"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quarta-feira, março 27, 2013

A Sagrada Upadesa

Gugu
 
 
"O silêncio é a mais poderosa forma de ensinamento transmitida de Mestre a discípulo. A voz sem som é a intuição pura, é a voz do coração espiritual que fala no mais íntimo de nosso Ser e nos revela a natureza original do Criador do Cosmo." (Ramana Maharshi)
 
 
Este texto é para falar sobre a Sagrada Upadesa. Dentre muitos significados, Upadesa significa "instrução silenciosa". As pessoas que estão na busca sagrada por transcendência e iluminação procuram obter toda espécie de instruções e esclarecimentos de diversos modos: em livros, em palestras, em professores iluminados. Livros, palestras e discursos ensinam muito, e proporcionam ao indivíduo o estado de prontidão para fazer por si mesmo aquilo que somente ele pode fazer. Trata-se de coisas que dependem exclusivamente da própria pessoa fazer, sendo que nenhuma forma de instrução, livro, ensinamento ou mestre detém o poder de realizar pelo buscador. Todos eles atuam apenas como setas, indicando o caminho, mas nenhum deles têm o poder de fazer o indivíduo caminhar, ou de caminhar por ele. Isso porque todas as formas de instruções que podem ser encontradas do lado "de fora" servem somente ao nível intelectual, da mente.
 
A Upadesa é uma forma de instrução, porém uma instrução diferenciada. Diferentemente das outras formas de ensino, a Upadesa é uma instrução que ocorre além do nível da mente. Todas as outras formas de instruções utilizam a mente para tentar perceber o que está fora dos limites da mente, então para a mente perceber é impossível. Como a mente pode perceber o que está fora dos seus limites, a Consciência? Por isso, a mente é um instrumento inadequado para perceber a Consciência. A Consciência, porém, está dentro dos limites da Consciência, e por isso ela é o instrumento perfeito para o trabalho. Essa é uma lógica/verdade bem simples, mas muito importante de saber e lembrar.
 
A Realidade é ilimitada e infinita, ao passo que a mente é limitada e finita. Os ensinamentos espirituais e iluminados relacionam a Realidade (Consciência) com o silêncio, um silêncio absoluto; e relacionam a mente pensante ao barulho ou ruído. A mente representa o barulho, por isso se o indivíduo deseja perceber o que está na Consciência deverá silenciar a mente de todos os seus ruídos. É importante saber que a Realidade está aqui; está sempre aqui, nós não a vemos, mas está. Temos que aprender a vê-la e para isso o barulho da mente atrapalha.

A Realidade é semelhante a um bloco bruto de pedra ainda não esculpido pelo escultor. No bloco bruto de pedra, não mexido, intocado, todas as formas e aspectos existem. A partir desse estado puro, o escultor consegue extrair qualquer aparência do bloco, simplesmente retirando os excessos que impedem o surgimento da figura desejada. Esse era o sentido da escultura de Michelangelo: a obra já estava na pedra, ele apenas retirava o excedente e deixava a forma se manifestar. Do mesmo modo, sempre que a mente fala ou diz algo, ela está na verdade restringindo/moldando/definindo o estado "puro" e "bruto" da Realidade e convertendo-o para um aspecto muito limitado. AQUILO (estado "puro" e "bruto") que a mente molda só pode ser percebido com percepção ilimitada, e não está de forma alguma ao alcance da mente, que somente atua com percepção limitada. Há ALGO aqui presente que ninguém pode dizer, teorizar, dominar, definir. O barulho da mente é a "mania" que temos de definir tudo (definir = restringir, limitar ao finito Aquilo que é infinito). Por isso, se ficarmos apegados aos significados criados pelos pensamentos, ficamos presos a eles, e isso nos impede de ir além. Então, a fim de poder perceber a Realidade, necessitamos evitar definir coisas, e vê-las como elas são.  Por mais que o infinito esteja 100% aqui presente, em total atividade e expressão, ele se mostra invisível/oculto para os olhos que olham somente na direção do finito.
 
A instrução silenciosa da Sagrada Upadesa realmente existe, e é fornecida pelo Mestre. Através dela, todo o ensinamento para a conscientização espiritual é assimilado em decorrência da  sagrada presença do Mestre. Estudando sobre os seres iluminados (Mestres e Avatares), verificamos que as pessoas mais íntimas ou próximas, como os discípulos, beneficiavam-se espiritualmente mais do que aqueles que de vez em quando apareciam para ouvir os ensinamentos. A mera presença silenciosa do Mestre era capaz de propiciar aos discípulos uma profunda experiência de meditação, favorecendo  insights/vislumbres da Verdade que dificilmente conseguiriam obter por esforço próprio. Tal facilitação ou benefício é também chamado de "a Graça do Guru" (Mestre).
 
Essa verdade pode ajudar a todos se tornarem conscientes de sua unidade com o Divino Ser Universal. Todavia, para fazer isso a pessoa deve colocar-se em condição adequada, diminuindo o ruído da percepção limitada e aumentando a presença da percepção ilimitada, caso queira estar receptivo às sutis vibrações ininterruptamente irradiadas pelo Mestre. Na maioria dos casos, o Mestre é associado a um ser realizado que, iluminando-se, descobriu sua identidade não como o corpo-mente nascidos no mundo denso, mas como o Ser Absoluto que existe por trás de todas as formas. Tal visão acerca do Mestre comporta uma concepção limitada, pois o Mestre não se manifesta somente como pessoa. O divino não pode ser restrito a um simples corpo físico. Por compaixão, Ele se manifesta para o mundo também numa forma mais tangível, ou seja, a de um mestre iluminado. Mas quem associar o Mestre somente a um corpo físico, terá sua instrução silenciosa condicionada/dependente da presença da pessoa iluminada. Bem aventurado é aquele que reconhece o Mestre em todas as Suas formas e se abre para receber a Sagrada Upadesa.
 
Se Deus, o Ser Real, não for limitado, Ele pode se manifestar e interagir com o devoto através das coisas mais singelas e pequeninas e até as mais grandiosas. A comunhão com Deus pode ocorrer em todos os instantes, em todos os níveis e por todos os meios. Não comungue com formas manifestadas, comungue diretamente com o Ser Divino Univesal e Onipresente que está por detrás de todas elas, reconhecendo-O em todos os instantes e em todos os lugares. Assim Ele poderá manifestar-Se e instruí-lo direta e silenciosamente até o ponto em que você perceba a sua identidade sendo, na realidade, a d'Ele.
 
 

segunda-feira, março 25, 2013

O Amante e o Amado

 
 Meher Baba


O amante e o Amado
 
Deus é amor. E o amor deve amar. E para se amar deve haver um amado. Mas como Deus é Existência infinita e eterna, não há ninguém para Ele amar além Dele mesmo. E para poder amar a Si mesmo ele deve imaginar-se como o amado a quem Ele como o amante imagina amar. A relação amado e amante implica separação. E a separação cria anseio e o anseio resulta em procura. E quanto mais ampla e intensa é a procura maior será a separação e mais terrível será o anseio. Quando o anseio é o mais intenso a separação está completa e a finalidade da separação, que tinha a finalidade de permitir que o amor pudesse experimentar a si mesmo como o amante e o amado, é cumprida; e a União é o que resulta. E quando a União é atingida, o Amante vem a saber que o tempo todo ele próprio era o Amado a quem ele amou e com quem desejou a União e que todas as situações impossíveis que Ele superou eram obstáculos que Ele mesmo colocou no caminho para Si mesmo.  Atingir a União é tão incrivelmente difícil porque é impossível tornar-se o que você já é! A união não é nada além do conhecimento de si mesmo como o Sujeito Único.
 

O vinho e o Amor
 
Os poetas-mestres Sufi frequentemente comparam o amor com o vinho. O vinho é a figura mais apropriada para o amor porque ambos intoxicam. Mas enquanto o vinho causa o auto-esquecimento, o amor leva à auto-realização (A realização do Ser).  O comportamento do bêbado e do amante são semelhantes; ambos ignoram os padrões de conduta do mundo e são indiferentes à opinião do mundo. Mas há mundos de diferença entre o curso e o objetivo dos dois: um leva à escuridão subterrânea e à negação; o outro dá asas à alma para seu vôo para a liberdade. A embriaguez do bêbado começa com um copo de vinho que exalta seu espírito e afrouxa suas afeições e dá-lhe uma nova visão da vida que promete um esquecimento de suas preocupações diárias. Ele passa de um copo para dois copos, para uma garrafa; do companheirismo para o isolamento, do esquecimento ao oblívio — esquecimento, que, na realidade, é o estado Original de Deus, mas que, com o bêbado, é um estupor vazio — e ele dorme em uma cama ou uma sarjeta. E ele desperta em um amanhecer de futilidade, um objeto de repulsa e ridículo para o mundo.

A embriaguez do amante começa com uma gota do amor de Deus que lhe faz esquecer o mundo. Quanto mais bebe mais perto ele se aproxima de seu Amado e mais indigno do amor do Amado ele se sente. E ele anseia sacrificar sua própria vida aos pés de seu Amado. Ele também não se importa se dorme em uma cama ou em uma sarjeta e torna-se um objeto de ridículo para o mundo; mas ele repousa em êxtase e Deus, o Amado, cuida do seu corpo fazendo com que nem os elementos e nem doença alguma possam tocá-lo. Um dentre os muitos amantes desse tipo vê Deus face a face. Então, seu anseio torna-se infinito. Ele é como um peixe jogado na praia, pulando e se contorcendo para recuperar o oceano. Ele vê Deus em toda parte e em tudo, mas não pode encontrar o portão da União. O Vinho que ele bebe transforma-se em fogo no qual ele queima continuamente numa bem-aventurada agonia. E o fogo torna-se eventualmente o Oceano da Consciência Infinita, no qual ele se afoga.
 

Deus tem vergonha de estranhos
 
Deus existe. Se você está convencido da existência de Deus, então cabe a você procurá-Lo, vê-Lo e perceber-Lo.  Não procure por Deus fora de você. Deus só pode ser encontrado dentro de você, pois sua única morada é o coração.  Mas você tem enchido Sua morada com milhões de estranhos e Ele não pode entrar, pois ele é tímido com estranhos. A menos que você esvazie sua morada desses milhões de estranhos com os quais você preencheu-a, você nunca irá encontrar Deus. Esses estranhos são seus velhos anseios — seus milhões de desejos. Eles são estranhos a Deus porque os desejos são uma expressão de incompletude e são fundamentalmente estranhos Àquele que é todo-suficiente e que não deseja nada. A honestidade em suas relações com os outros irá limpar os estranhos para fora de seu coração.  Então você vai encontrá-Lo, vê-Lo e perceber-Lo.
 

Eu sou a Infinita Consciência
 
Acredite que eu sou o Antigo. Não duvide disso nem por um momento. Não há nenhuma possibilidade de eu ser alguém mais. Eu não sou este corpo que você vê. É só um casaco que coloco quando venho visitá-los. Eu sou a Consciência Infinita. Eu sento com vocês, brinco e riu com vocês, mas estou trabalhando simultaneamente em todos os planos de existência.  Perante a mim estão os santos e os mestres e santos perfeitos das fases iniciais do caminho espiritual. Eles são formas diferentes de mim. Eu sou a Raiz de cada um e de cada coisa. Um número infinito de ramos brotam de mim. Trabalho através de cada um e sofro em cada um de vocês e para cada um de vocês. Minha felicidade e meu infinito senso de humor sustentam-me em meu sofrimento. Os incidentes divertidos que acontecem aliviam meu fardo. Pense em mim; mantenha-se alegre em todos os seus desafios e eu estarei com você ajudando-lhe.
 
 
Trechos do livro: "The everything and the Nothing"


sábado, março 23, 2013

Despertem!

Sathya Sai Baba


Não há tempo para dormir, vocês têm dormido e sonhado por milhares de vidas. Se não despertarem agora, pode ser que esta oportunidade não se apresente novamente por milhares de anos. Venham Comigo. A separação já não é o que deve prevalecer nos tempos atuais. Eu Me separei de Mim mesmo para poder amar-Me mais; a experiência está terminada. Quero que todo Eu regresse e se funda em Mim. O Ser Único.
 
A muitos de vocês dei-lhes a vantagem de uma infância "infeliz", com conflitos, com separação de seus pais, com separação de suas mães. Ao fazer isso, lhes tenho tirado a tentação de apegar-se a pais humanos, a pais mortais ou a uma situação familiar específica. Deixei-os com uma só opção: a de apegar-se a Mim. Por que não aproveitam esta oportunidade, em vez de buscar continuamente essas relações que nunca lhes podem satisfazer? Ainda que a sua infância tenha sido cheia de amor como gostariam que fosse, não é o amor de sua mãe que necessitam. Em última instância, nem sequer é o amor desse Nome e Forma que desejam (Sai Baba em sua manifestação física). Seu desejo mais profundo e íntimo é o de voltar a vocês mesmos, de amar a vocês mesmos, de chegarem a ser amor, a consciência e a Bem-Aventurança, que é o que sempre serão.
 
Deixem o passado para trás, já não tratem de obter de outros o que vêem que lhes faltou em sua infância ou em seu matrimônio. Nunca encontrarão a ninguém que seja o suficiente. Nem sequer eu (Sai Baba em sua manifestação física). Amem a si mesmos, conheçam-se, só vocês mesmos serão suficientes, porque Eu os amo sempre. Tenho movido praticamente o céu e a terra para atraí-los a Mim, e lhes estou pedindo a todos, a todos os meus devotos, que repitam o mantra: "Eu sou Deus; Não sou distinto de Deus." Agora, lhes peço especificamente que sigam essa ordem, será mais útil que qualquer coisa que possam fazer. Recordem que Eu os amo. Amem a si mesmos!
 
Com amor, Baba.
 
 


quarta-feira, março 20, 2013

"O Espírito do Senhor está sobre mim"

- Gustavo -

“E chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler. E foi dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: 'O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor.' E cerrando o livro e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: 'Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos.'” (Lucas 4:16-21)


A passagem bíblica acima destacada relata o início do ministério espiritual de Jesus, e ela comporta um fundamento ou princípio espiritual de grande importância. Em geral, as pessoas pensam que essa passagem bíblica foi escrita meramente para informar ou narrar um fato a mais do dia-a-dia de Jesus, e por isso aproveitam muito pouco do que está ali contido. O significado espiritual dessa passagem está presente (oculto) em cada ação e atitude tomadas por Jesus, que não por acaso foram ali registradas. Jesus sabia exatamente o que estava fazendo. Por isso, se pudermos compreender cada uma de suas atitudes, teremos condição de nos colocar na posição de fazer o mesmo que ele, ou seja: acessar a mesma Presença ou Consciência com a Qual ele se identificava.

Jesus identificou em si mesmo a unção do Espírito do Senhor. Estando à frente de toda a sinagoga, Jesus abriu o livro de Isaías (um profeta do antigo testamento, que viveu centenas de anos antes de Jesus). E em seu livro, o profeta Isaías dizia: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, curar os quebrantados de coração, apregoar a liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor". Isaías era um profeta muito reconhecido devido à devoção e intimidade que tinha com Deus e às obras que realizava em Seu nome. Ao proferir que "O Espírito do Senhor está sobre mim, e me ungiu...", Isaías não estava profetizando, ele não se referia a um Messias que surgiria no futuro, tampouco falava sobre outra pessoa senão de si próprio. Mas, Jesus tomou as palavras de Isaías como válidas para si mesmo. Jesus compreendeu/reconheceu que a Verdade a respeito de Isaías era também a Verdade sobre de si mesmo, o que permitiu a ele dizer diante de todos: "O Espírito do Senhor é sobre mim, pelo que me ungiu... hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos."

É muito importante notar que em sua vida Jesus jamais se encontrou com Isaías, não o conheceu, e nunca teve algum contato com ele. Muito pelo contrário: Isaías e Jesus estavam distantes na existência não só por força separativa do espaço físico mas também do tempo; Isaías viveu na terra centenas de anos antes de Jesus. Apesar da atuação da poderosa força separativa de Maya (tempo e  espaço), Jesus identificou a verdade proferida por Isaías (centenas de anos atrás) como válida para si mesmo (hoje).

Ao reconhecer que a Verdade válida para Isaías era a verdadeira para si próprio, Jesus acessou a percepção adimensional e atemporal (sem tempo ou espaço) da Unidade, onde ele e Isaías estavam integrados, não-separados. Em tal dimensão, o Universo não faz distinção de lugares ou seres; Ele é ao mesmo tempo todos os lugares e todos os seres, impessoalmente. Todos os "seres" e "lugares" são o Universo.

Fazendo uma comparação com o plano cartesiano da matemática, na dimensão da Unidade o Universo pode ser representado como a "reta" ou "linha" traçada no papel. A reta nada mais é do que uma sucessão "pontos" conectados entre si; em uma reta, todos os "pontos" devem estar "colados" uns no outros, do contrário haverá uma "interrupção" na formação da reta, o que fará com que a reta deixe de ser uma "reta" e passe a ser uma "semi-reta". E uma semi-reta não é uma reta (por vários motivos: a reta é infinita, a semi-reta é finita; a reta é uma só e inteira, a semi-reta é dividida e incompleta, além de outras diferenças que não convém falar neste post, ou desviaremos do tema). Assim, o ponto "Isaías" não é o mesmo ponto denominado "Jesus". Mas ambos são a reta - formam a reta (compõem a reta, integram a reta). A reta no ponto chamado "Jesus" é a mesma reta no ponto chamado "Isaías". Eis os princípios da Unidade e da Individualidade dos quais se reveste o Todo Universal.

Por exemplo: Uma reta (a reta inteira) é vermelha, vibra na tonalidade "Om", exala agradável essência de lavanda. O ponto "A" ouve o ponto "Z" dizer de si mesmo: "minha cor é vermelha, eu vibro na tonalidade OM, e exalo agradável odor de lavanda". Nesse caso, o ponto "A" poderá afirmar o mesmo sobre si, desde que reconheça que ele e o ponto Z estão na mesma reta. As características do ponto Z existem em razão da reta, e não em razão do próprio ponto Z. E não importa que o ponto Z esteja longe, aparentemente distante do ponto A: o que vale para o Z, lá longe onde ele está, vale também para o ponto "A", "B", "C"... pois a reta é sempre a mesma - a validade é conferida em decorrência reta e não do ponto. A verdade sobre a reta é uma verdade universal, e vale para todos os pontos.

Retomando: Jesus, abrindo o livro de Isaías, achou o lugar que estava escrito: "O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, curar os quebrantados de coração, apregoar a liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor" ". E imediatamente fez identificação total com as palavras reveladas por Isaías. Com esse exemplo, Jesus ofereceu a mim, a você, e à humanidade toda a possibilidade de "seguí-lo", ou seja: abrir também o livro de Isaías e reconhecer que "O Espírito de Deus é sobre mim, e me ungiu". A unção que estava com Isaías e Jesus está também com cada um de nós que hoje tomamos o conhecimento dessas palavras.

A condição de separação que existia entre Jesus e Isaías é a mesma que há entre Jesus e cada um de nós. Olhando a partir de onde Jesus se encontrava, Isaías estava longe, no passado; olhando a partir daqui onde estamos, Jesus aparenta estar distante há 2000 anos. E hoje nós podemos abrir o livro da Bíblia e ali encontrar palavras/afirmações tremendas da verdade ditas por Jesus: "Eu e o Pai somos um", "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida", "Quem me vê a mim, vê Aquele que me enviou". Através do exemplo e atitude que demonstrou diante de todos os que estavam na sinagoga, Jesus ofereceu-nos a oportunidade de "seguí-lo", mostrando que também podemos nos identificar com as palavras e as revelações divinas e sagradas, exatamente como ele fez.

Jesus se proclamou o filho unigênito de Deus, e disse: "Eu e o Pai somos um". Buda disse: "Eu sou o único iluminado em todo o universo". Krishna disse: "Eu sou Brahmam, o Único, o Imperecível. Sou o Brahmam imanente em tudo, o Espírito que habita em todas as coisas".

O que Jesus disse de si mesmo é válido para a humanidade inteira, hoje. O que Buda disse de si mesmo também é válido para a humanidade toda, hoje. O que Krishna afirmou sobre si mesmo também é a verdade sobre todos, hoje. É a Unidade do Todo que nos outorga autoridade para afirmar tais verdades sobre nós mesmos. E é através de nossa identificação com essas Verdades que passamos a percebê-las como reais e efetivas. A identificação torna-se percepção consciente. É necessário coragem para fazer essa ousada identificação, porque a mente coletiva da humanidade, dotada de complexo de inferioridade, está abarrotada de sentimento de auto-punição e de pensamentos de culpa, não-merecimento, pecado. Estas são as características da mente que projeta a separatividade: ela projeta a "exclusão", o "afastamento", o "eu não mereço", "não sou digno" - estes são os símbolos que representam a mente separativista. A Mente Una, por sua vez, é representada pelos símbolos: "eu estou incluso", "faço parte, "eu mereço", "sou digno".

Isto é uma revelação, uma percepção que cada um deve ter, não é um mero ensinamento teórico. A consciência de que “o Espírito do Senhor está sobre mim” nos faz “ungidos” do Senhor. Os personagens inconscientes (que escutavam Jesus falar na sinagoga) não aceitavam esta percepção nem para si, nem para outrem, por isso muitos se escandalizaram com a revelação de Jesus. As pessoas que lá estavam (identificadas com a mente separatista) aceitariam com naturalidade a afirmação de que “o espírito do mundo está sobre mim”, mas elas não aceitam que alguém perceba que: “o Espírito do Senhor está sobre mim”.

Afine-se com a Mente Una, exatamente como Jesus fez, ao reconhecer: "hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos". Hoje, também, todas as escrituras sagradas e todas as Verdades universais estão se cumprindo aqui, exatamente onde estamos, em quem somos.




*Nota: Se você gostou da abordagem do texto, e deseja saber mais sobre a percepção mental e a percepção consciencial, acesse a série: "Preleções Nucleares: A Unidade Essencial", clicando aqui.

domingo, março 17, 2013

"O Espírito do Senhor é sobre mim"

Dárcio Dezolt


“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas novas aos mansos, enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos , e a abertura de prisão os presos”. (Isaías, 61: 1-3)
 

A felicidade, a harmonia, a paz, a saúde e a prosperidade, são o que a humanidade sempre esteve buscando e de todas as maneiras. Por quê? Por as pessoas saberem, intuitivamente, que “já possuem”, e permanentemente, todas estas bênçãos! De alguma forma, todas sabem da existência delas, mas não conseguem vê-las nem desfrutá-las, porque a suposta “mente humana”, que acreditam ser a mente que possuem, não é apta para discerni-las como presentes, aqui e agora. Em vista desta cegueira, acreditam que “há algo” de que precisam, e que devam buscar, e é quando passam a batalhar e se esforçar para “obtê-las” no suposto "mundo material". 

Que diz a citação de Isaías? Explica a maneira de se dar fim àquela ilusão de que o homem é um ser carnal destinado a “ganhar o pão com o suor do rosto”. 

Em Lucas 4:15, podemos ler: “E chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler. E foi dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor. E cerrando o livro e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos”.

Jesus, citando Isaías e fazendo total identificação com as palavras reveladas, disse: “Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos”,  oferecendo a mim, a você, e à humanidade toda, a oportunidade de segui-lo, ou seja; ABRIR TAMBÉM O LIVRO DE ISAÍAS, RECONHECER O ESPÍRITO DE DEUS “EM MIM” – EM SI MESMO – EXCLUINDO A CRENÇA EM EXISTÊNCIA HUMANA, O QUE, NATURALMENTE, PÕE FIM A TODAS AS “APARÊNCIAS” DE CARÊNCIA, OU SEJA, DÁ FIM À ILUSÃO!

“Cristo é tudo em todos” (Col. 3: 11). Quando Paulo afirmou esta Verdade, estava explicando que, assim como “o Pai em Mim” é a “unidade perfeita” representada por Jesus, igualmente “o Pai em Mim”,  é a mesma “unidade perfeita”, com relação ao “Cristo” em nós todos.

Como Deus é Onipresente, a Verdade é universal! Esta “universalidade da Verdade” foi também exposta por Jesus, quando disse: “Quem crê em MIM, crê não em mim, mas NAQUELE que me enviou” (João, 12: 44). Qualquer de nós, renascido, vendo-se despojado do “homem natural” para se reconhecer  identificado com o “Cristo em Si mesmo”, abrindo o livro de Isaías  e se volvendo “a MIM”, – ao “Espírito de Deus em Si mesmo” – está em posição idêntica à de Jesus, podendo, em vista disso, dizer e, e com conhecimento, que “HOJE SE CUMPRIU ESTA ESCRITURA”.

Veja-se, agora, abrindo o livro de Isaías, reconhecendo que “o Espírito de Deus é sobre MIM”, ou seja, “sobre o Cristo em VOCÊ”; e então, contemple:

O ESPÍRITO DO SENHOR É SOBRE MIM, POIS QUE ME UNGIU PARA EVANGELIZAR OS POBRES, CURAR OS QUEBRANTADOS DO CORAÇÃO, LIBERTAR OS CATIVOS, DAR VISTA AOS CEGOS, PÔR EM LIBERDADE OS OPRIMIDOS E ANUNCIAR O ANO ACEITÁVEL DO SENHOR. HOJE ESTA ESCRITURA SE CUMPRIU! EM MIM!
 
 

quinta-feira, março 14, 2013

Mente Búdica



Questão: Osho, o que significa a Mente Búdica?

Osho: Isso tem sido perguntado por muitos séculos. Por vinte e cinco séculos todos que são interessados em Gautama o Buddha tem feito essa mesma pergunta: O que é a Mente do Buda?

Esta pergunta é significante - é significante porque a própria pergunta cria um paradoxo. A mente do Buda é a não mente. Se falar qualquer coisa sobre a mente do Buda é o mesmo que dizer algo sobre a não-mente.

Nós vivemos na mente, o Buda foi além. Ele não é mais a mente, ele é não-mente. Logo, a mente do Buda não significa um certo tipo de mente, ela simplesmente significa a transcendência da mente. 

A questão é significativa, e bem fundamental: é o início da inquirição, a real inquirição.

O discípulo não pergunta "O que é Deus?"; ele não pergunta "O que é o paraíso?"; ele não pergunta "O que é o pecado?"; ele faz a pergunta mais existencial: O QUE É A MENTE DO BUDA?, porque compreender a realidade da mente búdica é compreender o fundamento da própria existência.

A mente do Buda é a pura consciência. 

É como um espelho: ela simplesmente reflete, não há projeções; não há ideias, nenhum conteúdo, nem pensamentos, nem memória, nem desejos, nem imaginação, nem memória.

É o presente do sempre-presente, é viver o momento presente, E quanto se está completamente no presente, a mente desaparece, ela perde seus limites. Apenas uma grande vacuidade acontece a você. É claro, que essa vacuidade não é vazia no sentido comum da palavra, é uma espécie de plenitude - vazia no que diz respeito as coisas do mundo.

Buddha sempre diz: Não sou um filósofo. Sou um médico. Não quero intelectualizar, quero torná-lo inteligente. Não quero lhe dar uma resposta para se agarrar, quero lhe dar percepções para que suas questões se evaporem.

Precisamos estar alertas com a mente, porque a mente pode lhe dar muitas questões que lhe conduz por direções erradas, e então não termina nunca; você seguirá e seguirá para sempre. Dez mil anos de filosofias e não se chegaram a nenhuma simples conclusão.

Esteja consciente que sua mente é uma grande enganadora. E assim como sua mente é enganadora, a mente dos outros também é. Se você faz a pergunta errada, receberá as respostas erradas. (...)

Buddha diz: Não estou interessado em perguntas, a menos que sejam perguntas existenciais, a menos que me faça perguntas que são capazes de causar transformações - não apenas para informar, não apenas para acumular conhecimento.

Para perguntas erradas existem muitos professores no mundo que estão prontos para lhe dar muitas respostas, muitos tipos de respostas; Uma resposta chega com aspectos e tamanhos diferentes, e se ajustam para cada pessoa. Mas lembre-se, existe você e a sua mente astuta, e existe os outros e mais astúcia. (...)

Lembre-se que o mundo está cheio de pessoas astutas. (...) Você pode evitá-las apenas fazendo a pergunta correta; elas não poderão responder, porque para fornecer a resposta correta eles terão que ter tido a experiência. A resposta correta não poderá ser dada pelo conhecimento; só poderá ser dada se elas tiverem tido uma experiência da verdade.

Isso é a beleza da pergunta correta: O que é Mente do Buda?

Bodhidarma respondeu: Sua mente, sua mente é a Mente do Buda.

Não se trata de uma questão histórica sobre uma pessoa chamada Sidharta Gautama, o Buddha. Ele lhe dá uma nova perspectiva para essa questão, ele a torna imediatamente não existencial, mas pessoal. Essa questão não é mais filosófica, ela se torna uma questão sobre você. 

Você pode perguntar sobre Buddha, mas nas mãos de Boddhidarma, essa questão é imediatamente transformada, modificada. Ela se torna uma flecha que vai direto ao seu coração. 

Sua mente é a mente do Buddha.

A Budeidade não é algo que acontece a alguém; Budeidade é um potencial; é algo que está esperando para acontecer a você; logo, a primeira coisa a ser dita é: É a sua mente. Mente Búdica não é algo estranho a você, é o seu centro mais profundo, sua verdadeira natureza. 

Vocês são Buddhas - talvez inconscientes dos fatos, talvez um pouco adormecidos, mas isso não faz diferença. Um Buddha adormecido ainda é um Buddha. Um Buddha inconsciente da sua própria budeidade ainda permanece um Buddha. Sua mente é a mente do Buddha."


Osho em: "The White Lotus"

segunda-feira, março 11, 2013

Aos pés do Mestre - 4/4

 Jiddu Krishnamurti


IV – AMOR

De todas as qualidades, o Amor é a mais importante, pois sendo bastante forte um homem, obriga-lhe a aquisição de todas as outras que, sem ele, não seriam suficientes. Freqüentemente é expresso como um intenso desejo de se libertar da roda dos nascimentos e mortes e de se unir com Deus. Entendê-lo, porém, deste modo, denota egoísmo e alcança apenas uma parte de sua significação. Não é tanto o desejo, como a vontade , a resolução, a determinação. Para produzir seus resultados, essa resolução deve encher de tal modo a tua natureza inteira, que não deixe lugar para qualquer outro sentimento. É, na verdade, a vontade de seres uno com Deus, não para escapares à fadiga e ao sofrimento, mas para que, pelo teu profundo amor por Ele possas agir com Ele. E porque Ele é Amor, tu, se te quiseres unificar com Ele, deves encher-te de profundo desinteresse e amor.

Na vida diária isto implica duas coisas: em primeiro lugar, Ter o cuidado de não fazer mal a nenhum ser vivo; em segundo, vigiar as oportunidades de prestar auxílio.

Primeiro, não fazer mal. Três pecados há que operam maior dano do que todos os outros no mundo – a maledicência, a crueldade e a superstição – por serem pecados contra o amor. Contra esses três pecados, o homem que quiser encher o seu coração do amor de Deus deve estar vigilante, incessantemente.

A maledicência - Observa os efeitos da maledicência. Começa com um mau pensamento e este, em si mesmo, já é um crime, pois que, em tudo e em todos, existe o bem; em tudo e em todos o mal existe. Podemos reforçar qualquer deles pelo pensamento e, deste modo, ajudar ou embaraçar a evolução; podemos fazer a vontade do Logos ou resistir-lhe. Se pensares no mal que existe em outrem, cometes ao mesmo tempo três ações más:

1. Enches teu ambiente de maus em vez de bons pensamentos, aumentando assim a tristeza do mundo.

2. Se nesse homem existir o mal que supões, o fortificas e o alimentas e, assim, tornas pior o teu irmão, em vez de o melhorar. Porém, geralmente o mal nele não existe, sendo apenas um produto da tua fantasia; e então o teu pensamento tentará o teu irmão à prática do mal, pois que, se ele não for ainda perfeito, poderás torná-lo tal qual o imaginaste.

3. Saturas a tua mente de maus em vez de bons pensamentos; embaraças, assim, o teu próprio crescimento, tornando-te aos olhos dos que podem ver um objeto feio e penoso em vez de belo e atraente.

Não contente de ter feito todo este mal a si próprio e à sua vítima, o maledicente tenta, com todas as suas forças, fazer com que os outros participem do seu crime. Prontamente conta a perversa história, na esperança de que o acreditem; e, então, juntam-se todos a enviar maus pensamentos ao pobre paciente. E isto repete-se dia a dia e é feito, não por um homem, mas por milhares. Começas a ver quão terrível é este pecado? Deves, por completo, evitá-lo. Nunca fales de ninguém; recusa ouvir o mal que te disserem dos outros e suavemente observa: Talvez isso não seja verdade e, se o for, é mais caritativo não falarmos nisso.

A crueldade – Quanto à crueldade, ela pode ser de duas espécies: intencional e não intencional. A crueldade intencional consiste em causar dano a um ser vivo, de ânimo deliberado; este é o maior de todos os pecados – próprios antes de um demônio do que de um homem. Dirás que nenhum homem cometeria tal crime; porém, os homens o cometeram muitas vezes e o cometem, ainda, diariamente. Praticaram-no os inquisidores; muita gente religiosa o praticou em nome da sua religião. Os que dissecam seres vivos o praticam; muitos professores o praticam habitualmente. Toda essa gente procura desculpar a sua brutalidade dizendo que é o costume; um crime, porém, não deixa de o ser porque muita gente o comete. O karma não leva em conta o costume e o karma da crueldade é, de todos, o mais terrível. Na Índia, pelo menos, não há desculpa para tais hábitos, pois o dever de não fazer mal é de todos bem conhecido. A sorte reservada ao cruel incide também sobre todos aqueles que intencionalmente matam criaturas de Deus sob pretexto de desportos.

Sei que não farias estas coisas; e, por amor de Deus, quando a oportunidade se oferecer, falarás abertamente contra elas. Porém, existe a crueldade na palavra, da mesma forma que nos atos, e um homem que diz algo com a intenção de ferir a outrem é passível desse crime. Isto também não farás; porém, às vezes, uma palavra impensada faz tanto mal como se fosse malévola.

Deves, pois, estar de sobreaviso contra a crueldade irrefletida. Ela se origina comumente da irreflexão. Um homem cheio de avareza e cobiça não pensa jamais nos sofrimentos que causa aos outros, pagando-lhes pouco e deixando meio famintos sua mulher e seus filhos. Um outro pensa apenas nos seus desejos luxuriosos, pouco se importando com os corpos e as almas que arruina para sua satisfação. Um outro, somente para poupar-se uns poucos minutos de incômodo, não paga aos seus operários no dia designado, sem pensar nas dificuldades que lhes origina. Por essa forma muito sofrimento pode ser causado pela irreflexão – pelo olvido de pensar sobre o modo pelo qual uma ação afeta os outros. Porém, o Karma não esquece nunca e não leva em conta que os homens esquecem. Se desejas entrar na Senda, deves pensar nas conseqüências das tuas ações, a fim de não incidires em crueldade irrefletida.

A superstição – A superstição é outro grande mal, que tem causado muitas e terríveis crueldades. O homem que é seu escravo desdenha aqueles que são mais sábios e tenta faze-los agir do mesmo modo. Pensa nos horrendos massacres produzidos pela superstição que aconselha o sacrifício de animais e pelo ainda mais cruel preconceito de que o homem necessita de carne para alimentar-se. Pensa nos maus tratos que a superstição tem criado para as classes oprimidas da nossa Índia bem amada e verifica por aí quanto esta má qualidade pode originar de covarde crueldade, mesmo entre aqueles que conhecem o dever de serem fraternais. Muitos crimes os homens cometeram em nome do Deus de Amor, movidos pelo pesadelo da superstição; cuida, pois, muito para que dela não reste em ti o menos vestígio.

Esses três grandes crimes deves evitar, pois são fatais a todo o progresso, por serem pecados contra o amor. Não basta, porém, refrear o mal; é preciso ser ativo no bem. Deves encher-te tanto do intenso desejo do serviço, que estejas sempre vigilante para prestá-lo em torno de ti – não somente aos homens, como também às plantas e aos animais. Deves prestá-lo nas pequenas coisas, cada dia, a fim de que o hábito se forme e não percas as raras oportunidades em que grandes coisas se apresentam para ser feitas. Pois que, se anseias unificar-te com Deus, não é por amor de ti próprio, mas a fim de que possas ser um canal através do qual o Seu amor flua sobre os homens, teus irmãos.

Aquele que está na Senda não existe para si mesmo, mas para os outros; esquece a si próprio para poder servi-los. Ele é como uma pena na mão de Deus, através da qual o Seu pensamento flui e pode encontrar neste mundo uma expressão que, sem ela (a pena) não poderia Ter. É, ao mesmo tempo, um feixe de fogo vivo radiando sobre o mundo o Amor Divino que lhe enche o coração.

A sabedoria que torna capaz de ajudar, a vontade que dirige a sabedoria, o amor que inspira a vontade – tais são as qualidades requeridas. Vontade Sabedoria e Amor são os três aspectos do Logos; e tu, que desejas alistar-te ao Seu serviço, deves expressar esses três aspectos no mundo.


sábado, março 09, 2013

Aos pés do Mestre - 3/4

Jiddu Krishnamurti



III – BOA CONDUTA
 
Os seis pontos sobre a conduta, especialmente exigidos pelo Mestre, são:

1. Domínio da Mente.
2. Domínio da Ação.
3. Tolerância.
4. Contentamento.
5. Perseverança (unidade de direção para o fim visado).
6. Confiança.

(Sei que algumas dessas qualidades são freqüentemente expressas de modo diferente; porém, em todo caso, usei as designações que o próprio Mestre empregou ao explicá-las).

1. Domínio da Mente

A qualidade da ausência do desejo mostra que o corpo astral precisa ser dominado;  o mesmo acontece em relação ao corpo mental.  Isto significa domínio do temperamento, de modo a não poderes sentir cólera ou impaciência; domínio da própria mente, a fim de que o pensamento seja sempre calmo e sereno e, através da mente, o domínio dos nervos, a fim de que sejam o menos irritáveis possível. Este último objetivo é difícil de atingir, porque, quando tentas preparar-te para a Senda, não podes deixar de tornar o teu corpo mais sensitivo; de sorte que os seus nervos podem ser facilmente abalados por um som ou um choque, e sentir de modo agudo qualquer pressão. Faz, porém, o melhor que te for possível.

A mente calma implica, também, coragem, a fim de afrontares sem medo as provas e dificuldades da Senda; implica, outrossim, firmeza, para suportares as pequenas perturbações inerentes à vida diária e evitar os aborrecimentos incessantes, oriundos de pequenas coisas em que muita gente consome a maior parte do seu tempo. O Mestre ensina que não tem a menor importância o que ao homem acontece exteriormente; tristezas, perturbações, doenças, perdas – tudo isso deve ser nada para ele e não deve permitir que lhe afetem a calma mental. São o resultado das ações passadas e, quando chegam, devem ser suportadas alegremente, com a lembrança de que todo mal é transitório e que é teu dever permanecer sempre contente e sereno. Pertencem às tuas vidas anteriores e não a esta; não podes alterá-las, portanto é inútil que com elas te preocupes. Pensa antes no que estás, agora, fazendo e que determinará os acontecimentos de tua próxima vida, pois essa podes modificar.

Não cedas nunca à tristeza e ao desalento. O desalento é mau, porque contamina os outros e torna as suas vidas mais difíceis, o que não tens o direito de fazer. Portanto, sempre que ele vier a ti, deves repeli-lo imediatamente.

Deves ainda dominar o teu pensamento de outro modo; não o deixes vaguear. Fixa o teu pensamento naquilo que estiveres fazendo, a fim de que seja feito com perfeição; não deixes a tua mente ociosa, porém mantém sempre bons pensamentos em reserva, prontos a avançar quando ela estiver livre. Emprega, diariamente, o poder do teu pensamento em bons propósitos; sê uma força orientada para a evolução.  Pensa cada dia em alguém que saibas estar imerso na tristeza e no sofrimento, ou necessitando de auxílio e derrama sobre ele teus pensamentos de amor.

Preserva a tua mente do orgulho, porque o orgulho provém somente da ignorância. O homem que não sabe, pensa ser grande por ter feito alguma grande coisa; mas o homem sábio compreende que só Deus é grande e que toda boa obra é feita só por Ele.

2. Domínio da Ação

Se o teu pensamento for o que deve ser, encontrarás pouca dificuldade na ação. Lembra-te que para ser útil à humanidade, o pensamento deve traduzir-se em ação. Nada de indolência, mas uma constante atividade no trabalho útil.  Deves, porém, cumprir o teu próprio dever e não o de outrem, a não ser com a sua devida permissão e no intuito sempre de ajudá-lo. Deixa que cada homem execute o seu trabalho a seu modo; mantém-te sempre pronto a oferecer auxílio onde ele for necessário, porém nunca te intrometas. Para muita gente a coisa mais difícil deste mundo é aprender a ocupar-se de seus próprios negócios; é, porém, isto exatamente o que deves fazer.

Pelo fato de empreenderes um trabalho de ordem superior, não deves esquecer os teus deveres comuns, pois enquanto os não cumprires, não estarás livre para outro serviço.  Não tomes sobre ti novos deveres para com o mundo; porém, daqueles que já te encarregaste, desempenha-te perfeitamente – os deveres definidos e razoáveis, que tu próprio reconheces, e não os deveres imaginários que porventura alguém pretenda impor-te. Se queres pertencer ao Mestre, deves executar o teu trabalho comum melhor e não pior do que os outros, porque deves fazer também isto por amor a Ele.

3. Tolerância

Deves sentir perfeita tolerância por todos e um sincero interesse pelas crenças dos de outras religião, tanto quanto pelas tuas próprias.  Pois a religião dos outros é um Caminho para o Supremo, da mesma forma que a tua.  E, para auxiliar a todos, é preciso tudo compreender. Mas a fim de alcançares esta perfeita tolerância, deves tu próprio, em primeiro lugar, libertar-te da superstição e da beatice.  Precisas aprender que não há cerimônias indispensáveis; de outro modo te suporias um pouco melhor do que aqueles que as não cumprem.  Não condenes, porém, os que ainda se apegam às cerimônias. Deixa-os fazer o que lhes aprouver, contanto que se não intrometam no que concerne a ti que conheces a verdade – pois não devem tentar forçar-te àquilo que já ultrapassaste. Sê indulgente com todos; sê benévolo em tudo.

Agora que os teus olhos foram abertos, algumas das tuas antigas crenças e cerimônias podem parecer-te absurdas; talvez, na realidade, o sejam. Apesar, porém, de não poderes mais tomar parte nelas, respeita-as por amor às boas almas para quem elas são ainda importantes.  Têm o seu lugar e a sua utilidade; assemelham-se às duplas linhas que, quando criança, te guiavam para escrever em linha reta e na mesma altura, até que aprendeste a escrever muito melhor e mais livremente sem elas.  Houve tempo em que delas necessitaste; esse tempo, porém, já passou.

Um grande Instrutor escreveu certa vez: “Quando eu era criança, falava como criança, entendia como criança; porém, quando me tornei homem, abandonei os modos infantis”.  No entanto, aquele que esqueceu a sua infância e perdeu a simpatia pelas crianças não é o homem que as possa instruir e ajudar.  Assim, olha a todos bondosamente, gentilmente, tolerantemente; porém, a todos da mesma forma, quer sejam budistas, jainos, judeus, cristãos ou maometanos.

4. Contentamento

Deves suportar o teu karma alegremente, qualquer que ele seja, tendo o sofrimento como uma honra, pois demonstra que os Senhores do Karma te acham digno de auxílio.  Por muito duro que ele seja, mostra-te agradecido por não ser ainda pior. Lembra-te que de muito pouca utilidade serás para o Mestre, enquanto o teu mau karma não for esgotado e não estiveres livre. Oferecendo-te a Ele, pediste que o teu karma  fosse apressado e assim, em uma ou duas vidas esgotas aquilo que, de outro modo, exigiria uma centena delas.  Para maior proveito, porém, deves suportá-lo alegremente.

Há outro ponto de importância.  Abandona todo sentimento de posse.  O karma pode arrebatar-te aquilo de que mais gostas, mesmo as pessoas que mais amas.  Ainda assim deves ficar contente – pronta a separar-te de tudo e de todos. Freqüentemente, o Mestre necessita transmitir Sua força a outros através do Seu servo; Ele não o poderá fazer se o servo ceder ao desânimo.  Assim, o contentamento é indispensável.

5. Perseverança

A coisa única que deves manter sempre presente, em tua mente, é o trabalho do Mestre.  Qualquer outra coisa que surja em teu caminho, não te deve fazê-lo esquecer. Na verdade, nenhuma outra coisa poderá surgir diante de ti, pois todo trabalho útil e desinteressado é trabalho do Mestre e tu deves executá-lo por amor a Ele. E precisas dedicar-lhe toda a tua atenção, a fim de ser o que de melhor possas fazer.  O mesmo Instrutor escreveu também: “O que quer que faças, faze-o de boa vontade, como sendo para o Senhor e não para os homens”.  Pensa como executarias um trabalho se soubesses que o Mestre vivia vê-lo imediatamente; é justamente nestas condições que deves executar tudo.  Aqueles que sabem, melhor compreenderão o significado desde versículo.  Há um outro, semelhante porém muito mais antigo: “Em tudo o que a tua mão fizer, aplica toda a tua força.”

A perseverança significa, também, que nada deverá afastar-te por um momento sequer da Senda em que entraste.  Nem tentações, nem os prazeres do mundo, nem as afeições mundanas, mesmo, devem jamais desviar-te.  Pois tu mesmo deves unificar-te com a Senda; ela deve tornar-se de tal modo parte da tua própria natureza que a percorras sem nisso teres que pensar e sem te desviares.  Tu, a Mônada, assim o decidiste; separares-te da Senda eqüivaleria a te separares de ti mesmo.

6. Confiança

Deves confiar em teu Mestre; deves confiar em ti mesmo.  Se já viste o Mestre, nele confiarás plenamente através de muitas vidas e mortes.  Se ainda não O viste, deves tentar averiguar a Sua existência e confiar Nele – porque se o não fizeres, nem mesmo Ele te poderá ajudar.  Sem que haja perfeita confiança não poderá haver perfeita efusão de amor e poder.

Necessitas confiar em ti mesmo.  Dizes que te conheces muito bem? Se assim pensas, não te conheces; conheces apenas o débil envoltório externo que freqüentemente tem caído na lama.  Porém tu – o Eu Real – és uma centelha do fogo Divino e Deus, que é Todo Poderoso, está em ti e, por este motivo, nada existe que não possas fazer, se o quiseres. Dize a ti mesmo: “O que o homem fez, o homem pode fazer.  Eu sou um homem, porém sou também o Deus que está no homem; eu posso fazer isto e quero fazê-lo”. Pois se quiseres trilhar a Senda, a tua vontade deve ser como aço de boa têmpera.

Continua...


quarta-feira, março 06, 2013

Aos pés do Mestre - 2/4

Jiddu Krishnamurti


II – AUSÊNCIA DE DESEJOS

Há muitas pessoas para quem a qualidade da Ausência de Desejos (abnegação, desapego) é difícil, por pensarem que os seus desejos são elas próprias – e que, se esses desejos peculiares, simpatias e antipatias lhes forem tirados, nada mais lhes restará. Essas, porém, são somente as que ainda não viram o Mestre; à luz de Sua Santa Presença, todo desejo sucumbe, exceto o de se assemelhar a Ele. No entanto, antes mesmo de teres a ventura de encontrá-Lo face a face, podes conquistar a ausência de desejo, se o quiseres. O discernimento já te demonstrou que as coisas que os homens mais desejam, tais como a riqueza e o poder, não merecem o trabalho de ser possuídas; quando isto realmente é sentido, e não apenas enunciado, cessa todo o desejo por elas.

Tudo isto é simples; necessitas apenas compreender. Há, porém, algumas pessoas que recusam-se a prosseguir em objetivos terrenos, somente no intuito de alcançar o céu, ou para atingir a libertação pessoal dos renascimentos. Não deves cair neste erro. Se te esqueceste completamente de ti mesmo, não te podes preocupar com a época da libertação do teu Ego ou com a espécie de céu que lhe caberá. Lembra-te que todo desejo egoísta é um liame e, por muito elevado que seja o seu objetivo, enquanto dele te não desembaraçares, não estarás completamente livre para te devotares à obra do Mestre.

Quando tiverem desaparecido todos os desejos pessoais, poderá ainda restar o de apreciares o resultado do teu trabalho. Se auxiliares alguém, quererás ver até que ponto o tens ajudado; talvez mesmo queiras que ele o reconheça também e se te mostre grato. Isto, porém, é ainda o desejo e também uma falta de confiança. Quando aplicares a tua energia em auxiliar alguém, há de advir daí um resultado, quer possas vê-lo quer não; se conheces a Lei, sabes que deve ser assim. Precisas, pois, fazer o bem por amor ao bem, e não com a esperança da recompensa. Trabalha por amor ao trabalho e não para ver o resultado; deves entregar-te ao serviço do mundo porque o amas e não podes deixar de fazê-lo.

Não desejes os poderes psíquicos; eles virão quando o Mestre achar que melhor te será possuí-los. Forçá-los muito cedo traz consigo muitas perturbações; freqüentemente o seu possuidor é desencaminhado por falazes espíritos da natureza, ou então se torna vaidoso e se julga isento de cair em erro; em todo o caso, o tempo e a força necessários para adquiri-los poderiam ser gastos em trabalhar para os outros. Eles virão no decurso do teu desenvolvimento – porque devem vir; e se o Mestre entender que te será útil possuí-los mais cedo, te ensinará como desenvolvê-los com segurança. Até então, melhor será que os não possuas.

Deves precaver-te, também, contra certos pequenos desejos comuns na vida diária. Nunca desejes sobressair nem parecer instruído; não desejes falar. É bom falar pouco; melhor ainda é nada dizer, a não ser que estejas seguro de que o que pretendes dizer é verdadeiro, amável e útil. Antes de falar, pensa cuidadosamente se o que pretendes dizer preenche essas três qualidades; se assim não for, não o digas.

É bom que te habitues desde agora a refletir cuidadosamente antes de falar pois, quando alcançares a Iniciação, terás de vigiar cada palavra a fim de não dizeres o que não deve ser dito. Muitas das conversações ordinárias são desnecessárias e insensatas; e, quando chegam à maledicência, tornam-se perversas. Assim, acostuma-te antes a ouvir do que a falar; não emitas opinião senão quando diretamente solicitada. Um enunciado das qualidades requeridas é assim formado: saber, ousar, querer, calar , e a última das quatro é a mais difícil de todas.

Um desejo vulgar que deves severamente reprimir é o de te imiscuíres nos negócios de outrem. O que um homem faz, diz ou crê, não é de tua conta e precisas aprender a deixá-lo absolutamente entregue a si próprio. Ele tem pleno direito à liberdade de pensamento, palavra e ação, até ao ponto em que não interfira no que concerne a outrem. Tu próprio reclamas a liberdade de fazer o que julgas bom; deves outorgar a mesma liberdade aos outros e, quando a usarem, não tens o direito de te pronunciares a respeito.

Se julgas estar alguém fazendo o mal e encontras uma oportunidade de lho dizer em particular – e muito delicadamente – porque assim pensas, talvez consigas convencê-lo; porém, em muitos casos, isto mesmo não passaria de uma interferência indébita. De modo algum deverás murmurar com uma terceira peso sobre o assunto, pois isso seria uma ação extremamente má.

Se observares um caso de crueldade para com uma criança ou um animal, é teu dever intervir. Se vires alguém violando as leis do país, deves informar as autoridades. (Naturalmente em casos manifestamente graves, como o da prática da crueldade, ou quando intimado a fazê-lo.) Se estiveres incumbido de instruir uma outra pessoa, pode tornar-se teu dever adverti-la suavemente de suas falhas. Exceto em tais casos, ocupa-te de teus próprios negócios e aprende a virtude do silêncio.

Continua...


segunda-feira, março 04, 2013

Aos pés do Mestre - 1/4

Jiddu Krishnamurti
 
 
Minhas não são estas palavras e sim do Mestre que me instruiu. Sem Ele nada poderia ter feito, porém, com o Seu auxílio, comecei a trilhar a Senda. Tu desejas também entrar na mesma Senda; por isso, as palavras que Ele me dirigiu te auxiliarão, se as obedeceres. Não basta dizer que são verdadeiras e belas; o homem que deseja obter êxito, necessita fazer exatamente o que lhe é ensinado. Olhar para o alimento e dizer que é bom, não satisfaz um faminto; é necessário estender a mão e comê-lo. Da mesma forma, não basta ouvir as palavras do Mestre; é preciso fazer o que Ele diz, atento à menor palavra, ao menor sinal, pois, se uma indicação não for seguida, se uma palavra for desprezada, perdidas ficarão para sempre, porque o Mestre não fala duas vezes.

Quatro são as qualidades necessárias para a Senda:
 
I – Discernimento.
II – Ausência de desejos (Desapego, abnegação).
III – Boa conduta.
IV – Amor.
 
Tentarei dizer-te o que sobre cada uma delas que o Mestre me ensinou.

 
I – DISCERNIMENTO

A primeira dessas qualidades é o Discernimento, vulgarmente tomado no sentido daquela distinção entre o real e o irreal, que conduz o homem para a Senda. É isto; mas é muito mais ainda, e deve ser praticado, não somente no começo da Senda, porém a cada passo que nela diariamente se dá, até o fim. Entras para a Senda porque aprendeste que somente nela se podem encontrar as coisas dignas de aquisição. Os homens que não sabem, trabalham para adquirir a riqueza e o poder, porém estes bens são, quando muito, para uma vida somente e, portanto, irreais. Há coisas maiores do que essas – coisas reais e duradouras; quando as tiveres visto uma vez, não mais desejarás as outras.

Em todo o mundo há somente duas espécies de pessoas – as que sabem e as que não sabem – e o conhecimento é o que importa possuir. A religião de um homem, a raça a que pertence – não são coisas de importância; o que é realmente importante é o conhecimento – o conhecimento do Plano de Deus em relação aos homens. Pois Deus tem um plano e esse plano é a Evolução; quando o homem o tiver visto e, realmente, o conhecer, não poderá deixar de cooperar nele, unificando-se com ele, tal a sua glória e beleza. Assim, pelo fato de possuir o conhecimento, ele está ao lado de Deus, firme no bem e resistente ao mal, trabalhando pela evolução e não com fins pessoais.

Se está ao lado de Deus, é um dos nossos, não tendo a mínima importância que ele se diga hinduista, budista, cristão ou maometano, ou que seja hindu, inglês, chinês ou russo. Aqueles que estão ao lado de Deus sabem por que aí se acham, sabem o que têm a fazer e tentam cumpri-lo; todos os demais não sabem ainda o que têm a fazer e, por isso, freqüentemente agem de modo insensato, imaginando caminhos para si próprios, os quais lhes parecem agradáveis, não compreendendo que todos são um e que, portanto, só aquilo que o Uno quer pode realmente ser agradável a todos. Seguem o irreal ao invés do Real. E, enquanto não aprendem a distinguir entre ambos, não se colocam ao lado de Deus – e eis porque o Discernimento é o primeiro passo a dar.

Todavia, mesmo depois de feita a escolha, deves lembrar-te de que no Real e no irreal há muitas variantes e o discernimento deve ainda ser exercido entre o bem e o mal, o importante e o não importante, o útil e o inútil, o verdadeiro e o falso, o egoísta e o desinteressado.

Entre o bem e o mal não deveria ser difícil escolher, pois aqueles que desejam seguir o Mestre já se decidiram a seguir o bem a todo custo. Porém, o homem e o seu corpo são dois, e a vontade do homem nem sempre está de acordo com a do corpo. Quando o teu corpo desejar alguma coisas, pára e considera se tu és Deus e só queres o que Deus quer; necessitas, porém, penetrar fundo em ti mesmo, para em teu interior encontrares Deus e ouvir a Sua voz, que é a tua.

Não confundas os teus corpos contigo mesmo, nem o teu corpo físico, nem o astral, nem o mental. Cada um deles pretende ser o Ego, a fim de obter o que deseja. Precisas, porém, conhecê-los todos e conhecer-te a ti mesmo como seu possuidor.

Quando há um trabalho para fazer, é quando o corpo físico quer descansar, passear, comer e beber; o homem que não sabe, diz a si mesmo: eu quero fazer estas coisas e preciso fazê-las. Porém, o homem que sabe diz: Quem quer não sou eu; portanto espere um pouco. Freqüentemente, quando há oportunidade de auxiliar alguém, o corpo insinua: Que aborrecimento isto me trará; deixemos que outro qualquer tome o meu lugar. Porém, o homem que sabe lhe replica: Tu não me impedirás de praticar uma boa ação.

O corpo é teu animal, o cavalo que montas. Deves, portanto, tratá-lo bem, cuidar bem dele, não o estafar, alimentá-lo convenientemente só com alimentos e bebidas puros, e mantê-lo perfeitamente limpo, sempre, sem o menor vestígio de impureza. Pois que, sem um corpo perfeitamente limpo e saudável, não podes efetuar a árdua tarefa da preparação, nem suportar-lhe os incessantes esforços. Deves, porém, ser sempre tu quem o domine, e não ele o que te domine a ti.

O corpo astral tem seus desejos – e os tem às dúzias; há de querer ver-te encolerizado, ouvir-te dizer palavras ásperas, que sintas ciúmes, que sejas ávido por dinheiro, que invejes os bens alheios e cedas ao desânimo. Quererá todas essas coisas e muitas outras mais, não porque deseje prejudicar-te, mas por que lhe aprazem as vibrações violentas e gosta de mudá-las continuamente. Tu , porém, não desejas nenhuma destas coisas e, portanto, deves distinguir os teus desejos dos de teu corpo astral.

O teu corpo mental deseja manter-se orgulhosamente separado; quererá que penses muito em ti mesmo e pouco nos outros. Mesmo quando o tiverdes desviado das coisas mundanas, tentará ainda especular acerca de ti próprio, fazer-te pensar no teu próprio progresso, em lugar de o fazeres na obra do Mestre e em auxiliar os outros. Quando meditares, tentará fazer-te pensar nas diferentes coisas que ele quer, em vez da única de que necessitas. Não és esse corpo mental, mas dele dispões para o teu uso; assim, mesmo aqui, o discernimento é necessário. Deves vigiar incessantemente, sob pena de vires a falir.

Entre o bem e o mal, o Ocultismo não admite compromissos. Custe o que custar, deves fazer o bem e nunca o mal. Diga ou pense o ignorante o que quiser. Estuda profundamente as leis ocultas da Natureza e organiza a tua vida de acordo com elas, utilizando sempre a razão e o bom senso.

Deves discernir entre o que é importante e o que não é. Firme como uma rocha em tudo que concerne ao bem e ao mal, cede invariavelmente aos outros nas coisas de somenos importância. Pois deves ser sempre amável, bondoso, razoável e condescendente, deixando aos outros a mesma plena liberdade que para ti necessitas.

Procura verificar o que vale a pena ser feito e lembra-te que as coisas não devem ser julgadas pela sua grandeza aparente. Uma pequena coisa de utilidade imediata à obra do Mestre merece muito mais ser feita, do que uma grande coisa que o mundo considera boa. Precisas distinguir não somente o útil do inútil, mas ainda o mais útil do menos útil. Alimentar os pobres é uma boa obra, nobre e útil; porém, alimentar-lhes as almas é ainda mais nobre e mais útil.

Por muito sábio que já sejas, muito terás ainda que aprender na Senda; tanto que nela mesma precisas discernir e meditar cuidadosamente o que deve ser aprendido. Todo o conhecimento é útil, e um dia o possuirás integralmente; enquanto, porém, só possuíres parte dele, cuida em que essa seja a mais útil. Deus tanto é Sabedoria como Amor; e quanto mais sábio fores, mais Ele se manifestará por teu intermédio. Estuda, pois, mas estuda em primeiro lugar o que mais te habilite a auxiliar aos outros. Trabalha pacientemente em teus estudos, não para que os homens te julguem sábio, nem mesmo para gozares a felicidade de ser sábio – mas por que o sábio pode ser sabiamente útil. Por muito que desejes prestar auxílio, enquanto fores ignorante, poderás fazer mais mal do que bem.

Precisas distinguir entre a verdade e a mentira; deves aprender a ser verdadeiro em tudo: no pensamento, na palavra e na ação. Primeiro no pensamento, e isto não é fácil, porque há no mundo muitos pensamentos falsos, muitas superstições insensatas e ninguém que a eles se escravize poderá progredir. Por conseguinte, não deves acolher um pensamento simplesmente porque muitas pessoas o acolhem, nem por ter merecido crédito durante séculos, nem por constar de algum livro que os homens julguem sagrado; deves pensar por ti mesmo sobre a questão, e por ti mesmo ajuizar se ela é razoável. Lembra-te que, embora um milhar de homens concorde sobre um assunto, se nada conhecerem a respeito, a sua opinião não tem valor. Aquele que quiser caminhar na Senda tem que aprender a pensar por si mesmo, pois a superstição é um dos maiores males do mundo e um dos empecilhos de que, por ti próprio, te deves libertar inteiramente.

O teu pensamento acerca dos outros deve ser verdadeiro; não penses a seu respeito aquilo que não saibas. Não suponhas que os outros estejam sempre pensando em ti. Se um homem faz alguma coisa que julgas poder prejudicar-te, ou diz algo que parece ser-te dirigido, não suponhas imediatamente: “ele pretende ofender-me”. O mais provável é que nunca pensasse em ti pois cada alma tem as suas próprias preocupações e os seus pensamentos não giram, as mais das vezes, em torno senão de si própria. Se um homem te falar colericamente, não penses: “Ele me odeia e quer ferir-me.” Provavelmente, alguém ou alguma coisa o encolerizou e, acontecendo encontrar-te, voltou a sua cólera sobre ti. Procede insensatamente, pois toda a cólera é insensata, mas nem por isso deves pensar falsamente a seu respeito.

Quando te tornares discípulo do Mestre, poderás sempre averiguar a veracidade do teu pensamento cotejando-o com o Seu. Pois o discípulo é um com seu Mestre e basta-lhe fazer retroceder o seu pensamento até ao do Mestre, para verificar se ambos estão de acordo. Se não estiver, o pensamento do discípulo é errôneo e ele deve modificá-lo instantaneamente, pois o pensamento do Mestre é perfeito, visto que Ele tudo sabe. Aqueles que por Ele ainda não foram aceitos, não podem fazer isto perfeitamente; porém serão grandemente ajudados se freqüentemente se detiverem a perguntar: “Que pensaria o Mestre a este respeito? Que faria ou diria Ele em tais circunstâncias?” Pois nunca deves fazer, dizer ou pensar o que não possas imaginar que o Mestre faça, diga ou pense.

Deves também ser verdadeiro no falar, exato e sem exageros. Nunca atribuas más intenções a outrem; somente o seu Mestre lhe conhece os pensamentos e bem pode estar agindo por motivos que nunca penetrassem em tua mente. Se ouvires uma narrativa contra alguém, não a repitas; pode não ser verdadeira; e, ainda que o seja, é mais bondoso nada dizer. Pensa bem antes de falar, a fim de não caíres em inexatidões.

Sê verdadeiro na ação; nunca pretendas parecer senão aquilo que és, pois todo fingimento constitui um obstáculo à pura luz da verdade, que deve brilhar através de ti como a luz do Sol através de um vidro transparente.

Precisas discernir entre o egoísmo e o altruísmo, pois o egoísmo reveste muitas formas e, quando pensas tê-lo morto, finalmente numa delas, surge noutra tão forte como sempre. Porém, gradualmente, o pensamento de auxiliar aos outros te encherá de tal modo, que não haverá lugar nem tempo para pensares em ti mesmo.

De outra maneira, ainda deves utilizar o discernimento: aprende a distinguir a Deus que está em todos e em tudo, por pior que seja a sua aparência exterior. Podes ajudar teu irmão pelo que tens de comum com ele – a Vida Divina. Aprende a despertar nele essa Vida, aprende a invocá-la nele; assim o salvarás do mal.

Continua...