"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sábado, maio 11, 2013

Resultados obtidos a partir do correto Desapego à Matéria - 2/5

 
Masaharu Taniguchi 
 
 
Como já disse, as religiões sérias não foram criadas premeditadamente por seus respectivos iniciadores. No caso da seita Tenri, por exemplo, como a fundadora dizia frases que extrapolavam o senso comum, no início as pessoas a consideravam louca, mas ela não estava nem um pouco louca. Seu amor puro e a seriedade com que buscava a Verdade sintonizaram com o mundo de elevada dimensão, permitindo-lhe receber os ensinamentos de Deus. Os ensinamentos transmitidos pela fundadora são maravilhosos, mas, com o passar do tempo, seus sucessores e pregadores foram sistematizando a doutrina com a inteligência humana e expandindo-a de modo forçado, o que trouxe problemas à seita.

Nenhuma religião que seja genuína veio do homem carnal, pertencente ao mundo dos cinco sentidos. Por esta razão, a essência de uma religião é difícil de ser compreendida por pessoas que vivem apenas no mundo dos sentidos. Qualquer religião bem conceituada possui uma luz misteriosa, uma força misteriosa impossível de ser entendida ou criada pela inteligência humana; as palavras e as afirmações aparentemente vulgares contêm uma força misteriosa, inexplicável. É essa força que cura e salva as pessoas. Isso acontece em todas as religiões bem conceituadas. Na verdade, quando conhecemos a fundo as religiões, compreendemos que todas elas se identificam na essência, sejam elas budistas, cristãs ou xintoístas. As aparentes divergências são como a diferença de vestimenta entre um povo e outro. Desconhecendo isto, as religiões se agridem entre si, vendo somente a aparência. Então, em que ponto elas se identificam? É quando pregam que o homem é filho de Deus ou de Buda. Eis a essência! Entretanto, o modo de pregar a filiação divina do homem difere muito conforme a época, o lugar e o nível cultural do povo. Por exemplo, segundo algumas religiões, o homem se torna filho de Deus gradativamente. Segundo outras, o homem já é filho de Deus. Umas ressaltam o pecado, dizendo que é preciso eliminá-lo para que o homem possa se tornar filho de Deus. Outras pregam que o pecado não é existência verdadeira. Desta forma, do mundo de elevada dimensão, Deus orienta os homens de diversos modos segundo a época, a circunstância, a cultura, os costumes, etc., através de líderes religiosos. As diferenças no modo de pregar não significam, absolutamente, que as religiões sejam basicamente diferentes umas das outras. A essência é uma só.

Na Bíblia encontramos a seguinte frase: "Quem quiser preservar a sua vida, perdê-la-á; e quem a perder, salvá-la-á". Quem interpretar essa frase ao pé da letra, com sua inteligência cerebral, dirá que isso é um disparate, um absurdo. Mas quem diz isso está, na verdade, demonstrando que sua capacidade perceptiva é tão pequena que só pode perceber o mundo de três dimensões. Segundo a interpretação da Seicho-No-Ie, a citada frase bíblica quer dizer que "não devemos nos prender ao corpo carnal". Aquele que se prende ao seu corpo carnal e procura preservá-lo acaba perdendo-o. Aquele que está com a mente presa à sua doença, pensando "Esta doença é grave; preciso curá-la", dificilmente se cura. Dizem que os homens modernos, preocupados com seu corpo, estão quase todos neuróticos. De onde vem a neurose? Ela vem do egoísmo. Torna-se neurótico aquele que só pensa em si próprio e em seu corpo, preocupado em manter-se saudável.

No livro Vida absoluta, escrito por Hyakuzo Kurata, há um personagem que, ao perceber a existência do nariz no meio do rosto, ficou com a mente fixa no nariz e acabou neurótico. Se compreendesse que o nariz não é existência verdadeira, ficaria curado na hora (risos da plateia). Esse personagem ficou com a atenção tomada pelo nariz, que então passou a incomodá-lo dia e noite: quando queria ver algo, o nariz atrapalhava; quando se deitava para dormir, o nariz não lhe saía da mente, tirando o sono. Assim, ele acabou neurótico quase louco.

Como bem mostra esse exemplo, a pessoa acaba adoecendo quando sua mente se fixa em qualquer parte do corpo. Portanto, para restaurar a saúde, a Seicho-No-Ie aconselha a deixar de pensar no corpo e abandonar a mente que se preocupa com o corpo. Se pregamos que "o corpo carnal não existe, a matéria não existe", é para que a mente, que está preocupada com o corpo material, volte-se para o Eu verdadeiro, que é imaterial e livre. Compreendendo que o corpo carnal não existe, a mente se liberta porque é impossível se prender a algo inexistente. Compreendendo que o nariz não existe, a mente se liberta. Quando se pensa que o nariz existe, a mente se prende a ele, e a pessoa fica neurótica. É por isso que pregamos que o homem não é um ser material, mas um ser espiritual. Tudo o que perece (a matéria) está perecido desde o começo; só perece aquilo que não tem Vida. A Vida é imperecível. E o homem é Vida. Compreendendo isto, não há razão para o ser humano se preocupar com o corpo carnal. Jesus Cristo também disse: "Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?". Como se vê, todas as religiões ensinam a mesma Verdade.

Apesar de surgirem cada vez mais médicos e remédios no mundo, as doenças aumentam cada vez mais, ao invés de diminuir. Esse estranho fato se deve à excessiva preocupação das pessoas com seu corpo. Os médicos nem sempre são culpados. Mas os médicos incompetentes levam as pessoas a se preocuparem com o corpo, e consequentemente a humanidade fica com o organismo cada vez mais frágil. Receitam, por exemplo, uma dieta rigorosa com base em estudos meticulosos do índice de caloria, vitaminas, etc., dos alimentos. E ultimamente, com o avanço da bacteriologia, tornaram-se muito exigentes quanto à esterilização. Entretanto, se fervermos ou cozermos os legumes para matar os micróbios, será destruída a vitamina C; e, se quisermos preservar essa vitamina, não poderemos eliminar os micróbios. Ficamos numa situação muito difícil. Quanto ao arroz, o dr. Saeki, do Laboratório Dietético, recomenda o arroz não polido, com embrião, pois, segundo ele, o arroz polido prejudica os intestinos. O dr. Futagui, por sua vez, afirma que o arroz integral é o mais nutritivo e que o arroz beneficiado é bagaço. Mas o prof. Katasse, da Universidade de Osaka, diz que arroz integral é prejudicial à saúde porque contém muito magnésio. Para ele, o melhor é arroz polido, pois o pó usado nos alimentos é rico em cálcio. Se até os experts no assunto divergem entre si, que dizer de nós, que somos leigos? E, se dermos ouvido a cada uma dessas opiniões, ficaremos realmente neuróticos.

Não devemos nos preocupar também com o tempo de sono. Quem aprendeu que o ser humano precisa de oito horas de sono para se recuperar do cansaço e acreditar nisso, ficará cansado quando varar a noite estudando na véspera de exame ou quando tiver trabalho extraordinário.

Em suma, quando nossa mente se atém ao corpo carnal, preocupada em manter a saúde, nossa força vital diminui. Esta aumenta quando compreendemos que o homem não é corpo carnal, não é um ser material, limitado, mas um ser imaterial, ilimitado. O homem é um com a grandiosa força que criou o Universo, é um com a infinita energia que da nebulosa criou o sistema solar. Esta é a Verdade pregada pela Seicho-No-Ie. Compreendendo esta Verdade, o homem conscientiza que ele é, na Essência, um ser infinitamente grandioso. Até então, ele se considerava um pequeno ser material, mas agora conscientiza que é um com a grandiosa força que preenche todo o Universo e que criou as nebulosas e o sistema solar. O homem é um com a Vida infinita que vivifica todos os seres vivos; ele é um ser infinitamente grandioso e majestoso que transcende o tempo e o espaço. Quando se adquire esta consciência, desaparecem não só a doença, mas todos os tipos de sofrimento, e concretiza-se na Terra o paraíso repleto de felicidades. Foi para proporcionar esta consciência à humanidade que surgiu a Seicho-No-Ie.

Quando alcança esta elevada conscientização, obviamente o homem não se considera mais um ser material, e sua mente não se atém ao corpo carnal. Consequentemente, a doença desaparece. Para exemplificar, vou citar o caso de uma pessoa que se curou de neurastenia.

Reside em Kyoto um senhor chamado Miwa, fornecedor de "cadeiras de descanso Miwa", que sofria de neurastenia. Ele se tratou durante muito tempo no Hospital Sansei, mas sem resultado. Depois se internou no hospital psiquiátrico da Universidade de Kyoto, onde passou a ser rigorosamente vigiado como se fosse um doente mental. Ele tem um vizinho chamado Zenkiti Oka, que é um dos diretores da Companhia de Gás de Kyoto e fervoroso adepto da Seicho-No-Ie. Compadecido com o estado do sr. Miwa, enviou-lhe um folheto da Seicho-No-Ie. Acontece que o sr. Miwa estava com a vista muito fraca e tinha dificuldade em ler, mesmo com o auxílio de óculos. Apesar disso, foi lendo-o aos poucos, e sua mente se tornou alegre. Com isso, passou a enxergar cada vez melhor as letras e até se recuperou parcialmente da neurastenia. Isso foi no ano retrasado. Sabendo que eu iria proferir uma palestra em Kyoto, ele obteve a permissão do médico para deixar o hospital só por um dia, a fim de me ouvir. Até então, ele não conseguia sair sozinho à rua, pois a pulsação acelerava demais quando andava. Naquele diz, porém, ele andou bastante e nada lhe aconteceu. Ouvindo minha palestra, sentiu-se tão bem que não precisou mais voltar ao hospital. Desde então, passou a frequentar diariamente a sede da Seicho-No-Ie, que na época ficava em Sumiyoshi.

O sr. Miwa, embora tivesse quarenta e poucos anos de idade, parecia ter uns setenta anos, com cabelos totalmente brancos e o rosto enrugado. Ele tem uma irmão de quase setenta anos de idade. E, quando os dois andavam juntos, algumas pessoas perguntavam a ela "Esse é o seu marido?", pois ele aparentava ter mais de setenta anos. Mas, após conhecer a Seicho-No-Ie, seus cabelos começaram a escurecer a partir da raiz. Se o escurecimento fosse notado depois de uns quinze dias, não seria nada admirável. Porém, a maneira como os cabelos do sr. Miwa escureceram foi tão extraordinária, tão rápida, que se notava a mudança da cor a cada dia que passava. Pensando bem, já que ele estava envelhecido mais do que a idade, talvez sua recuperação rápida não seja tão fora do comum.

Ele não conseguia andar na rua devido à taquicardia, porque, com a mente preocupada com o corpo carnal, pensava: "Será que não vou desmaiar e cair na rua? Será que não vou morrer?". Porém, ao compreender que "o corpo carnal não é existência verdadeira", perdeu o medo de cair na rua, pois a queda de algo que "não existe verdadeiramente" não lhe importava mais. Criou coragem e saiu à rua, mas não lhe aconteceu nada. Assim, ficou completamente curado.

Jesus Cristo ensinou que não devemos ficar ansiosos (preocupados) com o corpo, mas, enquanto se pensa que "o corpo existe verdadeiramente", é impossível não se preocupar com ele. Portanto, é imprescindível compreender que o "corpo carnal não existe". E a Seicho-No-Ie é uma filosofia que torna fácil esta compreensão.

O budismo também prega a inexistência do corpo carnal. A sutra Vimalakirtinirdesa, por exemplo, diz que "este corpo vem da ilusão". A Prajña-paramitá-sutra (Sutra da Sabedoria) diz que "a matéria é vazia". Se, apesar disso, existem budistas que não conseguem resolver seus problemas por mais que leiam sutras, é porque consideram a "inexistência da matéria" como simples ideia filosófica desvinculada da vida prática. Eles interpretam que o "vazio" não significa "inexistência", mas a "existência" que transcende o existir e o não existir. Devido a essa interpretação vaga, ficam confusos, sem saber se o corpo carnal existe ou não. É por isso que não conseguem resultados concretos na vida cotidiana. O ensinamento de Sakyamuni é admirável, mas não manifesta força para vivificar a vida cotidiana porque seus seguidores o interpretam de modo muito complexo, apenas filosófica e teoricamente, desligando-o por completo da vida prática.

A Seicho-No-Ie, porém, interpretando de modo claro e simples a frase "a matéria é vazia", afirma categoricamente que "a matéria não existe!". Aqui está a força para dinamizar a vida prática. Se interpretarmos o "vazio" de modo tão ambíguo que não possamos saber se ele significa "existência" ou "inexistência", não saberemos que atitude tomar na vida prática. Contudo, se dissermos que "a matéria não existe; ela é mera projeção da mente", a Verdade se torna simples e facilmente compreensível, podendo ser imediatamente aplicável na vida prática. Simplificar a Verdade comum a todas as religiões e torná-la aplicável na vida - eis a característica da Seicho-No-Ie, e aí está a razão por que consegue inúmeras transformações milagrosas na vida prática. Essas transformações não se limitam apenas à cura de doenças; estendem-se à harmonização de lares, solução de problemas econômicos, etc. São inúmeros os casos de pessoas que tinham dificuldades financeiras porque estavam com sua mente presa à matéria, pensando que "a matéria existe", mas que passaram a receber a provisão infinita do mundo da Imagem Verdadeira quando desbloquearam sua mente, compreendendo que "a matéria não existe".

 
(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 27", pp. 53 à 61)
 

quinta-feira, maio 09, 2013

Resultados obtidos a partir do correto Desapego à Matéria - 1/5

 
 Masaharu Taniguchi

No dia 3 de junho de 1935, proferi uma palestra no salão do Clube Militar de Kobe. Aproximadamente 1.500 pessoas lotaram o salão, ficando ainda do lado de fora mais de 1.000 pessoas que não couberam. Elas me pediram com veemência que repetisse a palestra no dia seguinte, e só se retiraram quando concordei. O presente texto contém a transcrição da palestra do segundo dia. A do primeiro dia está inscrita no volume 25.


Sinto-me honrado com a presença de todos vocês. Creio que as pessoas hoje presentes são, na maioria, as que não couberam neste recinto ontem. Mas procurarei não repetir o que disse, visto que muitos de vocês já me ouviram ontem.

O mundo fenomênico em que vivemos - o mundo perceptível aos cinco sentidos - é um mundo tridimensional constituído de comprimento, largura e altura. Suponhamos que exista um tipo de larva que perceba apenas uma dimensão, a retilínea, e portanto não seja capaz de perceber a largura (2ª dimensão) nem a altura (3ª dimensão). Tal larva se locomoveria apenas em linha reta e, se surgisse em seu caminho algum objeto vindo da direita ou da esquerda (da 2ª dimensão), ficaria espantada, pois não entenderia de onde teria surgido tal objeto. Suponhamos também que exista um bichinho que perceba apenas duas dimensões - o comprimento e a largura, ou seja, o plano -, portanto incapaz de perceber a altura (3ª dimensão). Um dia, esse bichinho põe ovos e os cerca com uma substância gelatinosa que ele mesmo produziu, a fim de protegê-los. Assim, ele fica tranquilo porque nem ele e nenhum outro bichinho da mesma espécie poderá atravessar essa barreira para pegar os ovos. Se, porém, aparecer um homem, que pertence ao mundo de três dimensões, e pegar por cima esses ovos, o bichinho ficará atônito, pensando: "Como será que entraram aqui para pegar os meus ovos, se a barreira que construí não foi violada?". Ele não consegue entender como desapareceram os ovos, pois pensa que só existem duas dimensões - a largura e o comprimento - e não sabe que existe uma outra dimensão, a altura. Entretanto, nós, seres humanos, vivemos no mundo de três dimensões, constituído de comprimento, largura e altura. Mas será que não podem existir outras dimensões além dessas? A matemática superior levantou a hipótese de existir mundos de quatro, cinco, seis ou sete dimensões. Nós, que vivemos no mundo de três dimensões, pensamos que não existem outras dimensões, mas, assim como existe o mundo tridimensional abarcando o bidimensional, pode existir um mundo com mais dimensões que contenha o tridimensional.

Como já disse anteriormente, uma larva que vive no mundo unidimensional da linha reta só sabe seguir em linha reta e não compreende que existe o mundo bidimensional, isto é, o plano. E os seres que vivem no mundo do plano pensam que só existem o comprimento e a largura e nem imaginam que existe o mundo tridimensional, como no caso daquele bichinho dos ovos, de que falei há pouco. Da mesma forma, nós também não percebemos a existência de um mundo superior ao tridimensional, isto é, um mundo com mais dimensões que contenha o tridimensional. E, se alguém desse mundo de dimensão superior às três dimensões (comprimento, largura e altura) "enfiar a mão" no nosso mundo tridimensional e levar este relógio de bolso, por exemplo, acharemos muito estranho, sem entender como e por onde ele possa sumir. E as curas que ocorrem na Seicho-No-Ie têm a mesma explicação. Ocorrem certas curas que nos levam a acreditar que houve a interferência de um mundo de dimensão mais elevada, pois as doenças desaparecem como por encanto, sem que se tome providência alguma neste mundo tridimensional.

Vou citar um caso recente, relatado nesta carta pelo médico Shintoku Ono, especialista em cirurgia, dermatologia e venereologia, que anteontem esteve na sede da Seicho-No-Ie e contou mais detalhes a respeito. Ele tinha miopia e astigmatismos em grau tão avançado que, mesmo usando óculos, só podia ler letras grandes. Certa vez, ele viu um anúncio dos livros da Seicho-No-Ie num jornal e encomendou o livro A Verdade da Vida, que recebeu três dias depois. Mas, como as letras eram miúdas, não conseguiu ler e pensou: "Ih, que letra miúda! Deveriam usar um tipo maior. Este livro só serve para quem tem vista boa. Não poderá salvar pessoas como eu que têm vista fraca. Que pena!". Fechou o livro e guardou-o numa gaveta. Passada cerca de uma semana, ele foi pegar um objeto na gaveta e, ao abrir o livro sem querer, teve uma surpresa: estava enxergando perfeitamente as letras! Este é um caso diferente. A Seicho-No-Ie prega que a situação da pessoa muda, que a doença desaparece e que o lar se harmoniza como consequência da compreensão da Verdade através da leitura, mas o dr. Ono deixou o livro numa gaveta e se curou antes de o ler. Portanto, não fui eu que curei o astigmatismo do dr. Ono. Como as letras eram miúdas, ele guardara o livro na gaveta e, uma semana depois, quando o pegou de novo, já estava enxergando. Como isso foi possível? Como aconteceu? Não tem lógica, mas é um fato.

Creio que entre os presentes há muitos que ouviram o próprio dr. Ono contar o caso na reunião de anteontem na presença de aproximadamente setenta pessoas. O dr. Ono é uma pessoa sincera, pois, apesar de ser médico, confessou que não é o remédio que cura as doenças. Além da vista, ele sofria também de nevralgia, mas ficou completamente curado enquanto lia A Verdade da Vida. Sendo médico, havia recorrido a todos os medicamentos e tratamentos durante dez anos, mas em vão, e isso o fizera perceber a ineficácia dos remédios. E agora, lendo A Verdade da Vida, fez uma reflexão e concluiu que recitar aos pacientes um remédio ineficaz como sendo eficaz é enganá-los. Passou a sentir peso na consciência. Não querendo mais exercer sua profissão, veio consultar-me sobre o que fazer doravante. Ele expôs o seu desejo de se empregar numa seguradora, onde apenas examinará e diagnosticará o estado de saúde dos pretendentes ao seguro de vida, pois nessa função não precisará receitar remédios. Assim poderá também, nas horas vagas e nos dias de folga, dedicar-se ao Movimento de Iluminação da Humanidade. É realmente um médico singular e consciencioso!

Bem, como já disse, a cura do dr. Ono não seria nem um pouco intrigante, se fosse resultante de sua transformação causada pela leitura do livro sagrado, mas ele se curou antes de o ler. Este é o motivo por que as pessoas encaram a Seicho-No-Ie como religião misteriosa ou milagrosa. A cura consequente à transformação mental não é milagrosa nem misteriosa, e sim um fato natural, lógico. Quando, por exemplo, a mente endurece, os vasos sanguíneos também endurecem, podendo provocar derrame. Isso é natural. Quando o coração está magoado, triste ou aflito, é natural que surja problema no coração físico. E não é nada estranho que o coração melhore quando a mente se torna alegre pela leitura dos livros da Seicho-No-Ie. Acontece, porém, que o dr. Ono seu curou antes de ler, antes de mudar a mente. Isso é que parece estranho, mas não há nada de estranho. O fato de parecer estranho mostra o pequeno alcance de nossos sentidos, que percebem apenas o mundo tridimensinoal. Nossos sentidos não podem captar os mundos de quatro ou cinco dimensões, mas eles existem de fato. E é fato também que os seres de um mundo quadridimensinoal interferem no nosso mundo tridimensional. No caso do dr. Ono, só podemos concluir que ele foi curado por um médico invisível do mundo quadridimensional.

O que quero dizer é que a religião não é algo que possa ser criado deliberadamente pelo homem. Por mais que alguém queira criar uma religião eclética, fundindo, por exemplo, o cristianismo, o budismo e o xintoísmo, será impossível. Mesmo que alguém "crie" uma religião com a segunda intenção de ganhar dinheiro, não poderá iluminar a humanidade nem curar doenças. Surge uma religião quando vem do mundo invisível uma ajuda que nos permite realizar obras sobre-humanas no sentido de iluminar a humanidade.

Esta manhã veio em casa um senhor chamado Takeji Suzuki, trazendo um garrafão de shoyu (molho de soja). Ele estudou a Ciência Cristã quando esteve nos Estados Unidos, praticou takuhatsu (uma espécie de mendicância religiosa que consiste em ir de casa em casa oferecendo serviços) na seita Ittoen e é profundo conhecedor do budismo. Ele é gerente de uma empresa estabelecida na Manchúria e é amigo íntimo do sr. Guenzaburo Ueda, que foi auditor da Osaka Shoji. O sr. Ueda me apresentou o sr. Suzuki aproximadamente um mês atrás quando o trouxe à minha casa. Disse-me que é uma pessoa admirável que vive na vida prática o espírito de takuhatsu e que conhece bem o sr. Nishida, fundador da seita Ittoen. Pegado à sua casa, existe uma grande mansão com amplo jardim que mede cerca de 20.000m², pertencente a uma família tradicional. Seu proprietário faleceu há pouco tempo, e atualmente nela reside a viúva e a criadagem.

Certo dia, quando o sr. Suzuki descansava na varanda, viu no jardim do vizinho um criado velhinho e fraco arrancando ervas daninhas com muita dificuldade. O sr. Suzuki ficou a observá-lo, mas sentiu tanta pena que pulou a cerca e foi ajudá-lo., dizendo: "Vovô, deixe-me ajudar um pouco". Passados alguns dias, viu na rua o velhinho ainda mais enfraquecido e caminhando a muito custo. Então perguntou: "Que aconteceu?". Ao que o velhinho respondeu: "Estou tão fraco que não consigo mais trabalhar. Estou sendo despedido. A patroa disse que poderei ficar morando no quarto dos criados, se houver alguém que assine termo de responsabilidade, garantindo que eu não vou prejudicá-la. Como não há ninguém que faça isso por mim, serei posto na rua e não terei onde morar". Compadecido, o sr. Suzuki convidou-o a entrar. O velhinho, que mal conseguia andar, subiu os degraus da casa do sr. Suzuki como que se arrastando. Como o sr. Suzuki tinha um compromisso e estava para sair, só podia fazer companhia ao velhinho durante uns cinco minutos. Por isso, resolveu fazer apenas uma oração rápida e disse: "Não sei se vai adiantar, mas vou orar por você". Mas o velhinho não podia se sentar corretamente no tatami porque suas pernas não dobravam. A solução era sentar-se com as pernas estendidas para frente. O sr. Suzuki queria sentar-se bem à frente do velhinho e colocar as mãos na cabeça dele, mas não o alcançaria por causa da distância entre eles criada pelas pernas esticadas do velhinho. Então, posicionou-se atrás dele e, com as mãos colocadas em sua cabeça, mentalizou: "O homem é, na verdade, filho de Deus. E no filho de Deus não existe doença!". Ele não pensou se o velhinho iria melhorar, nem acreditava que tivesse poder para curá-lo. Todavia, ficou a mentalizar essas palavras durante uns cinco minutos. Tendo um compromisso, disse ao velhinho: "Por hoje é só, pois tenho de sair. Volte amanhã, que vamos estudar sua situação". Assim que retirou as mãos da cabeça do velhinho, este se levantou com a maior facilidade e começou a andar com firmeza. O sr. Suzuki ficou espantado. Foi a grande alegria do velhinho.

O sr. Suzuki tem uma sobrinha, uma moça intelectual, que mora com ele. Quando seu tio, entusiasmado pela Seicho-No-Ie, começara a ler a sutra sagrada todos os dias, ela o caçoara dizendo: "Tio, parece que o calor afetou a sua cabeça". Porém, presenciando a cena em que o velhinho começou a andar firmemente com apenas cinco minutos de oração do tio, ficou pasmada. O velhinho, que chegara quase se arrastando, foi embora andando com passos bem leves.

Dias depois, o velhinho levou um envelope contendo algum dinheiro e ofereceu-o ao sr. Suzuki. "É insignificante, mas aceite-o como sinal de minha gratidão". Mas o sr. Suzuki recusou-o, dizendo: "Não posso aceitar isso, de modo algum. Se eu tivesse a mínima intenção de receber recompensa, o senhor não teria sido curado. Além do mais, não fui eu quem curei o senhor. Foi o Anjo da Seicho-No-Ie. Logo não há razão para eu receber gratificação". O velhinho não teve outra alternativa senão levar de volta o envelope. Ontem, porém, o velhinho voltou à casa do sr. Suzuki enquanto este ouvia a minha palestra e lá deixou um garrafão de shoyu - o mesmo garrafão que o sr. Suzuki me trouxera esta manhã. O velhinho estava tão grato que não poderia deixar de agradecer de alguma forma. Ele levou esse garrafão de shoyu como sinal de sua imensa gratidão. Então o sr. Suzuki trouxe o garrafão de shoyu para mim, alegando que não pode aceitá-lo porque não foi ele quem curou o velhinho. Também não fui eu quem o curou, mas o "Pensamento Iluminador", que não tem endereço. Por isso estou sem saber para onde levar este garrafão de shoyu (risos na plateia).

Se eu tivesse iniciado a Seicho-No-Ie com a intensão de "criar uma religião" para ganhar dinheiro curando doenças, não ocorreriam curas como essa, de forma alguma. Nenhuma religião séria foi criada premeditadamente pelo seu fundador. Jesus Cristo não recebeu o batismo no rio Jordão a fim de criar uma religião. Sidharta (Sakyamuni) não abandonou premeditadamente seu palácio com a intenção de criar uma religião. Ele se afligia com os "quatro sofrimentos", que são a vida, a morte, o envelhecimento e a doença. Ele buscou desesperadamente um meio de superar esses quatro sofrimentos. Portanto, ele abandonou o palácio real para a sua própria salvação, e não para fundar uma religião.

A seita Tenri também não foi instituída com o deliberado intuito de ganhar dinheiro, construindo grandes santuários. Sua fundadora, Mikiko Yamanaka, jamais pensou em criar uma religião para curar doenças e arrecadar dinheiro dos fiéis. Ela tinha amor puro e grande fé em Deus. Por isso, Deus a ajudou através do mundo espiritual, isto é, do invisível mundo da quarta e quinta dimensões, fazendo co que ela, uma mulher idosa e analfabeta, escrevesse ensinamentos tão profundos. Seu ensinamento é maravilhoso, independentemente do mérito da atual organização da seita. Quando o amor dela sintonizou com o Amor que preenche o Universo, ela recebeu ajuda do mundo de dimensão elevada e conseguiu escrever ensinamentos que excedem a inteligência humana.


(Do livro "A Verdade da Vida, vol. 27"; pp. 45 à 53)
 
 
 

terça-feira, maio 07, 2013

A Força da videira expressa-Se como ramo

Dárcio Dezolt


Jesus explicou a Verdade usando a "videira e os ramos" como analogia. A mesma força vital presente na videira está em seus ramos. Não há mais vida num deles do que noutro, enquanto o ramo considerado se mantiver ligado à videira.

Quando meditamos, devemos partir da Vida global – Deus – como toda Vida em manifestação infinita; e então, simplesmente reconhecer que a força vital do Uno Se expressa integralmente como a força vital que individualmente somos. Quanto mais simples e direta for a "contemplação" desta Verdade absoluta, mais eficaz ela se mostrará.
 
Assim como a Videira e o ramo são um, Deus e VOCÊ são um! Não lute para “obter” o que VOCÊ JÁ TEM; não se esforce para “ser” o que VOCÊ JÁ É! Contemple o Fato absoluto: Deus é TUDO! E, onde VOCÊ está, está unicamente Deus, e TUDO que Deus É!
 
 

domingo, maio 05, 2013

Shankara formula e responde perguntas importantes

Shankara
 

- Qual a melhor coisa que um aspirante espiritual pode fazer?
- Cumprir as instruções do seu guru.
 
- O que deve ser evitado?
- As ações que nos levam a uma maior ignorância da verdade.
 
- Quem é o guru?
- O que encontrou a verdade de Brahman e está constantemente interessado na felicidade de seus discípulos.

- Qual é o primeiro e mais importante dever do homem possuidor da reta compreensão?
- Libertar-se dos grilhões do desejo mundano.
 
- Como se pode alcançar a libertação?
- Pela obtenção do conhecimento de Brahman.
 
- Quem, neste mundo, pode ser chamado de puro?
- Aquele cuja mente é pura.

- Quem pode ser chamado de sábio?
- Aquele que pode discernir entre o real e o irreal.

- O que envenena o aspirante espiritual?
- A negligência dos ensinamentos de seu guru.

- Para aquele que alcançou o nascimento humano, qual é o objetivo mais desejável?
- Compreender aquilo que é o seu maior bem e estar constantemente empenhado em fazer o bem aos outros.

- O que ilude um homem como uma bebida inebriante?
- O apego aos objetos dos sentidos.
 
- Quem são os ladrões?
- Os objetos que roubam a verdade de nossos corações.
 
- O que causa a servidão do desejo mundano?
- A ânsia de gozar esses objetos.

- Qual é o obstáculo ao crescimento espiritual?
- A preguiça.

- Qual a melhor arma para subjugar os outros?
- O raciocínio correto.
 
- Onde reside a força?
- Na paciência.

- Onde está o veneno?
- No coração dos maus.
 
- Que é o destemor?
- A impassibilidade.
 
- O que mais se deve temer?
- Ser possuído pela sua própria riqueza.

- O que é mais raro de encontrar na humanidade?
- O amor a Deus.
 
- Quais são os males mais difíceis de extirpar?
- O ciúme e a inveja.
 
- Quem é caro a Deus?
- Aquele que é destemido e ajuda os outros a se libertarem do medo.
 
- Como se atinge a libertação?
- Pela prática das disciplinas espirituais.

- Quem é mais digno de louvor?
- O conhecedor de Brahman.
 
- Como se desenvolve o poder de discernimento?
- Pelo serviço a um ancião.
 
- Quem são os anciãos?
- Aqueles que compreenderam a verdade fundamental.
 
- Quem é realmente rico?
- Aquele que adora a Deus com devoção.

- Quem tira proveito da vida?
- O homem humilde.
 
- Quem é o perdedor?
- Aquele que é orgulhoso.
 
- Qual é a tarefa mais difícil para um homem?
- Manter sua mente sob constante controle.

- Quem protege um aspirante?
- O seu guru.
 
- Quem é o mestre deste mundo?
- Deus.
 
- Como se alcança a sabedoria?
- Pela graça de Deus.
 
- Como se alcança a liberdade?
- Pela devoção a Deus.

- Quem é Deus?
- Aquele que nos afasta da ignorância.

- Que é ignorância?
- O obstáculo à revelação do Divino que está dentro de nós.
 
- Qual é a Realidade suprema?
- Brahman.
 
- O que é irreal?
- Aquilo que desaparece quando o conhecimento desperta.

- Há quanto tempo existe a ignorância?
- Desde sempre.
 
- O que é inevitável?
- A morte do corpo.
 
- A quem devemos adorar?
- A uma encarnação de Deus.
 
- O que é libertação?
- A destruição da nossa ignorância.
 
- Em quem não se deve confiar?
- Naquele que tem o hábito de mentir.

- Qual é a força de um homem santo?
- Ele confia em Deus.
 
- Quem é o homem santo?
- Aquele que é para sempre bem-aventurado.
 
- Quem é livre do pecado?
- Aquele que entoa o nome de Deus.
 
- Qual é a fonte de todas as escrituras?
- A sagrada sílaba OM.

- Que é que nos transporta através do oceano do mundo?
- Os lótus de Deus; eles nos transportam como um grande navio.
 
- Quem é escravo?
- Aquele que está apegado ao mundo.

- Quem é livre?
- Aquele que é desapaixonado.

- Como é o céu que alcançamos?
- O céu que alcançamos é o estado em que estamos livres dos desejos.

- Que é que destrói o desejo?
- A compreensão de nosso verdadeiro Eu.
 
- Qual é a porta para o inferno?
- A luxúria.
 
- Quem vive imerso na felicidade?
- Aquele que alcançou o samadhi.
 
- Quem está desperto?
- Aquele que discerne entre o certo e o errado.

- Quais são os nossos inimigos?
- Nossos órgãos sensoriais, quando não são controlados.
 
- Quais são os nossos amigos?
- Nossos órgãos sensoriais, quando são controlados.
 
- Quem é pobre?
- Aquele que é ávido.
 
- Quem é totalmente cego?
- Aquele que é lascivo.
 
- Quem venceu o mundo?
- Aquele que conquistou a própria mente.
 
- Quais são os deveres de um aspirante espiritual?
- Andar em companhia do sagrado, renunciar a todos os pensamentos do "eu" e do "meu", devotar-se a Deus.

- De quem o nascimento é abençoado?
- Daquele que não precisa renascer.

- Quem é imortal?
- Aquele que não precisa passar por outra morte.
 
- Quando é que um homem está firmado no ideal da renúncia?
- Quando sabe que Atman e Brahman são um.
 
- Qual é a ação correta?
- A ação que agrada a Deus.

- Neste mundo, qual é o maior terror?
- O medo da morte.

- Quem é o maior herói?
- Aquele que não é aterrorizado pelas setas lançadas pelos olhos de uma bela mulher.

- Quem é pobre?
- Aquele que não está contente.

- Que é mesquinharia?
- Pedir a alguém que tem menos do que nós.
 
- A quem devemos honrar?
- Àquele que nada pede a ninguém.

- Quem, neste mundo, está verdadeiramente vivo?
- Aquele cujo caráter está isento de defeito.
 
- Quem está desperto?
- Aquele que pratica o discernimento.
 
- Quem está dormindo?
- Aquele que vive na ignorância.
 
- O que rola rapidamente, como gotas de água de uma folha de lótus?
- A juventude, a riqueza e os anos da vida de um homem.
 
- Quem é considerado tão puro como os raios da lua?
- O homem santo.

- Que é o inferno?
- Viver escravizado aos outros.
 
- Que é a felicidade?
- O desprendimento.

- Qual é o dever do homem?
- Fazer o bem a todos os seres.
 
- Quais são as coisas desprezíveis desde o momento em que são obtidas?
- O prestígio e a fama.
 
- O que é que traz a felicidade?
- A amizade do sagrado.
 
- O que é a morte?
- Ignorância.
 
- Qual é a coisa mais valiosa?
- Uma dádiva concedida na hora certa.
 
- Que doença se prolonga até o homem morrer?
- A má ação que se procurou esconder.
 
- Em que devemos empenhar-nos?
- Em continuar aprendendo enquanto vivemos.
 
- O que devemos abominar?
- Cobiçar as viúvas e as riquezas de outros homens.

- No que o homem deve pensar dia e noite?
- Na transitoriedade deste mundo. Ele nunca deve acalentar pensamentos de luxúria.
 
- Que coisa é mais digna de apreço?
- A compaixão e a amizade com o sagrado.

- Que coração não conseguireis conquistar, mesmo se o tentardes com todas as vossas forças?
- O coração de um tolo ou de um homem que tem medo, ou está cheio de mágoa, ou é incapaz de gratidão.
 
- Quem pode evitar as armadilhas do mundo?
- Aquele que é sincero e capaz de permanecer impassível diante do prazer e da dor e de todos os outros pares de opostos da vida.
 
- A quem os próprios deuses prestam homenagem?
- Àquele que é compassivo. Àquele que é humilde e fala a verdade, de um modo que faz o bem aos outros e os toma felizes.

- Quem é cego?
- Aquele que comete más ações.
 
- Quem é surdo?
- Aquele que não ouve o bom conselho.
 
- Quem é mudo?
- Aquele que não diz palavras amáveis quando elas são necessárias.

- Quem é um amigo?
- Aquele que impede seu próximo de fazer o mal.
 
- Qual é o melhor ornamento do homem?
- O bom caráter.
 
- Que é que termina tão depressa quanto o relâmpago?
- A amizade com homens ou mulheres maus.
 
- Quais são as qualidades mais raras neste mundo?
- Ter o dom de dizer palavras doces com compaixão, ser erudito sem orgulho, ser heróico e ao mesmo tempo generoso, ser rico sem apego à riqueza - estas quatro qualidades são raras.
 
- O que deve ser mais deplorado?
- A avareza na opulência.

- O que deve ser louvado?
- A generosidade.
 
- Quem é reverenciado pelos sábios?
- Aquele que é humilde.

- Quem conquista a glória para toda a sua família?
- Aquele que permanece humilde quando dotado de grandeza.

- Quem é o senhor deste mundo?
- Aquele cujas palavras são doces e benéficas e que segue o caminho da retidão.
 
- Quem é que nunca corre nenhum perigo?
- Aquele que segue as palavras dos sábios e mantém os sentidos sob controle.
 
- Onde devemos viver?
- Devemos viver com o sagrado.
 
- O que um homem sábio deve evitar proferir?
- Falsidades e palavras más contra os outros.
 
- De que um homem deve lembrar-se?
- Do santo nome de Deus.
 
- Quais são os inimigos do aspirante espiritual?
- A luxúria e a cobiça.

- O que um homem deve proteger de todo dano?
- Uma esposa fiel e seu próprio poder de discernimento.
 
- Qual é a árvore que realiza todos os desejos?
- Os ensinamentos do guru.


sexta-feira, maio 03, 2013

Sofrendo sua experiência



Entregue a sua existência para a Existência e mantenha-se em silêncio. Tudo é a Graça.

Se você realmente tivesse o livre-arbítrio e o poder de moldar o seu destino, de criar a sua vida ideal, você iria, muito provavelmente, tirar todos os desconfortos, tudo que desafia o seu ego, tudo que expõe sentimentos de culpa ou vergonha ou qualquer coisa que desafiasse os seus apegos. Você excluiria tudo isso e os substituiria por momentos sabor chocolate. [Risadas] Mas por mais que você tenha se esforçado em construir uma vida segura que satisfizesse sua projeção, ainda sim sua criação não se igualaria, em qualidade e bênçãos, à vida que está se desdobrando sem intenção humana.

Certa vez um homem disse a Sri Nisargadatta: “Maharaj, as suas palavras ressoam profundas em meu coração. Eu sinto seu poder e sei que são verdadeiras. Mas se eu for bem sincero em descrever a minha experiência, teria que admitir que ao longo da minha vida eu estou continuamente experienciando o sofrimento!”. Maharaj respondeu: “Não, isto não é verdade. Você não está experienciando o sofrimento, você está sofrendo a sua experiência.”
 
Você pode dizer mais acerca das palavras de Nisargadatta, Mooji?
 
Eu vou lhe contar uma história.

Estando com uma dor muito forte, um homem foi ver o médico. “Como posso ajudá-lo?” perguntou o médico. “Eu estou todo dolorido, doutor”, disse o homem. “Toda vez que eu toco aqui,” ele explicou, tocando próximo a seu coração com seu dedo, “dói! E seu eu toco aqui,” ele acrescentou, tocando seu nariz, “ai! – também dói!” O médico observava, perplexo, conforme o homem continuava. “Quando eu toco aqui,” ele disse, tocando seu estômago, “dói como inferno!” Daí ele debruçou-se na direção do médico e tocou seus cílios com o dedo. “Ai!” ele gritou novamente. Então o médico conduziu um exame físico completo no homem. Finalmente o médico disse, “Senhor eu não consigo achar nada de errado com as áreas que você me mostrou. O problema é que você tem um dedo quebrado!” [Risadas]

O “eu” é este dedo. Onde quer que o “eu” vá, sempre existe um problema. Este “eu” é ego: “Eu gosto, eu não gosto.” O que quer que ele toque, em ignorância, causa dor a si mesmo e aos outros. Entretanto, ele imagina que a dor é causada pelo “outro”. Quando, pela graça, é compreendido que o “eu-ego” é a causa do sofrimento, e que este “eu-ego” foi sonhado no Ser, o sofrimento termina.

A identificação com este “eu” está na raiz do sofrimento. Quando você escolhe o que você deveria experienciar – você sofre. Quando você escolhe de quem você deveria aprender – você sofre. Quando você está constantemente interpretando como as coisas são ou como deveriam ser, o que você merece e o que não merece – você sofre. Onde quer que haja orgulho, apegos, julgamentos ou desejos – há sofrimento. Quando despertamos da ignorância para a nossa verdadeira natureza – o sofrimento é inexistente.
 
Mas Mooji, como você pode não sentir se existe uma forte dor física?

Tanto a dor como o prazer pertencem ao corpo. Faz parte do pacote. Uma vez que você toma um corpo você experimentará todos os opostos inter-relacionados e todos os contrastes da dança que chamamos vida. Mas isso não quer dizer que você sofre automaticamente porque o corpo está lá. A identidade amplifica o sofrimento. Na observação imparcial e impessoal do funcionamento do corpo-mente, a dor é percebida como um fenômeno natural. A experiência não-pessoal é em si liberdade. Entretanto, para algumas pessoas o sofrimento parece ser um aspecto inescapável da experiência humana. Na esfera da experiência senciente o sofrimento é inevitável. Onde há uma forte identidade física ou psicológica, existirá um sofrimento proporcional – é o imposto por ter uma vida!

Então você diz: “Eu tenho sofrido.” Eu não vou discutir com você a respeito disso. Mas existem também aqueles quem estão sofrendo com uma profunda sensação de gratidão ou até mesmo de alegria por detrás de seu aparente sofrimento. Na verdade não posso chamar isso de sofrimento, porque não há resistência ali. Eles compreenderam e aceitaram que a Graça algumas vezes se manifesta como um intenso queimar interior que purifica o ser de toxinas conceituais e emocionais, e neste sentido eles permanecem em paz.

Eu não sei como eu poderia ficar agradecido quando a dor física ou emocional está latejando!
 
Não é preciso forçar-se para estar agradecido. Como uma espécie de reflexo condicionado, o sangue corre todo para o centro da atividade, assim como os glóbulos brancos fluem para o local do machucado físico. Neste exemplo, o centro da atividade é onde quer que a sensação do “eu” pessoal palpite, e a atenção que é então colocada na atividade é como o fluir do sangue.

Você não é isso: você está consciente disso. Apenas tenha clareza sobre isso, sem pânico. Se você agarrar-se à intuição, à sensação “eu sou”, e não permitir que isto se conecte com nenhum outro conceito, se você apenas deixar que o “eu sou” incube em si mesmo – imediatamente, alegria e espaço prevalecerão. Espontaneamente existe a silenciosa e intuitiva convicção: “Eu sou o Ser atemporal, sem limites.” Isto não é um ensinamento, mas uma poderosa experiência interna – inexplicável. Felizmente você não tem que escrever uma tese sobe isso. Algo é visto – é o bastante. Você não pode prová-lo e nem precisa prová-lo. Você não precisa falar a respeito, nem mesmo compartilhá-lo. Mantenha-se em silêncio.

Permaneça naquela natural solitude interna.

[Longo silêncio]


quarta-feira, maio 01, 2013

Uma experiência em Consciência Cósmica

Paramahansa Yogananda
 
 
- Aqui estou, guruji - Meu semblante envergonhado falava mais eloquentemente do que eu.
 
- Vamos à cozinha buscar algo para comer. - A atitude de Sri Yuktéswar era tão natural como se apenas horas, e não dias, nos tivessem separado.
 
- Mestre, devo ter-lhe desapontado com minha brusca partida, abandonando meus deveres aqui; pensei que estaria zangado comigo.
 
- Não, é claro que não! A cólera nasce unicamente de desejos contrariados. Eu nada espero dos outros; logo, suas ações não se podem opor aos meus desejos. Não o usaria para meus próprios fins; somente me faz feliz a sua verdadeira felicidade.
 
- Senhor, ouve-se falar de amor divino em forma vaga, mas hoje estou recebendo um exemplo concreto dele através de seu angélico espírito! No mundo, até mesmo um pai não perdoa facilmente a seu filho, se este abandona os negócios paternos sem aviso prévio. O senhor, porém, não demonstra o mais leve aborrecimento, apesar de minha partida lhe haver causado grandes inconvenientes pelas muitas tarefas inacabadas que deixei atrás de mim.
 
Nossos olhares, onde lágrimas cintilavam, engolfaram-se um no outro. Uma onda de beatitude me inundou; eu tinha consciência de que o Senhor, sob a forma de meu guru, expandia os pequenos ardores de meu coração até alcançar as vastidões do amor cósmico.
Poucas semanas haviam decorrido quando entrei na sala-de-estar do Mestre, vazia então. Eu planejara meditar, mas este louvável propósito não foi compartilhado por meus pensamentos desobedientes. Eles se dispersavam como pássaros diante do caçador.
 
- Mukunda! - A voz de Sri Yuktéswar soou, proveniente de um lugar distante.
 
Senti-me tão rebelde quanto meus pensamentos. - O Mestre está sempre me incitando a meditar - murmurei para mim mesmo. - Ele não deveria me perturbar quando sabe o motivo de minha vinda a esta sala. - Novamente me chamou; permaneci em obstinado silêncio. Na terceira vez, seu tom era ríspido.
 
- Senhor, estou meditando - gritei, em protesto.
- Sei como está meditando - disse meu guru, em voz alta. - Com sua mente dispersa como folhas numa tempestade! Venha cá.
 
Contrariado e desmascarado, encaminhei-me tristemente para ele.
 
- Pobre rapaz, as montanhas não lhe podem dar o que deseja. - O Mestre falou de maneira carinhosa, confortadora. Seu olhar tranquilo era insondável. - O desejo de seu coração se realizará.
 
Raras vezes Sri Yuktéswar expressava-se por enigmas; eu estava surpreendido. Ele golpeou meu peito levemente, acima do coração.
 
Meu corpo tornou-se imóvel como se tivesse raízes; o alento saiu de meus pulmões corno se um imã enorme o extraísse. Instantaneamente o espírito e a mente romperam com sua escravidão ao físico e jorraram de cada um de meus poros como luz perfurante e fluida. A carne parecia morta e, contudo, em minha intensa lucidez, eu percebia que nunca antes estivera tão plenamente vivo. Meu senso de identidade já não se achava confinado à estreiteza de um corpo, mas abarcava os átomos circundantes. Pessoas em ruas distantes pareciam mover-se suavemente em minha própria e remota periferia. Raízes de plantas e árvores eram percebidas através de uma tênue transparência do solo; e eu distinguia a interna circulação da seiva.
 
A vizinhança inteira surgia desnuda diante de mim. Minha visão frontal comum havia se transformado em vasto olhar esférico que percebia tudo simultaneamente. Através de minha nuca. vi homens caminhando além da distante viela de Rai Ghat e também notei uma vaca branca aproximando-se preguiçosamente. Quando ela chegou à porta aberta do ashram, observei-a como se o fizesse com meus dois olhos físicos. Depois que passou para trás do muro de tijolos do pátio, continuei a vê-la, claramente.
 
Todos os objetos dentro de meu olhar panorâmico tremiam e vibravam como rápidos filmes cinematográficos. Meu corpo, o corpo de meu Mestre, o pátio com suas colunas, a mobília, o assoalho, as árvores e a luz do sol, tornavam-se, de vez em quanto, violentamente agitados até que tudo se fundia num mar luminescente, assim como os cristais de açúcar, mergulhados num copo de água, diluem-se depois de serem sacudidos. A luz unificadora alternava-se com materializações de forma e as metamorfoses revelavam a lei de causa e efeito na criação.
 
Uma alegria oceânica rebentava nas praias serenamente intermináveis de minha alma. Atingi a realização de que o Espírito de Deus é Beatitude inesgotável; Seu corpo compreende incontáveis tecidos de luz. Um sentimento de glória crescente dentro de mim começou a envolver cidades, continentes, o planeta, os sistemas solares e as constelações, as tênues nebulosas e os universos flutuantes. O cosmo inteiro, suavemente luminoso, semelhante a uma cidade vista de alguma distância à noite, cintilava dentro da infinidade de meu ser, Para além de seus contornos definidos, a luz ofuscante empalidecia ligeiramente nos confins mais longínquos; ali eu via uma radiação branda, nunca diminuía. Era indescritivelmente sutil; as figuras dos planetas constituíam-se de uma luz mais densa.
 
Os raios luminosos dispersavam-se oriundos de uma Fonte Perpétua, resplandecendo em galáxias, transfiguradas com auras inefáveis, Vi, repetidas vezes, os fachos criadores condensarem-se em constelações e depois dissolverem-se em lençóis de transparente chama. Por reversão rítmica, sextilhões de mundos transformavam-se em brilho diáfano e, em seguida, o fogo se convertia em firmamento.
 
Conheci o centro do empíreo como um ponto de percepção intuitiva em meu coração. Esplendor irradiante partia de meu núcleo para cada parte da estrutura universal. O beatífico amrita, néctar da imortalidade, corria através de mim, com fluidez de mercúrio. Ouvi ressoar a voz criadora de Deus, AUM, a vibração do Motor Cósmico.
 
De súbito, a respiração voltou aos seus pulmões. Com desapontamento quase insuportável, constatei que havia perdido minha infinita vastidão. Mais uma vez me limitava à jaula humilhante do corpo, tão desconfortável para o Espírito. Como filho pródigo, eu fugira de meu lar macrocósmico e me encarcerara em um estreito microcosmo.
 
Meu guru continuava de pé, imóvel diante de mim; inclinei-me, no intento de me prostrar a seus santos pés em gratidão por me haver concedido a experiência da Consciência Cósmica que tão apaixonadamente eu buscara. Mas ele me impediu e, retendo-me de pé, disse com tranquilidade: - Você não deve se embriagar com o êxtase. Muito trabalho ainda resta para você fazer no mundo. Venha, vamos varrer o chão da sacada; depois caminharemos ao longo do Ganges.
 
Fui buscar a vassoura; o Mestre, eu sabia, estava me ensinando o segredo da vida equilibrada. A alma deve alargar-se sobre os abismos cosmogônicos, enquanto o corpo executa seus deveres diários.
 
Quando Sri Yuktéswar e eu saímos mais tarde, para uma caminhada, eu ainda me encontrava enlevado em inenarrável arrebatamento. Eu via nossos corpos como duas figuras astrais, movendo-se sobre um caminho ao longo do rio cuja essência era de puríssima luz.
 
- O Espírito de Deus é o que ativamente sustenta cada forma e força no universo; não obstante, Ele é transcendental e paira a sós no vácuo beatífico e incriado, além dos mundos dos fenômenos vibratórios - explicou o Mestre. - Os que alcançam na Terra a realização de seu Divino Eu vivem, à semelhança de Deus, uma dupla existência. Conscientemente executam sua tarefa no mundo e, todavia, permanecem imersos em beatitude interior. Do ilimitado júbilo de Seu próprio ser, o Senhor criou todos os homens. Embora estejam dolorosamente grampeados ao corpo, Deus contudo espera que os homens feitos à Sua imagem coloquem-se acima de todas as identificações com os sentidos e reatem sua união com Ele.
 
A visão cósmica me rendeu muitas lições indeléveis. Aquietando diariamente meus pensamentos, pude libertar-me da ilusória convicção de que meu corpo era uma massa de carne e ossos, a transitar pelo duro solo da matéria. A respiração e a mente inquietas, segundo constatei, são como tempestades que fustigam o oceano de luz, provocando ondas de formas materiais - terra, céu, seres humanos, animais, pássaros, plantas. Não se pode obter nenhuma percepção do Infinito como luz Onica, exceto acalmando essas tempestades.
 
Sempre que eu tranquilizava os dois tumultos naturais, podia contemplar as numerosas ondas de criação dissolverem-se num mar reluzente, assim como os vagalhões do oceano, quando um temporal cessa, serenamente se liquefazem em unidade.
 
Um mestre concede a divina experiência da Consciência Cósmica quando seu discípulo, pela meditação, fortaleceu sua mente a tal grau que as imensas perspectivas não o esmagam. Mera vontade intelectual ou compreensão não bastam. Somente a adequada ampliação da consciência pela prática da ioga e da bhakti devocional podem preparar alguém para amortecer o choque liberador da onipresença.
 
A divina experiência chega com inevitabilidade natural ao devoto sincero. Seu intenso anelo começa a atrair Deus com força irresistível. O Senhor, como Visão Cósmica, é atraído por esse ardor magnético para o âmbito de consciência de quem O busca.
 
Escrevi, nos últimos anos, o poema seguinte, Samadhi, tentando transmitir um vislumbre da glória que se experimenta no êxtase:
 
"Esgarçados os véus de luz e sombra,
evaporada toda a bruma de tristeza,
e tendo, como veleiro, singrado para longe
todo o amanhecer de alegria transitória,desvaneceu-se a turva miragem dos sentidos.
Amor, ódio, saúde, enfermidade, vida, morte:
extinguiram-se estas sombras falsas na tela-de-projeção da dualidade.
A tempestade de maya serenou tangida
pela varinha de condão da intuição profunda.
Presente, passado, futuro já não existem para mim,
mas somente o hoje eterno, Eu onifluente, Eu onipresente.
Planetas, estrelas, poeira de constelações, globo terrestre,
erupções vulcânicas de cataclismos do juízo final,
o forno modelador da criação,
geleiras de silenciosos raios X, dilúvios de eléctrons ardentes,
pensamentos de todos os homens, pretéritos, atuais, vindouros,
toda folhinha de erva, eu mesmo, a humanidade,
cada partícula da poeira universal,
raiva, ambição, bem, mal, salvação, luxúria,
tudo assimilei, tudo transmutei
no vasto oceano do sangue de meu próprio Ser indiviso.
Júbilo comburente, multi-ampliado pela meditação,
cegando meus olhos marejados,
explodiu em labaredas imortais de bem-aventurança,
consumiu minhas lágrimas, meus limites, meu todo.
Eu sou Tu, Tu és Eu,
o Cognoscente, o Conhecedor, o Conhecido, unificados!
Palpitação tranquila, ininterrupta, paz sempre nova, eternamente viva.
Deleite transcendente a todas as expectativas da imaginação,
beatitude do samadhi!
Nem estado inconsciente,
nem clorofórmio mental sem regresso voluntário,
samadhi estende meu reino consciente
para além dos limites de minha compleição mortal
até a mais longínqua fronteira da eternidade
onde Eu, o Oceano Cósmico,
observo o pequeno ego flutuando em Mim.
Ouvem-se, dos átomos, murmúrios movediços;
a terra escura, montanhas, vales, são líquidos em fusão!
Mares fluindo convertem-se em vapores de nebulosas!
Aum sopra sobre os vapores, descortinando prodígios mais além,
oceanos desdobram-se revelados, eléctrons cintilantes,
até que, ao último som do tambor cósmico,
transfundem-se os fulgores mais grosseiros em raios perenes
de beatitude que em tudo se ínfiltre.
Da alegria eu vim, da alegria eu vivo,
em sagrada alegria liquefaço-me.
Oceano da mente, bebo todas as ondas da criação.
Os quatro véus do sólido, líquido, gasoso, e luminoso,
um após outro, suspensos, transpassados.
Eu, em tudo, penetro no imenso Eu.
Extintas para sempre as vacilantes, tremeluzentes sombras da
memória perecível;
imaculado é meu céu mental - abaixo, acima e excelsamente;
Eternidade e Eu, um facho de união.
Pequenina bolha de riso,
eu me converti no próprio Oceano da Alegria.
  
Sri Yuktéswar ensinou-me como repetir essa bendita experiência à vontade, e também como transmiti-Ia a outros quando seus canais de intuição se encontrarem desenvolvidos. Durante meses, depois da primeira vez, entrei em estado de união extática, compreendendo diariamente por que os Upanisháds dizem que Deus é rasa, “a suprema delícia”. Certa manhã, porém, apresentei um problema ao Mestre.
 
- Quero saber, senhor, quando encontrarei Deus?
- Você já o encontrou.
- Oh, não, senhor, penso que não!
 
Meu guru sorria. - Estou certo de que você não está esperando um personagem venerável, adornando um tronco em algum cantinho anti-séptico do cosmo! Percebo, entretanto, que você imagina ser a posse de poderes miraculosos a prova de que alguém encontrou Deus. Não! Pode-se adquirir o poder de controlar o universo inteiro e, não obstante, descobrir que Deus se esquiva. O avanço espiritual não se mede pela exibição de poderes externos, mas apenas pelo profundeza da beatitude alcançada em meditação. Deus é sempre renovada alegria. Ele é inesgotável; à medida que você prosseguir em suas meditações, durante anos, Ele o fascinará com infinita capacidade inventiva. Devotos como você, que encontraram a senda para Deus, nunca sonham trocá-lo por nenhuma outra felicidade; Ele é o sedutor para Quem é impossível conceber rival. Com que rapidez nos enfastiamos dos prazeres terrenos! O desejo por coisas materiais é infindo; o homem nunca está completamente satisfeito e persegue um objetivo após outro. Aquele “algo mais” que ele procura é Deus, o único que pode conceder alegria imperecível. Anseios exteriores nos expulsam do Éden interior; oferecem prazeres falsos que apenas arremedam a ventura da alma. Reconquista-se o paraíso perdido, rapidamente, através da meditação divina. Sendo Deus a “Eterna Novidade Imprevista”, nunca nos fatigamos Dele. Podemos nos enfastiar da beatitude, se ela é deliciosamente renovada durante toda a eternidade?
 
- Compreendo agora, senhor, por que os santos chamam de insondável a Deus. Até mesmo a vida eterna não é suficiente para apreciá-lo.
 
- É verdade; mas Ele também nos é próximo, e querido. Depois que a mente foi purificada de obstáculos sensoriais por Kriya Yoga, a meditação fornece um duplo comprovante de Deus. A sempre-renovada alegria é prova de Sua existência, convincente para os próprios átomos de nosso corpo.Além disso, ao meditar, encontramos Sua orientação instantânea. Sua resposta adequada a cada dificuldade.
 
- Compreendo, guruji; o senhor resolveu meu problema. - Sorri, agradecido. - Agora tenho consciência de que já encontrei Deus, pois sempre que o júbilo da meditação retorna subconscientemente durante minhas horas de atividade, sou levado com sutileza a adotar o procedimento correto em tudo, até nos menores detalhes.
 
- A vida humana estará sobrecarregada de tristeza até aprendermos sintonizar com a Vontade Divina, cujo “Procedimento correto” resulta frequentemente desnorteante para a inteligência egoísta - disse o Mestre. - Somente Deus dá conselho sem erro; quem, senão Ele, carrega o peso do cosmo?


Do livro: Autobiografia de um Iogue - Capítulo 14 
 
 

segunda-feira, abril 29, 2013

A Fábula da Centopéia (Osho)

 

Aquele que se tornou iluminado, aquele que uniu-se ao Tao, age sem impedimento... Você sempre age com impedimentos, o oposto está sempre ali criando o impedimento; você não é um fluxo.

Se você ama, o ódio está sempre ali como um impedimento. Se você se movimenta, alguma coisa está puxando você para trás, você nunca se move totalmente, alguma coisa sempre fica para trás, o movimento não é total. Você se move com uma perna, mas a outra perna não está se movendo. Como você pode se mover? O impedimento está lá.

E esse impedimento, esse movimento contínuo de apenas metade de você e o não-movimento da outra metade, é a sua angústia. Por que você sente tanta angústia? O que cria tanta ansiedade em você? Seja o que for que você faça, por que a felicidade não acontece para você? A felicidade somente pode acontecer para o todo, nunca para a parte.

Quando o todo se move sem qualquer impedimento, o próprio movimento é felicidade. A felicidade não é algo que vem de fora, é o sentimento que vem quando todo o seu ser se move, o próprio movimento do todo é felicidade. Não é algo acontecendo a você, é algo que surge de dentro de você, é uma harmonia no seu Ser.

Se você está dividido - e você está sempre dividido: metade se movendo, metade se contendo; metade dizendo sim, metade dizendo não; metade amando, metade odiando, você é um reino dividido - há um constante conflito em você. Você diz alguma coisa mas aquilo nunca é o que você quer dizer, porque o oposto está ali impedindo, criando um obstáculo.

Você já ouviu a estória da centopeia? A centopeia estava caminhando - uma centopeia tem cem pernas - é por isso que se chama centopeia. É um milagre andar com uma centena de pernas. Controlar duas já é tão difícil... Controlar cem pernas é realmente impossível, quase impossível, mas a centopeia consegue.

Uma raposa ficou curiosa - e as raposas são curiosas. No folclore a raposa é o símbolo da mente, do intelecto, da lógica. As raposas são seres muito lógicos. A raposa olhou, observou, analisou, ela não podia acreditar ao ver como a centopeia era capaz de andar com tantas pernas. Ela disse: "Espere, só uma pergunta! Como você consegue? Como você não se confunde e sabe qual pé pôr atrás de qual? Cem pernas! Como acontece essa harmonia, como você consegue andar tão bem?"

A centopeia disse: "Eu consigo andar, mas nunca pensei nisso. Dê-me algum tempo para pensar como eu faço".

Então ela fechou os olhos. Pela primeira vez ficou dividida: a mente como observadora e ela mesma como a coisa observada. Pela primeira vez a centopeia tornou-se duas. Ela costumava viver e andar, e sua vida era um todo; não havia um observador olhando para ela, ela nunca fora dividida. Ela era um ser integrado. Pela primeira vez surgiu a divisão. Ela estava olhando para si própria, pensando. Ela tinha se tornado o sujeito e o objeto, tinha se tornado duas, e então começou a andar. Foi difícil, quase impossível. Ela caiu - como pode você controlar cem pernas?

A raposa riu e disse: "Eu sabia que devia ser difícil, sempre soube."

A centopeia começou a chorar, as lágrimas inundaram os seus olhos. Ela disse: "Nunca foi difícil, mas você criou o problema. Agora eu nunca mais vou conseguir andar."

A mente tinha entrado em cena, ela entra em cena quando você está dividido. É por isso que Krishnamurti continua dizendo que, quando o observador se torna o observado, você está em meditação.

O oposto aconteceu com a centopeia. O todo se perdeu, se transformou em dois: o observador e o observado, divididos. o sujeito e o objeto; o pensador e o pensamento. Então tudo ficou perturbado, perdeu-se a felicidade, o fluxo de harmonia foi interrompido. E foi assim que ela ficou paralisada.

Sempre que a mente entra em cena, ela vem como uma força controladora, um gerente. Ela não é o mestre, ela é o gerente. E você não chega ao o mestre enquanto o gerente não for posto de lado. O gerente não vai permitir que você alcance o mestre, o gerente vai estar em pé diante da porta, controlando. E todos os gerentes administram mal - a mente tem feito um ótimo trabalho de má administração.

Pobre centopeia, ela sempre fora feliz. Não tinha problema nenhum. Vivia, cantava, amava, tudo, sem problema nenhum, porque não havia mente. Com a mente veio o problema - com a pergunta, com a indagação. E existem muitas raposas ao seu redor. Cuidado com elas: filósofos, teólogos, professores, todos eles são raposas. Eles levantam perguntas e criam perturbação.

Lao Tzu, o mestre de Chuang Tzu, disse: "Quando não existia nem um único filósofo, tudo estava resolvido, não haviam perguntas e as respostas estavam todas à disposição. Quando surgiram os filósofos, surgiram as perguntas e as respostas desapareceram." Sempre que existe uma pergunta, a resposta está muito longe. Sempre que você pergunta, nunca obtém a resposta, mas se você para de perguntar, você verá que a resposta sempre esteve ali.

Não sei o que aconteceu com essa centopeia. Se ela era tão tola quanto os seres humanos, está em algum hospital, aleijada, paralítica para sempre. Mas eu não acho que as centopeias sejam tão tolas. Ela deve ter deixado a questão de lado. Deve ter dito à raposa: "Guarde suas perguntas para si mesma, e me deixe andar em paz." Ela deve ter descoberto que essa divisão não lhe permitiria viver, porque a divisão causa morte. Indiviso, você é vida; dividido, você é morte. Quanto mais dividido, mais morto.

O que é felicidade? Felicidade é a sensação que surge em você quando o observador se torna o observado. Felicidade é a sensação que surge em você quando você está em harmonia, não fragmentado; quando você é um, não está desintegrado, é indiviso, uno. O sentimento não é algo que vem de fora. É a melodia que brota da sua harmonia interior.