"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, abril 08, 2014

"Deixa os mortos sepultar os próprios mortos"

Omraam Mikhaël Aïvanhov


“DEIXA OS MORTOS SEPULTAR OS SEUS PRÓPRIOS MORTOS”

O ensinamento de Jesus é um ensinamento da vida, um ensinamento da vida divina. A compreensão que tinha da vida é que fez de Jesus um verdadeiro filho de Deus. Fico sempre maravilhado diante da profundidade dessa compreensão, quando ele diz a um homem encontrado no caminho: “Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos.” Se a frase for tomada literalmente, o que Jesus diz é monstruoso, pois ele parece aconselhar que deixemos os corpos de nossos parentes e de nossos amigos sem sepultura... Pior ainda, essa frase não tem o menor sentido: como é que os mortos poderiam enterrar outros mortos?

Ao dizer: “Deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos”, Jesus não se referia aos mortos que levamos ao cemitério; é necessário conduzi-los aonde devem estar, e por sinal, ainda que estejam mortos, suas almas continuam vivas. Jesus tinha em mente outros mortos. Pois mesmo vivos os seres humanos trazem algo que, do ponto de vista de Jesus, está morto e os conduz à morte: sua natureza inferior. Sim, as manifestações da natureza inferior devem ser incluídas entre os mortos. E aqueles que tanto buscam satisfazê-las, atender aos seus caprichos, acabam por sua vez por morrer também. Nossa maneira de pensar e o modo como nos comportamos fazem com que nos mortifiquemos ou nos vivifiquemos. Tudo aquilo que em nós não está impregnado da vida da alma e do espírito conduz-nos para a morte.

A natureza inferior do homem está viva, e bem viva, é ela que vemos manifestar-se em tantos livros, espetáculos, jornais e no rádio, na televisão... Mas do ponto de vista espiritual essa vida é na realidade a morte para nós e para os outros. Por isso é que devemos levar a sério o conselho de Jesus. Na cabeça, no coração, quantas pessoas passam o tempo “enterrando os mortos”! Cuidam deles, eles os acompanham... E esses mortos não são necessariamente seres humanos, mas também objetos, idéias, opiniões, sentimentos. Essas palavras de Jesus devem ser compreendidas de todos os pontos de vista e aplicadas em todos os domínios: na filosofia, na literatura, na religião, na arte, na economia, na vida cotidiana.

“Segue-me”, diz também Jesus. Por quê? Para estar vivo. Pois é junto a Jesus que está a vida divina. Na realidade, experimentamos a dimensão da vida e da morte quase simultaneamente. Existem pessoas cheias de vitalidade no corpo físico, mas que estão mortas, pois cuidam de outros mortos. E existem mortos que não deixaram de estar vivos, pois durante sua existência terrestre buscaram em todas as circunstâncias colocar o espírito em primeiro lugar. Esses optaram por seguir Cristo e entraram vivos na morte.

Para optar por seguir Cristo é preciso ter aprendido a localizar onde está o essencial. Ora, os seres humanos buscam satisfação em tudo o que é secundário. Passam a vida entregues a ocupações que nada proporcionam à sua alma e ao seu espírito. Vocês responderão, naturalmente, que a alma e o espírito não podem participar tanto assim das atividades banais da vida cotidiana, nem daquelas que devemos exercer para, como se diz, “ganhar a vida”. Questiono se é tão certo assim... O que fazem as pessoas quando voltam do trabalho ou têm tempo livre? Quais são suas preocupações, suas conversas, suas atividades, suas distrações? Elas talvez não façam nada de realmente repreensível, mas em vez de construir nelas mesmas algo de sólido, de estável, perdem tempo e forças com futilidades. É, portanto, como se deixassem a morte introduzir-se nelas. Tudo que não é essencial é o que Jesus chama de “os mortos”: lixo, restos que devemos jogar fora, pois perderam os elementos da vida divina e espiritual.

Entender o essencial é sentir a necessidade de organizar nossa vida ao redor desse centro, o espírito, essa centelha que nos habita e que é o indício de nossa filiação divina. Dessa forma é que todas as nossas atividades, e até mesmo nossas distrações, contribuirão para alimentar a vida em nós. O espírito que habita no homem não rejeita o fígado, os intestinos ou os pés, sob o pretexto de não serem órgãos ou membros tão nobres quanto ele. Tudo está em seu devido lugar, e o espírito faz uso de tudo. Mas ele permanece no centro, caso contrário, é a morte; e quando a morte está presente, não há mais nada a fazer.

Por que tantos homens e mulheres que se adoravam acabam cansados uns dos outros e se separam? Porque se voltaram demais para os “mortos” e acabaram por morrer também. Se tivessem cuidado de preservar a vida neles, de embelezá-la, de torná-la poética, continuariam a se entender e a se amar. Não quero intrometer-me muito nessas coisas, mas de que serve, por exemplo, a maquiagem nas mulheres? Para dar a ilusão da vida. Elas sentem instintivamente que é a vida que os homens buscam, e acentuando no rosto as cores da vida tentam tornar-se mais atraentes. Pode funcionar, é claro, mas não basta, e, além disso, não dura.

Em certos contos lemos que, para seduzir homens, demônios femininos adquirem, mediante procedimentos mágicos, fascinante aparência juvenil. Naturalmente, os pobres infelizes se deixam apanhar, a ponto de casar com essa encantadora criatura, mas algum tempo depois eles acabavam enlouquecendo e, em alguns casos, perdiam a vida... Até o dia em que um, mais sábio e mais instruído que os outros, se conscientiza da natureza dessa entidade que tem diante de si: consegue quebrar o encanto e a jovem de aparência tão sedutora vira pó, gritando alucinada. Sim, uma metáfora sobre a morte espiritual que procura adquirir a aparência da juventude da vida... Esses contos têm um significado profundo.

Como Deus fez as coisas, como a natureza fez as coisas? Eis as questões que vocês devem estudar, para entender Deus e mesmo imitá-lo. Esforcem-se sempre para colocar o essencial no centro de sua vida e instalar-se no essencial, procurando identificar-se com ele. Então, todo o resto, a família, os amigos, as posses, as ocupações e até as diversões encontram seu devido lugar, pois vocês os associam ao essencial, caso contrário... Enquanto não tiverem entendido sobre o quê edificarem sua existência, nada do que possuírem permanecerá com vocês por muito tempo: sua mulher, seus filhos, seus amigos, suas posses, sua saúde... de uma maneira ou de outra, vocês hão de perdê-los. Faltando no centro essa força que unifica, que preserva, que governa, todos os elementos começam a se dispersar, e nesse momento ocorre a morte espiritual.

Os seres humanos têm seu corpo, vivem com ele, cuidam dele, o alimentam, o lavam, o vestem e até o maquiam, mas não procuram compreender o que esse corpo quer lhes dizer com seus membros e seus órgãos. Pois bem, nesse corpo animado por um espírito eles devem aprender uma lição: como Deus pensou as coisas, pondo seu corpo à serviço de seu espírito; e que se inspirem nessa lição para conduzir sua vida, isto é, que ponham tudo que é material e efêmero a serviço do essencial...

O material e o efêmero sempre terão um papel a desempenhar em nossa vida, mas para que esse papel seja benéfico devemos fazer com que ele participe das atividades do espírito. Quantas pessoas não passam a vida em busca de conhecimentos e aventuras! O resultado dessa busca lhes proporciona, depois de algum tempo, a impressão de estar vivendo a verdadeira vida, mas quando ouvimos falar a respeito, anos depois, temos a impressão de que a experiência foi como areia que deixaram escorrer por entre os dedos.

Os turcos dizem: “até os 40, gastamos dinheiro para ficar doentes; depois dos 40 gastamos dinheiro para recuperar a saúde.” Eu me lembro de ouvir isso quando era jovem, na Bulgária. Essa é a situação da maioria dos homens: valem-se de todos os meios à sua disposição para usar e abusar de seus recursos físicos e psíquicos. No momento, têm a sensação de estar vivendo, Mas não é “o momento” que conta, e sim, anos depois, quando fazemos o balanço de nossa vida. Por isso é que, de vez em quando, é preciso rever nossas escolhas e atividades, perguntando-nos: “O que me proporciona tudo o que escolhi?... Será que não estou enterrando mortos? Que posso fazer para estar vivo?”

Acreditem, a única ciência que realmente vale a pena aprofundar é a ciência da vida, pois funciona como uma chave e abarca todas as outras. Vocês lêem e estudam, isso é ótimo, mas não é a leitura que lhes dará a vida. Em compensação, poderão entender melhor o que lêem se já tiverem avançado no campo da vida. E ainda que passem o tempo ouvindo ou tocando música, por mais bela e inspirada que seja, que poderá proporcionar-lhes essa música? Será que saberão, graças a ela, orientar-se melhor? Não, pois é necessário também um outro saber. Sem a ciência da vida, nada tem sentido. Conseguimos tudo o que queremos sem entender o desejo que nos move e sem saber o que deve ser feito com o que obtemos. Por isso, somos incapazes de aproveitar plenamente mesmo as conquistas mais difíceis.

Ficou claro por que Jesus insiste tanto na vida? Porque é a compreensão dela que nos permite entrar em relação com Deus, nosso Pai. Até então, só podemos ter concepções errôneas do Criador, pois são superficiais. Em vez de buscar Deus em nós mesmos, nessa vida que Ele nos deu, contentamo-nos com o que foi dito por outros a seu respeito, e então pesamos os prós e os contras, levantamos questões, duvidamos, nos perguntamos se Ele existe ou não... Dessa maneira nunca chegamos a nada. Mas faça com que a vida brote em você e nunca mais terá dúvidas sobre a existência de Deus.

Quando um Iniciado, instruído na ciência da vida, vê os motivos de preocupação dos seres humanos e como raciocinam... oh! Ele não fica indignado, não se irrita, apenas sorri... Ainda que alguns sejam muito capazes, eruditos, na realidade são ignorantes. Não têm consciência de que a vida é limitada no tempo e no espaço e está restrita ao que vêem; não sentem que há uma Existência acima da sua, e que é para Ela que deveriam voltar o pensamento. Suas buscas, suas aquisições são tão limitadas! Não lhes dão a mínima noção do que é a verdadeira vida que sai de Deus. Então, um Iniciado sorri gentilmente, muito amistosamente, sem magoar ninguém. Ele vê – e muitas vezes fica triste. Gostaria de ajudar, mas não só elas não o ouvem como se sentem muito satisfeitas consigo mesmas, dizendo: “Nós, os que compreendemos... nós, os inteligentes... nós, os normais... nós, os sensatos...”, e o olham com piedade: quem é esse velho com tantas idéias ultrapassadas?

Mas vocês, que estão numa Escola onde lhes ensinam a ciência da vida, o modo de entendê-la e realizá-la, tratem de levar a sério essa ciência! Ao longo das atividades do dia, procurem colocar-se em um estado de espírito em que a vida divina possa fluir através de vocês, vivificando todas as criaturas e todos os objetos ao seu redor. Quando o homem adquire consciência de que é o depositário da vida divina, a Mãe Natureza o considera um ser inteligente, verdadeiro filho da luz, e começa a amá-lo, abre suas portas e lhe oferece trajes de festa para que ele participe de seus banquetes e de seus mistérios.

O estudo da vida deve prosseguir por milhões de anos, pois é uma ciência sem fim. E é isto que a torna tão apaixonante. Uma vez tendo começado, você sente que jamais poderá parar. Eu escolhi essa ciência para minha profissão. Sim, foi essa ciência que escolhi, a mais desprezada, a mais desdenhada, sabendo de antemão que não encontraria muitos interessados em estudá-la comigo. Então, por que insisto? Porque aquilo que é desprezado hoje será apreciado amanhã. A ciência da vida é essa pedra de que fala Jesus: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.”

Evidentemente, como eu me concentrei na vida, negligenciei os outros campos; por isso tenho grandes lacunas. Sou ignorante sobre uma série de coisas, mas isso não me preocupa. Se fosse possível, é claro que eu preferiria saber tudo, conhecer tudo, mas precisaria dedicar a isso muito tempo, muita energia, em detrimento da vida. Por outro lado, também cursei universidades, e poderia falar-lhes uma grande variedade de temas, como fazem milhares de professores e conferencistas pelo mundo afora. Só que me sentiria deslocado, fora de propósito, como se não fosse o meu trabalho, o meu dever, a minha vocação, o meu elemento... como se estivesse pisando num terreno que não é meu. Por isso, deixo todos os demais temas aos especialistas e me concentro na vida. Aprender a receber e a transmitir a vida, porque aí está a verdadeira magia.

Vocês jamais lamentarão ter dado à vida o lugar mais importante. Portanto, não esperem que ela os abandone para, só então, buscarem entender o que perderam ao correr atrás de todo o resto. Eu apelo ao Céu apenas isto: que me dê a vida, sem grandes preocupações em ter longevidade, mas apenas essa sensação de pertencer à vida cósmica, à vida do universo, das estrelas. E para poder falar-lhes assim da vida sou obrigado a trabalhar em minha própria vida. Caso contrário, o que poderia transmitir-lhes?

Embora esteja também fora de nós, a vida divina está em nosso interior. E embora não sejam lá muito numerosos, existem na Terra seres que já entenderam a importância e a beleza dessa vida. O que fazer, senão decidir participar do seu trabalho? Pois àquele que busca a verdadeira vida, Deus mostra onde estão os seres que a encontraram, para que possam ajudá-lo e levá-lo com eles. Mesmo em meio às maiores dificuldades, ninguém está completamente isolado. Veja o que costuma acontecer durante uma guerra: resistentes se agrupam em organizações, mudam de nome, passam a usar códigos, para que só possam reconhecer-se aqueles que decidiram lutar juntos pela liberdade de seu país... e acabam triunfando. Pois bem, o mesmo acontece com os filhos de Deus: dispõem de todos os meios necessários para se reconhecer e trabalhar juntos.

E quando houver na Terra muitos seres capazes de viver essa vida divina, ela transbordará por toda parte, como ondas de água pura; será verdadeiramente a nova vida, não só para alguns indivíduos aqui e ali, mas para toda a humanidade. Isso levará muito tempo, claro, mas pouco importa o tempo, é preciso dar início a esse trabalho, o trabalho dos filhos e filhas de Deus. Os filhos e as filhas de Deus só pensam em melhorar a vida, torná-la pura, luminosa, bela, abundante, a fim de propagá-la, distribuí-la, compartilhá-la com todos. Não será deles que Jesus dirá que são mortos ocupados em enterrar outros mortos; não, eles estão vivos, pois trabalham com ele para fazer fluir a vida divina.


domingo, abril 06, 2014

Meditação Matinal

Osho


Primeira coisa de manhã, imagine-se tremendamente feliz. Saia da cama com um humor muito feliz; radiante, borbulhante, expectante; como se algo perfeito, de infinito valor, fosse acontecer hoje. Levante-se da cama com um humor bem positivo e esperançoso, com o sentimento de que esse dia não vai ser um dia comum, que algo excepcional, extraordinário, está esperando por você; algo que está bem perto.

Tente e se lembre disso de novo e novamente durante o dia todo. Dentro de sete dias você verá que todo seu padrão, todo seu estilo, toda sua vibração, mudou.

Quando você for dormir à noite, apenas imagine que você está caindo nas mãos divinas... Como se deus estivesse lhe sustentando, que você está no colo dele, adormecendo. Apenas visualize isso e adormeça. Uma coisa para levar é que você deve prosseguir imaginando e permita que o sono venha, para que a imaginação entre no sono; eles estão sobrepostos.

Não imagine qualquer coisa negativa, porque se as pessoas que possuem uma capacidade imaginativa imaginarem coisas negativas, elas começam a acontecer. Se você pensa que você vai adoecer, você vai ficar doente. Se você pensa que alguém vai ser rude com você, ele será. Sua própria imaginação irá criar a situação.

Assim, se uma ideia negativa vier, mude imediatamente para um pensamento positivo. Diga não a ela. Deixe-a imediatamente; jogue-a fora.

Dentro de uma semana você começará a sentir que você está ficando muito feliz; sem absolutamente nenhum motivo.


quinta-feira, abril 03, 2014

"Livrar-se da ilusão" é Ilusão


OSHO


Haikyu disse: "A ilusão obstrui a Mente; como pode a ilusão ser afastada?"

Obaku disse: "Criar ilusão, livrar-se da ilusão - ambos são ilusões, porque a ilusão não tem nenhuma raiz: ela aparece em razão da discriminação. Se você não pensar nos contrários - tais como comum e superior - a ilusão cessa por si mesma e, então, como você pode livrar-se dela? Quando não há nem a espessura de um fio de cabelo de alguma coisa para considerar, isto é chamado de 'ceder com ambas as mãos' e, assim, receber o estado-de-buda".

Haikyu perguntou: "Não havendo nada para se considerar, como pode alguma coisa ser transmitida?"

Obaku  respondeu: "A Mente é transmitida pela Mente".

Haikyu perguntou: "Se a Mente é transmitida, por que você diz que não há tal coisa como Mente?"
Obaku disse: "Não receber a lei é chamado de 'transmissão da Mente'. Se você compreender o que é esta Mente, isso é a Não-Mente, a Não-Lei."

Haikyu perguntou: "Se não há nenhuma Mente, e nenhuma Lei, como você pode falar sobre 'transmitir' algo?"

Obaku disse: "Quando você me ouve dizer 'transmissão da Mente', você pensa que há 'algo' a ser transmitido, por isso um patriarca declarou: 'Quando você percebe a natureza da Mente, você fala dela como um maravilhoso mistério. A iluminação é inatingível. Quando atingida, você não a descreve como algo conhecido'".

Obaku perguntou: "Se eu o persuado a compreender isto, você acha que poderia?"


Este sutra está relacionado com a religião autêntica, está relacionado com vocês, em sua consciência mais profunda, no florescimento de cada um de vocês como seres individuais.

Haikyu disse: "A ilusão obstrui a Mente; como pode a ilusão ser afastada?"

A questão parece ser relevante e lógica, porque todos os budas, todos os acordados têm dito que a ilusão obstrui a Mente. Eu tenho de lembra-los de uma coisa: os budistas escrevem "mente" com um eme minúsculo, quando eles querem dizer "sua mente". E quando eles querem dizer "a mente universal", eles escrevem "mente" com um eme maiúsculo. Nesta questão, "Mente" com eme maiúsculo significa "consciência" - não é a pequena mente, mas a mente do todo da existência.

O inglês é uma língua pobre, comparada ao sânscrito, especialmente no que concerne à experiência religiosa. O sânscrito possui uma dúzia de nomes de consciência, assim como os esquimós têm doze nomes diferentes para o gelo. Nenhuma outra língua precisa de tantos nomes - os esquimós conhecem as diferentes qualidades, porque eles têm vivido, durante séculos, na neve. Da mesma forma, neste país (a Índia), muitas pessoas têm florescido até o momento em que elas não mais são corpos e não mais estão com a pequena mente, mas se tornaram a mente do universo.

A pergunta que Haikyu está fazendo é relevante: "A ilusão obstrui"... - assim dizem todos os budas - "... como pode a ilusão ser afastada?" Obviamente, ele está pedindo um método, uma técnica. E aí é onde as pessoas ficam perdidas. Você não pode se livrar das ilusões. Você pode se livrar dos seus sonhos? Quando você está sonhando, você pode sair do seu sonho e entrar nele de volta? Você não pode dispersar um sonho, não pode cria-lo, não pode descria-lo, mas pode, contudo, livrar-se dele ao se tornar consciente, simplesmente pulando fora da cama.

Obaku disse para a questão de Haikyu:

"Criar ilusão, livrar-se da ilusão - ambos são ilusões, porque a ilusão não tem nenhuma raiz: ela aparece em razão da discriminação. Se você não pensar nos contrários - tais como comum e superior - a ilusão cessa por si mesma e, então, como você pode livrar-se dela?"

Você pergunta, quando acorda, como se livrar dos sonhos? Uma vez que você acorde, você jamais pergunta - nem uma única pessoa, em toda a história, jamais perguntou. Quando a pessoa está acordada, ela está fora dos sonhos e não existe a questão de livrar-se deles. A própria ideia de "se livrar de" significa que você ainda os tem. Esta é uma afirmação muito significativa de Obaku, de que: "Ilusão é ilusão. Livrar-se da ilusão é ilusão. Simplesmente, fique acordado!" Não há nenhuma necessidade de livrar-se dela.

Ilusão é como escrever no ar, como bolha de sabão.

"Quando não há nem a espessura de um fio de cabelo de alguma coisa para considerar, isto é chamado de 'ceder com ambas as mãos' e, assim, receber o estado-de-buda".

Esta é uma expressão Zen: "dar com ambas as mãos" quer dizer "dar totalmente", não friamente. Suas duas mãos representam a sua totalidade. Sua mente é dividida em duas partes. Sua mão direita representa sua mente esquerda; a mão esquerda representa sua mente direita. Transversalmente, elas estão conectadas.

Assim, isto é um símbolo de totalidade: dar com ambas as mãos - sem deixar nada à parte, sem segurar nada. E um homem que pode dar-se à existência com ambas as mãos, acorda, torna-se, ele mesmo, um buda.

"Ceder com ambas as mãos e, assim, receber o estado-de-buda".

Não seja enganado pela linguagem. É a pobreza da língua que faz com que palavras que não podem ser exatas tenham que ser usadas. "Receber o estado-de-buda"... A palavra "receber" não está certa, porque o estado-de-buda não vem de algum/outro lugar.

Se eu estivesse no lugar de Obaku, eu diria: "Abra as mãos e você é um buda". Seu apego, sua avareza, seu envolvimento são os únicos problemas. Apenas seja tão aberto quanto o céu, e o estado-de-buda floresce no seu ser.

Haikyu perguntou: "Não havendo nada para se considerar, como pode alguma coisa ser transmitida?"

Ele parece ser de uma mente filosófica. Suas perguntas são lógicas, mas a realidade é que o Zen, ou a existência, ou o ser, simplesmente estão presentes, sem nenhuma lógica. Ele está perguntando:

"Não havendo nada para se considerar, como pode alguma coisa ser transmitida?"
Obaku  respondeu: "A Mente é transmitida pela Mente".

Mente com eme maiúsculo. A tradução deveria ser: "A consciência é transmitida pela consciência". Eis o que ele quer dizer ao escrever "Mente" com eme maiúsculo. Quando há silêncio e nenhuma mente pequena, nenhum pensar, nenhum pensamento - quando há espaço aberto -, subitamente dois espaços abertos se tornam unos, sem qualquer esforço. Não há meio de mantê-los separados. Vocês podem manter dois espaços abertos separados?

Haikyu perguntou: "Se a Mente é transmitida, por que você diz que não há tal coisa como Mente?"

Haikyu não compreende a diferença entre a mente - com eme minúsculo - e a Mente - com eme maiúsculo. E o tradutor não compreende nem que, por "Mente" com eme maiúsculo, algo mais pode ser usado: consciência, testemunha, observador. O uso da mesma palavra cria confusão desnecessariamente. Não existe tal coisa como "a pequena mente". Esta é apenas poeira sobre o espelho. Simplesmente, limpe o espelho e ele começa a refletir todas as estrelas e a lua no céu.

O que são seus pensamentos, exceto poeira? Toda noite nós tentamos desempoeirar, tanto quanto possível, porque nós temos estado a acumular poeira durante muitos séculos, durante muitas vidas. Camadas espessas estão assentadas por cima da nossa consciência e, de algum modo, se você não desempoeirar o espelho todo dia, ele ficará coberto de poeira. À medida que o tempo passa, a poeira se acumula novamente. Você tem de limpar o espelho a cada dia. E, no que concerne à sua consciência, você tem de clareá-la a todo momento. Não permita, a nenhum pensamento, assentar-se na sua consciência. Todo pensamento corrompe. Fique sem nenhum pensamento, seja simplesmente uma pura abertura, uma claridade. Isso é o que se quer dizer por meditação.

Obaku disse: "Não receber a lei é chamado de 'transmissão da Mente'. Se você compreender o que é esta Mente, isso é a Não-Mente, a Não-Lei."

É difícil compreender a linguagem, porque a linguagem do Zen é muito especial. Se você está consciente, não há nenhuma mente e não há nenhum dharma - nem há nenhuma religião tampouco. Você é afogado na música do cosmos. Sua pulsação se torna parte da pulsação universal.

Mas o pobre Haikyu parece estar empacado pela sua mente lógica. Ele diz:

"Se não há nenhuma Mente, e nenhuma Lei, como você pode falar sobre 'transmitir' algo?"

Ele continua insistindo repetidamente - ele parece ser absolutamente incapaz de ir além da lógica.

Obaku disse: "Quando você me ouve dizer 'transmissão da Mente', você pensa que há 'algo' a ser transmitido (...)"

Transmitir consciência não é nem transmitir, nem dar: é apenas um meio de se dizer algo inexequível para a língua. Posso olhar dentro dos seus olhos e isto é transmissão. Neste silêncio, eu estou lhes dando, com ambas as minhas mãos, o seu estado-de-buda, não estou dando nada, mas apenas acordando-os.

"Quando você percebe a natureza da Mente, você fala dela como um maravilhoso mistério. A iluminação é inatingível. Quando atingida, você não a descreve como algo conhecido".

A iluminação é inatingível, porque você já é iluminado. Você apenas esqueceu disso. Não é uma questão de atingi-la, mas de relembrá-la. E se quando você a relembra, você não tem nada a dizer sobre ela, porque qualquer coisa dita está fadada a ser errada. Nenhuma palavra pode conter a sua espiritualidade; nenhuma palavra pode conter a sua luz interior; nenhuma palavra pode conter a sua imortalidade.

Obaku perguntou: "Se eu o persuado a compreender isto, você acha que poderia?"

Eu também estou fazendo a mesma pergunta a todos vocês: podem vocês abandonar a ideia de obtenção e apenas ser? Tentar livrar-se da ilusão é ilusão. Tentar obter a realidade, a verdade, também é ilusão. Podem vocês se esquecer de qualquer esforço para atingir, para saber, para perguntar, e apenas ser um ser luminoso? Então vocês terão encontrado o indescritível, o misterioso, a verdadeira verdade da sua existência, o significado e a significância.

Basho escreveu um poema sobre este diálogo:

Separados, meus amigos,
Seremos para sempre.
Como gansos selvagens
Perdidos nas nuvens.

Basho está dizendo que: se vocês pensam com a mente lógica... ficaremos separados dos nossos próprios seres e do ser da existência, que não são duas coisas. Uma gota de orvalho tem em si todo o oceano.


segunda-feira, março 31, 2014

A Verdade da Budificação do Homem - 7/7

Masaharu Taniguchi


Entretanto, compreender que "eu, assim mesmo, sou Buda" é compreender a essência da liberdade absoluta; e, se transmitirmos isso a quem não está preparado, este poderá abusar dessa liberdade em seu estágio intermediário de aprimoramento. É por isso que as práticas secretas do esoterismo não são transmitidas facilmente a qualquer um, e recomenda-se que o interessado as aprenda diretamente dos mestres do esoterismo. Quanto à prática da Meditação Shinsokan da Seicho-No-Ie, quem a aprende e pratica, no começo consegue concretizar tudo o que deseja, e, então, certas pessoas passam a se aproveitar dela para satisfazer seus desejos egoísticos. Tais pessoas logo perdem o poder de suas práticas e caem em desgraça. Por isso, o esoterismo Shingon não ensina facilmente o seu segredo a pessoas comuns.

Pensando bem, o esoterismo constitui coração de Vairocana e cérebro de Shukôngo-Himitsushu. Se você o transmitir aos que não estão preparados, estará cometendo pecado de sangrar o corpo do senhor do esoterismo. A respeito disso, Vairocana disse outrora a Himitsushu: "Não deves transmitir a quem não esteja preparado. Se o fizeres, estará comentendo o pecado de sangrar o corpo de Buda". E Himitsushu disse a Nargajuna: "Respeitosamente digo que Buda Vairocana prega o esoterismo pelo bem da humanidade. Todos os seres vivos recebem a sua graça. Entretanto, essa Verdade é como a parábola do nyoi-hôju. Ouvimos falar em nyoi-hôju, mas ele não se mostra. Porém, ele origina mil e um tesouros e beneficia todos os seres. Ele está oculto no Ryugu (palácio do dragão), no fígado do rei dos dragões, mas não se mostra. Assim também é o ensinamento mais precioso do esoterismo. Por isso, julgando-te bom conhecedor da Verdade, não transmitas levianamente o segredo do esoterismo aos que não estejam preparados. Se encontrares alguém com excelente dom para o despertar, transmite-lhe apenas os ensinamentos notáveis e observa-lhe a evolução espiritual. Após isso, transmite-lhe uma parte da grande Verdade esotérica." (da obra póstuma de Kobo-Daishi)

Pelo que acabamos de ver, não posso escrever claramente sobre os métodos secretos do esoterismo Shingon, mesmo porque eu próprio não os aprendi diretamente de um ajari (mestre habilitado para transmitir o esoterismo).

Mas será que o esoterismo é algo tão difícil de entender? Aprendê-lo formalmente é muito complicado, pois é necessário estudar a forma de entrelaçar os dedos das mãos, o modo de recitar o mantra, o modo de purificar o corpo, o modo de queimar o incenso, etc. Isso não é possível ser descrito em palavras. Não há outro meio senão aprender diretamente de um ajari e, mesmo que alguém pretenda aprendê-lo, não o ensinam para quem não tem dom para isso. Porém, não será difícil se o tentarmos pela introspecção, pois "o coração de Buda Vairocana e o cérebro de Shukôngo Himitshushu" estão dentro de nós mesmos. Se Buda Vairocana está dentro de nós, a sua Imagem Verdadeira também está dentro de nós, assim como o seu espírito do despertar, obviamente. A questão é "Como manifestar isso?". Será que isso consiste em formalidades físicas e rituais complicados?

Como já disse anteriormente, a budificação do homem não consiste em ele tornar-se Buda no futuro. O homem já é Buda, e o que já é Buda torna-se realidade por meio de contemplação (visualização) e mentalização. Todas as formalidades, os cerimoniais e rituais não passam de meios para ajustar a visão e a mentalização. Não são os cerimoniais e os rituais que levam à budificação. A Imagem Verdadeira do homem já é Buda desde o princípio. Mas, se a nossa mente for perturbada pela interferência de pensamentos mundanos e ilusórios, não poderemos enxergar a Imagem Verdadeira perfeita, harmônica e pura, muito menos manifestá-la nas atividades do dia a dia. Então, precisamos recorrer a algum meio para afastar essas interferências de pensamentos ilusórios. Esse meio consiste nas diversas práticas secretas do budismo Shingon.

Não são os meios ou as práticas em si que promovem a budificação; aquele que já é Buda é que se manifesta quando, por meio dessas práticas, se eliminam as impurezas que o encobrem. Se não houvesse outro modo para eliminar essa cobertura a não ser pela orientação direta de um ajari, não haveria salvação (manifestação de Buda – Imagem Verdadeira) para os que não têm chance de aprender as práticas secretas diretamente de algum ajari. Assim, a grande maioria das pessoas não poderia ser salva. Será que isso é vontade de Buda-Vairocana? Devo responder que não é. Se o homem não pode ser salvo a não ser submetendo-se a tais rituais complicados, a maioria das pessoas comuns não terá meio de salvação.

Surgiu, então, um grande mestre chamado Shinran (fundador da seita Shin, uma ramificação do budismo) para resolver essa situação. Ele pregou que basta recitar "Namu Amida-Butsu" para ser salvo. Assim, ele inventou uma religião que elimina, por um método tão simples, a ideia ilusória que diz "não posso ser salvo". Referindo-se a difíceis práticas e rituais preconizados pelo budismo de até então, ele os qualificou como "práticas e rituais inúteis" ou "caminho difícil de entender e seguir". Considerando-os como práticas inadequadas a pessoas comuns, ele abriu um outro caminho, o caminho de fácil prática.

Naturalmente, o ensinamento de Shinran não diz que a recitação "Namu Amida-Butsu" seja para eliminar a atuação de pensamentos ilusórios. Diz que o homem é salvo pelo infinito poder de Buda, por maior que seja a interferência dos pensamentos ilusórios. Isso é semelhante à sugestão inversa aplicada no hipnotismo. Quando o hipnotizador sugestiona o paciente dizendo "Afaste as preocupações e se concentre para poder entrar em estado de hipnose", o paciente pode pensar "Como afastar as preocupações? Como vou conseguir me concentrar? Será que vou conseguir entrar em transe?", e essas preocupações agitam a mente e impedem a hipnotização. Nesses casos, o hipnotizador diz "Pode se preocupar o quanto quiser. Quanto mais você ficar preocupado, torna-se mais suscetível à sugestão. Quanto mais você resistir, mais facilmente será hipnotizado. Quanto mais se agitar a sua mente, mais aumenta o meu poder de adormecê-lo. Viu, você ficou com sono!" (um exemplo de método para hipnotizar os resistentes).

Sugestionando desse modo, desaparece da mente do paciente a preocupação de afastar a preocupação, a mente se concentra, e o paciente entra rapidamente em transe. Da mesma forma, eliminando a ideia "não posso ser salvo" com a sugestão "Vairocana tem um poder tão grande que nem dá pra imaginar (igual à sugestão: 'O hipnotizador tem infinito poder de hipnotizar'); você será salvo, mesmo que tenha muitos pecados, mesmo que esteja perturbado por muitos pensamentos ilusórios (equivalente à seguinte sugestão do hipnotizador: 'Por mais que você tenha preocupações, não importa, pois vai ficar com sono'); se até os bons vão para o céu, com muito mais razão os maus (semelhante à sugestão hipnótica: 'Quanto mais preocupações tiver, mais facilmente entrará em transe'). Desta forma, a salvação pela força alheia pregada pela Shinsu consiste em budificar o homem eliminando a ideia ilusória que diz "não posso ser salvo". Por que o homem se realiza como Buda quando se elimina a ideia de que "não pode ser salvo"? É porque ele é originariamente Buda.

"Toda a humanidade é satva (bodhi) por toda a vida, mas, por estar dominada por avareza, ira e ignorância, os misericordiosos budas pregam sabiamente a concentração mental altamente secreta, ensinando os praticantes a visualizar e contemplar com sua mente o Sol ou a Lua. (...) Todas as pessoas encerram dentro de si a mente do Fugen-bosatsu." (trecho já citado: Hotsu-bodai-shin-ron, de autoria de Nargajuna)

A obra Ichigodaiyô-Himitsushu, de autoria de Kobo Saishi, também diz:

Todos os seres que possuem mente são dotados de cento e oito sabedoria dos cinco sábios, que são Dainichi-Nyorai, Ashuku-Nyorai, Hôsho-Nyorai, Mida-Nyorai e Fuku-Nyorai, e também de uma infinidade de budas sábios e budas racionais, e, portanto, não existe nenhum ser humano que não se realize como Buda; deves conduzi-los todos ao despertar.

A sutra Kan-fugen-busatsu-gyohô-kyô, que é uma das três partes que compõem a Sutra do Lótus, ensina a contemplar (visualizar) Fugen-bosatsu, e o esoterismo Shingon ensina a visualizar a lua cheia e contemplar a letra A (अ) dentro da lua cheia. Cada religião tem o seu ritual secreto que é transmitido diretamente do mestre para o discípulo, mas "todas as pessoas encerram dentro de si a mente de Fugen-bosatsu" e "toda a humanidade é Buda realizado na sua Imagem Verdadeira. E a Imagem Verdadeira, que é existência verdadeira, é mais poderosa do que qualquer força da falsa aparência (a nuvem, por mais poderosa que seja, não pode apagar a Lua; apenas a encobre). Basta então, acalmar a mente presa à falsa aparência, que aparecerá a perfeita e harmoniosa Imagem Verdadeira.

Mentalizar simplesmente o mantra "Namu Amida-Butsu" é um método para eliminar a mente que se prende à falsa imagem; visualizar a imagem de Fugen-bosatsu para serenar a mente e contemplar a mente de Fugen que existe dentro de nós é também uma forma; outra forma é aquela do esoterismo Shingon, que consiste em representar externamente a imagem de Buda por meio de zaho (postura específica com que se senta) e inkei (entrelaçamento de dedos das mãos - carma corporal), recitando Shingon (palavras de Buda - carma verbal), e, ainda, visualizando a lua cheia, contemplar a letra A (अ) que se mostra dentro do círculo lunar (carma mental). Além disso, existem complicados rituais e mantras praticados por ascetas esotéricos, tais como dharani (um tipo de mantra), kiai (emissão de voz), gomá (queima de incenso) e diversas práticas tão difíceis que pessoas comuns não conseguem praticar e nem dá pra descrever.

Porém, partindo do princípio básico de que o homem "já é Buda realizado" e "bodhi por toda a vida", acredito que pronunciar simplesmente "Namu Amida-Butsu" ou praticar o Shikan-taza (praticar concentradamente a meditação zen) ou contemplar Fugen-bosatsu, ou ainda praticar os rituais do esoterismo Shingon, todos eles são bons meios para eliminar "avareza e ignorância" (tipos de pensamento ilusório) e permitir a manifestação do estado natural (Imagem Verdadeira).

Bem, diante do que foi exposto até aqui, podemos compreender que o caminho para tornar o homem Buda também no mundo fenomênico, que já é Buda na sua Imagem Verdadeira, basta que seu estado mental se torne natural. Porém, se o tentarmos por meios formais e externos, será muito difícil e complicado, pois cada religião tem o seu método peculiar, esconde-o dizendo que é secreto, que somente pessoas com dom especial conseguem aprendê-lo, ou que não pode transmitir o seu segredo a não ser para quem faça um donativo vultoso. Desse modo, é muito difícil que todas as pessoas sejam salvas. Uma religião democrática precisa se tornar mais universal. Se o zen é praticado por quaisquer pessoas e se o "Namu Amida-Butsu" é recitado por quaisquer pessoas, é porque são simples. Acredito que, compreendendo o princípio básico, qualquer pessoa poderá aprender mais facilmente as praticas secretas do esoterismo Shingon e alcançar a salvação.

A seguir, vou extrair da Ichigo-daiyô-himitsushu, de autoria do mestre Kobo, a explicação da letra अ (A, em sânscrito) e expor o método para contemplar o círculo lunar e, com a mente serenada, conscientizar a Mente da Imagem Verdadeira, perfeita e pura.

Pergunta: Como é o método para contemplar isso corretamente?

Resposta: Desenhe a letra अ ou a Lua. Pinte-a de branco-pérola, de modo a torna-la sublime e bela, e afixe-a num lugar limpo. Sente-se diante dela, a uma distância de 4 pés (aproximadamente 122cm). Ao abrir os olhos, olhe-a gradualmente de baixo para cima. Ao fechar os olhos, olhe-a gradualmente de cima para baixo. Olhe-a e contemple-a acompanhando a respiração. Inspirando lentamente, vá abrindo os olhos, vendo a imagem da lua cheia de baixo para cima. Expirando lentamente, veja a imagem de cima para baixo. Controlando a respiração e serenando a mente, repita isso várias vezes, para entrar no estado de concentração. No início, essa prática pode ser difícil, mas, com o passar dos dias, ela se torna fácil. Mesmo com os olhos fechados e sem olhar para a imagem, esta passa aparecer na visão mental. Se isso acontecer, não olhe mais para a gravura. Serene a mente apenas por meio da sensação dos olhos cerrados.

É simplesmente isso. A explicação é longa, mas a prática é simples. Desenha-se uma lua cheia de uns 60 centímetros de diâmetro, pairando acima de uma flor de lótus, e contempla-se essa imagem. Quanto a mim, como não tenho disposição para desenhar uma lua cheia, tomo a postura de Meditação Shinsokan, com os olhos fechados e mãos postas, e, por trás das pálpebras, visualizo uma flor de lótus branca e, acima dela, pairando uma lua cheia de uma 60 centímetros de diâmetro. Fito-a, vejo-a, se aproximar de mim lentamente até envolver todo o meu ser, visualizo a aura emanada do meu ser como uma lua cheia límpida e, quando sinto que minha mente está praticamente concentrada, pronuncio ou mentalizo "A minha aura é como a lua cheia límpida e, a minha imagem é a de lua cheia límpida". Dessa forma, dissolvo-me na imagem em que estou identificado com a lua cheia límpida e serena.

Quando, assim, entro em estado de concentração mental, visualizo em forma de letra अ (A, em sânscrito) o meu corpo assentado dentro da luz cheia. Este método é conforme a explicação da contemplação da letra अ feita pelo mestre Kobo: "Na flor de lótus branca com oito pétalas de cinquenta centímetros, a letra अ emite claramente a luz de cor branca". Em seguida, mentalizo: "A letra अ é o corpo espiritual de Buda Grande Sol". E finalizo mentalizando e visualizando "Sou a letra अ, sou o corpo espiritual de Buda Grande Sol: a aura serena da lua cheia me envolve; assim como a lua cheia é perfeita, eu também sou perfeito, sou dotado de todas as virtudes, sou plenificado da sabedoria de Buda".

A contemplação da letra अ praticada na Seicho-No-Ie pode ser um tanto diferente do método secreto do esoterismo Shingon, mas será suficiente se a praticarmos com base na Verdade de que a Imagem Verdadeira do homem é Buda realizado. Se nos prendermos a um método complicado, nossa mente ficará apenas confusa. O importante é praticá-la todos os dias e acumular experiência. Algumas pessoas podem duvidar que se possa alcançar o despertar com meditação contemplativa como essa, mas o mestre Kobo, na sua obra retro criada, responde à pergunta "Que devo contemplar para alcançar o despertar?"

Resposta: Se deseja alcançar o supremo despertar (despertar de Buda), contemple com profunda fé o corpo espiritual de Buda.

Contemplar a letra अ é contemplar o corpo espiritual de Buda. Contemplar (ver) é manifestar, é o fato de a mente se transformar naquilo que está contemplando.

Pergunta: Quem treina a concentração mental levará quanto tempo para alcançar o despertar?
Resposta: Se treinar continuamente, conseguirá resultados materiais em menos de doze anos, e obterá também resultado imateriais em seguida.
Pergunta: Conseguirei realizar-me como Buda somente com essa contemplação?
Resposta: sim, somente com essa contemplação, e não precisará de mais nenhum outro tipo de treinamento. Até preguiçosos e menos dotados conseguirão alcançar o paraíso. Os esforçados e mais dotados conseguirão a budificação do corpo e resultados maravilhosos.

Como vimos, o mestre Kobo afirma categoricamente que por esse método se consegue a budificação, sem sombra de dúvida. Porém, diante da necessidade dessa prática por doze anos, o leitor poderá pensar que os jovens tem tempo pra isso e duvidará que os idosos moribundos alcancem a budificação.

Mas o leitor pode ficar tranquilo, pois já é Buda realizado. A ilusão, que é falsa existência, parece existir, mas não existe verdadeiramente, e não é possível levar doze anos para eliminar o que não existe. Mentalize agora, já, o seguinte: "Eu sou a letra , sou o corpo espiritual de Buda Vairocana; a serena aura de lua cheia me envolve. Assim como a Lua é perfeita e harmônica, minha mente é perfeita, é dotada de todas as virtudes e da suprema sabedoria de Buda" – e contemple essa imagem (contemplação da perfeição da luz mental). Nesse momento, você já está realizado como Buda. Isso porque o tempo não existe na Imagem Verdadeira.

Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 225-237

sexta-feira, março 28, 2014

A Verdade da Budificação do Homem - 6/7

Masaharu Taniguchi


Então, o que fazer, na prática, para o homem se realizar como Buda assim mesmo como é? Como já disse várias vezes, se não se manifesta a Imagem Verdadeira na qual o homem já é Buda, é porque ele não a visualiza, não a mentaliza. Ver (visualizar) é manifestar. Mentalizar é criar forma. Mesmo que, na realidade, o indivíduo esteja dormindo num colchão de ouro, se a sua mente, não vê essa realidade e, sonhando pensa que é um mendigo maltrapilho perambulando pelas ruas, só poderá experienciar a vida de mendigo maltrapilho durante o sonho.

Se nós, seres humanos, perambulamos na vida como seres carnais sujeitos à pobreza, à doença, à velhice e à morte, é porque perambulamos em ilusão no sonho chamado cinco sentidos. Mas, quando despertamos do sonho e vemos o nosso corpo da Imagem Verdadeira, percebemos que este corpo, neste mesmo estado, é Buda Vairocana, é bodisatva Fugen.

Por isso, o mestre Kobo cita o seguinte trecho da Sutra do Grande Sol:

Se desejas nesta vida entrar no siddhi, mentaliza-o conforme sua adequação. Recebendo o ensinamento diretamente do venerável, observando-o e adequando-te a ele, conseguirás realiza-lo.

Citando esse trecho em sua obra Sokushin Jôbutsu-gi, o mestre Kobo prega a necessidade da mentalização e da visualização. Ele diz que o siddhi se realizará se a visualização e a mentalização forem adequadas à Imagem Verdadeira. Siddhi é um termo sânscrito e significa "realização sumamente maravilhosa". Para realizar o Buda Original, que é a Imagem Verdadeira sumamente maravilhosa, são necessárias mentalização e visualização (contemplação). A Sutra do Grande Sol fala em "entrar no siddhi e realiza-lo", mas nela não existe a expressão "realização deste corpo como Buda assim mesmo como é". Esta expressão aparece somente na obra Bodaishin-ron, do bodisatva Nagarjuna.

Bodaishin-ron, do bodisatva Nagarjuna, prega que este corpo se realiza como Buda somente dentro da lei do mantra, e por isso recomenda a lei da concentração mental. Isso não está escrito em nenhuma outra sutra (Sokushin-Jôbutsu-gi)

Então, como é a "budificação do corpo assim mesmo como é" pregada pelo esoterismo Shingon? Normalmente, pensa-se que este corpo carnal se torna Buda. Mas, como é possível o homem se tornar Buda? A única resposta é o fato de que o homem é Buda na sua essência. Budificação não é o fato de o homem se tornar Buda de agora em diante; ele já é Buda. A budificação já consumada se manifesta por meio da visualização (contemplação) e da mentalização.

Tradicionalmente, existem três versões para o significado da budificação do homem, a saber:

1ª – "O corpo já é Buda, assim mesmo como é";
2ª – "O homem se torna Buda juntamente com o corpo"; e
3ª – "O corpo se torna buda prontamente".

Certas pessoas acreditam que este corpo fenomênico se torna Buda e se espiritualiza, sem deixar o seu cadáver, tal como Jesus ou o profeta Elias, manifestando imediatamente poder sobrenatural igual ao de Buda. É dito que o mestre Kobo desencarnou quando meditava no seu retiro subterrâneo sem deixar o cadáver, e que, até hoje, ele percorre todo o Japão salvando as pessoas. E, na ocasião da troca de suas vestes uma vez por ano, a roupa do ano anterior está desgastada e esfarrapada devido à sua peregrinação. Os pequenos pedaços dessas vestes velhas são distribuídos aos fiéis, sob o nome de okoromo (veste sagrada), e acreditam que quem ingere um fragmento do okoromo se cura da dor de barriga. Eu desconheço a veracidade disso. Porém, se a budificação do corpo significasse desintegração e espiritualização do cadáver e sua transformação em Buda, seria muito estranho, pois, que eu saiba, nenhum dos eminentes monges do esoterismo Shingon conseguiu a budificação, excetuando o mestre Kobo. Que dizer, então, dos adeptos comuns do Shingon? Devo dizer que é impossível eles conseguirem a budificação do corpo. O mestre Kobo não iria pregar um ensinamento impossível de praticar. É evidente que não é o corpo carnal que se torna Buda. Então, como interpretar a seguinte frase do mestre Kobo?

Se alguém buscar a sabedoria de Buda e atingir o bodaishin (mente que transcende as paixões mundanais e atinge a Verdade que transcende o nascer e o morrer), comprovará o despertar de Buda em seu corpo nascido de pai e mãe.

Na Sutra do Grande Sol, encontramos o seguinte diálogo entre Buda Vairocana e Kongôshu Himitsushu:

Ó Himitsushu, o que é atingir o bodaishin? Resposta: conhecer verdadeiramente a mente própria.

Aqui diz que atingir o bodaishin consiste em "conhecer verdadeiramente a mente própria". Essa "mente própria" não se refere à ação mental produzida pelo cérebro. Ela se refere à mente verdadeira ou à Imagem Verdadeira, que é a fonte da mente cerebral e que a transcende. A ação mental originada do cérebro é inconstante, mudando sempre conforme as circunstâncias, razão pela qual tal mente não pode conhecer a mente verdadeira ou a Imagem Verdadeira, que é serena e perfeita. É preciso serenar a ação mental fenomênica por algum tempo e contemplar unicamente a Imagem Verdadeira e perfeita, visualizando-a. Na obra Hotsu-bodaishin-ron, traduzida por Fuku-Sanzô, está escrito:

Toda a humanidade é satva (bodhi) por toda a vida, mas, por estar dominada por avareza, ira e ignorância, os budas misericordiosos pregam sabiamente a concentração mental altamente secreta, ensinando os praticantes a visualizar e contemplar com sua mente o Sol ou a Luz. Por meio dessa concentração, a mente verdadeira se manifesta de modo profundamente calmo e puro como a luz da lua cheia que clareia o firmamento. Ela se chama incógnita ou mundo puro da Verdade, ou ainda mar da sabedoria do despertar da Imagem Verdadeira. Ela contem ilimitados tesouros raros de estados de concentração, tal como a lua cheia pura e clara. Isso porque todas as pessoas, encerram dentro de si a mente de Fugen bosatsu. (Hotsu-bodaishin-ron, de autoria de Nargajuna bodisatva)

O texto diz que, para controlar a mente cerebral agitada e acalmá-la, pode-se contemplar a imagem redonda e perfeita do Sol ou da Lua. Continuando essa contemplação, a mente cerebral fenomênica se acalma, e manifesta-se, de dentro, a mente verdadeira tal como a lua cheia que desponta, e a pessoa conscientiza que a sua imagem não é a de um corpo limitado como a do corpo carnal, mas sim uma imagem sem forma que preenche o firmamento.

Então Buda Vairocana explica o estado do seu despertar a Himitsushu como segue:

Caro Himitsushu, este anuttara samyak sambodhih é algo que não pode ser captado absolutamente como existência. Por que razão? Porque bodhi é como o firmamento; não existe quem o entenda, nem existe quem o compreenda. Por que razão? Porque bodhi não tem forma. (Dainichi-kyô)

Anuttara samyak sambodhih – esta expressão (em sânscrito) pode ser abreviada e chamada bodhi, e vulgarmente é dito despertar de Buda; em chinês, é traduzida como "suprema sabedoria correta e universal"; mas ela se refere à convicção "eu sou Buda". Mesmo que alguém pergunte "como é esse despertar de Buda? Mostre-me!", não há como mostra-lo. Como diz a sutra Dainichi-kyô, "não pode ser captado nenhum pouco". Não há como captá-lo e mostra-lo, dizendo "isso é assim". Não há como mostra-lo porque não tem forma, tal como o firmamento. Aliás, ele não pode ser captado não simplesmente porque não tem forma, pois, para se captar algo, é necessário que haja confronto entre o captar e o objeto captado. Para se compreender algo, é necessário haver confronto entre quem compreende e o objeto a ser compreendido. É preciso haver confronto entre quem alcança o despertar e o despertar a ser alcançado. Tal confronto é função da mente cerebral, que está sempre sujeita a abalos e agitações. Quando se aniquila essa mente, aniquila-se simultaneamente o confronto, e é então que a mente verdadeira se manifesta. A Imagem Verdadeira se manifesta e se clareia, assim como o céu se clareia quando a lua cheia desponta e sobe. Isso é que é sem forma.

A mente que desperta e o despertar a ser alcançado se anulam, o relativo se anula, e fica o absoluto. O absoluto é sem forma. A "budificação do corpo assim mesmo como é" consiste em despertar para a Verdade de que "o corpo nascido dos pais é corpo sem forma"; não consiste no desaparecimento do "corpo nascido dos pais" após o desencarne. Consiste em compreender que o corpo, ao mesmo tempo em que apresenta o corpo carnal com forma, é sem forma tal como o firmamento. Consiste em compreender que o "corpo com forma" é, assim mesmo como é, "sem forma"; que o corpo limitado, assim mesmo, é ilimitado como o firmamento, preenchendo o Universo, e um com Buda Vairocana. Em outras palavras, consiste em compreender verdadeiramente (não apenas com a inteligência cerebral) que este corpo, assim mesmo como é, está fundido com a Vida do Universo todo, e é ilimitado ao mesmo tempo que é limitado, e limitado ao mesmo tempo que é ilimitado.

O nosso corpo, aqui, agora, assim mesmo como é, é corpo de Buda Vairocana e, ao mesmo tempo, é corpo de Fugen-bosatsu, é corpo de Kanzeon Bosatsu, que são (ambos) corpos protetores, manifestações, respectivamente, de sabedoria e amor de Vairocana. Conscientizar isso constitui a "budificação do corpo assim mesmo como é". Nesta conscientização, já se eliminou completamente a ideia dualista de "alojar-se", ou "dentro" e "fora", que se vê em expressões tal como "Buda se aloja dentro de mim". Mesmo manifestando o corpo carnal, este já não existe (como não existe, não há necessidade de negá-lo), e se conscientiza verdadeiramente o corpo sem forma e infinito que preenche todo o Universo. Já não existe nem o sujeito que alcança o despertar, nem o despertar a ser alcançado, e se entra no estado de despertar absoluto. Isso não consiste apenas em compreender teoricamente o pensamento de desapego citado na Avatamsaka Sutra. Ele consiste em conscientizar esse estado como experiência da Vida por meio de exercitação da contemplação (visualização), mentalização e palavra – este é o procedimento do esoterismo.

Não há quem alcance o despertar, nem há despertar a ser alcançado. Da mesma forma, não há aquele que pratica, nem há prática a ser praticada. Por isso, no Dainichi kyoshô está escrito: "Praticar sem a prática, e atingir sem atingir; não há quem entre, nem local para se entrar; por isso se diz igualdade". Praticar sem a prática significa ser assim mesmo como éAssim mesmo, somos Vairocana, somos Fugen e somos Kanzeon. Não é após a prática que somos Vairocana; já somos Buda. Nós simplesmente perdemos o "assim mesmo como somos". Para recurerar o "assim mesmo como se é", na Tendai (ramificação do budismo, no Japão) se pratica o Shinkan (meditação que consiste em afastar a mente ilusória e se identificar com a sabedoria superior); no esoterismo Shingon se pratica Ajikan (contemplação da letra A do sânscrito: अ); e na Seicho-No-Ie se pratica a Meditação Shinsokan. Todos eles são formas de concentração mental. É necessário não só entender com o cérebro a verdade da fusão de este corpo com Buda,  mas assimilá-la.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 217-225

segunda-feira, março 24, 2014

A Verdade da Budificação do Homem - 5/7

Masaharu Taniguchi


Além disso, assume as figuras de divindade Vajradhara, de bodisatva Samantabhadra, de bodisatva Padmapani e dentre outros, e as manifesta em todo o Universo, pregando palavras da Verdade e frases puras da Verdade. (Sutra do Grande Sol)

Comentei anteriormente que os diversos bodisatvas constituem o assento leonino de Buda e que este está manifestado nos bodisatvas. Mas as divindades tais como Vajradhara – que é uma espécie de anjo que protege as leis búdicas, tendo na mão a espada diamantina da sabedoria – também são manifestações da unidade e da igualdade dos três mistérios, isto é, das ações corporais, verbais e mentais de Buda. Este não tem opositores. Tudo e todos são manifestações da grande Vida do próprio Buda. É o mundo monista de Buda (ou seja, tudo é Buda e tudo é manifestação de Buda). Buda não tem oposição. Oposição é falsa aparência. Buda envolve dentro de si as confrontações. Olhando do ângulo do absoluto, a confrontação não existe. É como se olhássemos os dedos da mão. Do ponto de vista dos dedos, há confrontação. O polegar e o indicador se confrontam. Porém, visto pela Vida do homem, o polegar, o indicador, o dedo médio e os demais dedos constituem Ela própria (a própria Vida do homem), e portanto, não há confronto. Cada um da humanidade é como cada um dos dedos. Os dedos se confrontam entre si, assim como os seres humanos. Mas cada um de nossos dedos é autoexpressão, autorrealização e meio de atuação de nossa própria Vida. Do mesmo modo, visto por Buda, cada uma das pessoas da humanidade é autorrealização, autoexpressão e meio da atuação do próprio Buda. Buda vive aqui, agora, em nós. A vida presente em nós é Buda. É Buda que vive aqui. Conscientizar esse fato é o despertar. Fechar os olhos para esse fato, ignorá-lo e pensar em outras coisas constitui ilusão.

Todas as ações corporais, todas as ações verbais e todas as ações mentais estão pregando palavras da Verdade e frases sobre o Caminho, em todos os lugares e em todos os tempos, no mundo dos seres sensíveis. (Sutra do Grande Sol)

Como se vê, as ações corporais (vibrações que o corpo manifesta), as ações verbais (vibrações verbais) e as ações mentais (vibrações mentais) de Vairocana, que é a Grande Vida do Universo, estão vibrando em todos os lugares, em todas as mentes e em todos os seres sensíveis (todos os seres viventes). A esse fato de estarem vibrando, a referida sutra diz "estão pregando". Como diz o trecho da sutra, é a vibração de palavras da Verdade e "frases sobre o Caminho". Resumindo, significa que as ações, as leis e as palavras da Vida de Buda estão vibrando e repercutindo em todos os lugares, em todos os momentos e no interior de todos os seres viventes.

Conscientizar Buda que se aloja dentro de nós, isto é, Buda que vive aqui, neste corpo, no estado presente – conduzir a esta conscientização é a função do budismo esotérico Shingon, e isso se assemelha muito à fé em "Cristo que se aloja em nós" que o Dr. Harvey Hardman pregou em suas Teologia e Psicologia, a qual apresentei aqui, no Japão. A fé nesse esoterismo traz benefícios ao mundo atual, e vi perfeita identificação entre o budismo esotérico e o cristianismo de Hardman.

A substância da Grande Vida do Universo (Buda) "assume as figuras de divindades Vajradhara, de bodisatva Fugen (Samantabdhara), de bodisatva Rengeshu (Padmapani) e outras e as manifesta em todo o Universo, pregando palavras da Verdade e frases sobre o Caminho" (Sutra do Grande Sol).

Sobre Vajradhara, já expliquei antes. Quando ao bodisatva Fugen (Samantabdhara), é um erro pensar que ele seja um bodisatva com aspecto humano. No primeiro volume do Dainichi-Kyôsho, está escrito: "Fu significa onipresente. Gen significa o bem supremo. Seus votos e suas práticas para alcançar o despertar, e também seu corpo, sua palavra e seu pensamento são todos iguais e estão presentes em todos os lugares. Fugen é o bem supremo e puro e é plenamente dotado de virtudes". Em outras palavras, Fugen é a expressão personificada das virtudes maravilhosas de Buda-Vairocana que preenchem todos os lugares.

Samantabdhara Sutra diz que o bodisatva Fugen está sentado no assento feito de citámani colocado no dorso do elefante branco de seis marfins, e isso simboliza o fato de que ele é um bodisatva dotado de seis poderes paranormais (clarividência, clariaudiência, leitura de pensamento, profecia, bilocação e poder de eliminar paixões mundanais) e capaz de fazer acontecer tudo, conforme sua vontade. Objetivamente, ele é um corpo-expediente com que Buda protege a humanidade, mas, como ele é onipresente, está presente inclusive dentro de nós, como Deus interior e transcendente. Por conseguinte, cada um de nós é bodisatva Fugen. Este é o significado arcano (secreto, misterioso) do esoterismo. Para experienciarmos o fato de que somos Buda assim mesmo como somos, precisamos visualizar introspectivamente que nós próprios somos bodisatva Fugen. A Sutra do Lótus prega que a duração da vida de Buda é eterna, e que a vida do ser humano também não difere da de Buda. E, para realizar essa Imagem Verdadeira, recomenda a seguinte prece meditativa: "Visualize o bodisatva Fugen a todo momento, dia e noite".

A mente que contempla uma flor torna-se ela própria uma flor. A mente que contempla o bodisatva Fugen torna-se bodisatva Fugen. A mente humana, se visualizar o mortal, torna-se mortal. Se visualizar Buda, torna-se Buda. Se visualizar os pecados alheios, ela própria se torna pecadora. Se ficar olhando apenas o mundo dos mortais, realizar-se-á um mundo cheio de problemas e conflitos. Por isso, não se deve visualizar o mundo humano cheio de conflitos. É necessária a mudança de visão. Se Sudhana (Zenzai Dôji) entrou repentinamente no mirante cujo portão se abriu com o estalido dos dedos de Maitreya, foi devido ao poder da visão.

Quando a bodisatva Padmapani, trata-se de Avalokitésvara (Kanzeon Bosatsu) que segura um botão de lótus em sua mão direita. Enquanto Fugen-bosatsu (bodisatva Samantabdhara) é expressão da virtude racional de Buda-Vairocana, Padmapani é expressão da virtude da misericórdia de Buda. A Sutra do Grande Sol aborda primeiramente três santos do budismo, a saber: Vajradhara (Shukongô), Samantabdhara (Fugen-bosatsu) e Avalokitésvara (Kanzeon bosatsu). Isso porque todas as virtudes de Buda-Vairocana estão representadas por esses três santos.

As virtudes maravilhosas da Imagem Verdadeira são representadas por Fugen-bosatsu; a força de sabedoria para dominar as ilusões é representada por Shukongô; e a virtude da misericórdia para eliminar sofrimentos é representada por Kanzeon Bosatsu. Eles se manifestam com seu respectivo corpo-expediente, de forma adequada para salvar a humanidade, de modo a melhorar o seu caráter e seus desejos. Porém, na verdade, eles estão dentro de nós, como Deus interior e transcendente. Logo, tanto Shukongô, quanto Fugen-bosatsu e também Kanzeon bosatsu estão no interior da mente do ser humano. Nós próprios somos Shukongô bosatsu, Fugen-bosatsu e Kanzeon bosatsu. Mas, para quem não consegue acreditar nisso, eles aparecem com aspectos de terceiros, como expediente.

Entre os Shujongô (existem vários graus de Shukongô), o mais elevado é o Himitsushu (o senhor dos segredos).

Nesse momento, o Shukongô-Himitsushu, durante a reunião, posta-se diante de Buda e lhe pergunta: "Por que Vairocana obtém a sabedoria de todas as sabedorias?". A resposta: "Ele obtém a sabedoria de todas as sabedorias para divulga-la amplamente, pelo bem de uma infinidade de pessoas da humanidade; propaga-a utilizando diversos expedientes, de acordo com as diversas tendências e os diversos desejos carnais das pessoas". (Sutra do Grande Sol)

"Sabedoria de todas as sabedorias" é tradução do sânscrito sarvajuána e significa a sabedoria mais elevada entre todas as sabedorias. É a sabedoria que permite conhecer cabalmente todas as existências e, ao mesmo tempo, é a sabedoria da Imagem Verdadeira com que Buda desperta a si próprio. "Todas as existências" englobam todos os fenômenos experienciais, todas as coisas e todos os fatos do mundo fenomênico, ideias e conceitos.

Bem, iniciou-se um diálogo entre Himitsushu e Buda, mas é um diálogo fictício. Na verdade, Himitsushu disseca e esclarece com sua espada da sabedoria a Verdade secreta de Buda. Desse ponto de vista, podemos dizer que a Sutra do Grande Sol é uma criação. De fato, não existe nenhum registro de anotação do suposto diálogo entre Buda e Himitsushu. O mestre Kobo, referindo-se à Sutra do Grande Sol, em que baseia a teoria de budificação do homem, e à Sutra Vajrasekhara, explica em sua obra Interpretação das Sutras Principais que as duas sutras acima referidas são a base dos ensinamentos secretos de Buda, extraídos pelo bodisatva Nagarjuna de dentro da Torre de Ferro de Nanten (céu do sul)".

E o que é a Torre de Ferro de Nanten? O mestre Kobo diz: "Essa torre não é feita por força humana; é feita pelo divino poder de Buda". Pelo visto, a Torre de Ferro de Nanten não é uma existência objetiva fora de nossa mente, e sim uma existência interna da mente de quem a compreendeu, isto é, uma torre intramental. Por isso, o fato de bodisatva Nagarjuna ter aberto a Torre de Ferro e transmitido as referidas sutras significa que o próprio Nagarjuna-bodisatva abriu a Torre de Ferro intramental de Buda Vairocana (Grande Vida do Universo), isto é, abriu o indestrutível mundo da Imagem Verdadeira. Isso tem o mesmo significado de Nagarjuna ter entrado no Palácio do Reino do Mar e trazido de lá a Avatamsaka Sutra. A Torre de Ferro de Nanten e o Palácio do Fundo do Mar são, ambos, o mesmo mundo da Imagem Verdadeira. Ao fato de intuir o verbo da Imagem Verdadeira e expressá-lo, diz-se obtê-lo na Torre de Ferro de Nanten ou buscá-lo no Palácio do Reino do Mar.

Bodisatva Nagarjuna nasceu setecentos anos após o desencarne de Sakyamuni, e é dito que na época ainda não existia na face da Terra nenhuma sutra do budismo mahayana. Por essa razão, pode-se dizer que o budismo mahayana é criação de Nagarjuna-bodisatva. Porém, Sakyamuni, Nagarjuna e todos os outros grande bodisatvas são corpos-expecientes pelos quais se manifesta Buda Vairocana. Assim sendo, mahayana e hinayana devem ser englobados sob a denominação de budismo. Mesmo que a investigação histórica não possa confirmar que Sakyamuni físico pregou o budismo mahayana, não há necessidade de apregoar a teoria de que mahayana não foi pregada por Sakyamuni.

Se compreendermos a Verdade antes explicada – de que todo ser humano, na sua Imagem Verdadeira, é manifestação de Buda Vairocana –, poderemos abrir a porta da Torre de Ferro ou do Palácio do Reino do Mar imanente na nossa Imagem Verdadeira e compreender a Imagem Verdadeira de nós mesmos e que estamos no mundo indestrutível do paraíso secreto. Compreenderemos que, na Imagem Verdadeira, nós próprios somos Shukongô, somos Fugen-bosatsu e somos Kanzeon Bosatsu. O mundo da Imagem Verdadeira é chamado de "Mundo secreto" porque é um mundo majestoso e misterioso, oculto aos cinco sentidos. E o ensinamento que desvendou esse mundo secreto é esoterismo.

Concluindo, o diálogo entre Buda Vairocana e Himitsushu citado nas sutras Kongô-chô-kyô e Dainichi-Kyô que Nagarjuna trouxe da Torre de Ferro de Nanten – esse diálogo é a expressão da Verdade que o próprio bodisatva Nagarjuna compreendeu internamente e expressou em forma de diálogo.

Buda, para salvar a humanidade, manifesta ora o corpo de Buda, ora o de srávaka (aquele que ouve os ensinamentos), ora do de pratyekabudha (aquele que compreendeu a verdade de causa e efeito), ora o de bodisatva, ora o de brahma (uma das divindades do Bramanismo), ora o de narayana (divindade que combate o mal e protege o bem), ora o de vaisravana (divindade protetora dos mundos do norte), ora o de demônio, de humano, de desumano (ser inferior ao humano) etc., de acordo com o som verbal de cada um. (Dainichi-kyô)

Este texto mostra a visão religiosa de Nagarjuna, segundo a qual todas as religiões têm a mesma origem, afirmando que Buda Vairocana assume a forma de diferentes bodisatvas e líderes religiosos para pregar a Verdade e mostrando que todas as religiões são expedientes doutrinários de Buda Vairocana (Deus).

Se um fundador de religião (seja ele Sakyamuni ou Jesus) prega o seu ensinamento e quem o ouve alcança a salvação, como isso é possível? É porque a essência da Vida das pessoas e a essência da Vida de Deus (ou de Buda) é um coisa só. Se a budificação do homem é possível, é unicamente porque o homem e Buda são um só corpo.

Se existe unidade até entre as pessoas e Buda, não é possível que não haja unidade entre os fundadores de religião ou líderes religiosos. É uma tolice muito grande os fundadores ou líderes religiosos incitarem conflitos religiosos, considerando-se um alheio ao outro.

Se o paraíso é o estado conscientizado na mente de Buda, o ser humano também conscientizando a sua essência, deverá concretizar o paraíso. Se isso não ocorre, é porque ele não a vê. Basta mudar a visão, que ele despertará para a Verdade de que o ser humano e Buda constituem um só corpo. em outras palavras, compreenderá que ele já é Buda, assim mesmo como é. Por isso a sutra Dainichi-kyô diz:

Além disso, o caminho de todas as sabedorias é um só, o da libertação por Buda.

O primeiro volume do Dainichi-kyô, interpretando a citação acima, diz: "A sutra diz que o caminho de todas as sabedorias é um só, o da libertação por Buda. A razão disso é que a Imagem Verdadeira de toda a humanidade é, desde o princípio, a sabedoria imparcial (a suprema sabedoria segundo a qual todos, imparcialmente, sem distinção, possuem natureza búdica) de Vairocana. Buda, com seu espírito imparcial, desenvolveu a grande mandala (um desenho que simboliza o estado do despertar de Buda, contendo figuras de budas, bodisatvas e divindades) infinitamente majestosa na mente imparcial da humanidade". Isso quer dizer que Vairocana manifesta os budas imanentes dentro dele em forma de majestosa e grande mandala do mundo diamantino (Mundo diamantino é a manifestação as sabedoria de Vairocana, em contraposição ao mundo uterino, que é a manifestação da misericórdia de Vairocana) e, invertendo-a utiliza-a para desenvolver a semente de Buda (Imagem Verdadeira) da humanidade.

Explicando melhor, isso significa que os budas do mundo diamantino se alojam dentro de nós como budas do mundo uterino (mundo já explicado acima), para promover a germinação e crescimento de nossa semente búdica. A imagem do mundo diamantino concebido por Vairocana e a do mundo uterino dos budas imanentes na humanidade – mandala – são uma coisa só e indivisíveis. Por isso, da mesma forma como nossa imagem fica clara diante de um espelho, o Buda interior – Imagem Verdadeira – da humanidade fica evidente diante da luz de Vairocana, e dessa forma o homem se realiza como Buda "assim mesmo como ele é".

Então, o que fazer, na prática, para o homem se realizar como Buda assim mesmo como é? Como já disse várias vezes, se não se manifesta a Imagem Verdadeira na qual o homem já é Buda, é porque ele não a visualiza, não a mentaliza. Ver (visualizar) é manifestar. Mentalizar é criar forma. Mesmo que, na realidade, o indivíduo esteja dormindo num colchão de ouro, se a sua mente, não vê essa realidade e, sonhando pensa que é um mendigo maltrapilho perambulando pelas ruas, só poderá experienciar a vida de mendigo maltrapilho durante o sonho.

Se nós, seres humanos, perambulamos na vida como seres carnais sujeitos à pobreza, à doença, à velhice e à morte, é porque perambulamos em ilusão no sonho chamado cinco sentidos. Mas, quando despertamos do sonho e vemos o nosso corpo da Imagem Verdadeira, percebemos que este corpo, neste mesmo estado, é Buda Vairocana, é bodisatva Fugen.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 206-217

sexta-feira, março 21, 2014

A Verdade da Budificação do Homem - 4/7

Masaharu Taniguchi


Os adamantinos se reuniram todos (Mahavairocana Sutra ou Sutra do Grande Sol)

Voltemos ao Palácio Diamantino e vasto, protegido por Buda. Ali "reuniram-se todos os adamantinos", além de inúmeros bodisatvas. Mahavairocana-Buda no centro, seu assento leonino formado de diversos bodisatvas, e em seu redor uma infinidade de adamantinos brilhando como as estrelas. Imaginem essa cena majestosa. Assim é o mundo da Imagem Verdadeira.

"Diamantino" é símbolo da sabedoria de Buda. Como a sabedoria de Buda é infinita, o número de diamantes também é infinito. E os adamantinos, que são possuidores desses diamantes e expressões da sabedoria de Buda, também existem em número incontável. Eles têm a figura de um lutador robusto, de fisionomia valente, a parte superior do corpo nua, segurando uma espada de sabedoria como que protegendo Buda. Toda a vista do mundo da Imagem Verdadeira, inclusive os bodisatvas e adamantinos, tudo é expressão do poder sábio, versátil e misterioso de Buda.

O dia búdico, que transcende os três tempos, e a igualdade entre o corpo, a palavra e o pensamento são a porta de entrada para a Verdade (Sutra do Grande Sol)

A referida reunião ocorreu num momento que transcende o tempo do mundo fenomênico. É por isso que está escrito "O dia de Buda, que transcende os três tempos" (passado, presente e futuro). Não uma determinada hora, mas agora, aqui,  é o dia de Buda.  É o agora eterno.

No primeiro volume do Dainichi Kyosho (Interpretação da Mahavairocana Sutra), de autoria de Ichigyo, consta:

Esse dia do Jissô (Imagem Verdadeira) é claro e eterno, puro e calmo como o firmamento, e nele não há diferença entre o tempo curto e longo.

Se mudarmos a visão agora, aqui e já, podemos entrar instantaneamente no vasto palácio do mundo da Imagem Verdadeira mostrado por Maitreya. O problema é como mudar a visão. Para isso, é necessária a concordância dos três carmas, isto é, carma corporal, verbal e mental. A isso, o esoterismo Shingon chama de "adequação dos três mistérios". Nós costumamos pensar em corpo, palavra e pensamento, separando-os em três elementos, mas, na verdade, no espírito de Buda, o corpo, a palavra e o pensamento constituem um só elemento, no mesmo tempo e no mesmo lugar. Por isso, a mencionada sutra diz "igualdade entre o corpo, a palavra e o pensamento". Mentalmente, nós separamos em corpo, palavra e pensamento aquilo que é originariamente um só elemento, e depois os reunimos mentalmente em um só elemento. Isto é, praticamos com o corpo a vontade de Buda, pronunciamos com a boca as palavras da Verdade e afirmamos em pensamento as palavras de Buda. Quando, dessa forma, os três elementos se tornam um só elemento, as vibrações mentais da misericórdia de Buda se concretizam em nós, e este corpo, assim mesmo como é, torna-se um com Buda, isto é, realizamo-nos como Buda.

Buda Vairocana, pelo seu poder de amor, entra em estado leonino de concentração mental e manifesta o seu corpo magnífico (Sutra do Grande Sol)

Este trecho refere-se ao momento em que Buda-Vairocana entrou em estado leonino de concentração mental e manifestou o seu majestoso corpo da Imagem Verdadeira conscientizado internamente. Sobre esse fato, a interpretação da Sutra do Grande Sol, diz:

Vairocana manifesta o seu corpo protetor em cada um dos infinitos mundos de todo o Universo. E em cada um de seus corpos existem dez terras búdicas, uma infinidade de bodisatvas e uma multidão de adamantinos; e o poder polivalente e a bela fisionomia de todas essas multidões também são infinitos, tanto que preenchem todo o Universo tal como óleo de sésamo, sem deixar espaço vazio.

O corpo protetor búdico (corpo expediente, que é manifestação das ondas mentais de amor com que Buda protege a humanidade) é infinito em tamanho e quantidade, aparecendo em todas as partes, mas ele não é visível às pessoas de estado mental diferente. Buda se encontra agora, aqui e em todas as partes. A Avatamsaka Sutra também diz: "sem sair de seu lugar, subiu ao pico da montanha Shumisen".

Certa feita, o bodisatva Jogaishô (aquele que elimina obstáculos) quis saber o tamanho de Buda e pediu ao Mahamaudgalyayana para medi-lo. Essa passagem consta no primeiro volume do Dainichi Kyôsho: Mahamaudgalyayana subiu até o Jobongu, que fica na última camada de Shozenten (mundo celeste onde não há olfato, nem gustação, havendo apenas visão, audição, tato e percepção mental), e olhou para Buda, mas este continuava diante dos seus olhos, do mesmo jeito. A sua postura, a sua voz de pregação e outros detalhes continuavam exatamente iguais, sem alteração alguma. Mahamaudgalyayana usou todo o seu poder sobrenatural e foi bem longe, até outras terras búdicas, mas Buda continuava diante de seus olhos, do mesmo modo. Por mais longe que fosse, não foi possível medir o corpo de Buda, porque ele é infinito. Então, o bodisatva Jogaishô foi ele mesmo observar: atravessou mundos tão numerosos quanto os grãos de areia do rio Ganges, mas, cada vez que ele parava para olhar, via Buda fazendo pregação do mesmo jeito, diante de seus olhos. Ainda atravessou todo o Universo e foi até onde seu poder sobrenatural possibilitasse, mas Buda continuava do mesmo jeito diante dele. Isso mostra que Buda-Vairocana é a Vida central do Universo, e, como tal, identifica-se com Deus do cristianismo, que é onipresente. Não devemos pensar que Buda seja um ser antagônico a Deus apenas por causa da denominação diferente.

Assim, manifesta energeticamente o seu corpo imensurável e majestoso, no qual a palavra e a mente são iguais. Mas a palavra ou a mente não surge do corpo de Buda-Vairocana. Este pode aparecer e desaparecer em todo e qualquer lugar ilimitadamente. (Sutra do Grande Sol)

Aqui diz que Buda-Vairocana manifesta o seu corpo majestoso, sem limite e indestrutível, e isso é devido à ação ilimitada e grandiosa da unidade e da igualdade entre o corpo, a palavra e a mente. As suas palavras e o seu pensamento não são produzidos pelo corpo, como acontece com o homem, que pronuncia as palavras com a boca e produz os pensamentos por meio de vibração dos neurônios. Onde está presente o corpo de Buda-Vairocana existem, ao mesmo tempo, as suas palavras e o seu pensamento. O corpo, as palavras e o pensamento de Buda preenchem o Universo de modo uno e igual, sem limitação.

Cont...

Do livro "A Verdade da Vida, vol. 39", pp. 200-206