"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sexta-feira, outubro 28, 2016

O despertar da Percepção Consciencial



Senhor,

Do irreal conduz-nos ao Real,
das trevas conduz-nos à Luz
e da morte, à imortalidade.

Paz para o nosso corpo,
paz para a nossa mente e
paz para o nosso espírito.

Este texto se compõe de duas partes.

A primeira parte expõe a teoria que fundamenta o desenvolvimento da "percepção consciencial" que conduz a um mergulho em nosso Ser Real, produzindo o chamado "despertar consciencial". Nela estão expostos conceitos espirituais sobre a divindade amplamente difundidos e aceitos tanto no Ocidente quanto no Oriente com as reflexões que eles nos suscitam.

A segunda parte dá ênfase à prática decorrente da aplicação dos conceitos e princípios expostos sobre o processo do "despertar consciencial". Nela há relatos das "experiências conscienciais" que consistem em vivências pessoais e diretas com a divindade e as profundas transformações que resultam dessa convivência.


O DESPERTAR CONSCIENCIAL

As Sagradas Escrituras definem Deus como o Ser onipotente e onipresente. Onipresente significa que está presente em tudo, inclusive em nós. Mas, quem tem percebido a Presença Divina em si mesmo? E por que a maioria das pessoas não percebe essa Presença?

Afirmar que Deus é onipresente é algo aceitável, mas, vivenciar essa realidade é uma experiência que transforma plenamente nossa visão da vida e do que somos!

Sendo Deus onipresente, qual nossa identidade? Quem ou o quê somos?

Os livros espirituais da Índia definem Deus como sendo: Sat (Ser/Verdade), Chit (Consciência/Alegria) e Ananda (Bem-Aventurança).

Estes livros revelam também que Deus é onipresente e que o homem é a divindade que assumiu um corpo para desempenhar um papel num cenário criado pela própria divindade. E ao fazê-lo se esqueceu de Sua real identidade.

Esse esquecimento acontece porque o homem se torna vítima da ilusão criada pelos sentidos da mente do personagem que assumiu e que o faz acreditar ser esta realidade apreendida, pela mente, a única existente. Essa percepção mental da realidade faz com que a representação divina se torne realística e por vezes dramática. Contudo, se nossa real identidade é a divindade, podemos readquirir a consciência do que somos. Essa "recordação" se torna possível com o conhecimento da verdade sobre nossa real identidade. É preciso uma percepção da realidade pela consciência do Ser e não pela mente do personagem.

O processo do despertar se inicia com a distinção entre mente e consciência. A mente é apenas um instrumento do Ser real, enquanto a consciência integra e compõe sua natureza divina.

Portanto, há duas formas de percepção da realidade: Uma é realizada pela mente do personagem: a percepção mental. A outra é feita pela consciência do Ser. Por esta razão foi denominada "percepção consciencial".

A percepção mental da realidade é a condição padrão do ser humano, enquanto que a percepção consciencial é fruto de um despertar sobre nossa identidade real, sobre a realidade da essência e natureza divinas do ser humano.

A mente está ligada à matéria, aos cinco sentidos de percepção, pelos quais são captadas informações do mundo exterior. O processamento das informações resulta na concepção mental que fazemos da realidade. Nossa visão de mundo é assim a interpretação de dados captados pelos cinco sentidos e das inferências realizadas no âmbito mental.

Vivemos o universo do personagem que criamos e o identificamos como sendo nós mesmos! Essa identificação com o personagem que criamos é uma deturpada concepção sobre nossa real identidade, o maior equívoco e fator limitador da maioria dos seres humanos.

Para podemos vivenciar a natureza divina do Ser, que é nossa essência, precisamos nos abstrair da percepção mental da realidade. Isso ocorre no instante em que nos dissociamos do personagem que estamos vivendo e recriando cotidianamente. O foco de nossa consciência em seu estado normal está centrado na percepção da realidade pela mente do personagem. Isso nos causa um sentido de identificação como sendo a mente e o corpo nosso "eu" ou identidade real.

Contudo, mente e corpo são ambos instrumentos do que realmente somos. Quando nos interiorizamos, nossa consciência nos revela um nível de percepção supra-mental pelo qual percebemos quem somos e quem estamos sendo. Em níveis profundos de percepção consciencial podemos sentir que somos o Ser real, eterno, a consciência, que observa o que estamos sendo, um personagem, evanescente, a mente.

A mente se dirige ao exterior, aparente. Julga e reage ao que interpreta como sendo real. A inquietação é sua característica. A consciência apreende o interior, o real. Apenas observa e permanece equânime. A serenidade é sua natureza.

Estes são passos essenciais para o despertar da percepção consciencial. Eles fazem a consciência dissociar-se ou desfocalizar-se da mente, causando uma percepção distinta entre aquilo que está sendo percebido pela mente e a percepção da consciência, que observa a mente.

O despertar da consciência, que tem natureza espiritual, nos faculta a transcender a realidade aparente, vislumbrada pela mente, nos proporcionando uma percepção consciencial da realidade e o acesso à dimensões espirituais, não físicas, através de portais existentes entre elas e nos capacita vivenciá-las concretamente, tanto quanto vivenciamos a dimensão física.

Jesus disse: "Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse eu vo-lo teria dito." - João 14,2.


AS EXPERIÊNCIA CONSCIENCIAIS

O despertar da percepção consciencial desvela um vasto universo interior, a dimensão na qual se constata a onipresença da divindade.

Com a intenção de revelar a sua esposa a realidade do que somos e conduzi-la da teoria à prática, o autor começou a demonstrar-lhe essa Presença Divina, a princípio em si mesmo, revelando a ela sua dimensão essencial, a de um ser que despertou sua "percepção consciencial", passando então a proporcionar-lhe experiência extraordinárias, que a levaram a ter contatos pessoais e conscientes com a própria divindade.

Estes contatos são em si experiências de percepções da consciência sobre a realidade do que somos e foram denominados pelo autor, por essa razão, "experiências conscienciais". Relatos de algumas experiências conscienciais proporcionadas pelo autor a sua esposa estão registradas em vídeo.

São relatos de fatos que revelam a realidade da "percepção consciencial", própria da condição humana. Estas experiências podem ser experimentadas por todos a fim de que percebam que Deus está efetivamente em nós.

O despertar da percepção consciencial do autor ocorreu como resultado de vivências na Índia com o avatar Sathya Sai Baba e da leitura de livros espirituais e esotéricos que em essência expressam a mesma verdade de formas diversas.

Em julho de 2004, o autor e sua esposa foram ao Paraná, em viagem de férias. Certa manhã em Curitiba ele disse a ela: "Vou te proporcionar uma experiência divina". E começou a discorrer sobre verdade espirituais. Quando a verdade é assimilada pela consciência esta se desperta.

Em seguida ela perdeu os sentidos e adormeceu. Então ela abriu os olhos, sentou-se e disse: "Está tudo azul". E ao olhar para ele percebeu que dele emanava uma aura dourada. Sua percepção consciencial estava desperta!

Nesta primeira experiência divina, o autor literalmente levou sua esposa a uma dimensão celestial da realidade, que poderia ser descrita como sendo o céu e fez-se visível nessa dimensão a fim de que ela se sentisse segura e pudesse desfrutar sua vivência. Então ela viu diante de si uma cascata de águas cristalinas e a tocou, sentiu sua temperatura e disse: é frio!

Em seguida ela viu um rio que fluia dessa fonte divina e na outra margem do rio viu Deus em forma de Luz, sentiu Sua Presença e realidades divinas e exclamou: "É deus!". Então olhou para o rio e a imagem que estava refletida nele não era sua imagem física, mas sim a da própria divindade que estava na outra margem!

Esta visão revelou a ela sua natureza e identidade real, reflexo perfeito da divindade.

Ao final dessa primeira experiência consciencial o autor intuiu que deveria tocar no violão a música harpejada que se ouvia de fundo ao longo da experiência. E com essa música ela se despertou. A partir de então essa música e outros métodos tem sido usados pelo autor para despertar a percepção consciencial das pessoas a fim de fazê-las perceber quem realmente são e, que podem realizar conquistas de grande valor.

Enfim, um ser desperto age usando o corpo e a mente, mas mantém a consciência de que está desempenhando um papel no teatro cósmico divino. É sempre um observador de seu próprio personagem em ação. Percebe o corpo, o fluxo dos pensamentos na mente, mas não se identifica com eles. Assim pode eliminar maus pensamentos da mente e más emoções. Desta forma torna-se senhor de si mesmo e passa a agir com consciência do que faz, colocando-se em sintonia com sua natureza divina. Sua vida passa então a refletir plenamente e em todos os sentidos esse nível de percepção da realidade.

Essas são as bases para um efetivo e real despertar consciencial.


segunda-feira, outubro 24, 2016

O Buda interior


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"Reverenciada seja a Perfeição da Sabedoria, o Adorável, o Sagrado!

Avalokita, o Senhor Sagrado e Bodhisatva,  moveu-se nos cursos profundos da sabedoria, rumo ao mundo-além.

Daquelas alturas, Ele olhou para baixo e viu cinco agregados.

E Ele viu que, em si próprios, os agregados eram vazios."

(Sutra do Coração)



- Osho -


Eu saúdo o seu Buda interior. Você pode não estar ciente, você pode até mesmo jamais ter sonhado com isso – que você é um Buda, e que ninguém pode ser outra coisa a não ser isso. A natureza búdica (o estado de Buda) é o núcleo essencial do seu ser, e isso não é algo para advir no futuro, mas algo que já aconteceu. É a tua própria fonte. É a origem e é também o objetivo. É a partir de nossa natureza búdica que todos nós nos movemos, e é também para ela que todos nós rumamos. Essa única palavra “natureza búdica” contém tudo – o ciclo completo da vida, do alfa ao ômega.

Mas você está dormindo, você não sabe quem você é. Não que você tenha que se tornar um Buda, mas apenas reconhecer que Ele habita em ti, reconhecer a necessidade se voltar para a sua própria origem. A fim de fazer isso você terá de olhar para dentro de si mesmo. Uma confrontação consigo mesmo irá revelar a sua natureza búdica. O dia vem quando você vê a si mesmo, e quando a existência inteira se torna iluminada. Não é que uma pessoa se torne iluminada – como pode uma pessoa se iluminar? A própria ideia ou pensamento de ser uma pessoa faz parte da mente não iluminada. Não é que eu tenha me tornado iluminado. O “eu” precisa ser descartado antes que se possa conseguir a iluminação. Assim, como poderia eu ter atingido a iluminação? Parece absurdo. No dia em que me tornei iluminado, toda a existência tornou-se iluminada. Desde aquele instante jamais pude ver outra coisa a não ser Budas – nas mais variadas formas, com milhares de nomes distintos, às vezes com mil e um problemas, mas ainda assim todos Budas.

Assim, eu saúdo o seu Buda interior. 

Sinto-me imensamente feliz e satisfeito de ver tantos Budas reunidos aqui. O próprio fato de suas vindas até mim significa o início do reconhecimento. O respeito e o amor em seu coração por mim significam o respeito e o amor para com a sua própria natureza búdica. Confiar em mim não significa confiar em alguma coisa extrínseca a você, a confiança em mim significa a confiança em seu próprio ser. Ao confiar em mim, você vai aprender a confiar em si mesmo. Ao se aproximar de mim, você estará se aproximando de si mesmo. Apenas um reconhecimento necessita ser alcançado. O diamante está aí – você apenas deve ter se esquecido, ou talvez você não tenha se lembrado desde o início. 

Existe um famoso ditado de Emerson: “O homem é Deus em ruínas”. Eu concordo e eu discordo. Esse insight comporta uma dose da verdade – o homem não é o que ele deveria ser. Esse insight está um pouco desordenado, de pernas para o ar. O homem não é Deus em ruínas, o homem é Deus sendo edificado. O homem é um Buda germinando e desabrochando. O botão está ali, ele pode florescer a qualquer momento: apenas uma porção de esforço, um pouco de ajuda... E não será a ajuda que irá causar o fenômeno – ele já está lá! O seu esforço irá apenas revelá-lo a você, ajudando-o a descobrir aquilo que já está lá, oculto. A verdade é eterna.

Ouça com atenção estes sutras porque eles são os mais importantes escritos dentre toda a grande literatura Budista.

Mas eu gostaria começar a partir do verdadeiro ponto inicial. Para entendermos este sutra, é necessário que comecemos corretamente. Apenas usando o correto ponto de partida é que os ensinos do Budismo nos serão proveitosos: estabeleça desde já em seu coração o fato de que você é um Buda. Eu sei que isso pode parecer presunçoso, pode parecer ser bastante teórico e hipotético; você ainda não pode confiar nisso totalmente. Isso é natural, eu compreendo. Apenas permita que a compreensão deste fato esteja aí como uma semente. Em torno desse fato muitas coisas vão começar a acontecer, e somente em torno deste fato é que você será capaz de compreender este sutra. Este sutra é imensamente poderoso – ele bastante pequeno, condensado, da mesma forma que uma semente. Mas se houver o solo apropriado, ou seja, se houver na sua mente o fato exato de que você é um Buda – de que você é um Buda desabrochando, de que você é potencialmente capaz de tornar-se um – e de que nada está faltando, de que tudo está absolutamente pronto, então tudo o que será necessário é colocar as coisas na ordem correta; apenas um pouco mais de estado de alerta se fará necessário, apenas um pouco mais de consciência se fará necessário... O tesouro já está aí; você tem de trazer uma pequena lâmpada para dentro de sua casa. Uma vez que a escuridão desapareça, você não será mais um mendigo, você vai ser um Buda, você será um soberano, um imperador. Este reino inteiro já é seu, tudo é somente uma questão de pedir; você apenas tem de reivindicá-lo.

Mas você nunca será capaz de reivindicá-lo se acreditar é um mendigo. Você não será capaz de protestar por ele; você não será sequer capaz de sonhar com a possibilidade reclamá-lo para si enquanto estiver acreditando que é um mendigo. Essa ideia de que você é um mendigo, de que você é ignorante e pecador, tem sido tão amplamente proclamada em cima de todos os púlpitos ao longo das eras, que isso se tornou uma hipnose profunda em você. Esta hipnose tem de ser quebrada. Para quebrá-la eu começo com: Eu saúdo o Buda em seu interior.

Para mim todos vocês são Budas. Todos os seus esforços a fim de se iluminarem serão ridículos se vocês não forem capazes de aceitar esse fato básico. Isso tem de estar o tempo todo subentendido, é necessário que se torne um entendimento implícito – que você é um Buda!  Esse é o ponto de partida correto a ser adotado, do contrário você se extraviará. Esse é o começo certo! Parta dessa visão e não fique preocupado que isso possa criar algum tipo de ego – o de que “eu sou um Buda”. Não se preocupe, porque todo o processo do Sutra do Coração vai deixar claro para você que o ego é a única coisa que não existe – a única coisa que não existe! Tudo o mais é real. 

Neste mundo existiram sábios que disseram que o mundo é ilusório e que a alma é existencial – o “eu” é verdadeiro ao passo que todo o restante é ilusório, maya. Buda diz exatamente o adverso: ele diz que apenas o “eu” é irreal, tudo o mais é real. E eu concordo com Buda mais do que com qualquer outro ponto de vista. A percepção de Buda é muito penetrante, é a mais aguda e intensa. Ninguém jamais penetrou esses reinos, profundidades e alturas da realidade.

Mas parta dessa visão, comece com essa ideia e ela criará um clima em torno de você. Deixe-a ser declarada a todas as células de seu corpo e a cada pensamento de sua mente; deixe que isso seja declarado em todos os cantos e recantos de sua existência: “EU SOU UM BUDA!”. E não se preocupe com o “eu”. Nós daremos conta dele.

O estado de buda e o “eu” não podem existir ao mesmo tempo. Quando o estado de buda se revela o “eu” desaparece, assim como a escuridão desaparece quando você se aproxima com a luz.

(...)

Este sutra pode ocasionar uma revolução em você.

A primeira coisa a se fazer é iniciar com a pergunta: “Quem sou eu?”. E prossiga indagando. Não pare de investigar. Muitas respostas virão, a mente dirá: “Você é um corpo! Que absurdo! Não há necessidade de perguntar, você já sabe disso”, ou até mesmo “você é a alma, o espírito, a consciência suprema”... Lembre-se, você deve parar apenas quando nenhuma resposta estiver vindo, jamais antes. Enquanto vir alguma resposta dizendo “você é isso, você é aquilo”, saiba bem que a mente o está suprindo com respostas. Quando você chegar ao ponto de indagar “Quem sou eu?” e nenhuma resposta estiver vindo de qualquer lugar, então há silêncio absoluto. A sua pergunta ressoa em si mesmo: “Quem sou eu?”, e há um silêncio e nenhuma resposta surge de lugar algum. Você está absolutamente presente, absolutamente silencioso, e não há sequer uma única vibração. “Quem sou Eu?” – e apenas o silêncio. Então um milagre acontece: de repente você não pode sequer formular a pergunta. A pergunta final tornou-se absurda. As respostas  tornaram-se absurdas e por isso as perguntas também se tornam absurdas. Primeiro desaparecem as respostas e depois desaparecem as perguntas – porque uma somente pode existir ao mesmo tempo que a outra. Elas são como os dois lados de uma moeda – se um lado for retirado o outro não pode ser mantido. Primeiro as respostas desaparecem, depois desaparecem as perguntas. E com o desaparecimento da pergunta e da resposta, você chega à realização: você é transcendental! Então você sabe, e no entanto você não pode dizer; você sabe, mas não consegue articular sobre isso. A partir de seu próprio ser você sabe Quem você é, mas isso não pode ser verbalizado. E esse conhecimento é vívido, existencial; não se trata de um conhecimento emprestado retirado das escrituras. É um conhecimento seu, e não dos outros. Ele surgiu em você.

E com esse surgimento, você é um Buda. Então você começa a rir, porque você veio a saber que você tem sido um Buda desde o princípio de todos os tempos; você apenas não tinha notado esse fato tão profundamente. Você esteve correndo em voltas, para lá e para cá, do lado de fora de seu ser. Mas agora você está em casa.

(...)

Reverenciada seja a Perfeição da Sabedoria, O Adorável, o Sagrado!
Avalokita, o Senhor Sagrado e Bodhisatva, moveu-se nos cursos profundos da sabedoria, para o mundo-além.
Daquelas alturas, Ele olhou para baixo e viu cinco agregados.
E Ele viu que em si próprios, os agregados eram vazios.

Quando você olha daquelas alturas, a partir daquele referencial... Por exemplo, eu disse que estava saudando o seu Buda interior. Essa visão ocorre daquele referencial: essa de que eu vejo todos vocês como Budas. E a outra visão é a de que vocês são apenas cascos vazios. 

Aquilo que você pensa que é nada mais é do que uma couraça vazia. Uma pessoa pensa que é um homem, isso nada mais é do que uma ideia vazia. A Consciência não é masculina nem feminina. Outra pessoa pensa ter um corpo extremamente belo, ela é bonita, forte, isso e aquilo – tudo isso são ideias vazias, todas elas são o ego te enganando. Uma pessoa pensa que conhece/sabe o bastante – algo totalmente insignificante. O  mecanismo dela apenas tem acumulado memória e ela está sendo enganada por suas próprias memórias. Todas essas coisas são vazias.

Assim, quando vejo do ponto de vista transcendental, vejo todos vocês como Budas; por outro lado, eu os vejo como couraças vazias.

Buda disse que a existência do homem consiste na acumulação de cinco elementos, de cinco skandhas (amontoados/agregados), todos eles vazios. E devido à combinação dos cinco, surge um subproduto chamado ego, o self. É exatamente como o funcionamento de um relógio-tique-taque. Você sabe que o tique-taque está vindo dali. Você pode abrir o relógio e separar todas as partes na tentativa de descobrir de onde exatamente está vindo o ruído. Mas você não conseguirá encontrá-lo em lugar algum. O som do tique-taque é um subproduto que surge da combinação de algumas peças. Umas poucas peças funcionando juntas estavam produzindo o ruído.

O seu “eu” nada mais é que isso: cinco elementos combinados e funcionando juntos, produzindo o ruído chamado “eu”. Mas esse “eu” é vazio, não existe nada nele. Tente encontrar ali qualquer coisa substancial e você não conseguirá. 

Essa é uma das percepções mais profundas de Buda: que a vida é vazia – esta vida como a conhecemos é vazia. Mas a vida é plena também, mas nós não sabemos nada sobre isso. A partir deste vazio você tem de se mover em direção a uma plenitude, mas essa plenitude é inconcebível para você neste momento – porque do atual referencial em que você se encontra, essa plenitude parecerá ser vazia. A partir de onde você está olhando, a plenitude parece ser um vazio – um rei parecerá ser um mendigo, um homem de conhecimento e sabedoria parecerá ser tolo e ignorante. 

Uma pequena história:

Certa vez um homem santo aceitou um discípulo, e disse-lhe: “Seria muito bom se você pudesse escrever registrando tudo o que você entende sobre a vida religiosa e sobre o que trouxe você à ela.”

O discípulo foi embora e começou a escrever. Um ano depois ele voltou ao mestre e disse: “Eu trabalhei muito duro nisso, e aqui estão as principais razões da minha busca.”

O mestre leu os registros, que comportavam milhares de palavras, e então disse ao jovem aluno: “seu trabalho está admiravelmente embasado e fundamentado, mas está um pouco longo demais. Tente diminuir um pouco.” Assim, o novato foi embora e depois de cinco anos voltou com apenas cem páginas.

O mestre sorriu e, depois de ter lido os papeis, disse: “Agora você está realmente se aproximando do centro da questão. Seus pensamentos têm clareza e força, mas ainda está um pouco longo... tente reduzir mais.”

O novato foi embora triste, pois ele tinha trabalhado duro para alcançar a essência. Mas depois de dez anos ele voltou e, curvando-se perante o mestre, ofereceu-lhe apenas cinco páginas, e disse: “Esse é o núcleo da minha fé, o âmago da minha vida, e peço sua bênçãos por ter me conduzido até ele.”

O mestre leu bem devagar e com cuidado: “É realmente maravilhoso”, disse ele, “toda essa simplicidade e beleza... mas ainda não está perfeito. Tente chegar a uma clarificação final." 

E quando o mestre tinha chegado aos seus últimos tempos e estava se preparando para o seu fim, seu aluno veio a ele novamente e, de joelhos dobrados diante dele para receber suas bênçãos, entregou-lhe uma folha de papel em que nada estava escrito.

Em seguida o mestre colocou as mãos sobre a cabeça de seu amigo e disse: “Agora... agora você entendeu.”

Se você está imerso no referencial mundano, ao tentar compreender o transcendental, ele terá uma aparência de NADA para você. E se você estiver imerso no referencial transcendental, ao olhar para o mundano, ele também terá a MESMA aparência de nada para você. Olhando daqui onde estou, tudo o que você tem é vazio; e olhando a partir do lugar onde você está, o que eu tenho é vazio, nada.

Buda parece vazio – apenas o puro nada – para você. Por causa de suas ideias, por causa de seus apegos, por causa de sua possessividade sobre as coisas, Buda parece vazio. Buda é pleno, completo: você é vazio. E a visão dele é absoluta, e sua visão é apenas relativa. 

O Sutra diz:

Reverenciada seja a Perfeição da Sabedoria, O Adorável, o Sagrado!
Avalokita, o Senhor Sagrado e Bodhisatva, moveu-se nos cursos profundos da sabedoria, para o mundo-além.
Daquelas alturas, Ele olhou para baixo e viu cinco agregados.
E Ele viu que em si próprios, os agregados eram vazios.

O vazio é a chave do Budismo – shunyata. Medite sobre este sutra – medite com amor, com simpatia, não com a lógica e a razão. Se você lidar com este sutra com a lógica e a razão, acabará por matar o seu espírito.  Não raciocine, e não tente dissecá-lo. Tente compreender os sutras como eles são, e não traga a sua mente – sua mente será uma interferência.

Se você puder lidar com este sutra sem a interferência da mente, uma grande claridade ocorrerá a você.

Osho - The Heart Sutra


quinta-feira, outubro 20, 2016

Autoconhecimento



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"O autoconhecimento é uma contradição em termos. Quando ele realmente acontece, não há eu nem há conhecimento. Se o eu estiver ali, ele não pode acontecer. Se o conhecimento estiver ali, ele não aconteceu. Para isso, algumas preliminares têm de ser entendidas.

Em primeiro lugar, para que o autoconhecimento ocorra o eu não pode estar presente. Você tem de esquecer tudo relacionado ao seu ego. Precisa estar em um estado de ausência do ego.

Em segundo lugar, você tem de esquecer tudo sobre conhecimento também. Se você estiver continuamente desejando saber, esse próprio desejo vai impedi-lo de saber. A existência só se revela àqueles que não estão desejando nada, que não estão aspirando a nada - nem mesmo a conhecer Deus. Os mistérios só são revelados àqueles que simplesmente esperam, que não fazem exigências. Eles esperam com os olhos abertos, esperam com o coração aberto, mas sem exigências.

Sua exigência é basicamente orientada pelo ego. Por que você quer saber? Porque o conhecimento lhe proporciona poder. Tente entender isso. Conhecimento é poder. Quanto mais você sabe, mais poderoso se torna. O ego está sempre interessado em se tornar instruído. Se você tem conhecimentos sobre a natureza, torna-se poderoso em relação à natureza. Se você tem conhecimento sobre as pessoas, torna-se poderoso em relação às pessoas. Se você tem conhecimentos sobre sua própria mente, torna-se poderoso em relação à sua própria mente. Se você tem conhecimento sobre Deus, vai se tornar poderoso em relação a Deus. 

Bem no fundo, a busca de conhecimento é , na verdade, a busca de poder. E como você pode ser poderoso em relação à realidade? A própria ideia é ridícula. Permita que a realidade tenha poder sobre você...relaxe. E permita que a realidade tome posse de você, em vez de você tomar posse da realidade.

Para estar realmente em um estado de autoconhecimento, a pessoa tem de esquecer o eu e esquecer toda investigação relacionada ao autoconhecimento. Então, ele acontece! Só assim ele acontece.

Há três esforços em toda a história da consciência humana no que se refere ao autoconhecimento.

O primeiro esforço é o do realista. O realista nega o eu interior; ele diz que não há eu interior, não há sujeito; só o objeto existe, a coisa, a matéria, o mundo. Essa é sua maneira de evitar a jornada para dentro de si. A jornada de si é perigosa. A pessoa terá de perder tudo! O autoconhecimento e tudo o mais, as raízes e tudo o mais - a pessoa terá de perder tudo. O realista não pode correr este risco. Então ele encontra uma explicação: Ele diz: "Não há alma. Não há eu interior. Tudo o que existe no mundo são objetos." Então ele fica preocupado em conhecer os objetos. Ele esquece a subjetividade e passa a se ocupar da objetividade. É isso que a ciência vem fazendo há 300 anos. É uma maneira de fugir de si mesmo.

A segunda maneira é aquela do idealista, que diz que não há objeto; o mundo é maya, ilusão. Não há nada a conhecer lá fora; ele simplesmente fecha os olhos e vai para dentro de si. Só o conhecedor é verdadeiro - o conhecido é falso. O realista diz que apenas o conhecido é verdadeiro e o conhecedor é falso; o idealista diz que apenas o conhecedor é verdadeiro e o conhecido é falso. Veja o absurdo disso - como pode haver um conhecedor se não houver conhecido? E como pode haver um conhecido se não houver conhecedor?

Assim, o idealista e o realista está apenas escolhendo uma metade da realidade. Quanto à outra metade, eles são temerosos. O realista teme ir para dentro de si, porque ir para dentro de si significa penetrar no vazio, no total vazio. É cair em um poço sem fundo, em um abismo...imprevisível. Onde ele vai parar ninguém sabe, nem sequer se vai parar em algum lugar.

O realista teme o conhecedor e por isso o nega. Por medo ele diz que não existe: "Todo meu interesse é no conhecido, no objeto". E o idealista teme o objeto, o mundo, os encantamentos do mundo, a magia do mundo. Ele teme se perder nos desejos e nas paixões. Teme ficar envolvido em coisas - dinheiro, poder, prestígio. Tem tanto medo que diz: " Tudo é sonho. O mundo que está lá fora não é real. O mundo real é o mundo interior".

Mas ambos estão sendo meio verdadeiros.(...)

E há a terceira maneira: a maneira do místico. Ele aceita ambas e rejeita ambas. Essa é minha maneira de ser. Ele aceita ambas porque diz: "Em um plano existem os dois - o conhecedor e o conhecido, o sujeito e o objeto, o interior e o exterior. Mas no outro plano, ambos desaparecem e só um permanece - que não é nem o conhecido nem o conhecedor."

A abordagem do místico é total. (...) Em um nível ambas abordagens estão corretas. Quando você está sonhando, o sonho é verdadeiro e o sonhador é verdadeiro. Agora o sonhador se foi e o sonho se foi - ambos se foram. Agora você está acordado. Agora você está existindo em um nível de consciência totalmente diferente.

O mundo é verdadeiro e o ego é verdadeiro quando a pessoa é ignorante inconsciente, alheia. Quando a pessoa se torna consciente, quando o estado búdico acontece, então não há o mundo nem o ego - ambos desapareceram. Mas "ambos desapareceram" não significa que nada tenha restado: ambos desapareceram um dentro do outro. Só um restou agora - não restaram dois. O conhecedor e o conhecido tornaram-se um só. 

Essa unidade é o que realmente significa autoconhecimento. Mas a palavra não é correta. Nenhuma palavra pode ser correta. Com relação às grande experiências que vão além da dualidade, nenhuma palavra pode ser correta.(...)

O terceiro método, o método do místico, é uma transcendência dos outros dois métodos. Ele não nega a realidade ao objeto, ele não nega a realidade ao sujeito - ele aceita a realidade de ambos. Ele as une.

Esse é o significado da famosa declaração dos Upanishads tat twam asi - tu és isso. Essa é uma fusão das duas esferas. Nessa fusão, o autoconhecimento acontece. O eu desaparece, o conhecimento desaparece - tudo fica claro. Não há ninguém para quem aquilo seja claro, e não há algo a ficar claro - mas tudo fica claro. Resta só a clareza, a claridade.
Isso é chamado pelos budistas de a terra de lótus de Buda.

Tudo é claro e fragrante, é belo e harmonioso. Então o esplendor abre suas portas.

O conhecimento é um fato seco, morto - não é a experiência úmida. E a experiência não é conhecimento, mas saber. Por isso Krishnamurti sempre usa a palavra "experienciar" em vez de "experiência". Ele está certo. Ele transforma o substantivo em verbo e o chama de experienciar. Lembre-se disso sempre: transforme os substantivos em verbos e você estará mais próximo da realidade.(...)

Se você conseguir entender que toda a vida é um verbo, não um substantivo, haverá um grande entendimento acompanhando-o.

Não há eu e não há o outro.(...)

O autoconhecimento é de grande importância. Nada mais é importante do que isso. Mas lembre-se destas duas ciladas: uma é negar a subjetividade e se tornar um realista; outra é negar a objetividade e se tornar um idealista. Evite essas duas ciladas. Ande exatamente no meio. E então você será surpreendido - o eu desapareceu, o conhecimento desapareceu. Mas então chega o saber. A grande luz desce e é uma luz que não apenas transforma você, como transforma todo o seu mundo.

Buda teria dito: "No momento em que me tornei iluminado, toda a existência se tornou iluminada para mim".

Isso é verdade. Sou testemunha disso. É exatamente assim que acontece. Quando você se torna iluminado, toda a existência se torna repleta de luz e permanece repleta de luz. Até a escuridão se torna luminosa, até mesmo a morte se torna uma nova maneira de viver."


segunda-feira, outubro 17, 2016

Aprenda a deixar ir

- Thich Nhat Hanh -


Se há coisas que te fazem sofrer, você tem que saber como deixá-las ir. Felicidade pode ser obtida soltando, deixando ir, incluindo deixando ir suas ideias sobre felicidade.

Você imagina que certas condições são necessárias para sua felicidade, mas se olhar profundamente revelar-se-á para você que essas noções são exatamente as coisas que ficam no caminho da felicidade e te fazem sofrer.

Um dia o Buda estava sentado na floresta com alguns monges. Eles tinham acabado de almoçar e já iam começar um compartilhamento sobre o Dharma quando um fazendeiro se aproximou deles. O fazendeiro disse: “Veneráveis monges, vocês viram minhas vacas por aqui? Eu tenho dezenas de vacas e elas fugiram. Além disso, eu tenho cinco acres de plantação de gergelim e este ano os insetos comeram tudo. Eu acho que vou me matar. Eu não posso continuar a viver assim”.

O Buda sentiu forte compaixão pelo fazendeiro. Ele disse: “Meu amigo, me desculpe, não vimos suas vacas vindo nessa direção”. Quando o fazendeiro se foi, o Buda se voltou para seus monges e disse: “Meus amigos, sabem por que vocês são felizes? Porque vocês não têm vacas para perder”.

Eu gostaria de dizer a mesma coisa para vocês. Meus amigos, se vocês têm vacas, têm que identificá-las. Você pensa que elas são essenciais para sua felicidade, mas se você praticar olhar em profundidade, entenderá que são estas mesmas vacas que trazem sua infelicidade.

O segredo da felicidade é ser capaz de deixar ir suas vacas, soltá-las. Você deveria chamar suas vacas por seus verdadeiros nomes. Eu garanto que quando você deixar suas vacas ir embora, você experimentará felicidade porque quanto mais liberdade você tem, mais felicidade você terá.

O Buda nos ensinou que alegria e prazer são baseados na desistência, em deixar ir. “Eu estou deixando ir” é uma prática poderosa.

Você é capaz de deixar as coisas irem? Se não for, seu sofrimento continuará.

Você deve ter a coragem de praticar o “deixar ir”, o soltar. Você precisa desenvolver um novo hábito – o hábito de concretizar a liberdade. Você precisa identificar suas vacas. Você precisa considerá-las como um vínculo com a escravidão. Você precisa aprender como o Buda e seus monges fizeram, a libertar suas vacas. É a energia de plena atenção que ajuda a identificar suas vacas e chamá-las por seus verdadeiros nomes. Sorria, solte.

Quando você tem uma ideia que te faz sofrer, deveria deixá-la ir, mesmo (ou talvez especialmente) se é uma ideia sobre sua própria felicidade. Cada pessoa e cada nação têm uma ideia de felicidade. Em alguns países, pessoas pensam que uma ideologia em particular deve ser seguida para trazer felicidade ao país e ao seu povo. Eles querem que todos aprovem a sua ideia de felicidade e acreditam que os que não estão a favor deveriam ser presos ou colocados em campos de concentração. É possível manter tal pensamento por cinquenta ou sessenta anos, e neste tempo criar uma tragédia enorme, apenas por causa desta ideia de felicidade.

Talvez você também seja prisioneiro de sua própria noção de felicidade. Há milhares de caminhos que levam à felicidade, mas você aceita somente um. Não considerou outros caminhos porque pensa que o seu é o único. Você seguiu este caminho com toda a sua força e, portanto, os outros caminhos, os milhares de outros caminhos permaneceram fechados para você.

Deveríamos ser livres para experimentar a felicidade que apenas vem a nós sem ter que procurá-la. Se você é uma pessoa livre, a felicidade pode vir para você num estalo. Olhe para a lua. Ela viaja no céu completamente livre, e esta liberdade produz beleza e felicidade. Eu estou convencido que a felicidade não é possível a menos que seja baseada na liberdade. Se você é uma mulher livre, se você é um homem livre, desfrutará de felicidade. Mas se é um escravo, mesmo que apenas escravo de uma ideia, a felicidade será muito difícil de atingir. É por isso que você deveria cultivar a liberdade, incluindo a liberdade de seus próprios conceitos e ideias. Deixe suas ideias irem, mesmo que não seja fácil.

Conflitos e sofrimento são comumente causados por uma pessoa que não quer liberar seus conceitos e ideias sobre algo. Em uma relação entre pai e filho, por exemplo, ou entre parceiros, isto acontece o tempo todo. É importante treinar a si mesmo para deixar ir suas ideias sobre as coisas. Liberdade é cultivada pela prática de deixar ir. Se você olhar profundamente, poderá ver que está se segurando a um conceito que está te fazendo sofrer um bocado. Você é inteligente o suficiente, você é livre o suficiente para desistir dessa ideia?

Estou me tornando calmo
Estou deixando ir
Tendo deixado ir, a vitória é minha
Eu sorrio
Eu sou livre

O Dharma que o Buda apresentou é radical. Contém medidas radicais para cura, para transformação da situação atual. As pessoas se tornam monges e monjas porque entendem que a liberdade é preciosa. O Buda não precisava de uma conta no banco ou uma casa. No tempo dele, as posses de um monge ou monja eram limitadas aos robes que vestiam e uma tigela para coletar comida.

Liberdade é muito importante. Você não deveria sacrificar ela por nada, porque sem liberdade não há felicidade.


quinta-feira, outubro 13, 2016

Tao - A Sabedoria do Silêncio interno




Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia.

Nunca faça promessas que não possa cumprir. Não se queixe, nem utilize palavras que projetem imagens negativas, porque se reproduzirá ao seu redor tudo o que tenha fabricado com as suas palavras carregadas de Chi.

Se não tem nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho: observe e reflita a energia. O Universo é o melhor exemplo de um espelho que a natureza nos deu, porque aceita, sem condições, os nossos pensamentos, emoções, palavras e ações, e envia-nos o reflexo da nossa própria energia através das diferentes circunstâncias que se apresentam nas nossas vidas.

Se se identifica com o êxito, terá êxito. Se se identifica com o fracasso, terá fracasso. Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo da nossa conversa interna. Aprenda a ser como o universo, escutando e refletindo a energia sem emoções densas e sem preconceitos.

Porque, sendo como um espelho, com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com as suas opiniões pessoais, e evitando reações emocionais excessivas, tem oportunidade de uma comunicação sincera e fluída.

Não se dê demasiada importância, e seja humilde, pois quanto mais se mostra superior, inteligente e prepotente, mais se torna prisioneiro da sua própria imagem e vive num mundo de tensão e ilusões. Seja discreto, preserve a sua vida íntima. Desta forma libertar-se-á da opinião dos outros e terá uma vida tranquila e benevolente invisível, misteriosa, indefinível, insondável como o TAO.

Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre dá-nos o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas próprias virtudes e qualidades, a brilhar. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tenha confiança em si mesmo. Preserve a sua paz interior, evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros. Não se comprometa facilmente, agindo de maneira precipitada, sem ter consciência profunda da situação.

Tenha um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta e só então tome uma decisão. Assim desenvolverá a confiança em si mesmo e a Sabedoria. Se realmente há algo que não sabe, ou para que não tenha resposta, aceite o fato. Não saber é muito incômodo para o ego, porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão e dar a sua opinião muito pessoal. Mas, na realidade, o ego nada sabe, simplesmente faz acreditar que sabe.

Evite julgar ou criticar. O TAO é imparcial nos seus juízos: não critica ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julga alguém, a única coisa que faz é expressar a sua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder as nossas próprias fraquezas.

O Sábio tolera tudo sem dizer uma palavra. Tudo o que o incomoda nos outros é uma projeção do que não venceu em si mesmo. Deixe que cada um resolva os seus problemas e concentre a sua energia na sua própria vida. Ocupe-se de si mesmo, não se defenda. Quando tenta defender-se, está a dar demasiada importância às palavras dos outros, a dar mais força à agressão deles.

Se aceita não se defender, mostra que as opiniões dos demais não o afetam, que são simplesmente opiniões, e que não necessita de os convencer para ser feliz. O seu silêncio interno torna-o impassível. Faça uso regular do silêncio para educar o seu ego, que tem o mau costume de falar o tempo todo.

Pratique a arte de não falar. Tome algumas horas para se abster de falar. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do TAO ilimitado, em vez de tentar explicar o que é o TAO. Progressivamente desenvolverá a arte de falar sem falar, e a sua verdadeira natureza interna substituirá a sua personalidade artificial, deixando aparecer a luz do seu coração e o poder da sabedoria do silêncio.

Graças a essa força, atrairá para si tudo o que necessita para a sua própria realização e completa libertação. Porém, tem que ter cuidado para que o ego não se infiltre… O Poder permanece quando o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se o ego se impõe e abusa desse Poder, este converter-se-á num veneno, que o envenenará rapidamente.

Fique em silêncio, cultive o seu próprio poder interno. Respeite a vida de tudo o que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo. Converta-se no seu próprio Mestre e deixe os demais serem o que têm a capacidade de ser. Por outras palavras, viva seguindo a via sagrada do TAO.


segunda-feira, outubro 10, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 5/5

- Masaharu Taniguchi - 


Finalmente, Manjusri, enviado como representante de Sakyamuni, chega ao palácio de Vimalakirti para visitá-lo, e o encontra descansando...

Manjusri - Prezado Vimalakirti, vim visitá-lo, como mensageiro de Sakyamuni.

Vimalakirti - Seja-bem-vindo, Manjusri.

Manjusri - Meu mestre Sakyamuni soube que o senhor está doente e mandou-me aqui para saber do seu estado. Ele quer saber se o senhor tem se tratado e está melhorando. Quer saber também desde quando o senhor está doente, e por que razão uma pessoa sábia como o senhor, que já alcançou o despertar, foi acometido por uma doença.

Vimalakirti - Então pensam que estou doente... Já que tocou no assunto, vamos falar de doença. Ela surge devido à ilusão. Julgar existente o que não existe já é o princípio da doença. Teimar em acumular o que não tem existência real e apegar-se a ele é tornar mais grave a doença. A doença origina-se na mente. O apego é que provoca a doença. Aquele que tem apego já é doente, ainda que a doença não esteja manifestada concretamente. Meu corpo é como um espelho: reflete as ilusões da mente do povo e mostra-as sob a forma de doença. O povo custa compreender a Verdade de que a doença se manifesta como reflexo da mente; por isso, cabe aos bodhisatvas demonstrar essa Verdade com seu próprio corpo. Os bodhisatvas despertos são pessoas que já "se graduaram" na escola chamada "este mundo" e portanto não precisam mais renascer neste mundo. Se eles aparecem de novo neste mundo como ser carnal e manifesta doenças em seu corpo, é para realizar o seu grande voto de salvar a humanidade, servindo-lhe de exemplo. O bodhisatva adoece porque a mente da humanidade está enferma. Estando enferma a mente dos pais, o filho adoece; estando enferma a mente da esposa, o marido adoece, e vice-versa; estando enferma a mente do chefe de família, os familiares adoecem; e estando enferma a mente dos familiares, o chefe de família adoece. Do mesmo modo, estando enferma a mente da humanidade, o bodhisatva desperto manifesta doença em seu próprio corpo.

Manjusri - Então, é por isso que o senhor está doente?

Vimalakirti - Sim. A doença de um bodhisatva é decorrente de sua grande misericórdia. Manifesta-se devido ao seu grande voto de purificar a mente da humanidade, mostrando em seu próprio corpo as consequências das atitudes mentais errôneas das pessoas.

Manjusri - (Mudando de assunto) Reparei que hoje não se encontra nenhum criado, em parte alguma desta grande mansão. Foram todos passear?

Vimalakirti - Por que perguntar isso agora, se todas as coisas são "nada"? Não sabe que o mundo búdico é o "nada absoluto"?

Manjusri - Por que o mundo búdico é o "nada absoluto"?

Vimalakirti - É porque é.

Manjusri - Como sabe que é?

Vimalakirti - Não existe "como". Se existisse o "como", não seria o "nada absoluto". Não se pode discutir o "nada absoluto".

Manjusri - Mas como compreender o "nada absoluto"?

Vimalakirti - Através do despertar espiritual.

Manjusri - E onde buscar o despertar espiritual?

Vimalakirti - Em Buda.

Manjusri - E onde se encontra Buda?

Vimalakirti - Buda está dentro de cada um de nós.

Manjusri - Quer dizer que o ser humano traz Buda dentro de si?

Vimalakirti - Sim. Cada ser humano traz em si a natureza búdica.

Manjusri - Então, não há necessidade de as pessoas buscarem o despertar, não é?

Vimalakirti - Compreendendo que a matéria é nada e que o corpo carnal não tem existência real, o homem percebe que a sua natureza é búdica. Essa natureza búdica não é a do homem carnal, e sim do homem verdadeiro, que é imaterial.

Manjusri - O homem verdadeiro é provido de tudo, e portanto nunca é carente.

Vimalakirti - Sim. Os bodhisatvas nunca são pobres. São infinitamente ricos.

Manjusri - Então, porque o senhor, sendo infinitamente rico, está sozinho nesta mansão, sem nenhum criado?

Vimalakirti - Este lugar não está vazio como parece. Meus criados são o demônio Papiyas e as bailarinas dele. Agora há pouco, elas estiveram me mostrando uma bela dança aí no jardim. A humanidade em ilusão passa repetidas vezes por este mundo e pelo mundo após a morte, num interminável processo de transmigração, perseguindo os prazeres dos sentidos. Os bodhisatvas, para salvar a humanidade em ilusão, acompanham-na nesse processo de transmigração. E a melhor maneira de fazer isso é ter como acompanhantes o demônio Papiyas e suas feiticeiras. Quer que lhe apresente um belo número de dança dessas feiticeiras-bailarinas?

Manjusri - Não, obrigado. Vim aqui como mensageiro do venerando Sakyamuni para saber em que estado o senhor se encontra, e preciso cumprir essa missão. Para que eu possa apresentar a ele um relatório detalhado, diga-me qual é a sua doença, quais são os sintomas, enfim, tudo sobre sua condição de saúde.

Vimalakirti - Quer que eu fale de minha doença? Pois saiba que doença não tem substância, e por isso não me é possível descrevê-la.

Manjusri - Mas não pode, ao menos, dizer se sofre de doença do corpo ou doença da mente?

Vimalakirti - Não é doença do corpo.

Manjusri - Como pode dizer isso com tanta certeza?

Vimalakirti - Porque sei que, na verdade, o corpo não existe.

Manjusri - Então, trata-se de doença da mente?

Vimalakirti - Também não, pois a mente em ilusão, sujeita a doenças, não tem existência real.

Manjusri - Porém, se mesmo assim o estado de doença estiver manifestado, o que se deve fazer para que esse aspecto desapareça? Ensine-me, para que eu possa transmitir aos outros.

Vimalakirti - Deve serenar a mente, perguntar a si próprio "quem está doente?" e reflexionar o seguinte: O "eu" fenomênico é originariamente inexistente. O corpo não tem existência real. Como o corpo não tem existência real, a doença que nele se manifesta também não tem existência real. Minha doença, assim como a doença de todas as pessoas, não passa de falso aspecto. Quando se reflexiona assim e se compreende realmente que o corpo carnal e o "eu" fenomênico não têm existência real, desaparece o apego; desaparecendo o apego, desatam-se as "amarras da mente", recupera-se a liberdade total; e recuperando-se a liberdade total, a doença se extingue. Quando isso ocorre, o bodhisatva manifesta sua grande misericórdia e passa a salvar as pessoas. Ele é pleno de amor e sabedoria, e por isso, para salvar as pessoas, faz uso de todos os expedientes, sem se prender a um determinado princípio rígido.

Manjusri - Que significa estar preso com as "amarras da mente"?

Vimalakirti - Está preso com as "amarras da mente" aquele que ficou com a mente tolhida pela constatação de que o corpo carnal não é existência verdadeira e isola-se num local ermo ou num mosteiro. Quem tem a mente plenamente livre não se isola deste mundo nem das pessoas, justamente por saber que o corpo carnal não é existência verdadeira.

Está preso com as "amarras da mente" aquele que, apesar de querer praticar o bem, não consegue proporcionar felicidade aos outros, por estar com a mente tolhida pela ideia fixa de praticar o bem. Quem tem a mente plenamente livre pratica o bem com espontaneidade, mesmo onde prolifera o mal, e assim proporciona benefícios a muita gente.

Está preso com as "amarras da mente" aquele que não consegue salvar os outros por julgá-los com uma sabedoria fria e destituída de amor. Quem tem a mente plenamente livre salva as pessoas com sabedoria acompanhada de amor. O amor vivifica a sabedoria, e a sabedoria vivifica o amor. Ser bodhisatva é ser virtuoso e sábio, levando uma vida normal como uma pessoa comum. Ser bodhisatva é conviver com os demônios e subjugá-los. Por isso, eu sempre uso o demônio Papiyas e suas feiticeiras como um expediente ou um meio para manifestar o amor e conduzir as pessoas à salvação. (Levanta a mão e faz um sinal. Surgem, como por encanto, um grupo de lindas feiticeiras)

Feiticeiras - O senhor nos chamou?

Vimalakirti - Sim. Faça cair uma chuva de flores, e cantem e dancem sob essa chuva.

Feiticeiras - Sim, senhor.

(Começam a chover pétalas em profusão. As feiticeiras dançam e cantam, uma de cada vez)

Feiticeira 1 - Usando sabedoria e expedientes adequados, o Bodhisatva salva os homens.

Feiticeira 2 - Ele surge sob a forma de uma ninfa sedutora, e tenta os que perseguem os prazeres da carne.

Feiticeira 3 - Ele surge sob a forma de dinheiro, jóias e outros bens, e tenta os que perseguem a riqueza material.

Feiticeira 4 - Ele surge sob a forma de terapias e medicamentos, e tenta os enfermos.

Feiticeira 5 - Tenta os homens para que alcancem o despertar superando as tentações.

Feiticeira 6 - Nada há de extraordinário em crescerem lótus na água.

Todas as feiticeiras - Extraordinário é crescerem lótus no meio do fogo.


Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 86-94

sexta-feira, outubro 07, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 4/5

- Masaharu Taniguchi - 


DANÇA DAS FEITICEIRAS

Num aposento amplo e luxuoso, Vimalakirti está dormindo. Nos arredores desse aposento, tem-se um jardim espaçoso e tranquilo, onde o bodhisatva Jicei está sentado numa pedra e concentrado na prática da meditação Zen. Eis, então, que surgem no jardim seis lindas e sedutoras feiticeiras...

(*Nota: Bodhisatva: aquele que busca o seu despertar espiritual e ao mesmo tempo se dedica à salvação dos semelhantes)

Feiticeira 1 - Vamos dançar. Olhem! Lá está o bodhisatva Jicei, praticando meditação.

Feiticeira 2 - Vamos alegrá-lo, mostrando-lhe a nossa bela dança.

Feiticeira 3 - Mesmo estando com os olhos fechados, ele poderá, certamente, apreciar nossa dança com os olhos da mente.

Feiticeira 4 - Nós sempre aparecemos assim quando ele está praticando a meditação Zen.

Feiticeira 5 - Transmitimos a ele nossas vibrações mentais.

Feiticeira 6 - Isso mesmo.

Feiticeira 1 - Mentalizamos para que ele nos veja com os olhos da mente.

Feiticeira 2 - Na vez anterior, transmitimos-lhe vibrações mentais para mostrar o belo e majestoso aspecto do paraíso, não foi?

Feiticeira 3 - Foi sim. E ele ficou muito contente, dizendo que Buda lhe revelou o paraíso.

Feiticeira 4 - Isso me parece um tanto esquisito. Como é que ele, sendo um bodhisatva, não consegue distinguir o paraíso verdadeiro do paraíso falso?

Feiticeira 5 - Não nos cabe questionar isso. Vamos cantar e dançar!

Feiticeira 6 - Sim, vamos cantar sob a regência do mestre Papiyas.

Surge Sakra Devanam Indra, que na verdade é o demônio Papiyas disfarçado. Ele começa a reger o coro das feiticeiras. No jardim, o bodhisatva Jicei está absorto em sua meditação, e no aposento Vimalakirti continua dormindo. As feiticeiras cantam e dançam...

Canto das feiticeiras:

"Vindo a primavera luminosa,
mil flores desabrocham. 
Saudando o desabrochar das flores, mil pássaros gorjeiam.
Atraídas pelos gorjeios dos pássaros,
belas donzelas entoam o seu canto.
O canto das donzelas
é a chave que abre o paraíso búdico,
é a chave que abre o paraíso búdico..."


Bodhisatva Jicei - Oh! Que beleza! Eu estava vendo o belo paraíso búdico. Esta é a segunda vez que tive a bênção de ter a visão do maravilhoso paraíso. Com certeza, enquanto me concentrava na meditação, minha alma viajou até lá, transportada pela flor de lótus de mil pétalas. Foi uma visão de beleza indescritível!

(Subitamente, como que despertando de um sono, vê as feiticeiras dançando no jardim)

Oh, mas que é isso? Outra vez estou vendo a dança das belas donzelas! Continuo tendo a mesma visão, com os olhos fechados ou abertos! Que coisa estranha! Então essa visão maravilhosa não era a do paraíso búdico, e sim deste mundo?!

(Percebe a presença de Sakra Devanam Indra, na verdade o demônio Papiyas)

Oh! o senhor é Sakra Devanam Indra...

Sakra Devanam Indra (falso) - Salve, bodhisatva Jicei! Como sempre, empenhado firmemente no aprimoramento espiritual, heim? Para recompensar a sua diligência, escolhi as mais lindas bailarinas e trouxe-as aqui para apresentar-lhe uma bela dança. Refletindo bem,  cheguei à conclusão de que este mundo é a terra búdica, é o paraíso. A bela dança destas encantadoras bailarinas faz parte das delícias do paraíso. Vimalakirti também disse isso. A felicidade paradisíaca consiste na satisfação dos cinco sentidos mundanais, que são: 1) desejo de possuir bens materiais; 2) desejo carnal; 3) desejo de comer e beber; 4) desejo de fama e poder; e 5) desejo de dormir.

De que adiante fugir desses cinco desejos e empenhar-se na prática da meditação Zen, isolando-se de tudo e de todos? O paraíso não se encontra no mundo da abstração, e sim dentro da realidade concreta. Não se alcança através de meditações ou divagações, e sim pela satisfação dos cinco sentidos concretos, a que me referi. A felicidade do homem não consiste em manter-se afastado da realidade concreta e viver a meditar num lugar isolado, em busca do imaginário. Veja essas lindas bailarinas! Repare na delicadeza da pele delas! Na maciez da carne delas! O paraíso está na deliciosa sensação que aquela pele e aquela carne oferecem. Darei a você uma dessas bailarinas que mais lhe agradar. Pode escolher à vontade.

Feiticeira 1 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, eu adoro seus olhos! Eles tem um brilho puro como o das estrelas do firmamento. Fite-me com esses olhos e veja dentro de meus olhos a chama da paixão!

Feiticeira 2 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, sua fisionomia é luminosa. Que belo rosto o senhor tem! Não posso conter o desejo de roçar minha face nesse rosto lindo!

Feiticeira 3 - (Em tom sedutor) Eu adoro esses lindos lábios, rosados e viçosos. Eles trazem ocultos uma paixão ardente. Sei que o senhor não é um homem frio. Gostaria de beijar seus lábios, ainda que apenas uma vez em toda a minha vida.

Feiticeira 4 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, que ombros e braços musculosos o senhor tem! Eles revelam a sua virilidade. Gostaria de ser abraçada fortemente com esses braços vigorosos.

Feiticeira 5 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, como é musculoso o seu peito, que vejo pelas frestas de sua veste. Que exercícios praticou para ficar assim? Esse peito musculoso parece resistente como um muro de pedra. Gostaria de enroscar-me nele, como uma hera que se enrosca no muro.

No aposento, Vimalakirti acorda, levanta-se e fica observando, em silêncio, a cena que está se passando no jardim...

Feiticeira 6 - (Em tom sedutor) Eu admiro suas pernas. Que coxas musculosas! São vigorosas e têm um brilho que me faz lembrar uma luzidia estátua de bronze. Gostaria de ver a beleza desses músculos em movimento. Gostaria de me enroscar como uma serpente nessas coxas, para testar a força de seus músculos. Meu querido bodhisatva, o senhor corresponderá à minha paixão, não é?

Bodhisatva Jicei - Não tentem seduzir-me com os prazeres dos sentidos! Sou discípulo de Buda e não devo sucumbir às tentações da carne. Sakram Deva Indra, afaste essas mulheres daqui imediatamente! Embora pareçam belas, elas têm o corpo cheio de impurezas!

Vimalakirti - Não se pode negar a beleza das belas mulheres. É preciso ter naturalidade de atitude mental, vendo as coisas e os fatos como eles são, ou seja, reconhecendo a beleza naquilo que é belo e a fealdade naquilo que é feio. É nisso que consiste o despertar. (Voltando-se para o falso Sakra Devanam Indra) Ei, você não é o verdadeiro Sakra Devanam Indra! É o demônio Papiyas disfarçado, não é?

Sakra Devanam Indra (falso) - Não, não! O senhor está enganado...

Vimalakirti - É inútil tentar enganar a mim. Não sabe que meus "olhos mentais" são capazes de perscrutar qualquer coisa, em qualquer lugar? Nem mesmo você, demônio Papiyas, será capaz de confundir os olhos de minha mente!

(Vendo-se desmascarado, o demônio Papiyas tenta fugir.)

Vimalakirti - Não se mova, demônio! (fazendo um gesto mágico com os dedos, e depois desenha com a mão um círculo no ar)

Demônio Papiyas - (Fica imóvel como se tivesse virado uma estátua)

Vimalakirti - Quer fugir? Pois tente! Eu o "amarrei" com o poder de minha mente, e quando mais você tentar fugir, mais apertada ficará essa "corda invisível".

Demônio Papiyas - (gemendo) Aaaai...

Vimalakirti - Não tenho a intenção de maltratá-lo O que eu quero é que você deixe essas moças comigo. São todas muito bonitas. Deixe-as, e eu permitirei que você volte ao seu palácio.

Demônio Papiyas - Mas... mas...

Vimalakirti - Mas, o quê?

Demônio Papiyas - O que o senhor fará com elas, se eu as deixar aqui?

Vimalakirti - Farei com que elas encontrem o prazer búdico.

Demônio Papiyas - O que é prazer búdico?

Vimalakirti - É o prazer de se viver em conformidade com os ensinamentos de Buda. Farei com que essas moças extingam todos os pensamentos impuros com o fogo da Verdade. Farei com que compreendam que o corpo carnal não tem existência real e que, portanto, são também vãos os prazeres dos sentidos. Os prazeres que ensinarei a elas são bem diferentes do que você lhes ensinou lá no seu palácio.

Demônio Papiyas - É uma pena, mas...

Vimalakirti - Mas o quê?

Demônio Papiyas - Acho que não tenho outra saída, a não ser deixar essas moças com o senhor.

Vimalakirti - Então vou desatar essas "cordas invisíveis. Pronto! Já pode ir!

Vimalakirti - (Olha para as feiticeiras) Venham, a partir de hoje, vocês vão ficar comigo. Devem, pois, seguir meus ensinamentos para conhecer o prazer búdico.

As feiticeiras - Mestre Vimalakirti, o que é prazer búdico?

Vimalakirti - É o prazer que se alcança ouvindo as palavras da Verdade e apreendendo a perfeição do Eu verdadeiro (Jisso). A verdadeira felicidade não consiste nos prazeres dos sentidos. O corpo carnal não tem existência real, portanto, os prazeres do corpo carnal também não têm existência real. Mas como eles parecem reais, as pessoas em estado de ilusão anseiam pelos prazeres do corpo e vivem a persegui-los, sem perceber que estão buscando prazeres vãos. É como se tentassem saciar a fome comendo o ar, ou mitigar a sede tomando água salgada: jamais estarão realmente satisfeitos. O prazer búdico consiste no estado em que a pessoa não se prende ao aspecto fenomênico, ao aspecto aparente, aos prazeres dos sentidos e às paixões mundanais, e contempla unicamente a Essência perfeita de seu ser. Em outras palavras, é o estado em que a pessoa, não obstante sua condição de um ser carnal a nível fenomênico, não se prende a seu corpo e se rejubila com a perfeição do seu Eu verdadeiro. Nesse estado, é-se feliz sempre, até mesmo quando o corpo carnal está sofrendo enfermidade e dores. A felicidade permanente só se alcança quando se vive no estado de beatitude búdica. Quem vive no estado de beatitude búdica é feliz porque não tem apegos e só busca aquilo que lhe é adequado, no tempo adequado; é feliz porque rejubila-se com a pureza espiritual, e jamais se deixa levar pelo ódio ou ira. Se compreenderam o que eu lhes disse, sigam-me!

Demônio Papiyas - Quero que me devolva essas moças.

Vimalakirti - Você havia concordado em deixá-las comigo.

Demônio Papiyas - Mas, com que cara vou voltar ao palácio, sem levá-las comigo?

Vimalakirti - Demônio Papiyas, você não passa de um fraco!

Demônio Papiyas - Por favor, atenda ao meu pedido! Dizem que "bodhisatva" é aquele que nunca deixa de atender aos que lhe suplicam algo.

Vimalakirti -Você é um hábil argumentador. Está bem, já que você insiste tanto, vou devolver-lhes as moças. (Voltando-se para as feiticeiras.) Podem ir! Voltem ao palácio do demônio Papiyas.

As feiticeiras - Mas não temos mais vontade de buscar os prazeres dos sentidos. Mesmo que voltemos ao palácio do demônio Papiyas, não temos mais o que fazer. Mestre Vimalakirti, diga-nos o que devemos fazer.

Vimalakirti - Esperem um pouco (Pega uma vela, acende-a com o lume do candelabro, coloca-a num pequeno castiçal.) Vou dar isto a vocês.

Feiticeira 1 - (Recebe o castiçal) Que devemos fazer com isto?

Vimalakirti - Este é o lume infinito, símbolo da Luz da Verdade que extingue a ilusão. Representa a Luz do despertar espiritual, que jamais se apagará. Com uma vela acesa pode-se acender milhões de outras velas. Assim também é a luz do despertar espiritual. Ela é infinita porque, por mais que a distribuamos aos outros, não enfraquece. Pelo contrário, intensifica-se mais e mais. Se vocês, que despertaram para a Verdade, transmitirem aos outros a Luz da Verdade, até mesmo o palácio do demônio Papiyas tornar-se-á um lugar pleno de Luz. O mundo ao nosso redor é reflexo de nossa própria mente. Aonde quer que vamos, o ambiente ao nosso redor se preencherá de Luz, contanto que mantenhamos em nossa mente a Luz da Verdade. Agora voltem para o palácio de onde vieram. Chegou o momento em que até mesmo no palácio do demônio Papiyas irá brilhar a Luz da Verdade.

(O lume do castiçal que Vimalakirti deu às feiticeiras torna-se extremamente intenso. O jardim é iluminado por uma claridade quase ofuscante)

Demônio Papiyas - Ai! Reduza um pouco essa luz, por favor! Diante da Luz da Verdade tão intensa, as forças me fogem e não vou poder voltar ao meu palácio. Reduza a luz, por caridade!

Vimalakirti - Você é um fracote! Ha, ha, ha! Está bem! Está bem! Vou diminuir um pouco a claridade. Assim está bom para você?

E assim, o demônio Papiyas e as feiticeiras retornam ao castelo. Finalmente, Manjusri, enviado como representante de Sakyamuni, chega ao palácio onde Vimalakirti está descansando...


Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 75-86 

terça-feira, outubro 04, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 3/5

- Masaharu Taniguchi - 


OS BODHISATVAS

Depois que seus discípulos, Hoosháku e demais pessoas se retiram, Sakyamuni permanece sozinho e entra em estado de concentração espiritual. Ao adentrar em elevado estado de meditação, ouve-se um suavíssimo coro celestial e revela-se o majestoso paraíso búdico. Em meio a uma luz intensa, aparecem os bodhisatvas Maitreya, Koogon-Dooji, e Manjusri, como que surgindo do nada...

Maitreya - Eis-me aqui, atendendo a seu chamado.

Sakyamuni - Oh!, Você já veio?

Maitreya - Já sei do que se trata, por intuição.

Sakyamuni - Você é mesmo admirável!

Maitreya - Sinto-me honrado com essas palavras, mas eu também não sou a pessoa qualificada para desempenhar a tarefa em questão.

Sakyamuni - Por quê?

Maitreya - Certa vez, estava eu ensinando a um grupo de pessoas o que se deve fazer para alcançar o despertar espiritual definitivo, quando Vimalakirti surgiu do nada com o seu poder sobrenatural, e me disse:

"Soube que você recebeu de Sakyamuni o aviso de que será Buda. Pergunto-lhe, pois: isso ocorrerá na vida presente ou na vida futura? Saiba que não é possível tornar-se Buda no tempo presente, porque o fluir do tempo é incessante, e o que é presente agora, logo será passado. Também não será possível tornar-se Buda no futuro, porque quando se alcança o futuro, ele já será presente, o qual, por sua vez, logo será passado. Assim sendo, você não pode tornar-se Buda em nenhum ponto do curso do tempo. Então, quando é que você pode se tornar Buda? Com o surgimento da Perfeição Absoluta no seu interior? Acontece que a Perfeição Absoluta é eterna, não tem princípio nem fim. A essência de todos os seres é a Perfeição Absoluta. Nada existe além da Perfeição Absoluta. Meu caro Maitreya, assim como seu Eu verdadeiro é a Perfeição Absoluta, o Eu verdadeiro de todos os seres é a Perfeição Absoluta. Você já é Buda, e todos os seus semelhantes também o são. A ilusão não existe e jamais existiu, não sendo, pois, algo que surge e posteriormente se extingue. Em sua essência, o ser humano é livre da ilusão, e por essa razão não há quem precise despertar. Entretanto, para facilitar a compreensão desta Verdade, podemos usar um expediente verbal, dizendo: O despertar não se alcança através do corpo, nem através da mente. O despertar consiste em transcender o corpo e a mente; consiste em alcançar o estado de total desprendimento, abandonando todos os apegos e obsessões. Isso significa não se prender nem mesmo ao afã de tornar-se desprendido, e desobstruir completamente o interior de si próprio. Desobstruir-se completamente não resulta em esvaziamento. Pelo contrário, com isso revela-se o Eu verdadeiro sem distorção, vívido e vigoroso".

Ouvindo isso, muitas pessoas alcançaram o despertar. Diante da sabedoria de Vimalakirti, não me considero qualificado para ir visitá-lo, representando o senhor e os meus colegas.

Sakyamuni - Então, Koogon-Dooji, vá você, como nosso representante.

Koogon-Dooji - Quem sou eu para merecer uma missão tão importante, se até o bodhisatva Maitreya não se considera qualificado para aceitá-la? Eu também me sinto insignificante diante da sabedoria de Vimalakirti. Certa vez, encontrei-me casualmente com ele. Cumprimentei-o e perguntei-lhe "De onde o senhor está vindo?", ao que ele me respondeu "Estou vindo da academia".

"Que academia?", perguntei. E ele disse: "Tudo é academia para o aprimoramento espiritual: a ilusão nos faz chegar à conclusão de que ela não tem existência real e que existe unicamente a Verdade; as paixões mundanais nos conduzem à compreensão de que elas não são existências verdadeiras e que existe unicamente a sabedoria búdica; os pecadores nos conduzem à compreensão de que o pecado não tem existência real e que existe unicamente o ser búdico perfeito e imaculado; todos os aspectos fenomênicos são lições para o aprimoramento espiritual, pois nos conduzem à compreensão de que eles não têm existência real e que existe unicamente a Essência absoluta e perfeita; a treva é uma lição que nos conduz à compreensão de que ela não tem existência real, e que existe unicamente a luz; a luz é uma lição que nos conduz à compreensão de que só ela é existência real e que a treva é inexistente. Os bodhisatvas vieram para pregar essas Verdades e conduzir as pessoas à salvação".

Sinto-me insignificante diante de Vimalakirti, que é capaz de fazer da treva uma lição para o aprimoramento espiritual.

Manjusri - Venerando Mestre, já sei para que o senhor me chamou. O mestre Vimalakirti é, de fato, um grande homem, que apreende a Essência absoluta e perfeita das pessoas e lhes prega os pontos fundamentais da Santa Doutrina. É um homem sapientíssimo, dotado de uma extraordinária fluência verbal e uma admirável capacidade de argumentação. Ele domina os demônios usando livremente o seu poder espiritual. É, em suma, um homem que já alcançou a iluminação. Sentir-me-ei honradíssimo em visitá-lo, saber acerca do seu estado de saúde e conversar com ele a respeito da Essência perfeita do ser humano.

Sakyamuni - Muito bem! Então vá, Manjusri.

Manjusri - Irei imediatamente.


Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 69 -73

domingo, outubro 02, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 2/5

- Masaharu Taniguchi - 


Sakyamuni - Vocês conseguiram ver a beleza do paraíso búdico?

Hoosháku - Sim senhor. Vendo com meus próprios olhos o tão majestoso paraíso búdico, sinto que acabo de despertar espiritualmente. Compreendi que este mundo é realmente "reflexo da mente".

Maudgalyayana - Compreendi que a beleza deste mundo não chega nem a milionésima parte da beleza do paraíso búdico.

Sariputra - Venerando Mestre, peço-lhe perdão por ter dito, há pouco, que este mundo é um lugar feio e cheio de imperfeições, sem saber que, na verdade, era o mundo búdico tão belo e majestoso.

Sakyamuni - Não precisa se desculpar. Você simplesmente expôs uma dúvida que a maioria das pessoas tem. Por tê-la expressado, criou a oportunidade para que não só você próprio, como também os outros ampliassem o conhecimento da Verdade. Saiba, porém, que o belo aspecto do paraíso búdico que mostrei a vocês não passa de uma pequena amostra de sua real magnificência. O paraíso búdico não é um mundo tridimensional, e sim um mundo de dimensões infinitas, que o ser humano não pode apreender nem com os cinco sentidos, nem com o sexto sentido. Por isso lhes mostrei sob o aspecto tridimensional que pode ser captado pelos sentidos.

Hoosháku - Graças ao que o senhor nos mostrou, já temos a ideia de como é esplendoroso o paraíso búdico.

Sakyamuni - Sr. Hoosháku, ultimamente não tenho visto o seu amigo Vimalakirti. Como está ele?

Hoosháku - Ele tem estado doente, Venerando.

Sakyamuni - Como?! Ele está doente? Humm... deve haver um motivo para isso. Com certeza, ele manifestou de propósito a doença em seu próprio corpo como um expediente para conduzir os outros à compreensão da Verdade. (Virando-se para os discípulos) Upali, sei que você conhece Vimalakirti, pois disse que o encontrou há algum tempo. Vá visitá-lo.

Upali - Creio não ser merecedor de tal privilégio. Vou explicar por quê: Certa vez, deparei com um de meus discípulos e uma jovem mulher, num colóquio amoroso junto a uma fonte. Como de praxe, expliquei-lhe que o corpo carnal, mesmo tendo uma bela aparência, traz imundícies em seu interior, e aconselhei-o a banir as paixões mundanais. Aí surgiu Vimalakirti, e explicou que não é preciso se empenhar em combater as paixões mundanais porque elas não têm existência real, e exortou os dois para que se tornassem um casal exemplar e construíssem o paraíso neste mundo. Depois, vendo os jovens apaixonados afastarem-se juntos, cheios de felicidade, ele disse que neles estavam refletidos o paraíso búdico e a imagem de Buda, e que todos estão salvos desde o princípio, pois este mundo é, em sua essência, o mundo búdico repleto de Luz. Aquelas palavras me abriram os olhos da mente. A sabedoria de Vimalakirti é muito maior que a minha, e sinto-me indigno de visitá-lo como representante do senhor e de meus colegas.

Sakyamuni - Pelo que você me contou, percebo que Vimalakirti alcançou um nível espiritual muito elevado. Ele apreendeu a Essência perfeita do ser, transcendendo o fenômeno. Sim, ele tem razão: todos estão salvos desde o princípio.

Subhuti, de todos os meus discípulos, você é o que melhor compreende a inexistência do fenômeno e apreende a Essência absoluta e perfeita dos seres. Portanto, considero-o a pessoa mais qualificada para visitar Vimalakirti como nosso representante.

Subhuti - (Hesitante) Agradeço-lhe a consideração, mas sou indigno de tão importante missão.

Sakyamuni - (Sorrindo) Por quê? Explique-nos.

Subhuti - Certo dia, eu andava pela cidade fazendo mendicância religiosa nas casas dos ricos. A certa altura, bati à porta de uma mansão para pedir um prato de comida. Olhando para o rosto da pessoa que veio me atender, constatei, surpreso, que era Vimalakirti.

Sakyamuni - Ah, isso é muito interessante. E depois?

Subhuti - Vimalakirti pegou minha tigela, levou-a para dentro, e depois trouxe-a preenchida de comida. Mas continuou retendo a tigela. Por isso, estendi a mão, mas mesmo assim ele não me entregou a tigela.

Sakyamuni - Humm... E então?

Subhuti - Ele disse que tinha algo a me dizer antes de me entregar a tigela. Perguntou-me: "Por que você só percorre as casas dos ricos para fazer a mendicância religiosa, se seu mestre Sakyamuni ensina que, nos tempos de escassez de alimentos, é preciso intensificar a prática da mendicância religiosa e pedir esmolas com mais assiduidade justamente na casa dos pobres?"

Sakyamuni - E o que você respondeu?

Subhuti - Eu respondi assim: "Os ricos têm muitas posses. Se têm muitas posses, é porque são gananciosos. Visito as casas dos ricos para fazer a mendicância religiosa com intuito de ajudá-los a se tornarem menos gananciosos."

Sakyamuni - Ele não aceitou esse argumento, não é?

Subhuti - Não. Ele me fez a seguinte admoestação: "A ganância não se restringe apenas aos ricos. Há também muitos pobres que são gananciosos. Estes são pobres justamente porque perderam a liberdade da mente, perseguindo avidamente os objetos de seu desejo e ficando obcecado por eles. Devemos tratar imparcialmente os ricos e os pobres. Devemos fazer a mendicância religiosa tanto na casa dos ricos como na dos pobres para eliminar a ganância deles". Foi isso que Vimalakirti me disse.

Sakyamuni - Depois de fazer-lhe esse sermão, com certeza ele lhe perguntou: "O alimento tem existência real ou não?".

Subhuti - Ele me perguntou exatamente isso. Como o senhor sabe?

Sakyamuni - Sei de tudo. Mas conte-me como você respondeu a tal pergunta.

Subhuti - Eu respondo que "o alimento não tem existência real". Então Vimalakirti me perguntou: "Se sabe que o alimento não tem existência real, por que viestes pedir um prato de comida?".

Sakyamuni - E dessa vez, o que você respondeu?

Subhuti - As palavras dele me deixaram confuso, e fiquei hesitando, sem saber o que responder. Então, ele assim explicou o sentido da prática de mendicância religiosa: "Compreender a irrealidade do corpo carnal, sem experimentar a sua destruição; pedir um prato de comida, mesmo sabendo que ele é algo que não tem existência real – é nisso que consiste a mendicância religiosa. Saber que tanto o corpo como o alimento são irreais, e no entanto comer essa comida irreal para acolher o sentimento caridoso do doador; com isso assimila-se, não a comida material, mas a misericórdia búdica.

Na verdade, não existe nem o que dá esmola, nem o que recebe esmola, pois em sua Essência todos são iguais. A verdadeira mendicância religiosa consiste em lidar com a vida mundanal, ciente da perfeição e igualdade de todos os seres e sua Essência. Consiste em não ficar obcecado com a ideia de irrealidade, embora sabendo que o fenômeno é irreal, e em contemplar a Essência perfeita e absoluta de todas as pessoas, mesmo estando no mundo fenomênico. Praticar a mendicância religiosa não é tornar-se um homem comum, mas também não é distanciar-se do homem comum; não é ser santo, mas também não é distanciar-se da santidade; é ser transcendente e absolutamente livre no agir. Se você está preparado para seguir o mestre dos hereges, cair no inferno e tornar-se instrumento do demônio, receba esta comida".

Foi isso que Vimalakirti disse a mim.

Sakyamuni - Ele é um grande homem.

Maha-Kasyapa - Que coisa estranha Vimalakirti lhe disse, hein, irmão Subhuti! E você recebeu dele essa comida, que o levaria a tornar-se seguidor do mestre herege e o faria cair no inferno?

Subhuti - Não. Não ousei ticar nela. Não entendi bem o que Vimalakirti queria dizer com aquilo, nem soube como responder. Por isso, quis ir embora deixando lá mesmo a minha tigela.

Maha-Kasyapa - E que fez Vimalakirti?

Subhuti - Ele me disse: "Pegue sua tigela e vá sem temer coisa alguma". E disse mais: "Todo fenômeno é como miragem. Não tema, mesmo que ouça palavras ameaçadoras de um homem fenomênico que, na verdade, é Buda dissimulado. As palavras deste mundo são para expressar coisas e fatos fenomênicos, e não para expressar a Essência absoluta e perfeita. O sábio ouve aquilo que está além das palavras e vê aquilo que está além das letras. Não se prenda ao que eu lhe disse, e pegue esta tigela". Quando ele terminou de falar, ouviu-se um coro celestial executado por inúmeros entes celestiais que naquele momento despertaram para a Verdade.

Pelo fato que acabei de narrar, não me sinto qualificado para visitar Vimalakirti, representando o senhor e meus colegas.

Sakyamuni - Rahula, gostaria que você que é meu filho, fosse visitar Vimalakirti como meu representante.

Rahula - Venerado pai e Mestre, sinto-me honrado pela consideração, mas eu também me considero indigno de comparecer à presença de Vimalakirti.

Sakyamuni - Por quê?

Rahula - Certa vez, quando eu estava pregando a doutrina numa praça pública, chegaram muitos homens ricos e me perguntaram: "O senhor é filho de Sakyamuni, portanto um príncipe. No entanto, renunciou à coroa e tornou-se monge. Que vantagens o senhor tem, optando pela vida monástica?". Eu comecei a explicar, como de praxe, os méritos da vida monástica. Aí veio Vimalakirti e me disse: "Rahula, a vida monástica transcende as vantagens ou os méritos. É um grande erro optar pela vida monástica visando vantagens. Tornar-se monge é justamente desfazer-se do mesquinho desejo de alcançar graças. O verdadeiro monge é aquele que tem consciência de que não são existências reais nem as graças nem o eu que as recebe, e vive natural e espontaneamente segundo o fluir da Grande Vida. Um monge que vive calculando o montante dos donativos e esperando favores não é um verdadeiro monge, ainda que vista hábito. Pode-se dizer, portanto, que mesmo entre as pessoas comuns existem aqueles que são moco verdadeiros monges, e mesmo entre os monges existem aqueles que não passam de homens comuns".

Ouvindo estas palavras de Vimalakirti, os homens ricos perguntaram: "Então, para ser monge, a pessoa não precisa abandonar sua própria casa, não é?". E Vimalakirti respondeu: "O essencial é abandonar a atitude mental mesquinha de considerar a casa material como sua morada e passar a considerar o Universo como seu lar". Ouvindo isso, aqueles homens ricos conscientizaram a natureza búdica de si mesmos e alcançaram o despertar espiritual. Diante da sabedoria de Vimalakirti, sinto-me tão pequeno que não saberia o que dizer a ele.

Sakyamuni - E você, Ananda? Você é o mais erudito de todos os meus discípulos. Com certeza poderá ir visitar Vimalakirti e manter uma conversa com ele, de igual para igual.

Ananda - Nisso o senhor está enganado, pois eu também não me sinto capacitado para isso. Certa vez, ele derrotou também a mim, com seus argumentos.

Sakyamuni - Sobre que assunto?

Ananda - Sobre a questão referente a doença. Mestre, lembra-se de quando o senhor esteve meio adoentado, há algum tempo? Pois naquela ocasião, desejando conseguir leite de vaca, que lhe faria muito bem, saí de madrugada para fazer a mendicância religiosa e parei diante da mansão de um brâmane. Nesse momento chegou Vimalakirti, e me perguntou: "Ananda, por que você saiu tão cedo para fazer mendicância religiosa?". E eu, inadvertidamente, respondi: "É que eu pretendo conseguir leite de vaca para oferecer ao meu mestre, visto que ele parece estar meio adoentado". Então Vimalakirti me disse: "Não diga bobagem, Ananda! Não sabe que o corpo de Sakyamuni é corpo invulnerável e indestrutível? Seu mestre Sakyamuni é um ser iluminado que venceu todos os carmas negativos e paixões mundanais. É impossível surgir doença no corpo invulnerável e indestrutível do ser iluminado. Não faça, diante de ninguém, afirmações como essa de que Sakyamuni encontra-se adoentado. Jamais profira palavras que gerem ilusões. Mesmo aqueles que não tenham acumulado virtudes e boas ações, raramente adoecem. Assim sendo, é lógico que os seres iluminados estão totalmente imunes a doença. Ananda, o corpo de seu mestre não é um corpo carnal, e sim corpo espiritual; não é corpo maculado, e sim corpo indestrutível. É impossível que Sakyamuni, cujo corpo é espiritual, imaculado e indestrutível, fique adoentado, não é verdade? Você, com essa conduta errônea que está tomando, pode semear dúvidas na mente dos outros. Portanto, é melhor afastar-se daqui o mais rápido possível".

Como podem perceber, não estou à altura da admirável capacidade de argumentação de Vimalakirti, razão pela qual não me sinto capaz de desempenhar a tarefa em questão.

Sakyamuni - Não há nenhum voluntário que se ofereça para ir visitar Vimalakirti como nosso representante? Vejo que nenhum dos discípulos aqui se habilita a cumprir essa tarefa. Que pena... Já que é assim, vocês estão dispensados. Vou chamar o bodhisatva Maitreya.
Cont...

Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 57-67