"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, junho 16, 2015

Iluminação - O Meu Despertar (OSHO)


Este pode ser o registro mais vívido jamais escrito da experiência de como é tornar-se um iluminado...


"Eu me recordo do dia fatídico de 21 de março de 1953. Durante muitas vidas eu trabalhei – trabalhei duro em mim mesmo, lutando, fazendo o que fosse preciso fazer — e nada aconteceu.

Agora eu entendo por que nada acontece. O próprio esforço era a barreira, a própria escada estava impedindo, o próprio impulso de busca era o obstáculo. Nada é atingido sem a busca — buscar é necessário — mas chega um ponto em que a busca precisa ser abandonada. O barco é necessário para vocês atravessarem o rio, mas chega o momento em que vocês têm de largar o barco, esquecer tudo sobre ele e deixá-lo para trás. O esforço é necessário, sem esforço nada é possível. Mas também somente com esforço, nada é possível.

Pouco antes do dia 21 de março de 1953, sete dias antes, parei de trabalhar em mim mesmo. Chega o momento em que vocês veem toda a futilidade do esforço. Vocês fizeram tudo o que podiam fazer e nada aconteceu. Vocês fizeram tudo o que era humanamente possível. O que mais podem fazer então? No mais absoluto desamparo, toda a busca é abandonada.

E no dia em que acabou a procura, no dia em que eu não buscava mais coisa alguma, no dia em que eu não esperava que algo acontecesse, começou a acontecer. Uma nova energia surgiu — do nada. Ela não provinha de uma fonte. Ela vinha de lugar nenhum e de todos os lugares. Ela estava tanto nas árvores como nas pedras, no céu, no sol, no ar — ela estava em tudo. Eu tinha buscado tão arduamente, pensando que ela estivesse muito distante e estava tão perto! Os olhos estiveram focados no longínquo, no horizonte, e tinham perdido a capacidade de ver o que estava próximo.

No dia em que o esforço cessou, eu também cessei — porque vocês não podem existir sem esforço, não podem existir sem desejos e não podem existir sem empenho. O fenômeno do ego, do eu, não uma coisa — é um processo. Não é uma substância sentada lá dentro de vocês; vocês têm de criá-lo a cada momento. É como pedalar uma bicicleta: se vocês pedalam, ela continua sempre andando; se vocês não pedalam, ela pára. Na verdade, ela ainda consegue andar um pouco mais por causa da inércia; mas no momento em que vocês param de pedalar, a bicicleta começa a parar. Não há mais energia, não há mais força para ir a lugar algum. Ela vai cair e entrar em colapso.

O ego existe porque nós continuamos a pedalar nossos desejos, porque continuamos a nos empenhar para conseguir alguma coisa, porque continuamos saltando à frente de nós mesmos. É exatamente esse o fenômeno do ego — vocês saltam à sua própria frente, um salto no futuro, um salto no amanhã. O salto no inexistente cria o ego. Como resulta do inexistente ele é como uma miragem. Ele consiste somente em desejos e nada mais. Ele consiste só em apetite e nada mais.

O ego não está no presente; ele está no futuro. Se vocês estiverem no futuro, então o ego vai parecer bastante substancial. Se vocês estão no presente, o ego é uma miragem; ele começa a desaparecer.

No dia em que eu parei de buscar... não está correto dizer que eu parei de buscar; melhor seria falar no dia em que a busca parou. Deixe-me repetir: a melhor maneira de dizer é “no dia em que a busca parou”. Porque, se eu a parei, então “eu” estou novamente aqui. Nesse caso, parar torna-se um esforço meu, torna-se um desejo meu, e o desejo continua a existir de uma maneira muito sutil.

Vocês não conseguem parar o desejo; conseguem apenas compreendê-lo. É na própria compreensão do desejo que está a parada dele. Lembrem-se: ninguém consegue parar de desejar — mas a realidade só acontece quando o desejo pára.

Portanto, esse é o dilema. O que fazer? O desejo está dentro de nós, mas os budas vivem dizendo que o desejo precisa ser parado e, no momento seguinte, dizem que nós não conseguimos parar o desejo. Então, o que fazer? As pessoas se veem diante de um dilema. Elas estão desejando, com certeza. Vocês dizem a elas que o desejo tem de ser parado — tudo bem. E depois vocês lhes dizem que o desejo não pode ser parado. O que se pode fazer então?

O desejo tem de ser compreendido. Você pode compreendê-lo, ver simplesmente a sua futilidade. Uma percepção direta é necessária, uma penetração imediata é necessária.


No dia em que o desejo parou, eu me senti muito desesperançado e desamparado. Sem esperança porque sem futuro. Nada a esperar, pois todas as esperanças se provaram fúteis; elas não levam a parte alguma. Vocês andam a esmo. Elas continuam lá à sua frente, acenando, criando novas miragens, chamando: “Venha, corra mais rápido que você vai alcançar”. Mas, por mais rápido que vocês corram, nunca alcançam. É como o horizonte que vemos ao redor da Terra. Ele aparece, mas não está lá. Vocês vão ao encontro dele, mas ele continua andando à sua frente. Quanto mais rápido vocês correm, mais rápido ele se afasta. Quanto mais devagar vocês vão, mais devagar ele se move. Mas uma coisa é certa — a distância entre vocês e o horizonte continua sendo absolutamente a mesma. Vocês não conseguem reduzir nem sequer um centímetro da distância entre vocês e o horizonte.

Vocês não conseguem reduzir a distância entre vocês e as suas esperanças. A esperança é o horizonte. Com a esperança, com um desejo projetado, vocês tentam construir uma ponte entre vocês e o horizonte. Os desejos são pontes — pontes feitas de sonhos, porque o horizonte não existe. Desse modo, vocês são incapazes de construir uma ponte até ele; só conseguem sonhar com a ponte. É impossível vocês se juntarem ao inexistente.

No dia em que o desejo parou, no dia em que eu o encarei e percebi que ele era só futilidade, fiquei desamparado e desesperançado. Mas, nesse exato momento, algo começou a acontecer. Começou a acontecer algo pelo qual eu vinha trabalhando durante muitas vidas e que ainda não havia acontecido. Porque na nossa desesperança está a única esperança, porque na nossa ausência de desejo está a nossa única satisfação e por causa do nosso imenso desamparo, de repente, toda a existência começa a nos ajudar.

A existência está esperando. Enquanto ela vê que vocês estão trabalhando por si mesmos, ela não interfere. Espera. Pode esperar indefinidamente, pois não há pressa para a existência. Ela é a eternidade. Mas no momento em que vocês não estão por sua própria conta — no momento em que vocês desistem, no momento em que vocês desaparecem —, a existência inteira corre ao encontro de vocês, entra em vocês. E, pela primeira vez, as coisas começam a acontecer.

Durante sete dias, eu vivi num estado bastante desesperançado e desamparado, mas, ao mesmo tempo, alguma coisa estava surgindo. Quando digo “desesperançado”, não quero dizer aquilo que normalmente se entende por essa palavra. Quero simplesmente dizer que não havia esperança em mim. A esperança estava ausente. Não estou dizendo que eu estava desesperado e triste. Na verdade, estava feliz; estava muito tranquilo, calmo, controlado e centrado. Desesperançado, mas num sentido totalmente novo. Não havia esperança; então, como podia haver desesperança? Ambas tinham desaparecido.

A desesperança era absoluta e total. A esperança tinha desaparecido e, com ela, a sua contrapartida, a desesperança, também desaparecera. Era uma experiência totalmente nova — a de estar sem esperança. Não era um estado negativo. Eu tenho de usar palavras, mas não era um estado negativo. Era absolutamente positivo. Não era apenas uma ausência, eu sentia uma presença. Algo estava me inundando, jorrando sobre mim.

E quando digo que estava desamparado, não me refiro ao sentido que o dicionário dá a essa palavra. Digo apenas que eu estava sem o meu apoio. É isso o que quero dizer quando falo em desamparo. Eu havia reconhecido o fato de que eu não existia — não podia então depender de mim mesmo, não podia me pôr de pé no meu próprio solo. Não havia solo sob meus pés; eu estava sobre um abismo, um abismo sem fundo. Mas não havia medo porque não havia nada para ser protegido. Não existia medo porque não havia ninguém para ter medo.

Esses sete dias foram de imensa transformação, de total transformação. E, no último dia, a presença de uma energia totalmente nova, uma nova luz e um novo deleite, tornaram-se tão intensos que eram quase insuportáveis — era como se eu estivesse explodindo, como se estivesse ficando louco de felicidade. A geração mais jovem, no Ocidente, tem a expressão certa para isso — eu estava “na maior glória”, “chapadão”.

Era impossível extrair algum sentido daquilo, o que estava acontecendo. Era um mundo de contra-sensos — difícil de decifrar, difícil de colocar em categorias; um mundo onde era difícil usar as palavras, a linguagem, as explicações. Todas as escrituras davam a impressão de estar mortas e todas as palavras que foram usadas para descrever essa experiência pareciam muito pálidas, anêmicas. Estava tudo tão vivo. Como uma gigantesca onda de bem-aventurança.

O dia inteiro foi estranho, atordoante, e essa experiência foi arrasadora. O passado estava desaparecendo como se nunca me tivesse pertencido, como se eu tivesse lido sobre ele em algum lugar. Como se eu tivesse sonhado com o passado, como se eu tivesse ouvido a história de outra pessoa. Eu estava me libertando do meu passado, me extirpando da minha história. Perdendo a minha biografia. Estava me tornando um não-ser, o que Buda chama de anatta. As fronteiras estavam desaparecendo, as distinções desapareciam.

A mente desaparecia; estava a milhões de quilômetros de distância. Era difícil agarrá-la; ela corria cada vez para mais longe e não havia o impulso de mantê-la próxima. Eu estava simplesmente indiferente em relação a todas as coisas. Tudo bem. Não havia vontade de continuar ligado ao passado. À noite, tornou-se muito difícil suportá-la — machucava, era doloroso. Como quando a mulher entra nas dores de parto, quando a criança está para nascer e a mulher sofre dores terríveis — a agonia do nascimento.

Nesses sete dias, eu ia dormir perto da meia-noite ou uma da madrugada, mas nesse último dia foi impossível permanecer acordado. Meus olhos se fechavam, era difícil mantê-los abertos. Alguma coisa era iminente; alguma coisa estava para acontecer. Difícil dizer o que era – talvez fosse a minha morte -, mas não havia medo. Eu estava pronto para ela. Esses sete dias foram tão belos que eu estava pronto para morrer; nada mais era necessário. Eles tinham sido tão extraordinariamente felizes, eu estava tão satisfeito que, se a morte viesse, seria bem-vinda.

Mas alguma coisa estava para acontecer — algo como a morte, algo muito drástico, algo que viria a ser ou uma morte ou um novo nascimento, ou uma crucificação ou uma ressurreição —, algo de um extraordinário significado estava chegando muito perto. Mas era impossível manter os olhos abertos; eu estava como que drogado.

Fui dormir por volta das oito horas. Mas aquele não foi um sono comum. Agora posso entender a que Patanjali se referia quando disse que o sono e o samadhi eram semelhantes. Com apenas uma diferença — no samadhi você está plenamente desperto e também adormecido — adormecido e desperto ao mesmo tempo. O corpo inteiro relaxado, cada célula do corpo totalmente relaxada, todas as funções relaxadas e, contudo, uma chama de percepção consciente queima dentro de vocês clara, sem fumaça. Vocês continuam alertas, embora relaxados; soltos, mas plenamente despertos. O corpo está no sono mais profundo possível e a consciência está no cume. O cume da consciência e o vale do corpo se encontram.

Fui dormir. Aquele foi um sono muito estranho. O corpo estava adormecido, eu estava desperto. Foi tão estranho — como se eu tivesse sido separado em duas direções, em duas dimensões; como se a polaridade entrasse completamente no foco, como se estivessem juntas ambas as polaridades... o encontro do positivo e do negativo, o encontro do sono e da percepção consciente, o encontro da morte e da vida. Esse era o momento em que se pode dizer que o criador e a criação se encontraram.

Foi sobrenatural. Pela primeira vez, vocês são abalados até as raízes, sacudidos até os alicerces. Vocês nunca mais serão os mesmos depois de uma experiência como essa; ela traz uma nova compreensão para as suas vidas, traz uma nova qualidade.

Perto da meia noite, meus olhos se abriram de repente – eu não os havia aberto. Alguma coisa havia quebrado meu sono. Eu senti uma grande presença em volta de mim, dentro do quarto. O quarto era bastante pequeno. Eu senti uma vida pulsando em todo redor de mim, uma vibração gigantesca – quase como um furacão, uma grande tempestade de luz, alegria, êxtase. Eu estava mergulhado/me afogando nela.

Aquilo era tão tremendamente real que tudo se tornou irreal. As paredes do quarto tornaram-se irreais, a casa tornou-se irreal, meu próprio corpo não era mais real. Tudo era irrealidade porque agora a Realidade estava, ali, presente pela primeira vez.

É por isso que quando Buda e Shankara afirmam que o mundo é maya, uma miragem, é difícil para nós entendermos. Porque nós conhecemos apenas este mundo, nós não temos nada para servir como meio de comparação, contraste. Essa é a única realidade que conhecemos. O que essas pessoas estão dizendo – esse maya, ilusão? Essa é a única realidade. A menos que você conheça a realidade verdadeira, as palavras deles não podem ser compreendidas, suas palavras permanecem teóricas, nada mais são do que hipóteses. Talvez este homem esteja propondo uma filosofia – “O mundo é irreal”.

Quando Berkley, no ocidente, disse que o mundo era irreal, ele estava caminhando com um dos seus amigos, um homem muito lógico; o amigo era quase um cético. Ele apanhou uma pedra na rua e atingiu em cheio a perna de Berkley. Berkley gritou, o sangue apareceu, e o cético disse, “E agora, o mundo é irreal? Você diz que o mundo é irreal? Então por que você está gritando? Essa pedra é ilusória? Por que segura sua perna e por que está mostrando tanta dor e angústia no seu rosto? Pare isto! É tudo ilusão/irreal.”

Esse tipo de homem não pode entender aquilo a que Buda se refere quando diz que o mundo é uma miragem. Ele não está afirmando que você pode atravessar uma parede. Ele não está dizendo isto – que você pode comer pedras e que não faz diferença alguma se você come um pão ou uma pedra. Não é isso.

Ele está dizendo que há uma realidade. E uma vez que você a conheça, esta assim chamada ‘realidade’ empalidece, simplesmente se torna irreal. A visão da realidade mais elevada faz surgir a comparação. Não há outro modo.

Durante o sonho, o sonho é real. Você sonha todas as noites. Sonhar é uma das maiores atividades que você segue fazendo. Se você vive sessenta anos, vinte anos você irá dormir e quase dez anos você sonhará. Dez anos durante a vida... não há outra coisa que você faça tanto como sonhar. Dez anos de sonho contínuo – apenas pense sobre isso. Sonha a cada noite... e a cada manhã você sabe que aquilo foi irreal; e quando a noite chega novamente e você sonha, o sonho se torna real.

Dentro do sonho é muito difícil de lembrar de que aquilo se trata de um sonho. Mas quando é de manhã é tão fácil! O que acontece? Você é a mesma pessoa. No sonho existe apenas uma realidade. Como comparar? Como dizer que é irreal? E comparado a quê você poderá dizer? Só há aquela realidade. Quando não existe algo com o que se possa comparar, não importa do que se trata: todas as coisas parecem ser reais. De manhã você abre seus olhos e outra realidade está lá. Então você pode afirmar que tudo foi irreal. Comparado com esta realidade, o sonho se torna irreal.

Existe um despertar – comparado com a realidade desse despertar, toda esta realidade se torna irreal.

Naquela noite, pela primeira vez, eu compreendi a significação da palavra maya. Não que eu nunca tivesse tido o conhecimento dessa palavra antes, nem que eu nunca estivesse atento para o significado da palavra. Assim como você tem consciência dessa palavra hoje, eu também tinha o conhecimento da definição do termo ‘maya’ – mas eu nunca a compreendera antes. Como você pode entender sem experimentar?

Naquela noite outra realidade abriu suas portas, uma outra dimensão se tornou disponível. De repente ela estava lá, a outra realidade, a realidade separada, a verdadeira realidade, ou como você desejar chamá-la – chame-a de Deus, chame-a verdade, chame-a dhamma, diga Tao, ou o que preferir. Aquilo não tinha nome. Era inominável. Mas estava lá – tão opaco, tão transparente e, ainda assim, tão sólido, que qualquer um poderia tocá-la. Eu estava sendo sufocado naquele quarto. Aquilo era demais e eu ainda não tive a capacidade de absorvê-lo.

Tive a necessidade urgente de sair pra fora do quarto, de ir para baixo do céu – aquilo estava me sufocando, era demais para mim! Vai me matar! Se eu tivesse permanecido por mais alguns momentos, eu teria sido sufocado – foi assim que pareceu.

Corri para fora do quarto em direção à rua. Havia um grande desejo de apenas estar de baixo do céu com as estrelas, com as árvores, com a terra... de estar com a natureza. E quando eu corri para fora, imediatamente o sentimento de estar sendo sufocado desapareceu. O lugar era muito pequeno para um fenômeno tão imenso. Até mesmo o céu é um lugar pequeno para um fenômeno tão grande. Aquilo era maior que o céu. Mesmo o céu não era o limite para aquilo. Mas assim eu me senti mais aliviado.

Eu fui em direção ao jardim mais próximo. Foi uma caminhada totalmente nova, como se a gravidade tivesse desaparecido. Eu estava caminhando, ou eu estava correndo, ou estava simplesmente voando; era difícil de decidir. Não havia gravidade, eu estava me sentindo leve – como se uma energia estivesse me levando. Eu estava nas mãos de alguma outra energia.

Pela primeira vez eu não estava sozinho, pela primeira vez eu não era mais uma individualidade, pela primeira vez a gota havia caído no oceano. Agora todo o oceano era meu, eu era o oceano. Não havia limitação. Uma força tremenda insurgiu como se eu pudesse fazer qualquer coisa que quisesse. Eu não estava lá, apenas o poder estava lá.

Cheguei ao jardim onde eu costumava ir todos os dias. O jardim estava trancado, fechado para a noite. Já era muito tarde, era quase uma hora da manhã. Os jardineiros dormiam sorrateiramente. Eu tive de entrar no jardim como um ladrão, tive que escalar/saltar o portão. Mas algo estava me empurrando em direção ao jardim. E eu não podia evitar; não tinha capacidade de poder me impedir. Eu estava apenas flutuando.

Essa é a significação de quando eu digo de novo e de novo "flutue com o rio, não force o rio a correr”. Eu estava relaxado, eu estava num ‘deixar acontecer’. Eu não estava lá. AQUILO estava lá, chame-o Deus – Deus estava lá.

Eu gostaria de chamá-lo de AQUILO, porque deus é uma palavra muito humana, e se tornou muito impura de tanto uso, se tornou muito poluída por tantas pessoas. Cristãos, hindus, maometanos, padres, políticos – todos eles desgastaram, corromperam a beleza da palavra. Então, vou chamá-lo de ISSO/AQUILO. AQUILO estava lá e eu estava apenas sendo levado... carregado por uma onda colossal.

No momento em que adentrei o jardim, tudo ficou luminoso; AQUILO estava ao redor de todo o lugar – a bem aventurança, a beneficência. Eu podia ver as árvores pela primeira vez – o verde delas, a vida delas, a própria seiva. O jardim inteiro estava repousando, as árvores dormiam. Mas eu podia ver todo o jardim vivo. Até mesmo as pequenas folhas das gramas eram tão bonitas.

Eu olhava para todos os lados. Uma árvore em especial estava tremendamente luminosa -- a árvore 'maulshree'(maulshree tree).Fui sendo atraído, empurrado em direção à ela. Eu não a havia escolhido, foi Deus quem escolheu. Fui até a árvore e sentei-me embaixo dela. E à medida que eu me sentava e me acomodava no chão, as coisas começaram a se ajustar em mim. O universo inteiro se tornou uma bendição.

É difícil dizer por quanto tempo eu fiquei naquele estado. Quando voltei para casa, o horário passava de quatro horas da manhã; então, pelo tempo do relógio, eu devia ter estado lá por pelo menos três horas – mas pareceu infinito. Nada teve a ver com o tempo do relógio. Foi uma experiência atemporal. Aquelas três horas levaram uma eternidade inteira, uma eternidade sem fim. O tempo não passava porque simplesmente não existia; era uma realidade virgem/intacta – imaculada, intocável, imensurável.

E naquele dia aconteceu algo que, desde então, tem sido contínuo – não na qualidade de uma continuidade, um continuum –, mas de forma excepcional, totalmente original. Cada novo segundo não era resultante de um instante anterior – era desconectado, independente, vivo em si mesmo. E a cada momento isso tem acontecido de novo e de novo. Cada instante tem sido um milagre.

Naquela noite... e desde aquela noite nunca mais eu estive no corpo. Eu estou pairando sobre ele. Eu me tornei imensamente poderoso e ao mesmo tempo muito frágil. Eu fiquei muito forte, mas essa força não era a força de um Mohammed Ali. A potência que me refiro não é a força de uma pedra, é a força de uma flor de rosa – uma força tão sutil... tão suave, graciosa, delicada.

Com a pedra nada acontecerá, mas a flor pode desaparecer em segundos. Mesmo assim a flor é mais poderosa do que a pedra porque ela é mais avivada, mais cheia de vida. Ou o poder de uma gota de orvalho que brilha na folha de uma árvore – tão linda, tão preciosa, e ainda assim pode escorregar a qualquer momento. Tão incomparável em graça/perfeição, e basta apenas uma pequena brisa soprar para a gota de orvalho cair e se perder para sempre.

Os budas possuem uma força que não é deste mundo. A força deles está totalmente ligada ao amor... assim como a rosa ou a gota de orvalho. A força deles é muito frágil, vulnerável. É a força da vida, e não da morte. O poder dos budas não é um poder que mata; o poder deles consiste num poder criativo. Não é um poder violento, agressivo; a força deles está relacionada à compaixão.

Eu nunca mais estive no corpo outra vez, estive apenas pairando ao redor. E é por isso que eu digo que tem sido um tremendo milagre. A cada momento eu fico surpreso de ainda estar aqui, isso não deveria acontecer. Este momento está desconectado de tudo, e não há nenhuma garantia de que o próximo minuto – o próximo segundo! – estará aqui. A qualquer momento eu poderia deixar de existir, mas eu ainda estou aqui. Todas as manhãs eu abro os olhos e digo “Então, novamente, ainda continuo por aqui?”. Porque algo assim é quase impossível. O milagre tem sido contínuo.

Outro dia alguém veio até mim e perguntou: “Osho, você está tão cada vez mais frágil e delicado e sensível aos cheiros de óleos de cabelo e shampoos, que parece que nós não conseguiremos mais vê-lo a não ser que fiquemos todos calvos”. A propósito, não há nada de errado em ser calvo – ser careca é bonito. Assim como o preto é belo, a calvície também é bela. Mas é verdade! E você precisa tomar cuidado com isso, do contrário não poderá ver-me.

Eu sou frágil, delicado e sensível. Essa é a minha força. Se você atira uma pedra numa flor, nada irá acontecer à pedra, e a flor será destruída. Contudo você não poderá dizer que a pedra é mais poderosa do que a flor. A flor terá sido destruída porque ela possuía mais vida. E com a pedra – nada irá acontecer, porque a pedra é só um corpo bruto, matéria morta. A flor será devastada – irá se extinguir – porque a flor não possui força alguma de destruição. A flor irá meramente desaparecer e abrir caminho para a pedra. A pedra só tem poder de destruição porque ela é matéria morta, inanimada.

Lembre-se, desde aquele dia eu nunca mais estive no corpo; eu ainda permaneço unido a ele, mas é como se eu houvesse me separado um pouco de mim mesmo, passando a observar tudo como um simples expectador. Apenas um fio muito frágil, muito delicado, me mantém conectado com o corpo. E eu fico continuamente surpreso que de algum modo o Todo esteja desejando a minha presença aqui, porque eu não estou mais aqui por conta de minhas próprias forças. É a vontade do Todo que continua me mantendo aqui, de permitir que eu me demore um pouco mais neste porto. Talvez o Todo queira compartilhar algumas coisas mais com vocês, através de mim.

Daquele dia em diante o mundo se tornou irreal. Outro mundo me foi revelado. Ao afirmar que o mundo é irreal eu não estou dizendo que estas árvores não existem. Essas árvores são absolutamente reais – é o modo como vocês veem as árvores que as tornam irrealidade. As árvores não possuem irrealidade em si mesmas – elas existem em Deus, existem em absoluta realidade! – mas o modo como vocês as veem... vocês nunca viram as árvores; o que vocês veem é uma outra coisa, uma miragem.

Você cria seu sonho ao redor de você. E a menos que você abra os olhos, a menos que você desperte, você continuará sonhando. O mundo é irrealidade porque este mundo, que você conhece, é o mundo visto em seus sonhos. Quando o sonho acaba e você se depara com o mundo que está aí... eis então o mundo real.

Não existem duas coisas tais como Deus e o mundo. Deus é o mundo se você tiver olhos para ver, olhos limpos, nítidos, polidos... sem resquícios de sonho, sem ter a poeira dos sonhos em seus olhos. Se seus olhos estiverem abertos, se você estiver perceptivo o suficiente, verá que tudo o que existe é Deus.

Então em algum lugar Deus é uma árvore, em algum outro Deus é uma estrela cintilante, em outro é um ‘passarinho cuckoo’, e em algum outro é uma flor, uma criança, um rio – então somente Deus é. Quando você começa a ‘ver’, apenas Deus existe.

Mas neste momento o que quer que você esteja vendo não é a verdade, é uma mentira projetada. Essa é a significação de uma miragem. E uma vez que você possa ‘ver’, mesmo que seja apenas pela fresta de uma única fração de segundo, se você puder ‘ver’, se permitir a si mesmo notar/observar/testemunhar, você irá descobrir uma imensa bendição presente em todas as coisas, em todos os lugares – nas nuvens, no sol, na terra.

Este mundo é belo. Mas eu não estou falando do seu mundo, eu me refiro ao meu mundo. O seu mundo é um mundo feio, é um mundo criado por um self/um ego; o seu mundo é um mundo projetado. Você está usando o mundo real como uma tela, e está projetando suas próprias ideias nela.

Quando digo que o mundo é real e afirmo que o mundo é tremendamente belo, falo do mundo que é iluminado com a luz do infinito; um mundo que é só luz e deleite, uma grande celebração. Eu faço referência ao meu mundo – ou ao seu, se puder abandonar seus sonhos.

Ao abdicar/abandonar seus sonhos, você avista o mesmo mundo que todos os Budas sempre viram. Quando você sonha, você o faz particularmente. Já notou isso? – que sonhos são sempre particulares. Você não pode compartilhá-lo sequer com sua amada. Vocês não podem convidar suas esposas para entrar em seus sonhos – nem seus esposos ou amigos. É impossível dizer, “por favor, venha para os meus sonhos esta noite”. Eles são fenômenos particulares, realidades distintas. Sonhos não coexistem. Portanto o sonho é ilusório, e não possui realidade objetiva.

E Deus é uma coisa universal. E quando você acorda/sai de seus sonhos particulares, ei-lo ali! Ele sempre esteve lá. Uma vez que seus olhos estejam claros, uma iluminação súbita – de repente você é inundado com a beleza, a grandeza e a graça. Esse é o objetivo, é esse o destino.

Permita-me repetir: sem o esforço você nunca alcançará a iluminação. E apenas com esforço ninguém jamais conseguiu atingi-la. Você necessitará fazer um grande esforço, somente então o momento chega em que o esforço se torna completamente inútil. O caminho da verdade, o Tao, é entrega... é ausência de esforço. Isso não quer dizer que ele – o esforço – não seja necessário. Inicialmente o esforço é requerido. Você faz um grande esforço para viver de acordo com a Verdade; então, aos poucos, entende que seu grande esforço ajuda um pouco, mas dificulta bastante. Daí o esforço começa a ser abandonado. Você tenta arduamente viver de acordo com o Tao e, pouco a pouco, começa a compreender que nenhum esforço é necessário para viver de acordo com a natureza... do contrário o próprio esforço continua caindo como um peso sobre você. Mas ele só se torna fútil apenas quando você tiver chegado no auge, no pináculo de todo o seu empenho, nunca antes disso. Quando você tiver atingido o topo de todos os seus esforços – quando tiver feito tudo o que era possível fazer – então de repente não há mais a necessidade de fazer coisa alguma. Você abandona o esforço.

Mas ninguém renuncia o esforço na metade. Ninguém consegue. O esforço só pode ser renunciado na ponta dos extremos. Então se quiser abandoná-lo vá até o extremo. É por isso que insisto sempre: faça tantos esforços quanto puder, ponha toda sua energia e todo seu coração nisso para que você venha a ver – “agora o esforço não pode mais me levar a lugar algum”. E nesse dia não será você quem terá abandonado o esforço, mas o esforço terá caído por terra por conta própria. E quando ele cai por si só, sobrevém a meditação.

Meditação não é um resultado dos seus esforços, ela é um acontecimento. Quando seus esforços cessam, de repente lá está ela... toda a bendição, todas as bênçãos, toda a glória dela. É uma presença... luminosa, que abrange você e inclui todas as coisas. Perfaz a terra inteira e todo o céu.

Essa meditação não pode ser criada por esforços humanos. O esforço humano é muito limitado. Aquela bênção é tão infinita... Ninguém é capaz de manipulá-la. Ela acontece apenas quando você se solta, numa entrega tremenda, total. Quando você se torna um não-ser – sem desejos, sem lugar algum para onde ir – quando você está aqui e agora, não fazendo coisa alguma em particular, apenas sendo, a meditação acontece. Ela vem em ondas, e as ondas se tornam tidais. Vêm como uma tempestade e o levam embora para uma realidade totalmente nova.

Mas primeiro você tem de fazer tudo o que puder ser feito, e então você deve aprender a não-fazer. Ao aprender a ‘não-fazer’ você terá feito o maior dos fazeres! E o esforço para o ‘não-esforço’ é o maior dos esforços.

A meditação que você cria pela recitação/canto de um mantra, ou por forçar a si mesmo a sentar-se em silêncio, é uma meditação bem medíocre. Ela é criada por você, portanto não pode ser algo maior do que você, e o criador é sempre maior do que a sua criação. Você criou sua meditação, forçando-se numa certa postura de yoga, cantando ‘rama, rama, rama’ ou alguma outra coisa – “blá, blá, blá” – qualquer coisa. Você forçou a mente a ficar quieta, em silêncio.

É um silêncio forçado. Não é a quietude que surge de quando você ‘não é’. Não é aquele silêncio mágico que aparece quando você é quase ‘não-existencial’. Não é como a beatitude que desce sobre você como uma pombinha.

Conta-se que quando Jesus foi batizado por João Batista no Rio Jordão, Deus desceu sobre ele, ou o Espírito Santo veio sobre ele em forma de pomba. Sim, é exatamente assim que acontece. Quando você ‘não é’ a paz desde sobre você... pairando como uma pomba... até o seu coração, fazendo morada e habitando ali para sempre.

Você é a sua atividade, você é a barreira. A meditação só 'é' quando o meditador 'deixa de ser'. Quando a mente cessa com todas as suas atividades – percebendo que são todas fúteis/vãs – então o desconhecido vem e desce, submergindo-o completamente.

A mente deve parar à fim de que Deus possa ser. O conhecimento deve cessar para que a sabedoria seja. Você precisa desaparecer, precisa desistir. Você deve se tornar ‘vazio’ para que, somente então, possa ser preenchido.

Naquela noite eu me tornei vazio e fui totalmente preenchido. Tornei-me ‘não existencial’ e tornei-me a existência. Naquela noite eu morri e renasci. Mas o que renasceu absolutamente nada tem a ver com o que morreu; é algo completamente descontínuo/desconexo. No plano da superfície parece haver continuidade, mas não há. Aquele que morreu, morreu totalmente, não sobrou nada dele.

Acredite em mim: nada permaneceu, nem mesmo a sombra. Ele morreu inteiramente, completamente. Eu não sou um ser alterado, transformado, modificado à partir do antigo. Não! não há elos. Naquele dia de vinte e um de março, a pessoa que vinha vivendo por muitas vidas, durante milênios, simplesmente morreu. Outro ser, absolutamente novo, desprovido de qualquer conexão com o velho, começou a existir.

A religião lhe oferta uma morte total. Talvez seja por isso que durante todo o dia anterior àquele acontecimento, me sobreveio um sentimento da morte, como se eu fosse morrer – e eu de fato morri. Eu conheci vários tipos de mortes, mas elas não eram nada se comparadas àquela; foram mortes parciais.

Algumas vezes o corpo morreu, outras vezes uma parte da mente morria; em outras, uma parte do ego... mas, até onde a pessoa importava, algo permaneceu. E renovou-se muitas vezes, decorou-se muitas vezes, enfeitou-se muitas vezes, mudou um pouquinho aqui e ali, mas algo permaneceu, a continuidade permaneceu.

Naquela noite a morte foi total. Foi um encontro concomitante com a morte e com Deus."




OSHO - Extraído de "The Discipline of Transcendence"; vol. 2; cap. 11.

sexta-feira, junho 12, 2015

Surdo, Mudo e Cego (Osho) - 2/2


- Osho -
*Acesse a primeira parte do texto clicando aqui


Agora nós devemos compreender esta bela história: Surdo, Mudo e Cego...

Gensha queixou-se aos seus seguidores um dia: "Outros mestres estão sempre falando da necessidade de salvar a todos – mas suponha que você encontre uma pessoa que seja surda, muda e cega: ela não poderá ver os seus gestos, ouvir sua pregação ou fazer perguntas a respeito. E, incapaz de salvá-la, você vai provar a si mesmo que é um budista sem valor".

Mestres geralmente não se queixam, mas quando eles se queixam isso significa alguma coisa. Aqui não é apenas Gensha reclamando, são todos os mestres reclamando. Mas essa é a experiência deles, porque onde quer que você vá você encontra pessoas surdas, mudas e cegas, porque toda a sociedade é assim. E como salvá-las? Elas não podem ver, não podem ouvir, não podem sentir, não podem compreender nenhum gesto. Se você tentar demais salvá-las, elas vão fugir. Elas vão pensar: "Este homem está atrás de alguma coisa, ele quer me explorar ou ele quer aplicar um golpe". Se você não faz muito por elas, elas sentem: "Este homem não é para mim, porque ele não está se importando o suficiente." E qualquer coisa que se faça, elas não conseguem entender.

Esta não é a história de Gensha, porque pessoas iluminadas nunca reclamam por si mesmas. Essa queixa é geral, é assim que acontece. Alguém como Jesus se sente da mesma maneira, alguém como Buda se sente da mesma maneira. Onde quer que você vá, você tem que encontrar pessoas que são surdas, mudas e cegas. Você faz gestos... e elas não podem ver, ou pior ainda, elas veem outra coisa. Você conversa com elas, e elas não conseguem entender, ou, ainda pior, elas compreendem mal. Você diz algo, elas entendem outra coisa, porque o significado não pode ser transmitido através de palavras. Apenas as palavras podem ser comunicadas, o significado tem de ser fornecido pelo ouvinte.

Se eu digo uma palavra, eu quero dizer uma coisa. Mas se dez mil pessoas estão ouvindo, haverá dez mil significados, porque cada uma irá ouvir conforme sua cabeça, o seu preconceito, o seu conceito e filosofia e religião. A pessoa vai ouvir a partir do seu condicionamento, e seu condicionamento vai fornecer o significado.

É muito difícil, praticamente impossível. É como se você fosse a um hospício e conversasse com as pessoas. Como você vai se sentir? Isso é o que Gensha sente, essa é a queixa.

Essa é a minha reclamação também. Trabalhando com você, eu sempre sinto um bloqueio. Ou seus olhos estão bloqueados, ou os seus ouvidos estão bloqueados, ou o seu nariz está bloqueado, ou o seu coração está bloqueado. Num lugar ou noutro, algo está bloqueado, está petrificado. E é difícil penetrar, porque se eu forçar demais para penetrar nesse bloqueio, você fica com medo – por que estou tão interessado? Se eu não faço muito, você se sente negligenciado. É assim que funciona uma mente ignorante. Faça isso, e ela interpretará mal; faça aquilo, e ela também entenderá mal. Uma coisa é certa: ela vai entender mal.

Gensha queixou-se aos seus seguidores um dia: "Outros mestres estão sempre falando da necessidade de salvar a todos".

Buda disse que, quando você está salvo, a única coisa a fazer é salvar os outros. Quando você atingiu a iluminação, a única coisa a fazer é espalhar isso para os outros, porque todo mundo está lutando. Todo mundo está avançando aos tropeços no caminho, todo mundo está avançando sabendo ou não sabendo, e você atingiu. Ajude os outros.

E isso é uma necessidade também, uma necessidade interior de energias, porque um homem que se tornou iluminado terá de viver alguns anos, porque a iluminação não é um destino; ela não é fixa, não é causada. Quando ela acontece, nem sempre é necessariamente quando o corpo morre. Não há necessidade de que esses dois acontecimentos (iluminação e morte do corpo) aconteçam juntos. Na verdade, é quase impossível, porque a iluminação é um fenômeno súbito, sem causa. Você se empenha para atingi-la, mas isso nunca acontece através de seu empenho. Seu empenho ajuda a criar a situação, mas isso acontece por meio de outra coisa – essa outra coisa é chamada "graça". É um presente da existência, não é produto de seus esforços; eles não causam isso. É claro que eles criam uma situação: eu abro a porta e a luz entra. Mas a luz é uma dádiva do Sol. Eu não posso criar a luz apenas abrindo a porta. A abertura da porta não é motivo para isso. A não abertura da porta era um obstáculo, mas a abertura da porta não é a causa. Eu não posso causar. Se você abrir a porta e for de noite, a luz não entrará. Abrir a porta não é criar a luz, mas fechando a porta você atrapalha.

Assim, todos os esforços que você fizer para a realização consistem apenas em abrir a porta. A luz vem quando vier. Você tem que ficar com a porta aberta de modo que, sempre que ela vier, sempre que ela bater à sua porta, você estará lá e a porta estará aberta para que a luz possa entrar. É sempre uma dádiva – e tem que ser assim, porque se você puder alcançar o supremo através dos seus esforços, será um absurdo. A mente limitada se esforçando... como ela pode encontrar o infinito? Com uma mente finita se esforçando, todos os esforços serão finitos. Como pode o infinito acontecer através de esforços finitos? A mente ignorante está se esforçando, e esses esforços são feitos na ignorância; como eles podem mudar, transformar-se em iluminação? Não, não é possível.

Você se esforça; os esforços são necessários, eles preparam você, eles abrem a porta – mas a coisa acontece quando acontece. Você permanece disponível. Deus bate várias vezes à sua porta, o Sol nasce todos os dias. E lembre-se, em nenhum outro lugar é dito o que agora eu vou de dizer a você, algo que poderá ajudá-lo. Isso não é dito porque, se você não entender, isso pode se tornar um obstáculo também. Existe um dia para Deus e existe uma noite também. Se você abrir a porta à noite, a porta permanecerá aberta, mas Deus não virá. Há um dia – se você abrir a porta no momento certo, imediatamente Deus vem.

E tem que ser assim, porque toda a existência tem opostos. Há também um período de descanso para Deus, no qual ele dorme. Se você abrir a porta, ele não vai vir. Há um momento em que ele está acordado, quando ele está em movimento – tem que ser assim, porque toda a energia se move através de dois opostos: descanso e movimento; e Deus é energia infinita! Ele tem movimentos e tem um descanso. É por isso que um mestre é necessário.

Se você fizer isso por conta própria, você pode estar trabalhando duro e nada estar acontecendo, porque você não está trabalhando no momento certo. Você está trabalhando durante a noite... você abre a porta e só entra escuridão. Com medo, você a fecha novamente. Você abre a porta e não há nada, só um imenso vazio ao redor. Você fica com medo, você a fecha novamente, e depois que você vê esse vazio, você nunca se esquece – e você vai ter tanto medo que vai demorar muitos anos para reunir coragem novamente para abri-la. Porque... depois de ver o abismo infinito, quando Deus está dormindo, quando Deus está em repouso – se você vê esse momento de negatividade infinita e abismo e escuridão –, você vai ficar com tanto medo, que por muitos anos você não vai fazer outra tentativa.

E eu sinto que muitas pessoas têm medo de ir para a meditação – eu sei que em algum lugar em sua vida passada, elas fizeram algum esforço e tiveram um vislumbre do abismo no momento errado. Elas podem não saber, mas inconscientemente o medo está lá, então sempre que chegam perto da porta e põem a mão na maçaneta e torna-se possível abrir a porta, elas ficam com medo. Elas voltam exatamente nesse momento, imediatamente correm de volta – elas não a abrem, Um medo inconsciente as aflige. Tem que ser assim, porque há muitas vidas você vem lutando e se esforçando.

Daí a necessidade do mestre. Um mestre é aquele que sabe, aquele que atingiu a iluminação. Ele conhece o momento certo. Ele irá dizer a você para fazer todos os esforços quando for a noite de Deus. E não vai lhe dizer para abrir a porta. Ele irá lhe dizer para se preparar no meio da noite: prepare-se tanto quanto possível para estar pronto e, quando a manhã romper e os primeiros raios surgirem, ele irá lhe dizer para abrir a porta. De repente, a iluminação! Então, é totalmente diferente, porque quando existe luz é totalmente diferente.

Quando Deus está acordado, o vazio não existe. É uma realização; é perfeita plenitude. Tudo está preenchido, mais do que preenchido, é perfeição sempre fluindo. É o pico, e não o abismo. Se você abrir a porta no momento errado, é o abismo. Você vai ficar tonto, tão tonto que, por muitas vidas, você nunca vai tentar reabri-la. Mas só aquele que sabe, só aquele que se tornou uno com Deus, só aquele que sabe quando é noite e quando é dia, pode ajudar; porque agora dia e noite acontecem nele também – ele tem uma noite, ele tem um dia.

Os hindus tiveram um vislumbre disso, e eles têm uma bela hipótese: chamam isso de dia de Brahma, o dia de Deus. Quando a criação acontece, eles a chamam de dia de Deus. Mas mesmo a criação tem um limite de tempo, e a criação se dissipa; então, a noite de Brahma, a noite de Deus, se inicia. Doze horas de dia de Brahma é toda a criação. Depois, exaurida, toda a existência desaparece na inexistência. Então, por doze horas é noite de Brahma. Para nós é de milhões e bilhões de anos, mas para Deus é de doze horas – o seu dia.

Os cristãos também tinham uma teoria, ou uma hipótese – porque eu chamo todas as teorias religiosas de hipóteses, pois nada é provado, nada pode ser provado pela própria natureza da coisa. Dizem que Deus criou o mundo em seis dias e, em seguida, no sétimo dia, descansou. é por isso que o domingo é um dia de descanso, de férias. Durante seis dias ele criou, e no sétimo dia descansou. Eles tinham uma visão de que mesmo Deus devia descansar.

Essas são duas hipóteses, ambas lindas, mas você tem que encontrar a essência disso. O essencial é que, todos os dias, Deus tem um dia e uma noite. E todos os dias há um momento certo para entrar e um momento errado; no momento errado você dá de cara com a parede; no momento certo você simplesmente entra. Por causa disso, aqueles que bateram no momento errado dizem que atingir a iluminação é uma coisa gradual, você a atinge em etapas; e aqueles que vieram até a porta no momento certo dizem que a iluminação é súbita, acontece num instante. Um mestre é necessário para decidir quando é o momento certo.

Contam que Vivekananda começou o seu discipulado e então um dia alcançou o primeiro vislumbre. Você pode chamar isso de satori, a palavra zen para samadhi, porque é uma visão, não é uma coisa permanente. É como se as núvens não estivessem lá no céu – o céu está claro e de uma distância de mil quilômetros você tem um vislumbre do Everest em toda a sua glória, mas, em seguida, o céu fica nublado e o vislumbre se esvai. Não é realização, não se atingiu o Everest, você ainda não alcançou o topo; de milhares de quilômetros você teve um vislumbre – isso é satoriSatori é um vislumbre do samadhi. Vivekananda teve um satori.

No ashram de Ramakrishna havia muitas pessoas, muitas pessoas estavam trabalhando. Um homem, seu nome era Kalu - um homem muito simples, muito inocente -, também trilhava e se empenhava em seu próprio caminho. E Ramakrishna aceitou todos os caminhos. Ele era um homem raro, ele aceitou todas as técnicas, todos os métodos, e ele disse que todo mundo tem que encontrar o seu próprio caminho, não existe uma superestrada. E isso é bom, caso contrário haveria um engarrafamento! Portanto isso é bom, você pode trilhar o seu próprio caminho. Não há mais ninguém lá para criar problema ou deixar tudo lotado.

Aquele Kalu era um homem muito simples. Ele tinha pelo menos cem deuses – como os hindus são amantes de muitos deuses, um não é suficiente para eles. Então, eles vão colocando em seu altar este deus, aquele deus, todos que podem encontrar. Não há nada de errado nisso; se você o ama, tudo bem. Mas Vivekananda era um intelectual lógico, muito arguto, inteligente. Ele sempre discutia com esse homem inocente e ele não conseguia responder. Vivekananda disse: "Por que esse absurdo? Um é suficiente, e as escrituras dizem que eles são todos um, então porque centenas de deuses?". E eles era de todos os tipos e formas, e Kalu tinha que trabalhar com esses deuses pelo menos durante três horas pela manhã e três à noite. E isso tomava o dia todo – porque com todos os deuses ele tinha que trabalhar –, e por mais rápido que ele trabalhasse, levava três horas pela manhã e três horas à noite. Mas ele era um homem muito, muito silencioso, e Ramakrishna o amava.

Vivekananda sempre discutia: "Jogue esses deuses fora!". Quando teve um vislumbre de satori, ele se sentiu muito poderoso. De repente, surgiu-lhe a ideia de que, com esse poder, se ele simplesmente enviasse uma mensagem telepática para Kalu dizendo para que ele pegasse todos os seus deuses e os jogasse no Ganges – e ele estava prestando culto em seu quarto, era a hora da adoração – isso iria acontecer.

Ele simplesmente enviou a mensagem. Kalu era realmente um homem simples. Ele reuniu todos os seus deuses num lençol e os levou para o Ganges. Mas naquele momento Ramakrishna estava chegando, e disse: "Espere! Não é você quem vai jogá-los. Volte para o seu quarto e coloque-os no lugar". Mas Kalu disse: "Chega! Acabou!"

Ramakrishna disse: "Espere! Venha comigo!".

Ele bateu na porta de Vivekananda. Vivekananda abriu a porta e Ramakrishna disse: "O que você fez? Isso não é bom e esse não é o momento certo para você. Então eu vou tirar a sua chave de meditação e mantê-la comigo. Quando chegar o momento certo eu vou dá-la a você". E, por toda a sua vida, Vivekananda tentou de milhões de maneira atingir a iluminação, mas ele não conseguiu esse vislumbre de novo.

Pouco antes de morrer, três dias antes, Ramakrishna apareceu em sonho e deu-lhe a chave. Ele disse: "Agora você pode pegar a have. Agora, chegou o momento certo para você abrir a porta". 

E no dia seguinte de manhã ele teve o segundo vislumbre.

Um mestre sabe quando é a hora certa. Ele ajuda você, prepara-o para o momento certo, e ele vai lhe dar a chave quando o momento certo chegar. Então você simplesmente abre a porta e o divino entra – porque se você abrir a porta e entrar na escuridão, isso será parecido com a morte, não com a vida. Não há nada de errado nisso, mas você vai ficar com medo, e você pode ficar tão assustado que pode carregar esse medo para todo o sempre.

Buda diz que sempre que uma pessoa atinge a iluminação, começa a ajudar os outros, porque todas as suas energias que estavam se movendo para o desejo... agora essa porta está aberta, essa jornada não existe mais, essa viagem não existe mais. Agora deixe que todas as suas energias, que antes estavam se movendo para o desejo, vasana, tornem-se compaixão, deixe que se tornem karuna. E só existe uma compaixão – como ajudar o outro a alcançar o supremo, porque não há nada mais a ser alcançado. Tudo o mais é besteira. Só o divino vale apena alcançar. Se conseguir alcançar isso, você alcançou tudo; se você perder isso, terá perdido tudo.

Quando uma pessoa se torna iluminada, ela vive por alguns anos antes de o corpo completar o seu ciclo. Buda viveu por quarenta anos, porque o corpo tinha chegado a um momento especial: dos pais o corpo tinha conseguido os cromossomos, a carga genética; e do seu próprio karma passado o corpo tinha começado um ciclo de vida. Ele deveria viver oitenta anos, iluminado ou não. Independente de a iluminação acontecer, ou não, ele teria de viver oitenta anos. Aconteceu quando ele tinha em torno de 40 anos, e ele viveu mais quarenta anos. O que fazer com as energias agora? Agora não há desejo, não há ambição. E você tem energias infinitas fluindo. O que fazer com essas energias? Elas podem ser aplicadas na compaixão. Agora também não há nenhuma necessidade de meditação; você atingiu, você está transbordando – agora você pode compartilhar. Você pode compartilhar com milhões de pessoas, você pode dar isso a elas.

Então Buda fez com que isso se tornasse uma parte básica do seu ensinamento. Ele chama a primeira parte de dhyana, meditação, e a segunda parte de prajna, atingir a sabedoria. Por meio da meditação, você chega à prajna. Estes são os seus dois fenômenos interiores: primeiro você meditou, depois você atingiu. Agora, para equilibrar o interior com o exterior – porque um homem de iluminação é sempre equilibrado. Antes, fora de você - quando não havia meditação interior, nem sabedoria -, havia o desejo. E agora, que em você há uma sabedoria interior, deve haver compaixão. As energias externas devem se tornar compaixão. As energias internas se converteram em sabedoria, iluminação. Iluminação dentro, compaixão fora. O homem perfeito é sempre equilibrado. Por isso Buda diz: continue e ajude a salvar as pessoas.

Gensha queixava-se: como fazer isso se você encontra alguém que é surdo, mudo e cego? E você quase sempre se depara com pessoas assim, porque elas simplesmente existem. Você não se depara com um buda – e um buda não precisa de você. Você se depara com uma pessoa impotente, ignorante, sem saber o que fazer, sem saber para onde ir. Como ajudá-la?

Incomodado com essas palavras, um dos discípulos de Gensha foi consultar o mestre Ummon.

Ummon era um discípulo irmão para Gensha; eles eram discípulos do mesmo professor, Seppo. Então o que fazer? Gensha disse uma coisa tão preocupante para esse homem: como ajudar as pessoas? Ele foi procurar Ummon.

Ummon é um mestre muito famoso. Gensha era um mestre muito silencioso. Mas Ummon tinha milhares de discípulos e ele tinha muitos recursos para trabalhar com eles. Ele criava situações, porque só as situações pode ajudar. Se você for estúpido, surdo... palavras simplesmente não poderão ajudar. Se você é cego, os gestos serão inúteis. Então o que fazer? Somente as situações podem ajudar.

Se você é cego, não poderei lhe mostrar a porta através de gestos, porque você não pode ver. Eu não posso lhe falar sobre a porta, porque você é surdo e não pode ouvir. Na verdade, você não pode nem mesmo fazer a pergunta: "Onde está a porta?". Isso é assim porque as pessoas conseguem ser estúpidas desse tanto. O que fazer? Eu tenho que criar uma situação.

Eu posso ter de segurar a sua mão, eu posso pegar você pela mão e levá-lo em direção à porta. Nenhum gesto, nenhuma palavra. Eu tenho que fazer alguma coisa; eu tenho que criar uma situação em que os mudos, os surdos e os cegos possam avançar.

Incomodado com essas palavras, um dos discípulos de Gensha foi consultar o mestre Ummon.

... Porque ele sabia muito bem que Gensha não diria muito; ele não era um homem de muitas palavras e ele nunca criou nenhuma situação; ele diria coisas e ficaria quieto. As pessoas tinham que procurar outros mestres para perguntar o que ele queria dizer. Ele era um tipo diferente, um tipo silencioso de homem, como Ramana Maharshi; ele não diria muito. Ummon também não era um homem de palavras, mas ele criaria situações; se ele usasse as palavras, seria apenas para criar situações.

Ele foi consultar o mestre Ummon que, como Gensha, era discípulo de Seppo.

E Seppo foi totalmente diferente de ambos. Dizem que ele nunca falava. Ele permaneceu completamente silencioso. Portanto, não havia problema para ele – ele nunca se deparara com um homem surdo, mudo e cego, porque ele nunca saía dali. Somente as pessoas que estavam intensamente na busca espiritual, apenas as pessoas cujos olhos estavam ligeiramente abertos, apenas as pessoas que fossem surdas mas que seriam capazes de ouvir alguma coisa caso você falasse alto... é por isso que muitas pessoas tornavam-se iluminadas perto de Seppo, porque somente aqueles que era casos limítrofes atingiam a iluminação.

Esse Ummon e esse Gensha, esses dois discípulos tornaram-se iluminados com Seppo, um homem totalmente silencioso; eles simplesmente se sentavam, e se sentavam e não faziam nada. Se queria aprender, você poderia ficar com ele; se você não queria, você podia ir embora. Ele não dizia nada. Você tinha que aprender, ele não iria ensinar. Ele não era um professor, mas muitas pessoas aprenderam.

O discípulo foi até Ummon.

"Curve-se, por favor", disse Ummon.

Ele começou imediatamente, porque as pessoas que são iluminadas não perdem tempo, elas simplesmente vão direto ao ponto, imediatamente.

"Curve-se, por favor", disse Ummon.
O monge embora tomado de surpresa...

Porque... não é assim que acontece! Na tradição zen, ninguém pede a ninguém para se curvar. E não há necessidade. Se alguém quer se curvar, vai se curvar, se quer lhe prestar respeito, vai prestar. Se não quer, então não vai. Que tipo de homem é esse Ummon? Ele diz "Curve-se, por favor", antes de o monge perguntar qualquer coisa; ele apenas entrou em seu quarto, e Ummon diz: "Curve-se, por favor".

O monge, embora tomado de surpresa, obedeceu à ordem do mestre – então aprumou-se na expectativa de ter a sua pergunta respondida.
Mas, em vez de uma resposta, recebeu um golpe de cajado. Ele saltou para trás. 
"Bem", disse Ummon, "você não é cego. Agora se aproxime".

Ele disse: Você pode ver o meu cajado, então uma coisa é certa: você não é cego.

Agora se aproxime.

O monge fez como lhe foi ordenado. "Bom", disse Ummon, "você também não é surdo.

Você pode ouvir: Eu digo aproxime-se e você se aproxima.

"Bem, entendeu?"
"Entendeu o que, senhor?", disse o monge.

O que ele está dizendo? Ele diz:

"Bem, entendeu?".
"Entendeu o que, senhor?", disse o monge.
"Ah, você também não é burro!", disse Ummon.
Ao ouvir essas palavras, o monge despertou de um sono profundo.

O que aconteceu? O que Ummon está apontando? Primeiro ele está dizendo que, se não é um problema seu, por que se preocupar? Há pessoas que vem a mim...

Um homem muito rico veio, um dos mais ricos da Índia, e disse: "E os pobres, como você vai ajudar os pobres?". Então, eu disse a ele: "Se você é pobre, então pergunte; caso contrário, deixe que os pobres perguntem. Por que isso é um problema para você? Você não é pobre, então por que criar um problema por causa disso?".

Uma vez o filho de Mulá Nasrudin perguntou a ele... eu estava presente, e a criança estava se esforçando muito, resmungando, é claro, para fazer o dever de casa, e então de repente ele olhou para Nasrudin e disse: "Pai, o que é essa coisa de educação? Para quê serve toda essa educação afinal?"

Nasrudin disse: "Bem, não há nada como a educação. Ela torna você capaz de se preocupar com todos os outros no mundo, exceto com você mesmo".

Não há nada como a educação. Toda a sua educação simplesmente torna você capaz de se preocupar com situações em todo o mundo, relativas a todos exceto a você mesmo – com todos os problemas que existem no mundo. Eles sempre existiram, eles sempre vão existir. Não é porque você está aqui que os problemas estão lá. Você não estava aqui e eles estavam lá; logo você não vai mais estar aqui e eles continuarão lá. Eles mudam de cor, mas permanecem. O próprio esquema do universo é tal que parece que por meio dos problemas e da miséria algo está crescendo. Parece ser um passo, parece ser uma instrução necessária, uma disciplina.

A primeira coisa que Ummon está apontando é: Você não é cego, nem mudo, nem surdo – então por que está preocupado e por que está aborrecido? Você tem olhos: por que perder tempo pensando nos cegos? Por que não olha para o seu mestre? Porque os cegos sempre vão existir, seu mestre não vai existir para sempre. E você pode pensar nos cegos e surdos e se preocupar com eles, em como salvá-los, mas o homem que pode salvar você não vai estar aí para sempre. Então se preocupe consigo mesmo.

Minha experiência também diz que as pessoas estão preocupadas com os outros. Uma vez um homem me fez exatamente a mesma pergunta. Ele disse: "Nós podemos ouvir você, mas o que acontece com aqueles que não podem vir e ouvir, o que fazer? Podemos ler sobre você, disse ele, mas o que acontece com aqueles que não podem ler?"

Eles parecem relevantes, mas são absolutamente irrelevantes. Porque, qual a razão de você estar tão preocupado? E se você está preocupado assim, então você nunca pode se tornar iluminado, porque uma pessoa que vive desperdiçando e dissipando sua energia com os outros, nunca olha para si mesma. Esse é um truque da mente para escapar de si mesma. Você pensa nos outros e se sente muito bem, porque está se preocupando com os outros. Você é um grande reformador social ou revolucionário ou um utopista, um grande servo da sociedade, mas o que você está fazendo? Você está simplesmente evitando a questão básica: é com você que algo deve ser feito.

Esqueça toda a sociedade, e só então algo pode ser feito a você. E quando você for salvo, pode começar a salvar os outros. Mas, antes disso, por favor não pense em fazê-lo – é impossível. Antes de estar curado, você não pode curar ninguém. Antes de estar cheio de luz, você não pode ajudar ninguém a inflamar o próprio coração. Impossível! Apenas uma chama acesa pode ajudar alguém. Primeiro torne-se uma chama acesa – esse é o primeiro ponto.

E o segundo ponto é: Ummon criou uma situação. Ele poderia ter dito isso, mas ele não o disse; ele está criando uma situação, pois somente numa situação você está totalmente envolvido. Se eu disser algo, só o intelecto está envolvido. Você escuta com a cabeça, mas suas pernas, seu coração, seus rins, seu fígado, sua totalidade não estão envolvidos. Mas quando o monge bateu nele com o cajado, ele saltou totalmente. Então a ação foi total; então, não só a cabeça e as pernas, os rins, o fígado, mas todo o seu ser saltou.

Esse é o objetivo de minhas técnicas de meditação: o todo de você tem de tremer, saltar, todo o seu ser tem que dançar, todo o seu ser tem que se mover. Se você simplesmente se sentar com os olhos fechados, apenas a cabeça estará envolvida. Você pode continuar por um longo período dentro da cabeça – e há muitas pessoas que continuam se sentando por anos juntas, apenas com os olhos fechados, repetindo um mantra. Mas o mantra circula só na sua cabeça, sua totalidade não está envolvida – e sua totalidade é o requisito necessário, porque a existência esté sempre envolvida com a totalidade. A existência não se relaciona com "partes", porque ela sempre está envolvida com a totalidade. Sua cabeça está em Deus tanto quanto o seu fígado e os seus rins e os seus pés. Você está totalmente nele, e a cabeça sozinha não pode perceber tudo isso.

Qualquer coisa intensamente ativa será útil. Inativo, você pode ficar apenas dando voltas dentro da mente. E elas não têm fim, os sonhos, os pensamentos, eles não tem fim. Eles prosseguem infinitamente.

Kabir disse: Existem dois infinitos no mundo – um é a ignorância e o outro é Deus. Duas coisas são infinitas: Deus é infinito, e a ignorância é infinita. Você pode continuar repetindo um mantra, mas isso não vai ajudar a menos que toda a sua vida se torne um mantra, a menos que você esteja completamente envolvido nisso – sem se conter, sem divisão. Isso é o que Ummon fez. O monge bateu com o cajado nele.

"Bem", disse Ummon, "você não é cego. Agora se aproxime".
O monge fez como lhe foi ordenado. 
"Bom", disse Ummon, "você também não é surdo."

O que ele está enfatizando? Ele está enfatizando o seguinte: "Você pode entender, então por que perder tempo?". Então ele pergunta: "Bem, entendeu?". Ummon tinha acabado. A situação estava completa. Mas o discípulo ainda não estava pronto, não tinha chegado ao ponto. Ele perguntou: "Entendeu o quê, senhor?". A coisa toda estava ali agora. Ummon tinha dito tudo o que havia para ser dito. E ele tinha criado uma situação onde os pensamentos não existiam: quando alguém bate em você com um cajado, você salta sem pensar. Se você acha que não pode saltar, no momento em que você decidisse saltar, o cajado teria batido em você. Não haveria tempo.

A mente precisa de tempo, o pensamento precisa de tempo. Quando alguém bate em você com um cajado, ou se de repente você encontrar uma cobra em seu caminho, você salta! Você não pensa, você não faz um silogismo lógico, você não diz: "Aqui há uma cobra, a cobra é perigosa, a morte é possível, eu devo saltar". Você não segue Aristóteles ali. Você simplesmente coloca Aristóteles de lado – você salta! Você não se importa com o que Aristóteles diz, você é ilógico. Mas sempre que você é ilógico, você é total.

Foi isso que Ummon disse. Você salta totalmente. Se você consegue saltar totalmente, por que não medita totalmente? Quando batem em você com um cajado, você salta sem se importar com o mundo. Você não pergunta: "Tudo bem, mas o que dizer de um homem cego? Se você bater com o cajado, como isso vai ajudar o cego?". Você não faz uma pergunta – você simplesmente salta, você simplesmente evita a pancada. Naquele momento o mundo inteiro desaparece, só você é o problema. E o problema está ali: você tem que resolvê-lo e sair dele.

"Entendeu?" – Foi isso o que Ummon perguntou. O ponto está completo.

"Entendeu o quê, senhor?", disse o monge.

Ele ainda não conseguiu.

"Ah, você também não é burro!", você pode falar também.
Ao ouvir estas palavras, o monge despertou de um sono profundo.

A situação toda – não verbal, ilógica, total. Como se alguém fosse sacudido até acordar de seu sono. Ele acordou; por um momento, tudo ficou claro. Por um momento houve um relâmpago, não havia escuridão. Satori aconteceu. Agora o sabor está lá. Agora, esse discípulo pode seguir o sabor. Agora, ele sabe; ele jamais poderá se esquecer. Agora, a busca será totalmente diferente. Antes disso, era uma busca por algo desconhecido – e como você pode procurar por algo desconhecido? E como você pode renunciar a toda a sua vida por isso? Mas agora ela vai ser total, agora não é algo desconhecido – um vislumbre foi dado a ele. Ele provou o oceano, talvez de uma xícara de chá, mas o  gosto é o mesmo. Agora ele sabe. Foi realmente uma pequena experiência – uma janela aberta, mas todo o céu estava lá. Agora, ele pode sair de casa, sair sob o céu e viver nele. Agora ele sabe que a questão é individual.

Não faça dela algo social. A questão é você, e quando eu digo você, eu quero dizer você, cada um individualmente; não como um grupo, não você como sociedade. Quando eu digo você, eu me refiro a você simplesmente, ao indivíduo – e o truque da mente é fazer desse eu algo social. A mente quer se preocupar com os outros, então não há nenhum problema. Você pode adiar o seu próprio problema; é assim que você vem perdendo a sua vida há muitas vidas. Não a desperdice mais.

Estou travando essas conversas, mais sutis do que as de Ummon, mas se você não me ouvir, talvez eu tenha que encontrar coisas mais grosseiras.

Não pense demais. Primeiro resolva o seu problema, então você vai ter clareza para ajudar os outros também. E ninguém pode ajudar a menos que tenha iluminado a si mesmo.

Basta por hoje.

quinta-feira, junho 11, 2015

Surdo, Mudo e Cego (Osho) - 1/2



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Gensha queixou-se aos seus seguidores um dia: "Outros mestres estão sempre falando da necessidade de salvar a todos – mas suponha que você encontre uma pessoa que seja surda, muda e cega: ela não poderá ver os seus gestos, ouvir sua pregação ou fazer perguntas a respeito. E, incapaz de salvá-la, você vai provar a si mesmo que é um budista sem valor".

Incomodado com essas palavras, um dos discípulos de Gensha foi consultar o mestre Ummon que, como Gensha, era discípulo de Seppo.

- "Curve-se, por favor", disse Ummon.

O monge, embora tomado de surpresa, obedeceu à ordem do mestre. Então aprumou-se na expectativa de ter a sua pergunta respondida.

Mas, em vez de uma resposta, recebeu um golpe de cajado. Ele saltou para trás. 
"Bem", disse Ummon, "você não é cego. Agora se aproxime".

O monge fez como lhe foi ordenado. 

"Bom", disse Ummon, "você também não é surdo. Bem, entendeu?".

"Entendeu o que, senhor?", disse o monge.

"Ah, você também não é burro!", disse Ummon.

Ao ouvir essas palavras, o monge despertou de um sono profundo.


Jesus disse aos seus discípulos, e não apenas uma vez, mas várias vezes: "Se você tem olhos para ver, veja! Aquele que tiver ouvidos para ouvir, ouça-me!". Eles tinham olhos como você e eles tinham ouvidos como você. Portanto Jesus devia estar se referindo a outra coisa – não a estes ouvidos, nem a estes olhos.

Há uma maneira diferente de ver o mundo e uma maneira diferente de ouvir. Uma maneira diferente de ser. Quando você tem essa qualidade diferente de ver, Deus é visto; quando você tem esse jeito diferente de ouvir, Deus é ouvido; e quando você tem essa qualidade diferente de ser, você se torna o próprio Deus. Do jeito como você é, você é surdo, mudo e cego – um ser quase morto. Surdo para Deus, mudo para Deus, cego para Deus, morto para Deus.

Nietzsche declarou que Deus está morto. Na verdade, se você está morto, como Deus pode estar vivo para você? Deus está morto porque você está morto. Você só pode conhecer Deus quando você vive em abundância, quando sua vida se torna um transbordar, quando ela é uma inundação. Naquele momento transbordante de felicidade, vida e vitalidade, pela primeira vez você sabe o que Deus é, pois Deus é o mais luxuriante fenômeno de transbordamento.

Deus não é uma necessidade neste mundo. As leis científicas são uma necessidade – sem elas o mundo não pode existir. Deus não é uma necessidade dessa maneira. Sem ele o mundo pode existir, mas será inútil. Sem ele você pode existir, mas a sua existência será apenas uma existência vegetativa. Sem ele você pode vegetar, você não pode estar realmente vivo.

Deus não é uma necessidade – você pode existir, mas o seu ser não terá nenhum significado, não vai carregar nenhum significado. Ele não terá poesia, não terá nenhuma música, não terá dança. Não vai ser um mistério. Pode ser uma aritmética, pode ser um negócio, mas não pode ser um caso de amor.

Sem Deus tudo o que é belo desaparece porque a beleza vem apenas com um transbordar – é um luxo. Observe uma árvore: se você não regou direito, se a árvore não está recebendo nutrição do solo, a árvore pode existir, mas flores não surgirão. A existência dela estará lá, mas será inútil! Seria melhor não existir, pois seria uma constante frustração. As flores só surgem na árvore apenas quando a árvore tem TANTO que ela pode compartilhar, e quando a árvore tem tanto alimento que ela pode florescer – o florescimento é um luxo. A árvore tem tanto que ela tem condições para isso.

E eu lhe digo que Deus é a coisa mais luxuosa do mundo. Deus não é necessário – você pode viver sem ele. Você pode viver muito bem, mas você vai perder alguma coisa, você vai sentir um vazio no coração. Você vai ser mais como uma ferida do que como uma força viva. Você vai sofrer, não pode haver nenhum êxtase em sua vida.

Mas como encontrar esse significado, esse êxtase? Você vai precisar de uma forma diferente de olhar. Agora você é cego. Claro que você pode ver a matéria, mas a matéria é uma necessidade. Você pode ver a árvore muito bem, mas você perde as flores; e até mesmo se você puder ver as flores, você perde a fragrância. Seus olhos podem ver apenas a superfície – você perde o centro, o âmago. Por isso é que Jesus continua dizendo que você é um homem cego, você é surdo – e você tem que ser estúpido/tolo, porque se você não o viu, o que há para dizer? Se você ainda não o ouviu, o que há para comunicar? Se a poesia não aconteceu, o que há para cantar? Você faz gestos com a boca, mas nada vai sair, porque não há nada ali em primeiro lugar.

Quando um homem como Jesus fala, ele está possuído, algo maior do que ele fala através dele. Quando um homem como Buda fala, ele não é o Sidharta Gautama que nasceu como filho de um rei. Não, não é o homem quem está falando. Um homem como Jesus ou Buda não é mais o corpo que você pode ver e tocar, ele não é nem mesmo a mente que você pode compreender e entender. Algo do além interveio, algo que não é do tempo e do espaço interveio no tempo e no espaço. Um milagre aconteceu. Não é ele quem fala com você, ele é apenas um veículo; algo além está fluindo através dele. Ele é apenas o canal por onde vem a mensagem. Ele leva até você algo da margem desconhecida. Somente então, quando o êxtase acontece, é que você pode cantar. Caso contrário você pode continuar cantando, mas será superficial. Você pode fazer muito barulho, mas o barulho não está falando. Você pode usar muitas palavras, mas elas vão estar vazias. Você pode falar muito, mas na verdade como você pode falar?

Quando aconteceu a Maomé, o primeiro dia em que ele entrou em contato com o divino, ele caiu no chão, abalado, começou a tremer e transpirar – e a manhã estava fria como esta manhã. Ele estava sozinho, e dos próprios poros das solas dos seus pés ele começou a transpirar, ele estava com medo. Algo desconhecido o havia tocado, e ele estava morrendo de medo. Ele foi correndo para casa e foi para a cama. Sua esposa ficou com muito medo. Muitos cobertores foram colocados sobre ele, mas ainda assim ele continuou tremendo e sua esposa perguntou: "O que aconteceu? Seus olhos parecem atordoados... e por que você não fala? Por que você ficou assim, como uma pessoa débil? 

E contam que Maomé disse: "Pela primeira vez há algo a dizer. Até agora eu tenho sido um homem idiota; não havia nada a dizer, e eu estava fazendo os gestos com a boca. Eu estava falando, mas apenas os meus lábios estavam se movendo, não havia nada a dizer. E agora eu tenho algo a dizer – é por isso que estou tremendo tanto. Fui fecundado com o desconhecido, com o divino. Algo tem que nascer".

E isso traz sofrimento, como toda mãe sabe. Se você tiver de dar à luz uma criança, você tem que passar por muitos dias de dor e, quando o nascimento acontece, há muito sofrimento. quando a  vida entra, é uma luta.

Durante três dias, contam, Maomé permaneceu em sua cama, absolutamente mudo. Então, aos poucos, assim como uma criancinha começa a falar, ele começou a falar. E assim o Corão nasceu.

As coisas devem mudar em você para que você se sinta vivo. A vida é um movimento, não de um lugar para o outro, mas de um estado para o outro. Trata-se de um movimento interior profundo de uma consciência para outra consciência, para os reinos mais elevados do Ser. Caso contrário, você está morto. Do modo como você está, você está morto. Assim, Jesus continua dizendo: "Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça! Quem tiver olhos para ver, veja!". Isso tem que ser entendido primeiro, então essa história vai se tornar mais fácil.

Então, a segunda coisa: por que você está tão morto? Por que está tão mudo, cego e surdo? Deve haver alguma coisa, deve haver algum investimento nisso, um investimento profundo – do contrário, tantas pessoas, milhões delas, não viveriam nesse estado. Elas devem estar ganhando alguma coisa, você deve estar recebendo algo em troca, caso contrário como é possível que os Budas, Krishnas e Cristos continuem dizendo: "Não seja cego, não seja surdo, não seja mudo, não fique morto! Viva! Fique alerta, acordado!" – e ninguém os ouve? Mesmo que eles façam esse apelo intelectualmente, você nunca os ouve. Mesmo que sinta em certos momentos sublimes da vida que eles estão certos, você nunca os segue. Mesmo que às vezes você decida seguir, você sempre adia para amanhã – e então o amanhã nunca chega. Por que o profundo investimento nisso?

Na noite passada eu estava conversando com um amigo. Ele é um homem muito instruído, culto; ele viajou o mundo todo, morou na União Soviética, no Reino Unido e nos Estados Unidos; esteve na China e em outros lugares. Ouvindo-o falar, eu senti que ele estava completamente morto. E então ele me perguntou: "Que solução você me sugeriria? Porque a vida tem tanto sofrimento, dor, tantas injustiças, tantas coisas que nos ferem... Como viver a vida de maneira que não se sinta dor, de maneira que a vida não possa criar tantas feridas no nosso ser – o que fazer?".

Então eu disse a ele que existem dois caminhos: um, que é mais fácil, mas tem um preço alto – que é ficar morto, se tornar tão insensível quanto possível. Porque se você é insensível, se você tiver desenvolvido uma carapaça ao seu redor, uma armadura, então você não se preocupa muito, ninguém pode feri-lo. Insultam você e você tem uma carapaça tão grossa que nunca é afetado. Há injustiça no mundo, mas você simplesmente não se importa, e até mesmo sequer se dá conta disso.

Esse é o mecanismo da sua apatia, da sua condição de morto. Se você é mais sensível, você vai se machucar mais. Então cada pequena coisa pode se tornar uma dor, um sofrimento, e será impossível viver – e a pessoa tem que viver. Existem problemas, milhões de problemas – há violência por toda parte, há sofrimento em todo lugar. você passa pela rua e mendigos estão lá, você tem que ser insensível, caso contrário, a coisa se tornará um sofrimento, um fardo pesado sobre você. Por que esses mendigos? O que eles fizeram para sofrer isso? E de alguma forma, lá no fundo, você vai sentir: "Eu também sou responsável". Então você simplesmente passa pelo mendigo como se fosse surdo, mudo, cego – você não olha. Você vê um homem morrendo, o que pode fazer? Você vê uma criança aleijada, o que pode fazer?

Então eu disse a esse meu amigo que existe um caminho, e que é ser morto: isso é mais fácil, isso é o que todo mundo está fazendo. As pessoas diferem em graus, mas à sua própria maneira elas estão fazendo isso. Em toda parte parte você tem que criar uma barreira em torno de você. Você acha que isso o protege – não o protege, apenas o mata. Claro que você vai sofrer menos, mas menos bênção virão para você, menos felicidade também. Quando você se torna morto, o sofrimento é menor, porque você não pode sentir; a felicidade também é menos porque você não pode sentir. Uma pessoa que está em busca de mais felicidade tem que estar pronta para sofrer.

Isso pode parecer um paradoxo para você: que um homem no estado de um buda, um homem que já despertou, que é feliz – absolutamente feliz – possa sofrer da mesma maneira. É claro que ele está feliz por dentro, as flores continuam se derramando, mas ele sofre por todos ao seu redor. Ele tem que sofrer, porque, se você tem sensibilidade para que as bênçãos estejam disponíveis para você, o sentimento também estará disponível para você. É preciso escolher. Se você optar por não sofrer, se escolher que não quer sofrer, então você também não vai atingir a felicidade – porque ambos entram pela mesma porta, esse é o problema. Você pode fechar a porta com medo do inimigo, mas o amigo também entra pela mesma porta. E se você trancá-la completamente e bloqueá-la completamente, por medo do inimigo, então o amigo também não pode entrar. Não é que Deus não esteja vindo/acontecendo a você – as portas estão fechadas. Você pode tê-las fechado para não deixar o diabo entrar, mas quando as portas estão fechadas, elas estão fechadas para todas as possibilidades. E aquele que sente a necessidade, que sente a fome ou sede de conhecer a verdade, tem de encontrar o diabo também. Você não pode escolher ter um, você tem que encontrar os dois.

Se você está vivo, a morte será um grande fenômeno para você. Se você vive totalmente, vai morrer totalmente; se você vive dois por cento, você vai morrer dois por cento. Assim como é a vida, será a morte. Se a porta está aberta para Deus, ela está aberta para o diabo também.

Você já ouviu muitas histórias, mas eu não sinto que você tenha entendido: sempre que Deus acontece, o diabo acontece um pouco antes dele, porque sempre que a porta está aberta, o diabo apressa-se para entrar primeiro. Ele está com pressa. Deus não está com pressa.

O mesmo aconteceu com Jesus. Antes que ele atingisse a iluminação final, o diabo o tentou por quarenta dias. Quando ele estava meditando, jejuando em sua solidão – quando Jesus estava desaparecendo e criando um lugar para Cristo vir –, o diabo o tentou. Nesses quarenta dias o diabo ficou continuamente ao lado dele. E ele tentou muito bem e muito politicamente; ele é o maio político de todos; todos os outros políticos são seus discípulos. Muito diplomaticamente ele disse: "Certo, então agora você se tornou um profeta, e você sabe que as Escrituras dizem que quando Deus escolhe um homem e ele se torna um profeta - um messias - ele se torna um homem infinitamente poderoso. Agora você é poderoso. Se você quiser, pode pular desta colina e os anjos virão para ampará-lo desta grande queda. E se você é realmente um messias, comprove tudo o que é dito nas escrituras – salte!".

A tentação era grande e ele estava citando as escrituras. Os demônios sempre citam, pois para convencer você é preciso citar uma escritura. Os demônios sabem todas as escrituras de cor.

Jesus riu e disse: "Você está certo, mas a mesma escritura diz que você não deve testar Deus".

Então, um dia, quando ele estava com muita fome... trinta dias de jejum... e o diabo estava sempre sentado ao seu lado. Antes que Deus venha, o diabo vem. No momento em que você abre a porta ele está ali de pé, e ele é sempre o primeiro na fila. Deus sempre fica para trás porque ele não está com pressa, lembre-se: Deus tem a eternidade para trabalhar, o diabo não tem a eternidade para trabalhar – apenas momentos. Se ele perde, ele perde completamente, porque depois que um homem se torna divino, ele se torna invulnerável. Então o diabo tem que encontrar momentos de fraqueza, quando Jesus está desaparecendo e Cristo ainda não entrou. Essa lacuna é o momento onde ele pode tentar entrar. Então o diabo disse: "Mas é dito nas escrituras que, quando um homem é escolhido por Deus, ele pode transforma até mesmo pedras em pão. Então por que você está sofrendo? Transforme as pedras em pão e coma, alimente-se! E prove isso, porque se você o fizer, o mundo será beneficiado com isso". Essa é a diplomacia. Ele disse: "O mundo vai ser beneficiado com isso". É assim que o diabo tentou convencê-lo, porque, quando você transformar pedras em pão, as pessoas vão saber que você é o homem de Deus. Elas virão correndo, então você pode ajudá-las. Caso contrário, quem vai ouvir você?

E Jesus disse: "Você está certo. Eu posso transformar – mas não eu. Deus pode transformar pedras em pão. Mas sempre que ele precisar disso, ele vai me dizer, você não precisa se preocupar. Por que você está se dando a tanto trabalho?".

Sempre que você entra em meditação, o primeiro homem que você vai encontrar no portão, no momento em que abrir a porta, será o diabo, porque é por causa do medo que você fechou a porta. E lembre-se... mas primeiro vou contar uma história, então você vai entender:

Numa loja, tinham anunciado um desconto especial para o Natal, especialmente para as roupas e vestidos femininos, por isso havia uma multidão de mulheres. Um homem teve que ir a essa loja porque a esposa dele estava doente, e ela o obrigou a ir, porque essa era uma chance que não poderia ser desperdiçada. Então ele ficou ali de pé, como um cavalheiro, por uma hora, mas não conseguiu chegar ao balcão. Você conhece as mulheres, o jeito delas – gritando, gritando umas com as outras, aparecendo do nada, sem fazer fila; e o homem estava pensando que era uma fila, por isso ele ficou ali de pé. Depois que uma hora se passou, ele não estava nem perto do balcão; ele começou a empurrar e gritar e gritar, e começou a forçar para abrir caminho na multidão e chegar ao balcão.

Uma senhora idosa gritou: "O que é isso? O que você está fazendo? Seja um cavalheiro!". O homem disse: "Por uma hora eu fui um cavalheiro. Agora preciso me comportar como uma dama! Chega!".

Lembre-se: o diabo nunca se comporta como um cavalheiro, ele se comporta como uma dama. Ele está sempre em primeiro lugar na fila. E Deus é um cavalheiro. É difícil para ele ser o primeiro da fila, e no momento em você abre a porta o diabo entra. E por causa do medo dele, você a mantém fechada. Mas, se o diabo não pode entrar, Deus também não pode. Quando você fica vulnerável tanto para Deus quanto para o diabo – para a luz e para a escuridão, para a vida e para a morte, para o amor e para o ódio –, você se torna disponível para ambos os opostos.

Você optou por não sofrer, então você está fechado. Você pode não estar sofrendo, mas sua vida é um tédio, porque apesar de você não sofrer tanto quanto poderia sofrer se estivesse aberto, não há bençãos também. A porta está fechada – nenhuma manhã, nem o Sol, nem a Lua entram; não entra o céu, nem ar fresco, todo o seu ambiente se torna mofado. E por medo você está escondido aí. Já não é mais a sua casa onde você está vivendo, você já a converteu em um túmulo. Suas cidades são cemitérios, suas casas são sepulturas. Todo o seu modo de vida é o de um homem morto. 

Agora nós devemos compreender esta bela história: Surdo, Mudo e Cego.
Continua...


segunda-feira, junho 08, 2015

Ensinamentos sobre o Despertar (Oneness) - 3/3


- Oneness -
Sri Amma Bhagavan
 

“O desperto vê as coisas como elas são, e não tenta controlá-las ou modificá-las. O Desperto não tenta convencer os outros.

O Desperto sabe que o que tem que acontecer, vai acontecer; e o que não tem que acontecer, não vai acontecer; e que o universo está fora de controle para sempre.”

“O Desperto não tem planos fixos e nem destino. O Desperto aceita a si mesmo; e o mundo aceita o Desperto. O Desperto conhece a si mesmo; e portanto tem sabedoria. O Desperto não tem conflito consigo mesmo; e portanto tem poder verdadeiro. O Desperto abraça a morte; pois não existe morte para o Desperto”.

“O Desperto sabe que não há nada a ser aprendido; o que precisa é apenas desaprender.”

“O Desperto não alcança nada; pois não há nada a ser alcançado. O Desperto não compreende nada; pois não há nada a ser compreendido. O Desperto não sabe nada; pois não há nada para saber.”

“O Desperto não percebe as coisas como boas ou ruins; ou como certas ou erradas; e assim não tem preferências; e portanto não tenta mudar a maneira como as coisas são.”

“O Desperto não elimina e nem ignora, não resiste e nem justifica o que está ali, dentro ou fora; simplesmente está consciente do que é.”

“O Desperto não faz nada; mas não deixa nada sem fazer; pois todas as coisas estão acontecendo o tempo todo, ao redor e através, daquele que está Desperto.”

“Os pensamentos são sutis, divisionistas e evasivos; são uma expressão do eu. Eles vagueiam como eles querem. Eles criam julgamentos e uma mente conturbada e perturbada. Eles impedem que a Conscientização aconteça. Aquele que não está Desperto precisa aprender a direcionar, a controlar e a acalmar os pensamentos dominando-os. O Desperto já ultrapassou o julgamento, pois ele já ultrapassou o pensamento; uma vez que ele está sempre “Consciente””.

“Quando alguém não está Desperto, ele não deve se comportar como se estivesse. Quando alguém está Desperto, ele não faz nada. Ele apenas está Desperto. Estar Desperto não é um meio para um fim. Estar Desperto é um fim em si mesmo. Quando alguém não está Desperto ele deve praticar a bondade. Onde não há bondade ele deve praticar a virtude. Onde não há virtude ele deve praticar condicionamento de rituais.

“O Desperto não tem senso de ser e fazer. O Desperto não tem visão ou objetivo na mente. Há apenas o fazer. O Desperto é humilde e não precisa praticar a humildade. O Não Desperto tem o senso de ser e fazer, e portanto deve ter uma visão ou objetivo na mente. O Não Desperto precisa praticar a humildade.”

“O Desperto não tem nada para defender e portanto, não faz nada para se sentir seguro. O Não Desperto tem muito a defender e portanto precisa fazer coisas para se sentir seguro.”

“O Desperto não sabe e não entende, mas vê. O Não Desperto sabe e entende, mas não vê.”

“O Desperto está constantemente desaprendendo, e portanto está constantemente aliviado, vive em liberdade.”

"O Não Desperto está constantemente aprendendo, e portanto, está constantemente sobrecarregado, não sabe o que é a liberdade, e portanto, não sabe o que é viver.”

“O Desperto permite que as coisas aconteçam do jeito delas. O Não Desperto tenta fazer com que as coisas aconteçam do jeito dele.”

“O Desperto não tem mente. O Não Desperto tem uma mente. O Desperto, uma vez sem mente, trabalha com a mente dos outros. O Não Desperto, tendo uma mente, luta com a mente dos outros.”

“O Desperto, se faz ou não faz, não tenta. O Não Desperto , se faz ou não faz, tenta.”

“O Desperto vive no mistério que a vida é. O Não Desperto tenta entender o que a vida é.”

“O Desperto vê os muitos como o Um. O Não Desperto vê o Um como os muitos.”

“O Desperto é um com o que é. O Não Desperto é um com o que deveria ser.”

“O Desperto é virtuoso. O Não Desperto pratica a virtude.”

“O Desperto experiencia todo o tempo. O Não Desperto sonha o tempo todo.

“O Desperto não tem razão para sua alegria, e portanto nada afeta sua alegria. O Não Desperto conhece apenas o prazer ou a dor, dependendo de tudo o que está acontecendo.”

“O Desperto experiencia liberdade, por causa da ausência de escolha e esperança. O Não Desperto experiencia liberdade na presença de escolha e de esperança.

“O Desperto possue coisas, mas não termina possuído por elas. O Não Desperto possue coisas, e termina sendo possuído por elas.”

“O Desperto esta pronto para morrer. O Não Desperto não esta pronto para morrer.”

“O Desperto experiencia apenas a consciência, pois há apenas a consciência. O Não Desperto tenta entender a Consciência.”

“O Desperto faz uso do condicionamento. O Não Desperto é usado pelo condicionamento.”

“O Desperto não conhece o medo. O Não Desperto só conhece o medo.”

“O Desperto não conhece o apego. O Não Desperto só conhece o apego.”

“O Desperto é o que ele é. O Não Desperto é aquilo que ele não é.”

“O Desperto percebeu que não há ninguém para ser desperto. O Não Desperto está esperando que alguém seja desperto.”