"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

segunda-feira, setembro 19, 2016

É Cristo que vive em Mim

- Núcleo -

Divinos Amigos,

Em que consiste os ensinamentos dos Mestres, sábios, videntes e Iluminados de todos os tempos?

Em Percepções!

Eles as tiveram e as compartilharam.

Eles perceberam que há uma Realidade além deste mundo visível pelos cinco sentidos. E tendo percebido que este mundo não é a Realidade, compartilharam suas Percepções. E assim fizeram porque as tribulações deste mundo para os que se veem como sendo seres deste mundo são vivenciadas como algo real.

Assim, Buda compartilhou a Percepção da irrealidade dos fenômenos de nascimento, envelhecimento, doença e morte. No Núcleo é dito que estes são acontecimentos que ocorrem na Representação. Na Realidade não há isso. 

O ensinamento de Buda revela a visão transcendente da vida humana como sendo em realidade a Vida de Deus. A Percepção de que vivemos não uma vida humana isolada de Deus mas a própria Vida de Deus nos faz conscientes de que na Realidade somos seres eternos e não sujeitos a nascimento, envelhecimento, doença e morte.

Esse é o cerne da Percepção compartilhada pelos que passaram na Representação pela experiência de Iluminação. Notem que a experiência de Iluminação ocorre na Representação. Esse acontecimento na Representação não altera o que na Realidade todos JÁ são! Jesus compartilhou essa Percepção ao responder a aqueles que o viam apenas como um homem e lhe questionaram: Você ainda não tem cinquenta anos e conheceu nosso pai Abraão? Ao que Jesus respondeu: "Antes que Abraão existisse EU SOU." O significado disso é que Abraão, como todos os "personagens", existem na Representação. Nessa passagem Jesus compartilha a Percepção de que Ele é QUEM É, na Realidade! Ou seja, antes que houvesse "mundo fenomênico", dualidade, Representação AQUELE que É sempre É. A Percepção dAquele que sabe ser sempre o mesmo e único EU é: EU SOU.       

Assim, os que passaram na Representação pela experiência de Iluminação compartilham a Percepção de suas vidas são na Realidade a própria Vida de Deus. Eles perceberam que não há outra Vida senão a própria Vida de Deus. Por isso seus ensinamentos são tidos como "religiões", porque eles nos religam. Assim em torno do ensinamento destes Mestres, Buda, Krishna, Cristo, surgiram as grandes religiões da humanidade. Esses ensinamentos nos religam a nós mesmos, a nossa própria Essência e Realidade Divina. O essencial é Perceber que esses ensinamentos sempre apontam que há algo em nós que nos proporciona esse religar. Esse algo em nós é chamado por Jesus de "Justiça". Jesus enfatizou que devemos procurar em primeiro lugar o Reino de Deus e "Sua Justiça"!

As pessoas citam essa passagem bíblica de que "devemos procurar em primeiro lugar o Reino de Deus" mas nem sempre dão ênfase ao complemento "e Sua Justiça" que é o cerne do ensinamento Divino! Fazer-nos conscientes de que o CAMINHO é interno, pois, o Reino de Deus está dentro de nós, que é onde devemos buscá-lo, é a direção, mas estando nesse Caminho interno a meta, a finalidade da busca é realizar a Justiça de Deus! Este é o parâmetro que devemos nos conscientizar e usar para conhecer a Verdade; é a "Visão Justa", a "Visão Divina" de todas as coisas. 

Esclarecendo sobre essa "Visão Justa", essa medida interna de Percepção, há uma passagem bíblica que diz: "Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Aqui há uma contraposição entre o "padrão deste mundo", pelo qual a mente é velada pelos cinco sentidos, e a "Justiça" Divina", o parâmetro interno que produz uma renovação mental e nos faz "capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Essa Visão Divina, que é o parâmetro interior a ser usado para desvelar o Real, é a Visão a ser alcançada chamada por Jesus de Justiça. Masaharu Taniguchi a descreve como sendo um despertar para a Imagem Verdadeira da Vida e revela o que acontece quando se chega a "isso", a esta Visão iluminada. Ele escreve: “Todos aqueles que despertaram para a Imagem Verdadeira da Vida podem alcançar a conscientização de que eles próprios são personificações do Deus Eterno, ou, em linguagem budista, personificações de Buda, que alcançou a iluminação há tempos imemoriais: podem alcançar um despertar espiritual tão grandioso, que os fará compreender que eles próprios estavam em Jesus Cristo quando ele pregava a Verdade na Judéia, há 2.000 anos; que estavam também em Sakyamuni quando ele pregava a Verdade na Índia, há 3.000 anos; e que estavam com o Criador quando Ele fez surgir o Universo e o colocou em movimento.”

É isso! Este é o ponto! Essa Percepção está em nós! 

Nessa Percepção Divina sabemos que O Mestre está VIVO EM NÓS!

Todos os apóstolos de Jesus que chegaram a este ponto, conduzidos por essa "Justiça", testemunharam e compartilharam a Percepção de que: "Vivo, mas já não sou eu Quem Vive; é Cristo Quem Vive em Mim." 

Sobre sua elucidação, acima descrita, Masaharu Taniguchi acrescentou: “Outro dia, o Sr. X disse-me que já se sente como Buda."

Notem, o quão sutil e elevado é Masaharu Taniguchi! Ele não enfatiza o personagem, nem sequer cita o nome do "personagem", descrevendo-o apenas como "Senhor X"! Assim é como o Mestre enfatiza que o essencial é a Percepção e não o personagem! Por isso Masaharu Taniguchi objetiva e assertivamente enfatiza a Percepção tida pelo Senhor X, com muita naturalidade, compartilhando o que lhe foi dito pelo Senhor X  sem julgar, dizendo aos ouvintes: “Outro dia, o Sr. X disse-me que já se sente como Buda."

Caro leitor! Que compartilhar DIVINO de Masaharu Taniguchi. Ele poderia falar de si mesmo e de suas tantas Percepções, mas isso só faria com que muitos dissessem: Ele tem essas Percepções porque ele é o Mestre! 

Mas Masaharu Taniguchi afirma com total naturalidade que o Senhor X tem essa Percepção e já se sente como Buda! 

Jesus enfatizou o mesmo quando disse a Simão: "Simão, isso Quem te revelou não foi carne e sangue, mas meu Pai..."

Caro leitor! Da mesma forma, que compartilhar DIVINO foi esse realizado por Jesus Cristo. Ele poderia falar de si mesmo e de suas tantas Percepções como Cristo, mas isso só faria com que muitos dissessem: Ele tem essas Percepções porque é Jesus Cristo! 

De que adianta seguir um Mestre apenas para concordar com Seus ensinamentos, sentir-se discípulo e seguidor, praticante, mas não levá-lo a sério nos pontos em que o Mestre expõe e enfatiza o essencial?

Nenhum Mestre expôs Seus divinos ensinamentos para que servissem apenas de consolo a alguém. Todo ensinamento divino tem em si o poder de produzir uma transformação na vida dos discípulos. O ensinamento de Jesus transformou a vida dos discípulos, que então testemunharam: "Vivo, mas já não sou eu Quem Vive; é Cristo Quem Vive em Mim."

A própria palavra "transformação" tem em si algo essencial. Atentem bem à palavra transformAÇÃO ... 

Transformar pela AÇÃO! Por isso no Núcleo é dito: "Não há Percepção sem Ação"! Perceber e não agir significa apenas acreditar. Perceber não é o mesmo que acreditar! Percepção é sinônimo de FÉ. Está escrito: A FÉ sem obras é morta...

A próxima vez que você ler um texto espiritual não sinta apenas que: "acredito neste ensinamento do Mestre". Dê um passo além! Aceite o texto espiritual com "coração de criança" [expressão bíblica] ou seja, aceite com total naturalidade, não como algo vindo de alguém que está no exterior, fora de você, de um Mestre, pois isso apenas fará sua mente concordar com as Palavras do Mestre. E assim que terminar a leitura você voltará a lidar com as tribulações deste mundo; voltará a se ver imerso em um mundo fenomênico...

O que quero enfatizar é que há algo preexistente em nós! Nós não O fizemos! Deus fez Isso! 

Somos Filhos de Deus e estamos todos "destinados" a reconhecer este fato! RE-CONHECER...

Na Representação é conhecer novamente assim como já O conhecíamos..."antes que Abraão existisse..." 

Notem bem! Na Representação este fato aparece como um re-conhecimento; mas na Realidade este fato é uma PERCEPÇÃO, o conhecimento é ALGO JÁ SABIDO! 

Notem que os ensinamentos divinos têm validade atemporal e impessoal e não trazem uma Verdade Nova!

Por isso a ênfase do ensinamento compartilhado no Núcleo é dada à PERCEPÇÃO! Não é dada ênfase a este ou aquele Mestre, pois todos são "personagens despertos", conscientes de que nossa real identidade é o próprio Ator subjacente ao personagem!     

Quando a ênfase é dada à Percepção estando diante de um Mestre, o que ocorre em nós é algo muito diferente do que se apenas quiséssemos seguir o Mestre... Esta Percepção faz com que o Mestre seja PERCEBIDO EM nós! Assim sendo, já não há o sentimento de que existe "um Mestre e nós", mas sim, "o Mestre e Sua manifestação COMO nós"!

Assim os textos são experienciados claramente como a Verdade emergindo em Mim, no Eu que Eu Sou! Nas palavras do apóstolo: Que nos faz "capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." 

Este é o sentido de compartilhar todos estes textos.

Jesus disse: "Se o mundo vos aborrece, aborreceu a mim também. Neste mundo passarás por tribulações, mas tende bom ânimo, EU venci o mundo!"

Assim, para "vencer o mundo" Jesus revelou: "EU vim para que tenham VIDA e VIDA em abundância!" 

Atentem que é a emergência, o vir à tona, da Percepção deste EU em nós que vence o mundo!

E não há Percepção sem AÇÃO!

O mais paradoxal que acontece quando estamos percebendo e agindo, ou seja, quando estamos agindo pela FÉ, é que temos a total consciência de que Quem está agindo é Deus! É aquele Eu Impessoal... Em relação a isso Jesus compartilhou a seguinte Percepção: "As obras que faço não sou eu quem as realiza; o Pai em Mim é Quem realiza as obras."                 

Quanta clareza nesta revelação de Jesus sobre Quem Faz! No Núcleo é dito: Perceba Quem faz!   

Essa é a Percepção que pode vir a ser desfrutada e compartilhada por todos os "Filhos de Deus"!

Por isso compartilho a Percepção dos discípulos que testemunharam: "É Cristo Quem Vive em Mim!".

É o que Aquele que Vive em Mim [Emanuel, Deus em nós] me faz Perceber, desfrutar e compartilhar.

Namastê.


sexta-feira, setembro 16, 2016

Sintonizando o Ator no personagem


 - Núcleo - 


Divinos Amigos,

Permitam-me compartilhar um a Percepção. Ela será útil em qualquer estudo sobre Deus, em toda prática de meditação e no próprio ato de viver a vida cotidiana, ou seja, será útil em como viver.

O mundo fenomênico, o mundo percebido pelos cinco sentidos, é uma Representação Divina! Por ser uma Representação Divina é bastante/extremamente realística para quem estamos sendo... ou seja, é bastante realística para o personagem que estamos representando.

Contudo, não somos o personagem, somos o Ator Divino subjacente ao nosso personagem...

Cabe enfatizar que não somos “quem estamos sendo”, não somos o personagem que estamos representando, somos Quem realmente Somos; somo o Ser Real subjacente ao “personagem”.

A Percepção aqui compartilhada é que não é possível perceber a nossa real identidade a partir dos cinco sentidos. Isto é assim porque os cinco sentidos estão no domínio da Representação. É por este motivo que a prática da Meditação Shinsokan começa com: “Neste momento deixo o mundo dos cinco sentidos e entro no mundo da Imagem Verdadeira.” É também por este motivo que Jesus iniciou seu Ministério com a Percepção compartilhada pelo profeta Isaías, lendo na Sinagoga a passagem das Escrituras Sagradas onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim e me ungiu para evangelizar os pobres, regatar a visão aos cegos, dar liberdade aos contritos, libertar os cativos e anunciar o Ano do Senhor.” Tudo isso parte da Percepção dAquele que realmente faz, a saber, o Espírito do Senhor, que é Quem está acima [está sobre mim], que é Quem dá sustentação e fundamento a toda ação, que é Quem unge. A unção vem do Alto, vem dAquele que está acima, que está no Céu, na Realidade, não vem da Representação.

Notem que o Ator subjacente ao personagem é Aquele a Quem o personagem busca! Aquele a Quem o personagem busca não está fora do próprio personagem, não está além, mas não está no mundo! 

Este Ator subjacente a quem estamos sendo é chamado na linguagem cristã de Espírito Santo.    

Assim, a Percepção aqui compartilhada parte deste Ator Divino subjacente ao personagem e tem como objetivo sintonizá-Lo no personagem! Alguns poderiam questionar: Isto é possível? Pode o irreal (o personagem) sintonizar o real (o Ator)? A resposta está na elucidação dada por Jesus a Simão, a quem Jesus disse: “Isto Quem te revelou não foi carne e sangue, mas meu Pai, que está no Céu.”

Notem! Simão era um personagem comum que teve uma Percepção vinda do Ator subjacente! Mas Simão não percebeu que isto estava acontecendo. Por isso Jesus enfatizou esse fato, de que esta Percepção não era da “mente” do “personagem” Simão”, mas sim, do próprio Ator! E Jesus enfatizou que este Ator Divino, ou seja, que o Ser Real, está no Céu, está na Realidade e não na “Representação”.

Eis o ponto central, o objetivo da religião, o objetivo do “religare”! Por isso, diante desse fato, diante da Percepção de Pedro, Jesus enfatizou este detalhe a ser notado! Essa é a ponte que une as “margens do rio”, na linguagem budista, na qual de um lado do rio estão os que buscam a iluminação e do outro estão os iluminados! Esta separação aparente entre margens do rio, entre iluminados e não iluminados existe apenas na Representação; Não é real!

Essa possibilidade de o personagem ter a própria Percepção do Ator é que deve ser focalizada!

Quando a mente do personagem pensa imediatamente entra na dimensão da Representação. Por isso o ato de pensar é, em quase cem por cento das vezes, um obstáculo à Percepção. E é assim porque o simples ato de pensar aciona o personagem; por assim dizer, o ato de pensar faz o “download” do personagem.

O “cogito ergo sum” não deveria ser um penso, logo existo, mas sim um penso, logo, desisto...

A menos que o personagem esteja sintonizado nos “pensamentos de Deus” seus pensamentos o levarão a entrar na Representação, cujo cartaz é sempre o mesmo “filme”: A expulsão de Adão do Paraíso...

Há duas versões para a criação do homem: Aquele feito à Imagem e Semelhança de Deus e aquele feito do barro da Terra... Terra é Representação! O homem feito do “barro da Terra”, ou seja, feito da “essência da Representação”, é pó! E, como pó, ao pó retorna...

O Homem feito à Imagem e Semelhança de Deus é feito da essência da Realidade, ou seja, é Realidade; É, na linguagem bíblica, “obra permanente de Deus”, e jamais deixa a Realidade! Jamais deixa o Céu, que é a Realidade! Ainda que esteja aparecendo como um personagem na Representação este Homem feito à Imagem e Semelhança de Deus sabe que aquilo que subjaz à Representação é a própria Realidade. Ele sabe que a Representação não tem existência real. É uma Representação. Na Representação existe (aparentemente e realisticamente) evolução. Na Representação existe matéria. Na Representação existe tempo e espaço. Na Representação existe mundo físico e mundo espiritual; ou seja, na Representação existe mundo dos espíritos encarnados (mundo dos vivos) e mundo dos espíritos desencarnados (mundo dos mortos). Na Representação existe ainda uma multifacetada gama de seres, seres deste planeta e seres de outros planetas; seres desta dimensão e seres de outras dimensões; seres celestiais e muitos outros seres...

Mas, subjacente à Representação há a Realidade! E a Percepção da Realidade permeia a tudo!

A Percepção da Realidade é chamada de Consciência Divina ou Mente de Cristo, na linguagem cristã, e aparece na Representação como sendo a presença e revelação de seres iluminados... Notem bem! O único Real iluminado é o Ator subjacente a qualquer personagem e ao cenário! Apenas a partir do Real o que é Real pode ser percebido! E o Real, subjacente ao personagem, é o Ator! Por isso não é possível partir da “mente do personagem” [da mente em ilusão] para perceber o Ator!

Assim, divinos Amigos, sempre que estiverem diante de um ensinamento espiritual, sempre que estiverem diante do ensinamento de um Mestre, sintonizem a Percepção deste Mestre em vocês! Sintonizar a Percepção do Mestre em nós não significa concordar com o Mestre... Isto é assim porque nesta Percepção não há um eu separado (eu do personagem ) para concordar com o Eu do Mestre! É o próprio Eu do Mestre, a própria Percepção do Mestre, que Se Percebe! Isto acontece quando as certezas mentais, quando os “pensamentos da mente do personagem”, não estão em foco, mas sim os “pensamentos do Ator”! Isto é estar sintonizado no Mestre. 

Masaharu Taniguchi expressa esta sintonia afirmando que Deus Se "aloja em nós". Esta afirmação é uma Revelação!

Na linguagem cristã sintonizar o Mestre em nós significa sintonizar o Espírito Santo em nós e viver por Ele, ou seja, viver segundo Seus pensamentos, que são os "pensamentos elevados", que são as “Percepções”!

Gratidão Àquele que aparece como cada UM de nós e nos dá a possibilidade de compartilharmos a Sua Percepção.

Namastê!


terça-feira, setembro 13, 2016

Deus é o que está acontecendo (Osho)

- OSHO - 


Questão: Peço desculpas por fazer perguntas pessoais. Não estou perguntando apenas por mim, mas por muitos. Quem é você e por que veio ao mundo?

Osho: Se essas perguntas são pessoais ou não, isso não faz diferença, porque, para mim, a pessoa não existe. É impossível fazer perguntas pessoais, porque ninguém é uma pessoa. Na verdade, fazer perguntas pessoais não é presunção, mas presumir-se ser uma pessoa é que é presunção. A pessoa é algo não-existente, é uma não entidade. Na realidade, não há pessoal, melhor dizendo, há somente uma pessoa. Só de Deus pode-se dizer que tem uma personalidade, porque só Ele tem um centro.

Nós não temos centro. O centro em nós não existe, mas nós assumimos um centro. Esse centro assumido é o ego. O ego é hipotético, ilusório, mas sentimos que sem um centro a vida é impossível.

Assim sendo, você pensa que essas questões são pessoais, mas enquanto elas são dirigidas a mim, são dirigidas a uma não-entidade. No que me diz respeito, não sinto de modo algum que sou uma pessoa. Quanto mais fundo se vai, menos se é, e quando alguém alcança o âmago supremo de si mesmo, não existe nenhum “eu”.

Em segundo lugar, você pergunta quem sou eu. Eu lhe digo: “Eu não sou”. Estou sempre dizendo aos que buscam que perguntem a si mesmos: “Quem sou eu?”, não para que venham a saber quem são, mas para que chegue um momento em que a pergunta seja feita tão intensamente, que o perguntador não esteja mais presente, e só a pergunta permaneça. Haverá um momento em que a questão será absolutamente tensa, tanto quanto pode ser. Então se revelará o seu absurdo. Você ficará sabendo que não há ninguém que possa perguntas: “Quem sou eu?”, nem a quem se possa perguntar: “Quem é você?” A pergunta não é feita para se obter uma resposta, mas sim para se transcender a própria questão.

Não há um interior. Na realidade, não existe nenhum interior. E no momento em que o interior cai, o exterior também não existe; no momento em que você não está dentro, não existe nada fora. Então, o mundo torna-se um todo, a existência é um todo – não existe a dicotomia do “eu” e do “tu”. Por isso, para mim, a questão “Quem é você?” não tem nenhum sentido. “O que é?” é a única pergunta relevante. Não quem mas o que pode ser algo total, pode se referir à totalidade, a tudo o que existe.

A pergunta “O que é?” é existencial. Não tem dicotomias, não divide. Mas a questão “Quem?” já divide no próprio momento em que é proposta. Ela aceita a dualidade, a multiplicidade de seres.

Só há ser, não seres. Quando digo que há apenas ser, quero dizer que há apenas o existir. Um não pode estar separado do outro. Se não há o outro, então dizer que um existe não tem sentido.

Assim, o ser não existe realmente, só o existir. Eu sempre digo que não há Deus; só há divindade, porque a própria palavra “Deus” traz em si uma limitação, a própria palavra “ser” traz em si uma finitude. Não pode ser infinita. Mas existir ou divindade é infinito; inclui tudo o que há. Abrange tudo; nada é excluído.

Quando você pergunta “Quem é você?”, isso para mim significa: “O que é?” Mas, por meu intermédio, você fez uma pergunta fundamental.

“O que é” não é “eu”, mas o próprio ser, a própria existência. Quando se mergulha a fundo em uma única gota, encontra-se o oceano. Só na superfície a gota é apenas uma gota. Ela é a própria existência. Assim, a natureza última de uma simples gota d’água é a mesma do oceano. É oceânica. Somente na ignorância alguém é uma gota d’água. A partir do momento em que alguém sabe, sabe que é o próprio oceano.

Você me fez uma pergunta sobre a gota, mas para mim trata-se de uma questão sobre o oceano. Assim, ao responder, não estou respondendo apenas sobre mim, mas também sobre você. Ao responder, não estou respondendo sobre mim, porém sobre tudo o que existe.

E o que é que existe? Há muitas camadas. Se alguém percebe apenas a superfície, aí existe a matéria. Matéria é a superfície da existência. Tempos atrás, a ciência só investigava a superfície: acreditava-se que só a matéria era real, e nada mais. Agora, porém, a ciência deu um passo à frente. Ela afirma que não há matéria, somente energia. Energia é a segunda camada. É mais profunda do que a matéria.

Penetrando a fundo na matéria, não achamos matéria, mas sim energia. Mas também isso não é tudo, pois existe a consciência, além da energia. Assim, ao perguntar “Quem é você?”, eu digo “Eu sou consciência”, e essa resposta abrange tudo. Tudo é consciência; eu respondo tão-somente como representante de tudo.

É possível que você não tenha ouvido falar sobre o que é consciência, é possível que você não saiba o que é consciência, mas eu estou respondendo por você também. A consciência existe, e quando digo que algo existe, isso tem para mim um significado particular: que isso nunca se tornará inexistente. Se algo pode cair na não-existência, isso significa que nunca existiu realmente. Era apenas um fenômeno; só aparentava existir.

Tudo o que muda é fenomenal; não é realmente existencial. Tudo o que muda está na superfície. O mais interno, o âmago supremo, nunca muda. É, e está sempre no presente. Nunca se pode dizer que era, nem se pode dizer que será. Uma vez que é, é. Só o presente se aplica a ele.

Não existe nenhum passado e nenhum futuro, porque o passado e o futuro são relevantes apenas quando algo muda. Quando algo é, não há passado nem futuro, só o presente. É claro que o significado de “presente” será diferente, completamente diferente.

Para nós, “presente” significa algo que existe entre o passado e o futuro. Mas se não há passado nem futuro, o presente é algo completamente diferente. Não é algo entre o passado e o futuro. O presente é só um momento, um momento entre duas inexistências: o passado que se foi e não existe mais, e o futuro que ainda não veio. Entre essas duas inexistências existe um momento presente. Mas isso é impossível. Entre duas inexistências não pode haver uma existência. Só parece haver.

Quando eu digo que a consciência existe, não me refiro a algo ligado ao passado e ao futuro, mas a algo eterno. Não interminável, porque esta palavra “interminável” carrega um sentido de tempo. Quando digo que a consciência sempre existe no presente, quero dizer que ela é não-temporal. Está além do tempo e, simultaneamente, além do espaço, porque tudo o que está no tempo espaço torna-se inexistente, assim como tudo o que está no tempo também se torna inexistente. Tempo e espaço não são duas coisas; por isso os relaciono. São um só. O tempo é apenas uma dimensão do espaço. O “movimento no espaço” é tempo e “tempo imóvel” é espaço. A existência é não-temporal, não espacial.

Penso que agora você será capaz de entender quando eu digo que sou não-temporal e não-espacial. Mas o meu “eu” abrange tudo. Você está incluído nele, o questionador está incluído. Nada está excluído do meu “eu”. Agora será mais fácil responder a sua pergunta.

Tudo o que muda obedece a um objetivo. Existe algo a ser feito – existe um objetivo -; no momento em que o objetivo é atingido, a coisa cai na não-existência. Mas tudo o que é realmente existencial é não-propositado. Não há objetivo de vida que possa ser atingido. E se houvesse e fosse atingido, a existência tornar-se-ia insignificante.

Assim, somente as coisas temporais têm objetivos. São pensadas para alguma coisa. Pode-se dizer desta maneira: elas são os meios para algum fim. Isso é o que se entende por “propositado” – elas existem para algo ser realizado. No momento em que algo é alcançado, elas deixam de existir. Mas “eu” serei sempre necessário – e quando digo “eu”, isso abrange tudo.

Não há objetivo para a vida; a existência é despropositada. Por isso é chamada de leela, uma brincadeira de transbordante energia.

Uma vez que você sabe que é parte da consciência cósmica você percebe que não há nenhum objetivo. Sua existência é uma brincadeira. Naturalmente, a brincadeira torna-se cósmica, multidimensional – você faz muito -, mas, ainda assim, não há um agente e não há objetivo. Esses dois elementos não estão presentes. É apenas uma brincadeira.

Isto tem de ser observado: um agente não pode existir sem um objetivo e um objetivo não pode existir sem um agente. São duas polaridades de um ego. O ego sente-se muito incomodado sem um objetivo; ele é alimentado através dos objetivos. Algo tem de ser feito; pode-se ter sucesso fazendo isso. É preciso alcançar algum lugar, fazer algo, construir um nome para si mesmo – desse modo, o ego terá sempre um objetivo.

A existência, por outro lado, não tem objetivos. E a menos que você saiba o que há além do ego, além dos objetivos, não terá sabido nada.

Para mim, tudo é apenas uma brincadeira. Nem “eu sou” nem existe qualquer objetivo. Entretanto, as coisas estão acontecendo. Você pode perguntar por que estão acontecendo. Estão acontecendo porque não há nenhum motivo para detê-las e não há ninguém para detê-las. Você me entende? Não há ninguém para detê-las e não há qualquer motivo para detê-las. Está na natureza das coisas que elas aconteçam.

Se você puder permitir que o que está acontecendo aconteça, você se tornará uma passagem. Se você for ativo, não poderá ser uma passagem, não poderá ser um médium. Somente a passividade faz de você um médium. Passividade significa que você não está; não se trata apenas de uma passividade verbal. O ego é sempre ativo, mas no momento em que se torna passivo o ego não existe. Passividade significa ausência de ego.

Eu sou totalmente passivo. O que quer que aconteça, acontece. Nunca pergunto por quê, porque não há ninguém a quem perguntar. Mesmo que você encontrasse Deus em algum lugar, Ele riria da pergunta. Ele mesmo não poderia respondê-la. Ele não poderia respondê-la, porque a existência não tem causalidade.

“Por quê?” é significativo apenas na divisão. Quando há um começo e um fim, a causalidade torna-se significativa, quando você entende todo o fluxo como algo sem começo nem fim, então tudo se dissolve em alguma outra coisa, tudo vem de alguma outra coisa, como as ondas no mar. Cada onda tem uma onda por trás e outra pela frente. O mar é formado de ondas após ondas; as ondas são eternas.

Somente o ser humano pergunta “Por quê?”, porque só o ser humano vive na ansiedade. Quando a mente humana fica ansiosa, cria questões e então produz respostas. Como as questões são sem sentido, as respostas são ainda mais sem sentido. Mas nós não podemos estar à vontade enquanto não encontramos respostas para as nossas questões fabricadas, e assim continuamos a procurar respostas e criar novas perguntas.

Se você puder ver toda a insensatez de se fazer perguntas e respondê-las, verá que está mantendo um monólogo consigo mesmo. Mesmo que você esteja perguntando e eu respondendo, é a mente humana perguntando e a mente humana respondendo. É apenas um jogo de esconde-esconde da mesma mente. Não faz diferença quem esteja perguntando e quem esteja respondendo. A mente humana pergunta e a mente humana responde.

Nós criamos uma confusão de perguntas e respostas, mas nem uma única pergunta tem sido respondida. As perguntas continuam onde sempre estiveram. Se você pudesse ver toda essa profusão de perguntas e respostas, esse esforço insignificante e infrutífero que não leva a parte alguma – se, num flash de luz, você se tornasse ciente de toda essa insensatez -, então poderia rir do absurdo da mente humana. No momento em que você der essa risada, transcenderá completamente a mente humana. Então, não haverá perguntas nem respostas. Você simplesmente viverá: não haverá nem objetivo nem causa. Então, viver será o suficiente.

Você me pergunta e eu respondo, mas eu mesmo não posso fazer nenhuma pergunta. Até onde percebo, não há respostas nem perguntas. Vou vivendo como as ondas no mar, como as folhas de uma árvore ou como as nuvens no céu – sem nenhuma pergunta, sem nenhuma resposta. No momento em que me tornei consciente de todo o absurdo das perguntas, algo caiu completamente, totalmente. Foi uma ressurreição. Eu renasci, renasci numa dimensão cósmica, não como um “eu”, mas como a própria consciência cósmica.

Nessa dimensão cósmica, tudo é brincadeira. E quando você percebe que tudo é uma brincadeira, fica tranqüilo, completamente sereno. Não há tensão alguma, você fica relaxado.

Então, não há ego. O ego não pode relaxar; ele vive em tensões, alimenta-se de tensões. Quando não há ego, não há tensões. Então, você abrange tudo; não há passado nem futuro. Você é eternidade. Tudo o que acontece é um acontecimento. Não é você que está fazendo; nada está sendo realizado através de você. Essas são noções ilusórias.

Até uma pessoa religiosa pode pensar em termos de fazer. Daí o ego torna-se estável, pio – e mais perigoso. Se houver o ego, haverá os dois: o agente e a ação. Só terá mudado o projeto; o processo é o mesmo.

Quando me referi a “mim”, não me refiro a ninguém. É apenas um artifício linguístico para que você entenda o que estou dizendo. Na verdade, não há ninguém a quem se possa referir como “eu” ou “você”, mas assim a linguagem seria impossível. Por isso é que a verdade não pode ser expressa pela linguagem. A verdade não pode assumir nenhuma forma linguística, porque a linguagem é criada pelo ego. Ela vem do ego e assim não pode transcendê-lo. Mesmo que você saiba que não há ninguém a quem se possa referir como “eu”, é preciso usá-lo quando se fala. Mas lembre-se: quando digo “eu”, não me refiro a alguém.

No que diz respeito a mim, no que diz respeito a esse “mim”, não há nada a ser feito. As coisas acontecem por si mesmas. Nós mesmos acontecemos, somos acontecimentos. Toda a existência é um acontecer, não um fazer. Seria melhor que eu dissesse que o velho conceito de Deus como criador não é significativo para mim. Eu não direi: “Deus, o criador”, porque a expressão reflete apenas a nossa concepção egoísta da criação, do fazer. Assim como fazemos algo, concebemos um Deus que fez o mundo. Nós nos projetamos no plano cósmico e então pensamos em termos de um criador e uma criação. Criamos a dicotomia.

Para mim, “Deus” é o que acontece, não o criador. “Deus” significa o que vem acontecendo eternamente; assim, qualquer coisas que acontece é Deus. Todas as pessoas são acontecimentos, e este eterno acontecer é Deus. Não há criador nem criação. A própria dicotomia é egoísta; é nossa projeção no plano cósmico. Uma vez que você sabe que não há dicotomia dentro de si, entre o agente e a ação, sabe que dentro da própria existência não há agente nem ação, apenas acontecimentos.

De onde vem esse ego que pensa “eu sou”, “eu estou fazendo”? Vem da memória. Sua memória vai gravando acontecimentos; você nasceu, você é criança; depois vem a juventude e em seguida a velhice. As coisas acontecem: o amor acontece, o ódio acontece, e a memória vai gravando. Quando você olha para o passado, toda a memória acumulada torna-se seu “eu”.

Eu amei alguém. Seria melhor e mais exato dizer: em tal momento, o amor aconteceu. “Eu” não era o agente. O amor aconteceu assim como o nascimento acontece, como a morte acontece. Se uma pessoa puder se lembrar disso apenas por vinte e quatro horas – que as coisas estão acontecendo e que não existe um agente -, não será novamente a mesma.

Mas é muito difícil lembrar-se, mesmo por um único momento. É muito difícil lembrar-se de que os eventos estão acontecendo e que você não é o agente. Por exemplo, eu estou falando. Se eu disser que estou falando e pensar que “eu” estou falando, então terei interpretado mal o fenômeno. Estou falando, o falar está acontecendo por meu intermédio, mas eu não sei qual será a próxima sentença. Quando ela vier, você saberá e eu também saberei. É um acontecer, algo que vem por meu intermédio. Não sou um agente de modo algum; algo acontece em mim.

É isso que se entende quando se diz que os Vedas são impessoais, que não foram criados por pessoas. Entendemos por isso que aqueles que compilaram os Vedas conheciam este fato: que algo estava acontecendo através deles, que não eram eles os agentes. Algo estava vindo a eles. Eles eram apenas a passagem, o médium, o veículo. E mesmo esse “ser um veículo” era um acontecimento. Não foi pelo seu agir que eles se tornaram veículos – porque, se assim fosse, haveria a mesma ilusão em outro nível.

Aprofunde-se em qualquer um de seus atos e encontrará aí um acontecimento. Não haverá nenhum ato, porque não há nenhum ator. Então você não poderá perguntar: “Por quê?”, porque quem perguntará e quem responderá? Nenhuma pessoa poderá responder, porque não há ninguém para responder. A casa está vazia, o dono não está. Deixe que as coisas continuem acontecendo. A própria casa, sem o dono, é capaz de permitir os acontecimentos.

Tente entender isso mais claramente. Buda disse muitas vezes: “Quando caminhamos não há nenhum caminhante, só o caminhar”. Como isso pode ser entendido? Se eu não sou, como posso caminhar? Caminhe e tente descobrir onde você está. Encontrará apenas o caminhar.

Você não pode entender como alguém pode dizer que há o falar sem o falante. Mas se você penetrar a fundo no ato de falar, descobrirá que não existe nenhum falante, só o falar. Na verdade, não houve poetas – a poesia aconteceu. Não houve pintores – a pintura simplesmente aconteceu. Mas por causa do ego, o veículo torna-se o dono.

A memória cria a ilusão. Mas a ilusão não existe para mim. A memória não pode me enganar, ela perdeu seu poder sobre mim. Então, tudo acontece e não há agente. Tudo o que acontecer, acontecerá. Eu não serei a causa, eu não serei o senhor.

Quando você sabe que não é, torna-se senhor num sentido bem diverso. Se você não é, então não pode ser escravizado. Então, sua liberdade é total; ninguém pode fazê-lo escravo. A partir desse momento, não pode haver escravidão nem qualquer possibilidade de ela ocorrer. É paradoxal, mas é um fato que quem tenta ser o senhor sempre correr o perigo de se tornar escravo, e quem perde a si mesmo – sua autoridade, seus esforços, seu agir – está além da escravidão. É livre, é tão livre quanto o céu. É a própria liberdade.

Assim, se você preferir, posso dizer que eu sou a liberdade. Não existe um motivo para essa liberdade porque, se houvesse, eu não seria livre. Estaria dependendo do motivo, acorrentado a esse motivo. Se houvesse algo que tivesse de ser feito para ser livre, eu estaria acorrentado a isso, não seria livre. Sou a liberdade absoluta no sentido de que não há nada para ser feito. Sou uma espera. As coisas acontecerão e eu as aceitarei. E se elas não acontecerem, aceitarei os não-acontecimentos e continuarei a esperar.

Essa espera faz de alguém um médium para as forças divinas da existência. Muito é feito através de você quando o agente não está, e nada é feito através de você quando o agente está presente. Quando o agente está, você também está – está fazendo algo. Mas fazer algo é impossível: fazer não é possível; é impossível ser um agente. Você está engajado num esforço absurdo e só a frustração será o resultado.

Quando você não é, você sempre acontece. Não pode haver fracasso, porque você nunca almejou nada. Se o fracasso acontecer, será um acontecimento; se o sucesso acontecer, será um acontecimento. Quando você sabe que tanto o sucesso como o fracasso são um acontecimento, não um fazer, você se torna indiferente. Qualquer um deles que acontecer não fará diferença; qualquer um servirá.

Quando eu digo “eu”, todos estão incluídos nesse “eu”.

Eu sou consciência, eu sou liberdade. Uso duas palavras – consciência e liberdade – apenas para deixar o mistério mais inteligível para você. Ambas têm o mesmo significado. Consciência é liberdade e liberdade é consciência. Quanto mais algo é material, menos livre é. Se eu digo que esta mesa é material, quero dizer que ela não é livre para se mover. Se eu digo que você é um ser consciente, quero dizer que você é livre até certo ponto. Mas se você se torna a própria consciência, se penetra a fundo na própria fonte da existência, é totalmente livre.

Eu sei que você é a própria consciência, não apenas um ser consciente. Consciência não é apenas uma qualidade agregada a você. Você é consciência, você é totalmente livre. Assim, pode começar pelo lado que preferir: ser mais livre ou ser mais consciente. O outro lado virá automaticamente.

Seja mais livre e será mais consciente. Seja mais consciente e será mais livre. Não pode ser de outro modo, porque a consciência cria a liberdade. Quando você é absolutamente consciente, é absolutamente livre. Então, não há causa nem objetivo para a sua existência. Tudo é um acontecimento. E todo acontecimento é leela.


Do livro: "Eu sou a Porta" - Capítulo 1

sexta-feira, setembro 09, 2016

O que é originariamente Um - 2/2

- Masaharu Taniguchi - 


Citemos novamente a Gravitação Universal. Quando alguém explica cientificamente que existe algo denominado Gravitação Universal, a maioria das pessoas se satisfaz com essa explicação. É que o ser humano tende a deixa-se "iludir" pelo poder mágico da palavra. Qualquer que seja o objeto de um estudo, é muito comum as pessoas darem por encerrada a pesquisa, assim que for encontrada uma definição para o objeto de estudo. Exemplificando, se uma pessoa perguntar: "Por que é que os objetos caem quando soltos no ar?", e o outro explicar que é por causa da "força de atração da Terra", aquela pessoa pensará que entendeu tudo.  Na verdade, ela não entendeu coisa alguma. O homem deu o nome de "gravidade" ou "força de atração da Terra" à força que faz com que os objetos caiam, mas não sabe exatamente o que é exatamente essa força de atração. Não podemos dizer que compreendemos o que é "Força Gravitacional", se desconhecemos a sua origem.

Uma coisa que desconhecemos não se torna conhecida apelas pelo fato de lhe darmos um nome ou uma definição. Mas, a maioria das pessoas contenta-se apenas com nomes ou definições. Por exemplo: se um pessoa contrair uma doença que se caracteriza por acúmulo de líquido na cavidade abdominal, e consultar um médico, este lhe dirá: "O senhor está com ascite, ou seja, barriga d'água". Visto que há acúmulo de líquido na cavidade abdominal do paciente, é compreensível que essa enfermidade seja chamada "barriga d'água". Porém, tal denominação apenas indica o fato de haver acúmulo de líquido na cavidade abdominal e não explica o que é, exatamente, essa doença. Mas o paciente, ao ouvir o médico pronunciar o nome da doença, convence-se de que o médico conhece toda a verdade sobre essa moléstia.

O mesmo acontece nos casos de peritonite, bronquite e muitas outras doenças. Ao constatar uma inflamação no peritônio do paciente, o médico diagnostica "peritonite". Ouvindo esse diagnóstico, o paciente pensa que o médico sabe tudo a respeito dessa moléstia. Mas, na verdade, não é bem assim. O médico diagnostica a doença, baseando-se nos sintomas apresentados pelo paciente. Se há inflamação no peritônio, é "peritonite"; se há inflamação nos brônquios, é "bronquite" – e assim por diante. Mas, na maioria dos casos, o médico não conhece as verdadeiras causas das doenças diagnosticadas. Na minha opinião, a verdadeira medicina consiste em buscar e encontrar a causa fundamental da doença. Porém, há muitos casos em que  a medicina limita-se a denominar os sintomas da doença, sem conhecer realmente a sua causa.

"Força Gravitacional" é apenas um nome que a ciência deu à atração que qualquer corpo exerce sobre outro corpo. OS próprios cientistas desconhecem a origem dessa força. Pois eu digo que "Força Gravitacional" também é uma das manifestações da força de Deus.

O Cristianismo prega que "Deus é Amor". Mas o que é amor? Amor é um sentimento através do qual todos aqueles que são "originalmente um" conscientizam-se dessa unidade. Em sua essência, tanto a ciência como a religião têm como função básica promover a conscientização de que todas as coisas são, originariamente, uma só Vida, não obstante pareçam separadas umas das outras. Portanto, ambas têm a função de promover o "Amor". Amor é o fator que reaproxima aqueles que, apesar de serem "originariamente uma só Vida", estão separados por alguma circunstância. Os pais amam os filhos, e os filhos amam os pais; o marido ama a mulher, e a mulher ama o marido. Esse amor faz com que eles se conscientizem de que, mesmo sendo separados fisicamente, são, na verdade, "uma só Vida". Se duas criaturas desejam aproximar-se uma da outra, é porque originariamente são "uma só Vida". Esse desejo de aproximação é a manifestação da força do amor. Por causa da força do amor que os une, pais e filhos sentem intensamente a dor da separação, o mesmo acontecendo com marido e mulher.

Ampliando gradativamente o alcance do nosso sentimento de amor, chegamos à compreensão de que não apenas "marido e mulher" e "pais e filhos", mas todas as pessoas do mundo são inseparáveis, pois são extensões de uma mesma Vida. Então nasce em nós o desejo de estender nossas mãos a todas as pessoas. O amor a toda a humanidade nasce quando compreendemos que todas as pessoas são, originariamente, "uma só Vida". Mas essa compreensão só se alcança através daquilo que podemos chamar de "intuição religiosa", não sendo possível chegar-se a ela através dos cinco sentidos. Os olhos carnais vêem as pessoas como indivíduos separados uns dos outros, cada um com seu próprio corpo e sua própria vida. Por isso, enquanto vemos os outros com nossos olhos carnais, não podemos compreender que, na verdade, todas as pessoas são "uma só Vida". Somente através da "percepção intuitiva", que transcende os sentidos, podemos alcançar a compreensão de que toda a humanidade é "uma só Vida".

Aprofundando mais essa compreensão, chegamos à conscientização de que a Vida de todos os seres vivos provém de Deus. Tornamo-nos, então, capazes de amar sinceramente não apenas toda a humanidade, como também todos os demais seres vivos. Aprofundando ainda mais a conscientização da "unidade de todos os seres", compreendemos, finalmente, que não só os seres vivos, como também substâncias inorgânicas como a terra, as rochas, a água, etc., são manifestações da Vida de Deus.

Conta-se que Sakyamuni, quando alcançou o "despertar espiritual" no dia 18 de dezembro, aos 35 anos de idade, viu o Jisso (Imagem Verdadeira) do mundo, onde "todos os seres animados ou inanimados, bem como todos os elementos da natureza tais como os montes, os rios, as ervas, o país, etc., eram Buda". Isto quer dizer que, naquele momento, Sakyamuni alcançou a conscientização de que todos os seres e todas as coisas do mundo são a manifestação da Vida do Ser Supremo e, portanto, são originalmente "uma só Vida".

Quando alcançamos esse mesmo "despertar" alcançado por Sakyamuni, chegamos à compreensão de que este mundo é reino de Deus. Enquanto pensamos que o país/mundo onde vivemos é uma simples matéria, não podemos compreender o significado da frase: "Montes, rios, ervas, árvores, país – tudo é Buda (ou seja, tudo é a manifestação da Grande Vida)". Enquanto olhamos o mundo sob o ponto de vista meramente científico, pensamos que este mundo é um mundo material e que o país também é simples matéria. Porém, quando alcançamos o despertar espiritual, compreendemos que o mundo, o país e todas as coisas são manifestação da Vida de Deus e possuem, portanto, a mesma Vida que possuímos. Compreendendo isso, compreendemos também a essência verdadeira do amor à pátria. E compreendemos, também, a origem da força misteriosa que faz com que seres orgânicos (como as plantas, por exemplo) retirem nutrientes das simples matérias inorgânicas através de processos de fotossíntese, assimilação, etc. As pessoas não entendem porque simples matérias se transformam em Vida; continuam pensando que "matéria é matéria; vida é vida", e não compreendem por que os alimentos, sendo simples matérias, transformam-se em Vida quando ingeridos e assimilados.

Porém, a partir do momento em que compreendemos que tudo quanto existe no mundo (sejam seres vivos ou elementos inorgânicos) é manifestação da Vida de Deus, percebemos o engano de considerar "matéria" aquilo que na verdade não o é, e compreendemos o seguinte: "É natural que as coisas consideradas como matéria possam se transformar em Vida, pois a matéria também é Vida – ou seja, a essência da matéria é Vida". Na sutra budista Kongo-kyo existe a frase: "Os montes não são montes, mas eles são chamados montes". Quando alcançamos o despertar espiritual, compreendemos o significado dessa frase. Compreendemos que "a matéria não é matéria, embora considerada como tal". Em outras palavras, compreendemos que mesmo as coisas consideradas como simples matéria constituem, na essência, a Única Vida. 

Consequentemente, compreendemos também o porquê da transformação dos alimentos ingeridos em força vital: ingerindo sob a forma de alimento aquilo que constitui a mesma Vida que existe também em nós, somos por ele nutridos e revigorados. Através dos processos como absorção, assimilação, etc., tudo aquilo que é considerado matéria transforma-se em força vital. A partir do momento em que compreendemos essa grande Verdade – ou seja, que a matéria, na verdade não é matéria, pois a sua essência é Vida –, chegamos à natural elucidação doe enigmas tais como "Por que existe a força gravitacional?" Os planetas e dos demais corpos celestes atraem-se uns aos outros porque, na verdade, constituem a Única Vida. Se não fosse assim, ou se eles fossem simples matérias inanimadas, estariam espalhados no Universo sem se atraírem uns aos outros, e não se movimentariam ordenadamente pelo espaço sideral.

Ao compreendermos, através da percepção intuitiva, que "todos os seres e todas as coisas são originariamente uma só Vida", serão completamente esclarecidas todas as questões tais como a verdadeira natureza do amor à pátria e à humanidade, a transformação de alimentos materiais em Vida, a razão da existência da força gravitacional e o porquê da pulsação do coração. A compreensão dessa Verdade se alcança através da percepção intuitiva. Enquanto ficarmos vendo e sentindo unicamente através dos cinco sentidos as coisas e os indivíduos isolados fisicamente uns dos outros, não poderemos chegar à compreensão dessa Verdade.

O que é preciso fazer para conscientizar realmente o Jisso (Imagem Verdadeira) da Vida, isto é, conscientizarmos que todos os seres, sejam animados ou inanimados, são vivificados por uma única Vida? Para isso, precisamos nos desligar, por alguns instantes, do "mundo perceptível aos cinco sentidos". Na Seicho-No-Ie, esse "desligamento" é feito através do Shinsokan: fechando os olhos carnais e mentalizando "Neste momento, deixo o mundo dos cinco sentidos e entro no mundo do Jisso", aprofundamos a consciência de que estamos no Mundo do Jisso. Praticando constantemente essa concentração espiritual, alcançamos a compreensão de que a Vida que existe em nós é a Vida eterna, a que Jesus Cristo se referiu, quando disse: "Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão existisse, eu sou". Compreendemos que dentro de nós palpita a mesma Vida que já existia há bilhões de anos, antes mesmo da formação da Terra, e que continuou existindo através dos tempos mesmo quando este planeta ainda era uma nebulosa de altíssima temperatura, de milhares de graus centígrados. Compreendemos que essa Vida Eterna é que continua existindo dentro de nós.

Compreendendo isso, compreendemos a veracidade das palavras que lemos no Hokekyo (Sutra do Lótus), do Budismo, onde Sakyamuni refere-se a si mesmo como uma Vida plenamente livre, que alcançou a iluminação há infinitos anos. Em suma, ao despertarmos espiritualmente, compreendemos que cada um de nós é a própria Vida, sublime e misteriosa, que já existia antes mesmo da formação do cosmo e, continuando a existir através dos tempos – mesmo nos momentos mais perigosos –, está manifestada em nós, aqui e agora. Ao mesmo tempo que compreendemos quão preciosa é a Vida que existe dentro de nós, conscientizamos que essa mesma Vida existe também dentro de todas as criaturas. Consequentemente, passamos a ter a nítida consciência de que não só todas as pessoas, como também todas as demais criaturas e coisas existentes no Universo são nossos verdadeiros irmãos, e conseguimos reverenciá-las do fundo do coração. Reverenciamo-las, não porque sejamos fraco e precisemos nos apoiar em alguém ou algo mais forte do que nós, mas sim porque sentimos por ela um profundo amor e uma profunda afeição, nascidos da consciência de estarmos unidos a todas as pessoas, a todas as criaturas e até mesmo a todas as coisas inorgânicas, através da mesma Vida – essa Vida indestrutível, eterna.

A compreensão intuitiva de que "todas as criaturas e todas as coisas do Universo são originariamente uma só Vida" constitui a base do amor ao próximo, e também do sentimento de valorizar todas as coisas. E este último sentimento constitui, por sua vez, a base do sucesso nos empreendimentos. Mesmo no mundo dos negócios, as pessoas que desejam alcançar o verdadeiro êxito têm de aprender a reverenciar as coisas. Caso contrário, não poderão extrair delas a força infinita. Diz-se que "até uma cabeça de sardinha poderá manifestar uma força milagrosa e curar doenças se a reverenciarmos". Reverenciando verdadeiramente todas as coisas, conseguimos extrair delas a força infinita. É preciso, pois, que aprendamos a reverenciar todas as coisas, com profundo sentimento de gratidão.

A partir do momento em que compreendemos que "todas as coisas são a manifestação da Vida de Deus", tornamo-nos incapazes de desperdiçar até mesmo uma folha de papel; pelo contrário, procuramos aproveitá-la ao máximo, fazendo com que ela exteriorize cem por cento a sua utilidade. Uma folha de papel em branco pode parecer insignificante, mas se você pegar essa folha e escrever uma carta com espírito de verdadeira reverência e gratidão, ela poderá prestar serviços de incalculável valor. Por exemplo, ela poderá manifestar um poder milagroso e curar a doença do destinatário; poderá, também, fazer com que o destinatário lhe empreste uma elevada quantia para salvá-lo da dificuldade. Como podemos ver, mesmo uma simples folha de papel em branco pode passar a manifestar uma força ilimitada, quando a vivificamos, usando-a com amor e espírito de reverência.

Na Seicho-No-Ie se diz que "na verdade, a matéria não existe". Há pessoas que interpretam erroneamente essas palavras, e pensam que "não é preciso dar valor às coisas, já que a matéria não existe". Elas estão interpretando apenas superficialmente a expressão "não existe", sem compreender o seu verdadeiro significado. Todas as coisas passam a manifestar valor infinito quando as reconhecemos como sendo "extensão da Vida de Deus". Mas quando as consideramos meras matérias pesando tantos gramas e constituídas de tais e tais elementos, elas só manifestam o valor limitado de matéria. Uma pessoa que não vê uma folha de papel como simples matéria, será capaz de transformar essa folha numa fonte de força ilimitada. Se nela escrevermos uma carta repleta de vibrações espirituais de amor, essa folha de papel se transformará em algo miraculoso e poderoso, que vivificará milhares e milhares de pessoas. Portanto, não existe coisa alguma que possa ser considerada uma simples matéria, de valor e capacidade limitados.

O valor e a capacidade de todas as coisas podem transformar-se de acordo com a intensidade da nossa reverência para com elas. Fazer com que todas as coisas manifestem a força infinita – esta é a maravilhosa "mágica", que consiste em colhermos abundantes e infinitas dádivas, a partir do nada. Mas não é preciso despojarmo-nos de todos os bens para praticarmos essa "mágica". O essencial é conscientizarmos que "na verdade, a matéria não existe, pois tudo quanto existe no mundo é manifestação da Vida de Deus". A partir do momento em que conscientizamos isso, passamos a olhar todas as coisas com profunda reverência. E todas as coisas passam a manifestar a força infinita da Grande Vida de Deus – força essa que transcende a matéria – quando as reverenciamos do fundo do coração. "A matéria não existe" – estas palavras constituem uma das bases da doutrina da Seicho-No-Ie, são palavras de suma importância. Elas são de compreensão fácil e ao mesmo tempo difícil. Por isso, frequentemente são interpretadas erroneamente. Mas acredito que, com as explicações dadas, os leitores conseguirão captar o sentido geral delas.


Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 29", pp. 110-120

quarta-feira, setembro 07, 2016

O que é originariamente Um - 1/2

- Masaharu Taniguchi -


Seja pelo contato com seus filhos ou pelas recordações da sua própria infância, você já deve ter percebido que as crianças vêem com espanto e admiração todas as coisas que as cercam. É que tudo parece novidade (e é, realmente) aos seus olhos. Para uma criança, os acontecimentos da natureza como, por exemplo, o desabrochar de uma flor, é motivo de espanto e perplexidade. Por isso, frequentemente as crianças nos "bombardeiam" com perguntas como: "Por que é que as flores se abrem?", "Por que é que o Sol nasce de manhã e se esconde à tarde?", "Por que é que as estrelas brilham?", etc., etc. Tais perguntas exprimem o grande espanto e admiração que as crianças sentem em relação a todas as coisas.

No romance Gyuniky to Bareisho, uma das principais obras do renomado escritor japonês Doppo Kunikida, há uma passagem onde o personagem principal diz: "Eu quero sentir espanto...". Realmente, é muito importante conservarmos sempre a capacidade de sentir espanto e admiração diante das coisas que nos cercam. As crianças têm essa capacidade. Elas experimentam a sensação de nova descoberta em relação a tudo. Assim, cada vez que deparam com pessoas, coisas e fatos, elas se perguntam, com espanto: "Que será isso?", "Por quê?", etc. A capacidade de sentir espanto e admiração é um dos "tesouros espirituais" mais valiosos.

As criancinhas, por terem essa capacidade, vêem como novidade todas as coisas com que deparam. Mesmo que a "coisa" em si seja velha, elas a encaram como uma nova descoberta, porque o seu espírito é novo. Os adultos, porém, tendem a ficar com o espírito envelhecido. Envelhecer é "não se renovar diariamente". Quando a mente não se renova diariamente, ela "endurece" e perde a liberdade. Aquele que encara as coisas com a mente "endurecida" e sem liberdade, não pode compreender o verdadeiro valor e a maravilha das coisas que o cercam. Ele acha que nada há de extraordinário no fato de as flores desabrocharem, no fato de as estrelas brilharem, no fato de existir a atmosfera, etc. E não achando nada extraordinário, não se sentirá emocionado ou maravilhado diante de coisa alguma. Assim, por maiores que sejam as dádivas recebidas, não sentirá gratidão, nem se emocionará. Viverá num mundo insípido, e não poderá sentir a verdadeira alegria e satisfação da alma. Não há, pois, pessoas mais infelizes do que aquelas que perderam a capacidade de maravilhar-se e emocionar-se.

"Abrir os olhos da alma" é recuperar a vivacidade de espírito, é readquirir a capacidade de maravilhar-se e emocionar-se. Quando despertamos para o milagre da Vida (Natureza), não podemos deixar de nos maravilhar diante de tudo quanto vemos. Vejamos, por exemplo, uma pequena flor do campo. Como é delicada e sutil a sua estrutura! Por mais que o homem empregue a sua engenhosidade na confecção de uma flor artificial, ele não conseguirá produzir algo tão belo e delicado como uma flor natural. Até na mais humilde florzinha está presente o milagre da Vida. Quem será o autor de tão maravilhosa obra? Quem será que construiu algo tão belo, tão delicado e tão bem elaborado? As crianças, cujos "olhos da mente" não estão envelhecidos, ficam admiradas e curiosas diante desses mistérios. Mas os adultos, por estarem habituados com essas coisas, não sentem admiração nem curiosidade.

A admiração e a curiosidade ante o mistérios da Vida nos conduzem ao desejo de buscar a origem desses mistérios. E o desejo de conhecer a origem dos mistérios da Vida constitui a base, tanto do espírito religioso como do espírito científico. E quando o espírito de pesquisa aprofunda-se até atingir o "mundo imaterial", ele se manifesta como espírito religioso.

Existem muitas pessoas que pensam que a religião e a ciência chocam-se frontalmente. Mas isso não é verdade. O espírito de busca da verdade científica e o espírito de busca da verdade religiosa são uma coisa só, em sua essência. Na realidade, ambos são "espírito de busca da origem dos mistérios da Vida", atuando independentemente em missões distintas, tais como os destacamentos de um exército.

Diante de cada coisas que os nossos olhos captam, devemos sentir o vivo anseio de buscar sua origem. Quando desejamos e buscamos ardentemente a origem das coisas, tornamo-nos capazes de chegar até ela, natural e intuitivamente. Jesus disse: "Buscai, e achareis...". Sim, existindo em nós o sincero espírito de busca, tudo nos será revelado ou dado, à proporção que buscamos.

As pessoas que acham que tudo é natural e não se maravilham com coisa alguma, não possuem espírito de busca. Se Isaac Newton não tivesse achado nada de extraordinário no fato de uma maçã desprender-se do ramo e cair no chão, certamente ele não teria descoberto a existência da gravitação universal. Mas esse fenômeno natural (isto é, o fato de uma coisa cair de cima para baixo) despertou em Newton curiosidade e perplexidade. Isto porque ele tinha espírito jovem, vigoroso, repleto de desejo de busca. Graças a isso, ele pôde descobrir a força da gravitação universal. Porém, a sua busca nessa área parou aí, porque ele aceitou como fenômeno natural a existência dessa lei. É preciso que o nosso espanto, a nossa admiração, nossa curiosidade e perplexidade diante das coisas e fatos que observamos, alcancem uma profundidade bem maior. Precisamos, por exemplo, querer saber por que existe a lei de gravitação universal. Quando o nosso espanto e a nossa perplexidade diante das coisas/fatos observado não desaparecem com a simples explicação científica, e impelem-nos a continuar buscando suas origens e causas num nível mais profundo, chegamos às descobertas religiosas realmente profundas. Devemos, pois, dizer que o espírito religioso é o anseio para se chegar à origem de tudo quanto parece misterioso. Ele atinge, portanto, uma profundidade maior do que o espírito científico.

A curiosidade de Newton quanto à causa da queda dos objetos foi satisfeita com a descoberta da força da gravitação universal. Porém, a força gravitacional é uma força que não vai além do mundo físico. Quando ultrapassamos os limites do mundo físico, descobrimos o mundo de Deus, o mundo da religião.

Vamos supor que eu tenha, em minha mão, um ramo de flor. Como será que se forma uma flor? Primeiramente, a planta absorve os elementos nutritivos do solo, através de suas raízes. Processam-se, então, as funções orgânicas da planta, e ela assimila os elementos nutritivos absorvidos. Quando os elementos assimilados se "dispõem" em determinada ordem, dá-se a formação da flor. Até aí, as explicações científicas podem nos esclarecer. Mas quando não paramos aí, e prosseguimos em nossa busca para saber o porquê de tudo isso, alcançamos, finalmente, a fonte da misteriosa força da Vida – a Força de Deus.

Na verdade, o "sentimento religioso", sendo manifestação do espírito de busca mais profundo do que o "espírito científico", leva o homem a procurar a Verdade mais profunda. Podemos, pois, dizer que o "espírito religioso" é o "espírito científico em sua maior profundidade". Portanto, ser religioso não é manter uma crença cega, mas sim possuir um espírito de busca mais profundo do que um simples "espírito científico". A ciência da matéria consiste em pesquisar, do ponto de vista físico, a estrutura, a organização, etc. de todas as coisas. Quando a nossa busca não para aí, e aprofundamo-nos cada vez mais na procura das causas e origens de todas as coisas, desenvolve-se em nós o "espírito científico que alcança um mundo além da ciência". Podemos dizer que se trata, antes, de um verdadeiro "espírito religioso" do que um "mero espírito científico".

Se alguém perguntasse "O que mantém vivo o ser humano?", um médico responderia que "o homem vive porque o seu coração ou cérebro está funcionando". Sendo cientista, ele conhece cientificamente o corpo humano. Assim, se um paciente estiver prestes a ter uma parada cardíaca, ele aplica uma injeção de cânfora para estimular o seu coração e faz com que ele volte a funcionar. Analisando o corpo humano sob o ponto de vista científico, os médicos dizem que "o homem vive enquanto o seu coração estiver funcionando". Todavia, a medicina ainda não descobriu "o que faz o coração funcionar".

A medicina atual ainda não encontrou a verdadeira explicação para isso. Várias teorias têm sido apresentadas. Nós sabemos que o coração, através de seu movimento de sístole (contração) e diástole (dilatação), impele o sangue para todas as partes do corpo, mas não compreendemos o porquê de tudo isso. É preciso que nos aprofundemos mais na busca da "origem" e compreendamos não apenas a nossa "estrutura física", mas também a existência da misteriosa força da Vida que, embora invisível, está agindo incessantemente dentro de nós para nos manter vivos. E o que nos leva a profundarmo-nos mais na busca de respostas para as perguntas como "Por que o coração funciona?", é justamente a religião. portanto, religião não é uma mera "crença cega". Muito pelo contrário, ela é algo que estimula em nós o desejo de busca mais profundo do que aquele que a ciência desperta.

Quando o homem não se satisfaz com explicações superficiais a respeito das coisas e fatos e busca persistentemente a verdadeiras origens e causas de tudo, finalmente atinge aquilo que Hebert Spencer, filósofo e sociólogo inglês, denominou "Princípio Primeiro". "Princípio Primeiro" é, como o próprio nome diz, a origem de tudo. É algo cuja existência não depende de outra "causa". Ele existe por si mesmo, desde o princípio. Assim, quando o nosso espírito de busca nos leva a aprofundarmo-nos ao máximo na procura da origem do que quer que seja, inevitavelmente chegamos até o "Princípio Primeiro". Vamos supor que uma pessoa queira saber por que o coração funciona. Estudando o funcionamento do coração, ela vai saber como é a estrutura celular desse órgão, como se processa a circulação do sangue, como o aparelho respiratório purifica o sangue, etc. Então, surge uma outra pergunta: "Por que o homem respira?". Se a pessoa, não satisfeita com meras explicações científicas, continuar buscando respostas para as perguntas que vão surgindo uma após a outra, inevitavelmente chegará a um ponto em que terá de reconhecer a existência do "Princípio Primeiro" – ou seja, o "princípio de todas as coisas", o qual não admite mais a pergunta "Por que?".

Esse "Princípio" é que é Deus, é a Vida. Quando o homem busca incansavelmente os porquês de todas as coisas e fatos, finalmente chega até o Ser Misterioso que existe desde o princípio. Esse Ser Misterioso é que é Deus. Em todos os seres humanos existem o desejo e o esforço (ainda que inconscientes) de chegar até Deus. Devemos, pois, dizer que o sentimento religioso do homem é algo muito profundo. 

Ocorre-nos , então, a seguinte pergunta: "Por que o homem possui sentimento religioso?". Podemos dizer que o homem, sendo uma criatura oriunda de Deus, traz em seu íntimo o desejo de reencontrar Aquele que é a sua origem. Se fôssemos criados num orfanato ou num lar adotivo, cedo ou tarde surgiria em nós o desejo de encontrar os nossos verdadeiros pais, que talvez estivessem vivos em algum lugar. O desejo de reencontrar os pais é, em última análise, o anseio de descobrir a própria origem. Tanto o desejo de descobrir a origem do nosso corpo carnal, como o desejo de descobrir a origem da nossa Vida, são a manifestação da saudade daquele que nos gerou, e da necessidade imperiosa que sentimos de conhecê-lo, ir a seu encontro. Portanto, ambos os desejos têm fundamento na Grande Verdade, segundo a qual todo indivíduo é "originariamente uno" com seu Pai espiritual e também com seus pais carnais. Porque somos originariamente unos com o ser que nos gerou, sentimos o desejo de reencontrá-lo e unirmo-nos novamente a ele.


Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 29", pp. 103-110


domingo, setembro 04, 2016

O "mundo mental" antecede o "mundo das formas" - 2/2

- Masaharu Taniguchi -


O que foi dito anteriormente aplica-se também à questão de casamento: um enlace matrimonial ocorre primeiramente no mundo imaterial e pouco a pouco vai surgindo no mundo das formas. Assim, por mais que uma pessoa anseie ou se apresse no "mundo das formas", não se concretizará o seu casamento, se este ainda não estiver "consumado" no mundo da mente. O que é preciso fazer é orar a Deus, tornar-se um com ele, e com Sua orientação deixar "formado" um bom casamento no mundo da mente. Assim, esse bom casamento se concretizará naturalmente no mundo das formas, sem que seja necessário apressar-se ou ansiar por ele. 

Numa das viagens que fiz à região de Kansai, contaram-me o seguinte caso: Reside em Kyoto uma adepta da Seicho-No-Ie, que aqui vou chamar de sra. A, mãe de três filhas. A filha mais velha, na época, já estava com 24 anos, sem ainda ter casado, o que preocupava seus pais. Achando que sua filha estava demorando demais para arranjar um marido, a sra. A foi consultar uma amiga sua, a sra. I, que então lhe deu o seguinte conselho:

– Como você sabe, a Seicho-No-Ie ensina que a pior coisa é ficar com a mente presa, ou seja, ficar obcecado. Portanto, pare de se preocupar com esse problema e confie tudo a Deus. Não é preciso ter tanta pressa para casar sua filha. O melhor é deixar os fato acontecerem de forma natural. Mas também não é preciso chegar ao extremo de ficar esperando que "caia do céu" um bom partido para sua filha, achando que não convém recorrer aos amigos e conhecidos. Sentir vontade de recorrer aos outros é também uma coisa natural. Certa vez, o Mestre Masaharu Taniguchi disse que as pessoas que têm filha casadoura poderiam levar as fotografias dela a diversos conhecidos, e depois deixar que as coisas aconteçam naturalmente, conforme a vontade de Deus.

A sra. A ouviu com atenção esses conselhos da sra. I e, chegando em casa, contou tudo à sua filha, que então respondeu:

– Eu não me casarei com um homem que se apaixone por mim só de ver uma fotografia minha. Eu só vou me casar com alguém que passe a me amar sinceramente, e a quem eu também passe a amar, depois de nos termos visto pessoalmente e trocando ideias...

Achando que sua filha não deixava de ter razão, a sra. A desistiu de "distribuir" fotografias dela a seus amigos e conhecidos. Mas já estava mais tranquila, lembrando-se das palavras da sra. I: "Não é preciso ter tanta pressa para casar sua filha. A Seicho-No-Ie ensina que nada deve ser forçado. O melhor é deixar os fatos acontecerem naturalmente". É verdade – pensou a sra. A. – A atitude da minha filha também é natural, e não há o que reprovar. Agora sei que Deus, sendo onisciente, resolverá tudo da melhor maneira. Vou, pois, entregar tudo nas mãos d'Ele.

Dias depois, a sra. I veio visitar a sra. A, trazendo consigo a fotografia de um jovem. Mostrando o retrato à sra. A, ela disse:
– Que tal arranjarmos o casamento deste rapaz com sua filha?
Como se tratava de um "bom partido", e a moça não fez nenhuma objeção, o "arranjo matrimonial" prosseguiu sem nenhum empecilho.

Por essa época, um sobrinho da sra. A veio de Tóquio para visitar os tios. A sra. A contou-lhe a respeito do "arranjo matrimonial" de sua filha, que estava em andamento, e mostrou a fotografia do pretendente. O sobrinho ficou olhando fixamente para o retrato durante alguns minuto, e depois disse: – Tia, não sei por que, mas não consigo simpatizar com ele. Talvez seja o seu jeito de olhar... Eu acho que esse casamento não vai dar certo.

Acontece que esse sobrinho tinha bons conhecimentos de Fisiognomonia (arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços fisionômicos) e também era capaz de perceber a compatibilidade ou incompatibilidade entre as pessoas.

– Se possível, ponha um fim nesse caso – disse o sobrinho. – Dentre os meus amigos, há um rapaz que pode ser um ótimo candidato à mão de sua filha. Que tal eu apresentá-lo a ela?

Mas os pais da moça acharam que o caso não era tão simples assim. Apesar dos conselhos do sobrinho, não poderiam recusar, por um motivo tão vago, o prosseguimento daquele "arranjo matrimonial", principalmente porque a sra. I, que apresentara o rapaz, era uma amiga muito chegada. Vendo a relutância dos pais da moça, o sobrinho disse:

– Existe uma maneira de recusar esse pretendente de sua filha, sem ofender nem a ele nem a sra. I. Em primeiro lugar, vocês vão consultar um vidente. Se este disse que tal casamento vai dar certo, a solução é deixar que sua filha se case com esse pretendente. Caso contrário, recuse-o, argumentando que "o vidente prevê má sorte nesse casamento". Desse modo, nem o rapaz nem a sra. I irão ficar magoados ou ofendidos.

Seguindo o conselho do sobrinho, a sra. A foi consultar um vidente. Assim que a sra. A forneceu alguns dados sobre sua filha e seu pretendente, o vidente disse categoricamente: – Esse casamento não vai dar certo. Não há nenhuma afinidade entre os dois.

Assim, os pais da moça tomaram a decisão de recusar aquele pretendente. Já que o vidente previra, de fato, má sorte nesse casamento, eles puderam encerrar as conversas sem ferir nenhuma das pessoas envolvidas.

O sobrinho levou a prima para sua casa em Tóquio, onde residia desde que se casara há três anos. Ele tinha a intenção de apresentar à prima um amigo seu. Sendo músico, ele tinha muitos amigos músicos, que frequentavam sua casa. Certo dia, um desses amigos, que lecionava num conservatório, veio visitá-lo e, vendo a prima do amigo, apaixonou-se por ela. "Que moça encantadora! Queria tê-la como esposa..." – pensou ele. Mas não disse nada a ninguém. Quando um homem ama verdadeiramente uma mulher, ele não a pede logo em casamento, sem antes pensar no destino que poderia oferecer a ela.

"Eu estou apenas começando minha carreira como músico e ganho muito pouco. Por isso, mesmo que me case com ela, não serei capaz de fazê-la feliz. Gostaria de pedi-la em casamento, mas não devo fazer isso" – assim pensando, o jovem e sensato professor de música manteve em segredo os seus sentimentos.

Nas férias do conservatório, ele voltou à casa de seus pais, na província. E seu pai surpreendeu-o com a seguinte pergunta:

– Meu filho, você não gostaria de se casar?
– Casar?! – disse o jovem. –Mas pai, eu ainda não tenho condições para isso.
– Mas se houvesse uma "candidata" ideal para você, gostaria de se casar, não é?
– Claro que gostaria; mas, como já disse, o que eu ganho mal dá para o meu próprio sustento...
– Ora, não precisa se preocupar com isso. Eu lhe darei uma ajuda financeira até que a sua situação melhore. O que importa é você se casar com uma boa moça. A propósito, a sra. A tem uma filha, que é uma jovem excelente. Será que você a conhece? É esta aqui. Você não gostaria de desposá-la?

Assim dizendo, o pai mostrou-lhe uma fotografia, onde se via um grupo de pessoas, e apontou uma moça. Vendo-a, o filho ficou muito surpreso, pois era a moça que ele conhecera há dias na casa de seu amigo, e por quem se apaixonara à primeira vista.

O pai conhecera a moça no dia do casamento do sobrinho da sra. A, três anos atrás, e simpatizara com ela à primeira vista. Naquela ocasião, ele pensara: "Gostaria que meu filho se casasse com essa moça daqui a dois ou três anos, quando ele tiver se formado e arranjado um emprego". Desde então, vinha aguardando uma oportunidade para falar com o filho a respeito dessa moça.

Como vemos, o pai do jovem músico já tinha "escolhido" aquela moça como futura esposa de seu filho, e este, por coincidência, conheceu-a na casa de seu amigo e passou a amá-la em segredo. Qual não foi a surpresa e a alegria do rapaz, ao saber que seu pai desejava vê-lo casado com aquela moça! Nem é preciso dizer que ele concordou imediatamente quando seu pai sugeriu que fosse marcado um encontro com ela em Tóquio. O pai do rapaz entrou em contato com outro parente da sra. A, que morava em Tóquio, solicitando-lhe providências. E assim, alguns dias depois, a sra. A recebeu desse parente um telegrama convidando a ela e sua filha para irem visitá-lo em Tóquio o mais breve possível. Chegando lá, as duas ficaram sabendo dessa proposta de casamento, que parecia vir "sob encomenda", e a moça não teve dúvidas em aceitá-la.

Concluindo, essa união feliz já havia ocorrido no mundo da mente há três anos, quando representantes de ambas as famílias haviam comparecido ao casamento do sobrinho da sra. A. Mas, enquanto os pais da moça viviam ansiosos por vê-la casada, tardava a concretização dessa união no mundo das formas, devido ao obstáculo chamado "obsessão". Porém, quando eles conheceram a Seicho-No-Ie, suas mentes se libertaram dessa obsessão. Eles deixaram de se preocupar em casar sua filha e passaram a confiar tudo a Deus. Foi então que apareceu um ótimo pretendente à mão de sua filha, e realizou-se o feliz enlace.

A atitude mental obstinada desaparece quando a mente se torna livre, dócil, receptiva e disposta a pôr em prática tudo aquilo que é possível realizar agora. E então, manifesta-se neste mundo as melhores coisas que Deus já providenciou para nós no mundo da "mente".

Conforme está escrito no "Yuishin-ge" da sutra budista Kegon-kyo, a mente pode "desenhar" qualquer coisa na tela chamada "mundo dos fenômenos", como se fosse um exímio pintor. Assim como o receptor de rádio, a mente atrai apenas coisas que sintonizam com suas próprias "ondas" ou "vibrações". E depois ela "projeta" essas coisas na tela do "mundo dos fenômenos", da mesma forma que um pintor reproduz na tela os traços e as figuras que revelam a sua personalidade.

Mesmo que não pensemos concretamente em doenças ou infelicidades, esses males virão a nós se mantivermos quaisquer outros pensamentos igualmente sombrios. Ocorre isso em razão da lei mental segundo a qual "os semelhantes se atraem". Assim, ainda que não "desenhemos" mentalmente determinada doença ou determinada forma de infelicidade, elas poderão se manifestar concretamente devido à capacidade criadora da mente, se mantivermos quaisquer pensamentos sombrios. O aparelho de rádio faz "soar concretamente" as transmissões da emissora com que estiver em sintonia. A mente também funciona de forma semelhante: se estiver emitindo constantemente vibrações negativas, pessimistas, sombrias, deprimentes, cheias de ódio e ressentimentos, ela se sintonizará somente com vibrações mentais igualmente negativas, que passarão a se manifestar concretamente, sob a forma de doença, infelicidade, etc.

Acho que ninguém se casa pensando, desde o princípio, na possibilidade de um dia se divorciar. Mas, o infeliz acontecimento chamado "divórcio" está ocorrendo, a cada momento, em algum lugar do mundo, e a "ideia" do divórcio está repleta em toda a parte. Portanto, mesmo que uma pessoa não tenha nenhuma intenção de se divorciar, seu casamento poderá acabar em divórcio, se sua mente ficar preenchida de pensamentos sombrios e agressivos que sintonizam  com coisas tristes e infelizes como o "divórcio". Isto porque a ideia do "divórcio", que está repleta em toda parte do mundo, é captada pelo "receptor" da mente sombria e agressiva, e acaba se manifestando concretamente na vida da pessoa. Quando uma pessoa emite vibrações mentais negativas, sombrias e agressivas, estas agem como ímãs que atraem ideias infelizes (como a do "divórcio") que estão sendo emitidas constantemente em alguma parte do mundo, e fazem-nas manifestar-se concretamente.

As "infelicidades" não existem realmente. No entanto, quando mantemos pensamentos negativos, elas são concebidas pela nossa mente e aparecem concretamente em nossas vidas. Por que é que surgem "as infelicidades que não existem realmente"? Porque frequentemente deixamo-nos dominar pelo apego a nós mesmos. Esse "apego" não nos permite compreender que "todos os seres são, na verdade, uma só Vida", e leva-nos a pensar que "nós" e os "outros" somos criaturas separadas umas das outras. A "Vida de Deus", a "nossa Vida" e a "Vida dos outros" estão intrinsecamente ligadas umas às outras, como as águas oceânicas. No entanto, muitos pensam que as pessoas estão separadas umas das outras, e que cada um tem que "se virar" apenas com suas próprias forças. Esse pensamento provém do "apego a si mesmo". Quando vivemos preocupados apenas com nós mesmos, não conseguimos ver a Unidade de todos os seres e coisas que, na verdade, são inseparáveis em sua essência. Então, da mesma forma que a grande massa de água oceânica nos parece dividida em incontáveis ondas, e da mesma forma que a lua cheia refletida nessas ondas nos parece quebrada em mil pedaços, a vida nos parece cheia de infelicidades, que "não existem realmente".

Portanto, quem quiser atrair a felicidade para si, precisa deixar de apegar-se a si mesmo e passar a viver com a mente livre de apegos, dócil, receptiva, positiva, alegre e sem ansiedades, confiantes na Providência Divina e no "curso natural de todas as coisas". Havendo "apego a si mesmo", o homem não consegue ser realmente alegre e feliz. Abandonando o "apego a nós mesmos", podemos nos tornar alegres e felizes. As sombras tenebrosas não conseguem infiltrar-se no mundo repleto de alegria e paz. Portanto, se vivermos sempre com a mente positiva, pacífica, purificada e repleta de alegria, tudo neste vida correrá bem, tudo se arranjará da melhor maneira, sem que precisemos lutar contra o curso natural das coisas.


Do livro, "A Verdade da Vida, vol. 29", pp. 94-102

quinta-feira, setembro 01, 2016

O "mundo mental" antecede o "mundo das formas" - 1/2

- Masaharu Taniguchi -


Tenho diante de mim, um ramo de dália escarlate, e vou desenvolver a partir dele o meu tema de hoje.

A raiz desta flor é um tubérculo com o formato semelhante ao de uma batata. À primeira análise, parece impossível que dentro dessa batata "já existia" a bela flor de dália. Mas se assim não fosse, como explicar o fato de que, plantando essa batata, desabrocha infalivelmente a flor de dália, e não rosas ou margaridas? Se surgisse ora um tipo de flor, ora outro tipo, arbitrariamente, não poderíamos dizer que "a bela flor de dália existe, desde o princípio, dentro de sua raiz". Mas o fato é que de um mesmo tipo de tubérculo surge sempre o mesmo tipo de folha e flor... Portanto, devemos admitir que dentro do tubérculo de dália "já existem" as folhas e as flores de dália, as quais se "expandem" e se manifestam neste mundo fenomênico.

Porém, mesmo cortando pedaços de tubérculos de dálias de diferentes cores e examinando ao microscópio os componentes celulares de cada um, não encontramos nada que distinga o tubérculo de dália de uma cor dos de outras cores. Em outras palavras, o exame microscópico das "células materiais" de um tubérculo de dália não nos possibilita localizar algo que indique claramente qual a cor dessa dália, qual o formato de sua folha, qual o formato de sua flor, etc. Chegamos, então, à conclusão de que, num plano "mais remoto que a estrutura material" desse tubérculo, existe o "desenho original" de dália, com seu formato, sua cor, etc., e que essa flor manifesta-se concretamente no mundo das formas quando há condições propícias para isso.

Esta dália que está aqui, diante de mim, é vermelha. E enquanto este ramo estiver vivo, seus botões desabrocharão como belas dálias vermelhas (e não de outras cores). Este ramo de dália foi cortado e está colocado num vaso. Ainda assim, seus botões se desenvolvem e desabrocham como belas dálias vermelhas. Pormos pensar, então, que o elemento que dá a cor vermelha a esta flor poderia estar contido em seu caule, e não em seu tubérculo. Porém, mesmo que cortemos um pedaço de seu caule e o examinemos ao microscópio, não podemos detectar o fator que lhe dá a cor vermelha. Concluímos, então, o seguinte: as substâncias nutritivas que esta dália absorve, seja através de seu tubérculo ou de seu caule, são transformadas em flor vermelha. E assim será quanto houver Vida nesta flor.

Não é o tubérculo ou o caule que produz a cor vermelha. No "mundo imaterial" estão os "arquétipos" (desenhos originais) de todas as coisas, os quais surgem naturalmente neste mundo das formas. Esses "arquétipos" já existentes no "mundo imaterial" são formados a partir daquilo que eu costumo chamar de "mente da tendência". Não se trata de "subconsciente" mencionado frequentemente pelos psicólogos. Muitos dos fatos vivenciados por um indivíduo desde o momento de seu nascimento ficam  registrados no fundo de sua memória, vindo à tona apenas de vez em quando. Na Psicologia, dá-se a isso o nome de "subconsciente", em contraposição ao "consciente", que está sempre à tona e em atividade, permitindo ao indivíduo pensar e agir. Mas, dentro da mente de cada indivíduo, num lugar bem mais profundo do que a camada subconsciente que retém os fatos registrados em sua memória desde que ele nasceu, existe o que podemos chamar de "mente da tendência" (mente que age segundo suas tendências e/ou hábitos), a qual já vinha trabalhando antes mesmo de seu nascimento neste mundo.

Através dessa mente é que o embrião, apesar de ainda não ter a inteligência desenvolvida, consegue "desenhar" e "construir" o seu próprio corpo. O termo "subconsciente", empregado na Psicologia, não serve para exprimir essa "mente" ou "consciência". O recém-nascido, por exemplo, começa logo a respirar e a sugar o leite do seio que a mãe lhe oferece, sem que alguém o instrua sobre a necessidade de respirar e mamar. Tais "conhecimentos" não são registrados pelo subconsciente após o nascimento do indivíduo. Toda pessoa nasce sabendo essas coisas porque antes mesmo de vir a este mundo já possuía a "mente que trabalha segundo determinada tendência ou determinado hábito". Na Seicho-No-Ie, afirma-se que as doenças são provocadas pela "mente". Cabe, aqui, esclarecer que o causador da doença tanto pode ser a "mente subconsciente" que registra os fatos vivenciados pelo indivíduo após o nascimento, como a "consciência anterior ao nascimento". 

Em se tratando de uma flor (a dália, por exemplo), é essa "consciência" que cria o formato e a cor com que ela irá surgir neste mundo. Obviamente, esta flor de dália veio de sua semente ou de seu tubérculo. Lembremo-nos, porém, que já houve tempo em que a temperatura da Terra era altíssima, não permitindo a existência de plantas de espécie alguma. Portanto, naquela época não existia na Terra nenhuma espécie de semente ou de tubérculo. Se mais tarde surgiram as sementes, os tubérculos, etc., só pode ser porque o "desenho" ou o "projeto" desses vegetais já existia no mundo da "mente" (mundo imaterial). Esta dália vermelha que está diante de mim é simplesmente a concretização do "desenho" ou "projeto" que já existia no mundo da "mente" antes mesmo do surgimento de sua semente ou de seu tubérculo, antes mesmo do tempo em que a Terra era tão quente que não permitia o surgimento de planta alguma.

As imagens cinematográficas passam a existir já no momento em que são filmadas, e não quando são projetadas na tela. Em outras palavras, as imagens ou cenas já estão no filme, e aparecem aos nossos olhos quando há condições apropriadas para isso. O mesmo acontece com todas as coisas. Esta flor de dália, por exemplo, existia desde o princípio no "mundo imaterial". Tendo encontrado condições apropriadas, ela surgiu neste mundo, da mesma forma que a imagem cinematográfica aparece na tela quando há condições para tal. Assim é o trabalho da "mente da tendência". 

Não encontramos, na Psicologia, um termo adequado para designá-la. Talvez possamos chama-la de "subconsciente em sentido lato". O fato é que o aspecto e estados materiais ou carnais de todas as coisas que surgem neste mundo material são a concretização daquilo que foi criado primeiramente no mundo imaterial.

Também nosso destino, seja ele feliz ou infeliz, é formado no mundo da mente antes de se manifestar concretamente no mundo das formas. Por assim dizer, as imagens já filmadas no mundo da mente é que aparecem mais tarde no mundo real. Eis por que, em certos casos, é possível ter, no sonho ou durante uma concentração espiritual, a visão antecipada de uma cena que vai acontecer na vida real. 

Certa vez, um homem teve o seguinte pesadelo: Estava consertando um moinho d'água, quando se desequilibrou, foi apanhado pelo moinho e se feriu gravemente numa das pernas, a qual precisou ser amputada. Muito impressionado com o sonho, ele prometeu a si mesmo que nesse dia não faria consertos de espécie alguma, e resolveu não aparecer na fábrica onde trabalhava. Por precaução foi se esconder num bosque que ficava atrás do moinho. Chegando lá, avistou um ladrão tentando roubar a madeira cortada, e passou a persegui-lo. Na ânsia de agarrá-lo, esqueceu-se completamente do sonho e acabou voltando para a fábrica. assim que lá chegou, o dono da fábrica ordenou-lhe que fizesse um pequeno conserto no moinho de água. Lembrando-se do pesadelo, o homem sentiu medo, mas não havia como se esquivar de fazer esse conserto. Assim, começou a trabalhar com a máxima cautela. Mas, apesar de todos os cuidados, acabou sendo apanhado pelo moinho e sofreu o esmagamento de uma das pernas, a qual acabou sendo amputada. Tudo aconteceu exatamente como no pesadelo que tivera. Esse homem viu antecipadamente no sonho as cenas do acidente que iria sofrer, porque tudo aquilo já havia acontecido no "mundo da mente". 

Conta-se, também, que uma pessoa sonhou que seu filhinho fora atropelado por um bonde, e passou a vigiá-lo bem para que isso não acontecesse, mas no fim a criança acabou sendo realmente atropelada, num breve espaço de tempo em que a mãe se distraiu. Por que será que, às vezes, as coisas acontecem exatamente como foram vistas com antecipação, no plano "mental"? É que toda ideia formada no mundo da "mente" – isto é, no mundo imaterial – manifesta-se concretamente no mundo real. Tudo que acontece em nossa vida é concretização das imagens e formas criadas no mundo imaterial, a partir de um elemento, também imaterial, chamado "mente". 

Recentemente, o sr. Nagakami, um conhecido meu, esteve contando o caso da morte de seu filhinho. Disse ele que, inconformado com a morte aparentemente "repentina" de seu filho, ficou pensando por que teria ele tido morte tão prematura. Foi nessa ocasião que surgiu a necessidade de ele ir a uma certa livraria onde se vendiam livros usados. Chegando lá, reparou que numa das prateleiras encontrava-se um volume da colação A Verdade da Vida editado poucos dias antes. Como o sr. Nagakami trabalhava na distribuidora desse livro, achou estranho o fato daquele volume estar colocado à venda num sebo somente alguns dias depois de ser editado, e resolveu comprá-lo. Quando chegou em casa e ia abrir o livro, reparou que havia um marcador numa das páginas. Abrindo o livro nessa página, ele constatou com espanto que havia ali uma explicação sobre a morte de crianças, dizendo: "O que tem de acontecer já está preparado de antemão para esse fim." 

Aí, lembrou-se de um fato ocorrido dois ou três dias antes da morte de seu filhinho: como o tempo havia esquentado muito e a criança estava com os cabelos bastante crescidos, o sr. Nagakami levou-a a um barbeiro. Depois que terminou de cortar o cabelo do pequenino, o barbeiro embrulhou uma mecha de papel de seda e entregou-a ao sr. Nagakami, dizendo: "Já que foi a primeira vez que o seu filhinho cortou o cabelo, leve essa mecha e guarde-a como lembrança". Dias depois, o pequenino morria, e essa mecha de cabelo ficou sendo uma lembrança de seu filho. Como vemos, antes mesmo de ocorrer a morte daquela criança no mundo material, já estavam prontos os "preparativos" para isso. Assim, ficamos sabendo que, como sempre, manifestou-se no mundo das formas aquilo que certamente já existia no "mundo da mente". O que não está formado no mundo da mente jamais se manifesta concretamente. Somente as coisas formadas no mundo da "mente" manifestam-se no mundo das formas. Eis por que todos nós devemos nos esforçar no sentido de formar boas coisas no mundo da mente.


Do livro, "A Verdade da Vida, vol. 29", pp. 87-94