"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

terça-feira, janeiro 22, 2013

"Deus", "Buda" e "Espírito" (2/2)

Masaharu Taniguchi


Muitos budistas pregam que o mundo da Essência é um mundo abstrato, vazio e indefinido. Se assim fosse, alcançar a iluminação seria identificar-se com o mundo abstrato, vazio e indefinido. Nesse caso, um iluminado seria uma pessoa abstraída, vazia e indefinida, com vida cotidiana sem base firme; ele não saberia como viver e se retiraria para um lugar ermo a fim de se isolar do mundo das ilusões. Muitos tendem a pensar que esse é o modo ideal de viver para quem alcançou a iluminação. É por isso que entre os budistas existem pessoas de tendência eremítica, segundo as quais a ideia de concretizar o paraíso na ilusória face da Terra é um apego desprezível. Para elas, o desejo de concretizar a felicidade no mundo terreno é um apego que deve ser repudiado.

A Seicho-No-Ie, entretanto, não diz que o mundo da Imagem Verdadeira é vazio e indefinido. Obviamente, não é possível vê-lo com os olhos carnais. O mundo perceptível aos sentidos é constituído de "retícula de tempo e espaço". Ele pode ser comparado a uma fotografia estampada num jornal: a imagem fotográfica é formada de pontilhados verticais e horizontais da retícula. Se não existisse a retícula, não existiria a imagem fotográfica. De modo semelhante, o mundo da Imagem Verdadeira, para se tornar visível como mundo terreno, precisa ser projetado através da "retícula de tempo e espaço". É por essa razão que não se pode ver fenomenicamente o mundo da Imagem Verdadeira em si, exatamente como ele é. A foto impressa de uma pessoa é pontilhada, bidimensional, plana e estática, enquanto que a pessoa concreta é tridimensional, tem volume, motilidade e é dinâmica. A pessoa e sua foto se identificam, mas são substancialmente diferentes. Da mesma forma, há grande diferença entre o mundo da Imagem Verdadeira e o mundo fenomênico, entre o homem-Imagem Verdadeira e o homem fenomênico, embora parecidos. Mas o fato de serem diferentes não significa que eles sejam alheios um ao outro. O segundo é uma espécie de fotografia do primeiro. O mundo fenomênico difere do mundo da Imagem Verdadeira porque sofre as limitações impostas pela "retícula de tempo e espaço", e é justamente por isso que se pode percebê-lo por meio dos cinco sentidos. Embora perceptível, o mundo fenomênico não é o mundo verdadeiro, assim como a foto de uma pessoa não é a pessoa em si. Entretanto, a pessoa está representada na foto com a limitação imposta pela retícula impressor planográfica. De modo análogo, o mundo da Imagem Verdadeira está representado no mundo fenomênico com as limitações impostas pela "retícula de tempo e espaço". Assim como é impossível imprimir uma foto sem usar a retícula, é impossível manifestar o mundo da Imagem Verdadeira no mundo fenomênico sem usar a "retícula de tempo e espaço".

Explicando melhor, o mundo fenomênico, que vemos com os olhos carnais, possui três dimensões (comprimento, largura e altura), enquanto que o mundo da Imagem Verdadeira possui infinitas dimensões. Mentalmente, podemos admitir um mundo que possua mais uma dimensão além da altura, da largura e do comprimento, mas não podemos representá-lo de modo perceptível aos cinco sentidos. E muito mais difícil ainda é representar um mundo de quinta ou sexta dimensão. Mas não poder representá-lo não significa que tal mundo não exista. Como já disse anteriormente, uma pessoa, ao ser representada em foto, perde muito de seus aspectos, tais como a espessura, a motilidade ou as sutis nuanças de cores que não aparecem nem em foto colorida. Também o mundo da Imagem Verdadeira, ao aparecer como existência tridimensional e perceptível aos sentidos, sujeita-se a limitações do tempo e do espaço, despojando-se de outras dimensões e de inúmeros aspectos complexos. Em outras palavras, o mundo fenomênico é aquele que ficou no "coador tridimensional", através do qual foram eliminadas as outras dimensões.

E como será o mundo infinitodimensional que não se submeteu ao "coador tridimensional", isto é, que não foi despojado das dimensões invisíveis? Ele não é um mundo amorfo, vazio e indefinido. É um paraíso infinitamente belo e majestoso, impossível de ser apreciado por nossos sentidos limitados pelas três dimensões. E nele há pessoas infinitamente belas e uma infinidade de seres belos em estado perfeito e harmonioso. Esse paraíso, que é o mundo da Imagem Verdadeira em seu estado natural e normal, não é perceptível aos cinco sentidos. Para se tornar perceptível, é preciso que dele sejam suprimidas a quarta, a quinta, a sexta, ...n dimensões, até a infinitésima dimensão, por meio da "retícula de tempo e espaço", mantendo-se apenas as primeira, segunda e terceira dimensões. Assim é que se manifesta o mundo fenomênico visível a nossos olhos. E este mundo, apesar de colorido, não retrata toda a beleza de matizes do mundo da Imagem Verdadeira, do mundo infinitodimensional; retrata apenas palidamente, dada a pobreza de recursos cromáticos existentes na Terra. Quem pratica a Meditação Shinsokan pode às vezes ter, pela clarividência, uma visão momentânea dessa beleza superior. Torna-se inclusive capaz de ver luzes diferentes da luz física, em forma de aura que envolve as pessoas ou as plantas. Todavia, essa beleza vista pela clarividência não traduz ainda a verdadeira beleza do infinitodimensional mundo da Imagem Verdadeira.

Em suma, quero dizer que o mundo da Imagem Verdadeira não é um mundo amorfo, indefinido e vazio. É um mundo tão maravilhoso que é impossível imaginá-lo e muito menos expressá-lo em palavras. É até preferível não dizer nada, pois a comparação com belezas do mundo fenomênico deturpa sua beleza. Para não reduzir a beleza infinita com adjetivos restritivos, diz-se que no mundo da Imagem Verdadeira não existe nada que seja limitado, definível, descritível. Na Matemática, grafam-se dois "nadas" (zeros) unidos (∞) para simbolizar o infinito. De modo análogo, dizemos "nada existe, nada existe" para simbolizar o infinitamente majestoso mundo da Imagem Verdadeira. Mas engana-se quem pensa que realmente nada existe nele, pois se trata de um mundo de suprema harmonia e perfeita ordem, constituído de Sabedoria infinita, Amor infinito e Vida infinita de Deus. Compreender isto é de fundamental importância. O mundo fenomênico ainda não está perfeito; está caminhando para a perfeição, refletindo cada vez mais perfeitamente o mundo da Imagem Verdadeira, e finalmente será um mundo sumamente harmonioso e infinitamente majestoso. É este o significado da frase "ser feita a vontade de Deus, assim na Terra como no Céu".

Quando a Seicho-No-Ie prega a "inexistência da matéria", alguns reagem dizendo que negar a matéria é negar todo e qualquer tipo de existência e que assim não é possível viver. Entretanto, a verdade é que, quando se pensa que este mundo e o homem são feitos de uma substância sólida e inflexível chamada matéria, a mente fica condicionada à matéria e perde a liberdade; consequentemente ficam tolhidos tanto o corpo como o ambiente e aumentam as dificuldades, os sofrimentos e as doenças. Quando, ao contrário, compreende-se que este é o mundo da luz constituído de Espírito divino, manifesta-se concretamente um mundo belo, repleto de luz.

A propósito, no começo do Gênesis consta: "No princípio (...) Deus disse: Haja luz, e houve luz". Isto significa que o Verbo (Deus), quando entra em vibração, transforma-se imediatamente em luz. O Verbo, entrando em vibração, concretiza-se infalivelmente. Esta Verdade é de suma importância. Como Deus é luz, onde Ele estiver, haverá infalivelmente luz. E como Deus é onipresente, no Universo há unicamente a luz. No Xintoísmo, essa luz que preenche o Universo é chamada "Grande Divindade que Ilumina o Universo" (Amaterasu), e no budismo Se chama Amida Buda, ou seja, "Buda de Luz Infinita". Na Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade, no capítulo "Sabedoria", consta: "A Sabedoria é Luz de Deus". "Luz" não se refere a nenhuma luz perceptível aos sentidos, mas à Sabedoria de Deus. Como não há palavra adequada para expressar a infinita Sabedoria divina, diz-se "luz". Quando a Sabedoria divina, que preenche o Universo, entra em vibração, torna-se luz que extingue a treva da ilusão. Referindo-se a isto, a sutra diz que "quando Deus Se revela, realizam-se o bem, a justiça, a misericórdia; por si se instala a harmonia, ajusta-se cada um em seu respectivo lugar e não há dissensões; não há quem lese o próximo, não há quem adoeça, não há quem sofra, não há quem seja miserável". Então surge o mundo unicamente de luz (bem), desaparecendo as cruéis lutas pela sobrevivência, a exploração dos fracos pelos fortes, as doenças, a feiura, a pobreza, etc.

Unicamente a Imagem Verdadeira (a luz, o bem) é existência verdadeira, sendo inexistente a ilusão (a treva, o mal) - esta visão extremamente positivista e otimista do mundo e da vida é a tônica da Seicho-No-Ie.

A respeito da "inexistência da ilusão", o sr. Kunitaro Yoshida fez ontem um excelente relato. Ele extraíra um rim porque estava praticamente deteriorado, sendo que o outro também estava afetado, mas não podia ser extraído. Felizmente, ele conheceu a Seicho-No-Ie e passou a praticar a Meditação Shinsokan. Durante essa prática, suas mãos postas se agitavam como se estivessem manifestando força curativa. Houve alguma melhora, mas custava a se curar. Percebeu então que a demora da cura se devia a uma ilusão (sentimento negativo) que existia em sua mente e, para eliminá-la, passou a ler fervorosamente o livro A Verdade da Vida. De repente, veio-lhe a iluminação: "A ilusão não existe! Ela é vazia!". Consequentemente, seu estado de saúde passou a melhorar rapidamente, cessando também a agitação de suas mãos durante a prática da Meditação Shinsokan.

É interessante que o sr. Yoshida tenha usado o termo "vazia", que exprime muito bem a "inexistência da ilusão". Até então, ele lutava contra a ilusão, procurando dominá-la, considerando-a existente: "Aqui existe uma ilusão, uma doença, uma dificuldade financeira...". Enquanto assim pensava, elas se apresentavam efetivamente e o atacavam como se fossem seus oponentes. Por mais que procurasse pensar que é filho de Deus e que a doença e a dificuldade financeira são inexistentes, a mente dele não conseguia transcendê-las. Esforçava-se para pensar que a ilusão não existe, mas sentia sua existência e não conseguia derrotá-la. Contudo, enquanto lia fervorosa e repetidamente o livro A Verdade da Vida, alcançou o despertar: compreendeu realmente que a ilusão não existe, que as doenças e as dificuldades financeiras não existem; que unicamente Deus existe. Compreendeu que ilusão, doença e dificuldade financeira são sinônimos de vazio. No vazio é possível colocar o que se quiser. Isso é uma tarefa muito fácil. Mas, num recipiente cheio de substância chamada ilusão, é difícil colocar nele a água do despertar, pois esta transborda. Por isso foi fácil para o sr. Yoshida despertar após perceber que a ilusão é o vazio. Consequentemente, ficou curado. Sua situação financeira também melhorou: embora estivesse desempregado, a pessoa que o sustenta foi promovida de cargo repentinamente, com seu ordenado aumentado em 25 ienes.

Como se vê, o erro está em pensar que a ilusão seja existência verdadeira. Por considerá-la existente é que surge a pergunta: "De onde veio a ilusão?". Ela não veio de lugar algum porque nunca existiu. Compreendendo realmente a sua inexistência, desaparece a pergunta "De onde ela veio?". Enquanto a pessoa fica perguntando de onde veio a ilusão, não adianta lhe explicar, pois está acreditando que a ilusão existe. A ilusão é como a treva: esta não vem de lugar algum; é simples ausência de luz. A doença também não é uma existência consistente, sendo simples ausência de Vida. Portanto, basta introduzir Vida. A Verdade é Vida. Logo, se dirigirmos intensamente ao enfermo palavras da Verdade tais como "Você é filho de Deus, é perfeito...", sua doença acabará desaparecendo.

O dr. Nakajima contou há pouco o caso de um indivíduo que durante dezoito anos fora evitado pelas pessoas ao seu redor devido ao mau cheiro que sua sinusite exalava, mas que foi curado assim que ouviu uma conferência da Seicho-No-Ie e percebeu: "Ah! Sou filho de Deus!". Esse homem passou então a curar os outros, pregando a cada um: "Você é filho de Deus!". Como vemos, até uma sinusite que durante dezoito anos parecia existir, era um vazio, uma ausência, pois desapareceu rapidamente quando se fez presente a Verdade da filiação divina. É indispensável saber que a causa das infelicidades é a ideia de que existem a ilusão, o pecado, a doença, a pobreza, etc.

Um sacerdote budista da seita Shinshu me confessou que ouvia zumbido insuportável na cabeça desde que fora atingido por uma bola de beisebol. Eu lhe disse o seguinte: "O senhor acredita em Buda, cuja luz é infinita, universal e onipresente. Ora, se a luz de Buda é onipresente, deve estar inclusive dentro de sua cabeça". Ele fez cara de quem entendeu, mas parece que não entendeu bem, pois mais tarde escreveu o seguinte em uma revista: "A luz onipresente de Buda não é algo como os raios X, que atravessam tecidos materiais". Ele pensa que a caixa craniana é existência verdadeira, que a matéria é existência verdadeira e que só os raios materiais são capazes de atravessá-la. Por isso contestou minhas palavras, escrevendo que "a luz búdica é a luz que salva a mente, e não a que atravessa tecidos materiais". Mas a verdade é que a matéria não é existência verdadeira. Tudo que se manifesta no mundo material é projeção da mente. Se surge uma avaria no cérebro, que é projeção da mente, é sinal de que há uma avaria na mente, uma ilusão na mente. E, se a luz búdica é a luz que ilumina a mente, certamente deve iluminar a ilusão da mente. Consequentemente, a avaria do cérebro (que é projeção da mente) deve desaparecer também. Como aquele sacerdote não compreende que a ilusão mental e a doença são uma coisa só e as considera separadas, acaba expondo o argumento disparatado de que "a luz búdica não se destina a atravessar corpos materiais porque não é raios X".

Conforme já disse, a matéria é "inexistente", é "vazia". O que existe de modo verdadeiro é unicamente a luz infinita e universal de Deus, de Buda. Ela preenche não só a nossa cabeça, mas todos os cantos do céu e da terra. Se o sacerdote budista tivesse compreendido isso, concluiria com certeza que a única existência verdadeira é a luz de Buda (Deus), quando lhe disse: "A luz infinita e onipresente de Buda está também dentro de sua cabeça". Mas, infelizmente, ele pensa que "a matéria é existência verdadeira" e que a mente existe separada da matéria. Por não compreender que a matéria é projeção da mente, afirma que a luz búdica só pode iluminar a mente, deixando de lado a matéria. Ele contrapõe o mundo material ao mundo mental, considerando-os duas existências independentes, razão pela qual não entende que a ilusão mental e a doença são uma coisa só.

Devido a frequentes curas que ocorrem na Seicho-No-Ie, muitos a julgam uma religião que cura males físicos. Estão enganados, pois a Seicho-No-Ie cura a mente; faz as pessoas compreenderem que o mundo é constituído unicamente de luz (bem), que não existe doença em parte alguma e que somente existe o paraíso. É essa conscientização que se projeta de forma tridimensional no mundo presente, realizando-se aqui o paraíso terrestre. Tanto o paraíso presente como o póstumo são projeções da mente.

O paraíso budista, que se diz criado por Buda "a uma distância de um trilhão de terras a oeste", é ainda um paraíso fenomênico, pois fica a oeste, não sendo o paraíso absoluto do mundo da Imagem Verdadeira. Dizem também que ele foi criado há dez ciclos (um ciclo corresponde ao tempo que uma rocha leva para ser desgastada pelo roçar da veste de um anjo que vem bailar sobre ela uma vez a cada 500 anos). Isto significa que tal paraíso não existia até há dez ciclos. Há uma teoria de que esse paraíso está sujeito à destruição porque teve início, e há uma outra segundo a qual ele jamais será destruído porque está sustentado pela força infinita de Buda. Seja como for, o "Paraíso do Oeste" é um paraíso fenomênico manifestado provisoriamente por Buda como recurso para salvar os homens.

Não digo que o "Paraíso do Oeste" não exista. Existir, ele existe, mas é um paraíso que foi manifestado pelo poder búdico há dez ciclos. Sendo um mundo manifestado, é um tipo de mundo fenomênico. Logo, é regido pela "lei mental da manifestação dos fenômenos", isto é, pela lei da atração dos semelhantes. Por conseguinte, a pessoa pode alcançar ou não esse paraíso, dependendo da frequência das vibrações de sua mente. Quem alcança o "Paraíso do Oeste" é aquele cuja mente sintoniza com Buda. E, para estabelecer essa sintonia, ora-se: "Retorno ao seio de Buda". Se a pessoa passa a orar não só da boca pra fora, mas com sinceridade e devoção, é porque, na verdade, Buda (ou Deus) desperta nela essa devoção a fim de salvá-la. Portanto, quando alguém ora com devoção, sintoniza com Buda (ou Deus) e se torna um com Ele. E, sendo um com Ele, é natural que vá ao paraíso (ou céu). O estranho é dizer que só se pode ir ao paraíso após a morte e que no mundo presente a pessoa deve sofrer com doenças e problemas mundanais, mesmo estando sintonizada e identificada com Buda (ou Deus). Já que o mundo fenomênico é projeção da mente, o ambiente e a situação da pessoa devem transformar-se em paraíso, assim que a frequência de sua mente sintonizar com Buda (ou Deus). Se isso não ocorre, é sinal de que a mente dessa pessoa não está sintonizada com Buda. Logo, é duvidoso que uma pessoa assim vá ao paraíso após a morte carnal.

Ao tecer estas considerações, referi-me ao Buda-expediente revelado provisoriamente como recurso para salvar as pessoas, e não ao Buda absoluto, que é a própria Verdade, a luz misericordiosa que preenche o Universo. Quando sintonizamos com o Buda absoluto e onipresente, o paraíso deve surgir aqui e agora.

O budismo prega a "inexistência da matéria". Ora, se a matéria é inexistente, se o corpo carnal é inexistente, não existe período anterior nem o posterior à morte carnal. A morte não constitui um marco divisório. Concluindo, quem não se tornou um com Buda e não está no paraíso aqui e agora, não estará no paraíso após a morte física.

O budismo prega também a "inexistência do eu", o que é deveras interessante. Se o "eu" não existe, o que é que irá ao paraíso após a morte carnal? Esta é uma questão importante. Se a matéria (o corpo carnal) não existe, não existe também a divisa entre o mundo presente e o póstumo; consequentemente, perde o sentido a frase "ir ao paraíso após a morte". Além disso, se o "eu" não existe, não há "eu" que deva ir ao paraíso. Conclusão: segundo o budismo, não existem o eu, nem morte nem o "ir ao paraíso após a morte".

Para compreender melhor essa colocação, é preciso que a mente dê um giro de 360º. É preciso abandonar a teimosia com que, até agora, considerava-se existente o "eu que não existe". Em outras palavras, é preciso proceder à "substituição do eu", abandonando o "velho eu". Até agora, pensava-se que o pequeno consciente enclausurado no envoltório material fosse o "eu", mas isso não é existência verdadeira. Nossa Essência genuína, nosso Eu genuíno, é um com o Buda absoluto que cobre todo o Universo, é um com Deus universal e onipresente. O Eu verdadeiro é a luz infinita, o amor infinito ou a Verdade absoluta de que está repleto o mundo da Essência. Quando se reconhece isto, compreende-se o verdadeiro sentido de "ir ao paraíso", o verdadeiro significado da estranha afirmação de que "vai-se ao paraíso após a morte", quando, na verdade, não existe nem o "eu" que deva ir ao paraíso, nem o corpo carnal que deva morrer. Na verdade, somos um com Buda, agora e aqui onde estamos; já estamos no paraíso. Se parece que estamos no mundo fenomênico, é porque, apesar de estarmos no mundo da Essência (Jissô), projetamos a ilusória imagem do mundo fenomênico e do corpo carnal pelo poder da mente. Portanto, somos um com Buda, mesmo ainda tendo o corpo carnal.

É por isso que, ao chamarmos por Buda (Deus), sentimo-nos um com Ele. Quando compreendemos esta Verdade, nosso corpo e tudo que existe ao nosso redor passam a refletir fielmente o Eu perfeito, impecável e harmonioso - que é um com Deus, que é um com Buda, de luz infinita, e que é um com a sabedoria infinita -, pois o mundo fenomênico é projeção de nossa mente. Nesse momento, então, este mundo se torna realmente um paraíso.

E quando chegar o momento de trocar a tela material onde estamos projetando a vida criada pela mente, por uma outra tela (espiritual) onde também projetaremos as imagens criadas pela mente, (isto é, quando morrer o corpo carnal), se nossa mente estiver concebendo o mundo só de luz e emitindo apenas vibrações de luz, será igualmente projetado na futura tela um mundo só de luz. Portanto, quem está manifestando o paraíso na vida presente, manifestará o paraíso espiritual quando desencarnar. Este é o significado de "ir ao paraíso após a morte".

Creio que agora ficou bem clara a razão por que o homem, que na Essência é um com Deus, às vezes não projeta o paraíso em sua vida tanto no mundo terreno como no espiritual, e por que o mesmo homem, que na verdade não nasce nem morre, parece nascer e morrer. Na Sutra da Majestosa Vida Eterna, traduzida por Hokken, lê-se: "Buda não vem de lugar algum e não vai para lugar algum; não nasce nem morre; não está no passado, nem no presente nem no futuro". Nós também não viemos de lugar algum, não vamos para lugar algum, transcendemos o passado, o presente e o futuro, e somos, aqui e agora, um com Buda. Fazer as pessoas conscientizarem esta Verdade é a missão da Seicho-No-Ie.

 
(Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 21", pp. 28-42)
 
 

domingo, janeiro 20, 2013

"Deus", "Buda" e "Espírito" (1/2)


Masaharu Taniguchi


A Verdade é uma só, mas a forma de expressá-la varia conforme a hora e a circunstância; e isso é o certo. Sakyamuni, por exemplo, expôs a Verdade pregando inicialmente o ensinamento do "pequeno veículo" e no final o do "grande veículo". Aparentemente esses dois ensinamentos diferem entre si, mas nenhum dos dois está errado. É a mesma Verdade expressa de modo adequado ao nível de evolução dos ouvintes. Também nesta explanação sobre a Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade, a Verdade será exprimida de acordo com o nível de evolução das pessoas aqui presentes.

Como todos já devem saber, são enormes as bênçãos proporcionadas por esta sutra. Ontem mesmo, o sr. Hidetsuna Takiuti relatou o caso de certa senhora que estava sofrendo por causa de uma gravidez extra-uterina. Como a trompa doía muito, o médico recomendara esfriar o local com gelo para atenuar a dor. Mas, quando o estado se agravou a ponto de necessitar de uma intervenção cirúrgica - a trompa estava para se romper e causar a morte por hemorragia -, foram chamar o sr. Takiuti. Este visitou a enferma, falou-lhe sobre os ensinamentos da Seicho-No-Ie e começou a ler a sutra sagrada. Enquanto a leitura prosseguia, a enferma retirou a bolsa de gelo, dizendo que a dor desaparecera, e acabou adormecendo. No dia seguinte, não estava sentindo mais nada, e, dias depois, levantou-se e recomeçou a trabalhar, completamente restabelecida!

Se era realmente gravidez extra-uterina, não sei. Porém é fato que uma doença que o médico julgara muito grave foi curada com uma só leitura da sutra sagrada, tamanho é o seu poder!

Esta sutra foi-me inspirada certo dia, quando senti irresistível vontade de escrever algo, e escrevia num só fôlego. Passemos então à explanação, lendo o trecho inicial intitulado "Deus".

SUTRA SAGRADA "CHUVA DE NÉCTAR DA VERDADE"

- DEUS -

Um dia, o Anjo, vindo à Seicho-No-Ie, recita:

"O Deus da Criação transcende os cinco sentidos e também o sexto sentido;
Sagrado;
Supremo;
Infinito;
Mente que permeia o Universo.
Vida que permeia o Universo,
Lei que permeia o Universo;
Verdade,
Luz,
Sabedoria,
Amor Absoluto - Isto é a Grande Vida.

Sendo essa a natureza verdadeira de Deus absoluto, quando Deus se revela, realizam-se o bem, a justiça, a misericórdia; por si se instala a harmonia, ajusta-se cada coisa em seu respectivo lugar e não há dissensões.
Não há quem lese o próximo,
não há quem adoeça,
não há quem sofra,
não há quem seja miserável.

Deus é o Todo de tudo.
Sendo Deus o Todo e o Absoluto, nada há além de Deus.
Deus cobre toda a Realidade.
De tudo aquilo que há, nada há que não tenha sido criado por Deus.

Deus, ao criar todas as coisas, não usa barro, não usa martelo, não usa cinzel,
não usa ferramenta nem matéria-prima de espécie alguma.
Cria unicamente com a Mente.
A Mente é o Criador de tudo, a Mente é a Substância que preenche o Universo.
A Mente é Deus onipotente e onipresente.

Quando a Mente deste Deus onipotente, deste Deus perfeito, entra em vibração e se torna Palavra, desenvolve-se todo o Fenômeno e todas as coisas passam a ser.
Todas as coisas são Mente de Deus, tudo é Palavra de Deus;
tudo é Espírito,
tudo é Mente.
Nada há que seja feito de matéria. A matéria é apenas sombra da mente; ver a sombra e considerá-la Realidade é ilusão.
Cuidai para que não vos apegueis à ilusão.

A Realidade é Eterna, por isso não perece.
A ilusão é efêmera e em breve se desfaz.
A Realidade, porque é livre, não conhece sofrimentos;
a ilusão, porque é uma forma de apego, é farta de dores.

A Realidade é Verdade, a ilusão é falsidade.
A Realidade transcende os cinco sentidos,
transcende inclusive o sexto sentido
e não se projeta à percepção do homem.
 
Aqui diz o que é Deus. Entre os budistas, existem muitos que detestam o termo "Deus" e dizem: "Eu acredito em Buda; por isso, não posso aceitar uma entidade estranha chamada Deus". A palavra "Deus" é usada tanto no xintoísmo como no cristianismo, normalmente com o significado de "Criador".

O budismo é considerado ateu porque não reconhece a existência de um "Criador". Na Índia, na época do aparecimento de Sakyamuni, o bramanismo pregava que este mundo foi criado por Mahesvara, a divindade suprema. Sakyamuni criticou com veemência tal doutrina, dizendo que, se este mundo tivesse sido criado por um Criador bom e onipotente, não existiriam as cruéis lutas pela sobrevivência, guerras, terremotos, inundações e outras catástrofes. "Se um ente divino criou um mundo tão mau, ele é um ser cruel, sem piedade nem amor. Se ele tem amor e compaixão, por que não demonstra? Se não consegue demonstrá-los, então é um ser fraco e incapaz. E se tal divindade é onipotente e controla o mundo conforme sua vontade, então é um ser impiedoso, cruel, que usa sua onipotência para criar um mundo tão imperfeito e cheio de desgraças. Portanto, se tal Criador existe, ou é fraco, ou um onipotente cruel. Mas é impossível existir uma divindade tão imperfeita e contraditória." Foi assim que Sakyamuni pregou, negando a existência do Criador deste mundo. Esta é a razão por que o budismo é considerado ateu e os budistas rejeitam qualquer ensinamento que utilize a palavra "Deus". Eles dizem: "Isso contraria os ensinamentos de Buda, pois o budismo não admite a existência de Deus".
 
Entretanto, se eles encaram Deus dessa forma, é porque têm a ideia preconcebida de que este mundo é feito de matéria. A Seicho-No-Ie parte de uma grande premissa-Verdade de que "a matéria não é existência verdadeira". Se a matéria é apenas aparência, devemos compreender que a expressão "este mundo", empregada em frases como "este mundo criado por Deus", não se refere ao mundo material, que não é existência verdadeira. Sakyamuni negou o "mundo material" e o "criador do mundo material", explicando que a força que manifesta este mundo aparente é a "ilusão". Segundo ele, tudo que é fenomênico tem origem na ilusão. Isto quer dizer que o mundo material, imperfeito e repleto de desgraças e sofrimentos, é produto de ilusão. De fato, esta teoria é bem mais racional do que uma teoria ingênua de criação por Deus.
 
Contudo, a Seicho-No-Ie diz que este mundo aparente é manifestação da mente; tudo neste mundo perceptível aos sentidos é projeção da mente. Em outras palavras, este mundo aparente não foi criado por Deus, mas pela mente; a mente é a criadora do mundo fenomênico. Neste ponto, a Seicho-No-Ie se identifica com o budismo e discorda do cristianismo ingênuo que acredita que o mundo material, como ele é, foi criado por Deus, mas concorda totalmente com os ensinamentos de Cristo.
 
Quando os cristãos despertarem realmente e deixarem de considerar como criação de Deus este mundo material cheio de imperfeições, tragédias, doenças, conflitos e guerras, certamente todas as igrejas cristãs passarão a pregar como está fazendo a Seicho-No-Ie. Aqueles que pregam o cristianismo considerando este mundo material como existência verdadeira e afirmando que Deus é o Criador deste mundo em que se confrontam a luz e a treva, o bem e o mal, não resistem ao argumento ateu de que "não pode existir um Criador tão fraco e cruel; e, se existisse, não mereceria confiança". Portanto, para propagar o verdadeiro ensinamento de Cristo, deve-se imperiosamente compreender que o mundo da matéria não é existência verdadeira, não é o mundo criado por Deus, e que o mundo perfeito, criado por Deus perfeito, existe em algum lugar que não o mundo da matéria.
 
Jesus diz claramente na Bíblia: "O meu reino não é deste mundo". Ele afirma que o seu reino não é o mundo material, e jamais disse que este foi criado por Deus. Quando interpretamos o cristianismo e o budismo com base na Verdade de que "a matéria não existe", como faz a Seicho-No-Ie, compreendemos que Deus e Buda são um só ser. Se interpretarmos o termo "mundo" da expressão bíblica "Deus criou o mundo..." como mundo material, estamos errando. Mas, se o interpretamos como mundo da Imagem Verdadeira, absoluto, indestrutível e eterno, que transcende o mundo material, então é correto que o Criador deste mundo seja Deus, que é Buda ao mesmo tempo. Seus atributos estão enumerados na sutra sagrada com as seguintes palavras: "Infinito, Mente que permeia o Universo, Vida que permeia o Universo, Lei que permeia o Universo, Verdade, Luz, Sabedoria, Amor absoluto - isto é a Grande Vida. Sendo esta a natureza verdadeira de Deus absoluto...". E esta "Grande Vida" sumamente maravilhosa, que é a Verdade absoluta, luz infinita e eterna, que transcende o mundo material e os três mundos (passado, presente e futuro) é o próprio Buda.
 
O budismo é ateísta, mas prega a inexistência da matéria. Se a matéria não existe, o que existe então? - esta é a questão que merece reflexão. É difícil enunciar a resposta às pessoas que estão vendo a matéria com seus olhos e pensando que ela existe. É preciso que elas evoluam interiormente. À pergunta "Se a matéria não existe, o que existe então?", respondo: existe a Imagem Verdadeira (Jissô). E que é a Imagem Verdadeira?
 
Ontem à noite um adepto me disse: "Professor, quero primeiramente saber o que é a Imagem Verdadeira, pois não é possível contemplá-la durante a prática da Meditação Shinsokan sem saber o que ela é". Respondi que, mesmo não sabendo o que é a Imagem Verdadeira, é possível contemplá-la, desde que se proceda conforme as instruções, pois a Imagem Verdadeira está dentro de cada um de nós. Para chegarmos à Osaka, por exemplo, não precisamos saber detalhadamente como é essa cidade e onde ela fica. Já que ela existe, basta-nos adquirir a passagem e tomar o trem que para lá se dirige. Chegando lá, conheceremos Osaka. Da mesma forma, basta praticarmos a Meditação Shinsokan para nos dirigirmos à Imagem Verdadeira, seguindo as instruções. Assim, chegaremos à Imagem Verdadeira. Este foi o teor de minha resposta.
 
Comparei a busca da Imagem Verdadeira a uma viagem de trem, mas a Imagem Verdadeira não está em local tão distante como Osaka; ela está bem perto: dentro de nós mesmos. Ou melhor, somos a própria Imagem Verdadeira, e conscientizar isso é de suma importância.
 
Há pouco, o dr. Nakajima disse que "todos parecem budas, todos parecem iluminados". Isso é verdade. Mas também é verdade que "todos já são budas e iluminados", pois realmente o são quando contemplamos a Imagem Verdadeira deles. Parece haver também muitas pessoas que "ainda não estão iluminadas", e isso também é verdade. Essa diversidade decorre da diferença do grau de compreensão da Verdade. Por exemplo, quando digo que os senhores são filhos de Deus, uns conscientizam que realmente o são; outros concordam, mas sem muita convicção; e outros não conseguem entender que são filhos de Deus. O grau de despertar difere de uma pessoa para outra devido à diferença de carma (carga de vibrações mentais que cada um acumulou no passado). Consequentemente, diferem também a manifestação exterior de cada um.
 
O carma, segundo a "parábola do leão" citada em uma escritura budista e mencionada pelo dr. Nakajima, são vibrações mentais, hábitos e influências do meio ambiente gravados na mente da pessoa. Segundo essa parábola, um filhote de leão cresceu no meio de carneiros e pensava que era um deles. Se tivesse sido criado entre cachorros, viveria e se comportaria como um cachorro; se entre gatos, comportar-se-ia como um gato. Isso quer dizer que existem pessoas que não se comportam como filhos de Deus que são, devido à influência que receberam do ambiente em que cresceram. O leão da parábola, entretanto, descobriu sua natureza verdadeira quando ouviu pela primeira vez um urro autêntico de leão que soou na floresta. A vibração do urro (do Verbo) despertou o leão que estava adormecido dentro dele. Este é o despertar da Imagem Verdadeira.
 
No caso do ser humano, a vibração das palavras "Você pensa que é filho do pecado, mas é filho de Deus!" desperta-o, e ele percebe que traz o filho de Deus dentro de si, ou melhor, percebe que ele é filho de Deus. Descobre a sua natureza verdadeira, abre os olhos que vêem a Imagem Verdadeira. O que desperta a Imagem Verdadeira é a vibração das palavras pronunciadas pela Imagem Verdadeira. Recitar as orações budistas "Namu-myo-ho-ren-gue-kyo" ou "Namu-amida-butsu" é usar o poder da palavra a fim de despertar a Imagem Verdadeira. Ler A Verdade da Vida é também usar o poder da palavra para fazer vibrar a Imagem Verdadeira.
 
Os senhores, lendo A Verdade da Vida, ou assistindo a uma palestra da Seicho-No-Ie, percebem: "Ah! Então sou filho de Deus!". Isso, no budismo, é chamado "despertar". Trata-se de um aclaramento repentino da alma. Entretanto, mesmo percebendo que são filhos de Deus, nem todos conseguem se comportar imediatamente como tais. Um leão que foi criado no meio de carneiros, mesmo descobrindo sua identidade, comporta-se diferentemente de outros leões que cresceram como tais em seu próprio habitat; vez ou outra, deixa transparecer seu hábito, sendo dócil como um carneiro. Do mesmo modo, o ser humano, mesmo compreendendo que sua filiação é divina, não consegue se livrar repentinamente de antigos hábitos adquiridos. Apesar de ter lido A Verdade da Vida, alcançado o despertar e compreendido "Ah! É isso mesmo! O homem é filho de Deus!", as qualidades de filho de Deus nem sempre se manifestam satisfatoriamente na vida concreta. Isso porque o grau de despertar difere conforme o carma de cada um. Seria mais correto dizer que não é propriamente o grau de despertar que difere, mas sim o grau de carma, de ilusão, de hábito. Na Imagem Verdadeira (natureza divina) somos sempre perfeitos, assim como o Sol está sempre brilhando com a mesma intensidade, tanto no dia ensolarado como no dia nublado ou chuvoso. A claridade difere conforme o céu esteja limpo ou encoberto, mas isso não significa variação na intensidade da própria luz do Sol. A diferença é o grau de densidade das nuvens. Também na Imagem Verdadeira e no despertar somos sempre perfeitos, todos somos filhos de Deus que brilhamos sempre com a mesma intensidade, mas cada um de nós, em vez de exteriorizar sua imagem verdadeira e perfeita, apresenta-se de modo diferenciado em virtude da diferença do grau de ilusão ou grau de dissipação da ilusão. E isso causa a impressão de que há diferença no grau de despertar de cada um.
 
Pois bem, o momento em que alguém percebe que é filho de Deus através do "despertar", corresponde ao momento em que o Sol aparece por entre as nuvens. Vendo o Sol, compreende-se que ele existe e que a intensidade de sua luz não varia. O que faz parecer que a intensidade da luz solar diminui é a presença de nuvens. Mas o Sol e as nuvens são existências distintas, assim como nós somos seres distintos das ilusões mentais. Ao compreendermos isto, as "nuvens" de ilusão já não existem para nós. O fato de elas parecerem existir corresponde ao fato de enxergarmos a luz irradiada por uma estrela que já se extinguiu há muito tempo. Se a estrela parece existir apesar de extinta, é porque, conforme a distância, sua luz demora dez, cem ou mil anos para chegar à Terra. Da mesma forma, continua parecendo que a ilusão existe, apesar de ter sido extinta quando percebemos que já somos filhos de Deus.
 
Na verdade, quando compreendemos com emoção "Oh! Realmente o homem é filho de Deus!", já estamos iluminados e livres da ilusão, do carma; mas muitas vezes permanece por algum tempo um antigo hábito, assim como continua brilhando por algum tempo a luz de uma estrela extinta. Isto é, mesmo após despertarmos para a Verdade de que somos filhos de Deus, de vez em quando imitamos os pecadores, assim como um leão criado entre carneiros imita-os de vez em quando. Mas o agente de tal ato é o carma, e não o nosso Eu. No momento em que compreendemos que somos filhos de Deus, o falso eu já está substituído pelo Eu Verdadeiro. Até então, confundíamos o carma com o nosso Eu, mas agora distinguimos claramente do carma o nosso Eu, que é filho de Deus, e sabemos que o carma não é existência verdadeira e que Deus é tudo. Por conseguinte, por mais que o carma se automanifeste e se autodestrua, já não nos prendemos a ele. Ao compreendermos que Deus é tudo, que a ilusão não é existência verdadeira e que existe unicamente a luz de Deus, surge no plano fenomênico o mundo unicamente de luz, o mundo ideal de provisão infinita, onde "realizam-se o bem, a justiça, a misericórdia, por si se instala a harmonia, ajusta-se cada um em seu devido lugar e não há dissensões, não há quem lese o próximo, não há quem adoeça, não há quem sofra e não há quem seja miserável", pois, segundo a lei da manifestação do fenômeno, concretiza-se no mundo fenomênico somente aquilo que for reconhecido pela mente.

Portanto, o mais importante é conhecermos bem o mundo da Imagem Verdadeira, onde há unicamente a luz, o bem e a felicidade; que somente ele é existência verdadeira; que o mundo da treva, do mal e da infelicidade não é existência verdadeira, embora assim pareça. E como será o mundo da Imagem Verdadeira? A sutra diz a respeito: "Deus, ao criar todas as coisas, não usa barro, não usa madeira, não usa martelo, não usa cinzel, não usa ferramenta nem matéria prima de espécie alguma; cria unicamente com a Mente. A Mente é o Criador de tudo, a Mente é a Substância que preenche o Universo, a Mente é Deus onipotente e onipresente. Quando a Mente desse Deus onipotente, desse Deus perfeito, entra em vibração e se torna Palavra, desenvolve-se todo Fenômeno e todas as coisas passam a ser".

A expressão "todo Fenômeno" que aparece nesse texto refere-se a "todas as coisas do mundo da Imagem Verdadeira". E de que forma Deus as criou? Ele as criou com a vibração de Sua Mente, e não com ingredientes materiais como quem faz coisas no mundo terreno. Sobre esse assunto, recomendo que se leia no volume 11 desta coleção o capítulo sobre a interpretação do Gênesis, que explica minuciosamente a criação do mundo da Essência e do Universo (Jissô).
Continua...
 
 
Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 21", pp. 15-28
 
 

sexta-feira, janeiro 18, 2013

A Verdade extingue a falsidade


Masaharu Taniguchi


O que não existe verdadeiramente desaparecerá, se o enfrentarmos com a existência verdadeira. O que é falso desaparecerá, se o enfrentarmos com o verdadeiro. A aparência deve ser enfrentada somente com a Imagem Verdadeira. Somente a realidade pode destruir a irrealidade. Somente a Imagem Verdadeira possui força para eliminar a falsa aparência. Para provar a inexistência da treva, não adianta discutirmos na treva; basta acender a luz. Se alguém está sofrendo de doença, basta fazê-lo compreender que a Imagem Verdadeira da Vida do homem é a própria Vida perfeita e inadoecível de Deus, para que sua doença desapareça. Se alguém está sofrendo por causa de pecados cometidos, basta fazê-lo compreender a Verdade de que o pecado não existe verdadeiramente porque Deus jamais o criou, e então seus pecados e os sofrimentos decorrentes acabarão desaparecendo. Eliminar desse modo os pensamentos errôneos e ilusórios, que constituem a causa de todos os sofrimentos, é o objetivo da Seicho-No-Ie.

Quando pregamos esta Verdade, inúmeras divindades celestiais nos abençoam, derramam palavras de louvor sobre nós, dizendo "Muito bem! Muito bem!" e colaboram conosco na obra de iluminação da humanidade. "Divindades", aqui, referem-se aos espíritos das esferas bem elevadas do mundo espiritual que atingiram o grau divino. À medida que a luminosa Verdade sobre a Imagem Verdadeira da Vida vai sendo difundida por nós em ação conjunta com os espíritos da esfera celestial, vão se extinguindo as ilusões (pensamentos errôneos). Extintas as ilusões, desaparecerão da Terra todos os sofrimentos e infelicidades, que são produtos das ilusões, e este mundo será um paraíso iluminado, repleto de felicidade.


Do livro: "A Verdade da Vida", vol. 21, pp. 52-53


quarta-feira, janeiro 16, 2013

A Matriz Divina e o mundo da projeção

Dárcio Dezolt


Se alguém vai a uma locadora, escolhe um filme e o leva para vê-lo no final de semana, o filme já estaria inteiro e consumado com ele, somente à espera de ser  projetado numa tela. E quando a sua projeção se iniciar, a mente da pessoa será conduzida às emoções previstas pelo diretor do filme para serem provocadas por ele. É desta forma que atua a suposta “mente humana”: deixando-se mover e se emocionar facilmente por quaisquer  imagens, até mesmo estando ciente de serem elas uma projeção de cenas fictícias filmadas. E se o filme terminar e for exibido de novo, novamente as mesmas emoções serão geradas da mesma forma!

Não existiam dois filmes: um na caixa retirada da locadora e outro sendo projetado, quadro a quadro, na tela. O filme era um só; e a sua projeção era tão somente o seu desdobramento.

Quando os ensinamentos absolutos revelam que “não existe vida material”, e que A VIDA REAL ESTÁ EM NÓS, EM DEUS, ESPÍRITO, SENDO TUDO, buscam instruir a pessoa a “tirar os olhos da tela do mundo” para sua atenção poder se voltar totalmente à ATIVIDADE REAL EM SI MESMA, EM SUA CONSCIÊNCIA ABSOLUTA, QUE É DEUS! DEUS É TUDO!  E ESTE TUDO JÁ  “ESTÁ FEITO” (Apoc. 21: 6), SENDO, PORTANTO, PERFEITO!

Em nossa Consciência Iluminada está a “Semente Divina” que aparentemente se desdobra como “aparências em mutação”. A MATRIZ DIVINA, sendo PERFEITA, haverá de se desdobrar como “imagens de harmonia”, se a pessoa desacreditar completamente da “crença no bem e no mal”,  deixando de  viver apreensiva , preocupada ou temerosa,  por não tirar os olhos das “aparências”.

“Não temais, pequenino rebanho, vosso Pai se agradou em dar-vos o Seu Reino” (Lucas, 12: 32), disse Jesus! Estava explicando o processo verdadeiro de como o Universo funciona! Pararmos de “olhar imagens na tela” para reconhecermos e contemplarmos a “MATRIZ PRONTA”, com todas as IMAGENS VERDADEIRAS mantidas permanentemente PERFEITAS por Deus!

É por esse motivo que o ensinamento absoluto diz que “mundo material não existe”, e que existe unicamente DEUS! Se você entender esta ilustração, saberá porque mais vale a pena “contemplar” a MATRIZ DIVINA, em sua própria Consciência , do que deixar de fazê-lo e ficar de olhos nas “aparências visíveis”, ora se alegrando, ora se entristecendo,  por vê-las ora sendo boas e ora sendo más! Ao fazer isso, você não estará “vendo o que Deus faz”, mas estará unicamente testemunhando a atividade ilusória da “mente carnal”, da fraudulenta  “crença coletiva” no bem e no mal, isto é, estará unicamente acreditando numa ILUSÃO!


domingo, janeiro 13, 2013

Os puros de coração são insensíveis ao mal


Joel S. Goldsmith


Ninguém pode desafiar a Deus e, mais especialmente, ninguém pode desafiar a Deus uma vez que tenha tido contato com alguém que conheça a Verdade. É bem verdade que a pessoa errada aparentemente parece prosperar durante certo tempo, e instituições maléficas parecem dominar o mundo humano. E por quê? Porque não há a compreensão deste princípio espiritual. Mas deixe que alguém tente maquinações maléficas contra uma pessoa de mente pura, e cedo se notará que não só seu poder do mal é destruído, mas, se ele não se emendar em seus caminhos, destruir-se-á a si mesmo, ao final. O mal sempre anda às soltas, até o momento em que se choca contra o puro de coração.

Este ponto está bem ilustrado no caso de um hipnotizador que estava tentando divertir os membros de uma família de metafísicos, hipnotizando-os, e que constatou não estar podendo hipnotizar ninguém do grupo, mas que, numa tentativa final de exibir seus poderes, decidindo-se por hipnotizar a sua própria esposa, com quem sempre tinha sido bem sucedido, também fracassou. Tinha ele encontrado em seu caminho os puros de coração, aqueles que conscientemente sabiam que havia somente a Mente única atuando naquela sala. Isso anulou a crença de que uma pessoa possuía uma mente que pudesse ser utilizada para dominar outra pessoa. Enquanto todos os que estavam na sala acreditavam que havia duas mentes, o grupo podia ser hipnotizado; mas, quando surgiu uma pessoa que tinha uma convicção suficientemente forte de que havia uma só mente na sala, uma mente que não podia destruir a si mesma, o hipnotizador já não podia mais atuar com sucesso.

É assim que se dá na sua experiência individual, e na minha, quando nos tornamos puros de coração, isto é, no momento em que chegamos à convicção de que Deus é a Mente de cada um de nós, e que nenhum de nós possui qualidades ou atividades separadas, ou à parte da atividade daquela Mente única, e que inexiste outra mente que estivesse operando, ou que pudesse vir a operar. Somente as atividades e qualidades que emanam da Mente única estão se manifestando, e estas são qualidades de inteligência, qualidades de amor e vida, qualidades do puro ser. Se surge, então, alguém em nossa experiência, que se proponha a nos prejudicar, ou hipnotizar, suas tentativas serão anuladas, e ele não terá nenhum poder sobre nós.

Tratemos de nos tornar puros de mente, de chegar à compreensão de Deus como Mente, Vida e Alma individual. Só então, as qualidades de Deus podem fluir para fora de nós, e envolver o mundo.

Contemplemos o Cristo sentado entre os olhos de cada indivíduo; contemplemos somente o Cristo como a Substância e a lei de cada condição; e não haverá nenhum dualismo em nossa consciência, e nenhum dualismo poderá voltar-se contra nós. Assim, anulamos ou invalidamos a atividade do mal no indivíduo, como fez Jesus com Pilatos: “Tu não terias nenhum poder contra mim, exceto se te fosse dado de cima”. (João 19:11).


quinta-feira, janeiro 10, 2013

Manifestar o filho de Deus no mundo fenomênico

Masaharu Taniguchi


Manifestar no mundo fenomênico o filho de Deus, que é a Imagem Verdadeira do ser humano – esta é a finalidade da vida. O mundo fenomênico abrange tanto o mundo material quanto o mundo dos espíritos. A vida terrena do homem consiste numa sequência parcialmente determinada, pela qual o filho de Deus, ou seja, o homem-Imagem-Verdadeira (semente), deve passar ao se projetar no mundo fenomênico constituído de tempo e espaço. Isso é comparável ao fato de uma semente de flor se submeter ao Sol e à chuva, germinar, crescer, produzir botões e florescer.

O homem-Jissô, que é filho de Deus, passa por uma sequência de acontecimentos, ora desfrutando a felicidade, ora lutando contra adversidades, para se projetar perfeitamente no mundo fenomênico. Como essa projeção se faz através do “acúmulo de vibrações mentais”, o qual o ser humano tem liberdade de pensamento para purificar ou macular ainda mais com a ilusão, o processo de manifestação do homem-Imagem-Verdadeira no mundo fenomênico (o processo de evolução) pode ser acelerado ou retardado conforme a mente de cada um. A aceleração do processo de evolução espiritual é conseguida pela purificação da mente. O melhor meio para purificar a mente consiste em despertar para a Imagem Verdadeira, que é pureza absoluta, e o segundo meio consiste em transcender os desejos materiais. E o melhor meio para transcender os desejos materiais é compreender a Verdade da inexistência da matéria.

Quem não consegue compreender esta Verdade, tem duas alternativas: ou busca voluntariamente os sofrimentos como treinamentos para transcender os prazeres materiais, ou busca os prazeres materiais e colhe sofrimentos, para finalmente transcender os desejos materiais. Quem opta pela primeira alternativa sofre voluntariamente, e quem escolhe a segunda sofre involuntariamente como consequência de buscar avidamente a felicidade na matéria.

Além desses dois modos de sofrer, há um terceiro: é quando a pessoa experimenta sofrimentos resultantes da turbulência que ocorre em seu perispírito como processo de desintegração do carma negativo formado no passado. Eis as razões de os sofrimentos não serem eliminados tão facilmente e as comunicações do mundo espiritual enaltecerem o valor dos sofrimentos e sacrifícios. 

(Revelação Divina de 15 de setembro de 1933)
 
 
 

terça-feira, janeiro 08, 2013

Krishnamurti e Sri. Yuktéswar definem a iluminação

Alsibar


Krishnamurti e Sri Yukteswar

O que é a iluminação? Apesar de tantas explicações, por que este termo ainda é tão incompreendido? Vamos conhecer a posição de dois grandes mestres no assunto e refletir juntos sobre estas e outras questões.

Um dos termos mais incompreendidos no mundo místico, espiritualista ou religioso é “iluminação”. A grande dificuldade reside no fato de que, neste campo de “conhecimento” não pode haver incompreensão ou equívocos - senão corremos sérios riscos de nos iludirmos. Lamentavelmente a própria tradição contribuiu para esses mal entendidos. Quem já não ouviu falar no dia da Iluminação de fulano ou sicrano? Há inclusive comemorações neste dia, para celebrar o grande acontecimento. Ao ver atitudes assim, o buscador leigo - e até os mais espertos - ficam aguardando também o seu “grande dia” em que eles deixarão de ser um “reles mortais” e se tornarão Budas, ou iluminados. Será que é assim mesmo? Como saberemos? A quem recorreremos neste caso? Aos próprios iluminados, não é mesmo?

Não sabemos o que os iluminados mais antigos realmente disseram acerca desse assunto. As informações que temos são escassas e a fidelidade delas é questionável. Então, existem informações mais modernas e fidedignas sobre este assunto? Recentemente, surgiram duas grandes vertentes: aquela iniciada por Babaji e divulgada ao mundo por Paramahansa Yogananda e a de Krishnamurti. Surpreende-me o quanto estes dois “representam” caminhos tão diferentes - mas ao mesmo tempo - fluem, em essência, para uma mesma e única práxis . Paramahansa Yogananda é considerado um legítimo representante da Bhakta Yoga. Sri Yuktéswar foi um Jnana Iogue (encarnação da sabedoria).  E Krishnamurti  foi considerado um  verdadeiro Maha-iogue, (encarnação da Yoga Suprema)  segundo as palavras de Pupul Jayakar e outros estudiosos do assunto que conviveram com ele.
Então o que diz a tradição de Babaji? Vejamos um diálogo entre Yogananda e seu mestre Sri. Yuktéswar sobre o encontro com Deus, a Verdade ou Iluminação:

Certa vez, Yogananda fez a seguinte pergunta a seu Mestre:

- “Mestre, quando eu encontrarei Deus?" O mestre respondeu-lhe:
- Oh… Você já o encontrou.
- Não, mestre, creio que não.
- Sim… você já o encontrou. Estou certo que você não está esperando encontrar um personagem memorável, enfeitando um trono num cantinho antiséptico do Cosmo. Percebo, entretanto, que você imagina que a posse de  poderes miraculosos é a prova de que alguém encontrou Deus. Não. Pode-se alcançar o domínio sobre o Universo inteiro e, no entanto, descobrir que Deus se esquiva. O progresso espiritual é medido pela PROFUNDEZA DA BEM-AVENTURANÇA alcançada em meditação”.

O critério de Iluminação ensinado por Sri. Yuktéswar à Yogananda aplica-se perfeitamente à Krishnamurti. São famosos seus êxtases místicos, seus ataques, os desmaios devido à  intensidade da Ananda ou Bem-Aventurança. Esses êxtases aconteceram em diversas fases de sua vida e foram registrados tanto por suas biógrafas, quanto pelo próprio Krishnamurti no livro “O Diário de Krishnamurti”. Assim, percebemos que Krishnamurti não  foi apenas uma espécie de “teórico” da nova espiritualidade. Ele viveu plenamente aquele estado que denominamos de Iluminação.
O problema é que muita gente confunde expansão da consciência com iluminação. E não há, necessariamente, uma relação entre as duas. Você pode expandir sua conciência, ter visões e sensações extra-sensoriais por vários outros meios. Através do álcool, drogas, plantas alucinógenas, técnicas mântricas, visualizações, respiração controlada e muitas outras, qualquer um pode expandir momentaneamente sua consciência. Mas, se quando passa a “experiência” a pessoa continua vazia e neurótica e se isso causa dependência, ou prejuízos ao cérebro, como  pode ser considerado Iluminação? Além do mais, iluminação é um estado alcançável através de esforços e disciplinas? É algo que nos exercitamos, como quem exercita o corpo e a mente? Podemos desejar iluminação como quem deseja um carro, uma casa, um emprego, um amor ?

É curioso observar que Yogananda não estava seguro sobre sua Iluminação. Enquanto seu mestre,  Sri. Yukteswar, assegurou-lhe que ele já a havia alcançado. Ou seja, infere-se que a iluminação é algo que vai se instalando aos poucos na mente e no espírito do indivíduo SUTILMENTE, sem que ele perceba. Sem que ele se dê conta disso. Krishnamurti defende uma posição muito parecida, vejamos o que ele diz sobre isso:

“A iluminação não é um lugar fixo. Não existe lugar fixo. Tudo o que precisamos é compreender o caos, a desordem em que vivemos. Ao compreendermos isso, a ordem se estabelece naturalmente, e com ela vem a clareza e a certeza. Quando a mente conseguir enxergar com clareza, a porta se abrirá. O que acontecerá depois é indescritível.”

“Atualmente, existem diversas formas de meditação no mundo. O homem está excessivamente ávido e ansioso para experimentar algo que ainda não conhece. A Yoga agora está na moda; foi trazida para o Ocidente para tornar as pessoas saudáveis, felizes e joviais, para ajudá-las a encontrar Deus - em todos os lugares se fala disso. A busca pelo oculto também está na moda, já que é um assunto muito excitante. Para a mente de alguém que está buscando a Verdade as coisas ocultas são óbvias demais e esse tipo de mente não pode tocá-las. Não tem a menor importância eu ler seus pensamentos ou você ler os meus, poder ver anjos, fadas, ter visões. Queremos ver algo misterioso, mas não vemos o imensurável mistério do viver, do amor pela vida. Não vemos isso e esbanjamos tempo em coisas que não tem a menor importância”.

“Apenas a mente completamente silenciosa é que sabe, que está ciente da existência ou não de algo que se situa além de qualquer medida. O silêncio é a suprema forma da mais alta ordem. Logo, o silêncio não é algo que você inventa, que tenta experimentar ou TER CONSCIÊNCIA DELE. NO MOMENTO EM QUE TOMAMOS CONSCIÊNCIA DE QUE ESTAMOS EM SILÊNCIO, O SILÊNCIO JÁ NÃO EXISTE.”

Esta última frase diz tudo. Que cada um faça suas reflexões e tire sua próprias conclusões.

sábado, janeiro 05, 2013

"O Meu Reino não é deste mundo" (Joel Goldsmith)

  Joel S. Goldsmith


Viver no Meu reino significa viver no círculo da eternidade. “Este mundo” é o mundo da humanidade, mas o Meu reino é de natureza completamente diferente. O Meu reino não é o reino da saúde física. O Meu reino não é o reino das riquezas materiais. Todos sabemos o que constitui a saúde física, mas o que vem a ser a saúde do Meu reino? Que vem a ser a saúde do Reino espiritual? Que é o estado de saúde de Deus e o estado de saúde do filho de Deus?

Nós sabemos do que são constituídos o suprimento e a saúde materiais, mas que são as riquezas celestiais? Quais são as riquezas celestiais de que somos herdeiros e ainda não estamos compartilhando no cenário humano? Elas nada podem ter a ver com coisas tais como dinheiro, investimentos ou propriedades, porque “o Meu reino não é deste mundo”.

No caminho espiritual, portanto, não há sentido irmos ao “Meu reino” para obter algo para este mundo. Devemos, primeiramente, buscar o reino de Deus; devemos aprender a orar de forma que orando a Deus do Espírito, estaremos orando apenas por riquezas celestiais, saúde espiritual e companhia espiritual.

Enquanto estivermos tentando obter riquezas materiais, saúde física ou companhia humana, estas coisas poderão ser conquistadas, e serão às vezes bem e às vezes mal, pois, toda materialidade é feita da crença em dois poderes – o bem e o mal. Porém, se mantivermos nossa consciência afinada com a Realidade espiritual e conservarmos nossos desejos no plano do Ser e da Forma espirituais, iremos experienciar a alegria e a paz da unidade espiritual.

Procurar conhecer a natureza das riquezas celestiais, da saúde espiritual e da companhia espiritual, não significa buscar algo de natureza humana ou material; antes, significa repousar na Graça do Reino espiritual. A palavra “Graça” não pode ser traduzida por coisas como dinheiro, lar ou família. Precisamos manter o sentido da palavra “Graça” em seu devido lugar, e se este significado não estiver sendo entendido por nós, podemos sempre orar para que Deus revele Sua Graça para nós.

A libertação de problemas antes que tenhamos atingido a sabedoria espiritual meramente abre caminho para outro problema, ou sete problemas, até que sejamos compelidos a orar corretamente. Por exemplo, se uma dor de cabeça ou outro mal qualquer puder ser removido, sem nos exigir um avanço em compreensão espiritual, o que teremos ganho, senão apenas um período sem uma dor de cabeça? Mais cedo ou mais tarde, uma outra surgirá, e eventualmente, seremos forçados a parar e perceber que este problema permanecerá conosco sempre, a menos que seja encarado com a sabedoria necessária. Da mesma forma como Jacó discutiu a noite toda com o anjo, rogando que não o deixasse sem que ele antes recebesse sua iluminação ou a verdade espiritual necessária para vencer, assim também nós devemos permanecer em oração.

Somente os nossos problemas nos compelem a buscar o bem espiritual. Em sua maioria, os seres humanos estão satisfeitos com boa saúde, uma provisão suficiente e uma moderada felicidade na vida familiar, e quando tais necessidades são atendidas, muitos sentem que resta muito pouca coisa a ser desejada na vida. Mas, aqueles a quem foram confiados problemas, não por Deus, mas pela ignorância de Deus, e se veem forçados a passar por várias experiências, sabem que sem elas nunca teriam se erguido acima do nível de bons seres humanos.

Viver a vida espiritual e orar de modo correto significa pormos de lado o problema e começarmos com a realização de que o reino de Deus não é deste mundo, e assim se tornará inútil orar por algo que seja deste mundo. Vamos, portanto, aprender a orar por aquelas coisas que são do Meu reino, e buscar unicamente a graça daquele reino.

Nossa função, no caminho espiritual, é aprender em que consiste o reino de Deus. Isaías disse: “Cessai, pois, de confiar no homem, em cujas narinas há um sopro, porque somente Deus é que é o Excelso”. O ser humano é aquele homem “em cujas narinas há um sopro”. Por que deveríamos, então, pensar em formas de tornar aquele homem melhor, mais saudável ou mais rico? Por que pensar sobre ele, quando podemos pensar sobre o filho de Deus? Mas antes, precisamos saber o que é o filho de Deus.

Os antigos gregos diziam: “Homem, conhece-te a ti mesmo”. Esse “Ti” não é outro senão o filho de Deus em nós. Há uma parte de nosso ser, uma área de nossa consciência, que é o filho de Deus; e quantos de nós possui qualquer conhecimento dessa parte do ser, ou possui qualquer familiaridade com este nosso Ego mais íntimo? Como poderemos conhecer aquele filho de Deus em nós? Somente nos volvendo para nosso interior, onde o reino de Deus está, reservando um tempo para ficarmos a sós e buscando o reino de Deus dentro de nós. Se formos pedir algo a Deus, então peçamos a Deus que Se revele, que mostre o filho de Deus em nós, que revele a natureza de Sua graça e do reino espiritual e a natureza das riquezas celestiais das quais somos herdeiros.

Ao nos dedicarmos à busca desse reino espiritual, descobriremos nosso mundo exterior se ajustando em seu lugar por si mesmo; as coisas começam a acontecer; e, de repente, despertamos para a descoberta de que a graça de Deus nos tem trazido algo de natureza incomum na forma de cura, suprimento, companhia, ou de um instrutor para abrir os nossos olhos. Mas estes não vêm enquanto estivermos orando por eles. Surgem, não devido aos nossos pensamentos ou orações, mas pela retirada deles de nossos pensamentos, deixando Deus cuidar de nossas necessidades à Sua maneira, enquanto centralizamos nossa atenção naquilo que o reino realizado de Deus é. Todas as coisas duradouras do reino material nos são acrescentadas quando não oramos por elas, quando buscamos somente o Reino, quando nosso pensamento não está mais nas coisas “deste mundo”, mas está centralizado no reino espiritual.

Quando tivermos progredido o suficiente neste Caminho, seremos também tentados, como foi o Mestre, a usar o poder espiritual, e é quando precisaremos resistir à tentação de realizar milagres e sermos guiados pela sabedoria espiritual do Mestre, de não glorificar ou nutrir o ego. Se pudéssemos transformar pedra em pão, não precisaríamos de Deus, e nós, que trilhamos este caminho espiritual, preferimos ficar famintos a procurar nossos próprios recursos sem recorrermos a Deus. Seria trágico chegar ao ponto de acreditar termos atingido uma elevação tal em que Deus deixasse de ter mais lugar em nossa vida. Então, melhor que tentar realizar um milagre, que seria uma mostra de nosso poder, será deixarmos a tentação de orar mentalmente por pessoas, condições ou circunstâncias, e fazer de nossa vida uma prece de busca espiritual e graça espiritual e uma prece para compreensão da natureza das riquezas espirituais e preenchimento espiritual.

Que significa este preenchimento? Que significa “em tua presença está a alegria plena”? Como pode aquela plenitude ser interpretada e expressa? Que é a totalidade de Deus? Quando buscamos a compreensão desta sabedoria espiritual, todas as coisas nos são acrescentadas, aparecendo em seu devido tempo, sem os nossos pensamentos; precisamos apenas realizar tudo o que nos é dado fazer a cada hora de cada dia, e realizá-lo dando o máximo de nossa habilidade, mantendo a nossa mente centralizada em Deus, nas coisas de Deus e no reino de Deus.

Como temos apontado, um dos princípios básicos da vida espiritual é que, para a consciência transcendental, o poder temporal não é poder, tanto de natureza mental como física. Somente a Graça de Deus é poder, somente a consciência realizada da Unidade, do poder uno e do não-poder de tudo mais além de Deus. As preces falham porque têm sido uma tentativa de vencer um poder temporário que na realidade não é poder. Tais preces são o mesmo que tentar vencer uma miragem no deserto ou tentar vencer um fato em que duas vezes dois sejam cinco. Como seria possível usar um poder sobre uma não-existência? O mundo humano está repleto de poderes temporais: doença, dinheiro, política, guerra e preparativos para a guerra. Persistir na velha prece de “Ó, Deus, vença nossos inimigos!” será perda de precioso tempo e energia, pois, tais preces jamais tiveram nem terão sucesso algum.

O esforço físico e mental, e finalmente a intenção de usar Deus para dominar os males deste mundo, devem falhar, porque eles não são poder e não precisam ser vencidos. Unicamente a nossa aceitação da crença universal de que o mal é poder é que pode provocar nossa permanência prolongada nas condições malignas. No instante em que aceitamos a Deus como Onipotência, nosso problema começa a desaparecer.

Quando percebermos que o Cristo-reino não é deste mundo e ainda que aquele Reino é o único poder no mundo, então, quando formos apresentados a uma aparência do mal, não importando o que ou quem possa ser ela, nós pararemos e nos perguntaremos: “Isto é poder espiritual? Esse mal é poder de Deus? Pode haver um poder do mal vindo de Deus? Tal pretensão de poder não é, portanto, apenas poder temporal?”

O ensinamento integral do Mestre foi a revelação do não-poder daquelas coisas que apareciam como poder. Ao homem cego, ele disse: “Abre teus olhos”; sabia que não havia poder para mantê-los fechados. Ao homem de mão mirrada, ele foi capaz de dizer: “Estende tua mão”; sabia que não existia um poder que tolhesse a mão dele. O ministério inteiro de Jesus foi a revelação de que o chamado “este mundo”, enquanto existente, – e lhe foi dada a missão de dissolvê-lo – não existe como poder, existindo tão somente como uma aparência. Esta realização nos possibilita ficarmos sentados em quietude e em secreto, discernindo:

Deus, somente, é poder. Isso que me tem confundido, e com que venho lutando, é uma aparência que retenho em meu pensamento como uma imagem mental; não é realmente uma coisa. Eu não posso vencer uma batalha contra o nada, mas posso relaxar-me em quietude e em secreto, e perceber que esse quadro com que estou me deparando nada mais é que um quadro – não uma pessoa ou uma condição, mesmo que ele possa aparecer como pessoa ou como condição.

Tão logo reconheçamos o mal como um poder temporal, podemos sorrir internamente e perceber o seu significado como não-poder, pois aquilo que não é de Deus não é poder. Deus nos deu o domínio sobre tudo que existe e, portanto, isto que aparece como poder é temporal. Todo poder é invisível. Este perigo que é tão aparente e visível não pode ser poder e não pode ser de Deus.

E ao sentarmo-nos ao lado de uma pessoa doente, conscientizando: “Eu não dou poder a essa doença, a esse pecado ou falso desejo. Isto é poder temporal, ou seja, não é poder, e eu não acreditarei nele”, iremos notar a sua melhora, e saberemos ter comprovado, mesmo em pequena escala, que o poder temporal não é poder sob qualquer forma.

A vida espiritual não nos leva a vencer o mal, mas ao reconhecimento da natureza do mal: o mal não tem nenhuma direção de Deus; o mal não tem nenhuma lei de Deus para mantê-lo; o mal não tem nenhuma Deus-existência, Deus-objetivo, Deus-vida, Deus-substância ou Deus-lei: ele é temporal, o “braço de carne”, ou o nada.

Enquanto orarmos para que um poder divino vença o mal, estaremos resistindo a ele, mas se estivermos ancorados na verdade, repousamos na realização de que essa coisa que nos encara é uma miragem, não um poder, e que não precisamos temer o que o homem mortal nos possa fazer ou o que ele possa pensar ou ser. Todo o temor do poder mortal é dissolvido – poder temporal, poder material, leis de infecção ou contágio, calendários ou idade – porque sabemos que nada do reino dos efeitos é poder. Todo poder é invisível, e o que está aparecendo a nós como poder é uma imagem mental no pensamento, um quadro, um conceito errado de poder.

O conhecimento dessa verdade nos torna livres; mas, enquanto a estivermos conhecendo, nossos pensamentos e ações devem estar de acordo com a verdade que estamos conhecendo. Não podemos negar o poder do efeito e logo no minuto seguinte cedermos a ele, ou falando claramente, não podemos negar o poder do efeito e depois odiar ou temer alguém, já que ele é parte daquele efeito.

Se formos incapazes de fazer isso em cem por cento, ou se ocasionalmente falharmos, não devemos ficar desencorajados. É quase impossível alguém mudar da noite para o dia de um estado de consciência material para um estado de consciência espiritual, ou tornar-se integralmente ou totalmente espiritual após somente um ou dois anos de meditação.

Sejamos agradecidos ao fato de que, após termos posto os pés no caminho espiritual, passamos a viver dessa maneira, atingindo em alguma medida aquela “mente que estava também em Cristo Jesus”, e, nessa mesma medida, embora pequena, demonstrando externamente seus frutos. Não estamos na expectativa de atingir a Cristicidade de um único salto, mas de ir atingindo aquela Mente Crística pela dedicação diária a esse tipo de prece e meditação. Ao visualizarmos o universo temporal, deveremos conscientizar:


“Este mundo não é para ser temido,
odiado ou amado: isto é a ilusão; e, exatamente onde está a ilusão,
é o reino de Deus, o Meu reino.


Meu reino é a realidade. Isto que meus olhos veem
e meus ouvidos ouvem é uma contrafação superposta, não existente como um mundo, mas como um conceito,
um conceito de poder temporal.

O Meu reino está intacto;
o Meu reino é o reino de Deus;
o Meu reino é o reino dos filhos de Deus;
e o Meu reino está
aqui e agora.


Tudo que existe
como um universo temporal é sem poder.
Não preciso odiá-lo, temê-lo ou
condená-lo; preciso somente
compreendê-lo
."


Ao sermos capazes de compreender a NATUREZA do universo espiritual, as formas deste mundo começarão a desaparecer : formas de doença, pecado, falsos desejos, falta e limitação. Todas elas irão sumir, dando lugar às condições e relacionamentos harmoniosos, que serão manifestados de nosso estado de consciência mais elevado.

Nosso mundo é a exteriorização de nosso estado de consciência; o que semearmos, colheremos. Se semearmos na carne, colheremos corrupção: pecado, doença, morte, falta e limitação. Se semearmos no Espírito, colheremos a vida eterna. A palavra “semear” pode ser interpretada como “ser consciente de”. Se estivermos conscientes de que o reino espiritual é o real, enquanto aquele testemunhado pelos cinco sentidos é sem poder, temporal, o “braço de carne”, estaremos semeando no Espírito e colheremos harmonia no corpo, na mente, no bolso e nos relacionamentos humanos. Se continuarmos a temer o ”homem em cujas narinas há um sopro”, se continuarmos a temer infecção, contágio e epidemias, estamos semeando na carne; por sua vez, se percebermos que todo o poder está no invisível, estaremos semeando no Espírito, e colheremos a harmonia divina.

O Meu reino, o Cristo-reino, é o real, e ele é poder. Tudo que nós vemos, ouvimos, provamos, tocamos e cheiramos, o reino temporal, é a ilusão, e não é poder.

O caminho espiritual é o solo de treinamento onde nós adquirimos a convicção de que o mundo temporal está apresentando meramente um quadro de poder temporal, e poder temporal não é poder. O Invisível, somente, é poder; o Invisível que constitui o Eu que realmente somos.

Vamos considerar aquela ideia em relação ao nosso corpo. Porque nosso corpo é visível, não existe poder nele; ele não pode ser saudável ou doente; o poder está no Eu que nós somos. Se acreditarmos que este corpo tem poder, estaremos dando poder ao universo temporal. Olhando para o mundo finito e para o corpo finito, poderemos mudar inteiramente a nossa experiência pela conscientização:

"Como você é efeito, o poder não está em você; o poder não está nesse corpo, e meu corpo não pode responder-me. Eu falo a ele, e lhe asseguro que Eu sou sua vida, Eu sou sua inteligência, Eu sou sua substância, Eu sou sua lei – aquele Eu que Eu Sou" – e então, o corpo tem que obedecer."

Esta prática nos faz abandonar a busca pelo bem material. Não estamos pensando em termos de melhor corpo físico; antes, estamos “ausentes do corpo, e…presentes com o Senhor”, e toda a nossa atenção se volta em direção à harmonia espiritual, não para um melhor relacionamento humano, não para melhor saúde, não para mais dinheiro, mas para a paz e a harmonia do Meu reino:

“Meu reino impera aqui – não um bem humano e não um mal humano – mas Meu reino, o reino de Deus. Se existe algum mal humano aqui, algum pecado, ódio, inveja, ciúme ou malícia, o que é dele? Ele não é pessoa nem poder. Ele não pode ser manifesto; e, portanto, tem que morrer pela sua própria nulidade. Ele é temporal e impessoal; jamais possui uma pessoa em quem ou através de quem possa se manifestar. Ele é o 'braço de carne', ou o nada. O amor divino, não o amor humano, é o único poder operando neste lugar em que Eu estou. A sabedoria divina, não a inteligência humana, é o único poder operando em minha vida."

Assim, mais e mais a nossa atenção vai sendo centralizada no reino de Deus e Sua graça, em vez de na forma e efeito; e então, assim que estivermos ausentes do corpo da forma e do efeito, aquele corpo, a forma e o efeito aparecerão harmoniosamente.


segunda-feira, dezembro 31, 2012

O exercício da GRATIDÃO como prática complementar da Meditação

Masaharu Taniguchi
 

Se alguém pensa que a Meditação Shinsokan se trata apenas de uma concentração espiritual para conseguir experiências espirituais profundamente misteriosas, poderá enganar-se. Sendo a Meditação Shinsokan a contemplação da Imagem Verdadeira, onde Deus está em nós e nós em Deus, se limitarmo-nos apenas à meditação e não praticarmos atos de gratidão acabaremos destruindo a nós mesmos, pois cairemos no convencimento de já ter conseguido compreender a Verdade, tornando-nos arrogantes, ingratos e impudicos. Torna-se necessário, então, o exercício da gratidão como prática complementar da Meditação Shinsokan.

O exercício da gratidão é uma prática espiritual que consiste em procurar não esquecer o sentimento de gratidão, em todos os momentos da vida cotidiana. Os sentimentos opostos à gratidão são o descontentamento, a insatisfação, o ressentimento, a inveja, a raiva, etc. Eles desarmonizam o pensamento do homem, e serão também desarmoniosos os acontecimentos que advirão desse pensamento. A desarmonia dos acontecimentos, por sua vez, gera mais sentimentos maléficos como o descontentamento, a insatisfação, a raiva, etc., os quais constituem o carma desencadeador de outros acontecimentos infelizes, e estes aceleram a velocidade de transmigração do carma.

Dessa maneira, mesmo que pratiquemos dedicadamente a Meditação Shinsokan, que é uma forma de transcender a transmigração do carma e fundir-se na Imagem Verdadeira, se não houver a prática dos atos de gratidão em nosso cotidiano e mantivermos os sentimentos de descontentamento, insatisfação, raiva, inveja, etc., estaremos apagando o sentimento de fusão com o mundo harmonioso da Imagem Verdadeira conseguido através da Meditação Shinsokan.

Em contraposião à Meditação Shinsokan, que é a prática espiritual para contemplar a Imagem Verdadeira e transcender a imagem falsa, a insatisfação é a ação do carma que, encobrindo a Imagem Verdadeira, faz com que fiquemos presos à imagem falsa. Sendo ambos totalmente opostos, possuem o poder de anular o efeito um do outro. Por isso, para conseguir de modo perfeito a eficácia da Meditação Shinsokan, é importante não esquecer de praticar o oposto da insatisfação e da reclamação: o exercício da gratidão no cotidiano. O sentimento de insatisfação desencadeia infelicidades que geram mais insatisfações, e faz com que o carma transmigre sem parar. Ao contrário, a prática da gratidão cria sentimento de gratidão, ou seja, de "harmonia", mesmo diante do mais infeliz dos acontecimentos. Como consequência desse "sentimento de harmonia", manifesta-se o "mundo de harmonia" no mundo exterior, impedindo que seja mantido o "mundo infeliz" de até então, gerado pela "insatisfação". Desse modo, a gratidão torna-se uma prática complementar para interromper a "transmigração do carma".

É por isso que a maioria das religiões recorre a artifícios para retirar a insatisfação dos homens e suscitar-lhes o sentimento de gratidão. Na seita Shin ou na Ittoen o sentimento de gratidão é despertado fazendo-se o adepto considerar o homem como um mortal cheio de pecado, o pior ser do mundo. Se perguntamos aos seus seguidores por que se sentem gratos sendo os piores seres do mundo, respondem: "Somos tão pecaminosos, e no entanto recebemos graças até demais de Deus; por isso sentimo-nos gratos". No caso da seita Shin, dizem-se tão pecaminosos que não há meio de se salvarem com sua própria força; mas acreditam que podem ser salvos e acolhidos num lugar tão maravilhoso como a "Terra Pura" (Paraíso) graças a força de Amitabha, e por isso sentem-se gratos. Essa gratidão assemelha-se mais a um expediente e encerra elemento desonesto. Eles se julgam pecadores, maus, e avaliando a si mesmos honestamente obteriam nota zero, dois ou três, mas recebem nota cem de um outro ser e por isso sentem-se gratos. Não se sentem gratos pelo próprio valor, mas pela nota ou pelo prêmio que outros lhe dão, o que significa que, se não lhes derem nota ou prêmio superior ao que realmente merecem, não se sentirão gratos. Essa é uma gratidão que depende dos outros, pois não se é grato pelo próprio valor. É portanto uma gratidão vazia e falsa. Mas, como é melhor sentir gratidão do que sentir-se insatisfeito, os religiosos criaram artifícios de interpretação como meios para fazer nascer nas pessoas o sentimento da gratidão.

A missão da religião é fazer os homens conscientizarem sua Natureza Divina. Para isso, ela faz com que sintam gratidão porque esse sentimento conduz à paz infinita, e através desse sentimento pacífico é facilitada a conscientização da sua própria Imagem Verdadeira, fazendo surgir o mundo iluminado no mundo exterior e trazendo à tona a força infinita do interior.

Existem duas maneiras de fazer com que as pessoas despertem o sentimento de gratidão: a da religião hinayana, que faz com que as pessoas sintam gratidão por qualquer tipo de tratamento que receberem, partindo da conscientização de que possuem a maldade infinita; e a da religião mahayana, que as faz sentir uma gratidão incomparável, pela conscientização de ser Deus a sua verdadeira natureza e por reconhecerem que possuem virtude infinita.

No budismo há a escola Jodo (Terra Pura), que diz: "Nós somos maus, cheios de pecado, mas podemos ser acolhidos na Terra pura como graça de uma força alheia. Que felicidade!"; e há a escola Shoodo (Caminho Sagrado), que diz: "Sendo todos originariamente filhos de Buda, se reconhecerem o seu verdadeiro valor serão salvos. Ser ou não ser salvo, depende de si próprio. Se o Buda Daitsutishô (Buda que pregou os ensinamentos contidos na Sutra do Lótus, num passado infinitamente remoto) não despertou para a Verdade durante um tempo infinitamente longo é porque ele próprio não despertou". Assim se atribui valor absoluto a si próprio.

Também o cristianismo fala de "gratidão relativa" que Paulo sentiu pelo fato de ter sido salvo apesar de ser pecador; entretanto quando fala de Cristo não se refere à gratidão relativa, mas sim à gratidão absoluta. Ou seja, a consciência de que ele próprio é filho de Deus. Quando Jesus disse: "A qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra", não quis dizer que o homem não teria o direito de reclamar quando espancado, porque é um pecador, comparando relativamente o ser humano com o pecado. Ele disse com tanta espontaneidade "A qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra" baseando-ne na consciência de que, por mais que se modifique a forma, a verdadeira natureza do homem é Deus onipotente, é uma existência de "valor absoluto"; portanto, mesmo sendo surrado, não o está, mesmo sendo roubado, não o está.

Como vimos, há várias categorias de gratidão e, mesmo que se diga "sinto-me grato", a avaliação desse sentimento dependerá do grau de desenvolvimento espiritual de cada um. Há a gratidão da pessoa que, ao encontrar dinheiro na rua, sente-se grata a Deus por Ele satisfazer seus desejos e protegida por tal Deus. Há também a gratidão pela cura, obtida através da fé, de uma doença que o médico não conseguiu curar. Há ainda pessoas que acreditavam que por serem pecadoras não escapariam do inferno, mas quando souberam que existe um buda chamado Amitabha que as leva ao paraíso sentiram-se tão gratas como um preso que recebe anistia. Há ainda a gratidão daquelas que varriam a calçada humildemente, conforme recomenda a Ittoen, quando alguém lhes ofereceu a refeição matinal; esse gesto as deixa agradecidas, bem como o fato de descobrirem que há um Deus que não as abandona se forem humildes.

Mas em minha opinião tais sentimentos de gratidão não podem ser considerados autênticos, no sentido religioso. Não há dúvida de que 'encontrar dinheiro na rua', 'curar-se da doença', 'poder ir para o Paraíso' ou 'conseguir a sobrevivência ao se tornar humilde' são fatos dignos de gratidão, mas não significam a verdadeira gratidão religiosa, e sim gratidão calculista. Em outras palavras, é a gratidão que se sente por ter recebido algo de fora. Com esse tipo de gratidão a pessoa ainda não poderá transcender realmente o carma, pois se não continuar recebendo coisas de fora não sentirá mais gratidão.

A gratidão religiosa não é apenas agradecer ao fato de receber algo de fora. O estímulo a essa gratidão é apenas um meio para conduzir as pessoas à verdadeira gratidão religiosa, mas você não deve ficar estacionado nesse estágio. A gratidão que nos vem espontaneamente de dentro quando temos a consciência de que nós próprios somos Deus, nós próprios somos Buda, essa é a gratidão no sentido religioso. Mesmo a gratidão pelo fato de ter cohecido a Seicho-No-Ie não será verdadeira se não evoluir até esse nível. Aliás, isso não se refere somente a Seicho-No-Ie. O sentimento de gratidão proveniente da verdadeira fé precisa fundamentar-se na consciência de que nós próprios somos Deus, de que nós próprios somos Buda. Sentir-se grato 'por estar sendo perdoado e salvo, apesar de ser tão mau', não passa de fé covarde e desonesta, pois significa desejar obter nota cem quando na verdade só vale dez. Não podemos dizer que tal desonestidade seja fé verdadeira.

No caso da seita Ittoen, enquanto a pessoa mantiver o pensamento simplista de que conseguiu a alimentação para o dia porque foi humilde fazendo a faxina do banheiro, não conhecerá o verdadeiro valor da Imagem Verdadeira. O viver religioso verdadeiro consiste em conscientizar-se: "Eu sou Deus". Mesmo o modo de viver da seita Ittoen, no caso do sr. Tenko Nishida, está baseado na conscientização: "Eu venci o mundo", confome consta em sua obra Zange no Seikatsu (Vida de Penitência). Portanto, seria errôneo pensar que já alcançou a vida cheia de gratidão só pelo fato de dormir sobre a serragem ou lascas de madeira, ou por fazer limpeza de banheiros, imitando apenas superficialmente o sr. Tenko, sem se conscientizar: "Eu venci o mundo", ou "Eu sou o maior do mundo".

Há pessoas que, ao ouvirem falar na "vida de penitência" da Ittoen, acham que se trata de vida de autodepreciação, que consiste em considerar-se culpado; mas de modo algum é assim. Conscientizar "eu sou um com Deus (na Ittoen diz-se 'luz'), não há ninguém tão grandioso quanto eu" - isto é a vida segundo a Ittoen. Como essa conscientização de "grandiosidade" baseia-se na convicção da "grandiosidade" de que a sua substância é Deus, a pessoa sente que existe (independentemente da grandiosidade exterior constituída de status, comendas, mansão magnífica, roupas luxuosas) algo originariamente puro, por mais que as forças externas tentem maculá-la, não se macula; por mais que tentem aniquilá-la, não podem ser aniquilada, tal é a sua superioridade. É alicerçado nessa grandiosa conscientização que o sr. Tenko ora apregoa a humildade, dizendo que não há ninguém tão mau quanto ele, ora afirma arrogantemente que, se lhe for atribuído o cargo de primeiro-ministro, não terá dficuldade de administrar o país porque possui grande versatilidade. Também por isso afirma que, se não for através do modo de viver da Ittoen, não se pode salvar a humanidade; que não existe ninguém tão grandioso como ele, e que, por esse motivo, toda a humanidade deve segui-lo. Por isso, para os olhos de pessoas pouco perspicazes, pode parecer que a vida da Ittoen seja a vida em que, dizendo-se "eu sou mau", limpando o banheitro e procurando comida no lixo, não haverá dificuldade econômica. São muitas as pessoas que frequentam a seita Ittoen assimilando apenas a parte que trata da ausência de dificuldade econômica visível. Mas a verdadeira vida sem dificuldade econômica da Ittoen é baseada na conscientização da frase "Como sou um com a Vida perene, sou na realidade imortal e livre de dificuldades econômicas". Por isso, o sr. Tenko diz: "Sem o espírito preparado para morrer a qualquer momento, não há a vida da Ittoen". Essa convicção de estar preparado para morrer a qualquer momento nasce da conscientização de ser, na essência, imortal. No que se refere a essa conscientização, a Ittoen e a Seicho-No-Ie pensam de modo idêntico.

Entre as pessoas que se dizem gratas por ter conhecido a Seicho-No-Ie e por passar a frequentá-la, há as que agradecem somente o fato de ter melhorado economicamente ou ter-se curado de doença de difícil cura através da literatura Seicho-No-Ie. Mas tais pessoas ainda não conheceram a verdadeira gratidão religiosa: estão agradecendo apenas o benefício de ordem utilitária, externa, o que significa que sua gratidão é ainda uma gratidão utilitarista, e não atingiram a gratidão religiosa. A gratidão religiosa deve ser aquele sentimento de júbilo que brota de dentro e vai enchendo a alma, decorrente da conscientização suprema de que a sua essência é Deus, é Buda, independemente da aparência exterior. Se não houver essa conscientização, quando alguém se torna humilde imitando a Ittoen, apega-se à humildade; quando está em situação superior, apega-se à posição superior. Assim, sente-se culpado ao viajar no vagão de segunda classe, como aconteceu com certo milionário, ou tem sentimento de culpa se não dormir ao relento no meio das lascas de madeira, como um mendigo, conforme aconteceu com outra pessoa. Em suma, se a gratidão não for aquela que emerge do coração pela conscientização de que a sua substância é Deus, pode-se perder o sossego espiritual tanto no estado positivo (abundância em demasia) como no estado negativo (carência em demasia) do ambiente material. Se a paz de espírito é influenciada pelo estado positivo ou negativo do ambiente material, isso significa que o espírito da pessoa está sendo conduzido pela "coisa de fora" que é a aparência. Se isso acontece, não se pode dizer que a pessoa apreendeu o valor da Imagem Verdadeira, seja na seita Ittoen ou em outra religião. O verdadeiro "valor da Imagem Verdadeira" está no fato de a sua própria Imagem Verdadeira ser Deus. Portanto mesmo que a pessoa seja rica demais ou pobre demais, seu sentimento de gratidão não se altera por causa disso.

O sr. Masao Takahashi, da seita Konko, que vive como se tivesse somado e dividido por dois os ensinamentos desta seita e o modo de viver da seita Ittoen, diz o seguinte: "No momento em que percebi que eu era um indivíduo mau, sem nenhuma qualidade, sem direito de reclamar por pior que fosse o tratamento que me dessem, deixei de ter motivos para me queixar; abriu-se um mundo imenso onde antes parecia um beco sem saída; o meu coração se encheu de luz e começou a nascer abundantemente a força vital". Ouvindo essa confissão, temos a impressão de que o fato de pensar "eu sou mau, eu não tenho nenhuma qualidade" constitui uma ótima fonte de paz e origem da força vital, mas não é bem assim. Na realidade, quase todos os indivíduos que se vêem em condições semelhantes à de mendigos, tornam-se pessoas, que, considerando-se realmente sem valor e sem qualidade, perdem a coragem de se reerguer. Se, por trás do pensamento "eu sou mau", não houver a conscientização de que existe em seu interior a Vida de Deus, realmente venerável, presente em todo o Universo, e não nascer a sensação real de estar sendo vivificado pelo Universo, de nada adiantará.

O sr. Masao Takahashi, porém, lembrando-se da época em que não havia atingido o modo de viver e o estado de espírito atual, confessava que era uma pessoa realmente má. Todavia, segundo as palavras de um adepto da seita Konko que o conhecia naquela época, o sr. Takahashi, embora dissesse de si que não era mau, nã era absolutamente uma pessoa má quando visto pelos outros. O que o sr. Masao tinha era um senso de autocrítica mais severo do que os outros, que o fazia refletir profundamente, à luz do ensinamento, sobre os defeitos que passam despercebidos às demais pessoas, e admitir que era "irremediavelmente mau". Desse modo, mesmo naquela época, as pessoas reverenciavam ocultamente o sr. Masao Takahashi como possuidor de elevadas virtudes, quase um deus vivo.

Todavia, se o sr. Takahashi se tornou paradoxalmente mais respeitável ao reconhecer "eu é que sou mau", isso não se deve simplesmente à conscientização de sua maldade. Ele percebeu que, à luz da Verdade, ou seja, comparado ao "eu identificado com a Verdade", isto é o "eu verdadeiro", ele "era mau". Aquele que pensa "eu sou mau" sem conscientizar que aloja em seu interior o caminho (a Vida) que traspassa todo o Universo, atrofia-se e degenera-se. Mas aquele que pensa "o eu atual é mau" consciente de que há e seu interior a Vida que preenche todo o Universo progride cada vez mais. Esse "eu" da frase "o eu atual é mau" não é "eu verdadeiro" e sim o "eu falso". E o julgamento que se faz desse "eu falso", desmascarando-o diante do "eu verdadeiro", é que constitui a autocrítica "eu sou mau". Nisto está a prova de que a luz do "eu verdadeiro" está resplandecendo. Pensar irrefletidamente "eu sou bom" é convencimento e significa o fim do progresso. Mas ficar somente se condenando - "eu sou mau, eu sou mau" - sem descobrir dentro de si a luz do "eu verdadeiro" que resplandece também fará com que a pessoa se atrofie, e impedirá o seu progresso.

Quando dizemos "eu sou bom", referimo-nos à nossa natureza real, ou seja, ao "eu" que é um com o Universo, que é filho de Deus; e quando dizemos "eu sou mau", referimo-nos ao "eu falso", isto é, ao eu fenomênico. Assim, se nos referimos a nossa natureza real, somos possuidores de virtude infinita, à qual nenhum elogio será exagerado; e se nos referimos ao eu fenomênico, somos seres insuficientes que, por mais insultados e censurados como "irremediavelmente maus", nunca estaremos sendo criticados demais.

Os iniciadores de religião costumam pregar os seus ensinamentos colocando o "eu verdadeiro infinitamente bom" em contraposição ao "eu falso infinitamente mau"; por isso, se não compreendermos bem, poderemos incorrer ou na autonegação depreciativa, considerando-nos "maus até em nossa natureza real", ou no convencimento de que o próprio "eu falso" é o ser mais grandioso do mundo. É nesse momento que surge a Seicho-No-Ie para diferenciar claramente o "eu verdadeiro" do "eu falso".

Como todas as religiões, a seita Konko valoriza muito o sentimento de gratidão; porém, não considera verdadeira a gratidão que não é fundamentada na conscientização do "eu verdadeiro", que é um com o Universo. A gratidão que provém da fé interesseira, ou seja, que existe pelo fato de ter recebido graça material, não é a gratidão pregada pelo fundador da seita Konko. Em sua doutrina, ele diz: "Deixe a desconfiança e descortine o largo caminho Verdade. O seu corpo vive dentro da virtude divina". O que significa: se observar a sua Imagem Verdadeira, perceberá que a virtude divina preenche tanto o Universo como o eu são um só corpo. A seita Konko, habitualmente pregada em suas igrejas, é uma fé que valoriza a graça recebida mas, chegando nesse ponto, é exatamente igual à Seicho-No-Ie.

Segundo consta, o fundador da seita Konko ensina: "Quando for arrancar um nabo, agradeça ao nabo; quando for sentar-se num toco de árvore, agradeça ao toco de árvore". À primeira vista, parece que ele recomenda agradecer pela utilidade material do nabo ou do toco de árvore, dizendo-lhes "obrigado". Mas não é isso. A pessoa que tem clara consciência de que o eu é um com a Vida do Universo, seja ao arrancar o nabo seja ao sentar-se no toco de árvore, reconhece no interior deles a Vida que, tendo a mesma origem na Vida do Universo, é também a sua, e não pode deixar de sentir gratidão.

Sakyamuni dosse na Sutra Mahapari-nirvana que "todos os seres, sem nenhuma exceção, possuem natureza búdica". Pois bem, o sentimento de gratidão que nasce em nós ao reconhecermos em todos os seres a referida natureza búdica, impelindo-nos a reverenciá-los, é que é o sentimento de gratidão no sentido religioso. Se não sentirmos gratidão diante da nossa Imagem Verdadeira, diante da Imagem Verdadeira do Universo e todas as coisas, nossa fé não poderá ser considerada verdadeira e inabalável. Se nos sentimos gratos pelos resultados utilitários no nível fenomênico, essa gratidão está repousada no nível instável, inconsistente como bolha, e não podemos dizer que é a verdadeira gratidão religiosa inabalável.

Mesmo o sr. Masao Takahashi, que após repetir "eu sou mau, eu sou mau" teve ampliado o seu mundo e o seu coração tornou-se mais generoso, diz, elogiando o fundador da seita Konko: "Ele sentiu gratidão a si próprio, passou a reverenciar a si próprio, e denominou a si mesmo 'Grande Deus Vido Konko'. Como ele sente gratidão a si próprio, sente-a também em relação a todo o Universo. Ao ver a montanha, sente gratidão à montanha; ao ver as pessoas, sente gratidão às pessoas; ao ver a esposa, sente gratidão à esposa; ao ver os pais, sente gratidão aos pais. Por isso, o mestre deu à sua esposa o título divino de 'Isshi Taijin', e a cada um dos filhos também deu nomes divinos, fazendo o mesmo com as pessoas que vêm ao templo".

Em resumo, a gratidão verdadeiramente religiosa é alcançada quando a pessoa adquire consciência de que a sua Imagem Verdadeira é "filha de Deus", e, estando ela manifestada, reconhece a Imagem Verdadeira (a natureza búdica) de todas as coisas do Universo, não podendo deixar de juntar as mãos em reverência a si próprio e a todas as coisas do Universo. Somente quando a pessoa atinge este ponto é que se torna possível experimentar a gratidão absoluta que está acima de considerações relativistas, tais como a de se sentir agradecido por estar agraciado de tantas bençãos não obstante ser uma pessoa sem valor.

Na Seicho-No-Ie não se oferecem títulos divinos aos adeptos, mas proporciona-se a cada um deles a valiosa conscientização de que são "filhos de Deus", de que a sua natureza real é Deus. A partir disso desenvolve-se a gratidão em nível mais elevado e também o mundo fenomênico enche-se de gratidão, a doença se cura e a sorte melhora espontaneamente. "Como ele sente gratidão a si mesmo, sente-a também em relação a todo Universo" - ao preencher o cotidiano com esse espírito de gratidão, estará vivificando no dia-a-dia a Imagem Verdadeira livre da influência do mundo exterior. Por isso, o exercício da gratidão é a mais importante prática complementar da Meditação Shinsokan.

"O exercício da gratidão é também a prática da bondade. O pensamento de que dedicando-se aos outros a força vital diminui não passa de supertição. Há um adepto da Seicho-No-Ie que sofre de deslocamento da retina, que na oftalmologia é considerado de cura muito difícil, e quando lê as letras do livro sagrado A Verdade da Vida para si mesmo não consegue ir além de uma página e meia, tamanha é a dor que sente no fundo dos olhos e na região occipital. Porém, o espantoso é que, quando lê para os outros com a intenção de curar-lhes a doença, fica momentaneamente curado de seu mal ocular e não sente dor nos olhos nem cansaço algum após a leitura, mesmo tendo lido seguidamente quarenta a cinquenta páginas.

É muito bom ler A Verdade da Vida para seu próprio despertar,mas melhor ainda será ler para o despertar de outrem. Quando se pratica em benefício dos outros, manifesta-se a força vital infinita que transcende o 'eu' e os 'outros'; atinge-se a compreensão infinita de que 'eu' e os 'outros' somos um só corpo. Se ainda há manifestação de doença é porque sentimentos egoístas se misturam à ação. Se a pessoa ficar pensando em salvar o outro só depois de curar a sua própria doença, não haverá oportunidade para isso. Enquanto ela estiver salvando os outros a sua doença está curada. Se dedicar-me eternamente a salvar os outros, não haverá doença eternamente.


(Do livro A Verdade da Vida, vol. 08; pgs. 185 a 199)

 

sábado, dezembro 29, 2012

A Divindade revelada pelo Silêncio

Dárcio Dezolt
 
 
Exatamente onde você agora está, está Deus consciente de ser você. Exatamente onde você agora está, está o Reino de Deus sendo o que é a  Realidade permanente. Este cenário paradisíaco jamais é tocado por nada! É o que a Biblia cita com sendo "o que era, o que é, e o que há de vir".

Nenhum estudo e nenhuma meditação mudarão o que é a Verdade! Quanto menos você acreditar que já não é Deus, mais de Deus sendo você irá discernir. Quanto mais da natureza de Deus você aceitar ser a sua atual natureza, mais irá discernir que "Deus é você" são um.

"Prática do Silêncio" é a "Prática da Verdade" que já É! O reconhecimento de que "tudo" é unicamente "Deus sendo", Deus Se evidenciando, Deus simplesmente sendo Deus! O Silêncio, portanto, revela o Universo infinito Se manifestando sozinho, de modo pleno, perfeito e permanente; o Silêncio revela a Divindade sendo o seu Eu; o Silêncio traduz na prática a recomendação bíblica: "Aquieta-te, e sabe: Eu Sou Deus!"