"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, novembro 17, 2015

O Arrependimento e o Despertar - 1/2

- Masaharu Taniguchi -


Algumas pessoas pensam que a finalidade da religião é pregar a salvação do homem após a morte. Porém, a verdadeira religião prega a salvação do homem nesta vida, ensinando a Verdade da Vida. Tanto o cristianismo como o budismo tem como essência a Verdade da Vida – portanto são religiões verdadeiras. Se a religião não pudesse salvar o ser humano nesta existência, como poderia ela garantir-nos a salvação após a morte? Mesmo que a salvação após a morte nos seja garantida, não há razão para não buscarmos a salvação nesta vida. Penso que é justamente a salvação nesta vida que nos conduz à certeza da salvação após a morte. 

Em que consiste, então, a salvação nesta vida? Alguns pensam que ser salvo é ser liberto dos sofrimentos e das dificuldades e passar a desfrutar uma vida de fartura e conforto, tal como um peixe liberto da rede e solto no oceano. Porém, a verdadeira salvação não consiste simplesmente em alcançar melhor situação econômica ou obter a cura da doença.

Penso que, em última análise, alcançar a salvação é recuperar a verdadeira liberdade que nos é inerente – a liberdade da Vida. Referindo-se a isso, Sakyamuni usou o termo gedatsu, que significa "ser salvo", isto é, libertar-se de todos os apegos, aflições e sofrimentos e alcançar o satori – a iluminação. O "satori" do budismo corresponde ao "arrependimento" de que fala a doutrina cristã. Arrependimento não consiste somente em reconhecer o erro cometido e tomar a decisão de não tornar a errar. Isto é apenas "arrependimento parcial". O arrependimento completo consiste na transformação total da postura mental. Algumas pessoas traduzem a palavra inglesa "conversion" simplesmente como o ato de aderir a um doutrina; mas o verdadeiro significa dessa palavra é "arrependimento completo, em que a pessoa muda por inteiro a sua postura mental e, como consequência disso, o seu mundo se transforma totalmente". O "mundo" a que me refiro aqui não é o mundo físico, e sim o mundo interior. Mudar completamente a postura mental, abandonando, de uma vez por todas, a ideia de que somos criaturas cheias de pecado, e descobrir o nosso "Eu Verdadeiro" isento de pecado e sofrimento – este é o verdadeiro arrependimento. Em outras palavras, o verdadeiro arrependimento consiste em abandonarmos completamente a ideia de que somos seres constituídos de corpo carnal, sujeito a pecados, e nos conscientizarmos de que somos filhos de Deus, isentos de pecado. Esta é a verdadeira conversão.

Em última análise, o verdadeiro arrependimento consiste em deixarmos de pensar que somos mera existência material e alcançarmos a sublime conscientização de que somos filhos de Deus e, portanto, existência espiritual. Jesus Cristo pregou: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mateus 3:2). Lendo a Bíblia em inglês, constatei que o referido versículo diz: "The Kingdom of Heaven is at hand". Na tradução do inglês para o japonês, o termo "at hand" é usado com a conotação de "estar se aproximando"; devido a isso, muitos pensam que o reino dos céus "está para chegar". Porém, o referido termo em inglês significa também "ao alcance", e no mencionado versículo foi usado com esse significado. Portanto, a advertência de Jesus Cristo não foi no sentido de que "devemos nos preparar, arrependendo-nos dos pecados, porque o reino dos céus vai chegar daqui a algum tempo". A referida afirmação "at hand" significa "estar à mão" ou "estar ao alcance, para ser desfrutado desde já". Sendo assim, contanto que nos arrependamos verdadeiramente, podemos passar a desfrutar imediatamente as graças do reino dos céus. Este é o verdadeiro significado da referida passagem bíblica.

O verdadeiro arrependimento não consiste em tentarmos nos redimir cada vez que cometemos um erro, de modo a melhorarmos gradativamente, mas sim em abandonarmos, de uma vez por todas, a ideia de que somos criaturas pecadoras, e compreendermos que somos filhos de Deus, criados à imagem do Pai, que é Existência espiritual e eterna. Quem se arrepender verdadeiramente há de encontrar o paraíso aqui e agora, nesta vida terrena.


"Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu"

No Evangelho de São João (3: 2-13), consta a passagem em que Jesus diz o seguinte a Nicodemos, um dos principais entre os judeus: "Em verdade, em verdade te digo que não pode ver o reino de Deus senão aquele que nascer de novo". Nicodemos, que já era bastante idoso, perguntou-lhe então: "Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e renascer?". Jesus explicou, em linhas gerais, o seguinte: "Não estou falando em renascimento físico. O que nasce da carne, será sempre carne. Ainda que o ser humano pudesse renascer do útero de uma mulher, e passasse por tal renascimento quantas vezes desejasse, ele nascerá sempre como um ser carnal (material)". Isso não é o verdadeiro renascimento. O verdadeiro renascimento consiste em compreendermos a sublime Verdade de que não somos meros corpos carnais, e sim "existência real" de natureza espiritual. O vento sopra, e você ouve o ruído, mas não sabe de onde o vento vem, nem para onde ele vai. Se nem das coisas terrenas você entende, como pode entender das coisas celestes? "Somente aquele que desceu do céu, pode subir ao céu". Dessas palavras de Jesus Cristo, podemos depreender que somente aqueles que desceram do céu podem tornar ao reino do céu, ou, em outras palavras, somente aqueles que se originaram de Deus podem voltar para junto de Deus. O que nasce da carne será sempre carne. O ser humano enquanto "corpo carnal" sujeito aos pecados não pode entrar no reino do céu, ou seja, reino de Deus, por mais que se arrependa e procure melhorar sua conduta. 

Como será o reino de Deus? Conforme consta numa passagem do Evangelho de São Lucas (17:20-21), Jesus Cristo disse: "O reino de Deus não virá com aparato; nem se dirá: 'Ei-lo aqui, ou ei-lo acolá'. Porque eis que o reino de Deus está no meio de vós". O significado dessas palavras é o seguinte: O reino de Deus não pode ser visto "aqui" ou "acolá", no mundo material, pois ele existe dentro de nós mesmos, e o encontramos quando compreendemos que nossa Vida provém do Espírito de Deus que se alojou em nós. Assim sendo, não é possível descrever o aspecto do reino de Deus como se descreve o aspecto do mundo material. O reino de Deus existe dentro de nós mesmos, e o encontramos quando mudamos completamente o conceito acerca de nossa própria natureza.

Até agora, julgávamos o ser humano uma criatura cheia de pecados e prisioneira de seu próprio carma, e com esse pensamento vínhamos tolhendo a nós mesmos. Devemos nos libertar desse tolhimento, transcendendo o "eu fenomênico" cheio de pecados, e conscientizando verdadeiramente que o Espírito de Deus proveniente dos céus vive dentro de nós. Portanto, o nosso "Eu verdadeiro" não é o "corpo carnal" sujeito ao tolhimento e cheio de imperfeições, mas sim a Vida infinita presente em nós, proveniente de Deus. Só então podemos dizer que nos arrependemos verdadeiramente; só então podemos afirmar a nossa natureza divina, tal como o apóstolo Paulo expressou: "E vivo, não mais eu, mas é Cristo quem vive em mim". Cristo não é apenas uma pessoa de carne e osso que nasceu na Judeia há cerca de dois mil anos, mas sim uma expressão sublime da Verdade eterna, que surgiu na Judeia naquele tempo. O próprio Jesus Cristo disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14:6). Assim como Jesus Cristo, todo ser humano traz dentro de si a natureza divina eterna. No Evangelho de São João, lemos as seguintes palavras de Jesus Cristo: "Já não vos chamarei de servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo aquilo que ouvi de meu Pai" (João 15:15). Todos nós temos, latente, a mesma natureza divina de Jesus Cristo. E quando compreendemos isso, deixamos de ser servos e tornamo-nos irmãos e amigos do Cristo-Filho de Deus.


Parábola do mendigo e a riqueza oculta, contida na Sutra do Lótus

Todos nós temos, latente, a natureza divina eterna, mas não percebemos isso. Enquanto não nos damos conta de nossa natureza divina, somos meros servos de Jesus Cristo, mas quando despertamos para essa nossa natureza verdadeira, tornamo-nos amigos dele. 

Também no budismo (sutra do Lótus) há uma passagem que se refere à natureza divina latente do ser humano. Trata-se da parábola do mendigo e a riqueza oculta: Certa vez, um homem rico, que saiu para tratar de negócios, encontrou no caminho um velho amigo a quem não via há muitos anos. O amigo estava num estado deplorável: sujo, maltrapilho e macilento, parecendo não ter se alimentado há muitos dias. "Que foi que aconteceu com você? – perguntou-lhe o homem rico. "Estou desempregado e passando necessidade, como pode ver" – respondeu o amigo. Compadecido, o homem rico lhe disse: "Eu estava indo para tratar de negócios, mas não posso deixá-lo nesse estado. Vou levá-lo à minha casa, e oferecer-lhe almoço". Assim, o homem rico levou o amigo pobre para sua casa e mandou servir uma lauta refeição acompanhada de saquê. O amigo pobre, após comer e beber até saciar-se, acabou adormecendo. O homem rico, vendo que já estava na hora de sair para atender a um compromisso de negócio, sacudiu o amigo para acordá-lo, mas este continuou profundamente adormecido. O homem rico, que queria tirar o amigo da miséria, teve uma ideia e imediatamente colocou-a em prática: Descosturou um pouco a gola do casaco do amigo, colocou dentro dela uma pedra preciosa de grande valor, e refez a costura. "Pronto! Agora o meu amigo é dono desta pedra preciosa de grande valor. Basta ele apalpar a gola para descobri-la. Vendendo esta pedra, poderá conseguir muito dinheiro e refazer sua vida". 

Em seguida, o homem rico saiu para tratar de negócios, e quando ele voltou ao anoitecer, o amigo pobre já havia partido. Passaram-se alguns meses, e um dia o homem rico tornou a deparar com aquele velho amigo, o qual continuava sujo e maltrapilho como da vez anterior. Surpreso, o homem rico perguntou: "Que é que você tem feito de sua vida?", e o outro respondeu: "Como vê, continuo na miséria". "Não é possível" – disse o homem rico – "eu lhe dei uma pedra preciosa de enorme valor". "Não sei do que você está falando". "Examine a gola do seu casaco. Isso! Notou que há algo dentro dela, não é? Abra-a e verá que se trata de uma pedra preciosa de grande valor". E assim o amigo pobre, que se julgava sem um tostão, finalmente descobriu a pedra preciosa de valor incalculável que estava oculta dentro gola de seu casaco. 

Nesta parábola, a pedra preciosa de valor incalculável corresponde à natureza divina de que todos nós somos dotados. Embora tenhamos natureza divina, ela será inútil enquanto não conscientizarmos isso. Porém, a partir do momento em que despertarmos para nossa natureza divina, ela passará a manifestar infinitas virtudes.

Dentre todos os sutras budistas, o sutra do Lótus é o que contém a verdade mais profunda, que Sakyamuni guardou consigo durante quarenta anos e revelou por último. Nele consta a Verdade de que todos nós temos natureza búdica (ou seja, natureza divina), perfeita e eterna. O verdadeiro arrependimento consiste em compreendermos que não somos criaturas imperfeitas e pecadoras, mas sim seres dotados de natureza divina eterna. Parafraseando Jesus Cristo, podemos dizer: "Arrepende-te, pois o reino de Deus está aí mesmo, junto a ti", "Abre os olhos e vê, o paraíso está 'dentro da gola' de tua própria roupa". Quando descobrimos nossa natureza verdadeira, compreendemos que estamos no Paraíso, na Terra Pura, aqui mesmo neste mundo. 

Nosso "Eu Verdadeiro" não é o corpo físico, de duração limitada, que com o passar dos anos se desgasta e envelhece, e sim o ser espiritual dotado de natureza divina. O apóstolo Paulo disse: "E vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim". Quem não é cristão, não precisa mencionar "Cristo". Os budistas podem dizer "Buda vive em mim", e os seguidores do hinduísmo podem dizer "Brahma vive em mim". Qualquer que seja a religião, é fundamental que a pessoa desperte para a Verdade e compreenda que traz dentro de si a Vida de Deus. Esse despertar é a conversão, é o verdadeiro arrependimento; no budismo, é a iluminação, a libertação, a "obtenção da serenidade espiritual". 

Quando despertamos para nossa natureza divina, manifesta-se a força infinita, latente em nós desde o princípio. O que acontece quando se manifesta a força infinita? Naturalmente, passam a ocorrer efeitos correspondentes, beneficiando-nos em tudo: se estamos doentes, recuperamos a saúde; se temos problemas, encontramos a solução; se estamos com dificuldades financeiras, a situação melhora rapidamente, e assim por diante. Alguns riem, quando afirmo isto; dizem que acreditar nisso é crer numa magia. Porém, não se trata disso. Como podemos constatar em diversas passagens bíblicas, o próprio Jesus Cristo, pelo poder de sua força divina, curava os doentes e socorria os pobres. Quanto a resolver o problema de carência material, não consta alusão clara na Bíblia, mas isso fica subtendido em algumas passagens, como – por exemplo – aquela em que Jesus Cristo, após pregar para a multidão à margem do lago Genesaré, falou com Simão Pedro (que nessa época ainda era pescador), e aconselhou-o a "fazer-se ao largo e lançar a rede"; por terem seguido o conselho, Simão Pedro e seus colegas conseguiram apanhar "tão grande quantidade de peixes, que a sua rede rompia-se" (Lucas 5: 4-7). Eles obtiveram a fartura porque, ouvindo as palavras da Verdade que Jesus Cristo pregara, compreenderam que o ser humano traz dentro de si  Vida infinita e a capacidade ilimitada que o possibilitam conseguir todas as coisas necessárias para seu sustento.

Em Mateus 14: 17-21, Marcos 6:38-44 e Lucas 9:13-17, consta que Jesus Cristo, tomando cinco pães, multiplicou-os e distribuiu-os a cinco mil pessoas. Segundo as referidas passagens bíblicas, todos se saciaram e ainda sobraram doze cestos cheios de pães. Talvez haja quem duvide que possa acontecer tal milagre. Mas aconteceu. Assim é a religião. Ela transcende a matemática. A salvação que oferece transcende as leis matemáticas e as leis físicas, e por isso podemos dizer que é a verdadeira salvação, proporcionada por Deus. Enquanto estivermos presos ao mundo regido pelas leis físicas, onde prevalece a relação de causa e efeito, não podemos nos considerar verdadeiramente salvos. Alcançar a verdadeira salvação, proporcionada por Deus através da religião, consiste em transcender o mundo regido pela lei da causalidade e atingir o estado de liberdade total, pelo conhecimento da Verdade. Jesus Cristo disse: "A Verdade vos tornará livres" (João 8:32). Sendo ele próprio a personificação da Verdade, Jesus Cristo tem o poder de nos livrar do tolhimento da lei da causalidade e tornar-nos verdadeiramente livres. 

Se o único meio de nos livrarmos dos efeitos cármicos que acumulamos ao longo de nossas existências anteriores consistisse em irmos pagando um por um todos os erros e pecados do passado, não precisaríamos de religião. Bastaria nos esforçarmos incessantemente para acumularmos boas ações e irmos redimindo, pouco a pouco, os erros e pecados cometidos ao longo de nossas existências. Porém, como os efeitos cármicos também continuarão se acumulando, jamais conseguiríamos redimir todos os erros e pecados. Desse modo, jamais poderíamos alcançar a verdadeira salvação. Para alcançarmos a verdadeira salvação, precisamos nos libertar da "corrente cármica", e para isso é necessário arrependermo-nos verdadeiramente, ou seja, volver nossa mente para Deus e despertar para nossa natureza divina.


Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 75-84

domingo, novembro 15, 2015

A Essência e a forma dos Ensinamentos

- Núcleo -


Meu divino Amigo Gustavo,

Sei que os visitantes deste Templo dos Iluminados apreciam ensinamentos essenciais.

Aquele que na Representação aparece como o divino personagem Joel Goldsmith disse: "Enquanto Deus não for percebido como Vida, Mente e Alma do Ser, Deus permanecerá no plano do conceito."

Eis um ensinamento essencial, compartilhado por Joel Goldsmith, em perfeita sintonia com o ensinamento essencial contido na série “Viver o Eu Verdadeiro”.

A propósito: a série “Viver o Eu Verdadeiro” poderia bem intitular-se “Masaharu Taniguchi, ensinamentos essenciais.”

Permita-me aprofundar este tema. Na série “Viver o Eu Verdadeiro”, ele trata especificamente da essência, que é o Eu Verdadeiro, e ensina como podemos vivenciá-lo!

Sobre a essência, Masaharu Taniguchi escreve que: “Na essência, tudo e todos constituem uma unidade harmoniosa, mas no plano material não podemos evitar a sensação de que cada indivíduo é um ser separado dos outros, e traçamos limites tais como 'eu' e 'os outros', 'meu mundo pessoal' e 'o mundo dos outros'." 

Neste momento, vamos dar atenção a este ensinamento essencial, no qual nos é revelado que: “Na essência, tudo e todos constituem uma unidade harmoniosa...”. Esta é a realidade e a Vida do Eu Verdadeiro!

Agora vamos ao ensinamento essencial onde Masaharu Taniguchi diz: "Para manifestarmos a liberdade e a harmonia inerentes à Vida, é fundamental eliminarmos da mente o apego ao mundo das formas. Por isso, a Seicho-No-Ie enfatiza que 'a matéria não existe'. Precisamos compreender que a matéria não tem substância, passar pelo estágio de total negação do mundo das formas, e depois voltar a contemplá-lo com a mente sem nenhum apego. Então compreenderemos que, embora a matéria em si não tenha substância, por trás da forma material existe a Essência, livre e harmoniosa."

Esta afirmação é um ensinamento essencial que tem um objetivo específico, que o próprio Masaharu Taniguchi revela qual é: libertar da ilusão as pessoas apegadas às formas materiais. Mas ao se dirigir às pessoas apegadas à ideia de que "a matéria não existe", ele muda o procedimento, e explica assim: "Não estou afirmando que a matéria simplesmente não existe. O que pretendo dizer é que todas as coisas que vocês pensavam tratar-se de mera matéria, são, na verdade, manifestação da Vida de Deus, e, portanto têm de ser tratadas com muito amor".

Notem bem! A afirmação de que "a matéria não existe" é um ensinamento essencial cuja finalidade é “libertar da ilusão as pessoas apegadas às coisas materiais”. Notem que essa afirmação é uma PERCEPÇÃO do real, compartilhada por quem a tem! Da mesma forma a entoação do Namu Amida Butsu é uma PERCEPÇÃO do real, compartilhada por quem a tem!

No momento em que estas “percepções” passam a ser entendidas como meras idéias ou PENSAMENTOS, não mais atuam como “percepções”, não iluminam, não libertam.

Enquanto PERCEPÇÃO uma afirmação ("a matéria não existe" ou "Namu Amida Butsu") conduz à essência, ao desfrute da Vida do Eu Verdadeiro. Mas, enquanto PENSAMENTO a mesma afirmação prende o indivíduo à forma, ao mundo de aparência, e não mais conduz à essência, à Vida do Eu Verdadeiro. É por isso que na série "Viver o Eu Verdadeiro" Masaharu Taniguchi faz contraposição entre a essência e a forma, e esclarece sobre a importância de não nos apegarmos às formas, pois somente assim é que podemos apreender a realidade da essência.

Assim, quando Sakyamuni disse: Eu sou Buda, compartilhou a PERCEPÇÃO de sua real identidade e também a real identidade de todos os seres. O mesmo está expresso na PERCEPÇÃO compartilhada por Masaharu Taniguchi de que: “Na essência, tudo e todos constituem uma unidade harmoniosa”.

Porém, a mesma afirmação "Eu sou Buda", quando as pessoas a entoam como um PENSAMENTO (e não como percepção!) sobre quem são, essa afirmação apenas insufla o ego e é até bastante prejudicial. De igual modo, o mesmo Namu Amida Butsu capaz de libertar da ilusão das aparências pode passar a não mais conduzir à essência, e até atar o indivíduo ainda mais ao plano da forma, conduzindo ao eterno sofrimento.

Por isso, para as pessoas que deixaram de apreender a essência do nenbutsu, e passaram a recitá-lo no automatismo, como um mero pensamento, o mestre Nichiren afirmou que: "o nenbutsu conduz ao inferno do sofrimento eterno", e advertiu com energia que "aqueles que vivem entoando o nenbutsu de maneira meramente formal, acabam caindo no inferno". Masaharu Taniguchi esclareceu que Nichiren não era contra a prática no nenbutsu em si. O que ele condenava era a conduta das pessoas que se apegavam à entoação formal do nenbutsu e, por assim dizer, "suprimiam" o seu conteúdo vital (ou seja, se esqueciam da essência do ensinamento). A essas pessoas, o mestre Nichiren advertia que "acabariam caindo no inferno, se continuassem procedendo de tal forma"

Masaharu Taniguchi também disse que quando ensinava que "a matéria não existe", expressava uma percepção capaz de levar as pessoas à enxergar a essência por trás do mundo das formas. Mas, quando ele percebia as pessoas não captando o real significado da afirmação, mas apegando-se cegamente à ideia de que "a matéria não existe", mudava o procedimento/explicação a fim de reconduzir as pessoas à percepção do essencial. Ele diz: “ao me dirigir àquelas pessoas apegadas à ideia [ao PENSAMENTO] de que "a matéria não existe", explico assim: "Não estou afirmando que a matéria simplesmente não existe. O que pretendo dizer é que todas as coisas que vocês pensavam [notem! “que vocês PENSAVAM”] tratar-se de mera matéria [ele compartilha a PERCEPÇÃO de que] na verdade  são manifestação da Vida de Deus [Notem! Vida de Deus é essência, algo que só pode ser PERCEBIDO] e, portanto têm de ser tratadas com muito amor".

Por serem ensinamentos essenciais em perfeita harmonia, Masaharu Taniguchi disse que: “Não é possível apreender a essência das coisas, com a mente apegada à forma. No momento em que reconhecemos a forma material, estamos deixando de apreender a essência”. 

Joel Goldsmith disse que: “devemos conhecer Deus. Acreditar não basta; precisamos experienciar Deus; e, enquanto Deus não for percebido como Vida, Mente e Alma do Ser, Deus permanecerá no plano do conceito”. E concluiu: Vamos aceitar a revelação do Cristo [a PERCEPÇÃO compartilhada por Jesus Cristo] e repousar na consciência da ÚNICA PRESENÇA, PODER E VIDA. Somos seres espirituais, aqui e agora. Vamos acatar esta Verdade [como sendo a NOSSA PERCEPÇÃO], livrando-nos para sempre da crença de separação de Deus.

É o que PERCEBO, desfruto e também compartilho.

Namastê.


sábado, novembro 14, 2015

O princípio da Ciência Cristã (Goldsmith)


- Joel S. Goldsmith -


Sendo científica, a Ciência Cristã só pode ser praticada rigorosamente através de seus princípios e regras. Começa pela compreensão de Deus como única Causa. Todo desvio dessa regra resulta em falha na demonstração. Mary Baker Eddy baseou o seu ensinamento na totalidade de Deus e na nulidade de doença, pecado e morte.

Deus é a única Causa e tudo o que Ele criou é bom; portanto, todo mal ou coisa, que apareça ao senso finito, somente pode existir como ilusão, ou falso conceito da Realidade.

A Mente Imortal é a única Causa; portanto, doença não é causa nem efeito. Frente ao problema, devemos nos perguntar: “Que tenho em minha casa – consciência?”. Isto nos afastará do universo exterior, ou mundo do efeito, trazendo-nos à Fonte de todo o bem: nossa consciência. Tentar obter qualquer coisa do reino do efeito resultará em fracasso. Jesus disse: “O reino de Deus está dentro de vós”, e  “quando orardes, crede que já recebestes, e tê-lo-eis”.

Enquanto não percebermos que o assunto tratado já está em nossa consciência, iremos buscar num lugar em que ele nunca se encontra: fora de nós.

Precisamos nos esforçar para demonstrar e aprender a ganhar a consciência de todo bem. Ganhar esta consciência significa ganhar o bem em si. “Buscai, em primeiro lugar, o reino dos Céus e sua justiça, e tudo vos será dado por acréscimo”.

O que vem a nós, como resultado de nossa consciência do bem, permanece conosco eternamente. De fato, este bem jamais nos poderá ser tirado.

Como adquirir essa consciência de bem? Veja o que disse Jesus: “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir”. Tudo que nos for necessário irá aparecer, se mantivermos a consciência da verdade de que nós existimos como uma consciência que incorpora todo o bem, à qual nada pode ser acrescentado e da qual nada pode ser tirado.

O Princípio da Ciência Cristã

Antes acreditávamos no bem e no mal. O bem era atribuído a Deus e o mal ao diabo. Agora, aprendemos que o diabo não existe; mas estaríamos reconhecendo que não existe o mal? Não apenas mudamos o nome do diabo para “mente mortal”, hipnotismo ou xyzismo?

O ponto central é: Pelo reconhecimento da irrealidade da doença, do pecado e morte, você demonstra a totalidade de Deus.

Não estaria você trabalhando contra a ilusão, como se a crença fosse um poder real ou causa de condição errônea? Ou você está firme na maravilha da Ciência Cristã, que revela Deus, somente, como causa e criador, e que “não existem efeitos de outra causa”?

Não basta soltarmos a crença de que o diabo é a fonte do mal. Precisamos entender a revelação de que Deus é a única Presença e o único Poder, e todo o resto como simples ilusão. A realização de que toda aparência do mal é ilusão dissolve sua aparência.

Por que não pensamos mais? Por que aceitamos que, ano após ano, um poder humano ou material nos destrói? Por que, se sabemos que existe Deus, um poder espiritual que ultrapassa as discórdias mortais de toda espécie? Por que nos sentimos indefesos diante de germes, medicina, teologia humana, e perseguidores? Por que, se existe Deus, infinito poder do bem? Há só uma resposta: devemos conhecer Deus. Acreditar não basta; precisamos experienciar Deus.

O erro está na ideia de procurar Deus, comungar com Deus, orar a Deus, quando aquilo que está procurando ou orando É a Consciência divina destruindo o senso finito. A Verdade é o reconhecimento deste fato.

Não há outra Vida que não seja a Sua, nem outra Mente; deixe que a Vida viva por si; deixe que a Mente Se expresse. Deus não é algo apartado de você. Deus é a Substância, Lei, Vida, e É a Sua realidade. Religiões e filosofias têm dito muito SOBRE Deus. Apresentam seus conceitos, mas eles não são Deus em si.

Enquanto Deus não for percebido como Vida, Mente e Alma do Ser, Deus permanecerá no plano do conceito. A Verdade revela Deus como Mente individual, como sua Mente. Revela o “Eu” de você como Deus. Não está “lá fora” para ser contatado ou receber orações. Deus é o “Eu”, o Princípio ou Alma, a Vida de seu ser. Deus, como sua Mente, pode Se expressar perfeitamente.

Deixe, apenas; repouse, apenas. Somente a Consciência espiritual revela que não há ilusão. Não caia no erro de acreditar que a Ciência Cristã cure doenças. NÃO HÁ ILUSÃO. Deus é onipotente.

Vamos aceitar a revelação do Cristo e repousar na consciência da ÚNICA PRESENÇA, PODER E VIDA. Somos seres espirituais, aqui e agora. Vamos acatar esta Verdade, livrando-nos para sempre da crença de separação de Deus.


quinta-feira, novembro 12, 2015

Viver o "Eu Verdadeiro" - 3/3

- Masaharu Taniguchi - 


O que foi dito até aqui em relação à religião aplica-se também ao ser humano. Nosso organismo, que é constituído de incontável número de células, mantém-se vivo graças ao processo em que as células envelhecidas vão sendo substituídas uma a uma, por novas células. Como todos sabem, cada vez que lavamos o rosto ou tomamos banho, as células envelhecidas da pele, que foram substituídas por novas, se desprendem e são eliminadas. Da mesma forma que surgem células novas para revigorar os tecidos celulares, novas seitas surgem para intensificar a divulgação da Verdade.

Foi para isso que surgiu a Seicho-No-Ie, e embora pareça diferir das religiões tradicionais, a essência do seu ensinamento é a mesma Verdade que elas pregam. A Verdade é eternamente imutável, é a mesma Verdade da Vida Eterna que permanece inalterável desde os tempos de Sakyamuni, mas a forma de expressá-la deve modificar-se de acordo com a época; caso contrário, não é possível vivificar cada época. Assim, a essência da obra A Verdade da Vida é a Verdade eterna, a mesma que as religiões tradicionais vêm pregando, mas devido à forma inovadora com que é apresentada, toca com maior intensidade a geração moderna, e suscita nos leitores uma grande transformação interior, que propicia a cura rápida das doenças.

Analisando a história da evolução do ensinamento da Seicho-No-Ie, constatamos que a forma de pregar a Verdade passou por muitas modificações desde a publicação do primeiro exemplar da revista Seicho-No-Ie até o presente, e que o objetivo das modificações tem sido sempre o de facilitar a compreensão da Verdade, de acordo com as peculiaridades de cada época. A grandeza do ensinamento da Seicho-No-Ie está justamente em adotar diferentes modos de expressão. Usar diferentes formas de expressão é um procedimento necessário. É por isso que redijo mensalmente para a revista Seicho-No-Ie artigos com mensagens da Verdade, introduzindo modificações na forma de expô-las sempre que isso se faz necessário. É preciso que o leitor leia com atenção os artigos e capte a corrente de uma só Verdade que flui em todos eles, não obstante as diferentes formas de expressá-la. 

Vez por outra, algumas pessoas me dizem: "Professor, num artigo o senhor diz uma coisa, e noutro, algo bem diferente. Isso não é uma incoerência?". Porém, mesmo que minhas afirmações pareçam incoerentes, na essência elas não o são. Para que as pessoas com a mente presa a determinadas ideias despertem para a Verdade da Vida, faço afirmações aparentemente contraditórias. 

Por exemplo: para as pessoas que pensam que "a doença ocorre devido a causas orgânicas", afirmo categoricamente que "a doença ocorre devido à atitude mental errônea", para desfazer a ilusão. Mas, ao saber que a mente é causadora da doença, algumas pessoas tornam-se obcecadas por essa ideia e passam a viver angustiadas por não conseguirem melhorar a atitude mental, apesar de se esforçarem. Para essas pessoas, afirmo: "Assim como o corpo, a mente também não existe". Então, alguns comentam, perplexos: "Afinal, o que será que o Prof. Taniguchi está querendo nos dizer? Ora afirma que a mente é a causadora das doenças, ora afirma que a mente não existe...". Pois digo que ambas as afirmações são verdadeiras. A mente negativa, causadora de doença, é mente em ilusão, que não existe de verdade. E a doença, sendo manifestação da "mente que não existe de verdade", também não é existência real. Portanto, não há nenhuma contradição em minhas afirmações. Mas aqueles que se atêm à forma de expressão e não conseguem entender a Verdade contida em minhas palavras, julgam-me incoerente. Então, para conduzi-los à compreensão da Verdade da Vida, faz-se necessário mudar mais uma vez a forma de expressão e dizer: "Não existem nem o corpo, nem a mente. Somente a Imagem Verdadeira existe de verdade". Palavras escritas e expressões verbais são expedientes e formas a que recorremos para libertar as pessoas em estado de ilusão, apegadas a determinadas ideias ou crenças.

"A matéria não existe. Todas as coisas materiais são sombras (projeções) da mente; portanto, podem surgir ilimitadamente dependendo da atitude mental." – Ouvindo esta afirmação, algumas pessoas pensam: "Os bens materiais não têm existência própria, são todos produtos da mente e, como surgem ilimitadamente conforme os projetamos, podemos esbanjá-los à vontade", deixando-se levar pela ideia fixa de que "a matéria não existe". Tais pessoas também se atêm à forma de expressão, sem perceber que ela não passa de expediente para conduzi-las à compreensão da Verdade. Para libertar da ilusão as pessoas apegadas às coisas materiais, afirmo que "a matéria não existe"; mas, ao me dirigir àquelas apegadas à ideia de que "a matéria não existe", explico assim: "Não estou afirmando que a matéria simplesmente não existe. O que pretendo dizer é que todas as coisas que vocês pensavam tratar-se de mera matéria, são, na verdade, manifestação da Vida de Deus, e, portanto têm de ser tratadas com muito amor". 

Para pregar a Verdade, é preciso usar de expedientes adequados, de acordo com as pessoas. Assim, ouvindo a explicação acima, as pessoas que desperdiçavam muitas coisas por pensarem que "a matéria é vã" tomam consciência de que em tudo está presente a Vida de Deus e passam a usar da maneira mais proveitosa, com espírito de reverência, até mesmo uma simples folha de papel. Em última análise, o essencial é fazer com que as pessoas despertem para a Verdade de que em todas as coisas está presente a Vida de Deus. E o livro que usa livremente as mais diversas formas de expressão para conduzir os leitores a esse despertar é A Verdade da Vida.

Para se auto-expressar, a Vida cria forma, rompe as formas já criadas e gera novas formas, num processo incessante. Assim é a manifestação da Vida. Saibamos que o desenvolvimento de processa pela incessante renovação. Seja na literatura, na religião ou nas artes plásticas, a evolução ocorre pela constante renovação das formas: criam-se formas, rompem-se com as que se tenham tornado padrões e criam-se novas. E assim, pela constante renovação das formas, a Vida se manifesta com novo impulso. O importante não é a forma, e sim a Vida. 

Algumas religiões florescem durante certa época mas acabam se tornando inadequadas por não conseguirem se renovar, rompendo as formas ultrapassadas. Todas as formas sofrem modificações com o decorrer do tempo; são rompidas e substituídas por outras. Mas por trás dessa aparência fenomênica de transitoriedade existe a Vida eterna, que flui incessantemente, sem sofrer nenhuma alteração. E é preciso captar o incessante e vigoroso fluxo de Vida, transcendendo o aspecto fenomênico mutável. Compreender a transitoriedade das coisas deste mundo e entregar-se à tristeza não é despertar para a Verdade. O despertar consiste em descobrir a Vida que flui incessantemente, por trás da aparente transitoriedade.


Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 67-72

terça-feira, novembro 10, 2015

Viver o "Eu Verdadeiro" - 2/3

- Masaharu Taniguchi -


Também no tocante à religião, não devemos nos apegar à forma. 

O "despertar" não é visível aos olhos físicos. Não é possível captar com os olhos físicos a Verdade, o que existe realmente. Por isso, não podemos explicá-la com palavras que exprimem coisas visíveis. Mesmo que tenhamos apreendido "o que existe de verdade" – a Imagem Verdadeira –, não é possível expressá-lo com a linguagem de uso cotidiano, com que exprimimos as coisas do mundo fenomênico. A palavra, por ser vibração emanada a Deus, tem o poder de expressar a Verdade. Porém, por meio do vocabulário de uso comum, isso é muito difícil. Entretanto, pelas vibrações das palavras do orador é possível aos ouvintes alcançar o despertar espiritual. Como as vibrações variam conforme o orador, as mesmas palavras podem causar diferentes impressões ao ouvinte. Isso significa que o que importa é a essência, e não a forma

Ouve outrora um mestre zen budista chamado Gutei. Sempre que alguém em busca do aprimoramento espiritual lhe pedia para explicar o que era o despertar espiritual, ele levantava o dedo polegar, como uma forma de representá-la. Então, um monge noviço passou a fazer o mesmo gesto. Porém, embora o gesto de ambos fosse aparentemente o mesmo, havia uma enorme diferença na essência, pois, enquanto que o gesto do mestre Gutei representava o  despertar espiritual, o do noviço não passava de imitação da forma. O despertar espiritual é invisível, é algo que transcende a forma, e para expressá-lo recorre-se a diversos meios de expressão. Em alguns casos, o orientador levanta o um dedo ou até mesmo bate na pessoa com um bastão; em outros, recorre a diversas formas de expressão verbal. Mas quando passa a haver apego à forma, esta deixa de exprimir a Vida. nesse caso, ainda que se use as mesmas expressões, a essência diferirá tanto quanto diferiam a essência dos gestos aparentemente iguais do mestre e do noviço, no exemplo citado.

Quando se fica preso a velhas formas, fatalmente ocorre esvaziamento do conteúdo. Isto se aplica também à religião. Por exemplo, pregando-se o ensinamento de Buda sempre com as mesmas formas de expressão, a doutrina tenderá cada vez mais ao formalismo e deixará de transmitir a Vida em si. Assim, a religião se torna formal. Ao longo da história da humanidade surgiram muitas seitas religiosas, e cada qual em sua época contribuiu para a salvação dos povos. Porém, com o passar do tempo, foram se esvaziando, "perderam a Vida", e acabaram mantendo apenas a "forma", ou seja, os rituais. Devido a isso, chegou a surgir a ideia errônea de que a religião se resume em rituais. 

No tocante ao budismo, desde o surgimento de Sakyamuni até os dias atuais, apareceram ao longo dos anos muitos grandes mestres, tais como Kobo, Dogen, Shinran, Nichiren, que fundaram suas próprias seitas, e cada um deles alcançou o despertar espiritual e expressou-o de forma mais adequada para si próprio e para a época e lugar em que viveu. Porém, com o passar do tempo, muitas das antigas religiões foram se tornando cada vez mais formais, até acabarem perdendo a essência e ficarem apenas com a forma externa (rituais). Quando as velhas religiões se tornam formais e perdem o poder de salvar o povo, surgem outras novas, como comprova a própria história das religiões. É natural que, quando uma religião até então dominante acaba se tornando mera forma sem conteúdo, surjam novas religiões mais adequadas para a época, com o poder de dar novo impulso à Vida. A forma como expressamos o despertar espiritual não é o despertar espiritual em si. Embora não seja possível palpar ou dar forma ao despertar espiritual, que é a manifestação da Vida em constante movimento, valemo-nos de expedientes e recorremos a formas (palavras) para expressá-lo. Ao tentarmos expressar o despertar espiritual sob uma forma concreta, damos margem ao surgimento de apego à forma. Por isso, se julgarmos que a forma de expressão do despertar espiritual seja a religião, cometeremos erros. Conseguimos apreender a Vida nas formas através das quais ela se expressa. Mas o despertar espiritual, em si, transcende as formas de expressão. 

Para continuar exprimindo a Vida através dos tempo, é preciso criar constantemente novas formas e, ao mesmo tempo, romper com as formas já ultrapassadas. Religião que não procura introduzir modificações, acaba "se esvaziando", tornando-se religião formal, e cedo ou tarde é suplantada por outras religiões mais dinâmicas. Desde os tempos remotos, têm sido frequentes o surgimento de novas seitas e a ocorrência de reformas religiosas, o que comprova a necessidade de constantes inovações. Somente as religiões que evoluem incessantemente, introduzindo reformas necessárias, conseguem permanecer eternamente vigorosas. Mesmo que se pratique uma determinada forma de pregar o ensinamento, considerada a melhor para uma determinada época, não se deve continuar apegado indefinidamente a ela. Se não foram introduzidas modificações adequadas, com o passar do tempo essa forma de pregar acaba se tornando uma teoria vazia; uma forma sem conteúdo, e perde o poder de transmitir a Vida.

No passado, o grande mestre Shinran, fundador da seita budista Jodo-Shinshu, afirmou que "para se alcançar a salvação, basta invocar Buda dizendo namu-amida-butsu". Isso porque para ele, na época e no lugar em que viveu, aquela era a melhor forma de expressar a Verdade que alcançara com o despertar espiritual. Para ele, aquela afirmação tinha suma importância, pois dizer namu-amida-butsu significava expressar a fé absoluta em Buda e a confiança total em sua infinita misericórdia. Porém com o passar do tempo, muitas pessoas esqueceram o verdadeiro sentido de entoar namu-amida-butsu e passaram a pensar que "dizendo simplesmente namu-amida-butsu, consegue-se alcança a salvação, independente de atos e de pensamentos". Isto é, passaram a se apegar à forma, distanciando-se por completo, da essência do ensinamento de Shinran. 

Conforme expliquei nos capítulos anteriores, o monge Gutei levanta um dedo para representar a Verdade, e seu aprendiz imitava esse gesto; embora o gesto fosse igual, o "conteúdo" diferia completamente. Por isso, o monge Gutei tomou medida drástica cortando o dedo desse aprendiz. Procedeu de modo igualmente drástico o grande mestre Nichiren (Fundador da seita Nichiren, que surgiu depois de Shinran), quando afirmou categoricamente: "Se entoarem o nembutsu (namu-amida-butsu), cairão no inferno da tortura incessante". Com esta afirmação, o grande Nichiren pretendeu "cortar" a ilusão das pessoas, do mesmo modo que o monge Gutei cortou o dedo do aprendiz (que lhe imitava apenas o gesto). Nichiren não considerava o nenbutsu como um mal; mas, censurou energeticamente a sua entoação formal, visando vivificar seu significado. A partir do momento em que as pessoas passaram a pensar "entoando o namu-amida-butsu, seremos salvos, qualquer que seja a nossa atitude mental", e começaram a praticar a mais variadas formas de iniquidades, o ato de entoar o nenbutsu tornou-se meramente formal e perdeu o poder de purificar o ser humano. O sublime significado do nenbutsu está em fazer com que a pessoa se deixe envolver completamente pela força purificadora de Amida-Buda, e deixe de sentir a necessidade de buscar a salvação por outros meios.

Certa ocasião, o jornal Chugai-Nippo efetuou uma estatística concernente aos criminosos que cumpriram pena no presídio de Osaka, e constatou que a maioria deles eram adeptos da Shinshu. Porém, não sepode atribuir a culpa ao ensinamento do mestre Shinran, fundador da seita. O ensinamento do mestre Shinran é muito bom, mas, com o decorrer do tempo, muitos adeptos passaram a entoar o namu-amida-butsu apenas formalmente, esquecendo a essência do ensinamento do mestre, contida nessa sutra. Acreditando que basta dizer namu-amida-butsu para alcançar a salvação, tais adeptos não procuram levar uma vida correta. O fato constatado na estatística efetuada no presídio de Osaka é uma das consequências dessa tendência. Quando o povo passou a entoar o namu-amida-butsu apenas formalmente, tornou-se necessário o surgimento de alguém que lhe abrisse os olhos. Esse alguém foi o grande mestre Nichiren. Ele foi a pessoa enviada pelo Supremo Salvador do Universo, para conduzir o povo japonês à salvação, atendendo às necessidades daquela época. 

O mestre Nichiren afirmou: "O nenbutsu conduz ao inferno do sofrimento eterno; o zen é um ato do demônio; o budismo Shingon arruína o país; e os adeptos do budismo Risshu são traidores da nação". Ele advertiu com energia que aqueles que vivem entoando o nenbutsu de maneira meramente formal, acabam caindo no inferno. Nichiren não era contra a prática do nenbutsu, em si. O que ele condenava era a conduta das pessoas que se apegavam à entoação formal do nenbutsu e, por assim dizer, "suprimiam" o seu conteúdo vital (ou seja, se esqueciam da essência do ensinamento). A essas pessoas, ele advertia que "acabariam caindo no inferno, se continuassem procedendo de tal forma". Certamente, os adeptos da Shinshu, que constituíam a maioria dos criminosos presos na penitenciária de Osaka, segundo a estatística efetuada pelo jornal Chugai-Nippo, eram pessoas que entoavam o nenbutsu em vão, esquecendo a essência do ensinamento de Shinran.

Este é um exemplo do efeito nocivo do apego à forma, no que concerne à religião. O apego à forma implica em negligenciar a Vida (a essência). Assim, os sucessivos surgimentos de novas religiões são resultados do esforço para romper velhas formas e manifestar a Vida (a essência) com vigor renovado.


Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 61-67

domingo, novembro 08, 2015

Viver o "Eu Verdadeiro" - 1/3

- Masaharu Taniguchi -


No budismo, existe a expressão "Shin-nyo", que às vezes é usada simplesmente como "nyo". O ideograma da palavra "Shin" signfica "Verdade"; e o ideograma da palavra "nyo" significa "o que é autêntico". Portanto, "Shin-nyo" significa "aquilo que é verdadeiro, que é autêntico", ou seja, o "Eu verdadeiro". 

Será nosso "Eu verdadeiro" a nossa imagem manifestada como corpo carnal? Não, porque o corpo carnal, embora seja o que é visível aos olhos, não é o que existe realmente. O "Shin-nyo" (o nosso "Eu verdadeiro"), que existe realmente, não é visível aos olhos físicos. O corpo carnal é visível, mas o "Eu verdadeiro" não o é. Não é possível ver com os olhos físicos o aspecto verdadeiro. O que é preciso fazer para conseguir vê-lo? O aspecto aparente é visto através do órgão visual constituído de globo ocular, nervos ópticos, retina, etc. Mas o aspecto verdadeiro, invisível aos olhos físicos, só pode ser apreendido quando "desligamos" o aparelho visual do corpo carnal. Somente quando "desligamos" o globo ocular, os nervos ópticos, e até mesmo o cérebro, e chegamos diretamente à essência, conseguimos apreender o "Eu verdadeiro". Apreender o "Eu verdadeiro", a Imagem Verdadeira – isso é alcançar o despertar. 

Como foi dito acima, não é possível ver o "Eu verdadeiro" com o sentido da visão. Portanto, dizer que a Verdade tem esta ou aquela forma, como se fosse algo que possa ser definido a partir de uma analogia, é rejeitar a própria Verdade.

Não é possível apreender a essência das coisas, com a mente apegada à forma. No momento em que reconhecemos a forma material, estamos deixando de apreender a essência. Na essência, tudo e todos constituem uma unidade harmoniosa, mas no plano material não podemos evitar a sensação de que cada indivíduo é um ser separado dos outros, e traçamos limites tais como "eu" e "os outros", "meu mundo pessoal" e "o mundo dos outros". Enquanto sentimos assim, não podemos ser verdadeiramente livres. Havendo tais limites separando as pessoas, cada qual fica restrita à sua "área", e quem pretender ampliar seu território fatalmente entrará em conflito com os outros. Enquanto tivermos a mente voltada para o mundo das formas, não poderemos evitar conflitos.

Para manifestarmos a liberdade e a harmonia inerentes à Vida, é fundamental eliminarmos da mente o apego ao mundo das formas. Por isso, a Seicho-No-Ie enfatiza que "a matéria não existe". "Apreender a insubstancialidade das coisas" significa extinguir da mente a imagem do mundo das formas. No budismo, fala-se muito em "insubstancialidade". Usando a linguagem do budismo, podemos afirmar o seguinte: Precisamos compreender que a matéria não tem substância, passar pelo estágio de total negação do mundo das formas, e depois voltar a contemplá-lo com a mente sem nenhum apego. Então compreenderemos que, embora a matéria em si não tenha substância, por trás da forma material existe a Essência, livre e harmoniosa.

Contudo, existem pessoas que se fixam de tal modo na ideia de "insubstancialidade da matéria" a ponto de pensar que "nada neste mundo importa, pois a matéria é vã", e perdem a liberdade da mente. Isto também é uma forma de apego. Conforme disse antes, uma vez que tivermos compreendido que a matéria não tem substância e tivermos eliminado o apego ao mundo das formas, devemos tornar a vê-lo tal como ele se apresenta, contemplar com sentimento de gratidão a essência que existe por trás do aspecto material, e voltar a levar uma vida verdadeiramente livre de apegos, conforme a vontade do "Eu verdadeiro".

Tenho aqui um relógio. Vamos supor que cada um de nós seja uma peça de sua engrenagem. Se uma peça da engrenagem pensasse "movendo-me incessantemente, sofrerei desgaste; vou tratar de me preservar, para não me desgastar" e resolvesse parar, ocorreria atrito com outras peças, e aí é que ela sofreria, de fato, um sério desgaste. O mesmo acontece com o ser humano. Se estamos tolhidos pela sensação de "isolamento material" entre nós e os outros, proveniente da ideia de delimitar o campo de atuação da "peça de engrenagem", que se chama "eu", precisamos abandonar essa ideia causadora de tolhimento. Precisamos nos conscientizar de que "não existe peça de engrenagem denominada eu". Devemos compreender que, embora pareça existir a peça de engrenagem chamada "eu", ela não existe por si só. O que existe é o "todo", que, no exemplo do relógio, corresponde ao mecanismo geral. O "eu" só existe em função do "todo". O fabricante de relógios não fabrica peças de engrenagem para fazê-las funcionar isoladamente, e sim como parte do mecanismo do todo. 

Cada um de nós é comparável a uma peça de engrenagem de um relógio. Precisamos abandonar a ideia de que "cada indivíduo existe independentemente dos outros e tem o direito de viver apenas em função de si mesmo"; devemos abandonar o pensamento egocêntrico de querer viver apenas em função do nosso "eu" – que na verdade não existe –, de tentar traçar limite entre nós e os outros, e compreender que a "peça de engrenagem, por si só, é como se não existisse; existe unicamente o relógio, como um todo", ou seja, compreender que "cada um existe em função do todo".

Comparando cada ser humano à peça da engrenagem de um relógio, podemos dizer que, na maioria dos casos, reconhecemos apenas a existência de "peças" e esquecemos a existência do "relógio". Isto é, reconhecemos nossa existência como "indivíduos", mas esquecemo-nos da existência do universo, da nação e da humanidade, que é o "todo". Por isso, tendemos a nos preocupar somente conosco mesmos. Isso é ilusão. Devemos deixar de nos preocupar apenas com as "peças de engrenagem", ou seja, indivíduos – conscientizando-nos de que "as peças só existem em função do aparelho todo", isto é, "os indivíduos existem em função do universo, da nação e da humanidade, que é o todo".

O ser humano enquanto indivíduo, visível aos olhos físicos não existe de verdade. O que existe de verdade é a humanidade, a nação, a Vida do Grande Universo. É necessário compreender isso. Devemos compreender que não existe o "eu" isolado do todo; devemos nos conscientizar da nossa "insubstancialidade". Porém, isso não significa passar a ter pensamentos tais como: "Não importa o que possa acontecer comigo, pois eu não sou existência verdadeira". Pensar desse modo é como emperrar a peça de uma engrenagem, ou seja, ficar com a mente tolhida pela ideia errônea acerca da "inexistência do eu isolado do todo". Tal ideia dificulta o bom funcionamento do todo, da mesma forma que uma peça de engrenagem, ao ficar emperrada, impede o bom funcionamento total do relógio. 

Comparando-nos a peças da engrenagem de um relógio, podemos dizer o seguinte: antes de mais nada, devemos compreender que "as peças existem em função do aparelho todo; portanto, somente o relógio existe de verdade". Uma vez que tivermos compreendido isso, devemos executar plenamente nossas funções no "mecanismo do relógio como um todo", sem criar atritos. Assim, o "relógio" funciona perfeitamente, e as "peças", por sua vez, não se desgastam e têm longa vida. Devemos, pois, compreender que não existe o "eu fenomênico" – um indivíduo independente do todo –, e sim o "Eu verdadeiro" que é parte do universo infinito. Nisso consiste o redescobrimento do "Eu". Trata-se de deixar o "eu fenomênico" e encontrar o "Eu verdadeiro"; portanto, pode-se dizer que é o "renascimento", de que Jesus Cristo falou a Nicodemos. Levando uma vida norteada pelo conhecimento dessa Verdade, podemos nos harmonizar com todas as coisas do céu e da terra.

Também no tocante à religião, as pessoas devem corrigir a atitude mental de tentar preservar apenas "uma peça de engrenagem" (ou seja, exaltar somente sua própria religião). Quando as pessoas se deixam levar pelo sectarismo religioso, decorrente do apego ao "eu" – ou seja, ideias tais como "minha religião cristã", "minha religião budista", "minha religião xintoísta", etc. –, tornam-se inevitáveis os choques entre o xintoísmo e o budismo, o budismo e o cristianismo, etc. Cada seita, não querendo perder seus adeptos, acaba entrando em conflito com outras seitas.

É preciso saber que nem o cristianismo, nem o budismo, nem o xintoísmo tem mérito exclusivo. Religião é a força salvadora da Grande Vida do Universo, que se manifestou para despertar a verdadeira natureza de nossa Vida e fazer com que ela se revele plenamente. A própria ação da Grande Vida do Universo é a religião. Portanto, é errônea a ideia de que somente uma religião – o cristianismo, o budismo, o islamismo, etc. – deve prosperar. Todas as boas religiões merecem prosperar. Mas aquelas que se corromperam e deixaram de atuar no sentido de vivificar a humanidade, certamente não merecem prosperar. Todas as lutas sectárias acabarão, se as pessoas, também no tocante à religião, abandonarem o "apego egoístico" e passarem a agir de modo a vivificar o todo. 

Em tudo neste mundo, quando ocorre apego à forma, torna-se impossível a manifestação plena da Vida. Na medida em que nos apegamos a ela, a manifestação da Vida vai enfraquecendo. É verdade que as formas são meios para manifestarmos a Vida, mas quando nos apegamos a elas e tornamo-nos seus escravos, a Vida deixa de se manifestar através delas. Isto se aplica também à religião. Qualquer que seja a religião, deixa de manifestar a Vida quando os adeptos se distanciam do mestre-fundador e, apegando-se às formas, entram em conflito com outras religiões, dizendo: "Sou cristão, e somente a minha religião é a  verdadeira", "sou budista, e somente o budismo é a verdade", etc. Também nas artes plásticas e na literatura, quando o artista ou o escritor passa a se apegar à forma, deixa de produzir obras que manifestem a Vida. Embora a Vida se expresse de uma forma adequada ao tipo de material empregado, não devemos nos apegar à forma. Devemos ir rompendo constantemente as formas criadas e elevando-nos para estágios mais avançados. Nisso consiste o crescimento infinito da Vida. E é assim que o artista consegue aprimorar cada vez mais a sua arte.


Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 55-61

sexta-feira, novembro 06, 2015

"Quem somos" na Realidade e na Representação

- Gustavo -


Na postagem anterior, o nosso amigo SERgio fez o seguinte comentário:

Isso é o que precisamos "treinar"! 
Perceber sem a interferência da mente comum. 
Perceber "além" ou "através" das aparências. 
Perceber, a partir da Consciência que somos, que tudo é a mesma Consciência.
Pode não ser fácil para aquele cuja a Consciência não aparece como "ser humano desperto". 
Até mesmo os tidos como "acordados" (e eu estive com alguns), quando conversamos fora do "contexto de Satsang", como normalmente é chamado, a conversa fluía em termos de visão comum. Claro que para ficar "utilitário" fora (talvez) necessário.
"Alguém" poderia discorrer mais sobre isso.
Talvez o Silvano, ou você mesmo Gustavo... ou "outro". 
Reverências!

Atendendo ao pedido d'Aquele que aparece como o nosso querido amigo, seguem considerações sobre algumas questões importantes relativas ao conteúdo do texto anterior, de Joel Goldsmith:

Caro SERgio,

Este texto de Goldsmith é realmente profundo! Não me surpreende que um texto dessa magnitude tenha chamado sua atenção para nos proporcionar uma reflexão do que ele contém.

Eu escolhi esse texto de Goldsmith porque ele complementa e enfatiza (com palavras diferentes) o que foi dito por Masaharu Taniguchi nos parágrafos finais do post anterior.

Uma verdade essencial a ser assimilada, por nós que buscamos a Verdade, é que a visão do Todo (aquilo que chamamos de Eu) somente emerge em nossa percepção quando conseguimos levar em consideração todos os nossos irmãos (ou seja, o "outro"). A Verdade que buscamos para nós deve incluir em si todos os seres, sem exceção. Somente assim é que surge a percepção do Eu. A mente egoica, visando manter a separação entre "eu" e o "outro", tende a querer associar a Verdade com aquele "eu" e não levar em consideração o "outro". Dessa forma, a percepção do Eu não pode emergir. O sentido de "Eu" somente surge quando nossa percepção da verdade inclui  tanto o "eu" quanto o "outro". Numa equação simples, Eu = "eu" + "outros". Desaparecendo a linha ou fronteira que separa o "eu" e o "outro", surge o Eu que "aparece como" todos.

Manter o "outro" separado do "eu" é uma das estratégias do ego para nos manter presos na mente. 

Por isso, Masaharu Taniguchi disse:

"Para fazermos ressurgir o paraíso, não basta reconhecermos a nós próprios como sendo um 'ser espiritual', um ser divino dotado de Vida eterna e, portanto, digno de habitar o jardim do Éden. É preciso contemplar todas as pessoas como sendo filhos de Deus, dignos de viver no paraíso. Jesus Cristo disse: 'Quem não reverencia o filho de Deus, não reverencia o Deus-Pai'. Aquele que não é capaz de reverenciar o ser humano como filho de Deus, também não é capaz de reverenciar verdadeiramente o Deus-Pai que rege o universo. Enquanto não formos capazes de reverenciar todas as pessoas, não poderemos fazer com que este mundo se transforme em paraíso. Despertar para a Verdade de que 'o homem é filho de Deus' não é conscientizar-se apenas da natureza divina de si mesmo, mas sim compreender que 'todas as pessoas são filhos de Deus' e viver em harmonia com todos, amando-os e reverenciando-os."

Por sua vez, Goldsmith diz que: 

"... dar falso testemunho contra o próximo é declarar que ele é humano, finito, que tem falhas, e que é menos do que o filho de Deus. Violando essa lei cósmica, atraímos nossa própria punição, porque a verdade que diz respeito ao 'outro', diz respeito também a 'mim', uma vez que há somente um Eu e um Ser. A única maneira de evitar falso testemunho contra o próximo é perceber que o Cristo (filho de Deus) é nosso próximo, que nosso próximo é um ser espiritual, exatamente como nós. Ele pode não saber, nós podemos não saber, mas a verdade é: Eu Sou o Espírito, Eu Sou a Alma, Eu Sou a Consciência, Eu Sou Deus Expresso - assim como o nosso próximo."

Essa é a visão que devemos treinar, exercitar, buscar manter sempre conosco.

O interessante a se notar é que: para os que são "acordados" (iluminados), não existe pessoa ou ser que não seja iluminado. Um ser desperto vê/percebe todos os outros seres como estando despertos. Em outras palavras, percebe somente a Si mesmo. Ele pode até conversar frente-a-frente com um indivíduo não-desperto, pode tentar auxiliar esse indivíduo a tornar-se desperto, mas não levará isso a sério. Ele estará apenas "jogando", ou seja, apenas interagindo na representação.

A percepção iluminada é absoluta. Quando ela se realiza em você, simultaneamente se realiza em todos os seres, iluminando tudo. Ao se tornar consciente, você também perceberá todos os seres estando conscientes. Isso ocorre porque você é um universo inteiro e infinito. Por exemplo: suponhamos que eu não esteja iluminado, e me encontre com você que está iluminado. Nesse caso, haverá a presença de dois universos infinitos - o meu universo e o seu universo. Se você estiver iluminado, eu (que estou aparecendo no seu universo) estarei iluminado. Se o seu universo estiver iluminado, eu estarei iluminado para você. Você me perceberá assim porque estará vendo do referencial do seu universo, que inclui a mim. E eu, permanecendo no referencial do meu universo, não poderei perceber a mim nem a você como iluminados, enquanto o meu universo não se iluminar. 

O modo como o meu universo se torna iluminado não se dá de modo objetivo (com mudanças exteriores ocorrendo nele), e sim de modo subjetivo (quando eu obtenho uma certa percepção dele). Se você olhar pela janela e quiser ver a paisagem da cor vermelha, não precisa empreender o duro trabalho de pintar todo o cenário de vermelho, basta colocar um óculos com lentes vermelhas e a paisagem toda se torna vermelha instantaneamente. De modo análogo, é assim que o universo se torna iluminado para nós: quando iluminamos a nossa percepção.

Joel Goldsmith diz que "Deus aparece como o Ser individual", e que o Ser individual compreende o infinito, a totalidade do universo inteiro. É por isso que cada um de nós somos esse Ser Individual, esse Universo infinito. Tudo o que precisamos fazer é iluminar a percepção que temos do universo que somos.

E o que fazer para iluminar a percepção que temos de nosso universo?

Primeiro precisamos compreender uma verdade essencial acerca de Quem realmente somos (quando não levamos em conta a existência da Representação), e também de Quem somos (quando levamos em conta a presença da Representação).

O Ser que verdadeiramente somos existe desde "antes que a Representação existisse", e existe como um Ser absolutamente puro, iluminado, imaculado, sagrado e perfeito. É a nossa Identidade Celestial, em que Deus-Pai (Ser Universal) aparece como o Filho (Ser Individual). Nessa Realidade (que existe antes da Representação), Deus-Pai e o Filho são exatamente a mesma coisa, o mesmo Ser. Tudo o que Deus é, nós, enquanto Filhos de Deus, também o somos. Deus compartilha conosco tudo quanto Ele é e tem. Nossa Realidade e Identidade celestiais é uma existência gloriosa. Essa é a Verdade exata e imutável sobre de cada um de nós enquanto Seres "anteriores à Representação". É a Verdade exata sobre nós, assim como na matemática o 4 é o único resultado correto e possível para a equação 2+2.

Mas, então, eis que surge a Representação. Uma vez que a Representação entra em cena, muitas coisas se tornam possíveis, até mesmo o que não existe de verdade. A Representação tem a característica de ser como um "quadro-negro" ou "folha de papel em branco", e nela é possível escrever aquilo que se quiser. Se você escrever num quadro negro que 2+2 = 4 (ou seja, a verdade), ele irá registrar isso. Por outro lado, se você escrever 2+2 = 5 (ou seja, o erro), ele também irá registrar isso. O propósito da Representação é proporcionar a existência/experiência de tudo o que não é verdadeiro. Mesmo que a matemática tenha o 4 como o único resultado possível/correto para a conta 2+2, o quadro-negro aceitará a presença da equação 2+2 = 5, caso alguém assim queira assinalar. 

Por isso, quando levamos em conta a Representação (o quadro-negro), o Ser que somos não é necessariamente aquela Identidade Celestial perfeita. Ao adentrarmos a Representação, assumimos o nosso Ser como algo absolutamente indefinível, capaz de se revestir tanto de uma identidade correspondente à Verdade, como também de uma identidade correspondente à inverdade. No âmbito da Representação, o Ser que somos é como um vácuo, um espaço vazio e sem forma, capaz de assumir em Si os mais diversos conteúdos. Isso é o que torna possível estarmos no universo da Representação, caso contrário ficaríamos somente na Realidade que existe desde "antes" da Representação.

É por isso que determinados ensinamentos (que não levam em conta a Representação) mencionam de forma taxativa que a nossa real identidade é a de Deus (ou Filhos de Deus), e enfatizam a nossa realidade divina como Verdade definitiva e imutável. Se esses ensinamentos fossem indagados sobre a pergunta "Quem sou eu?", eles diriam: "Você é Deus, o Filho de Deus perfeito, vivendo aqui e agora no reino de Deus".

Por sua vez, se outros ensinamentos (os quais levam em conta a Representação) fossem indagados sobre a pergunta "Quem sou eu?", responderiam: "Não tente descobrir Quem é você, não tente obter uma resposta para essa pergunta. Nem mesmo assuma que você é 'Brahma', ou o 'Atma', ou o 'Divino'. Apenas fique com a pergunta, até que ela finalmente desapareça, e quando a pergunta desaparecer somente então você saberá quem é". E a pergunta somente desaparece quando nós também desaparecemos, ou seja, quando nos percebemos sendo esse imenso Vazio sem conteúdo algum (e, por isso, capaz de todos os conteúdos). 

Em um dos livros de "A Verdade da Vida", Masaharu Taniguchi explica que "o homem é um ser enigmático, misterioso, híbrido, capaz de perambular entre dois universos" (unidade e separatividade). Ao experienciar sua real identidade na Representação, ele desejou expressar ao mundo o seu despertar e assim registrou em forma de poema, dizendo: "Abandono-me ao sabor das ondas, e, completamente entregue a elas, fito o céu azul. Nada vejo, mas tudo existe. Sendo vazio e, ao mesmo tempo, pleno; sendo pleno e, ao mesmo tempo, vazio - um ser que está vivo e flutua, um ser misterioso e extraordinário: isto sou Eu." Se o homem é capaz de perambular entre dois universos, então ele não é a imagem que aparece na Representação quando mergulha no universo da divindade; tampouco é a imagem que surge quando imerge no universo da separatividade. Enquanto estiver na Representação, ele é aquela identidade vazia, misteriosa, indefinível, capaz de assumir ambos os conteúdos. Por isso, ao mesmo tempo que é vazio, é completamente cheio. Mas essa Verdade só é válida do ponto de vista da Representação. Na Matemática 2+2 é igual a 4, e é impossível que 2+2 seja igual a 5. Mas no quadro-negro é possível a equação 2+2 ser igual a 5. Da mesma forma, na Realidade Celestial é impossível sermos algo separado ou diferente do que Deus é. Mas na Representação podemos existir ou experienciar nosso ser como sendo algo separado ou diferente Dele. Consequentemente, também podemos experimentar o nosso Ser como unido e idêntico a Deus.

Por isso, na Representação, somos aquele ser misterioso, vazio, híbrido, indefinível, capaz de assumir conteúdos condizentes com a Realidade, e conteúdos condizentes com a irrealidade.

Uma vez que assimilemos isso, podemos compreender que o nosso Ser pode se alinhar tanto com a Verdade, como também pode se alinhar com a inverdade. Se estivermos alinhados com a irrealidade, devemos fazer um trabalho de esvaziamento, a fim de que nos tornemos disponíveis para receber em nós a Verdade, somente então é que passaremos a expressá-La aqui na Representação. Não é incomum vermos tantos ensinamentos discorrendo sobre a importância do "Vazio" e incentivando os buscadores a aprenderem a se esvaziar. Somente quando nos tornamos vazios (do conteúdo correspondente à inverdade) é que nos colocamos em condição de receber/acessar a Verdade e manifestá-la no universo da Representação.

O ego tem o papel de utilizar todas as estratégias possíveis para nos manter alinhados com a inverdade como, por exemplo, proteger a linha ou fronteira que demarca a existência do "eu" e do "outro". Ao proteger essa fronteira e mantê-la intacta, é impossível surgir a noção ou percepção do Eu. Pois, como já vimos, Eu = "eu" + "outros".

O ego tem uma determinada visão do universo, ao passo que o Eu tem uma outra visão do mesmo universo. O universo em si não é nada, não tem significado algum. A percepção é tudo(!). Nós é que conferimos significado ao universo mediante a visão com que olhamos para ele. Se conseguirmos alterar a lente de percepção com que enxergamos o universo (trocando as lentes da separatividade por uma lente iluminada), o universo inteiro se tornará iluminado, e assim perceberemos Eu aparecendo como tudo e todos neste próprio universo em que vivemos.

E muitas ferramentas nos são oferecidas. Há várias chaves de percepção que, se colocadas em prática, alinham a nossa visão com a percepção que o Eu tem do universo. Algumas delas:

* Pensar, falar e agir com Amor (ser Amor).
* Perdoar verdadeiramente (Purificar a  mente de conteúdos pesados e negativos, como raiva, ciúme, ódio, inveja, mágoas, ressentimentos, etc.)
* Não julgar (Pois, como já dito, o universo não é nada por si mesmo. Tudo depende da percepção com que se olha para ele. Sempre que julgarmos algo, estaremos vendo apenas um subproduto de nossa própria visão).
* Manter em mente somente pensamentos da Verdade (Tudo aquilo que sabemos ser verdadeiro na Realidade Celestial) e buscar manifestar nossas vidas em conformidade com essa Verdade.
* Sempre levar em consideração o outro (Ou seja, saber que todos estão incluídos na Verdade, pois ela é impessoal. O Todo somente se revela quando se reúnem todas as suas "partes").
* Gratidão (assim como o amor, a gratidão é uma chave poderosa para nos alinhar com a Verdade divina)
* Estar sempre atento ao momento presente, e aceitá-lo tal como ele é (A Verdade existe sempre aqui e agora).
* Ação dhármica (agir sem visar recompensas pessoais, com renúncia aos frutos da ação, ou seja com desapego. Pois o "eu" não existe. Só existe o Todo).
* Receber a Deeksha (a energia da Deeksha acelera o processo do despertar da consciência).
* E, claro, um desejo/amor ardente e inquebrantável por querer conhecer a Verdade, Deus.

Essas são algumas das principais chaves de acesso ao Eu, que são recomendadas pelos mais variados ensinamentos. A cada vez que exercitamos uma dessas chaves, nosso ser se alinha/sintoniza um pouco mais com a Verdade. São essas as coisas que precisamos treinar.

Também é muito importante lembrar o que o Silvano disse: "A chamada 'mente comum nem mesmo interfere quando estamos percebendo a partir da Consciência". Isso significa que não precisamos aniquilar a visão mental para desfrutarmos da percepção consciencial. Podemos perceber consciencialmente independente da interferência da mente comum [mente do personagem], pois a interferência causada pela mente do personagem é apenas aparente. Isso é algo que pouquíssimos ensinamentos revelam aos buscadores. Mas é a verdade. Podemos nos perceber sendo o Ator, e mesmo assim continuar representando o papel de nossos personagens aqui na Representação. Foi em razão disso que Joel Goldsmith disse:

"O nosso próximo [o outro personagem] pode não saber, nós podemos não saber [ou seja, podemos estar representando o papel de um personagem que ainda não despertou para a Verdade, e mesmo assim estarmos conscientes de Quem somos. Pois quem está consciente de Si mesmo é o Ser, e não o personagem], mas a verdade é: Eu Sou o Espírito, Eu Sou a Alma, Eu Sou a Consciência, Eu Sou Deus Expresso - assim como o nosso próximo."

Todas essas coisas são algo que vale a pena ponderar, contemplar, e meditar.

Namastê!


quarta-feira, novembro 04, 2015

"Não dar falso testemunho" (Goldsmith)


  - Joel S. Goldsmith - 


Nunca pensemos em um ser humano como se ele precisasse de cura, de emprego ou de riquezas, porque se assim fizermos, seremos seu inimigo em vez de amigo. Se houver qualquer homem, mulher ou criança que acreditamos estar doente, ser pecador, ou estiver morrendo, não oremos até que tenhamos nos reconciliado com esse irmão, pedindo perdão por temos cometido o erro de julgar, porque todos são DEUS em expressão. Tudo é Deus manifestado. Só Deus constitui este universo, bem como a vida, a mente e a Alma de cada individuo.

"Não darás falso testemunho contra teu próximo" tem uma conotação muito mais ampla do que, meramente, não espalhar boatos ou fofocas sobre ele. Não devemos manter o  nosso próximo em humanidade. Se dissermos: "Meu próximo é bom", estaremos dando falso testemunho contra ele, tanto quanto se disséssemos: "Meu próximo é mau", porque isso demonstra que reconhecemos sua condição humana às vezes bom e às vezes mau - e não a espiritual. 

Dar falso testemunho contra o próximo é declarar que ele é humano, que é finito, que tem falhas, que é menos do que o próprio Filho de Deus. Toda vez que reconhecemos o nosso próximo como pecador, pobre, doente ou morto, como outro que não o filho de Deus, daremos falso testemunho contra ele. 

Violando a Lei cósmica atraímos nossa própria punição. Deus não nos pune, nós é que nos punimos porque, ao dizermos "você é pobre", praticamente estamos dizendo que "eu sou pobre", uma vez que há somente um Eu e Um Ser. Assim, a Verdade que diz respeito a você diz respeito a mim. 

Se eu aceitar a crença de pobreza no mundo, ela reage sobre mim. Se eu disser que você está no mundo, ela reage sobre mim. Se eu disser que você está doente ou que você não é gentil, estarei aceitando uma característica separada de Deus, uma atividade à parte de Deus e, dessa forma, estarei condenando a mim mesmo, porque só existe UM SER.

Finalmente, quando dou falso testemunho contra alguém, me condeno e sou o Único a sofrer as consequências. 

A única maneira de evitar falso testemunho contra o próximo  é perceber que o Cristo é nosso próximo, que nosso próximo é um ser espiritual - o filho de Deus, exatamente como nós. Ele pode não saber, nós podemos não saber, mas a verdade é: Eu Sou o Espírito, Eu Sou a Alma,  Eu Sou a Consciência, Eu Sou Deus Expresso - assim como o nosso próximo.


terça-feira, novembro 03, 2015

Abandonando o apego, vive-se a Vida verdadeira - 2/2

- Masaharu Taniguchi - 


"Sou um ser dotado de corpo" – pensar assim é adotar uma postura mental dualista. Com essa postura mental, não se pode alcançar a verdadeira liberdade. Num confronto entre a mente e o corpo, a mente pode sair-se vitoriosa, mas em tal situação, ela seria como um mero condutor do corpo. Nesse caso, o ser humano consegue recuperar até certo ponto a liberdade inata do seu "Eu verdadeiro", mas não se pode dizer que obtém plena liberdade. A liberdade que se alcança com a vitória da mente sobre o corpo é apenas relativa, comparável à de um motorista que dirige um veículo: enquanto o veículo estiver funcionando perfeitamente, o motorista desfrutará plena liberdade, mas uma vez que ocorrer uma pane ou algum outro problema mecânico, ele ficará tolhido e terá de tomar providências concretas para consertá-lo; da mesma forma, quando o corpo apresentar algum problema, a mente ficará tolhida enquanto não for tomada uma medida concreta para sanar esse problema. Como podemos notar, enquanto admitirmos a dualidade "corpo e mente" e, consequentemente, o confronto entre eles, não poderemos alcançar a verdadeira liberdade.

Precisamos, pois, despertar para a Verdade de que não somos seres dotados de corpo, não somos condutores do corpo. Precisamos despertar para a Verdade de que o corpo não é algo que tenha existência própria, é sim, mera sombra da mente, ou, em outras palavras, uma imagem produzida por nossas vibrações mentais, e, portanto, não existe de verdade. Enquanto não ocorrer esse despertar, não poderemos controlar livremente o mundo em que vivemos, do mesmo modo que o ilusionista faz surgir diversas coisas segundo sua vontade.

Nossos sentidos não são capazes de apreender a essência, a natureza verdadeira dos seres e das coisas. Por isso, pensamos que o ser humano é "matéria", é corpo carnal. E devido a isso, fomos expulsos do jardim do Éden. Este fato é citado de forma simbólica no Antigo Testamento, em Gênesis. Eva, que vivia no jardim do Éden, certo dia, enganada pela astúcia da serpente (que simboliza os cinco sentidos) e, deixando de ver a perfeição de seu corpo nu (que simboliza a Imagem Verdadeira), considerou feia a sua própria nudez e sentiu vergonha. Isso ocorreu pela ilusão dos sentidos; ela deixou de ver a perfeição da sua "nudez", ou seja, da sua natureza verdadeira; e resolveu cobrir a natureza verdadeira com um elemento material. Ela se "cobriu com folhas de figueira", ou seja, encobriu sua Imagem Verdadeira e passou a julgar-se "corpo carnal". Por isso Adão e Eva foram expulsos do jardim do Éden.

O homem não é um ser carnal (físico), e sim um ser espiritual. A causa do sofrimento do ser humano está no fato de "se cobrir com as folhas de figueira", ou seja, de encobrir o espírito. Devemos emergir logo desse estado de ilusão. É impossível que o homem tenha sido realmente banido do paraíso. A expulsão do paraíso não passa de produto da ilusão. Irmãos, eliminem a "venda de seus olhos" (a ilusão), e o paraíso ressurgirá imediatamente.

Para fazermos ressurgir o paraíso, não basta reconhecermos a nós próprios como sendo um "ser espiritual", um ser divino dotado de Vida eterna e, portanto, digno de habitar o jardim do Éden. É preciso contemplar todas as pessoas como sendo filhos de Deus, dignos de viver no paraíso. Não devemos ter pensamentos desdenhosos em relação aos outros, como: "Eu sou filho de Deus, mas o Fulano é um pobre coitado, pois ainda está mergulhado em ilusão". Mesmo que saibamos que nós próprios somos filhos de Deus, se não considerarmos os outros como filhos de Deus, este mundo não se tornará um lugar paradisíaco. Somente o mundo onde todos somos filhos de Deus, é o verdadeiro paraíso.

Não nos limitemos a reconhecer unicamente a nossa natureza sublime; reverenciemos todas as pessoas como seres sublimes. Somos "receptores" que captam a Verdade, e "trombetas" que anunciam ao mundo a natureza sublime de todas as pessoas. A sutra sagrada Palavras do Anjo, assim canta:

"Sou apenas uma trombeta.
Homens, não adoreis a mim.
Não louveis a Deus manifestado na forma.
Todas as minhas virtudes provêm de Deus onipresente.
Venerai a Deus que eu aponto, e não a mim, pois sou apenas mensageiro.
Tendo eu próprio compreendido que minha essência é Deus, 
faço-vos compreender que também a vossa essência é Deus".

Nestes versos, o Anjo, fazendo-se de trombeta, propaga a Verdade. A designação "Deus manifestado na forma" que consta na terceira linha, corresponde a "mim", que aparece na segunda linha, e e refere ao próprio Anjo. Assim como o Anjo, cada ser humano é vivificado pela Vida de Deus que nele flui. Portanto, a Vida de todo ser humano é essencialmente divina. Para distinguirmos o ser humano do Deus-Pai, usamos a designação filho de Deus. Seria possível fluir no filho de Deus uma outra Vida que não seja a de Deus? É evidente que não. Se fluísse no ser humano um outra Vida que não fosse a Vida de Deus, ele não seria filho de Deus. Jesus Cristo disse: "Quem não reverencia o filho de Deus, não reverencia o Deus-Pai". Aquele que não é capaz de reverenciar o ser humano como filho de Deus, também não é capaz de reverenciar verdadeiramente o Deus-Pai que rege o universo. Enquanto não formos capazes de reverenciar todas as pessoas, não poderemos fazer com que este mundo se transforme em paraíso.

Algumas pessoas, tendo lido o livro A Verdade da Vida, curam-se da doença e adquirem a convicção de serem filhos de Deus. Mas, lamentavelmente, logo se deixam levar pela soberba e passam a ter pensamentos tais como: "Eu sou filho de Deus, mas os outros são pobres criaturas em estado de ilusão". Tais pessoas precisam lembrar-se da advertência de Jesus Cristo – "Quem não reverencia o filho de Deus, não reverencia o Deus-Pai" – e refletir bastante acerca de sua conduta. Há pessoas que, passando a se dedicar à militância religiosa, tornam-se intolerantes para com os outros, rebelam-se contra aqueles que as acolheram, e provocam constantes atritos internos na seita. Tal conduta se deve ao fato de que elas reverenciam apenas a si mesmas, ao invés de reverenciar todas as pessoas como filhos de Deus. Adeptos de todas as religiões, não criem atritos dentro da própria seita! E também não antagonizem outras seitas. A base de toda religião é a harmonia. Lembremo-nos de que "quem com ferro fere, com ferro será ferido", "segundo o juízo com que julgardes, sereis julgados". Chama-se inferno o mundo repleto de pessoas intolerantes; e chama-se paraíso o mundo repleto de pessoas generosas. O inferno é habitado exclusivamente pelos Enma-o, o senhor das trevas, e os diabos. E o paraíso é habitado exclusivamente pelos seres celestiais, tais como Amida Nyorai (Amithaba, o Iluminado), Kanzeon Bosatsu, etc.

Despertar para a Verdade de que "o homem é filho de Deus" não é conscientizar-se apenas da natureza divina de si mesmo, mas sim compreender que "todas as pessoas são filhos de Deus" e viver em harmonia com todos, amando-os e reverenciando-os. A verdadeira paz mundial nasce da união, harmonia e compreensão mútua entre as pessoas. Onde não há união, harmonia e compreensão mútua, não é possível o ressurgimento do paraíso. 

Ultimamente, nota-se no Japão uma tendência geral de exaltar o idioma japonês, e de rejeitar todas as coisas que não sejam genuinamente nipônicas (*Nota: o autor refere-se à década de 1930, época em que escreveu este livro). Porém, nada é mais antinipônico do que tal atitude. A atitude nipônica deveria ser a de "grande harmonia". Harmonizar-se com todas as coisas, acolhe generosamente todas as coisas – isso é que é ser verdadeiramente nipônico. Devemos abandonar o apego egoístico, responsável pelo velho espírito insular dos japoneses. Budismo, cristianismo, islamismo, todos são boas religiões. Chegando-se à essência de suas respectivas doutrinas, constata-se que a Verdade que elas pregam é uma só. Assim como as religiões se identificam em sua essência, as pessoas se identificam em sua natureza verdadeira: todas as pessoas são filhos de Deus.


Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 49-54

segunda-feira, novembro 02, 2015

Abandonando o apego, vive-se a Vida verdadeira - 1/2

- Masaharu Taniguchi - 


O ser humano é filho de Deus. Portanto, é óbvio que tenha a natureza espiritual sumamente harmoniosa e livre, à semelhança do Pai. É impossível que seja o contrário.

A Verdade da Vida cura doenças, melhora as situações adversas, enfim, faz ocorrer muitos acontecimentos milagrosos. As pessoas ficam assombradas diante de tais acontecimentos que elas consideram místicos, e pensam que esses fatos ocorrem pelo poder de Deus que age de fora para dentro. Mas isso é um equívoco. Quando pensamos que Deus está fora de nós e realiza milagres atendendo a nossos apelos, e que devemos agradar a esse Deus "exterior", corremos o risco de misturar superstições à fé verdadeira. Deus não responde à bajulações e servilismo, e sim ao coração sincero. Coração sincero é a natureza divina que existe em nós. Deus responde ao coração sincero, porque o Seu Sagrado Espírito que rege o Grande Universo e a natureza divina (coração sincero) que existe em nós são originariamente um, e portanto, sintonizam perfeitamente.

Deus é nosso Pai e, assim sendo, é lógico que não devemos nos limitar a interpretá-lo "materialisticamente", como ondas mentais. Ele nos protege "personificadamente" com Seu infinito amor e Sua infinita misericórdia. A graça de Deus nos é concedida incessantemente, não apenas quando ela se manifesta na matéria. As religiões vulgares acreditam num deus discriminador, que concede graças aos que pedem e não as concede aos que não pedem, Devido a isso, naqueles meios proliferam males como: ameaça de castigo divino, intimidação por meio de vaticínios (predições), trapaças, extorsão de contribuições, etc., etc.

Aqueles que pensam que Deus age com parcialidade como os seres humanos comuns e Se deixa levar pelas bajulações, estão cometendo uma grave ofensa contra Deus, ainda que pareçam ser devotos. Deus não responde à adulações nem a tentativas de "suborná-lo" com oferendas. Devotar-se a Deus com intuito de receber graças é uma ofensa contra Ele. Lamentavelmente, há muitas pessoas que, embora pareçam devotar-se a Deus, na verdade O estão ofendendo.

Quando digo que não se deve buscar a Deus com o intuito de receber graças, alguns contestam: "Mas isso ocorre também na Seicho-No-Ie. Têm sido constatado muitos casos de pessoas que se curaram ao ouvir palestras ou ao ler os livros da Seicho-No-Ie". De fato, os que frequentam a Seicho-No-Ie têm recebido graças. Mas não dizemos que Deus lhes concedeu graças somente porque eles pediram ou porque frequentam assiduamente a Seicho-No-Ie. O mestre-fundador da seita Konko disse: "As dádivas de Deus existem dentro de nós mesmos", e a Seicho-No-Ie prega que "Desde o princípio temos todas as dádivas recebidas de Deus, e cabe a nossa própria mente manifestá-las concretamente". Conforme afirmou Jesus Cristo, Deus é infinitamente misericordioso e "faz nascer seu sol sobre bons e maus, e manda a chuva sobre justos e injustos". 

Deus não é como pregam certas religiões, ou seja, um ser que age segundo seus caprichos, ora provocando desgraças para nos punir, ora nos concedendo saúde e felicidade para nos premiar. Ele é a "Grande Vida" que zela por nós constantemente, envolvendo-nos com Seu amor infinito. Se somos desafortunados, não é porque Deus nos desamparou, mas sim porque nós próprios não abrimos nossa mente para aceitar a Imagem Verdadeira. A Imagem Verdadeira é dotada de todas as dádivas de Deus. Imagem Verdadeira não é mero objeto de especulações filosóficas. É a Imagem Verdadeira daquilo que Deus nos concedeu; é a Imagem Verdadeira daquilo que Deus criou. Imagem Verdadeira é a existência verdadeira, ou seja, aquilo que existe de verdade. Devemos apreender diretamente aquilo que existe de verdade e não pela cognição relativa. Para isso, basta abrirmos os olhos da mente.

As pessoas confundem "o que existe de verdade" com "manifestação", a Imagem Verdadeira com o fenômeno, e crêem na existência de infortúnios e doenças. Isso é ilusão. Também ao lhes ocorrerem acontecimentos milagrosos tais como a cura de uma doença considerada incurável pela medicina, confundem a Imagem Verdadeira com o fenômeno e dizem que "alcançaram a graça". Isto também é ilusão. Esses milagres são "manifestações fenomênicas" da graça divina, e não a graça divina em si. A graça divina em si é a "perfeição da Imagem Verdadeira", que existe independente de a reconhecermos ou não. 

Denominamos "projeção da mente" aquilo que se manifesta quando é reconhecido pela mente. Dizemos que "o corpo carnal é projeção da mente" e "o ambiente também é projeção da mente"; isso significa que tanto o corpo carnal como o ambiente são manifestações resultantes do conhecimento. O que "passa a existir" somente por meio da cognição relativa chamada "reconhecimento" não é algo que exista por si mesmo. A isto chamamos "projeção da mente" ou "insubstancialidade". Dizemos que o mundo material é insubstancial, e que o corpo carnal também é insubstancial. Isto significa que tanto o mundo material como o corpo carnal são inconstantes e transitórios, não permanecem inalteráveis nem por um segundo. Observando-os atentamente, percebemos que o aspecto que eles apresentam num momento, já não existe no momento seguinte. Tudo aquilo cujo aspecto está em constante mutação não existe de verdade. E justamente por não existirem de verdade, não conseguem manter-se imutáveis, transformam-se e mudam constantemente. Assim é o mundo fenomênico. Parece concreto, mas é insubstancial. O que insubstancial está em constante mutação; o que está em constante mutação é vibração.

Essa vibração é o que, no budismo, recebe o nome de carma. Em última análise, carma é o "efeito inercial" das vibrações de pensamentos. Portanto, embora se manifeste concretamente no plano fenomênico, na verdade não existe. A salvação é possível porque o carma não existe de verdade. Alcançar a salvação consiste em deixar de se prender a "algo que não existe de verdade" e, transcendendo o aspecto aparente, apreender a Imagem Verdadeira, ou seja, "o que existe de verdade".

O corpo carnal não é existência verdadeira; o carma também não é existência verdadeira. Tanto o corpo carnal como o carma são soma de vibrações. Assim sendo, compreendendo que o corpo carnal não é existência verdadeira, compreendemos que o carma também não é existência verdadeira. Aparentemente, o corpo que temos hoje é o mesmo de ontem; porém, se o examinarmos meticulosamente, constataremos nele um incessante processo de transformação. Se assim não fosse, não haveria a renovação das estruturas celulares e o corpo, perdendo a vida, se mumificaria. Viver no mundo fenomênico é transformar-se incessantemente; é não ser hoje o mesmo de ontem; é soltar a vida de hoje para receber a de amanhã. Pode-se dizer que viver é "morrer a cada instante". A "morte" é que torna possível a renovação. Abandonando o apego à vida é que se encontra a vida. Aquele que se apega à vida, perde-a; e aquele que "solta" a vida, encontra-a. 

Para nos alimentarmos regularmente e absorvermos elementos nutritivos, precisamos "soltar" (exteriorizar) a energia acumulada. Soltando a energia acumulada, podemos absorver novos nutrientes, que são transportados pelo sangue, suprindo o organismo de oxigênio e eliminando as matérias envelhecidas e inúteis. No organismo, é incessante a renovação dos elementos componentes. No momento em que cessa esse processo de renovação, o corpo deixa de viver. O corpo vivo e todas as coisas que estão em constante mutação "não são existência verdadeira". Não se assombrem ao ouvirem a afirmação de que "o corpo não é existência verdadeira". O corpo não é existência verdadeira, mas nele se abriga "aquilo que existe de verdade", ou seja, a Vida que anima o corpo. A Vida não se extingue com a morte das células, pois ela própria é o "princípio" gerador de novas células. Por mais que o corpo sofra processo de transformação, o "princípio" da Vida mantém-se inalterável. Ela é imutável, é a Verdade Suprema, é a Imagem Verdadeira de nosso ser.

A constatação da transitoriedade da matéria leva-nos à compreensão de que a matéria não é existência verdadeira e, por conseguinte, o corpo também não é existência verdadeira. E essa compreensão nos conduz à descoberta daquilo que existe de verdade. Devemos mudar radicalmente a noção acerca da "existência", passando a admitir a "inexistência daquilo que julgávamos existente", e reconhecer a "existência" daquilo que julgávamos "inexistente". Precisamos despertar para o fato de que, na verdade, o corpo não existe. Ele não passa de materialização das vibrações mentais em constante mutação. A transformação constante é próprio do corpo carnal. O corpo carnal é uma imagem em constante transformação. Este nosso corpo, que se transforma incessantemente e não tem substância, não é nosso "Eu Verdadeiro", o qual é eterno. Então, o nosso "Eu Verdadeiro" seria a nossa mente? Não – a mente também não é o nosso "Eu Verdadeiro", pois também muda constantemente, é transitório. Ser transitório é não manter o mesmo aspecto nem por um instante; e "não manter o mesmo aspecto nem por um instante" é não ser existência verdadeira.

Ao compreendermos que "o corpo não é existência verdadeira", damos o primeiro passo para a verdadeira liberdade. Enquanto continuarmos acreditando que "o corpo existe, a matéria existe", não podemos alcançar a verdadeira liberdade. O corpo é um elemento material que ocupa lugar no espaço, e, portanto, é sujeito a limitações impostas pela matéria e pelo espaço. Assim sendo, o corpo chega a ser até um obstáculo concreto para a livre manifestação do "Eu verdadeiro". No caso de surgir uma doença no corpo, se a pessoa mantiver a crença de que "o corpo existe de verdade", não poderá deixar de considerar a doença como uma realidade concreta contra a qual não se pode lutar, e sentir-se-á impotente. Admitir a existência verdadeira do corpo é renunciar à plena liberdade do "Eu verdadeiro". E isso constitui a causa fundamental da doença.

Se queremos manifestar plenamente a liberdade inata do nosso "Eu verdadeiro", não devemos admitir a existência de matéria (corpo) capaz de impedir essa manifestação. A matéria (corpo) não é algo que existe independentemente do "Eu verdadeiro", e sim o elemento que o "Eu verdadeiro" pode modificar e moldar livremente, segundo sua vontade, tal como argila. Somente quando compreendemos que a matéria (corpo carnal) é algo que pode ser controlado livremente, tal como o ar que um grande cantor controla, tornamo-nos capazes de assegurar a liberdade do nosso "Eu Verdadeiro".

Admitir que a matéria (o corpo carnal) seja algo que não depende da mente, é renunciar à liberdade mental, e, por conseguinte, do nosso "Eu Verdadeiro". Quando a mente renuncia ao direito de comandar o corpo, ela perde a capacidade de controlá-lo, e nessa circunstância, é natural que ocorra a doença e que ela seja de difícil cura.

Compreender que "o corpo não existe" é o primeiro passo para que se manifeste a liberdade do "Eu verdadeiro", para o despertar, para a verdadeira libertação. Porém, isso não é suficiente para a salvação. Compreender que "o corpo não existe" é saber que não existe um "invólucro" encobrindo a Vida e tolhendo-lhe a liberdade; mas de nada adianta sabermos isto se a nossa própria Vida estiver adormecida. É preciso que ela desperte para a liberdade que lhe é inerente. Devemos despertar para o fato de que a nossa própria Vida integra a grandiosa Vida onipresente no Universo. Compreendendo isso, estaremos dando o segundo passo para a plena liberdade. Conhecer a verdade de que "a matéria não existe", "o corpo não existe" e "todas as coisas deste mundo são transitórias" constitui os passos preliminares para manifestar a original liberdade da Vida. Porém, mesmo que conheçamos essa Verdade, se não compreendermos que nossa Vida é parte integrante da Grande Vida, este mundo nos parecerá vazio e sem sentido, e tenderemos a adotar filosofias pessimistas, como o budismo pessimista, o chamado "pequeno veículo", que prega que o corpo e a mente revertem ao nada. Não adianta compreendermos que "a matéria não existe", "o corpo não existe", "todas as coisas deste mundo são transitórias, são como visões efêmeras produzidas por um ilusionista", se isso nos leva a adotar uma visão de vida pessimista. Devemos manifestar, na prática, a liberdade inata do nosso "Eu verdadeiro", controlando livremente todas as coisas, da mesma forma que o ilusionista faz com que as coisas surjam ou desapareçam, segundo a vontade dele.

Continua...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 33", pp. 41-48