"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, outubro 20, 2016

Autoconhecimento



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"O autoconhecimento é uma contradição em termos. Quando ele realmente acontece, não há eu nem há conhecimento. Se o eu estiver ali, ele não pode acontecer. Se o conhecimento estiver ali, ele não aconteceu. Para isso, algumas preliminares têm de ser entendidas.

Em primeiro lugar, para que o autoconhecimento ocorra o eu não pode estar presente. Você tem de esquecer tudo relacionado ao seu ego. Precisa estar em um estado de ausência do ego.

Em segundo lugar, você tem de esquecer tudo sobre conhecimento também. Se você estiver continuamente desejando saber, esse próprio desejo vai impedi-lo de saber. A existência só se revela àqueles que não estão desejando nada, que não estão aspirando a nada - nem mesmo a conhecer Deus. Os mistérios só são revelados àqueles que simplesmente esperam, que não fazem exigências. Eles esperam com os olhos abertos, esperam com o coração aberto, mas sem exigências.

Sua exigência é basicamente orientada pelo ego. Por que você quer saber? Porque o conhecimento lhe proporciona poder. Tente entender isso. Conhecimento é poder. Quanto mais você sabe, mais poderoso se torna. O ego está sempre interessado em se tornar instruído. Se você tem conhecimentos sobre a natureza, torna-se poderoso em relação à natureza. Se você tem conhecimento sobre as pessoas, torna-se poderoso em relação às pessoas. Se você tem conhecimentos sobre sua própria mente, torna-se poderoso em relação à sua própria mente. Se você tem conhecimento sobre Deus, vai se tornar poderoso em relação a Deus. 

Bem no fundo, a busca de conhecimento é , na verdade, a busca de poder. E como você pode ser poderoso em relação à realidade? A própria ideia é ridícula. Permita que a realidade tenha poder sobre você...relaxe. E permita que a realidade tome posse de você, em vez de você tomar posse da realidade.

Para estar realmente em um estado de autoconhecimento, a pessoa tem de esquecer o eu e esquecer toda investigação relacionada ao autoconhecimento. Então, ele acontece! Só assim ele acontece.

Há três esforços em toda a história da consciência humana no que se refere ao autoconhecimento.

O primeiro esforço é o do realista. O realista nega o eu interior; ele diz que não há eu interior, não há sujeito; só o objeto existe, a coisa, a matéria, o mundo. Essa é sua maneira de evitar a jornada para dentro de si. A jornada de si é perigosa. A pessoa terá de perder tudo! O autoconhecimento e tudo o mais, as raízes e tudo o mais - a pessoa terá de perder tudo. O realista não pode correr este risco. Então ele encontra uma explicação: Ele diz: "Não há alma. Não há eu interior. Tudo o que existe no mundo são objetos." Então ele fica preocupado em conhecer os objetos. Ele esquece a subjetividade e passa a se ocupar da objetividade. É isso que a ciência vem fazendo há 300 anos. É uma maneira de fugir de si mesmo.

A segunda maneira é aquela do idealista, que diz que não há objeto; o mundo é maya, ilusão. Não há nada a conhecer lá fora; ele simplesmente fecha os olhos e vai para dentro de si. Só o conhecedor é verdadeiro - o conhecido é falso. O realista diz que apenas o conhecido é verdadeiro e o conhecedor é falso; o idealista diz que apenas o conhecedor é verdadeiro e o conhecido é falso. Veja o absurdo disso - como pode haver um conhecedor se não houver conhecido? E como pode haver um conhecido se não houver conhecedor?

Assim, o idealista e o realista está apenas escolhendo uma metade da realidade. Quanto à outra metade, eles são temerosos. O realista teme ir para dentro de si, porque ir para dentro de si significa penetrar no vazio, no total vazio. É cair em um poço sem fundo, em um abismo...imprevisível. Onde ele vai parar ninguém sabe, nem sequer se vai parar em algum lugar.

O realista teme o conhecedor e por isso o nega. Por medo ele diz que não existe: "Todo meu interesse é no conhecido, no objeto". E o idealista teme o objeto, o mundo, os encantamentos do mundo, a magia do mundo. Ele teme se perder nos desejos e nas paixões. Teme ficar envolvido em coisas - dinheiro, poder, prestígio. Tem tanto medo que diz: " Tudo é sonho. O mundo que está lá fora não é real. O mundo real é o mundo interior".

Mas ambos estão sendo meio verdadeiros.(...)

E há a terceira maneira: a maneira do místico. Ele aceita ambas e rejeita ambas. Essa é minha maneira de ser. Ele aceita ambas porque diz: "Em um plano existem os dois - o conhecedor e o conhecido, o sujeito e o objeto, o interior e o exterior. Mas no outro plano, ambos desaparecem e só um permanece - que não é nem o conhecido nem o conhecedor."

A abordagem do místico é total. (...) Em um nível ambas abordagens estão corretas. Quando você está sonhando, o sonho é verdadeiro e o sonhador é verdadeiro. Agora o sonhador se foi e o sonho se foi - ambos se foram. Agora você está acordado. Agora você está existindo em um nível de consciência totalmente diferente.

O mundo é verdadeiro e o ego é verdadeiro quando a pessoa é ignorante inconsciente, alheia. Quando a pessoa se torna consciente, quando o estado búdico acontece, então não há o mundo nem o ego - ambos desapareceram. Mas "ambos desapareceram" não significa que nada tenha restado: ambos desapareceram um dentro do outro. Só um restou agora - não restaram dois. O conhecedor e o conhecido tornaram-se um só. 

Essa unidade é o que realmente significa autoconhecimento. Mas a palavra não é correta. Nenhuma palavra pode ser correta. Com relação às grande experiências que vão além da dualidade, nenhuma palavra pode ser correta.(...)

O terceiro método, o método do místico, é uma transcendência dos outros dois métodos. Ele não nega a realidade ao objeto, ele não nega a realidade ao sujeito - ele aceita a realidade de ambos. Ele as une.

Esse é o significado da famosa declaração dos Upanishads tat twam asi - tu és isso. Essa é uma fusão das duas esferas. Nessa fusão, o autoconhecimento acontece. O eu desaparece, o conhecimento desaparece - tudo fica claro. Não há ninguém para quem aquilo seja claro, e não há algo a ficar claro - mas tudo fica claro. Resta só a clareza, a claridade.
Isso é chamado pelos budistas de a terra de lótus de Buda.

Tudo é claro e fragrante, é belo e harmonioso. Então o esplendor abre suas portas.

O conhecimento é um fato seco, morto - não é a experiência úmida. E a experiência não é conhecimento, mas saber. Por isso Krishnamurti sempre usa a palavra "experienciar" em vez de "experiência". Ele está certo. Ele transforma o substantivo em verbo e o chama de experienciar. Lembre-se disso sempre: transforme os substantivos em verbos e você estará mais próximo da realidade.(...)

Se você conseguir entender que toda a vida é um verbo, não um substantivo, haverá um grande entendimento acompanhando-o.

Não há eu e não há o outro.(...)

O autoconhecimento é de grande importância. Nada mais é importante do que isso. Mas lembre-se destas duas ciladas: uma é negar a subjetividade e se tornar um realista; outra é negar a objetividade e se tornar um idealista. Evite essas duas ciladas. Ande exatamente no meio. E então você será surpreendido - o eu desapareceu, o conhecimento desapareceu. Mas então chega o saber. A grande luz desce e é uma luz que não apenas transforma você, como transforma todo o seu mundo.

Buda teria dito: "No momento em que me tornei iluminado, toda a existência se tornou iluminada para mim".

Isso é verdade. Sou testemunha disso. É exatamente assim que acontece. Quando você se torna iluminado, toda a existência se torna repleta de luz e permanece repleta de luz. Até a escuridão se torna luminosa, até mesmo a morte se torna uma nova maneira de viver."


segunda-feira, outubro 17, 2016

Aprenda a deixar ir

- Thich Nhat Hanh -


Se há coisas que te fazem sofrer, você tem que saber como deixá-las ir. Felicidade pode ser obtida soltando, deixando ir, incluindo deixando ir suas ideias sobre felicidade.

Você imagina que certas condições são necessárias para sua felicidade, mas se olhar profundamente revelar-se-á para você que essas noções são exatamente as coisas que ficam no caminho da felicidade e te fazem sofrer.

Um dia o Buda estava sentado na floresta com alguns monges. Eles tinham acabado de almoçar e já iam começar um compartilhamento sobre o Dharma quando um fazendeiro se aproximou deles. O fazendeiro disse: “Veneráveis monges, vocês viram minhas vacas por aqui? Eu tenho dezenas de vacas e elas fugiram. Além disso, eu tenho cinco acres de plantação de gergelim e este ano os insetos comeram tudo. Eu acho que vou me matar. Eu não posso continuar a viver assim”.

O Buda sentiu forte compaixão pelo fazendeiro. Ele disse: “Meu amigo, me desculpe, não vimos suas vacas vindo nessa direção”. Quando o fazendeiro se foi, o Buda se voltou para seus monges e disse: “Meus amigos, sabem por que vocês são felizes? Porque vocês não têm vacas para perder”.

Eu gostaria de dizer a mesma coisa para vocês. Meus amigos, se vocês têm vacas, têm que identificá-las. Você pensa que elas são essenciais para sua felicidade, mas se você praticar olhar em profundidade, entenderá que são estas mesmas vacas que trazem sua infelicidade.

O segredo da felicidade é ser capaz de deixar ir suas vacas, soltá-las. Você deveria chamar suas vacas por seus verdadeiros nomes. Eu garanto que quando você deixar suas vacas ir embora, você experimentará felicidade porque quanto mais liberdade você tem, mais felicidade você terá.

O Buda nos ensinou que alegria e prazer são baseados na desistência, em deixar ir. “Eu estou deixando ir” é uma prática poderosa.

Você é capaz de deixar as coisas irem? Se não for, seu sofrimento continuará.

Você deve ter a coragem de praticar o “deixar ir”, o soltar. Você precisa desenvolver um novo hábito – o hábito de concretizar a liberdade. Você precisa identificar suas vacas. Você precisa considerá-las como um vínculo com a escravidão. Você precisa aprender como o Buda e seus monges fizeram, a libertar suas vacas. É a energia de plena atenção que ajuda a identificar suas vacas e chamá-las por seus verdadeiros nomes. Sorria, solte.

Quando você tem uma ideia que te faz sofrer, deveria deixá-la ir, mesmo (ou talvez especialmente) se é uma ideia sobre sua própria felicidade. Cada pessoa e cada nação têm uma ideia de felicidade. Em alguns países, pessoas pensam que uma ideologia em particular deve ser seguida para trazer felicidade ao país e ao seu povo. Eles querem que todos aprovem a sua ideia de felicidade e acreditam que os que não estão a favor deveriam ser presos ou colocados em campos de concentração. É possível manter tal pensamento por cinquenta ou sessenta anos, e neste tempo criar uma tragédia enorme, apenas por causa desta ideia de felicidade.

Talvez você também seja prisioneiro de sua própria noção de felicidade. Há milhares de caminhos que levam à felicidade, mas você aceita somente um. Não considerou outros caminhos porque pensa que o seu é o único. Você seguiu este caminho com toda a sua força e, portanto, os outros caminhos, os milhares de outros caminhos permaneceram fechados para você.

Deveríamos ser livres para experimentar a felicidade que apenas vem a nós sem ter que procurá-la. Se você é uma pessoa livre, a felicidade pode vir para você num estalo. Olhe para a lua. Ela viaja no céu completamente livre, e esta liberdade produz beleza e felicidade. Eu estou convencido que a felicidade não é possível a menos que seja baseada na liberdade. Se você é uma mulher livre, se você é um homem livre, desfrutará de felicidade. Mas se é um escravo, mesmo que apenas escravo de uma ideia, a felicidade será muito difícil de atingir. É por isso que você deveria cultivar a liberdade, incluindo a liberdade de seus próprios conceitos e ideias. Deixe suas ideias irem, mesmo que não seja fácil.

Conflitos e sofrimento são comumente causados por uma pessoa que não quer liberar seus conceitos e ideias sobre algo. Em uma relação entre pai e filho, por exemplo, ou entre parceiros, isto acontece o tempo todo. É importante treinar a si mesmo para deixar ir suas ideias sobre as coisas. Liberdade é cultivada pela prática de deixar ir. Se você olhar profundamente, poderá ver que está se segurando a um conceito que está te fazendo sofrer um bocado. Você é inteligente o suficiente, você é livre o suficiente para desistir dessa ideia?

Estou me tornando calmo
Estou deixando ir
Tendo deixado ir, a vitória é minha
Eu sorrio
Eu sou livre

O Dharma que o Buda apresentou é radical. Contém medidas radicais para cura, para transformação da situação atual. As pessoas se tornam monges e monjas porque entendem que a liberdade é preciosa. O Buda não precisava de uma conta no banco ou uma casa. No tempo dele, as posses de um monge ou monja eram limitadas aos robes que vestiam e uma tigela para coletar comida.

Liberdade é muito importante. Você não deveria sacrificar ela por nada, porque sem liberdade não há felicidade.


quinta-feira, outubro 13, 2016

Tao - A Sabedoria do Silêncio interno




Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia.

Nunca faça promessas que não possa cumprir. Não se queixe, nem utilize palavras que projetem imagens negativas, porque se reproduzirá ao seu redor tudo o que tenha fabricado com as suas palavras carregadas de Chi.

Se não tem nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho: observe e reflita a energia. O Universo é o melhor exemplo de um espelho que a natureza nos deu, porque aceita, sem condições, os nossos pensamentos, emoções, palavras e ações, e envia-nos o reflexo da nossa própria energia através das diferentes circunstâncias que se apresentam nas nossas vidas.

Se se identifica com o êxito, terá êxito. Se se identifica com o fracasso, terá fracasso. Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo da nossa conversa interna. Aprenda a ser como o universo, escutando e refletindo a energia sem emoções densas e sem preconceitos.

Porque, sendo como um espelho, com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com as suas opiniões pessoais, e evitando reações emocionais excessivas, tem oportunidade de uma comunicação sincera e fluída.

Não se dê demasiada importância, e seja humilde, pois quanto mais se mostra superior, inteligente e prepotente, mais se torna prisioneiro da sua própria imagem e vive num mundo de tensão e ilusões. Seja discreto, preserve a sua vida íntima. Desta forma libertar-se-á da opinião dos outros e terá uma vida tranquila e benevolente invisível, misteriosa, indefinível, insondável como o TAO.

Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre dá-nos o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas próprias virtudes e qualidades, a brilhar. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tenha confiança em si mesmo. Preserve a sua paz interior, evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros. Não se comprometa facilmente, agindo de maneira precipitada, sem ter consciência profunda da situação.

Tenha um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta e só então tome uma decisão. Assim desenvolverá a confiança em si mesmo e a Sabedoria. Se realmente há algo que não sabe, ou para que não tenha resposta, aceite o fato. Não saber é muito incômodo para o ego, porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão e dar a sua opinião muito pessoal. Mas, na realidade, o ego nada sabe, simplesmente faz acreditar que sabe.

Evite julgar ou criticar. O TAO é imparcial nos seus juízos: não critica ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julga alguém, a única coisa que faz é expressar a sua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder as nossas próprias fraquezas.

O Sábio tolera tudo sem dizer uma palavra. Tudo o que o incomoda nos outros é uma projeção do que não venceu em si mesmo. Deixe que cada um resolva os seus problemas e concentre a sua energia na sua própria vida. Ocupe-se de si mesmo, não se defenda. Quando tenta defender-se, está a dar demasiada importância às palavras dos outros, a dar mais força à agressão deles.

Se aceita não se defender, mostra que as opiniões dos demais não o afetam, que são simplesmente opiniões, e que não necessita de os convencer para ser feliz. O seu silêncio interno torna-o impassível. Faça uso regular do silêncio para educar o seu ego, que tem o mau costume de falar o tempo todo.

Pratique a arte de não falar. Tome algumas horas para se abster de falar. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do TAO ilimitado, em vez de tentar explicar o que é o TAO. Progressivamente desenvolverá a arte de falar sem falar, e a sua verdadeira natureza interna substituirá a sua personalidade artificial, deixando aparecer a luz do seu coração e o poder da sabedoria do silêncio.

Graças a essa força, atrairá para si tudo o que necessita para a sua própria realização e completa libertação. Porém, tem que ter cuidado para que o ego não se infiltre… O Poder permanece quando o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se o ego se impõe e abusa desse Poder, este converter-se-á num veneno, que o envenenará rapidamente.

Fique em silêncio, cultive o seu próprio poder interno. Respeite a vida de tudo o que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo. Converta-se no seu próprio Mestre e deixe os demais serem o que têm a capacidade de ser. Por outras palavras, viva seguindo a via sagrada do TAO.


segunda-feira, outubro 10, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 5/5

- Masaharu Taniguchi - 


Finalmente, Manjusri, enviado como representante de Sakyamuni, chega ao palácio de Vimalakirti para visitá-lo, e o encontra descansando...

Manjusri - Prezado Vimalakirti, vim visitá-lo, como mensageiro de Sakyamuni.

Vimalakirti - Seja-bem-vindo, Manjusri.

Manjusri - Meu mestre Sakyamuni soube que o senhor está doente e mandou-me aqui para saber do seu estado. Ele quer saber se o senhor tem se tratado e está melhorando. Quer saber também desde quando o senhor está doente, e por que razão uma pessoa sábia como o senhor, que já alcançou o despertar, foi acometido por uma doença.

Vimalakirti - Então pensam que estou doente... Já que tocou no assunto, vamos falar de doença. Ela surge devido à ilusão. Julgar existente o que não existe já é o princípio da doença. Teimar em acumular o que não tem existência real e apegar-se a ele é tornar mais grave a doença. A doença origina-se na mente. O apego é que provoca a doença. Aquele que tem apego já é doente, ainda que a doença não esteja manifestada concretamente. Meu corpo é como um espelho: reflete as ilusões da mente do povo e mostra-as sob a forma de doença. O povo custa compreender a Verdade de que a doença se manifesta como reflexo da mente; por isso, cabe aos bodhisatvas demonstrar essa Verdade com seu próprio corpo. Os bodhisatvas despertos são pessoas que já "se graduaram" na escola chamada "este mundo" e portanto não precisam mais renascer neste mundo. Se eles aparecem de novo neste mundo como ser carnal e manifesta doenças em seu corpo, é para realizar o seu grande voto de salvar a humanidade, servindo-lhe de exemplo. O bodhisatva adoece porque a mente da humanidade está enferma. Estando enferma a mente dos pais, o filho adoece; estando enferma a mente da esposa, o marido adoece, e vice-versa; estando enferma a mente do chefe de família, os familiares adoecem; e estando enferma a mente dos familiares, o chefe de família adoece. Do mesmo modo, estando enferma a mente da humanidade, o bodhisatva desperto manifesta doença em seu próprio corpo.

Manjusri - Então, é por isso que o senhor está doente?

Vimalakirti - Sim. A doença de um bodhisatva é decorrente de sua grande misericórdia. Manifesta-se devido ao seu grande voto de purificar a mente da humanidade, mostrando em seu próprio corpo as consequências das atitudes mentais errôneas das pessoas.

Manjusri - (Mudando de assunto) Reparei que hoje não se encontra nenhum criado, em parte alguma desta grande mansão. Foram todos passear?

Vimalakirti - Por que perguntar isso agora, se todas as coisas são "nada"? Não sabe que o mundo búdico é o "nada absoluto"?

Manjusri - Por que o mundo búdico é o "nada absoluto"?

Vimalakirti - É porque é.

Manjusri - Como sabe que é?

Vimalakirti - Não existe "como". Se existisse o "como", não seria o "nada absoluto". Não se pode discutir o "nada absoluto".

Manjusri - Mas como compreender o "nada absoluto"?

Vimalakirti - Através do despertar espiritual.

Manjusri - E onde buscar o despertar espiritual?

Vimalakirti - Em Buda.

Manjusri - E onde se encontra Buda?

Vimalakirti - Buda está dentro de cada um de nós.

Manjusri - Quer dizer que o ser humano traz Buda dentro de si?

Vimalakirti - Sim. Cada ser humano traz em si a natureza búdica.

Manjusri - Então, não há necessidade de as pessoas buscarem o despertar, não é?

Vimalakirti - Compreendendo que a matéria é nada e que o corpo carnal não tem existência real, o homem percebe que a sua natureza é búdica. Essa natureza búdica não é a do homem carnal, e sim do homem verdadeiro, que é imaterial.

Manjusri - O homem verdadeiro é provido de tudo, e portanto nunca é carente.

Vimalakirti - Sim. Os bodhisatvas nunca são pobres. São infinitamente ricos.

Manjusri - Então, porque o senhor, sendo infinitamente rico, está sozinho nesta mansão, sem nenhum criado?

Vimalakirti - Este lugar não está vazio como parece. Meus criados são o demônio Papiyas e as bailarinas dele. Agora há pouco, elas estiveram me mostrando uma bela dança aí no jardim. A humanidade em ilusão passa repetidas vezes por este mundo e pelo mundo após a morte, num interminável processo de transmigração, perseguindo os prazeres dos sentidos. Os bodhisatvas, para salvar a humanidade em ilusão, acompanham-na nesse processo de transmigração. E a melhor maneira de fazer isso é ter como acompanhantes o demônio Papiyas e suas feiticeiras. Quer que lhe apresente um belo número de dança dessas feiticeiras-bailarinas?

Manjusri - Não, obrigado. Vim aqui como mensageiro do venerando Sakyamuni para saber em que estado o senhor se encontra, e preciso cumprir essa missão. Para que eu possa apresentar a ele um relatório detalhado, diga-me qual é a sua doença, quais são os sintomas, enfim, tudo sobre sua condição de saúde.

Vimalakirti - Quer que eu fale de minha doença? Pois saiba que doença não tem substância, e por isso não me é possível descrevê-la.

Manjusri - Mas não pode, ao menos, dizer se sofre de doença do corpo ou doença da mente?

Vimalakirti - Não é doença do corpo.

Manjusri - Como pode dizer isso com tanta certeza?

Vimalakirti - Porque sei que, na verdade, o corpo não existe.

Manjusri - Então, trata-se de doença da mente?

Vimalakirti - Também não, pois a mente em ilusão, sujeita a doenças, não tem existência real.

Manjusri - Porém, se mesmo assim o estado de doença estiver manifestado, o que se deve fazer para que esse aspecto desapareça? Ensine-me, para que eu possa transmitir aos outros.

Vimalakirti - Deve serenar a mente, perguntar a si próprio "quem está doente?" e reflexionar o seguinte: O "eu" fenomênico é originariamente inexistente. O corpo não tem existência real. Como o corpo não tem existência real, a doença que nele se manifesta também não tem existência real. Minha doença, assim como a doença de todas as pessoas, não passa de falso aspecto. Quando se reflexiona assim e se compreende realmente que o corpo carnal e o "eu" fenomênico não têm existência real, desaparece o apego; desaparecendo o apego, desatam-se as "amarras da mente", recupera-se a liberdade total; e recuperando-se a liberdade total, a doença se extingue. Quando isso ocorre, o bodhisatva manifesta sua grande misericórdia e passa a salvar as pessoas. Ele é pleno de amor e sabedoria, e por isso, para salvar as pessoas, faz uso de todos os expedientes, sem se prender a um determinado princípio rígido.

Manjusri - Que significa estar preso com as "amarras da mente"?

Vimalakirti - Está preso com as "amarras da mente" aquele que ficou com a mente tolhida pela constatação de que o corpo carnal não é existência verdadeira e isola-se num local ermo ou num mosteiro. Quem tem a mente plenamente livre não se isola deste mundo nem das pessoas, justamente por saber que o corpo carnal não é existência verdadeira.

Está preso com as "amarras da mente" aquele que, apesar de querer praticar o bem, não consegue proporcionar felicidade aos outros, por estar com a mente tolhida pela ideia fixa de praticar o bem. Quem tem a mente plenamente livre pratica o bem com espontaneidade, mesmo onde prolifera o mal, e assim proporciona benefícios a muita gente.

Está preso com as "amarras da mente" aquele que não consegue salvar os outros por julgá-los com uma sabedoria fria e destituída de amor. Quem tem a mente plenamente livre salva as pessoas com sabedoria acompanhada de amor. O amor vivifica a sabedoria, e a sabedoria vivifica o amor. Ser bodhisatva é ser virtuoso e sábio, levando uma vida normal como uma pessoa comum. Ser bodhisatva é conviver com os demônios e subjugá-los. Por isso, eu sempre uso o demônio Papiyas e suas feiticeiras como um expediente ou um meio para manifestar o amor e conduzir as pessoas à salvação. (Levanta a mão e faz um sinal. Surgem, como por encanto, um grupo de lindas feiticeiras)

Feiticeiras - O senhor nos chamou?

Vimalakirti - Sim. Faça cair uma chuva de flores, e cantem e dancem sob essa chuva.

Feiticeiras - Sim, senhor.

(Começam a chover pétalas em profusão. As feiticeiras dançam e cantam, uma de cada vez)

Feiticeira 1 - Usando sabedoria e expedientes adequados, o Bodhisatva salva os homens.

Feiticeira 2 - Ele surge sob a forma de uma ninfa sedutora, e tenta os que perseguem os prazeres da carne.

Feiticeira 3 - Ele surge sob a forma de dinheiro, jóias e outros bens, e tenta os que perseguem a riqueza material.

Feiticeira 4 - Ele surge sob a forma de terapias e medicamentos, e tenta os enfermos.

Feiticeira 5 - Tenta os homens para que alcancem o despertar superando as tentações.

Feiticeira 6 - Nada há de extraordinário em crescerem lótus na água.

Todas as feiticeiras - Extraordinário é crescerem lótus no meio do fogo.


Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 86-94

sexta-feira, outubro 07, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 4/5

- Masaharu Taniguchi - 


DANÇA DAS FEITICEIRAS

Num aposento amplo e luxuoso, Vimalakirti está dormindo. Nos arredores desse aposento, tem-se um jardim espaçoso e tranquilo, onde o bodhisatva Jicei está sentado numa pedra e concentrado na prática da meditação Zen. Eis, então, que surgem no jardim seis lindas e sedutoras feiticeiras...

(*Nota: Bodhisatva: aquele que busca o seu despertar espiritual e ao mesmo tempo se dedica à salvação dos semelhantes)

Feiticeira 1 - Vamos dançar. Olhem! Lá está o bodhisatva Jicei, praticando meditação.

Feiticeira 2 - Vamos alegrá-lo, mostrando-lhe a nossa bela dança.

Feiticeira 3 - Mesmo estando com os olhos fechados, ele poderá, certamente, apreciar nossa dança com os olhos da mente.

Feiticeira 4 - Nós sempre aparecemos assim quando ele está praticando a meditação Zen.

Feiticeira 5 - Transmitimos a ele nossas vibrações mentais.

Feiticeira 6 - Isso mesmo.

Feiticeira 1 - Mentalizamos para que ele nos veja com os olhos da mente.

Feiticeira 2 - Na vez anterior, transmitimos-lhe vibrações mentais para mostrar o belo e majestoso aspecto do paraíso, não foi?

Feiticeira 3 - Foi sim. E ele ficou muito contente, dizendo que Buda lhe revelou o paraíso.

Feiticeira 4 - Isso me parece um tanto esquisito. Como é que ele, sendo um bodhisatva, não consegue distinguir o paraíso verdadeiro do paraíso falso?

Feiticeira 5 - Não nos cabe questionar isso. Vamos cantar e dançar!

Feiticeira 6 - Sim, vamos cantar sob a regência do mestre Papiyas.

Surge Sakra Devanam Indra, que na verdade é o demônio Papiyas disfarçado. Ele começa a reger o coro das feiticeiras. No jardim, o bodhisatva Jicei está absorto em sua meditação, e no aposento Vimalakirti continua dormindo. As feiticeiras cantam e dançam...

Canto das feiticeiras:

"Vindo a primavera luminosa,
mil flores desabrocham. 
Saudando o desabrochar das flores, mil pássaros gorjeiam.
Atraídas pelos gorjeios dos pássaros,
belas donzelas entoam o seu canto.
O canto das donzelas
é a chave que abre o paraíso búdico,
é a chave que abre o paraíso búdico..."


Bodhisatva Jicei - Oh! Que beleza! Eu estava vendo o belo paraíso búdico. Esta é a segunda vez que tive a bênção de ter a visão do maravilhoso paraíso. Com certeza, enquanto me concentrava na meditação, minha alma viajou até lá, transportada pela flor de lótus de mil pétalas. Foi uma visão de beleza indescritível!

(Subitamente, como que despertando de um sono, vê as feiticeiras dançando no jardim)

Oh, mas que é isso? Outra vez estou vendo a dança das belas donzelas! Continuo tendo a mesma visão, com os olhos fechados ou abertos! Que coisa estranha! Então essa visão maravilhosa não era a do paraíso búdico, e sim deste mundo?!

(Percebe a presença de Sakra Devanam Indra, na verdade o demônio Papiyas)

Oh! o senhor é Sakra Devanam Indra...

Sakra Devanam Indra (falso) - Salve, bodhisatva Jicei! Como sempre, empenhado firmemente no aprimoramento espiritual, heim? Para recompensar a sua diligência, escolhi as mais lindas bailarinas e trouxe-as aqui para apresentar-lhe uma bela dança. Refletindo bem,  cheguei à conclusão de que este mundo é a terra búdica, é o paraíso. A bela dança destas encantadoras bailarinas faz parte das delícias do paraíso. Vimalakirti também disse isso. A felicidade paradisíaca consiste na satisfação dos cinco sentidos mundanais, que são: 1) desejo de possuir bens materiais; 2) desejo carnal; 3) desejo de comer e beber; 4) desejo de fama e poder; e 5) desejo de dormir.

De que adiante fugir desses cinco desejos e empenhar-se na prática da meditação Zen, isolando-se de tudo e de todos? O paraíso não se encontra no mundo da abstração, e sim dentro da realidade concreta. Não se alcança através de meditações ou divagações, e sim pela satisfação dos cinco sentidos concretos, a que me referi. A felicidade do homem não consiste em manter-se afastado da realidade concreta e viver a meditar num lugar isolado, em busca do imaginário. Veja essas lindas bailarinas! Repare na delicadeza da pele delas! Na maciez da carne delas! O paraíso está na deliciosa sensação que aquela pele e aquela carne oferecem. Darei a você uma dessas bailarinas que mais lhe agradar. Pode escolher à vontade.

Feiticeira 1 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, eu adoro seus olhos! Eles tem um brilho puro como o das estrelas do firmamento. Fite-me com esses olhos e veja dentro de meus olhos a chama da paixão!

Feiticeira 2 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, sua fisionomia é luminosa. Que belo rosto o senhor tem! Não posso conter o desejo de roçar minha face nesse rosto lindo!

Feiticeira 3 - (Em tom sedutor) Eu adoro esses lindos lábios, rosados e viçosos. Eles trazem ocultos uma paixão ardente. Sei que o senhor não é um homem frio. Gostaria de beijar seus lábios, ainda que apenas uma vez em toda a minha vida.

Feiticeira 4 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, que ombros e braços musculosos o senhor tem! Eles revelam a sua virilidade. Gostaria de ser abraçada fortemente com esses braços vigorosos.

Feiticeira 5 - (Em tom sedutor) Bodhisatva Jicei, como é musculoso o seu peito, que vejo pelas frestas de sua veste. Que exercícios praticou para ficar assim? Esse peito musculoso parece resistente como um muro de pedra. Gostaria de enroscar-me nele, como uma hera que se enrosca no muro.

No aposento, Vimalakirti acorda, levanta-se e fica observando, em silêncio, a cena que está se passando no jardim...

Feiticeira 6 - (Em tom sedutor) Eu admiro suas pernas. Que coxas musculosas! São vigorosas e têm um brilho que me faz lembrar uma luzidia estátua de bronze. Gostaria de ver a beleza desses músculos em movimento. Gostaria de me enroscar como uma serpente nessas coxas, para testar a força de seus músculos. Meu querido bodhisatva, o senhor corresponderá à minha paixão, não é?

Bodhisatva Jicei - Não tentem seduzir-me com os prazeres dos sentidos! Sou discípulo de Buda e não devo sucumbir às tentações da carne. Sakram Deva Indra, afaste essas mulheres daqui imediatamente! Embora pareçam belas, elas têm o corpo cheio de impurezas!

Vimalakirti - Não se pode negar a beleza das belas mulheres. É preciso ter naturalidade de atitude mental, vendo as coisas e os fatos como eles são, ou seja, reconhecendo a beleza naquilo que é belo e a fealdade naquilo que é feio. É nisso que consiste o despertar. (Voltando-se para o falso Sakra Devanam Indra) Ei, você não é o verdadeiro Sakra Devanam Indra! É o demônio Papiyas disfarçado, não é?

Sakra Devanam Indra (falso) - Não, não! O senhor está enganado...

Vimalakirti - É inútil tentar enganar a mim. Não sabe que meus "olhos mentais" são capazes de perscrutar qualquer coisa, em qualquer lugar? Nem mesmo você, demônio Papiyas, será capaz de confundir os olhos de minha mente!

(Vendo-se desmascarado, o demônio Papiyas tenta fugir.)

Vimalakirti - Não se mova, demônio! (fazendo um gesto mágico com os dedos, e depois desenha com a mão um círculo no ar)

Demônio Papiyas - (Fica imóvel como se tivesse virado uma estátua)

Vimalakirti - Quer fugir? Pois tente! Eu o "amarrei" com o poder de minha mente, e quando mais você tentar fugir, mais apertada ficará essa "corda invisível".

Demônio Papiyas - (gemendo) Aaaai...

Vimalakirti - Não tenho a intenção de maltratá-lo O que eu quero é que você deixe essas moças comigo. São todas muito bonitas. Deixe-as, e eu permitirei que você volte ao seu palácio.

Demônio Papiyas - Mas... mas...

Vimalakirti - Mas, o quê?

Demônio Papiyas - O que o senhor fará com elas, se eu as deixar aqui?

Vimalakirti - Farei com que elas encontrem o prazer búdico.

Demônio Papiyas - O que é prazer búdico?

Vimalakirti - É o prazer de se viver em conformidade com os ensinamentos de Buda. Farei com que essas moças extingam todos os pensamentos impuros com o fogo da Verdade. Farei com que compreendam que o corpo carnal não tem existência real e que, portanto, são também vãos os prazeres dos sentidos. Os prazeres que ensinarei a elas são bem diferentes do que você lhes ensinou lá no seu palácio.

Demônio Papiyas - É uma pena, mas...

Vimalakirti - Mas o quê?

Demônio Papiyas - Acho que não tenho outra saída, a não ser deixar essas moças com o senhor.

Vimalakirti - Então vou desatar essas "cordas invisíveis. Pronto! Já pode ir!

Vimalakirti - (Olha para as feiticeiras) Venham, a partir de hoje, vocês vão ficar comigo. Devem, pois, seguir meus ensinamentos para conhecer o prazer búdico.

As feiticeiras - Mestre Vimalakirti, o que é prazer búdico?

Vimalakirti - É o prazer que se alcança ouvindo as palavras da Verdade e apreendendo a perfeição do Eu verdadeiro (Jisso). A verdadeira felicidade não consiste nos prazeres dos sentidos. O corpo carnal não tem existência real, portanto, os prazeres do corpo carnal também não têm existência real. Mas como eles parecem reais, as pessoas em estado de ilusão anseiam pelos prazeres do corpo e vivem a persegui-los, sem perceber que estão buscando prazeres vãos. É como se tentassem saciar a fome comendo o ar, ou mitigar a sede tomando água salgada: jamais estarão realmente satisfeitos. O prazer búdico consiste no estado em que a pessoa não se prende ao aspecto fenomênico, ao aspecto aparente, aos prazeres dos sentidos e às paixões mundanais, e contempla unicamente a Essência perfeita de seu ser. Em outras palavras, é o estado em que a pessoa, não obstante sua condição de um ser carnal a nível fenomênico, não se prende a seu corpo e se rejubila com a perfeição do seu Eu verdadeiro. Nesse estado, é-se feliz sempre, até mesmo quando o corpo carnal está sofrendo enfermidade e dores. A felicidade permanente só se alcança quando se vive no estado de beatitude búdica. Quem vive no estado de beatitude búdica é feliz porque não tem apegos e só busca aquilo que lhe é adequado, no tempo adequado; é feliz porque rejubila-se com a pureza espiritual, e jamais se deixa levar pelo ódio ou ira. Se compreenderam o que eu lhes disse, sigam-me!

Demônio Papiyas - Quero que me devolva essas moças.

Vimalakirti - Você havia concordado em deixá-las comigo.

Demônio Papiyas - Mas, com que cara vou voltar ao palácio, sem levá-las comigo?

Vimalakirti - Demônio Papiyas, você não passa de um fraco!

Demônio Papiyas - Por favor, atenda ao meu pedido! Dizem que "bodhisatva" é aquele que nunca deixa de atender aos que lhe suplicam algo.

Vimalakirti -Você é um hábil argumentador. Está bem, já que você insiste tanto, vou devolver-lhes as moças. (Voltando-se para as feiticeiras.) Podem ir! Voltem ao palácio do demônio Papiyas.

As feiticeiras - Mas não temos mais vontade de buscar os prazeres dos sentidos. Mesmo que voltemos ao palácio do demônio Papiyas, não temos mais o que fazer. Mestre Vimalakirti, diga-nos o que devemos fazer.

Vimalakirti - Esperem um pouco (Pega uma vela, acende-a com o lume do candelabro, coloca-a num pequeno castiçal.) Vou dar isto a vocês.

Feiticeira 1 - (Recebe o castiçal) Que devemos fazer com isto?

Vimalakirti - Este é o lume infinito, símbolo da Luz da Verdade que extingue a ilusão. Representa a Luz do despertar espiritual, que jamais se apagará. Com uma vela acesa pode-se acender milhões de outras velas. Assim também é a luz do despertar espiritual. Ela é infinita porque, por mais que a distribuamos aos outros, não enfraquece. Pelo contrário, intensifica-se mais e mais. Se vocês, que despertaram para a Verdade, transmitirem aos outros a Luz da Verdade, até mesmo o palácio do demônio Papiyas tornar-se-á um lugar pleno de Luz. O mundo ao nosso redor é reflexo de nossa própria mente. Aonde quer que vamos, o ambiente ao nosso redor se preencherá de Luz, contanto que mantenhamos em nossa mente a Luz da Verdade. Agora voltem para o palácio de onde vieram. Chegou o momento em que até mesmo no palácio do demônio Papiyas irá brilhar a Luz da Verdade.

(O lume do castiçal que Vimalakirti deu às feiticeiras torna-se extremamente intenso. O jardim é iluminado por uma claridade quase ofuscante)

Demônio Papiyas - Ai! Reduza um pouco essa luz, por favor! Diante da Luz da Verdade tão intensa, as forças me fogem e não vou poder voltar ao meu palácio. Reduza a luz, por caridade!

Vimalakirti - Você é um fracote! Ha, ha, ha! Está bem! Está bem! Vou diminuir um pouco a claridade. Assim está bom para você?

E assim, o demônio Papiyas e as feiticeiras retornam ao castelo. Finalmente, Manjusri, enviado como representante de Sakyamuni, chega ao palácio onde Vimalakirti está descansando...


Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 75-86 

terça-feira, outubro 04, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 3/5

- Masaharu Taniguchi - 


OS BODHISATVAS

Depois que seus discípulos, Hoosháku e demais pessoas se retiram, Sakyamuni permanece sozinho e entra em estado de concentração espiritual. Ao adentrar em elevado estado de meditação, ouve-se um suavíssimo coro celestial e revela-se o majestoso paraíso búdico. Em meio a uma luz intensa, aparecem os bodhisatvas Maitreya, Koogon-Dooji, e Manjusri, como que surgindo do nada...

Maitreya - Eis-me aqui, atendendo a seu chamado.

Sakyamuni - Oh!, Você já veio?

Maitreya - Já sei do que se trata, por intuição.

Sakyamuni - Você é mesmo admirável!

Maitreya - Sinto-me honrado com essas palavras, mas eu também não sou a pessoa qualificada para desempenhar a tarefa em questão.

Sakyamuni - Por quê?

Maitreya - Certa vez, estava eu ensinando a um grupo de pessoas o que se deve fazer para alcançar o despertar espiritual definitivo, quando Vimalakirti surgiu do nada com o seu poder sobrenatural, e me disse:

"Soube que você recebeu de Sakyamuni o aviso de que será Buda. Pergunto-lhe, pois: isso ocorrerá na vida presente ou na vida futura? Saiba que não é possível tornar-se Buda no tempo presente, porque o fluir do tempo é incessante, e o que é presente agora, logo será passado. Também não será possível tornar-se Buda no futuro, porque quando se alcança o futuro, ele já será presente, o qual, por sua vez, logo será passado. Assim sendo, você não pode tornar-se Buda em nenhum ponto do curso do tempo. Então, quando é que você pode se tornar Buda? Com o surgimento da Perfeição Absoluta no seu interior? Acontece que a Perfeição Absoluta é eterna, não tem princípio nem fim. A essência de todos os seres é a Perfeição Absoluta. Nada existe além da Perfeição Absoluta. Meu caro Maitreya, assim como seu Eu verdadeiro é a Perfeição Absoluta, o Eu verdadeiro de todos os seres é a Perfeição Absoluta. Você já é Buda, e todos os seus semelhantes também o são. A ilusão não existe e jamais existiu, não sendo, pois, algo que surge e posteriormente se extingue. Em sua essência, o ser humano é livre da ilusão, e por essa razão não há quem precise despertar. Entretanto, para facilitar a compreensão desta Verdade, podemos usar um expediente verbal, dizendo: O despertar não se alcança através do corpo, nem através da mente. O despertar consiste em transcender o corpo e a mente; consiste em alcançar o estado de total desprendimento, abandonando todos os apegos e obsessões. Isso significa não se prender nem mesmo ao afã de tornar-se desprendido, e desobstruir completamente o interior de si próprio. Desobstruir-se completamente não resulta em esvaziamento. Pelo contrário, com isso revela-se o Eu verdadeiro sem distorção, vívido e vigoroso".

Ouvindo isso, muitas pessoas alcançaram o despertar. Diante da sabedoria de Vimalakirti, não me considero qualificado para ir visitá-lo, representando o senhor e os meus colegas.

Sakyamuni - Então, Koogon-Dooji, vá você, como nosso representante.

Koogon-Dooji - Quem sou eu para merecer uma missão tão importante, se até o bodhisatva Maitreya não se considera qualificado para aceitá-la? Eu também me sinto insignificante diante da sabedoria de Vimalakirti. Certa vez, encontrei-me casualmente com ele. Cumprimentei-o e perguntei-lhe "De onde o senhor está vindo?", ao que ele me respondeu "Estou vindo da academia".

"Que academia?", perguntei. E ele disse: "Tudo é academia para o aprimoramento espiritual: a ilusão nos faz chegar à conclusão de que ela não tem existência real e que existe unicamente a Verdade; as paixões mundanais nos conduzem à compreensão de que elas não são existências verdadeiras e que existe unicamente a sabedoria búdica; os pecadores nos conduzem à compreensão de que o pecado não tem existência real e que existe unicamente o ser búdico perfeito e imaculado; todos os aspectos fenomênicos são lições para o aprimoramento espiritual, pois nos conduzem à compreensão de que eles não têm existência real e que existe unicamente a Essência absoluta e perfeita; a treva é uma lição que nos conduz à compreensão de que ela não tem existência real, e que existe unicamente a luz; a luz é uma lição que nos conduz à compreensão de que só ela é existência real e que a treva é inexistente. Os bodhisatvas vieram para pregar essas Verdades e conduzir as pessoas à salvação".

Sinto-me insignificante diante de Vimalakirti, que é capaz de fazer da treva uma lição para o aprimoramento espiritual.

Manjusri - Venerando Mestre, já sei para que o senhor me chamou. O mestre Vimalakirti é, de fato, um grande homem, que apreende a Essência absoluta e perfeita das pessoas e lhes prega os pontos fundamentais da Santa Doutrina. É um homem sapientíssimo, dotado de uma extraordinária fluência verbal e uma admirável capacidade de argumentação. Ele domina os demônios usando livremente o seu poder espiritual. É, em suma, um homem que já alcançou a iluminação. Sentir-me-ei honradíssimo em visitá-lo, saber acerca do seu estado de saúde e conversar com ele a respeito da Essência perfeita do ser humano.

Sakyamuni - Muito bem! Então vá, Manjusri.

Manjusri - Irei imediatamente.


Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 69 -73

domingo, outubro 02, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 2/5

- Masaharu Taniguchi - 


Sakyamuni - Vocês conseguiram ver a beleza do paraíso búdico?

Hoosháku - Sim senhor. Vendo com meus próprios olhos o tão majestoso paraíso búdico, sinto que acabo de despertar espiritualmente. Compreendi que este mundo é realmente "reflexo da mente".

Maudgalyayana - Compreendi que a beleza deste mundo não chega nem a milionésima parte da beleza do paraíso búdico.

Sariputra - Venerando Mestre, peço-lhe perdão por ter dito, há pouco, que este mundo é um lugar feio e cheio de imperfeições, sem saber que, na verdade, era o mundo búdico tão belo e majestoso.

Sakyamuni - Não precisa se desculpar. Você simplesmente expôs uma dúvida que a maioria das pessoas tem. Por tê-la expressado, criou a oportunidade para que não só você próprio, como também os outros ampliassem o conhecimento da Verdade. Saiba, porém, que o belo aspecto do paraíso búdico que mostrei a vocês não passa de uma pequena amostra de sua real magnificência. O paraíso búdico não é um mundo tridimensional, e sim um mundo de dimensões infinitas, que o ser humano não pode apreender nem com os cinco sentidos, nem com o sexto sentido. Por isso lhes mostrei sob o aspecto tridimensional que pode ser captado pelos sentidos.

Hoosháku - Graças ao que o senhor nos mostrou, já temos a ideia de como é esplendoroso o paraíso búdico.

Sakyamuni - Sr. Hoosháku, ultimamente não tenho visto o seu amigo Vimalakirti. Como está ele?

Hoosháku - Ele tem estado doente, Venerando.

Sakyamuni - Como?! Ele está doente? Humm... deve haver um motivo para isso. Com certeza, ele manifestou de propósito a doença em seu próprio corpo como um expediente para conduzir os outros à compreensão da Verdade. (Virando-se para os discípulos) Upali, sei que você conhece Vimalakirti, pois disse que o encontrou há algum tempo. Vá visitá-lo.

Upali - Creio não ser merecedor de tal privilégio. Vou explicar por quê: Certa vez, deparei com um de meus discípulos e uma jovem mulher, num colóquio amoroso junto a uma fonte. Como de praxe, expliquei-lhe que o corpo carnal, mesmo tendo uma bela aparência, traz imundícies em seu interior, e aconselhei-o a banir as paixões mundanais. Aí surgiu Vimalakirti, e explicou que não é preciso se empenhar em combater as paixões mundanais porque elas não têm existência real, e exortou os dois para que se tornassem um casal exemplar e construíssem o paraíso neste mundo. Depois, vendo os jovens apaixonados afastarem-se juntos, cheios de felicidade, ele disse que neles estavam refletidos o paraíso búdico e a imagem de Buda, e que todos estão salvos desde o princípio, pois este mundo é, em sua essência, o mundo búdico repleto de Luz. Aquelas palavras me abriram os olhos da mente. A sabedoria de Vimalakirti é muito maior que a minha, e sinto-me indigno de visitá-lo como representante do senhor e de meus colegas.

Sakyamuni - Pelo que você me contou, percebo que Vimalakirti alcançou um nível espiritual muito elevado. Ele apreendeu a Essência perfeita do ser, transcendendo o fenômeno. Sim, ele tem razão: todos estão salvos desde o princípio.

Subhuti, de todos os meus discípulos, você é o que melhor compreende a inexistência do fenômeno e apreende a Essência absoluta e perfeita dos seres. Portanto, considero-o a pessoa mais qualificada para visitar Vimalakirti como nosso representante.

Subhuti - (Hesitante) Agradeço-lhe a consideração, mas sou indigno de tão importante missão.

Sakyamuni - (Sorrindo) Por quê? Explique-nos.

Subhuti - Certo dia, eu andava pela cidade fazendo mendicância religiosa nas casas dos ricos. A certa altura, bati à porta de uma mansão para pedir um prato de comida. Olhando para o rosto da pessoa que veio me atender, constatei, surpreso, que era Vimalakirti.

Sakyamuni - Ah, isso é muito interessante. E depois?

Subhuti - Vimalakirti pegou minha tigela, levou-a para dentro, e depois trouxe-a preenchida de comida. Mas continuou retendo a tigela. Por isso, estendi a mão, mas mesmo assim ele não me entregou a tigela.

Sakyamuni - Humm... E então?

Subhuti - Ele disse que tinha algo a me dizer antes de me entregar a tigela. Perguntou-me: "Por que você só percorre as casas dos ricos para fazer a mendicância religiosa, se seu mestre Sakyamuni ensina que, nos tempos de escassez de alimentos, é preciso intensificar a prática da mendicância religiosa e pedir esmolas com mais assiduidade justamente na casa dos pobres?"

Sakyamuni - E o que você respondeu?

Subhuti - Eu respondi assim: "Os ricos têm muitas posses. Se têm muitas posses, é porque são gananciosos. Visito as casas dos ricos para fazer a mendicância religiosa com intuito de ajudá-los a se tornarem menos gananciosos."

Sakyamuni - Ele não aceitou esse argumento, não é?

Subhuti - Não. Ele me fez a seguinte admoestação: "A ganância não se restringe apenas aos ricos. Há também muitos pobres que são gananciosos. Estes são pobres justamente porque perderam a liberdade da mente, perseguindo avidamente os objetos de seu desejo e ficando obcecado por eles. Devemos tratar imparcialmente os ricos e os pobres. Devemos fazer a mendicância religiosa tanto na casa dos ricos como na dos pobres para eliminar a ganância deles". Foi isso que Vimalakirti me disse.

Sakyamuni - Depois de fazer-lhe esse sermão, com certeza ele lhe perguntou: "O alimento tem existência real ou não?".

Subhuti - Ele me perguntou exatamente isso. Como o senhor sabe?

Sakyamuni - Sei de tudo. Mas conte-me como você respondeu a tal pergunta.

Subhuti - Eu respondo que "o alimento não tem existência real". Então Vimalakirti me perguntou: "Se sabe que o alimento não tem existência real, por que viestes pedir um prato de comida?".

Sakyamuni - E dessa vez, o que você respondeu?

Subhuti - As palavras dele me deixaram confuso, e fiquei hesitando, sem saber o que responder. Então, ele assim explicou o sentido da prática de mendicância religiosa: "Compreender a irrealidade do corpo carnal, sem experimentar a sua destruição; pedir um prato de comida, mesmo sabendo que ele é algo que não tem existência real – é nisso que consiste a mendicância religiosa. Saber que tanto o corpo como o alimento são irreais, e no entanto comer essa comida irreal para acolher o sentimento caridoso do doador; com isso assimila-se, não a comida material, mas a misericórdia búdica.

Na verdade, não existe nem o que dá esmola, nem o que recebe esmola, pois em sua Essência todos são iguais. A verdadeira mendicância religiosa consiste em lidar com a vida mundanal, ciente da perfeição e igualdade de todos os seres e sua Essência. Consiste em não ficar obcecado com a ideia de irrealidade, embora sabendo que o fenômeno é irreal, e em contemplar a Essência perfeita e absoluta de todas as pessoas, mesmo estando no mundo fenomênico. Praticar a mendicância religiosa não é tornar-se um homem comum, mas também não é distanciar-se do homem comum; não é ser santo, mas também não é distanciar-se da santidade; é ser transcendente e absolutamente livre no agir. Se você está preparado para seguir o mestre dos hereges, cair no inferno e tornar-se instrumento do demônio, receba esta comida".

Foi isso que Vimalakirti disse a mim.

Sakyamuni - Ele é um grande homem.

Maha-Kasyapa - Que coisa estranha Vimalakirti lhe disse, hein, irmão Subhuti! E você recebeu dele essa comida, que o levaria a tornar-se seguidor do mestre herege e o faria cair no inferno?

Subhuti - Não. Não ousei ticar nela. Não entendi bem o que Vimalakirti queria dizer com aquilo, nem soube como responder. Por isso, quis ir embora deixando lá mesmo a minha tigela.

Maha-Kasyapa - E que fez Vimalakirti?

Subhuti - Ele me disse: "Pegue sua tigela e vá sem temer coisa alguma". E disse mais: "Todo fenômeno é como miragem. Não tema, mesmo que ouça palavras ameaçadoras de um homem fenomênico que, na verdade, é Buda dissimulado. As palavras deste mundo são para expressar coisas e fatos fenomênicos, e não para expressar a Essência absoluta e perfeita. O sábio ouve aquilo que está além das palavras e vê aquilo que está além das letras. Não se prenda ao que eu lhe disse, e pegue esta tigela". Quando ele terminou de falar, ouviu-se um coro celestial executado por inúmeros entes celestiais que naquele momento despertaram para a Verdade.

Pelo fato que acabei de narrar, não me sinto qualificado para visitar Vimalakirti, representando o senhor e meus colegas.

Sakyamuni - Rahula, gostaria que você que é meu filho, fosse visitar Vimalakirti como meu representante.

Rahula - Venerado pai e Mestre, sinto-me honrado pela consideração, mas eu também me considero indigno de comparecer à presença de Vimalakirti.

Sakyamuni - Por quê?

Rahula - Certa vez, quando eu estava pregando a doutrina numa praça pública, chegaram muitos homens ricos e me perguntaram: "O senhor é filho de Sakyamuni, portanto um príncipe. No entanto, renunciou à coroa e tornou-se monge. Que vantagens o senhor tem, optando pela vida monástica?". Eu comecei a explicar, como de praxe, os méritos da vida monástica. Aí veio Vimalakirti e me disse: "Rahula, a vida monástica transcende as vantagens ou os méritos. É um grande erro optar pela vida monástica visando vantagens. Tornar-se monge é justamente desfazer-se do mesquinho desejo de alcançar graças. O verdadeiro monge é aquele que tem consciência de que não são existências reais nem as graças nem o eu que as recebe, e vive natural e espontaneamente segundo o fluir da Grande Vida. Um monge que vive calculando o montante dos donativos e esperando favores não é um verdadeiro monge, ainda que vista hábito. Pode-se dizer, portanto, que mesmo entre as pessoas comuns existem aqueles que são moco verdadeiros monges, e mesmo entre os monges existem aqueles que não passam de homens comuns".

Ouvindo estas palavras de Vimalakirti, os homens ricos perguntaram: "Então, para ser monge, a pessoa não precisa abandonar sua própria casa, não é?". E Vimalakirti respondeu: "O essencial é abandonar a atitude mental mesquinha de considerar a casa material como sua morada e passar a considerar o Universo como seu lar". Ouvindo isso, aqueles homens ricos conscientizaram a natureza búdica de si mesmos e alcançaram o despertar espiritual. Diante da sabedoria de Vimalakirti, sinto-me tão pequeno que não saberia o que dizer a ele.

Sakyamuni - E você, Ananda? Você é o mais erudito de todos os meus discípulos. Com certeza poderá ir visitar Vimalakirti e manter uma conversa com ele, de igual para igual.

Ananda - Nisso o senhor está enganado, pois eu também não me sinto capacitado para isso. Certa vez, ele derrotou também a mim, com seus argumentos.

Sakyamuni - Sobre que assunto?

Ananda - Sobre a questão referente a doença. Mestre, lembra-se de quando o senhor esteve meio adoentado, há algum tempo? Pois naquela ocasião, desejando conseguir leite de vaca, que lhe faria muito bem, saí de madrugada para fazer a mendicância religiosa e parei diante da mansão de um brâmane. Nesse momento chegou Vimalakirti, e me perguntou: "Ananda, por que você saiu tão cedo para fazer mendicância religiosa?". E eu, inadvertidamente, respondi: "É que eu pretendo conseguir leite de vaca para oferecer ao meu mestre, visto que ele parece estar meio adoentado". Então Vimalakirti me disse: "Não diga bobagem, Ananda! Não sabe que o corpo de Sakyamuni é corpo invulnerável e indestrutível? Seu mestre Sakyamuni é um ser iluminado que venceu todos os carmas negativos e paixões mundanais. É impossível surgir doença no corpo invulnerável e indestrutível do ser iluminado. Não faça, diante de ninguém, afirmações como essa de que Sakyamuni encontra-se adoentado. Jamais profira palavras que gerem ilusões. Mesmo aqueles que não tenham acumulado virtudes e boas ações, raramente adoecem. Assim sendo, é lógico que os seres iluminados estão totalmente imunes a doença. Ananda, o corpo de seu mestre não é um corpo carnal, e sim corpo espiritual; não é corpo maculado, e sim corpo indestrutível. É impossível que Sakyamuni, cujo corpo é espiritual, imaculado e indestrutível, fique adoentado, não é verdade? Você, com essa conduta errônea que está tomando, pode semear dúvidas na mente dos outros. Portanto, é melhor afastar-se daqui o mais rápido possível".

Como podem perceber, não estou à altura da admirável capacidade de argumentação de Vimalakirti, razão pela qual não me sinto capaz de desempenhar a tarefa em questão.

Sakyamuni - Não há nenhum voluntário que se ofereça para ir visitar Vimalakirti como nosso representante? Vejo que nenhum dos discípulos aqui se habilita a cumprir essa tarefa. Que pena... Já que é assim, vocês estão dispensados. Vou chamar o bodhisatva Maitreya.
Cont...

Do livro: "A Verdade da Vida, volume 32"; pp. 57-67

quinta-feira, setembro 29, 2016

Contos Sacros: Sakyamuni e Vimalakirti - 1/5

- Masaharu Taniguchi -


O IMACULADO PARAÍSO BÚDICO

Um canto soa através das árvores, no princípio distante, e depois torna-se mais próximo...

Discípulo A - Alguém está cantando.
Discípulo B - É mesmo! Quem será?

Ouve-se a voz entoando o Canto da Vida Eterna:

"Este corpo é como o arco-íris.
O arco-íris não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a bolha.
A bolha não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a miragem.
A miragem não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como o eco.
O eco não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como o relâmpago.
O relâmpago não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a nuvem.
A nuvem não é perene
e em breve desaparece.

Este corpo é como a correnteza.
A correnteza é inconstante
e se escoa sem parar.

Este corpo é como a bananeira:
parece que é sólido,
mas não tem consistência.

Este corpo é como o fogo:
parece que transmite calor,
mas a tudo consome e se extingue.

Este corpo é como o sonho:
parece que é real,
mas é irreal e efêmero.

Este corpo vem da ilusão:
parece ter substância,
mas é vazio e efêmero.

Este corpo é desamparado;
parece ter amparo,
mas logo se desmorona.

Este corpo não possui mente;
embora pareça possuí-la,
não a possui, tal qual entulho.

Este corpo não tem vida;
como palha carregada pelo vento,
é arrastado pela força do carma.

Este corpo é impuro;
embora pareça formoso,
está repleto de impurezas.

Este corpo é transitório;
embora pareça duradouro,
um dia terá de morrer.

Não é existência verdadeira
o que some como a bolha,
o arco-íris, a miragem, o eco.

Não tomeis por vosso Eu
o que não é existência verdadeira;
jamais o considereis vosso Eu.

O que é efêmero não é o vosso Eu.
O que morre não é o vosso Eu.
O que desaparece não é o vosso Eu.

O que é eterno, eis o Eu!
O que é imortal, eis o Eu!
O que é universal, eis o Eu!"


Discípulo A - Quem está cantando é o discípulo de Vimalakirti.

Discípulo B - Ah! É por isso que aquele canto soou tão sublime!

Discípulo A - Senti-me como se estivesse ouvindo o sermão do venerando Sakyamuni – "Este corpo é como o eco, que não é duradouro e em breve se extingue." Realmente, o eco se apaga em breves instantes. Já não se ouve o eco daquele canto.

Discípulo B - "Este corpo não tem vida; como palha carregada pelo vento, é arrastado pela força do carma". É isso mesmo. Cada manhã, varremos as folhas secas deste pomar, mas no dia seguinte o chão está novamente coberto delas. Assim é o desenrolar do carma. As folhas secas que cobriam o chão ontem não são as mesmas que o cobrem hoje; e as folhas que cobrem o chão hoje não mais estarão aqui amanhã, e em seu lugar haverá outras folhas secas... As árvores, embora pareçam desenvolver-se a cada novo dia, na verdade está fenecendo um pouco a cada dia que passa, a cada folha seca que se desprende e cai no chão. Quem não percebe isso não conhece a Verdade. Este mundo é transitório. Todas as coisas deste mundo são transitórias.

Discípulo A - Quem é superior: o venerando Sakyamuni ou o grande Vimalakirti?

Discípulo B - Claro que o venerando Sakyamuni é superior. Ele é o Iluminado. Não há neste mundo ninguém que possa se igualar a ele.

Katyayana - Eu, pessoalmente, acho que é imensurável a grandiosidade de Vimalakirti. Sei que a grandiosidade do venerando Sakyamuni está acima de minha imaginação. Nós, discípulos, estamos sempre ao lado dele e o observamos de perto, e por isso não podemos conhecer a sua real grandiosidade, do mesmo modo que não podermos ver o topo de uma montanha estando ao pé dela. Quanto ao grande Vimalakirti, podemos observá-lo à distância, assim como observamos de longe a cordilheira do Himalaia, e parece-me que a sua grandiosidade se destaca dos outros. Por isso, embora não possamos comparar sua grandiosidade com a do venerando Sakyamuni, de quem não podemos ter a visão geral por estarmos demasiadamente perto, imagino que Vimalakirti seja tão grandioso quanto o venerando Sakyamuni.

Discípulo A - Por que você diz isso? O que você tanto admira em Vimalakirti?

Katyayana - Certa vez, fui fazer pregação nas ruas. Seguindo os ensinamentos do venerando Sakyamuni, preguei o seguinte: Este mundo é transitório. Não há sequer uma coisa neste mundo que seja perene. O que está vivo, um dia terá de morrer; o que nasceu, um dia perecerá. Também as coisas materiais, como estas roupas que trazemos no corpo, sendo meros produtos fabricados, desgastar-se-ão e se rasgarão com o passar do tempo. Aliás, desde já elas estão em processo de desgaste, e dia chegará em que não mais suportarão o uso. O mesmo ocorre com todos os bens materiais. Aquele que possui bens é fadado a sofrer, na ânsia de evitar a perda de suas posses. A maioria das pessoas apega-se a coisas transitórias, esperando que elas durem para sempre, e sofre devido à ânsia de conservá-las consigo eternamente. Mas o próprio ser humano também é transitório: está vivo hoje, mas poderá estar morto amanhã. Mesmo que os bens materiais fossem perenes, a própria pessoa que os possui é transitória e fadada a morrer. E quanto maior a quantidade de bens que a pessoa possui, maior será o sofrimento de sua alma quando chegar a hora da morte. Todos os seres e todas as coisas são transitórios. Tudo que é do mundo fenomênico não é existência verdadeira, não passando de produto do carma. Tanto o "eu" fenomênico como as "coisas" fenomênicas, às quais se apega o "eu" fenomênico, não têm existência real. Quando despertamos para esta Verdade e abandonamos totalmente o apego, encontramos a verdadeira paz. Essa paz e plenitude, a que chamamos Nirvana, constituem o estado de suprema graça. Em suma, eu estava explicando assim o significado da transitoriedade, do sofrimento, do nada e da "anulação do ego", sem saber que no meio da multidão que me ouvia encontrava-se Vimalakirti.

Disípulo A - Ah! Então o grande Vimalakirti estava lá? Isso é interessante!

Katyayana - Pois é! Eu estava fazendo pregação, quando alguém, no meio da multidão, chamou meu nome. Olhando para o lado de onde veio a voz, fiquei surpreso ao descobrir, no meio das pessoas, o rosto de Vimalakirti sorrindo para mim.

Discípulo B - E o que ele lhe disse? Irmão Katyayana, você, que é considerado o mais hábil argumentador entre os dez principais discípulos do venerando Sakyamuni, certamente não se deixou derrotar pelos argumentos de Vimalakirti, não é?

Katyayana - Vimalakirti me disse: "O que você está pregando é a Verdade sobre coisas fenomênicas e não a Verdade sobre a Essência absoluta do ser, sobre a existência verdadeira. Não se pode conduzir as pessoas à compreensão do que é a perene Essência do ser, falando-lhes sobre coisas transitórias. Os fenômenos transitórios não são existências reais, assim como não é existência real a "mente fenomênica" que apreende tais fenômenos. Por mais que você fale sobre as coisas fenomênicas, que são existências falsas, com a "mente fenomênica" que também é existência falsa, as pessoas não irão compreender a Essência absoluta do mundo e dos seres. Você deve apreender com a mente eterna a Essência eterna do ser e pregar isso aos outros. Senão, seu mestre Sakyamun ficará decepcionado com você".

Mesmo sendo eu considerado o mais hábil argumentador dos dez principais discípulos do venerando Sakyamuni, naquele momento vi-me incapaz de revidar as palavras de Vimalakirti. De fato, minha pregação consistia basicamente em falar da transitoriedade e do fenômeno. Em outras palavras, eu analisava minuciosamente as coisas fenomênicas e nisso baseava meu argumento. Vimalakirti estava com razão, quando disse que não se pode conduzir as pessoas à compreensão da Essência do ser, pregando-lhes tão somente a transitoriedade do fenômeno. Confesso que Vimalakirti me deu uma lição,

Sariputra - A mim também ele deu uma lição, certa vez.

Discípulo B - O que!? Você também ficou sem argumento diante de Vimalakirti? Ele deu uma lição até a você, que é considerado o mais sábio dos dez principais discípulos do venerando Sakyamuni?

Sariputra - Se deu! Foi numa ocasião em que eu estava absorto na prática do Zen, num bosque. De olhos cerrados, estava concentrado para contemplar a Essência perfeita dos seres, quando senti alguém tocar a minha cabeça. Abri os olhos, e vi Vimalakirti a meu lado. Incomodado, bradei: "Não me perturbe, estou praticando o Zen! Vá embora daqui!".

Então Vimalakirti replicou calmamente: "A prática do Zen não consiste necessariamente em ficar imóvel, de olhos fechados. Se você ficou assustado com o toque de minha mão em sua cabeça, ainda tem muito a aprender a respeito da prática do Zen. A verdadeira prática do Zen consiste em atingirmos, mesmo sem a concentração meditativa, o estado de plenitude espiritual que nos permite agir com a máxima serenidade e naturalidade, em qualquer situação; consiste em transcendermos o mundo dos sentidos e tornarmo-nos invulneráveis, versáteis e livres de todo e qualquer empecilho."

Assim explicou. E disse mais: "A prática do Zen não consiste necessariamente na introspecção ou na meditação sobre o mundo exterior, nem requer isolamento no monte ou no bosque. Manifestar naturalmente a Verdade e a Luz, mesmo vivendo no meio urbano e efetuando afazeres banais – isto é a verdadeira prática do Zen. Sublimar as paixões, em vez de negá-las – isto é a verdadeira prática do Zen". E disse mais ainda: "A prática do Zen não consiste necessariamente em ficar imóvel e silencioso. Agir do modo mais acertado para cada circunstância, imobilizando o oponente ou enfrentando-o audaciosamente quando necessário, e fazer isso sem perder a serenidade – isto é a verdadeira prática do Zen".

Discípulo B - E como você reagiu a essas palavras?

Sariputra - Não pude opor nenhum argumento. Percebi que eu não estava à altura de discutir com Vimalakirti. Ciente da superioridade dele, achei a atitude mais sábia naquela circunstância era reder-me docilmente, e foi o que fiz.

Discípulo A - Em que circunstância curiosa você foi manifestar a sua célebre sabedoria, irmão Sariputra!

Maudgalyayana - Acho-o sábio justamente por ser ele capaz de agir assim. Para falar a verdade, eu também tive que me curvar aos argumentos de Vimalakirti, certa ocasião.

Discípulo B - Você também, irmão Maudgalyayana? Dentre os discípulos do venerando Sakyamuni, você é o que tem o poder extra-sensorial mais desenvolvido. Então, porque não leu os pensamentos mais recônditos de Vimalakirti para derrota-lo com seus argumentos?

Sariputra - Conte-nos o seu caso, para que nos sirva de lição.

Maudgalyayana - Está bem. Certo dia, eu estava pregando sermão nas adjacências do Castelo de Vaisali. Eu pregava quão execráveis são a matança, a cobiça, a luxúria, a gula, a cólera, a ignorância, a mentira, a perfídia, a hipocrisia, as maledicências, etc. A certa altura, alguém no meio da multidão gritou: "Mas você próprio está falando mal dos outros. Você só vê maldade no ser humano. Fazer esse tipo de pregação é o mesmo que cometer o pecado de maledicência!".

Olhei surpreso para a direção de onde vinha a voz, e avistei Vimalakirti, que prosseguiu dizendo: "Ao fazer sermão, basta transmitir os ensinamentos, basta falar a Essência absoluta e perfeita do homem. Não se deve fazer do homem mundano, do homem pecador, o objeto do sermão. Em sua essência, ninguém é mal; não existem pessoas más. A Essência do homem é absoluta e perfeita. Ela não tem nome, e não há palavras que a possam explicar ou descrever. As palavras são meios pelos quais explicamos ou descrevemos as coisas fenomênicas, portanto não podem explicar a Essência absoluta e perfeita do homem. A Essência não possui forma e é infinita como firmamento. Ela é como o céu sem nuvens. O céu com nuvens parece mutável, mas o céu completamente sem nuvens parece perfeitamente imutável. Não há meio de se explicar a Essência absoluta e perfeita do homem, que não é toldada pelas vicissitudes fenomênicas. A Essência do homem não tem aspecto definido, não aumenta nem diminui, é indestrutível, não pode ser captada pelos sentidos. O firmamento, em bora pareça imóvel, é dinâmico. Assim também é a Essência do homem. Por ser invisível e imaterial, não podemos descrevê-la nem ouvi-la. Explicar a invisível e imaterial Essência ao homem fenomênico, que não é existência verdadeira, é como se um mágico falasse à "imagem ilusória" criada por ele mesmo. A "imagem ilusória" toma o aspecto que o mágico desejar, em conformidade com as palavras dele. Portanto, ao pregarmos sermão, não devemos fazê-lo como se estivéssemos nos dirigindo a pecadores. Em vez de falar de pecados e maldades, fale da virtude e do bem. Em vez de aconselhar as pessoas a se guardarem contra os pecados, pregue o Grande Veículo (*parte do budismo que prega a Essência absoluta, perfeita e transcendental do homem que está salvo desde o princípio) e enalteça as graças búdicas bem como o mérito de Buda, da Verdade e das pessoas que praticam os ensinamentos".

Quando Vimalakirti terminou de falar, olhei ao redor e constatei que ninguém mais estava olhando para mim. Todos olhavam para Vimalakirti, aplaudindo-o e reverenciando-o. Nunca me senti tão embaraçado como daquela vez.

Maha-Kasyapa - Eu também tenho um caso para lhes contar. Certa vez, eu estava percorrendo as ruas da cidade para cumprir a mendicância religiosa, escolhendo justamente os bairros mais pobres.

Discípulo B - Por que percorreu comente os bairros pobres?

Maha-Kasyapa - Porque não tenho tempo para fazer a mendicância religiosa em todas as casas da cidade.

Discípulo B - O que quero saber é: por que escolheu somente os pobres para pedir esmola? Os recursos daquelas pessoas são limitadíssimos; se derem esmola aos que praticam mendicância religiosa, elas ficarão ainda mais pobres.

Maha-Kasyapa - Antes, eu também pensava assim, e um dia expus minha dúvida ao venerando Sakyamuni. Então ele me disse: "Os pobres são pobres devido a seus carmas: como resultado de não terem acumulado boas ações na existência anterior, nasceram em lares pobres. Se uma aldeia é assolada pela fome, é porque seus habitantes não acumularam, em sua existência anterior, boas ações que dão origem à felicidade. Portanto, percorrer bairros pobres e até mesmo aldeias assoladas de fome para cumprir mendicância religiosa é um ato de caridade que resulta na salvação daquela gente; é um ato que faz aquela gente praticar boas ações, que resultarão em sua prosperidade futura". Foi por isso que eu estava percorrendo os bairros pobres, fazendo a mendicância religiosa.

A certa altura, ouvi alguém chamar atrás de mim. Voltei-me e reconheci Vimalakirti, o qual me disse: "Não se deve pedir esmolas somente aos pobres, esquecendo-se dos ricos. A riqueza e a pobreza se alternam devido a causas mediatas e imediatas. Quem é rico hoje, poderá tornar-se pobre amanhã; e quem é pobre hoje, poderá tornar-se rico amanhã. Além disso, há os que são felizes mesmo sendo pobres, e os que sofrem justamente por serem ricos. A pobreza ou a riqueza atuais não servem de base para coisa alguma. Por isso, não se deve buscar intencionalmente os pobres para cumprir a mendicância religiosa. É preciso manter sempre o ponto de vista imparcial e efetuar a mendicância religiosa de acordo com a solicitação que brota naturalmente do Eu verdadeiro. Ao comer do prato que lhe for doado por alguém, não pense estar ingerindo um alimento material. O alimento doado é a concretização do espírito caridoso do doador, é a materialização do amor e da piedade. Portanto, ao mastigar o alimento que lhe for doado, pense na inexistência da matéria; e ao ingeri-lo, pense que está assimilando a sua essência, que são a piedade e o amor do doador.

Ao receber um prato de comida, ore para que o doador mantenha sempre esse mesmo desprendimento em relação a coisas materiais e nunca venha a sofrer vicissitudes resultantes de carmas. Ao entrar numa aldeia, aja com espontaneidade, segundo a sua natureza búdica, e apareça sob a forma mais adequada a cada lugar; mesmo andando de porta em porta praticando a mendicância religiosa, não o faça com a mentalidade de um mendigo. Faça da mendicância religiosa um ato de fé e amor. Seja qual for o alimento que lhe for doado, não se deixe influenciar negativa ou positivamente pelo seu aspecto, aroma, sabor, etc., pois a matéria não tem existência real. A matéria é como uma miragem: não possui natureza própria nem atribuída. Ao receber um prato de comida, faça uma breve prece oferecendo o alimento às divindades, às almas dos mestres predecessores e às almas de todas as pessoas do mundo, e só então sirva-se dele. Ao servir-se do alimento com essa atitude mental, você não estará ingerindo comida material, nem estará se alimentando às custas dos outros. Estará transcendendo a matéria e as paixões mundanais. Mesmo ingerindo o alimento material, não estará se alimentando da matéria. Isso é viver a Verdade.

Viver a Verdade não é permanecer no mundo profano, nem fugir dele; não é isolar-se numa montanha, nem misturar-se propositadamente com a massa popular. Viver a Verdade consiste em transcender o sagrado e o profano, ou seja, viver em harmonia com o mundo profano sem perder a natureza búdica de si mesmo. Fazer a mendicância religiosa com esse estado espiritual é que se diz 'fazer a mendicância religiosa com sentimento de amor imparcial'. E como este mundo é um lugar onde tudo é reflexo da mente, quando se faz a mendicância religiosa amando igualmente todas as pessoas, o doador também faz sua doação com sentimento de amor imparcial. Aquele que faz a doação com esse estado espiritual não espera nenhuma retribuição. Assim, não há quem faz favor, nem quem recebe favor, e ambos se fundem num só ser, sentindo: 'eu e você somos um'. Na verdade, todos os seres constituem um só ser em sua essência. Despertar esse sentimento de unidade é a finalidade da mendicância religiosa".

Assim me explicou Vimalakirti, e senti como se ele me despertasse. Fiquei admirado com a sabedoria dele. Oh! Vejam, o venerando Sakyamuni acaba de chegar.

Todos os discípulos - Seja bem-vindo, venerando Mestre.

Sakyamuni - Salve, meus caros irmãos! Encontrei casualmente com o sr. Hoosháku, e como ele me disse que queria conhecer o mundo búdico, trouxe-o para cá juntamente com seus familiares.

Todos os discípulos - Sejam bem-vindos.

Sariputra - Então o senhor é Hoosháku, o famoso milionário. Muito prazer em conhecê-lo. Façam o favor de entrar, senhores, se bem que a nossa morada não passa de uma casa rústica e sem capacidade para comportar muitas visitas...

Hoosháku - Ora, o senhor está sendo modesto. Este jardim é lindo! Só de olhar este belo jardim, sinto-me como se estivesse vendo o paraíso. É verdade que na morada de homens santos há uma atmosfera de pureza e santidade.

Sariputra - É muito gentil, sr. Hoosháku. Mas o fato é que nossa morada é apenas uma casa feia e sem nenhum conforto.

Uma voz dos céus - Sariputra, não diga que este lugar é feio e sem conforto. No mundo búdico, não há sequer um lugar que seja feio e sem conforto. Ele é perfeito, não há fealdade, desconforto, sujeira, etc. em lugar algum.

Sariputra - (Olhando para cima) Quem é você? Quem falou comigo? Apresente-se!

A voz dos céus  Eu sou Brahma.

Sariputra - O senhor diz que é Brahma? Então, mostre-se a mim!

A imagem de Brahma aparece no alto do cenário. No princípio seu contorno é vago, mas pouco a pouco vai adquirindo nitidez e finalmente surge a imagem clara de Brahma, envolta em luz, que fala em tom solene:

Brahma - Sariputra, eu estou aqui, mas você não consegue ver-me. O paraíso está aqui, mas como você poderá vê-lo, se não abrir os olhos de sua mente? Eu, Brahma, constatei que este mundo terreno de Sakyamuni é puro e belo desde o princípio.

Sariputra - O senhor está dizendo que este jardim, de terreno pedregoso e chão coberto de folhas secas, é tão belo quanto o paraíso? Essa afirmação soa-me estranha, senhor. Vendo este jardim, constato que o terreno é pedregoso, vicejam espinheiros e há muitas coisas feias. As folhas secas se espalham por todo lado, e a gente não consegue manter o chão limpo, por mais que o varra...

Brahma - Cale-se, Sariputra. Se você enxerga o aspecto pedregoso, os espinheiros e as coisas feias, é porque em sua própria mente há "pedras", "espinhos" e "coisas feias". Veja  mundo ao seu redor com a mente do "Eu verdadeiro" (mente que apreende o Mundo Absoluto, perfeito, belo e pleno de harmonia, bem como a essência perfeita de todos os seres). Este mundo apresenta-se harmonioso na mesma medida da harmonia que há em sua mente.

Sariputra - ...o senhor diz isso, mas...

Sakyamuni - (interrompendo Sariputra) Não há o que discutir, Sariputra. Veja com seus próprios olhos como é majestosa e bela esta terra búdica.

Sakyamuni, então, remove com o pé uma pedra mais próxima, e dali surgem raios luminosos multicolores. E assim revela-se o Aspecto Verdadeiro do mundo perfeito criado por Buda, de infinita beleza e majestade. A luz que emana de Sakyamuni torna-se mais intensa. Todos ali presente curvam-se diante dele, com profundo respeito.

Sakyamuni - Sariputra, veja como é belo o Aspecto Verdadeiro deste meu mundo! Lembre-se: Por mais belo que seja o Aspecto Verdadeiro do mundo, você não poderá enxergar essa beleza se não abrir os olhos da mente. Mesmo que o Sol esteja brilhando no céu, o cego não consegue vê-lo. Se um cego diz que não há luz alguma, isso não significa que o Sol esteja obscurecido. O mundo que se apresenta aos olhos de cada pessoa nada mais é que reflexo de sua própria mente. Assim como uma beldade precisa de espelho para mirar-se nele e aplicar cosméticos para realçar sua beleza, precisamos do espelho chamado "mundo exterior" para que, vendo nele o reflexo de nossa atitude mental, procuremos melhorar a nós mesmos. Graças ao espelho, o rosto da beldade pode se tornar ainda mais belo. Da mesma forma, graças ao espelho chamado "mundo exterior", nossa mente pode tornar-se mais aprimorada.

Como vocês estão vendo, nosso mundo búdico é infinitamente belo e majestoso, repleto de bênçãos, felicidade e prosperidade. Mas, dependendo da mente de quem o vê, ele pode parecer feio. Aqueles que estão com a mente áspera só conseguem ver pedras e espinheiros ao seu redor. É uma pena. Se abrissem os olhos da mente, poderiam ver o Aspecto Verdadeiro, tão belo e majestoso...

Continua...

Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 32"; pp. 23-42