim, há uma grande diferença entre "Quem somos" e "quem estamos sendo". Nós somos o Eu Real. E, na representação divina, estamos sendo os nossos personagens.


2 – O Eu "é", ao passo que o eu está apenas sendo. "Quem somos" existia antes do surgimento da representação e continuará a existir após o desaparecimento da representação. O nosso Eu real existe desde "antes que Abraão existisse". "Quem somos" Se revela também na representação. Mas jamais Ele desaparecerá, mesmo que na representação passe completamente a eternidade dos tempos. Ele está situado acima e fora de todo o tempo. A eternidade do Eu não se compõe da eternidade dos tempos que na representação podem passar infinitamente. Eternidade não significa "tempo infinito"; eternidade significa "fora da dimensão do tempo". Eu é eterno em Sua própria dimensão de existência – a dimensão absoluta e real da existência, constante, perene, que sempre É. Somente assim é possível afirmar "Eu sou".

Ao contrário do Eu, o personagem "não é". Um personagem não pode dizer "eu sou", mas ele pode dizer que: "eu estou sendo". Isso é mais exato. Dizer que o personagem "é" é incorrer em erro – pois o personagem é transitório, efêmero. Portanto, palavra que melhor se aplica ao Eu é sou, enquanto que a palavra que melhor se aplica ao personagem é o termo estou.

Não somos quem estamos sendo, somos Quem somos.


3 –  É correto afirmar que Deus é o Ser. E é também correto afirmar que Deus está sendo o personagem. Há uma unidade essencial entre o Ser que somos e o personagem que estamos sendo. Essa unidade essencial existe, e só pode ser percebida pela Consciência do Ser em nós – a mente do personagem jamais percebe essa unidade. É necessário, portanto, despertar para o fato de que a percepção consciencial é uma percepção real e efetiva, que pode ser desfrutada por todos. Jesus, por exemplo, detinha essa percepção consciencial. Quando falava pela percepção mental, chamava a si mesmo de "filho do homem". Porém, quando falava a partir da percepção consciencial, chamava a si mesmo de "filho de Deus". Assim como o personagem Jesus, os nossos personagens também participam de uma Unidade essencial que há entre eles e Deus. Todos nós podemos representar o papel de nossos personagens e ao mesmo tempo permanecer conscientes de Quem somos. Quando estamos de posse dessas duas percepções, estabelece-se uma conexão entre personagem e Ser, então o personagem pode interagir consciencialmente com o Ser que em realidade somos.


4 – O Ser percebe com a Consciência, ao passo que o personagem percebe com a mente. O Ser só pode ser percebido pela própria Consciência do Ser. É a própria Consciência que percebe a Consciência. Tentar perceber Deus ou a Consciência com as faculdades da mente revelará ser um esforço vão e infrutífero. A mente somente pode perceber coisas mentais. Ninguém, com a visão dos cinco sentidos, com a visão mental, jamais viu a Deus. E Deus nunca será visto por essa forma. Somente o próprio Ser, pela “Consciência do Ser”, pode transcender a percepção da mente e perceber-Se! Devemos perceber Deus com a própria visão de Deus – com a visão de Deus em nós. As escrituras sagradas dizem que o que é espiritual só pode ser discernido espiritualmente, de Espírito para Espírito. Do mesmo modo, a nossa visão de Deus e o nosso encontro e interação com Deus dar-se-ão somente pela via da Consciência para a Consciência.


5 – O Ser está sempre em seu estado constante e permanente de Bem-Aventurança. A mente do personagem, por sua vez, ora está feliz, ora está infeliz. A mente existe no âmbito na dualidade, e na dualidade tudo o que existe é relativo, instável e passível de oscilação. A felicidade somente pode existir se houver o contraste com a infelicidade, ou seja, o seu oposto polar. Na dualidade as polaridades existem sempre juntas e ao mesmo tempo. Elas são como os dois lados de uma moeda – se um lado for retirado o outro não pode ser mantido. Felicidade e infelicidade, vida e morte, bem e mal, amor e medo, luz e sombra, são todos relativos e caminham juntos. Assim, devido à dualidade o estado mental deverá oscilar e flutuar constantemente entre essas duas polaridades.

O mesmo não ocorre no âmbito da Consciência do Ser. A dimensão de existência do Ser está situada fora da dualidade; o Ser existe na dimensão da Unicidade. Nessa dimensão existe o Bem absoluto, que não deve ser confundido com o bem relativo da dualidade que somente pode existir em contraposição ao mal. Da mesma forma, o estado de Bem-Aventurança do Ser é um estado absoluto que existe sem a necessidade de contraposição a um estado oposto. O Ser vive em estado imutável e constante de Bem-aventurança.


6 – O Atman está relacionado à Consciência do Ser. O que é o Atman? É o Ser Divino universal que Se manifestou como o Ser Divino individual. A Consciência do Ser é uma existência absoluta, suprema, universal, infinita e toda abrangente, é a Totalidade de todas as coisas. Quando essa Consciência Universal resolve Se manifestar como o Ser individual, nesse momento surge o Atman. Ao Ser Universal todo abrangente os ensinamentos védicos utilizam o termo Paramatman. E, quando Paramatman Se manifesta na forma individual, Ele passa a ser denominado Atman. Paramatman e Atman são Um em todos os seus aspectos! Eles são o mesmo Ser supremo e absoluto.

No ensinamento cristão, Deus enquanto Ser Universal (Paramatman) é designado como "Pai". Ao passo que, enquanto Ser Individual (Atman), Deus é chamado de "Filho". Deus é tudo! E Deus é o único Criador. Tudo o que foi criado por Deus é Deus! Porque não há, em absoluto, separação alguma entre Deus e Sua criação ou entre Deus e o homem. A única diferença que há entre Deus e o homem é a seguinte: o homem é a manifestação de Deus individualizada, enquanto Deus – a Consciência – é a imagem do próprio Ser infinito. Cada ser individual é uma expressão distinta, genuína e autêntica do Ser Divino. Cada ser individualizado é um "filho de Deus", é o próprio Todo manifestado como o indivíduo (parte). E a parte é tão infinita e vasta como o é o próprio Todo. Em qualquer situação, o Infinito continua sendo o Infinito.

É importante ter em mente que o homem ao qual nos referimos não é aquele que existe no âmbito da representação. O homem que existe na representação não é o homem verdadeiro (Atman), é apenas um personagem do Ser (Jiva). Quando falamos sobre o Atman, o Filho de Deus, estamos nos referindo ao homem verdadeiro que existe fora da representação. O homem verdadeiro que existe fora da representação não é um ser da representação. Ele vive na Realidade Divina sendo, portanto, um ser consciencial. Todos os seres conscienciais vivem na Realidade Divina e sabem Quem são, porque se percebem consciencialmente, e por isso se percebem como o Ser único. A realidade divina se expressa na representação, mas está fora da representação. O Atman existe em Paramatman. O Filho de Deus tem a sua vida e  existência em Deus. Pai e Filho são um.

A percepção consciencial é a percepção da Consciência do Ser, Deus. Quando acessamos a percepção consciencial e vemos com a visão de Deus, percebemos que a parte é o Todo e o Todo é a parte. Conhecer a "parte" significa conhecer a Totalidade, porque em se tratando de Deus, a parte não é "parte" em absoluto, mas é a própria Totalidade. Conheça a "parte", e você terá conhecido a Totalidade. Conheça o seu Ser Individual, e você terá conhecido o Ser Universal. Conheça o Filho, e você também terá conhecido o Pai. Jesus, que sabia ser o Filho de Deus, nos confirmou isso, dizendo: "Ninguém vai ao Pai senão por Mim.". Este "Mim" é o Filho de Deus.


7 – O Ser é atemporal. Ele habita a dimensão da Eternidade. Ele está fora do tempo, e está fora da representação. Nascimento e morte não O envolvem, são fenômenos que pertencem ao universo da representação. O personagem existe na representação, é temporal e está sujeito a nascimentos e mortes.

A Eternidade é o Presente atemporal. A partir de sua posição atemporal, que está acima da representação, o Ser contém em Si todos os tempos. Passado, presente e futuro existem todos ao mesmo tempo, de uma única vez, num só lance. Do ponto de vista do Ser, o passado não vem antes do presente, e o presente não vem antes do futuro. Na representação, o passado necessariamente ocorre antes do presente, e o presente ocorre antes do futuro. Para o Ser, passado, presente e futuro são imediatos, existem todos ao mesmo tempo. Em decorrência deste princípio, podemos afirmar que o Ser transcende o tempo, fazendo-Se presente (e acessível) em todas as épocas. Passado, presente e futuro da representação estão todos no Presente eterno atemporal que existe na dimensão da Consciência do Ser.

A Consciência do Ser é onipresente. Tudo o que o Ser foi no passado, Ele é no presente e será no futuro. Tudo o que foi válido para o Ser no passado, é também válido hoje e será válido em qualquer época no futuro – porque Deus não muda, Ele é sempre o mesmo. E nesse fato encontramos um outro segredo: toda a verdade afirmada pelos iluminados, avatares e santos do passado é também a verdade sobre nós próprios. Tudo o que eles declararam ser válido para eles, é também válido para nós (que estamos no presente) e para todos aqueles que estão vivos no futuro.

Na Bíblia (Lucas 4: 16-21), encontramos um exemplo perfeito dessa verdade. Num dia de sábado, Jesus compareceu à frente de toda a sinagoga para que lesse, diante de todos, a sagrada escritura. Jesus recebeu em mãos o livro do antigo profeta Isaías e, quando abriu o livro, encontrou o lugar em que estava escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a apregoar a liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor". Após ler tais palavras proferidas por Isaías, Jesus, cerrando o livro, disse a todos os que estavam ouvindo: "Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos".

Este acontecimento comporta um fundamento ou princípio espiritual de grande importância. Em geral, as pessoas pensam que essa passagem bíblica foi escrita meramente para informar ou narrar um fato a mais do dia-a-dia de Jesus, e por isso aproveitam muito pouco do que está ali contido. O significado espiritual dessa passagem está oculto em cada ação e atitude tomadas por Jesus, que não por acaso foram ali registradas. Se pudermos compreender cada uma de suas atitudes, teremos condição de nos colocar na posição de fazer o mesmo que ele, ou seja: acessar a mesma Presença ou Consciência com a Qual ele se identificava.

O que Jesus fez foi tomar como válidas para si mesmo as palavras ditas pelo profeta Isaías. Isaías foi um profeta que viveu no tempo do Antigo Testamento, em época muito anterior à de Jesus. Quando Isaías proferiu as palavras "O Espírito do Senhor está sobre mim, e me ungiu...", ele não estava profetizando, não estava se referindo a um Messias que viria no futuro, ele estava falando a respeito de si mesmo. Mas Jesus tomou as palavras de Isaías como válidas para si mesmo. Jesus compreendeu/reconheceu que a Verdade a respeito de Isaías era também a Verdade sobre de si mesmo, o que permitiu a ele dizer diante de todos: "hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos."

Ao reconhecer que a Verdade válida para Isaías era também a verdade para si próprio, Jesus acessou a percepção adimensional e atemporal (sem tempo ou espaço) da Unidade, onde ele e Isaías estavam integrados, não-separados. Em tal dimensão, o Universo não faz distinção de lugares ou seres; Ele é ao mesmo tempo todos os lugares e todos os seres, impessoalmente. Todos os "seres" e "lugares" são o Universo.

É muito importante notar que em sua vida Jesus jamais se encontrou com Isaías, não o conheceu, e nunca teve algum contato com ele. Muito pelo contrário: Isaías viveu na terra centenas de anos antes de Jesus. Apesar da atuação da poderosa força separativa de Maya (tempo e  espaço), Jesus identificou a verdade proferida por Isaías (centenas de anos atrás) como válida para si mesmo (hoje).

E a condição de separação que existia entre Jesus e Isaías é a mesma que há entre Jesus e cada um de nós. Olhando a partir de onde Jesus se encontrava, Isaías estava longe, no passado; olhando a partir daqui onde estamos, Jesus aparenta estar distante há 2000 anos. E hoje nós podemos abrir o livro da Bíblia e ali encontrar palavras/afirmações tremendas da verdade ditas por Jesus: "Eu e o Pai somos um", "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida", "Quem me vê a mim, vê Aquele que me enviou". Através do exemplo e atitude que demonstrou diante de todos os que estavam na sinagoga, Jesus ofereceu-nos a oportunidade de "segui-lo", mostrando que também podemos nos identificar com as palavras e as revelações divinas e sagradas, exatamente como ele fez. A unção que estava com Isaías e Jesus está também com cada um de nós que hoje tomamos o conhecimento dessas  palavras.
  
O que Jesus disse de si mesmo é válido para a humanidade inteira, hoje. O que Buda disse de si mesmo também é válido para a humanidade toda, hoje. O que Krishna afirmou sobre si mesmo também é a verdade sobre todos, hoje. É a Unidade do Todo que nos outorga autoridade para afirmar tais verdades sobre nós mesmos.

Essa verdade é assim devido ao fato (ou princípio) de o Ser ocupar a posição de viver no Presente atemporal e, consequentemente, fazer-Se presente em todos os tempos e eras.


8 – Em contraposição ao Presente atemporal (que existe fora da representação, portanto, fora do tempo), tem-se o presente temporal. O presente temporal existe na representação juntamente com o passado e o futuro. Contudo, mesmo na representação, passado e futuro são irreais – apenas o presente temporal é real.  No universo da representação, o presente temporal espelha o Presente atemporal que existe na dimensão da Consciência do Ser. Assim, o presente temporal é a porta de entrada para o Presente atemporal. A mente do personagem tem à sua disposição o passado, o presente e o futuro. Porém ela evita a todo custo permanecer no momento presente, porque ele é a porta escapatória para a Consciência. Se a mente vier para o momento presente, ela começa a desaparecer e a Consciência passa a se evidenciar. Então, a fim de não perder o seu território para a Consciência, a mente tende a se agarrar ao passado (lembranças) e ao futuro (imaginação).

Estar alerta para o aqui-agora é a maneira de começar a acessar o Silêncio. Desfrutar inteiramente o momento presente é a chave para colocar a mente em estado contemplativo e, assim, desfocar a atenção/percepção da mente para o campo da Consciência. Quando a mente está com demasiada atenção no passado ou no futuro, o Silêncio fica obscurecido pelo ruído mental. E o Silêncio é o lugar onde que tudo acontece.


9 – A mente pensa e a Consciência medita. Pensar é atividade da mente do personagem – e o pensar sempre envolve passado e futuro. Meditar é atividade da Consciência do Ser – e diz respeito ao momento presente. O personagem não pode meditar jamais, por mais que ele queira ou tente. Isso é assim porque o personagem existe na representação enquanto que a meditação é um fenômeno pertencente a fora da representação. A meditação, portanto, está além da capacidade ou alcance do personagem. Se uma meditação ocorre em razão da capacidade ou esforços do personagem, não se trata da verdadeira meditação. A meditação verdadeira é uma atividade da Consciência do ser.

Antes de a meditação ter início é necessário estabelecer um estado de contemplação. A mente é incapaz de meditar, contudo ela pode colocar-se em estado contemplativo a fim de propiciar a ambiência necessária para que a meditação se dê. A mente do personagem só é capaz de chegar ao estágio da contemplação, a partir daí  atua a Consciência – a Consciência assume o comando e a meditação acontece.

Assim, a parte que cabe ao personagem é a de colocar sua mente em estado contemplativo, voltando-se para o momento presente e desfrutando-o por inteiro, até ter o vislumbre de que tudo o que existe (ou seja, tudo o que está acontecendo em seu momento presente, incluindo a própria existência do personagem que ele está representando) está simplesmente acontecendo sem esforço algum da parte de ninguém. Ninguém está fazendo nada, as coisas estão simplesmente acontecendo (a impressão é de que acontecem sozinhas, por si mesmas) sem dependerem de qualquer força ou agente da representação – como se houvesse "Alguém mais" encarregado de realizar todo o trabalho. É então que o indivíduo começa a perceber que há uma Inteligência fazendo tudo, dando andamento a tudo. Nesse ponto que a pessoa começa a perceber "Quem faz" todas as coisas. E somente a partir desse ponto é que emerge a verdadeira meditação, porque "Quem faz" realiza tudo – incluindo a atividade de meditar. Meditar significa perceber "Quem faz".

A meditação é sempre atividade da Consciência do ser.

Continua...


 

segunda-feira, outubro 31, 2016

Preleções Nucleares: A Unidade Essencial - 1/4

- Gustavo -


I - INTRODUÇÃO

O objetivo deste texto é facilitar a compreensão que temos da Verdade. Para isso, vou me valer das explicações didáticas ensinadas no Núcleo. O Núcleo é uma instituição (ainda não oficial) que visa difundir ao mundo ensinamentos espirituais profundos, percepções conscienciais, iluminadas. São ensinamentos de grande porte, tal como os de muitos mestres iluminados já tão amplamente conhecidos. Não se trata de algum ensinamento novo, apenas de uma nova e eficiente forma de expor a mesma Verdade conhecida há milênios e expressada pelas diversas grandes religiões e filosofias. A metodologia de ensino do Núcleo tem a característica especial de ser ao mesmo tempo simples e profunda e também prática. Devido a isso, ela tem o poder de facilitar sobremaneira a compreensão (percepção) da Verdade Eterna em contraposição às verdades temporais e efêmeras.

A compreensão da Verdade a que me refiro não é uma compreensão intelectual, da mente; é, isto sim, uma compreensão mais profunda, uma compreensão intuitiva. Em geral, é assim que ocorre o processo de aprendizado: inicia-se com o entendimento intelectual e, quando este é bem colocado, as portas para uma compreensão mais profunda (compreensão intuitiva, além do intelecto) se abrem. E a compreensão intuitiva, por sua vez, pode nos levar à percepção da Verdade intuída. A realização da Verdade ocorre somente quando alcançamos a percepção da Verdade, não bastando uma simples compreensão intelectual. Uma palestra ou livro podem ser elaborados contendo explicações muito bonitas, inteligentes e com uma lógica muito bem construída; contudo, por mais que eles contenham todas essas coisas, ainda não poderão nos proporcionar a percepção da Verdade a que se referem. Por isso o ensinamento nuclear, acima de todas as coisas, leva em conta a percepção. Você estará sempre se deparando com o termo "percepção", a fim de que a sua percepção seja direcionada e encontre o seu centro, a sua fonte, a essência, o Núcleo.

O Ser que somos é Consciência/Percepção/Atenção silenciosa, inteligente, indivisa e una. Todavia, para a visão mental, ela parece estar dividida ou fragmentada – porque é assim que a mente percebe. E se estamos identificados com a mente, a percepção nos parecerá estar dividida ou fragmentada. Por isso, a sua percepção deverá ser empurrada de volta para a percepção. A sua atenção deverá voltar-se para a própria atenção, fundir-se nela, e estabelecer-se ali completamente. Não somos corpos físicos e tampouco somos mente. Somos, isto sim, uma Existência misteriosa e insondável, que também pode ser denominada Inteligência, Silêncio, Consciência, Atenção ou Percepção.


II - O UNIVERSO REAL E A REPRESENTAÇÃO DIVINA

A fim de propiciar um fácil entendimento das verdades profundas, o Núcleo adota a metáfora do ator e da representação. Essa mesma metáfora foi utilizada por Krishna, na escritura sagrada do Bhagavad Gita, para revelar a verdade a Arjuna.

Quando uma peça de teatro está sendo encenada, um ator irá atuar no palco representando o papel de um personagem. Quanto melhor ele representar o personagem, melhor ator ele é. Um ator deve saber tudo a respeito de seu personagem, deve conhecer detalhes, adquirir grande intimidade com o personagem que irá representar; e quanto mais identificado ele estiver, mais fácil para ele será atuar como aquele personagem. Existem inclusive atores tão bons e eficientes que, ao atuarem, mergulham no papel de seus personagens tão profundamente ao ponto de esquecerem completamente de si mesmos. Nos momentos em que a peça teatral está sendo encenada, a história e o universo do personagem são tudo o que existe, e a realidade da vida do ator fica encoberta/esquecida em função de seu profundo envolvimento com a representação. A representação ganha extrema realidade para ele; se na representação ele for insultado, ele vai reagir ao insulto e ficar bravo. Ou, se na representação ele encontrar um ente querido que não via há muito tempo, ele vai ficar muito feliz. Quando o ator está mergulhado na representação, ele passa a agir em função dela; a representação torna-se real para ele.

O que Krishna revelou a Arjuna, no Bhagavad Gita, é que Deus é como um Ator e todo este universo é uma representação divina. Toda a história e todos os personagens que aqui existem estão sendo encenados por Deus. Deus é perfeito em tudo, até no ato de representar!

Neste mundo existem atores que, ao representarem o papel de um personagem, esquecem-se por completo da sua realidade como atores e tornam-se muito identificados com os personagens que estão representando. Eles são excelentes atores, a representação deles é perfeita! Se uma deles se envolver demasiadamente com a trama de uma peça,  a representação de repente poderá cair como um peso para ele. O que se passa numa representação não possui consistência ou peso algum, mas para aquele ator um peso irreal subitamente pode passar a ser real, e sua irritação ou aflição pode extrapolar os limites da realidade teatral. Até mesmo é possível o ator começar a chorar compulsivamente em razão do que está se desenrolando na trama. Nesse caso, basta que um companheiro mais consciente da realidade dê uma cutucada em seu colega ator e diga: "Calma, amigo! Não vê que o que está acontecendo é apenas uma representação? Por que tanta reação ou aflição excessiva? Você parece pensar que é o personagem que está representando, mas o seu personagem é apenas um personagem. Você é o ator, lembra?".

Também há aqueles atores que, enquanto estão representando o papel de seus personagens, mantém-se conscientes/alertas para o fato de que na realidade eles são atores e não o personagem que estão representando. Para eles a representação jamais cai como um peso, eles levam a representação com grande leveza e desenvoltura. Estes são os personagens despertos – eles permanecem conscientes de quem são, mesmo estando em meio à representação; eles em nada são afetados, pois sabem que a representação é apenas uma representação.

Um ser iluminado é aquele que conheceu a sua realidade como sendo Deus – a Consciência iluminada, o Ser Supremo – e manteve-se consciente disto. Ele está ciente de que é o Ator e pode perfeitamente prosseguir representando o papel de seu personagem no palco onde está ocorrendo a representação divina. Seres como Jesus, Buda, Krishna, Lao-Tsé, Yogananda (e toda sua linhagem de mestres), Ramana Maharshi, Nisargadatta Maharaj (e demais mestres da linhagem Advaita), Osho, Krishnamurti, Ramakrishna, Joel Goldsmith, Masaharu Taniguchi, e inúmeros outros... todos eles identificaram-se como sendo o Eu Real e mantiveram suas luzes acessas no mundo da representação, e cutucando aqueles colegas atores que estavam desempenhando uma perfeita representação de seus personagens, dizendo: "Amigo, não vê que tudo isso não passa de uma representação? Você é o Ator! Basta ficar consciente disso e tudo se resolve! Desperte!".

Se não estamos conscientes de nossa realidade divina, é porque ainda estamos demasiadamente identificados com os personagens que estamos representando.  Pensamos ser o Fulano, o Beltrano ou o Sicrano... o nosso senso de "eu sou" está atrelado a um personagem específico. Nesse sentido, "eu sou" não existe de verdade. Se em meditação nós o investigarmos e o perseguirmos até a sua origem (da mesma forma como seguimos uma correnteza de águas rio acima a fim de encontrar a nascente), veremos que no final ele desaparecerá. Se seguirmos o pensamento "eu sou" (que está atrelado ao corpo-mente) rio acima, descobriremos que não existe origem alguma para ele, e então ele desaparece. O senso "Eu sou" somente é real quando há a identificação do indivíduo com a Totalidade de tudo o que existe – então ele é permanente, nunca desaparece.

Não há nada de errado em estarmos inconscientes de Quem somos. "Quem somos" é um Ser perfeito, e Ele é perfeito até quando está representando. Se estamos identificados unicamente com os nossos personagens, isso apenas significa que somos grandes atores, a nossa representação está divina. Não há o julgamento de que "isso não deveria ser assim" ou de que "o ator não deveria estar tão identificado com o personagem". Mesmo nos teatros ou sets de filmagens não há nada de errado nisso. Os atores podem estar sempre à vontade para fazer o que quiserem. É apenas que a situação poderia ser outra – e bem melhor: se a pessoa estiver com a consciência de que é o ator e não o personagem, a qualidade da representação muda totalmente, adquire um sentido de universalidade, totalidade, leveza, abundância, completude. Quando na representação você se mantém consciente de Quem é, o desfrute da representação passa a ser pleno, de pura bem-aventurança, ao invés de ora bom ora ruim. E quem não iria querer algo assim?

Quando finalmente despertarmos, lembraremos de que somos o Ator que existe por detrás de nossos personagens; perceberemos o universo da dualidade como sendo uma representação divina. A Realidade Divina não é o mesmo que representação divina – elas são distintas. Teremos o nosso sentido de "eu sou" transportado para uma dimensão muito mais ampla, abrangente, universal, ilimitada e livre – a dimensão da Consciência do Ser.  No tempo certo, virá para cada um o momento em que a pessoa despertará e se lembrará de sua realidade como Ator, ao invés do personagem com o qual se identificou e representou tão perfeitamente.


III - CONSCIÊNCIA DO SER vs. MENTE DO PERSONAGEM

Começamos fazendo a distinção entre o que é a Consciência e a mente. A Consciência é Deus. Ela é infinita. A Fonte e a Origem, o Pai e a Mãe de tudo o que existe. Ela é atemporal, está completamente fora do tempo: passado, presente e futuro estão contidos nela. É um estado de potencialidade infinita, na qual todas as coisas já existem. Na Consciência do Ser tudo está consumado, terminado, pronto. É o Ser onipresente, onipotente e onisciente. A Consciência existe como tudo e ao mesmo tempo está além de tudo. Devido a isso, é impossível descrever definitivamente o que é a Consciência – porque ela sempre será isso, mas será muito mais. Em algumas tentativas de dizer algo sobre ela, os ensinamentos utilizam as qualificações: Amor, Sabedoria, Luz, Força, Paz, Bem-Aventurança, Vida, Harmonia, Alegria, Liberdade, Plenitude. Todas essas são qualidades divinas que o indivíduo experimenta em si mesmo (e expressa!) ao entrar em contato com Deus.

A Consciência é Universal, impessoal, toda-abrangente. No universo inteiro existe apenas uma única Consciência, e essa Consciência é a consciência de cada ser existente. Pedras, vegetais, animais, homens – são todos detentores da mesma consciência. Tudo está vivo e todos eles são a Consciência se expressando de maneiras distintas. Em um determinado lugar, a Consciência deseja Se manifestar e conhecer a experiência de ser uma pedra. Em outro momento, a Consciência Se manifesta como planta ou árvore a fim de saber o que é ser uma árvore. Depois, a Consciência decide Se expressar como animal porque deseja saber o que é ter essa experiência. E, por fim, manifesta-se também como o indivíduo, homem ou mulher, a fim de experienciar o que é ser homem ou mulher. Todas as coisas são a Consciência aparecendo como – aparecendo como a pedra, o vegetal, o animal, a humanidade. É com esse entendimento sagrado que determinadas religiões reconhecem, louvam e reverenciam tudo como sendo o divino. Toda a existência é divina. "Eu apareço como...".

Não há nada na existência que esteja "acima" ou "além" da Consciência. Ela ocupa a maior posição hierárquica, o grau máximo. A Consciência é suprema. Quando a mente surge, ela é um fenômeno menor. A mente ocupa o papel de ser um instrumento da Consciência do Ser.

Ao contrário da Consciência, a mente não é universal, não é impessoal e não é todo-abrangente. A mente tem a característica de estreitar as coisas. Ela restringe o senso de "Eu Sou" a uma parte (corpo) específico. Com a mente, Eu sou deixa de Se perceber como o Todo-Universal para Se perceber como sendo uma "parte" específica. Também, ao contrário da Consciência, a mente é sempre pessoal. Cada personagem tem uma história pessoal, vivenciou experiências pessoais, e foi construindo a sua visão pessoal (condicionamento) sobre a vida e o mundo. Ninguém jamais vivenciou exatamente as mesmas experiências. Mesmo aqueles que nasceram gêmeos siameses tiveram a sua visão ou interpretação de mundo construída de forma diferente, eles possuem mentes distintas. Neste mundo existem mais de 6 bilhões de pessoas, portanto mais de 6 bilhões de mentes, e cada uma delas pode declarar: "esta é a minha mente", mas ninguém pode afirmar que "esta é a minha consciência", porque a Consciência é uma só e não pertence a uma pessoa específica. A Consciência pertence a todos, ou a ninguém, dá no mesmo.

Sabendo tudo isso, chegamos à consagração de um princípio espiritual: A Consciência é do Ser; a mente é sempre do personagem. O Ser percebe com a Consciência; o personagem percebe com a mente.

Há em nós duas percepções: a percepção da Consciência do Ser (a percepção real) e a percepção da mente de nossos personagens. Em verdade, há apenas uma percepção que é sempre total, completa, una, integrada. A percepção é sempre a mesma. Quando a percepção está focada na mente, ela se adequa e percebe em conformidade com a mente. A mente é apenas um instrumento, ela é como uma lente de percepção, assim como um óculos. Se vestirmos um óculos com a lente azulada, ao olharmos para a paisagem lá fora, nós veremos tudo azulado, embora o que exista lá não seja necessariamente da cor azul. Olhando através desses óculos, a árvore marrom e verde será vista/percebida como azulada. A mente é esse óculos que limita e distorce a realidade. É importante compreender que a percepção que enxerga com os óculos é a mesma percepção que enxerga sem os óculos. Quando a percepção desloca o seu foco/atenção da mente para a Consciência, passamos a perceber do modo como a Consciência percebe.

Assim, podemos perceber a realidade através da percepção da Consciência do Ser ou através da percepção da mente do personagem. O modo como o Ser percebe a realidade é diferente do modo como a mente do personagem concebe (interpreta) a realidade. A mente enxerga muitos onde há apenas Um. E a Consciência enxerga um onde há apenas um – porque essa é de fato a Verdade. Deus, o Universo, é UM.

Devido a tudo o que foi explanado até agora, as percepções provenientes da Consciência do Ser foram chamadas pelo Núcleo de "percepções conscienciais". E as percepções oriundas da mente do personagem foram denominadas "percepções mentais."

A seguir abordaremos um quadro comparativo contrapondo as características da percepção consciencial e da percepção mental.

Continua...


sexta-feira, outubro 28, 2016

O despertar da Percepção Consciencial



Senhor,

Do irreal conduz-nos ao Real,
das trevas conduz-nos à Luz
e da morte, à imortalidade.

Paz para o nosso corpo,
paz para a nossa mente e
paz para o nosso espírito.

Este texto se compõe de duas partes.

A primeira parte expõe a teoria que fundamenta o desenvolvimento da "percepção consciencial" que conduz a um mergulho em nosso Ser Real, produzindo o chamado "despertar consciencial". Nela estão expostos conceitos espirituais sobre a divindade amplamente difundidos e aceitos tanto no Ocidente quanto no Oriente com as reflexões que eles nos suscitam.

A segunda parte dá ênfase à prática decorrente da aplicação dos conceitos e princípios expostos sobre o processo do "despertar consciencial". Nela há relatos das "experiências conscienciais" que consistem em vivências pessoais e diretas com a divindade e as profundas transformações que resultam dessa convivência.


O DESPERTAR CONSCIENCIAL

As Sagradas Escrituras definem Deus como o Ser onipotente e onipresente. Onipresente significa que está presente em tudo, inclusive em nós. Mas, quem tem percebido a Presença Divina em si mesmo? E por que a maioria das pessoas não percebe essa Presença?

Afirmar que Deus é onipresente é algo aceitável, mas, vivenciar essa realidade é uma experiência que transforma plenamente nossa visão da vida e do que somos!

Sendo Deus onipresente, qual nossa identidade? Quem ou o quê somos?

Os livros espirituais da Índia definem Deus como sendo: Sat (Ser/Verdade), Chit (Consciência/Alegria) e Ananda (Bem-Aventurança).

Estes livros revelam também que Deus é onipresente e que o homem é a divindade que assumiu um corpo para desempenhar um papel num cenário criado pela própria divindade. E ao fazê-lo se esqueceu de Sua real identidade.

Esse esquecimento acontece porque o homem se torna vítima da ilusão criada pelos sentidos da mente do personagem que assumiu e que o faz acreditar ser esta realidade apreendida, pela mente, a única existente. Essa percepção mental da realidade faz com que a representação divina se torne realística e por vezes dramática. Contudo, se nossa real identidade é a divindade, podemos readquirir a consciência do que somos. Essa "recordação" se torna possível com o conhecimento da verdade sobre nossa real identidade. É preciso uma percepção da realidade pela consciência do Ser e não pela mente do personagem.

O processo do despertar se inicia com a distinção entre mente e consciência. A mente é apenas um instrumento do Ser real, enquanto a consciência integra e compõe sua natureza divina.

Portanto, há duas formas de percepção da realidade: Uma é realizada pela mente do personagem: a percepção mental. A outra é feita pela consciência do Ser. Por esta razão foi denominada "percepção consciencial".

A percepção mental da realidade é a condição padrão do ser humano, enquanto que a percepção consciencial é fruto de um despertar sobre nossa identidade real, sobre a realidade da essência e natureza divinas do ser humano.

A mente está ligada à matéria, aos cinco sentidos de percepção, pelos quais são captadas informações do mundo exterior. O processamento das informações resulta na concepção mental que fazemos da realidade. Nossa visão de mundo é assim a interpretação de dados captados pelos cinco sentidos e das inferências realizadas no âmbito mental.

Vivemos o universo do personagem que criamos e o identificamos como sendo nós mesmos! Essa identificação com o personagem que criamos é uma deturpada concepção sobre nossa real identidade, o maior equívoco e fator limitador da maioria dos seres humanos.

Para podemos vivenciar a natureza divina do Ser, que é nossa essência, precisamos nos abstrair da percepção mental da realidade. Isso ocorre no instante em que nos dissociamos do personagem que estamos vivendo e recriando cotidianamente. O foco de nossa consciência em seu estado normal está centrado na percepção da realidade pela mente do personagem. Isso nos causa um sentido de identificação como sendo a mente e o corpo nosso "eu" ou identidade real.

Contudo, mente e corpo são ambos instrumentos do que realmente somos. Quando nos interiorizamos, nossa consciência nos revela um nível de percepção supra-mental pelo qual percebemos quem somos e quem estamos sendo. Em níveis profundos de percepção consciencial podemos sentir que somos o Ser real, eterno, a consciência, que observa o que estamos sendo, um personagem, evanescente, a mente.

A mente se dirige ao exterior, aparente. Julga e reage ao que interpreta como sendo real. A inquietação é sua característica. A consciência apreende o interior, o real. Apenas observa e permanece equânime. A serenidade é sua natureza.

Estes são passos essenciais para o despertar da percepção consciencial. Eles fazem a consciência dissociar-se ou desfocalizar-se da mente, causando uma percepção distinta entre aquilo que está sendo percebido pela mente e a percepção da consciência, que observa a mente.

O despertar da consciência, que tem natureza espiritual, nos faculta a transcender a realidade aparente, vislumbrada pela mente, nos proporcionando uma percepção consciencial da realidade e o acesso à dimensões espirituais, não físicas, através de portais existentes entre elas e nos capacita vivenciá-las concretamente, tanto quanto vivenciamos a dimensão física.

Jesus disse: "Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse eu vo-lo teria dito." - João 14,2.


AS EXPERIÊNCIA CONSCIENCIAIS

O despertar da percepção consciencial desvela um vasto universo interior, a dimensão na qual se constata a onipresença da divindade.

Com a intenção de revelar a sua esposa a realidade do que somos e conduzi-la da teoria à prática, o autor começou a demonstrar-lhe essa Presença Divina, a princípio em si mesmo, revelando a ela sua dimensão essencial, a de um ser que despertou sua "percepção consciencial", passando então a proporcionar-lhe experiência extraordinárias, que a levaram a ter contatos pessoais e conscientes com a própria divindade.

Estes contatos são em si experiências de percepções da consciência sobre a realidade do que somos e foram denominados pelo autor, por essa razão, "experiências conscienciais". Relatos de algumas experiências conscienciais proporcionadas pelo autor a sua esposa estão registradas em vídeo.

São relatos de fatos que revelam a realidade da "percepção consciencial", própria da condição humana. Estas experiências podem ser experimentadas por todos a fim de que percebam que Deus está efetivamente em nós.

O despertar da percepção consciencial do autor ocorreu como resultado de vivências na Índia com o avatar Sathya Sai Baba e da leitura de livros espirituais e esotéricos que em essência expressam a mesma verdade de formas diversas.

Em julho de 2004, o autor e sua esposa foram ao Paraná, em viagem de férias. Certa manhã em Curitiba ele disse a ela: "Vou te proporcionar uma experiência divina". E começou a discorrer sobre verdade espirituais. Quando a verdade é assimilada pela consciência esta se desperta.

Em seguida ela perdeu os sentidos e adormeceu. Então ela abriu os olhos, sentou-se e disse: "Está tudo azul". E ao olhar para ele percebeu que dele emanava uma aura dourada. Sua percepção consciencial estava desperta!

Nesta primeira experiência divina, o autor literalmente levou sua esposa a uma dimensão celestial da realidade, que poderia ser descrita como sendo o céu e fez-se visível nessa dimensão a fim de que ela se sentisse segura e pudesse desfrutar sua vivência. Então ela viu diante de si uma cascata de águas cristalinas e a tocou, sentiu sua temperatura e disse: é frio!

Em seguida ela viu um rio que fluia dessa fonte divina e na outra margem do rio viu Deus em forma de Luz, sentiu Sua Presença e realidades divinas e exclamou: "É deus!". Então olhou para o rio e a imagem que estava refletida nele não era sua imagem física, mas sim a da própria divindade que estava na outra margem!

Esta visão revelou a ela sua natureza e identidade real, reflexo perfeito da divindade.

Ao final dessa primeira experiência consciencial o autor intuiu que deveria tocar no violão a música harpejada que se ouvia de fundo ao longo da experiência. E com essa música ela se despertou. A partir de então essa música e outros métodos tem sido usados pelo autor para despertar a percepção consciencial das pessoas a fim de fazê-las perceber quem realmente são e, que podem realizar conquistas de grande valor.

Enfim, um ser desperto age usando o corpo e a mente, mas mantém a consciência de que está desempenhando um papel no teatro cósmico divino. É sempre um observador de seu próprio personagem em ação. Percebe o corpo, o fluxo dos pensamentos na mente, mas não se identifica com eles. Assim pode eliminar maus pensamentos da mente e más emoções. Desta forma torna-se senhor de si mesmo e passa a agir com consciência do que faz, colocando-se em sintonia com sua natureza divina. Sua vida passa então a refletir plenamente e em todos os sentidos esse nível de percepção da realidade.

Essas são as bases para um efetivo e real despertar consciencial.


segunda-feira, outubro 24, 2016

O Buda interior


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"Reverenciada seja a Perfeição da Sabedoria, o Adorável, o Sagrado!

Avalokita, o Senhor Sagrado e Bodhisatva,  moveu-se nos cursos profundos da sabedoria, rumo ao mundo-além.

Daquelas alturas, Ele olhou para baixo e viu cinco agregados.

E Ele viu que, em si próprios, os agregados eram vazios."

(Sutra do Coração)



- Osho -


Eu saúdo o seu Buda interior. Você pode não estar ciente, você pode até mesmo jamais ter sonhado com isso – que você é um Buda, e que ninguém pode ser outra coisa a não ser isso. A natureza búdica (o estado de Buda) é o núcleo essencial do seu ser, e isso não é algo para advir no futuro, mas algo que já aconteceu. É a tua própria fonte. É a origem e é também o objetivo. É a partir de nossa natureza búdica que todos nós nos movemos, e é também para ela que todos nós rumamos. Essa única palavra “natureza búdica” contém tudo – o ciclo completo da vida, do alfa ao ômega.

Mas você está dormindo, você não sabe quem você é. Não que você tenha que se tornar um Buda, mas apenas reconhecer que Ele habita em ti, reconhecer a necessidade se voltar para a sua própria origem. A fim de fazer isso você terá de olhar para dentro de si mesmo. Uma confrontação consigo mesmo irá revelar a sua natureza búdica. O dia vem quando você vê a si mesmo, e quando a existência inteira se torna iluminada. Não é que uma pessoa se torne iluminada – como pode uma pessoa se iluminar? A própria ideia ou pensamento de ser uma pessoa faz parte da mente não iluminada. Não é que eu tenha me tornado iluminado. O “eu” precisa ser descartado antes que se possa conseguir a iluminação. Assim, como poderia eu ter atingido a iluminação? Parece absurdo. No dia em que me tornei iluminado, toda a existência tornou-se iluminada. Desde aquele instante jamais pude ver outra coisa a não ser Budas – nas mais variadas formas, com milhares de nomes distintos, às vezes com mil e um problemas, mas ainda assim todos Budas.

Assim, eu saúdo o seu Buda interior. 

Sinto-me imensamente feliz e satisfeito de ver tantos Budas reunidos aqui. O próprio fato de suas vindas até mim significa o início do reconhecimento. O respeito e o amor em seu coração por mim significam o respeito e o amor para com a sua própria natureza búdica. Confiar em mim não significa confiar em alguma coisa extrínseca a você, a confiança em mim significa a confiança em seu próprio ser. Ao confiar em mim, você vai aprender a confiar em si mesmo. Ao se aproximar de mim, você estará se aproximando de si mesmo. Apenas um reconhecimento necessita ser alcançado. O diamante está aí – você apenas deve ter se esquecido, ou talvez você não tenha se lembrado desde o início. 

Existe um famoso ditado de Emerson: “O homem é Deus em ruínas”. Eu concordo e eu discordo. Esse insight comporta uma dose da verdade – o homem não é o que ele deveria ser. Esse insight está um pouco desordenado, de pernas para o ar. O homem não é Deus em ruínas, o homem é Deus sendo edificado. O homem é um Buda germinando e desabrochando. O botão está ali, ele pode florescer a qualquer momento: apenas uma porção de esforço, um pouco de ajuda... E não será a ajuda que irá causar o fenômeno – ele já está lá! O seu esforço irá apenas revelá-lo a você, ajudando-o a descobrir aquilo que já está lá, oculto. A verdade é eterna.

Ouça com atenção estes sutras porque eles são os mais importantes escritos dentre toda a grande literatura Budista.

Mas eu gostaria começar a partir do verdadeiro ponto inicial. Para entendermos este sutra, é necessário que comecemos corretamente. Apenas usando o correto ponto de partida é que os ensinos do Budismo nos serão proveitosos: estabeleça desde já em seu coração o fato de que você é um Buda. Eu sei que isso pode parecer presunçoso, pode parecer ser bastante teórico e hipotético; você ainda não pode confiar nisso totalmente. Isso é natural, eu compreendo. Apenas permita que a compreensão deste fato esteja aí como uma semente. Em torno desse fato muitas coisas vão começar a acontecer, e somente em torno deste fato é que você será capaz de compreender este sutra. Este sutra é imensamente poderoso – ele bastante pequeno, condensado, da mesma forma que uma semente. Mas se houver o solo apropriado, ou seja, se houver na sua mente o fato exato de que você é um Buda – de que você é um Buda desabrochando, de que você é potencialmente capaz de tornar-se um – e de que nada está faltando, de que tudo está absolutamente pronto, então tudo o que será necessário é colocar as coisas na ordem correta; apenas um pouco mais de estado de alerta se fará necessário, apenas um pouco mais de consciência se fará necessário... O tesouro já está aí; você tem de trazer uma pequena lâmpada para dentro de sua casa. Uma vez que a escuridão desapareça, você não será mais um mendigo, você vai ser um Buda, você será um soberano, um imperador. Este reino inteiro já é seu, tudo é somente uma questão de pedir; você apenas tem de reivindicá-lo.

Mas você nunca será capaz de reivindicá-lo se acreditar é um mendigo. Você não será capaz de protestar por ele; você não será sequer capaz de sonhar com a possibilidade reclamá-lo para si enquanto estiver acreditando que é um mendigo. Essa ideia de que você é um mendigo, de que você é ignorante e pecador, tem sido tão amplamente proclamada em cima de todos os púlpitos ao longo das eras, que isso se tornou uma hipnose profunda em você. Esta hipnose tem de ser quebrada. Para quebrá-la eu começo com: Eu saúdo o Buda em seu interior.

Para mim todos vocês são Budas. Todos os seus esforços a fim de se iluminarem serão ridículos se vocês não forem capazes de aceitar esse fato básico. Isso tem de estar o tempo todo subentendido, é necessário que se torne um entendimento implícito – que você é um Buda!  Esse é o ponto de partida correto a ser adotado, do contrário você se extraviará. Esse é o começo certo! Parta dessa visão e não fique preocupado que isso possa criar algum tipo de ego – o de que “eu sou um Buda”. Não se preocupe, porque todo o processo do Sutra do Coração vai deixar claro para você que o ego é a única coisa que não existe – a única coisa que não existe! Tudo o mais é real. 

Neste mundo existiram sábios que disseram que o mundo é ilusório e que a alma é existencial – o “eu” é verdadeiro ao passo que todo o restante é ilusório, maya. Buda diz exatamente o adverso: ele diz que apenas o “eu” é irreal, tudo o mais é real. E eu concordo com Buda mais do que com qualquer outro ponto de vista. A percepção de Buda é muito penetrante, é a mais aguda e intensa. Ninguém jamais penetrou esses reinos, profundidades e alturas da realidade.

Mas parta dessa visão, comece com essa ideia e ela criará um clima em torno de você. Deixe-a ser declarada a todas as células de seu corpo e a cada pensamento de sua mente; deixe que isso seja declarado em todos os cantos e recantos de sua existência: “EU SOU UM BUDA!”. E não se preocupe com o “eu”. Nós daremos conta dele.

O estado de buda e o “eu” não podem existir ao mesmo tempo. Quando o estado de buda se revela o “eu” desaparece, assim como a escuridão desaparece quando você se aproxima com a luz.

(...)

Este sutra pode ocasionar uma revolução em você.

A primeira coisa a se fazer é iniciar com a pergunta: “Quem sou eu?”. E prossiga indagando. Não pare de investigar. Muitas respostas virão, a mente dirá: “Você é um corpo! Que absurdo! Não há necessidade de perguntar, você já sabe disso”, ou até mesmo “você é a alma, o espírito, a consciência suprema”... Lembre-se, você deve parar apenas quando nenhuma resposta estiver vindo, jamais antes. Enquanto vir alguma resposta dizendo “você é isso, você é aquilo”, saiba bem que a mente o está suprindo com respostas. Quando você chegar ao ponto de indagar “Quem sou eu?” e nenhuma resposta estiver vindo de qualquer lugar, então há silêncio absoluto. A sua pergunta ressoa em si mesmo: “Quem sou eu?”, e há um silêncio e nenhuma resposta surge de lugar algum. Você está absolutamente presente, absolutamente silencioso, e não há sequer uma única vibração. “Quem sou Eu?” – e apenas o silêncio. Então um milagre acontece: de repente você não pode sequer formular a pergunta. A pergunta final tornou-se absurda. As respostas  tornaram-se absurdas e por isso as perguntas também se tornam absurdas. Primeiro desaparecem as respostas e depois desaparecem as perguntas – porque uma somente pode existir ao mesmo tempo que a outra. Elas são como os dois lados de uma moeda – se um lado for retirado o outro não pode ser mantido. Primeiro as respostas desaparecem, depois desaparecem as perguntas. E com o desaparecimento da pergunta e da resposta, você chega à realização: você é transcendental! Então você sabe, e no entanto você não pode dizer; você sabe, mas não consegue articular sobre isso. A partir de seu próprio ser você sabe Quem você é, mas isso não pode ser verbalizado. E esse conhecimento é vívido, existencial; não se trata de um conhecimento emprestado retirado das escrituras. É um conhecimento seu, e não dos outros. Ele surgiu em você.

E com esse surgimento, você é um Buda. Então você começa a rir, porque você veio a saber que você tem sido um Buda desde o princípio de todos os tempos; você apenas não tinha notado esse fato tão profundamente. Você esteve correndo em voltas, para lá e para cá, do lado de fora de seu ser. Mas agora você está em casa.

(...)

Reverenciada seja a Perfeição da Sabedoria, O Adorável, o Sagrado!
Avalokita, o Senhor Sagrado e Bodhisatva, moveu-se nos cursos profundos da sabedoria, para o mundo-além.
Daquelas alturas, Ele olhou para baixo e viu cinco agregados.
E Ele viu que em si próprios, os agregados eram vazios.

Quando você olha daquelas alturas, a partir daquele referencial... Por exemplo, eu disse que estava saudando o seu Buda interior. Essa visão ocorre daquele referencial: essa de que eu vejo todos vocês como Budas. E a outra visão é a de que vocês são apenas cascos vazios. 

Aquilo que você pensa que é nada mais é do que uma couraça vazia. Uma pessoa pensa que é um homem, isso nada mais é do que uma ideia vazia. A Consciência não é masculina nem feminina. Outra pessoa pensa ter um corpo extremamente belo, ela é bonita, forte, isso e aquilo – tudo isso são ideias vazias, todas elas são o ego te enganando. Uma pessoa pensa que conhece/sabe o bastante – algo totalmente insignificante. O  mecanismo dela apenas tem acumulado memória e ela está sendo enganada por suas próprias memórias. Todas essas coisas são vazias.

Assim, quando vejo do ponto de vista transcendental, vejo todos vocês como Budas; por outro lado, eu os vejo como couraças vazias.

Buda disse que a existência do homem consiste na acumulação de cinco elementos, de cinco skandhas (amontoados/agregados), todos eles vazios. E devido à combinação dos cinco, surge um subproduto chamado ego, o self. É exatamente como o funcionamento de um relógio-tique-taque. Você sabe que o tique-taque está vindo dali. Você pode abrir o relógio e separar todas as partes na tentativa de descobrir de onde exatamente está vindo o ruído. Mas você não conseguirá encontrá-lo em lugar algum. O som do tique-taque é um subproduto que surge da combinação de algumas peças. Umas poucas peças funcionando juntas estavam produzindo o ruído.

O seu “eu” nada mais é que isso: cinco elementos combinados e funcionando juntos, produzindo o ruído chamado “eu”. Mas esse “eu” é vazio, não existe nada nele. Tente encontrar ali qualquer coisa substancial e você não conseguirá. 

Essa é uma das percepções mais profundas de Buda: que a vida é vazia – esta vida como a conhecemos é vazia. Mas a vida é plena também, mas nós não sabemos nada sobre isso. A partir deste vazio você tem de se mover em direção a uma plenitude, mas essa plenitude é inconcebível para você neste momento – porque do atual referencial em que você se encontra, essa plenitude parecerá ser vazia. A partir de onde você está olhando, a plenitude parece ser um vazio – um rei parecerá ser um mendigo, um homem de conhecimento e sabedoria parecerá ser tolo e ignorante. 

Uma pequena história:

Certa vez um homem santo aceitou um discípulo, e disse-lhe: “Seria muito bom se você pudesse escrever registrando tudo o que você entende sobre a vida religiosa e sobre o que trouxe você à ela.”

O discípulo foi embora e começou a escrever. Um ano depois ele voltou ao mestre e disse: “Eu trabalhei muito duro nisso, e aqui estão as principais razões da minha busca.”

O mestre leu os registros, que comportavam milhares de palavras, e então disse ao jovem aluno: “seu trabalho está admiravelmente embasado e fundamentado, mas está um pouco longo demais. Tente diminuir um pouco.” Assim, o novato foi embora e depois de cinco anos voltou com apenas cem páginas.

O mestre sorriu e, depois de ter lido os papeis, disse: “Agora você está realmente se aproximando do centro da questão. Seus pensamentos têm clareza e força, mas ainda está um pouco longo... tente reduzir mais.”

O novato foi embora triste, pois ele tinha trabalhado duro para alcançar a essência. Mas depois de dez anos ele voltou e, curvando-se perante o mestre, ofereceu-lhe apenas cinco páginas, e disse: “Esse é o núcleo da minha fé, o âmago da minha vida, e peço sua bênçãos por ter me conduzido até ele.”

O mestre leu bem devagar e com cuidado: “É realmente maravilhoso”, disse ele, “toda essa simplicidade e beleza... mas ainda não está perfeito. Tente chegar a uma clarificação final." 

E quando o mestre tinha chegado aos seus últimos tempos e estava se preparando para o seu fim, seu aluno veio a ele novamente e, de joelhos dobrados diante dele para receber suas bênçãos, entregou-lhe uma folha de papel em que nada estava escrito.

Em seguida o mestre colocou as mãos sobre a cabeça de seu amigo e disse: “Agora... agora você entendeu.”

Se você está imerso no referencial mundano, ao tentar compreender o transcendental, ele terá uma aparência de NADA para você. E se você estiver imerso no referencial transcendental, ao olhar para o mundano, ele também terá a MESMA aparência de nada para você. Olhando daqui onde estou, tudo o que você tem é vazio; e olhando a partir do lugar onde você está, o que eu tenho é vazio, nada.

Buda parece vazio – apenas o puro nada – para você. Por causa de suas ideias, por causa de seus apegos, por causa de sua possessividade sobre as coisas, Buda parece vazio. Buda é pleno, completo: você é vazio. E a visão dele é absoluta, e sua visão é apenas relativa. 

O Sutra diz:

Reverenciada seja a Perfeição da Sabedoria, O Adorável, o Sagrado!
Avalokita, o Senhor Sagrado e Bodhisatva, moveu-se nos cursos profundos da sabedoria, para o mundo-além.
Daquelas alturas, Ele olhou para baixo e viu cinco agregados.
E Ele viu que em si próprios, os agregados eram vazios.

O vazio é a chave do Budismo – shunyata. Medite sobre este sutra – medite com amor, com simpatia, não com a lógica e a razão. Se você lidar com este sutra com a lógica e a razão, acabará por matar o seu espírito.  Não raciocine, e não tente dissecá-lo. Tente compreender os sutras como eles são, e não traga a sua mente – sua mente será uma interferência.

Se você puder lidar com este sutra sem a interferência da mente, uma grande claridade ocorrerá a você.

Osho - The Heart Sutra