"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

segunda-feira, julho 04, 2016

Ensinos do Caminho Infinito - 1/2

- Joel S. Goldsmith -


O ENSINAMENTO DE JESUS

O Caminho Infinito fundamenta-se no ensinamento de Jesus, que é minha autoridade e, mesmo sendo verdade que grande parte desse ensinamento possa ser encontrada em algumas da Escrituras orientais que remontam a três ou quatro mil anos da era cristã, em nenhum momento ele foi tão claramente afirmado ou tão claramente demonstrado como o foi por Jesus. Portanto, embora eu goste de ler as antigas Escrituras, não há outra abordagem senão a de Jesus, que é tão definitiva, completa ou fácil para a aceitação dos discípulos do mundo ocidental, porque o ensinamento de Jesus é realmente parte de nossa consciência ocidental. A autoridade para praticamente tudo que O Caminho Infinito ensina é encontrada no novo testamento, particularmente no Evangelho de João e nos escritos de Paulo.

Os três ensinamentos absolutos mais conhecidos no mundo são os de Buda, os de Shankara e os de Jesus. O ensinamento real de Buda quase se perdeu completamente na religião que agora se chama Budismo. Na verdade, seria tão difícil encontrar o ensinamento original de Buda na maior parte do Budismo de hoje como o seria encontrar o ensinamento de Jesus em algumas igrejas cristãs. Em muitas igrejas há uma negação real e aberta do ensinamento do Cristo. Pense por um momento em quantas igrejas é encontrada a prática de orar pelo inimigo? Em que igreja, durante a Primeira ou a Segunda Guerra Mundial, houve orações pelo inimigo? Que igreja ensinou os soldados a rezarem diariamente pelos que os perseguiam? Quem ensinou os membros das congregações que os que vivem pela espada devem morrer pela espada? Quem revelou o significado espiritual da recusa de Jesus em permitir que Pedro o vingasse cortando a orelha? Quem ensinou o mandamento: "não matarás"?

Lembre-se, portanto, que, ao discutir o ensinamento de Jesus, não é o ensinamento de Jesus como é apresentado por meio de qualquer igreja que está sendo discutido, mas o ensinamento com base no Novo Testamento, sem a opinião ou interpretação de pessoa alguma, apenas o ensinamento de Jesus conforme se acha literalmente estabelecido por seus seguidores. Somente através do desenvolvimento da consciência espiritual, exemplificada por Jesus, é que todas as nações serão finalmente capacitadas a pôr de lado suas espadas e a transformá-las em relhas de arado.

Você talvez questione se alguém pode ou não cumprir um ensinamento tão exigente quanto este, mas isso é possível -- individual e coletivamente. Você pode começar agora a seguir o ensinamento do Mestre perdoando seu inimigo e orando pelos que o perseguem; e se você, como indivíduo, pode fazer isso, o mundo também pode fazê-lo.

Uma das maiores leis da Bíblia é a lei do perdão, de orar pelos seus inimigos. Mas o perdão não significa olhar um ser humano, lembrar a terrível ofensa que ele cometeu contra você e perdoá-lo por isso. Não há virtude nisso. O verdadeiro perdão é a capacidade de ver, através de sua aparência humana, a Divindade de seu ser, e compreender que na Divindade do seu ser nunca houve, como agora não há, erro de qualquer natureza. É como se essa pessoa lhe pedisse ajuda e, ajudando-a, você a visse como ela realmente é, como um ser espiritual puro. Isso é perdoar.

A cada dia somos chamados a olhar todos aqueles contra os quais temos qualquer sentimento negativo como seres espirituais e praticar esse ato de perdão. Isso significa voltarmo-nos para o Cristo de nosso próprio ser e saber que lá não existe outra coisa além do amor. Nunca houve um ser mortal, e tudo o que se parece com um mortal não é senão o próprio Cristo visto erroneamente.

Assim como perdoar, orar por nossos inimigos é uma das grandes leis da vida e da Bíblia. Isto não quer dizer que estamos desamparados perante o inimigo: isso realmente significa que somos capazes de compreender Deus como a vida e a mente do homem individual e saber que não existe outra mente além dela. As aparências nada têm a ver com isso. Não estamos lidando com as aparências. Estamos lidando com a realidade do ser.


UNIDADE: O TOM FUNDAMENTAL

O ensinamento mostra que você precisa contatar Deus individualmente. Deus precisa tornar-se real e vivo para você em sua vivência, e o propósito desse trabalho é elevar a consciência a esse ponto. "E eu, quando for levantado da Terra, atrairei todos até mim"(João 12:32). No momento em que entro em contato e sinto a presença de Deus, nesse momento, todos os que estão na faixa de minha consciência precisam sentir isso e ser elevados. Por fim, eles serão elevados para aquela altura onde eles próprios farão o contato e terão a compreensão de si próprios. Se houver qualquer mistério neste ensinamento, este é o grau em que você pode abrir sua consciência para o influxo da presença de Deus, para a percepção de Deus ou do Cristo; nesse nível você pratica e finalmente demonstra isso.

O Caminho Infinito não é mais uma abordagem metafísica destinada a eliminar a moléstia, a demonstrar um automóvel ou a saúde, ou adquirir qualquer coisa material. Seguir essa trilha envolve uma disposição de não se preocupar por sua vida, pelas coisas que você come ou bebe, ou com o que estará vestido. É uma tentativa de procurar a consciência do Infinito e a ausência de alguma coisa. Assim, na consecução da consciência da presença de Deus, do mesmo modo você consegue todas as coisas juntas – todas as coisas que estão em Deus e são de Deus.

A mais alta demonstração foi expressada por Jesus quando ele disse: "Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma... O Pai que está em mim é quem faz as obras". Estou certo de que Jesus não queria dizer que havia duas pessoas, Jesus e o Pai. Quando usou o termo "Pai", quis dizer a essência divina, a presença ou lei do Infinito. Isso foi o que ele quis significar pelo uso da palavra Pai, e esse é também o nosso significado.

Ao reconhecermos Deus, ou um Pai divino, não estamos reconhecendo alguma Pessoa nem mesmo algum Ser ou Poder fora de nós. Isso seria dualidade e seria fatal. Nós reconhecemos: "Eu sou o único. 'Eu e meu Pai somos Um' e eu sou esse Um. Isto que eu sinto correndo através de mim é o Pai, e Ele é maior do que eu, maior do que minha condição humana".

"E vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim". Quando Paulo fez essa declaração, ele não estava pensando em um homem chamado Jesus, nem em alguma espécie de ser separado dentro dele. Ele compreendia e sabia o que significava o Cristo, o Messias, o Salvador, a Essência, o Poder, a Lei, a Presença.

Em verdade, Ele tem o vigor, o poder e o domínio de um pai, o amor e o carinho de uma mãe e a compreensão de um amigo. Porém, mais do que isso, Ele é a Presença que não pode ser definida. Eis onde reside a dificuldade -- tentar expressar em palavras o indefinível. Lao-Tsé disse: "Se você pode definir, não se trata de Deus". Se você pudesse alguma vez descrever essa Coisa, você não estaria descrevendo Deus, porque Deus é infinito, eternidade, imortalidade, e ninguém pode descrever isso. Você pode senti-Lo, tornar-se consciente d'Ele, percebê-Lo – mas não pode descrevê-Lo.


PODER ÚNICO: UM PRINCÍPIO BÁSICO

Um outro ponto fundamental neste ensinamento, que pode ser difícil de ser apreendido em sua plenitude, mas que é muito simples, uma vez que seu significado seja absorvido, é o ensinamento do poder único. O Primeiro Mandamento é a base sobre a qual estamos: Não terás outros poderes (deuses) senão a Mim; não existe outro poder senão Deus – não há pecado a vencer, nem morte, nem falta, nem limitação, nem tentação. O Poder único, a Presença única é Deus. A verdade não é usada para vencer o erro; o poder de Deus não é usado para vencer o mal, e quando a crença universal, sob a forma de pecado, doença, morte, carência e limitação, grita para nós "Eu tenho poder para crucificar-te", respondemos como o fez Jesus: "Nenhum poder terias contra mim, senão te houvesse sido dado do alto".

Esse tratamento que Jesus deu a Pilatos foi uma declaração de verdade absoluta, e ele a demonstrou. Todo o poder de Pilatos de pregá-lo à cruz provou ser nada porque ele não podia tocar a vida de Jesus. E assim é conosco. Nós permanecemos no Primeiro Mandamento.

Abandone a ideia de que a verdade dissipa o erro. O erro não é uma realidade e não tem de ser destruído. Meramente tem de ser reconhecido pelo que é: nada. Deus, Verdade, é o poder único. Nós não O usamos: nós somos ele. Aquilo que eu estou procurando, Eu sou.

Há muitos anos, no início de minha prática, recebi um chamado para ajudar uma mulher artrítica, cujo mestre, bem como muitos práticos tinham sido incapazes de fazer alguma coisa por ela. Em três semanas eu não havia feito mais progresso com o caso do que todos os demais – não havia melhora de espécie alguma. Seus práticos estavam convencidos de que o caso não podia ser resolvido porque a mulher tinha uma personalidade dominadora e acreditavam que ela não podia ser curada, a não ser que mudasse seu modo de pensar, ou pelo menos mudasse certas qualidades de seu pensamento. Assim fiquei sabendo que o caso teria de ser resolvido de outra maneira.

Um dia recebi dela um chamado telefônico dizendo-me que a dor era terrível e que alguma coisa precisava ser feita imediatamente. Entusiasmado, eu disse a mim mesmo: "Farei vigília a noite inteira e acabarei com isto!". Meu hábito, então, era ler um pouco, a fim de encontrar alguma coisa para dar impulso ao pensamento, meditar, dormir um pouco e depois levantar-me e tentar novamente.

Às duas horas da manhã, o pensamento veio a mim: "Existe uma verdade, e se eu pudesse apenas apanhar essa verdade, ela solucionaria este problema. Tudo o que preciso é apenas uma verdade única, e ela está em algum lugar por aqui! Se eu puder ao menos alcançá-la!".

Depois, voltei a dormir e quinze minutos depois despertei ouvindo uma Voz: "Aquilo que estou procurando, eu sou!".

"Mas como pode ser isso? Eu não sou a Verdade...", perguntei. Então lembrei que Jesus havia dito: "Eu sou o caminho e a verdade e a vida". E compreendi: "Esta verdade que estou procurando, eu sou. Isso torna a coisa muito simples, porque a verdade é universal, e se eu sou a verdade, esta paciente também é a verdade. Não adianta fazer vigília por mais tempo".

Pela manhã, chegou um aviso de que o caso havia sido resolvido e até hoje não houve sinal de qualquer recaída. Não há recaída quando conhecemos a verdade, quando não usamos a verdade para vencer o erro. Quando tentamos sobrepujar o erro com a verdade, estamos reconhecendo o poder do erro e ele pode voltar com força redobrada e nos surpreender. A partir daquele dia até hoje, jamais procurei tentar curar qualquer pessoa aqui ou sobrepujar algum erro, porque Deus é o poder único, Deus é a substância e a lei de toda a forma.

Lembre-se: a verdade em si nada faz por você! É a sua consciência da verdade que a faz funcionar. A verdade é sempre verdade, que você o saiba ou não, mas ela se manifesta a você somente em proporção à sua percepção consciente dela. É como a conta do banco a cujo respeito você nada sabe. Somente a conta do banco que você conhece é que pode lhe servir. Eu mesmo passei por um período quando até mesmo uma pequena quantia teria sido muito bem-vinda. Nessa ocasião particular, eu não sabia que tinha qualquer dinheiro e então, mais tarde, descobri duas contas em um banco da Cidade de Nova York que estava lá há vinte anos, mas que eu tinha esquecido completamente. Houve muitas ocasiões em que eu teria sido muito grato por aquele dinheiro. Assim como a conta bancária que você não sabe que possui não tem valor para você, do mesmo modo esta verdade da totalidade de Deus de nada lhe adianta, exceto na medida em que você a conhece e a percebe conscientemente.

Esta é uma das coisas mais importantes que você será chamado algumas vezes a compreender. Somente na medida em que você vir que a doença não é um poder sobre o qual pode fazer alguma coisa é que você pode atender à aparência chamada doença. Este é o ponto que quero frisar: há somente um único Poder, uma única Presença. Nosso bem deve vir através Disso, a partir do interior, não através de qualquer tentativa humana de arrancá-lo do mundo exterior.


O TRATAMENTO É SEMPRE NO PLANO DE DEUS

Nesse ensinamento permanecemos no princípio da Vida única, do Espírito único, permeando tudo. A aparência chamada "morte" não é morte, e a aparência chamada "nascimento" jamais poderia ser o começo da Vida. A vida não tem começo nem fim. Esta Vida, que é Deus, é Autogerada e Auto-sustentada e não tem antagonismo nem oposição. Não há poder à parte da Vida única, que é a sua vida e a minha vida, e essa Vida é eterna.

No momento em que tocamos o Centro, a essência divina do Ser dentro do nosso próprio ser, constatamos não só Deus, mas a vida do homem individual, a vida daquele que se chama, no momento, um paciente. O tratamento, então, está na capacidade de contatar essa Vida única, a nossa própria Alma -- essa Essência única, esse Ser único que está dentro do nosso ser – e, por isso, em nossa forma de tratamento não é necessário enviar qualquer pensamento a uma pessoa. Pelo contrário, isso só serve para impedir ou atrasar a cura e, em alguns casos, torná-la impossível.

O tratamento correto a partir do ponto de vista do Espírito, ou Alma, é penetrar o interior, tocar o Centro do próprio ser de uma pessoa. Jamais leve lá o nome do paciente; jamais faça qualquer alegação, seja esta desemprego, insanidade ou doença: não diga nada que não seja Deus, e Deus já se encontra lá. Encontre Deus! E quando esse sentimento de liberação chega, você em breve obtém do próprio paciente a palavra de que ele está curado.

Esta é a minha palavra para você, após anos e anos e prática: não leve o nome, ou a identidade, ou o quadro, ou o pensamento do seu paciente para o seu tratamento. Deixe-os completamente de fora. Você nada tem a ver com eles. Para começar, eles são ilusórios, e se você os levar em consideração, obviamente não estará acreditando que são ilusões, mas pensando que são alguma coisa e que você tem de fazer algo a seu respeito. Às vezes, talvez possa ser verdade que, porque você tem um paciente, acredite por um momento que há uma presença e um poder à parte de Deus. Por isso, você penetra no interior para a iluminação, para a luz que dissipará a ilusão.

Quando você se voltar para o interior, deixe o problema de fora! O problema não deve preocupá-lo, seja ele mental, físico, moral ou financeiro. Ele nada tem a ver com você porque você não atende a um problema no nível do problema. O problema aparece como carência, limitação, desemprego, desamparo, pecado, doença ou morte, mas no momento em que você começa a fazer alguma coisa nesse nível, você é incapaz de atendê-lo. Onde quer que o problema esteja, está a resposta; e se o problema está em seu pensamento, a resposta também está lá. Eles nunca estão separados um do outro. Eles sempre são uma só coisa. Não há problema aqui e uma resposta em algum outro lugar.

Por isso, quando lhe é apresentado um problema, deixe-o e volte-se para dentro de si até conseguir aquele centro de consciência em que você sente o alívio e, então, o problema todo desaparece. Se você trabalha no problema, se você trabalha para realizar alguma coisa, nesse momento você derrotou o seu propósito.

Então, como é que você encontra o centro do seu ser? Antes de mais nada, afaste-se do problema. Esqueça-o. Feche os olhos e leve alguma citação para o seu pensamento, preferivelmente uma bem curta como "Eu e o Pai somos um" – ou "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus". Enquanto você se apóia nessa citação e os seus pensamentos começam a vagar, ponderando sobre o que tem para o almoço ou o que fazer amanhã, não lhes dê atenção; deixe-os vir e deixe-os ir.

Mantenha a sua atenção em: "Eu e o Pai somos um" – ou em qualquer outra citação curta apropriada da Escritura ou da sabedoria espiritual. Quando você perder o fio, suavemente volte a ele e reconheça que, ainda que sua mente tenha vagado, "Eu e o Pai somos um". Traga sua atenção de volta outra e outra vez e, tantas vezes quantas você perder esse fio, traga-o suavemente de volta. Não há por que ter pressa. Apenas volte-se suavemente para "Eu e o Pai somos um".

Depois que você tiver isso por alguns minutos, se sentirá mais apaziguado. Então, se for possível, nesse momento de quietude, lembre-se de que está escutando "aquela pequena voz silenciosa". Mantenha seus ouvidos abertos como se lá fora houvesse uma mensagem esperando para entrar. E há!

Você agora está desenvolvendo um estado de receptividade para "aquela pequena voz silenciosa". Assim, enquanto você mantém a sua mente em "Eu e o Pai somos um..., Eu e o Pai somos um", o tempo todo o ouvido está ouvindo e um sentimento de paz está se estabelecendo em você.

O tratamento do Caminho Infinito diz respeito somente ao seu relacionamento com Deus, e quando você se torna um com Deus, você sente o alívio. Quando esse alívio e essa sensação de paz chegam, o problema foi resolvido, seja o seu, seja o de outra pessoa. O seu paciente sentirá o alívio, porque foi levado para a sua consciência e, desde que Deus é a consciência do praticista, Deus também é a consciência do paciente. Não há transferência de pensamento do praticista para o paciente -- não há necessidade disso.

Jamais seja culpado de uma tentativa de dar um tratamento a um paciente. Não cometa o engano de pensar que um paciente vai a um prático que vai a Deus, e que Deus, então, por sua vez, vai ao paciente a fim de produzir o alívio; ou o que o paciente vai ao prático e que este envia alguma coisa ao paciente. Nada disso acontece.

Deus e o praticista e o paciente são realmente uma coisa só. Não há três e não há dois: há somente um. Quanto mais claramente você reconhece que EU SOU é Deus, e que EU SOU é a vida, a Alma e o Espírito de cada indivíduo, logo compreenderá que não está lidando com pessoas, mas com Deus, infinita e individualmente expresso como pessoas -- mas ainda Deus, somente Deus.


DEUS COMO PRINCÍPIO CAUSATIVO

Deus é tudo. Deus constitui o ser e o corpo individuais. Mas surge a questão: "O que é Deus?". Um dos nossos maiores problemas é encontrar uma resposta satisfatória para essa pergunta. Existem, talvez, diversas centenas de sinônimos para a palavra Deus, e se pudéssemos citar todas elas ainda não teríamos encontrado a resposta para a pergunta. Mesmo assim continuamos a levantar a questão de tempo imemoriais: "O que é Deus?" -- Talvez isso aconteça porque há um reconhecimento íntimo, do qual talvez nem estejamos conscientes, de que, quando encontramos Deus, encontramos a nós mesmos, e de que, quando encontramos a nós mesmos, encontramos Deus.

Com certeza, todos podemos concordar que Deus é o princípio causativo do Universo. Não podemos dizer, no entanto, que Deus criou o Universo porque isso significaria que, em um dado momento, havia Deus e não havia um universo e que então, subitamente, havia Deus e um universo. Deus não é um criador mais do que o é o princípio da matemática. O princípio da matemática não criou duas vezes dois, quatro; não criou o quatro e o ligou a duas vezes dois. Duas vezes dois inclui quatro, e logo que duas vezes dois passou a existir o quatro já estava lá. O princípio da matemática não o colocou lá; Deus não o colocou lá – Ele não podia. O quatro estava lá. Nunca tinha sido separado de duas vezes dois.

Mas quando pensamos em Deus como um Princípio criativo – infinito, eterno, onipresente, sem começo e sem fim -- então podemos ver que uma causa tem de ser uma causa de alguma coisa e que a esta 'alguma coisa' chamamos de efeito. Causa e efeito são um, co-existentes, co-eternos e da mesma substância. Então chegamos à verdade de que Deus, como Princípio criativo, é a causa de Seu ser manifesto que aparece como efeito, causa e efeito vinculados, como duas vezes dois é quatro, inseparáveis um do outro, mas sempre num mesmo lugar.

Pense sobre a questão: O que é Deus? Somente na compreensão do que é Deus é que podemos saber aquilo para o que Deus é Deus. Tudo o que sabemos, sabemo-lo porque somos um estado de consciência. Anule-se a atividade da consciência e não teríamos percepção nem conhecimento. Não saberíamos que existimos.

Foi Descartes que disse: "Penso, logo existo". Do mesmo modo, apenas porque sou consciente, porque sou a consciência em si, é que sei que existo e que há um universo existente. Se pudermos de algum modo nos entender e entender Deus como Consciência, poderemos entender este universo, incluindo o nosso corpo, como uma formação da Consciência – incorpórea, espiritual, eterna, co-existente, Autogerida e Auto-sustentada; de fato, Autogerida e Auto-sustentada da mesma maneira pela qual duas vezes dois é quatro se mantém pela eternidade.

Quando podemos ver que a Consciência é realidade de nosso ser, que Ela é o princípio causativo, então podemos ver formas dessa Consciência, ou Ela se torna evidente para nós como uma variedade infinita de formas e, portanto, tão eterna como nós. À medida que compreendemos que nossa consciência é o princípio causativo de nosso universo, então saberemos que, não importa o que façamos, a Consciência universal está sempre produzindo e reproduzindo.

Não importa o que façamos com o mundo dos efeitos, a Consciência, que é o seu princípio causativo, substância e lei, está sempre produzindo e reproduzindo. Ela não está criando. Está apenas se desenrolando, como um rolo de filme cinematográfico, desenrolando todo o quadro. O quadro já está lá no rolo todo e está apenas se desenrolando diante de nossa vista.

A Consciência está sempre Se desenrolando e Se revelando para nós sob forma infinita, de maneira infinita e em variedade infinita. Nunca deveria haver lamentos sobre nossas vidas passadas, sobre o que perdemos no passado. O passado nada tem a ver com o presente. Não dependemos do maná de ontem; não dependemos de coisa alguma ou de alguém. Não faz diferença o que aconteceu ou o que acontece com a nossa sorte ou com os nosso bens. É hoje que a nossa consciência está nos revelando sua nova criação, revelando a cada dia suas novas formações. Hoje a nossa consciência está se desenrolando e se revelando de novas maneiras, de novas formas – sempre crescendo abundantemente.


VIVER DENTRO DO PRINCÍPIO DO EU ÚNICO

Na Primeira Guerra Mundial, servi como voluntário na marinha dos Estados Unidos e, embora, naquele tempo eu fosse um jovem estudante de Metafísica, aprendi que é possível me proteger dos poderes deste mundo refugiando-me em/no Cristo, onde nenhum poder do mal pode se aproximar. Orei desse modo durante semanas, até que um dia fiquei impressionado; fui tomado com a ideia de que Deus devia ser horrível se, ao dizer "abracadabra", eu pudesse ser protegido, ao passo que todas as pessoas que não conhecessem a palavra mágica seriam mortas ao saírem. Lá estaria eu com a minha arma, matando a torto e a direito sem ser tocado. Mas, os pobres companheiros que não conhecessem essa fórmula mágica, poderiam morrer. Eu não podia acreditar que existisse tal Deus e percebi que havia algo errado com essa forma de oração. Por não conhecer outra, decidi não orar novamente até que tivesse aprendido a fazê-lo corretamente.

Os dias passaram, e recusei me ocupar com qualquer oração protetora desse tipo, até que um dia, aparentemente por acaso, derrubei minha Bíblia no chão. Ela caiu aberta nesta passagem: "Eu não rogo somente por estes(João 17:20). Senti o coração e os ombros aliviados de um peso que os oprimia, e disse: "Obrigado, Pai. Nunca rezarei novamente para mim ou para os meus somente. Agora, porém, minha prece é que a graça de Deus envolva a humanidade, que a graça de Deus toque toda alma viva para a vida espiritual".

Quanto a mim, aconteceu um milagre. Fui transferido de um local para outro, de uma obrigação para outra, mas nunca mais, durante a guerra, fui sequer mandado para perto de qualquer sítio, de onde pudesse atingir alguém ou mesmo ser atingido. Vi então que não só havia proteção para mim, como também havia proteção a partir de mim. Desde então, aprendi uma grande lição que narrei no capítulo "Ame teu Próximo", no livro Exercitando a Presença. O princípio é que há somente um Eu, e que é o Próprio-Deus.

A vida de Deus é a minha e a sua vida; a alma de Deus é a minha e a sua alma. o Espírito de Deus é o meu e o seu espírito; a verdadeira individualidade de Deus é a minha e a sua individualidade; e isso significa que nós somos unos em filiação espiritual. Qualquer coisa que me beneficie deve beneficiar você; qualquer coisa que me prejudique, deve prejudicar você, pois nós somos um só. Tudo o que for uma bênção para mim, deve ser para você; e tudo o que é graça divina para você, deve ser também para mim, pois nós somos um só.

Se eu fizer algo danoso para você, estarei fazendo a mim mesmo, pois só existe um. Se eu fizer algo de natureza oculta, não estou ocultando de você; estou ocultando de mim. Se eu fizer algo destrutivo, não estou prejudicando você; estou prejudicando a mim mesmo, pois nós somos um só. Frequentemente queremos saber porque estamos pagando as penas da enfermidade, do pecado ou da pobreza, sem compreender o que fizemos à humanidade.

Para o mundo, há um, apenas um único meio de ação: é através de obras. O mundo realiza seu bem e seu mal pelas obras, mas essa não é a sua ou a minha verdade. Mesmo se nos abstivéssemos das más ações, ainda assim não seria suficiente. Paulo disse que: "ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria(I Coríntios 13:3). E o Mestre disse-nos que, se não cometêssemos nenhum desses pecados, mas permitíssemos que eles ocupassem o nosso pensamento, ainda assim, seríamos pecadores: "Eu, porém, vos digo que qualquer um que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela" (Mateus 5:28).

Assim é que as boas obras não são suficientes para nós. Abster-se das más obras não é o bastante. Devemos avançar um passo além e não prestar falso testemunho contra o próximo. Silenciosa e secretamente, devemos compreender que Deus é a vida de todo o indivíduo, quer o saiba disto ou não, quer viva ou não para Ele.

No exato momento em que começarmos a conhecer a verdade de que Deus é a vida de todo mundo, que a graça divina é suficiente para todas as pessoas em todo lugar, quando começarmos a orar por aqueles que estão arruinando este mundo – oremos para que a graça de Deus abra a alma e a consciência deles para a verdade do ser, oremos para que o mundo seja um instrumento pelo qual Deus possa agir livremente, oremos para que a luz de Deus toque a consciência obscurecida deles -- então e somente então começaremos a "morrer a cada dia" para os meios humanos de vida e renasceremos como filhos de Deus que já não têm de dirigir o pensamento para a vida, mas que agora vivem pela Graça.
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quinta-feira, junho 30, 2016

Deus aparece como a consciência individual

- Joel S. Goldsmith -


A CONSCIÊNCIA APARECE COMO "PÃES E PEIXES"

Depois disto, passou Jesus para a outra margem do lago da Galiléia, chamado lago de Tiberíades. Seguiu-o grande multidão de povo, porque viam os sinais que fazia aos doentes. Subiu então Jesus ao monte, onde se sentou em companhia dos seus discípulos. Estava próxima a festa pascal dos judeus.

Erguendo os olhos e vendo que numerosa multidão vinha procurá-lo, disse Jesus a Filipe: "Onde compraremos pão, para que a gente tenha o que comer?" Mas isto dizia apenas no intuito de pô-lo à prova; porque bem sabia o que havia de fazer.

Respondeu-lhe Filipe: "Duzentos denários de pão não bastariam para que cada um deles recebesse um bocadinho".

Ao que lhe observou um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: "Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes; mas que é isto para tanta gente?"

Disse Jesus: "Mandai esta gente sentar-se."
(Jo 6:1-10)

Parecia haver carência e limitações materiais. E a primeira reação da maioria de nós, em tal situação, seria: "Tenho somente cinquenta centavos, quando necessito de cinco dólares." É nesse ponto que as preocupações materiais começam a provocar o que o mundo chama de úlceras. Em nosso ensino, fazemos como fez o Mestre: imediatamente damos as costas ao quadro. Acaso cinquenta centavos ou cinco dólares suprem realmente as nossas necessidades? Ou será a presença da Consciência divina, que aparece como a nossa consciência individual? Não será essa Presença, e nada mais, o que atenderá às nossas necessidades?

Se te lembrares desta lição, nunca mais procurarás "pães e peixes" ou moedas e cédulas, nem julgarás a profundidade e a vastidão do universo de Deus pela tua visão limitada das coisas. Não descobrimos como multiplicar "pães e peixes", mas descobrimos a lei do amor.

No afã de prover às necessidades de sua vida, o sentido finito começará, digamos com cem dólares e pensará: "Quando eu tiver um milhão...". Mas não importa quanto aumente a quantidade de "pães e peixes" - ou dólares -, porque isto nunca te satisfará. Estarás satisfeito somente quando puderes olhar para o que tens no mundo externo e dizer: "Isto não é o que eu necessito. O que eu necessito é reconhecer que dentro de mim está o reino de Deus; que dentro de minha consciência está o universo espiritual, e que das profundezas de minha consciência flui a riqueza de meu ser." E isto nada tem a ver com "pães e peixes".

Para chegares a esse estado de consciência, é indispensável praticar meditação, porque frequentemente serás tentado a olhar para os "pães e peixes" e dizer: "Eu tenho" ou "tu tens" ou "eu não tenho... eu preciso". E então, para não caíres nessa tentação, precisarás lembrar-te de desprezar os números, quantidades e qualidades dessas coisas externas e te compenetrares de que "Nada preciso do mundo exterior; nenhuma quantidade de coisas poderá atender às minhas necessidades. Estas só poderão ser supridas pela minha compreensão da riqueza de minha própria consciência." Assim é como cada um de nós poderá "morrer" diariamente para o sentido mortal, material, e renascer para o Espírito. Em outras palavras: o Espírito tornar-se-á, para nós, a substância tangível, isto é, a forma e a quantidade de todas as coisas no reino externo. E porque a Consciência é infinita, Sua aparência estará infinitamente manifesta.

A Consciência infinita não pode aparecer como apenas uma, duas ou mil ideias. Ela tem que Se manifestar como todas as ideias de que precisares por toda a eternidade. Não estamos usando a verdade espiritual para multiplicar alguns pedaços disto ou daquilo. Estamos desprezando a crença de que exista presença e poder no mundo externo e voltando à nossa compreensão de que a Consciência infinita está aparecendo como a nossa consciência individual.


RECONHECENDO A FONTE

Disse Jesus: "Mandai esta gente sentar-se." É que havia muita gente no lugar. Sentaram-se, pois, os homens em número de uns cinco mil. Tomou Jesus os pães, deu graças e mandou-os distribuir a todos que estavam sentados; da mesma forma, os peixes, quanto queriam.
(Jo 6: 10-11)

Por que deu ele graças? Será por que fazia isso parte do ritual? Sabes que ele não estava obedecendo ordens para dar graças a ninguém. Assim, pois, ao dar graças, sem dúvida, estava pondo o princípio em ação.

A ação de graças é um reconhecimento da Fonte. Dar graças é reconhecer a Causa. Por isso, quando dizemos: "Graças a ti, Pai, eu sou", estamos exprimindo nossa convicção de que o nosso suprimento não se origina de nenhum ser humano, mas, sim, do Pai. Não vem de nossa inteligência humana, de nossa engenhosidade ou de nossa personalidade. Procede do Pai. Dar graças é portanto um ato de reconhecimento da Fonte de todo suprimento, a qual é a Consciência. Sem o reconhecimento de que a Consciência é essa Fonte, não há demonstração da verdade de que o suprimento vem dessa Fonte como consequência natural de nosso contato com Ela. Quando reconhecemos a Deus, a Consciência infinita de nosso ser, como a Fonte de tudo o que chega até nós, então o nosso "Obrigado, Pai!" representa o nosso reconhecimento da nulidade do ego humano e do esforço humano. É um reconhecimento da presença e poder de Deus como fonte de tudo o que chega até nós como suprimento de todas as nossas necessidades.

Em cada passagem de tua vida, a gratidão desempenha um papel talvez muito maior do que imaginas. Gratidão não é sentimento relacionado com outra pessoa. É tua harmonia, teu contato com Deus, tua união com Deus. Em verdade, nunca precisas dizer "Obrigado" a outrem que tenha servido de canal para o bem que recebes. Naturalmente que nós o fazemos como uma forma de cortesia. Entretanto, se essa expressão externa de gratidão não for acompanhada da compreensão interna de que Deus, nossa consciência e a fonte daquilo por que somos gratos, estaremos agradecendo à fonte errada, e teremos perdido a essência do verdadeiro sentido de gratidão. A graça que Jesus rendeu ao Pai, foi o seu reconhecimento silencioso de que Deus é a causa e o feito de toda e qualquer quantidade de "pães e peixes".

Depois de todos fartos, disse a seus discípulos: "Recolhei as sobras, para que não se percam." Recolheram e encheram doze cestos com os pedaços dos cinco pães de cevada, que sobraram aos que tinham comido. Vendo o povo o feito poderoso que Jesus acabara de realizar, exclamou: "Este é realmente o profeta que deve vir ao mundo."

Reparou Jesus que queriam vir levá-lo à força para proclamá-lo rei. Pelo que tornou a retirar-se para o monte, ele sozinho.

Ao anoitecer, desceram os discípulos ao lago, embarcaram e dirigiram-se para a outra margem, rumo a Carfanaum. Já era escuro, e ainda Jesus não fora ter com eles. Iam as vagas empoladas com forte ventania. Tinham remado uns vinte e cinco a trinta estádios, quando avistaram Jesus a andar sobre as águas e aproximar-se da embarcação. Encheram-se de terror. Jesus, porém, lhes disse: "Sou eu, não temais!"
(Jo 6:12-20)

De que se aterrorizaram eles? De alguma coisa externa? De algum efeito? Da forte ventania? Ou das ondas empoladas? E qual foi a reação de Jesus ante aquela tormenta? - "Sou eu; não temais!".

O Eu é Deus, a Consciência divina aparecendo como consciência individual. Portanto, a toda "tormenta" com que depares em tua vida, ao invés de procurares algo com que fazê-la cessar, fica onde estás e dize: "Sou eu; não temais!". Eu, Deus, aparecendo como a consciência individual, tenho que ser a lei para tormentas, ventos, ondas, vulcões e até para bombas atômicas.

Em "O Caminho Infinito", nós estamos retirando toda a confiança que tínhamos no suposto poder e presença das coisas do mundo externo - quer sejam dólares, "pães e peixes", tormentas, pecado ou doença - e depositando nossa fé no verdadeiro e único poder, que é o de Deus, que aparece como a nossa consciência individual em cada um de nós. Esse Eu, esse Eu que eu sou, é a lei para toda tormenta.

Ora, vendo eles que Jesus e seus discípulos já não estavam lá, embarcaram e foram a Carfanaum, em busca de Jesus. Deram com ele na outra margem e perguntaram-lhe: "Mestre, quando foi que chegastes aqui?"

Respondeu-lhe Jesus: "Em verdade, em verdade, vos digo: Andai à minha procura, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos." 
(Jo 6: 24-26)

Sim, eles voltaram pelo pão. Mas teriam visto o milagre? Não perceberam que o pão fora produzido pela consciência? Acaso estavam interessados nisso? - Não. Estavam interessados somente em obter mais pães e peixes. Sua atenção estava focalizada nas coisas do mundo; estavam presos ao ódio, ao medo, ao amor e ao desejo pelas coisas do mundo.


ESFORÇA-TE POR ALCANÇAR A CONSCIÊNCIA ESPIRITUAL

Isto nos leva a pensar no preceito: "Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir." De nada adianta sermos alimentados hoje pelo grande Mestre para a ele voltarmos amanhã em busca de mais alimento. Quando presenciais uma cura, procuras saber o seu segredo? Ou como operou o milagre, indiferente com os efeitos?

Por favor, observa este ponto. Cuida que teus sentimentos não fiquem hipnotizados pela magnitude da demostração, a ponto de esqueceres de investigar o seu segredo, a sua causa. Precisamos deixar que Deus, a consciência de nosso ser, seja a medida da nossa demonstração de cura. Sendo infinita, nossa consciência tem que manifestar-se como uma infinitude de "pães e peixes", como uma quantidade ilimitada de dólares, como um lar infinito, como ação ilimitada.

E agora chegamos à essência do nosso trabalho.

Lemos no evangelho segundo João, pouco depois do registro desta resposta de Jesus: "Andais à minha procura, não porque vistes sinais...", o seguinte:

"Não vos afadigueis por um manjar perecedor, mas, sim, pelo manjar que dura para a vida eterna e que o Filho do homem vos dará..." (Jo: 6:27).

Não te afadigues, não estudes, não medites, nem dês tratamento visando a produzir um efeito. Não vivas no mundo dos pensamentos e dos objetos. Trabalha por conseguir aquele estado de consciência que produzirá equilíbrio na tua mente, no teu corpo, na tua carteira, no teu lar, na tua vida familiar, nas tuas relações em geral, bem como nos negócios nacionais e internacionais.

A consciência espiritual não dá valor à "comida que perece", mas, sim, àquela consciência que constitui a lei da vida e que se manifesta na forma de "comida perecível". Jesus não disse que não devamos ter essa comida. Ele disse que o Filho do homem nos dará a verdadeira comida e que é por essa que devemos nos esforçar, isto é, por esse estado de consciência.

O objeto desta obra/ensinamento é a revelação de um novo tipo de homem - a revelação, dentro de nosso próprio ser, do homem espiritual que de fato somos. A maioria de nós não está satisfeita com o que vê e com o que parece existir. Nunca estaremos satisfeitos enquanto não nos voltarmos para o homem que realmente somos. Então é que acabará a luta de todo momento entre o espírito e a carne. O término desta luta e a abertura da consciência ao desenvolvimento espiritual tornaram-se algo mais que uma vaga esperança quando os instrutores espirituais começaram a demonstrar que se precisa e como de pode viver realmente em contato consciente com Deus durante os sete dias da semana. O mundo está reclamando com o aparecimento de um novo tipo de homem, em cuja consciência não haja guerra nem coisa alguma que provoque hostilidades. E isto é realmente um milagre!

Perguntaram-lhe: "Que nos cumpre fazer para praticarmos as obras de Deus?" Respondeu-lhes Jesus: "A obra de Deus está em que tenhais fé naquele que ele enviou." (Jo:6:28-29)

Este é um dos preceitos mais importantes que se encontram na Bíblia: "... que tenhais fé naquele que Ele enviou." Quem foi que Ele enviou? A Si mesmo, como a consciência de cada um de nós! Deus individualizado como o Filho! Deus enviou-se a si próprio em se manifestando como cada um de nós. Precisas aprender a confiar na tua própria consciência como sendo a Consciência de Deus aparecendo como tua consciência. Assim é como aprenderás a fazer as obras de Deus. Está certo fazeres essas obras, pois ele disse que poderemos fazê-las. Não fosse assim, ele poderia ter dito "Vós, pobre e pequeninas almas!", mas, pelo contrário, o que ele disse foi: "... que tenhais fé naquele que Ele enviou." Deves crer que a Consciência infinita, chamada Deus, foi enviada ao mundo como tua consciência.

A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus. Se não entraste no reino do céu, é porque durante toda a tua vida tens estado a lidar com a carne o sangue. Agora precisas abandonar todo o teu interesse pela carne o sangue e começar a compreender "aquele que Ele enviou". Quando começares a crer real e verdadeiramente que Deus é a tua consciência, que tudo o que necessitas provém da tua consciência divina, e não de fora, não do mundo dos efeitos, então estarás na primeira etapa da expansão espiritual.

Replicaram-lhe eles: "Que sinal nos dás para que o vejamos e te demos fé? Qual a tua obra? Nossos pais comeram o maná, no deserto, conforme está escrito: Do céu lhes deu pão a comer."

Respondeu-lhes Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do céu; meu Pai é que vos dará o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo."
(Jo 6:30-33)

O que é esse "ele"? É um homem, ou é a tua consciência? É a Consciência divina aparecendo como a tua consciência individual a dar vida a teu corpo, a sustentar tua posição social, teu lar. O pão de Deus é a Consciência divina, infinita, que aparece como tua consciência individual: é Deus a desdobrar-se, revelar-se, manifestar-se como teu ser individual. Quando souberes isto, poderás realmente crer n'Ele e esperar tudo o que for necessário na vida: todo suprimento, toda paz, todo domínio.

Disseram-lhe eles: "Senhor, dá-nos sempre esse pão." Tornou-lhes Jesus: "Eu sou o pão da Visa. Aquele que vier a mim jamais terá fome; e quem crê em mim jamais terá sede."
(Jo: 6:34-35)

O mundo pensa que esse "mim" representa um homem chamado Jesus Cristo, que viveu há dois mil anos. Mas esse "mim", esse "Eu" é Deus, o Ego infinito, que aparece como o ego individual. "Eu sou o pão da vida"; e o lugar onde estou é terra santa porque Eu estou nele. Não é isto algo tremendo?! A Consciência espiritual individualiza-se como sendo tu! O mundo tem estado a dizer que Jesus Cristo é ou foi essa Consciência, esse Eu, mas como nos poderá tal coisa ajudar, se somente Jesus é essa Consciência, esse Eu, e eu não O sou?

"... Bem vos dizia eu que não credes, ainda que me tenhais visto. Tudo quanto o Pai me dá vem a mim; e eu não repelirei a quem vier comigo; porque desci do céu, não para cumprir a minha vontade, mas, sim, a vontade daquele que me enviou."
(Jo 6: 36-38)

Percebe que isto se aplica a nós? Que o nosso único propósito é "fazer a vontade daquele que me enviou"? Ser algum poderia ser atraído a uma pessoa agora, ou há dois mil anos atrás, só por possuir esse alguém alguma espécie de mensagem pessoal. A menos que percebas que, não apenas eu, o autor destas palavras, vim a este mundo para fazer "a vontade daquele que me enviou", mas que esta também é a tua missão na vida, não terás alcançado o ponto mais importante de toda esta obra.


A FINALIDADE DA VIDA

Eis diante de nós um dos assuntos mais importantes do mundo. Para quê nascemos? Não é possível que tenhamos vindo a este mundo simplesmente para ganharmos a vida, nos procriarmos, fazer serviços domésticos, escrituração mercantil ou seja lá o que for que o destino nos reserve, apenas pelo privilégio de, no final das contas, nos deitarmos para morrer. Se vivemos a fazer somente essas coisas, é porque ainda não descobrimos nossa verdadeira vocação.

Contudo, no momento que identificares a Deus, a Consciência infinita, como a tua consciência individual, transporás os limites do teu ambiente, por mais fechado que pareça. Sentirás o impulso insopitável de conhecer a finalidade da tua vida, porque todos nós temos uma alta missão a cumprir neste mundo. "Não está escrito na vossa lei... Sois deuses?" (Jo 10:34). Sempre o Mestre tentou alçar a consciência pessoal do homem ao nível que permitisse a este o reconhecimento da própria e verdadeira identidade, Deus - que és, que somos. Jesus simplesmente aconselhou seu povo a ser o que ele era.

"... É esta a vontade de quem me enviou: que todo homem que vir o Filho e crer nele tenha a vida eterna... (Jo 6:40)

Se puderes sentir ou perceber que Deus trabalha através de alguma pessoa, terás então que reconhecer que Ele trabalha igualmente através de ti, porque a experiência dessa pessoa era como a tua, antes que o Espírito a tocasse. O objetivo do ensino da verdade espiritual é elevar o nível de nosso entendimento a ponto de nos podermos aperceber de nossa verdadeira identidade. Se puderes crer que notaste sinal de Consciência espiritual, ou Consciência-Deus, emanar de algum instrutor espiritual, estarás crendo que "o Filho" está nele e, nesse momento, estarás salvo. Serás de tal modo levantado que saberás que o que é verdade a respeito dele o é também com relação a tua própria identidade. Se assim não o for, será porque o que notaste nesse instrutor não é real. Deus não olha as pessoas. Atenta na história da vida de todos os líderes espirituais e descobrirás que, antes de se tornarem líderes, aconteceu-lhes algo que despertou suas mentes do mesmerismo dos serviços domésticos ou das atividades de empregado ou do comércio, permitindo-lhes perceber o fato de que o Cristo era o próprio ser dele, o fato de que o próprio ser deles era "o Filho".

"... É esta a vontade de quem me enviou: que todo o homem que vir o Filho e crer nele tenha avida eterna, e eu o ressuscite no último dia." (Jo 6:40).

Ao te aperceberes de que "o Filho" está dentro de ti, o teu próprio ser ser´levantado a um nível de consciência que te permitirá entender que tudo o que tenha sido verdade em relação aos líderes espirituais do passado, é verdade também em relação a ti, porque o que aparece como "tu" e como "eu" é intrinsecamente o mesmo EU.

Murmuraram dele os judeus por ter dito: "Eu sou o pão que desceu do céu." (Jo 6:40)

Como os seres humanos detestam ouvir isso! Como os irrita ouvir alguém dizer: "Tenho algo de Deus dentro em mim. Sou a própria presença de Deus." Ofendem-se com isto porque acham que alguém está se colocando acima deles, julgando-se maior que eles e pretendendo separar-se dos demais. Não compreendem que isso é apenas a expressão de um princípio que todos devem e podem adotar.

Diziam: "Não é este, porventura, Jesus, filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como diz, pois: Eu desci do céu?"

Tornou-lhes Jesus: "Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se não o atrair o Pai que me enviou; eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: Serão todos ensinados por Deus." (Jo 6: 42-45)

Compreendes a mensagem? Jesus coloca-se acima de si mesmo e glorifica o Cristo, internamente. Depois volta e diz: "serão todos ensinados por Deus." Ei-lo, pois a reduzir a mínimo a personalidade humana.

Nosso estudo é para que Deus possa se revelar como nossa consciência individual: Eu sou o Verbo que se fez carne. O início da sabedoria é quando desviamos nossa atenção do mundo externo, do mundo dos efeitos ou aparências e começamos a perceber que o poder não se encontra nele, mas em nós, como indivíduos. É-nos dado individualmente todo o poder. Como indivíduos, nós temos domínio sobre todas as coisas que aparecem no mundo dos efeitos.

Ao invés de darmos tratamentos, vejamos se podemos sorrir, pelo menos internamente - não abertamente, para não ofender a ninguém ou não parecer que estejamos fazendo pouco de seus sofrimentos -; vejamos se podemos sorrir na atitude de quem dissesse mentalmente: "Sim, mas eu sei que não há poder em aparências. O poder está em mim, em ti, em cada um, não importa quem seja ele. Deus, a consciência de qualquer indivíduo, é o poder. Já não mais odeio, não amo nem temo aparências externas, ou o que o homem mortal ou efeitos materiais me possam fazer." Não atribuas poderes a números, a "pães e peixes", porque eles não têm nenhum poder. "Eu sou o poder". Deus, a divina Consciência, tem que aparecer como o meu infinito suprimento espiritual, como o meu corpo espiritual, ilimitado.


A IMPORTÂNCIA DO ESTADO DE CONSCIÊNCIA DO CURADOR ESPIRITUAL

Quando recorres a um curador espiritual, que é o que pensas que te vai ajudar? tens alguma ideia sobre qual seja a razão, o modo ou processo por que se dará a cura que esperas? Será por fé cega, confiança em Deus? Ou reconheces que se opera pelo estado de consciência do curador? Quando pedes auxílio a um curador, esse auxílio vem porque ele alcançou um estado de consciência em que o mal, ou erro, seja qual for seu nome ou natureza, perdeu seu poder aparente.

Se pedires a ajuda de alguém que crê que a dor seja alguma coisa que se deva recear, ou que o erro seja algo odioso ou temível, não serás curado. Mas quando perdires a ajuda de um curador que não teme germes, infecções ou contágio; alguém que sabe que micróbios, infecções e contágio não existem como poder, senão simplesmente como efeitos - serás curado ui rapidamente. O que cura é o estado de consciência do curador espiritual.

Poder-se-á perguntar: "Onde está Deus em tudo isso?" Na consciência que sabe que não existe nada que lhe seja oposto. Deus é esse estado de consciência do curador que não teme, não odeia nem ama o erro sob forma alguma. Então, e só então, é que o curador é realmente capaz de curar.

Aquele que teme a doença ou sente repugnância por esta ou aquela forma de pecado, ou que critica ou condena o alcoólatra ou o libertino, revela não possuir estado de consciência capaz de curar realmente. O estado de consciência do curador é agente curativo somente na medida em que esteja isento de medo, aversão ou amor ao erro, seja qual for o nome ou a natureza deste. Se tememos certa doença e acreditamos que ela tenha o poder de matar, então não podemos curá-la. Além disso, precisamos compreender que não há um Deus sentado perto de nós aguardando oportunidade para intervir no trabalho a nosso favor.

Deus é Consciência espiritual infinita, em que não há pecado, doença nem morte. Na medida em que o curador reconhecer esta verdade, tal será seu estado de consciência. Ninguém superou de todo a crença de que existe poder e presença na matéria. Mas Jesus conseguiu superá-la mais do que todos os outros.

Há nisto um outro ponto a considerar. Talvez queiras saber por que será que um dia vais a um curador e és curado instantaneamente e, depois, em outra época, tens de voltar a ele quatro ou cinco vezes antes que se dê a cura. No primeiro caso, a cura foi instantânea porque quando pediste o auxílio do curador, este se achava num alto estado de consciência, isento de ódio, medo e amor às aparências. No segundo, a cura foi retardada porque as sugestões hipnóticas do mundo, chegadas através de rádio e televisão ou de manchetes de jornais, ou devidas a problemas de família, talvez o tivessem feito descer daquele alto estado de consciência.

O sistema econômico sob o qual vivemos não é o mesmo da época de Jesus. Naquele tempo lhe era possível tomar seu manto branco, subir uma montanha, lá ficar durante quarenta dias e depois vir curar multidões. Se hoje pudéssemos fazer isso, nós também poderíamos curar as multidões. Mas a maioria dos curadores não podem fazê-lo. Para ser franco, em parte os próprios pacientes são culpados desta situação. Eles tendem a ficar ressentidos com o curador quando não o encontram à sua disposição. Querem que seja possível comunicar-se com ele durante as vinte e quatro horas de cada dia e os sete dias de cada semana, e por isso, até certo ponto, ajudam a impedir que se operem curas instantâneas.

Não permitem ao curador permanecer no alto estado de consciência necessário para produzi-las. O curador faria melhor trabalho se pudesse ausentar-se frequentemente por períodos de dois ou três dias de cada vez.

Não há mistério nem milagre em relação à cura. Esta resulta diretamente da influência do estado de consciência daquele a quem se recorre. Ao pedires o auxílio do curador, entras em contato com a consciência dele. Se ele sempre estivesse num estado de consciência divina, infinita, toda vez que lhe pedisses ajuda serias curado imediatamente. Se a cura não segue de imediato ao pedido de ajuda, é unicamente porque o curador ainda não alcançou esse estado de consciência, ou, se o alcançou, não o mantém.

Farás curas à medida que te aperceberes desta verdade: Deus é que é a tua consciência divina, e não a tua mente pensante.

Quando alguém te pedir ajuda, volta-te, imediatamente e sem hesitar, ao teu mais alto entendimento, sabendo que o auxílio está chegando na medida de tua percepção de Deus como consciência individual, consciência que nada sabe acerca do erro e nem toma conhecimento de forma alguma de erro e que, por isso mesmo, não o odeia, não o teme, nem o ama.

Na proporção em que estudares, na medida em que meditares, Deus ou a Verdade, Se manifestará e Se revelará como a tua consciência individual.


segunda-feira, junho 27, 2016

Postura mental correta para ler obras da Verdade

- Gustavo -


A Verdade é Sagrada. A palavra "santo" ou "sagrado" significa "aquilo que está aparte, aquilo que está separado". A Verdade está separada do mundo. Isso é assim porque ambos apresentam naturezas distintas e incompatíveis. A luz está separada das trevas – as trevas não podem coabitar com a luz. A realidade está separada da ilusão – a ilusão não pode existir no mesmo espaço onde existe a realidade. O divino está separado do mundano – o mundano é de natureza física, material, dualística; e o divino é de natureza metafísica, mística, de unidade. O que é de natureza mística não pode estar presente/misturado ao que tem natureza material – ele permanece separado, transcendente, inviolável, sagrado. Coisa alguma de natureza mundana é capaz de se aproximar da Verdade Sagrada. Para que haja a aproximação do divino, é necessário afastar-se do mundo e consagrar-se.

E o que é a Verdade? É a realização (sentimento/experiência) de que o homem é filho de Deus. Por ser filho herdeiro de Deus, o homem compartilha da mesma natureza (essência) de Deus, sendo um ser totalmente realizado, amoroso, bem-aventurado, livre, feliz. O filho de Deus é uno com Deus e, por conseguinte, uno com todos os filhos de Deus. Assim, todos os filhos de Deus, juntos, constituem a Filiação Divina, ou seja, são o Filho Unigênito de Deus. Em todo o universo só existe a unicidade, e essa unicidade em si é Amor. Deus é Amor. Deus é todo esse universo divino e glorioso Se expressando. Essa verdade sagrada pode ser vista e experienciada. Quando essa verdade está presente na consciência (no interior) do homem, a vida no mundo físico reflete todas as qualidades conscientizadas.

Em todos os lugares pessoas estão se empenhando para conhecer Deus. Buscam alcançar o divino através de ensinamentos contidos em livros, em palestras, ou até mesmo mediante contato direto e pessoal com professores espirituais. Em todos esses casos, as práticas mencionadas devem ser realizadas com imensa veneração e sacralidade para que se obtenha um resultado realmente frutífero, proveitoso. Qualquer atividade ligada ao sagrado deve ser encarada como uma sadhana (prática espiritual realizada com espírito de reverência e disciplina), porque isso é o que ela realmente é: uma prática espiritual.

A Seicho-No-Ie, por exemplo, considera fundamental a prática concomitante de três disciplinas espirituais a fim de que o homem possa realizar em si a vida de Deus: 1) Leitura constante de livros da Verdade; 2) Dedicação de amor ao próximo através de atos concretos; 3) Prática diária de Oração/Meditação. Todas essas práticas, se imbuídas do correto estado de espírito (estado de espírito consagrado), conduzem o ser humano ao verdadeiro conhecimento da Verdade. Mas o  objetivo deste texto é falar principalmente sobre a melhor maneira de se proceder à leitura das obras espirituais, sagradas – principalmente aquelas que intentam comunicar a Verdade indizível. É muito importante termos a compreensão de que o estudo de uma obra sagrada não serve apenas de instrumento para conduzir à execução de determinada prática espiritual. Ou seja, não se trata só de um "meio" para  se atingir um "fim". Sua leitura é um fim em si mesmo, constituindo ela própria prática espiritual. Nem todo ensinamento ou mestre apresenta essa visão.

A Verdade Sagrada não pode ser comunicada através das palavras. Palavras, por si só, são limitadas, fragmentadas, dualísticas, e não conseguem expressar o que é de natureza transcendental, inteira, unida. Conhecer a Verdade é ser a Verdade. Diferentemente dos conhecimentos acadêmicos que podem ser adquiridos no mundo, o conhecimento da Verdade ao mesmo tempo que é "conhecimento" é também "experiência", "vivência", "realização". A natureza do mundo é tal que permite que as coisas primeiro sejam conhecidas e posteriormente executadas. A natureza mundana permite existir separação entre conhecimento e prática. Com a Verdade, o mesmo não ocorre. Em se tratando da Verdade, "conhecer a Verdade é ser a Verdade".

Por isso, uma obra espiritual não deve ser lida do mesmo modo como se faz com artigos escritos nas enciclopédias, livros, revistas e jornais. A leitura de livros sagrados feita por meio de uma postura mental (ou estado de espírito) mundana mantém a separação entre "conhecimento" e "experiência", e o conhecimento da Verdade fica reduzido a algo puramente intelectual, teórico – estéril e infrutífero. Mediante tal procedimento não se alcança grandes resultados na caminhada espiritual. A leitura de uma obra da Verdade deve ser feita com total sacralidade.

Através da leitura de livros (ou audiência de palestras), o entendimento da profunda verdade espiritual não depende (nem ocorre através) das habilidades de pensamento, raciocínio, reflexão, contemplação, inteligência e demais capacidades da mente. A Verdade Sagrada transcende completamente a mente humana. Sempre que um indivíduo alcança a percepção, a compreensão (ou mesmo um lampejo) da Verdade, isso ocorre mediante processo sublime: a fonte emissora do conhecimento transcendental está situada em um espaço sagrado que não pode ser alcançado ou violado pela mente. A transmissão do conhecimento ocorre no âmbito desse mesmo espaço sagrado, além da mente. Por sua vez, a fonte receptora em nós que capta e apreende o conhecimento também habita esse espaço sagrado e misterioso para a mente.

Em outras palavras, eis o modo como se dá este processo: a vibração divina impregnada no livro (ou que emana das palavras e da presença do palestrante) se comunica com a mente divina em nós. Com isso, a presença divina em nós é tocada tal qual um sino que passa a vibrar e soar... e então desperta. E enquanto ocorrer a ressonância (enquanto estiver desperta) tem-se a compreensão ou lampejo. Todo o processo de comunicação (emissão, transmissão e recepção) ocorre a nível supra mental. O que desperta o Sagrado em nós é a vibração das palavras pronunciadas pelo Sagrado presente na fonte emissora da mensagem. Então o conhecimento sagrado é verdadeiramente captado (sentido, experienciado). Nesse sentido, Masaharu Taniguchi assim explica:

A definição da Imagem Verdadeira da Vida do homem é impossível de ser feita através de palavras, por mais que se tente, e o zen-budismo diz que não se chega à conclusão alguma, por mais que alguém discorra sobre isso. Dizem também que, sendo difícil transmitir através das palavras, transmite-se de mente para mente. Desse modo, a Imagem Verdadeira é algo que acreditamos ter compreendido para, no instante seguinte, acharmos que nada entendemos a seu respeito, sendo muito difícil compreendê-la e transmiti-la a outrem. É difícil transmitir, mas isso não significa que devemos ficar quietos, sem nada falar sobre ela. Se num Grande Seminário o palestrante ficasse calado, ninguém iria ouvi-lo. Isso deixa o preletor que tenta explicar sobre a Imagem Verdadeira numa situação desesperadora.

Diz-se que houve certa ocasião em que Sakyamuni subiu ao púlpito  e permaneceu imóvel sem nada dizer. Olhando bem, ele estava dormindo, soltando até baba pela boca. Então, Manjusri bateu um pedaço de madeira contra outro, avisando o termo do sermão, deixando perplexas as pessoas presentes. Isso consta numa escritura de certa escola zen-budista.

Sendo impossível explicar sobre a Imagem Verdadeira através de palavras, é preferível tirar uma soneca no púlpito, como fez Sakyamuni, a proferir uma palestra malfeita. Tal é a dificuldade de expressar em palavras a Imagem Verdadeira. Portanto, não adianta o leitor interpretar mecanicamente as palavras que escreverei a seguir, porque não conseguirá entender realmente. É preciso compreender telepaticamente, captando a atmosfera das palavras. (Livro: Descoberta e conscientização da verdadeira natureza humana)

É curioso notar os termos que o autor utiliza para expressar o modo como se dá a transmissão do conhecimento da Verdade. Não somos nós – pessoas dotadas de mente cerebral que analisa, disseca, pondera, interpreta e forma conclusões – quem captamos o conteúdo vivo, verdadeiro, existente nas palavras do livro ou do palestrante. Em cada um de nós há um lugar mais profundo (e, nesse lugar, uma presença / inteligência divina) que assimila o conteúdo verdadeiro de um texto sagrado. O conteúdo formado a partir da literalidade (ou da interpretação mental) das palavras não é o conteúdo vivo e verdadeiro ao qual nos referimos. As palavras do escritor podem estar registradas no material físico (páginas do livro), mas também estão presentes em um espaço invisível onde fica depositado o conteúdo verdadeiro, resultante do estado de consciência, da inspiração, do grau de concentração, e também da intenção que o autor projeta ao fazer o arranjo dos vocábulos e das ideias utilizadas para se comunicar. A combinação de todos esses fatores cria uma "atmosfera viva" que se faz presente no texto sagrado. O que todo o leitor deve fazer é buscar perceber e entrar contato com essa atmosfera sutil que permeia o texto espiritual. Por isso, Masaharu Taniguchi diz: "transmite-se de mente para mente"... "é preciso compreender telepaticamente, captando a atmosfera das palavras".

Se conseguirmos nos conectar com essa atmosfera sutil, a verdade captada produz efeito imediato em nossa consciência. O efeito é imediato porque (ao contrário da mente humana) a mente verdadeira não oferece resistência à palavra que está sendo comunicada. No interior (espaço sagrado) de cada ser humano existe o coração puro de criança que não contesta a veracidade da Verdade. A mente humana acredita na dualidade "bem e mal" (e, consequentemente, na imperfeição), e não é capaz de aceitar a Verdade que todo o Universo é uma existência una, harmoniosa e perfeita. Portanto, a mente humana irá sempre descrer, desconfiar, duvidar, contestar e questionar. E é justamente a descrença que constitui barreira a impedir o conhecimento das verdades transcendentais. Por isso, o estado de espírito de docilidade e pureza é muito importante. Vejamos o que Masaharu Taniguchi ensina a  esse respeito:

As palavras de Deus não são meras teorias

Certo adepto da Seicho-No-Ie adoeceu e estava acamado havia mais de um mês, sem sinal de melhora. Ele sabia que a causa era a atitude mental errônea. Dizia a si mesmo que não devia guardar rancor e procurava perdoar os que o haviam magoado, mas não conseguia. Sabia que a Seicho-No-Ie, diferente de muitas outras doutrinas morais que pregam o "esforço para perdoar", ensina que o espírito de perdão deve brotar naturalmente; entretanto, não sabia o que fazer para que isso acontecesse.

Certa tarde, ele abriu o volume 1 de A Verdade da Vida e leu o trecho inicial da Revelação Divina do "Acendedor dos Sete Candeeiros", que consta nas primeiras páginas: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra". O fato interessante é que, sem se dar conta, ele tomara a postura de meditação ao ler a Revelação Divina. Em seguida, leu outra Revelação Divina que consta no livro "Deus fala ao homem", e que, entre outras coisas, diz: "Antes de tomares a refeição, reconcilia-te com teus irmãos".

Ele já havia lido essas Revelações Divinas em outras ocasiões, mas era a primeira vez que lia com sentimento de reverência e com a convicção de que se tratavam de palavras transmitidas diretamente por Deus. Enquanto as lia, experimentou uma agradável sensação de leveza, e percebeu que já não nutria ressentimento contra ninguém. Foi como se tivesse se livrado de um fardo pesado. A agradável sensação de leveza tomou conta dele, e a doença sarou como que por encanto.

Ele compreendeu, então, como era importante a postura mental correta quando se lê livros que contêm as palavras de Deus. Até então, a postura mental dele quando lia as Revelações Divinas era a de procurar analisar, compreender e assimilar o ensinamento nelas contido. Pela primeira vez, compreendeu realmente que as palavras contidas no livro A Verdade da Vida são palavras de Deus e que, lendo-as com fé e espírito de reverência, as vibrações que delas emanam produzem grande efeito, mesmo que não sejam entendidas ou memorizadas. Foi uma descoberta maravilhosa compreender que as palavras de Deus não são teorias a serem analisadas e compreendidas, e que cabe a nós simplesmente acreditar nelas e reverenciá-las.

Em Gênesis 1;3, assim consta: "Exista a luz. E a luz existiu". Não nos cabe argumentar ou discutir "por que Deus ordenou que existisse a luz?", "por que a luz surgiu conforme a ordem de Deus?", etc. As palavras de Deus são sublimes e cumprem-se infalivelmente, pelo próprio fato de serem palavras de Deus. Assim, uma vez que Deus disse: "Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra", não nos cabe questionar o por quê. Quando lemos essas palavras com muita fé e reverência, vemo-nos reconciliados naturalmente com todas as coisas do céu e da terra. (Livro: A Verdade da Vida, volume 34)

Concluindo: não somos nós (pessoas dotadas de mente humana) que temos poder para abraçar a Verdade. Somente Deus em nós é capaz de aceitar a veracidade da Verdade. Também não somos nós quem percebemos a Verdade – Deus em nós é que percebe. E é também Deus quem realiza as obras. Isso é o que torna possível experimentarmos resultados imediatos, mesmo em caso de não entendermos ou de não prestarmos atenção ao conteúdo comum das palavras contidas num livro sagrado. Apreendendo o sentido dessa Verdade, constatamos também que as palavras presentes na literatura sagrada são palavras de Deus, que não foram escritas por criatura humana, mas que provêm do próprio Eu, que é a fonte divina da qual emana todo ensinamento verdadeiro. A compreensão da Verdade somente se torna possível ao receber a Graça divina. A percepção da Verdade também ocorre somente pela Graça divina. E o que fazer para receber a Graça? A Graça vem somente onde há sacralidade. Graça e sacralidade caminham sempre juntas, de mãos dadas. Por isso, as obras da Verdade devem ser vistas como sagradas. E de fato o são! Todo ato de ler um livro ou texto espiritual consiste em sadhana, uma prática espiritual sagrada.

Namastê!

 

sexta-feira, junho 24, 2016

Estados e Estágios da Consciência - 2/2


- Joel S. Goldsmith -


COMO VIVER NO "MEU REINO"

Uma declaração de Jesus: "O meu reino não é deste mundo" tem sido a minha vida, o meu sangue, os meus ossos há muitos anos. Depois que foi dito que o "Meu reino não é deste mundo", o que você pensaria de mim, se eu começasse a fazer algum trabalho mental para garantir o aluguel do próximo mês? O que você pensaria de uma pessoa que, depois de lhe terem dito que o reino de Cristo nada tem a ver com este mundo, saísse por aí preocupando-se em ser casada ou solteira? Se essas coisas não são uma parte deste mundo, eu não sei quais serão! É verdade que, em certo sentido, sempre estamos no mundo, mas não porque temos qualquer preocupação com ele: deixamos que ele se manifeste -- suas pessoas e coisas -- e se torne parte de nosso ser, de um modo normal e natural.

Para dar um exemplo: você está lendo este livro e, no entanto, talvez na própria sala em que você esteja sentado, existe um rádio ou uma televisão, apenas esperando o virar de um botão para levar-lhe a todas as formas de entretenimento -- comédia leve ou drama sentimental, rock and roll ou sinfonia. Mas você está lendo um livro sobre a vida espiritual! Pergunte a dezenas ou milhares de pessoas se alguma coisa no mundo poderia ser mais maçante, sem graça ou desinteressante do que tal leitura.

Então por que você gosta dela? Por que você passa o seu tempo fazendo isso? Porque você já está vivendo em um mundo diferente do mundo habitual da maioria das pessoas, e não foi necessário que você morresse para chegar lá. Uma citação espiritual, um pensamento espiritual lhe dão mais prazer do que o filme de cinema mais espetacular. Por que? Porque você já não está mais em um mundo onde isso é a medida do seu prazer. Você deixou esse mundo -- não através do ato de morrer ou de fazer qualquer coisa ridícula como parar de comer ou abolir o uso de roupas, nem através de atitudes excêntricas. E, no entanto, você deixou este mundo.

Vejamos outro exemplo: quantas novelas policiais e de terror, de preço ínfimo, você imagina que são vendidas hoje em nosso país? E, no entanto, você aqui está: em vez de pagar um preço baixo por uma daquelas novelas, você compra este livro, muito mais caro! O que há de errado com você? Nada! Você está simplesmente vivendo em um mundo diferente. Você deixou aquele outro mundo.

Outra coisa: quantas pessoas acreditam, verdadeiramente, que não podem viver de maneira honesta, sem usar de tapeação, de fraude ou de influência política? Entretanto, você aprendeu que há um princípio que age no seu interior e que lhe permite viver plenamente de acordo com a lei de Cristo Jesus, com a lei estabelecida no preceito áureo do Evangelho, e você pode adotar para si um princípio como este, a ser provido com abundância -- e repito, com abundância! -- se você quiser fazer um esforço para se beneficiar dele.

Isso é o que quero dizer com a expressão "viver em um outro mundo". Existem os que nunca poderiam concordar que a inventiva humana, a força física, a compulsão mental e o capital ilimitado não são necessários. Mas você sabe que, pela aplicação de princípios espirituais, você pode viver uma vida normal e harmoniosa, atraindo para si tudo que faz parte da sua totalidade. Você pode vivenciar essa plenitude, não através de afirmações, mas compreendendo: "Minha união consciente com Deus constitui a minha união com cada ideia espiritual, e essa ideia espiritual se expressará como lar, amigo, discípulo, paciente, livro ou mestre -- qualquer coisa da qual eu tenha necessidade".

Você não tem de sair por aí demonstrando coisas. Você precisa apenas demonstrar sua unidade com Deus, abrindo sua consciência para essa verdade, aceitando-a e deixando que ela se torne parte de sua consciência. Depois, essa verdade faz o trabalho.

No momento em que você começa a se preocupar com qualquer coisa que no mundo possa ser conhecida através das sensações físicas, você estará se preocupando com este mundo e o "Meu reino não é deste mundo". Ao lidar com os problemas de sua vida pessoal, você estará pensando numa atividade, em negócios, no suprimento, na companhia ou no casamento adequados -- e durante todo o tempo estaria pensando num lugar determinado onde isso poderia ocorrer; embora, nesse exato momento, a demonstração de tudo isso pudesse estar na África. No entanto, ao pensar em como e de que maneira você gostaria que sua vida se desenrolasse, você dirigiu todo o seu pensamento para outro lugar que não onde essa realização se encontra, pois a África talvez nem tenha passado pela sua imaginação.

Se, entretanto, em vez de ficar com algo que se relacione com uma pessoa, lugar ou coisa, seu trabalho todo tiver sido para a compreensão consciente da mente que também estava em Cristo Jesus, então é possível que ouça isso ser proclamado em seu interior, ou é possível que receba uma carta dizendo-lhe que estava esperando por você na África, na China, ou em qualquer outro lugar.

Em outras palavras, é um pecado limitar. É pecado tudo o que impõe qualquer espécie de limitação mental à sua manifestação. Como você sabe onde vai ser, quando ou com quem? Se há um Deus governando o Seu próprio universo, como podemos, você e eu, ter a presunção de limitar ou delinear essa manifestação? A verdade é que não temos o direito de limitar. Temos apenas o direito de cumprir o princípio da vida espiritual, que é 'não estar apreensivo pela nossa vida'.


O CORPO É VIDA FORMADA

A campainha do telefone soa e uma voz grita: "Trabalho para viver; eu estou morrendo" -- mas a Bíblia diz: "Não estejais apreensivos pela vossa vida". Portanto, minha resposta ao chamado é: "Sim, eu trabalharei para realizar Deus". -- A vida é um sinônimo de Deus. Você não vê que se fizer qualquer trabalho mental pela vida, provavelmente estará pensando em termos de vida como o oposto da morte; mas, já que Deus é apenas vida, a vida não tem um oposto?

Um prático disse certa vez a um paciente: "Não há vida em seu corpo"; mas o paciente, naturalmente, queria manifestar a vida mais abundantemente, senão dentro dele, pelo menos como um corpo. Muitos de nós estamos tentando nos livrar de nosso corpo, negando-o. Você pode visualizar que pereceríamos sem um corpo? Não negue o corpo nem jogue fora; é muito bom possuí-lo. Você tem um corpo e Deus o deu a você -- não os seus pais. Nenhum de vocês que seja pai ou mãe sabe o suficiente para fazer um corpo. Deus forma o corpo, não os pais, ou como eu disse numa ocasião a uma mãe: "Na melhor das hipóteses, você foi o forno no qual foi feito o seu filho".

Deus é Espírito e Se expressa de um modo infinito e individual, e tem Sua prória maneira de produzir Sua imagem e semelhança. Isto que vemos é apenas o nosso conceito de uma atividade divina. A ascendência humana, ou a assim chamada criação, não é espiritual; não é de Deus. Se o fosse, todos seriam bem proporcionados e normais, e não existiriam crianças doentes ou deformadas. Somente porque deixamos Deus fora disso é que temos tais condições.

A maioria das pessoas considera a experiência do nascimento humano como se fosse apenas um ato animal. Essa é uma interpretação falsa. O nascimento não é animal: em si próprio, é divino e maravilhoso. Nós é que o tornamos algo de natureza animal. Precisamos aprender a reinterpretá-lo, e quando aprendermos a fazer isso, haverá mais casamentos felizes e menos divórcios.

A única razão para o divórcio é que um homem e uma mulher se vêem apenas como homem e mulher. É uma coisa difícil para um homem e uma mulher viverem juntos por muitos anos, salvo se houver um terreno comum de encontro e, o que é mais importante ainda, uma ligação espiritual. Se ao menos, muito antes do casamento, eles pudessem compreender que não estão buscando um casamento, um lar ou companhia, mas estão realmente procurando a presença de Deus em forma visível, haveria mais casamentos felizes e cada criança nascida dessa união seria, então, Deus manifesto.


IMORTALIDADE, NÃO LONGEVIDADE

Assim, chegamos à seguinte questão: Qual o motivo do seu estudo? Disso depende o futuro de vocês neste trabalho. Não quero dizer que aqueles de vocês que não compreenderem devam voltar ao nível mental. Se for necessário, é o que terão de fazer, até serem capazes de atingir o nível espiritual. Mas, para aqueles de vocês que vislumbrarem um lampejo do significado da vida espiritual, todo o seu futuro irá depender de poderem ou não se decidir a procurar apenas a consciência da presença de Deus e ficarem satisfeitos em deixar que as demais coisas lhes venham por acréscimo. A extensão em que forem capazes de fazer isso será a medida da sua demonstração.

O motivo para este estudo é apenas converter doença em saúde, solidão em companhia, desamparo em lar? Ou vocês estão prontos, neste momento, para cessar de se preocupar com coisas deste mundo, que não pertencem ao reino espiritual, e rezar honestamente: "Tudo o que eu quero é o reino de Deus na Terra. Tudo o que eu desejo é o reino de Deus em minha experiência individual, o governo de Deus em meus afazeres individuais"?

Quando atingimos esse ponto, estamos procurando o reino de Deus e sua integridade; não o nosso senso de integridade -- mais dinheiro, mais companhia, mais saúde -- mas Sua integridade, o sentido espiritual do bem. Se entendêssemos o sentido espiritual de suprimento, constataríamos que ele é muito diferente do que julgamos ser atualmente, da mesma forma que o sentido espiritual se saúde é muito diferente daquele do padrão humano que define sessenta ou setenta anos como período normal de vida. Mas a Sua integridade -- o Seu padrão de suprimento, o Seu padrão de saúde -- nos permitirá viver abundantemente na Terra por quanto tempo desejarmos ou até que nos sintamos solitários pela falta daqueles que se foram antes de nós.

Existem pessoas vivendo atualmente na Terra que, dizem, têm duzentos anos de idade, inclusive um homem que teria seiscentos anos. Essas idades avançadas são possíveis se o desejo de vida as manifestar através do sentido espiritual de Deus, de saúde e de imortalidade -- não apenas pelo sentido físico de saúde, vida ou longevidade.

Acaso a imortalidade é apenas viver um longo período? Apenas longevidade? Não: imortalidade é vida eterna sem começo nem fim. Nenhum daqueles que buscam o espírito acreditariam que sua consciência pode chegar a um fim, embora ele creia que é inevitável que o corpo desapareça. Mas esse é um pensamento que deve ser corrigido imediatamente. Seu corpo não desaparece nem envelhece, a menos que você o permita. É você quem precisa tomar a decisão consciente de que a vida é eterna e de que seu corpo, o templo do Deus vivo, está sob jurisdição dessa Vida. Se você não tomar essa decisão conscientemente, a mente coletiva, a nível do seu inconsciente, continuará tomando as deciões por você, conforme as crenças coletivas.

Já que a vida é eterna e a vida é consciência, como pode a consciência estar morta? A continuidade da vida pode ser compreendida quando você percebe que, através da sua própria consciência de ser, você existiu e existirá eternamente. "Antes que Abraão existisse, eu sou". Em sua iluminação interior, você pode continuar existindo sem esse momento de passagem, sem essa transferência, que o mundo chama de morte, mas que é apenas transição. Quando você consegue efetuar a transição para fora do mundo das crenças mortais, você realizou a transição "deste mundo" para o mundo da realidade espiritual, no qual você vive sem apreensão.


COMO VIVER PELO "MEU ESPÍRITO"

Não deixe ninguém acreditar que viver sem preocupações tem a ver com assumir um vazio mental. Pelo contrário, no momento em que você aprende a viver sem cuidados, você será a pessoa mentalmente mais ativa da comunidade, porque então você não é mais governado pelo sentido limitado que é a mente. A mente que estava em Cristo Jesus começa a funcionar como você: se quer escrever, será um escritor; se quer pintar, será um pintor, porque não haverá mais limitação.

Você não assume um vazio mental e não vive em um vácuo, mas está tão animado por essa consciência espiritual que, mesmo quando está dormindo, está pensando. Você não está apreensivo, o que é uma coisa bem diferente, mas está recebendo impulsos divinos através da mente, sua via de percepção, e está sempre consciente de uma experiência que se expande de modo infinito.

Nunca acredite que viver sem apreensão conduzirá à ociosidade de qualquer espécie. Pelo contrário, isso traz à vida tal atividade, que o admirável é que você, mesmo assim, possa dormir. Não há fim para a atividade que se manifesta na pessoa cujo ser está animado pela mente de Cristo. Quando essa mente de Cristo se apossa de sua experiência, pensamentos criativos e inspiradores, os pensamentos de Deus -- os pensamentos de Deus extravasando-se como homem -- passam a fluir através de você, em lugar de você estar buscando em seu cérebro velhos pensamentos ou verdades frias.

E o que é uma verdade fria? Uma verdade fria é algo que você recorda como uma citação, alguma coisa que lhe vem do armazém da memória. Quando um pensamento chega a essa consciência que é receptiva e aberta, ela surge como uma verdade quente/fresca, uma verdade viva, e traz em si a cura, ou traz em si novas idéias. Isso é o que acontece quando recebemos uma comunicação direta da Consciência divina.

Uma pessoa pode procurar em todos os velhos livros de eras passadas -- e essas verdades remontam realmente a longo tempo -- mas as verdades neles não terão valor até que encontrem acolhida em uma consciência aberta, quando então se tornam vivas. Portanto, o aspecto mais importante deste ensinamento é não oferecer conhecimento ou dar declarações da verdade, porque cada declaração que estou fazendo a você agora já era conhecida através dos tempos.

O verdadeiro valor deste ensinamento é desenvolver em você um estado de receptividade espiritual, de modo que possa ser receptivo à mente de Cristo; abrir sua consciência para que você possa receber estas verdades; abrir sua consciência ao influxo do Cristo, de modo que sua consciência aberta torne-se o Cristo vivo e, dessa forma, a luz do mundo.

Muitas pessoas acreditam que em breve haverá uma outra vinda do Cristo, mas estou convencido de que eu e você somos essa vinda, na proporção em que o Cristo é despertado em nós. Cada um de nós está agora chegando a esse estado de consciência onde podemos aceitar a declaração de Jesus de que o Consolador virá até nós quando cessarmos de confiar nas pessoas e nas formas e meios humanos. Quando você pode abrir sua consciência para o Cristo total infinito, então Cristo, o Cristo da segunda vinda, virá para você e para mim. Todavia, não posso acreditar, nem por um minuto, que uma segunda vinda do Cristo será vivenciada pela pessoa que não empregou seu tempo em aprender a conhecer o Cristo.

Precisamos vivenciar o Cristo, não por ouvir dizer, mas por demonstração real, por contato real. Alguns discípulos sabem que essa experiência é possível e, ao trabalhar com pessoas de pensamento receptivo, observei posso elevá-las até onde elas podem ter a mesma visão que tenho -- não através da transferência de pensamento, mas através do seu próprio desenvolvimento individual. Eles ouviram "a pequena voz silenciosa" e receberam revelações, através do desenvolvimento de sua capacidade de meditar.

Veja a presença de Deus abrir sua consciência para o influxo do bem. Não pense na forma como ele aparecerá, através de quem ou com quem, ou onde ou quando. Abra sua consciência para Deus e deixe que Ele se torne evidente ou manifesto -- não com trabalho mental, não por repetição ou afirmação, "não pelo prestígio nem pelo poder, mas por meu Espírito".