"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, abril 23, 2013

Dois Jovens sem dinheiro em Brindában

Paramahansa Yogananda


"Provai, e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele confia." (Salmos 34:8)
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"Fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se Eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes." (Malaquias 3:10)


 
Você mereceria que papai o deserdasse, Mukunda! Que tonto é, desperdiçando a vida! - Um sermão de meu irmão mais velho me agredia os ouvidos. Jítendra e eu, recém-saídos do trem e cobertos de poeira, tínhamos chegado ao lar de Ananta, recentemente transferido de Calcutá para a velha cidade de Agra. Meu irmão era auditor no Departamento de Obras Públicas do Governo.

- Você bem sabe, Ananta, que procuro minha herança do Pai Celeste.
- Em primeiro lugar, o dinheiro; Deus pode vir depois! Quem sabe? A vida pode ser muito longa.
- Deus, em primeiro lugar; o dinheiro é Seu escravo! Quem sabe? A vida pode ser muito curta.
- Minha réplica fora provocada pelas circunstâncias, e não a apoiava nenhum pressentimento (mas ai de mim, a vida de Ananta, de fato, terminaria em breve!). "Conheço esse olhar", pensei. Está tramando uma cilada!..

A trama urdida chegou a seu desfecho durante nossa primeira refeição na manhã seguinte.

- Você, então, se sente muito independente da riqueza de papai. O olhar de Ananta expressava inocência enquanto ele voltava às farpas da conversação do dia anterior.
- Estou consciente de minha dependência de Deus.
- Falar é fácil! A vida lhe serviu de escudo até agora! Mas que situação de apuro se você fosse obrigado a recorrer à Mão Invisível para seu alimento e abrigo! Logo estaria mendigando nas ruas!
- Nunca! Não depositaria minha fé nos transeuntes em vez de colocá-la em Deus! Ele pode conceber para Seu devoto milhares de recursos, além da escudela de mendigo!
- Mais retórica! Suponhamos que eu sugira seja a bazófia de sua filosofia posta à prova neste mundo tangível ...
- Eu concordaria! Você confina Deus a um mundo especulativo?

- Veremos. Hoje, você terá oportunidade, ou de ampliar, ou de confirmar meu próprio ponto de vista! - Ananta fez uma pausa durante um dramático momento; em seguida, falou devagar e seriamente: Proponho enviá-lo, com seu condiscípulo Jitendra, esta manhã, para a vizinha cidade de Brindában. Você não deve levar uma só rúpia; não deve mendigar nem alimento nem dinheiro; não deve revelar sua situação a ninguém; não deve passar sem refeições; não deve encalhar em Brindában; se voltar aqui, à minha casa, antes da meia noite, sem haver violado uma só regra do teste, serei o homem mais espantado de Agra!

- Aceito o desafio! - Nenhuma hesitação havia em minhas palavras ou em meu coração. Gratas lembranças da Beneficência Instantânea reverberavam em minha memória: minha cura de cólera mortal através do apelo à fotografia de Láhiri Mahásaya (o guru dos pais de Yogananda); o jocoso presente dos dois papagaios no terraço de Lahore; o amuleto oportuno durante o desânimo em Bareilly; a mensagem decisiva por intermédio do sádhu que se aproximou do pátio do erudito em Benares; a visão da Mãe Divina e suas sublimes palavras de amor; sua rápida atenção, através de mestre Mahásaya, a meus pequeninos aborrecimentos; a orientação de última hora, que materializou meu diploma de escola secundária; e a derradeira bênção, meu mestre vivente, emergido da bruma dos sonhos de toda a minha vida. Nunca eu admitiria a insuficiência de minha filosofia, em qualquer embate, no áspero campo de provas do mundo!

- Sua disposição é crédito a seu favor. Vou escoltá-lo até o trem imediatamente - disse Ananta. E voltando-se para o boquiaberto Jitendra: - Você deve ir junto: como testemunha e, provavelmente, co-vítíma! Meia hora depois, Jitendra e eu estávamos de posse das passagens de ida, para a viagem. Submetemo-nos, num canto retirado da estação, ao exame de nossas pessoas. Ananta prontamente se satisfez porque não carregávamos valores ocultos; nossos simples "dhótis" (peça de roupa amarrada em torno da cintura, cobrindo as pernas) não escondiam mais do que o necessário. Como a fé se imiscuía no mundo sério das finanças, meu amigo protestou: - Ananta, dê-me uma ou duas rúpias como medida de cautela, Então, poderei telegrafar-lhe em caso de infortúnio.

- Jitendra! - Minha exclamação foi de aguda censura. - Não continuarei com o teste, se você levar dinheiro para nos garantir em último caso.- Algo de tranqüilizador existe no tilintar das moedas. - Jitendra nada mais acrescentou porque o encarei severamente.

- Mukunda, não sou destituído de coração. - Um toque de humildade insinuara-se na voz de Ananta. É possível que sua consciência o afligisse; talvez por enviar dois jovens sem dinheiro a uma cidade desconhecida; talvez devido a seu próprio ceticismo religioso. - Se, por qualquer acaso ou graça, você passar com sucesso pelo ordálio de Brindában, pedir-lhe-ei que me aceite como seu discípulo.

Em consonância com a situação não-convencional, esta promessa continha certa irregularidade. O irmão mais velho numa família hindu raramente se inclina ante os mais novos; recebe respeito e obediência, em segundo lugar, logo depois do pai. Não restava tempo, entretanto, para meu comentário; nosso trem ia partir.
 
Jitendra manteve um silêncio lúgubre, enquanto o trem cobria a distância. Finalmente, meu amigo se moveu; inclinando-se, beliscou-me dolorosamente em lugar sensível.

- Não vejo sinal algum de que Deus nos vai fornecer nossa próxima refeição!- Aquiete-se, incrédulo Tomé; o Senhor está trabalhando a nosso favor.
- Você não pode fazer que Ele se apresse? já estou esfomeado, só ao considerar as perspectivas diante de nós. Deixei Benares para ver o mausoléu do Taj, não para entrar no meu próprio!
- Anime-se, Jitendra! Não estamos prestes a ter nosso primeiro vislumbre das sagradas maravilhas de Brindában? (às margens do rio Junna, Bríndában é a 'Jerusalém' dos indianos. Acreditam que ali o 'avatar' Sri Krishna tenha se manifestado). Sinto profunda alegria ao pensamento de pisar o solo santificado pelos pés do divino Krishna. - A porta de nosso compartimento abriu-se; dois homem tomaram assento. A próxima parada do trem seria a última.

- Jovens, vocês têm amigos em Brindában? - O desconhecido, defronte a mim, revelava um interesse surpreendente.
- Não é de sua conta! - desviei rudemente o olhar.
- Estão provavelmente fugindo de suas famílias sob a magia do 'Ladrão de Corações' ('Hári': um nome afetuoso, atribuído a Krishna por seus devotos). Eu próprio sou um temperamento devocional. Constitui, positivamente, meu dever, velar para que recebam alimento e abrigo neste calor fortíssimo.
- Não, deixe-nos sozinhos. O senhor é muito amável, mas se engana se nos julga vadios fugindo de casa.

Isto encerrou a conversação. O trem parou. Quando Jitendra e eu descemos à plataforma, nossos companheiros ocasionais nos tomaram pelo braço e chamaram um veículo de tração animal.
 
Apeamos em frente a um eremitério majestoso, situado entre árvores, sempre verdejantes, de canteiros bem conservados. Percebia-se que nossos benfeitores eram conhecidos ali; um sorridente jovem nos guiou sem comentários a uma sala de recepção. Logo se reuniu a nós uma senhora idosa, de nobre porte.

- Gaurí Ma, os príncipes não puderam vir. - Um dos homens dírigiu-se à hospedeira do "áshram" (eremitério ou escola de Yoga). - No último instante, seus planos foram alterados; eles enviam sentidas desculpas; mas trouxemos outros dois hóspedes. Assim que nos encontramos no trem, senti atração, por eles, devotos do divino Krishna. - E, voltando-se para nós - Adeus, jovens amigos, - Nossos dois conhecidos caminharam em direção à porta. - Se Deus quiser, nos encontraremos outra vez. Sejam benvindos aqui.

Gaurí Ma sorriu maternalmente. - Não poderiam ter chegado em melhor dia. Eu esperava dois benfeitores de sangue real, patronos deste eremitério. Que lástima se os alimentos que cozinhei não achassem ninguém para apreciá-los!

Estas amáveis palavras tiveram efeito surpreendente sobre Jitendra: ele desatou em lágrimas. As perspectivas que meu amigo temera encontrar em Brindában estavam se convertendo em entretenimento de reis; o repentino ajustamento mental era demasiado forte para ele. Nossa anfitriã mirou-o com curiosidade, mas sem comentário; talvez estivesse familiarizada com caprichos de adolescentes.

O almoço foi anunciado; Gaurí Ma nos precedeu em caminho para um pátio, saturado de aromas apetitosos, onde a refeição seria servida. Ela desapareceu numa cozinha próxima. Eu premeditara este momento. Escolhendo o local apropriado no corpo de Jitendra, dei-lhe um beliscão tão doloroso como o que ele me dera no trem.

- Incrédulo Tomé, o Senhor Deus trabalha. E depressa, também!
A anfitriã reentrou com um púnkha (leque). Ela firmemente nos abanou à moda oriental, enquanto cruzávamos as pernas em assentos de mantas com ornamentos. Discípulos do ásbram iam e vinham, servindo cerca de trinta pratos. Em vez de refeição, eu deveria descrevê-la como suntuoso banquete. Desde que chegamos a este planeta, Jitendra e eu nunca antes prováramos tais iguarias.

- Realmente, pratos dignos de príncipes, Honrada Mãe! Não posso imaginar que atividade seus régios benfeitores encontraram mais urgente que comparecer a este banquete! A senhora nos proporcionou uma recordação para o resto da vida!

Obrigados ao silêncio pelas condições impostas por Ananta, não podíamos explicar à bondosa senhora que nossos agradecimentos tinham duplo significado. Nossa sinceridade, pelo menos, era patente.

 

(O Taj Mahal)

Partimos com sua bênção e um convite atraente para revisitar o eremitério. Fora, o calor era impiedoso. Meu amigo e eu procuramos o abrigo de majestosa árvore de cadamba, na porta do áshram. Seguiu-se um diálogo acerbo. Jitendra, de novo, achava-se perturbado por apreensões.

- Em que bela embrulhada você me meteu! Nosso almoço foi apenas um incidente de boa sorte! Como poderemos ver os aspectos interessantes desta cidade sem termos conosco uma única moeda? E como vai me levar de volta à casa de Ananta?
- Você esquece Deus rapidamente, agora que seu estômago está cheio. - Minhas palavras, sem serem amargas, eram acusatórias. Como é curta a memória humana para os favores divinos! Nenhum homem vivo deixou de ver respondidas algumas de suas preces.
- Não me disponho a esquecer minha loucura ao me aventurar em viagem com um doido como você!
- Cale-se, Jitendra! O mesmo divino Senhor que nos alimentou nos mostrará Brindában e nos devolverá a Agra.

Um jovem delgado, de agradável aparência, aproximou-se a passos rápidos. Parando sob nossa árvore, curvou-se diante de mim.

- Querido amigo, o senhor e seu companheiro devem ser estranhos aqui. Permita-me que seja seu anfitrião e guia.
É quase impossível a um hindu empalidecer, mas a face de Jitendra mostrou, de súbito, uma cor desmaiada. Recusei cortesmente o oferecimento.
- Não, não pode ser que me dispense. - O alarme do desconhecido teria sido cômico em outras circunstâncias.
- Por que não?- O senhor é meu guru. - Seus olhos buscaram os meus confiantemente. - Durante minhas devoções do meio dia, o bendito Senhor Krishna apareceu-me em visão. Mostrou-me duas figuras desamparadas sob esta mesma árvore. Uma face era a sua, meu mestre! Eu a vi freqüentemente em meditação! Que alegria se aceitasse meus humildes serviços!
- Eu também me alegro de que me haja encontrado. Nem Deus nem o homem nos desamparam! - Embora eu estivesse imóvel, sorrindo para o rosto ansioso diante de mim, uma obediência interna prostrou-me ante os Pés Divinos.
-
Queridos amigos, não me darão a honra de se hospedarem em minha casa?
- Você é amável; mas o plano é inexequível. já somos hóspedes de meu irmão em Agra.

- Pelo menos, me deixarão a lembrança de haver percorrido Brindában em sua companhia.

Consenti com alegria. O jovem, cujo nome era Pratap Chatterji, chamou uma carruagem. Visitamos o Templo Madananchana e outros santuários de Krishna. A noite desceu antes de terminarmos nossas devoções no templo.

- Com licença, vou ver se consigo sandesh (um doce hindu). - Pratap entrou em uma loja na estação ferroviária. Jitendra e eu vagamos ao longo da ampla rua, agora repleta de gente na relativa amenidade da noite. Nosso amigo ausentou-se por algum tempo, mas retornou com presentes de doces e guloseimas.
- Por favor, permita que eu ganhe este mérito religioso. - Pratap sorriu suplicante enquanto estendia um maço de rúpias em notas e duas passagens, recém-compradas, para Agra. Aceitando-os, minha reverência dirigiu-se à Mão Invisível que, escarnecida por Ananta, excedera-se em generosidade. Procuramos um lugar solitário perto da estação.

- Pratap, ínstruí-lo-ei na Kriya de Láhíri Mahásaya, o maior iogue dos tempos modernos. A técnica dele será seu guru. - A iniciação terminou em meia hora. - Kriya é seu chíntárnani (pedra preciosa mitológica com poder de realizar os desejos; é, também, um dos nomes de Deus), - disse eu ao novo discípulo. - A técnica, que é simples como vê, incorpora a arte de apressar a evolução espiritual do homem. Assim como o crescimento das plantas pode ser acelerado muito além de seu ritmo normal, como Jâgadís Chandra Bose (físico e químico muito respeitado na Índia)
demonstrou, também o desenvolvimento psicológico do homem pode ser apressado por meios científicos. Seja assíduo em suas práticas; alcançará o Guru de todos os gurus.- Sinto arrebatamento ao encontrar esta chave do Yoga, procurada há longo tempo! - disse Pratap pensativamente. - Seu efeito desobstrutivo sobre as limitações sensoriais me deixará livre para ingressar em esferas superiores. A visão do Senhor Krishna, hoje, só poderia significar o meu maior bem.Sentamos por um instante em silenciosa compreensão; depois, caminhamos lentamente para a estação. A alegria me inundava ao tomar o trem, mas este foi um dia de lágrimas para Jitendra. Meu afetuoso adeus a Pratap foi pontuado por soluços abafados de meus dois companheiros. A viagem novamente encontrou Jítendra a revolver-se em descontentamento - desta vez, contra si mesmo.

- Superficial é a minha confiança; meu coração tem sido de pedra! Nunca, no futuro, duvidarei da proteção de Deus.

Aproximava-se a meia noite. As duas Cinderelas, enviadas sem dinheiro, entraram no quarto de Ananta. Tal como ele irrefletidamente predissera, suas feições eram um estudo sobre o espanto. Em silêncio, espalhei sobre a mesa as rúpías em notas.

- Jitendra, a verdade! - O tom de Ananta era de gracejo. - Este jovem não esteve participando de um assalto? - À medida, porém, que a narrativa prosseguia, meu irmão tornou-se sério e, por fim, solene, - A lei de oferta e procura atinge reinos mais sutis do que julguei. - Ananta falou com um entusiasmo espiritual que eu nunca antes observara nele. -
Compreendo pela
primeira vez sua indiferença aos cofres-fortes e às vulgares acumulações do mundo.


Apesar de tarde, meu irmão insistiu em receber díksha (iniciação espiritual; da raiz do verbo sânscrito diksh, consagrar-se) em Kriya Yoga. O guru Mukunda teve, na mesma noite, de arcar com a responsabilidade de dois discípulos não-procurados.

Nossa primeira refeição, na manhã seguinte, decorreu uma harmonia que estivera ausente da anterior. Sorri para Jitendra. - Você não será logrado em seu desejo de visitar o Taj. Vamos contemplá-lo antes de partir para Serampore. Despedindo-nos de Ananta, meu amigo e eu logo nos achamos diante da glória de Agra, o Taj Mahal.
 
(Do livro: Autobiografia de um Iogue, capítulo 11) 
 

domingo, abril 21, 2013

A identidade de todas as religiões

Seicho-No-Ie

O mundo onde estamos vivendo, o mundo que vemos, este é o mundo do fenômeno. O mundo da Imagem Verdadeira é o mundo exatamente como foi criado por Deus. No Gênesis consta que Deus criou o mundo através do verbo, ou seja, através da palavra. Através do pensamento, que também é palavra, Deus criou a luz. Assim, segundo o Gênesis, Deus criou o mundo através do verbo, da palavra. Este é o mundo criado por Deus. A Bíblia diz, ainda, que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo dia verificou tudo o que tinha criado e disse que estava "tudo muito bom". Será que esse "tudo muito bom" refere-se ao mundo onde estamos vivendo, ou a outro mundo? Se olharmos ao nosso redor, percebemos que há pessoas doentes, pobres, miseráveis, gente que não trabalha, gente que rouba, gente que mata, percebemos que existe toda essa variedade de pessoas. Será que são todas pessoas maravilhosas? Da forma como estão manifestadas, não podemos dizer que são maravilhosas. Mas, Deus analisou tudo o que havia criado e disse que "tudo estava muito bom". Então, Deus estava vendo este mundo material em que estamos vivendo, ou estaria vendo um outro mundo? Esse mundo "muito bom" a que Deus se referiu é o mundo da Imagem Verdadeira. Não é o mundo palpável, que vemos, que tocamos, mas, o mundo que está na Mente de Deus. No mundo da Imagem Verdadeira tudo é perfeito. Nesse mundo não existe pobreza, não existe miséria, não existe desemprego, nem guerra, nem assassinatos, não existem coisas negativas. Isso porque Deus criou o mundo perfeito, e é nesse mundo perfeito que nós nos encontramos em nossa Imagem Verdadeira. Eu estou nesse mundo da Imagem Verdadeira e todos os senhores também se encontram nele. Todos estamos vivendo essa Vida perfeita e maravilhosa que nunca adoeceu, nunca errou, nunca pecou, nunca vai morrer. É, realmente, o mundo perfeito. Nesse mundo da Imagem Verdadeira, todas as religiões são iguais.
 
Como o mundo material é projeção do mundo da Imagem Verdadeira, nessa projeção do mundo da Imagem Verdadeira para o mundo material existe a interferência da mente do ser humano. Nessa passagem do mundo da Imagem Verdadeira para a projeção (interferência) é que podem vir distorções. Essas distorções é que fazem com que o mundo material, o mundo do fenômeno, seja imperfeito.

Existem, assim, as diversas situações que acontecem no mundo material. No mundo da Imagem Verdadeira tudo é perfeito, tudo é uma coisa só [uma Verdade]. Mas, ao manifestar-se no mundo do fenômeno surgem as diferenças entre as religiões. Isso ocorre porque elas surgiram em locais diferentes, em épocas diferentes e para pessoas diferentes. Assim, há diferenças no modo de pregar, no modo de manifestar, e no entendimento religioso. Esses fatores fazem com que as religiões possam parecer umas diferentes das outras.
 
Por exemplo, o mundo da Existência Verdadeira (mundo da Imagem Verdadeira), mencionado na Sutra do Lótus (a Sutra do budismo), é o mundo exatamente como foi criado por Deus, através da palavra, através do verbo. O mundo da Existência Verdadeira onde "tudo é bom" é o mesmo a que se refere o livro de Gênesis com a frase "Deus viu tudo quanto fizera e disse que era muito bom". Então, Deus viu tudo aquilo que já havia criado e chegou à conclusão de que “estava tudo muito bom". Na Sutra do Lótus existe a seguinte frase: "Mesmo quando chegar o fim do ciclo da humanidade e este mundo (mundo do fenômeno) for destruído pelo fogo, a minha Terra Pura (o mundo da Imagem Verdadeira) permanecerá tranquila e repleta de seres celestiais", exatamente como foi dito no Gênesis, que o mundo que Deus criou é um mundo perfeito e maravilhoso. Então, de duas formas totalmente diferentes, tanto o budismo como o cristianismo estão pregando a mesma Verdade. Nesta Sutra consta, ainda, "Deus criou o mundo da Existência Verdadeira e não o mundo fenomênico". Então, quem foi o criador do mundo do fenômeno? É claro que, no início, foi Deus, mas, depois da criação de Deus, vieram todas as transformações, exatamente de acordo com a mente do ser humano. Portanto, a mente do ser humano é que fez com que houvessem todas essas transformações. Se o mundo fosse exatamente conforme criado por Deus, e permanecesse dessa forma, seria um mundo perfeito. Não haveria guerra, não existiria pobreza, nem roubo, nem desemprego. Não existiria nada disso. No entanto, como vieram as transformações devido à interferência da mente humana, o mundo em que nós estamos vivendo é um mundo totalmente diferente.

Esse mundo fenomênico não passa de projeção da mente, logo, as teorias cristã e xintoísta da criação do Universo por Deus não entram em choque com a teoria budista de que o mundo surgiu da ilusão. O budismo diz que este é um mundo criado através da ilusão. Esse mundo material realmente é a manifestação da mente em estado de ilusão. Como nós temos essa ilusão e pensamos que é difícil viver nesse mundo material, devido a essa ilusão da mente humana, criamos esse mundo difícil de viver. Então, todos os problemas, as crises financeiras, os problemas provenientes de acidentes da natureza, tudo isso vem a ocorrer em função da ilusão da mente humana. O “Satanás” que é citado no cristianismo, nada mais é que a expressão personificada da ilusão a que se refere o budismo. O Mestre Masaharu Taniguchi, através desses exemplos, vai mostrando que, na essência, tanto o cristianismo quanto o budismo pregam a mesma Verdade, só que de formas diferentes. Isso ocorre porque um ensinamento surgiu em determinada época e o outro surgiu muito tempo depois. Surgiram em locais totalmente diferentes. Então, é natural que ocorram essas diferenças no modo de pregar, no modo de explicar, mas, a essência é uma só. É isso que o Mestre Masaharu Taniguchi está querendo nos mostrar.
 
A maioria dos religiosos prega a respeito do Reino dos Céus, que é citado no cristianismo, ou da Terra Pura, que é citada no budismo, como sendo apenas o mundo fenomênico, criado pela ilusão, motivo pelo qual o Reino dos Céus não se concretiza na Terra. Tais religiosos pensam no Reino dos Céus, só que visto com olhos em estado de ilusão. Olhando o mundo material, tentam projetar o mundo perfeito, mas, como nossos olhos materiais veem este mundo imperfeito, estão acostumados a olhar este mundo imperfeito, a mente também está acostumada a ver e sentir somente a imperfeição. É claro que, assim, não há condições de projetar a perfeição.
 
Quando Jesus disse: "Retira-te Satanás!", quis dizer às pessoas o seguinte: "Retirai a cortina de ilusão de vossa mente e vereis o Reino dos Céus concretizado diante de vós". Retire a cortina que existe entre você e a Imagem Verdadeira. Essa cortina é que está impedindo você de ver a Imagem Verdadeira. Então, retire essa cortina e você vai visualizar a Imagem Verdadeira.
 
A Sutra do Lótus também diz a mesma coisa: "Percebei a indestrutível Terra Pura que existe transcendendo o mundo fenomênico repleto de sofrimentos". Quando o homem desperta para a Verdade de que a indestrutível Terra Pura existe aqui e agora, livra-se dos sofrimentos que o cercam.

Quando o Mestre Masaharu Taniguchi esteve em Lima, Peru, em 1973, numa entrevista, um dos repórteres perguntou: "Professor, a Seicho-no-Ie fala da identidade de todas as religiões. No fundo, o senhor, na verdade, não está querendo unir todas as religiões e fazer com que todas passem a ser Seicho-no-Ie?". O Mestre respondeu: "Não, não tenho nenhum desejo de fazer isto; a Seicho-no-Ie não está querendo unificar todas as religiões. Todas as religiões que, no passado, tiveram muita luz, tiveram muita força de salvar as pessoas, com o passar do tempo foram perdendo essa luz, perdendo a capacidade de salvar as pessoas. O objetivo da Seicho-no-Ie é fazer com que todas as religiões voltem ao estado anterior, da época em que foram iniciadas pelos seus pregadores, como Jesus Cristo, como Sakyamuni. Possibilitar que cada religião tenha condições de voltar a salvar grande número de pessoas, esse é o verdadeiro objetivo da Seicho-no-Ie. Isto porque a Seicho-no-Ie parte do princípio de que todas as religiões, na sua essência, pregam a mesma Verdade".

Outro repórter perguntou: "Com base em quê o senhor afirma que todas as religiões pregam a mesma Verdade?" O Mestre assim respondeu: "Há dez anos fiz uma viagem em que tive a oportunidade de visitar diversas partes do mundo. Em todos os locais onde estive vi que todas as pessoas têm os olhos dispostos na horizontal, o nariz disposto na vertical e a boca na horizontal. Ou seja, o rosto de todas as pessoas tem a mesma constituição física. Quando estudamos a ciência, percebemos que não só o rosto, como também todo o corpo, desde a estrutura óssea e os órgãos internos, na verdade, têm a mesma constituição física. Isso significa que o criador de todas as pessoas é um só, é um único Deus. Se o criador é um só, se todos os seres humanos foram criados de um único Deus, a Verdade para poder salvar todas as pessoas que têm um único ser como criador, esta Verdade também só pode ser uma. E esta Verdade é que está sendo pregada através de diversas religiões de formas diferentes, de acordo com a época, o local e a pessoa”. Portanto, mesmo que as religiões, na forma de pregar, na forma de existir, sejam diferentes entre si, na essência, todas elas estão pregando a mesma Verdade. Justamente por isso é que a Seicho-No-Ie, através do estudo dessa mesma Verdade pregada por todas as religiões, deseja fazer com as religiões possam manifestar a mesma capacidade, a mesma força, que tinham inicialmente, na época em que foram criadas por seus iniciadores e, desta forma, fazer com que todas as pessoas sejam salvas. Esse é o objetivo da Seicho-no-Ie e isto é o ensinamento da identidade de todas as religiões, na sua essência.
 
Então, mesmo que, aparentemente, todas as religiões sejam diferentes entre si, tenham denominações diferentes, modos de pregar diferentes, denominações diferentes de seus pregadores, um é pastor, outro é padre, de toda forma, mesmo que hajam todas essas diferenças, a Verdade profunda que está dentro da essência de todos os ensinamentos dessas religiões, a essência é uma coisa só. E é através dessa essência que todos nós somos salvos porque é a Verdade que está sendo pregada por Deus, criador de todas essas religiões. Assim, o ensinamento da Seicho-no-Ie é esse ensinamento maravilhoso que estuda essa Verdade pregada por todas as religiões, não faz distinção em relação a outras religiões, respeita e valoriza todas as religiões, procura ajudar a todas essas religiões e, junto com elas, procura salvar toda a humanidade. Isso é o ensinamento da Seicho-no-Ie que todos os senhores estão estudando e eu fico muito feliz que estudem bastante. Estudem e continuem com essa garra, essa força, essa vontade de estudar e, não só estudem como também passem a transmitir para outras pessoas.
 
(Este texto foi extraído de uma aula proferida pelo preletor da Sede Internacional, Sinji Takahashi)

 
 

sexta-feira, abril 19, 2013

Geração de suprimento invisível em dois passos

Dárcio Dezolt
 
 
No Universo real do Espírito, já estamos supridos de tudo. Resta-nos apenas trazer à visibilidade o que parece estar nos faltando. Toda ação partirá de nós, pois, da parte de Deus, tudo já está feito.
 
Devemos saber que Deus não vê seres humanos como nós os vemos; Ele nos vê "à Sua Imagem e Semelhança". Eis por que vemos "seres humanos necessitados"; eles se veem diferentes da forma com que são vistos por Deus! Assim, este é o
 
PRIMEIRO PASSO:
 
ASSUMIR QUE NÃO SOMOS COMO A MENTE HUMANA NOS VÊ, MAS QUE SOMOS SERES ESPIRITUAIS, FILHOS DE DEUS, PLENIFICADOS PELA GRAÇA, EM UNIDADE COM O PAI.
 
Para isso, usamos a "Prática do Silêncio": com ela, deixamos de lado todas as impressões materiais, tanto sobre o mundo como sobre o nosso ser. Assim livres internamente, entramos em total "sintonia" com Deus, através do Cristo de nosso próprio ser.
 
Confiantes na Verdade de que A Mente Divina cuida do Universo inteiro, e nele estamos inclusos, daremos o
 
SEGUNDO PASSO:
 
RECONHECER, COM MÁXIMA NATURALIDADE, QUE COMO LEGÍTIMOS FILHOS DE DEUS, TEMOS TODAS AS RIQUEZAS DO PAI CREDITADAS EM NOSSO NOME.
 
Quem recebe herança precisa se identificar, para que esta lhe seja outorgada por direito.
 
Quem se dedicar assiduamente a dar estes dois passos, em contínuas e dedicadas meditações, verá a ação de Deus diretamente em si mesmo: terá a mente iluminada, novas ideias e fatos surgirão, terá a vida humana renovada por inteiro, e, com total naturalidade, todas as suas necessidades legítimas serão atendidas.
 
E não devemos ser "modestos" com Deus. Pelo contrário, devemos orar ousadamente como Jesus Cristo, que disse:
 
"Pai, todas as minhas coisas são tuas, e as Tuas são minhas; e nisso sou glorificado!" (João 17: 10)
 
*OBS: Dois períodos diários, com meditações de duração média de 15 minutos, serão o suficiente. Não neguem, em seguida, que O SUPRIMENTO PERFEITO esteja sempre e facilmente à disposição. Copiem "os dois passos" em pedaços de papel, espalhem pela casa toda, carreguem no bolso, etc.: servirão como lembretes de que realmente somos "herdeiros de Deus".
 

quarta-feira, abril 17, 2013

Programa SNI: Para realizar o Infinito

Hoje, ficamos com a palestra do preletor da Seicho-No-Ie, Oswaldo Murahara, onde ele explana sobre o mundo de Deus (o mundo verdadeiro) e o mundo da projeção (o mundo fenomênico). Ele também ensina como realizar no mundo fenomênico as riquezas já existentes no mundo de Deus. No mundo de Deus a riqueza já é. Mas no mundo fenomênico, a riqueza ora é, ora não é. Há essa oscilação porque o mundo fenomênico é constituído de dualidade, flutuação, instabilidade. Para fazer surgir no mundo fenomênico as maravilhas existentes no mundo de Deus é preciso fazer uso da mente, utilizando-a como antena e canal, para fazer projetar neste mundo as graças do mundo da Imagem Verdadeira. Isso porque o mundo fenomênico é projeção da mente.
 
Agora o vídeo:


 

domingo, abril 14, 2013

O Primeiro Impulso - A origem da criação

- Meher Baba -


Todas as almas (atmas) estiveram, estão e estarão, na Sobre-Alma (Paramatma). As almas (atmas) são todas Uma. Todas as almas são infinitas e eternas. Elas são sem forma. Todas as almas são Uma, não há diferença nas almas ou em seu ser e existência como almas. Existe uma diferença na consciência das almas, existe uma diferença nos planos de consciência das almas, existe uma diferença na experiência de almas e, portanto, há uma diferença no estado das almas. A maioria das almas está conscientes do corpo grosseiro (sthul sharir); algumas almas estão conscientes do corpo sutil (pran); poucas almas estão conscientes do corpo mental (mente ou mana); e muito poucas almas estão conscientes do Ser (Self). A maioria das almas tem experiência da esfera grosseira (mundo grosseiro); algumas almas têm experiência da esfera sutil (mundo sutil); poucas almas têm experiência da esfera mental (mundo mental), e muito poucas almas têm a experiência da Sobre-Alma. A maioria das almas se encontra no plano grosseiro (anna bhumika); algumas almas estão no plano sutil (pran bhumika); algumas almas estão no plano mental (mano bhumika) e muito poucas almas estão no plano além do plano mental (vidnyan).

A maioria das almas tem grandes limitações; algumas almas têm poucas limitações; poucas almas têm muito poucas limitações e muito poucas almas têm absolutamente nenhuma limitação. Todas estas almas (atmas) de consciência diferente, de experiências diferentes, de estados diferentes estão na Sobre-Alma (Paramatma). Se, agora, todas as almas estão na Sobre-Alma e são todas uma, então por que razão há qualquer diferença na consciência, nos planos, nas experiências e nos estados? A causa dessa diferença é que as almas têm diferentes e diversas impressões (sanskaras).* A maioria das almas têm impressões grosseiras; algumas almas têm impressões sutis; poucas almas têm impressões mentais, e muito poucas almas não têm impressões alguma. Almas com impressões grosseiras, almas com impressões sutis, almas que têm impressões mentais e as almas que não têm impressões, são todas as almas na Sobre-Alma e são todas Uma. Almas com impressões grosseiras têm consciência do corpo grosseiro (sthul sharir) e têm experiência da esfera grosseira. Almas com impressões sutis têm consciência do corpo sutil (pran) e têm a experiência da esfera sutil. Almas com impressões mentais têm consciência do corpo mental (mana ou mente) e têm a experiência da esfera mental. Almas sem impressões têm consciência do Ser (alma, atma) e têm a experiência da Sobre-Alma (Paramatma).
 
Para ter consciência do Ser (Self) e ter a experiência da Sobre-Alma (Paramatma), a alma deve perder a consciência dos corpos grosseiro, sutil e mental. Mas enquanto a alma estiver impressionada por impressões grosseiras, sutis ou mentais, a alma, consistente e respectivamente tem consciência do corpo grosseiro, do corpo sutil ou do corpo mental e persistente e necessariamente passa por experiências grosseiras, sutis e mentais. A razão óbvia para isso é que, enquanto a consciência da alma estiver impressionada pelas impressões grosseiras, não há saída, exceto enfrentar essas impressões grosseiras através do corpo grosseiro. Do mesmo modo, enquanto a consciência da alma estiver impressionada com impressões sutis, não há saída, exceto a experiência dessas impressões sutis através do corpo sutil. Do mesmo modo, enquanto a consciência da alma estiver impressionada com impressões mentais, não há saída, senão experimentar essas impressões mentais através do corpo mental. Conforme as impressões grosseiras, sutis e mentais se esvaem ou desaparecem completamente, a consciência da alma é automática e obviamente direcionada e focada para si mesma, e essa alma, então, não tem outra alternativa senão absorver a experiência da Sobre-Alma.
 
Agora, os corpos grosseiro, sutil e mental não são nada além de sombras da alma. As esferas (mundos) grosseiro, sutil e mental não são nada além de sombras da Sobre-Alma. Os corpos grosseiro, sutil e mental são finitos, têm formas e são mutáveis e destrutíveis. Os mundos grosseiro, sutil e mental são falsos, são zero, imaginação e sonhos vagos. A única realidade é a Sobre-Alma (Paramatma). Portanto, quando a alma com seus corpos grosseiro, sutil e mental experimenta os mundos grosseiro, sutil e mental, a alma experimenta, na realidade, as sombras da Sobre-Alma com a ajuda das suas próprias sombras. Em outras palavras, a alma com suas formas finitas e destrutíveis experimenta falsidade, zero, imaginação e um sonho vago. Apenas quando a alma experimenta a Sobre-Alma com o seu Ser é que experimenta o Real com a realidade. Quando a alma é consciente do seu corpo grosseiro, então essa alma se identifica com o corpo grosseiro e considera-se como sendo o corpo grosseiro. Isso significa que a alma infinita, eterna, sem forma, encontra-se como finita, mortal e com forma. As impressões (sanskaras) são a causa dessa ignorância. No início a alma, que está eternamente na Sobre-Alma, primeiro adquire ignorância através de impressões, em vez de adquirir conhecimento. Quando a alma adquire uma forma particular (um corpo ou sharir), de acordo com impressões particulares, ela sente-se e experimenta-se como sendo aquela forma particular.
 
A alma na sua forma de pedra experimenta-se como pedra. Assim, no devido tempo, a alma experimenta e considera-se como sendo metal, vegetal, verme, peixe, ave, animal, homem ou mulher. Qualquer que seja o tipo de forma grosseira e qualquer que seja a configuração da forma, a alma espontaneamente associa-se com essa forma, figura e configuração, e experimenta que ela própria é aquela forma, figura e configuração. Quando a alma está consciente do corpo sutil, então essa alma experimenta que ela é o corpo sutil. Quando a alma se torna consciente do corpo mental, então essa alma experimenta que ela é o corpo mental. É apenas por causa das impressões (nuqush-e-Amal ou sanskaras) que a alma, sem forma, a Alma Infinita, experimenta que é genuinamente um corpo grosseiro (sthul sharir), ou um corpo sutil (pran) ou um corpo mental ( mana ou mente). A alma, enquanto experimenta o mundo grosseiro através das formas grosseiras, associa-se e desassocia-se de inumeráveis formas grosseiras. A associação e a dissociação com formas grosseiras denomina-se nascimento e morte, respectivamente.
 
É só por causa das impressões que a alma eterna, imortal, existindo na realidade, sem nascimentos e sem mortes, tem que experimentar nascimentos e mortes incontáveis vezes. Enquanto a alma tem de se submeter a essa experiência de inúmeros nascimentos e mortes por causa das impressões, ela não só tem de experimentar o mundo grosseiro, que é uma sombra da Sobre-Alma e que é falso, mas juntamente com isso, a alma também tem de experimentar felicidade e miséria, virtude e vício do mundo grosseiro.
 
É só por causa das impressões que a alma, que está além e é livre da felicidade e miséria, virtude e vício, tem necessariamente de se submeter a experiências de miséria e de felicidade, de vício e de virtude. Portanto, é estabelecido que as experiências de nascimentos e mortes, felicidade e miséria, virtude e vício são sentidos somente pela forma grosseira da alma, enquanto experimenta o mundo grosseiro; mas a forma grosseira da alma é uma sombra da alma e o mundo grosseiro é uma sombra da Sobre-Alma. Assim, todas as experiências de nascimentos e mortes, virtude e vício, felicidade e sofrimento vividas pela alma não são nada além de experiências da sombra. Por isso, tudo o que é assim experimentado é falso.
 
A fim de clarificar essa relação "atma-Paramatma" (alma com a Sobre-Alma) nós comparamos Paramatma com um infinito oceano, um oceano sem limites, e a atma como uma gota nesse oceano. A atma nunca está fora desse oceano ilimitado (Paramatma). A atma não pode nunca estar fora de Paramatma porque Paramatma é infinita e ilimitada. Como pode a atma sair ou ter um lugar além da ilimitação sem limites? Portanto a atma está em Paramatma.
 
Após estabelecer o fato principal de que a atma está em Paramatma vamos um passo adiante e dizer que a atma é Paramatma. Como? Por exemplo, vamos imaginar um oceano sem limites. Vamos também imaginar que separamos ou que retiramos uma parcela mínima de oceano da vastidão ilimitada desse oceano. Segue-se então que, essa porção mínima de oceano, enquanto estava dentro do oceano sem limites, antes da separação, é o próprio oceano e não está lá no oceano como uma parcela mínima do oceano, porque cada parcela do oceano, quando não está limitada pelas limitações da gota, é o oceano ilimitado.
 
É somente quando uma parcela mínima do oceano for separada do oceano ilimitado, ou retirada do oceano ilimitado como uma gota, que essa porção do oceano obterá sua existência separada como uma gota do oceano sem limites, e que essa parcela mínima de oceano começará a ser olhada como uma gota do oceano ilimitado. Em outras palavras, o próprio oceano infinito, ilimitado e sem fronteiras é agora encarado meramente como uma gota daquele oceano infinito, ilimitado e sem fronteiras. E, em comparação com aquele oceano infinito, ilimitado e sem fronteiras essa porção de oceano, ou essa gota de uma parcela mínima de oceano, é muito mais limitada e mais finita com infinitas limitações. Isto é, aquela porção infinitamente livre se encontra infinitamente aprisionada.
 
Similarmente, a atma, que temos comparado com uma gota do infinito oceano, obtém uma aparente existência separada, embora, na realidade, ela não pode nunca estar fora da ilimitação do ilimitado, infinito Paramatma, o qual temos comparado com o oceano infinito, ilimitado e sem fronteiras. Mas tal como a parcela mínima de oceano adquire sua limitação como uma gota através de estar sob a forma de uma bolha na superfície do oceano, e a bolha confere à parcela mínima de oceano uma existência aparentemente separada do infinito oceano, do mesmo modo, a atma, que está em Paramatma e é Paramatma, aparentemente experimenta existência separada da infinita Paramatma através das limitações de uma bolha (de ignorância), com o qual a atma se encobre. Assim que a bolha da ignorância estoura, a atma não só descobre-se em Paramatma mas experimenta a si mesma como Paramatma. Através dessa limitação formada pela bolha da ignorância auto-criada pela atma, a atma aparentemente herda uma existência separada de Paramatma. E por causa desta separação auto-criada da infinita Paramatma, a atma, que é em si infinita, ilimitada e sem fronteiras, aparentemente experimenta a si mesma como muito finita e com infinitas limitações.
 
No início, a alma não tinha impressões (sanskaras) e nem consciência. Portanto, nessa fase, ou, nesse estado, a alma não tinha forma ou um corpo grosseiro, corpo sutil ou corpo mental, pois apenas a existência de impressões grosseiras, sutis e mentais (sanskaras) pode dar existência aos corpos grosseiro, sutil e mental, e apenas a existência desses corpos pode tornar possível a existência dos mundos grosseiro, sutil e mental.
 
Portanto, no início, a alma não tinha consciência dos corpos grosseiro, sutil e mental e também era inconsciente de seu próprio Ser (Self), e a alma então, naturalmente, não tinha nenhuma experiência dos mundos grosseiro, sutil e mental e também não tinha nenhuma experiência da Sobre-Alma (Paramatma).
 
Esse estado infinito, sem impressões, inconsciente e tranquilo da alma reverberou com um impulso que nós chamamos O PRIMEIRO IMPULSO (de conhecer a si mesma).

O primeiro impulso estava latente em Paramatma.
 
Quando comparamos Paramatma a um oceano infinito e ilimitado e quando dizemos que Paramatma teve o primeiro impulso, também poderíamos dizer, a título de comparação, que o infinito e ilimitado oceano teve o primeiro impulso ou FANTASIA.

No infinito, tanto o finito quanto o infinito estão incluídos.

Agora, esse primeiro impulso foi infinito ou finito, e num primeiro momento foi finito e então infinito, ou vice-versa?
 
O primeiro impulso foi o mais finito, mas ele foi o primeiro impulso do Infinito. Esse primeiro impulso mais finito foi do oceano infinito – Paramatma – e a manifestação desse primeiro impulso latente mais finito do Infinito foi restrito a um ponto mais finito no infinito Oceano ilimitado.
 
Mas como este ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso latente, que era o mais finito, também foi no infinito Oceano ilimitado, esse ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso foi também ilimitado. Através deste ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso (também mais finito), a sombra do Infinito (sombra, que sendo da Realidade, é infinita) gradualmente apareceu e prosseguiu em expansão. Esse ponto mais finito de manifestação do primeiro impulso latente é chamado de Ponto "Om" ou Ponto da Criação e esse ponto é ilimitado.
 
Simultaneamente com as reverberações do primeiro impulso, a primeira impressão mais grosseira surgiu, objetificando a alma como a contraparte grosseira mais absolutamente oposta e mais finita do Infinito.
 
Devido a essa primeira impressão mais grosseira do primeiro impulso, a alma infinita experimentou pela primeira vez. Essa primeira experiência da alma infinita foi que ela (a Alma) experimentou uma contrariedade na sua identidade com o seu estado infinito, sem impressões e inconsciente.
 
Essa experiência de contrariedade gerou mutabilidade na estabilidade eterna e indivisível da alma infinita e, espontaneamente, ocorreu um tipo de erupção, perturbando o equilíbrio indivisível e a tranquilidade inconsciente da alma infinita com um rechaço ou choque tremendo que impregnou a inconsciência da Alma inconsciente com a primeira consciência de sua aparente separação do estado indivisível de Paramatma. Mas a Alma, sendo infinita, a primeira consciência que foi derivada do rechaço ou choque de uma primeira impressão mais grosseira absolutamente oposta de sua aparente separação, foi naturalmente e necessariamente uma primeira consciência finita.
 
Essa primeira consciência derivada pela Alma é evidentemente a mais 'maximamente-finita' em proporção à experiência de seu próprio estado original infinito, absolutamente oposto.
 
Isso significa então que, no início, quando a infinita Alma sem impressões foi pela primeira vez impressionada, teve como sua primeira impressão uma impressão absolutamente grosseira. E a primeira consciência que ela (a alma) derivou foi a mais 'maximamente-finita'.
 
Simultaneamente, nesse instante, a inconsciência da Alma infinita experimentou, de fato, a primeira consciência mais 'maximamente-finita' de todas, vinda da primeira impressão mais finita.
 
Essa Alma infinita e eterna teve consciência, mas essa consciência através de uma impressão não foi de seu estado eterno ou de seu Ser infinito, mas foi a consciência mais-finita, através da impressão mais-grosseira.
 
Então, como será explicado mais tarde, se a Alma estiver consciente de impressões (sanskaras), então a alma deverá necessariamente experimentar essas impressões, e para experimentar as impressões, a consciência da alma deve experimentá-las através de um meio adequado.
 
Conforme forem as impressões, serão as experiências das impressões e o meio para experimentar as impressões deverá ser de acordo. Isto é, as impressões dão origem às experiências, e para experimentar as impressões o uso de um meio (veículo) adequado é preciso.

Portanto, como a Alma infinita, eterna e sem forma agora tem a primeira consciência mais 'maximamente-finita' da primeira impressão mais 'maximamente-grosseira', obvia e necessariamente essa mais 'maximamente-finita' primeira consciência da alma deve utilizar o mais 'maximamente-finito' e o mais 'maximamente-grosseiro' primeiro meio para experimentar a mais 'maximamente-grosseira' primeira impressão.
 
Nesta fase, cabe aqui mencionar para a limitada compreensão humana que a mais 'maximamente-finita' primeira consciência da alma, enquanto experimentando a mais 'maximamente-groseira' primeira impressão, centrou-se em um meio adequado mais 'maximamente-finito' e mais 'maximamente-grosseiro' imperceptivelmente, criando a tendência da Alma (sem forma) associar e identificar seu próprio Ser infinito e eterno com essa forma limitada mais grosseira e mais finita como seu primeiro meio (veículo).

A primeira consciência da Alma indivisível, experimentando a primeira impressão através do primeiro meio, cria uma tendência na alma de associar e identificar seu Ser eterno e infinito com a primeira forma, a mais-finita e mais-groseira, que foi como a semente da contrariedade espontaneamente semeada pelas reverberações do primeiro impulso, imperceptivelmente germinada e manifestada na forma de dualidade pela primeira vez. Quando acontece de ela associar-se e identificar a si mesma, através de sua consciência recém-adquirida, com a forma ou meio finito e grosseiro, a consciência da alma faz realmente a Alma infinita, eterna, indivisível e sem forma ter a experiência que ela é aquela forma finita e grosseira.
 
Assim, a consciência adquirida pela alma inconsciente, ao invés de experimentar a realidade através da unidade e identidade com a Sobre-Alma, experimenta a ilusão através da dualidade e identidade com a forma grosseira, multiplicando diversificadas e inumeráveis impressões em uma série de experiências enquanto vai se associando com a forma grosseira e gradualmente ganhando ou evoluindo mais e mais a consciência.
 
Seguidamente, eras após eras e ciclos após ciclos, essa cadeia de sucessivas associações e dissociações com variadas espécies de uma forma em particular segue adiante constante e progressivamente e produz inúmeras impressões diferentes a serem experimentadas pela alma consciente. Direta e indiretamente, estas associações e dissociações da consciência da alma são absolutamente essenciais para manter girando a roda da evolução da consciência. A evolução das formas grosseiras é apenas um subproduto da fábrica universal de evolução da consciência.
 
Para atingir o desenvolvimento completo da consciência na forma humana, o processo evolutivo teve de dar sete grandes saltos, são eles: de pedra para metal, de metal para vegetal, de vegetal para verme, de verme para peixe, de peixe para pássaro, de pássaro para animal e, finalmente, de animal para o ser humano, cada transição com características diferentes.
 
Por a Consciência da alma estar totalmente desenvolvida na forma humana, a evolução da forma também está completa, e agora, quando a alma consciente identifica a si mesma com a primeira forma humana de todas, nenhuma nova forma superior é desenvolvida. Em resumo, na forma humana a consciência da alma é plena e completa. O processo de evolução da consciência é levado a uma paralisação. A forma humana é a mais elevada e mais sublime forma desenvolvida durante a evolução da consciência. Assim, no ser humano a consciência está totalmente desenvolvida e a forma moldada e projetada após eras e ciclos é a mais perfeita forma ou meio. A consciência da alma, portanto, utiliza esse meio perfeito para experimentar e esgotar completamente todas as impressões para que a alma plenamente consciente torne-se desprovida de qualquer impressão que seja, sendo assim capaz de perceber seu próprio estado real, eterno e infinito na Sobre-Alma.


sexta-feira, abril 12, 2013

A Instrução Silenciosa - 5/5

Ramana Maharshi

 
Discípulo: Que caracteriza a permanência no Conhecimento (Jnana)?

Mestre: O estado de completa e inalterável absorção da mente no Eu Real. É o estado em que o Jnani permanece  espontaneamente. Assim como toda pessoa normal consciente de seu corpo sabe que não é bode, nem boi ou outro animal qualquer, mas sim um ser humano, o Jnani, por sua Consciência Natural, sabe que não é coisa alguma desde o grosseiro corpo físico (inclusive) até o sutil nasa, mas sim, o Atman, que é Sat-Chit-Ananda (Existência-Consciência-Felicidade).

Discípulo: Em que grau  de evolução espiritual o Aspirante se torna Jnani?

Mestre: No 4º (Satwâpatti) auto-realização.

Discípulo: Nesse caso, qual é a significação dos 3 últimos graus?

Mestre: O 4º, 5º, 6º e 7º indicam simplesmente diferentes aspectos da libertação enquanto o Jnani está vivo: não significam diferenças de Jnâna (experiência) ou moksha  (libertação). Em relação  à Jnâna e a moksha não há a mínima distinção nesses quatro estados.

Discípulo: Se a libertação é comum a esses quatros estados, como pode o Varishta ser possível em destaque? 

Mestre: Unicamente pelo fato da experiência ser ininterrupta, o que se deve a excelência dos méritos do Varishta.

Discípulo: Se todos desejam essa experiência ininterrupta, por que nem todas as classes de Jnânis alcançam esse estado?

Mestre: Isso não é consequência de desejo ou esforço. Sua causa é unicamente o prarabdha. Perdido o ego inteiramente no 4º estado, não resta individualidade para fazer esforços ou desejar. Não podem ser jnânis aqueles que continuam a esforçar-se. Ao exaltarem o Varishta, as escrituras não falam das outras classes como sendo diferentes dos Jnanis.

Discípulo: Algumas criaturas declaram que o estado supremo é aquele em que toda atividade dos sentidos e da mente é completamente eliminada. Se assim é, como tal estado pode ser compatível com a condição de uma pessoa em plena experiência dos sentidos e da mente?

Mestre: Se tal fosse o critério acertado para julgar-se a natureza do estado supremo, este nada apresentaria de excepcional, sendo nessa hipótese, comparável ao estado de sono profundo (no qual não funcionam os sentidos nem a mente). Ademais, se tal estado fosse a natureza transitória, e não contínua ou interrupta, isto é, se não subsistisse enquanto os sentidos e a mente estivessem funcionando, como se poderia considerá-lo natural e permanente?

De acordo com o prarabdha, o referido estado pode ocorrer a uns poucos durante algum tempo mais ou menos limitado ou subsistir até o momento da morte. Do contrário, os grandes Sábios que foram os videntes dos mantras védicos, ou os autores das obras originárias do Vedanta, e até mesmo o próprio Iswara (Deus) estariam na categoria dos ignorantes. Esse estado não seria de absoluta perfeição se só existisse quando a mente e os sentidos estivessem inativos. Os Sábios declararam como final somente, o Sahaja Nirvikalpa Sthiti (estado de tranqüilidade natural permanente).

Discípulo: Qual a diferença entre o sono ordinário e o sono desperto (jagrat-sushupti)?

Mestre: No primeiro não há atividade mental nem consciência, enquanto que no segundo subsiste somente a Consciência.

Discípulo: Como pode o Atman ser turiya (o quarto estado) e turiyatita (estar além do quarto estado)?

Mestre: Turiya significa o quarto ente. Os experimentadores – visva do estado de vigília, taijasa do estado de sonho e prajna do estado de sono profundo – que se alternam, não são o Atman. Este tem que ser diferente daqueles, e é sua testemunha; por isso se diz que é o quarto. Na auto-realização os outros três experimentadores desaparecem completamente, nada deixando para ser testemunhado, e assim, sem mais ser testemunha, o Atman permanece puro, como sempre. Daí o dizer-se que o Atman é também turiyatita.

Discípulo: Que utilidade  tem as escrituras para o Jnâni?

Mestre: O Jnâni brilha como aquilo a que se referem todos os atributos enumerados pelas escrituras. Logo, para ele, os textos sagrados não têm utilidade alguma.

Discípulo: A posse de poderes super-humanos (siddhis) se relaciona de algum modo com a libertação?

Mestre: Só a Atmavichâra conduz à Libertação. Todos os siddhis são meras criações de maya (a ilusão universal). O único poder verdadeiro, permanente, é a auto-realização. A atividade de maya, que se manifesta como poderes taumatúrgicos transitórios, não é siddhi algum.

Tais “siddhis” são desejados e adquiridos por indivíduos que ambicionam fama e prazeres. Entretanto, alguns, graças ao seu prarabdha, podem possui-los involuntariamente. Sabei que o melhor de todos os siddhis (ganhos) é ser uno com o Ser Supremo. Esta é a mais alta forma de libertação, conhecida como; sayujva.

Discípulo: Se a libertação é isso, como podem algumas escrituras que consideram o Jiva (OU SER INDIVIDUAL) unido ao corpo declarar que ela consiste em não se deixar este morrer, mas conservá-la eternamente vivo?

Mestre: Qualquer consideração sobre a libertação e os meios de alcançá-los só teria valor do ponto de vista mais elevado - se realmente existisse prisão. A verdade é que o jiva não está preso a nenhum dos quatro estados. O Vedanta e o Sidshanta declaram com veemência, que o vocábulo “prisão”é irreal. Que significado pode ter a “libertação”? É tão inútil procurar-se determinar a natureza e as características da libertação quanto seria a tentativa de caracterizar o filho de uma mulher estéril  ou  de saber o tamanho e a cor dos chifres de uma lebre.

Discípulo: Queria dizer que o que os Sábios antigos e as escrituras têm dito sobre a natureza e as características da prisão e da libertação e inconsistente, descabido e falso?

Mestre: Não. Tais afirmações não são inconsistentes nem descabidas nem falsas. O emprego do termo “libertação”, o qual foi “fabricado” pelo conhecimento e a erudição, justifica-se por servir para dissipar a falsa e ilusória idéia de ”prisão e “libertação” - significa isso e nada mais. Aliás, o fato das características e a natureza serem descritas diversamente por diferentes pessoas constitui testemunho concludente de que a idéia de libertação é produto de pura imaginação.

Discípulo: Com que autoridade se nega a existência da prisão e da libertação?

Mestre: Sua falsidade é confirmada pela experiência e não por mera afirmação dogmática das escrituras.

Discípulo: Em que experiência se baseia essa negação?

Mestre: As noções de prisão e libertação são meras modificações ou vikâras da mente. Não têm individualidade própria e, portanto, não podem funcionar por si mesmas. No entanto, possuem uma fonte. Pesquisai-a. Verificareis que sua fonte é o próprio “eu” que a investiga. E, então, se perguntar seriamente “Quem sou eu?”, essa pesquisa terminará na anulação do “eu” ilusório, restando o Eu Real, tão claro como uma groselha (fruta).

Discípulo: Se a prisão e a libertação não são reais, por que devem persistir a miséria e a confusão?

Mestre: A miséria e a confusão pertencem unicamente ao não ser, nada tendo a ver com o Eu Real.

Discípulo: É possível a todos o reconhecimento de Ser Real sem dúvida alguma?

Mestre: Certamente.

Discípulo: Como?

Mestre: Todos os seres humanos sabem, por experiência, que nunca cessaram de existir, nem mesmo quando em estado de sono profundo, desmaio etc., em que todo o universo sensível e insensível deixou de existir para eles. Em  outras palavras: a própria existência, a todo o momento e a despeito de tudo, é fato de experiência direta e inabitável. Portanto, somente aquele Ser Puro, que é o mesmo para todos, e que é conhecido por experiência direta como sempre presente, é o estado natural  e primário de cada um. Tudo o mais é ilusão.
 
 

terça-feira, abril 09, 2013

A Instrução Silenciosa - 4/5

 Ramana Maharshi


Discípulo: Que é a Luz da Consciência?

Mestre:  É o Ser-Consciente (Sat-Chit) auto-efulgente que ilumina os nomes e as formas revelando-os interiormente como pensamentos e exteriormente como o mundo sensível. Este Sat-Chit não pode ser objetivado, mas sua existência é inferida pelo fato de iluminar os objetos.

Discípulo: Que é Vijnãna (conhecimento)?

Mestre: É o estado de Consciência pura imutável semelhante a um oceano sem ondas ou a amplidão do espaço imóvel. É a Consciência pura sem atributos.

Discípulo: Que é Ananda?

Mestre: É a experiência de Felicidade suprema da Paz perfeita no estado de Vijnãna. Semalhante ao sono profundo, é inteiramente livre depensamentos. A este estado também se denomina Kevala Nirvikalpa Samadhi.

Discípulo: Que significa Anandatita?

Mestre: Ter atingido o estado de Felicidade suprema, ou Ananda que se assemelha ao sono profundo, isento de pensamentos, e assim permanecer realizando a Paz perfeita, ininterrupta, absolutamente imutável, ainda mesmo quando se está completamente desperto. Em tal estado, chamado Shaja Nirvikalpa Samadhi, o Sábio está em perfeito repouso, embora pareça estar em atividade. Sua condição é análoga à da criança alimentada quando está dormindo, a qual é inconsciente dos movimentos de seu próprio corpo.

Discípulo: Afirma-se que todas as coisas, sensíveis ou insensíveis, dependem unicamente do Atman. Essa  afirmação baseia-se em experiência ou conclusão teóricas?

Mestre: O Atman (ou Eu Real) é o Ser incorporado, mas não se deve tomá-lo como se fosse o corpo. A energia desse Poder Indefinível permanece latente quando estamos em estado de sono profundo e desperta como eu-consciência quando acordamos. Só, então, é que percebemos os objetos. Sem a presença do Eu não há percepção de objetos. Isso mostra claramente que todas as coisas surgem do Atman, n’Ele permanecem e por Ele são recolhidas.

Discípulo: Como se pode dizer que existe um só Atman, se remos inúmeros corpos que , a julgar por seus movimentos autônomos, devem ser animados por muitas almas (ou “eus”)?

Mestre: A noção de existência de muitas almas (ou eus) provém da idéia de “eu-sou-o-corpo” e desaparece quando o Atman se revela. E como em tal estado de consciência não existe o menor senso de dualidade, certamente não se pode negar que só existe um Atman.

Discípulo: Baseia-se em experiência a afirmação de que Brahman pode e não pode ser realizado com a mente?

Mestre: Sim. Costuma-se dizer que a mente pura o realiza ao integrar-se n’Ele, e que a mente impura é incapaz disso.

Discípulo: Que é mente impura? Que é mente pura?

Mestre: O poder de Brahman permanece indefinível. Ao emergir de sua fonte, identifica-se com o seu reflexo, que é suscetível de muitas “distorções” e tem assumido muitas formas, constituindo, assim, a mente impura. Enquanto, a esse mesmo Poder, uma vez desfeita sua união com o referido reflexo e respectivas distorções mediante o discernimento entre o Real e o Irreal, se denomina Mente pura.

Discípulo: Pode-se extinguir a prarabkha (Karma passado que começa a produzir seus frutos desde o nascimento do corpo) e continuar incorporado?

Mestre: Sim. O Karma é do fazedor (o ego), falso eu interposto entre o Eu Real (ou Atman) e o corpo, que é insensível. Esse ego, ao mergulhar em sua fonte (o Eu Real), cessa de existir e, na sua ausência, não pode haver prarabdha.

Discípulo: Se o Atman é Sat-Chit (Ser-consciência), porque é caracterizado como algo que não é Sat nem Asat (não-ser), Chit nem Achit (inconsciência)?

Mestre: Porque como Sat, o Atman é absoluto, universal, estando além de concepções correlativas, tais como, “sat e asat” e, similarmente, como Chit é Consciência Pura, estando, também, acima de opostos como “chit e achit”.
Cont...


segunda-feira, abril 08, 2013

A instrução Silenciosa - 3/5

 
Ramana Maharshi


Discípulo: Que é Dyana ou Meditação?

Mestre: É a permanência no Eu Real a todo instante, sem que haja nem mesmo o pensamento “eu estou em meditação”. Meditar é estar absorto no Ser. Nesse estado não há nem vestígios dos estados de vigília, sonho e sono. Portanto , o Sono aparente também deve ser considerado meditação.
 
Discípulo: Que diferença há entre essa meditação e o Samadhi?

Mestre: A meditação é iniciada e mantida pelo esforço mental consciente, ao passo que o Samadhi ocorre quando esse esforço desaparece de todo.

Discípulo: Quais são os fatores essenciais a que devemos prestar atenção especial na prática da meditação?

Mestre: Para nos mantermos fixos no Eu Real, o mais importante é não nos distrairmos – nem por um momento. Não nos devemos enganar e deixar levar imaginando como reais os fotismos e visões que se nos apresentam, nem mesmo ouvindo o harmonioso e estranho “nada” (som) ou “figurar divinas” que apareça, dentro ou diante de nós. Se o conhecimento das impressões externas é irreal, como podem ser reais os objetos revelados por tal conhecimento?

Na sadhana deve-se prestar atenção especial aos pontos seguintes:

a) O aspirante atingiria a autorealização em muito pouco tempo se dedicasse à investigação séria em busca do Ser todos os minutos que desperdiça a pensar em objetos, os quais constituem o não ser.

b) Enquanto a mente não houver conseguido fixar-se no Ser, ser-lhe-á essencial a prática da meditação impregnada de emoção religiosa (bhâvâna) (1) pois do contrário se tornará presa fácil de pensamentos errantes ou será vencida pelo sono.

c) O aspirante não deve gastar seu tempo em interminável e vã repetição de mantras como (Sivohah) -  (Eu sou o Senhor Supremo) ou “aham Brahmasmi” (Eu sou Brahman), os quais podem ser considerados características do Nirgunopasana (culto do Ser sem atributos). Isso ajuda a fortalecer a mente, mas, uma vez fortalecida esta por tal repetição ou upâsana, o aspirante deverá praticar a Atmavichâra, permanecendo como é, sem superposição das idéias de que “Eu sou Brahman”etc..

d) A excelência da sadhana ou método de prática adotado consiste essencialmente em não permitir que entre em nossa mente pensamento algum.

Discípulo: Se, como se diz, tudo acontece de acordo com o destino e, por isso, os obstáculos que nos retardam e impedem a meditação podem ser considerados insuperáveis, como podemos ter esperança de vencê-los?

Mestre: O chamado destino, que impede a meditação (dhyana), existe para a mente extrovertida, mas não para a mente introvertida. Portando, quem busca o SER interiormente permanecendo como é, não se impressiona por qualquer impedimento que surja na prática da meditação. O pensar em tais obstáculos é o maior impedimento.

Discípulo: Qual a disciplina que o aspirante observar?

Mestre: Sobriedade na alimentação, no falar e no dormir.

Discípulo: Quanto tempo deve durar a sadhana?

Mestre: É indispensável a prática incessante até que, sem esforço, a mente se fixe no seu estado original, livre de pensamentos, isto é, até que as idéias de “eu” e “meu” sejam completamente extirpadas e destruídas.

Discípulo: Que significa a solidão ou retiro que se recomenda para o desenvolvimento espiritual?

Mestre: Sendo o Eu Real onipresente, não se pode determinar um lugar para o seu retiro. Contudo, estar tranqüilo é permanecer litário.

Discípulo: Como se distingue a verdadeira sabedoria?

Mestre: Conhecido o que é verdadeiro e real, a sabedoria consiste em não de deixar atrair e desviar por coisa alguma. Enquanto vir a mínima diferenciação no Absoluto, que é uno, universal e perfeito, e com o qual deve identificar-se, o aspirante terá desejos, medo, ira etc., o que denota falta de sabedoria. Aquele que se identifica com o corpo físico é muito ignorante, e dessa falsa identificação, causa de todas as “vkâras (perversões) da mente, tais como o desejo, o medo e a ira”.

Discípulo: É a Sânnyâsa (renúncia completa a toda posição mundana, propriedade e nome) condição indispensável para a realização da Âtmanishtha (permanência firme no Eu Real)?

Mestre: O único meio de se atingir a Âtmanishtha é o esforço continuado no sentido de se desligar do corpo. Esse desligamento resulta da maturidade e pureza da mente e da prática da Âtmavichara (auto-investigação) e não de fatores como as “Âsrâmas”.

A ligação ao corpo é um complexo da mente. Os símbolos das Âsrâmas (tais como a tonsura, as túnicas ocres, etc.) e suas respectivas regras de conduta pertencem exceto até onde purifiquem a mente – apenas ao corpo e são exteriores. Como poderá a submissão a regras de conduta externa eliminar as ligações que são da mente? E muito menos o uso de símbolos.

Sendo a ligação ao corpo devida à imaturidade e impureza da mente e à falta de Atmavichâra, essa ligação não poderá ser desfeita enquanto a mente não amadureça e se purifique e adote a prática da Atmavichâra.

A Sânnyâsa Âsrâma é simplesmente um meio para se chegar a vairâgya ou calma, e esta por sua vez, um meio de facilitar a Atmavichâra.

A Sânnyâsa Âsrâma pressupõe pureza e maturidade da mente, mas, na ausência disto, é muito mais benéfico, para o indivíduo e a sociedade, levar a vida de chefe de família, cumprindo fielmente seus deveres, que desperdiçar a existência adotando a Sânnyâsa Âsrâma.

A verdadeira significação da Sânnyâsa, ou renúncia consiste em o homem e libertar das sankalpas e vikalpas, as quais absorvem a mente e constituem de fato, “a família da ligação”;  ou, em outras palavras, consiste na renúncia às ligações mentais domésticas (e não simplesmente no uso de símbolos de renúncia), de modo que a mente possa fixar-(se no Eu Real).

Discípulo: Se o conhecimento do Ser não pode revelar-se ao aspirante enquanto persiste neste qualquer vestígio da ideia de “ eu sou o fazedor” – como poderá o chefe de família que deseja a Libertação cumprir seus deveres sem essa ideia (“eu-sou-o-fazedor”)?

Mestre: Não existe tal princípio de que só se façam as coisas em virtude da ideia – de “ eu sou o fazedor”; portanto não há razão para se duvidar disso e perguntar: “Podem-se fazer as coisas ou desempenhar funções sem a ideia de “eu-sou-o-fazedor?” Vejamos um exemplo comum: o funcionário do Tesouro, ao trabalhar, o dia inteiro, com grande cuidado e atenção, pareceria como se estivesse arcando com todas as responsabilidades financeiras da instituição. Entretanto, sendo cônscio de que não está absolutamente ligado à renda, em tudo o que faz permanece livre à renda, em tudo o que faz permanece livre da ideia de “eu-sou-o-fazedor”, embora cumprindo satisfatoriamente os seus deveres. Assim, também é possível ao sábio chefe de família, cumprir seus deveres na vida (o que, afinal, correspondem ao seu Karma) sem qualquer ligação, considerando-se como simples instrumento empregado para esse fim. Tal Karma não representa um obstáculo no caminho que o conduz ao Conhecimento, e este não dificulta o cumprimento de seus deveres na vida. O Conhecimento e o Karma nunca são incompatíveis.

Discípulo: Como pode o chefe-de-família que seja um Sábio (Jnani), indiferente ao seu próprio conforto pessoal, ser útil ao lar, vice-versa?

Mestre: Se for de seu Karma o trabalhar para a manutenção da família, ele o fará. E tendo-se utilizado o cumprimento dos deveres de chefe-de-família como um meio para a aquisição do Conhecimento, que é superior a todas as vantagens, sentir-se-á perfeitamente satisfeito e feliz, sem necessidade de mais benefício algum de parte da família.

Discípulo: Como podem a quietude (nivritti) e a Paz da mente ser adquirida em meio das prementes obrigações para a família?

Mestre: O Sábio (Jnani) percebe ativo aos outros, mas em si mesmo, ele não o é: embora cumpra tarefas imensas, não se considera ativo. As aparentes atividades de um chefe-de-família iluminado – não podem interromper sua quietude e repouso. Sabe que todas as atividades dependem dele e que ele não depende delas; permanece como testemunha tranquila de todas as atividades empíricas que se operam em sue redor.

Discípulo: Suas atividades empíricas, como produtos do Karma passado, não lhe deixam na mente impressões para se manifestarem outra vez?

Mestre: Como poderá o Karma deixar impressões na mente de um Jnani; se este como tal já está livre de tendências mentais latentes e não se liga a nenhuma atividade?

Discípulo: Que é Brahmacharya?

Mestre: A busca de Brahma.

Discípulo: Pode a Brahmacharya (como ordem de vida    religiosa) auxiliar-nos na aquisição do Conhecimento?

Mestre: Sendo a observância das regras da Brahmacharya, o controle dos sentidos etc., o mesmo que se exige ao pesquisador do Conhecimento, tal vida disciplinada tem que ser condizente ao progresso espiritual.

Discípulo: É admissível passar-se da primeira ordem de vida religiosa (Brahmacharya) diretamente à quarta (Sânnyâsa)?

Mestre: As quatro ordens de vida não são imperativas para o pesquisador intimamente amadurecido. O auto-realizado não faz distinção entre as ordens de vida religiosa. A asrama não o ajuda nem o prejudica.

Discípulo: O Sadhaka (aspirante) perde se não observa as regras de casta e ordens de vida?

Mestre: Todas as observâncias têm em mira a prática do conhecimento. Quem pratica o conhecimento constantemente não está preso a regras. Se adere a alguma disciplina, é simplesmente para que sua vida sirva de exemplo para os outros. Sua adesão a uma disciplina ou seu afastamento dela não lhe significa lucro nem perda.
 
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sábado, abril 06, 2013

A Instrução Silenciosa - 2/5

Ramana Maharshi


Discípulo: Qual é a Prática que o discípulo deve adotar para realizar o Eu Real?

Mestre: Antes de tudo, deve-se reconhecer que o Eu Real, ou Atman, não é diferente nem está separado do discípulo, não é algo que ele tenha de obter como se viesse de fora. Além disso, considerando que nada existe mais sublime que o objeto de sua busca, aquele que resolutamente procura atingir a Libertação deve, preliminarmente, discernir o Real do Irreal e, com essa introspecção discriminativa, conhecer bem o que realmente é, isto é, em que consiste o seu Ser Real. Este conhecimento é necessário precedido por uma investigação sobre o “EU” em si e o que se refere ao mesmo. Tal investigação leva o discípulo a rejeitar a falsa identificação do “EU” com o corpo e a mente, visto que estes dois últimos são meros adjuntos de algo que os antecede. Invetigando-O calma e incessantemente, o pesquisador chegará – não por dedução abstrata baseada em cogitações dialéticas, mas por experiência direta e indubitável – a conclusão de que, o real, em si, é a pura “Existência – Consciência - Felicidade”. E este é o estado em que o discípulo deve manter-se firmemente. Realizando assim o seu estado natural verdadeiro, deve estabelecer-se e perceber inabalável nesse estado, como o Eu Real, isto é, a Prática no caminho do conhecimento. É, também, a chamada investigação que leva a autorealização.

Discípulo: Essa investigação pode se efetuada por todos os pesquisadores?

Mestre:  Não: é somente para as almas maduras, as outras terão que seguir métodos diferentes, adaptados ao estado de desenvolvimento mental e moral de cada um.

Discípulo: Quais são os outros métodos?

Mestre:
 
a) Hinos: Cantar, com ternura e alegria, a glória do Senhor.

b) Japa: Repetir, mental ou oralmente os nomes do Senhor ou sílabas sagradas. Em alguns momentos a mente do devoto vibra em uníssono com estas práticas (a e b) e noutros não. E ele não percebe de pronto as divagações de sua mente.

c) Dhyana: Consiste em repetir mentalmente as  sílabas sagradas e imaginar as formas e os feitos de Deus. Neste caso, a mente funciona como porta-voz do devoto. Suas divagações são notadas imediatamente, visto que não pode estar ao mesmo tempo distraída e vibrar ao mesmo  tempo distraída e em uníssomo com esta prática. Quando em dhyana, não pode achar-se distraída, e quando distraída, não pode estar em dhyana. Portanto, o praticamente (de Dhyana) apercebido do estado de sua mente, pode, quando é o caso, recolhê-la ao estado de meditação e fixar-se neste. A  proficiência na meditação leva a alma a estabelecer no real. A meditação opera na Fonte utilíssima da mente, de sorte que o aparecimento e o desaparecimento desta se tronam imediatamente claros para o praticamente.

d) Yoga: A mente e a respiração provém inseparavelmente da mesma fonte: cessando uma, a outra também cessa, sem esforço. Pelo controle da respiração (pranayama) retém-se o alento, produzindo-se automaticamente o silêncio da mente. A tal prática chama-se Yoga. Fixando a mente em qualquer dos centros psíquicos, digamos no sahasrara, os Yogis podem permanecer inconscientes de sua existência física durante o tempo que desejarem. Enquanto a mente se acha silenciada, o Yogi se sente como quem estivesse experimentando uma espécie de bem-aventurança. Não obstante, quando a mente sai deste estado torna às suas atividades anteriores. Portanto, sempre que se estiver voltando para fora, ela deverá ser interiorizada, seja pela meditação (Dhyana, seja pela investigação (Atma-Vichara), para que de modo algum retorne a sua condição anterior.

e) Jnana: É a completa anulação da mente fazendo-a realizar sua absoluta identidade com o Atman ou Eu Real pela prática constante de dhyana (meditação) ou vichara (investigação do Eu). Anulada a mente, subsiste aquele Estado de Existência Pura, isento de qualquer esforço ou atividade mental. Aqueles que atingiram esse estado jamais fogem dele. Esse Estado de Ser Puro é chamado “Silêncio” ou “Inação”.

OBSERVAÇÕES:

1) Todas as “Sadhanas”(Práticas) visam apenas a conservar a mente concentrada. Os atos de pensar, de esquecer, desejar, odiar, possuir, renunciar, etc., são modificações da mente e, portanto, não pertencem ao Eu Real. A verdadeira natureza do homem é o Ser Puro, imutável, permanente. A libertação consiste em conhecer-se esse estado por experiência direta e nele absorver-se permanentemente. Enquanto esse estado de Suprema Paz não for definitivo, far-se-ão indispensáveis ao aspirante duas “sadhanas”, a saber : não fugir do Eu Real e não permitir que a mente seja contaminada por pensamentos externos.

2) Vários são os métodos que se pode usar para manter a mente firme e equilibrada. Todos eles conduzem ao mesmo objetivo: a realização da identidade da mente com o Eu Real ou Ser Supremo. O aspirante pode escolher qualquer objeto como ponto de fixação. O sucesso na meditação consiste em eliminar toda influência do ambiente, deixando o objeto puro, de modo que a mente permaneça como esse mesmo objeto.

Aqueles que seguem o Caminho da Auto-invetigação (Atma-Vichara) compreendem que o que permanece, no final de sua busca, é realmente Brahman, ou o Absoluto.

Do mesmo modo, os que trilham o Caminho da Devoção encontram, no fim de sua prática, o objeto da própria devoção.

Logo, o que é indispensável ao aspirante é a prática ininterrupta ou da Devoção ou da Auto-investigação até alcançar a meta.

Discípulo: A Quantidade é dinâmica em si mesma ou é um estado de passividade e inércia?

Mestre: É um estado de passividade sem inércia. Cada ato constituinte daquilo que geralmente se conhece como atividade externa da vida mundana efetua-se intermitentemente. A tranquilidade interior ou comunhão com o Ser é uma atividade ininterrupta de toda a mente. Maya ( a ilusão) não pode ser completamente destruída, senão por essa comunhão interior, essa plenitude do esforço invisível, que é a atividade por excelência.

Discípulo: Qual é a natureza da Maya?

Mestre: Maya é aquilo que, ocultando o Ser, a única realidade que brilha por si mesma, que é Perfeita em si Mesma, sempre onipresente, faz o mundo, o indivíduo e o criador parecem reais, embora em todos os tempos tenham sido declarados ilusórios.

Discípulo: Se o eu ou Atman é auto-efulgente e perfeito, porque não é percebido por todos, como o são os objetos materiais?

Mestre: Quando alguma coisa é conhecida, é de fato o Atman que se conhece a si mesmo como o próprio objeto conhecido, pois a natureza do Eu Real é o conhecimento ou Iluminação. Somente o Ser é consciente, e nada existe além do Ser. Se o não-ser existisse, teria que ser insensível logo, o não-ser pode revelar-se, e um não-ser não pode conhecer outro não-ser. Pelo fato de não sermos conscientes de sua natureza, o Eu Real parece nascer como pessoa e lutar no oceano de samsâra.

Discípulo: Se o Ser Supremo é onipresente, como foi dito, deve ser fácil realizá-lo. No entanto, as escrituras declaram que se não estivermos com a Sua Graça não poderemos adorá-lo e, muito menos realizá-lo. Logo, como poderá o jiva, por seu esforço individual, realizar o Ser Supremo, na ausência da Graça? Jiva = alma individual.

Mestre: Amais o Ser Supremo foi desconhecido ou não realizado. Ele é uno e idêntico ao Eu Real. Sua Graça é a Iluminação ou Revelação Interior, direta, da divina Presença. O fato de alguém ignorá-la não constitui prova em contrário. Se a coruja não vê o sol que ilumina todo o mundo, o defeito será do sol? Se o ignorante é inconsciente do Atman, poder-se-á atribuir isso  a natureza do Atman?

Discípulo: Onde fica o centro do Ser no corpo?

Mestre: O lado direito do peito é geralmente reconhecido como a sede do Eu. Fica no ponto em que intuitivamente colocamos a mão para indicar-nos a outrem. Entanto, alguns afirmam que o cérebro é a sede do Ser. Se o fosse, a cabeça não deveria inclinar-se para baixo quando dormimos ou desmaiamos.

Discípulo: Qual é a natureza do Coração?

Mestre: O Coração tem sido descrito do seguinte modo: - “Existem, acima do abdome e abaixo do peito, entre as glândulas mamarias, seis vísceras de várias cores. Uma delas, semelhante a um botão de loto, situada a dois dedos à direita da linha média, do peito, é o Coração. Está invertido e, nele, há um pequeno orifício, dentro do qual se acha firmemente estabelecida, em companhia de desejos etc., uma escuridão imensa. Ali, aonde convergem os diversos “nâdis”(nervos primários), todo o sistema nervoso tem o seu sustento. É a sede das forças vitais, da mente e da luz (da consciência).

Na verdade, a palavra “Hridayam” significa somente o Eu Real, isto é, o Absoluto. Logo, se Ele é “Sat-Chit-Ananda-Nitya-Purna” (Eterna e Perfeita Existência-Consciência-Felicidade), nada pode estar fora ou dentro, acima ou abaixo D’Ele. Seu estado é o de cessação de todos os pensamentos. Para o aspirante que não se contenta com meras concepções abstratas, mas se empenha na realização do estado sereno e tranquilo de permanência no Ser ou Consciência Pura, estas considerações quanto à Sede do Ser - se é dentro ou fora do corpo etc., não têm cabimento. Quando ele permanece no Ser, tais perguntas não podem surgir.

Discípulo: Como é que ainda mesmo na ausência de objetos externos a mente percebe diferentes objetos, incessantemente, tornando-se-nos assim impossível realizar aquele estado de tranquilidade ou permanência no Ser?

Mestre: Isso ocorre devido às impressões mentais anteriores que percebem latentes. Essas impressões são perceptíveis pela consciência individual que se extraverteu fugindo de sua própria fugindo Existência Pura, natural e imutável. Cada vez que virdes alguma coisa, seja o que for, perguntai-vos introspectivamente: “quem é que está vendo?” – e assim, o pensamento ou a coisa vista desaparecerá imediatamente.

Discípulo: Como é que a tríade (o vidente, a visão e a coisa vista), inexistente nos estados de sono profundo e de samadhi, se manifesta nos outros estados?
 
Mestre: Do Ser (ou Real EU) surgem sucessivamente: a) a consciência refletida (chidâbhâsa), b) o jiva (ou indivíduo), isto é, o vidente ou pensamento – eu original, c) os fenômenos do mundo. 
                 
NOTA: Os elementos da tríade são interdependentes: nenhum deles pode existir sem os demais.

Discípulo: Se é livre do conhecimento e da ignorância, como pode o Eu Real penetrar todo o corpo físico, dar-lhe vida e tornar sensíveis a mente e os órgãos dos sentidos?

Mestre: Os sábios têm declarado que os vários nâdis (nervos) sutis que se estendem – por todo o corpo possuem suas raízes na sede do Eu Real; que sua ligação com este se acha no chamado nó do coração – (hridaya granthi); que enquanto esse nó não for desfeito pelo autoconhecimento, os fatores sensíveis e os insensíveis – certamente permanecerão entrelaçados: que assim como a energia elétrica, sutil e invisível, opera através de fios metálicos a energia do Eu Real atua sobre a mente e os sentidos através dos nervos que se estendem por todo o corpo; que desde que esse nó seja desfeito pelo autoconhecimento, o Eu Real será realizado tal como é, ou seja, livre de quaisquer limitações.

Discípulos: Que relação existe entre a Consciência Absoluta, ou Conhecimento Puro, e o Conhecimento relativo do mundo fenomênico, o qual implica na tríade constituída pelo conhecer, o conhecimento e o conhecido?

Mestre: Esta relação pode ser compreendida mais facilmente quando estudada em sua analogia com a projeção cinematográfica.
 
As imagens que aparecem na tela podem ser comparadas com os objetos do  mundo dos sentidos:

1) A lâmpada existente dentro da máquina projetora pode ser comparada com o Eu  Real, ou coração auto-efulgente.

2) A Lente que está dentro da lâmpada pode ser comparadas com a mente satvica adjacente ao Coração.

3) O filme, ou registro de impressões pode ser comparado  com o registro das tendências latentes em forma de pensamentos sutis.

4) A lâmpada inferior que, ao projetar sua luz através da lente, produz, juntamente com esta, o foco de seu reflexo sobre a tela, pode ser comparada como Eu Real, que, ao projetar sua luz através da mente constitui, juntamente com este, o Jiva ou conhecedor.

5) A mancha luminosa projetada na tela, através da lente pode ser comparada com a luz do Eu Real auto-efulgente projetada sobre o mundo através da mente e dos  sentidos.
 
6) As múltiplas imagens maravilhosas que aparecem na tela podem ser comparadas com  as múltiplas formas e nomes que aparecem como objetos existentes no mundo.

7) Os mecanismos que põe o filme em movimento podem ser comparadas com a lei divina que faz com que se manifestem as tendências ocultas da mente.

8) As cenas que aparecem na tela, quando as imagens impressas no filme interceptam a luz que passa pela lente. podem ser comparadas com o mundo que aparece ao indivíduo que se ache em estado de sonho, enquanto perduram suas impressões mentais latentes.

9) As pequeninas imagens impressas no filme e que são muito ampliadas pela lente, imagens que num abrir e fechar de olhos se movem na tela, podem ser comparadas com os germes de pensamentos que  a mente desenvolve e transforma em objetos enormes fazendo, num abrir e fechar de olhos, moverem-se diante de nós inúmeros mundos.

10) O fato de na ausência do filme só aparecer à luz da lâmpada sobre a tela podem ser comparadas com o fato de na ausência das modificações mentais como é o caso nos estados de sono, desmaio e Samadhi (Repouso perfeito em que desaparecem parecem as tríades) só permanece o EU REAL a brilhar.

11) A lâmpada, cujo brilho é constante, embora ilumine a lente, o filme e a tela. podem ser comparadas com o Eu Real, que permanece imutável, embora iluminando a mente e os pensamentos desta

COMO SE VÊ, A ANALOGIA É PERFEITA.
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quarta-feira, abril 03, 2013

A Instrução Silenciosa - 1/5

 
Ramana Maharshi


Discípulo: Quais são os sinais que nos permitem identificar um “GURU” ou MESTRE?

Mestre: O “Guru” é aquele que reside permanentemente nas profundezas insondáveis do Eu Real: jamais vê diferença alguma entre ele próprio e os outros, não é de modo algum obcecado por falsas noções de distinção como a de que seja o Iluminado (O “Jnani", isto é, o que realizou a Verdade) ou o Liberto (Mukta), enquanto os demais, ao seu redor, estão definhando na prisão ou imersos nas trevas cimérias da ignorância. Sua firmeza e serenidade são absolutamente inabaláveis. Nada o perturba.

Discípulo: Quais são as condições essenciais de um discípulo?

Mestre: Ele deve Ter o desejo intenso e incessante da libertar-se das misérias do mundo e alcançar a felicidade Suprema, a Bem-aventurança Espiritual. Não deve Ttr o mínimo desejo de mais coisa alguma.

Discípulo: Qual é o aspecto essencial da “Upadesa “que o Mestre dá ao discípulo?
 
Mestre: O termo “Upadesa” significa, literalmente, “reaproximar um objeto o mais possível do seu devido lugar”.

A mente do discípulo, ao diferenciar-se de seu estado original de Existência Pura, ou Eu Real, que as escrituras descrevem como “Sat-Chit-Ananda” (Existência-consciência-Felicidade), foge d’Ele e, assumindo a forma de pensamento, anda sempre à cata dos objetos de gozo dos sentidos. E, assim, é fustigada e arruinada pelas vicissitudes da vida, tornando-se fraca e medrosa. Por conseguinte, a “Upadesa” ou instrução espiritual consiste em o Mestre fazer a mente do discípulo voltar ao seu estado original e impedi-la efetivamente de fugir desse estado de absoluta identidade com o Eu Real (ou Essência Espiritual do Mestre).

O termo “Upadesa” também pode ser interpretado como sendo a ação de apresentar à visão anterior de uma pessoa, um objeto aparentemente longínquo, isto é, consiste, a “Upadesa”, em o Mestre mostrar ao discípulo aquilo que o discípulo considerava distante e diferente de si mesmo, a saber: o EU REAL, o ABSOLUTO.

Discípulo: Senão está implícito na afirmação acima, a Essência Espiritual do Mestre é inteiramente idêntica à do discípulo, porque as escrituras declaram categoricamente que o pesquisador, por maiores que sejam os seus conhecimentos, não pode atingir o despertar espiritual senão pela Graça do Mestre?

Mestre: É verdade que, no sentido espiritual, a Essência do Mestre é idêntica a do discípulo. Contudo, muito rara é a pessoa que pode realizar sua verdadeira Essência sem a Graça do Mestre. Nem a mera cultura livresca, por mais profunda a vasta, nem a prática de atos extraordinários, meritórios e aparentemente impossíveis habilitam ninguém a alcançar a verdadeira iluminação. Se perguntares a um tal erudito ou herói se ele se conhece a si mesmo, será forçado a reconhecer a sua ignorância. A não ser aos pés do Mestre ou em sua divina presença, é realmente impossível ao pesquisador entrar e permanecer naquele estado de Ser Puro, ou EU verdadeiro e original, em que a mente é dominada e todas as suas atividades cessam completamente. Por isso, foi dito que a Graça do Mestre é essencial ao Despertar Espiritual do Discípulo.

Discípulo: Qual é a natureza da Graça do Mestre?

Mestre: Está além do pensamento e da palavra.

Discípulo: Então, como se pode dizer que o discípulo realiza seu verdadeiro Ser pela Graça do Mestre?

Mestre: O caso é semelhante ao do elefante que desperta ao ver um leão em sonho. Assim como o aparecimento do leão é suficiente par acordá-lo, o vislumbre da Graça do Mestre também o é para despertar o discípulo do sono da ignorância para o Conhecimento do Real.

Discípulo: Que querem dizer as escrituras quando declaram que “O MESTRE” é realmente o Ser Supremo?
 
Mestre: Segundo as escrituras, em atenção ao aspirantes que buscam o verdadeiro Conhecimento e Iluminação, ou seja, a realização do Supremo, e que se devotam ao Senhor unicamente pelo desejo de alcançar sua Graça. Essa Divindade, que é realmente o Coração do Ser do aspirante e está sempre presente nele como Consciência pura, no momento adequado, em resposta a tal devoção, assume uma forma humana com três qualidades essenciais – “Sat-Chit-Ananda” (Existência-Conhecimento-Felicidade) que lhe aparece como Mestre. Além disso, as escrituras afirmam claramente que o Mestre, com a sua Graça, ajuda e capacita o discípulo a desprender-se totalmente de si mesmo e identificar-se com Ele (Mestre). Portanto, o Mestre deve ser reconhecido como o Ser Supremo.

Discípulo: Como é que, sem o auxílio do Mestre, alguns grandes sábios realizaram o Eu Verdadeiro?

Mestre: O Ser supremo, que reside dentro de cada indivíduo, pode, às vezes, revelar a Verdade a algumas almas maduras.

Discípulo: Qual é o fim e objetivo do Cominho da Devoção ou “Siddhânta Marga”?

Mestre: Compreender que o “Eu” é Deus e libertar-se do ego.

Discípulo:  O Caminho da Devoção e o Conhecimento levam ao mesmo objetivo?

Mestre: Sim.

Discípulo: Como?

Mestre: A meta comum a estes dois cominhos é a eliminação do ego e da possessividade, isto é, das idéias de “eu” e “meu”. Estas noções são interdependentes: desaparecendo uma a outra também desaparece. Para atingir-se o estado de Silêncio, que transcende a palavra e o pensamento, ou elimina-se o ego pelo Conhecimento, ou a possessividade pelo Caminho da Devoção. Qualquer deles é eficiente, pois a meta de ambos é a mesma.

NOTA: Enquanto o ego subsistir no devoto, este deve aceitar a existência do Supremo Senhor como guia de sua vida e conduta. Se o devoto deseja alcançar a meta suavemente, ou seja, a realização de sua identidade como o Supremo, em que o ego se perde complemente, então tem que se subordinar a Ele até que essa meta seja alcançada.

Discípulo: Que é ego?

Mestre: É simplesmente o “jiva” ou indivíduo, que se conhece a si mesmo sempre como “EU”, “eu”... A Consciência Pura não pode Ter a noção de “eu”, nem o corpo, que é insensível. Mas, entre a Consciência Pura e o corpo surge esse “jiva” ilusório, que é a raiz de todas as perturbações. Eliminai-o, por qualquer meio, e, então, o que restar brilhará como a Realidade sempre presente. Isto é a Libertação.
 
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