"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sexta-feira, maio 08, 2015

O homem do Tao - 2/2




*Obs: Acesse a 1ª parte do texto clicando aqui.


Agora vamos voltar para este sutra de Chuang Tzu:

"O homem do Tao age sem impedimentos,
Não prejudica nenhum outro ser com suas ações,
No entanto, ele não se reconhece como gentil e bondoso."

O homem do Tao age sem impedimento... 

Você sempre age com impedimentos, o oposto está sempre ali criando o impedimento; você não é um fluxo.

Se você ama, o ódio está sempre ali como um impedimento. Se você se movimenta, alguma coisa está puxando você para trás, você nunca se move totalmente, alguma coisa sempre fica para trás, o movimento não é total. Você se move com uma perna, mas a outra perna não está se movendo. Como você pode se mover? O impedimento está lá.

E esse impedimento, esse movimento contínuo de apenas metade de você e o não-movimento da outra metade, é a sua angústia. Por que você sente tanta angústia? O que cria tanta ansiedade em você? Seja o que for que você faça, porque a felicidade não acontece para você? A felicidade somente pode acontecer para o todo, nunca para a parte.

Quando o todo se move sem qualquer impedimento, o próprio movimento é felicidade. A felicidade não é algo que vem de fora, é o sentimento que vem quando todo o seu ser se move, o próprio movimento do todo é felicidade. Não é algo acontecendo a você, é algo que surge de dentro de você, é uma harmonia no seu Ser.

Se você está dividido - e você está sempre dividido: metade se movendo, metade se contendo; metade dizendo sim, metade dizendo não; metade amando, metade odiando, você é um reino dividido - há um constante conflito em você. Você diz alguma coisa mas aquilo nunca é o que você quer dizer, porque o oposto está ali impedindo, criando um obstáculo.

Você já ouviu a estória da centopeia? A centopeia estava caminhando - uma centopeia tem cem pernas - é por isso que se chama centopeia. É um milagre andar com uma centena de pernas. Controlar duas já é tão difícil... Controlar cem pernas é realmente impossível, quase impossível, mas a centopeia consegue.

Uma raposa ficou curiosa - e as raposas são curiosas. No folclore a raposa é o símbolo da mente, do intelecto, da lógica. As raposas são seres muito lógicos. A raposa olhou, observou, analisou, ela não podia acreditar ao ver como a centopeia era capaz de andar com tantas pernas. Ela disse: "Espere, só uma pergunta! Como você consegue? Como você não se confunde e sabe qual pé pôr atrás de qual? Cem pernas! Como acontece essa harmonia, como você consegue andar tão bem?"

A centopeia disse: "Eu consigo andar, mas nunca pensei nisso. Dê-me algum tempo para pensar como eu faço".

Então ela fechou os olhos. Pela primeira vez ficou dividida: a mente como observadora e ela mesma como a coisa observada. Pela primeira vez a centopeia tornou-se duas. Ela costumava viver e andar, e sua vida era um todo; não havia um observador olhando para ela, ela nunca fora dividida. Ela era um ser integrado. Pela primeira vez surgiu a divisão. Ela estava olhando para si própria, pensando. Ela tinha se tornado o sujeito e o objeto, tinha se tornado duas, e então começou a andar. Foi difícil, quase impossível. Ela caiu - como pode você controlar cem pernas?

A raposa riu e disse: "Eu sabia que devia ser difícil, sempre soube."

A centopeia começou a chorar, as lágrimas inundaram os seus olhos. Ela disse: "Nunca foi difícil, mas você criou o problema. Agora eu nunca mais vou conseguir andar."

A mente tinha entrado em cena, ela entra em cena quando você está dividido. É por isso que Krishnamurti continua dizendo que, quando o observador se torna o observado, você está em meditação.

O oposto aconteceu com a centopeia. O todo se perdeu, se transformou em dois: o observador e o observado, divididos. o sujeito e o objeto; o pensador e o pensamento. Então tudo ficou perturbado, perdeu-se a felicidade, o fluxo de harmonia foi interrompido. E foi assim que ela ficou paralisada.

Sempre que a mente entra em cena, ela vem como uma força controladora, um gerente. Ela não é o mestre, ela é o gerente. E você não chega ao o mestre enquanto o gerente não for posto de lado. O gerente não vai permitir que você alcance o mestre, o gerente vai estar em pé diante da porta, controlando. E todos os gerentes administram mal - a mente tem feito um ótimo trabalho de má administração.

Pobre centopeia, ela sempre fora feliz. Não tinha problema nenhum. Vivia, cantava, amava, tudo, sem problema nenhum, porque não havia mente. Com a mente veio o problema - com a pergunta, com a indagação. E existem muitas raposas ao seu redor. Cuidado com elas: filósofos, teólogos, professores, todos eles são raposas. Eles levantam perguntas e criam perturbação.

Lao Tzu, o mestre de Chuang Tzu, disse: "Quando não existia nem um único filósofo, tudo estava resolvido, não haviam perguntas e as respostas estavam todas à disposição. Quando surgiram os filósofos, surgiram as perguntas e as respostas desapareceram." Sempre que existe uma pergunta, a resposta está muito longe. Sempre que você pergunta, nunca obtém a resposta, mas se você para de perguntar, você verá que a resposta sempre esteve ali.

Não sei o que aconteceu com essa centopeia. Se ela era tão tola quanto os seres humanos, está em algum hospital, aleijada, paralítica para sempre. Mas eu não acho que as centopeias sejam tão tolas. Ela deve ter deixado a questão de lado. Deve ter dito à raposa: "Guarde suas perguntas para si mesma, e me deixe andar em paz." Ela deve ter descoberto que essa divisão não lhe permitiria viver, porque a divisão causa morte. Indiviso, você é vida; dividido, você é morte. Quanto mais dividido, mais morto.

O que é felicidade? Felicidade é a sensação que surge em você quando o observador se torna o observado. Felicidade é a sensação que surge em você quando você está em harmonia, não fragmentado; quando você é um, não está desintegrado, é indiviso, uno. O sentimento não é algo que vem de fora. É a melodia que brota da sua harmonia interior.

Dia Chuang Tzu: "O homem do Tao age sem impedimento..."

Pois ele não está dividido, então quem vai impedir? O que existe para servir de impedimento? Ele está sozinho, ele se move com o todo. Esse movimento na totalidade é a maior beleza que pode acontecer, isso é possível. Às vezes você tem vislumbres disso. Às vezes, quando de repente você está inteiro, quando a mente não está funcionando, isso acontece.

O sol está nascendo... de repente você olha e o observador não está lá. O sol não está ali e você também não está ali. Não há nenhum observador e nenhum observado. Simplesmente o sol está nascendo e a sua mente não está presente para gerenciar. Você não vê o sol e diz: "o sol está lindo". No momento que você disser, a felicidade foi perdida. Então já não existe nenhuma felicidade, ela já se tornou passado, ela já se foi.

De repente você vê o sol nascendo e aquele que vê não está ali, aquele que vê ainda não entrou, ainda não se tornou um pensamento. Você ainda não olhou, não analisou, ainda não observou. O sol está nascendo e  não há ninguém ali, o barco está vazio, existe felicidade, um vislumbre. Mas a mente imediatamente entra e diz "o sol está lindo, esse nascer do sol está lindo". A comparação entra em cena e a beleza se vai.

Aqueles que sabem, dizem que sempre que você diz: "eu te amo" para uma pessoa, o amor foi perdido. O amor se foi porque o amante entrou. Como pode existir amor quando a divisão, o controlador entra? É a mente que diz: "eu te amo", porque, na verdade, no amor não existe nenhum eu e nenhum tu. No amor não existem indivíduos. O amor é uma fusão, uma dissolução, eles não são dois.

O amor existe, não os amantes. No amor, o amor existe, não os amantes, mas a mente entra e diz: "eu estou amando, eu te amo". Quando o "eu" entra, a dúvida entra, a divisão entra e o amor não está mais ali.

Você muitas vezes verá esses vislumbres em meditação. Lembre-se: sempre que você sentir tais vislumbres, não diga: "quão belo é", não diga "quão amoroso é", porque é assim que você perde o vislumbre. Sempre que o vislumbre vier, deixe que ele esteja ali. Não faça o que fez a centopeia, não levante nenhuma questão, não faça nenhuma observação, não analise, não permita que a mente interfira. Ande com uma centena de pernas, mas não pense em como você está andando.

Quando em meditação você tiver um vislumbre de algum êxtase, deixe que ele aconteça, deixe-o ir fundo. Não divida a si mesmo. Não faça qualquer declaração, caso contrário o contato será perdido.

A vezes você tem lampejos, mas já se tornou tão eficiente em perder contato com esses vislumbres que não consegue entender como eles surgem e como você, mais uma vez, os perde. Eles surgem quando você não está presente, você os perde quando você volta. Quando você está presente, eles não estão. Quando o barco está vazio, a felicidade está sempre acontecendo. Não é um acidente, é a própria natureza da existência. Não depende de nada – ela se derrama sobre você, é o próprio sopro da vida.

É realmente um milagre que você tenha conseguido ser tão infeliz, tão sedento, se chove o tempo todo. Você tem mesmo feito o impossível! Em todos os lugares é luz e você vive na escuridão. A morte não está em lugar nenhum e você está constantemente morrendo; a vida é uma bênção e você está no inferno.

Como você conseguiu? Através da divisão, através do pensamento - o pensamento depende da divisão, da análise. Meditação é quando não há nenhuma análise, nenhuma divisão, quando tudo se tornou sintetizado, quando tudo se tornou um.

Diz Chuang Tzu:

O homem do Tao
Age sem impedimento,
Não prejudica nenhum outro ser
Com suas ações...

Como ele pode prejudicar? Você só pode prejudicar os outros quando já prejudicou a si mesmo. Lembre-se disso, esse é o segredo. Se você prejudicar a si mesmo, prejudicará os outros. E prejudicará mesmo quando achar que está fazendo bem aos outro. Nada poderá acontecer através de você a não ser o prejuízo, porque quem vive com feridas, quem vive na angústia e na miséria, seja o que for que faça, só criará mais miséria e mais angústia para os outros. Você só pode dar aquilo que tem.

Você sempre dá, na verdade, o seu ser. Se você está morto por dentro, não pode ajudar a vida; aonde quer que você vá, você vai matar. Conscientemente, inconscientemente, não é essa a questão – você pode pensar que está ajudando os outros a viver, mas ainda assim você vai matar.

Perguntaram uma vez ao grande psicanalista Wilhelm Reich – pois ele estava estudando crianças, o problema delas: “Qual é o problema mais básico com relação às crianças? O que o senhor encontrou na raiz de toda a infelicidade delas, seus problemas, anomalias?”

Ele disse: “As mães.”

Nenhuma mãe vai concordar com isso, porque toda mãe está apenas ajudando seu filho, sem nenhum egoísmo da parte dela. Ela vive e morre pelo filho. E mesmo assim os psicanalistas dizem que as mães são o problema. Sem saber que estão matando, mutilando, conscientemente elas pensam que estão amando.

Se está aleijado por dentro, você vai prejudicar seus filhos. Você não pode fazer nada mais do que isso, você não pode evitar, porque você dá o que há em seu ser – não existe outra maneira de dar.

Chuang Tzu diz: O homem do Tao... não prejudica nenhum outro ser com suas ações. Não que ele cultive a não violência, não que ele cultive a compaixão, não que ele viva uma vida correta, não que ele se comporte de maneira santificada – não. Ele não pode prejudicar porque parou de agredir a si mesmo. Ele não tem feridas. Ele está tão feliz que das suas ações ou inações só flui a bem-aventurança. Mesmo que possa parecer às vezes que ele está fazendo algo errado, ele não pode fazer nada errado.

Acontece exatamente o oposto com você. Às vezes parece que você está fazendo algo de bom – mas você não pode fazer nada de bom. O homem do Tao não pode fazer mal, é impossível. Não há maneira de ele fazer isso, é inconcebível – porque ele não tem divisões, fragmentos. Ele não é uma multidão, ele não é polipsíquico. Ele é um universo agora e nada além de uma melodia está acontecendo dentro dele. Só essa música continua se irradiando.

O homem do Tao não é de muita ação – ele não é um homem de ação, o mínimo de ação acontece por meio dele. Ele é. Na verdade, um homem de inação, não está muito ocupado com nenhuma atividade.

Mas você está ocupado com muitas atividades apenas para fugir de si mesmo. Você não consegue tolerar a si mesmo, não consegue tolerar a sua própria companhia. Você vive à procura de alguém como um modo de fugir, vive à procura de alguma ocupação com a qual possa se esquecer de si mesmo, com a qual possa se envolver. Você está entediado com você mesmo.

Um homem do Tao, um homem que atingiu a natureza interior, um homem que é realmente religioso, não é um homem de muita atividade. Somente o necessário irá acontecer. O desnecessário é completamente descartado, porque ele consegue ficar à vontade sem nenhuma atividade, ele consegue ficar em casa sem fazer nada, consegue relaxar, consegue fazer companhia a si mesmo, consegue ficar com seu eu.

Dizem de Chuang Tzu que, se ele podia ficar de pé, não queria andar; se ele pudesse sentar, ele não ficava de pé; se ele pudesse dormir, ele não sentava. Apenas o essencial, o mais essencial, ele faria, porque não há nenhuma loucura nisso.

Você não consegue ficar consigo mesmo, daí a necessidade constante de buscar companhia. De ir a um clube, a uma reunião, a uma festa, a um comício, estar com uma multidão, onde você não esteja sozinho. Você tem tanto medo de si mesmo que se ficar sozinho ficará louco. Esse mundo, o mundo dos negócios, da atividade e da ocupação, salva você do hospício. Se você está ocupado, a energia se move para fora, então você não precisa se preocupar com o interior, o mundo interior; você pode esquecê-lo.

Você não consegue descartar o não essencial. Na verdade, o não essencial não é suficiente, e a mente sempre anseia pelo não essencial, porque o essencial é tão pouco, tão pequeno, pode ser satisfeito facilmente. Então o que você vai fazer?

O mundo inteiro está em busca do não essencial. Se você olhar para a indústria, vai ver que noventa por cento delas estão envolvidas com o não essencial. Cinquenta por cento do trabalho humano é desperdiçado no que não é útil de maneira alguma. Em vez disso, cinquenta por cento da indústria dedica-se à mente feminina, ao corpo feminino: criando roupas novas a cada três meses, sabonetes, cremes; cinquenta por cento da indústria é dedicada a tal absurdo. E a humanidade está morrendo de fome, as pessoas estão morrendo sem comida, e metade da humanidade está interessada em algo absolutamente não essencial.

Ir à Lua é algo absolutamente não essencial. Se fôssemos um pouco mais sábios não pensaríamos nisso. É absolutamente insensato desperdiçar tanto dinheiro quando poderíamos alimentar a Terra toda. As guerras são não essenciais, mas a humanidade é louca, e ela precisa mais de guerras do que de alimento. Precisa mais ir à Lua do que de comida, do que do essencial, porque o essencial não é suficiente.

O não essencial é necessário para que a sua loucura permaneça ocupada. Então as Luas não são suficientes, teremos que ir mais longe, teremos que continuar criando o inútil. Ele é necessário. Ficar ocupado é necessário.

Você faz o que não é essencial, você continua fazendo o que não é essencial. Olhe para as suas atividades: noventa e nove por cento são não essenciais. Você pode deixa-las de lado, você pode poupar muita energia, pode economizar muito tempo. Mas você não consegue deixa-las porque tem medo, tem pavor de si mesmo. Se não houver rádio, televisão, jornal, ninguém para conversar, o que você vai fazer?

Um homem do Tao, aonde quer que esteja, está em paz, à vontade. Suas ações são as mais essenciais – aquelas que não podem ser evitadas. E se você puder fazer o essencial por ele, ele ficará feliz.  Ele está tão feliz consigo mesmo que não há necessidade de empreender ações. Sua atividade é como a inatividade; ele faz sem que haja alguém fazendo. Ele é um barco vazio, navegando no mar, indo a lugar nenhum.

No entanto, ele não se reconhece como “gentil” e “bondoso”...

Deixe que este trecho penetre profundamente em seu coração. “No entanto, ele não se reconhece como gentil e bondoso...” – porque, se você sabe, você perdeu o mais importante. Se você sabe que é um homem simples, você não é. Esse conhecimento torna isso complexo. Se você sabe que é um homem de religião, você não é, porque essa mente astuta, que sabe, ainda está presente.

Se você é gentil, e não sabe disso; se você é simples, e não está ciente disso, isso se tornou a sua natureza. Se algo é realmente natural, você não está ciente disso. Veja – alguém se torna rico, um novo rico, então ele está ciente de sua casa, piscina, das suas riquezas, e você pode ver que ele não é um aristocrata, porque ele está ostentando muito.

Um homem que acabara de enriquecer encomendou três piscinas para seu jardim. Elas foram feitas e ele as mostrou a um amigo. O amigo ficou um pouco confuso, e disse: “Três piscinas? Para quê? Uma bastaria.”

O dono das piscinas disse: “Não, como uma bastaria? Uma é para banhos quentes, uma para banhos frios”.

O homem perguntou: “E a terceira?”.

Ele disse: “É para quem não sabe nadar. A terceira vai ficar vazia.”.

É possível perceber se um homem é um novo rico – ele mostrará isso. O aristocrata de verdade é aquele que se esqueceu de que é rico. O homem do Tao é o aristocrata do mundo interior.  Ele está tão sintonizado com esse mundo interior que não há exposição – não só para você; ele próprio não está consciente disso. Ele não sabe que é sábio, não sabe que é inocente – como você pode saber se é inocente? Seu conhecimento vai perturbar a inocência. Um aristocrata de verdade está sempre sintonizado. Um Henry Ford não tem necessidade de ficar num hotel caro para sentir que ele é Henry Ford; mesmo no hotel mais barato ele é Henry Ford, não faz diferença. Ele não precisa ostentar roupas novas/caras. Seja for o que ele vista, mesmo que esteja nu, ele é Henry Ford. Não faz diferença nenhuma.

Uma coisa tem de ser lembrada aqui: por isso o autoconhecimento é impossível. Você não pode conhecer a si mesmo, porque seja o que for que você saiba, isso não é o eu, é outra coisa, algo separado de você. O eu é sempre o conhecedor, nunca o conhecido; assim, como você pode conhecê-lo? Você não pode reduzi-lo a um objeto.

Eu posso ver você. Como posso me ver? Então, quem será o que vê e quem será visto? Não, o eu não pode ser conhecido da mesma maneira que outras coisas são conhecidas.

O autoconhecimento não é possível, no sentido comum, porque o conhecedor sempre transcende, sempre vai além. Seja o que for que ele saiba, não é isso. Os Upanishads dizem: neti neti – nem isso, nem aquilo. Eles dizem: Seja o que for que você saiba, você não é isso; seja o que for que você não saiba, você também não é isso. Você é aquele que sabe, e esse observador não pode ser reduzido a um objeto conhecido.

O autoconhecimento não é possível. Se a sua inocência sair da sua fonte interior, você não pode conhecê-la; se ela é como uma roupa que você vestiu, você a conhece, mas ela não é o próprio alento da vida. Tal inocência é cultivada, e uma inocência cultivada é uma coisa feia.

Um home do Tao não reconhece a si mesmo como amável e gentil. Ele é amável, mas não sabe; ele é gentil, mas não sabe; ele é amor, mas não sabe – porque o amante e o conhecedor não são dois; a gentileza, a bondade, a compaixão e o conhecedor não são dois. Não, eles não podem ser divididos em o conhecido e o conhecedor. Essa é a aristocracia interior, quando você se tornou tão rico que não está ciente disso. A mente não precisa estar ciente disso. O seu próprio ser bastará. Por isso, quando você é tão rico assim, não há nenhuma necessidade de exibir isso.

“Ele não luta para ganhar dinheiro, e não faz da pobreza uma virtude...”

Ele não é nem pobre nem rico. Ele não está fazendo nenhum esforço pelo dinheiro, ele não está fazendo nenhum esforço para ser pobre – aconteça o que acontecer, ele permite que isso aconteça. Se um palácio surgir, ele vai estar no palácio; se o palácio desaparecer, ele não vai procurar por ele. Seja o que for que estiver acontecendo, ele vai acompanhar; sua felicidade não pode ser perturbada. Ele não está lutando por dinheiro, ele não está lutando pela pobreza.

“A virtude perfeita não produz nada..."

Este é um dos princípios básicos da vida taoista.

A virtude perfeita não produz nada, porque, quando você é perfeitamente virtuoso, nada é necessário. Quando você é perfeitamente virtuoso, não há desejo, não há motivação. Você é perfeito. Como a perfeição pode avançar? Apenas a imperfeição avança. Só a imperfeição deseja produzir algo. Por isso, um artista perfeito nunca pinta um quadro, e um místico perfeito joga fora sua cítara. Um arqueiro perfeito quebra seu arco e joga fora, e um homem perfeito como Buda é absolutamente inútil. O que Buda produziu – poesia, uma escultura, uma pintura, uma sociedade? Ele parece absolutamente improdutivo, ele não fez nada.

A virtude perfeita não produz nada, porque não precisa de nada. A produção é resultado do desejo, a produção ocorre porque você é imperfeito. Você cria algo pra compensar, porque você se sente insatisfeito. Se você está absolutamente preenchido, por que deveria criar, como poderia criar? Então você mesmo se torna uma criação gloriosa, então o próprio eu interior é tão perfeito que nada é necessário.

A virtude não produz nada. Se o mundo for virtuoso, todos os objetivos utilitários serão perdidos. Se o mundo for realmente virtuoso haverá brincadeira e nenhuma produção. Então a coisa toda vai se tornar uma simples brincadeira. Você a aprecia, mas não precisa dela. Um sábio perfeito é absolutamente inútil.

“O não eu é o verdadeiro eu”...

Quando você sente que não é nada, pela primeira vez você é, porque o eu não é nada mais que um sinônimo de ego. É por isso que Buda, Lao Tsé, Chuang Tzu, todos eles dizem que não existe nenhum eu, nenhum atman. Não que não exista – eles dizem que o atman não existe porque seu ego é tão astuto que pode se esconder atrás dele. Você pode dizer: “Aham Brahmasmi, eu sou brahmam, Ana’l haq, eu sou Deus.” E o ego pode se esconder atrás disso.

Buda diz que não existe ninguém para reclamar, não existe um eu dentro de você. Buda diz que você é como a cebola: você descasca, continua a descascar as camadas e, por fim, nada resta. Sua mente é como uma cebola, continue a descascá-la. Isso é que é meditação – ir descascando, descascando, até chegar um momento em que nada reste. Esse nada é o seu verdadeiro eu.

O não-eu é o verdadeiro eu. Quando o barco estiver vazio, então pela primeira vez você estará no barco.

“E o maior entre os homens é ninguém...”

Aconteceu: Buda renunciou ao reino. Então ele saiu numa busca, de floresta em floresta, de ashram em ashram, de mestre em mestre, andando a pé. Ele nunca tinha andado descalço, mas agora ele era apenas um mendigo. Ele estava passando por um rio, caminhando ao lado do rio, na areia, e deixou suas pegadas.

Enquanto estava descansando à sombra de uma árvore, um astrólogo o viu. Ele estava voltando de Kashi, onde tinha aprendido astrologia. Tinha se tornado especialista nessa matéria, tinha se tornado perfeito, um grande doutor em astrologia, e estava voltando à sua cidade natal para desempenhar seu ofício.

Ele olhou para as pegadas na areia molhada. Ficou perturbado, porque aquelas pegadas não poderiam pertencer a um homem que caminha sobre a areia sem sapatos, num verão quente, ao meio-dia. Aqueles pés pertenciam a um grande imperador, um chakravartin. O chakravartin é um imperador que governa o mundo inteiro. E todo os sinais estavam lá, de que esse homem era um chakravartin, um imperador do mundo inteiro, dos seis continentes. Mas porque um chakravartin andaria na terra com os pés nus, sem sapatos, numa tarde de verão quente? Era impossível!

O astrólogo estava carregando seus livros mais valiosos. E pensou: “Se isso  for possível eu jogo esses livros no rio e esqueço a astrologia para sempre, porque isso é um absurdo. É muito, muito difícil encontrar um homem que tenha os pés de um chakravartin. Uma vez em milhões de anos um homem se torna um chakravartin, e o que esse chakravartin está fazendo aqui?”

Então ele seguiu as pegadas e chegou a Buda. O astrólogo olhou para ele ali sentado, descansando sob uma árvore com os olhos fechados. Ficou mais perturbado, absolutamente perturbado, porque o rosto era também o rosto de um chakravartin. Mas o homem parecia um mendigo, tendo ao seu lado apenas uma tigela de pedir esmolas, e usava roupas rasgadas. Mas o rosto parecia o de um chakravartin, então o que fazer?

Ele disse: “Estou muito perturbado, me esclareça. Tenho apenas uma pergunta a fazer. Vi e estudei suas pegadas. Elas devem pertencer a um chakravartin, um grande imperador que governa o mundo todo, toda a Terra é seu reino – e você é um mendigo. Então o que devo fazer? Devo jogar fora todos os meus livros de astrologia? Meus doze anos de esforço em Kashi foram desperdiçados e as pessoas ali são tolas. Eu perdi a fase mais importante da minha vida, por isso me esclareça. Diga-me, o que devo fazer?”

Buda disse: “Você não precisa se preocupar. Isso não vai acontecer novamente. Leve seus livros, vá para a cidade, inicie o exercício de sua profissão, não se preocupe comigo. Eu nasci para ser um chakravartin. Essas pegadas carregam o meu passado.”

Todas as pegadas carregam o seu passado – as linhas da sua mão, a palma da sua mão, carregam o seu passado. É por isso que a astrologia e a quiromancia são sempre verdadeiras com relação ao passado, mas nunca tão verdadeiras com relação ao futuro, e absolutamente falsas com relação a um buda, porque quem joga fora todo o seu passado caminha para o desconhecido – você não pode prever o seu futuro.

Buda disse: “Não vai se deparar com um homem intrigante novamente. Não se preocupe, isso não vai acontecer de novo, considere uma exceção.”

Mas o astrólogo disse: “Só mais algumas perguntas. Eu gostaria de saber quem você é. Estou realmente tendo um sonho? Um chakravartin sentado como um mendigo? Quem é você? Você é um imperador disfarçado?

Buda disse: “Não.”

Em seguida, o astrólogo perguntou: “Mas o seu rosto parece tão bonito, tão calmo, tão cheio de silêncio interior. Quem é você? Você é um anjo do paraíso?”

Buda disse: “Não.”

O astrólogo fez mais uma pergunta: “Não é muito educado perguntar, mas você criou o desejo, a avidez. Você é um ser humano? Se não é um imperador, um chakravartin, se não é um deva do paraíso, então é um ser humano?”

E Buda disse: “Não, eu sou ninguém. Eu não pertenço a nenhuma forma, nenhum nome.”

O astrólogo disse: “Você agora me deixou mais perturbado ainda. O que quer dizer?”

Isso é o que Buda quis dizer: “E o maior entre os homens é ninguém”.

Você pode ser alguém, mas não pode ser o maior. Há sempre alguém maior em algum lugar do mundo. E quem é alguém? Você é a medida. Você diz que este homem é grandioso – mas quem é a medida? Você.

A colher é a medida do oceano. Você diz: “Este homem é grandioso.” Você diz, e muitos como você dizem: “Este homem é grandioso” – e ele se torna grande por sua causa.

Não. Nesse mundo, seja quem for não pode ser o maior, porque o oceano não pode ser medido a colheradas. E vocês todos são colheres de chá de medição do oceano. Não, não é possível.

Assim, o maior, será realmente ninguém entre vocês. O que significa quando Chuang Tzu diz: “O maior entre os homens é ninguém”? Isso significa que é imensurável. Você não pode medir, você não pode rotular, não é possível categorizar, você não pode dizer: “Quem é este?”. Ele simplesmente escapa da medição. Ele simplesmente vai além e além e além, e a colher cai no chão – imensurável.

Deus deve ser ninguém. Ele não pode ser alguém porque quem iria fazer dele alguém? Você? – então você mediu. Então você se tornou maior do que Deus, então a colher de chá tornou-se maior que o oceano. Não, Deus não pode ser medido. Ele continuará a ser um ninguém.

“Alguém” significa que você foi medido. Você está rotulado, categorizado. Você é conhecido. “Ninguém” significa que você permanece desconhecido. Por mais que você saiba, seja o que for que você saiba, seu conhecimento não irá esgotá-lo. Você saberá que esse não é o limite. E quanto mais íntimo você se torna, maior ele se torna, mais imensurável. Chega um momento em que você simplesmente joga fora sua colher de chá, simplesmente não faz mais esforço para medir. E só então você é íntimo do grande homem, o homem do Tao.


quarta-feira, maio 06, 2015

O homem do Tao - 1/2

- OSHO -













 
"O homem em quem o Tao
Age sem impedimento
Não prejudica nenhum outro ser
Com suas ações.
No entanto, ele não se reconhece
Como “gentil” e “bondoso”.

Ele não luta para ganhar dinheiro
E não faz da pobreza uma virtude.
Ele segue o seu caminho
Sem depender dos outros.
E não se orgulha de andar sozinho.

O homem do Tao
Permanece anônimo.
A virtude perfeita
Não produz nada.
O não eu é o verdadeiro eu.
E o maior entre os homens
É ninguém." 

(Chuang Tzu)


A coisa mais difícil, quase impossível, para a mente, é permanecer no meio, é permanecer equilibrada. E o mais fácil é movimentar-se de um pensamento para o seu oposto. Movimentar-se de uma polaridade para a polaridade oposta é a natureza da mente. Isso tem que ser entendido muito profundamente, porque sem que você entenda isso, nada poderá levar você à meditação.

A natureza da mente é movimentar-se de um extremo a outro, ela depende do desequilíbrio. Se você estiver equilibrado, a mente desaparece. A mente é como uma doença: quando você está desequilibrado ela está presente, quando você está equilibrado ela não está ali.

É por isso que é fácil para uma pessoa que come muito fazer jejum. Isso parece sem lógica, porque nós pensamos que uma pessoa que é obcecada por comida não consegue jejuar. Mas você está errado. Somente uma pessoa que é obcecada por comida pode jejuar, porque jejuar é a mesma obsessão no sentido oposto. Na verdade não houve mudança em você. Você continua obcecado por comida. Antes você comia muito e agora você está faminto - mas o foco da mente continua na comida, a partir de um extremo oposto.

Um homem viciado em sexo pode ser tornar celibatário muito facilmente. Não há nenhum problema. Mas é difícil para a mente fazer uma dieta certa, é difícil para a mente ficar no meio.

Porque é difícil estar no meio? Isso é exatamente igual ao pêndulo de um relógio. O pêndulo vai para a direita, e daí se move para a esquerda, então de novo para a direita, e depois de novo para a esquerda. O relógio inteiro depende desse movimento. Se o pêndulo parar no meio, o relógio para. E quando o pêndulo se move para a direita, você pensa que ele está somente indo para a direita. Mas, ao mesmo tempo que ele está indo para a direita, ele está juntando momento para ir para a esquerda. Quanto mais ele se move para a direita, mais energia ele reúne para se mover para a esquerda, para o oposto. Quando ele está se movendo para a esquerda ele está de novo reunindo momento para se mover para a direita.

Sempre que você come demais, você está reunindo momento para fazer jejum. Sempre que você se entrega em demasia ao sexo, mais cedo ou mais tarde, o celibato, o brahmacharya se tornará atraente para você.

E o mesmo está acontecendo a partir do polo oposto. Vá e pergunte aos chamados sadhus, aos bhikkhus, aos sannyasins. Eles firmaram um propósito de permanecer celibatários; e agora a mente deles está reunindo momento para se movimentar em direção ao sexo. Eles firmaram um propósito de ficarem com fome, de passar fome e a mente deles está constantemente pensando em comida. Quando você está pensando muito a respeito de comida, isso mostra que você está reunindo momento para comer. Pensar significa momento. A mente começa fazer arranjos para ir ao oposto.

A primeira coisa: sempre que você se move, você também está se movendo para o oposto. O oposto está escondido, ele não é aparente.

Quando você ama uma pessoa, você está reunindo momento para odiá-la. É por isso que somente amigos podem se tornar inimigos. Você não pode se tornar um inimigo sem que primeiro você tenha se tornado um amigo. Amantes discutem e brigam. Só os amantes podem discutir e brigar, porque a não ser que você ame, como você poderá odiar?A não ser que você tenha se movido para a extrema esquerda, como você poderá se mover para a direita? Pesquisas modernas dizem que isso que se chama amor é um relacionamento de íntima inimizade. Sua esposa é a sua inimiga íntima e seu marido é o seu inimigo íntimo - ambos inimigos e íntimos. Parecem opostos, sem lógica, porque nós ficamos ponderando como alguém que é íntimo pode ser inimigo? Alguém que é amigo, como pode também ser o adversário?

A lógica é superficial. A vida vai mais fundo. Na vida, todos os opostos se juntam, eles existem juntos. Lembre-se disso, porque então meditação se torna equilíbrio.

Buda ensinou oito disciplinas e para cada disciplina ele usava a palavra certa. Ele dizia: o esforço certo, porque é muito fácil mover-se da ação para a inação, do despertar para o dormir, mas permanecer no meio é difícil. Quando Buda usa a palavra certa, ele estava dizendo: não se mova para o oposto, simplesmente permaneça no meio. A comida certa - ele nunca disse jejum. Não se entregue em demasia à comida e não se entregue ao jejum. Ele dizia: comida certa. Comida certa significa permanecer no meio.

Quando você permanece no meio você não está reunindo momento algum. E essa é a beleza disso: um homem que não está reunindo momento algum para se mover a qualquer lugar, pode estar à vontade consigo mesmo, pode se sentir em casa.

Você nunca pode se sentir em casa, porque qualquer coisa que você faz, imediatamente você terá que fazer o oposto para equilibrar. E o oposto nunca equilibra, ele simplesmente dá a você a impressão de que você está se tornando equilibrado, mas você terá que se mover para o oposto de novo.

Um buda não é amigo nem inimigo de alguém. Ele simplesmente parou no meio - o relógio não está funcionando... Quando a sua mente para, o tempo para, quando o pêndulo para, o relógio para...

O tempo é criado pelo movimento da mente, exatamente como o movimento do pêndulo. A mente se move, você sente o tempo. Se a mente está inerte, como você pode sentir o tempo? Quando não há qualquer movimento, o tempo não pode ser sentido. Cientistas e místicos concordam nesse ponto: que o movimento cria o fenômeno do tempo. Se você não está se movendo, se você está parado, o tempo desaparece, a eternidade passa a existir. O seu relógio está se movendo rapidamente e o seu mecanismo é movimento de um extremo ao outro.

A segunda coisa a ser entendida a respeito da mente é que a mente sempre quer o que está distante, nunca o que está perto. O que está perto é enfadonho, você fica farto dele. O distante lhe dá sonhos, esperanças, possibilidades de prazer. Assim, a mente sempre está pensando no distante. É sempre a mulher de alguma outra pessoa que é atraente e bonita; é sempre a casa de alguma outra pessoa que o obceca; é sempre o carro de alguma outra pessoa que fascina você. É sempre o que está distante. Você fica cego para o que está perto. A mente não consegue ver aquilo que está muito perto. Ela somente pode ver aquilo que está muito longe.

E o que está muito longe, o que está mais distante? O que está mais distante é o oposto. Você ama uma pessoa - agora o fenômeno mais distante é o ódio. Você está comendo demais - agora o fenômeno mais distante é o jejum. Você está celibatário - agora o fenômeno mais distante é o sexo. Você é um rei - agora o fenômeno mais distante é ser um monge.

O que está mais distante é aquilo com que sonhamos mais. Ele atrai, ele obceca, ele segue chamando, convidando você e então, quando você tiver alcançado o outro polo, este local de onde você partiu em caminhada se tornará belo novamente. Você se divorcia de sua esposa e, depois de alguns anos, ela ficou bonita novamente.

Para a mente, o oposto é magnético e a não ser que, através da compreensão, você transcenda isso, a mente vai continuar se movendo da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, e o relógio continua.

Ele tem continuado por muitas vidas e é assim que você tem sido enganado - porque você não compreende o mecanismo. De novo o distante se torna atraente e de novo você começa uma nova caminhada. E no momento em que você alcança o seu objetivo, aquilo que antes era seu conhecido e que agora está distante, de novo se torna atraente, agora se torna uma estrela, algo de valor.

Eu estive lendo a respeito de um piloto que estava voando sobre a Califórnia com um amigo. Ele lhe disse: "Veja lá embaixo aquele belo lago. Eu nasci perto dele, ali está a minha vila". Ele apontou para uma pequena vila numa colina próxima ao lago. E ele disse: "Eu nasci ali e quando eu era criança eu costumava sentar próximo ao lago para pescar. Pescar era o meu hobby. Mas naquela época, quando eu era criança e pescava no lago, os aviões sempre costumavam cortar o céu, passando sobre a minha cabeça, e eu sonhava com o dia em que eu próprio me tornaria um piloto e estaria pilotando um avião. Aquele era meu único sonho. Agora ele está realizado e que miséria! Agora eu continuamente olho para aquele lago lá em baixo e fico pensando no dia em que eu estiver aposentado para poder ir pescar nele de novo. Aquele lago é tão lindo..."

É assim que as coisas acontecem. É assim que as coisas têm acontecido com você. Na infância você queria crescer depressa porque as pessoas mais velhas eram mais poderosas. Uma criança quer crescer imediatamente. As pessoas mais velhas são sábias e a criança acha que tudo o que ela faz está sempre errado. Mas pergunte ao velho - ele sempre acha que, quando a infância acaba, tudo está acabado; o paraíso estava ali, na infância. E todos os velhos morrem pensando na infância, na inocência, na beleza, no mundo de sonhos.

Tudo o que você tem parece inútil; e tudo o que você não tem parece útil. Lembre-se disso porque senão a meditação não poderá acontecer, porque meditação significa isso - entender a mente, o funcionamento da mente, o próprio processo da mente.

A mente é dialética, ela faz com que você se mova repetidas vezes em direção aos opostos. E isso é um processo infinito, ele nunca se acaba, a não ser que você, de repente, o abandone, a não ser que, de repente, você se torne consciente do jogo, a não ser que, de repente, você se torne alerta a respeito da trapaça da mente, e você pare no meio.

Parar no meio é meditação.

A terceira coisa: porque a mente consiste em polaridades, você nunca é um todo. A mente não pode ser um todo, ela sempre é metade. Quando você ama alguém, você já observou que você está suprimindo o seu ódio? O amor não é total, ele não é um todo, exatamente atrás dele todas as forças escuras estão escondidas e elas podem entrar em erupção a qualquer momento. Você está sentado em cima de um vulcão.

Quando você ama alguém, você simplesmente se esquece de que você tem raiva, de que você tem ódio, de que você é ciumento. Você simplesmente deixa tudo isso de lado, como se isso nunca tivesse existido. Mas como você pode deixar tudo isso de lado? Você pode simplesmente esconder no inconsciente. Assim, na superfície você pode se tornar amoroso, mas lá no fundo o tumulto está escondido. Mais cedo ou mais tarde você vai ficar de saco cheio, o amado terá se tornado familiar.

Dizem que a familiaridade cria desprezo, mas não é que a familiaridade cria desprezo - a familiaridade faz você ficar de saco cheio. O desprezo esteve sempre ali, escondido. Ele vem à tona, ele só estava esperando o momento certo, a semente estava ali.

A mente sempre tem o oposto dentro dela e esse oposto vai para o inconsciente e fica ali esperando pelo seu momento para vir à tona. Se você observar minuciosamente, você sentirá isso a todo momento. Quando você diz para alguém "eu te amo" feche os seus olhos, seja meditativo, e sinta - existe algum ódio escondido? Você irá senti-lo. Mas você não quer encarar isso porque a verdade é muito feia - a verdade que você sente ódio pela pessoa que você ama - por isso você engana a si mesmo. Você quer escapar da realidade, assim você esconde. Mas, esconder não vai ajudar, porque assim você não está enganando à outra pessoa, você está enganando a si mesmo.

Assim, sempre que você sentir alguma coisa, feche os olhos e vá para dentro de si mesmo para encontrar o oposto em algum lugar. Ele está ali. E se você puder ver o oposto, isso dará a você um equilíbrio. Então você não irá dizer "eu amo você". Se você for uma pessoa verdadeira você irá dizer: "meu relacionamento com você é de amor e ódio".

Todos os relacionamentos são relacionamentos de amor e ódio. Nenhum relacionamento é puro amor e nenhum relacionamento é puro ódio. Ele é ambos: amor e ódio. Se você for verdadeiro você estará em dificuldades. Se você disser para uma garota: "meu relacionamento com você é ambos: amor e ódio. Eu amo você como nunca amei alguém e eu odeio você como nunca eu odiei alguém", será difícil para você se casar, a não ser que você encontre uma garota meditativa, que possa compreender a realidade, a não ser que você possa encontrar uma amiga que possa compreender a complexidade da mente.

A mente não é um mecanismo simples. Ela é muito complexa e através da mente você nunca pode se tornar simples, porque a mente segue criando enganos. Ser meditativo significa estar alerta para o fato de que a mente está escondendo alguma coisa de você, de que você está fechando os olhos para alguns fatos que estão perturbando. Mais cedo ou mais tarde aqueles fatos perturbadores virão à tona, vão se apoderar de você, e você irá em direção ao oposto. E o oposto não está lá longe, num lugar distante, em alguma estrela. O oposto está escondido atrás de você, dentro de você, em sua mente, no próprio funcionamento da mente. Se você puder compreender isso, você irá parar no meio.

Se você puder ver o eu amo e o eu odeio, de repente, ambos irão desaparecer, porque ambos não podem existir juntos na consciência. Você tem que criar uma barreira: um terá que existir no inconsciente e o outro no consciente. Ambos não podem existir na consciência, eles irão negar um ao outro. O amor destruirá o ódio, o ódio destruirá o amor, eles terão que equilibrar um ao outro e eles simplesmente irão desaparecer. A mesma quantidade de ódio e a mesma quantidade de amor irão negar um ao outro. De repente eles irão evaporar - você estará ali, mas nenhum amor e nenhum ódio. Então você estará equilibrado.

Quando você está equilibrado, a mente não está lá - então você está inteiro, você é um todo. Se você está inteiro, você é santo, sagrado; mas a mente não está presente. Assim, a meditação é um estado de não-mente, de ausência da mente. Através da mente esse estado não é alcançado. Através da mente, seja o que for que você faça, isso nunca poderá ser alcançado. Então, o que você está fazendo quando está meditando?

Pelo fato de você ter criado tanta tensão em sua vida, você agora está meditando. Mas isso é o oposto da tensão, e não a verdadeira meditação. Você está tão tenso que a meditação se tornou atraente. É por isso que no Ocidente a meditação atrai mais do que no Oriente. É porque no Ocidente existe mais tensão do que no Oriente. O Oriente ainda está relaxado, as pessoas não estão tão tensas, elas não estão se enlouquecendo tão facilmente, elas não cometem suicídio tão facilmente. Elas não são tão violentas, tão agressivas, tão apavoradas, tão amedrontadas - não, elas não estão tão tensas. Elas não estão vivendo essa correria louca onde nada além de tensão é acumulado.

Assim, se o Mahesh Yogi vier à Índia, ninguém o escutará. Mas na América, as pessoas ficam loucas com ele. Quando existe muita tensão, a meditação atrai. Mas essa atração é de novo a mesma armadilha. Isso não é verdadeira meditação, isso é de novo um engano. Você medita por uns poucos dias, você se torna relaxado e, quando você se torna relaxado, de novo surge a necessidade de atividades. Você fica de saco cheio e a mente começa a pensar em fazer alguma coisa, em se movimentar.

As pessoas chegam a mim e dizem: "nós meditamos por alguns anos mas agora isso ficou chato, perdeu a graça". Há poucos dias uma garota veio a mim e disse: "agora a meditação não tem mais graça alguma, o que eu devo fazer?"

Agora a mente está procurando por alguma outra coisa, agora ela já teve bastante meditação. Agora que ela já está relaxada, a mente está pedindo por mais tensões - alguma coisa que possa perturbá-la. Quando ela diz que agora a meditação não tem mais graça, ela quer dizer que agora não há mais tensão, assim como pode a meditação ter graça? Ela terá que ir atrás de tensões novamente, aí a meditação de novo se tornará algo valioso.

Veja o absurdo da mente: você tem que ir embora para chegar perto, você tem que se tornar tenso para ser meditativo. Mas isso não é meditação, de novo isso é uma trapaça da mesma mente.  O mesmo jogo continua num outro nível.

Quando eu digo meditação, eu quero dizer: ir além do jogo das polaridades opostas, cair fora do jogo todo, olhar para o absurdo que esse jogo é, e transcendê-lo. A própria compreensão se torna transcendência.

A mente forçará você a se mover para o oposto - não vá para o oposto. Pare no meio e veja que isso tem sido sempre uma trapaça da mente. É assim que a mente tem dominado você - por meio do oposto. Você já percebeu isso?

Depois de fazer amor com uma mulher, você de repente começa a pensar em abstinência sexual, brahmacharya, e isso exerce uma fascinação tão persuasiva que naquele momento você sente como se nada mais existisse para ser alcançado. Você se sente frustrado, enganado, você sente que não havia nada naquele sexo e que somente o celibato traz a felicidade. Mas depois de vinte e quatro horas, o sexo de novo se torna importante, e de novo você se move para ele.

O que a mente está fazendo? Depois do ato sexual ela começa a pensar no oposto, o qual, de novo, cria a vontade do sexo.

Um homem violento começa a pensar na não-violência, então ele poderá facilmente se tornar violento de novo. Um homem que fica raivoso repetidamente, sempre pensa em não ter raiva, sempre decide não ficar raivoso novamente. Essa decisão ajuda-o a ficar com raiva de novo.

Se você realmente não quiser ficar raivoso de novo, não tome decisão contra a raiva. Simplesmente olhe para a raiva e olhe para essa sombra da raiva que você pensa que é não ter raiva. Olhe para o sexo e para essa sombra do sexo que você pensa que é brahmacharya, abstinência sexual. Isso é só negatividade, ausência. Olhe para o excesso do comer e para a sua sombra que é o jejum. Jejuns sempre seguem o comer demais, a indulgência demasiada é sempre seguida por votos de celibato; a tensão é sempre seguida por algumas técnicas de meditação. Olhe para essas coisas juntas, sinta como elas estão relacionadas, como elas são parte de um só processo.

Se você puder compreender isso, a meditação acontecerá em você. Na verdade, ela não é algo a ser feito, ela é uma questão de compreensão. Ela não é um esforço, ela não é algo a ser cultivado. Ela é algo a ser profundamente compreendido.

Compreensão dá liberdade. Conhecer todo o mecanismo da mente é transformação. Então, de repente, o relógio pára, o tempo desaparece. E parando o relógio, não existe mente. Parando o tempo, onde você está? O barco está vazio.

Agora vamos voltar para este sutra de Chuang Tzu...
Continua...


 

segunda-feira, maio 04, 2015

"Quem sou Eu?"

- Ramana Maharishi -


Questionador: Quem Sou Eu?

Sri Ramana: O corpo denso que é composto de sete humores (dhatus), não Sou EU; os cinco sentidos cognitivos, a saber: o sentido da audição, do tato, da visão, do paladar e do olfato, que apreendem seus respectivos objetos, a saber: som, toque, cor, sabor, e odor, não Sou Eu; os cinco órgãos do sentido, saber: os órgãos do fala, da locomoção, do toque, da excreção, e de procriação, que têm como suas respectivas funções: falar, mover, agarrar, excretar, e apreciar, não Sou Eu; os cinco ares vitais, prana, etc., que executam respectivamente as cinco funções de inspirar, etc., não Sou Eu; mesmo a mente com pensamentos, não Sou Eu; a ignorância também, em que está dotada somente com as impressões residuais dos objetos, e nas quais não há objetos ou funcionalidades, não Sou EU.


Questionador: Se eu não sou nenhum destes, quem Sou Eu?

Sri Ramana: Após negar todos os mencionados com “não isto”, “não isto”, esta Consciência que resta sozinha, este SOU EU.


Questionador: Qual a natureza da Consciência?

Sri Ramana: A natureza da Consciência é Sat-Chit-Ananda (Verdade, Consciência, Bem-Aventurança).


Questionador: Quando a realização do Ser é obtida?

Sri Ramana: Quando for removida de sua percepção a impressão de que o mundo é real, haverá a realização do Ser que é o observador.


Questionador: Não haverá realização do Ser enquanto o mundo estiver lá (sendo percebido como real)?

Sri Ramana: Não existirá.


Questionador: Por quê?

Sri Ramana: O observador e o objeto observado são como a corda e a cobra. Assim como o conhecimento da corda – que é o substrato – não surgirá a não ser que o falso conhecimento da cobra ilusória se vá, a realização do Ser – que é o substrato – não será obtido a não ser que a crença de que o mundo é real seja removido.


Questionador: Quando o mundo que é o objeto visto será removido?

Sri Ramana: Quando a mente, que é a causa de toda cognição, e de toda ação, tornar-se estável, o mundo desaparecerá.


Questionador: Qual é a natureza da mente?

Sri Ramana: O que é chamado “mente” é um fascinante poder que reside no Ser. Ela é a causa do surgimento de todos os pensamentos. Sem os pensamentos, a mente não existe. Conseqüentemente, o pensamento é a natureza da mente. Sem os pensamentos, não há nenhuma entidade independente chamada ‘mundo’. No sono profundo não há nenhum pensamento, e não há nenhum mundo. Nos estados de vigília e sonho, há pensamentos, e também há um mundo. Assim como a aranha emite a linha (da teia) para fora de si e depois o reabsorve, a mente projeta o mundo para fora de si e, outra vez, processa-o em si mesma. Quando a mente sai do Ser, o mundo aparece. Conseqüentemente, quando o mundo aparece (para ser real), o Ser não aparece; e quando o Ser aparece (brilha) o mundo não aparece. Quando se inquire persistente na natureza da mente, a mente terminará por deixar o Ser (como o resíduo). O que é referido como o Ser, é o Atman. A mente sempre existe na dependência de algo denso; não pode permanecer sozinho. É a mente que é chamada o corpo sutil, ou a alma (jiva).


Questionador: Qual é o caminho do questionamento para se compreender a natureza da mente?

Sri Ramana: Aquilo que, neste corpo, se eleva como “EU” é a mente. Caso se questione a respeito de onde no corpo o pensamento “EU” surge primeiramente, descobriria-se que surge no Coração. Este é o lugar da origem da mente. Mesmo que se pense constantemente “EU”, “EU”, a origem será a mesma. De todos os pensamentos que se levantam na mente, o pensamento “EU” é o primeiro. É somente após a ascensão deste que os outros pensamentos se levantam. É após o aparecimento do primeiro pronome pessoal que o segundo e o terceiro pronomes pessoais aparecem; sem o primeiro pronome pessoal não haverá nem o segundo, nem o terceiro.


Questionador: Como a mente se tornará tranqüila?

Sri Ramana: Pelo questionamento “Quem Sou Eu?”. O pensamento “Quem Sou Eu?”, destruirá todos pensamentos restantes, e como a vareta usada para agitar o fogo da pira funerária, no fim Ele se auto-destruirá. Então, surgirá a auto-Realização.


Questionador: Por que agarrar-se ao pensamento "Quem sou eu?"?

Sri Ramana: Quando surgem outros pensamentos, não se deve insistir neles, mas indagar: "Para que surgem esses pensamentos?" Não importa quantos são eles. A cada um, deve-se indagar prontamente, "Para quem surgiu este pensamento?" A resposta seria "Para mim". Se logo depois se fizer a pergunta "Quem sou eu?", a mente retorna à sua fonte e o pensamento se aquieta. Com a repetição dessa prática, a mente desenvolverá a habilidade, de permanecer em sua fonte. Quando a mente, que é sutil, aflora através do cérebro e dos órgãos dos sentidos, surgem nomes e formas grosseiras; quando permanece no coração, tais nomes e formas desaparecem. Impedir que a mente divague e retê-la no Coração é o que se denomina "interioridade" (antar-mukna). Permitir que a mente saia do Coração é conhecido como exteriorização (bahir-mukha). Assim, quando a mente permanece no Coração, o "Eu" que é a fonte de todos os pensamentos desaparece e o Eu superior que sempre existiu pode brilhar. O que quer que se faça, deve-se fazê-lo sem o "Eu" egóico. Desta forma, tudo aparecerá como natureza de Shiva (Deus).


Questionador: Não existem outras maneiras de aquietar a mente?

Sri Ramana: Não existem meios adequados afora a indagação. Com outros meios, a mente mostra-se aparentemente controlada, mas acabará por manifestar-se. Também através do controle da respiração a mente se aquieta; mas só permanece assim enquanto a respiração está controlada, e quando esta volta ao habitual, a mente também voltará a agitar-se e a vaguear, compelida por impressões residuais. A fonte é a mesma para a mente e a respiração. O pensamento é a natureza da mente. O pensamento "Eu" é o primeiro a surgir na mente; isto é egoidade. Daí originam-se a egoidade e a respiração. Assim, quando a mente se acalma, a respiração é controlada, e quando a respiração está controlada, a mente se acalma. Entretanto, no sono profundo, embora a mente esteja calma, a respiração não pára. Isso se deve à vontade de Deus, a fim de que o corpo possa ser preservado e as pessoas não tenham a impressão de que é a morte. No estado de vigília e no samadhi, quando a mente se aquieta, a respiração é controlada. A respiração é a forma grosseira da mente. Até o momento da morte, a mente mantém a respiração física; quando o corpo morre, a mente leva consigo a respiração. Portanto, o exercício de controle respiratório serve apenas para acalmar a mente;mas não destrói.

Assim como a prática do controle respiratório, a meditação nas formas de Deus, a repetição dos mantras. o controle alimentar, etc., não passam de auxiliares para a calma da mente. Através da meditação nas formas de Deus e da repetição de mantras, a mente é direcionada. Mas sua condição é errante. Assim como quando se dá a um elefante uma corrente para seu tronco, ele segue agarrado à corrente, também a mente se ocupa com um nome ou forma apenas. Quando ela se expande na forma de inúmeros pensamentos, todos tornam-se fracos; mas quando os pensamentos são dissipados, a mente torna-se direcionada e forte; para essa forma mental, a auto-indagação torna-se fácil. De todas as normas restritivas, a melhor é a relativa à ingestão moderada de alimentos sáttvicos; observando-se esse costume, a qualidade sáttvica da mente se acentua, o que será de grande valia na auto-indagação.


Questionador: As impressões (pensamentos) residuais dos objetos surgem interminavelmente, como as ondas de um oceano. Como afastá-las?

Sri Ramana: À medida que a meditação sobre o Eu superior se eleva mais e mais, os pensamentos vão sendo destruídos.


Questionador: E possível afastar as impressões residuais dos objetos provenientes de tempos imemoriais, permanecendo o puro Eu superior?

Sri Ramana: Em vez de entregar-se à dúvida - "É possível ou não?" - é preciso que se atenha insistentemente à meditação sobre o Eu superior. Mesmo quando você é um grande pecador, não deve se preocupar e lamuriar "Oh! Sou um pecador, como poderei ser salvo?"; ao contrario deve renunciar por completo ao pensamento "Sou um pecador e concentrar-se intensamente na meditação sobre o Eu Superior; então, sem dúvida, haverá vitória. Não existem duas mentes -uma boa e outra má; a mente é uma só. As impressões residuais é que são de dois tipos - favoráveis e desfavoráveis. Quando a mente encontra-se sob a influência das impressões favoráveis, é considerada boa; e quando sob a influência de impressões desfavoráveis, é considerada má.

Não se deve permitir à mente vaguear rumo a objetos mundanos e ao que diz respeito a outras pessoas. Não importa o quanto outras pessoas possam ser más; não se deve nutrir ódio por essas pessoas. Deve-se evitar tanto o desejo quanto o ódio. Tudo que se dá ao outro, dá-se a si mesmo. Se essa verdade for compreendida, o que não será dado aos outros? Com o surgimento do Eu superior, tudo brota; uma vez apaziguado o Eu superior, tudo se acalma. Conforme nos comportamos com humildade, daí resulta o bem. Se a mente se acalma, pode-se viver em qualquer lugar.


Questionador: Durante quanto tempo deve ser praticada a inquirição?

Sri Ramana: Enquanto houver impressões dos objetos na mente, deve-se praticar a inquirição "Quem sou eu?". Os pensamentos devem ser destruídos no exato local de origem através da inquirição. É suficiente que uma pessoa utilize repetidamente a contemplação do Eu superior até que este seja realizado. Enquanto restam inimigos no interior da fortaleza, eles continuam a miná-la; se são destruídos assim que surgem, a fortaleza permanece em nossas mãos.


Questionador: Qual a natureza do Eu superior?

Sri Ramana: Na verdade existe apenas o Eu superior. O mundo, a alma individual e Deus constituem aspectos dele, como a prata na madrepérola; os três surgem e desaparecem ao mesmo tempo.

O Eu superior existe onde não existe o pensamento do "Eu". A isso chama-se silêncio. O Eu superior é o mundo; o Eu superior é "Eu"; o Eu superior é Deus; tudo é Shiva, o Eu superior.


Questionador: Tudo não é obra de Deus?

Sri Ramana: O sol nasce sem desejar, sem deliberação, sem esforço; e com sua simples presença, o sol emite fogo, o lótus floresce, a água evapora; as pessoas realizam suas várias funções e então repousam. Assim como na presença do magneto a agulha se desloca, com a simples presença de Deus as almas governadas pelas três funções (cósmicas) ou pela quíntupla atividade divina realizam seus atos e, então, repousam, segundo seus respectivos karmas. Deus nada tem a transformar; Ele não tem karma. Assim como os acontecimentos terrestres não afetam o sol, ou os méritos e deméritos dos outros quatro elementos não afetam o éter difuso.


Questionador: Quem é o maior dos devotos?

Sri Ramana: O que se entrega ao Eu superior, que é Deus, é o melhor dos devotos. Entregar o Eu superior a Deus significa permanecer constantemente no Eu superior, sem permitir o surgimento de quaisquer pensamentos além do pensamento do Eu superior.

Deus suporta todos os fardos que lhe são lançados ao ombro. Se o poder supremo de Deus faz com que todas as coisas se movam, por que preocupar-nos constantemente, sem submeter-nos a esse poder, com ideias tais como o que deve ser feito e o que não deve ser feito e de que maneira. Sabemos que o trem transporta todos os car-regamentos; então, por que levarmos conosco nossa pequena bagagem com grande desconforto, em vez de colocar tudo no bagageiro do trem e acomodar-nos à vontade?


Questionador: O que é desapego?

Sri Ramana: O desapego consiste em destruir inteiramente os pensamentos em seu local de origem e sem deixar vestígios. Assim como o pescador de pérolas amarra uma pedra à cintura, mergulha até o fundo do mar e recolhe as pérolas, também o aspirante deve desenvolver o desapego, mergulhar dentro de si mesmo e obter a pérola do Eu superior.


Questionador: Não é possível a Deus e ao Guru libertarem uma alma?

Sri Ramana: Deus e o Guru só podem mostrar o caminho da libertação; sozinhos não podem libertar a alma. Na verdade, Deus e o Guru não são diferentes. Assim como a presa que cai nas garras de um tigre não tem escapatória, também aqueles que adentram o alcance do olhar complacente do Guru por ele serão salvos e não se perderão; contudo, cada um por seus próprios esforços deve buscar o caminho mostrado por Deus ou o Guru e alcançar a libertação. Só se pode conhecer a si mesmo com o próprio olhar do conhecimento e não com o de outrem. Aquele que é Rama precisa da ajuda de um espelho para saber-se Rama?


Questionador: É necessário àquele que anseia pela libertação indagar qual a natureza das categorias (tattvas)?

Sri Ramana: Assim como aquele que deseja livrar-se do lixo não precisa analisá-lo e ver seu conteúdo, também o que deseja conhecer o Eu superior não precisa contar o número de categorias, nem analisar suas características; o que ele tem a fazer é rejeitar por completo as categorias que ocultam o Eu superior. O mundo deve ser considerado um sonho.


Questionador: Não existe diferença entre vigília e sonho?

Sri Ramana: A vigília é longa e o sonho curto; essa é a única diferença. Assim como os acontecimentos do período de vigília parecem reais enquanto estamos despertos, também os acontecimentos do período de sonho parecem reais enquanto sonhamos. No sonho, a mente toma outro corpo. Tanto no estado de vigília como no estado de sonho, pensamentos, nomes e formas ocorrem simultaneamente.


Questionador: É de alguma valia a leitura de livros para aqueles que desejam a libertação?

Sri Ramana: Todos os textos afirmam que para lograr a libertação deve-se acalmar a mente; portanto, o ensinamento conclusivo é de que a mente deve ser acalmada; quando isso é compreendido, não é necessária a leitura interminável. A fim de acalmar a mente, basta in-dagar dentro de si sobre o que é o próprio Eu superior; sobre como essa busca pode ser efetuada nos livros? Deve-se conhecer o Eu superior com o próprio olhar da sabedoria. O Eu superior encontr-se protegido por cinco camadas; mas os livros não fazem parte delas. Como o Eu superior deve ser encontrado através da investigação, eliminando-se as cinco camadas, inútil buscá-lo nos livros. Chegara o momento em que será preciso esquecer tudo o que foi aprendido.


Questionador: O que é a felicidade?

Sri Ramana: A felicidade é a própria natureza do Eu superior; felicidade e Eu superior não são diferentes. Não existe felicidade em qualquer objeto mundano. Com nossa ignorância, imaginamos obter felicidade dos objetos. Quando a mente se expande, ela experimenta o sofrimento. Na verdade, quando seus desejos são satisfeitos, ela volta a seu lugar de origem e participa da felicidade, que é o Eu superior. Da mesma forma nos estados de sono, no samadhi e no desfalecimento, e quando o objeto desejado é obtido, ou o objeto indesejado é removido, a mente volta-se para o interior e desfruta da pura felicidade do Eu superior. Assim, a mente agita-se sem cessar, saindo e retornando ao Eu superior. Sob a árvore, a sombra é aprazível; sob o sol, o calor é intenso. Uma pessoa que esteve exposta ao sol refresca-se ao atingir a sombra. Aquele que permanece indo e voltando, da sombra ao sol e vice-versa, é tolo. O homem sábio permanece indefinidamente na sombra. Assim, também, a mente de quem conhece a verdade não deixa Brahman. A mente daquele que a desconhece, ao contrário, erra pelo mundo, sentindo-se infeliz e retornando, por um curto espaço de tempo, a Brahman, a fim de experienciar a felicidade. Na verdade, o que se chama de mundo não passa de pensa mento. Quando o mundo desaparece, isto é, quando não existe pensamento, a mente sente a felicidade; e quando surge o mundo, a mente sofre.


Questionador: O que é sabedoria-introvisão (jnãna-drsti)?

Sri Ramana: Permanecer em quietude é o que se denomina sabedoria-intro-visão. Aquietar-se é dissolver a mente no Eu superior. A telepatia, o conhecimento de acontecimentos passados, presentes e futuros, e a clarividência não constituem a sabedoria.


Questionador: Qual a relação entre a ausência de desejo e a sabedoria?

Sri Ramana: A ausência de desejo é a sabedoria. Os dois não são diferentes; são a mesma coisa. A ausência de desejo consiste em impedir a mente de vagar em direção a algum objeto. A sabedoria implica o não-aparecimento de qualquer objeto. Em outras palavras, buscar apenas o Eu superior é desapego ou ausência de desejo; aí permanecer é sabedoria.


Questionador: Qual a diferença entre investigação e meditação?

Sri Ramana: A investigação consiste em reter a mente no Eu superior. A meditação consiste em pensar que o próprio Eu superior é Brahman, existência-consciência-beatitude (Sat-Chit-Ananda).


Questionador: O que é a libertação?

Sri Ramana: Indagar a natureza do próprio Eu superior que se encontra em cativeiro e compreender a sua verdadeira natureza é a libertação.


sexta-feira, maio 01, 2015

Universo constituído de variadas dimensões

Nesta postagem, quero apresentar aos leitores um vídeo muito interessante da série "Quem somos nós?" que, baseado nos conhecimentos da moderna Física Quântica, aborda cientificamente a existência de outras dimensões além das que conhecemos e percebemos através dos sentidos físicos do corpo. Cliquem abaixo para assistir:




Após assistir a esse belo vídeo mostrando a existência de variadas dimensões, sugiro agora a leitura de um texto de Masaharu Taniguchi (escrito por ele em meados da década de 1930 ou 1940), onde ele também explanou didaticamente sobre a existência de dimensões superiores, e sobre a existência dos seres que habitam nela. Segue o texto:

O mundo fenomênico em que vivemos - o mundo perceptível aos cinco sentidos - é um mundo tridimensional constituído de comprimento, largura e altura. Suponhamos que exista um tipo de larva que perceba apenas uma dimensão, a retilínea, e portanto não seja capaz de perceber a largura (2ª dimensão) nem a altura (3ª dimensão). Tal larva se locomoveria apenas em linha reta e, se surgisse em seu caminho algum objeto vindo da direita ou da esquerda (da 2ª dimensão), ficaria espantada, pois não entenderia de onde teria surgido tal objeto. Suponhamos também que exista um bichinho que perceba apenas duas dimensões - o comprimento e a largura, ou seja, o plano -, portanto incapaz de perceber a altura (3ª dimensão). Um dia, esse bichinho põe ovos e os cerca com uma substância gelatinosa que ele mesmo produziu, a fim de protegê-los. Assim, ele fica tranquilo porque nem ele e nenhum outro bichinho da mesma espécie poderá atravessar essa barreira para pegar os ovos. Se, porém, aparecer um homem, que pertence ao mundo de três dimensões, e pegar por cima esses ovos, o bichinho ficará atônito, pensando: "Como será que entraram aqui para pegar os meus ovos, se a barreira que construí não foi violada?". Ele não consegue entender como desapareceram os ovos, pois pensa que só existem duas dimensões - a largura e o comprimento - e não sabe que existe uma outra dimensão, a altura. Entretanto, nós, seres humanos, vivemos no mundo de três dimensões, constituído de comprimento, largura e altura. Mas será que não podem existir outras dimensões além dessas? A matemática superior levantou a hipótese de existir mundos de quatro, cinco, seis ou sete dimensões. Nós, que vivemos no mundo de três dimensões, pensamos que não existem outras dimensões, mas, assim como existe o mundo tridimensional abarcando o bidimensional, pode existir um mundo com mais dimensões que contenha o tridimensional.

Como já disse anteriormente, uma larva que vive no mundo unidimensional da linha reta só sabe seguir em linha reta e não compreende que existe o mundo bidimensional, isto é, o plano. E os seres que vivem no mundo do plano pensam que só existem o comprimento e a largura e nem imaginam que existe o mundo tridimensional, como no caso daquele bichinho dos ovos, de que falei há pouco. Da mesma forma, nós também não percebemos a existência de um mundo superior ao tridimensional, isto é, um mundo com mais dimensões que contenha o tridimensional. E, se alguém desse mundo de dimensão superior às três dimensões (comprimento, largura e altura) "enfiar a mão" no nosso mundo tridimensional e levar este relógio de bolso, por exemplo, acharemos muito estranho, sem entender como e por onde ele possa sumir. E as curas que ocorrem na Seicho-No-Ie têm a mesma explicação. Ocorrem certas curas que nos levam a acreditar que houve a interferência de um mundo de dimensão mais elevada, pois as doenças desaparecem como por encanto, sem que se tome providência alguma neste mundo tridimensional. (Do livro "A Verdade da Vida", volume 27)

Em outro momento, Masaharu Taniguchi foi ainda mais além e relacionou o assunto das variadas dimensões para explicar sobre a existência do Mundo ou Universo constituído de infinitas dimensões, que a Seicho-No-Ie chama de Mundo da Imagem Verdadeira (Jissô). A esse respeito, o professor Taniguchi escreve:

Muitos budistas pregam que o mundo da Essência é um mundo abstrato, vazio e indefinido. Se assim fosse, alcançar a iluminação seria identificar-se com o mundo abstrato, vazio e indefinido. Nesse caso, um iluminado seria uma pessoa abstraída, vazia e indefinida, com vida cotidiana sem base firme; ele não saberia como viver e se retiraria para um lugar ermo a fim de se isolar do mundo das ilusões. Muitos tendem a pensar que esse é o modo ideal de viver para quem alcançou a iluminação. É por isso que entre os budistas existem pessoas de tendência eremítica, segundo as quais a ideia de concretizar o paraíso na ilusória face da Terra é um apego desprezível. Para elas, o desejo de concretizar a felicidade no mundo terreno é um apego que deve ser repudiado.

A Seicho-No-Ie, entretanto, não diz que o mundo da Imagem Verdadeira é vazio e indefinido. Obviamente, não é possível vê-lo com os olhos carnais. O mundo perceptível aos sentidos é constituído de "retícula de tempo e espaço". Ele pode ser comparado a uma fotografia estampada num jornal: a imagem fotográfica é formada de pontilhados verticais e horizontais da retícula. Se não existisse a retícula, não existiria a imagem fotográfica. De modo semelhante, o mundo da Imagem Verdadeira, para se tornar visível como mundo terreno, precisa ser projetado através da "retícula de tempo e espaço". É por essa razão que não se pode ver fenomenicamente o mundo da Imagem Verdadeira em si, exatamente como ele é. A foto impressa de uma pessoa é pontilhada, bidimensional, plana e estática, enquanto que a pessoa concreta é tridimensional, tem volume, motilidade e é dinâmica. A pessoa e sua foto se identificam, mas são substancialmente diferentes. Da mesma forma, há grande diferença entre o mundo da Imagem Verdadeira e o mundo fenomênico, entre o homem-Imagem Verdadeira e o homem fenomênico, embora parecidos. Mas o fato de serem diferentes não significa que eles sejam alheios um ao outro. O segundo é uma espécie de fotografia do primeiro. O mundo fenomênico difere do mundo da Imagem Verdadeira porque sofre as limitações impostas pela "retícula de tempo e espaço", e é justamente por isso que se pode percebê-lo por meio dos cinco sentidos. Embora perceptível, o mundo fenomênico não é o mundo verdadeiro, assim como a foto de uma pessoa não é a pessoa em si. Entretanto, a pessoa está representada na foto com a limitação imposta pela retícula impressor planográfica. De modo análogo, o mundo da Imagem Verdadeira está representado no mundo fenomênico com as limitações impostas pela "retícula de tempo e espaço". Assim como é impossível imprimir uma foto sem usar a retícula, é impossível manifestar o mundo da Imagem Verdadeira no mundo fenomênico sem usar a "retícula de tempo e espaço".

Explicando melhor, o mundo fenomênico, que vemos com os olhos carnais, possui três dimensões (comprimento, largura e altura), enquanto que o mundo da Imagem Verdadeira possui infinitas dimensões. Mentalmente, podemos admitir um mundo que possua mais uma dimensão além da altura, da largura e do comprimento, mas não podemos representá-lo de modo perceptível aos cinco sentidos. E muito mais difícil ainda é representar um mundo de quinta ou sexta dimensão. Mas não poder representá-lo não significa que tal mundo não exista. Como já disse anteriormente, uma pessoa, ao ser representada em foto, perde muito de seus aspectos, tais como a espessura, a motilidade ou as sutis nuanças de cores que não aparecem nem em foto colorida. Também o mundo da Imagem Verdadeira, ao aparecer como existência tridimensional e perceptível aos sentidos, sujeita-se a limitações do tempo e do espaço, despojando-se de outras dimensões e de inúmeros aspectos complexos. Em outras palavras, o mundo fenomênico é aquele que ficou no "coador tridimensional", através do qual foram eliminadas as outras dimensões.

E como será o mundo infinitodimensional que não se submeteu ao "coador tridimensional", isto é, que não foi despojado das dimensões invisíveis? Ele não é um mundo amorfo, vazio e indefinido. É um paraíso infinitamente belo e majestoso, impossível de ser apreciado por nossos sentidos limitados pelas três dimensões. E nele há pessoas infinitamente belas e uma infinidade de seres belos em estado perfeito e harmonioso. Esse paraíso, que é o mundo da Imagem Verdadeira em seu estado natural e normal, não é perceptível aos cinco sentidos. Para se tornar perceptível, é preciso que dele sejam suprimidas a quarta, a quinta, a sexta, ...n dimensões, até a infinitésima dimensão, por meio da "retícula de tempo e espaço", mantendo-se apenas as primeira, segunda e terceira dimensões. Assim é que se manifesta o mundo fenomênico visível a nossos olhos. E este mundo, apesar de colorido, não retrata toda a beleza de matizes do mundo da Imagem Verdadeira, do mundo infinitodimensional; retrata apenas palidamente, dada a pobreza de recursos cromáticos existentes na Terra. Quem pratica a Meditação Shinsokan pode às vezes ter, pela clarividência, uma visão momentânea dessa beleza superior. Torna-se inclusive capaz de ver luzes diferentes da luz física, em forma de aura que envolve as pessoas ou as plantas. Todavia, essa beleza vista pela clarividência não traduz ainda a verdadeira beleza do infinitodimensional mundo da Imagem Verdadeira.

Em suma, quero dizer que o mundo da Imagem Verdadeira não é um mundo amorfo, indefinido e vazio. É um mundo tão maravilhoso que é impossível imaginá-lo e muito menos expressá-lo em palavras. É até preferível não dizer nada, pois a comparação com belezas do mundo fenomênico deturpa sua beleza. Para não reduzir a beleza infinita com adjetivos restritivos, diz-se que no mundo da Imagem Verdadeira não existe nada que seja limitado, definível, descritível. Na Matemática, grafam-se dois "nadas" (zeros) unidos (∞) para simbolizar o infinito. De modo análogo, dizemos "nada existe, nada existe" para simbolizar o infinitamente majestoso mundo da Imagem Verdadeira. Mas engana-se quem pensa que realmente nada existe nele, pois se trata de um mundo de suprema harmonia e perfeita ordem, constituído de Sabedoria infinita, Amor infinito e Vida infinita de Deus. Compreender isto é de fundamental importância. O mundo fenomênico ainda não está perfeito; está caminhando para a perfeição, refletindo cada vez mais perfeitamente o mundo da Imagem Verdadeira, e finalmente será um mundo sumamente harmonioso e infinitamente majestoso. É este o significado da frase "ser feita a vontade de Deus, assim na Terra como no Céu". (Livro: "A Verdade da Vida", volume 28)


quarta-feira, abril 29, 2015

A Verdade de Quem você é (Gangaji)




‎"QUEM É VOCÊ REALMENTE?

Qualquer pensamento que você teve sobre si mesmo, por mais desinflado ou inflado, não é quem você é. É simplesmente um pensamento. 

A verdade de quem você é não pode ser pensada, porque ela é a fonte de todos os pensamentos.

A verdade de quem você é não pode ser nomeada ou definida.

Palavras como alma, luz, Deus, verdade, 'self', consciência universal ou divindade, mesmo que capazes de evocar o êxtase da verdade, são totalmente inadequadas como descrição da imensidade de que você realmente é.

Independente de como você se identifica: como criança, adolescente, uma mãe, um pai, uma pessoas mais velha, uma pessoa mais saudável, uma pessoa doente, uma pessoa que sofre ou uma pessoa iluminada, sempre por trás de tudo isso está a verdade de você mesmo. Ela não é estranha para você. Ela está tão próxima que você não consegue acreditar que é você.

A verdade de quem você é, é intocada por qualquer conceito sobre quem você é, seja ignorante ou iluminado, sem valor ou grandioso.

A verdade de quem você é, é livre de tudo isso. Você é livre e tudo que bloqueia sua realização desta liberdade é seu apego a alguma idéia sobre quem você é.

Este pensamento não impede que você seja a verdade de quem você é. Você já é isso!

Ele apenas separa você de realização de quem você é.

Convido você a deixar sua atenção mergulhar naquilo que sempre esteve aqui esperando abertamente por sua própria autorrealização.

Quem é você realmente?

Você é alguma imagem que aparece em sua mente? Você é alguma sensação que aparece em seu corpo?

Você é alguma emoção que passa por sua mente e corpo?

Você é algo que alguém disse que você é ou uma rebelião contra algo que alguém disse que você é?

Estas são algumas das muitas vias de erros de identificação. Todas essa definições vêm e vão, nascem e depois morrem. A verdade de quem você é não vem e vai. Ela está presente do nascimento, durante toda uma vida e após a morte.

Descobrir a verdade sobre quem você é não é apenas possível, é o seu direito de nascença. Qualquer pensamento que esta descoberta não seja para você, agora não é o tempo, você não é digno, você não está pronto, você já sabe quem é, são apenas truques da mente.

Está na hora de investigar este pensamento sobre “eu”, e ver qual é a sua validade real. Nesta investigação existe uma abertura para que a consciência inteligente que você é finalmente reconheça a si mesma. A pergunta mais importante que você jamais pode perguntar-se é: Quem sou eu?

De certa forma esta tem sido uma questão implícita perguntada em cada etapa de sua vida. Toda atividade, seja individual ou coletiva, é motivada em sua raiz por uma busca de auto-definição.

Tipicamente, você busca por uma resposta positiva a esta pergunta e foge de uma resposta negativa.

Quando esta questão se torna explícita, o impulso e o poder da pergunta direcionam a busca pela verdadeira resposta, que é aberta, viva e cheia de insights cada vez mais profundos.

Você experimenta tanto o sucesso como a fracasso.

Após um certo estágio, cedo ou tarde, você percebe que quem você é, independente da definição, não é satisfatório.

Se esta questão não for verdadeiramente respondida, não apenas convencionalmente respondida, você vai continuar com fome de saber.

Porque, independente de como você tenha sido definido por outros bem intencionados ou não e independente de como você tenha definido a si mesmo, nenhuma definição pode trazer certeza duradoura.

O momento em que se reconhece que esta pergunta é crucial. Ele é muitas vezes referido como o momento de amadurecimento espiritual. A partir deste ponto você pode conscientemente investigar quem você realmete é.

Em seu poder e simplicidade a questão: “quem sou eu?” lança a mente de volta a raiz da identificação pessoal: a suposição básica “ eu sou alguém”.

Ao invés da automaticamente aceitar esta suposição como a verdade, você pode investigar mais profundamente. Não é difícil ver que este pensamento inicial 'eu sou alguém' leva a todos os tipos de estratégias: ser alguém melhor, alguém mais protegido, alguém com mais prazer, mais conforto e mais realização. Mas quando este pensamento muito básico é questionado, a mente encontra o eu, que se assume estar separado daquilo que ela vinha procurando.

Isso é chamado de autoinvestigação.

A pergunta mais básica: 'quem sou eu?' é aquela que é a mais negligenciada.

Passamos a maior parte dos nossos dias dizendo a nós mesmos ou aos outros, que somos alguém importante, alguém sem importância, alguém grande, alguém pequeno, alguém jovem ou alguém velho, sem nunca realmente questionar esta suposição mais básica.

Quem você realmente é?

Como você sabe que É quem você é? Isso é verdade? Realmente?

Quando você voltar sua atenção para a questão: 'quem sou eu?', talvez você veja uma entidade que tem seu rosto e seu corpo. Mas quem está ciente deste entidade? Você é o objeto ou você é a percepção do objeto? Objeto vem e vai. O pai, a criança, o amante, o abandono, o iluminado, o vitorioso, o derrotado. Todas estas identificações vem e vão.

A percepção destas identificações está sempre presente. A identificação errada de si mesmo como alguém objeto dentro da percepção leva a extremo prazer ou extrema dor e ciclos intermináveis de sofrimento.

Quando você está disposto a parar a identificação errada e descobrir direta e completamente que você é a própria percepção e não estas definições impermanentes, a busca por você mesmo nos pensamentos termina.
Quando a pergutna: “quem?” é perseguida de forma inocente, pura, por todo caminho de volta a sua origem, surge uma enorme e espantosa realização. Não há absolutamente nehuma entidade ali. Há apenas o indefinível e ilimitado reconhecimento de si mesmo, como inseparável de qualquer outra coisa. 

Você está livre.

Você está completo. Você é infinito. Não há nenhum fundo em você, nenhum limite em você.

Qualquer idéia sobre você aparece em você e desaparecerá de volta em você.

Você é percepção e percepçãp é consciência.

Deixe todas as autodefinições morrerem neste momento. Deixe todas irem, e veja o que resta. Veja o que nunca nasce e o que não morre.

Sinta o alívio de se desfazer da carga de definir a si mesmo.

Experiencie a efetiva não-realidade da carga.

Experiencie a alegria que está aqui.

Descanse na paz infinita de sua verdadeira natureza, antes que qualquer pensamento de 'eu' surja."


(Gangaji, do livro "O diamante no seu bolso")


Gangaji

segunda-feira, abril 27, 2015

Verdade + Inverdade = Dúvida (Sai Baba)

Sathya Sai Baba


Pergunta de um devoto a Sai Baba:

"Qual é o grande fator que nos impede de ver a verdade da vida claramente?"

Sai Baba: "Tempo, trabalho, motivação e experiência: esses quatro juntos, em harmonia, são a Verdade. Quando os quatro são encontrados sem harmonia, vocês sentem que há algo falso."

Devoto: "Mas a verdade, em termos de trabalho, tempo, motivação e experiência..., olhando-se em redor, notam-se essas coisas operando, e o mundo está numa confusão muito grande. Assim sendo, deve existir algo além disso."

Sai Baba: "Quando você não tem fé absoluta no resultado, então a dúvida surge. Um exemplo: agora é dia e os objetos na sala são vistos claramente e não há dúvidas a respeito deles. À noite, quando está completamente escuro e você tem que andar tateando e não vê nenhum dos objetos, não há dúvida a respeito da situação. Mas ao cair da noite, quando há meia-luz e meia-treva, a dúvida pode surgir e você, ao ver uma corda, pode imaginar que ela é uma cobra e sentir medo.

A luz não é total e a visão não é clara. A luz plena é sabedoria e a completa escuridão é ignorância. A dúvida aparece quando há metade escuridão e metade sabedoria. A meia-luz é sabedoria e a meia-treva é ignorância. Ignorância e sabedoria: quando ocorrem juntas, em metade-metade, há dúvida. Agora você está no estado intermediário, no qual tem um pouquinho de sabedoria e também alguma ignorância, onde a ignorância e a sabedoria estão misturadas. Você não é totalmente experiente. Quando tiver a experiência apropriada, a dúvida desaparecerá. Como você não tem experiência, está sentindo essa dúvida.

Um pequeno exemplo: sofrendo de malária, você come um doce, mas sente que ele tem um sabor amargo. O doce não é amargo, mas, na sua experiência, ele é amargo. Não é culpa do doce. A ignorância também é uma doença, como a malária. E a cura para esta doença da ignorância é Sadhana (disciplina espiritual). O homem tem dúvida somente enquanto ele não conhece a verdade. Quando você vivenciar a verdade, a dúvida desaparecerá. A verdade é única e eterna. Tudo o que muda, saiba que é inverdade.

Você foi pequeno e cresceu. Isso também é inverdade. Onde está o corpo do menino de dez anos? Tudo se juntou no presente corpo. Primeiro, inverdade; depois, quando temos a experiência, conhecemos a verdade. Luz e trevas não são diferentes, são apenas um. (...)

O mesmo se passa com a luz e as trevas. Quando a luz vem, as trevas vão. Mas, na verdade, as trevas não vão a parte alguma e nem a luz vai a parte alguma. Quando uma surge, a outra é ignorada, ela não vai a parte alguma."

(Conversações com Sai Baba, de J. S. Hislop)