"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, maio 05, 2013

Shankara formula e responde perguntas importantes

Shankara
 

- Qual a melhor coisa que um aspirante espiritual pode fazer?
- Cumprir as instruções do seu guru.
 
- O que deve ser evitado?
- As ações que nos levam a uma maior ignorância da verdade.
 
- Quem é o guru?
- O que encontrou a verdade de Brahman e está constantemente interessado na felicidade de seus discípulos.

- Qual é o primeiro e mais importante dever do homem possuidor da reta compreensão?
- Libertar-se dos grilhões do desejo mundano.
 
- Como se pode alcançar a libertação?
- Pela obtenção do conhecimento de Brahman.
 
- Quem, neste mundo, pode ser chamado de puro?
- Aquele cuja mente é pura.

- Quem pode ser chamado de sábio?
- Aquele que pode discernir entre o real e o irreal.

- O que envenena o aspirante espiritual?
- A negligência dos ensinamentos de seu guru.

- Para aquele que alcançou o nascimento humano, qual é o objetivo mais desejável?
- Compreender aquilo que é o seu maior bem e estar constantemente empenhado em fazer o bem aos outros.

- O que ilude um homem como uma bebida inebriante?
- O apego aos objetos dos sentidos.
 
- Quem são os ladrões?
- Os objetos que roubam a verdade de nossos corações.
 
- O que causa a servidão do desejo mundano?
- A ânsia de gozar esses objetos.

- Qual é o obstáculo ao crescimento espiritual?
- A preguiça.

- Qual a melhor arma para subjugar os outros?
- O raciocínio correto.
 
- Onde reside a força?
- Na paciência.

- Onde está o veneno?
- No coração dos maus.
 
- Que é o destemor?
- A impassibilidade.
 
- O que mais se deve temer?
- Ser possuído pela sua própria riqueza.

- O que é mais raro de encontrar na humanidade?
- O amor a Deus.
 
- Quais são os males mais difíceis de extirpar?
- O ciúme e a inveja.
 
- Quem é caro a Deus?
- Aquele que é destemido e ajuda os outros a se libertarem do medo.
 
- Como se atinge a libertação?
- Pela prática das disciplinas espirituais.

- Quem é mais digno de louvor?
- O conhecedor de Brahman.
 
- Como se desenvolve o poder de discernimento?
- Pelo serviço a um ancião.
 
- Quem são os anciãos?
- Aqueles que compreenderam a verdade fundamental.
 
- Quem é realmente rico?
- Aquele que adora a Deus com devoção.

- Quem tira proveito da vida?
- O homem humilde.
 
- Quem é o perdedor?
- Aquele que é orgulhoso.
 
- Qual é a tarefa mais difícil para um homem?
- Manter sua mente sob constante controle.

- Quem protege um aspirante?
- O seu guru.
 
- Quem é o mestre deste mundo?
- Deus.
 
- Como se alcança a sabedoria?
- Pela graça de Deus.
 
- Como se alcança a liberdade?
- Pela devoção a Deus.

- Quem é Deus?
- Aquele que nos afasta da ignorância.

- Que é ignorância?
- O obstáculo à revelação do Divino que está dentro de nós.
 
- Qual é a Realidade suprema?
- Brahman.
 
- O que é irreal?
- Aquilo que desaparece quando o conhecimento desperta.

- Há quanto tempo existe a ignorância?
- Desde sempre.
 
- O que é inevitável?
- A morte do corpo.
 
- A quem devemos adorar?
- A uma encarnação de Deus.
 
- O que é libertação?
- A destruição da nossa ignorância.
 
- Em quem não se deve confiar?
- Naquele que tem o hábito de mentir.

- Qual é a força de um homem santo?
- Ele confia em Deus.
 
- Quem é o homem santo?
- Aquele que é para sempre bem-aventurado.
 
- Quem é livre do pecado?
- Aquele que entoa o nome de Deus.
 
- Qual é a fonte de todas as escrituras?
- A sagrada sílaba OM.

- Que é que nos transporta através do oceano do mundo?
- Os lótus de Deus; eles nos transportam como um grande navio.
 
- Quem é escravo?
- Aquele que está apegado ao mundo.

- Quem é livre?
- Aquele que é desapaixonado.

- Como é o céu que alcançamos?
- O céu que alcançamos é o estado em que estamos livres dos desejos.

- Que é que destrói o desejo?
- A compreensão de nosso verdadeiro Eu.
 
- Qual é a porta para o inferno?
- A luxúria.
 
- Quem vive imerso na felicidade?
- Aquele que alcançou o samadhi.
 
- Quem está desperto?
- Aquele que discerne entre o certo e o errado.

- Quais são os nossos inimigos?
- Nossos órgãos sensoriais, quando não são controlados.
 
- Quais são os nossos amigos?
- Nossos órgãos sensoriais, quando são controlados.
 
- Quem é pobre?
- Aquele que é ávido.
 
- Quem é totalmente cego?
- Aquele que é lascivo.
 
- Quem venceu o mundo?
- Aquele que conquistou a própria mente.
 
- Quais são os deveres de um aspirante espiritual?
- Andar em companhia do sagrado, renunciar a todos os pensamentos do "eu" e do "meu", devotar-se a Deus.

- De quem o nascimento é abençoado?
- Daquele que não precisa renascer.

- Quem é imortal?
- Aquele que não precisa passar por outra morte.
 
- Quando é que um homem está firmado no ideal da renúncia?
- Quando sabe que Atman e Brahman são um.
 
- Qual é a ação correta?
- A ação que agrada a Deus.

- Neste mundo, qual é o maior terror?
- O medo da morte.

- Quem é o maior herói?
- Aquele que não é aterrorizado pelas setas lançadas pelos olhos de uma bela mulher.

- Quem é pobre?
- Aquele que não está contente.

- Que é mesquinharia?
- Pedir a alguém que tem menos do que nós.
 
- A quem devemos honrar?
- Àquele que nada pede a ninguém.

- Quem, neste mundo, está verdadeiramente vivo?
- Aquele cujo caráter está isento de defeito.
 
- Quem está desperto?
- Aquele que pratica o discernimento.
 
- Quem está dormindo?
- Aquele que vive na ignorância.
 
- O que rola rapidamente, como gotas de água de uma folha de lótus?
- A juventude, a riqueza e os anos da vida de um homem.
 
- Quem é considerado tão puro como os raios da lua?
- O homem santo.

- Que é o inferno?
- Viver escravizado aos outros.
 
- Que é a felicidade?
- O desprendimento.

- Qual é o dever do homem?
- Fazer o bem a todos os seres.
 
- Quais são as coisas desprezíveis desde o momento em que são obtidas?
- O prestígio e a fama.
 
- O que é que traz a felicidade?
- A amizade do sagrado.
 
- O que é a morte?
- Ignorância.
 
- Qual é a coisa mais valiosa?
- Uma dádiva concedida na hora certa.
 
- Que doença se prolonga até o homem morrer?
- A má ação que se procurou esconder.
 
- Em que devemos empenhar-nos?
- Em continuar aprendendo enquanto vivemos.
 
- O que devemos abominar?
- Cobiçar as viúvas e as riquezas de outros homens.

- No que o homem deve pensar dia e noite?
- Na transitoriedade deste mundo. Ele nunca deve acalentar pensamentos de luxúria.
 
- Que coisa é mais digna de apreço?
- A compaixão e a amizade com o sagrado.

- Que coração não conseguireis conquistar, mesmo se o tentardes com todas as vossas forças?
- O coração de um tolo ou de um homem que tem medo, ou está cheio de mágoa, ou é incapaz de gratidão.
 
- Quem pode evitar as armadilhas do mundo?
- Aquele que é sincero e capaz de permanecer impassível diante do prazer e da dor e de todos os outros pares de opostos da vida.
 
- A quem os próprios deuses prestam homenagem?
- Àquele que é compassivo. Àquele que é humilde e fala a verdade, de um modo que faz o bem aos outros e os toma felizes.

- Quem é cego?
- Aquele que comete más ações.
 
- Quem é surdo?
- Aquele que não ouve o bom conselho.
 
- Quem é mudo?
- Aquele que não diz palavras amáveis quando elas são necessárias.

- Quem é um amigo?
- Aquele que impede seu próximo de fazer o mal.
 
- Qual é o melhor ornamento do homem?
- O bom caráter.
 
- Que é que termina tão depressa quanto o relâmpago?
- A amizade com homens ou mulheres maus.
 
- Quais são as qualidades mais raras neste mundo?
- Ter o dom de dizer palavras doces com compaixão, ser erudito sem orgulho, ser heróico e ao mesmo tempo generoso, ser rico sem apego à riqueza - estas quatro qualidades são raras.
 
- O que deve ser mais deplorado?
- A avareza na opulência.

- O que deve ser louvado?
- A generosidade.
 
- Quem é reverenciado pelos sábios?
- Aquele que é humilde.

- Quem conquista a glória para toda a sua família?
- Aquele que permanece humilde quando dotado de grandeza.

- Quem é o senhor deste mundo?
- Aquele cujas palavras são doces e benéficas e que segue o caminho da retidão.
 
- Quem é que nunca corre nenhum perigo?
- Aquele que segue as palavras dos sábios e mantém os sentidos sob controle.
 
- Onde devemos viver?
- Devemos viver com o sagrado.
 
- O que um homem sábio deve evitar proferir?
- Falsidades e palavras más contra os outros.
 
- De que um homem deve lembrar-se?
- Do santo nome de Deus.
 
- Quais são os inimigos do aspirante espiritual?
- A luxúria e a cobiça.

- O que um homem deve proteger de todo dano?
- Uma esposa fiel e seu próprio poder de discernimento.
 
- Qual é a árvore que realiza todos os desejos?
- Os ensinamentos do guru.


sexta-feira, maio 03, 2013

Sofrendo sua experiência



Entregue a sua existência para a Existência e mantenha-se em silêncio. Tudo é a Graça.

Se você realmente tivesse o livre-arbítrio e o poder de moldar o seu destino, de criar a sua vida ideal, você iria, muito provavelmente, tirar todos os desconfortos, tudo que desafia o seu ego, tudo que expõe sentimentos de culpa ou vergonha ou qualquer coisa que desafiasse os seus apegos. Você excluiria tudo isso e os substituiria por momentos sabor chocolate. [Risadas] Mas por mais que você tenha se esforçado em construir uma vida segura que satisfizesse sua projeção, ainda sim sua criação não se igualaria, em qualidade e bênçãos, à vida que está se desdobrando sem intenção humana.

Certa vez um homem disse a Sri Nisargadatta: “Maharaj, as suas palavras ressoam profundas em meu coração. Eu sinto seu poder e sei que são verdadeiras. Mas se eu for bem sincero em descrever a minha experiência, teria que admitir que ao longo da minha vida eu estou continuamente experienciando o sofrimento!”. Maharaj respondeu: “Não, isto não é verdade. Você não está experienciando o sofrimento, você está sofrendo a sua experiência.”
 
Você pode dizer mais acerca das palavras de Nisargadatta, Mooji?
 
Eu vou lhe contar uma história.

Estando com uma dor muito forte, um homem foi ver o médico. “Como posso ajudá-lo?” perguntou o médico. “Eu estou todo dolorido, doutor”, disse o homem. “Toda vez que eu toco aqui,” ele explicou, tocando próximo a seu coração com seu dedo, “dói! E seu eu toco aqui,” ele acrescentou, tocando seu nariz, “ai! – também dói!” O médico observava, perplexo, conforme o homem continuava. “Quando eu toco aqui,” ele disse, tocando seu estômago, “dói como inferno!” Daí ele debruçou-se na direção do médico e tocou seus cílios com o dedo. “Ai!” ele gritou novamente. Então o médico conduziu um exame físico completo no homem. Finalmente o médico disse, “Senhor eu não consigo achar nada de errado com as áreas que você me mostrou. O problema é que você tem um dedo quebrado!” [Risadas]

O “eu” é este dedo. Onde quer que o “eu” vá, sempre existe um problema. Este “eu” é ego: “Eu gosto, eu não gosto.” O que quer que ele toque, em ignorância, causa dor a si mesmo e aos outros. Entretanto, ele imagina que a dor é causada pelo “outro”. Quando, pela graça, é compreendido que o “eu-ego” é a causa do sofrimento, e que este “eu-ego” foi sonhado no Ser, o sofrimento termina.

A identificação com este “eu” está na raiz do sofrimento. Quando você escolhe o que você deveria experienciar – você sofre. Quando você escolhe de quem você deveria aprender – você sofre. Quando você está constantemente interpretando como as coisas são ou como deveriam ser, o que você merece e o que não merece – você sofre. Onde quer que haja orgulho, apegos, julgamentos ou desejos – há sofrimento. Quando despertamos da ignorância para a nossa verdadeira natureza – o sofrimento é inexistente.
 
Mas Mooji, como você pode não sentir se existe uma forte dor física?

Tanto a dor como o prazer pertencem ao corpo. Faz parte do pacote. Uma vez que você toma um corpo você experimentará todos os opostos inter-relacionados e todos os contrastes da dança que chamamos vida. Mas isso não quer dizer que você sofre automaticamente porque o corpo está lá. A identidade amplifica o sofrimento. Na observação imparcial e impessoal do funcionamento do corpo-mente, a dor é percebida como um fenômeno natural. A experiência não-pessoal é em si liberdade. Entretanto, para algumas pessoas o sofrimento parece ser um aspecto inescapável da experiência humana. Na esfera da experiência senciente o sofrimento é inevitável. Onde há uma forte identidade física ou psicológica, existirá um sofrimento proporcional – é o imposto por ter uma vida!

Então você diz: “Eu tenho sofrido.” Eu não vou discutir com você a respeito disso. Mas existem também aqueles quem estão sofrendo com uma profunda sensação de gratidão ou até mesmo de alegria por detrás de seu aparente sofrimento. Na verdade não posso chamar isso de sofrimento, porque não há resistência ali. Eles compreenderam e aceitaram que a Graça algumas vezes se manifesta como um intenso queimar interior que purifica o ser de toxinas conceituais e emocionais, e neste sentido eles permanecem em paz.

Eu não sei como eu poderia ficar agradecido quando a dor física ou emocional está latejando!
 
Não é preciso forçar-se para estar agradecido. Como uma espécie de reflexo condicionado, o sangue corre todo para o centro da atividade, assim como os glóbulos brancos fluem para o local do machucado físico. Neste exemplo, o centro da atividade é onde quer que a sensação do “eu” pessoal palpite, e a atenção que é então colocada na atividade é como o fluir do sangue.

Você não é isso: você está consciente disso. Apenas tenha clareza sobre isso, sem pânico. Se você agarrar-se à intuição, à sensação “eu sou”, e não permitir que isto se conecte com nenhum outro conceito, se você apenas deixar que o “eu sou” incube em si mesmo – imediatamente, alegria e espaço prevalecerão. Espontaneamente existe a silenciosa e intuitiva convicção: “Eu sou o Ser atemporal, sem limites.” Isto não é um ensinamento, mas uma poderosa experiência interna – inexplicável. Felizmente você não tem que escrever uma tese sobe isso. Algo é visto – é o bastante. Você não pode prová-lo e nem precisa prová-lo. Você não precisa falar a respeito, nem mesmo compartilhá-lo. Mantenha-se em silêncio.

Permaneça naquela natural solitude interna.

[Longo silêncio]


quarta-feira, maio 01, 2013

Uma experiência em Consciência Cósmica

Paramahansa Yogananda
 
 
- Aqui estou, guruji - Meu semblante envergonhado falava mais eloquentemente do que eu.
 
- Vamos à cozinha buscar algo para comer. - A atitude de Sri Yuktéswar era tão natural como se apenas horas, e não dias, nos tivessem separado.
 
- Mestre, devo ter-lhe desapontado com minha brusca partida, abandonando meus deveres aqui; pensei que estaria zangado comigo.
 
- Não, é claro que não! A cólera nasce unicamente de desejos contrariados. Eu nada espero dos outros; logo, suas ações não se podem opor aos meus desejos. Não o usaria para meus próprios fins; somente me faz feliz a sua verdadeira felicidade.
 
- Senhor, ouve-se falar de amor divino em forma vaga, mas hoje estou recebendo um exemplo concreto dele através de seu angélico espírito! No mundo, até mesmo um pai não perdoa facilmente a seu filho, se este abandona os negócios paternos sem aviso prévio. O senhor, porém, não demonstra o mais leve aborrecimento, apesar de minha partida lhe haver causado grandes inconvenientes pelas muitas tarefas inacabadas que deixei atrás de mim.
 
Nossos olhares, onde lágrimas cintilavam, engolfaram-se um no outro. Uma onda de beatitude me inundou; eu tinha consciência de que o Senhor, sob a forma de meu guru, expandia os pequenos ardores de meu coração até alcançar as vastidões do amor cósmico.
Poucas semanas haviam decorrido quando entrei na sala-de-estar do Mestre, vazia então. Eu planejara meditar, mas este louvável propósito não foi compartilhado por meus pensamentos desobedientes. Eles se dispersavam como pássaros diante do caçador.
 
- Mukunda! - A voz de Sri Yuktéswar soou, proveniente de um lugar distante.
 
Senti-me tão rebelde quanto meus pensamentos. - O Mestre está sempre me incitando a meditar - murmurei para mim mesmo. - Ele não deveria me perturbar quando sabe o motivo de minha vinda a esta sala. - Novamente me chamou; permaneci em obstinado silêncio. Na terceira vez, seu tom era ríspido.
 
- Senhor, estou meditando - gritei, em protesto.
- Sei como está meditando - disse meu guru, em voz alta. - Com sua mente dispersa como folhas numa tempestade! Venha cá.
 
Contrariado e desmascarado, encaminhei-me tristemente para ele.
 
- Pobre rapaz, as montanhas não lhe podem dar o que deseja. - O Mestre falou de maneira carinhosa, confortadora. Seu olhar tranquilo era insondável. - O desejo de seu coração se realizará.
 
Raras vezes Sri Yuktéswar expressava-se por enigmas; eu estava surpreendido. Ele golpeou meu peito levemente, acima do coração.
 
Meu corpo tornou-se imóvel como se tivesse raízes; o alento saiu de meus pulmões corno se um imã enorme o extraísse. Instantaneamente o espírito e a mente romperam com sua escravidão ao físico e jorraram de cada um de meus poros como luz perfurante e fluida. A carne parecia morta e, contudo, em minha intensa lucidez, eu percebia que nunca antes estivera tão plenamente vivo. Meu senso de identidade já não se achava confinado à estreiteza de um corpo, mas abarcava os átomos circundantes. Pessoas em ruas distantes pareciam mover-se suavemente em minha própria e remota periferia. Raízes de plantas e árvores eram percebidas através de uma tênue transparência do solo; e eu distinguia a interna circulação da seiva.
 
A vizinhança inteira surgia desnuda diante de mim. Minha visão frontal comum havia se transformado em vasto olhar esférico que percebia tudo simultaneamente. Através de minha nuca. vi homens caminhando além da distante viela de Rai Ghat e também notei uma vaca branca aproximando-se preguiçosamente. Quando ela chegou à porta aberta do ashram, observei-a como se o fizesse com meus dois olhos físicos. Depois que passou para trás do muro de tijolos do pátio, continuei a vê-la, claramente.
 
Todos os objetos dentro de meu olhar panorâmico tremiam e vibravam como rápidos filmes cinematográficos. Meu corpo, o corpo de meu Mestre, o pátio com suas colunas, a mobília, o assoalho, as árvores e a luz do sol, tornavam-se, de vez em quanto, violentamente agitados até que tudo se fundia num mar luminescente, assim como os cristais de açúcar, mergulhados num copo de água, diluem-se depois de serem sacudidos. A luz unificadora alternava-se com materializações de forma e as metamorfoses revelavam a lei de causa e efeito na criação.
 
Uma alegria oceânica rebentava nas praias serenamente intermináveis de minha alma. Atingi a realização de que o Espírito de Deus é Beatitude inesgotável; Seu corpo compreende incontáveis tecidos de luz. Um sentimento de glória crescente dentro de mim começou a envolver cidades, continentes, o planeta, os sistemas solares e as constelações, as tênues nebulosas e os universos flutuantes. O cosmo inteiro, suavemente luminoso, semelhante a uma cidade vista de alguma distância à noite, cintilava dentro da infinidade de meu ser, Para além de seus contornos definidos, a luz ofuscante empalidecia ligeiramente nos confins mais longínquos; ali eu via uma radiação branda, nunca diminuía. Era indescritivelmente sutil; as figuras dos planetas constituíam-se de uma luz mais densa.
 
Os raios luminosos dispersavam-se oriundos de uma Fonte Perpétua, resplandecendo em galáxias, transfiguradas com auras inefáveis, Vi, repetidas vezes, os fachos criadores condensarem-se em constelações e depois dissolverem-se em lençóis de transparente chama. Por reversão rítmica, sextilhões de mundos transformavam-se em brilho diáfano e, em seguida, o fogo se convertia em firmamento.
 
Conheci o centro do empíreo como um ponto de percepção intuitiva em meu coração. Esplendor irradiante partia de meu núcleo para cada parte da estrutura universal. O beatífico amrita, néctar da imortalidade, corria através de mim, com fluidez de mercúrio. Ouvi ressoar a voz criadora de Deus, AUM, a vibração do Motor Cósmico.
 
De súbito, a respiração voltou aos seus pulmões. Com desapontamento quase insuportável, constatei que havia perdido minha infinita vastidão. Mais uma vez me limitava à jaula humilhante do corpo, tão desconfortável para o Espírito. Como filho pródigo, eu fugira de meu lar macrocósmico e me encarcerara em um estreito microcosmo.
 
Meu guru continuava de pé, imóvel diante de mim; inclinei-me, no intento de me prostrar a seus santos pés em gratidão por me haver concedido a experiência da Consciência Cósmica que tão apaixonadamente eu buscara. Mas ele me impediu e, retendo-me de pé, disse com tranquilidade: - Você não deve se embriagar com o êxtase. Muito trabalho ainda resta para você fazer no mundo. Venha, vamos varrer o chão da sacada; depois caminharemos ao longo do Ganges.
 
Fui buscar a vassoura; o Mestre, eu sabia, estava me ensinando o segredo da vida equilibrada. A alma deve alargar-se sobre os abismos cosmogônicos, enquanto o corpo executa seus deveres diários.
 
Quando Sri Yuktéswar e eu saímos mais tarde, para uma caminhada, eu ainda me encontrava enlevado em inenarrável arrebatamento. Eu via nossos corpos como duas figuras astrais, movendo-se sobre um caminho ao longo do rio cuja essência era de puríssima luz.
 
- O Espírito de Deus é o que ativamente sustenta cada forma e força no universo; não obstante, Ele é transcendental e paira a sós no vácuo beatífico e incriado, além dos mundos dos fenômenos vibratórios - explicou o Mestre. - Os que alcançam na Terra a realização de seu Divino Eu vivem, à semelhança de Deus, uma dupla existência. Conscientemente executam sua tarefa no mundo e, todavia, permanecem imersos em beatitude interior. Do ilimitado júbilo de Seu próprio ser, o Senhor criou todos os homens. Embora estejam dolorosamente grampeados ao corpo, Deus contudo espera que os homens feitos à Sua imagem coloquem-se acima de todas as identificações com os sentidos e reatem sua união com Ele.
 
A visão cósmica me rendeu muitas lições indeléveis. Aquietando diariamente meus pensamentos, pude libertar-me da ilusória convicção de que meu corpo era uma massa de carne e ossos, a transitar pelo duro solo da matéria. A respiração e a mente inquietas, segundo constatei, são como tempestades que fustigam o oceano de luz, provocando ondas de formas materiais - terra, céu, seres humanos, animais, pássaros, plantas. Não se pode obter nenhuma percepção do Infinito como luz Onica, exceto acalmando essas tempestades.
 
Sempre que eu tranquilizava os dois tumultos naturais, podia contemplar as numerosas ondas de criação dissolverem-se num mar reluzente, assim como os vagalhões do oceano, quando um temporal cessa, serenamente se liquefazem em unidade.
 
Um mestre concede a divina experiência da Consciência Cósmica quando seu discípulo, pela meditação, fortaleceu sua mente a tal grau que as imensas perspectivas não o esmagam. Mera vontade intelectual ou compreensão não bastam. Somente a adequada ampliação da consciência pela prática da ioga e da bhakti devocional podem preparar alguém para amortecer o choque liberador da onipresença.
 
A divina experiência chega com inevitabilidade natural ao devoto sincero. Seu intenso anelo começa a atrair Deus com força irresistível. O Senhor, como Visão Cósmica, é atraído por esse ardor magnético para o âmbito de consciência de quem O busca.
 
Escrevi, nos últimos anos, o poema seguinte, Samadhi, tentando transmitir um vislumbre da glória que se experimenta no êxtase:
 
"Esgarçados os véus de luz e sombra,
evaporada toda a bruma de tristeza,
e tendo, como veleiro, singrado para longe
todo o amanhecer de alegria transitória,desvaneceu-se a turva miragem dos sentidos.
Amor, ódio, saúde, enfermidade, vida, morte:
extinguiram-se estas sombras falsas na tela-de-projeção da dualidade.
A tempestade de maya serenou tangida
pela varinha de condão da intuição profunda.
Presente, passado, futuro já não existem para mim,
mas somente o hoje eterno, Eu onifluente, Eu onipresente.
Planetas, estrelas, poeira de constelações, globo terrestre,
erupções vulcânicas de cataclismos do juízo final,
o forno modelador da criação,
geleiras de silenciosos raios X, dilúvios de eléctrons ardentes,
pensamentos de todos os homens, pretéritos, atuais, vindouros,
toda folhinha de erva, eu mesmo, a humanidade,
cada partícula da poeira universal,
raiva, ambição, bem, mal, salvação, luxúria,
tudo assimilei, tudo transmutei
no vasto oceano do sangue de meu próprio Ser indiviso.
Júbilo comburente, multi-ampliado pela meditação,
cegando meus olhos marejados,
explodiu em labaredas imortais de bem-aventurança,
consumiu minhas lágrimas, meus limites, meu todo.
Eu sou Tu, Tu és Eu,
o Cognoscente, o Conhecedor, o Conhecido, unificados!
Palpitação tranquila, ininterrupta, paz sempre nova, eternamente viva.
Deleite transcendente a todas as expectativas da imaginação,
beatitude do samadhi!
Nem estado inconsciente,
nem clorofórmio mental sem regresso voluntário,
samadhi estende meu reino consciente
para além dos limites de minha compleição mortal
até a mais longínqua fronteira da eternidade
onde Eu, o Oceano Cósmico,
observo o pequeno ego flutuando em Mim.
Ouvem-se, dos átomos, murmúrios movediços;
a terra escura, montanhas, vales, são líquidos em fusão!
Mares fluindo convertem-se em vapores de nebulosas!
Aum sopra sobre os vapores, descortinando prodígios mais além,
oceanos desdobram-se revelados, eléctrons cintilantes,
até que, ao último som do tambor cósmico,
transfundem-se os fulgores mais grosseiros em raios perenes
de beatitude que em tudo se ínfiltre.
Da alegria eu vim, da alegria eu vivo,
em sagrada alegria liquefaço-me.
Oceano da mente, bebo todas as ondas da criação.
Os quatro véus do sólido, líquido, gasoso, e luminoso,
um após outro, suspensos, transpassados.
Eu, em tudo, penetro no imenso Eu.
Extintas para sempre as vacilantes, tremeluzentes sombras da
memória perecível;
imaculado é meu céu mental - abaixo, acima e excelsamente;
Eternidade e Eu, um facho de união.
Pequenina bolha de riso,
eu me converti no próprio Oceano da Alegria.
  
Sri Yuktéswar ensinou-me como repetir essa bendita experiência à vontade, e também como transmiti-Ia a outros quando seus canais de intuição se encontrarem desenvolvidos. Durante meses, depois da primeira vez, entrei em estado de união extática, compreendendo diariamente por que os Upanisháds dizem que Deus é rasa, “a suprema delícia”. Certa manhã, porém, apresentei um problema ao Mestre.
 
- Quero saber, senhor, quando encontrarei Deus?
- Você já o encontrou.
- Oh, não, senhor, penso que não!
 
Meu guru sorria. - Estou certo de que você não está esperando um personagem venerável, adornando um tronco em algum cantinho anti-séptico do cosmo! Percebo, entretanto, que você imagina ser a posse de poderes miraculosos a prova de que alguém encontrou Deus. Não! Pode-se adquirir o poder de controlar o universo inteiro e, não obstante, descobrir que Deus se esquiva. O avanço espiritual não se mede pela exibição de poderes externos, mas apenas pelo profundeza da beatitude alcançada em meditação. Deus é sempre renovada alegria. Ele é inesgotável; à medida que você prosseguir em suas meditações, durante anos, Ele o fascinará com infinita capacidade inventiva. Devotos como você, que encontraram a senda para Deus, nunca sonham trocá-lo por nenhuma outra felicidade; Ele é o sedutor para Quem é impossível conceber rival. Com que rapidez nos enfastiamos dos prazeres terrenos! O desejo por coisas materiais é infindo; o homem nunca está completamente satisfeito e persegue um objetivo após outro. Aquele “algo mais” que ele procura é Deus, o único que pode conceder alegria imperecível. Anseios exteriores nos expulsam do Éden interior; oferecem prazeres falsos que apenas arremedam a ventura da alma. Reconquista-se o paraíso perdido, rapidamente, através da meditação divina. Sendo Deus a “Eterna Novidade Imprevista”, nunca nos fatigamos Dele. Podemos nos enfastiar da beatitude, se ela é deliciosamente renovada durante toda a eternidade?
 
- Compreendo agora, senhor, por que os santos chamam de insondável a Deus. Até mesmo a vida eterna não é suficiente para apreciá-lo.
 
- É verdade; mas Ele também nos é próximo, e querido. Depois que a mente foi purificada de obstáculos sensoriais por Kriya Yoga, a meditação fornece um duplo comprovante de Deus. A sempre-renovada alegria é prova de Sua existência, convincente para os próprios átomos de nosso corpo.Além disso, ao meditar, encontramos Sua orientação instantânea. Sua resposta adequada a cada dificuldade.
 
- Compreendo, guruji; o senhor resolveu meu problema. - Sorri, agradecido. - Agora tenho consciência de que já encontrei Deus, pois sempre que o júbilo da meditação retorna subconscientemente durante minhas horas de atividade, sou levado com sutileza a adotar o procedimento correto em tudo, até nos menores detalhes.
 
- A vida humana estará sobrecarregada de tristeza até aprendermos sintonizar com a Vontade Divina, cujo “Procedimento correto” resulta frequentemente desnorteante para a inteligência egoísta - disse o Mestre. - Somente Deus dá conselho sem erro; quem, senão Ele, carrega o peso do cosmo?


Do livro: Autobiografia de um Iogue - Capítulo 14 
 
 

segunda-feira, abril 29, 2013

A Fábula da Centopéia (Osho)

 

Aquele que se tornou iluminado, aquele que uniu-se ao Tao, age sem impedimento... Você sempre age com impedimentos, o oposto está sempre ali criando o impedimento; você não é um fluxo.

Se você ama, o ódio está sempre ali como um impedimento. Se você se movimenta, alguma coisa está puxando você para trás, você nunca se move totalmente, alguma coisa sempre fica para trás, o movimento não é total. Você se move com uma perna, mas a outra perna não está se movendo. Como você pode se mover? O impedimento está lá.

E esse impedimento, esse movimento contínuo de apenas metade de você e o não-movimento da outra metade, é a sua angústia. Por que você sente tanta angústia? O que cria tanta ansiedade em você? Seja o que for que você faça, por que a felicidade não acontece para você? A felicidade somente pode acontecer para o todo, nunca para a parte.

Quando o todo se move sem qualquer impedimento, o próprio movimento é felicidade. A felicidade não é algo que vem de fora, é o sentimento que vem quando todo o seu ser se move, o próprio movimento do todo é felicidade. Não é algo acontecendo a você, é algo que surge de dentro de você, é uma harmonia no seu Ser.

Se você está dividido - e você está sempre dividido: metade se movendo, metade se contendo; metade dizendo sim, metade dizendo não; metade amando, metade odiando, você é um reino dividido - há um constante conflito em você. Você diz alguma coisa mas aquilo nunca é o que você quer dizer, porque o oposto está ali impedindo, criando um obstáculo.

Você já ouviu a estória da centopeia? A centopeia estava caminhando - uma centopeia tem cem pernas - é por isso que se chama centopeia. É um milagre andar com uma centena de pernas. Controlar duas já é tão difícil... Controlar cem pernas é realmente impossível, quase impossível, mas a centopeia consegue.

Uma raposa ficou curiosa - e as raposas são curiosas. No folclore a raposa é o símbolo da mente, do intelecto, da lógica. As raposas são seres muito lógicos. A raposa olhou, observou, analisou, ela não podia acreditar ao ver como a centopeia era capaz de andar com tantas pernas. Ela disse: "Espere, só uma pergunta! Como você consegue? Como você não se confunde e sabe qual pé pôr atrás de qual? Cem pernas! Como acontece essa harmonia, como você consegue andar tão bem?"

A centopeia disse: "Eu consigo andar, mas nunca pensei nisso. Dê-me algum tempo para pensar como eu faço".

Então ela fechou os olhos. Pela primeira vez ficou dividida: a mente como observadora e ela mesma como a coisa observada. Pela primeira vez a centopeia tornou-se duas. Ela costumava viver e andar, e sua vida era um todo; não havia um observador olhando para ela, ela nunca fora dividida. Ela era um ser integrado. Pela primeira vez surgiu a divisão. Ela estava olhando para si própria, pensando. Ela tinha se tornado o sujeito e o objeto, tinha se tornado duas, e então começou a andar. Foi difícil, quase impossível. Ela caiu - como pode você controlar cem pernas?

A raposa riu e disse: "Eu sabia que devia ser difícil, sempre soube."

A centopeia começou a chorar, as lágrimas inundaram os seus olhos. Ela disse: "Nunca foi difícil, mas você criou o problema. Agora eu nunca mais vou conseguir andar."

A mente tinha entrado em cena, ela entra em cena quando você está dividido. É por isso que Krishnamurti continua dizendo que, quando o observador se torna o observado, você está em meditação.

O oposto aconteceu com a centopeia. O todo se perdeu, se transformou em dois: o observador e o observado, divididos. o sujeito e o objeto; o pensador e o pensamento. Então tudo ficou perturbado, perdeu-se a felicidade, o fluxo de harmonia foi interrompido. E foi assim que ela ficou paralisada.

Sempre que a mente entra em cena, ela vem como uma força controladora, um gerente. Ela não é o mestre, ela é o gerente. E você não chega ao o mestre enquanto o gerente não for posto de lado. O gerente não vai permitir que você alcance o mestre, o gerente vai estar em pé diante da porta, controlando. E todos os gerentes administram mal - a mente tem feito um ótimo trabalho de má administração.

Pobre centopeia, ela sempre fora feliz. Não tinha problema nenhum. Vivia, cantava, amava, tudo, sem problema nenhum, porque não havia mente. Com a mente veio o problema - com a pergunta, com a indagação. E existem muitas raposas ao seu redor. Cuidado com elas: filósofos, teólogos, professores, todos eles são raposas. Eles levantam perguntas e criam perturbação.

Lao Tzu, o mestre de Chuang Tzu, disse: "Quando não existia nem um único filósofo, tudo estava resolvido, não haviam perguntas e as respostas estavam todas à disposição. Quando surgiram os filósofos, surgiram as perguntas e as respostas desapareceram." Sempre que existe uma pergunta, a resposta está muito longe. Sempre que você pergunta, nunca obtém a resposta, mas se você para de perguntar, você verá que a resposta sempre esteve ali.

Não sei o que aconteceu com essa centopeia. Se ela era tão tola quanto os seres humanos, está em algum hospital, aleijada, paralítica para sempre. Mas eu não acho que as centopeias sejam tão tolas. Ela deve ter deixado a questão de lado. Deve ter dito à raposa: "Guarde suas perguntas para si mesma, e me deixe andar em paz." Ela deve ter descoberto que essa divisão não lhe permitiria viver, porque a divisão causa morte. Indiviso, você é vida; dividido, você é morte. Quanto mais dividido, mais morto.

O que é felicidade? Felicidade é a sensação que surge em você quando o observador se torna o observado. Felicidade é a sensação que surge em você quando você está em harmonia, não fragmentado; quando você é um, não está desintegrado, é indiviso, uno. O sentimento não é algo que vem de fora. É a melodia que brota da sua harmonia interior.



sábado, abril 27, 2013

O Barco Vazio (Osho)


"Se um homem estiver atravessando um rio
E um barco vazio colidir com a sua própria embarcação,
Mesmo que ele seja um homem mal-humorado
Não vai ficar muito irritado.
Mas se vir um homem no outro barco, 
Ele vai gritar com ele  para que reme direito.
Se o seu grito não for ouvido, ele vai gritar de novo,
E mais uma vez começará a xingar.
Tudo porque há alguém no barco.
Se o barco estivesse vazio, Ele não estaria gritando
Nem ficaria com raiva.
Se você conseguir esvazia o seu barco
Ao atravessar o rio do mundo,
Ninguém vai se opor a você,
Ninguém vai tentar lhe fazer mal.
Quem pode se libertar do sucesso
E da fama, e descer e se perder
Em meio à massa humana?
Esse fluirá com o Tao, invisível,
Avançará com a própria vida
Sem nome e sem lar.
Aparentemente é um tolo.
Seus passos não deixam rastro.
Não tem nenhum poder.
Nada consegue, não tem reputação.
Como não julga ninguém,
Ninguém o julga.
Assim é o homem perfeito:
Seu barco está vazio."



Você veio até mim. Deu um passo perigoso. Correu um risco, porque perto de mim você pode se perder para sempre. Chegar mais perto vai significar a morte e não pode significar outra coisa. Sou como um abismo. Aproxime-se e você vai cair dentro de mim.  E para isso o convite foi feito. Você ouviu e veio.

Esteja ciente de que por meu intermédio você não vai ganhar nada. Por meu intermédio você só pode perder tudo – porque, a menos que você esteja perdido, o divino não poderá acontecer, a menos que você desapareça totalmente, o real não poderá surgir. Você é a barreira.

E você é tanto, e tem tanta teimosia, você é tão cheio de si mesmo que nada pode penetrar em você. As suas portas estão fechadas. Quando você desaparece, quando você não está, as portas se abrem. Então você se torna simplesmente como o céu vasto e infinito.

Essa é a sua natureza. Esse é o Tao.

Antes de começar a bela parábola de Chuang Tzu, O Baco Vazio, eu gostaria de contar outra história, porque isso vai definir a tendência desse retiro de meditação em que você está entrando.

Eu ouvi... 

Aconteceu uma vez, em algum tempo antigo, em algum país desconhecido, que um príncipe de repente enlouqueceu. O rei ficou desesperado – o príncipe era seu único filho, o único herdeiro do reino. Todos os magos foram chamados, os milagreiros, os médicos foram convocados, todo esforço foi feito, mas em vão. Ninguém conseguiu ajudar o jovem príncipe, que continuou louco.

No dia em que ficou louco, ele jogou fora as suas roupas, ficou nu e passou a viver debaixo de uma grande mesa. Ele achou que tinha se tornado um galo. Por fim, o rei teve que aceitar o fato de que o príncipe não se recuperaria. Ele tinha ficado permanentemente insano, pois todos os especialistas tinham fracassado.

Mas, um dia, mais uma vez a esperança raiou. Um sábio, um sufi, um místico, bateu na porta do palácio e disse: “Peço uma chance de curar o príncipe.” O rei ficou desconfiado, porque esse homem parecia, ele próprio, um louco ainda mais louco do que o príncipe. Mas o místico disse: “Só eu posso curá-lo. Para curar um louco, é necessário um louco ainda maior. E seus milagreiros, seus médicos especialistas, todos falharam, porque eles não sabem o á-bê-cê da loucura. Nunca percorreram esse caminho.”

Parecia lógico, então o rei pensou: “Que mal pode haver? Por que não tentar?” Então, deram a ele uma oportunidade.

No momento em que o rei disse: “tudo bem, você pode tentar”, esse místico jogou fora as roupas, saltou para debaixo da mesa e cantou como um galo. O príncipe ficou desconfiado e disse: “Quem é você? E o que acha que está fazendo?”

O velho disse: “Eu sou um galo mais experiente que você. Você não é nada, é apenas um recém-chegado, no máximo um aprendiz.”

O príncipe disse: “Então, tudo bem se você for um galo, mas parece um ser humano.”

O velho disse: “Não vá pelas aparências, olhe para o meu espírito, a minha alma. Eu sou um galo como você”.

Eles se tornaram amigos. Prometeram um a outro que sempre viveriam juntos – e o mundo inteiro estava contra eles.

Alguns dias se passaram. Um dia o velho de repente começou a se vestir. Ele colocou a camisa. O príncipe disse: “O que você está fazendo? Ficou louco? Um galo tentando colocar um roupa humana?”

O velho disse: “Estou apenas tentando enganar os tolos, esses seres humanos. E, lembre-se, mesmo que eu esteja vestido, nada mudou. Minha natureza de galo permanece, ninguém pode mudar isso. Apenas por me vestir como um ser humano, você acha que eu mudei?” O príncipe teve que concordar.

Poucos dias depois o velho convenceu o príncipe a se vestir, porque o inverno estava chegando e ficava cada vez mais frio.

Então, um dia, de repente, o velho pediu comida do palácio. O príncipe ficou muito ressabiado e disse: “Seu patife, o que quer dizer com isso? Você vai comer como os seres humanos? Como eles? Nós somos galos e temos que comer como galos.”

O velho disse: “Nada faz diferença alguma no que diz respeito a este galo. Você pode comer qualquer coisa e pode desfrutar de tudo. Você pode viver como um ser humano e permanecer fiel à sua natureza de galo.”

Pouco a pouco o velho convenceu o príncipe a retornar ao mundo da humanidade. E ele tornou-se absolutamente normal.

O mesmo acontece com você e comigo. E, lembre-se, você está apenas se iniciando, é um iniciante. Você pode pensar que é um galo, mas está apenas aprendendo o alfabeto. Eu sou um veterano e posso ajuda-lo. Eu digo que posso ajuda-lo porque não sou um especialista, não sou alguém de fora. Tenho viajado pelo mesmo caminho, pela mesma insanidade, pela mesma loucura. Eu passei pelo mesmo que você – a mesma miséria, a mesma angústia, os mesmos pesadelos. E tudo o que estou fazendo não é nada além de persuadi-lo a sair da sua loucura.

Pensar que você é um galo é maluquice; pensar que você é um corpo é maluquice também, mais maluquice ainda. Pensar que você é um galo é loucura; pensar que você é um ser humano é uma loucura ainda maior – porque você não pertence a nenhuma forma. Seja a de um galo ou a de um ser humano, a forma é irrelevante – você pertence ao sem forma, você pertence ao total, ao todo. Assim, seja qual for a forma que você pensa que tem, você está louco. Você é sem forma. Você não pertence a nenhuma forma, e você não pertence a nenhum organismo. Você não pertence a nenhuma casta, religião, credo; você não pertence a nenhum nome. E, a menos que você se torne sem forma, sem nome, você nunca será saudável.

Sanidade significa chegar ao que é natural, chegar ao que é perfeito em você, ao que está escondido atrás do nome e da forma. Muito esforço é necessário porque para cortar a forma, deixar para trás e eliminar a forma, é muito difícil. Você se tornou muito apegado e identificado a ela.

Este Samadhi Sadhana Shibir, este campo de meditação, nada mais é que persuadi-lo a seguir na direção do sem forma – como não ficar na forma. Toda forma significa ego; até mesmo um galo tem seu ego, e o homem também tem o seu. Toda forma é centrada no ego. Não-forma significa sem ego; você não está mais centrado no ego: o seu centro está em toda parte ou em parte alguma.  Isso é possível, isso que parece quase impossível é possível, porque aconteceu comigo. E, quando eu falo, falo por experiência. Seja o que você for, eu fui; e, seja o que for que eu seja, você pode ser.

Você pode ser curado, porque a sua doença é apenas um pensamento. O príncipe ficou louco porque se identificou com o pensamento de que era um galo. Todo mundo é louco, a menos que chegue a compreender que não está identificado com nenhuma forma – só então vem a sanidade.

Uma pessoa sã, portanto, não será ninguém em particular, não pode ser. Só um louco pode ser alguém em particular – seja um galo ou um homem, ou um primeiro-ministro ou um presidente, qualquer coisa, seja o que for. Uma pessoa sã passa a sentir a condição de ser um ninguém.

Esse é o perigo...

Você veio até mim como alguém e, se me permitir, se me der uma oportunidade, essa condição de ser alguém pode desaparecer e você pode se tornar um ninguém. Todo o esforço é nesse sentido – torna-lo um ninguém. Mas por que? Por que esse esforço para se tornar um ninguém? Porque, a menos que se torne um ninguém, você não poderá ficar em êxtase; a menos que se torne um ninguém, a bênção não se derramará sobre você – você continuará desperdiçando a sua vida.

Na realidade você não está vivo, você simplesmente se arrasta por aí, simplesmente carrega a si mesmo como um fardo. Muita angústia acontece, muito desespero, muita tristeza, mas nem um único fulgor de felicidade – ela não pode acontecer. Se você é alguém, você é como um bloco sólido de pedra, nada pode penetrar em você. Quando você é ninguém, você começa a se tornar poroso. Quando você é ninguém, você é na verdade um vazio, transparente, tudo pode passar através de você. Não existe nenhum impedimento, não existe nenhuma barreira, nenhuma resistência. Você se torna uma passividade, uma porta.

Neste exato momento você é como uma parede; uma parede significa alguém. Ao se tornar uma porta, você será ninguém. Uma porta é apenas um vazio, qualquer um pode passar, não existe nenhuma resistência, nenhuma barreira. Se é alguém, você está louco; se é ninguém, você pela primeira vez se tornará sadio.

Mas toda a sociedade, educação, civilização, cultura, todas elas cultivam você e o ajudam a se tornar alguém. É por isso que eu digo que a religião é contra a civilização, a religião é contra a educação, a religião é contra a cultura – porque a religião é a favor da natureza, é a favor do Tao.

Todas as civilizações são contra a natureza, porque elas querem fazer de você alguém em particular. E quanto mais você se cristaliza como alguém, menos o divino pode penetrar em você. 

Você vai aos templos, às igrejas, aos sacerdotes, mas ali você também está em busca – como se tornar alguém no outro mundo, como alcançar algo, como obter sucesso? A mente em busca de conquistas segue você como uma sombra. Se você veio aqui com essa ideia, deve sair o mais rápido possível, deve fugir o mais rápido possível de mim, porque não posso ajuda-lo a se tornar alguém.

Eu só posso ajuda-lo a ser ninguém. Só posso empurrá-lo para o abismo sem fundo. Você nunca vai chegar a lugar nenhum, você vai simplesmente se dissolver. Você vai cair, cair e cair e se dissolver, e, no momento em que se dissolve, toda a existência entra em êxtase. Toda a existência celebra esse acontecimento.

Buda alcançou isso. Por causa do idioma eu digo “alcançou” – do contrário a palavra é inapropriada/feia, porque nada foi alcançado, mas você vai entender. Buda alcançou esse vazio, esse nada. Durante duas semanas, por catorze dias, continuamente, ele se sentou em silêncio, sem se mover, sem dizer nada, sem fazer nada.

Dizem que as divindades no céu ficaram preocupadas – raramente aconteceu de alguém se tornar um vazio tão absoluto. Toda a existência sentiu uma celebração, as divindades vieram. Fizeram um reverência diante de Buda e disseram: “É preciso que diga alguma coisa, que diga o que você alcançou.” Conta-se que Buda riu e disse: “Eu não alcancei nada; mas sim, por causa dessa mente, que sempre quer alcançar alguma coisa, eu estava perdendo tudo. Eu não alcancei nada, isso não é uma conquista; pelo contrário, o conquistador desapareceu. Eu não existo mais, veja a beleza disso”, disse Buda. “Quando eu existia, era infeliz, e agora que eu não existo mais, tudo é feliz, a felicidade se derrama continuamente sobre mim, em todos os lugares. Agora não há mais sofrimento.”

Buda havia dito antes: “A vida é sofrimento, o nascimento é sofrimento, a morte é sofrimento – tudo é sofrimento.” Era sofrimento porque o ego estava lá. O barco não estava vazio. Agora, o barco estava vazio, agora não havia mais sofrimento, nenhum pesar, nenhuma tristeza. A existência se tornara uma celebração e permaneceria uma celebração pela eternidade, para sempre.

É por isso que eu digo, é perigoso que você tenha vindo até mim. Você deu um passo arriscado. E, se você for corajoso, esteja pronto para o salto.

Todo o esforço é no sentido de dissolvê-lo; todo o esforço é como destruir você. Uma vez destruído, o indestrutível virá à tona – ele está lá, escondido. Depois que tudo o que não é essencial for eliminado, o essencial será como uma chama – vivo em sua glória total. Esta parábola de Chuang Tzu é linda. Ele diz que um homem sábio é como um barco vazio.

Assim é o homem perfeito – seu barco está vazio

Não há ninguém dentro. 

Se você encontrar alguém como Chuang Tzu, Lao-Tsé ou Buda, o barco estará ali, mas ele estará vazio – não haverá ninguém nele. Se você simplesmente olhar para a superfície, então verá alguém lá, porque o barco está lá. Mas, se penetrar mais profundamente, se conseguir alcançar o centro ou a fonte do ser, se esquecer o corpo - o barco - então você acabará por encontrar um nada. 

Chuang Tzu é uma flor rara, porque tornar-se ninguém é a coisa mais difícil, quase impossível, a coisa mais extraordinária do mundo.

A mente comum anseia por ser extraordinária, o que faz parte do ordinarismo. A mente ordinária deseja ser alguém em particular, alguém extraordinário - o que faz parte do ordinarismo. Você pode se tornar um Alexandre, mas continuará sendo ordinário, comum – então quem é o extraordinário? O extraordinário só começa quando você não anseia pelo extraordinário. Então a viagem começou, então uma nova semente brotou.

Isso é o que Chuang Tzu quer dizer quando afirma: “Um homem perfeito é como um barco vazio”. Muitas coisas estão implícitas nisso. Em primeiro lugar, um barco vazio não vai a lugar nenhum, porque não há ninguém para dirigi-lo, ninguém para manipulá-lo, ninguém para encaminhá-lo a algum lugar. Um barco vazio está apenas ali, não está indo a lugar nenhum. Mesmo que esteja se movendo, não estará indo a lugar nenhum.

Se a mente não está ali, a vida continuará a ser um movimento, mas não vai ser dirigida. Você vai se mover, você vai mudar, você será um fluxo como um rio, mas não estará indo a lugar algum, não terá nenhum objetivo em vista. Um homem perfeito vive sem nenhuma finalidade; um homem perfeito avança, mas sem nenhuma motivação. Se você perguntar a um home perfeito: “O que você está fazendo?”, ele dirá: “Não estou fazendo nada, isso é o que está acontecendo”. Isso está acontecendo, não é algo manipulado. Não há ninguém para manipulá-lo, o barco está vazio. 

Se existir um propósito, você vive e em sofrimento. Por que? Um propósito existe para o eu, o ou ego, e significa a mente que vive no futuro. A mente pode viver no futuro, mas não no presente. Se você não vive o presente, você pode ter esperanças e desejos. E é assim que você cria a miséria. Se você começar a viver neste momento, aqui e agora, o sofrimento desaparece. Mas como isso está relacionado ao ego? O ego é todo o passado acumulado. Tudo o que você conheceu, vivenciou, leu, tudo o que aconteceu a você no passado, o todo é acumulado ali. Todo esse passado é o ego, é você.

O passado pode se projetar no futuro – porque o futuro não é senão o passado estendido. O passado não prevalece sobre o presente – o presente é totalmente diferente, tem a qualidade de ser aqui e agora. O passado está sempre morto, o presente é vida, a fonte de toda a vivacidade. O passado não pode prevalecer diante do momento presente, por isso se transporta para o futuro – ambos estão mortos, ambos são não existenciais. O presente é a vida; nem o futuro pode encontrar o presente, nem o passado pode encontrar o presente. E seu ego, a sua condição de ser alguém, é o seu passado. A menos que esteja vazio você não pode estar aqui, e a menos que esteja aqui você não pode estar vivo. 

Como você pode conhecer a felicidade da vida? Ela está se derramando sobre você a cada instante e você a está ignorando.

Chuang Tzu diz: “Assim é o homem perfeito – seu barco está vazio.”

Vazio de que? Vazio do eu, vazio do ego, vazio de alguém lá dentro. 

"Se um homem estiver atravessando um rio
E um barco vazio colidir com a sua própria embarcação,
Mesmo que ele seja um homem mal-humorado
Não vai ficar muito irritado.
Mas se vir um homem no outro barco, 
Ele vai gritar com ele  para que reme direito.
Se o seu grito não for ouvido, ele vai gritar de novo,
E mais uma vez começará a xingar.
Tudo porque há alguém no barco.
Se o barco estivesse vazio, Ele não estaria gritando 
Nem ficaria com raiva."

Se as pessoas continuam colidindo com você e se continuam com raiva de você, lembre-se, elas não têm culpa. Seu barco não está vazio. Elas estão com raiva porque você está lá. Se o barco estiver vazio elas vão parecer tolas, se estiverem com raiva vão parecer tolas. 

Esse símbolo do barco vazio é realmente muito bonito. As pessoas estão com raiva porque você está muito presente ali, porque você é muito pesado – tão sólido que elas não podem passar. E a vida está entrelaçada com todas as pessoas. Se você é uma presença excessiva, então em toda a parte haverá colisão, raiva, depressão, agressão, angústia, violência – o conflito continua.

Sempre que você sente que alguém está com raiva ou que alguém colidiu com você, você acha que o outro é responsável. Esse é o modo como a ignorância conclui, interpreta. A ignorância sempre diz: “O outro e responsável”. A sabedoria sempre diz: “Se alguém é responsável, então eu sou responsável, e a única maneira de não colidir é não ser.”

“Eu sou responsável” não quer dizer “eu estou fazendo algo, é por isso que eles estão com raiva”. Essa não é a questão. Você pode não está fazendo nada, mas apenas o seu ser é suficiente para que as pessoas fiquem com raiva. Não é uma questão de saber se você está fazendo bem ou mal. A questão é que você está ali, presente.

Esta é a diferença entre o Tao e as outras religiões. As outras religiões dizem: seja bom, comporte-se de modo que ninguém fique bravo com você. O Tao diz: Não seja.

Não é uma questão de saber se você se comporta bem ou mal. Mesmo um homem bom, até mesmo um homem muito santo causa raiva, porque ele é, ele está presente. 

Às vezes, um homem bom causa mais raiva do que um homem mau, porque um homem bom significa um egoísta muito sutil. Um homem mau sente-se culpado – seu barco pode estar cheio, mas ele se sente culpado. Ele na verdade não está muito à vontade no barco, a culpa dele o faz se retrair/encolher.  Um homem bom sente-se ser tão bom que ele se esparrama pelo barco completamente, deixando-o superlotado. 

Então, sempre que você chegar perto de um homem bom, vai sentir-se torturado – não que ele esteja torturando você; trata-se apenas da presença dele. Com os chamados “homens de bem”, você sempre vai se sentir triste e ter vontade de evita-los. Os chamados “homens de bem” são realmente muito pesados. Sempre que você entra em contato com eles, eles o deixam triste, eles o deprimem e você quer se afastar deles o mais rapidamente possível.

O Tao é totalmente diferente. O Tao tem uma qualidade diferente, e para mim o Tao é a mais profunda religião que existe na Terra. Nada se compara a ele. Houve lampejos, há lampejos nas palavras de Jesus, Buda e Krishna – mas apenas lampejos.

A mensagem de Lao Tsé ou Chuang Tzu é a mais pura – absolutamente pura, nada a contaminou. E a mensagem é a seguinte: é tudo porque há alguém no barco. Este inferno inteiro é só porque há alguém no barco.

Um sábio já dizia: “Aquele que se contenta consigo fez uma obra inútil.”

As pessoas religiosas vivem ensinando: contente-se com você mesmo. Mas você continua presente, se contentando consigo mesmo. Chuang Tzu diz: “Não esteja presente”, então não haverá a questão do contentamento ou descontentamento. Esse é o verdadeiro contentamento, quando você não está presente. Mas, se você sentir que está contente, isso é falso – porque você está lá, e trata-se apenas de uma plenitude egoica. Você sente que conseguiu, sente que alcançou.

O homem do Tao é simples e não faz distinção. Aparentemente é um tolo.

Essas são as palavras mais profundas que Chuang Tzu proferiu. É difícil entender porque sempre achamos que uma pessoa iluminada, um homem perfeito, é um homem de sabedoria. Ele diz: “aparentemente é um tolo...”

Mas é assim que deve ser. Entre tantos tolos, como pode um homem sábio não ser assim? Aparentemente ele será um tolo e esse é o único jeito. Como ele pode mudar esse mundo tolo e tantos tolos... levando-os na direção da sanidade? Ele terá de ficar nu, e entrar debaixo da mesa e cantar como um galo. Só então ele pode mudar você. Ele deve se tornar louco como você, deve ser um tolo, deve permitir que você ria dele. Então você não vai sentir inveja, não vai se sentir magoado, não vai ficar zangado com ele, você vai poder tolerá-lo, poderá esquecê-lo e perdoá-lo, poderá deixa-lo em paz.

Muitos grandes místicos se comportaram como tolos e seus contemporâneos ficaram perdidos – o que fazer de suas vidas – e a maior das sabedorias existe neles. Ser sábio entre vocês é realmente estupidez. Isso não servirá para nada. Sócrates foi envenenado porque não conheceu Chuang Tzu. Se tivesse conhecido Chuang Tzu, não haveria nenhuma necessidade de ele ser envenenado. Ele tentou se comportar como um homem sábio entre os tolos, ele tentou ser sábio. 

Chuang Tzu diz: “Aparentemente o homem sábio será como um tolo.” Chuang Tzu viveu, ele mesmo, como um tolo; rindo, cantando, dançando, contando piadas e anedotas. Ninguém achava que ele fosse sério. E você não poderia encontrar um homem mais sincero e sério do que Chuang Tzu. Mas ninguém achava que ele fosse sério. As pessoas gostavam dele, as pessoas o amavam, e através desse amor ele jogava sementes de sua sabedoria. Ele mudou muitos, transformou muitos.

Mas para mudar um louco você tem que aprender a língua dele, e tem que usar a linguagem dele. Você tem que ser como ele, tem que descer ao nível dele. Se você ficar de pé no seu pedestal, não vai haver comunicação.

Foi o que aconteceu com Sócrates, e tinha que acontecer ali, porque a mente grega é a mente mais racional do mundo, e uma mente racional sempre tenta não ser tola. Sócrates irritou a todos. As pessoas realmente tinham que mata-lo, porque ele fazia perguntas difíceis e todos se sentiam tolos. Ele deixava todo mundo acuado – você não consegue responder nem mesmo às perguntas comuns!

Se alguém insistisse em dizer que acreditava em Deus, então Sócrates perguntaria alguma coisa a respeito: “Qual é a prova?” E você não pode responder, você não viu Deus. Deus é uma coisa distante, e você não consegue provar sequer coisas comuns. Sócrates fazia perguntas penetrantes, analisava tudo, e todos em Atenas ficaram com muita raiva. Esse homem estava tentando provar que todo mundo é tolo. Eles o mataram. Se ele tivesse conhecido Chuang Tzu – e naquele tempo Chuang Tzu estava vivo na China, eles foram contemporâneos – então Chuang Tzu teria dito a ele o segredo: “Não tente provar que uma pessoa é tola porque os tolos não gostam disso. Não tente provar a um louco que ele é louco, porque nenhum louco gosta disso. Ele vai ficar bravo, arrogante, agressivo. Se você chegar ao ponto em que a loucura dele pode ser provada, ele vai se vingar.” 

Chuang Tzu teria dito: “É melhor ser você mesmo um tolo; assim as pessoas vão gostar de você e depois, por meio de uma metodologia muito sutil, você pode ajuda-las a mudar. Então elas não ficarão contra você.”

É por isso que no Oriente, particularmente na Índia, na china e no Japão, nunca ocorreu um fenômeno tão feio quanto esse que aconteceu na Grécia – Sócrates foi envenenado e morto.
Foi o que aconteceu em Jerusalém – Jesus foi morto, crucificado. Foi o que aconteceu no Irã, no Egito, em outros países – são muitos os sábios que foram mortos, assassinados. 

Comporte-se como um tolo, como um louco. Esse é o primeiro passo do homem sábio – fazer você ficar à vontade para que não tenha medo dele. É por isso que eu contei essa história.

O príncipe fez amizade com aquele homem. Ele estava com medo das outras pessoas, dos médicos, dos especialistas, porque eles estavam tentando muda-lo, curá-lo, e ele não era louco. Ele não achava que estivesse louco; nenhum louco jamais pensa que é louco. Se um louco um dia perceber que é louco, é porque a loucura desapareceu. Ele não é mais louco.

Todos aqueles homens sábios que estavam tentando curar o príncipe eram tolos, só aquele velho sábio foi de fato sábio. Ele se comportou como um tolo. A corte riu, o rei riu, a rainha riu. Eles disseram: “O que? Como esse homem vai mudar o príncipe? Ele é louco e parece ser mais louco ainda que o príncipe”. Até o príncipe ficou chocado. Ele disse: “O que você está fazendo? O que você quer dizer com isso?” Mas esse homem deve ter sido um sábio iluminado. 

Chuang Tzu está falando sobre esse tipo de homem, esse homem fenomenal.

Esse vai ser o seu caminho. Esvazie o barco. Comece a jogar fora tudo o que encontrar no barco, até que tudo seja lançado fora e nada seja deixado, até que você seja jogado fora e nada reste, o seu ser tornou-se simplesmente vazio.

A última e a primeira coisa é ficar vazio; assim que ficar vazio você será preenchido. O todo descerá sobre você quando estiver vazio – só o vazio pode receber o todo, nada menos que isso vai servir. É somente então que o todo será recebido. A sua mente é tão pequena que não pode receber o divino. Deus cômodos são tão pequenos que você não pode convidar o divino. Destrua essa casa completamente, porque apenas o céu, o espaço total, pode recebê-lo.

O vazio vai ser o caminho, a meta, tudo. A partir de hoje, tente se esvaziar de tudo o que encontrar dentro de você: sua infelicidade, sua raiva, seu ego, seus ciúmes, seus sofrimentos, suas dores, seus prazeres – tudo o que você encontrar, basta jogar fora. Sem fazer distinção, sem fazer escolhas, esvazie-se. E no momento em que estiver totalmente vazio, de repente você vai ver que você é o todo, a totalidade. Por meio do vácuo, o todo é atingido.

A meditação nada mais é que um esvaziamento, nada mais é do que se tornar ninguém. Viva como um ninguém. Se você provocar raiva em alguém e colidir com essa pessoa, lembre-se, você deve estar no barco. Logo, quando o seu barco estiver vazio, você não colidirá, não haverá nenhum conflito, nenhuma raiva, nenhuma violência – nada.

Esse nada é a bênção, esse nada é a bem-aventurança. É por esse nada que você tem procurado a vida toda. Mas a menos que o buscador desapareça, não pode haver satisfação. Entre no vazio, torne-se ninguém, e continue vazio.  Ande por este vasto mundo como um barco vazio, e todas as bênçãos que são possíveis na existência serão suas. Reivindique-as, mas você só pode reivindica-las quando você não está. Esse é o problema – como não estar. Eu digo a você que esse problema pode ser resolvido. Eu já resolvi, é por isso que digo isso.

Medite sobre isso, ore por isso, faça todos os esforços para isso. E lembre-se apenas de uma coisa – você tem que se tornar um barco vazio.


quinta-feira, abril 25, 2013

Prática de bondade e altruísmo (Dalai Lama)

 Dalai Lama


"A base da mente altruísta da iluminação é um bom coração, uma mente bondosa, o tempo todo. 

Todos nós podemos nos beneficiar desse cultivo; não devemos ficar raivosos, brigar, revidar e tudo mais. 

Quando as pessoas se engajam em tais atividades, elas fazem isso devido a preocupações pessoais, mas na verdade estão apenas se prejudicando. 

Então, todos nós precisamos fazer tudo que pudermos para cultivar uma mente bondosa, um bom coração.

Não estou apenas explicando isso; eu também estou fazendo tudo que posso para praticar isso. 

Todo mundo precisa fazer o que for possível, porque o tanto que conseguirmos praticar é o tanto que isso irá ajudar.
 
Se você se engajar nessas práticas e ganhar experiência nelas, suas atitudes e o modo como vê as outras pessoas vão mudar. 

Então, quando surgir um problema — que já apareceu antes — você não vai reagir com a mesma irritação, não vai gerar as mesmas atitudes negativas.

Essa mudança não é algo externo — não é uma questão de fazer uma plástica no nariz ou adotar um novo corte de cabelo. 

Acontece dentro da mente. 

Algumas pessoas conseguem suportar problemas, outras não conseguem; a 
diferença é a atitude interior.

A mudança advinda de colocar esses ensinamentos em prática vem devagar. 
 
Após algum tempo, podemos encontrar pessoas que nos dizem que mudamos — isso é um bom sinal, um sinal de que a prática tem sido efetiva."