"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sexta-feira, abril 12, 2013

A Instrução Silenciosa - 5/5

Ramana Maharshi

 
Discípulo: Que caracteriza a permanência no Conhecimento (Jnana)?

Mestre: O estado de completa e inalterável absorção da mente no Eu Real. É o estado em que o Jnani permanece  espontaneamente. Assim como toda pessoa normal consciente de seu corpo sabe que não é bode, nem boi ou outro animal qualquer, mas sim um ser humano, o Jnani, por sua Consciência Natural, sabe que não é coisa alguma desde o grosseiro corpo físico (inclusive) até o sutil nasa, mas sim, o Atman, que é Sat-Chit-Ananda (Existência-Consciência-Felicidade).

Discípulo: Em que grau  de evolução espiritual o Aspirante se torna Jnani?

Mestre: No 4º (Satwâpatti) auto-realização.

Discípulo: Nesse caso, qual é a significação dos 3 últimos graus?

Mestre: O 4º, 5º, 6º e 7º indicam simplesmente diferentes aspectos da libertação enquanto o Jnani está vivo: não significam diferenças de Jnâna (experiência) ou moksha  (libertação). Em relação  à Jnâna e a moksha não há a mínima distinção nesses quatro estados.

Discípulo: Se a libertação é comum a esses quatros estados, como pode o Varishta ser possível em destaque? 

Mestre: Unicamente pelo fato da experiência ser ininterrupta, o que se deve a excelência dos méritos do Varishta.

Discípulo: Se todos desejam essa experiência ininterrupta, por que nem todas as classes de Jnânis alcançam esse estado?

Mestre: Isso não é consequência de desejo ou esforço. Sua causa é unicamente o prarabdha. Perdido o ego inteiramente no 4º estado, não resta individualidade para fazer esforços ou desejar. Não podem ser jnânis aqueles que continuam a esforçar-se. Ao exaltarem o Varishta, as escrituras não falam das outras classes como sendo diferentes dos Jnanis.

Discípulo: Algumas criaturas declaram que o estado supremo é aquele em que toda atividade dos sentidos e da mente é completamente eliminada. Se assim é, como tal estado pode ser compatível com a condição de uma pessoa em plena experiência dos sentidos e da mente?

Mestre: Se tal fosse o critério acertado para julgar-se a natureza do estado supremo, este nada apresentaria de excepcional, sendo nessa hipótese, comparável ao estado de sono profundo (no qual não funcionam os sentidos nem a mente). Ademais, se tal estado fosse a natureza transitória, e não contínua ou interrupta, isto é, se não subsistisse enquanto os sentidos e a mente estivessem funcionando, como se poderia considerá-lo natural e permanente?

De acordo com o prarabdha, o referido estado pode ocorrer a uns poucos durante algum tempo mais ou menos limitado ou subsistir até o momento da morte. Do contrário, os grandes Sábios que foram os videntes dos mantras védicos, ou os autores das obras originárias do Vedanta, e até mesmo o próprio Iswara (Deus) estariam na categoria dos ignorantes. Esse estado não seria de absoluta perfeição se só existisse quando a mente e os sentidos estivessem inativos. Os Sábios declararam como final somente, o Sahaja Nirvikalpa Sthiti (estado de tranqüilidade natural permanente).

Discípulo: Qual a diferença entre o sono ordinário e o sono desperto (jagrat-sushupti)?

Mestre: No primeiro não há atividade mental nem consciência, enquanto que no segundo subsiste somente a Consciência.

Discípulo: Como pode o Atman ser turiya (o quarto estado) e turiyatita (estar além do quarto estado)?

Mestre: Turiya significa o quarto ente. Os experimentadores – visva do estado de vigília, taijasa do estado de sonho e prajna do estado de sono profundo – que se alternam, não são o Atman. Este tem que ser diferente daqueles, e é sua testemunha; por isso se diz que é o quarto. Na auto-realização os outros três experimentadores desaparecem completamente, nada deixando para ser testemunhado, e assim, sem mais ser testemunha, o Atman permanece puro, como sempre. Daí o dizer-se que o Atman é também turiyatita.

Discípulo: Que utilidade  tem as escrituras para o Jnâni?

Mestre: O Jnâni brilha como aquilo a que se referem todos os atributos enumerados pelas escrituras. Logo, para ele, os textos sagrados não têm utilidade alguma.

Discípulo: A posse de poderes super-humanos (siddhis) se relaciona de algum modo com a libertação?

Mestre: Só a Atmavichâra conduz à Libertação. Todos os siddhis são meras criações de maya (a ilusão universal). O único poder verdadeiro, permanente, é a auto-realização. A atividade de maya, que se manifesta como poderes taumatúrgicos transitórios, não é siddhi algum.

Tais “siddhis” são desejados e adquiridos por indivíduos que ambicionam fama e prazeres. Entretanto, alguns, graças ao seu prarabdha, podem possui-los involuntariamente. Sabei que o melhor de todos os siddhis (ganhos) é ser uno com o Ser Supremo. Esta é a mais alta forma de libertação, conhecida como; sayujva.

Discípulo: Se a libertação é isso, como podem algumas escrituras que consideram o Jiva (OU SER INDIVIDUAL) unido ao corpo declarar que ela consiste em não se deixar este morrer, mas conservá-la eternamente vivo?

Mestre: Qualquer consideração sobre a libertação e os meios de alcançá-los só teria valor do ponto de vista mais elevado - se realmente existisse prisão. A verdade é que o jiva não está preso a nenhum dos quatro estados. O Vedanta e o Sidshanta declaram com veemência, que o vocábulo “prisão”é irreal. Que significado pode ter a “libertação”? É tão inútil procurar-se determinar a natureza e as características da libertação quanto seria a tentativa de caracterizar o filho de uma mulher estéril  ou  de saber o tamanho e a cor dos chifres de uma lebre.

Discípulo: Queria dizer que o que os Sábios antigos e as escrituras têm dito sobre a natureza e as características da prisão e da libertação e inconsistente, descabido e falso?

Mestre: Não. Tais afirmações não são inconsistentes nem descabidas nem falsas. O emprego do termo “libertação”, o qual foi “fabricado” pelo conhecimento e a erudição, justifica-se por servir para dissipar a falsa e ilusória idéia de ”prisão e “libertação” - significa isso e nada mais. Aliás, o fato das características e a natureza serem descritas diversamente por diferentes pessoas constitui testemunho concludente de que a idéia de libertação é produto de pura imaginação.

Discípulo: Com que autoridade se nega a existência da prisão e da libertação?

Mestre: Sua falsidade é confirmada pela experiência e não por mera afirmação dogmática das escrituras.

Discípulo: Em que experiência se baseia essa negação?

Mestre: As noções de prisão e libertação são meras modificações ou vikâras da mente. Não têm individualidade própria e, portanto, não podem funcionar por si mesmas. No entanto, possuem uma fonte. Pesquisai-a. Verificareis que sua fonte é o próprio “eu” que a investiga. E, então, se perguntar seriamente “Quem sou eu?”, essa pesquisa terminará na anulação do “eu” ilusório, restando o Eu Real, tão claro como uma groselha (fruta).

Discípulo: Se a prisão e a libertação não são reais, por que devem persistir a miséria e a confusão?

Mestre: A miséria e a confusão pertencem unicamente ao não ser, nada tendo a ver com o Eu Real.

Discípulo: É possível a todos o reconhecimento de Ser Real sem dúvida alguma?

Mestre: Certamente.

Discípulo: Como?

Mestre: Todos os seres humanos sabem, por experiência, que nunca cessaram de existir, nem mesmo quando em estado de sono profundo, desmaio etc., em que todo o universo sensível e insensível deixou de existir para eles. Em  outras palavras: a própria existência, a todo o momento e a despeito de tudo, é fato de experiência direta e inabitável. Portanto, somente aquele Ser Puro, que é o mesmo para todos, e que é conhecido por experiência direta como sempre presente, é o estado natural  e primário de cada um. Tudo o mais é ilusão.
 
 

terça-feira, abril 09, 2013

A Instrução Silenciosa - 4/5

 Ramana Maharshi


Discípulo: Que é a Luz da Consciência?

Mestre:  É o Ser-Consciente (Sat-Chit) auto-efulgente que ilumina os nomes e as formas revelando-os interiormente como pensamentos e exteriormente como o mundo sensível. Este Sat-Chit não pode ser objetivado, mas sua existência é inferida pelo fato de iluminar os objetos.

Discípulo: Que é Vijnãna (conhecimento)?

Mestre: É o estado de Consciência pura imutável semelhante a um oceano sem ondas ou a amplidão do espaço imóvel. É a Consciência pura sem atributos.

Discípulo: Que é Ananda?

Mestre: É a experiência de Felicidade suprema da Paz perfeita no estado de Vijnãna. Semalhante ao sono profundo, é inteiramente livre depensamentos. A este estado também se denomina Kevala Nirvikalpa Samadhi.

Discípulo: Que significa Anandatita?

Mestre: Ter atingido o estado de Felicidade suprema, ou Ananda que se assemelha ao sono profundo, isento de pensamentos, e assim permanecer realizando a Paz perfeita, ininterrupta, absolutamente imutável, ainda mesmo quando se está completamente desperto. Em tal estado, chamado Shaja Nirvikalpa Samadhi, o Sábio está em perfeito repouso, embora pareça estar em atividade. Sua condição é análoga à da criança alimentada quando está dormindo, a qual é inconsciente dos movimentos de seu próprio corpo.

Discípulo: Afirma-se que todas as coisas, sensíveis ou insensíveis, dependem unicamente do Atman. Essa  afirmação baseia-se em experiência ou conclusão teóricas?

Mestre: O Atman (ou Eu Real) é o Ser incorporado, mas não se deve tomá-lo como se fosse o corpo. A energia desse Poder Indefinível permanece latente quando estamos em estado de sono profundo e desperta como eu-consciência quando acordamos. Só, então, é que percebemos os objetos. Sem a presença do Eu não há percepção de objetos. Isso mostra claramente que todas as coisas surgem do Atman, n’Ele permanecem e por Ele são recolhidas.

Discípulo: Como se pode dizer que existe um só Atman, se remos inúmeros corpos que , a julgar por seus movimentos autônomos, devem ser animados por muitas almas (ou “eus”)?

Mestre: A noção de existência de muitas almas (ou eus) provém da idéia de “eu-sou-o-corpo” e desaparece quando o Atman se revela. E como em tal estado de consciência não existe o menor senso de dualidade, certamente não se pode negar que só existe um Atman.

Discípulo: Baseia-se em experiência a afirmação de que Brahman pode e não pode ser realizado com a mente?

Mestre: Sim. Costuma-se dizer que a mente pura o realiza ao integrar-se n’Ele, e que a mente impura é incapaz disso.

Discípulo: Que é mente impura? Que é mente pura?

Mestre: O poder de Brahman permanece indefinível. Ao emergir de sua fonte, identifica-se com o seu reflexo, que é suscetível de muitas “distorções” e tem assumido muitas formas, constituindo, assim, a mente impura. Enquanto, a esse mesmo Poder, uma vez desfeita sua união com o referido reflexo e respectivas distorções mediante o discernimento entre o Real e o Irreal, se denomina Mente pura.

Discípulo: Pode-se extinguir a prarabkha (Karma passado que começa a produzir seus frutos desde o nascimento do corpo) e continuar incorporado?

Mestre: Sim. O Karma é do fazedor (o ego), falso eu interposto entre o Eu Real (ou Atman) e o corpo, que é insensível. Esse ego, ao mergulhar em sua fonte (o Eu Real), cessa de existir e, na sua ausência, não pode haver prarabdha.

Discípulo: Se o Atman é Sat-Chit (Ser-consciência), porque é caracterizado como algo que não é Sat nem Asat (não-ser), Chit nem Achit (inconsciência)?

Mestre: Porque como Sat, o Atman é absoluto, universal, estando além de concepções correlativas, tais como, “sat e asat” e, similarmente, como Chit é Consciência Pura, estando, também, acima de opostos como “chit e achit”.
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segunda-feira, abril 08, 2013

A instrução Silenciosa - 3/5

 
Ramana Maharshi


Discípulo: Que é Dyana ou Meditação?

Mestre: É a permanência no Eu Real a todo instante, sem que haja nem mesmo o pensamento “eu estou em meditação”. Meditar é estar absorto no Ser. Nesse estado não há nem vestígios dos estados de vigília, sonho e sono. Portanto , o Sono aparente também deve ser considerado meditação.
 
Discípulo: Que diferença há entre essa meditação e o Samadhi?

Mestre: A meditação é iniciada e mantida pelo esforço mental consciente, ao passo que o Samadhi ocorre quando esse esforço desaparece de todo.

Discípulo: Quais são os fatores essenciais a que devemos prestar atenção especial na prática da meditação?

Mestre: Para nos mantermos fixos no Eu Real, o mais importante é não nos distrairmos – nem por um momento. Não nos devemos enganar e deixar levar imaginando como reais os fotismos e visões que se nos apresentam, nem mesmo ouvindo o harmonioso e estranho “nada” (som) ou “figurar divinas” que apareça, dentro ou diante de nós. Se o conhecimento das impressões externas é irreal, como podem ser reais os objetos revelados por tal conhecimento?

Na sadhana deve-se prestar atenção especial aos pontos seguintes:

a) O aspirante atingiria a autorealização em muito pouco tempo se dedicasse à investigação séria em busca do Ser todos os minutos que desperdiça a pensar em objetos, os quais constituem o não ser.

b) Enquanto a mente não houver conseguido fixar-se no Ser, ser-lhe-á essencial a prática da meditação impregnada de emoção religiosa (bhâvâna) (1) pois do contrário se tornará presa fácil de pensamentos errantes ou será vencida pelo sono.

c) O aspirante não deve gastar seu tempo em interminável e vã repetição de mantras como (Sivohah) -  (Eu sou o Senhor Supremo) ou “aham Brahmasmi” (Eu sou Brahman), os quais podem ser considerados características do Nirgunopasana (culto do Ser sem atributos). Isso ajuda a fortalecer a mente, mas, uma vez fortalecida esta por tal repetição ou upâsana, o aspirante deverá praticar a Atmavichâra, permanecendo como é, sem superposição das idéias de que “Eu sou Brahman”etc..

d) A excelência da sadhana ou método de prática adotado consiste essencialmente em não permitir que entre em nossa mente pensamento algum.

Discípulo: Se, como se diz, tudo acontece de acordo com o destino e, por isso, os obstáculos que nos retardam e impedem a meditação podem ser considerados insuperáveis, como podemos ter esperança de vencê-los?

Mestre: O chamado destino, que impede a meditação (dhyana), existe para a mente extrovertida, mas não para a mente introvertida. Portando, quem busca o SER interiormente permanecendo como é, não se impressiona por qualquer impedimento que surja na prática da meditação. O pensar em tais obstáculos é o maior impedimento.

Discípulo: Qual a disciplina que o aspirante observar?

Mestre: Sobriedade na alimentação, no falar e no dormir.

Discípulo: Quanto tempo deve durar a sadhana?

Mestre: É indispensável a prática incessante até que, sem esforço, a mente se fixe no seu estado original, livre de pensamentos, isto é, até que as idéias de “eu” e “meu” sejam completamente extirpadas e destruídas.

Discípulo: Que significa a solidão ou retiro que se recomenda para o desenvolvimento espiritual?

Mestre: Sendo o Eu Real onipresente, não se pode determinar um lugar para o seu retiro. Contudo, estar tranqüilo é permanecer litário.

Discípulo: Como se distingue a verdadeira sabedoria?

Mestre: Conhecido o que é verdadeiro e real, a sabedoria consiste em não de deixar atrair e desviar por coisa alguma. Enquanto vir a mínima diferenciação no Absoluto, que é uno, universal e perfeito, e com o qual deve identificar-se, o aspirante terá desejos, medo, ira etc., o que denota falta de sabedoria. Aquele que se identifica com o corpo físico é muito ignorante, e dessa falsa identificação, causa de todas as “vkâras (perversões) da mente, tais como o desejo, o medo e a ira”.

Discípulo: É a Sânnyâsa (renúncia completa a toda posição mundana, propriedade e nome) condição indispensável para a realização da Âtmanishtha (permanência firme no Eu Real)?

Mestre: O único meio de se atingir a Âtmanishtha é o esforço continuado no sentido de se desligar do corpo. Esse desligamento resulta da maturidade e pureza da mente e da prática da Âtmavichara (auto-investigação) e não de fatores como as “Âsrâmas”.

A ligação ao corpo é um complexo da mente. Os símbolos das Âsrâmas (tais como a tonsura, as túnicas ocres, etc.) e suas respectivas regras de conduta pertencem exceto até onde purifiquem a mente – apenas ao corpo e são exteriores. Como poderá a submissão a regras de conduta externa eliminar as ligações que são da mente? E muito menos o uso de símbolos.

Sendo a ligação ao corpo devida à imaturidade e impureza da mente e à falta de Atmavichâra, essa ligação não poderá ser desfeita enquanto a mente não amadureça e se purifique e adote a prática da Atmavichâra.

A Sânnyâsa Âsrâma é simplesmente um meio para se chegar a vairâgya ou calma, e esta por sua vez, um meio de facilitar a Atmavichâra.

A Sânnyâsa Âsrâma pressupõe pureza e maturidade da mente, mas, na ausência disto, é muito mais benéfico, para o indivíduo e a sociedade, levar a vida de chefe de família, cumprindo fielmente seus deveres, que desperdiçar a existência adotando a Sânnyâsa Âsrâma.

A verdadeira significação da Sânnyâsa, ou renúncia consiste em o homem e libertar das sankalpas e vikalpas, as quais absorvem a mente e constituem de fato, “a família da ligação”;  ou, em outras palavras, consiste na renúncia às ligações mentais domésticas (e não simplesmente no uso de símbolos de renúncia), de modo que a mente possa fixar-(se no Eu Real).

Discípulo: Se o conhecimento do Ser não pode revelar-se ao aspirante enquanto persiste neste qualquer vestígio da ideia de “ eu sou o fazedor” – como poderá o chefe de família que deseja a Libertação cumprir seus deveres sem essa ideia (“eu-sou-o-fazedor”)?

Mestre: Não existe tal princípio de que só se façam as coisas em virtude da ideia – de “ eu sou o fazedor”; portanto não há razão para se duvidar disso e perguntar: “Podem-se fazer as coisas ou desempenhar funções sem a ideia de “eu-sou-o-fazedor?” Vejamos um exemplo comum: o funcionário do Tesouro, ao trabalhar, o dia inteiro, com grande cuidado e atenção, pareceria como se estivesse arcando com todas as responsabilidades financeiras da instituição. Entretanto, sendo cônscio de que não está absolutamente ligado à renda, em tudo o que faz permanece livre à renda, em tudo o que faz permanece livre da ideia de “eu-sou-o-fazedor”, embora cumprindo satisfatoriamente os seus deveres. Assim, também é possível ao sábio chefe de família, cumprir seus deveres na vida (o que, afinal, correspondem ao seu Karma) sem qualquer ligação, considerando-se como simples instrumento empregado para esse fim. Tal Karma não representa um obstáculo no caminho que o conduz ao Conhecimento, e este não dificulta o cumprimento de seus deveres na vida. O Conhecimento e o Karma nunca são incompatíveis.

Discípulo: Como pode o chefe-de-família que seja um Sábio (Jnani), indiferente ao seu próprio conforto pessoal, ser útil ao lar, vice-versa?

Mestre: Se for de seu Karma o trabalhar para a manutenção da família, ele o fará. E tendo-se utilizado o cumprimento dos deveres de chefe-de-família como um meio para a aquisição do Conhecimento, que é superior a todas as vantagens, sentir-se-á perfeitamente satisfeito e feliz, sem necessidade de mais benefício algum de parte da família.

Discípulo: Como podem a quietude (nivritti) e a Paz da mente ser adquirida em meio das prementes obrigações para a família?

Mestre: O Sábio (Jnani) percebe ativo aos outros, mas em si mesmo, ele não o é: embora cumpra tarefas imensas, não se considera ativo. As aparentes atividades de um chefe-de-família iluminado – não podem interromper sua quietude e repouso. Sabe que todas as atividades dependem dele e que ele não depende delas; permanece como testemunha tranquila de todas as atividades empíricas que se operam em sue redor.

Discípulo: Suas atividades empíricas, como produtos do Karma passado, não lhe deixam na mente impressões para se manifestarem outra vez?

Mestre: Como poderá o Karma deixar impressões na mente de um Jnani; se este como tal já está livre de tendências mentais latentes e não se liga a nenhuma atividade?

Discípulo: Que é Brahmacharya?

Mestre: A busca de Brahma.

Discípulo: Pode a Brahmacharya (como ordem de vida    religiosa) auxiliar-nos na aquisição do Conhecimento?

Mestre: Sendo a observância das regras da Brahmacharya, o controle dos sentidos etc., o mesmo que se exige ao pesquisador do Conhecimento, tal vida disciplinada tem que ser condizente ao progresso espiritual.

Discípulo: É admissível passar-se da primeira ordem de vida religiosa (Brahmacharya) diretamente à quarta (Sânnyâsa)?

Mestre: As quatro ordens de vida não são imperativas para o pesquisador intimamente amadurecido. O auto-realizado não faz distinção entre as ordens de vida religiosa. A asrama não o ajuda nem o prejudica.

Discípulo: O Sadhaka (aspirante) perde se não observa as regras de casta e ordens de vida?

Mestre: Todas as observâncias têm em mira a prática do conhecimento. Quem pratica o conhecimento constantemente não está preso a regras. Se adere a alguma disciplina, é simplesmente para que sua vida sirva de exemplo para os outros. Sua adesão a uma disciplina ou seu afastamento dela não lhe significa lucro nem perda.
 
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sábado, abril 06, 2013

A Instrução Silenciosa - 2/5

Ramana Maharshi


Discípulo: Qual é a Prática que o discípulo deve adotar para realizar o Eu Real?

Mestre: Antes de tudo, deve-se reconhecer que o Eu Real, ou Atman, não é diferente nem está separado do discípulo, não é algo que ele tenha de obter como se viesse de fora. Além disso, considerando que nada existe mais sublime que o objeto de sua busca, aquele que resolutamente procura atingir a Libertação deve, preliminarmente, discernir o Real do Irreal e, com essa introspecção discriminativa, conhecer bem o que realmente é, isto é, em que consiste o seu Ser Real. Este conhecimento é necessário precedido por uma investigação sobre o “EU” em si e o que se refere ao mesmo. Tal investigação leva o discípulo a rejeitar a falsa identificação do “EU” com o corpo e a mente, visto que estes dois últimos são meros adjuntos de algo que os antecede. Invetigando-O calma e incessantemente, o pesquisador chegará – não por dedução abstrata baseada em cogitações dialéticas, mas por experiência direta e indubitável – a conclusão de que, o real, em si, é a pura “Existência – Consciência - Felicidade”. E este é o estado em que o discípulo deve manter-se firmemente. Realizando assim o seu estado natural verdadeiro, deve estabelecer-se e perceber inabalável nesse estado, como o Eu Real, isto é, a Prática no caminho do conhecimento. É, também, a chamada investigação que leva a autorealização.

Discípulo: Essa investigação pode se efetuada por todos os pesquisadores?

Mestre:  Não: é somente para as almas maduras, as outras terão que seguir métodos diferentes, adaptados ao estado de desenvolvimento mental e moral de cada um.

Discípulo: Quais são os outros métodos?

Mestre:
 
a) Hinos: Cantar, com ternura e alegria, a glória do Senhor.

b) Japa: Repetir, mental ou oralmente os nomes do Senhor ou sílabas sagradas. Em alguns momentos a mente do devoto vibra em uníssono com estas práticas (a e b) e noutros não. E ele não percebe de pronto as divagações de sua mente.

c) Dhyana: Consiste em repetir mentalmente as  sílabas sagradas e imaginar as formas e os feitos de Deus. Neste caso, a mente funciona como porta-voz do devoto. Suas divagações são notadas imediatamente, visto que não pode estar ao mesmo tempo distraída e vibrar ao mesmo  tempo distraída e em uníssomo com esta prática. Quando em dhyana, não pode achar-se distraída, e quando distraída, não pode estar em dhyana. Portanto, o praticamente (de Dhyana) apercebido do estado de sua mente, pode, quando é o caso, recolhê-la ao estado de meditação e fixar-se neste. A  proficiência na meditação leva a alma a estabelecer no real. A meditação opera na Fonte utilíssima da mente, de sorte que o aparecimento e o desaparecimento desta se tronam imediatamente claros para o praticamente.

d) Yoga: A mente e a respiração provém inseparavelmente da mesma fonte: cessando uma, a outra também cessa, sem esforço. Pelo controle da respiração (pranayama) retém-se o alento, produzindo-se automaticamente o silêncio da mente. A tal prática chama-se Yoga. Fixando a mente em qualquer dos centros psíquicos, digamos no sahasrara, os Yogis podem permanecer inconscientes de sua existência física durante o tempo que desejarem. Enquanto a mente se acha silenciada, o Yogi se sente como quem estivesse experimentando uma espécie de bem-aventurança. Não obstante, quando a mente sai deste estado torna às suas atividades anteriores. Portanto, sempre que se estiver voltando para fora, ela deverá ser interiorizada, seja pela meditação (Dhyana, seja pela investigação (Atma-Vichara), para que de modo algum retorne a sua condição anterior.

e) Jnana: É a completa anulação da mente fazendo-a realizar sua absoluta identidade com o Atman ou Eu Real pela prática constante de dhyana (meditação) ou vichara (investigação do Eu). Anulada a mente, subsiste aquele Estado de Existência Pura, isento de qualquer esforço ou atividade mental. Aqueles que atingiram esse estado jamais fogem dele. Esse Estado de Ser Puro é chamado “Silêncio” ou “Inação”.

OBSERVAÇÕES:

1) Todas as “Sadhanas”(Práticas) visam apenas a conservar a mente concentrada. Os atos de pensar, de esquecer, desejar, odiar, possuir, renunciar, etc., são modificações da mente e, portanto, não pertencem ao Eu Real. A verdadeira natureza do homem é o Ser Puro, imutável, permanente. A libertação consiste em conhecer-se esse estado por experiência direta e nele absorver-se permanentemente. Enquanto esse estado de Suprema Paz não for definitivo, far-se-ão indispensáveis ao aspirante duas “sadhanas”, a saber : não fugir do Eu Real e não permitir que a mente seja contaminada por pensamentos externos.

2) Vários são os métodos que se pode usar para manter a mente firme e equilibrada. Todos eles conduzem ao mesmo objetivo: a realização da identidade da mente com o Eu Real ou Ser Supremo. O aspirante pode escolher qualquer objeto como ponto de fixação. O sucesso na meditação consiste em eliminar toda influência do ambiente, deixando o objeto puro, de modo que a mente permaneça como esse mesmo objeto.

Aqueles que seguem o Caminho da Auto-invetigação (Atma-Vichara) compreendem que o que permanece, no final de sua busca, é realmente Brahman, ou o Absoluto.

Do mesmo modo, os que trilham o Caminho da Devoção encontram, no fim de sua prática, o objeto da própria devoção.

Logo, o que é indispensável ao aspirante é a prática ininterrupta ou da Devoção ou da Auto-investigação até alcançar a meta.

Discípulo: A Quantidade é dinâmica em si mesma ou é um estado de passividade e inércia?

Mestre: É um estado de passividade sem inércia. Cada ato constituinte daquilo que geralmente se conhece como atividade externa da vida mundana efetua-se intermitentemente. A tranquilidade interior ou comunhão com o Ser é uma atividade ininterrupta de toda a mente. Maya ( a ilusão) não pode ser completamente destruída, senão por essa comunhão interior, essa plenitude do esforço invisível, que é a atividade por excelência.

Discípulo: Qual é a natureza da Maya?

Mestre: Maya é aquilo que, ocultando o Ser, a única realidade que brilha por si mesma, que é Perfeita em si Mesma, sempre onipresente, faz o mundo, o indivíduo e o criador parecem reais, embora em todos os tempos tenham sido declarados ilusórios.

Discípulo: Se o eu ou Atman é auto-efulgente e perfeito, porque não é percebido por todos, como o são os objetos materiais?

Mestre: Quando alguma coisa é conhecida, é de fato o Atman que se conhece a si mesmo como o próprio objeto conhecido, pois a natureza do Eu Real é o conhecimento ou Iluminação. Somente o Ser é consciente, e nada existe além do Ser. Se o não-ser existisse, teria que ser insensível logo, o não-ser pode revelar-se, e um não-ser não pode conhecer outro não-ser. Pelo fato de não sermos conscientes de sua natureza, o Eu Real parece nascer como pessoa e lutar no oceano de samsâra.

Discípulo: Se o Ser Supremo é onipresente, como foi dito, deve ser fácil realizá-lo. No entanto, as escrituras declaram que se não estivermos com a Sua Graça não poderemos adorá-lo e, muito menos realizá-lo. Logo, como poderá o jiva, por seu esforço individual, realizar o Ser Supremo, na ausência da Graça? Jiva = alma individual.

Mestre: Amais o Ser Supremo foi desconhecido ou não realizado. Ele é uno e idêntico ao Eu Real. Sua Graça é a Iluminação ou Revelação Interior, direta, da divina Presença. O fato de alguém ignorá-la não constitui prova em contrário. Se a coruja não vê o sol que ilumina todo o mundo, o defeito será do sol? Se o ignorante é inconsciente do Atman, poder-se-á atribuir isso  a natureza do Atman?

Discípulo: Onde fica o centro do Ser no corpo?

Mestre: O lado direito do peito é geralmente reconhecido como a sede do Eu. Fica no ponto em que intuitivamente colocamos a mão para indicar-nos a outrem. Entanto, alguns afirmam que o cérebro é a sede do Ser. Se o fosse, a cabeça não deveria inclinar-se para baixo quando dormimos ou desmaiamos.

Discípulo: Qual é a natureza do Coração?

Mestre: O Coração tem sido descrito do seguinte modo: - “Existem, acima do abdome e abaixo do peito, entre as glândulas mamarias, seis vísceras de várias cores. Uma delas, semelhante a um botão de loto, situada a dois dedos à direita da linha média, do peito, é o Coração. Está invertido e, nele, há um pequeno orifício, dentro do qual se acha firmemente estabelecida, em companhia de desejos etc., uma escuridão imensa. Ali, aonde convergem os diversos “nâdis”(nervos primários), todo o sistema nervoso tem o seu sustento. É a sede das forças vitais, da mente e da luz (da consciência).

Na verdade, a palavra “Hridayam” significa somente o Eu Real, isto é, o Absoluto. Logo, se Ele é “Sat-Chit-Ananda-Nitya-Purna” (Eterna e Perfeita Existência-Consciência-Felicidade), nada pode estar fora ou dentro, acima ou abaixo D’Ele. Seu estado é o de cessação de todos os pensamentos. Para o aspirante que não se contenta com meras concepções abstratas, mas se empenha na realização do estado sereno e tranquilo de permanência no Ser ou Consciência Pura, estas considerações quanto à Sede do Ser - se é dentro ou fora do corpo etc., não têm cabimento. Quando ele permanece no Ser, tais perguntas não podem surgir.

Discípulo: Como é que ainda mesmo na ausência de objetos externos a mente percebe diferentes objetos, incessantemente, tornando-se-nos assim impossível realizar aquele estado de tranquilidade ou permanência no Ser?

Mestre: Isso ocorre devido às impressões mentais anteriores que percebem latentes. Essas impressões são perceptíveis pela consciência individual que se extraverteu fugindo de sua própria fugindo Existência Pura, natural e imutável. Cada vez que virdes alguma coisa, seja o que for, perguntai-vos introspectivamente: “quem é que está vendo?” – e assim, o pensamento ou a coisa vista desaparecerá imediatamente.

Discípulo: Como é que a tríade (o vidente, a visão e a coisa vista), inexistente nos estados de sono profundo e de samadhi, se manifesta nos outros estados?
 
Mestre: Do Ser (ou Real EU) surgem sucessivamente: a) a consciência refletida (chidâbhâsa), b) o jiva (ou indivíduo), isto é, o vidente ou pensamento – eu original, c) os fenômenos do mundo. 
                 
NOTA: Os elementos da tríade são interdependentes: nenhum deles pode existir sem os demais.

Discípulo: Se é livre do conhecimento e da ignorância, como pode o Eu Real penetrar todo o corpo físico, dar-lhe vida e tornar sensíveis a mente e os órgãos dos sentidos?

Mestre: Os sábios têm declarado que os vários nâdis (nervos) sutis que se estendem – por todo o corpo possuem suas raízes na sede do Eu Real; que sua ligação com este se acha no chamado nó do coração – (hridaya granthi); que enquanto esse nó não for desfeito pelo autoconhecimento, os fatores sensíveis e os insensíveis – certamente permanecerão entrelaçados: que assim como a energia elétrica, sutil e invisível, opera através de fios metálicos a energia do Eu Real atua sobre a mente e os sentidos através dos nervos que se estendem por todo o corpo; que desde que esse nó seja desfeito pelo autoconhecimento, o Eu Real será realizado tal como é, ou seja, livre de quaisquer limitações.

Discípulos: Que relação existe entre a Consciência Absoluta, ou Conhecimento Puro, e o Conhecimento relativo do mundo fenomênico, o qual implica na tríade constituída pelo conhecer, o conhecimento e o conhecido?

Mestre: Esta relação pode ser compreendida mais facilmente quando estudada em sua analogia com a projeção cinematográfica.
 
As imagens que aparecem na tela podem ser comparadas com os objetos do  mundo dos sentidos:

1) A lâmpada existente dentro da máquina projetora pode ser comparada com o Eu  Real, ou coração auto-efulgente.

2) A Lente que está dentro da lâmpada pode ser comparadas com a mente satvica adjacente ao Coração.

3) O filme, ou registro de impressões pode ser comparado  com o registro das tendências latentes em forma de pensamentos sutis.

4) A lâmpada inferior que, ao projetar sua luz através da lente, produz, juntamente com esta, o foco de seu reflexo sobre a tela, pode ser comparada como Eu Real, que, ao projetar sua luz através da mente constitui, juntamente com este, o Jiva ou conhecedor.

5) A mancha luminosa projetada na tela, através da lente pode ser comparada com a luz do Eu Real auto-efulgente projetada sobre o mundo através da mente e dos  sentidos.
 
6) As múltiplas imagens maravilhosas que aparecem na tela podem ser comparadas com  as múltiplas formas e nomes que aparecem como objetos existentes no mundo.

7) Os mecanismos que põe o filme em movimento podem ser comparadas com a lei divina que faz com que se manifestem as tendências ocultas da mente.

8) As cenas que aparecem na tela, quando as imagens impressas no filme interceptam a luz que passa pela lente. podem ser comparadas com o mundo que aparece ao indivíduo que se ache em estado de sonho, enquanto perduram suas impressões mentais latentes.

9) As pequeninas imagens impressas no filme e que são muito ampliadas pela lente, imagens que num abrir e fechar de olhos se movem na tela, podem ser comparadas com os germes de pensamentos que  a mente desenvolve e transforma em objetos enormes fazendo, num abrir e fechar de olhos, moverem-se diante de nós inúmeros mundos.

10) O fato de na ausência do filme só aparecer à luz da lâmpada sobre a tela podem ser comparadas com o fato de na ausência das modificações mentais como é o caso nos estados de sono, desmaio e Samadhi (Repouso perfeito em que desaparecem parecem as tríades) só permanece o EU REAL a brilhar.

11) A lâmpada, cujo brilho é constante, embora ilumine a lente, o filme e a tela. podem ser comparadas com o Eu Real, que permanece imutável, embora iluminando a mente e os pensamentos desta

COMO SE VÊ, A ANALOGIA É PERFEITA.
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quarta-feira, abril 03, 2013

A Instrução Silenciosa - 1/5

 
Ramana Maharshi


Discípulo: Quais são os sinais que nos permitem identificar um “GURU” ou MESTRE?

Mestre: O “Guru” é aquele que reside permanentemente nas profundezas insondáveis do Eu Real: jamais vê diferença alguma entre ele próprio e os outros, não é de modo algum obcecado por falsas noções de distinção como a de que seja o Iluminado (O “Jnani", isto é, o que realizou a Verdade) ou o Liberto (Mukta), enquanto os demais, ao seu redor, estão definhando na prisão ou imersos nas trevas cimérias da ignorância. Sua firmeza e serenidade são absolutamente inabaláveis. Nada o perturba.

Discípulo: Quais são as condições essenciais de um discípulo?

Mestre: Ele deve Ter o desejo intenso e incessante da libertar-se das misérias do mundo e alcançar a felicidade Suprema, a Bem-aventurança Espiritual. Não deve Ttr o mínimo desejo de mais coisa alguma.

Discípulo: Qual é o aspecto essencial da “Upadesa “que o Mestre dá ao discípulo?
 
Mestre: O termo “Upadesa” significa, literalmente, “reaproximar um objeto o mais possível do seu devido lugar”.

A mente do discípulo, ao diferenciar-se de seu estado original de Existência Pura, ou Eu Real, que as escrituras descrevem como “Sat-Chit-Ananda” (Existência-consciência-Felicidade), foge d’Ele e, assumindo a forma de pensamento, anda sempre à cata dos objetos de gozo dos sentidos. E, assim, é fustigada e arruinada pelas vicissitudes da vida, tornando-se fraca e medrosa. Por conseguinte, a “Upadesa” ou instrução espiritual consiste em o Mestre fazer a mente do discípulo voltar ao seu estado original e impedi-la efetivamente de fugir desse estado de absoluta identidade com o Eu Real (ou Essência Espiritual do Mestre).

O termo “Upadesa” também pode ser interpretado como sendo a ação de apresentar à visão anterior de uma pessoa, um objeto aparentemente longínquo, isto é, consiste, a “Upadesa”, em o Mestre mostrar ao discípulo aquilo que o discípulo considerava distante e diferente de si mesmo, a saber: o EU REAL, o ABSOLUTO.

Discípulo: Senão está implícito na afirmação acima, a Essência Espiritual do Mestre é inteiramente idêntica à do discípulo, porque as escrituras declaram categoricamente que o pesquisador, por maiores que sejam os seus conhecimentos, não pode atingir o despertar espiritual senão pela Graça do Mestre?

Mestre: É verdade que, no sentido espiritual, a Essência do Mestre é idêntica a do discípulo. Contudo, muito rara é a pessoa que pode realizar sua verdadeira Essência sem a Graça do Mestre. Nem a mera cultura livresca, por mais profunda a vasta, nem a prática de atos extraordinários, meritórios e aparentemente impossíveis habilitam ninguém a alcançar a verdadeira iluminação. Se perguntares a um tal erudito ou herói se ele se conhece a si mesmo, será forçado a reconhecer a sua ignorância. A não ser aos pés do Mestre ou em sua divina presença, é realmente impossível ao pesquisador entrar e permanecer naquele estado de Ser Puro, ou EU verdadeiro e original, em que a mente é dominada e todas as suas atividades cessam completamente. Por isso, foi dito que a Graça do Mestre é essencial ao Despertar Espiritual do Discípulo.

Discípulo: Qual é a natureza da Graça do Mestre?

Mestre: Está além do pensamento e da palavra.

Discípulo: Então, como se pode dizer que o discípulo realiza seu verdadeiro Ser pela Graça do Mestre?

Mestre: O caso é semelhante ao do elefante que desperta ao ver um leão em sonho. Assim como o aparecimento do leão é suficiente par acordá-lo, o vislumbre da Graça do Mestre também o é para despertar o discípulo do sono da ignorância para o Conhecimento do Real.

Discípulo: Que querem dizer as escrituras quando declaram que “O MESTRE” é realmente o Ser Supremo?
 
Mestre: Segundo as escrituras, em atenção ao aspirantes que buscam o verdadeiro Conhecimento e Iluminação, ou seja, a realização do Supremo, e que se devotam ao Senhor unicamente pelo desejo de alcançar sua Graça. Essa Divindade, que é realmente o Coração do Ser do aspirante e está sempre presente nele como Consciência pura, no momento adequado, em resposta a tal devoção, assume uma forma humana com três qualidades essenciais – “Sat-Chit-Ananda” (Existência-Conhecimento-Felicidade) que lhe aparece como Mestre. Além disso, as escrituras afirmam claramente que o Mestre, com a sua Graça, ajuda e capacita o discípulo a desprender-se totalmente de si mesmo e identificar-se com Ele (Mestre). Portanto, o Mestre deve ser reconhecido como o Ser Supremo.

Discípulo: Como é que, sem o auxílio do Mestre, alguns grandes sábios realizaram o Eu Verdadeiro?

Mestre: O Ser supremo, que reside dentro de cada indivíduo, pode, às vezes, revelar a Verdade a algumas almas maduras.

Discípulo: Qual é o fim e objetivo do Cominho da Devoção ou “Siddhânta Marga”?

Mestre: Compreender que o “Eu” é Deus e libertar-se do ego.

Discípulo:  O Caminho da Devoção e o Conhecimento levam ao mesmo objetivo?

Mestre: Sim.

Discípulo: Como?

Mestre: A meta comum a estes dois cominhos é a eliminação do ego e da possessividade, isto é, das idéias de “eu” e “meu”. Estas noções são interdependentes: desaparecendo uma a outra também desaparece. Para atingir-se o estado de Silêncio, que transcende a palavra e o pensamento, ou elimina-se o ego pelo Conhecimento, ou a possessividade pelo Caminho da Devoção. Qualquer deles é eficiente, pois a meta de ambos é a mesma.

NOTA: Enquanto o ego subsistir no devoto, este deve aceitar a existência do Supremo Senhor como guia de sua vida e conduta. Se o devoto deseja alcançar a meta suavemente, ou seja, a realização de sua identidade como o Supremo, em que o ego se perde complemente, então tem que se subordinar a Ele até que essa meta seja alcançada.

Discípulo: Que é ego?

Mestre: É simplesmente o “jiva” ou indivíduo, que se conhece a si mesmo sempre como “EU”, “eu”... A Consciência Pura não pode Ter a noção de “eu”, nem o corpo, que é insensível. Mas, entre a Consciência Pura e o corpo surge esse “jiva” ilusório, que é a raiz de todas as perturbações. Eliminai-o, por qualquer meio, e, então, o que restar brilhará como a Realidade sempre presente. Isto é a Libertação.
 
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domingo, março 31, 2013

Quem é você? (Entrevista com Papaji)

Entrevista com Papaji, por Jeff Greenwald


Jeff: Quem é você?

Papaji: Eu sou Aquilo de onde você, eu, ele, ela e todo o resto emergem. Eu sou Aquilo.

Jeff: O que você vê quando olha para mim?

Papaji: O vidente.

Jeff: Papaji, como um ser acordado como você vê o mundo?

Papaji: Como o meu próprio Ser. Quando você vê suas mãos, pés, corpo, mente, sentidos, intelecto, você sabe que eles são parte de você. Você diz, “Meu”; “Eu” inclui tudo isso. Do mesmo modo você deve ver o mundo como você mesmo, não diferente de quem você seja. Nesse momento você entende suas mãos, seus pés, sua unha e seu cabelo como não diferentes de você. Olhe o mundo do mesmo modo.

Jeff: Você está dizendo que não há um lugar onde o “Eu” termina e “você” começa?

Papaji: Há sim. Eu o estou levando a este lugar.

Jeff: Papa, você fala sobre liberdade. O que é liberdade?

Papaji: Liberdade é uma armadilha! Um homem que está preso em uma jaula precisa ser livre, não é? Ele está aprisionado na jaula e sabe que as pessoas do lado de fora estão livres. Vocês estão todos em uma prisão, e vocês têm ouvido falar sobre o lado de fora, através de seus pais, seus padres e pastores, professores e pregadores. “Venha a nós” eles dizem, “e nós lhe daremos liberdade”. “Venha a mim e eu lhe darei descanso” - essa é a promessa, mas trata-se somente de mais uma armadilha. Uma vez que você acredite você cai na armadilha de querer liberdade. Você devia estar fora dessas duas arapucas – nem limitação, nem liberdade – porque elas são apenas conceitos. Limitação foi um conceito que deu origem ao conceito de liberdade. Livre-se dos dois.

Jeff: Então onde está você?

Papaji: Aqui. Aqui, sim. Aqui não é nem uma armadilha de limitação nem de liberdade. Não é lá. De fato, não é nem mesmo aqui. As palavras me parecem outra grande armadilha. Todo o tempo que tenho estado aqui, as palavras tem sido inadequadas para expressar a natureza do despertar que toma lugar aqui. Elas não podem nem mesmo expressar por que as palavras são inadequadas. Eu teria que compará-las ao que é adequado e eu não posso fazer isso em palavras.

Jeff: Mas uma palavra que é muito jogada por aí no oriente e no ocidente é a palavra Iluminação. É sobre isso que você fala?

Papaji: Iluminação é conhecimento em si mesmo, não conhecimento de uma pessoa, uma coisa ou uma idéia. Simplesmente conhecimento em si. Iluminação existe quando não há qualquer imaginação do passado, do futuro ou mesmo do presente.

Jeff: Eu não posso conceber um estado sem qualquer imaginação!

Papaji: Isso é o que se chama limitação. Isso se chama sofrimento. Isso se chama Sansara. Eu lhe digo, não imagine. Nesse presente momento, não tenha qualquer imaginação. Quando você imagina, você está construindo imagens e todas as imagens pertencem ao passado. Não recolha o passado e não aspire a qualquer futuro. Então a imaginação se vai. Ela não permanece mais na mente. Tudo na mente vem do passado.

Jeff: Quando você diz para não pensar em nada, é como me pedir para não pensar em Hipopótamo. O primeiro pensamento que vem à mente, é claro, é hipopótamo.

Papaji: Eu não estou pedindo a você para não pensar em nada. O que eu estou dizendo é, “não imagine coisa alguma que pertença ao passado, ao presente e ao futuro. Se você está livre de todas as imaginações, você também está livre do tempo, porque qualquer imagem o lembrará do tempo e manterá você dentro dessa janela. No estado acordado você vê imagens: de pessoas, de coisas de idéias. Quando você vai dormir, tudo isso se desvanece. Agora, quando você está dormindo, onde estão todas essas imagens? Onde estão as pessoas? Onde estão as coisas?”.

Jeff: Em sonho essas coisas ainda estão lá. Elas não vão embora enquanto eu durmo.

Papaji: Você está descrevendo o estado de sonho. Eu estou falando sobre o estado de sono. Eu lhe mostrarei. A que hora você dorme?

Jeff: Por vota de 11:30 da noite.

Papaji: Pense sobre esse último segundo, aquele após 11:29 minutos e cinquenta e nove segundos. O que acontece naquele segundo final? O sexagésimo segundo pertence ao estado de sono ou ao estado de vigília?

Jeff: É uma zona intermediaria, nem aqui nem lá.

Papaji: Agora vamos falar sobre um segundo mais tarde. O sexagésimo segundo já se foi. Agora mesmo você falou de “aqui” e “lá”. Onde é aqui e lá no primeiro instante de sono? Naquele instante, você rejeita tudo: todas as imagens, todas as coisas, todas as pessoas, todos os relacionamentos. Todas as idéias se foram naquele instante quando você saltou para dentro do sono. Após aquele sexagésimo segundo não há nenhum tempo, nenhum espaço, nenhum país. Estamos falando agora sobre sono. Agora, após você acordar, descreva para mim o que aconteceu enquanto você estava dormindo.

Jeff: Havia sonho.

Papaji: Não sonho. Eu estou falando de sono. Sonhar é o mesmo estado que você vê aqui em frente de você. Em sonho, se você vê que um ladrão te roubou ou que um tigre saltou sobre você, você sente o mesmo medo que teria no estado desperto. O que você vê quando você dorme?

Jeff: Nada.

Papaji: Esta é a resposta certa. Agora, por que você rejeita todas as coisas do mundo, coisas que você gosta tanto, meramente para oferecer-se para o estado de “nada”?

Jeff: Eu faço porque estou cansado.

Papaji: Para recarregar energia você vai ao reservatório de energia, aquele estado de nada. Se você não tocar aquele reservatório, o que acontecerá a você, como você ficará?

Jeff: Louco!

Papaji: Sim. Louco. Agora eu lhe direi como permanecer continuamente naquele estado de nada, até mesmo estando estiver acordado. Eu também lhe direi como estar acordado enquanto seu corpo dorme. Isso seria bom, não é? Vamos falar sobre o fim daquele último segundo antes de você acordar do sono. O despertar ainda não aconteceu e o sono está para terminar. Agora, qual é sua experiência no primeiro momento do estado desperto?

Jeff: Meus sentidos me chamam de volta ao mundo.

Papaji: Ok. Agora me diga o que acontece com a experiência de felicidade que você teve enquanto dormia? O que você trouxe das horas de “nada”?

Jeff: Se foi. Eu estou relaxado, revigorado.

Papaji: Então, você prefere a tensão do estado desperto ao invés do relaxamento do sono?

Jeff: Eu tenho uma pergunta sobre isso mais tarde.

Papaji: Se você entender o que eu estou tentando lhe passar, você provavelmente não me fará esta próxima pergunta. Imagine que você acabou de sair do cinema após ver um show. Você vai para casa e seus amigos lhe perguntam: “como foi?” O que você responde?

Jeff: “Foi um belo show”.

Papaji: Você pode trazer a memória das imagens para eles, mas você não trouxe nada de seu sono. Quem acordou? Quem acordou daquele estado de felicidade? Você estava feliz enquanto dormia. Se não fosse um estado de felicidade, ninguém estaria desejando “boa noite” a seus bem amados antes deles irem dormir. Não importa quão perto você esteja deles você sempre diz, “boa noite, vou dormir”. Há algo superior, algo mais alto, algo mais belo sobre o estar só. Pergunte a si mesmo: quando eu acordo, quem acorda? Quando você acordou, você não trouxe a impressão de felicidade que você teve por seis ou sete horas de sono sem sonhos. Você só pode trazer impressões das danças que você viu em seus sonhos. Você tem que criar um novo hábito, um hábito que você só pode criar em Satsang. Você foi levado ao teatro por seus pais quando era um garoto. Através dessas viagens você aprendeu como descrever as impressões que seus sentidos receberam, e você também aprendeu a se deleitar com elas. Mas seus pais não puderam ensiná-lo sobre o que acontece quando você está livre dos sentidos. Isso só pode ser conhecido em Satsang, e esta é a razão de você estar aqui. Assim, eu lhe perguntarei de novo: Quando você acorda, quem acorda?

Jeff: É o “eu” que acordou.

Papaji: Ok. O “eu” acordou. Quando o eu acorda, o passado, o presente e o futuro também acordam. Isso significa que o tempo e o espaço também acordam. E com o tempo e espaço, acorda o sol, acorda a lua, acordam as estrelas, acordam as montanhas. Rios acordam, florestas acordam, homens pássaros e animais, todos acordam. Quando o “eu” acorda, tudo o mais acorda. Enquanto esse “eu” estava dormindo durante o estado de sono, tudo estava quieto. Se você não tocar o “eu” o qual acordou, você experienciará a felicidade do sono estando acordado. Faça isso por um único segundo, meio segundo, um quarto de um único segundo. Não toque o “eu”. O “eu” é algo que podemos viver sem. Não toque o “eu” e diga-me se você não está dormindo.

Jeff: Está certo. Naquele instante, tudo parece como um sonho.

Papaji: Isso é chamado acordar enquanto dorme e dormir enquanto acordado. Você está sempre em felicidade, sempre acordado. Esse acordar é chamado de Conhecimento, Liberdade, Verdade. Não toque os nomes. Livre-se de todas as palavras que você já ouviu até agora de onde quer que seja. E você verá quem você realmente é.

Jeff: (Silencio)

Papaji: Agora, não durma!

Jeff: Papaji, eu sou vizinho de uma oficina de reparo de automóveis, próximo de sua casa. Algumas vezes eu sinto que meu único impedimento ao progresso espiritual é o martelar dos mecânicos. Como podemos permanecer quietos quando os sentidos bebem continuamente do meio ambiente? Contudo, aquele é o trabalho deles.

Papaji: Quando uma criança está aprendendo a caminhar, seus pais lhe dão ferramentas auxiliares. Quando ela cresce e aprende a caminhar, ela joga as ferramentas fora. Portanto no início você sente que é perturbado por ruídos quando medita, mude-se de vizinhança. Eu te aconselho a investigar a vizinhança quando você busca uma casa ou um ambiente para viver. Ela está cheia de lixo, de pessoas barulhentas, tem um mercado de peixes, um supermercado? Você deve evitar essas coisas no início. Você pode ir à floresta para meditar.

Uma vez que você tenha aprendido a meditar você pode meditar no meio de um mercado de peixes, ou em Shalimar Crossing ou Hasrat Ganj. Uma vez que você tornou-se mestre na arte da meditação você não ouvirá ruídos. Você não ouvirá nada. Uma vez que você esteja verdadeiramente meditando, você estará no mesmo estado de quando está profundamente adormecido. Porem você estará ao mesmo tempo acordado. Isso é chamado de dormir acordado. Enquanto você não aprende isso é melhor evitar vizinhanças desarmônicas. Investigue a vizinhança. Ela é mais importante até do que o apartamento. Encontre pessoas para viver junto que compartilhem da mesma modo de vida. Professores gostam de estar com professores, filósofos com filósofos, trabalhadores com trabalhadores. Mas uma vez que você aprendeu a arte da meditação, você pode fazer o que quer que você goste, onde quer que você goste.

Jeff: O que é meditação para você? Muitos tipos de meditação são praticados. Muitos se baseiam na observação de fenômenos tais como a respiração, ou a entrada e saída dos pensamentos.

Papaji: Você não está falando de meditação, mas de concentração. Meditação só acontece quando você não está se concentrando em nenhum objeto. Se você é capaz de não trazer qualquer objeto do passado para dentro da mente, então isso é chamado de meditação. Não use sua mente - isso é chamado de meditação. Se você usa sua mente para meditar então isso não é meditação, mas concentração. A mente pode somente agarrar-se a objetos do passado. Foi-lhe dito para meditar sem a mente?

Jeff: Isso é difícil de responder. Muitas das meditações que eu fiz lidam com a observação dos pensamentos que surgem. Mas o objetivo parecia ser um estado sem pensamento, onde nenhum pensamento surge.

Papaji: Sim. Isso é meditação. Quando nenhum pensamento surge é chamado de meditação. Mas pensamentos surgem inevitavelmente.

Jeff: Como lidar com os pensamentos que surgem?

Papaji: Eu lhe direi como lidar com eles. Acho que você precisa dedicar um tempo a isso, menor que um estalar de dedos. Esse é todo o tempo de que preciso para parar seus pensamentos. O que é um pensamento? O que é a mente? Não há nenhuma diferença entre pensamento e mente. O pensamento surge da mente e a mente é um aglomerado de pensamentos. Sem pensamentos não há mente. O que é a mente? “eu” é mente. Mente é passado. É apegar-se ao passado, presente e futuro. É apegar-se ao tempo, aos objetos. Isso é chamado de mente. Agora, de onde a mente surge? Quando o “eu” surge, a mente surge, os sentidos surgem, o mundo surge. Agora, descubra de onde o “eu” surge e depois diga-me se você não está quieto. Vai, comente sobre o que está acontecendo a você agora enquanto faz isso.

Jeff: Eu estou escutando-o falar.

Papaji: Depois disso. Nós estávamos falando que a mente é “eu”, e que a mente surge do “eu”. Quando o eu surge a mente surge. Isso é o que acontece na transição entre o sono e o despertar. Agora, descubra aquele reservatório de onde o “eu” surge.

Jeff: De onde o “eu” surge? Ele é um substantivo.

Papaji: Espere, espere. Você não acompanha. Vou repetir de novo. Se há um canal que sai de um reservatório, você pode segui-lo até o ponto onde ele sai do reservatório. Eu estou dizendo: siga o pensamento “eu” da mesma forma que você seguiria um rio até sua nascente. De onde ele surge? Eu lhe direi como fazer isso. Como encontrar a resposta. Você não tem que boxear como Mohamed Ali para isso. É muito simples. Conhecer a si mesmo é tão simples como tocar uma pétala de rosa. Esse conhecimento, essa realização é tão simples como uma pétala de rosa em seus dedos. Não tem nada de difícil. A dificuldade começa quando você se esforça. Portanto você não precisa fazer qualquer esforço para ir a aquele reservatório o qual é a fonte do “eu”. Não faça esforço e também não pense. Rejeite o esforço e rejeite o pensamento. Quando digo rejeite o pensamento, estou dizendo para rejeitar o pensamento “eu” e qualquer tipo de esforço. Parece com um foguete que roça a atmosfera. Ele brilha rapidamente e depois volta a desaparecer no espaço.

Jeff: É como uma faísca repentina seguida de novo pela escuridão do “eu”.

Papaji: Não de novo. Por que com o ‘de novo’ você tem de voltar ao passado. “De novo” é passado. Estou lhe dizendo para se livrar desse “eu”. Não faça esforço e também não pense nem mesmo por um único segundo. Até mesmo por meio segundo ou um quarto de segundo é o bastante. Meu caro e jovem Jeff, você não gastou todo esse tempo em você mesmo nos últimos trinta e cinco milhões de anos! Aqui e agora é o momento de fazer isso.

Jeff: Acho impossível não fazer um esforço. Há sempre um tentar. Há uma expectativa, um senso de “tentar” sempre.

Papaji: Todo esse fazer lhe foi ensinado por seus pais, pelos padres e por seus professores, por seus pregadores. Agora, fique quieto por um quarto de segundo e veja o que acontece. O fazer foi herdado de seus pais. “Faça isso, faça aquilo”. Você foi aos padres e eles lhe disseram “Faça isso! Não faça aquilo”. Depois você ouviu isso da sociedade e de todo o mundo. Estou lhe dizendo para se livrar do fazer e do não fazer. Quando você indulge em fazer, você está de volta ao mundo de seus pais. Você aprendeu o fazer primeiramente de sua mãe. Se você não pegasse direito sua colher ou garfo, ela lhe batia dizendo: “não faça isso”. Fazeres e não fazeres vieram primeiro de sua mãe. Depois do padre: “você tem de ir a uma igreja em particular”. Não vá à igreja de outra pessoa. Se você fizer assim, você irá para o paraíso. Se não fizer irá para o inferno. Você será um pecador.

Eu lhe digo, livre-se de ambos, fazeres e não fazeres. Pelo menos prove disso. Você já provou do fazer. Há seis bilhões de pessoas no mundo e todas estão provando do fazer. Diga-me, qual é o resultado de todo esse fazer? Recentemente vimos o resultado desse ‘fazer’ no Golfo. Também vimos três guerras. O resultado é o ódio entre os homens e um monte de morte. Ao invés disso, vamos ver o que pode advir do não-fazer. Não fazendo haverá amor, não ódio. Deixe esse amor florescer de novo como no tempo de Buda e Ashoka.

Jeff: Papaji, agora que eu o estou de chamando de Papaji, estou colocando-o em um papel de pai. Isso soa um pouco estranho.

Papaji: Esse pai está lhe dizendo: Não faça qualquer esforço. Ouça esse Papaji, pelo menos uma de suas palavras. Se você não escutar a esse Papaji, você terá muitos outros Papaji’s nos próximos 35 milhões de anos!

Jeff: Eu sou um escritor e acho muito natural escrever. Pessoas vêm a mim e pedem conselhos sobre escrever e eu lhes respondo: faça isso de forma natural. Simplesmente escreva do jeito que você fala. Não há nada mais fácil. Mas eles não conseguem. Eles precisam fazer algum esforço. Papaji, você despertou de forma espontânea e de uma forma completamente natural com a idade de oito anos. Porque você está tão confiante de que será tão fácil e tão natural para os outros? Passamos 35 milhões de anos tentando com muito pouco sucesso.

Papaji: Eu também devo ter gastado o mesmo tempo. Eu sei disso porque me lembro de muitas das minhas vidas passadas. Buda também disse que ele passou muitas, muitas encarnações tentando acordar. Ele também as conhecia muito bem. Ele se lembrava claramente de um erro cometido a 253 encarnações atrás. Ele também tinha estado fazendo e fazendo.

Você me fez uma pergunta direta. Eu não sei o que causou meu despertar. Tudo foi muito espontâneo, e eu não tinha nenhum embasamento. Eu não fazia nenhuma meditação. Eu não tinha lido um único livro sobre iluminação. Eu estava no Paquistão. Então esses livros não estavam disponíveis. Na maioria das vezes eles são escritos em Sânscrito e eu não tinha estudado Sânscrito. Eu tinha estudado apenas o Persa. Isso veio para mim, mas como, eu não sei. Talvez ele tenha me escolhido. A Verdade revela-se para uma pessoa sagrada. Eu não tinha qualquer qualificação. Eu não ainda não era educado. Eu tinha apenas oito anos de idade, estudando no segundo ano. O que eu vi então, eu continuo vendo. O que é isso? O que é isso? O que é isso? Eu estou mais e mais apaixonado por isso a cada momento que passa.

Jeff: Toda a minha vida eu me perguntei como teria sido viver no tempo de Buda e ter se sentado a seus pés. Aqui, sentado com você, eu sinto que sei a resposta para aquela pergunta.

Papaji: Você esteve com ele. Você dever ter estado com ele. De outro modo você não teria feito essas perguntas, você nunca teria vindo aqui. Que tal as outras pessoas, os outros seis bilhões de pessoas? Por que eles não vêm ao Satsang? Que tal seus vizinhos, que tal seus pais, que tal sua sociedade? Por que só você? Você foi escolhido, você foi escolhido para esse propósito. Quando você sabe, você saberá em um instante. Você saberá que nada nunca aconteceu antes e que nada acontecerá no futuro. Em um momento você pensava que estivesse aprisionado. Naquele mesmo momento você descobrirá que está livre. Naquele instante de despertar você saberá que não existe nenhuma prisão e nenhuma liberdade. Você saberá: “eu sou o que sou”.

Jeff: Papa, a mente pode auxiliar no processo de realizar a liberdade?

Papaji: Sim. Ela pode. A mente é sua inimiga e sua amiga. Quando fixada em sentir os objetos ela é sua inimiga. Mas quando ela aspira a vir a Satsang a mesma mente é sua amiga. Ela lhe dará liberdade. Isso é um grande alívio por alguma razão. Quando falamos em realizar a liberdade, quem está realizando a liberdade? Esse “quem” ele mesmo está realizando a liberdade. O quem que está fazendo a pergunta é o mesmo quem que sente que este quem está aprisionado. Após ter conhecido isso, “quem” mostrará sua unicidade: “Olhe aqui, Jeff, ele dirá, eu sou o mesmo “quem”que te trouxe aqui!

Jeff: Foi São Francisco que disse: “o que você está buscando é quem está buscando”.

Papaji: Sim. Sim. Quando você diz simplesmente "Quem? Quem?" - onde você o encontra? Diga-me. Onde? Você terá de somar algo. Somente então a resposta virá. Quem é você? Se você diz apenas “quem”, quem, então aparecerá para você? Simplesmente diga: “Quem? Quem? Quem?”.

Jeff: Eu vou começar a soar como uma coruja em um instante. Você diz que a mesma força que nos trouxe aqui cuidará de nós. Que força é essa?

Papaji: A força que trouxe você aqui, a força que está falando suas palavras, a força que está fazendo as perguntas, são todas a mesma força. A força agora tornou-se o questionador. A mesma força está perguntando agora. E essa mesma força está lhe respondendo: “Fique quieto!”.

Jeff: (balançando a cabeça) Depois de você, Papaji, eu não poderia entrevistar mais ninguém.

Jeff: Do ponto de vista científico, tudo que percebemos, de uma maçã à graça pura, é o resultado de sinais neurais e processos químicos. De uma perspectiva biológica, a consciência tem uma causa física direta. Como podemos estar certos de que a consciência, a atenção, o estado de acordar não é simplesmente uma reação química e de que a realização do vazio não é mais do que o aquietar das células do cérebro?

Papaji: A ciência fez muito bem em suas pesquisas. Eu não tenho nenhuma disputa com a ciência. Estamos vivendo no século vinte e temos muita sorte em poder gozar dos benefícios da pesquisa cientifica. Não posso rejeitar as descobertas cientificas. Sem elas você não poderia vir da Califórnia até aqui em apenas 20 horas. Assim temos que aceitá-la. Mas, de onde vem o intelecto que faz as descobertas? Foram feitas descobertas a respeito da natureza das células do cérebro. Mas de onde essas células obtêm sua energia ainda não foi descoberto. Eu espero que isso seja descoberto um dia. É o próprio vazio que anima essas células. Elas então enviam sinais através do corpo para os bilhões e trilhões de células no corpo as quais ativam pensamentos, o movimento límbico, os sentidos, a mente, etc. Isso é criação.

No início havia o vazio. O vazio anima as células e as células então fazem o intelecto e a mente funcionar. Então uma vez que a mente age, o corpo, os sentidos e os objetos que eles vêem, surgem. Todas essas percepções são realizadas via células. Cada célula está dando a você uma nova encarnação. Cada célula. Por que o que você deseja, entrará diretamente dentro da célula e ficará hibernando lá. Esses desejos emergirão da célula no momento apropriado e reencarnarão em outras células. É a célula que reencarnou e tornou-se mente.

Sua pergunta foi que talvez o vazio seja apenas algo químico acontecendo no cérebro. Mas quem está consciente desse acontecimento químico? Alguma força mais elevada, uma força mais sutil do que a célula está consciente do que está acontecendo com a célula. Ela está alerta. Que força é esta? Graça. A alma. O contexto maior no qual todos estamos existindo em todas as formas.

Jeff: Ao fazer essas perguntas queria que você e todos nessa sala compreendessem que eu sinto a Graça em sua presença, Papaji. Eu não estou negando isso, eu estou simplesmente  tentando compreender e remover a dúvida. Assim minha resposta seria “Graça”. Ela soa para mim como uma força que abarca tudo, ou até mais que tudo. Algo maior que tudo. Mas isso também soa para mim como algo em que devo acreditar, algo em que devo ter fé. A fé é um pré-requisito para a liberdade? Devemos ter fé nessa força a fim de acordar para a liberdade? O que você está nos dando exige fé?

Papaji: A palavra fé é usada pelos fundadores de religiões. Quando você diz fé, você tem que voltar a um fundador de um conjunto de crenças particular. Fé significa seguir alguém do passado. Quando você diz fé, você dever observar sua mente indo ao passado. Diga-me qualquer instância onde haja uma questão de fé que não pertença ao passado.

Para mim a palavra fé está associada a religiões. Religiões mortas. A palavra o leva ao passado. Tenha fé nesse ou naquele Deus, nessa estátua ou naquela estátua. Eu não digo às crianças que estão aqui para terem fé em qualquer coisa do passado. Eu não ensino fé de modo algum. Eu ensino conhecimento e conhecimento não tem nada a ver com fé. A fé o leva para o passado e conhecimento o trás para o momento presente. Entre Atman e Graça não existe qualquer diferença. Quando você fala a palavra Atman ela não remete a nenhuma pessoa, a qualquer coisa ou a qualquer conceito. Quando você pronuncia a palavra Graça, você não deveria pensar que ela está vindo de tal ou tal pessoa, ou uma imagem ou uma coisa. Graça é maior do que qualquer outra coisa, mais alta, mais sutil até do que o próprio espaço. De onde surge o espaço? É isso. Através da graça de quem o sol brilha? O brilho do sol é uma manifestação daquela graça. A lua na noite, a dureza da pedra, a suavidade da flor, o fluxo do rio, o movimento do ar e as ondas do oceano. O que é que move o ar? Não o movimento em si mesmo, não o movimento das ondas na superfície do oceano, eu estou falando do movimento último o qual é a fonte do movimento: Isto. Esse é o mistério ultimo. Chame-o de mistério se você quiser. Esse mistério é chamado de Graça. Não faz diferença. É um mistério e sempre permanecerá um mistério. Esse mistério, esse segredo é tão sagrado, que você não será capaz de falar sobre ele.

Quando eu o levei aquele lugar você não foi capaz de falar sobre ele. Se ele não fosse um mistério certamente você seria capaz de me falar sobre ele porque você me conhece. Eu não o enganaria. Você não pode me falar sobre o que estava acontecendo naquele instante porque você não podia. Ele é tão secreto que dois não podem caminhar lá, nem mesmo um. Nem o corpo, nem a mente, nem mesmo o intelecto discriminativo. Isto é isto. Eu tenho tentado nos últimos sessenta anos, mas não consigo decifrar esse mistério. Eu sou um velho. Você ainda é jovem, então, por favor, fale comigo. Eu quero ver o segredo, esse mistério face a face. Eu quero beijá-lo ou beijá-la por que eu nunca vi tamanha beleza em qualquer outro lugar na face da terra. Eu estou apaixonado por alguém, mas não vejo o bem amado.

Jeff: Como foi que eu fui acabar me sentando assim aos seus pés? Que tipo de milagre é esse que me trouxe aqui?

Papaji: Você chamou. É seu convite.

Jeff: Papaji, você disse para não lermos livros sobre iluminação, pois eles criam uma pré-conceituação, uma expectativa sobre o que seja, como se sinta, o gosto do acordar ou de como ele será. O que então você espera ofertar a respeito dele nessa entrevista?

Papaji: Eu não recomendo que você leia qualquer livro sagrado ou livros sobre santos. Quando você lê um livro espiritual, você provavelmente gostará de alguma parte dele. E se isso acontecer você guardará isso em sua memória. Mais tarde você se sentará em meditação, buscando liberdade. Você quer ser livre e tem um conceito sobre liberdade, o qual foi adquirido dos livros que leu. Quando você meditar essa idéia pré-concebida se manifestará e você a experienciará. Você se esquece que o que você está experienciando é algo previamente estocado em sua memória. O que você obtém é uma experiência passada, não iluminação.

A verdadeira experiência não é uma experiência de uma memória passada. A mente o engana quando você medita. A mente sempre o decepcionará e o enganará, portanto nunca dependa da mente. Se a mente quer e gosta de algo não a escute. O que quer que a mente goste ou desgoste, não escute.

Memória significa passado. Quando você medita você está tentando executar um plano que está em sua mente: “Eu tenho que chegar ao lugar do qual li a respeito”. Sua experiência então será pré-planejada, e aquilo é o que você obtém, pois o que quer que a mente pense ela manifesta. Quando você pensa sobre Sansara, uma manifestação surge. Esse é seu pensamento, seu desejo. É por isso que o mundo se manifesta. Ele parece tão real por que você tem fé em sua realidade.

Uma vez que você experiencíe que a realidade está em outro lugar, você rejeitará Sansara imediatamente. Você terá uma experiência muita nova, muito fresca. Cada momento será novo. Você não o experienciará com a mente. Então não haverá nenhuma mente, você estará sozinho. Isto e esse sozinho é chamado de “experiência”. Eu não usarei a palavra experiência novamente, pois todas as experiências são planejadas a partir do passado. Isso não será realmente uma experiência, isso será uma verdadeira reunião direta. Pela primeira vez você encontrara aquilo. Você a encontrará após desnudar sua mente. Após desnudar-se de todos os conceitos da mente. Você terá que ir até lá despido. Desnude-se de tudo. Seja nu. Desnude-se até mesmo de sua nudez. Você compreende? O quarto dessa Bem Amada é tão sagrado que esse é o único modo que você pode entrar. Se você quer encontrar sua Bem Amada, vá lá. Quem o impede? Faça isso agora mesmo. É tão simples. Vestir-se toma tempo. Despir-se é muito mais fácil.

Jeff: Ontem você contou uma estória sobre um Mestre que estava tão absorto em meditação que não cuidava de seu filho doente. Alguém o questionou sobre responsabilidade. Eu quero lhe fazer a mesma pergunta: Liberdade significa até mesmo liberdade da responsabilidade?

Papaji: O homem que fez a pergunta voltou a mim novamente. Eu lhe disse que esta era a estória de um santo, sua esposa e seu filho. Eu lhe disse: você não tem qualquer relação com nenhum desses três, nem com o filho, nem com a esposa, nem com o marido. Essa é a estória de um santo e sua esposa. Você teria que se tornar o santo ou sua esposa para saber. Ou pelo menos seu filho. Então ele se calou e disse que estava satisfeito.

A responsabilidade tem estado aí por longo tempo. Você tem uma mente e um ego que dizem: “Isso pertence a mim e aquilo pertence a ele”. É daí que a responsabilidade surge. Quem é o pai de toda a criação? Antes de você nascer, esse Sansara, essa criação já estava aqui. Ela tem estado aqui já há milhões de anos. Quem tomou conta disso durante todo esse tempo? Você tem tomado conta de suas próprias responsabilidades de suas obrigações por cerca de trinta anos. Após cerca de setenta anos você não mais estará encarregado disso. Suas responsabilidades e obrigações, o range de sua tarefa não pode ser mais que cem anos. Que tal os bilhões de anos antes de você? Quem seria responsável pelos bilhões de atividades antes de você nascer? Se você aceita a responsabilidade por sua família, seu filho, sua esposa, sua sociedade, seu país, e todos os outros no mundo, você tem que mudar sua mente, seu corpo, seu intelecto. Não é? Para assumir toda essa responsabilidade você necessita de três coisas: boa saúde, que significa, um bom corpo, uma boa mente, a qual significa boas intenções e compaixão. De onde você obtém essas coisas? De onde você obtém a energia para mover o corpo de forma a ajudar os outros fisicamente? De onde você obtém a energia para mover a mente para enviar compaixão aos outros? De onde você obtém a energia para agir? Ela é obtida da Graça.

Se você sabe que está obtendo a energia da Graça, como e porque as coisas se tornam de sua própria responsabilidade? Esta lâmpada está brilhando, há luz nela. Pode a lâmpada dizer: "Essa é minha luz. Se eu quiser brilhar eu brilharei e se eu não quiser haverá escuridão"? A luz não vem daqui. O reservatório, a fonte dela, está em algum outro lugar. Se a lâmpada diz: “Eu sou brilhante e por minha causa você enxerga”, isso será um engano, não é? Ela está enganada. Ela não sabe. De onde vem a corrente elétrica? De onde vem a eletricidade? Havia um engenheiro chefe que trabalhava nesse local e eu o questionei: O que é a eletricidade? Se você quebra o cabo através do qual a corrente passa para nos dar a luz, você não vê nada. Ele me respondeu: “Nós ainda não sabemos. De alguma forma ela funciona. A eletricidade é gerada, mas em última análise de onde ela vem nós ainda não sabemos”. Nós não sabemos qual é a fonte original dessa força que flui através dos cabos.

Quando você tem 5 anos de idade, seus pais tomam conta de você. Quando você cresce e sente que pode tomar conta de si mesmo, você deixa seus pais e trabalha por si mesmo. Seus pais ficam felizes quando você se torna independente. Se você tem problemas, você sempre pode voltar a eles, para ajuda e conselhos e você será sempre bem-vindo. Por que eu estou lhe dizendo isso? Há uma energia, uma graça, a qual alimenta e cuida de você. Você pode voltar a ela para sustento. Esse reservatório é a fonte de toda energia. Ele é a fonte da eletricidade e também de sua própria energia. Não se esqueça que toda sua energia vem de Atman, da Graça. Quando você se conecta com esse reservatório você tem duzentos por cento mais energia do tem agora. Volte ao seu país e veja por si mesmo. Quando você deixar essa Graça gerir sua vida você saberá: "isso está vindo da Graça. É sorte minha que eu tenha visto esta graça funcionando". Através dela me foi dada a oportunidade de olhar por minhas crianças, minha esposa, meus parentes, meu país. Quando você funciona a partir deste lugar você tem uma nova vida. Muitas pessoas que partem daqui me dizem: "De onde vem toda essa energia? Estávamos sempre ocupados antes, pois trabalhamos ainda mais e nunca estamos fatigados. Agora nos sentimos mais jovens. É como se fossemos trinta anos mais jovens do que quando chegamos a Lucknow!"

Jeff: Então eu teria oitenta anos de idade! Uma boa idade para um despertar!

Papaji: Sim, sim. De outro modo você seria velho demais. É melhor que seja na infância ou na juventude. Na idade madura você terá responsabilidades. As crianças o atrapalharão, a sociedade o atrapalhará, as doenças o atrapalharão. O corpo, ele próprio, é uma doença. É cheio de complicações. Quando você é velho, sua mente lutará com as doenças. Não será capaz de se concentrar. Haverá dificuldades mentais, problemas físicos, relacionamentos, tantas coisas! Portanto é melhor que faça isso na infância ou na juventude. Na infância é melhor, mas na juventude também está bom. Velhos também vêm aqui. Eles estarão melhores da próxima vez.

Jeff: Ontem uma mulher veio ver você. Ela era um pouco mais velha que eu e parece ter tido uma esplêndida visita. Quando eu a vi fiquei muito confiante, pois pensei: ‘ainda tenho tempo’.

Papaji: Tempo? Para quê tempo? Aqui você se livra do tempo. Por que depender do tempo? Tempo é o passado. Quando você se for daqui você jogará fora o tempo. Você não precisa do tempo. Isso aconteceu de fato aqui.

Um homem de cerca de 55 anos veio de Los Angeles, pois não estava satisfeito com seu filho que estava sempre aqui. Ele era um homem rico e queria levar seu filho de volta para trabalhar em um negócio. Ele trouxe centenas de perguntas e queria brigar comigo. Ele queria saber por que eu havia tirado seu filho. Eles alugaram quartos no Hotel Clarks e passaram a noite lá ante de vir me ver. Na manhã seguinte seu filho o apresentou a mim. Ele se sentou à minha frente em minha casa.

O pai disse: “Você veio a mim na noite passada. Você sentou-se na minha cama no Hotel Clarks e respondeu todas as minhas perguntas, agora eu não tenha mais nada a perguntar”. Ele tinha um relógio no pulso e o colocou junto a mim dizendo: "Eu não preciso de tempo agora". Ele ficou aqui por 20 dias. Você já viu um americano sem relógio? Até mesmo quando vão para a cama eles põem um relógio sob o travesseiro. Até quando vão ao banheiro o relógio está lá. Eles são tão cuidadosos, tão pontuais, até mesmo no banheiro. Quando ele estava partindo eu lhe disse: "E a hora? Se você não tiver um relógio você terá que perguntar a outra pessoa."

Ele respondeu: "Não, dá na mesma. Acordar ou ir para a cama – é tudo a mesma coisa. Eu esqueci do tempo. Eu não preciso mais dele." Eu lhe disse: "Não, leve a minha hora", e coloquei o relógio em seu pulso. Quando você tem tempo, a mente e todas as outras coisas, você tem que se responsabilizar por elas. Mas quando você conhece a beleza da não-mente, e do não-tempo, quem olhará por você? Se você confiar no poder supremo, ele tomará conta de você muito bem.

Jeff: Papaji, quase todos nós somos pessoas de boas posses e de países livres. Visitar você em Lucknow é um privilégio que podemos nos permitir. Para muitas pessoas, liberdade ainda significa liberação de opressão política, de prisão, de tortura. Empecilhos externos são um impedimento à liberdade interna, e se é, você vê lugar para ativismo político no mundo?

Papaji: Circunstâncias externas não são impedimento. O impedimento é o ego. Impedimentos são criados pelo ego. "Eu devo fazer isso", "Eu não devo fazer aquilo". Essa idéia de que você está fazendo algo é o empecilho. Se você age sem sentir que é o ator, não haverá qualquer empecilho. O poder Supremo está trabalhando através de você. Ele o guiará à medida que as circunstancias surjam.

Jeff: Eu passei um bom tempo trabalhando pelos direitos humanos. Pessoas em países como Burma, Tibet estão sendo terrivelmente oprimidas. Pessoas são assassinadas ou feridas por outras que as controlam. Você diz que o próprio corpo é uma doença e que algumas vezes, na idade avançada o corpo exerce tal tirania que torna-se muito difícil o despertar. Há lugares onde as pessoas seriam mortas apenas por ir a Satsangs. Estas circunstâncias externas devem ser um impedimento. E uma vez que eles sejam, deve haver uma necessidade de que outras pessoas ajam contra os opressores delas. Você mesmo fez isso nos seus vinte e tantos, se sua biografia for acurada. Como você lida com esse tipo de ação?

Papaji: O mundo está se movendo na direção do desastre. Estamos nos movendo na direção da destruição da própria raça humana. As bombas atômicas e as armas químicas estão nos levando lá. Esse não é o modo de ir. Ao invés disso vamos tentar transmitir compaixão e amor para os seres humanos e todos os outros seres. Vamos tentar isso. Aqui, em Satsang estamos fazendo uma tentativa. Estamos espalhando a mensagem de paz e de amor. Espero que a mensagem se espalhe. Todos os que estão aqui são embaixadores de seus respectivos países. Eles elevarão essa mensagem para seus pais e para as outras pessoas em seus países. O fogo se espalhará e um dia você verá o resultado. Você mesmo está indo para casa. Você falará para seu pessoal, para seus amigos e eles descobrirão o que está acontecendo. Você verá uma tremenda mudança. Estou totalmente seguro quanto a isso. Esses tempos agora estão chegando. Temos que aprender a lição ensinada pelas destruições anteriores. Ainda não nos esquecemos de Hiroshima no Japão. Ainda há pessoas sofrendo lá, não podemos esquecer. Devemos aprender a lição e espalhar a mensagem de amor como era feito nos tempos de Ashoka quando havia paz em todos os lugares. Não havia guerras. Ele enviou seu próprio filho e sua própria filha para o Sri Lanka, para a China e para países do leste. Foi assim que a mensagem se espalhou. A mensagem de paz foi iniciada por um homem sentado sob a arvore bodhi. A chama do amor é muito poderosa. Uma vez acendida ela dará inicio a uma conflagração que não poderá mais ser parada. Nem mesmo por armas químicas. Simplesmente medite sozinho. Você pode fazer isso em qualquer lugar, até em seu apartamento. Você verá o resultado. Fique em silêncio, envie a mensagem de paz: "Que haja paz em todo o mundo, que todos os seres vivam em paz e felizes". Esta onda deve funcionar.

Jeff: Vamos esperar que funcione.

Papaji: Nada de esperar. Eu não acredito em esperança. Esperança tem a ver com o futuro. Vamos crer no Poder Supremo. Ele olhará pelo mundo muito bem. Ele pode trazer mudanças instantâneas. Ore para o poder Supremo: "Por favor, ajude-nos a estar em paz com todos os seres vivos. Por favor, nos ensine". É muito fácil ensinar aos outros, dar conselhos aos outros. Ajude a si mesmo em primeiro lugar. Descubra você mesmo o que é a paz. Não se importe em ensinar aos outros até que você mesmo tenha aprendido o que ela é.

Jeff: O que você aprendeu de todos os seus anos como professor?

Papaji: Eu não sou um professor. Quem lhe disse que eu sou um professor? O ensinamento de um professor é sempre do passado. Um professor é aquele que lhe diz para fazer isso e aquilo; e que se você não fizer irá para o inferno. Isso é um professor. Eu não sou nem professor nem pregador.

Jeff: Vou refazer a pergunta: O que você aprendeu estando sentado nesse lugar em Satsang ao longo dos anos?

Papaji: Amor, amor, somente amor. Eu os amo (gesticula em direção ao publico).

Jeff: Então porque Papa, você não me ama também? Eu não o incluo nisso porque você é o amado. Eu os amo, e você é o amado. O que isso significa? Porque você é o Amado você está sentado perto de mim.

(Em uma entrevista mais tarde Papaji explicou o que acontece quando a pessoa senta-se perto dele em Satsang: ‘Eu as absorvo totalmente e lhes dou um assento em meu coração. Assim como o Amante dá assento em seu coração ao Amado, vocês estão sempre sentados em meu coração).

Jeff: Obrigado Papa.

Papaji: Obrigado por vir aqui. Em meu próprio nome eu o agradeço, e em nome de minhas crianças eu o agradeço de novo e de novo. Estou muito feliz com suas perguntas. Todos nós nos beneficiamos com essas perguntas. As vibrações desse Satsang não estão confinadas a esse prédio. Elas já foram transmitidas ao mundo inteiro. Você verá.

Jeff: Papa, você tem uma enorme emanação. Todo tipo de receptor pode receber esse sinal.

Papaji: Nenhum receptor, nenhum sinal. Vocês não precisam de nenhum sinal. Para sinalizar você precisa de dois: um para enviar e outro para receber.

Jeff: É claro. Quando vou aprender? (silêncio)

Papaji: (rindo) Você está respondendo minhas perguntas agora. Você me fez tantas perguntas. Eu lhe fiz apenas uma e esta é a resposta a ela. Esse é o sinal sem sinalização. Que bonito. O que é isso? Pelo menos agora você pode me dizer. A entrevista acabou. O que é isso?

Jeff: (silêncio)

Papaji: O que é isso? O que está acontecendo dentro? O que é esse contentamento? Você pode senti-lo. Todas as células o estão curtindo. Agora você vê? Elas estão curtindo o néctar (pegando a folha de perguntas). Eu levarei essas perguntas comigo.

Jeff: Para meu espanto, Papaji, você respondeu a todas elas. Eu pensei que houvesse algumas muito ardilosas, mas todas elas tiveram a mesma resposta.