"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, agosto 14, 2016

O poder que a mente exerce sobre o corpo - 2/4

- Masaharu Taniguchi - 


A FORÇA DA SUGESTÃO INFLUENCIA A SAÚDE

"O mais imperdoável de nossos inimigos é aquele que nos pergunta gentilmente: 'Hoje você está pálido, parece mal! Aconteceu algum problema?'. Desde esse instante, passamos a nos sentir mal. Ele subtrai de nós a alegria, e uma sombra escura encobre a nossa mente". - Este comentário é expressão da verdade.

O poder de sugestão pode ser comprovado por uma pessoa hipnotizada: ela apresenta olhas em sua pele quando sobre ela colocam uma moeda fria, dizendo "Vou encostar uma brasa em sua pele. Veja, você se queimou".

Se surgem bolhas num corpo por sugestão de outras pessoas, não é nada estranho que curemos nosso próprio corpo de indigestão de origem nervosa ou outras doenças, pelo poder de sugestão nossa.

Se uma pessoa hipnotizada tomar água sob o sugestionamento de que "está tomando uísque", ela começará a cambalear como se estivesse embriagada. Então é certo que, influenciando a mente de uma pessoa através da sugestão, podemos provocar diversos efeitos em seu corpo.

O dr. Frederick, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Amsterdã, estudou com entusiasmo a parapsicologia e relatou muitos exemplos de espantoso poder da sugestão, entre os quais a experiência realizada por uma famoso professor de medicina de Paris, a respeito da qual ele diz o seguinte:

"Eu presenciei uma aula prática de clínica dada por aquele professor. Na ocasião, o professor fez um paciente beber água, fazendo-o acreditar que fosse vinho, o que o deixou embriagado. Depois fê-lo segurar uma colher fria de prata, dizendo que era uma peça de ferro em brasa, e o paciente soltou a colher, como se tivesse queimado a mão. Em seguida, o professor deu  a outro paciente um livro, dizendo-lhe: 'Esse livro está totalmente em branco'. Então o paciente não enxergou as letras impressas. O professor soprou as páginas do livro e disse: 'Veja, esse livro contém fotos de pessoas ilustres', e o paciente folheou as páginas com muito interesse. O professor soprou novamente o livro, dizendo: 'Veja, esse livro traz fotos de paisagens estrangeiras', e o paciente, parecendo enxergá-las de fato, apontou e descreveu cada uma das paisagens e depois disse: 'Isto é realmente incrível; nunca vi tal mágica'.

Depois o professor disse: 'Sei fazer mágicas mais interessantes. Feche os olhos e depois abra. Enquanto você estiver de olhos fechados, a minha cabeça terá desaparecido'. O paciente fechou e abriu os olhos, e fitou o professor com expressão de espanto. 'Que tal? Você gosta de ver um homem sem cabeça?', brincou o professor. E o paciente, dizendo 'Realmente o professor está sem cabeça! Será que fiquei louco?', deu uma pancada em sua própria cabeça."

O dr. Marden presenciou uma experiência em que sugestionaram um cavalo, fazendo-o crer que estava doente. Fizeram o cavalo deitar-se e o cobriram com um cobertor como se ele estivesse com uma doença muito grave; passaram remédio nele e o massagearam, mostrando-se compadecidos dele. Então o cavalo acabou perdendo o apetite, tornando-se incapaz de comer e beber.

Trouxeram ainda outro cavalo saudável, levantaram uma de suas pernas dianteiras, apalparam-na, aplicaram-lhe atadura, massagearam-na e trataram-na com cuidado como se aquele membro tivesse algum problema. Quando o cavalo foi andar novamente, começou a mancar de verdade.

Pelo mesmo princípio, quando a mãr se preocupa demais com a criança, dizendo "Você tem algum problema?" e mostrando assim seu medo, preocupação e ansiedade, a criança passa a apresentar sintomas da doença.

A atitude de prevenção da mãe que está constantemente imaginando um mal, temendo que algo prejudique o seu amado filho, acaba atraindo o que ela teme. A mãe que fica sempre observando se o filho não está com alguma doença, procurando detectar o menor sinal de enfermidade, contagia imediatamente a mente sensível da criança, prejudicando-lhe o funcionamento do organismo.

Numa certa família que o dr. Marden visitou, a mãe ficava constantemente dizendo aos seus amados filhos: "Você não está com algum problema? E a barriga? Que tal tomar este remédio? Talvez seja melhor aquele outro". Só à tarde ela perguntou pelo menos seis vezes a cada um dos filhos: "Você não está com frio? Não está com dor de cabeça? Não vai ficar resfriado?". E dizia: "Vai ficar resfriado se não cobrir a cabeça. Nossa, está com os pés tão molhados! Vai ficar doente!". Cuidava assim de cada um dos filhos, sempre preocupada. Por amor aos filhos, citava o nome de toda as doenças que conhecia, no intuito de resguardá-los delas. Como consequência disso, projetava na mente deles a ideia de doença, e sempre havia alguém doente em sua família. "Em casa sempre há um doente; por isso, nem posso sair", queixava-se ela. Na verdade, porém, tal mãe estava criando a doença com suas próprias palavras.

O pai não era menos preocupado que a mãe com as doenças de seus familiares. Chamava os filhos e verificava-lhes a pulsação, colocava a mão na testa deles para ver se tinham febre, e dizia: "Está um pouco quente; você está com febre". E a criança, acreditando estar realmente doente, corria para a cama.

É lamentável que sejam raros os pais que percebem que eles próprios estão introduzindo na mente sensível dos filhos os pensamentos relativos à doença e o sentimento de medo que alimentam em sua própria mente. Tentando resguardar seus filhos da doença, estão, na verdade, tornando-os doentes.

Quando o ser humano é criado dentro de tal atmosfera - de preocupação e temor relativos à doença -, com constante precaução contra supostos perigos, e sempre alertado com mil recomendações, ele é dominado pela ideia de que tudo que fizer o deixará doente; cresce com a obsessão de que praticamente não há meio de viver em paz; e, mesmo depois de adulto, será escravo do temos em relação à doença.

Se os pais souberem do terrível efeito do temor de doenças, certamente eliminarão da mente de seus filhos esse temor e procurarão não incutir neles qualquer ideia de doença.

Não faz ainda muito tempo que a humanidade começou a perceber quão espantoso é o poder da sugestão.

Bem recentemente, Marden encontrou uma mulher inteligente que, por causa de uma sugestão depressiva recebida de um romance que lera numa revista, passou mais da metade desse dia como uma verdadeira doente. Esse romance era da autoria de um famoso escritor e descrevia em estilo vigoroso um fato trágico. A forte impressão causada pelo seu estio despertou o temor à doença que estava oculto no fundo de sua mente, tornando-a completamente enferma.

É muito comum os estudantes de Medicina ficarem doentes em virtude da terrível sugestão recebida na sala de experiência de anatomia patológica ou por medo de contrair a doença que estão estudando.

Então, é natural que pensamentos sempre alegres, saudáveis e cheios de esperança influam favoravelmente no corpo, podendo até restituir a saúde ao corpo doente.

A mente de quem fica doente é um tanto fraca, subjetiva e negativa. E é muito sensível, altamente suscetível à sugestão, seja ela boa ou má.

Em oposição, a mente das pessoas saudáveis é independente, positiva e criativa; tem maior resistência à sugestão e repele os pensamentos relativos à doença.

Quase todas as pessoas devem ter experimentado melhora repentina de seu estado de saúde ao receber a visita de um amigo alegre e otimista que transmite esperança e coragem.

Da mesma forma, creio que todos nós já tivemos a experiência de ficarmos ainda mais deprimidos e doentes ao recebermos um visitante melancólico e pessimista.

O doente, assim como a criança, precisa ser encorajado. Ele precisa ser iluminado pelos outros com a luz da esperança.

Os médicos, as enfermeiras, os amigos e os parentes precisam infundir esperança, alegria e coragem na mente do doente através de sua expressão fisionômica, atitude e palavras. É incalculável o quanto isso ajuda os doentes a melhorarem. Certamente virá o dia em que isso será costume comum dos que assistem os doentes.

O que realmente se faz necessário é um médico alegre e otimista. Ele sempre sugestiona os doentes de modo que se sintam seguros. Ele estimula o poder curativo natural, que existe dentro dos doentes. Anima-os quando a face deles começa a ficar corada e encoraja-os quando a pulsação está voltando ao normal. Constantemente aviva a esperança dos doentes e os alegra, contribuindo efetivamente para a melhora deles. Os doentes confiam nos médicos. Precisamos saber que a sugestão otimista do médico é um precioso remédio, infinitamente mais eficaz do que qualquer medicamento.

Marden cita dois médicos que comprovaram na prática esse fato. Um deles era otimista, muito divertido, possuidor de senso de humor e sempre gracejava com os doentes, contava-lhes casos cômicos ou lhes infundia esperança e alegria. Quando esse médico completava sua jornada de visita aos pacientes, a atmosfera da enfermaria mudava totalmente. Sua fisionomia alegre e seu otimismo radiante como o Sol melhoravam o estado de todos os pacientes.

O outro médico era um homem melancólico, austero, calado, que dificilmente sorria. Quando o estado do paciente piorava, ele o declarava honestamente: "O seu estado está piorando". Sendo um médico honesto e consciencioso, não conseguia deixar de revelar o seu diagnóstico, por pior que fosse. Os doentes ficavam desiludidos, desanimados, e frequentemente acontecia de sucumbirem sem demora.

Como são raros os médicos conscientes de que o ânimo e a esperança de seus pacientes dependem de uma palavra ou expressão sua! Atualmente, os médico mais avançados estão começando a admitir que a energia e a capacidade autocurativa dos pacientes aumentam com a fé e a esperança de que irão se restabelecer.

Certos médicos honestos pensam que é dever seu contar a verdade aos pacientes, e que estes, por sua vez, têm o direito de sabê-la, principalmente no caso de doenças graves. Se os médicos fossem oniscientes, fizessem os diagnósticos absolutamente isentos de erro e fossem capazes de medir com precisão toda a vitalidade, toda a energia que atua dentro do corpo humano, talvez fosse correto dizer a verdade aos pacientes. Porém, mesmo o mais erudito dos médicos quase nada conhece a respeito da Vida que habita o interior do homem. Muitos são os casos em que os pacientes praticamente sem esperança de cura passam a melhorar, quando recuperam a esperança graças às palavras de um grande médico.

Então, porque os médicos não deveriam dar gentilmente aos pacientes um fio de esperança, se sabem como os pensamentos pessimistas ou um diagnóstico desanimador são nocivos aos pacientes já debilitados? Teriam os médicos outro dever maior que o de auxiliar a cura dos doentes? Por que eles não deveriam utilizar o grande poder curativo que reside na esperança e na fé?

É muito grande a influência da mente forte e saudável dos médicos sobre a mente abatida e enfraquecida dos pacientes. Os médicos devem ministrar aos pacientes um revigorante de natureza espiritual também, sempre que possível.

Os médicos têm para com os pacientes um dever infinitamente mais importante do que o de informá-los da "verdade" ou do "estado de saúde" que eles consideram verdadeiro.

O poder da sugestão, agindo sobre a mente, produz um efeito comparável ao milagre.

Lendo a história das religiões, notamos que ela está repleta de casos de cura de pessoas que se banharam em termas famosas, em fontes sagradas onde são cultuadas imagens de Nossa Senhora ou em rios considerados milagrosos.

As pessoas que passaram um tempo em estações de tratamento e recuperaram a saúde atribuem a causa da cura ao ar ou à água da região, mas não podemos negar que elas foram influenciadas em grau semelhantes pela mudança do ambiente e, consequentemente, pela sugestão recebida desse ambiente.

Os fatores mentais como a tranquilidade, a coragem, a esperança, a alegria, etc., são bem mais eficazes que os medicamentos na cura de doenças, e devem ser estimulados ao máximo.

A infelicidade da humanidade está no fato de não conscientizar o milagroso poder curativo que está oculto no interior de todo ser humano. Não há uma doença sequer que não possa ser curada pelo remédio específico que existe dentro de nós. E essa cura não é alívio temporário, mas sim a cura total e absoluta, como está testemunhada na Bíblia.


O AMOR É UMA FORÇA QUE CURA

O amor cura. A Bíblia enfatiza esse fato mais do que qualquer outro. Não vemos um pequeno exemplo disso no amor da mãe que elimina o medo e cura todos os pequenos ferimentos e doenças de seus filhinhos? É natural que a criança recorra constantemente à mãe, pedindo-lhe para massagear o local dolorido, ou refugiando-se em seus braços quando fica assustada com algo.

Se o amor da mãe tem poder de curar a criança, é lógico que o Amor de Deus, isento de qualquer interesse pessoal, tenha infinito poder de cura. Não dá a Bíblia a incontestável prova de que o amor perfeito erradica o temor? E quando o temor se vai, é eliminada uma das maiores causas de nossas disfunções orgânicas e doenças.

Para quem é atormentado pelo temor, que é o maior inimigo da humanidade, não há remédio melhor que a leitura do Salmo 91 (ou 90) e sua aplicação na vida prática. Esse grande salmo inicia-se assim: "Aquele que habita à sombra do Altíssimo, na proteção do Onipotente descansará..."

Aquele que crê no Altíssimo (Deus) e se deixa envolver por Seu amor, é protegido por Deus Onipotente. Para ele não há temor algum, preocupação alguma. Não há melancolia nem insegurança. Qualquer temor, preocupação, melancolia ou insegurança desaparecerá se interpretarmos corretamente este salmo e o aplicarmos corretamente na vida prática. Mesmo as pessoas que etão no abismo da desilusão sentir-se-ão encorajadas, se compreenderem esta Verdade!

Existe situação mais segura do que estar envolto pelos braços de Deus Onipotente? Aqueles que estão nos braços de Deus - que é a fonte de todo o bem -, aqueles que são protegidos pelo Amor de Deus, nada temem, não conhecem a tristeza nem a preocupação, pois se sentem realmente amparados pela força onisciente e onipotente e pela Sabedoria infinita de Deus.

Quando desta maneira adquirimos a convicção de que estamos ligados à fonte de tudo que é benéfico; quando conscientizarmos que a saúde não é algo que temos de conquistar de fora para dentro, mas que somos a própria saúde; quando conscientizarmos que a harmonia não é algo que obtemos combinando seres espalhados aqui e acolá, mas que nós próprios já somos a própria Verdade, o próprio princípio da Vida, então começaremos a viver de modo verdadeiro e pleno.

Todo homem sabe que possui no fundo de sua essência uma força misteriosa que cura todas as doenças. Simplesmente não tem fé suficientemente forte para revelar essa força. Todo homem sente a presença de algo divino que habita o seu interior, algo que não pertence à carne, algo que, estando por trás da carne, nos cura incessantemente. Se sabemos vagamente dessa força, é porque somos filhos de Deus, filhos da Vida. O grande objetivo da vida do ser humano está em descobrir dentro de si mesmo a chama da Vida que a tudo vivifica e a tudo rejuvenesce, e aprender a utilizá-la na vida cotidiana.


Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 24", pp. 30-40

quinta-feira, agosto 11, 2016

O poder que a mente exerce sobre o corpo - 1/4

- Masaharu Taniguchi -


Foi bem antes de o renomado ator inglês Henry Irving morrer. O médico da família o proibiu de representar o famoso protagonista da peça Os sinos. O médico argumentara que, se Irving continuasse a representar esse papel, seu coração não resistiria a tão grande esforço. Ellen Terry, que por muitos anos fora a atriz favorita de Irving, escreveu o seguinte a seu respeito em sua biografia: 

"Quando ele estava representando e chegava à cena em que o sino toca, dava a impressão de que ia sucumbir de taquicardia. Sua face se tornava toda pálida. Nisso não havia truque algum. A força da imaginação dele, que tentava encarnar plenamente o personagem da peça, influía fisiologicamente sobre o corpo.

Quando ele representava o personagem robusto chamado Mathias e chegava à cena em que este morria, ele apresentava uma expressão totalmente diferente da que mostrava em outras cenas, e agonizava de fato, tamanha era a intensidade com que ele imaginava a morte. Os olhos  ficavam cravados no ar; numa expressão de moribundo, o rosto ficava cinzento; as mãos e os pés, gelados. Por isso, não foi sem razão que o seu coração não resistiu a tão grande excitação quando ele representou a peça Os sinos em Bradford, violando a proibição do médico de Wolverhampton. Em menos de vinte e quatro horas após ter representado no palco a morte de Mathias, ele morreu".

Na noite seguinte (foi nessa noite que ele morreu), ele representava o papel de Becket, mas o médico, vendo a sua interpretação, disse que ele continuava a trabalhar agonizando de fato. Esse famoso ator só não morreu durante a representação graças ao estímulo mantido pelo seu arrebatamento como ator e pelo entusiasmo dos espectadores.

São muito comuns os casos em que os atores enfermos, estimulados pela paixão de representar e pelo entusiasmo dos espectadores, chegaram a ficar temporariamente curados e esquecer completamente os seus sofrimentos.

O ator Edward Southern também disse: "Quando eu piso o palco, sinto que o funcionamento do cérebro melhora muito. E mesmo no nível fisiológico, a respiração se torna profunda. Sinto que o ar que respiro me estimula agradavelmente. Quando chego à entrada do palco, o cansaço se dissipa. Mesmo nas ocasiões em que teria de ir ao médico e ficar no leito, se entrar no palco, sou capaz de representar sem nenhuma dificuldade." Entre oradores, pregadores ou vocalistas famosos, há muitos que têm experiências semelhantes.

Não lamente a situação que obriga você a empenhar toda a sua força. Ela constitui uma fonte de força que o vivifica. A "necessidade premente" não é um fardo, mas fonte de vitalidade. Os sofrimentos e as doenças comuns são dissipados diante dessa fonte de vitalidade. Mesmo nas ocasiões em que pensamos ser incapazes de fazer o esforço exigido, se nos virmos diante de uma grande emergência que nos obrigue a agir, a força infinita que existe no interior de nós se manifestará e se nos salvará, tornando-nos capazes de realizar sem dificuldades até mesmo os trabalhos que parecem ser impossíveis.

Voltemos ao exemplo de vocalistas e atores. Eles têm de se apresentar todas as noites no palco, mas há ocasiões em que estão de folga. E justamente nesses momentos, por não terem o que fazer, sentem-se mais doentes e passam mal. Diz-se entre atores e vocalistas: "Não temos tempo para ficar doentes".

Disse certo ator: "Não podemos nos dar ao luxo de ficar doentes. Somos impelidos pela espora chamada 'necessidade premente'. Nós também passamos por momentos em que, se fôssemos pessoas comuns e ficássemos em casa, teríamos o direito de ficar na cama e ser doentes, como vocês. Mas, em tais ocasiões, rejeitamos a cama. Munidos apenas da necessidade de subir ao palco, repelimos o ataque da doença. Não é mentira a afirmação de que a vontade é o melhor fortificante. Quem se apresenta no palco sabe que precisa ter uma boa reserva desse fortificante".

Certo ator, vítima de reumatismo, não conseguia andar os dois quarteirões que separavam o hotel do teatro, mesmo com o auxílio de bengala. Porém, quando chegou a hora de ele entrar em cena, conseguiu não só subir ao palco com facilidade e gestos elegantes, como também esqueceu totalmente os problemas de saúde que o estavam atormentando até então. A força de vontade, que era mais forte, afastou a doença, que era mais fraca. O ator não sentia dor alguma enquanto estava no palco. Isso não significa que a doença ficasse neutralizada por outros pensamentos, sensações e emoções. Ainda que temporariamente, ele ficava totalmente curado. E quando, terminada a representação, deixava o palco, ele voltava a ser o reumático que era.

Na época da Guerra de Secessão, o general Grant estava sofrendo de forte reumatismo, mas, ao saber que o comandante da tropa inimiga, general Lee, estava querendo se render, não só esqueceu o seu reumatismo, como de fato ficou totalmente curado por determinado tempo, arrebatado por tamanha alegria.

Houve também o caso de uma pessoa que sofria de paralisia durante quinze anos e que se curou graças ao choque do Grande Terremoto de São Francisco. Durante aquela catástrofe, foram incontáveis os casos de cura milagrosa quase instantânea. Muitos que estavam acamados e não conseguiam cuidar nem de si mesmos, ao se virem naquela situação desesperadora, revelaram uma valentia de troiano e perfizeram longo percurso a pé até a zona segura, carregando os filhos e os pertences.

A aldeia de Deadwood, situada na serra Black, em Dakota do Sul, na época em que não havia ainda telefone, telégrafo nem ferrovia, era realmente um lugar desprovido de recursos; e, para chamar um médico, tinham de andar cem milhas. Por isso, para pessoas de nível comum de vida, consultar um médico estava totalmente fora de cogitação! Isso só acontecia no caso de doença ou ferimento muito grave. Nas famílias numerosas dessa aldeia havia muitas pessoas que nunca viram um médico. Quando alguém experimentou perguntar a uma dessas famílias se nunca tinham ficado doentes, recebeu uma resposta singular: "Não, nunca ficamos; simplesmente não poderíamos viver se não fôssemos fortes, pois não temos condições de chamar um médico. E também, mesmo que fôssemos chamá-lo, o doente morreria antes de ele chegar".

A maior infelicidade cultivada por nós, que nos dizemos "altamente civilizados", é termos deixado de acreditar na capacidade curativa natural que existe no interior de nós mesmos. Nas grandes cidades em que vivemos, há demasiado número de estabelecimentos que cuidam de doenças. Como consequência natural, imaginamos a doença, prevemos a doença e acabamos ficando doentes, segundo a lei da mente. Há um consultório médico a cada um quarteirão ou a cada dois quarteirões. As farmácias ostentam suas placas em todos os quarteirões. Os médicos e as farmácias estão nos tentando, como a dizer para procurá-los assim que surgir algum indício de doença. Dessa forma, passamos cada vez mais a recorrer ao auxílio externo, enquanto o poder curativo interno fica embotado e nos tornamos incapazes de curar com nossa própria força o desarranjo do corpo.

Na época em que o grau de civilização não era muito alto, nas cidades e aldeias pequenas raramente apareciam médicos. Seus moradores confiavam no poder curativo interior e não recorriam a nenhum auxílio externo. E eram fortes e revelavam grande resistência à doença.

A saúde de uma criança criada num lar que por qualquer probleminha chama o médico, está sujeita a ficar num estado lastimável. Isso porque a presença de um médico dá à criança uma sugestão bastante forte de que "ela é fraca". Há grande número de mães que, quando acham que os filhos não estão muito bem, logo chamam o médico; em consequência disso, no subconsciente dessas crianças ficam gravadas ideias de doença, médico, remédio, etc., que as influenciarão, mesmo depois de crescerem ou durante toda a vida.

Certamente virá a época em que se compreenderá que a criança e o remédio são realmente incompatíveis. A criança deve ser criada sob sugestão de amor, Verdade, de harmonia.

Desde que surgiu este movimento neo-espiritualista, aumentou muito entre os seus seguidores as famílias que não tomam remédio algum nem consultam médicos. Está ficando cada vez mais próxima a era em que se tornará ilusão do passado a crença de que, para consertar o nosso corpo criado por Deus, precisamos remendá-lo com "retalhos" materiais. De maneira alguma o Criador deixa a saúde, a felicidade e a prosperidade do homem à mercê de simples acidente, tornando necessário que ele more perto de médicos.

Deus, de maneira alguma, deixa abandonado na mão tirana do simples acaso ou da crueldade do destino o que Ele criou com amor. A Vida, a saúde e a felicidade dos filhos que Deus gerou não precisam, de forma alguma, estar perto de remédios para recorrer a eles em caso de emergência. A Vida, a saúde e a felicidade do homem não foram feitas de maneira a depender da existência ou não de plantas ou minérios medicinais na proximidade.

Acredito que Deus não comete o absurdo de deixar escondidos os remédios nas ervas e nos minérios existentes em lugares distantes e acessíveis apenas a uma pequeníssima parcela da humanidade, fazendo com que muitas pessoas morram sem consegui-los. Não seria mais lógico pensar que ele deixou guardado o remédio para curar doenças e outros males bem ao alcance do homem, isto é, no interior do próprio homem, de modo que possa ser aplicado a qualquer momento?

No interior de cada pessoa está oculta a força secreta, a Vida indestrutível, a fonte inesgotável de saúde, a qual, quando ativada, constitui o remédio que cura todo e qualquer ferimento nosso, toda e qualquer infelicidade nossa.

O homem geralmente não adoece enquanto tem de trabalhar como figura central na solução de um problema. Mesmo as damas aristocráticas de compleição frágil, dificilmente ficam impossibilitadas de comparecer, por motivo de doença, no dia em que lhes é concedida uma audiência com o chefe da nação ou quando são convidadas para a Casa Branca, em Washington.

São bastante comuns os casos em que os doentes crônicos ficam praticamente curados quando lhes é atribuída uma grande responsabilidade. Muitas vezes, as pessoas acamadas há muito tempo, quando são obrigadas a levantar e agir devido a algum acontecimento de extrema gravidade que as faz esquecer da doença, ficam completamente curadas!

No mundo todo, existem muitas mulheres que até alguns anos atrás eram extremamente fracas mas que, por ter aumentado o número de filhos para cuidar e não ter mais tempo para pensar na sua doença, passaram a trabalhar e a fazer planos em prol deles, e graças a isso estão agora vivendo com relativa saúde.

A maioria dos seres humanos fica doente se tiver tempo para isso. Mas, quando têm uma família numerosa e faminta para sustentar ou são perseguidos por diversos afazeres que a vida lhes impõe, eles têm saúde, queiram ou não.

A "situação que nos obriga a agir" - quanta gratidão deve o mundo a essa espora! Que grande esforço o homem faz quando é acuado para uma situação em que não há a quem recorrer, quando fica privado de todos os meios de salvação externa e se vê obrigado a armar-se de toda a força que possui, quando tem de sair com sua própria força dessa situação infeliz! Quanto este mundo deve a essa força da "necessidade premente"!


Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 24", pp. 15-22

segunda-feira, agosto 08, 2016

Libertando-se de todo desejo (Goldsmith)



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As barreiras ao nosso progresso espiritual são representadas por nossas esperanças, ambições e desejos, mesmo quando bons

Alguns de nós não conseguem libertar-se da procura da saúde, e outros não conseguem libertar-se da busca ao rendimento, à comida, roupa ou companhia. Sempre, uma dessa necessidades ou desejos é a coisa que achamos que tem de ser resolvida em primeiro lugar. 

Acreditamos que, se pudéssemos nos livrar da dor, e só então, poderíamos ir em busca de Deus; ou que, se pudéssemos ser mais bem providos, então poderíamos pensar em Deus. 

Não, a coisa funciona ao contrário: se pensarmos primeiro em Deus, teremos todas essas outras coisas. 

“O homem, cujo fôlego está nas narinas” tem sempre de querer coisas, condições ou pessoas, por achar que estas lhe faltam; e, portanto, ele nunca está livre para buscar o reino de Deus e sua virtude.

Podemos desejar que nos seja dado um pensamento com o qual possamos operar a obra da cura, mas isso é um efeito. 

Podemos querer que nos seja dada uma verdade sobre a posse de bens ou companhia, mas isso, também, é um efeito. Até mesmo desejar bons pensamentos é desejar efeitos. Não desejamos bons pensamentos; desejamos apenas uma coisa: PAZ - QUE NADA MAIS É QUE A PERCEPÇÃO DE QUE O ESPÍRITO DE DEUS É O NOSSO!

O desejo é sempre uma barreira ao nosso progresso, e certamente, uma barreira no caminho da meditação. 

Quando chegamos a um ponto em que não há nada que desejemos obter da meditação, quando não estivermos nos empenhando na meditação por um propósito qualquer, mas simplesmente devotando-nos a estar em quietude, é fácil chegar à meditação. 

É só quando levamos para nossa meditação o nosso desejo por alguma coisa, e esse desejo é o desejo de um efeito, que essa PERCEPÇÃO, quietude e paz interior fogem de nós.

Trabalhar com os princípios que constituem a letra da verdade desenvolve o espírito ou Consciência da verdade. 

Finalmente, estamos vivendo na consciência de Cristo, onde é muito fácil meditar, porque não temos nem ódio, nem medo, nem amor por nada que pertença ao domínio exterior. 

Até o nosso amor pelos amigos e pela família adquire uma natureza espiritual, o que desencadeia neles uma mudança em relação a nós, de forma que eles passam a não se agarrar a nós como faziam antes, ou depender de nós, ou confiar cegamente em nós.

A conscientização de que Deus é a realização do nosso ser liberta-os e liberta-nos para o amor, porque estamos agora livres para dar e receber sem apego ou ligação. 

Podemos amar nossas famílias sem acreditar que elas nos devam algo, e sem achar que lhes devamos algo: apenas amá-las. 

Nossos familiares têm o mesmo Deus que nós temos, ou seja, o Espírito de Deus é o mesmo em todos nós, e agora estamos unidos nesse laço de amor que pode dar e receber livremente, e nunca achar que, ao dar, privamo-nos de algo, ou que, ao receber, privamos outrem de algo, isso porque sabemos que estamos sempre dando ou recebendo de NÓS MESMOS.

Chegar à percepção de nossa unicidade com Deus é a experiência mas libertadora do mundo. 

Mas chegamos a ela através de muita e muita prática, e atendo-nos a esta verdade até que, a pouco e pouco, toda a nossa consciência muda. 

Quando isso acontece, e este mundo aparentemente material “morre” para nós, ganhamos todo o mundo: ele é então todo nosso cada pedacinho. Era apenas o desejo do mundo que o mantinha longe de nós. 

Agora não há nada a ser alcançado, nada a ser ganho, nada a ser conquistado. Tudo já o foi. 

O Senhor já é nosso pastor, não porque o tenhamos ganho ou o mereçamos, nem porque façamos jus a isso, não porque vamos fazer qualquer coisa, mas simplesmente porque o Senhor é nosso pastor, o SENHOR É O NOSSO ESPÍRITO e não ficaremos em necessidade. 

Adquira a percepção consciente da presença e do poder de Deus dentro do seu próprio ser. 

Independentemente do nome ou da natureza do problema ou da necessidade, não tente resolvê-lo ao nível do problema. 

Não tente resolver a necessidade de bens materiais como tal, nem tampouco as relações de família como relações de família. 

Abandone todo e qualquer pensamento relativo a essas coisas. 

Penetre em si mesmo até alcançar aquele lugar interior que lhe fornece a resposta divina. 

Então, o seu problema se solucionará. Uma vez que você tenha tocado o Cristo dentro de você, dentro do seu próprio ser, terá tocado a fonte da vida em maior abundância.

A unicidade consciente com Deus! 

Esta constitui a unicidade consciente com todo o ser espiritual e com cada ideia espiritual.


sexta-feira, agosto 05, 2016

A Vacuidade: a realidade além da realidade

- Yongey Mingyur Rinponche -


O senso de que as pessoas vivenciam quando repousam suas mentes é conhecido nos termos do budismo como vacuidade, que é provavelmente uma das palavras mais mal-entendidas da filosofia budista. Já é difícil para os próprios budistas compreender o termo, mas os leitores ocidentais têm ainda mais dificuldade, já que muitos dos primeiros tradutores dos textos budistas em sânscrito e tibetano interpretavam a vacuidade como “o Vazio” ou o nada — erroneamente relacionando a vacuidade com a idéia de que nada existe. Nada estaria mais longe da verdade que o Buda buscava descrever.

Apesar de o Buda de fato ter ensinado que a natureza da mente — na verdade, a natureza de todos os fenômenos — é a vacuidade, ele não quis dizer que sua natureza fosse verdadeiramente vazia, como um vácuo. Ele disse que ela era vacuidade, termo que, em tibetano, é composto de duas palavras: tongpa-nyi. A palavra tonpa significa “vazio”, mas somente no sentido de algo além de nossa habilidade de perceber com nossos sentidos e nossa capacidade de conceitualizar. Talvez uma tradução melhor fosse “inconcebível” ou “que não pode ser nomeado”. A palavra nyi, por sua vez, não tem nenhum significado específico no vocabulário tibetano cotidiano. Mas, ao ser agregada a outra palavra, ela transmite um senso de “possibilidade” — um senso de que tudo pode surgir, tudo pode acontecer. Então, quando os budistas falam da vacuidade, eles não querem dizer “o nada”, mas sim um potencial ilimitado que algo tem de surgir, mudar ou desaparecer.

Talvez possamos usar, neste ponto, uma analogia com o que os físicos contemporâneos aprenderam sobre os estranhos e maravilhosos fenômenos que observam quando examinam o funcionamento interno de um átomo. De acordo com os físicos com os quais conversei, a base de todos os fenômenos subatômicos é muitas vezes chamada de estado de vácuo, o estado de menor energia no universo subatômico. No estado de vácuo, as partículas continuamente aparecem e desaparecem. Assim, apesar de aparentemente vazio, esse estado é, na verdade, muito ativo, repleto do potencial de produzir alguma coisa, qualquer coisa. Nesse sentido, o vácuo compartilha certas características com a “qualidade vazia da mente”. Assim como o vácuo é considerado “vazio”, mas, ao mesmo tempo, é a fonte da qual toda espécie de partículas surge, a mente é essencialmente “vazia” no sentido de que desafia a descrição absoluta. Entretanto, todos os pensamentos, emoções e sensações perpetuamente surgem a partir dessa base indefinível e incompletamente conhecida.

Como a natureza de sua mente é a vacuidade, você possui a capacidade potencialmente ilimitada de vivenciar uma variedade de pensamentos, emoções e sensações. Mesmo os mal-entendidos sobre a vacuidade não passam de fenômenos que surgem da vacuidade! Um simples exemplo pode ajudá-lo a obter algum entendimento da vacuidade em um nível experimental. Alguns anos atrás, um estudante me procurou pedindo ensinamentos sobre a vacuidade.

Dei-lhe as explicações básicas e ele pareceu bem satisfeito — eletrizado, até. “Isso é tão legal!”, ele exclamou ao final de nossa conversa. Minha própria experiência me ensinou que a vacuidade não é tão fácil de entender depois de uma lição, então sugeri que ele passasse os próximos dias meditando sobre o que aprendera. Alguns dias depois, o aluno chegou sem aviso no lado de fora do meu quarto com uma expressão de horror no rosto. Pálido, arqueado e tremendo, ele entrou no quarto vacilante, como alguém que estivesse testando o chão à sua frente para ver se não se tratava de areia movediça.

Quando finalmente parou na minha frente, ele disse: “Rinpoche, você me disse para meditar sobre a vacuidade. Mas, na noite anterior, me ocorreu que, se tudo é vacuidade, então o prédio inteiro é vacuidade, o piso é vacuidade e o chão embaixo do piso é vacuidade. Se esse é o caso, por que todos nós não afundamos e caímos nas profundezas de um buraco no chão?”

Eu esperei até que ele terminasse de falar. Então, perguntei: “Quem cairia?” Ele pensou a respeito por um momento e sua expressão mudou completamente.

“Ah”, ele exclamou, “entendi! Se o prédio é vacuidade e as pessoas são vacuidade, não há ninguém para cair e nada por onde cair”.

Ele soltou um longo suspiro, seu corpo relaxou e a cor voltou a seu rosto. Então, sugeri que ele voltasse a meditar sobre a vacuidade com essa nova compreensão.

Dois ou três dias depois, ele retornou a meu quarto sem aviso. Novamente pálido e trêmulo, ele entrou no quarto e parecia bem evidente que estava fazendo o máximo de esforço para prender a respiração, com medo de expirar o ar. Sentando-se na minha frente, ele disse: “Rinpoche, meditei sobre a vacuidade como você instruiu e entendi que, da mesma forma como o prédio e o chão são vacuidade, também sou vacuidade. Mas, à medida que me mantive seguindo essa linha de meditação, continuei me aprofundando cada vez mais, até que não fui mais capaz de ver ou sentir nada. Se eu não for nada além de vacuidade, tenho medo de morrer. Por isso corri para vê-lo hoje. Se eu for só vacuidade, então basicamente não sou nada, e não há nada para impedir que eu me dissolva no vazio.”

Quando vi que ele havia terminado, perguntei: “Quem se dissolveria?”

Esperei alguns momentos para que ele absorvesse a questão e pressionei mais um pouco: “Você está confundindo vacuidade com vazio. Quase todo mundo comete o mesmo erro no começo, tentando compreender a vacuidade como uma idéia ou um conceito. Eu mesmo cometi esse erro. Não há como entender a vacuidade conceitualmente. Você só pode reconhecê-la de fato por meio da experiência direta. Não estou pedindo que você acredite em mim. Tudo o que estou dizendo é que, nas próximas vezes em que você se sentar para meditar, deve perguntar a si mesmo: ‘Se a natureza de tudo é a vacuidade, quem ou o que pode dissolver-se? Quem ou o que nasce e quem ou o que pode morrer?’ Tente isso e você pode se surpreender com a resposta.” Com um suspiro, ele concordou em tentar de novo.

Vários dias mais tarde, ele voltou a meu quarto, sorrindo tranqüilamente ao anunciar: “Acho que estou começando a entender a vacuidade.” Eu pedi que me explicasse. “Segui suas instruções e, depois de meditar sobre o assunto por um longo tempo, percebi que a vacuidade não é o nada, porque deve haver algo antes de haver o nada. A vacuidade é tudo — todas as possibilidades da existência e da não-existência imagináveis ocorrendo simultaneamente. Assim, se a sua verdadeira natureza for a vacuidade, então não se pode dizer que alguém realmente morre e não se pode dizer que alguém realmente nasce, porque a possibilidade de ser de certa forma e não ser de certa forma está presente dentro de nós em todos os momentos.”


“Muito bem”, eu disse. “Agora esqueça tudo o que você acabou de dizer, porque, se tentar lembrar-se exatamente disso, transformará tudo o que aprendeu em um conceito e precisaremos começar tudo de novo.”


Do livro: “A Alegria de Viver – Descobrindo o Segredo da Felicidade”


terça-feira, agosto 02, 2016

A liberdade infinita da Vida - 3/3

- Masaharu Taniguchi - 


Força absoluta que transcende o eu e o outro

E a Seicho-No-Ie, a que escola pertence? A da força própria ou a da força alheia? Logicamente não pertence à escola da força própria. E também há partes que não pertencem à força alheia. A Seicho-No-Ie pode ser caracterizada como pertencente à escola da força absoluta, pois afirma que este mundo se originou de um único Deus, de um único Buda, adotando, portanto, a salvação absoluta que rompe a barreira entre o eu e o outro. A comumente dita salvação por meio da força alheia reconhece a existência do pecado, e, depois de aprender o meio de se conectar com a força externa de liberdade infinita, se purifica passando pelo dispositivo de filtragem do pecado denominado expiação, integrando-se assim na imaculada água da vida. Entretanto, a Seicho-No-Ie apresenta à humanidade apenas a translúcida água genuína da Verdade "O homem é filho de Deus, filho de Buda", dizendo: "Esta é a água da Vida. Bebam, por favor". E ainda explica: "Os senhores pensam que a água da Vida do homem é uma água turva, mas estão enganados".

Pensavam, até agora, que a água da Vida estava suja e, por isso, necessitavam de filtro e outros diversos esforços para purificá-la. Entretanto, essa água parece estar turva, mas não está. Suja é a poeira que ela contém, pois a água em si é produto da combinação H²O que é, desde o início, pura e translúcida. Não está translúcida porque a poeira não é translúcida. A água em si é sempre translúcida.

Ao sabermos que a água é desde o início pura e translúcida, mesmo sem passar por algum processo de filtragem ou purificação, e compreendemos verdadeiramente que nós próprios somos essa água pura, conscientizaremos que, mesmo estando turva, ela é, desde o início, translúcida. Descobri, assim, que a água jamais esteve turva.

Assim como o que está turvo não é a água em si, mas  a poeira, se compreendermos que é o pecado que está maculado, pois o homem é desde o princípio puro e imaculado, concluiremos que somos originalmente limpos e puros, como a água translúcida, não precisando de dispositivo de filtragem nem de qualquer outro esforço para efetuarmos a purificação. Compreenderemos que somos naturalmente Budas (iluminados), algo infinitamente puro. Aqui ocorre a total separação entre o homem e o pecado. Pensávamos até agora que pecado + natureza búdica = homem, mas como se esclareceu que pecado = zero, isso resulta que é unicamente Luz.

Pensávamos que não conseguíamos viver sem matar outros seres vivos, mas isso não era verdade. Aparentemente parece que estamos matando seres vivos, mas, até hoje, jamais matamos um só ser vivo. Somos Vida que vive eternamente, e tanto eu, o outro como os micro-organismos, a essência da Vida de todos vive eternamente, desde a mais remota Antiguidade. A vida que se manifesta no corpo físico material não passa de sombra da verdadeira Vida. Mesmo que a sombra pareça desaparecer, a Vida não desaparece, e, mesmo que a sombra pareça estar em dissenção, ela não está em dissenção. Esclareceu-se que a Imagem Verdadeira das existências é de total harmonia. Aquilo que parece ser pecado, um mal, é semelhante à poeira dentro da água translúcida, que faz com que a água pareça turva. O que é turvo é apenas a poeira, e não o Eu. O Eu é, desde o princípio, uma água infinitamente pura, como a água destilada. Esse ser magnífico, perfeito e cristalino é o homem verdadeiro.

Portanto, aquele que parece estar vivendo matando outros seres vivos não é o Eu verdadeiro. Parece, por exemplo, que estou todos os dias tendo ataques de ira, mas esse eu não existia originalmente. Esse eu encolerizado é uma imagem falsa, que assim se apresenta devido à combinação de causas internas e externas, de modo similar à água pura que se mistura com a poeira e apresenta-se turva. Essa não é a verdadeira imagem da água. Mesmo que permaneça turva, a água em si jamais esteve turva, desde o início. Da mesma forma, o homem jamais cometeu um pecado, jamais se maculou. Quando compreendermos isso, mesmo estando dentro do pecado turvo, conseguiremos tomar consciência do Eu verdadeiramente puro. Assim, a nossa mente conseguirá a verdadeira serenidade. Quando o nosso estado mental se tornar tranquilo e sereno, cometeremos naturalmente menos pecados, assim como a água turva vai se tornando pura e translúcida pela decantação.


A água é pura desde o início

Entremente, é muito importante sabermos que a água é pura desde o início, esteja ela turva ou não. Se a água não fosse originalmente pura, ela deveria permanecer turva, mesmo após a sujeira afundar. A água pode se tornar limpa quando a sujeira afunda, unicamente porque ela é limpa desde o início. O que a torna turva é a sujeira e não a água em si. Este é o ponto crucial, e é por isso que insisto nele. Normalmente, as pessoas pensam que a água da Vida está turva, mas ela jamais esteve turva. Parece que está turva, simplesmente por causa da combinação de causas internas e externas.

Outro dia, quando lia a Sutra do Nirvana, encontrei uma parábola muito interessante. Dizia que havia um rei em certo local. Um dia, ele ouviu uma linda música que vinha não se sabe de onde. Por ser uma música agradável demais, o rei perguntou ao seu vassalo de onde vinha esse som. O vassalo respondeu "Estão tocando um instrumento musical. O som vem desse instrumento". Então o rei lhe ordenou que trouxesse esse som. O vassalo levou-lhe o instrumento, e o rei começou a procurar o som em todas as partes, arrancando todas as cordas e quebrando totalmente o corpo do instrumento. Não encontrando o som em parte alguma, o rei ficou profundamente irado e, dizendo "A música não se manifestou em parte alguma... você mentiu", puniu severamente o vassalo.

Como se vê, não adianta desmontar o instrumento musical, pois nele não se acha o som. O som é uma expressão da vibração da Vida. Essa vibração não se encontra dentro do instrumento musical, mas na mente do músico que o toca. Este corpo carnal é semelhante a um instrumento musical. Por mais que o dissequem à procura da Vida, ninguém a encontrará. Em suma, o corpo carnal não é a nossa Vida –a essência da corrente vital –, não sendo nada mais que um instrumento criado para que a corrente da Vida emita vibrações em contato com ele. E a verdadeira corrente da nossa Vida é uma existência amorfa. Não é totalmente amorfa, mas, observando-a com base no conceito de que possui forma aquilo que entra em contato com os cinco sentidos, é uma existência amorfa.A corrente da Vida amorfa, que vive perfeita e infinitamente desde a eterna Antiguidade, emite som em contato com esse instrumento musical. Portanto, a nossa Vida não é esta vida que está se movendo agora neste corpo carnal. A vida que se move agora neste corpo carnal nada mais é do que o som produzido por reflexo quando a nossa verdadeira Vida entra em contato com as cordas do instrumento musical (corpo carnal).

Há quem argumente dizendo: "Não é possível existir Vida sem se alimentar", mas a Vida não é em absoluto este corpo carnal que se movimenta. O som reproduzido pelo contato da Vida com o instrumento musical chamado corpo carnal é um fenômeno vital. Sim, a vida física é um fenômeno, e não a Vida em si. A Vida verdadeira é uma Realidade, mas, sendo o fenômeno vital consequência da combinação de causas internas e externas, é natural que o corpo carnal se desintegre juntamente com a desintegração dessas causas. Mesmo que o corpo se desintegre, o homem não se desintegra. Assim como a água translúcida e invisível se misturou com a poeira e se tornou turva, a Vida originariamente imaculada do homem manifestou temporariamente a imagem chamada corpo carnal. Manifeste ou não essa imagem, o homem é puro, imortal, algo semelhante ao vapor invisível que existe no espaço.

A água é sempre e ternamente límpida, mas, se tem aparência turva, pensa-se que a água é suja. O homem é eternamente saudável, mas é um erro pensar que o homem está doente quando o seu corpo carnal não estiver com saúde. Assim, como a água, mesmo estando turva, é límpida, o homem jamais se maculou, jamais ficou doente, mesmo que pareça maculado por pecados ou mergulhado em doenças.

Quando compreendermos isso, alcançaremos a verdadeira e infinita liberdade da Vida, desfazendo-se naturalmente o nó do apego às impurezas que, por meio da auto-sugestão, nos tirava a liberdade. Quando conseguirmos a verdadeira e infinita liberdade da Vida, a água turva irá se tornar límpida naturalmente. Posteriormente, o aspecto fenomênico também se tornará límpido. Se, porém, nos impacientarmos pela demora da água em se tornar límpida, ou ficarmos remexendo-a na tentativa de torna-la límpida, ela continuará sempre turva. Portanto, precisamos saber que, mesmo diante de fenômenos turvos do mundo fenomênico, o nosso Eu verdadeiro é tão límpido quanto é límpida a água destilada.


Negue os fenômenos, conscientizando-se da Imagem Verdadeira existente no âmago deles

Outro dia, uma senhora que chamarei de sra. I, veio de Yokohama e conversamos sobre diversos assuntos. E, durante essa conversa, ela me disse o seguinte, com muita seriedade e profunda reflexão: "Eu me dedico ao bem do próximo com toda a sinceridade, mas há ocasiões em que as pessoas duvidam de mim. De vez em quando uma gentileza minha feita com a melhor das intenções, é, ao contrário, interpretada de modo equivocado. Penso que isso ocorre porque ainda existem defeitos em alguma parte da minha mente".

Falei-lhe sobre diversos assuntos e, dentre eles, o seguinte: Este mundo fenomênico é, sem suma, semelhante à Lua refletida na água. Mesmo que a água pareça estar parada, sempre há alguma ondulação, e a Luz refletida parece imperfeita. De modo similar, no mundo fenomênico não existe uma só coisa que seja perfeita. Precisamos ter isso em mente como premissa. Ou seja, que o fato de termos nascido sobre a face terrestre com este corpo carnal fenomênico, em si, já demonstra imperfeição. E que significa isso? Significa que, ao nascermos neste mundo, ficamos restringidos pelo tempo e pelo espaço, e esse fato por si só já é  uma imperfeição, se observado pelo prisma da liberdade infinita, isenta de qualquer restrição. Em consequência o homem, que vive sobre a face terrestre por mais iluminado que pareça ser ainda traz em si a atmosfera terrena, as ondas mentais semelhantes às dos homens em geral. Ocasionalmente, alguém pertencente ao mundo celestial, como Sakyamuni ou Jesus Cristo, nasce na Terra para salvar a humanidade. Mesmo nesse caso, a pessoa se manifesta reduzindo seu ser dentro dos limites de tempo e do espaço, e, portanto, não há alternativa senão descer sobre a Terra limitando suas faculdades. Então, significa que a imagem de todos os seres presentes sobre a face terrestre é imperfeita, que o fato de possuirmos um corpo de estatura pouco maior de 1,50 metro já é uma imperfeição. Uma estatura de 1,50 metro é bem mais incompleta que a de 3 metros, e é minúscula em comparação ao Universo infinito. O corpo carnal não é o homem verdadeiro, e sim um instrumento musical para o homem tocar, cuja imperfeição nem merece comparação. Até mesmo Sakyamuni, que possuía 33 virtuosas imagens, era imperfeito. Por mais superior que seja o Buda (iluminado) que se manifesta fenomenicamente, uma vez ocorrendo essa manifestação, sofre a restrição do tempo e do espaço, sendo inevitável a sua imperfeição. No caso de se manifestar em tamanho pequeno, sofre as restrições condizentes a essa pequenez. O que for grande sofre as restrições proporcionais a esse tamanho.

Quando pequenino, ouvi uma história que ignoro se foi verídica ou não. Eu nasci em Kobe, onde a atual região do rio Minato está repleta de cinemas. Antigamente, ali foram travadas guerras, pois o rio se enchia de água apenas na época de chuva, ficando seco o resto do ano. Havia três pontes feitas de barro e, numa delas, aparecia todas as noites um texugo que se divertia assustando os transeuntes com seus olhos arregalados. Certa noite, apareceu um massagista cego tocando apito. O texugo tentou assusta-lo mostrando-lhe os olhos arregalados, mas, como o massagista nada enxergava, perguntou: "Quem está aí?". O texugo arregalou ainda mais os olhos, porém o massagista continuou tranquilo dizendo: "Mas quem é você?". Pensando "Que homem teimoso!", o texugo esbugalhou cada vez mais os olhos, até que seus globos oculares saltaram para fora e ele acabou morrendo. Essa é certamente uma parábola que significa: se permanecermos tranquilos mesmo diante de algo assustador, ele acabará se autodestruindo, porque não existe originalmente.

Um dos familiares desse texugo resolveu, então, assustar as pessoas transformando-se num enorme monstro careca. Passou assim a assustar todas as noites os transeuntes. Certa noite, um monge budista passou pela ponte e, ao ver o texugo se transformar em grande monstro, disse: "Que monstro enorme você se tornou! Só consegue ficar grande? Não é capaz de se transformar em algo pequeno?". O texugo respondeu "Posso ficar pequeno" e ficou pequenino. "Não, ainda não está como eu quero. Você não consegue ficar do tamanho de um grão de feijão?, para que eu possa colocá-lo na palma da minha mão?", disse o monge, e o texugo ficou exatamente desse tamanho e subiu na palma da mão dele. O monge jogou-o imediatamente na boca e o comeu. Essa é uma história na qual se misturam realidade e ficção, mas vimos que até mesmo um texugo tem maior poder quando se transforma em algo grande e se torna vulnerável quando estiver pequenino.

Também ocorre o mesmo com Buda. Manifestando-se no mundo fenomênico limitado pelos fatores tempo e espaço, só consegue manifestar força correspondente. O mundo fenomênico é, em suma, projeção de ondas mentais. Enquanto projeção de ondas mentais, não existe em parte alguma uma imagem completa e perfeita igual a da Lua verdadeira. Por mais iluminada e erudita que seja uma pessoa, ela tem manchas ou rugas na pele, havendo imperfeições se comparada à saúde perfeita e infinita. Se alguém pensar, vendo esses aspeto fenomênico imperfeito, "Ele ainda não alcançou o despertar", significa que esse alguém é que não alcançou o despertar. Compreender que todas as coisas do mundo fenomênico são transitórias e que não há nada que seja perfeito, é uma face do despertar; e compreender que os fenômenos transitórios não existem originariamente, que a Imagem Verdadeira é perfeita e imortal, como a Lua é eternamente redonda e perfeita, independentemente da imagem refletida a água, é a outra face.

Então, na Lua refletida na água, no homem manifestado no corpo carnal, não existe nada que seja a Imagem Verdadeira? Não, numa parcela quebrada pela onda da imagem da Lua refletida na água existe um fragmento de luz, e, dentro dessa luz, está alojada a verdadeira Lua. Se o brilho da Lua estiver refletido numa gota de orvalho presente na extremidade de uma folha de pinheiro, nela está alojada a luz da Lua, pois, se não existisse originariamente a Luz, seu brilho não seria refletido nessa gota de orvalho. Aí também existe a luz da Lua. Despertar espiritualmente é compreender que dentro de uma gota d'água que se desfaz existe a luz que não se desfaz. É um erro menosprezar a imagem incompleta da Lua, dizendo que nela não existe a Lua porque não está redonda e perfeita. Até mesmo nesse fragmento da Lua está alojada a Lua cheia, e é por isso que ele brilha.

A iluminação espiritual consiste em saber que a matéria é o vazio, que os fenômenos não passam de sombras e, ao mesmo tempo, descobrir a luz da Imagem Verdadeira dentro de uma gota d'água fenomênica e reverenciá-la. Se pensarmos que a Lua não existe porque não vemos a Lua redonda e perfeita (que se reflete na água límpida e parada), não descobriremos nunca a Lua. Analogamente, enquanto pensarmos que uma pessoa que não se curou da doença não é filha de Deus ou não alcançou o despertar, não conseguiremos compreender a natureza divina originária que se aloja em nós. Mesmo dentro da doença, existe a Vida saudável. Mesmo no momento da morte, existe aí a Vida imortal. Saber que em toda parte existe a Vida eterna é a verdadeira iluminação. É esse o significado do que disse anteriormente: "Mesmo dentro da água turva, existe a água pura que jamais fica turva".

Iluminar-se espiritualmente é descobrir que até mesmo dentro das nossas células mortas, trocadas diariamente por novas, existe algo que vive eternamente. Perceber realmente algo que vive eternamente, mesmo dentro dessa morte; descobrir água pura e límpida dentro da água turva; descobrir o Eu verdadeiro, imaculado, dentro dos pecados – eis a iluminação da Seicho-No-Ie. Se atingirmos essa iluminação fundamental e mantivermos a mente serena, o mundo fenomênico, que é manifestação da mente, se tornará perfeito.

Isso porém é um efeito secundário, e, se antes disso desejarmos nos curar das doenças, tornar a água límpida, deixar sempre redonda a imagem da Lua, estaremos invertendo a ordem natural. Ao compreendermos primeiramente que somos Vida eterna e transcendermos a matéria e o corpo carnal, cientes de que a nossa Vida não é matéria nem corpo carnal, teremos pela primeira vez a eterna liberdade da Vida, a infinita perfeição e a satisfação do anseio à liberdade infinita que brota do nosso interior.

Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 36", pp. 105-116

domingo, julho 31, 2016

A liberdade infinita da Vida - 2/3

- Masaharu Taniguchi - 


A salvação por meio da força alheia

Com isso, se aqui existisse a essência da liberdade perfeita e infinita da Vida e, só de ligarmos a ela, fluísse em nós a força infinita da salvação – do mesmo modo que a energia elétrica vem até nós através de um fio ligado à usina elétrica –, e assim adquiríssemos a infinita liberdade da nossa Vida, não haveria nada melhor que isso. Em algum lugar deve existir essa essência da salvação infinitamente perfeita. Uma vez que é infinita, deve estar em todos os lugares e, portanto, a fé baseada na salvação por meio da força alheia consiste em confiar nessa onipresente força misteriosa. Quando nos unimos a essa onipresente força de salvação, só com isso, manifestar-se-á a liberdade infinita do nosso interior. É o mesmo que, só de passar corrente elétrica na bobina, o ferro que está dentro dela adquire o originário magnetismo. Assim se obtém, ou tenta-se obter, a salvação por meio da força alheia.


A consciência de pecado constitui obstáculo para a salvação

Entretanto, mesmo que pensemos em nos unir a essa essência da liberdade infinita, sentimos que não o conseguiremos. É a nossa consciência de pecado que está nos estorvando. Tratando-se da energia elétrica, se houver um material isolante, nele não passará a eletricidade, mesmo que venha da maior usina elétrica. De modo similar, desejamos nos conectar com o Ente infinito, perfeito e sem falha alguma – que pode ser chamado de Deus, de Amida Nyorai, ou algum outro nome – porque, se assim nos conectarmos com a fonte dessa salvação infinita e perfeita, estaremos perfeitamente incorporados a essa perfeição infinita. Mas surge a questão: "Será que conseguiremos isso?". Resta em algum canto da nossa mente a incerteza: "Será que um indivíduo repugnante como eu, que só consegue sobreviver matando outros seres vivos; que, por qualquer motivo, fica irado, nervoso, triste; que, às vezes, tem vontade de acabar com o outro; poderá se conectar com esse Ente infinitamente perfeito?". E, assim, deixamos de nos unir a essa grandiosa fonte da salvação. Em suma, essa consciência de pecado torna-se um "isolante" da salvação.


Significado da expiação

Então, surge a questão da expiação dos pecados. O ser humano nada pode fazer contra a consciência de pecado. Quanto mais nobre é o caráter da pessoa, mais intensa é a sua consciência de pecado. E quanto mais intensa é a consciência de pecado, maior é a sensação de que não merece a salvação. Essa pessoa pensa: "Já cometi homicídio, ou, mesmo que eu não tenha matado ninguém, matei diversos seres vivos, como também comi e matei muitos micro-organismos. Estou sendo egoísta em pensar que, por ter ficado em jejum apenas três semanas, ou por ter praticado suigyô durante cem dias, todos os meus pecados foram apagados. E, mesmo que tenham sido apagados, no dia seguinte precisarei me alimentar, acender o fogo e matar micro-organismos, pois, sem isso não conseguirei viver".

Assim, já no dia posterior ao da expiação dos pecados por meio de jejum e banhos frios, a pessoa estará cometendo pecados novamente e sentindo que não conseguirá conectar-se com a essência infinita, perfeita e livre. Portanto, nós, seres humanos, dificilmente conseguimos nos conectar com o Ente infinitamente perfeito, mesmo que o tentemos, realizando a expiação de todos os pecados de até agora com a nossa própria força. Por isso, nos afligimos e sofremos.

A essa altura, conclui-se que a humanidade não conseguirá se conectar com a essência da liberdade infinita e perfeita se não surgir um ser extraordinariamente superior, uma pessoa dotada de poder divino, que diga: "Como vocês não conseguirão jamais expiar os seus pecados sozinhos, vou expiá-los no lugar de todos. Vou me responsabilizar por todos os pecados da humanidade e os purificarei". E, de fato, surgiram pessoas com poderes sobrenaturais. No cristianismo foi Jesus Cristo e no budismo Hozo Bosatsu (Amida Nyorai). Jesus Cristo foi crucificado para expiar os pecados de toda a humanidade. Hozo Bosatsu meditou arduamente durante cinco kalpas (ciclos cósmicos), submeteu-se a disciplinamento espiritual durante infinitamente longo espaço de tempo, com o desejo de salvar toda a humanidade: "Venham a mim, que todos serão salvos. Se alguém não for salvo, não me tornarei Buda". Por sim, foi definido que só de ligar-se a ele todos os homens seriam salvos, e ele se tornou Buda.

Jesus Cristo se deixou crucificar e Hozo Bosatsu tornou-se Buda, ambos com o compromisso de apagar todos os pecados da humanidade, do passado e do futuro, transcendendo o tempo e o espaço só de unir-se a Cristo e ligar-se a Buda. Assim, quando passamos pelo processo de filtragem dos pecados através da cruz de Jesus Cristo ou de Amida Nyorai, que tomaram para si todos os pecados da humanidade os nossos pecados são purificados e a nossa mente recupera a pureza originária, conseguindo assim nos integrar na imaculada água do Universo. Isso é, em suma, a salvação por meio da força alheia.

Como mencionei até aqui, assim surgiram o processo da salvação por meio da força própria e por meio da força alheia. Diz-se que é bastante difícil alcançar a salvação por meio da força própria, porque é necessário que a própria pessoa seja o dispositivo de filtragem dos pecados, dedicando-se à prática da meditação zen ou de outras concentrações mentais, recorrendo a diversos meios para anular totalmente os próprios pensamentos negativos, reprimindo todos os seus desejos, esforçando-se de todas a maneiras para não causar aborrecimento aos demais, mas proporcionar a todos apenas alegria. Portanto, só pessoas especiais conseguirão realizar isso. Creio que Bodhidharma, que dizem ter praticado a meditação zen voltado para uma parede, durante nove anos, tenha realizado esse tipo de disciplinamento mental. Sakyamuni também praticou inicialmente disciplinamentos baseados na força própria. Consta na biografia dele que ele teve a iluminação após realizar diversas práticas de disciplinamento espiritual por meio da força própria, até se purificar, livrando-se totalmente de todos os desejos pessoais.

Sakyamuni foi inicialmente praticante da salvação por meio da força própria e, após severos disciplinamentos, tornou-se iluminado, demonstrando, no final, o que é o despertar espiritual. Assim, transmitiu a todos que descobriu, finalmente, por meio das práticas ascéticas o caminho que conduz à iluminação e que, portanto, ninguém precisa mais passar por esse auto-adestramento. Basta buscar o resultado. Ele disse: "Eu inventei, com muito esforço, o veículo que conduz à salvação, mas você não precisam se preocupar em fazer o mesmo. Apenas fiquem comodamente dentro desse veículo de salvação que eu projetei. Aqui está o veículo que já conduz todos à salvação. Tomem esse veículo".


Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 36", pp. 100-105

sexta-feira, julho 29, 2016

A liberdade infinita da Vida - 1/3


- Masaharu Taniguchi -


Mente que anseia pelo infinito

Para atingir o estado mental de aceitar uma situação tal qual ela se apresenta, com docilidade e gratidão, é necessário conscientizar que o homem é originariamente perfeito e puro, um ser que já está naturalmente purificado e remido. Nada há que liberte a Vida do homem como esta Verdade.

O homem não foi criado originariamente de modo imperfeito e restrito, que só consegue se purificar por meio de práticas religiosas ou lavando o corpo com água. "O homem é filho de Deus" – eis a Verdade vertical anunciada pela Seicho-No-Ie.

Conforme já disse anteriormente, a religião tem, em princípio, o objetivo de fazer o homem reconquistar verdadeira e totalmente a liberdade da Vida. Todavia, existem pessoas que pensam ser a religião algo que nos dá a sensação de estarmos salvos, ao receber a leitura da sutra após a morte do corpo carnal, ou ao ouvir de boca alheia a comprovação de que, após a morte, conseguiremos ir para o paraíso celestial. A religião, porém,  é aquilo que nos dá a liberdade total da Vida. Ficar curado de doença, conseguir ganhar dinheiro, ter sucesso na vida, ter sorte, todas essas coisas não fazem parte do objetivo primário das religiões. Não são senão uma parcela da projeção daquilo que resulta da perfeita reconquista da liberdade da Vida.

Como anseio originário da Vida, o homem possui basicamente, no seu interior, desejos relacionados com o infinito, como o de conseguir liberdade infinita, ou, então, capacidade infinita, ou sabedoria infinita. Na questão de ganhar dinheiro, por exemplo, ele nunca se satisfaz: mesmo que ganhe 100 ienes, deseja a seguir 1.000 ienes; mesmo ganhando 1.000 ienes, que mais ainda. Se ganhar 100.000 ienes, deseja ganhar 1.000.000 de ienes e, assim, infinitamente. Se passar a ganhar dinheiro à vontade, começa a desejar outras coisas. Deseja fama, poder e, conseguindo poder cada vez maior, no final passa a ter a ambição infinita de dominar o mundo, como teve Napoleão. Assim é a natureza do ser humano. Em seu interior estão armazenados anseios relacionados com o infinito. Entretanto, por mais que vá satisfazendo esses desejos, um após outros no mundo material, será impossível satisfazer plenamente todos os desejos e anseios infinitos por intermédio deste corpo físico, de apenas cento e tantos centímetros. É aí que surge a angústia do ser humano.


Os quatro sofrimentos de Sakyamuni

Os quatro sofrimentos padecidos por Sakyamuni – viver, envelhecer, adoecer e morrer – também foram restrições em relação à liberdade infinita do homem. O sofrimento do viver, ou seja, o sofrimento da luta pela sobrevivência, também é, em suma, uma consequência de atrito com a vida alheia quando tentamos viver livremente a nossa vida, segundo nosso desejo. Ou seja, surge conflito por incongruência entre a liberdade intrínseca da Vida que brota do nosso interior e os obstáculos externos, relacionados com o meio ambiente e a vida alheia. Assim, surgem naturalmente limitações na manifestação plena da liberdade intrínseca da Vida. Se não houvesse essas limitações, não haveria o sofrimento do viver, mas isso é difícil acontecer.

O sofrimento de envelhecer, ou seja, a tristeza e a angústia de ir envelhecendo, também resulta do desejo intrínseco do homem de viver eternamente, de manter-se eternamente jovem e saudável, jamais se definhar. Apesar desse desejo, quando observamos nosso corpo carnal, notamos que ele não deixa de envelhecer. Na Seicho-No-Ie existem muitos idosos que rejuvenesceram, mas, mesmo assim, a vida na Terra terá um fim, eles acabarão se aproximando passo a passo da morte do corpo. Nisso surge uma lacuna, uma condição entre o eu real e o desejo de liberdade infinita que brota do seu interior, dando origem ao sofrimento.

A seguir, vem o sofrimento da doença. Todos os homens desejam viver sempre com saúde. Contudo, geralmente adoecem. Constituem exceção as pessoas que compreenderam a Verdade da Seicho-No-Ie, mas mesmo elas, quando se aproxima a hora da morte, apresentam o processo de chemicalization (processo de autodesintegração) que, na visão do médico, é manifestação semelhante à doença. Isso constitui uma divergência entre a realidade e o ideal, causando sofrimento.

No final, vem o sofrimento da morte. Naturalmente, no plano da Imagem Verdadeira o homem vive eternamente, mas surge a contradição entre o eu real e o desejo de ser imortal até no plano do corpo carnal, que é uma imagem temporária. O que resulta dessa divergência são os quatro sofrimentos: do viver, do envelhecer, do adoecer e do morrer. O verdadeiro objetivo da religião é conceber aos homens a total liberdade da Vida, libertando-os completamente desses sofrimentos. Portanto, as graças mundanas como a de ganhar dinheiro, a de curar-se das doenças, não constituem uma parte, a metade nem dez por cento do seu objetivo.


Desejo ardente de se libertar dos quatro sofrimentos

A seguir, apresenta-se para nós a questão: "De que modo a liberdade infinita em nós se manifesta do nosso interior, de modo realístico, e não apenas como potencialidade?". Se, dentro de nós, não estivesse latente a originária liberdade infinita, não teríamos o desejo de conquistar essa liberdade. E não nos satisfazemos apenas com o fato de essa liberdade infinita estar alojada em nosso interior. Temos a necessidade de manifestá-la. Então, desde a Antiguidade, filósofos, sábios e santos do mundo religioso vieram se esforçando e descobrindo modos de conseguir essa liberdade infinita.

Na minha opinião, há, em linhas gerais, duas formas de alcançar isso.


O esforço próprio leva, no fim, a um impasse

Uma das formas é tentar tornar concreta a liberdade infinita imanente por meio de esforço próprio, e a outra é consegui-la por meio de fé na força alheia. A tentativa de conquistar a liberdade infinita neste mundo concreto por meio da força própria manifesta-se ora como um projeto de enriquecimento, ora como ambição de dominar o mundo, conquistando-se poder com muito esforço. Mas os senhores já comprovaram que é impossível adquirir a liberdade infinita por meio do esforço próprio. Até mesmo Napoleão, que afirmou não existir em seu vocabulário a palavra impossível, não conseguiu conquistar a liberdade infinita por meio da sua própria força. Ele conquistou até certo ponto o mundo, mas só com isso lhe foi impossível dominar todas as coisas. Ou seja, não conseguiu, enfim, conquistar a liberdade infinita.

A humanidade já comprovou que é impossível ter liberdade infinita na vida física, por meio de conquistas feitas com esforço próprio. Quando esse esforço em conquistar a liberdade infinita por meio da força própria passou a ser direcionado para o interior, tentando dominar a ilusão própria – em vez de se dedicar simplesmente às conquistas externas deste mundo –, surgiram as práticas religiosas de auto-adestramento. Dentre as pessoas que tiveram sucesso nesse tipo de esforço estão Bodhidharma, Kobo Daishi, Dögen e outros numerosos sábios que pertenceram à Shodomon (Escola budista que procura exteriorizar a natureza búdica originária através do esforço próprio)., como a seita zen-budista e a Shingon.

As práticas religiosas que utilizam a força própria para alcançar a iluminação se originaram da faculdade que os homens têm de conscientizar a priori, ou seja, antes da experiência, o fato de que em seu interior está alojado o infinito. A intuição de que o infinito existe dentro de si evoca do âmago do ser o esforço para buscar a liberdade infinita alojada em si. E como se faz para manifestar essa liberdade infinita? Excetuando os geniais sábios que citei há pouco, quanto mais pessoas comuns lutarem para dominar o mundo fenomênico, mais ficarão presas e sujeitas a ele e mais aumentarão os sofrimentos da sua mente.


Averiguar a origem do sofrimento

Quanto mais nos esforçamos para curar a doença, tentando subjugá-la, mais doentes ficaremos. Ou então, por mais que tentemos nos recuperar de um fracasso nos negócios, enquanto estivermos sendo arrastados e perseguidos pelos fatos fenomênicos imediatos, isso só aumentará o nosso sofrimento. Então, que faremos com esse sofrimento, a fim de manifestar a liberdade infinita da Vida latente em nós? É preciso, primeiramente, averiguar a origem desse sofrimento. Por que sofremos quando acontece algo? É preciso investigar sua causa fundamental. Pensando bem, a causa dos sofrimentos se encontra na mente ilusória que é arrastada pelos acontecimentos fenomênicos. Devido a essa mente, nos apegamos aos fenômenos externos e sofremos. A origem das preocupações e sofrimentos está na ilusão que se apega a esses fenômenos. É essa mente e ilusão que nos faz sofrer. Se descobrirmos a causa dos sofrimentos e nos livrarmos dela, as consequências, ou seja, os sofrimentos, deverão desaparecer.

Quando as pessoas passaram a se esforçar para se livrar da mente que se apega aos acontecimentos fenomênicos, a fim de afastar a causa dos sofrimentos, surgiu a escola religiosa que adota a força própria para alcançar a iluminação. Seus seguidores procuram reprimir ao máximo os desejos do eu fenomênico por meio do esforço próprio. Se conseguirmos abandonar totalmente a mente que se apega ao fenômeno, manifestar-se-á naturalmente a liberdade infinita latente em nosso interior desde o início, e alcançaremos a liberdade originária da nossa Vida.

Se dominarmos toda a agitação da mente ilusória manifestada externamente, revelar-se-á naturalmente a magnífica liberdade infinita do interior. Isso equivale a ter dentro de nós um cristal coberto de barro ou nuvens. Limpando-o, se manifestará um maravilhoso cristal, totalmente translúcido, que estava originalmente alojado em nosso interior. O princípio é simples e o ritual também.

Entretanto, colocando-os em prática, perceberemos que limpar uma por uma as nódoas da nossa mente é uma prática que exige muito autodomínio. A nossa mente, a força motriz que domina e ordena a nossa mente em ilusão, muitas vezes é a própria mente ilusória, tornando extremamente difícil o disciplinamento mental, que só seria possível de ser realizado por pessoas especiais, por gênios do mundo religioso. Esse disciplinamento mental por meio da força própria é praticado na seita xintoísta Mitake-kyo, no zen-budismo e no cristianismo, sendo que neste último equivale ao que foi praticado pelo seu precursor, João Batista.


O ascetismo não leva à iluminação

Tanto Sakyamuni quanto Jesus Cristo praticaram o ascetismo, e eu também me dediquei a isso num período da minha vida. Quando digo que em certa época pratiquei jejum ou passei cem dias praticando suigyô (prática que consiste em banhar-se numa cachoeira, ou jogar água fria no corpo em pleno inverno, a fim de purificar o corpo), refiro-me a isso.

Precisamos nos alimentar para viver. Para conseguir alimentos, precisamos disputá-los com os outros. Mesmo que possamos ter os alimentos sem disputar com os demais, precisamos, pelo menos, sacrificar micro-organismos. Para nos alimentar, usamos o fogo para cozinhar os alimentos e, nisso, acabamos eliminando inúmeros micro-organismos. E, ainda, a nossa alimentação é acompanhada de diversas outras mortes. Assim, até o ato de nos servir das refeições não é uma ação verdadeiramente perfeita. É uma imagem de morte e disputa. Se não conseguirmos viver sem matar outro ser, esse modo de viver não deve ser o verdadeiro. Deverá haver em algum ponto do nosso interior a Vida verdadeira, que consegue viver sem prejudicar o outro. Eu desejava descobrir isso de alguma forma e experimentei praticar o jejum e o suigyô.

Será que, tomando banhos frios e ficando sem comer nada, manifestou-se em meu interior a liberdade infinita? Não. Não se revelou a liberdade infinita nem senti que os meus pecados foram purificados. Ao ficar sem me alimentar, apenas tive sofrimento. Em vez de me levar à liberdade, o jejum fazia me sentir fraco e próximo da morte. Não era possível viver sem me alimentar. Se não me alimentasse, não precisaria matar outros seres vivos, mas acabaria matando este ser vivo que sou eu. Assim, estaria sendo bondoso com outros seres vivos, mas não comigo. Entretanto, sendo eu próprio um ser vivo, se tenho compaixão pelos outros seres vivos, preciso tê-la também por mim mesmo. Se não quero matar os micro-organismos, preciso matar a mim mesmo. Tanto de um lado, como de outro, acabo cometendo o pecado da matança. Fui assim atormentado por um sofrimento insolúvel: o de não conseguir viver sem cometer algum mal. Imaginando com base nesse meu sofrimento, creio que o sofrimento do viver, o primeiro dos sofrimentos padecidos por Sakyamuni, tenha sido algo assim. Esse é um sofrimento pelo que passou a maioria das pessoas que fundaram alguma organização religiosa.

Mesmo que consigamos dominar as ilusões por meio de disciplinamentos exteriores, não é possível viver sem prejudicar outro ser. E, uma vez que vivemos prejudicando o outro, o que existe aqui é uma imagem imperfeita. Portanto, a não ser que sejamos dotados de uma genialidade especial, não conseguiremos manifestar a perfeição infinita interior por meio desse método. Contudo, uma vez que o ser humano possui o desejo interior de manifestar a perfeição infinita, teria de pensar num método mais adequado e, finalmente, surgiu a escola Takiri (seitas budistas que creem na força alheia).


Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 36", pp. 91-100

quarta-feira, julho 27, 2016

Viver com Naturalidade - 2/2

- Masaharu Taniguchi - 


Não há dúvida de que as coisas percebidas pelos cinco sentidos não têm existência originária. Apenas nós as vemos como tal, sendo algo que não existe tal como enxergamos. Portanto, se negarmos de vez a existência delas, compreendendo a inexistência do mundo fenomênico e, após isso, apreendermos a corrente da Vida que transcende os cinco sentidos e passarmos a viver naturalmente essa Vida, teremos de volta em nossa vida concreta e visível as atividades da Vida.

Se passarmos a menosprezar o corpo carnal, a matéria e a vida, alegando que o corpo não existe, a matéria não existe, teremos perdido o estado natural da Vida que vive e trabalha. Assim, teremos perdido a liberdade, apenas apegando-nos ao nada. Dizemos que a matéria não existe, o corpo carnal não existe, a fim de deixarmos de nos preocupar com a matéria, com o corpo carnal. Entretanto, se nada fizermos porque inexistem, estaremos presos ao nada, ao vazio. O apego ao vazio também é uma ilusão e, sendo assim, não devemos nos apegar ao vazio. Precisamos anular o vazio, transformando-o em nada, e sermos a própria Vida. Denominamos Vida, tal como é, de Imagem Verdadeira da Vida. Se nos tornarmos exatamente como é a Vida, adquiriremos naturalmente a liberdade da Vida, como também a provisão infinita.

Na Seicho-No-Ie não se fala em algo rígido como auto-suficiência. Basicamente, é impossível haver auto-suficiência neste mundo. Se todo o Universo forma um corpo harmonioso, é impossível haver auto-suficiência. Mesmo que seja possível, a vida da pessoa que conseguir auto-suficiência se tornará extremamente limitada e desnatural, arruinando a  naturalidade da vida. Por isso, a Seicho-No-Ie não diz que devemos ser auto-suficientes, mas sim viver recebendo auxílio dos demais. Devemos viver recebendo auxílio dos outros e, ao mesmo tempo, prover os demais com aquilo que produzimos. Oferecemos aos outros e também recebemos deles. Vivemos auxiliando-nos uns aos outros.

Seneatsu Mushakoji criou na província de Miyazaki, num local denominado Koyu-gun Kijo, uma aldeia ideal auto-suficiente, mas, apesar do intento inicial de criar uma aldeia auto-suficiente, ele compreendeu que isso não era possível. Compreendeu que, para efetuar a irrigação, era preciso trazer de fora o motor, como também adquirir de fora os instrumentos necessários para a lavoura e para a vida diária. Percebemos com isso que tudo se realiza quando há auxílio mútuo.

Dentre as pessoas de caráter elevado, existem muitas que detestam receber favores dos outros e que pensam em fazer o possível para não depender dos demais. Nos ensinamentos da Seicho-No-Ie também consta que devemos andar com nossas próprias pernas. Por exemplo, um paralítico anda apoiando-se na bengala, convencido de que não consegue andar sem ela. Por causa disso, nunca se cura da paralisia. No entanto, se essa pessoa acreditar realmente no ensinamento de que não deve ficar sempre na dependência alheia, que deve se levantar sozinho – pois o natural é que a Vida tenha autonomia –, e aceitar isso com docilidade, ela se curará da paralisia. Isso, porém, é uma orientação que se dá para uma pessoa que vive sempre na dependência dos outros, ensinando-lhe que isso não é certo.

Ensinar desse modo a alguém que se esqueceu de que possui força para andar com suas próprias pernas e que possui mentalidade sórdida de viver na dependência de tudo – de remédios, da força alheia, ou, então, de donativos – é dar vida a ele. Sendo, porém, uma orientação adequada a esse tipo de pessoa, não se pode afirmar que seja uma Verdade que se adapta a todos. O Universo forma um só corpo e, portanto, o natural é que as pessoas vivam auxiliando-se mutuamente. Quem tem mentalidade de dependência é um velhaco que só pensa em receber auxílio, e não em dar auxílio. Então, dizer "Levante-se sozinho" é uma advertência dada a esse tipo de pessoa. Mesmo que se diga "Levante-se sozinho", o ser humano jamais consegue viver totalmente sozinho, sem depender de ninguém. Mesmo que a pessoa diga "Não dependo de ninguém", dificilmente conseguiria viver absolutamente sozinha, plantando e colhendo arroz, criando bicho-da-seda, fiando a seda, tecendo, tingindo, costurando. Então, a Verdade absoluta é que "Eu e o outro somos um". É viver recebendo auxílio dos outros e também dando-lhes auxílio. Não deve falhar nem um, nem outro. A quem vive sempre dependendo de remédios, de coisas materiais, pensando sempre em receber cuidados alheios, dizemos: "Ande com suas próprias pernas", "A matéria não existe", "A Vida possui autonomia".

Esse é um ponto que o leitor de A Verdade da Vida deve ponderar muito. Sendo a Verdade algo invisível, ao expressá-la com palavras do mundo fenomênico é preciso usar termos convenientes a cada pessoa. Tudo que existe no mundo fenomênico está manifestado de modo relativo e, portanto, pode-se usar expressões adequadas a cada pessoa, a cada situação. Se pedirem para descrever a Verdade, tal qual ela é, sem usar adequações, não há alternativa senão ficar em silêncio como o céu e a terra. O céu e a terra estão sempre ensinando a Verdade, em silêncio.

Aquele que, observando a orientação adequada a cada pessoa e situação, diz que há incoerência, pois em determinado local está escrito "Não dependa dos demais, ande com as próprias pernas" e, em outro, "Viva auxiliando-se mutuamente", está se apegando à palavra do texto. O texto é escrito para conduzir as pessoas para a Verdade, e não contém incoerência, em absoluto. Se alguém se prender às palavras, encontrará contradição. Vendo apenas a escrita, pode parecer que seja incoerente, mas não há incoerência. Para nadar, movimenta-se o braço direito e também o esquerdo, mas o objetivo não é se dirigir para o lado direito, nem para o esquerdo. Nada-se em linha reta movimentando ora o braço direito, ora o esquerdo. O objetivo não se encontra à direita, nem à esquerda.

Portanto, ao orientarmos uma pessoa que é demasiadamente dependente, dizemos "Não dependa dos outros". Para essa pessoa, deixar de depender dos outros fará com que vivifique sua Vida. Nos estudos, por exemplo, não progrediremos se os outros estudarem por nós. Para que haja progresso, é preciso que nós mesmos estudemos. Por essa razão, ensinamos aos principiantes para não dependerem dos demais. Entretanto, se a pessoa passar a se prender ao fato de que não deve depender dos demais, se tornará alguém muito rígido e exclusivista. Por exemplo, apesar de um adepto fervoroso oferecer-nos um local para realizar uma reunião, se recusarmos essa oferta dizendo "Não aceitamos favores de ninguém", não conseguiremos desfrutar a providencial cortesia dessa pessoa. Com isso, não poderemos vivificar a gentileza nem a boa intenção dessa pessoa, e nós próprios perderemos a oportunidade de polir mutuamente a alma e crescer. Portanto, se ficarmos demasiadamente presos à questão "Não devemos incomodar os demais", não estaremos vivificando a Vida. Essa é uma questão delicada, muito importante.

Meu pai verdadeiro era uma pessoa que detestava causar incômodo aos demais. Chegava a levar sua própria comida ao visitar os parentes, dizendo que não queria lhes causar incômodo. Não causar incômodo aos demais pode ser uma atitude conveniente em ceras ocasiões, mas, nesse caso, acaba com a intimidade entre parentes. Mesmo que o parente pense "Já que veio nos visitar depois de tanto tempo, gostaria de preparar-lhe algo gostoso", se o visitante vem trazendo marmita de casa, será difícil manter um relacionamento cordial e íntimo. Em tal caso, a pessoa construiu uma barreira, delimitando "Até aqui sou eu", sem considerar que o eu e o outro somos um, sentindo que as demais pessoas estão todas fora do limite do seu eu. Assim, meu pai mantinha por demais nítida a distinção entre o eu e os outros e tratava até os parentes com reserva, sem intimidade. Talvez por ter nascido filho de uma pessoa assim extremamente discreta e cerimoniosa, eu também herdei muito essa índole e tive de me esforçar muito para vencer isso. Por meio de esforços e mais esforços, a muito custo, consegui adotar a visão atual de vida que é o de viver auxiliando-nos uns aos outros, porque o eu e o outro somos um.

Quando pensar "Até aqui sou eu, e daqui para diante é o outro", a pessoa achará que não deve receber gentilezas dos outros, mas a barreira do eu será rompida quando compreender que "O eu não existe originariamente". Ao ser rompida essa barreira, desaparecerá a existência do eu. Quando o eu deixar de existir fundamentalmente, não haverá eu e o outro, desaparecendo também o auxílio mútuo. Desaparecendo a distinção entre dar auxílio ao outro e receber auxílio do outro, se realizará naturalmente a vivência de auxílio mútuo. Rompendo a barreira do eu, o eu e o outro ficarão misturados, e a vida se tornará livre. Chegando a esse estado, todas as provisões da Vida, como do mundo econômico, passarão a circular sem cessar, e se manifestará aí o aspecto da circulação ilimitada de Deus.

Desse modo, precisamos, às vezes, contar com favores alheios, mas não existe esse eu que recebe favores. Se o eu é uma existência pública, ainda que receba favores alheios, seria o mesmo que o outro estar ajudando a si próprio.

Antes de tudo, o importante é a conscientização "Que é que sou?". Se o eu fosse uma existência egoística, que só pensa em vantagens próprias, por mínimo que fosse o favor recebido dos demais, estaria sendo interesseiro. Entretanto, sendo estabelecido o suporte fundamental de que o eu não é originariamente o eu, não é originariamente um ser interesseiro, um ser egoístico, mas um ser público, mesmo o fato de receber favores dos outros, será um benefício que um ser público estará recebendo da comunidade, sendo algo natural e correto.

Portanto, se alguém considerasse, por hipótese, que este eu é fundamentalmente um ser egoístico e interesseiro, mesmo que se retirasse para a montanha, ou levasse marmita para não incomodar ninguém, enquanto pensasse, por mínimo que fosse, que é um ser interesseiro, o pouco que comesse ou bebesse estaria reduzindo a comida do outro e apoderando-se da água alheia. E, se o eu fosse fundamentalmente um ser egoístico, por mais que usasse de modéstia e vestisse roupas pobres, que vestisse trapos, poderia concluir que estaria explorando as operárias da tecelagem. Dessa forma, se o eu fosse um ser egoísta, mesmo que se retirasse na montanha, que vivesse de maneira mais humilde possível, estaria vivendo de modo egoísta.

Contudo, se adquirir a conscientização fundamental de que o eu não é originariamente um ser egoísta e decidir jamais viver de modo egoísta, por mais rica que seja a vida que leva, esse alguém não estará servindo para dar prazer a si, mas para enriquecer o ser público que é o eu. Sendo assim, não é preciso mais ter reservas, porque se manifestará a Imagem Verdadeira da provisão infinita que circulará sem cessar, e todos se auxiliarão mutuamente.

Em suma, antes de tudo, o primordial é que o eu se transforme totalmente num ser público. E será que isso é difícil? Em absoluto. Nós nascemos da Grande Vida. No plano da Imagem Verdadeira, em relação à Grande Vida, o eu e o outro somos um. Portanto, somos naturalmente um ser público. O natural é que a nossa vida seja pública. Dizer que devemos viver com naturalidade significa, na verdade, que devemos levar um vida pública, como seres públicos que somos.

Em nós está alojada a Vida imanente no Universo. Em outras palavras, está alojada a Vida em comum. Nós somos irmãos que nasceram da Vida comum a todos e, portanto, quando vivemos com naturalidade, tal qual somos, só podemos levar uma vida pública, como seres públicos. Viver naturalmente a Vida tal qual ela é significa, em suma, que a verdadeira naturalidade é viver despertando para o fato de que o eu é um ser público.

Chegando a esse ponto, desaparecerão por completo a sensação de só sentir prazer ao alcançar o sucesso pisando nos demais, de disputar a prioridade dizendo que tal teoria veio antes ou depois, ou então de ter prazer apenas por estímulos sensoriais muito fortes. Passamos, assim, a vivenciar a Vida em comum, baseados simplesmente na conscientização de que somos filhos da Vida comum a todos e, como a corrente dessa Vida comum circulará e fluirá na nossa vida, sentiremos verdadeiramente a alegria universal da alma em tudo que fizermos.

Basicamente, sentimos alegria da alma quando a Vida comum a todos vive em nós, e essa não é uma alegria do ego. É a alegria que vem das profundezas da alma, isto é, do âmago dessa Vida comum. Vivemos a Vida comum a todos e sentimos mais profundamente a alegria da alma de conformidade com o grau da vivência em comunhão com a corrente da Vida comum, rompendo a vivência enclausurada dentro da casca chamada eu, o pequeno indivíduo. Toda alegria da Vida é a alegria que provém da expansão do eu, sentida quando a nossa Vida se expande, por pouco que seja, ou, em outras palavras, quando rompemos a casca do pequeno ego. Atingimos a última escala da expansão do eu quando rompemos completamente a casca do pequeno ego e nos fundimos com a corrente da Grande Vida que preenche o Universo. Nessa hora, sentimos a alegria que nos deixa exultantes. Podemos afirmar que toda alegria da Vida resulta do sentimento de auto-expansão.

Até mesmo a alegria sensorial vem da sensação da expansão do eu ao limite máximo. Através dos "tentáculos" dos sentidos, o eu vai prolongando-se e expandindo para o mundo exterior. Por exemplo, sentimos prazer quando comemos algo delicioso, porque os nossos "tentáculos" alcançaram esse algo gostoso e nossa mente se expandiu, tornando-se um com o sabor dessa iguaria, por exemplo, um doce, assim sentindo prazer, porque aí se manifesta o paladar. Portanto, a alegria sensorial também pode ser considerada expansão do eu ao limite máximo. Dando outro exemplo, quando vemos uma bela flor, sentimos a alegria da Vida. Se o eu estiver de olhos fechados, dentro da sua própria casca e só perceber a si, não ocorrerá a auto-expansão e ele não verá a flor, não sentindo o prazer de apreciar o belo. Quando vemos a flor com a mente aberta, com os olhos abertos e com o eu expandido, sentimos a felicidade de poder admirar quão bela ela é. E isso significa que a nossa mente chegou até ela, expandindo-se.

Desse modo, encontramos toda alegria da Vida quando o eu se expande. Quando o eu fica contraído, manifesta-se o estado de sofrimento, de tristeza ou de dor mental. Alcança-se o apogeu dessa auto-expansão quando desaparece o eu, quando se anula aquilo que se chama eu individual. Esse sim é o momento máximo da auto-expansão, que nos faz sentir uma alegria profunda e grandiosa. É mentira a afirmação de que não se tem alegria na vida normal. Não se tem alegria quando a vida não está de acordo com a Imagem Verdadeira. Não é exagero dizer que não há alegria maior que a de quando passamos a viver de modo natural e normal, porque é retirada a divisória que nos separava da Vida Universal.

A alegria sensorial é uma auto-expansão em pequena escala. Nela há ainda uma divisória separando o eu e o outro, uma relatividade – eu sinto prazer olhando aquilo – e não é uma alegria tão marcante. E se nos apegarmos a isso, a Vida perderá a liberdade de fluir devido a esse apego, e a alegria se transformará em dor. Como já citei anteriormente, a verdadeira imagem da Vida é a liberdade, portanto, enquanto existir o eu que se apega a coisas de fora, perde-se essa liberdade. Perdendo a liberdade, a Vida passa a sofrer. A alegria sensorial também não deixa de ser uma expansão do eu, mas tendemos a nos apegar a ela e isso pode se transformar em sofrimento, porque o eu e o outro se confrontam e, como resultado do apego que o eu passa a ter por algo de fora, perdemos a flexibilidade e a liberdade. Destarte, todo sofrimento ou preocupação nasce do apego a algo. E a forma de identificar esse apego é pela imagem de perda da normalidade.

A imagem natural e originária da Vida é a de liberdade absoluta, semelhante a nuvens que se movem sem parar e à água que flui incessantemente. Conseguiremos essa imagem livre e desimpedida quando nos livrarmos dessa pequena casca chamada eu. O eu não existe – quando passarmos a viver pensando apenas na prosperidade da Vida em comum, a nossa alma estará sempre feliz, mesmo sem ansiarmos por milagres nem por acontecimentos misteriosos. Assim, desaparece naturalmente a estagnação da mente, e as doenças também desaparecem. Fenômenos anormais são todos uma espécie de doença e, portanto, sendo as doenças fenômenos anormais, elas desaparecem quando a Vida do homem retoma a naturalidade. Desejo que todos consigam sentir alegria com a Vida natural, exatamente como ela é.


(Do livro: A Verdade da Vida, volume 36; pp. 58-69)