"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, junho 17, 2014

Deus: A Substância de Toda a Forma – Introdução



A partir de agora vamos dar início ao estudo de uma série de textos do Caminho Infinito. Hoje, dia 17 de junho de 2014, é o aniversário de 50 anos desde que Joel Solomon Goldsmith completou sua missão de vir à Terra e legar ao mundo um profundo e poderoso ensinamento espiritual capaz de despertar e elevar a consciência ser humano às alturas da Consciência Una, a Consciência Crística. Portanto, essa série que está se iniciando é uma homenagem, reverência e agradecimento ao grande Homem, Instrutor, Mestre, Iluminado, Curador, Místico, Metafísico, que foi Joel Goldsmith. Ele é, sem dúvidas, um dos Mestres mais queridos, essenciais e importantes apresentados neste blog.

Há tempos que sinto falta da presença dos ensinamentos do Caminho Infinito aqui no blog. Isso ocorreu devido ao fato de a maioria dos materiais em português já terem sido disponibilizados neste site, restando apenas alguns poucos ensinamentos a serem compartilhados. Todavia, recentemente tive a alegria de receber em mãos o livro de Goldsmith entitulado "DEUS: A SUBSTÂNCIA DE TODA A FORMA", livro que até hoje estava disponível somente em inglês. E este livro chegou em minhas mãos em português, e sem jamais ter sido publicado por qualquer editora! Não existe disponível no mercado. Mas esse é o tipo de coisa que acontece quando ficamos sintonizados/conectados na energia de um ensinamento verdadeiramente divino. O Universo faz manifestar! Deus "aparece como". No caso, Deus (substância espiritual) apareceu como livro (forma materializada). Por isso, considerei esse acontecimento um grande presente de Deus para mim, para o blog, e para os leitores do blog – principalmente para aqueles que são sintonizados com os ensinamentos do Caminho Infinito.

O livro que está para ser apresentado é essencial para os que, como eu, são estudantes do Caminho Infinito. Nele, Goldsmith, passo a passo, e muito inspiradamente, aborda princípios vitais do Caminho Infinito, sem os quais o estudante dificilmente sai do nível do intelecto para se elevar em direção àquilo que ele chama de conscientização/experiência da Presença de Deus. O livro pega desde os aspectos mais simples e básicos até o ponto mais alto/elevado do ensinamento, o que gera muito proveito para o estudante. A mensagem espiritual de Goldsmith, que é totalmente fundamentada na Escritura Bíblica, está inteiramente voltada para o despertar de uma consciência de unicidade, em total sintonia e harmonia com a profunda sabedoria do Oriente, tais como a filosofia Budista, Zen, Advaita e ensinamentos védicos. Uma vez que o ser humano entre em contato com essa Consciência Divina, e tenha a experiência da Presença de Deus, então começará a ter domínio sobre sua vida e seu universo – que nada mais são do que expressões de sua própria consciência.

Esta série de Goldsmith será acompanhada de uma outra. Após a exposição deste livro, iniciaremos o estudo de um outro, um brilhante livro metafísico, escrito por Dárcio Dezolt, inteiramente voltado para a assimilaçãoprática dos princípios espirituais explanados nos ensinos de Goldsmith. A apresentação de ambos os livros tornará este um trabalho muito especial. As duas séries se complementam, apresentando extraordinário alinhamento e sintonia entre si, otimizando ao máximo o progresso/sucesso do leitor na interiorização e realização do ensinamento. Essas duas séries foram escolhidas em decorrência de inspiração ou orientação interna, que acato e sigo. Ambas serão publicadas em homenagem a Joel S. Goldsmith e ao Caminho Infinito. Portanto, mais uma vez, durante um longo tempo, este blog se ocupará em expor e aprofundar o ensinamento de um único autor – desta vez, o de Joel Goldsmith.

Os ensinamentos do Caminho Infinito constituem expressão da Verdade Suprema, última! É um poderoso ensinamento iluminado, que Deus enviou ao mundo, para que a humanidade se eleve em percepção, consciência, amor, sabedoria, bondade, realização! Unicidade com Deus! Por isso, valerá todo o trabalho e o esforço! Este também é um trabalho oferecido em agradecimento a Deus.

Deus revela a Verdade àqueles que têm um desejo profundo, ardente e sincero – e que se empenham em conhecê-La.

Desejo a todos bons estudos e bom proveito!


domingo, junho 15, 2014

A mais profunda oração (Eckhart Tolle)




Conta-se que alguém perguntou à Madre Tereza de Calcutá:  
O que a senhora diz para Deus em suas orações? 
- "Nada, eu só escuto", respondeu ela. 
E o que Deus diz para a senhora em suas orações?
- "Nada, ele só escuta". 
Essa é a verdadeira e mais profunda dimensão da oração: uma experiência de presença e de comunhão que transcende a tudo".



Pergunta: Desde que eu era uma garotinha, eu fui criada como católica. Apesar disso, eu tinha uma grande tendência em negar Deus, em não acreditar na existência de Deus. E agora, graças a tudo o que você vem ensinando e compartilhando, sei que existe uma presença: sinto que uma quietude está aqui, a Consciência está aqui. Mas eu tenho o pensamento "por que devo orar?" Pois, se Deus é onisciente, onipotente, todo-amoroso, e assim por diante, não acho que Ele/Ela precisa de mim para dizer: "psiu, ei! Meu amigo está morrendo de câncer, você pode ajudá-lo?". Não acho que seja necessário, mas eu gosto de rezar. Eu adoraria ouvir seus pensamentos, o que seria adequado para orar? Você acredita na oração?

Eckhart Tolle: Talvez você possa aprimorar as suas orações de súplicas ("por favor me conceda isto ou aquilo") para transformá-las em "pequenos indicativos mentais", visando a paz, por exemplo. Esses pequenos indicativos mentais (oração que lhe estou sugerindo) ainda se valem dos conceitos, porque toda oração consiste de palavras e conceitos - para apontar, indicar, e assim ajudá-lo a ir além dos conceitos. Você poderia fazer, por exemplo, uma afirmação - como fez Jesus, quando disse: "eu sou a luz do mundo". É uma afirmação; é um conceito que aponta para uma realidade muito mais profunda que a das palavras. Se você ainda quiser pedir algo, então você poderia dizer algo como: "por favor, seja-me revelado que eu sou a luz do mundo". Usualmente, as orações comuns implicam em dualidade. Elas sugerem um Deus que está lá, ao passo que aqui estou eu, rogando a Deus. Tal dualidade é, em última análise, uma ilusão, porque a verdade é que você é uma expressão de Deus, do próprio Deus. Deus e você se fundem, vocês estão misturados. Assim, as orações de súplicas, que sugerem dualidade, não são as formas mais profundas de orar.

A oração mais verdadeira acontece quando você adota a atitude de ouvir, em quietude, ao invés de proferir palavras. Enquanto você gostar de rezar assim, está ok. Mas, gradualmente, comece a cessar de pedir a alguém para que faça algo para você, porque isso a mantém presa na dualidade.

Afirmações assertivas, se feitas corretamente, podem atuar como belos substitutos para as orações que comportam dualidade. Afirme: "Eu estou curado e completamente em paz". Após isso, deixe haver espaço, permita que o espaço entre e atue. Apenas o "campo" sem forma do puro espaço. E descanse nesse estado. Realmente, a inteligência e o poder residem nesse espaço. Nesse estado de espaciosidade, a sua experiência é a de que você já é o Todo - inteiro, pleno, completo. A forma externa pode lhe sugerir que você seja algo diferente. "Eu sou um ser santo", diz Um Curso em Milagres. Isso é o que você É, então é apenas uma questão de afirmar algo que você já é.

Você pode curar uma pessoa - quer a pessoa doente esteja ao seu lado, quer ela esteja distante e lhe venha à mente. A mais poderosa maneira de curar, no meu entender, é manter consigo a imagem da pessoa e mover-se profundamente para dentro de si, onde se encontra a Totalidade da Vida. Onde absolutamente nada é necessário, onde nada pode ser acrescentado. Nesse lugar profundo onde está a Totalidade da Vida, você contata também a totalidade daquela pessoa - ela já está curada/inteira nesse nível mais profundo, além da forma. Então, seguindo esse método, você parte da forma e se move para a dimensão da não-forma.

Essa é a cura que era praticada por Joel Goldsmith. Ele tem um livro fascinante chamado "A Arte de Curar Pelo Espírito". Realmente, trata-se de não se ater por completo às condições (do mundo da forma) que precisam ser melhoradas, mas concentrar-se na realidade essencial de que o ser humano é um com a própria Realidade Essencial, e entrar na profunda quietude onde nada é necessário. Goldsmith costumava receber telefonemas, às vezes no meio da noite. Eram de pessoas que necessitavam desesperadamente de uma cura; elas, então, diziam a ele os seus nomes e do que estavam sofrendo. Imediatamente, em seguida, ele largava do telefone e adentrava num estado absoluto de não-pensamento. Por um momento, ele ouvia o nome da pessoa, ele ouvia o que estava errado com elas, e imediatamente deixava inteiramente de lado tais informações/pensamentos. Ele, então, por dois ou três minutos, entrava em um estado de não-pensamento - um estado de absoluta presença. Existe uma perfeição absoluta no reino da não-forma. E essa perfeição absoluta é a essência da pessoa que, no nível da forma, necessita da cura. Então, você conduz a forma para a dimensão da ausência de formas, um espaço onde as formas não são. Nenhuma condição a ser tratada, onde nada jamais é necessário - apenas vá para dentro desse espaço. Essa era o seu modo de curar as pessoas. Ele foi um curador bastante poderoso. Essa é a última e mais elevada forma de cura, e que é realmente o tipo não-dual de oração. Nela, você vai além da oração, na qual diz: "por favor, Deus, cure o fulano!". Você penetra e contata a própria Fonte, que é inseparável de quem você é, e que é inseparável de quem é essa pessoa.

A oração pode converter-se gradualmente em uma atitude de escuta. Qual é o significado de "ouvir"? Ouvir significa que há um campo nú, "vazio", de pura atenção, o qual é percebido quando despido das projeções dos pensamentos. Nesse campo, você percebe a inocência, a pureza, a simplicidade e inculpabilidade de todas as coisas. Permanecer nesse campo é o que significa a atitude de escuta. Não significa que você esteja esperando por alguma resposta, porque então você não estará realmente ouvindo. Na escuta você absolutamente não espera por nada - há apenas um campo de atenção pura. Essa é uma oração muito mais profunda do que com qualquer palavra proferida. Não há sequer o desejo de que a oração seja atendida, ou de obter uma resposta. Estar em silêncio é o bastante.

Quando está escutando, você não está esperando por nada - há somente um campo de pura atenção.

Essa é uma forma de oração muito mais profunda e muito mais verdadeira do que qualquer palavra é capaz.  A verdadeira oração acontece naquele ponto onde a própria oração também se converte em meditação: ela é ambas. Ela não espera por respostas, estar em profundo silêncio é um estado de graça, e isso é o bastante. Algumas vezes a resposta surge; algumas vezes, também, de repente, as coisas apresentam-se solucionadas. Ouça isto: quando surgir qualquer problema pertencente a este mundo, qualquer distúrbio - e eles acontecem o tempo todo envolvendo: pessoas ao seu redor, perturbações na mente, etc. -, apenas vá para o estado de "escuta", de pura atenção, de pura consciência, no qual você se torna ciente da presença. O ato de escutar a presença é uma maneira poderosa de falar sobre ela e transmiti-la.

Quando você está presente, é como se você estivesse em um estado de escuta. É importante dizer, contudo, que o termo "escuta" tem sido usualmente associado com o sentido físico da audição. Mas, aqui, o termo "escuta" refere-se a um estado que se encontra além dos sentidos que percebem os fenômenos físicos; é um estado de consciência que sublinha, subjaz e que dá a base à existência do próprio sentido da percepção sensorial auditiva. Todo mundo sabe como é esse estado, porque quando você está realmente ouvindo um som fraco, o que é o estado de consciência que está por trás e que escuta aquele som fraco? É um estado de alerta absoluto e descontraído, relaxado. Assim, quando dizemos escuta, isso é algo útil, pois todo mundo sabe o que significa escutar. Eu estou apenas apontando para o fato de que a percepção sensorial externa não é a essência do escutar, o verdadeiro escutar; a essência da escuta é o estado subjacente da consciência, de receptividade absoluta e presença de alerta, que está por detrás da percepção sensorial auditiva.

É por isso, acredito, que uma das parábolas de Jesus falava sobre um servo que tinha o dever de ficar acordado, em estado de alerta, porque o servo não tem o conhecimento de quando o dono vai voltar para casa. Muitas das coisas de hoje apresentam-se a nós de forma um pouco distorcida, pois foram transmitidas verbalmente, e somente depois disso é que foram registradas; e, nesse processo, certas coisas foram viradas do avesso, e outras desapareceram. Eu acredito que, ao mencionar o servo que esperava pelo mestre, Jesus estava falando sobre uma atitude diferente - um estado de consciência. O servo está esperando em um sentido diferente da coisa normal que chamamos de "espera", que nada mais é do que a mente dizendo "Quando irá acontecer? Por que ainda não ocorreu?". O sentido utilizado aqui por Jesus é completamente diferente. Muitas e muitas vezes Jesus fala a respeito da espera, da importância de ficar acordado, alerta. Essa é uma parte muito importante de seu ensino: ficar acordado, não ir dormir, permanecer presente. Assim, todas as palavras que você usar na oração, lembre-se de fazê-lo como ponteiros ou indicadores para isso. Então você poderá dizer verdadeiramente: "Eu estou ouvindo".




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* A partir de hoje daremos início a uma série de textos inéditos do Caminho Infinito, de Joel Goldsmith.

sexta-feira, junho 13, 2014

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 3/3


Masaharu Taniguchi


Sra. Maki - "Doença não existe" – compreendi esta Verdade através da minha experiência pessoal, pois, quando despertei para a Verdade, a doença que me atormentava desapareceu. Eu era uma pessoa fraca e doentia, mas o filho que tive depois que me converti à fé nasceu com cerca de 3,800 kg. Foi um fato surpreendente. Embora tenha compreendido a veracidade da informação "doença não existe", há algumas coisas que ainda não são bastante claras para mim. Ensinam-nos que o homem adoece porque se deixa levar pela ilusão. Mas parece-me inconcebível que surjam pensamentos ilusórios no homem, que é filho de Deus. Outro dia, durante uma reunião, fiz perguntas a esse respeito e o prof. Nakahata esclareceu alguns pontos. Posteriormente, recebi também uma carta do mestre Taniguchi. Mas ainda continuo não entendendo bem essa questão, e quanto mais penso, mais confusa fico.

Nakahata - A senhora busca a resposta para essa questão partindo da ideia de que a ilusão existe, e é por isso que acaba num beco sem saída. É preciso despertar para o fato de que não existem nem a ilusão nem o seu eu em estado de ilusão, existindo unicamente o filho de Deus.

Murano - Eu também tropecei uma vez nessa questão. Mas lendo numa das publicações da Seicho-No-Ie as questões discutidas numa mesa-redonda entre o mestre Taniguchi e vários professores da Seicho-No-Ie, as minhas dúvidas foram esclarecidas. Nessa mesa-redonda, o mestre explicou o seguinte: Coisas como ilusão, que não são existências reais, não podem ser apreendidas por mais que as procuremos. Se alguém procura o que não existe, é porque ele pensa que isso existe, e vai aparecer se o procurar; enquanto não perceber o equívoco, não compreenderá que aquilo que procura não existe. Enquanto um sonâmbulo estiver sonhando que um ladrão entrou em sua casa, e ficar procurando-o aqui e acolá, não perceberá que esse ladrão não existe realmente. Para que o sonâmbulo perceba que esse ladrão não existe, basta despertar. O mesmo se pode dizer de todos nós: Basta pararmos de pensar sobre o que não existe, e simplesmente despertarmos para a Verdade de que somos filhos de Deus. Despertando, a ilusão se apaga – é só através desse meio que podemos provar a inexistência da ilusão.

Sra. Maki - Não existe ilusão, não existe o eu em estado de ilusão; no entanto, do eu inexistente surge a ilusão, que também inexiste – nesse ponto, começo a ficar confusa outra vez...

Mizuta - Quanto a mim, é só fechar os olhos assim, que imediatamente percebo que a matéria não existe, a ilusão não existe, e sinto-me envolto pela Luz Divina onipresente.

Taniguchi - Sra. Maki, certamente conhece a tragédia Hamlet, de Shakespeare. A tragédia Hamlet é um produto da imaginação de Shakespeare; portanto, por maior que seja o realismo com que ela esteja sendo representada no palco, não está acontecendo realmente. Também o príncipe Hamlet, personagem central dessa tragédia que vive um grande sofrimento, não é uma pessoa que existe realmente. O príncipe Hamlet é um personagem fictício criado por Shakespeare, e não um personagem real. Um personagem que não existe realmente é atormentado pela tragédia que ele próprio criou – isto exemplifica como o homem fenomênico, que não existe realmente, vive a sofrer criando ele mesmo ilusões que na realidade não existem.

Ilusão não existe; o homem em estado de ilusão não existe. Na tragédia acima citada, não existem na verdade nem o príncipe Hamlet, nem seus conflitos e sofrimentos. Mesmo que Hamlet tentasse perceber/refletir sobre a inexistência de si mesmo e sobre a inexistência da ilusão, nunca iria compreender. O mesmo se dá conosco quando procuramos compreender, com nossa inteligência humana, a inexistência da ilusão e do próprio corpo carnal. Por esse meio, nunca chegaremos a essa compreensão.

Voltando à tragédia de Hamlet: Para Shakespeare, é perfeitamente óbvia a inexistência de Hamlet e de seus tormentos, ou seja, é óbvio que Hamlet é um personagem originalmente inexistente e, por conseguinte, sua tragédia também não é real. Shakespeare tem plena consciência de que Hamlet é produto de sua imaginação e, assim sendo, por mais verossímil que seja esse personagem no palco, não é real. Nessa alegoria, Shakespeare corresponde ao homem verdadeiro, filho de Deus, perfeito e livre, que possui total liberdade de pensar e criar; Hamlet corresponde ao "falso ser humano", ou seja, ao "eu carnal"; e o fato de Hamlet viver sua tragédia, cheio de sofrimentos e conflitos corresponde ao fato de o "falso ser humano" (homem fenomênico) viver atormentado pelas ilusões que criou.

Do mesmo modo que somente Shakespeare sabe da inexistência de Hamlet, somente o homem verdadeiro sabe da inexistência da tragédia do seu "falso eu".

Sra. Maki - Ah, agora compreendi.

Taniguchi - No capítulo Kejoyu-hon, da Sutra do Lótus, está escrito que em tempos imemoriais existiu um santo budista chamado Daitsu-chishô, o qual só conseguiu alcançar a iluminação (tornar-se Buda) após praticar ininterruptamente o zen (meditação transcendental) durante um período de dez ciclos (No budismo, um ciclo é o tempo que uma rocha de dez léguas de extensão leva para ser desgastada por um véu que nela toca de leve uma vez em cada três anos. Portanto, significa um período de tempo quase infinito). Referindo-se a essa passagem, um certo monge perguntou ao sacerdote Jo, de Koyo: "Por que um grande santo como Daitsu-chishô não conseguiu tornar-se Buda antes de completar dez ciclos praticando o zen?" Foi uma pergunta bastante incisiva, e o sacerdote respondeu à altura: "Foi justamente porque ele não se tornou Buda". Esse diálogo constitui o Koan nº 9 do livro Mumonkan. O que o sacerdote quis dizer foi: "Daitsu-chishô levou tanto tempo para alcançar a iluminação, pelo simples fato de ele próprio não ter despertado para a Verdade de que já era Buda, e não porque fatores externos o tolhessem ou exercessem domínio sobre ele".

Em sua essência, Daitsu-chishô era um iluminado desde o princípio. O mesmo ocorre conosco: todos nós somos seres iluminados – ou seja, filhos de Deus – desde o princípio; não é pelo fato de nos empenharmos no treinamento espiritual e aprimoramento da alma que nos tornaremos iluminados ou filhos de Deus. Assim mesmo como somos, sem que nos acrescentemos nada, já somos, na essência, iluminados ou filhos de Deus. Se, apesar disso, não conseguimos manifestar-nos como iluminados ou como filhos de Deus, é porque nós próprios não tomamos a iniciativa para que tal aconteça. Quando se fala em "tornar a si próprio um iluminado", pode-se pensar que o homem só poderá alcançar a iluminação depois de se empenhar diligentemente na prática de penitências, e assim purificar-se, eliminando uma a uma todas as cargas cármicas negativas. Mas nem sempre isso é necessário. Basta fitarmos com o "olhos da mente" o nosso aspecto original, ou seja, a Imagem Verdadeira de nossa Vida.

Akiyama - Parece que o cristianismo prega que o home pode tornar-se filho de Deus (alcançar a salvação) somente através da cruz de Jesus Cristo, e que é impossível ao homem ligar-se diretamente a Deus sem a mediação de Jesus Cristo.

Taniguchi - Segundo a maioria das seitas cristãs, a humanidade é cheia de pecados e, devido à ira de Deus, encontra-se distante d'Ele; Jesus Cristo surgiu neste mundo para ser o intermediário entre Deus e a humanidade, e foi crucificado para redimir os pecados de todos os homens; por isso, somente através de Jesus Cristo o homem pode alcançar a salvação. Porém, alcançar a salvação não significa simplesmente sermos conduzidos a um mundo de fartura conhecido como mundo celestial, paraíso, etc., e sim conscientizarmo-nos de que somos filhos de Deus.

Diz-se "alcançar a salvação" ao fato de o homem, que é originalmente filho de Deus, tomar consciência da sua natureza verdadeira original, e consequentemente passar a manifestar a Vida perfeita e livre, própria do filho de Deus. Se fosse verdade que o homem não pode ser salvo a não ser por intermédio de Jesus Cristo, teríamos de admitir que, antes do nascimento de Jesus Cristo, as pessoas não podiam ser salvas. E como Jesus Cristo nasceu há cerca de 2.000 anos, teríamos de admitir que as pessoas que nasceram antes, ou seja, desde tempos remotíssimos até o advento de Jesus, não eram salvas e sim completamente abandonadas. Se assim fosse, teríamos de considerar Deus como um ser muito descuidado, cruel e irresponsável.Sabemos, porém, que Jesus disse: "Antes que Abraão existisse, eu sou" (João 8:58). Isso significa que Jesus Cristo já era o Salvador desde tempos remotíssimos.

Mas a crucificação de Jesus, através da qual ele "abrandou a ira do pai contra a humanidade", deu-se efetivamente há cerca de dois mil anos. Assim sendo, se interpretarmos a crucificação de Jesus Cristo como tem sido interpretada até agora, ou seja, que há quase dois mil anos ele foi pregado na cruz e morreu traspassado por lanças para redimir o pecado dos homens, teremos de admitir que, até então, Deus deixara a humanidade ao abandono, sem salvá-la. Mas na Seicho-No-Ie não se admite, de modo algum, a ideia de que Deus seja um Ser que tenha tais imperfeições.

O verdadeiro significado da crucificação de Jesus Cristo pode ser compreendido plenamente à luz dos ensinamentos da Seicho-No-Ie. Pregar o corpo carnal na cruz significa aniquilar o corpo carnal. Aniquilar o corpo não é ferir mortalmente o corpo com lança ou algum outro instrumento; é compreender que o corpo carnal não existe realmente, não passa de sombra e, revelando a irrealidade do corpo carnal, apagar a ideia de que ele é existência real. Em suma, consiste em saber que o corpo carnal é sombra, e não existência real, e "apagá-lo" do mundo da existência. Esta é a Verdade que Jesus Cristo quis transmitir. Curando enfermidades do corpo pelo poder da palavra, ou deixando-se pregar na cruz e aparecendo ressuscitado três dias depois, Jesus Cristo provou que, sendo o corpo carnal sombra da mente, podemos controlá-lo livremente, fazendo-o desaparecer ou aparecer.

E ele disse: "Se alguém que vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 17:24). Com isso, ele quis dizer que, para entrarmos no Reino de Deus, isto é, para alcançarmos a conscientização de filho de Deus, devemos "pregar na cruz o nosso corpo carnal", ou seja, negar nosso próprio corpo, reconhecendo que ele não é existência verdadeira. Conseguimos entrar no reino de Deus quando despertamos para a Verdade de que o corpo carnal não é existência verdadeira e que o nosso Eu Verdadeiro não é o corpo carnal, mas sim um ser espiritual. Este é o verdadeiro significado do ensinamento de que "devemos seguir o exemplo de Jesus Cristo, pois é por intermédio dele que podemos entrar no reino de Deus".

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 11", pp. 195-202

terça-feira, junho 10, 2014

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 2/3


Masaharu Taniguchi


UNIVERSO DA PROJEÇÃO E UNIVERSO VERDADEIRO

Mizuta - Para mim, o "Deus que se manifesta através da Seicho-No-Ie" aparece sob a forma de Sol. Quando fecho os olhos e começo a fazer a Meditação Shinsokan, vejo essa figura luminosa descer diante de mim. É uma imagem realmente majestosa. Às vezes, vejo a Luz em vez do Sol. Mas, geralmente, é a imagem do Sol que me aparece, e ela emite vibrações de Vida, as quais, resplandecendo como raios dourados, penetram na minha fronte.

Taniguchi - Deus é Luz infinita; portanto, não tem limites. Não tendo limites, não tem forma definida. O que não tem limites, não nos é possível ver. De acordo com a revelação divina, o Sol visível aos nossos olhos carnais não é o Sol verdadeiro. O verdadeiro Sol é a Luz infinita e eterna de Vairocana (Deus do Sol), o qual é onipresente. Mas como não nos é possível ver o que é infinito, valemo-nos dos cinco sentidos e também do sexto sentido para vermos o infinito "refratado" num aspecto limitado. Assim, a imagem do Sol vista através dos cinco sentidos ou do sexto sentido é uma imagem condensada (do infinito para o limitado), captada por meio da "lente" dos cinco sentidos ou da "lente" do sexto sentido. O Deus verdadeiro é imaterial, é Luz infinita. Porém, Ele tem aparecido aos homens, sob a forma personificada, como diversas divindades. A esse Deus manifestado sob a forma personificada, damos o nome de "divindade Vairocana", "Deus que se manifesta através da Seicho-No-Ie", "Buda Amida", etc.

Murano - Mestre, o senhor prega que tudo quanto se pode captar através dos cinco sentidos é mera sombra e não é existência real. E o que diz dos elementos da natureza, tais como a água e a terra? Não posso conceber a ideia de que também eles sejam produtos da nossa mente em estado de ilusão. Será que também esses elementos, sendo matéria, não podem ser considerados existências verdadeiras criadas por Deus?

Taniguchi - Elementos como a água e a terra são existências verdadeiras criadas por Deus; mas a Imagem Verdadeira deles não são esses elementos imperfeitos que podemos ver e tocar concretamente. A Imagem Verdadeira deles é uma substância muito mais apurada, e de natureza espiritual. Eles se apresentam sob esse aspecto material e imperfeito porque nós os vemos através da "lente" dos cinco sentidos. É verdade que, mesmo as águas deste mundo fenomênico, quando não contêm impurezas, são cristalinas e belas. Porém, as águas do mundo da Imagem Verdadeira, sendo uma espécie de fluxo de luz espiritual, são infinitamente mais belas. O sr. Sawada parece ter visto de relance a beleza do mundo da Imagem Verdadeira. Todas as coisas do mundo da Imagem Verdadeira são de uma beleza tal, que não pode ser descrita com palavras deste mundo. Mas, aos nossos olhos, elas se apresentam sob o aspecto material, "estagnadas" e sem a beleza espiritual, porque as vemos através da "lente" dos cinco sentidos, distorcendo-lhes a Imagem Verdadeira.

Akiyama - Na Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade, no capítulo intitulado "Homem", está escrito: "Portanto, homens da face da terra, procurais com fervor o vosso corpo verdadeiro, que é Espírito; não o procureis na matéria nem na carne, que são produtos de ilusões". Compreendo que não podemos encontrar o corpo verdadeiro (a Imagem Verdadeira) enquanto ficamos procurando-o na sombra, vendo a sombra como aspecto verdadeiro. Todavia, mesmo que desfaçamos esse equívoco e eliminemos a ilusão, a matéria e a carne continuarão manifestadas como sombra, e cabe a nós controla-las livremente, reconhecendo-as como sombras e aspectos aparentes, não é mesmo? No citado trecho da Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade, a matéria e a carne são qualificadas como "produtos de ilusões". No entanto, em Votos e Aprimoramento Espiritual dos praticantes da Seicho-No-Ie está escrito que devemos contemplar os campos, as flores, o fogo, a água, enfim, toda a Natureza, como manifestação da Vida de Deus.

Penso que embora essa manifestação seja mera sombra, aspecto aparente ou aspecto fenomênico, enquanto vista através dos cinco sentidos, não se pode dizer que todos os elementos ao nosso redor sejam produtos de sonhos e ilusões sem nenhum fundamento. Entendo que tanto a afirmação de que o homem é espírito e não matéria (corpo carnal), como a de que a matéria e o corpo carnal não são existências verdadeiras, são válidas somente quando constituem argumentos para eliminar as ideias errôneas, ou seja, a ilusão. Penso que, mesmo depois de se eliminar a ilusão, devemos aceitar a matéria e o corpo carnal com a clara noção de que eles são aspectos aparentes, e nos relacionarmos com eles de maneira correta. Acho que é nisso que consiste a vida do ser humano na existência terrena. Que pensa deste meu raciocínio? Seguindo essa linha de pensamento, chegamos à conclusão de que tanto a matéria como o corpo carnal, contanto que não os vejamos baseados na ilusão, podem ser considerados manifestações da Vida de Deus, ou seja, originários da Grande Vida, e não produtos do sonho e da ilusão do homem.

Taniguchi - Na passagem da Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade onde diz "Portanto, homens da face da terra, procurais com fervor o vosso corpo verdadeiro, que é Espírito; não o procureis na matéria nem na carne, que são produtos de ilusões", a expressão "o corpo verdadeiro, que é Espírito" significa "Imagem Verdadeira do homem, o homem verdadeiro, o Eu verdadeiro". Portanto, a passagem diz que o homem verdadeiro não é, em absoluto, matéria ou corpo carnal, e que constitui sonho ou ilusão pensar que o homem verdadeiro seja um ser material e carnal.

A afirmação de que a matéria não existe constitui a base da doutrina da Seicho-No-Ie. Dizemos que a matéria nada mais é que corporificação das ondas de éter, para explicar a inexistência da matéria aos homens presos ao moderno materialismo. Se as ondas de éter fossem existências reais, a matéria, que seria sua corporificação, também seria existência real. afirmar que o homem não é existência material, com base na ideia de que ele é corporificação das ondas de éter, seria simplesmente trocar sua denominação – de "ser material" para "corporificação das ondas de éter" – em vez de negar realmente a existência do homem como ser material. Isso equivaleria a dizer que o homem é um ser material resultante das ondas do éter. A afirmação da Seicho-No-Ie, de que a matéria não existe, não se sustenta numa base tão frágil como a ideia de que a matéria é corporificação das ondas de éter. Se dissermos que a matéria não existe porque é apenas corporificação das ondas de éter, teríamos de dizer, também, que as doenças, os acidentes, as tragédias não existem porque são corporificações das ondas de éter. E isso equivaleria a resignar-se. Equivaleria a afirmar que doenças, danos e tragédias existem como corporificações das ondas de éter. Seria admitir a existência da matéria como corporificação das ondas de éter, o que nos levaria a concluir que doenças, danos e tragédias existem de fato.

Vamos exemplificar: Suponhamos que uma pessoa se fira com uma faca. Admitindo-se que tanto a faca como o corpo carnal sejam corporificações das ondas de éter, isso significaria que um tipo de ondas de éter feriu outro tipo de ondas de éter, o que nos levaria à conclusão de que, como ondas de éter, o ferimento é uma existência real. Mas a Seicho-No-Ie, mesmo em tais casos, afirma que ferimentos jamais são existências reais, porque o Homem é um ser espiritual indestrutível e nenhuma arma pode feri-lo. Outro exemplo: Imaginemos um animal carnívoro, como o tigre ou o leão, matando e devorando um animal fraco, como o coelho, por exemplo. Se admitirmos que toda matéria e todo ser animal existem realmente como corporificação das ondas de éter, teremos de admitir que a destruição dos fracos pelos fortes (no caso, a morte do coelho pelo leão ou tigre) é uma realidade. Todavia, a Seicho-No-Ie afirma que um fato como a lei da selva ou lei do mais forte (isto é, a destruição dos mais fracos pelos mais fortes) não é existência verdadeira, sendo apenas produto do sonho e da ilusão, pois somente o mundo criado por Deus existe realmente, e no mundo criado por Deus não existem atos cruéis, que são totalmente opostos ao amor.

Embora as ondas de éter constituam o último grau (a forma mais sutil) da matéria, elas não diferem de outras formas de matéria quanto ao fato de que não são existências verdadeiras. Já que ondas de éter não passam de matéria, é uma contradição admitir a existência real das ondas de éter e negar a existência real da matéria. Por isso, a Seicho-No-Ie, ao mesmo tempo que nega a existência da matéria como sendo produto do sonho e da ilusão, nega também a existência das ondas de éter como sendo a forma mais elevada e sutil do sonho e da ilusão. Assim, pelo fato de a matéria ser produto do sonho e da ilusão, não se pode encontrar o ser real (a Imagem Verdadeira) dentro dela. Se, todavia, a sombra chamada "matéria" – ou seja, a ausência de luz – está manifestando diversos aspectos, é sinal de que ali está incidindo a Luz, proveniente do ser real (a Imagem Verdadeira). Se não houvesse ali nenhuma luz, haveria unicamente a treva, e não poderia surgir imagem alguma. É como acontece com o filme cinematográfico: Onde só há escuridão e nenhuma luz, não pode ser projetada nenhuma imagem. As mais variadas imagens de um filme cinematográfico surgem na tela graças à presença da luz que torna possível a sua projeção. O mesmo ocorre com a matéria.

A matéria é ausência de Luz, é ausência de Vida; ela, em si, não existe. No entanto, apesar de não existir, ela manifesta formas, em vez de permanecer sem formas como simples inexistência. Isto acontece devido à luz proveniente do ser real (Imagem Verdadeira). Assim, a forma manifestada, embora esteja muito longe de se igualar ao ser real (Imagem Verdadeira), traz em sua retaguarda a Luz, a Imagem Verdadeira da Vida. O mesmo se pode dizer deste mundo material. O mundo material não é criação de Deus, e por isso nele se manifestam doenças, infelicidades e tragédias como guerras. Porém, por detrás dessa imagem imperfeita do mundo material, brilha a Luz da Imagem Verdadeira da Vida, a Luz de Deus. E é por isso que podemos ver em todos os seres e em todas as coisas a manifestação de Deus; assim, há pessoas que encontraram Deus justamente quando ficaram doentes, e outras que encontraram Deus justamente quando se viram em grandes dificuldades. Portanto, estamos dizendo a Verdade quando afirmamos que em todos os seres e todas as coisas vemos a manifestação de Deus. Originalmente, num dos itena de Votos e Aprimoramento Espiritual dos praticantes da Seicho-No-Ie constava: "Acreditamos que (...) toda a Natureza e todos os seres que nela habitam são manifestações da Vida de Deus (...)". Porém, havia pessoas que questionavam "Quer dizer, então, que doenças também são obras de Deus? As guerras, a realidade cruel do mundo animal, em que os mais fortes devoram os mais fracos, também são obras de Deus?". E para evitar interpretações errôneas, esse item foi alterado para: "Ao contemplarmos o céu, as estrelas, o mar, a terra, o fogo, a água, os campos verdejantes, as flores, enfim, todos os elementos da Natureza e os seres viventes, apreendamos em seu âmago a perfeição da Vida de Deus. Amemos, respeitemos e reverenciemos essa Vida, e jamais a desperdicemos."

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 11", pp. 184-195.

domingo, junho 08, 2014

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 1/3


Masaharu Taniguchi


A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL DO SR. SAWADA

Sawada - Permitam-me falar um pouco de mim. Como já disse, pude contemplar o esplendoroso e magnificente mundo da Imagem Verdadeira (Jissô). Mas depois dessa experiência maravilhosa, fiquei no chove-não-molha e, para falar a Verdade, vivia um tanto inebriado com o estado de iluminação que julgava ter alcançado. Mas, por outro lado, tinha uma sensação incômoda, como se a viseira de um boné estivesse me atrapalhando a visão. Sentia que havia algo impedindo-me de apreender a Imagem Verdadeira da Vida com maior clareza. O problema era que eu não conseguia saber, exatamente, do que se tratava. Então, sucederam-se dias de vento e chuva e, embora eles não fossem tão fortes, fiquei sem disposição de sair e permaneci no quarto da pensão onde estou morando. Não compareci nem mesmo na Seicho-No-Ie. Depois de faltar vários dias às sessões de treinamento, voltei; e nessa mesma noite, estava praticando a Meditação Shinsokan aqui mesmo, neste recinto, quando uma luz espiritual, que irradiava obliquamente de algum ponto do céu, desceu bem à minha frente. A princípio, pensei que fosse a luz da lâmpada, mas constatei que a única lâmpada do recinto ficava do lado oposto do ponto de onde vinha a luz, e então compreendi que se tratava de luz espiritual. E dentro dessa luz, vi uma asa alvíssima, que se movia suavemente, num vôo silencioso. Era de uma alvura que superava qualquer outra deste mundo. A alvura deste mundo nunca é genuína, tendo sempre algum tom, como por exemplo, o azulado. Mas a alvura que eu vi naquela noite era pura, genuína. Compreendi que essa asa alvíssima simbolizava a pureza do mundo da Imagem Verdadeira e o movimento livre e incessante da Vida.

Na noite seguinte, fiz novamente a Meditação Shinsokan, um tanto curioso de saber que visão teria dessa vez. A verta altura, vi um estranho animal pardo, maior que um homem e semelhante a uma doninha, o qual levantou uma das patas dianteiras e ficou encarando-me com os olhos rutilantes. Pude ver claramente os pelos que lhe cobriam o corpo e também seu longo rabo; constatei que não se tratava de nenhum animal feroz, nem monstro terrível. No entanto, senti um calafrio percorrer-me o corpo. Imediatamente tratei de me controlar e mentalizei que, sendo eu um filho de Deus, nenhum espírito maligno poderia aproximar-se de mim. Em poucos instantes aquela visão se apagou.

Terminada a Meditação Shinsokan, fiquei a pensar no que acontecera, e cheguei à conclusão de que, se eu havia visto um animal como aquele na hora da sagrada Meditação Shinsokan, devia haver em mim uma falha que propiciava a tentação de Satanás. Refleti qual seria essa falha, e compreendo que ela consistia no seguinte: Pela prática da Meditação Shinsokan, eu alcançara um certo grau de despertar espiritual, chegara até mesmo a vivenciar diversos fenômenos mediúnicos e a apreender a Imagem Verdadeira da Vida, no nível do sentimento e da ideia; mas deixando-me levar pela presunção, senti-me extasiado, fiquei satisfeito comigo mesmo, preenchi de alegria somente a mim, e nada fiz para transmitir aos outros e partilhar com eles essa alegria. Esquecendo-me de que Deus é Amor, de que a Imagem Verdadeira da Vida de todas as pessoas é uma só, e de que o despertar espiritual só é verdadeiro quando ele se estende aos outros, deixei-me levar pela ufania e fiquei à toa no quarto da pensão durante vários dias, simplesmente porque não tinha vontade de sair. Compreendi que nisso consistia a minha falha. Era preciso passar para a ação.

Com a firme determinação de eliminar completamente os resquícios da ilusão que há muito vinha me incomodando como a aba de um boné acima dos olhos e começar a agir em conformidade com a Imagem Verdadeira da Vida, voltei para cá no dia seguinte. Nessa ocasião, o prof. Taniguchi estava lendo o Juryô-hon da Sutra do Lótus. Mostrando-o a mim, ele explicou o seguinte: "Sakyamuni não se tornou Buda a partir do momento em que alcançou a iluminação; ele foi Buda sempre, desde o princípio dos tempos. Precisamos conscientizar que o mesmo se dá conosco, isto é, não nos tornamos filhos de Deus no momento em que alcançamos o despertar, pois somos filhos de Deus desde o princípio dos tempos. Precisamos conscientizar que a Vida de Sakyamuni, o qual fazia pregações há 3.000 anos na Índia, é a mesma Vida que pulsa em nós; e que também a Vida de Jesus Cristo, o qual fazia pregações há 2.000 anos na Judéia, é a mesma Vida que pulsa em nós. Somente através  dessa conscientização será verdadeiro o nosso despertar".

Ouvindo essas palavras do mestre, percebi porque tinha a sensação de algo impedindo-me de alcançar o completo despertar, como se a aba de um boné estivesse atrapalhando-me a visão. Então, eu disse ao mestre: "Até certo ponto, compreendi a sua explicação. Compreendi que a nossa Vida, essencialmente, é uma com a Grande Vida. Mas, no tocante à grandeza, acho que não posso me comparar, de modo algum, à Grande Vida, pios me sinto incomparavelmente menor que Ela. Num dos poemas da Coletânea de Poemas Sagrados, que faz parte de um dos volumes da coleção 'A Verdade da Vida', está escrito que a voz do Anjo se fez ouvir, dizendo: 'Tu és a própria Imagem Verdadeira'. Mas eu não consigo pensar que sou a própria Imagem verdadeira, embora possa compreender que, essencialmente, a Imagem Verdadeira e eu somos um só".

Então, o prof. Taniguchi explicou-me usando a metáfora do fluxo de um rio. Disse-me ele: "Imagine que você é como o rio Yodo. O rio Yodo é relativamente pequeno, com largura e profundidade limitadas. Você talvez o considere muito pequeno, comparado com o grande lago Biwa, de onde ele se origina. Que tal se você, ao contemplar esse rio, pensar que é o lago Biwa que está ali fluindo sob a forma de rio Yodo? Do mesmo modo, em vez de você pensar que é apenas um diminuto fluxo de Vida chamado Sawada, que tal pensar que é a Grande Vida que está fluindo sob a forma de um homem chamado Sawada?". Essas palavras me fizeram despertar realmente para a Verdade. Depois disso, passei a vir aqui todas as noites para receber orientação sobre a prática da Meditação Shinsokan; e pude compreender o quanto é grande a diferença entre praticar a Meditação Shinsokan conhecendo a Verdade e pratica-la sem conhecer a Verdade, como que tateando no escuro.

Numa das vezes em que eu estava fazendo a Meditação Shinsokan, aconteceu o seguinte: apesar de estar com os olhos fechados, puder "ver" minhas próprias mãos, justapostas em posição de prece; elas pareciam enormes como as mãos de um gigante, e de suas extremidades emanava uma luz ofuscante, de tonalidade lilás. Mas logo as mãos gigantescas se apagaram, e em seu lugar apareceu algo que poderia ser o eixo central do Universo, que atravessava o céu e a terra. E vi-me instalado nesse centro do Universo. Senti-me expandir no tamanho do Universo e tornar-me completamente uno com ele. Vi planetas orbitando diante de mim e, no entanto, sentia que eles orbitavam dentro de mim. Eu não estava em estado de hipnose, nem estava sonhando. Podia ouvir o murmúrio do córrego, o ruído de passos, enfim, ouvia claramente todos os rumores do mundo ao meu redor, conseguia distingui-los e julgá-los; e no entanto sentia que tudo aquilo estava dentro de mim: sentia o fluir do córrego dentro d mim, sentia como se as pessoas que caminhavam lá fora estivessem andando dentro de mim. Percebi, então, que o córrego, as pessoas, enfim, tudo que existia ao meu redor não eram elementos isolados de mim, mas sim partes integrantes do meu próprio ser. E, pela primeira vez, compreendi o significado do verso sagrado que diz "Tu és a própria Imagem Verdadeira".

Prosseguindo a Meditação Shinsokan, perguntei a mim mesmo se realmente existe o que se chama "eu", e imediatamente me veio a resposta: "Existe". Mas a palavra "eu" não existiria se não tivesse sido formulada na mente. Em seguida, perguntei: "Deus existe?"; e de algum lugar, dentro de mim, veio a resposta: "Deus existe; você próprio é Deus". Quando pensamos, formulando palavras na mente, a resposta logo surge. Mas, se não formulamos palavras na mente, não surge coisa alguma. Com efeito, no versículo inicial do capítulo 1, do Evangelho Segundo João, está escrito: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". Graças à experiência que vivi naquela noite, pude compreender o verdadeiro significado dessas palavras.

A partir daquele dia, a minha visão do mundo mudou completamente. Ao ver um poste, sinto que ele realmente faz parte de mim; ao ver o inocente sorriso de uma criancinha no bonde ou no ônibus, sinto realmente que aquela criancinha que está sorrindo alegremente faz paetê do meu ser, e fico alegre e feliz. Isso é o que realmente sinto, não é mera teoria. Até então, teoricamente sabia que "eu" e "os outros" somos um e que tudo se irmana em Deus, mas não conseguia sentir isso realmente. Porém, depois daquele dia, tem acontecido justamente o inverso: mesmo que eu procure argumentar comigo mesmo que "eu" e "os outros" somos seres distintos, não consigo deixar de sentir-me totalmente identificado com "os outros". Dizem que, desde tempos remotos, os grandes santos têm feito da tristeza dos outros a sua própria tristeza, e da alegria dos outros a sua própria alegria. Pela minha experiência pessoal, pude constatar que realmente é possível alcançar esse nível espiritual.
Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 11", pp. 178 -184

quinta-feira, junho 05, 2014

Universo perfeito x Universo imperfeito

- Gugu -


Existe aqui mesmo um universo espiritual de plenitude e perfeição. Em oposição ao universo espiritual pleno e perfeito, há o universo físico que não é pleno e nem perfeito. O universo físico é um lugar de imperfeição. Tudo o que existe no universo espiritual é completo, inteiro, imutável e eterno. Por sua vez, tudo o que existe no universo físico é incompleto, não-inteiro, mutável, e evanescente. Todavia, existe uma relação entre ambos universos.

A fim de bem explicitar e comparar esses universos, iremos nos valer de um pensamento e linguagem da matemática. Todos aqui já estudaram e compreendem o que é uma dízima matemática, correto? Uma dízima matemática é um número quebrado, não-inteiro, que vai aumentando cada vez mais, porém nunca alcança o número seguinte. Tomemos como exemplo o número 0,9. Por mais que aumentemos esse número, jamais ele alcançará a posição de ser um número inteiro. Jamais ele chegará a ser 1. Certamente sua numeração poderá aumentar imensamente, infinitamente. Ele pode progredir para 0,91... 0,92... 0,93... 0,94... 0,95... 0,96..., 0,97... 0,98... 0,99... 0,991... 0,992... 0,993... 0,994... 0,995... 0,996... 0,997... 0,998... 0,999... 0,9991... e assim por diante, infinitamente. Por mais que essa sequência progrida, jamais atingirá o número 1. Uma dízima matemática será sempre uma dízima, por mais que avance em sua numeração.

O mesmo ocorre com o nosso universo físico. Por sua própria natureza, ele é um universo de imperfeição, que está sempre evoluindo/progredindo rumo à perfeição. Porém, por mais que avance ou melhore, ele nunca chegará a ser um universo pleno e de perfeição. Sempre haverá algum lugar melhor para onde evoluir ou se desenvolver. O universo progride e se eleva cada vez mais num caminho que é infinito. Isso significa que este universo pode progredir e se elevar infinitamente. Todavia, este mesmo fato assegura que ele sempre será um universo incompleto no exato ponto onde se encontra. A própria "lacuna" que permite o universo avançar para uma posição mais elevada faz com que, no exato ponto onde ele se encontra (ou seja, a todo instante), haja um senso de "falta", "escassez" e "incompletude". Eis, portanto, o paradoxo ou contradição do universo material.

Por sua vez, o universo espiritual já é inteiro, completo, pleno e perfeito. Ele não existe da mesma maneira como existe o universo material. De fato, é dito que se o universo físico atingisse o aspecto da perfeição, ele deixaria de existir da maneira como se apresenta, e imediatamente desapareceria. 

O simples fato de se estar vivendo neste mundo faz com que o indivíduo experimente a miséria, a dor, a insatisfação, o sofrimento, a incompletude. O universo imprime na vida os aspectos, características e qualidades que lhe são peculiares, e a vida deve experienciá-los, sofrê-los, senti-los. É inevitável que o ser humano experimente o sofrimento neste mundo. E, em regra, neste mundo, as experiências de sofrimento são muito mais frequentes do que as de contentamento ou felicidade.

Em razão disso, os ensinamentos espirituais orientam os seres humanos a saber que, acima deste universo físico de imperfeição, existe um universo espiritual de plenitude e perfeição. Quando, por meio da oração ou meditação, a pessoa faz contato com o universo espiritual, o universo espiritual imprime na vida as características de completude, inteireza e perfeição que lhe são inerentes, e a vida da pessoa passa a melhorar/evoluir nos aspectos abrangidos e assimilados no contato. A vida tem a característica de ser impressionada pelo universo com o qual está em contato. Por isso, uma das práticas espirituais recomendadas pelos ensinamentos é a contemplação do universo espiritual ou divino

Ao contemplar e contactar o Universo Espiritual (que já é inteiro, completo, perfeito), a vida absorve a inteireza, a completude e a perfeição e, como resultado desse "contato", a vida no mundo físico é melhorada e aperfeiçoada em seus aspectos. Por exemplo: suponhamos que em sua vida fenomênica você esteja expressando "saúde" em proporção ou grau equivalente a 0,995 (dízima matemática). Mas você não está satisfeito com a condição de sua saúde e deseja elevar esse número a fim de que se torne mais saudável. Então você medita, faz contato, e absorve a atmosfera do número inteiro, perfeito e integral: 1. Ao absorver a atmosfera de inteireza e perfeição do número "1", você se torna magnetizado, preenchido, energizado, abençoado; e, ao retornar sua atenção ao universo físico, sua atmosfera energizada será "descarregada" no mundo, elevando a expressão de sua saúde de 0,995 para um número maior (ex: 0,99998). É assim que funciona. E o mesmo vale para todos os outros aspectos de nossa vida.

O processo aqui explicitado foi magistral e detalhadamente descrito por Masaharu Taniguchi na postagem "Imagem Verdadeira - Ideia Suprema - Ser Humano". Ele diz:

"No âmago do ser humano existe a Ideia Suprema – a Imagem infinitamente perfeita – e essa Ideia Suprema é Deus. A conscientização de nossa natureza verdadeira (Eu verdadeiro) constitui a base para avaliarmos o nosso estado manifestado no plano fenomênico. Assim, é lógico que quanto maior o grau de conscientização da nossa natureza verdadeira (Eu verdadeiro), mais imperfeito parecerá o nosso atual aspecto fenomênico.

A Seicho-No-Ie afirma que Deus está em nós e define esse Deus interior como "perfeição suprema que constitui a essência de todo ser humano". Temos dentro de nós as virtudes mais preciosas – a bondade, o amor, a generosidade, a beleza – em proporções ilimitadas. Quando conseguimos manifestar um pouco dessas virtudes infinitas, nosso coração se enche de alegria, e desejamos exteriorizá-las em grau cada vez maior.

Existe em nós o anseio pelo infinito. Ilustremos esse fato com um exemplo fácil de entender: suponhamos que uma pessoa queira ganhar 100 ienes e consiga essa quantia. Ela não se contenta com esse ganho e passa a querer 200 ienes; uma vez obtidos os 200 ienes, passa a querer mil ienes. De posse de mil ienes, passa a desejar dez mil ienes; tendo ganho 10 mil ienes, passa a sonhar com 1 milhão de ienes. A sua pretensão vai aumentando cada vez mais, de 1 milhão de ienes para 10 milhões de ienes, de 10 milhões para 100 milhões de ienes, e assim por diante. Existe dentro de nós o desejo de buscar o infinito. Por quê? Porque o infinito está dentro de nós

Dá-se o nome de ideal a um padrão de beleza, de qualidade, etc., que nosso Eu verdadeiro indica através da "lente mental", para orientar nossa consciência e nossos conceitos. Assim sendo, ideal é algo que existe no ser humano e o impulsiona a melhorar. Por exemplo, um artista plástico, no início de sua carreira – quando sua ideia do belo ainda não é suficientemente desenvolvida – almeja poder pintar tão bem quanto seu mestre. Porém, quando consegue melhorar bastante, o seu ideal estará um pouco mais elevado, fazendo-o sentir que ainda não progrediu o suficiente. Então, ele passa a ansiar por produzir obras ainda melhores. Desse modo, os ideais no nível fenomênico vão sendo concretizados um após outro, substituídos, cada vez, por um ideal mais elevado que surge do interior. Isto significa que o ideal é dirigido e aprimorado constantemente pela "Mente Primordial" que transcende o fenômeno. Essa Mente – que nos faz estabelecer metas, padrões, visando ao aprimoramento – é Deus que está presente em nós, constituindo nossa natureza divina. Como a nossa natureza divina é perfeita, por maior aprimoramento que alcancemos no mundo fenomênico, ele nunca será a manifestação plena e cabal da Mente Divina. Assim, quando satisfazemos no nível fenomênico o ideal que nos impulsionava, o nosso Eu verdadeiro compara essa realização com a perfeição da Mente Divina e constata que o aspecto fenomênico ainda é muito imperfeito. Então, sentimo-nos insatisfeitos com o aspecto manifestado e passamos a ter um ideal mais elevado.

Podemos definir esse processo mental como ação reflexa, em que a Mente Divina ilumina a mente fenomênica, indicando um ideal, e a mente fenomênica, por sua vez, procura se guiar por aquela. Quando refletimos a respeito da Imagem Verdadeira, levando em consideração essa sutil ação reflexa, compreendemos a natureza divina latente em nós."

O conhecimento e a compreensão do Universo Espiritual perfeito possibilita fazer com que a "terra" se torne semelhante ao "céu". Por meio do estudo de ensinamentos de Masaharu Taniguchi e Joel Goldsmith (ambos apresentados neste blog), podemos aprender a entrar em contato com o universo divino, e nos beneficiar dessa conquista espiritual. Esse é o valor deste ensinamento.


segunda-feira, junho 02, 2014

Em acordo com a atitude de Jesus

Joel S. Goldsmith


Jesus não fundou igreja alguma. Pregava nas sinagogas dos hebreus e pelos caminhos em que passava. Ensinava com base no Antigo Testamento, corrigindo, contudo, muitas crenças religiosas errôneas da época, procurando tornar aquelas sinagogas menos mercenárias. Não estava de acordo com o costume hebreu de criar doutrina, credo e cerimonial de importância. Não acreditava em suas preces de longa duração, em sacrifício de animais, etc., mas acreditava em adorar um único Deus, sem quaisquer ídolos, lembrando que “eu, de mim mesmo, nada faço”... "mas o Pai, que em mim está, faz as obras".

Não acreditava no antigo Deus Jeová que, sentado numa nuvem, tinha enorme barba e vestimenta branca. Jesus ensinava que “o reino de Deus está dentro de vós”. Não fundou uma nova igreja, mas adicionou compreensão e amor à religião que já conhecia, e isto foi a fundação da Igreja Cristã.

Enquanto no Antigo Testamento era ensinado “olho por olho”, a nova igreja dizia: “ame seus inimigos”, “perdoe a todos até setenta vezes sete vezes”. Os hebreus acreditavam num Deus que recompensava o bem e punia o mal; a nova colocação dizia: “Nem eu, também, te condeno: vá e não peques mais”. Para expressar este pensamento com mais inteireza, foi dito: “A lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”.

Torna-se importante “concordarmos em discordar” das igrejas de até agora, sejam quais forem.

Nós temos deixado o Deus pessoal de todas as igrejas para aceitarmos como nosso Deus a Verdade, o Princípio, a Mente impessoais. Temos deixado o antigo conceito de prece (que ora a Deus por saúde, riqueza, etc) para adotarmos o conceito mais elevado: “A verdadeira oração não é pedir amor a Deus; é aprender a amar e a incluir o gênero humano numa só afeição. Oração é a utilização do amor com o qual Ele nos ama. Faz descobertas novas e científicas de Deus, de sua bondade e poder. Ela nos mostra mais claramente do que antes víamos, o que já temos e o que somos; e, mais do que tudo, nos mostra o que Deus é. Progredindo nessa luz, nós a refletimos; e esta luz revela as puras imagens da Mente em oração silenciosa, assim como a fotografia revela a luz solar para retratar a face de um pensamento agradável”.

Nós também abandonamos o antigo conceito do homem como mortal, às vezes bom e às vezes mau, ocasionalmente saudável e na maior parte das vezes enfermo. Nós reconhecemos somente o homem espiritual, a manifestação do ser divino; a eterna expressão da Vida, livre e incorpórea.


 

sexta-feira, maio 30, 2014

Imagem Verdadeira – Ideia Suprema – Ser Humano - 3/3

Masaharu Taniguchi


Como expliquei, chamamos de Deus à Ideia Suprema que desde o princípio está alojada no âmago do ser humano e da nação. Podemos, pois, dizer que temos visão filosófica de Deus. Falando em visão filosófica de Deus, pode parecer que Ele seja um ser racional e frio, sem sentimentos afetuosos, o que não é verdade. Embora seja, do ponto de vista filosófico, um Ser racional, Deus é também extremamente afetuoso. Podemos compreender isso efetuando uma auto-análise e refletindo sobre nós mesmos. Nós, filhos de Deus, somos seres dotados de amor e sentimento de caridade, o que significa que Deus é a Fonte desses atributos. Por outro lado, somos seres racionais que buscam o autodesenvolvimento em conformidade com as leis do Universo, analisam objetivamente a si próprios e regulam a própria conduta; nesse sentido, manifestamos o lado racional de Deus-Fonte.

Entretanto, quando se enfatiza demais o aspecto "Humanizado" de Deus, ocorre a predominância de vícios oriundos das velhas religiões, e então a doutrina adquire caráter supersticioso ou se torna um meio de "autoconsolo" para pessoas fracas e sentimentais, e acaba sendo preterida pela classe intelectual. É preciso que os religiosos preguem a Verdade em conformidade com a época. Se nos referirmos a Deus como um Ser racional, do ponto de vista filosófico, a doutrina será acolhida também pela classe intelectual. Em A Verdade da Vida, falo de Deus sob esse prisma. Deus onipresente no Universo como ideia primordial é Deus que Se manifesta como lei ou principio fundamental.

A seita religiosa Tenri-kyo enfatiza a lei divina, afirma que Deus é lei. Daí provém a denominação Tenri-kyo (Ten = Céu; ri = lei, princípio; kyo = doutrina). O cristianismo se refere a essa lei usando o termo "justiça". Em inglês, "justiça" se diz também righteousness (retidão, probidade). Deus é, pois, a Lei justa e universal que jamais pode ser distorcida. Entretanto, Ele é, ao mesmo tempo, justiça e amor. Quando se procura explicar a natureza de Deus por meio de palavras no plano fenomênico, costuma-se recorrer a conceituações abstratas, usando-se termos como justiça e amor; mas é preciso não se aferrar demais a um ou outro atributo, pois, com tal postura, acaba-se criando ideias distorcida acerca de Deus, julgando-O um ser justo mas implacável ou um ser extremamente condescendente que age à mercê do amor. Na verdade, Deus é um ser que traz em si, numa fusão harmoniosa, a justiça e o amor.

Se considerarmos Deus unicamente como lei e enfatizarmos somente a implacabilidade de Sua justiça, teremos de admitir que "para redimir cinquenta pecados, a pessoa terá de cumprir, necessariamente, cinquenta penitências", ou seja, que a pessoa estará irremediavelmente tolhida pela lei da causalidade (lei do carma). A Tenri-kyo fala muito sobre carma e prega que, para eliminá-lo, os adeptos precisam dedicar-se inteiramente ao ensinamento, inclusive oferecendo todos os bens à seita. Assim ensina porque ela enfatiza um "Deus justo e implacável" que não perdoa os cinquenta pecados se não forem redimidos com cinquenta penitências. Entretanto, Deus é Amor e com Sua misericórdia pode desviar a força implacável do carma. Por ser bondoso e generoso, se uma pessoa Lhe pedir "Senhor, não tenho forças para cumprir cinquenta penitências. Por favor, permita-me cumprir apenas dez penitências", Ele atenderá. Poderá, ainda, perdoar-lhe todos os erros e acolhê-la no sublime mundo divino onde não existe pecado de espécie alguma.

Como vimos, Deus é justiça rigorosa, mas, ao mesmo tempo, é amor que transige. Quando nos referimos a Deus como justiça ou razão, baseamo-nos num ponto de vista filosófico, racional. Entretanto, quando Se manifesta com amor, Ele tem infinita capacidade de condescender e, com Sua misericórdia, anula todo e qualquer pecado, do mesmo modo que a divindade budista Kanzeon Bosatsu (Avalokitésvara) se manifesta sob 33 formas diferentes, conforme as circunstâncias, e salva as pessoas. É com base nesta verdade que o budismo Shin prega que até mesmo indivíduos em estado de ilusão, cobertos de pecados, destituídos de piedade e misericórdia e atolados em goun (*Nota: termo budista que significa cinco vicissitudes: ocorrência de desgraças e pragas; propagação de ideias e ideologias perniciosas; exacerbação das paixões mundanais; degradação da natureza humana), serão salvos se entoarem o nenbutsu (oração budista, invocando a misericórdia de Buda-Amida).

Reverenciar Deus como Razão ou como Amor depende da mente das pessoas. O que importa é saber que, embora a razão e o amor pareçam contraditórios ou conflitantes, "flui" entre eles uma harmonia e, através deles, Deus – que não tem forma definida e pode manifestar-Se sob infinitos aspectos – atua livremente. Para expressar esse fato, uso as palavras Nagaruru fudo, que significa "flexibilidade dentro da imobilidade". Trata-se de um furyu-mongi, ou seja, uma Verdade que não se pode transmitir claramente por meio de palavras faladas ou escritas e que só pode ser compreendida por meio de transmissão direta de mente para mente. Portanto, não devemos interpretar o termo fudo simplesmente como imobilidade. Não devemos, também, fazer cogitações ou estabelecer conceitos fixos acerca de Deus baseando-nos apenas na lógica da inteligência humana. Deus, sendo um ente infinitamente livre, manifesta em Si tanto a justiça (razão) como o amor. Ele aparece sob as mais variadas formas, dependendo das pessoas. Por isso, ás vezes usamos o termo Oge-shin, que significa: "Deus, Ideia Suprema do Universo, que Se manifesta de diferentes formas conforme as pessoas". Devido a essa característica de Deus, surgiram muitas vertentes religiosas. Pode-se dizer que as divergências entre as várias doutrinas religiosas se devem a diferentes proporções de justiça (razão) e Amor de Deus consideradas por elas. 

Para salvar as pessoas, Deus manifesta-Se sob diferentes aspectos, de acordo com a época e com o povo, de modo adequado à cultura, civilização, costumes e tradições vigentes. Assim foi no passado e assim é na era atual. Para o povo judeu que viveu há dois mil anos, Deus apareceu como Jesus Cristo porque aquele povo precisava do ensinamento de Cristo. Na Índia, há dois mil e seiscentos anos, Deus manifestou-se sob a forma de Sakyamuni (Buda), porque ao povo daquele país o budismo era a doutrina mais adequada. Ao longo dos tempos, surgiram as mais variadas doutrinas e seitas religiosas, e os ensinamentos dos fundadores diferem entre si. Cada ensinamento é uma ação de Deus manifestada conforme a época, o povo e o lugar. Portanto, uma seita não deve repelir a outra, considerando-a herética. A Seicho-No-Ie, considerando as diversas religiões aparentemente antagônicas como diferentes formas de manifestação da obra de Deus, conseguiu descobrir a identidade de todas elas no que se refere à essência dos seus ensinamentos.

Deus é, ao mesmo tempo, amor e justiça. Por isso, tanto pode surgir como uma imagem misericordiosa como a de Kazeon Bosatsu, como pode aparecer com uma imagem severa que traz consigo "corda para atar" e "arma para ferir", semelhante à divindade Fudo-myô do budismo. Assim, mesmo uma sogra aparentemente malvada é, na verdade, uma manifestação de Buda e desempenha a ação de "arma cortante como a de Fudo-myô". Deus se manifesta sob diferentes aspectos, dependendo da circunstância. Nem sempre Ele Se manifesta com um aspecto severo como o de Fudo-myô que traz na mão uma arma cortante. Não devemos confundir a manifestação de Deus com a Imagem Verdadeira de Deus. Até mesmo no cristianismo, que prega o amor e o perdão de Deus, existe o episódio em que Jesus Cristo, ao chegar ao Templo de Jerusalém e deparar com comerciantes vendendo suas mercadorias e cambistas sentados às suas barracas, enfureceu-se pelo fato de estarem maculando o templo e os expulsou brandindo um chicote. Naquele momento, Deus manifestou-Se através de Jesus Cristo, usando "arma cortante" (repreensão severa). Deus é bondoso e severo, é amor e justiça, e Se manifesta sob um ou outro aspecto, dependendo da circunstância.

Porém, qualquer que seja a forma com que Deus Se manifesta, a Imagem Verdadeira dEle é o Ser Supremo que não sofre nenhuma restrição de tempo e espaço, nem é um ser transitório que desaparece, ressurge e novamente desaparece. Deus é, na verdade, a Ideia Suprema que transcende o fluxo do tempo e as manifestações no espaço. Mas, para conduzir à salvação, Ele surge neste mundo sujeito às restrições de tempo e espaço, assumindo o aspecto adequado a cada situação.

Deus-Fonte, origem de tudo, é o poder supremo que sustenta tudo quanto existe de verdade. Portanto, podemos chamá-lo de Criador. Mas não significa que Ele tenha criado este imperfeito mundo material visível aos nossos olhos. Ele é o Criador que gerou o mundo da Ideia Suprema. No capítulo 2 do Gênesis, consta que surgiu uma neblina da superfície da terra e a cobriu inteiramente, o que significa que uma névoa cobriu o mundo da Ideia, isto é, a criação original. A névoa da ilusão cobriu a Imagem Verdadeira e assim surgiu este mundo fenomênico. E nós, vivendo neste mundo, com muito esforço vislumbramos a Imagem Verdadeira através da névoa da ilusão. Assim, em nosso contato com os outros, só conseguimos enxergar muito vagamente a natureza búdica deles, ou apenas imaginar neles a natureza divina. São muitos os que parecem egoístas, imperfeitos ou tolos, havendo também os que parecem cruéis, desonestos, malignos ou libertinos. Referindo-se a essas pessoas, o eminente mestre budista Shinran disse: "Pobres mortais atormentados por ilusões e paixões mundanais". 

A minha filosofia consiste na afirmação de que tais aspectos imperfeitos são originalmente inexistentes. A nossa perfeição original não pode ser apreendida pelos cinco sentidos, pois os sentidos físicos são efêmeros e só conseguem conhecer coisas fenomênicas que, sendo, também transitórias, estão em constante mutação e, no momento em que pensamos tê-las apreendido, já estão alteradas. Nossa mente consegue ter uma rápida visão do mundo da Existência Verdadeira, homem verdadeiro e a Ideia Suprema somente por meio da intuição que surge num lampejo por entre as "névoas" que embaçam a lente mental, ou seja, pelas frestas das percepções e sensações físicas desencadeadas pelo cinco sentidos.

Por meio dessa intuição compreendemos que o ser humano é filho de Deus e, portanto, um com a infinita Vida de Deus; que este mundo, em sua essência, é reino de Deus (ou, em linguagem do budismo, "terra búdica"), e que, por trás do imperfeito mundo fenomênico, existe um mundo perfeito. Compreendemos que esse mundo perfeito é o reino de Deus (no budismo, rengezo sekai = paraíso búdico, terra pura) e que todos os seus habitantes são filhos de Deus. Através do materialismo, que vê como aspecto real as situações manifestadas no mundo material, não é possível compreender a Imagem Verdadeira do ser humano nem do Universo.

Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 35", pp. 130-136

quarta-feira, maio 28, 2014

Imagem Verdadeira – Ideia Suprema – Ser Humano - 2/3

Masaharu Taniguchi


O aspecto presente do mundo fenomênico, ou seja, o aspecto manifestado, está em constante movimento e mutação. E nós, seres humanos, esforçamo-nos para transcender a mutabilidade, a inconstância e a transitoriedade e nos aproximar gradativamente da perfeição. Todas as pessoas, mesmo aquelas que no aspecto fenomênico são perversas, têm um objetivo que desejam alcançar e se esforçam nesse sentido. Até mesmo os atos abomináveis como fraudar, roubar ou matar são manifestações do desejo de alcançar um nível de vida melhor do que aquele em que a pessoa se encontra. Portanto, mesmo as pessoas aparentemente perversas trazem no âmago de seu ser a ideia que as impele a conseguirem algo melhor. Não se trata de algo idealizado pelo seu "consciente intelectual" ou "consciente fenomênico". Naturalmente, não se pode justificar atos abomináveis como roubo ou homicídio. O que quero dizer é que tais atos são resultados da manifestação distorcida de determinadas ideias através de uma "lente mental" defeituosa, e que mesmo as pessoas aparentemente perversas trazem, no âmago de seu ser, a perfeição original.

Quando praticamos uma boa ação em nossa vida cotidiana, algo que podemos chamar de padrão divino ou Ideia Suprema que existe dentro de nós aprova essa ação e nos elogia. Por isso, sentimo-nos felizes. As sensações de felicidade e alegria provêm da satisfação que sentimos quando conseguimos manifestar um aspecto condizente com a perfeição da Imagem Verdadeira, ou seja, um aspecto em conformidade com o padrão divino. Sentir tal satisfação significa que fomos elogiados por Deus. Assim, quanto maior o grau de manifestação da Imagem Verdadeira, mais genuína será a nossa satisfação.

Como foi dito, dentro de nós habita o Ser Superior a quem chamamos Deus. Ele constitui o ideal, a norma, a consciência, e nos elogia ou critica. É um equívoco pensar que Deus esteja em algum lugar distante. Na verdade, Ele está dentro de cada um de nós. Por isso, é natural surgirem provérbios tais como: "Se eu conhecer o Caminho (Verdade) pela manhã, poderei morrer à noite sem nenhum pesar" (frase dita por Confúcio. Significa que, se conhecermos pela manhã o correto Caminho para vivermos como ser humano, não sentiremos pesar mesmo que tenhamos de morrer na noite do mesmo dia). Quando alcançamos o despertar pelo conhecimento do Caminho (Verdade que rege o Universo) e compreendemos que ele é o mesmo Caminho que existe dentro de nós mesmos, a Vida que está em nós entra em perfeita sintonia com a infinita Vida de Deus. Então, a vida fenomênica "pode acabar esta noite mesmo". Em outras palavras, passamos a não ter muito apego à vida neste mundo fenomênico. Em suma, conscientizamo-nos de que a nossa Vida é eterna e que a Vida que existe em nós é uma com a Vida de Deus, e por isso deixamos de nos preocupar com a vida e a morte do corpo carnal manifestado no plano fenomênico. 

A ocorrência de cura pela leitura de A Verdade da Vida e pelo consequente despertar espiritual é um efeito secundário. Quando nos sintonizamos com a verdade e alcançamos o elevado estado espiritual em que é possível afirmar "Posso morrer hoje mesmo", a doença se extingue rapidamente porque no mundo da Verdade não existe doença.

Como já expliquei, no âmago do ser humano existe a Ideia Suprema – a Imagem infinitamente perfeita – e essa Ideia Suprema é Deus. Pelos ideais, normas ou "padrões" que dEle provêm e se fazem presentes em todas as pessoas, compreendemos que o Deus que habita o indivíduo chamado "eu" é o mesmo que habita todas as pessoas. Se Deus habita dentro de todo ser humano, é óbvio que Ele está presente no Universo todo. Esse Deus onipresente é Deus, Fonte da Verdade. A Vida de Deus habita o interior de todas as pessoas, constituindo a Imagem Verdadeira delas. E o ideal surge como um sinal indicador para que o eu fenomênico possa se aproximar mais da Imagem Verdadeira. Assim, sentimos alegria quando conseguimos nos aproximar do nosso ideal; e, quando não conseguimos, sentimos um vago peso de consciência. Portanto, não existe castigo divino. O que julgamos ser um castigo divino é a reação da nossa própria natureza divina, que nos recrimina quando fazemos algo errado. Deus está presente em nosso interior e, segundo Suas normas, nos elogia ou nos adverte.

Em suma, Deus está dentro de nós, sob a forma de ideal perfeito e sublime. E é Ele que constitui o nosso Eu verdadeiro. Portanto, quando conseguimos viver plenamente o nosso Eu verdadeiro, não nos importamos mais com a vida e a morte do nosso corpo carnal. Nesse ponto, alcançamos a conscientização: "Se eu conhecer o Caminho (Verdade) pela manhã, poderei morrer à noite sem nenhum pesar". Quem me pede para curar-lhe a doença são pessoas que não querem morrer, ou seja, pessoas que ainda não despertaram para o seu Eu verdadeiro – o eu que é um com o Caminho do céu e da terra. Para tais pessoas, digo: "Obterá a cura se despertar para seu Eu verdadeiro". Digo também: "Abandone a ansiedade de se curar e desperte em você o pensamento sincero de viver de acordo com o Caminho". Com efeito, muitos doentes que leram A Verdade da Vida e despertaram em si o sincero desejo de viver de acordo com o Caminho realmente obtiveram a cura.

Talvez haja pessoas que pensem que ideia é algo que nós, seres humanos, elaboramos arbitrariamente na mente ou fazemos surgir por meio da imaginação. Pensam assim por que captam a "manifestação da ideia" sob um ponto de vista conceitual. Na verdade, ideia (Arquétipo perfeito que existe por trás de toda manifestação fenomênica; Mente Divina) é algo que possui existência verdadeira (essência) e que está presente em nós antes mesmo de se manifestar em nossa mente como critério, esperança, ideal, anseio, etc. Como já disse, ela está alojada desde o princípio em todos os seres vivos. E, quanto à sua expressão no plano fenomênico, ela vai evoluindo para níveis cada vez mais elevados, perfeitos, visando ao infinito, do mesmo modo que, no plano biológico, a ameba evoluiu para o ser superior, que é a espécie humana.

Explicando de modo mais simples, dentro de nós existe um padrão perfeito, máximo, e somos orientados por ele o tempo todo. Como somos filhos de Deus, nossa Imagem Verdadeira é de perfeição desde o princípio. Porém, na vida fenomênica, seguimos manifestando gradativamente a perfeição da Imagem Verdadeira.

Devemos crer em Deus, mas não pensemos que Ele seja um ser imperfeito, irascível, vingativo. Não devemos estabelecer como modelo tal imagem de Deus e manifestar tais imperfeições em nós próprios, em nosso modo de viver, procurando imitá-lo. A missão do ser humano na Terra consiste em manifestar a ideia máxima, a perfeição, que está alojada nele desde o princípio.

Em que ponto de nossa existência descobrimos essa nossa missão? Ela já se revelou no passado? Está se revelando no presente? Ou será que irá se revelar no futuro? No mundo fenomênico, onde tudo é sujeito às restrições de tempo e espaço, visualizamos essa missão no passado ou no presente e procuramos realizá-la no futuro. Mas, na verdade, essa missão está intrinsecamente ligada à ideia que existe em nós desde o princípio – à nossa Imagem Verdadeira perfeita. É a Imagem Verdadeira que impulsiona, do nosso interior, a "consciência de missão". Manifestar a ideia, que foi criada pelo verbo divino e que é o "arquétipo existente desde o princípio no mundo da Imagem Verdadeira", constitui a missão primordial do ser humano.
Cont...

Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 35", pp. 125-130

segunda-feira, maio 26, 2014

Imagem Verdadeira – Ideia Suprema – Ser Humano - 1/3

Masaharu Taniguchi


Minha filosofia propõe, em primeiro lugar, a mudança total da maneira de se encarar a natureza do ser humano; isto é, ensina que é preciso deixar de considerar o ser humano como mera matéria e passar a considerá-lo um ser espiritual. Depois de propor essa mudança total do conceito do valor humano, exorto: "Reverencie o ser humano; antes de mais nada, reverencie a si próprio". É essencial que, em primeiro lugar, ocorra a conscientização da natureza verdadeira do ser humano. Manter a ideia de que o ser humano é matéria ou corpo carnal e acreditar que esse "eu material" (ou "eu carnal") é filho de Deus, não passa de mera presunção, a qual conduz fatalmente a uma forma de "encobrimento do Eu verdadeiro" (pecado), chamada arrogância. A minha proposição "O ser humano é filho de Deus; como filhos de Deus, devemos reverenciar a nós próprios" só é completa quando precedida de outra que diz: "O ser humano não é corpo carnal".

A conscientização "Sou filho de Deus, e devo reverenciar a mim mesmo" jamais nos conduz à arrogância quando é precedida da conscientização de que "o nosso Eu verdadeiro não é este corpo carnal". Pelo contrário, quando nos conscientizamos da nossa natureza divina, tornamo-nos mais humildes porque percebemos o quanto é imperfeito o aspecto do nosso "eu carnal" em comparação ao nosso Eu verdadeiro, que é um ser espiritual. A conscientização de nossa natureza verdadeira (Eu verdadeiro) constitui a base para avaliarmos o nosso estado manifestado no plano fenomênico. Assim, é lógico que quanto maior o grau de conscientização da nossa natureza verdadeira (Eu verdadeiro), mais imperfeito parecerá o nosso atual aspecto fenomênico.

Devo ressaltar, porém, o fato de que os critérios com que as pessoas avaliam o seu aspecto fenomênico variam bastante, pois, mesmo que se conscientizem da presença de Deus em seu interior, o conceito acerca de Deus varia de pessoa para pessoa. Se alguém considera Deus como um ser que castiga os homens passar a se conscientizar da presença de Deus no seu interior, talvez comece a julgar com rigor os outros, pensando que, "sendo filho de Deus, tem a função de aplicar castigos". Mas na Seicho-No-Ie não pregamos que Deus é um Ser implacável que castiga os homens. A conscientização de que Deus habita o nosso interior – e a de que somos filhos de Deus – deve partir do correto conceito acerca de Deus.

Quem é Deus, e onde Ele está? Alguns acreditam que Deus está nos templos e nas igrejas, outros creem que Deus é a força misteriosa presente em todo o Universo; existem também pessoas que acreditam que Ele é o espírito que habita as imagens de diversas divindades, como, por exemplo, Kazeon-Bosatsu, Fugen-Bosatsu, etc.. A Seicho-No-Ie afirma que Deus está em nós e define esse Deus interior como "perfeição suprema que constitui a essência de todo ser humano". Temos dentro de nós as virtudes mais preciosas – a bondade, o amor, a generosidade, a beleza – em proporções ilimitadas. Quando conseguimos manifestar um pouco dessas virtudes infinitas, nosso coração se enche de alegria, e desejamos exteriorizá-las em grau cada vez maior.

Existe em nós o anseio pelo infinito. Ilustremos esse fato com um exemplo fácil de entender: suponhamos que uma pessoa queira ganhar 100 ienes e consiga essa quantia. Ela não se contenta com esse ganho e passa a querer 200 ienes; uma vez obtidos os 200 ienes, passa a querer mil ienes. De posse de mil ienes, passa a desejar dez mil ienes; tendo ganho 10 mil ienes, passa a sonhar com 1 milhão de ienes. A sua pretensão vai aumentando cada vez mais, de 1 milhão de ienes para 10 milhões de ienes, de 10 milhões para 100 milhões de ienes, e assim por diante. Existe dentro de nós o desejo de buscar o infinito. Por quê? Porque o infinito está dentro de nós

Dá-se o nome de ideal a um padrão de beleza, de qualidade, etc., que nosso Eu verdadeiro indica através da "lente mental", para orientar nossa consciência e nossos conceitos. Assim sendo, ideal é algo que existe no ser humano e o impulsiona a melhorar. Por exemplo, um artista plástico, no início de sua carreira – quando sua ideia do belo ainda não é suficientemente desenvolvida – almeja poder pintar tão bem quanto seu mestre. Porém, quando consegue melhorar bastante, o seu ideal estará um pouco mais elevado, fazendo-o sentir que ainda não progrediu o suficiente. Então, ele passa a ansiar por produzir obras ainda melhores. Desse modo, os ideais no nível fenomênico vão sendo concretizados um após outro, substituídos, cada vez, por um ideal mais elevado que surge do interior. Isto significa que o ideal é dirigido e aprimorado constantemente pela "Mente Primordial" que transcende o fenômeno. Essa Mente – que nos faz estabelecer metas, padrões, visando ao aprimoramento – é Deus que está presente em nós, constituindo nossa natureza divina. Como a nossa natureza divina é perfeita, por maior aprimoramento que alcancemos no mundo fenomênico, ele nunca será a manifestação plena e cabal da Mente Divina. Assim, quando satisfazemos no nível fenomênico o ideal que nos impulsionava, o nosso Eu verdadeiro compara essa realização com a perfeição da Mente Divina e constata que o aspecto fenomênico ainda é muito imperfeito. Então, sentimo-nos insatisfeitos com o aspecto manifestado e passamos a ter um ideal mais elevado.

Podemos definir esse processo mental como ação reflexa, em que a Mente Divina ilumina a mente fenomênica, indicando um ideal, e a mente fenomênica, por sua vez, procura se guiar por aquela. Quando refletimos a respeito da Imagem Verdadeira, levando em consideração essa sutil ação reflexa, compreendemos a natureza divina latente em nós.
Cont...

Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 35", pp.121-125