"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Corpo físico, mente, Vida

- Masaharu Taniguchi -


O que é Vida, essa força misteriosa que nos anima? Suponhamos que alguém nos diga: "Mostre-me a Vida, apresente-a diante de mim, pois quero examiná-la". Claro que não podemos mostrar-lhe a Vida, pois ela é invisível. Sabemos que a Vida existe, mas não podemos apontá-la e dizer: Eis aqui a Vida. Podemos mostrar o corpo vivo, mas o corpo em si não é a própria Vida. Suponhamos que se corte um pedaço do corpo e se procure a Vida na carne ainda fresca e palpitante. Estaria ali a Vida? Não. Não se pode encontrar a Vida numa parte do corpo, separado do resto, seja ela um braço, uma perna ou o tronco. Então, a Vida estaria no cérebro, que comanda os movimentos do corpo? Se retirar o cérebro e o examinar, constatar-se-á que também ali não se encontra a Vida. Conclui-se, pois, que a Vida é invisível.

O corpo carnal não é a própria Vida. Então, o que é o corpo carnal? É a manifestação da Vida – não manifestação direta, e sim indireta. Pode-se argumentar que o coração é que mantém vivo os seres, pulsando e bombeando o sangue. Mas o coração está apenas cumprindo sua função de fazer circular o sangue. Ele não é a Vida em si. Pode-se argumentar, também, que os pulmões é que mantêm vivos os seres, enviando oxigênio ao organismo. Mas também os pulmões estão apenas cumprindo sua função de absorver o oxigênio do ar e expelir o gás carbônico resultante das queimas orgânicas. Essa função, em si, não é a Vida. Tanto o coração como os pulmões e demais órgãos do corpo não passam de manifestações a Vida. A Vida é invisível aos olhos físicos. Sabemos que a Vida existe, mas não podemos vê-la. O fato de a Vida não ser visível apesar de existir e manter o corpo animado leva-nos à compreensão de que a Vida transcende a matéria e o espaço tridimensional, e que ela constitui nossa Essência, ou seja, nosso "Eu verdadeiro". Pensávamos que nosso "eu" fosse o corpo carnal. Mas o corpo carnal é expressão do "Eu verdadeiro" que transcende a matéria e o espaço. 

Já que o corpo carnal não é o "Eu verdadeiro", e sim expressão deste, podemos compará-lo a uma obra de arte. Quando o artista pinta um quadro, ele está expressando sua Vida num espaço bidimensional, que é a tela. Embora a Vida tenha infinitas dimensões, neste caso ela se manifesta na tela, que é uma superfície plana. E as pessoas, apreciando o quadro do artista, elogiam-no, comentando que é uma obra transbordante de Vida. De fato, ao ver uma verdadeira obra de arte, sentimos que dela emana a Vida do artista. Contudo, isso não significa que a Vida dele esteja presente nesse espaço bidimensional, que é a tela. O que se vê nela é apenas a expressão da Vida do artista. Por isso, mesmo que seguremos esse quadro, não teremos em nossas mãos a Vida em si. Expressão da Vida não é a Vida em si. Todas as formas manifestadas neste mundo são expressões – no espaço de dimensões limitadas – da Vida em si, que tem infinitas dimensões. Portanto, ao apontar algo manifestado no espaço tridimensional e dizer "eis aqui a Vida", a pessoa estará apontando indiretamente para a Vida em si, invisível aos olhos físicos. A Vida em si possui "conteúdo" transcendental, que os olhos físicos não conseguem captar.

Como a Vida é invisível, pode-se pensar que ela nada tem a ver com a forma. Porém, isso não é verdade. Se a Vida não abrangesse dentro de si elementos que constituem formas, não poderia expressar-se por meio delas. Ao pintar um quadro, o artista faz surgir uma forma sobre a tela. Essa forma já estava, por assim dizer, "dentro da Vida do pintor". A Vida, produzindo vibrações, forma dentro de si uma imagem e o artista pinta essa imagem sobre a tela. Portanto, a imagem pintada, visível aos olhos físicos, é reflexo da imagem mental, que é invisível. 

Se a imagem visível tem forma, é porque a Vida que a projetou no mundo fenomênico traz, dentro de si, "elementos que constituem formas". Os elementos são contidos na Vida e na mente invisíveis, porque pertencem a uma dimensão mais elevada do que este mundo, mas isso não significa que eles não tenham formas. Não seria possível desenhar um círculo se essa forma não fosse delineada primeiro na mente. Se a forma não existisse na mente, não poderia ser representada na tela; assim como não seria possível desenhar um triângulo se, antes, a forma desse triângulo não fosse delineada na mente. Dentro da mente estão abrangidos o círculo, o triângulo, o quadrado, enfim, uma quantidade infinita de formas, e por isso somos capazes de expressar as mais variadas formas. Não podemos ver a mente, justamente porque ela abrange uma infinidade de formas ao mesmo tempo: o círculo, o triângulo, o quadrado, a esfera, o plano. etc. Nosso sentido de visão só consegue captar as faces que se apresentam nos planos frontal e lateral. Quanto à face que se projeta no terceiro plano (profundidade), o sentido de visão não consegue captá-la; assim, só podemos ter ideia dela, observando as faces projetadas nos planos visíveis. Nossos olhos não conseguem ver o lado oculto do objeto tridimensional. Mas a mente tem dentro de si infinitas formas, embora não projete todas elas no mesmo plano. 

O que faz a mente conceber as mais variadas formas é a Vida. Assim como a mente, a Vida – que transcende os planos e abrange uma infinidade de formas –, não é captada pelo sentido da visão. Se queremos desenhar uma figura (um círculo, por exemplo), a Vida faz com que surja na mente essa forma. Dizemos, portanto, que "tudo que se delineia na mente é produto das ondas de pensamentos (ideias) geradas pela Vida". Todas as coisas/ideias estão abrangidas na Vida, antes de serem concebidas pela mente. A Vida é como um manancial inesgotável de riquezas – traz tudo dentro de si. Escolhido algo entre seu conteúdo infinito, formam-se ondas de pensamento. Quando pensamos em algum objeto, delineamos na mente a sua forma. Porém, antes de serem delineadas na mente, todas as formas estão abrangidas pela Vida: o triângulo, o quadrado, o pentágono, o hexágono, figuras planas, figuras tridimensionais, linhas retas, linhas curvas, etc., etc. A Vida é capaz de criar toda e qualquer forma, e no entanto ela própria não tem forma.

No budismo diz-se que "a Vida não tem forma e, ao mesmo tempo, possui infinitas formas". Tudo que tem uma forma definida é limitado por essa forma; por exemplo, o que tem forma triangular não pode tomar a forma quadrada. Porém, o que não tem forma pode apresentar uma infinidade de formas. A Vida, justamente por não ter forma, traz dentro de si infinitas formas (o triângulo, o quadrado, o pentágono, o hexágono, etc.). Esse é o verdadeiro aspecto da Vida.

Por abranger dentro de si infinitas formas, a Vida é totalmente livre. Conforme disse antes, tudo que tem uma forma definida é limitada, não tem liberdade de se manifestar sob outras formas. Um objeto cuja forma definida é quadrada não pode assumir a forma triangular, nem qualquer outra forma. Não podendo assumir nenhuma outra forma, não é livre. Nosso corpo carnal tem uma forma definida, e é limitado pelo tempo e espaço; portanto, não tem liberdade. Todas as coisas assumem uma forma definida e mensurável quando se manifesta neste mundo regido pelo tempo e espaço. Assim, embora a nossa natureza original seja a Vida infinitamente livre, quando nos manifestamos neste mundo, autolimitamo-nos e assumimos uma forma definida. Em outras palavras, apesar de sermos originalmente ilimitados, tornamo-nos limitados porque restringimos a nós mesmos. Podemos fazer a seguinte comparação: mesmo que uma garrafa esteja repleta de água, verterá apenas uma pequena quantidade de água se a saída (gargalo) for estreita e limitada. Assim também é o ser humano. Na verdade, somos ilimitados, mas neste mundo somos sujeitos a restrições impostas pelo tempo e espaço e, por conseguinte, pelo nosso corpo carnal que, por pertencer ao mundo regido pelo tempo e espaço, tem uma forma definida. O corpo carnal, por ter uma forma definida, não pode assumir outras formas, nem mudar de tamanho. Uma pessoa com cerca de 1,60 m de altura e 55 kg não pode transformar-se num gigante, e vice-versa. Por termos nos autolimitado e manifestado sob uma forma definida, perdemos a liberdade e a versatilidade. Porém, a Vida que constitui nossa Essência é infinitamente livre e versátil. Portanto, nosso "Eu verdadeiro" abrange dentro de si infinitas formas.

Abranger simultaneamente infinita variedade de formas – assim é a verdadeira natureza da Vida, assim é o "Eu verdadeiro". A Vida, embora abranja uma infinita variedade de formas, manifesta-se neste mundo limitando-se a si mesma, sob uma forma definida. Assim, nascemos com o corpo carnal, que tolhe a nossa liberdade original. É por isso que o ser humano odeia o seu próprio corpo. À primeira vista, parece que todas as pessoas gostam de seu próprio corpo, mas na verdade é o contrário. Alguns se apegam a seu corpo de tal modo, que vivem buscando prazeres para satisfazê-lo. Mas, no íntimo, mesmo essas pessoas odeiam seu próprio corpo. Embora pareçam amá-lo, proporcionando-lhe prazeres, na verdade estão destruindo-o pouco a pouco. Uns se deleitam com finas bebidas e iguarias; outros, buscam o prazer do fumo; e outros ainda, entregam-se à libertinagem. Tais pessoas estão, na verdade, "dilapidando" o próprio corpo. À primeira vista, a busca dos prazeres carnais parece ser a manifestação de amor ao próprio corpo; mas, na verdade, não o é. No fundo, o ser humano odeia o próprio corpo porque este o priva da liberdade total. Esse ódio se revela claramente nos atos de autoflagelação praticados por ascetas, que buscam o aprimoramento espiritual. A prática do jejum do asceta En-no-Gyoja, do profeta João Batista, e outros, são exemplos de autoflagelação.

A autoflagelação parte do pressuposto de que para libertar a alma é preciso submeter o corpo ao sofrimento; é um ato que traduz o desejo de voltar ao estado de total liberdade inerente à Vida. Isto é, pela tortura do corpo, busca-se destruir a barreira que impõe limitação, para que a Vida volte ao estado original de plena liberdade. Assim, flagelando o próprio corpo, os ascetas sentem o prazer de liberdade da alma. Efetuar jejum prolongado, tomar banho de água gelada, produzir ferimento no próprio corpo, enfim, qualquer que seja o método de autoflagelação, quanto mais o corpo sofre, maior é o prazer espiritual do asceta, pois experimenta a sensação de vitória. Segundo certos registros, alguns ascetas do bramanismo praticam métodos de autoflagelação muito dolorosos, tais como usar em torno da cintura nua um cinto com a superfície interna cheias de pontas de arame. Cada vez que o asceta se curva ou se alonga, as pontas de arame ferem-lhe a pele, causando-lhe muita dor. Mas, embora o corpo sofra, a alma experimenta o prazer da vitória. Quanto maior o sofrimento físico, maior é a sensação de liberdade da alma. Esse é o fundamento das práticas ascetas.

Não somente os ascetas, mas inúmeras outras pessoas buscam essa libertação. Citemos, como exemplo, os espectadores de shows, cinema, teatro, etc. Eles desejam expressar livremente a infinita variedade de aspectos que têm dentro de si, mas devido às limitações do corpo não podem exprimir tudo. Existem restrições de cunho social e moral, bem como restrições de tempo e espaço. Por isso, buscam a compensação, que consiste em assistir à atuação dos artistas no palco e sentir como se eles próprios estivessem vivenciando as experiências vividas pelos personagens da peça. Assim, em muitos casos, quando os personagens da peça choram, os espectadores também choram. Os espectadores se identificam com os personagens e através deles procuram liberar, pelo menos um pouco, as infinitas formas abrangidas na Vida.

Como afirmei há pouco, a arte nos faz liberar, pelo menos um pouco, as infinitas formas que trazemos dentro de nós. Por isso, a arte alegra a alma, proporcionando-lhe a sensação de libertação. Contudo, como a Essência da Vida do ser humano abrange infinita variedade de aspectos, não é possível manifestar plenamente toda a liberdade que lhe é inerente mesmo que tentemos expressá-la no universo da arte. Enquanto tiver corpo carnal, o ser humano não consegue, de modo algum, manifestar plenamente a sua natureza infinita. Por essa razão, em seu subconsciente, o ser humano odeia o próprio corpo; considera-o um inimigo que tolhe sua liberdade e, portanto, secretamente deseja fazer o possível para provocar-lhe sofrimento, fazê-lo adoecer e abreviar-lhe a existência. Assim, o subconsciente leva avante, em surdina, o "plano de aniquilar o corpo"; e é por isso que neste mundo não cessam as doenças, o sofrimento e as desgraças. Por mais que a medicina descubra novos medicamentos ou desenvolva novos métodos de tratamento, as doenças não param de surgir, porque o subconsciente da humanidade, por considerar o corpo carnal como o inimigo que tolhe a liberdade inata do ser humano e desejar fazê-lo sofrer, age no sentido de criar mais doenças. Por considerar o corpo carnal responsável pelos pecados, o subconsciente da humanidade odeia-o e deseja destruí-lo; em outras palavras, procura negar o corpo carnal. Por isso, Jesus Cristo deixou-se crucificar; o apóstolo João disse: "a carne para nada aproveita", o apóstolo Paulo ensinou: "... se viverdes segundo a carne, morrereis"; e São Francisco de Assis, orou para que seu corpo "passasse pelas mesmas dores que Jesus Cristo padeceu" e recebeu os estigmas.

E a Seicho-No-Ie, de que modo "aniquila" o corpo carnal? Declarando categoricamente que "o corpo carnal não existe de verdade". Assim sentenciamos, porque sabemos que o corpo carnal tolhe nossa Vida enquanto pensarmos que ele existe. Acreditar que o corpo carnal existe é admitir sua importância. Podemos fazer a seguinte comparação: Se um homem briga com a esposa, é porque reconhece a presença dela e o poder que ela exerce sobre ele. Com a senhora do vizinho, ele não teria motivo para brigar, porque é indiferente à presença dela. Justamente por passar despercebida, não ocorre desentendimento, e a vizinha leva uma vida livre e descontraída. Do mesmo modo, o corpo carnal também se descontrai e se torna vigoroso quando o ignoramos, acreditando firmemente que ele "não existe de verdade". Quem faz o corpo carnal sofrer, ainda não compreendeu que, na verdade, "o corpo carnal não existe". É por isso que odeia o próprio corpo e, no intuito de torturá-lo e destruí-lo, faz surgir doenças, infortúnios e desgraças. As pessoas comuns, embora odeiem o próprio corpo, não são capazes de se deixar pregar na cruz e morrer com o corpo atravessado pelas lanças, como Jesus Cristo. Por isso, tentam destruir o próprio corpo, por meio de doenças crônicas. Pode-se dizer que elas crucificam o corpo carnal, fazendo-o sofrer de doenças crônicas do aparelho digestivo, das vias respiratórias, da cabeça, etc.

É muito frequente ocorrer a cura da doença pela leitura do livro A Verdade da Vida. Isto porque ele expõe com clareza a Verdade de que "o corpo carnal é inexistente". À medida que a pessoa prossegue a leitura desse livro, seu subconsciente vai se libertando do apego ao corpo, e ela deixa de ter preocupações referentes a ele, tal como alguém que nem se dá conta da presença da vizinha. Então o corpo se descontrai e se torna mais vigoroso. Se o corpo carnal fosse existência verdadeira, seria realmente um obstáculo a tolher a alma; assim, para libertarmos a alma, precisaríamos fazer o corpo sofrer, ferindo-o ou submetendo-o à doença pulmonar, doença gástrica, doença renal, etc. Porém, o corpo carnal não é existência verdadeira e, quando compreendemos isso, percebemos que não há necessidade de fazê-lo sofrer. A partir do momento em que conseguimos a negação total do nosso próprio corpo pela compreensão do ensinamento "o corpo carnal não é existência verdadeira", preconizado pela filosofia da Verdade da Vida, desaparece do nosso subconsciente a ideia de que é preciso torturar o corpo para purificar a alma. Desaparecendo tal ideia, o subconsciente não cria doenças. Portanto, ao apreendermos a Imagem Verdadeira da Vida e compreendermos que "o corpo carnal não é existência verdadeira", a doença se extingue. 

Mas, mesmo após compreendermos que "o corpo carnal não existe", o corpo carnal continua visível. Perguntamos, então: o que é, afinal, o ser humano que parece ser mero corpo carnal? Na verdade, o corpo material, é produto da ilusão. O "Eu verdadeiro" do ser humano é Vida infinitamente livre. Devemos despertar para o fato de que somos seres espirituais, perfeitos, desde o princípio. Então, o "eu material" dá lugar ao "eu espiritual", e manifesta-se a nossa natureza original sem pecado algum. Manifestando-se a perfeição original, é impossível ocorrer doenças.

A maioria das pessoas confunde o "eu carnal" com o "eu espiritual". Por isso, quando sofre uma agressão física, a pessoa fica furiosa com o agressor e diz: "Aquele canalha me agrediu". Como as pessoas pensam que seu "Eu verdadeiro" é o corpo carnal, é inevitável ficarem zangadas quando sofrem agressão física. Porém, o corpo carnal não é o "Eu verdadeiro" do ser humano, e sim uma imagem projetada pela mente. O corpo carnal não é o "eu espiritual" em si, criado por Deus; na verdade não passa de uma sombra projetada no mundo fenomênico, por meio de "vibrações mentais". Na Seicho-No-Ie diz-se: "mudança radical da consciência da natureza de si mesmo" ou "transformação completa da visão de si mesmo", referindo-se à conscientização de que o "Eu verdadeiro" não é o corpo carnal – que não passa de mera "sombra" projetada pela mente –, mas sim um "ser espiritual", a vida infinita que habita o corpo carnal, vivificando-o. Eu diria que essa "mudança da consciência" corresponde ao arrependimento e conversão, na linguagem do cristianismo. Conversão é a mudança total da consciência da natureza de si próprio, em que a pessoa compreende que seu "Eu verdadeiro" não é o corpo carnal – como ela acreditava – mas sim um ser espiritual, e se conscientiza de que, embora esteja manifestada como corpo carnal, na verdade, é um ser eterno e infinitamente livre.


Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 141-152

terça-feira, dezembro 08, 2015

Entre a Sabedoria e o Amor

- Nisargadatta Maharaj -


"Descubro que de alguma forma, ao mudar o foco da atenção, 
eu me torno a própria coisa que estou observando 
e experimento o tipo de consciência que ela possui, 
torno-me a testemunha interior daquilo. 
Eu chamo essa capacidade de adentrar 
outros pontos focais de consciência de amor. 
Você pode dar o nome que quiser para isso. 

O amor diz: eu sou tudo, 
a sabedoria diz : eu sou nada. 
Entre esses dois minha vida flui. 

Uma vez que em qualquer ponto do tempo e do espaço 
posso ser tanto o sujeito quanto o objeto da experiência, 
eu expresso isso dizendo que sou ao mesmo tempo 
ambos, nenhum deles e também além dos dois."


domingo, dezembro 06, 2015

Despertar e viver na Presença

- Sri Bhagavan - 


Pergunta: Amado Bhagavan, eu não entendo exatamente qual é a diferença entre "viver no estado de Presença" e "estar completamente desperto". É possível experienciar um sem o outro? Qual é a diferença entre os estados: viver constantemente na Presença mas não estar desperto (1), ou tornar-se desperto mas não viver constantemente na Presença (2)? Ou será que quando nos tornamos despertos, a Unidade e a Presença ocorrem mais rapidamente? Minha gratidão a você.

Bhagavan: "Primeiro o que acontece é que você se torna desperto e se torna vazio. Uma vez que você está vazio, somente então é que a Presença pode assumir o controle do seu ser. Estar vazio é uma coisa. Ser tomado pela Presença é uma outra coisa. Você pode estar vazio, mas você pode não estar vivendo em estado de amor ou alegria. Quando você está vazio e a Presença assume o comando, aí sim haverá amor e alegria, amor incondicional e alegria incondicional. Depois disso a Presença o leva para estados mais altos de consciência. Você se move em estados mais elevados e, eventualmente, descobre que a Presença é Deus. Posteriormente, você se move para estados de consciência ainda maiores, e você descobre que você é Deus. A descoberta última revelará que você e a Presença são um.

Aceitação, a ausência de conflito, amor, alegria, compaixão - tudo isso são qualidades da Presença. Quando você começa a receber a Presença, você também terá estas qualidades. Elas não são suas qualidades. São qualidades da Presença. Mas o que você deve fazer é que você deve Ancorar a Presença. Você pode usar a visão, som, cheiro ou o toque para Ancorar a Presença. Como freqüentemente usamos uma Âncora, você pode se mover também frequentemente, para a Presença.

Uma vez que a Presença se tornou bastante forte, então você deve pedir a Presença: "por favor pare/detenha a minha mente". Quando você continuar fazendo isso a sua mente irá parar. Com o tempo a mente vai parar com frequência muito maior. E, finalmente, ela irá parar por longos períodos de tempo. Depois disso tudo acabou. Você se torna desperto.

Posteriormente, você se torna UM com a Presença. Isso é Realização em Deus. Mas tudo acontece automaticamente. Tudo o que você deve ter é a Presença. Depois de conseguir isso, você vai saber como obtê-la com mais freqüência."


sexta-feira, dezembro 04, 2015

O "Princípio Divino" e a criação do Céu e da Terra

- Núcleo - 


Há uma mensagem divina, uma revelação, sobre nossa verdadeira origem e real identidade que tem sido transmitida à humanidade através das religiões, que são os meios, as linguagens através das quais Deus expressa a verdade eterna.

A finalidade de todas as religiões é nos proporcionar a revelação divina sobre nossa origem e real identidade, e nos conscientizar do infinito potencial de realização que reside em nós, e que emerge ao colocarmos em prática o que as mensagens divina nos revelam.

Em suas respectivas linguagens, os ensinamentos espirituais revelam aquilo que está contido no primeiro versículo do primeiro capítulo do livro Gênesis onde está escrito: "No princípio Deus criou os céus e a terra."

Embora a palavra "princípio" possa ser interpretada como "início dos tempos", a mensagem divina é sempre atemporal e sendo assim a palavra princípio expressa o "Princípio Divino" (anterior à própria existência do tempo), e que é a dimensão ONDE foram criados céu e terra.

Enfim, esse texto bíblico expressa que "No Princípio Divino Deus criou o céu, ou seja, a Realidade Suprema; e a terra, ou seja, a Representação Divina". 

Princípio Divino é assim o próprio Ser Real; é a Consciência Divina, é a Essência Divina, é o Amor Divino. O texto bíblico está revelando que Deus criou Realidade e Representação em Si mesmo, em sua própria Consciência; e que estamos vivendo em Deus!

A citada passagem bíblica expressa dois momentos: 

O primeiro expõe a criação do Céu, a Suprema Realidade, a criação de todos os Seres divinos, de todos os Filho de Deus, criados à Imagem e Semelhança de Deus, todos com Sua Consciência e Percepção! Aqui os seres divinos estão conscientes de que tudo e todos são expressões conscientes do próprio Deus Único. Nesse momento, surge seres divinos como Deus Sumiyoshi, como Cristo, Como Buda.

O segundo momento expõe a criação da terra, a Representação Divina. Aqui aqueles seres divinos (Sumiyoshi, Cristo, Buda) assumem a identidade de seus personagens e assim representam divinamente. Tão divina, tão perfeita é a representação que quase todos os seres divinos assumem papeis de personagens que só voltam a assumir a consciência de Quem realmente são após passarem na representação pela experiência de iluminação.

Esse é o caso de Buda, que na representação como o personagem Sidartha só teve a PERCEPÇÃO de QUEM ele VERDADEIRAMENTE era após a sua "iluminação".

É o caso também de Deus Sumiyoshi, que na representação como o personagem Masaharu Taniguchi só teve a PERCEPÇÃO de QUEM ele VERDADEIRAMENTE era após o seu "despertar".

Tudo isso evidencia que os personagens da Representação são na Realidade o próprio Deus, estejam representando papeis de personagens que já tiveram a experiência de iluminação ou não! Isto também revela que SOMOS O SER REAL, SOMOS O ATOR, independentemente de estarmos representando PAPEIS de  personagens conscientes deste fato ou não. Contudo, os personagens que quiserem permanecer inconscientes deste fato não realizarão plenamente o infinito potencial que é próprio da condição daqueles que já estão conscientes de que são seres divinos ou "Filhos de Deus".

Em síntese, para representarem de forma divina, com perfeição absoluta, na Representação os Atores assumem completamente a identidade de seus personagens. O que os faz assumir essa identidade é a máscara que colocam em si mesmos, através da qual passam a ver o mundo, a Representação Divina, como algo com incrível realismo. A máscara que vela o Ator é a "mente", a mente do seu próprio personagem; é essa máscara que gera a personalidade, a identidade dos personagens, a persona. Através dessa máscara os personagens não se veem como Filhos de Deus, criados à sua Imagem e Semelhança, eles se veem como criados da própria substância da terra.

Observo ainda que a Representação Divina é necessária porque há experiências maravilhosas, como o perdão, que não é possível de serem vivenciadas na Realidade, pois no Céu não há ofensa que dê ensejo ao perdão! Aqui está a essência do livro "A Alminha e o Perdão", na qual os Filhos de Deus, querendo proporcionar a experiência de perdoar à Alminha, adentram à Representação e assumem a identidade de alguns personagens que irão ofender a Alminha até que ela finalmente perceba Quem ela realmente É, e perceba Quem eles realmente São, para que ela finalmente possa ter a experiência de perdoar.

Basicamente a essência de todas as mensagens é a de que na Realidade somos todos Filhos de Deus.

Mas há um detalhe essencial que é este: Na Representação, em algum momento algum dos personagens percebe o que está acontecendo... Ou este personagem entra na Representação já sem máscara, ou durante a Representação ele retira a sua máscara e percebe Quem ele É e Quem todos somos!

Um exemplo de personagem que entrou na Representação sem máscara é Krishna.
Um exemplo de personagem que retirou sua máscara durante a Representação é Sakyamuni.

O fato é que: os Mestres são os divinos personagens que estão na Representação conscientes de Quem São e de Quem todos somos. Eles estão conscientes de que, mesmo estando na Representação atuando como personagens, nós estamos todos vivendo no Principio Divino, em Deus! E que por trás das máscaras de nossos personagens, na Realidade somos todos Atores, somos todos Filhos de Deus vivendo no Céu!      

Assim a presente mensagem diz: PERCEBA sua origem, natureza e filiação divinas; DESFRUTE essa percepção, essa consciência de sua condição; e COMPARTILHE seu potencial infinito, ilumine o mundo!

Para ser QUEM VOCÊ É, AJA COMO QUEM VOCÊ É! Você É o que Deus É. Deus é AMOR; assim, aja com amor! Paute suas ações a partir do Amor de Deus em você, não paute suas ações a partir do temor que há em seu personagem. PERCEBA QUEM FAZ!  

Que a vontade de Deus seja feita na Terra ATRAVÉS DE VOCÊ, por ser QUEM É, assim como Deus faz no céu, por ser QUEM É.

Namastê!


quarta-feira, dezembro 02, 2015

A relação entre Céu e Terra

- Núcleo - 

Divinos personagens, 

Masaharu Taniguchi disse: 

"É lamentável que haja muitas pessoas que não conhecem a Verdade de que o homem é Deus. A Seicho-No-Ie surgiu neste mundo para transmitir esta Verdade suprema a todas as pessoas. É um equívoco pensar que o homem se torna arrogante  se compreender que ele é Deus. É um erro pensar que o homem perde a humildade quando compreende que sua essência é Deus. Quem faz tal suposição é aquele que jamais teve a experiência de despertar para a Verdade de que ele é Deus.

A pessoa que compreendeu que é Deus torna-se verdadeiramente humilde. Se Jesus conseguiu lavar os pés de seus discípulos, é porque havia compreendido que ele é Deus. A verdadeira humildade vem da convicção de ser Deus. Mesmo que uma pessoa pareça humilde, se não se conscientiza de Deus em seu interior (Natureza Verdadeira), está apenas se humilhando. Não confundam o humilhar-se com a humildade. A verdadeira humildade consiste em reconhecer sem resistência alguma a Verdade: "Sou filho de Deus originado de Deus e, por conseguinte, sou nada mais nada menos do que o próprio Deus". Quem reconhece esta Verdade é uma pessoa realmente humilde e dócil. É arrogante aquele que se rebela contra essa Verdade. Todas as arrogâncias e teimosias resultam da arrogância básica de não reconhecer a Verdade: 'Eu sou Deus'.

Os que têm ponto de vista diferente não têm como compreender a Verdade. Há quem pense que as grandes obras humanas são obras de espíritos que influenciam os encarnados e que o homem é mero fantoche dos espíritos, mas isso é uma heresia. Ensinamento correto é aquele que ensina que no interior (na natureza divina) do homem existe algo mais grandioso do que as sugestões  de espíritos-guias. O homem não é corpo carnal nem fantoche. O homem é Espírito, é Deus, é autônomo. Se os espíritos-guias podem pregar ensinamentos grandiosos e realizar obras grandiosas por serem espíritos, o próprio homem também pode, obviamente, pregar grandes ensinamentos e realizar grandes obras porque ele também é Espírito. Entretanto, há variação na qualidade de seus ensinamentos e obras porque há diferença de conscientização da infinitude do seu interior, tanto nos espíritos desencarnados como nos encarnados.

Sakyamuni não é, absolutamente, fantoche dos espíritos. Cristo também não é, absolutamente, fantoche dos espíritos. Ambos se aprofundaram na conscientização da infinitude de seu interior e finalmente atingiram, respectivamente, a natureza búdica e a natureza divina, razão pela qual inúmeros espíritos do mundo espiritual vieram servir a esses dois divinos. São dignos de pena os que veem apenas os espíritos vinculados a Sakyamuni e a Jesus, e não veem a natureza búdica que Sakyamuni conscientizou e a natureza divina que Jesus conscientizou. Ensinamentos de nível atingível por espíritos, o próprio homem é capaz de pregá-los. Portanto, se alguém diz que os ensinamentos de Sakyamuni e de Jesus não são ensinamentos deles próprios, mas de espíritos-guias deles, está sendo contraditório.

Homens, conscientizem-se da dignidade de si próprios. Conscientizar-se dela significa retomar a dignidade do próprio homem. A Seicho-No-Ie é o farol que surgiu para retomar a dignidade do homem."
   
Considerem também o seguinte: 

As pessoas tendem a acreditar que quando se desperta para a Verdade o mundo fenomênico se revela como mera inexistência, um nada sem qualquer importância, e que passamos a viver unicamente no paraíso.

Esta é uma afirmação que nega a revelação contida na Bíblia de que Deus criou o céu e a terra!

Esta afirmação parte da premissa de que, como está escrito, tudo o que Deus criou Ele viu que era muito bom!

O fato é que está escrito que Deus criou tanto o céu quanto a terra! Está escrito também que Ele criou isso no Princípio. Está escrito ainda que Ele viu as duas criações como “muito boas”.

Por isso alguns ensinamentos espirituais afirmam que Deus criou apenas a Realidade Divina, criou apenas o céu, o paraíso, e que Ele não criou a terra, ou seja, não criou a Representação...

Contudo, o que está escrito na Bíblia no sentido de que no Princípio Deus criou o céu e a terra é uma PERCEPÇÃO. Foi uma PERCEPÇÃO que algum divino personagem teve e a expressou no Livro Sagrado.

Mas aqui há um detalhe extremamente sutil, sem o que parece mesmo ser verdade que Deus criou apenas o céu, a Realidade, o paraíso, e que não criou a terra, a Representação. O detalhe é: a Representação enquanto Representação é perfeita. Porém, o conteúdo da Representação pode estar refletindo perfeitamente a Realidade ou não! Isto significa que aquilo que está sendo manifestado na Representação pode ser real ou não. O bem é real tanto na Realidade Suprema quanto na Representação Divina! É o que Masaharu Taniguchi chama de fenômeno autêntico, no sentido de que não há distorção na projeção do aspecto real para o fenômeno.

O que pode causar essa distorção é a lente através da qual a Representação está sendo vista... Assim sendo, quando olhamos para a Representação com pensamentos elevados o que vemos é claramente uma obra de Deus, uma Representação Divina, algo que manifesta plenamente a Vida de Deus!  

Porém quando olhamos para a Representação com pensamentos baixos o que vemos é o mal, o que nos levará a acreditar convictamente que Deus não criou a Representação, que nela há total ausência de Deus e que não há relação alguma entre Realidade e Representação!

Porém o próprio Jesus ressaltou que a PERCEPÇÃO revela a relação entre o céu e a terra, entre a Realidade Suprema e a Representação Divina! Assim, merece destaque a seguinte passagem relativa a Jesus, que chamava seu próprio personagem de “Filho do Homem”:  Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: "Quem os outros dizem que o Filho do homem é?"

Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas".

"E vocês?", perguntou ele. "Quem vocês dizem que eu sou?"

Simão Pedro respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo".

Respondeu Jesus: "Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não foi revelado a você por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus.

E eu digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la.

Eu darei a você as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus'.

Então advertiu a seus discípulos que não contassem a ninguém que ele era o Cristo." (Mateus 16:13-20)

Nesta passagem Jesus passa a chamar Simão, o filho de Jonas, de Pedro, cujo significado é Petrus, ou seja, firme como pedra ou rocha. Com isso Jesus quis enfatizar que a PERCEPÇÃO que Simão acaba de manifestar sobre Quem Ele, Jesus É, é uma percepção “pétrea”, ou seja, é fundada na pedra da Verdade, que é sólida e imutável. Mas é preciso notar que ele não está enfatizando quem ele é, que é o Cristo, tanto que no final ele “advertiu a seus discípulos que não contassem a ninguém que ele era o Cristo”. O que Jesus faz aqui é revelar que a PERCEPÇÃO que Simão manifestou não veio da mente de Simão, ressaltando que “não veio de carne e sangue”, não veio da “terra”, não veio da Representação, mas que veio do Pai que está no céu, ou seja, veio dAquele que está na Realidade!

Jesus revela ainda que “sobre esta pedra [sobre esta PERCEPÇÃO pétrea] edificarei a minha igreja e as portas do Hades não poderão vencê-la."

O termo "igreja" aqui tem o significado de Eclésia, Assembléia ou Comunidade. Ele revela que sobre esta PERCEPÇÃO ele edificará sua “Eclésia”, a Comunidade dos que PERCEBEM.

E também importante é o fato de Jesus revelar que aos membros dessa Igreja formada pelos que PERCEBEM ele dará as “as chaves do reino dos céus”!

É preciso notar que aqui Jesus está novamente enfatizando que há uma relação entre céu e terra e que é a PERCEPÇÃO do Pai quem revela essa ligação entre céu e terra. Ou seja, é a PERCEPÇÃO de Deus expressa em Simão que o faz perceber que Jesus é o Cristo.  

Enfim, PERCEBER QUEM PERCEBE em nós é “a chave do reino dos céus”!


segunda-feira, novembro 30, 2015

Os obstáculos para o sucesso

- Sri Bhagavan -


Pergunta: Por que eu enfrento tantos obstáculos no meu caminho para o sucesso?

Bhagavan: "Você está constantemente criando o mundo externo. 
Você acha que o mundo externo é independente do mundo interno.
Digamos que o seu inconsciente programou você para o fracasso. 
Ele acha que você nunca poderia ter sucesso.
Você não deveria ter sucesso. 
Então o que acontece é: digamos que você vá para uma entrevista de emprego. 
Seu inconsciente entra em contato com o inconsciente da outra pessoa.
Eles têm algum tipo de ligação "internet" e a outra pessoa que está entrevistando você decide não lhe dar um emprego sem motivo algum.
Isso é porque o que está acontecendo lá dentro, na verdade, está criando o mundo externo.
É muito poderoso.
É por isso que você recebe o que você teme e o que você odeia.
Você também terá o que você ama. Isso também acontece.
Você tem que ver o que está acontecendo.
Uma vez que isto esteja ajustado, você irá ver que as coisas estarão mudando drasticamente para você no mundo externo."


sexta-feira, novembro 27, 2015

Abandonando o julgamento, adentra-se a Percepção (Goldsmith)


.
É na transcendência da mente, na capacidade de se abster do discurso e de atingir e manter um estado de quietude interior, que se cumpre a experiência. 

Essa quietude interior é atingida quando somos capazes de olhar para uma pessoa, coisa ou condição sem rotulá-la de boa ou má. Aí não resta à mente nada a que se agarrar ou em que pensar; ela não tem nada com que se preocupar, e nada de que se rejubilar: torna-se simplesmente quieta.

É como olhar objetivamente para uma pintura, sem qualquer ideia preconcebida, tal como se é boa ou má, sem qualquer opinião baseada na reputação do artista ou no fato de gostarmos do tema. 

Ver uma obra de arte com tal distanciamento critico capacita-nos a ver a visão do artista: o que estava em sua mente, alma e consciência quando ele realizou a obra. Tanto mais assim deveríamos olhar para a criação espiritual, não através de nossas noções preconcebidas de como deveriam ser os seres humanos, mas através da consciência do divino Criador!

A única maneira pela qual se pode fazer isto é abdicando a todos os rótulos de bem e mal, e, uma vez suspenso por completo o julgamento, achamo-nos na consciência do Criador espiritual e somos capazes de contemplar o universo como Deus o contempla. Agora, PERCEBEMOS a Mente de Deus; ou, de modo contrario, quando a mente que julga e rotula se aquieta, a mente de Deus tornou-se a nossa mente ativa. 

Mas não pode haver a Mente de Deus funcionando em nós enquanto nossa mente estiver formando julgamentos de bem e de mal, porque enquanto estivermos vendo as pessoas, as coisas ou condições como boas ou más, estaremos empregando padrões humanos de julgamento, e nenhum padrão de julgamento humano pode jamais ver a natureza real da criação. 

Se pretendermos visualizar corretamente este mundo, devemos visualizá-lo através dos olhos, ou da consciência de Deus, e isso só é possível uma vez que a mente humana se tenha aquietado e tenha abdicado a seus julgamentos em termos de bem e mal.

Uma prática deste tipo ajuda-nos a nos abstermos de reagir às aparências externas. Isso é difícil, mas quando se alcança a capacidade de não reagir às aparências – e todos os estudiosos imbuídos de seriedade mais cedo ou mais tarde chegam a isso – advém, fácil e geralmente, a cura espiritual. 

Teremos percorrido um longo caminho em nossa jornada espiritual, quando formos capazes de ver a doença, o pecado, o alcoolismo e todas as outras aparências do gênero e não reagir a elas, não tentar curá-las ou alterá-las, mas lembrar-nos conscientemente de não julgar segundo as aparências: “Quem me designou juiz ou partidor sobre vós?” (Lucas 12:14)

Não, não aceito aparências: aceito a verdade de que o Espírito de Deus está em vós, não importa quem sejais: um prisioneiro na cadeia, um ladrão na rua, um alcoólatra na esquina, ou um moribundo no hospital.

Não devemos reagir às aparências: devemos lembrar-nos de que, como Deus é onipresença, independente de que aparência vejamos com nossos olhos, é apenas uma aparência, e, por ser apenas uma aparência, nada devemos fazer a seu respeito, a não ser reconhecê-la como tal. Isso é discernimento espiritual; isto é a capacidade de não acreditar no que vêem nossos olhos e de não julgar segundo as aparências.

Toda a obra de cura espiritual baseia-se nesse ponto. 

Se, ao receber um pedido de socorro, o praticante pretendesse sentar-se e tentar curar alguém, não seria um praticante por muito tempo. O praticante da cura espiritual nada sabe daquilo a que se chama cura. 

Toda a essência do curador espiritual reside num discernimento interior de que Deus é vida individual, e, portanto, a vida é imortal, eterna e indestrutível – um discernimento espiritual, que consiste em não julgar segundo as aparências.


quinta-feira, novembro 26, 2015

Princípios do Céu e da Terra

- Chuang Tzu -


"Aquele que quer ter
o certo sem o errado,
a ordem sem a desordem,
não entende os princípios 
do céu e da terra,
não sabe como 
as coisas estão interligadas.

Primeiramente, adquira controle sobre o corpo,
Em seguida, sobre a mente.
Atinja a unidirecionalidade.
E então, 
a harmonia dos Céus descenderá e residirá em ti.
Você ficará radiante com a vida.
Você repousará no Tao.

Esteja com seu coração em paz.
Assista a turbulência dos seres
mas contemple o seu retorno.

Se não percebe a fonte,
você tropeça na confusão e na tristeza.
Quando você percebe de onde você vem,
naturalmente se torna tolerante,
desinteressado, divertido,
bondoso como uma avó,
digno como um rei.
Imerso na maravilha do Tao,
você pode lidar com o que quer que a vida lhe traz.

E quando a morte chega, você está pronto."


segunda-feira, novembro 23, 2015

Aprofundando nos ensinamentos do texto anterior


.
Este texto de Masaharu Taniguchi, intitulado "O Arrependimento e o Despertar", apresenta três pontos importantes que merecem ser comentados e aprofundados.

O primeiro consiste no fato de dizer que, ao despertar espiritualmente, o ser humano passa a vivenciar o reino de Deus aqui mesmo neste mundo fenomênico. Ao abrir os olhos da mente, podemos enxergar além do que os sentidos físicos permitem captar, e percebemos a nossa condição espiritual de unicidade com Deus, que somos filhos de Deus. O ser humano enquanto corpo carnal não é o filho de Deus, e sim o filho do pecado, da separatividade. Enquanto estivermos identificando o nosso ser com o corpo fenomênico, estaremos "pecando" (ou seja, nos vendo na separação e errando o alvo) e seremos filhos do pecado. O filho de Deus existe como um ser espiritual que está em eterna unidade com Deus, e ele é a essência que habita o âmago de cada um de nós. Quando despertamos para esse fato, ocorre uma mudança total em nossa perspectiva de perceber a vida, porque quando a unicidade se realiza, ela o faz englobando tudo. Essa mudança total em nosso modo de perceber é o que o texto denomina "arrependimento" ou "conversão". Quando ocorre esse "despertar", esse "arrependimento", essa "conversão", o mundo fenomênico reflete esse despertar e se converte em um paraíso terrestre. Então o reino de Deus passa a se expressar no plano fenomênico. Por isso, Masaharu Taniguchi escreve que: "quem se arrepender verdadeiramente, há de encontrar o paraíso aqui e agora, nesta vida terrena", e também: "contanto que nos arrependamos verdadeiramente, podemos passar a desfrutar imediatamente da graça dos céus".

Um outro objetivo do presente texto é desmistificar alguns ensinamentos que dizem que o mundo fenomênico (a Representação) existe como um opositor-inimigo do reino de Deus, que o reino de Deus somente poderá ser experienciado ao se rejeitar por completo a existência fenomênica, e que às vezes incentivam os estudantes a repudiarem o mundo fenomênico. É verdade que o reino de Deus é a Realidade que existe desde "antes que a Representação existisse", mas a Representação em si não é nem "boa" nem "ruim", não é sagrada nem profana. Ela é como um espelho (vazio) a refletir a imagem (conteúdo) colocada diante dela. Por isso, devido a sua natureza vazia desprovida de qualquer imagem, a representação tem a capacidade de refletir a Realidade divina (o reino de Deus) existente subjacente à ela. Sendo assim, o reino de Deus pode se evidenciar aqui mesmo neste mundo fenomênico, e isso ocorre quando o ser humano desperta para a sua filiação divina. Por isso Masaharu Taniguchi diz: "Quando descobrimos nossa natureza verdadeira, compreendemos que estamos no Paraíso, na Terra Pura, aqui mesmo neste mundo."

E, a fim de que possamos despertar para a nossa natureza verdadeira, Masaharu Taniguchi explica que primeiro deve ocorrer em nós o arrependimento e a conversão. E, sobre isso, ele faz uma notória observação - que é o segundo ponto importante de ser comentado. Ele diz: "O arrependimento completo consiste na transformação total da postura mental e, como consequência disso, o nosso mundo se transforma totalmente. O mundo que me refiro aqui não é o mundo físico, e sim o mundo interior."

Para compreendermos o arrependimento e a conversão referidos no texto, é muito importante ter em mente o fato já mencionado de que a Representação não existe como "boa" ou "ruim", como "sagrada" ou "profana", mas que sua natureza é o vazio. Por ser vazia como um espelho, em si ela nada é, e por isso nada tem para nos apresentar. Ela não nos apresenta um universo profano, ela não nos apresenta um universo divino. Ela apenas reflete. O universo que aparentemente nos é apresentado pela representação é apenas um reflexo da própria visão ou percepção que temos dele. Quem olhar para o universo com a visão que o filho de Deus tem do universo, se verá diante um universo divino. E quem olhar para o universo com a visão/percepção que um ser pecador (ego) tem do universo, se verá diante de um universo de separação (pecado)... que é um universo totalmente sem sentido. O universo em si é nada. A percepção é tudo! O mesmo universo pode ser visto/experienciado de formas diferentes, a depender da lente com que se olha para ele. Se alguém olhar uma paisagem (universo) com óculos de lente de cor vermelha, a paisagem será vista toda em vermelho (universo aparente). E se ao lado dessa pessoa houver mais alguém olhando a mesma paisagem (universo) com lentes de cor amarela, a paisagem será vista toda amarelada (universo aparente). É importante saber fazer distinção entre "universo" e "universo aparente" e não confundi-los. O universo em si é nada, e não possui significado algum. Por sua vez, o universo aparente surge em decorrência da visão/significado que atribuímos ao universo. 

Por isso, caso estejamos vendo ou experienciando o mundo fenomênico como um lugar "ruim", "defeituoso" ou "imperfeito", isso significa que estamos percebendo-o com visão/lentes defeituosas. O defeito não está no mundo em si, mas na visão com que olhamos para ele. Compreendendo isso, não é necessário querer modificar, repudiar, condenar ou desprezar o mundo em que vivemos na representação. O defeito deve ser corrigido na própria base ou raiz onde ele se origina. No exemplo acima citado, se o indivíduo que usava lentes vermelhas quiser enxergar toda a paisagem na cor azul, basta descolorir as lentes que naquele momento estavam vermelhas e colori-las novamente com a cor azul. Então, ao colocar novamente os óculos, aquela paisagem aparecerá azulada. Da mesma forma, se pudermos modificar o teor/a essência da visão com que olhamos para o mundo, ele se nos apresentará de acordo com a natureza do nosso olhar. Assim é a Representação. Ela é como um "projetor" que projeta na tela qualquer que seja o conteúdo gravado no filme. Aqueles que possuem um olhar iluminado, experienciam um mundo iluminado. Ao passo que aqueles que possuem um olhar imperfeito, experienciam um mundo imperfeito.

Sabendo disso, Masaharu Taniguchi disse: "O arrependimento completo consiste na transformação total da postura mental." A "postura mental" a que ele se refere é o olhar, a visão, a percepção. A "transformação total" deve ocorrer bem na raiz de todas as coisas, que é a nossa percepção, "e entãocomo consequência disso, o nosso mundo se transforma totalmente." E a chave mais essencial para fazer com que a transformação ocorra na "raiz", é aplicarmos em nossa vida a sabedoria do não-julgamento. Ao compreendermos verdadeiramente que o universo nada é de si mesmo - que ele não possui significado algum, e que somos nós quem conferimos significado a ele mediante nossa própria visão (julgamento) - automaticamente perdemos o interesse em nomeá-lo, em dizer o que ele "é" ou "não é". Então a energia que estava fluindo para o exterior começa a ser redirecionada para o interior (percepção), e conseguimos alcançar o ponto-raiz onde é possível realizar verdadeiramente a transformação, o arrependimento, a conversão.

Tendo compreendido tudo o que foi dito até aqui, vamos prosseguir para o terceiro ponto importante do texto.

Masaharu Taniguchi diz: "Conversão significa o arrependimento completo, em que a pessoa muda por inteiro a sua postura mental e, como consequência disso, o seu mundo se transforma totalmente. O 'mundo' a que me refiro aqui não é o mundo físico, e sim o mundo interior."

Para compreendermos bem este terceiro ponto, precisamos nos defrontar com algumas questões metafísicas. Sabemos que a Realidade (a qual os diversos ensinamentos chamam de Reino de Deus, Céu, Jissô, Terra Pura, Nirvana, Moksha, etc.) existe desde "antes que a Representação existisse." Porém, uma vez que surge a Representação, algumas questões devem ser entendidas.

Primeiramente: uma das finalidades da Representação é a de permitir (simular) a experiência de nosso Ser como algo separado ou diferente de Deus. Todavia, devido à sua natureza vazia, a Representação também tem o propósito de expressar a glória e o amor incomensuráveis de Deus. Ao mesmo tempo que a Representação foi feita para possibilitar a experiência de separatividade, também foi feita para que a Divindade pudesse Se expressar plenamente através de cada ser, coisa e fato. Dependendo do olhar (percepção) que lançarmos para o universo da Representação, experienciaremos e desfrutaremos de uma coisa ou outra.

Em segundo lugar: uma vez que lançamos um "olhar" para a Representação, ela imediatamente reflete a natureza daquele olhar, e de súbito já nos vemos dentro de um universo inteiramente construído. Ao lançarmos um "olhar de separação", repentinamente nos vemos inteiramente dentro de um universo de separatividade, totalmente pronto, acabado, construído para funcionar naquele sentido. E assim constatamos que o universo da separação detém uma espécie de "inteligência" trabalhando a favor da separação a fim de preservar sua arquitetura, valendo-se de vários mecanismos, planos, estratégias para se automanter, e também para assegurar a nossa permanência dentro dele. Essa inteligência é chamada de "ego". O ego é o guardião do universo da separação. Por sua vez, o inverso também ocorre: quando lançamos um olhar iluminado para a Representação, ela o reflete e de imediato já nos vemos em um universo de pura luz, onde a Divindade se evidencia como tudo e todos. Esse universo divino também já aparece inteiramente pronto, com uma arquitetura toda construída e funcionando no sentido de se autopreservar e de assegurar a nossa permanência dentro dele. E à Inteligência guardiã desse universo divino chamamos de "Eu".

Em terceiro lugar: tudo o que foi contado até aqui ocorre no âmbito de uma magnitude imensamente maior/acima daquela em que se manifesta o universo visível. Está ocorrendo em um mundo invisível, de âmbito metafísico, algo de natureza grande demais para se apreender com a capacidade da mente/inteligência/percepção que se manifesta na visibilidade. Tal mundo invisível também faz parte da Representação (não é a Realidade). E em contraposição ao mundo invisível, temos o mundo físico-visível, que todos nós conhecemos muito bem. O mundo físico é um "reflexo visível" do mundo invisível, existindo apenas como "efeito", "aparência" ou "sombra". Por ser mero "reflexo" ou "sombra" do mundo invisível, é dotado de insubstancialidade, daí porque a Metafísica o classifica como sendo "nada" ou mera "aparência". Por trás do mundo visível (físico, insubstancial) existe o mundo invisível (metafísico, substancial), onde tudo está acontecendo.

Em quarto lugar: no universo da separação, um dos mecanismos utilizados pelo ego para perpetuar seu senso de "eu sou" é trabalhar para fazer com que fiquemos identificados exclusivamente com a realidade visível, de modo que sequer desconfiemos que nosso Ser vive e existe em uma realidade invisível. Dessa forma, a realidade visível atua como "cortina de fumaça" para esconder a realidade invisível, que é onde tudo acontece, e isso torna impossível ocorrer uma real mudança ou transformação em nossas vidas. Não há nada acontecendo no universo das aparências, por isso o Todo não reconhece nossas ações aqui na realidade visível. Por exemplo: se um personagem arrepender-se apenas no mundo das aparências (convencendo-se mentalmente de que sua identidade não é a de um "eu" pecador, mas sim o Filho de Deus), esse arrependimento não será reconhecido pelo Todo, porque ocorreu numa realidade insubstancial, em "nada", em "lugar nenhum". A pessoa não sentirá o seu universo visível se transformar no paraíso terrestre que o texto menciona, e que pode ser vivido aqui e agora. Talvez ela consiga reformar a sua personalidade, o seu caráter, a sua moral, as suas atitudes, e se tornar um ser humano melhor. Mas ela não adentrará o paraíso iluminado que existe aqui e agora. Para que a conversão/o arrependimento seja verdadeiro e surta efeito perante o Universo, ele deve ocorrer na realidade substancial. Aí sim o Universo reconhece e responde à transformação. O Universo sempre responde no âmbito da realidade invisível; e quando a realidade invisível se modifica, a realidade visível reflete a transformação.

Por isso, Masaharu Taniguchi fez a importantíssima observação, dizendo: "O mundo a que me refiro aqui não é o mundo físico, e sim o mundo interiorEm outras palavras, o verdadeiro arrependimento consiste em abandonarmos completamente a ideia de que somos seres constituídos de corpo carnal, sujeito a pecados, e nos conscientizarmos de que somos filhos de Deus, isentos de pecado. Esta é a verdadeira conversão." Tal conscientização não deve ocorrer somente a nível físico, aparente, superficial. Ela deve ocorrer nas profundezas invisíveis da realidade, que é onde verdadeiramente vivemos e existimos na Representação. É por isso que as práticas espirituais metafísicas não levam em conta a existência/presença da realidade visível. O metafísico trabalha unicamente no plano invisível, porque no universo da Representação tudo está acontecendo ali.

Todos os caminhos espirituais recomendam que os estudantes adquiram o hábito de realizarem diariamente alguma prática espiritual (sadhana), que pode ser: leitura de livros sagrados, meditação, oração, repetição de mantras ou de nomes divinos, realização de serviço desinteressado, etc.. Qualquer que seja a prática recomendada, é importante haver a repetição diária e constante, até que ela penetre nas profundezas e impregne completamente o nosso ser. Isso é assim porque, sempre que um treinamento espiritual está em seu início, ele é praticado apenas no âmbito do mundo visível (e enquanto a prática ocorrer apenas aqui, não haverá real transformação); mas, com o passar do tempo, a prática constante alcança as profundezas de nosso ser e passa a ocorrer também no mundo invisível. Então o nosso ser interior vai absorvendo e assimilando o conteúdo praticado, até ocorrer em nós uma espécie de "alteração" ou "reprogramação" no mundo invisível. E quando o mundo invisível se transforma, nossa vida verdadeiramente se transforma.

Vejamos o que Mooji disse para seus ouvintes, em um de seus satsangs:

"Eu não falo para você como você sendo uma pessoa. Eu falo para você como você sendo Consciência e presença [que existe no mundo invisível]Se eu falar para você como você sendo uma pessoa, eu sei que o iria sobrecarregar, porque 'você' não pode mudar [a "pessoa" pertence ao mundo visível, insubstancial, que é "nada"]Quando eu falo para você como sendo Consciência, você simplesmente entende [o indivíduo entende enquanto "ser" ou "presença" invisível que ele é] e a Graça é libertada lá."

"Se você quiser obter o máximo proveito de mim, esteja sentado na posição da consciência e ouça como a própria consciência. Se você ouvir como uma pessoa, você nunca irá 'compreender' onde eu estou ou aquilo para o qual eu estou apontando. Ouça como consciência. Encontre uma sintonia, uma sincronicidade com a sensação de presença. Seja um com ela. Esta sincronicidade é um nível muito mais elevado de comunicação no reino do ser. É muito mais elevada do que conversar mentalmente ou verbalmente. Ressonância do Coração é a vibração da santidade. Através dela, você vem a reconhecer espontaneamente o Ser."

A partir de agora, tenhamos a consciência de que, sempre que estivermos diante de um ser desperto, ele não olha para nós como se fôssemos uma "pessoa". Ele não fala para nós como se fôssemos uma "pessoa". Ele fala com a presença/a consciência que existe (invisivelmente) por detrás da pessoa. A lembrança de que somos o Ser não ocorre a nível de nossa memória ou capacidade cerebral. Se insistirmos em compreender os ensinamentos com a nossa "pessoa", estaremos perdendo totalmente o nosso tempo. O mestre sabe que as coisas que ele diz devem ser compreendidas pelo ser invisível/silencioso que existe por detrás da pessoa. Geralmente os iniciantes na busca espiritual, sempre que vão participar de um satsang, ouvem as palavras do mestre como se fossem pessoas. Mas, com o passar do tempo, aprendem a ouvir o mestre com o ser silencioso que existe por trás de suas pessoas. E quando o ser silencioso compreende afinal os ensinamentos do mestre, o indivíduo recebe um vislumbre da verdade ou até mesmo o próprio despertar espiritual.

Concluindo: após tudo o que foi dito, ficou muito claro que a "conversão" ou "arrependimento" que o texto menciona deve ocorrer não no mundo físico (visível, insubstancial, efeito), mas no mundo interior (invisível, substancial, causa). Ao ocorrer uma total transformação em nossa forma de olhar (percepção) para a vida, a vida automaticamente se transforma, e assim podemos viver e desfrutar de um reino iluminado aqui mesmo neste mundo terreno. Finalizo, pois, este texto, com as seguintes palavras de Masaharu Taniguchi:

"O mundo radioso existe desde o princípio. Basta abrirmos os olhos da mente para compreendermos que o reino de Deus está aqui e agora. Como já expliquei, 'devemos nos arrepender, pois o reino de Deus existe aqui e agora, já está ao nosso alcance'; isto é, o reino de Deus não está para chegar daqui a algum tempo, ele já existe aqui e agora. Basta 'arrependermo-nos' para que ele se manifeste diante de nós. Os aflitos, os enfermos, os que estão com o coração cheio de tristeza, enfim, todos aqueles que sofrem, descobrirão o reino de Deus tão logo abrirem os olhos da mente. Quando eles abrirem os olhos da mente e despertarem da ilusão, o mundo terreno, que até então parecia impuro, feio e perverso, revelar-se-á como um mundo puro, repleto de paz e felicidade, iluminado pela Luz de Deus."

Namastê!


sexta-feira, novembro 20, 2015

O Arrependimento e o Despertar - 2/2

- Masaharu Taniguchi -


A Imagem Verdadeira do ser humano

A Seicho-No-Ie ensina que "o pecado não existe". Diante dessa afirmação, alguns contestam com veemência: "O pecado existe, sim! Por isso a religião é necessária". No que se refere ao aspecto fenomênico, tal contestação é válida. Existe a religião porque existe o pecado. Porém, não estamos falando de existir ou não existir no plano fenomênico. Estamos tratando de uma questão de suma importância, do ponto de vista religioso e filosófico. "Existir ou não existir" não significa ser visível ou não, estar manifestado ou não. Vendo somente o aspecto fenomênico, muitos afirmam que a humanidade é pecadora. Essas pessoas são como Nicodemos, o qual, ao ouvir de Jesus Cristo a afirmação de que "para ver o reino de Deus, é preciso nascer de novo", disse: "Como pode um homem nascer sendo velho? Por ventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e renascer?". Ao dizermos que "o pecado não existe", estamos afirmando que "o pecado não é existência verdadeira", isto é, "o pecado não existe de verdade". Estamos tratando da questão da existência real

Se o pecado existisse de verdade, ninguém conseguiria extingui-lo, por mais que tentasse. Porém, o pecado não existe de verdade, embora pareça existir. Não passa de falso aspecto, originado da ilusão. Assim sendo, podemos extinguir o pecado retirando a sua "máscara" de realidade e revelando que não passa de falso aspecto. O pecado é como a treva. Na verdade, a treva não existe. Talvez vocês digam: "À noite, tudo fica escuro. Portanto, a treva existe". Mas ela existe apenas no nível fenomênico, isto é, embora pareça existir, não existe de verdade. Ao anoitecer, tudo fica na escuridão, e por isso parece que a treva existe; mas se iluminarmos a treva, no intuito de examiná-la e ver seu aspecto, ela desaparece. Ela parece existir, mas não existe de verdade. Se existisse de verdade, a treva ofereceria resistência à presença da luz, coisa que não ocorre. Quando a luz vem, a treva simplesmente desaparece, revelando a sua ausência. Assim é a treva. Por não existir de verdade, extingue-se diante da luz. Pode-se dizer que a luz consegue iluminar a treva porque a treva é originariamente inexistente.

Assim também é o pecado: Embora pareça existir, não existe de verdade. O mesmo se pode dizer dos efeitos do carma e da causalidade, os quais, em última análise, são diferentes denominações do pecado. Se o pecado ou os efeitos do carma e da causalidade não se manifestassem no aspecto fenomênico, não haveria necessidade de religião. Porém, como eles se manifestam e parecem existir, surgiu a religião para extingui-los, do mesmo modo com que se apaga a treva – que parece existir – com o poder da luz  que existe de verdade. 

A mestra fundadora da seita Tenri disse que "o ser humano é como uma esfera de cristal ligeiramente coberta de poeira". Ela ensinou que a natureza verdadeira do ser humano é bela e límpida como uma esfera de cristal puríssimo. O pecado não existe. Essencialmente, o ser humano é perfeito, não há nele nenhuma mácula. Suas imperfeições aparentes são como poeira que encobre a beleza e a limpidez de uma esfera de cristal. Mesmo que a poeira cubra a superfície de uma esfera de cristal, poeira é poeira, e cristal é cristal. Vendo uma esfera de cristal coberta de poeira, as pessoas dizem: "Essa esfera de cristal está suja". Estão equivocadas. Suja é a poeira; a esfera de cristal permanece límpida e bela. O mesmo se pode dizer do ser humano. A natureza verdadeira do ser humano é um ser divino (filho de Deus), um ser espiritual puro, belo e eterno, invisível aos olhos físicos. 

O ser humano não é o corpo material cheio de imperfeições. Na Bíblia, encontramos diversas passagens com alusões à efemeridade da carne. Considerando o ser humano do ponto de vista físico, temos de admitir que é um ser que precisa comer para viver, que mata outros seres vivos para se alimentar da carne deles, destrói microorganismos e até elimina um semelhante seu caso isso seja necessário para garantir sua sobrevivência. Porém, esse ser imperfeito não é o verdadeiro ser humano. O verdadeiro ser humano é "a imagem de Deus". Aqui, mais uma vez, deparamos com a questão da existência real. A distinção entre "existir de verdade" e "estar manifestado"" é uma questão de suma importância, do ponto de vista filosófico. Sem ter a compreensão do que sejam "existir de verdade" e "estar manifestado", não será possível entender realmente a essência da religião, ou seja, a Verdade que a Seicho-No-Ie prega. Quem pensa que a Seicho-No-Ie é uma religião vulgar, está cometendo um grande equívoco. O ensinamento da Seicho-No-Ie é muito elevado e, para entendê-lo bem, é preciso conhecê-lo em profundidade, considerando-o do ponto de vista filosófico.

Até agora, julgava-se verdadeiro ser humano o "homem fenomênico", o homem feito de corpo material, o homem imperfeito e transitório. Porém, verdadeiro é espírito proveniente de Deus e não "corpo carnal". Na verdade, todos estamos vivos porque "Deus está em nós". Dependendo da crença religiosa de cada um, isso pode ser expresso com outras palavras, tais como: "Vivemos porque Cristo está em nós", "vivemos porque Buda está em nós", "vivemos porque Brahma está em nós", etc. O importante é compreender que somos vivificados por Deus que está em nós. Compreender isso é despertar espiritualmente, é alcançar a iluminação.

A Imagem Verdadeira de todo ser humano é espírito proveniente de Deus. Portanto, o verdadeiro ser humano é perfeito, belo e límpido como um esfera de cristal da mais alta pureza, conforme as palavras da mestre-fundadora da seita Tenri. Ela afirmou que não existem nem o pecado, nem as impurezas, nem carma, nem doença, nem "encostos", enfim, coisa alguma que fira a natureza original perfeita do ser humano. Se o pecado e o carma existissem de verdade, não poderíamos extingui-los, por mais que tentássemos, procurando "polir" a nós mesmos com nossa força humana. Pecado, fatalidade, carma, são originalmente inexistentes, pois Deus não cria coisas más. Parecem existir, mas na verdade não existem, da mesma forma que a treva, embora pareça existir, não existe de verdade. Para se eliminar a treva, basta acender a luz. Do mesmo modo, para extinguirmos o pecado, a fatalidade, o carma, basta volvermos nossa mente para a Luz da Existência Verdadeira, isto é, Luz de Deus. Quando volvemos nossa mente para a Luz e contemplamos a perfeição de Deus nosso Pai, a nossa luz se funde com a Luz do Pai, a nossa vida se funde com a Vida do Pai, e então apagam-se todos os pecados manifestados no aspecto fenomênico.

Portanto, embora seja também necessário refletirmos sobre cada um de nossos atos na vida cotidiana e procurarmos melhorar sempre, o essencial é despertarmos para a Verdade de que somos filhos de Deus, ou seja, conscientizarmos o nosso "Eu verdadeiro", no qual flui a Vida de Deus, isento de pecado e sofrimento. Nisso consiste a verdadeira salvação.

Quando a pessoa recupera a liberdade inata da Vida, ocorre a cura da doença, qualquer que seja a sua religião. Eis a Verdade. Tanto na Seicho-No-Ie, como no cristianismo e outras religiões, ocorrem casos de cura de doenças. Se há pessoas que não conseguem a cura, é porque não acreditam na cura. Elas próprias impedem a manifestação da força curadora latente por estarem convencidas de que a cura é impossível, e devido a isso não ocorre a cura. Portanto, também nesse caso é verdadeira a afirmação da passagem bíblica: "Seja-te feito conforme a tua fé" (Mateus 8:13). É natural que o cristianismo também cure doenças, pois o próprio Jesus Cristo curava enfermos. Não seria lógico se, nos dias atuais, o cristianismo tivesse deixado de curar doenças. Isso estaria em desacordo com o seu ensinamento original. Se não ocorre a cura, é porque a própria pessoa, devido à sua crença errônea, está impedindo que a força de Deus atue sobre ela. 

Eu disse "impedir", mas na verdade isso é impossível, pois a crença errônea, ou seja, a ilusão, não tem força ativa para isso. Estar em ilusão e não conseguir ver da Luz de Deus é como estar de olhos fechados e não enxergar a luz do sol. Despertando da ilusão, compreendemos que vivemos num mundo radioso, repleto de bênçãos de Deus, do mesmo modo que, abrindo os olhos, vemos a resplandecente luz do sol. O mundo radioso existe desde o princípio. Basta abrirmos os olhos da mente para compreendermos que "o reino de Deus está aqui e agora". 

Como já expliquei, "devemos nos arrepender, pois o reino de Deus existe aqui e agora, já está ao nosso alcance"; isto é, o reino de Deus não está para chegar daqui a algum tempo, ele já existe aqui e agora. Basta "arrependermo-nos" para que ele se manifeste diante de nós. Os aflitos, os enfermos, os que estão com o coração cheio de tristeza, enfim, todos aqueles que sofrem, descobrirão o reino de Deus tão logo abrirem os olhos da mente. Quando eles abrirem os olhos da mente e despertarem da ilusão, o mundo terreno, que até então parecia impuro, feio e perverso, revelar-se-á como um mundo puro, repleto de paz e felicidade, iluminado pela Luz de Deus.


Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 85-90