"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quarta-feira, maio 21, 2014

"Eu sou a Videira" - 1/2

Joel S. Goldsmith


Há muitos séculos, sob a influência de nossas crenças teológicas, vimos aprendendo que a bondade de Deus para conosco depende de sermos dignos e merecedores. Se pecamos ou somos maus, Ele nos nega o Seu bem. Por isso, já de início desejo esclarecer aos que estão na Senda Espiritual que DEUS É AMOR; DEUS É LEI; DEUS É PRINCÍPIO; DEUS É INTELIGÊNCIA DIVINA E DEUS É VIDA ETERNA.

Se a VIDA dependesse de nossa virtude; se nossa maldade pudesse nela interferir; se qualquer outra coisa pudesse afetar seu fluxo harmonioso – como se explicaria o ensinamento bíblico de que a vida é eterna e imortal? Acaso o referido ensinamento diz que a vida é imortal apenas "QUANDO" ou "COMO" ou "SE" você faz certas coisas? Não! Isso faria com que a vida imortal dependesse de você, ou de mim, e não é assim! A vida imortal depende apenas de Deus. Não há nada que possamos fazer para conquistá-la ou para que Deus no-la negue. Não podemos rogar que Deus nos dê vida e nem há pecado que impeça a imortalidade e a eternidade da vida.

DEUS É AMOR. O que, então, podemos você ou eu fazer para mudar a natureza amorosa de Deus? Poderíamos mudar nosso amor pelos filhos se eles nos fizessem algo desagradável? Claro que não. Se humanamente somos capazes de amar nossos filhos, mesmo quando não merecem, QUANTO MAIS AMOR o Pai celestial está emanando constantemente para nós!

Pode você aceitar a verdade que DEUS É AMOR, não apenas quando você é digno e merecedor, mas também quando se comporta de certa maneira? Pode admitir que DEUS É AMOR e que Sua chuva cai igualmente sobre justos e injustos? O Mestre Jesus Cristo negou alguma vez o bem ou a cura a alguém pelo fato de ser um pecador? Perguntou ele em alguma ocasião às multidões, se eram bons ou se dissipavam ou economizavam o seu dinheiro? Ao ressuscitar o filho da viúva, teria ele perguntado se o moço tinha sido moral ou imoral, honesto ou desonesto? Ou simplesmente o ressuscitou, destruindo assim a crença do mundo na morte? Todos conhecemos a resposta. Em nenhuma ocasião de seu ministério Jesus recusou cura, suprimento, perdão, reforma ou restauração a alguém, por temporária crença no mal.

O princípio é este: uma vez que DEUS É AMOR, nosso bem deve ser infinito, sem nenhum "SE" ou "MAS", porque a Graça de Deus não depende de algo que você ou eu façamos ou deixemos de fazer. A Graça de Deus não pode ser retida. Embora possamos ligar ou desligar a eletricidade, abrir ou fechar a torneira, não podemos abrir ou fechar o fluxo de Deus. DEUS É, e DEUS É AMOR em toda plenitude!

Consideremos a seguir que DEUS É VIDA. Isto não significa que Deus seja vida somente nas idades de 6 ou 16 anos. DEUS É VIDA. Então por que não é também aos 60, 90 e aos 120 anos? O motivo é que as palavras “eu”, "me" e “você” entram em cena e dizemos: MINHA vida ou SUA vida, e imediatamente pensamos na data de uma certidão de nascimento. Se Deus é Vida, que importa a data de nascimento? Deus é a ÚNICA vida e ela é infinita. É culpa de Deus se mudamos ou envelhecemos ou ficamos doentes, fracos e decrépitos? A vida de Deus é infinita, eterna e imortal e assim sendo é a única vida na qual podemos esquecer as idades SUA e MINHA.

Da mesma maneira, DEUS É AMOR. Esqueçamos, pois as condutas sua e minha. Alguns de nós podemos estar bastante mal hoje, outros melhores, alguns piores. Talvez alguns de nós estávamos melhores no ano passado do que neste, mas o amor de Deus a Seus filhos não mudou e nem o Seu poder cessou. O braço direito de Deus é poderoso. A mão de Deus não se omitiu. DEUS É PODER, mas sendo bom – DEUS É A FORÇA DO BEM. Pode, então, negar ajuda, suprimento ou paz a alguém? Não, mas você e eu podemos provocar impedimento ao pronunciarmos as palavras "eu", "me" e "você". “Eu” posso não ser merecedor, não estar preparado ou não ter suficiente compreensão, mas o amor de Deus não depende de meu entendimento.

Assim que você começar o tratamento de cura, os primeiros chamados serão para o que o mundo chama de “menos importância” e, em pouco tempo, você poderá concluir: “Oh, tenho alguma compreensão”, ou “estou conseguindo resultados através do meu entendimento”. Se você o fizer, nunca se tornará um curador ou instrutor eficiente, porque JAMAIS curará através de SEU entendimento. Deus proíbe que SUA presença e poder dependam da "sua" compreensão.

A cura é uma atividade do Cristo. Decorre da compreensão de Deus. Vimos dizendo MINHA vida, MINHA saúde, MEU suprimento, MEU valor, MEU entendimento, sem considerar que deve ser a COMPREENSÃO DE DEUS. O Mestre deixou isso bem claro, quando disse que “de SI MESMO nada podia fazer, mas que era o Pai nele quem agia”. Portanto, é a COMPREENSÃO DO PAI. Do momento em que abrimos nossa consciência ao fluxo de Deus e cessamos todo este contra-senso acerca de NOSSO entendimento e de NOSSO bom ou mau comportamento, podemos estar seguros de que o fluxo de Deus apagará e purificará qualquer erro ou intento que tenhamos em mente hoje; dissipará toda punição a erro passado. Devemos chegar à compreensão de que não é o nosso entendimento que faz isso, mas o de Deus. DEVEMOS abandonar as velhas ideias e crenças judaicas de um Deus de castigo e recompensa. DEUS É AMOR. DEUS É VIDA.

Cada um de nós ainda conserva, dos tempos de infância, alguma ideia de Deus ditada pelos ensinamentos ortodoxos e teológicos, de que não podemos ganhar o favor de Deus por certos atos de omissão ou comissão. Muitos ainda crêem que o favor de Deus pode ser obtido por algumas formas de oração, adoração ou abstenção. Isto não é verdade. Podemos ter certeza de que DEUS NÃO É INFLUENCIADO PELO HOMEM, isto é, Deus não é influenciado por você ou eu individualmente. DEUS É LUZ, e se caminharmos com Ele, estaremos na luz. A chuva de Deus cai e se a queremos, devemos caminhar na chuva. DEUS É, e DEUS É AMOR. Deus está derramando SUA INFINITA GRAÇA e não a estamos aceitando devido ao uso de tais palavras como "eu", "me" e "meu".

Devemos deixar esta crença de que participamos na obtenção do amor, da graça e da doação de Deus, e lembrar que nossa única participação é aceitar essa evidência, abrindo nossa consciência para receber a divina Graça.

Os escritos de “O Caminho Infinito” contêm centenas de verdades que se resumem em uma apenas: A NATUREZA DE DEUS. Medite sobre: Que é Deus? Qual a natureza de Deus? Qual é o caráter de Deus? Quais são as qualidades de Deus? Qual é o verdadeiro Deus? Não o Deus que nos ensinaram a adorar quando crianças, ou que adoramos ignorantemente agora. Tente esvaziar os vasos já muito cheios, porque não podem ser enchidos com o novo vinho. Desfaça-se de suas velhas crenças e esteja desejoso de começar tudo de novo, ainda que você tenha 70 anos, admitindo que se você conhecesse melhor a Deus, você estaria demonstrando bem mais a graça divina. Esqueça tudo que você tenha pensado ou lhe tenham ensinado acerca de Deus e, mais uma vez, comece com esta pergunta: “Que é Deus?”. Do momento em que você começa a compreender que DEUS É AMOR, saberá que aquele amor está fluindo irrestrito, ilimitado e livre, porque a natureza de Deus é Infinita.

Seria impossível a Deus estender-nos somente umas parcela de amor, dar-nos 90% de saúde e prover-nos com 60, 70 ou 80 anos de vida. É verdade que estamos DEMONSTRANDO apenas uma parcela de amor e de suprimento ou somente 60, 70 ou 80 anos de vida e vigor. Pode perfeitamente ser verdade que não haja muito amor fluindo em e através de nós, mas isso nada tem a ver com Deus. Tem a ver com alguma crença falsa de que NÓS, de alguma maneira, se pudéssemos encontrar uma fórmula mágica, faríamos fluir o bem de Deus, ou poderíamos de algum modo impedir o bem de Deus. Não é um tanto absurdo acreditar que podemos viver somente 60, 70 ou 80 anos em boa saúde e vigor, quando a única vida que temos é Deus, e a vida de Deus é Infinita, e não depende do que possamos fazer a respeito dela? A vida é dependente da habilidade de Deus em manter Sua própria vida imortal, eterna e indefinidamente.

Não é estranho que muitos tenham tão pouco conforto na vida, quando o Mestre nos disse que a VERDADE É O CONSOLADOR? Ele não disse que nos mandaria limitada quantidade de conforto, mas sim o CONSOLADOR, O ÚNICO, A PLENITUDE DO CONSOLADOR. No entanto, durante todo esse tempo, estivemos satisfeitos com uma pequena porção por termos acreditado que fosse tudo o que tínhamos merecido.

Ao fazer o seu testamento, você não determinará o que cada um de seus filhos merece, nem dirá: “Este um tem sido razoavelmente bom, assim deixar-lhe-emos uma boa quantia. Este outro não foi nada bom, nada receberá, mas este terceiro tem sido muito bom, assim deixar-lhe-emos uma grande soma”. Não, você dirá: “temos três filhos e dividiremos igualmente entre eles”. QUANTO MAIS GENEROSO É NOSSO PAI CELESTIAL E QUANTO MENOS QUE NÓS ELE JULGA! Deus não se apoia em julgamento ou condenação para com nossos pecados, porque o único motivo de nossos pecados, fatos e erros – é a ignorância.

Somos responsáveis por nossa ignorância? Não. Desde a infância ouvimos nossos pais e outras influências. Por um sentimento de obediência, lealdade e temor, ACEITAMOS ESTAS FALSAS CRENÇAS, mas não somos castigados por elas.

A Escola da Vida está aberta a qualquer um de nós em qualquer ocasião que desejarmos começar. POR NOSSA ILUMINAÇÃO ENCONTRAREMOS A LIBERDADE. É somente na ignorância que encontramos discórdia, limitação, pecado doença e morte. Em nossa ILUMINAÇÂO encontramos abundância infinita, liberdade, imortalidade e eternidade. Assim, a despeito de qual seja sua idade, lembre-se de que só há um assunto no qual você necessita ser esclarecido: QUAL A NATUREZA DE DEUS?

“Deus é luz e nEle não há treva alguma”. Pode você ver Deus como o GRANDE AMOR DO UNIVERSO, no qual não há ódio, inveja, ciúme, malícia, vingança ou mesmo lembrança do passado? Pode você ver Deus como VIDA IMORTAL E INFINITA? Se assim for, você pode trazer harmonia ao seu corpo e vida durante a noite. Somente a crença de que aquilo que você está fazendo, ou deixando de fazer, é que causa doença ou pecado na carne. É apenas a crença de que o erro está em você, E NÃO ESTÁ. Assim, procure lembrar-se desta verdade. O HOMEM JAMAIS PODE INFLUENCIAR DEUS. Deus é todo-bondade e a Graça de Deus perdura para sempre.


Elimine o uso de “eu”, “me”, “meu”, e centralize por inteiro o seu pensamento na palavra DEUS. Não pense mais acerca de “o que sou eu em conexão com Deus”. Faça-se estas perguntas: está Deus retendo algum bem? Pode Deus negá-lo? Há alguma razão para Deus negar? Tem Deus o poder de suprimir Sua própria benevolência, amor, proteção e diligência? Não há ninguém nesta terra suficientemente grande para influenciar Deus a fazer mais do que Ele próprio está fazendo, e nem pecado tão grande para impedir-Lhe ser Deus.

Cont...

domingo, maio 18, 2014

Sentimentos são "visitas"

Mooji


Se você não se identificar com a função corpo-mente, ela vai ocorrer por si mesma. Se você não se identificar com isso, ela pode desempenhar o seu papel, pode fluir, não pode se firmar..

Neste momento, deixe o que quer que esteja se esforçando para vir… O que realmente está aqui?

Participante- Gostaria de saber o que é o perdão e como ele vem ao coração? Existe um circulo de tensão que impede o coração de se abrir… Como ir além disso? (…)

Mooji- É muito simples, muito simples. Desista dessas idéias. O coração não se abre nem se fecha. Geralmente quando as pessoas falam coração, nesse contexto em que você está falando, elas estão se referindo a um tipo de centro emocional. Que parece que abre e aí, você sente muita compaixão, amor e aí se fecha e você se sente que não quer ficar com ninguém e assim por diante…

Mas isso também é um movimento que é observado de um lugar ainda mais profundo. Esse movimento não é assim tão significante, somente se você acreditar nele; se você começar a acreditar nesse conceito de um coração que se abre e que quando se abre você está feliz, você coloca condições para uma coisa que não tem condições, você compreende? Há um coração que não se abre nem se fecha.

Participante- Ele está sempre aberto?

Mooji- Não, ele não tem fronteiras, então ele não pode abrir nem fechar, é como espaço, seu próprio Ser é como espaço, não abre nem fecha.

Se você olhar para alguns sentimentos que são sentidos de uma certa forma no corpo, você pode dizer: “Sim, agora eu sinto que estou me fechando”.

A linguagem que você usa criará esse tipo de forma, de que alguma coisa está se fechando, e você começa a acreditar nisso. Se você acreditar que seu coração pode se fechar, você começa a procurar alguma técnica para abri-lo, então você armou uma armadilha para você mesma. Todas essas coisas são conceitos…

Mesmo sem as palavras, com o pensamento, a sensação está lá, e você está dando a ela muita atenção. Logo, quando você dá muita atenção a alguma coisa, você começa a desenvolver um relacionamento com isso, significa que é importante o suficiente para exigir a sua atenção. Colocar sua atenção sobre algo é a coisa mais importante que você pode fazer, porque você dá vida a isso, você traz isso para o foco.Então, se você poder aceitar esse tipo de conselho, não se preocupe com essas coisas, não toque nenhuma definição, nenhum limite sobre limites, nem conceitos sobre limites, não toque nada disso… deixe os sentimentos acontecerem, mas não vá trabalhá-los.. Veja que são apenas visitantes que vêm para o espaço da sua consciência, que parecem estar presentes por um ou dois momentos..não se identifique com eles, não diga: “ah sim , eu estou desse jeito” e assim por diante… Todas as pessoas estão fazendo isso, então você está caindo nessa armadilha.

A consciência não tem nenhuma forma, é como água, não tem nenhuma forma, sua natureza é fluir. Mas, qualquer que seja a forma que você dê a água, ela assumirá a forma do recipiente que a contém. (…) Mas a água não tem forma por si mesma, a consciência também é assim, ela não tem nenhuma forma em si mesma, ela tomará a forma dos conceitos para os quais você apontar. Então, você aponta para algo muito poderoso, você diz: “agora meu coração está fechado” – isso é um pensamento muito poderoso, se você acreditar nele, de alguma forma você se sente confinado, porque você trouxe esses pensamentos à existência por acreditar neles, então deixe esses sentimentos virem, deixe-os entrar e sair, você é como o espaço onde tudo aparece e desaparece, nada está acontecendo a você.

O seu Ser é como espaço, mente e pensamento são como vento, é da natureza do vento soprar, mas o espaço não se move, porque ele é infinito e está presente em todos os lugares, o seu Ser é como espaço. Pensamentos, sentimentos, emoções, sensações estão aparecendo nesse espaço e eles vêm e vão.

Participante - Quando a tensão vier... eu devo confiar que ela irá embora?

Mooji - Você não deve nem confiar, ela vai e quando ela fica ela também pode ficar; algumas vezes coisas vêm e vão, tome a atitude “eu não ligo” mais do que “eu prefiro” ou ” eu não me importo” – não, “eu não ligo” tudo vem e vai e nisso você encontrará imensa liberdade, espaço, tanto espaço…você não deve ser como a polícia de trânsito dos pensamentos…tudo pode vir e ir.. isso é o segredo tão simples, tão simples…

Se você pegar algum desses pensamentos, então você tem que ir atrás da cura, todo mundo está atrás da cura, o que está errado com você? ” Oh, eu tenho tantas coisas para curar, tanto tanto…” O mundo precisa de cura, avó precisa de cura, os animais de estimação precisam de cura, todo mundo precisa de cura, até os sacerdotes precisam de cura…

O Ser não precisa de cura, sempre perfeito, você é o Ser.

Se você não se identificar com a função corpo-mente, ela vai ocorrer por si mesma. Se você não se identificar com a mente, ela pode soprar, fluir, ela não pode se firmar. Isso não é fuga da vida, você não está fugindo da expressão, toda a expressão pode estar lá, mas você não está empacado, como espaço, nunca está empacado. Um milhão de anos atrás, o espaço era exatamente o que é agora, fresco. Um milhão de anos atrás o espaço era exatamente o que é agora, fresco..o seu Ser é assim. Tudo o mais é imaginado, tudo o mais está passando, deixe o que está passando passar.

Você pode se apaixonar por uma nuvem? Quanto tempo esse casamento pode durar? Tudo está passando, deixe que passe…até mesmo esse corpo está passando. Encontre aquilo que não está passando…”


sexta-feira, maio 16, 2014

A busca espiritual

Osho


Pergunta: O que significa ser um buscador espiritual?

Osho: Em primeiro lugar, significa duas coisas. Uma, que a vida tal como é conhecida exteriormente não é completa; a vida tal como é conhecida de fora não tem sentido.

No momento em que alguém se torna alerta para o fato de que toda essa vida é uma coisa sem sentido, a busca se inicia.

Essa é a parte negativa, mas a não ser que essa parte negativa esteja presente, a positiva não pode vir.

A busca espiritual significa, em primeiro lugar, um sentimento negativo: um sentimento de que a vida, tal como ela é, não tem sentido.

Todo o processo acaba na morte: pó sobre pó. Nada permanece conclusivo em si mesmo. Você passa pela vida em tal agonia, em tamanho inferno, e nada conclusivo é alcançado.

Esse é o lado negativo da busca espiritual. A própria vida o auxilia a chegar a ele. Esse lado — essa negatividade, essa angústia, essa frustração — é a parte que o mundo está fazendo.

Quando você se torna realmente alerta para o fato da insignificância da vida tal como é vivida, sua busca comumente começa, porque você não pode ficar tranquilo com uma vida sem sentido.

Com uma vida sem sentido, um abismo é criado entre você e tudo o que a vida é. Uma brecha intransponível cresce, tornando-se mais e mais larga. Você se sente desamparado.

Então, a busca por alguma coisa significativa, feliz, é iniciada. Essa é a segunda parte, a parte positiva.

Busca espiritual significa chegar a um acordo com a realidade atual, não com uma projeção sonhadora. Toda a nossa vida é apenas uma projeção, sonhos projetados. Ela não existe para conhecer o que é; existe para se obter o que é desejado.

Você pode tomar a palavra "desejo" como um símbolo do que nós chamamos de vida. A vida é uma projeção dos desejos: você não está à procura do que é; está à procura do que é desejado.

Você continua desejando e a vida continua sendo frustrante porque ela é como é. Ela não pode ser como você quer. Você fica desiludido. Não porque a realidade seja antagônica a você, mas sim porque você não está em sintonia com a realidade, apenas com seus sonhos.

Seus sonhos têm uma desilusão que o arruínam. Enquanto você está sonhando, tudo está certo; mas quando qualquer sonho é alcançado, tudo se torna desilusão.

Busca espiritual significa conhecer essa parte negativa: esse desejar é a raiz causal da frustração.

Desejar é criar um inferno por livre e espontânea vontade. Desejar é estar no mundo: ser mundano é desejar e continuar desejando, sem nunca tornar-se alerta de que cada desejo não dá em nada além de frustrações. Uma vez que você se torna alerta para isso, então não mais deseja.

Ou seu único desejo é conhecer o que realmente é. Nesse momento, você decide: "Não continuarei projetando a mim mesmo, conhecerei o que é. Não porque devo ser desse modo e a realidade deva ser daquele outro modo, mas apenas por isto: quero conhecer a realidade seja ela qual for — nua como ela é. Não projetarei, não entrarei nisso. Quero encontrar a vida como ela é".

Positivamente, busca espiritual significa encontrar a existência tal como ela é, sem qualquer desejo. No momento em que não houver nenhum desejo, o mecanismo de projeção não estará mais funcionando. Então, você poderá ver o que é.

Uma vez conhecido, este "o que é" — aquele que é — lhe dará tudo.

O desejo sempre promete e nunca dá. Os desejos sempre prometem felicidade, êxtase, mas isso nunca vem. Cada desejo dá em troca apenas mais desejos. Cada desejo cria em seu lugar apenas desejos ainda maiores e mais frustrantes.

Uma mente não-desejosa é aquela que está engajada na busca espiritual. Um buscador espiritual é aquele que está completamente alerta para o absurdo do desejo e está pronto para conhecer o que é.

Quando a pessoa está pronta para conhecer o que é, a realidade aparece por todos os cantos, por todos os lados.

Mas você nunca está presente. Você está em seus desejos, no futuro. A realidade está sempre no presente — aqui e agora —, mas você nunca está no presente. Está sempre no futuro: nos desejos, nos sonhos. Você está adormecido nos seus sonhos, nos seus desejos. E a realidade está aqui e agora.

Quando esse sonho for interrompido e você estiver acordado para a realidade que está aqui e agora, no presente, haverá um renascimento. Você chegará ao êxtase, à satisfação, a tudo o que sempre foi desejado e nunca alcançado.


Osho, em "Eu Sou a Porta"

quarta-feira, maio 14, 2014

O Amor indescritível


Mooji


"Deixe o reino dos nomes e formas
e entre num campo mais refinado e intuitivo.

Veja com os olhos de Krishna,
e ame com o amor de Cristo.

Faça introspecção com a sabedoria de Shiva
e venha para a dimensão por trás do pensamento,
o reino do Ser.

Aqui brilha a presença intuitiva – ‘eu sou’.
Todos os seres naturalmente amam este estado ‘eu sou’.
Sua natureza é paz, alegria, sabedoria e amor.
É o amor de ser, o amor de existir.

Mas em um certo estágio,
mesmo este estado maravilhoso é observado.
Quando você está na posição
para observar o “eu sou” em si,
então você está automaticamente no lugar do Eterno.

É o Supremo.
Nenhuma palavra pode expressar ou defini-lo.
Ele confere luz e alegria à vida.

Foi perguntado a Papaji uma vez:
"Há algo além da consciência?"
Surpreendentemente, ele disse:
“Amor. O amor está além de tudo”.

Eu descobri o amor como sendo sinônimo de consciência.
Eles são Um.
O amor é a unidade do Ser.
É o sagrado dentro do vazio.
É o Indescritível.
Você é isso.


segunda-feira, maio 12, 2014

Samsara é Nirvana, Nirvana é Samsara




* “Samsara não é um lugar, não é o planeta Terra, não é a existência humana, não é nada disso. O Samsara é esse jeito de ser, em que ficamos perambulando por aí, feito cachorro de rua, sem rumo, fundamentalmente deludidos, agindo a partir do desejo e da hostilidade. Sem amadurecer, sem florescer, sem cultivar a verdadeira felicidade, saltando de uma lado para o outro, até a morte finalmente chegar.” (Comentário sobre “A Essência Vajra” de Düdjom Lingpa - site Sobrebudismo)


* “Nirvana quer dizer “sem fogo”. “Fogo extinto” ou, “sem vento das paixões”. Nirvana é a mesma coisa que Samsara. Samsara é Nirvana. Samsara é o mundo da perambulação, onde andamos de lugar pra lugar, procurando a felicidade ou satisfação. Nós procuramos, andando sem fim, procurando e trocando. Uma casa nova, um carro novo, etc, procurando, procurando, sempre trocando, isso é samsara. É o mundo rodando e você procurando a solução e satisfação de problemas sempre novos. Vão sempre surgir, porque é característica desse mundo mutante. O que faz essas sensações todas, são o “vento das paixões”. E nós somos como folhas tocadas pelo vento das paixões. NIR é uma partícula negativa e VANA é o fogo das paixões. Então podemos traduzir como “Fogo extinto, ou sem ventos”, e, na analogia que estou fazendo, não tem vento para empurrar a folha de lado pra lado. Não tenho paixões mundanas, então de repente surge uma grande calma, porque não importa. Atrasou, atrasou, perdeu o avião, perdeu o avião, tem comida tem, não tem comida, não tem. Perdi tudo que tinha, perdi tudo que tinha. Ganhei bastante, ganhei bastante. As paixões não estão empurrando, então o mesmo lugar que é Samsara, é Nirvana. O que mudou é a maneira de ver. Você tira os seus olhos, que vêem o Samsara, e troca pelos olhos de Buda, olha com uma mente iluminada e aí aquilo que era Samsara, virou Nirvana. Então Samsara não é um lugar. E Nirvana também não. Não dá pra “ir” para o Nirvana. Você muda a si mesmo e aí, este lugar torna-se Nirvana.” (Monge Genshô, em “Sutra do Coração da Sabedoria”, pelo Daissen Zendô)


* “O samsara não é um lugar – por exemplo, o nosso mundo. É uma maneira de ser prisioneiro das próprias percepções. Há quem diga que, se traçarmos no chão um círculo ao redor de um peru, o animal pensará que está preso e se deixará morrer de fome, sem jamais tentar atravessar o círculo. Embora todos os seres possuam dentro de si a luminosidade da consciência sutil, a felicidade inefável de que falam os místicos e aqueles que viveram experiências de quase morte, não a reconhecem. Divorciadas dessa profunda luminosidade, nossas percepções adquirem uma “opacidade” que nos mantém no engano. Embora sejam círculos de giz à nossa volta, pensamos que se tratam de barreiras reais, ficamos prisioneiros delas e os esforços desastrados que fazemos para nos libertarmos geralmente só pioram a situação”. Na tradição budista, a esta percepção deformada do mundo dá-se no nome de “ignorância” e diz-se que é a raiz do samsara.” (Tsering Paldrön, em "A Arte Da Vida")


quinta-feira, maio 08, 2014

A descoberta do Buda - 2/2

Osho


A Estátua de Buda: um projeto para o interior

Os profetas do antigo Oriente foram muito enfáticos ao afirmar que todas as grandes artes – música, poesia, dança, pintura, escultura – originam-se da meditação. Elas são, de algum modo, um esforço para trazer o incognoscível ao mundo do conhecido, àqueles que ainda não estão prontos para a peregrinação – são só presentes para aqueles que não estão prontos para empreender a peregrinação. Talvez uma canção possa desencadear um desejo de sair em busca da fonte, talvez uma estátua...

Na próxima vez em que você entrar num templo de Gautama, o Buda, ou de Mahavira – o mestre dos jainas –, sente-se silenciosamente e olhe para a estátua , porque a estátua foi feita de tal modo, em tais proporções que, se olhar para ela, você entrará em silêncio. Trata-se de uma estátua de meditação; ela não tem nada a ver com Gautama, o Buda, ou Mahavira.

Eis por que todas aquelas estátuas se parecem – Mahavira, Gautama, o Buda; Neminatha; Adinatha; todos os 24 mestres dos jainas... No mesmo templo você encontrará 24 estátuas, todas parecidas, exatamente iguais. Na infância eu perguntava a meu pai: “Pode me dizer como é possível que 24 pessoas sejam exatamente iguais? – o mesmo tamanho, o mesmo nariz, o mesmo rosto, o mesmo corpo...”

Ele costumava dizer: “Não sei. Eu mesmo fico espantado de que não haja nem uma diferença mínima. E quase não se ouve falar nisso – não existem nem duas pessoas no mundo que sejam iguais, o que se dizer de 24!

Mas à medida que minha meditação floresceu, eu descobri a resposta – ela não foi dada por outra pessoa. Eu descobri a resposta. Essas estátuas não têm nada a ver com pessoas. Essas estátuas têm algo a ver com o que estava acontecendo dentro daquelas 24 pessoas, e era exatamente a mesma coisa.

E nós não nos incomodamos com o lado de fora: insistimos que temos de prestar atenção somente no interior. O exterior não tem importância. Um é jovem, outro é velho; um é negro, outro é branco, um é homem outro é mulher – não importa; o que importa é que dentro existe um oceano de silêncio. Nesse estado oceânico, o corpo assume certa postura.

Você já observou isso em si mesmo, mas não estava alerta. Quando está com raiva – já observou? – seu corpo assume uma certa postura. Na raiva, você não consegue manter as mãos abertas. Com a raiva, elas se fecham. Na raiva, você não consegue sorrir – ou consegue? Com uma certa emoção, o corpo tem de seguir uma certa postura. Coisas bem pequenas estão profundamente relacionadas interiormente.

Assim, aquelas estátuas são feitas de tal modo que, se você simplesmente se sentar silenciosamente e observar, e depois fechar os olhos, uma imagem de sombra negativa entra no seu corpo e você começa a sentir algo que você nunca sentiu antes.

Aquelas estátuas e templos não foram construídos para serem adorados; eles foram construídos para proporcionar uma experiência. Eles são laboratórios científicos. Eles não têm nada a ver com religião. Uma certa ciência secreta foi usada durante séculos; assim, as gerações vindouras pudera entrar em contato com as experiências das antigas gerações – não por meio dos livros, não por meio das palavras, mas por meio de algo que vai mais fundo – por meio do silêncio, da meditação, da paz.


A origem dos Sutras – O Dhammapada

Essas máximas de Buda são chamadas Dhammapada. Esse nome precisa ser compreendido. Dhamma significa muitas coisas. Significa a suprema lei, o logos. Por “suprema lei” quer-se dizer aquilo que mantém todo o universo coeso. É algo invisível, intangível – mas certamente está presente, caso contrário o universo se desintegraria. Um universo tão vasto e infinito, seguindo tão serenamente, tão harmoniosamente, é prova suficiente de que deve haver uma subcorrente que conecta tudo, que junta todas as coisas, que liga todas as coisas – de que não somos ilhas, de que a menor folha de grama está ligada à maior das estrelas. Destrua uma pequena folha de grama e você destruiu algo de imenso valor para a própria existência.

Na existência, não há nenhuma hierarquia, não há nada melhor e nada maior. A maior estrela e a menor folha de grama, ambas, existem como iguais. Daí, o outro significado da palavra dhamma. O outro significado é “justiça”, a igualdade, a existência não-hierárquica. A existência é absolutamente comunista; ela não conhece classes, ela é um todo só. Daí o outro significado da palavra dhamma – justiça.

E o terceiro significado é retidão, virtude. A existência é muito virtuosa. Mesmo que você encontre algo que não possa chamar de virtude, deve ser por causa da sua incompreensão, pois a existência é absolutamente virtuosa. Seja o que for que aconteça, sempre acontece acertadamente. O errado nunca acontece. Pode parecer errado para você, porque você tem uma ideia do que é certo, mas quando você olha sem nenhum preconceito, nada é errado, tudo está certo. Nascimento é certo, morte é certo. Beleza é certo e feiura é certo.

Mas nossa mente é pequena, nossa compreensão é limitada; não podemos ver o todo, sempre vemos somente uma pequena parte. Somos como uma pessoa escondida atrás da porta e que olha para a rua através do buraco da fechadura. Ela sempre vê coisas... sim, alguém está se movendo, um carro passa de repente. Num momento não estava lá, noutro momento está ali e, em seguida, vai embora para sempre. É assim que estamos olhando para a existência. Dizemos que algo está no futuro, então entra o presente e, em seguida, vai para o passado.

Na verdade, o tempo é uma invenção humana. Ele é sempre agora! A existência não conhece nenhum passado, nenhum futuro – ela conhece somente o presente.

Mas nós estamos sentados atrás de um buraco de fechadura, espiando. Uma pessoa não está presente; depois, de repente, aparece; e depois, de repente, assim como apareceu, desaparece outra vez. Então, você tem de criar o tempo. Antes de a pessoa aparecer, ela estava no futuro. Então ela apareceu; agora está no presente – mas ela é a mesma! E, de repente, você não pode vê-la nunca mais através do buraquinho da fechadura – ela tornou-se passado. Nada é passado, nada é futuro – tudo é sempre presente. Mas nossos modos de ver são muito limitados.

Desse modo, continuamos a perguntar por que existe miséria no mundo, por que existe isso e aquilo... Por quê? Se pudéssemos olhar para o todo, todos esses “porquês” desapareceriam. E para olhar para o todo, você terá de sair do seu quarto, você terá de abrir a porta... – você terá de abandonar essa visão de buraco de fechadura.

Eia o que é a mente: um buraco de fechadura, e um buraco de fechadura bem pequeno. Comparado com o vasto universo, o que são os nossos olhos, ouvidos e mãos? O que podemos abarcar? Nada de muita importância. E ficamos muito apegado àqueles diminutos fragmentos de verdade.

Se você vir o todo, tudo é como deveria ser – esse é o significado de “tudo está certo”. O errado não existe. Somente Deus existe; o demônio é criação do homem.

O terceiro significado de dhamma pode ser “Deus” – mas Buda jamais usa a palavra “deus”, porque ela ficou erradamente associada com a ideia de uma pessoa, e a Lei é uma presença, não uma pessoa. Desse modo, Buda jamais usa a palavra “deus”, mas sempre que ele quer transmitir algo de Deus, ele usa a palavra dhamma. A mente de Buda é a de um cientista muito profundo. Por causa disso, muitos chegaram a pensar que ele era ateu. Ele não é. Ele é o maior teísta que o mundo já conheceu ou conhecerá – mas ele nunca fala sobre Deus. Ele nunca usa a palavra, eis tudo. Mas, por dhamma, ele quer dizer exatamente o mesmo. “Aquilo que é” é o significado da palavra “deus”, e esse é exatamente o significado de dhamma.

Dhamma também significa “disciplina” – diferentes dimensões da palavra. A pessoa que quer saber a verdade terá de disciplinar-se de muitos modos. Não se esqueça do significado da palavra “disciplina” – ela simplesmente quer dizer a capacidade de aprender, a disponibilidade para aprender, a receptividade para aprender. Daí a palavra “discípulo”. “Discípulo” quer dizer “aquele que está pronto para abandonar seus antigos preconceitos”, para deixar a mente de lado e olhar para a questão sem nenhum preconceito, sem nenhum conceito a priori.

E dhamma também quer dizer verdade suprema. Quando a mente desaparece, quando o ego desaparece, o que permanece? Algo certamente permanece, mas isso não pode ser chamado de “algo” – assim, Buda o chama de “nada” (nothing). Mas deixe-me lembrar-lhe, caso contrário, você compreenderá mal: sempre que ele usa a palavra “nada”, ele quer dizer “não-coisa” (no-thing). Divida a palavra em duas: não a use como uma só palavra – use um hífen entre “não” e “coisa”, então você saberá exatamente o significado de “nada” (nothing).

A lei suprema não é uma coisa. Não é um objeto que você possa observar. Trata-se da sua interioridade; é subjetividade.

Buda teria concordado totalmente com o pensador dinamarquês Sören Kierkegaard. Ele diz: Verdade é subjetividade – eis a diferença entre fato e verdade. Um fato é algo objetivo. A ciência continua buscando cada vez mais fatos, e a ciência nunca chega À verdade – ela não pode, pela própria definição da palavra. A verdade é interioridade do cientista, mas ele nunca olha para ela. Ele continua observando outras coisas. Ele nunca fica ciente do seu próprio ser.

Este é o último significado de dhamma: sua interioridade, sua subjetividade, sua verdade.

Uma coisa muito significativa – deixe que ela penetre fundo no seu coração: a verdade jamais é uma teoria, uma hipótese; ela é sempre uma experiência. Desse modo, minha verdade não pode ser a sua verdade. Minha verdade é, inescapavelmente, minha verdade; ela continuará sendo minha verdade, não pode ser a sua. Nós não a compartilhamos. A verdade não pode ser compartilhada, ela é intransferível, incomunicável, inexprimível.

Eu posso explicar a você como eu cheguei a ela, mas eu não posso dizer o que ela é. O “como” é explicável, mas não o “porquê”. A disciplina pode ser mostrada, mas não o alvo final. Cada um tem de chegar a ele do seu próprio modo. Cada um tem de chegar a ele no seu próprio ser interior. Na absoluta solitude, ele é revelado.

E a segunda palavra é pada. Pada também tem muitos significados. Um deles, o significado mais fundamental, é “caminho”. A religião tem duas dimensões: a dimensão do “o que” e a dimensão do “como”. Sobre o “o que”, nada se pode falar – é impossível. Mas do “como”, pode-se falar, o “como” pode ser compartilhado. Esse é o significado de “caminho”. Eu posso indicar o caminho a você, posso lhe mostrar como eu viajei, como eu cheguei aos picos ensolarados. Mas eu não posso dizer como é estar nos picos ensolarados.

Pada quer dizer "caminho". Pada também quer dizer "passo" - base, fundação. Todos esses significados são expressivos. Você tem de sair de onde você está. Você tem de ser tornar um grande processo, um grande crescimento. As pessoas tornaram-se poços estagnados; elas têm de se tornar rios, porque somente rios chegam no oceano. E também quer dizer fundação, porque é a verdade fundamental da vida. Sem dhamma, sem relacionar-se de algum modo com a verdade suprema, sua vida não tem nenhuma fundação, nenhum sentido, nenhuma significância, ela não pode ter nenhuma glória.

Esses sutras que compõem o dhammapada precisam ser compreendidos não intelecutalmente, mas existencialmente.


Numa única palavra, tudo o que é significativo está contido: Sammasati

Gautama, o Buda, não é o único buda na história do mundo: milhares de budas vivem e já viveram no mundo, em diferentes partes do mundo. Eles podem não ser conhecidos como "budas", mas "buda" simplesmente significa "o desperto".

A palavra "buda" simplesmente quer dizer "o desperto". Esse não era o nome dele. Seu nome era Gautama Sidarta. Quando ele se tornou iluminado, aqueles que compreenderam sua iluminação começaram a chamá-lo de Gautama, o Buda. Mas a palavra "buda", de acordo também com Gautama Buda, é simplesmente inerente a todo ser humano - e não somente a todo ser humano, mas a todo ser vivo. É a qualidade intrínseca de todo mundo. Todo mundo tem direito, por nascimento, de tornar-se um buda. Qualquer pessoa desperta, em qualquer lugar do mundo, tem o direito de ser chamado de "buda". Gautama, o Buda, é somente um dos milhões de budas que aconteceram e que acontecerão.

A única qualidade que o buda tem, no centro do seu ser, é a observação, o testemunhar. Testemunhar é o todo da espiritualidade resumido numa única palavra. Testemunhe que você não é o corpo, testemunhe que você não é a mente e testemunhe que você é somente a testemunha. Apenas um espelho refletindo - sem nenhum julgamento, sem nenhuma apreciação, sem nenhuma condenação - espelho puro. Eis o que o buda é.

Ser um buda não é ser budista. O budista é um seguidor, o buda sabe. A descoberta do Buda significa a descoberta de si mesmo.

No momento em que você conhece sua própria condição de buda, você conhece todos os budas - a experiência é a mesma.


Fique silencioso. Feche os olhos.
Olhe para dentro tão profundamente quanto possível.
Esse é o caminho.
Lá, no fim do caminho, você é o buda.

E a jornada é muito curta - um único passo.
Só é preciso total urgência e absoluta honestidade
para olhar direto dentro do seu próprio ser.
Lá está o espelho; o espelho é o buda.
Ele é sua natureza eterna.
Você tem de entrar cada vez mais e mais fundo, até descobrir a si mesmo.
Não hesite. Não há nenhum medo.
É claro, você está sozinho, mas essa solitude é uma experiência enorme, bela.
E neste caminho você não encontrará ninguém, exceto você mesmo.

Relaxe e seja apenas um espelho observador,
que testemunha, refletindo tudo.
Nem aquelas coisas têm intenção de ser refletidas,
Nem você tem intenção de captar seus reflexos.
Simplesmente seja um lago silencioso refletindo,
e toda a bem-aventurança é sua.
Este momento presente se torna a não-mente, o não-tempo,
apenas uma pureza, um espaço sem fronteiras.
Essa é a sua liberdade.

E a menos que você seja um buda, você não é livre.
Você não conhece nada da liberdade.
Deixe essa experiência mergulhar fundo em cada fibra do seu ser.
Fique ensopado, encharcado.
Quando você voltar, volte encharcado
com a névoa da sua natureza búdica.
E lembre-se desse espaço, desse caminho,
porque você tem de carregá-lo durante as 24 horas
em todas as suas ações.
Sentado, em pé, andando, dormindo, você permanece um buda.
Então, toda a existência se torna um êxtase.


quarta-feira, maio 07, 2014

A descoberta do Buda - 1/2

Osho


Gautama, o Buda

Gautama, o Buda, é a maior ruptura que a humanidade conheceu até agora. O tempo não deveria ser dividido com o nome de Jesus Cristo; ele deveria ser dividido com o nome de Gautama, o Buda. Deveríamos dividir a história em antes de Buda e depois de Buda, não antes de Cristo e depois de Cristo, porque Cristo não é uma ruptura - é uma continuidade. Ele representa o passado em sua tremenda beleza e grandiosidade. Ele é a própria essência de toda a busca do homem antes dele. Ele é a fragrância de todo o empenho do homem para conhecer Deus, mas ele não é uma ruptura. No verdadeiro sentido da palavra, ele não é um rebelde. Buda é, mas Jesus parece mais rebelde do que Buda pela simples razão de que a rebelião de Jesus é visível e a rebelião de Buda é invisível.

Você precisará de um grande insight para compreender a contribuição de Buda para a consciência humana, para a evolução humana, para o crescimento humano. O homem não seria o mesmo se Buda não tivesse existido. O homem teria sido o mesmo se Cristo não tivesse existido, se Krishna não tivesse existido - não haveria muita diferença. Elimine Buda e algo de tremenda importância fica perdido; mas sua rebelião é muitíssimo invisível, muitíssimo sutil.

Antes de Buda, a busca - a busca religiosa - dizia respeito, basicamente, a Deus: um Deus que estava do lado de fora, um Deus que estava em algum lugar lá em cima, no céu. A busca religiosa também dizia respeito a um objeto de desejo, tanto quanto era a busca mundana. O homem mundano buscava dinheiro, poder, prestígio; e o homem não-mundano buscava Deus, o céu, a eternidade, a verdade. Mas uma coisa havia em comum: ambos estavam olhando para fora de si mesmos, ambos eram extrovertidos. Lembre-se dessa palavra, porque ela vai ser útil para você compreender Buda.

Antes de Buda, a busca religiosa não estava interessada no interior, mas no exterior. Ela era extrovertida e, quando a busca religiosa é extrovertida, ela não é religiosa. A religião começa somente com a introversão, quando você começa a cavar profundamente dentro de si mesmo.

As pessoas procuraram durante séculos por Deus: Quem é o construtor do universo? Quem é o criador do universo? E há muitos que ainda estão vivendo numa era pré-búdica, que ainda estão fazendo essas perguntas: "Quem é o criador do mundo? Quando ele criou o mundo?". Há algumas pessoas que até determinaram o dia, a data e o ano em que Deus criou o mundo. Há teólogos cristãos que dizem que exatamente há quatro mil e quatro anos antes de Jesus Cristo - obviamente numa segunda-feira, 1º de janeiro! - Deus criou o mundo ou começou a criar o mundo; e ele terminou o trabalho no sexto dia. Uma só coisa é verdadeira quanto a isso: ele deve ter terminado o trabalho em seis dias, porque você pode ver a confusão em que o mundo está - trata-se de um trabalho de seis dias! E desde então, ninguém mais ouviu falar dele. No sétimo dia, ele descansou e, desde então, tem continuado a descansar.

Talvez Friedrich Nietzsche esteja certo, ele não está descansando - está morto! Ele não tem demonstrado nenhum interesse. Então, o que aconteceu com sua criação? Parece estar completamente esquecida. Mas muitos cristãos dizem: "Não, ele não se esqueceu. Olhe! Ele enviou Jesus Cristo, seu primogênito, para salvar o mundo. Ele ainda está interessado". Esse foi o único interesse que ele demonstrou, enviando Jesus Cristo... - mas o mundo não está salvo. Se esse era o propósito ao enviar Jesus Cristo ao mundo, então Jesus fracassou e, por tabela, Deus fracassou - o mundo é o mesmo. E que espécie de interesse era esse - seu mensageiro foi crucificado e Deus não conseguiu fazer nada?

Ainda há muitos vivendo nessa visão de mundo pré-búdica.

Buda mudou toda a dimensão religiosa, ele deu a ela uma virada tão linda! - ele fez perguntas verdadeiras. Ele não era metafísico, nunca fez perguntas metafísicas; para ele, a metafísica era pura tolice. Ele foi o primeiro psicólogo que o mundo conheceu, porque baseou sua religião não na filosofia, mas na psicologia. Psicologia, em seu significado original, quer dizer ciência da alma, a ciência do mundo interior.

Buda não perguntou quem criou o mundo. Ele perguntou: "Por que eu estou aqui? Quem sou eu? Quem está me criando?". E não se trata de uma questão do passado - quem me criou. Nós estamos sendo criados constantemente. Nossa vida não é como uma coisa criada uma vez e para sempre: ela não é um objeto. Ela é um fenômeno crescente, é um rio fluindo. A cada momento, ela está passando através de um novo território. "Quem está criando a vida, esta energia, esta mente, este corpo, esta consciência que sou eu?" Seu questionamento é totalmente diferente. Ele está transformando a religião da extroversão para a introversão.

A religião extrovertida roga a Deus; a religião introvertida medita. Oração é extroversão; é dirigida a algum Deus invisível. Ele pode estar lá, pode não estar - você não está seguro, não tem certeza; a dúvida vai persistir, fatalmente. Desse modo, toda oração está enraizada, de um modo ou de outro, na dúvida, no medo, na incerteza, na ambição. A meditação está enraizada no destemor, na desambição. A meditação não está mendigando nada de ninguém, ela não é endereçada a ninguém. Meditação é um estado de silêncio interior. Oração ainda é barulho, você ainda está falando - falando a um Deus que pode não estar lá. Então, ela é insana, neurótica: você está se comportando como um louco. Pessoas loucas ficam falando; não se importam muito se há alguém para ouvi-las ou não. Esse é um sinal seguro de que elas são loucas - imaginam que alguém está ali; não apenas isso, elas quase podem ver o outro. A visualização delas é ótima, a imaginação é muito substancial. Elas são capazes de transformar sombras em substância, imaginação em realidades, ficção em fatos. Para você, elas parecem estar envolvidas num monólogo; para elas mesmas, elas estão envolvidas num diálogo. Você não pode ver quem está presente ali - elas estão sozinhas. Mas elas vêem que alguém está presente.

É devido a esse fato que a psicanálise é muito cautelosa quanto à religião, porque a pessoa religiosa se comporta exatamente como o neurótico. E há muitos psicanalistas que acham que religião nada mais é que uma neurose de massa - e eles são da seguinte opinião: a religião extrovertida é uma neurose de massa.

Mas os psicanalistas ainda não tomaram ciência de Buda. Buda lhes dará um novo insight dentro da religião, dentro da verdadeira religião. Não há nenhuma oração, nenhum Deus. A meditação não é um diálogo, nem mesmo um monólogo - meditação é puro silêncio. As pessoas me perguntam: "Qual deveria ser o objeto da meditação?". Elas estão fazendo a pergunta errada, mas eu posso compreender por que a fazem. Elas viveram nas religiões da oração, e a oração não pode existir sem alguém lá para quem rezar. A oração precisa de um objeto de veneração; a oração é uma dependência. Aquele que venera não é independente; é dependente do objeto de sua veneração e tem medo também. Mas o meditador não tem nenhum objeto. Meditação não quer dizer "meditar sobre algo". A palavra inglesa "meditation" dá uma conotação errada. Em inglês, não há nenhuma palavra para se traduzir a palavra budista dhyana. Na verdade, em nenhuma outra língua do mundo há uma palavra que seja absolutamente sinônima de dhyana. E por causa disso que, na época em que o budismo chegou à China, não foi possível traduzi-la para o chinês; desse modo, dhyana tornou-se chan - trata-se da mesma palavra. A palavra sânscrita é dhyana, mas Buda usou o páli, uma outra língua, a língua compreendida pelas pessoas entre as quais ele vivia. Em páli, dhyana tornou-se jhana; de jhana, ela tornou-se ch'an em chinês, e daí tornou-se zen em japonês. O chinês não tinha nenhum equivalente, o japonês não tinha nenhum equivalente. Na verdade, nenhuma outra língua tem equivalente, porque nenhuma outra língua deu à luz um homem como Buda. E, sem um Buda, fica impossível dar esse novo significado, essa nova visão, essa nova dimensão.

Em inglês, meditação quer dizer "meditar sobre algo"; mas, então, trata-se de pensamento; no máximo, de contemplação. Isso não é meditação. Meditação quer dizer estar meditativo, silencioso, pacífico, sem pensamentos na mente, uma consciência sem conteúdo. Esse é o verdadeiro significado de meditação: consciência pura, um espelho refletindo o nada. Quando um espelho não está refletindo nada, isso é meditação.

Buda transformou toda a questão religiosa da metafísica numa grande psicologia, porque ele perguntou: Quais são as causas da minha vida e da minha morte? Ele não está interessado no universo. Ele diz: Temos de começar pelo começo; e qualquer coisa, para ter um sentido de verdade na vida, tem de dizer respeito a mim mesmo: Quem sou eu e por que eu sou? Quais são as causas que continuam me criando?


O que é um Sutra?

O sutra é uma afirmação essencial sem nenhuma elaboração, sem nenhuma explicação, sem nenhum ornamento – apenas sua essência nua e crua. Isso era necessário nos tempos antigos, porque as pessoas tinham de se lembrar desses sutras. Assim, eles tinham de ser muito condensados, tinham de ser telegráficos, de modo que as pessoas pudessem se lembrar por séculos, porque eles passavam de geração em geração, fazendo parte da memória das pessoas. Os livros ainda não existiam, a imprensa não tinha aparecido. As pessoas tinham que se lembrar; daí o artifício do sutra.

Um sutra significa uma máxima, justamente o âmago essencial. Mas, se você se lembrar dele, sempre poderá decodifica-lo. E é isso o que estou fazendo aqui – decodificando esses sutras para vocês.

No Oriente, todas as grandes escrituras são escritas em sutras. Sutra significa a afirmação mais condensada, tão fina quanto um fio – a palavra “sutra” significa “fio”. Todas as coisas não-essenciais foram eliminadas; só sobrou o mais essencial. É o jeito mais telegráfico de se expressar coisas. Por isso, no Oriente, são feitos grandes comentários. No Ocidente não existem comentários, porque não se escreveu nenhum sutra. Um sutra precisa de um comentário.

No Ocidente, o próprio fenômeno dos comentários não aconteceu. Ninguém comenta sobre Kant, ninguém comenta sobre Hegel, ninguém comenta sobre Sócrates, ninguém comenta sobre a Bíblia. O fenômeno dos comentários é absolutamente oriental. Os sutras são a você o mínimo a ser lembrado, porque se lembrar do imenso conteúdo de um tratado filosófico não seria possível.

Sutras são pequenas sementes. Eles indicam o caminho, indicam uma certa direção. A menos que seu coração se torne um solo fértil para essas sementes, elas não brotarão em folhas, em ramos, em flores, em frutos. Essas sementes contêm tudo o que vai acontecer, elas têm todo o programa armazenado. Se você permitir que a semente invada o seu ser, à medida que ela for penetrando cada vez mais fundo, você perceberá tudo o que está contido nela. Ela se tornará uma realidade em você.


domingo, maio 04, 2014

Aqui! Agora! Totalmente!



Amado Osho,

Outro dia, eu o ouvi dizer  que intuição e iluminação não são diferentes. É assim porque ambas são não-mente? E isso quer dizer que, quando a intuição está agindo de dentro de nós, nós estamos tendo uma pequena prova da iluminação?

Osho: Maneesha, na sua simples pergunta, você levantou muitas questões. Primeira: a "outra noite" jamais aconteceu! O passado é o passado. Quantas vezes eu tenho de lembrar-lhe? Não houve nenhuma outra noite além desta e não haverá nenhuma outra noite além desta! Em vez de estar aqui, você está preocupada com ter-me ouvido dizer que "intuição e iluminação não são diferentes. É assim porque ambas são não-mente?"

Quero que todos vocês, não somente Maneesha, compreendam que esta não é uma assembleia de indagações filosóficas... teológicas. Este é um encontro dos budas. No que concerne ao seu ser mais profundo, você pode dar-lhe qualquer nome... Intuição... O que essa palavra significa? Significa "conhecer a partir de dentro". Intuição é aquilo que surge dentro de você, é o seu próprio ser. Você pode chama-la de iluminação. Pode dar-lhe qualquer nome - os nomes não importam neste mundo da existência verdadeira.

E então, finalmente, você está perguntando: "E isso quer dizer que, quando a intuição está agindo dentro de nós...?"

Não, Maneesha, a intuição nunca está agindo; ela está simplesmente aí. O que está agindo é sempre a mente: o que está sempre em repouso, não agindo, é você. O seu centro está além do agir ou do não agir; ele simplesmente é - é uma língua diferente a ser compreendida -, não faz nada. Assim, quando você pensa que a sua intuição está agindo, você está sendo iludida pela sua mente. Não seja iludida por sua mente. Lembre-se que a intuição é: ela não age; ela é uma presença uma consciência. Eis porque eu disse que são dois nomes para uma só experiência; intuição, iluminação, despertar, estado búdico - simplesmente nomes de um centro imóvel.

Você não pode, Maneesha, ter apenas uma prova dele. Ou você o tem todo, ou você não o tem. Ele é indivisível. Não pode ser dividido. Se não pode ser dividido, você não pode ter uma prova dele. Você terá de tê-lo, ou decidir permanecer na ignorância. Mas você não pode dizer: "eu consegui um pouquinho de iluminação". Desse modo não funciona. Você não pode dizer: "eu estou parcialmente iluminada".

Seja! Totalmente! E... que nome você dá a esta totalidade do seu ser é problema seu. No momento, eu escolho a palavra "iluminação", porque ela tem a qualidade de dispersar toda a escuridão, a miséria, a angústia, a negatividade; ela conduz ao seu ser positivo, conduz ao seu verdadeiro coração, dizendo "Sim", com cada pulsação do universo circundante.

Mas não é possível, Maneesha, ter uma experiência parcial. Olhe para isso deste modo: você pode dizer a alguém "estou parcialmente apaixonada por você, só trinta por cento. Tentarei um pouco mais, mas, por enquanto, só estou com um terço do meu ser apaixonado por você"? Se você disser isso para alguém,  ele ou ela pensará que alguém fugiu do hospício. Nem mesmo o amor pode ser dividido - eis porque o amor tem sempre sido tomado como um exemplo de iluminação. Amor e iluminação, ambos são indivisíveis.

Mas nós estamos todos vivendo vidas parciais. Parcialmente, nós amamos: obviamente, uma ilusão - muito pseudo, muito superficial, muito irreal e falso - e nada mais. Estamos meditando parcialmente. Mas nada acontece desse modo. A natureza não permite essas grandes experiências parcialmente.

Qualquer coisa parcial vai ser uma embromação. Totalidade é a língua a ser aprendida aqui. Para traze-los para este momento, tento todos os artifícios, porque este momento é a sua não-mente.


quinta-feira, maio 01, 2014

Ouça a mensagem deste momento!

 Osho


Quando Hyakujo era jovem, sua mãe levou-o a um templo e, ao entrar, ela curvou-se diante da estátua budista.
Apontando para a estátua, Hyakujo perguntou à mãe: "O que é isso?"
"Este é um buda" - respondeu ela.
Hyakujo disse: "Ele parece um homem. Eu quero virar um buda mais tarde".
Muitos anos depois, Hyakujo tornou-se um monge.

Certo dia, como assistente de Basho, ele foi peregrinar pelas montanhas.
No seu retorno, ele começou a chorar subitamente.
Um dos monges, seu colega, perguntou: "Você está pensando no seu pai e na sua mãe?"
"Não" - respondeu Hyakujo.
"Então por que você está chorando?" - persistiu o monge.
"Vá e pergunte ao mestre" - retorquiu Hyakujo.

O monge foi e perguntou a Basho, que disse:
"Vá e pergunte a Hyakujo".
O monge voltou à sala e encontrou Hyakujo rindo.
"Você estava chorando agorinha mesmo; por que você está rindo agora?" - perguntou ele.

Hyakujo respondeu: "Eu estava chorando agorinha mesmo, e agora estou rindo".


Maneesha, há alguns minutos, não havia chuva nenhuma e, agora, está chovendo. A existência é irracional. Você não pergunta à chuva: "Por que você está caindo agora, se você não estava caindo há alguns minutos?". Você não pergunta aos bambus: "Por que vocês estão dançando com a chuva, quando, antes, vocês estiveram parados como uns cavalheiros, absolutamente britânicos?"

A existência é irracional. No momento em que você pergunta por que, você perdeu o ponto. Esta historieta é ótima, ótima também no que diz respeito às meditações de vocês.
  
Quando Hyakujo era jovem, sua mãe levou-o a um templo e, ao entrar, ela curvou-se diante da estátua budista.

Apontando para a estátua, Hyakujo perguntou à mãe: "O que é isso?"
"Este é um buda" - respondeu ela.

Hyakujo disse: "Ele parece um homem. Eu quero virar um buda mais tarde".

Vinda de um jovem de vinte anos, esta é uma grande indicação de um grande futuro pela frente. A estátua de pedra, de Buda, não pode enganá-lo. No máximo, ela parece um homem. Ela não é um homem: não respira, não chora, não ri. Foi talhada numa pedra: está simplesmente morta e não rirá jamais, nem chorará ou sentirá. Como ela pode?...

Hyakujo falou corretamente: "Isso certamente se parece com um homem; mas eu não a chamarei de buda, porque a própria palavra 'buda' significa 'consciência' e esta pedra não é consciente. Eu quero me tornar um buda mais tarde - não como uma estátua de pedra, mas um buda vivo, risonho, cantante, dançante".

Um buda que não pode dançar não é muito buda, não. Um buda é, em essência, silêncio e ser. Se você puder ficar silencioso nesta noite, a oportunidade é ótima. Todo o céu está se derramando ao seu redor com uma única indicação: "Acorde! Você tem dormido por muito tempo".

Nesse silêncio, esse acordar é possível. Nesse silêncio, o buda de pedra pode começar a rir, pode começar a dançar, pode começar a respirar. E lembre-se: assim como Hyakujo não estava pronto para adorar um buda de pedra, eu também sou contra todas as adorações.

O adorador é o adorado. Você não tem de adorar ninguém. O seu ser mais íntimo é o ponto mais alto e o mais precioso, o ponto mais existencial e consciente. Não há nada mais alto que isso. Você não precisa de adoração, basta apenas meditar.

Lembre-se da diferença entre adoração e meditação. A mãe estava falando de "adore, reze!" e Hyakujo, um jovem, estava dizendo "eu quero ser".

A prece é sempre endereçada a uma outra pessoa. A prece não é religiosa. A adoração não é religiosa. Ser completamente consciente e silencioso é o único meio de se saber o sabor da religião. Esta é um grande oportunidade.

As nuvens vêm na hora certa. Ouçam a mensagem da chuva. Ela simplesmente é; apenas seja como ela. Num espaço silencioso, a dança da chuva, o sussurro dos bambus... e você chegou em casa.

Muitos anos depois, Hyakujo tornou-se um monge.
Certo dia, como assistente de Basho, ele foi peregrinar pelas montanhas.
No seu retorno, ele começou a chorar subitamente.

Um dos monges, seu colega, perguntou: "Você está pensando no seu pai e na sua mãe?"
"Não" - respondeu Hyakujo.
"Então por que você está chorando?" - persistiu o monge.

Por quê?

Esta é a pergunta na qual a mente continua persistindo. Para a mente, todas as coisas têm de estar baseadas numa certa razão, numa causa. A mente não permite nada sem razão, sem causalidade. E, devido a essa persistência, a mente perde a pergunta mais essencial do seu próprio ser: "Por que você é?"

Você pode olhar daqui para ali. Talvez alguém lhe dirá por que você é. Mas ninguém, em toda a história da consciência, foi capaz de dizer por que ele mesmo é. Tudo o que você pode fazer é encolher os ombros: "Eu sou, não há qualquer questão de por quê".

Hyakujo estava certo em dizer ao monge:

"Vá e pergunte ao mestre" - retorquiu Hyakujo.
O monge foi e perguntou a Basho, que disse:
"Vá e pergunte a Hyakujo".
O monge voltou à sala e encontrou Hyakujo rindo.

Agora, isso é demais para a mente sensata; isso é absurdo...

Olhem agora... As chuvas estão tentando parar. Isso não está certo! Antes, elas estavam no seu auge e agora estão ficando silenciosas para participar do silêncio de vocês.

Mas não há nenhum por quê. Você não pode perguntar aos bambus; você não pode perguntar às rosas; você não pode perguntar a nenhum ser vivo. A vida simplesmente é. Às vezes ela chora, às vezes ela ri e, quando ela chora sem nenhuma razão, o choro é uma tremenda limpeza. E, quando ela ri sem nenhuma razão, o riso atinge um ponto mais profundo no seu ser. Como uma flecha, ela atinge exatamente o centro do seu coração e de sua existência.

O monge foi e perguntou a Basho, que disse:
"Vá e pergunte a Hyakujo".

O monge voltou à sala e encontrou Hyakujo rindo.
"Você estava chorando agorinha mesmo; por que você está rindo agora?"

O monge deve ter sido um homem de mérito intelectual, um professor.

Hyakujo respondeu: "Eu estava chorando agorinha mesmo, e agora estou rindo".

Qual é o problema? Isso é o que o Zen chama de um salto quântico: da mente para a não-mente; da razão para a existência; do pensar ao silêncio - um salto quântico. A mente não pode parar de perguntar por quê. Mas a sua consciência jamais pergunta por quê. A aceitação da consciência e de sua confiança na existência é absoluta e categórica.

Alguma vez você já perguntou por que você é? Você pode responder sobre coisas... por que uma bicicleta é, ou um carro é. Eles têm alguma utilidade. Mas que utilidade tem você? Você não pode encontrar uma razão, seja onde for que você procure e procure... A resposta será simplesmente: "Eu estou aqui por nenhuma razão." O porquê é irrelevante.

É isso o que eu estou chamando de salto quântico. Meditação não é nada mais do que um salto quântico, partindo do contínuo fazer perguntas para o mergulho na pura inocência, onde nenhuma pergunta surge e nenhuma resposta tem de ser dada.

Isto é viver momento a momento.
Isto é amar momento a momento.
Esta é a dança do momento.

Essa pequena historieta contém a própria essência do Zen. Se você puder entender essa pequena historieta, você compreendeu tudo o que é útil compreender.

Apenas seja: é seu direito de nascença. Não há nenhuma questão de por quê.

Você tem estado aqui o tempo todo e ficará aqui o tempo todo. É uma concepção errada quando dizemos: o tempo passa. A realidade é que você, a testemunha, permanece sempre a mesma, nunca velha, nunca jovem, nunca criança, nunca homem, nunca mulher - apenas um ponto de luz que prossegue da eternidade para a eternidade. Não há nenhuma razão para perguntar. E, de qualquer modo, a quem você vai perguntar? Além de você, quem pode responder por que você está aqui? E você não foi fundo o bastante dentro de si mesmo para descobrir quem você é. Para fazer a pergunta, você primeiro tem de descobrir a si mesmo.

Aqueles que foram para dentro de si mesmos, para encontrarem quem estava dentro, não retornaram, porque, quanto mais eles entravam, mais o gelo derretia; e quando chegavam ao âmago, eles mesmo não estavam lá, perceberam que havia somente puro espaço. E esse puro espaço é a única escritura que o Zen aceitará como sagrada. Ele não é feito pelo homem. Não é nascido. Não sabe nada da morte.

Ele simplesmente continua infinitamente, florescendo de muitas maneiras, formando muitas casas para serem habitadas, mudando-se de uma casa para outra, de um corpo para outro, de uma espécie para outra espécie. Mas todo esse movimento não deixa nenhum traço de mudança na sua autenticidade.

Hyakujo estava absolutamente certo quando disse: "Eu estava chorando agorinha mesmo, você está certo. E, agora, eu estou rindo. E quem sabe o que vai acontecer depois da minha risada?"

Essa é a verdadeira essência do Zen.


 

segunda-feira, abril 28, 2014

A mente vela, a Consciência revela

- Núcleo - 











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Prosseguindo e compartilhando um diálogo do Ser que aparece na representação como os divinos personagens Gustavo e Silvano:

Aquele que aparece como o divino personagem Gustavo pergunta:

1) Qual a importância da mente humana para você?
2) E qual a importância da mente divina (a mente única do Ser) para você?
3) E qual a relação que existe entre ambas?

Aquele que aparece como o divino personagem Silvano responde:

A resposta e estas questões está contida na revelação manifestada por Jesus Cristo ao declarar: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”.

Eu sou o que sou. Perceba: Sou o que sou, não o que estou sendo.

Você é o que é, o Ser, que existe antes que Abraão existisse, não o que está sendo, o Gustavo, o personagem.

Enquanto Gustavo, represente o seu papel, desfrute a vida. Mas você pode escolher estar  representando este papel consciente do que está fazendo, ou seja, de que está sendo um personagem; ou estar inconsciente de que você é o Ser representando um personagem. Neste caso estará totalmente identificado com o personagem, acreditando piamente ser o personagem!

Ou seja, estará inconsciente de quem você realmente é. Jesus Cristo estava consciente de que é Aquele que existe antes da criação do mundo [a representação divina], com seus incontáveis personagens. Esta Consciência de si mesmo é imortal.

A relação entre mente e Consciência é esta: A mente é o instrumento que o Ser usa para velar-se… É a máscara de Deus. No momento em que esta máscara, que cria o personagem, é retirada, revela-se o Ser. Em síntese: “A mente vela, a Consciência revela.” 

Você me pergunta qual a importância da mente humana e da Consciência: Bem, sem os personagens não existiria nenhuma representação…

Os pares de opostos só existem e são percebidos usando a máscara da personalidade. O bem e o mal existem apenas num universo onde os pares de opostos existem. E eles só existem porque a mente humana, a máscara da personalidade os concebe. A mente humana é o instrumento que conceitua algo como sendo bom ou mau. O mundo que o Gustavo vê é assim para ele porque o próprio Gustavo “escolhe” vê-lo assim. E pode nem estar consciente de que está fazendo isso. O que o personagem que você representa está sendo? Um crente ou um ateu? A representação em si não importa. O que importa é estarmos conscientes da verdade que Jesus Cristo expressou quando declarou: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”. Essa é sua verdadeira identidade. Ter essa percepção é estar consciente.

Ramana Maharishi teve a mesma percepção de que ele não era seu corpo e nem sua mente. E se auto indagou: "Quem sou eu?". E obteve a resposta.

Um personagem desperto não adoece? Um personagem consciente de sua real identidade não morre? Gustavo, não julgue o que aconteceu aos personagens, com o Ramana, com Yogananda, com Jesus ou com Goldsmith. Para eles não importava tanto. Jesus Cristo, inclusive, escolheu a crucificação. Ele poderia tê-la evitado, se quisesse, mas a escolheu como cumprimento de sua missão na Terra. E os seus discípulos foram perseguidos, alguns torturados e executados.

No cenário do mundo [na representação] foi o que aconteceu. Mas para cada um desses personagens o que aconteceu foi algo bem diferente. Eles só estavam dizendo: “Isto não pode Me atingir e não retira a verdade de que Eu Sou.”

Eles não estavam mais identificados como personagens num cenário.

Os que atingiram a iluminação, os que conheceram a verdade do Ser, sabiam que eles não eram o que estavam sendo, sabiam que aquilo passaria…

Mas, aquilo que é sempre É.

Quando nos despertamos de um sonho nos tornamos conscientes de que não somos o que estávamos sonhando ser, o personagem de um sonho. De imediato nossa mente percebe que aquilo era apenas uma projeção de nossa própria mente, era um sonho.

A realidade do personagem que estamos sendo também é uma projeção.

Quando nos “despertarmos” consciencialmente fica evidente que a mente está projetando tudo, especialmente o que “estamos sendo”. Ao mesmo tempo percebemos que estamos livres desse “condicionamento mental”.

No caso do personagem que represento estou escolhendo “ser assim”, por que quero. Estou consciente de que a Fonte desse querer sou Eu.

Essa Fonte atemporal revela que: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”.

Enfim, a mente vela, a Consciência revela.