"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, setembro 23, 2012

Apresentando a cosmologia do Universo - 2/2



Após os esclarecimentos de Masaharu Taniguchi (que são revelações!), restou claro que Deus não criou o universo da dualidade. Este universo ilusório foi criado pela própria Ilusão, por Maya, e existe como uma espécie de imagem ou "quadro hipnótico". Um quadro hipnótico é como um sonho que nos chega no sono de repente e sem pedir licença: quando menos percebemos já estamos nele, de modo que sequer desconfiamos que estamos numa realidade de sonho. Acerca da natureza hipnótica deste universo mortal, Joel Goldsmith elucida:

Compreendamos, integralmente, que uma sugestão, crença ou hipnotismo é a substância ou alicerce de todo o universo mortal, e que as condições humanas, boas ou más, são quadros semelhantes aos de um sonho, sem qualquer realidade ou permanência. Fiquemos desejosos de que desapareçam de nossa experiência tanto as condições harmônicas como as desarmônicas, a fim de que a Realidade possa ser conhecida, desfrutada e vivenciada.

Acima deste conceito de vida, existe o Universo do Espírito, governado pelo Amor, povoado pelos filhos de Deus que vivem no templo da Verdade. Este mundo é real e permanente: Sua substância é Consciência eterna. Nele não há percepção alguma de discórdia e nem mesmo de bem material ou temporário.

O primeiro lampejo da Realidade – do Reino da Alma – surge com o reconhecimento e conscientização do fato de que todas as condições e experiências temporais são frutos de auto-hipnose. Pela conscientização de que o cenário humano inteiro, com seu bem e seu mal, é ilusão, surge o primeiro clarão e experiência do Mundo da criação de Deus e dos filhos de Deus que habitam o reino espiritual.

Uma ilusão universal nos prende à terra , às condições temporais. Conscientize isto, compreenda isto, pois somente através dessa compreensão poderemos começar a soltar suas amarras sobre nós.

Nosso primeiro lampejo de que o paraíso está aqui e agora marca o início de nossa ascensão. Esta ascensão é, então, entendida como uma escalada acima das condições e experiências “deste mundo”, e ficamos aptos a observar as “várias moradas” preparadas para nós na Consciência espiritual – na percepção da Realidade. (Joel Goldsmith, livro: o Caminho Infinito, capítulo "o Novo Horizonte")

Além disso, o Caminho Infinito expõe:

Como seres humanos, estamos hipnotizados pela crença no bem e no mal, atuando sob a hipnose do mundo das aparências. Entretanto, tudo o que vemos tem por substância o hipnotismo, mero conceito ou imagem mental, que apenas tem “substância” na mente.

Este trabalho contínuo de encararmos cada problema como hipnotismo, um “nada”, um “não-poder” ou “não-substância”, nos conduz à Consciência mística da Unidade, em que não existe “Deus e”, mas que existe somente Deus: Deus aparecendo como ser individual, e Deus aparecendo como Universo espiritual.

O Universo espiritual, feito da Substância do Espírito, formado pela Consciência e mantido pela Lei espiritual, está exatamente AQUI. Neste Universo espiritual não existe doença, não existe falta ou limitação, não existe infelicidade ou discórdia, nem tampouco ser algum para ser curado ou modificado. Há somente o Reino da Divina Harmonia e Paz, que a tudo permeia, sem distúrbio de qualquer natureza,

Aceitemos ou não, o fato é que estamos neste Universo espiritual neste instante. Não temos de ir a algum lugar para encontrá-Lo. Ele está exatamente aqui, onde nós estamos. Portanto, assim deve ser a nossa oração: “Pai, que meus olhos sejam abertos, permitindo-me ver e contemplar este Universo espiritual! Revele-me a Sua Glória, aqui e agora. Não permita que eu tente modificar este Universo! Deixe-me somente contemplá-Lo”. 

Passemos agora à Meher Baba. No texto transcrito abaixo, a figura denominada "Maya" é a mesma designada por este texto como sendo o Deus "Iswara". Eis os comentários de Meher Baba a respeito de Deus e Maya:

Deus é infinito. O que quer que seja infinito transcende a dualidade, não pode ser uma parte da dualidade. Deus, que é infinito, não pode descender na dualidade. Assim, a aparente existência da dualidade, como o Deus infinito e o mundo finito, é ilusória. Só Deus é real, Ele é infinito, um sem um segundo. A existência do finito é apenas aparente, é falsa, não é real.

Como o falso mundo das coisas finitas veio a existir? Por que ele existe? Ele é criado por Maya, ou o princípio da ignorância. Maya não é ilusão, é a criadora da Ilusão. Maya não é falsa, é aquilo que é criado por Maya que dá falsas impressões. Maya não é irreal, ela é o que faz com que o real pareça irreal e o irreal pareça real. Maya não é dualidade, é o que provoca a dualidade.

Para efeitos de explicação intelectual, no entanto, Maya deve ser encarada como sendo infinita. Ela cria a ilusão de finitude, ainda assim não é em si finita. Todas as ilusões criadas por Maya são finitas e todo o universo da dualidade, que parece existir devido a Maya, também é finito. O universo pode parecer conter inúmeras coisas, mas isso não significa que seja infinito. As estrelas podem ser inúmeras, há um número enorme, mas o conjunto total de estrelas é, contudo, finito. O espaço e o tempo podem parecer infinitamente divisíveis, mas, no entanto, são finitos. Tudo o que é finito e limitado pertence ao mundo da ilusão, embora o princípio que causa esta ilusão das coisas finitas deve, em certo sentido, ser considerado como não sendo uma ilusão.

Maya não pode ser considerada como sendo finita. A coisa torna-se finita ao ser limitada pelo espaço e pelo tempo. Maya não existe no espaço e não pode ser limitada por ele. Maya não pode ser limitada no espaço porque o espaço é em si a criação de Maya. O espaço, com tudo o que ele contém, é uma ilusão e é dependente de Maya. Maya, no entanto, não é de forma nenhuma dependente do espaço. Por isso, não pode ser finita devido a nenhuma limitação de espaço. Maya também não pode ser finita por causa de nenhuma das limitações do tempo. Embora Maya chegue ao fim no estado de superconsciência, não precisa ser considerada finita por esse motivo. Maya não pode ter um começo nem um fim no tempo, porque o próprio tempo é uma criação de Maya. Qualquer visão que torne Maya um acontecimento que tem lugar em algum tempo e desaparece depois de algum tempo coloca Maya no tempo, e não o tempo em Maya. O tempo está em Maya; Maya não está no tempo. O tempo, bem como todos os acontecimentos no tempo, são a criação de Maya. Maya não é de forma alguma limitada pelo tempo. O tempo chega à existência por causa de Maya e desaparece quando Maya desaparece. Deus é a Realidade atemporal, portanto, a realização de Deus e o desaparecimento de Maya, é um ato atemporal.

Maya também não pode ser considerada finita por quaisquer outras razões. Se fosse finita, seria uma ilusão e sendo uma ilusão, não teria nenhuma potência para criar outras ilusões. Assim, Maya é melhor considerada como sendo real e infinita, da mesma forma que Deus é geralmente considerado como sendo real e infinito. Entre todas as explicações intelectuais possíveis, a explicação de que Maya, assim como Deus, é real e infinita, é mais aceitável para o intelecto do homem. No entanto, Maya não pode ser realmente verdadeira. Onde há dualidade, há finitude em ambos os lados. Uma coisa limita a outra. Não pode haver dois infinitos reais. Pode haver duas entidades enormes, mas não pode haver duas entidades infinitas. Se tivéssemos a dualidade de Deus e Maya e se ambos fossem considerados como existências coordenadas, então, a realidade infinita de Deus poderia ser considerada como a segunda parte de uma dualidade. Portanto, a explicação intelectual de que Maya é real não tem o selo do conhecimento final, embora seja a explicação mais plausível.

Há dificuldades em considerar Maya como ilusória e também como real em última análise. Assim, todas as tentativas do intelecto limitado para entender Maya levam a um impasse. Por um lado, se Maya é considerada como finita, ela própria torna-se ilusória e então não pode dar conta do mundo ilusório das coisas finitas. Assim, Maya tem de ser considerada real e infinita. Por outro lado, se Maya é considerada como sendo essencialmente real, Maya se torna uma segunda parte da dualidade de uma outra realidade infinita, ou seja, Deus. Portanto, deste ponto de vista, Maya parece realmente tornar-se finita e, portanto, irreal. Então, Maya não pode ser real em última análise, embora tenha de ser considerada como tal, a fim de explicarmos o mundo ilusório dos objetos finitos.

De qualquer forma que o intelecto limitado tentar entender Maya, ele ficará aquém da verdadeira compreensão. Não é possível compreender Maya através do intelecto limitado, ela é tão insondável quanto Deus. Deus é insondável, incompreensível, assim também Maya é insondável, incompreensível. Dessa forma, é dito que Maya é a sombra de Deus. Onde uma pessoa está há a sombra dela também. Onde Deus está, há esta Maya inescrutável. Embora Deus e Maya sejam inescrutáveis para o intelecto limitado que opera no domínio da dualidade, eles podem ser perfeitamente entendidos em sua verdadeira natureza com o conhecimento final da Realização. O enigma da existência de Maya nunca pode ser definitivamente resolvido até que ocorra a Realização, quando descobre-se que Maya não existe na realidade.

Na Verdade final e única da Realização, não existe nada exceto o Deus infinito e eterno. A ilusão das coisas finitas aparecendo como separadas de Deus desapareceu e com ela também desapareceu Maya, a criadora dessa ilusão. O Autoconhecimento vem para a alma ao olhar para dentro, e ao superar Maya. Nesse Autoconhecimento ela não apenas sabe que as diferentes mentes-ego e os diferentes corpos nunca existiram, mas também que todo o universo e Maya mesma nunca existiram como um princípio separado. Seja qual for a realidade que Maya tinha até então é agora engolida pelo Ser indivisível da única Alma. A alma individualizada agora conhece a si mesma como sendo o que ela sempre foi - eternamente Autorealizada, eternamente infinita em conhecimento, graça, força e existência, e eternamente livre da dualidade. Mas essa forma mais elevada de Autoconhecimento é inacessível ao intelecto e é incompreensível, exceto para aqueles que alcançaram o cume da Realização final. (Do livro: “Discursos” – capítulo “Deus e Maya”)

Além de tudo isso, Meher Baba também disse:

* As pessoas dizem que Deus criou Maya, mas não é bem assim. Por exemplo, tome um fio de cabelo na cabeça. O fio de cabelo é Maya e a cabeça é Deus, o Criador. Embora o cabelo cresça no topo da cabeça, a cabeça não sabe como, por que, e de onde ele vem. Então como se poderia dizer que a cabeça criou o fio de cabelo, ou que Deus criou Maya? Mas, de certa forma, a própria existência de Maya depende da existência de Deus. (Lord Meher, volume 3, pp. 821)

* Quando perguntaram a Meher Baba "por que Deus criou este universo", ele respondeu: "Quem disse que Deus criou este mundo? Nós o criamos mediante a nossa própria imaginação. Deus é supremo, independente. Quando afirmamos que Deus criou esta ilusão, rebaixamos Ele e toda sua Infinitude. Ele está além de tudo isso." (Meher Baba, 23 March 1953, Dehra Dun BG p6.)

Resumindo: Deus e Maya são existências divinas. A diferença é que Maya criou o universo da dualidade, e só pode ser considerada como real do ponto de vista da dualidade. Para os seres que habitam e percebem o universo da dualidade, Maya é um Deus real - Ele é Deus! Uma existência una! A unicidade presente em Maya é o que sustenta e mantém todo o universo da dualidade. Não fosse pela unidade de Maya, o universo da dualidade despencaria. Mas Maya mantém tudo coeso. Assim, Maya está em toda a criação e além dela.

Como é possível os ensinamentos afirmarem ao mesmo tempo que "Deus não criou Maya" mas que, apesar disso, "se Maya parece existir isso é devido à existência de Deus"? Meher Baba responde isso invocando a imagem do objeto e de sua sombra. Ele afirma que Maya é superada quando vem a ser compreendida como a sombra de Deus. A fim de compreender melhor isso, tome como exemplo a sua própria sombra. Quando a sombra de seu corpo está projetada no chão, o seu corpo não está fazendo nenhum esforço para projetar a sombra. Ele não tem intenção de projetar a sombra. De fato, ele nem sabe que há uma sombra sendo projetada. O seu corpo se ocupa em ser inteiramente ele mesmo. Contudo, a sombra projetada somente existe porque o corpo existe primeiro! Remova o corpo dali, e não haverá sombra nenhuma. Logo, percebe-se que existe uma relação possível de ser estabelecida entre a sombra e o corpo, mas não existe nenhuma possibilidade de se estabelecer uma relação entre o corpo e a sombra.  Essas relações existentes entre o corpo e a sombra equiparam-se às relações existentes entre Deus e Maya.

Apesar de ser possível elaborar explicações tão pertinentes e plausíveis como essas, tudo isso não passa de intelecto. O que está aqui sendo explicitado é o máximo que palavras conseguem alcançar. Além deste ponto a mente não vai. E aquilo que está além é infinitamente mais vasto - não há nem como comparar. Por isso, vale dizer novamente que tais verdades servem apenas para diminuir as inquietações e aflições da mente humana. Elas servem apenas como consolo, a fim de que a mente possa se conformar. É como acalmar de momento uma criança que não possui qualquer capacidade de compreender como ela veio a existir. Apenas diga a ela que um dia a cegonha trouxe um bebê enrolado num pano até a porta da casa do papai e da mamãe. Ela irá acreditar e isso irá acalmá-la. A mente agitada deseja encontrar um sentido que justifique o mundo e a experiência por que está passando. Então, tudo bem: apenas dê a ela o que ela deseja. Se ela puder ficar convencida da explicação, ela irá serenar. Quando a mente se encontra tranquila, apaziguada, conformada, grande parte da perturbação diminui. Se estes consolos puderem ocasionar a diminuição da atividade da mente, tornando-a dócil e receptiva, então a aceitação da verdade poderá penetrar sem muitos obstáculos. E para uma mente que ainda não percebe, toda a questão se resume na aceitação, pois esta é que possibilitará a percepção da verdade. A mente dócil é um sólo fértil para a aceitação e percepção da Verdade. Retomando: Meher Baba explica que as palavras não adiantam. A resposta que nos importa somente é encontrada na própria realização e na experiência.

Os ensinamentos absolutistas afirmam que os seres que se vêem vivendo completamente imersos no universo ilusório da dualidade podem transcender tal dualismo e atingir a unidade com a mente divina que criou e se conserva una com todo o universo dualístico: Maya. Alguns destes ensinamentos absolutistas afirmam que essa foi a iluminação que Buda atingiu na vida em que ele era conhecido como o personagem "Siddhartha Gautama", e que somente mais tarde, na sua encarnação seguinte, Buda transcendeu inclusive aquela mente, e atingiu a unidade com a Mente Perfeita de Deus. Isso se coaduna com as afirmações de Meher Baba, que diz que a realização de Deus acarreta o inteiro desaparecimento de Maya juntamente com as suas criações. Na vida em que Jesus Cristo era conhecido como o personagem "Jesus de Nazaré", é dito que Ele atingiu a iluminação de grau maior - na verdade, única - que supera a mente una de Maya.

Uma questão fundamental que grita à nossa atenção, nestes ensinos, é o fato de eles afirmarem que haverá um momento - mesmo que levem milênios ou eternidades de milênios, falando-se do ponto de vista do universo temporal - em que o universo da dualidade desaparecerá. Neste próprio instante de agora, ele não existe, apenas aparenta existir, mas chegará finalmente o momento em que ele deixará inclusive de aparentar existir e desaparecerá por completo.

Para explanar sobre o desaparecimento do universo, o ensinamento de Um Curso em Milagres vale-se da linguagem cristã, que classifica Deus na Trindade Una "Pai", "Filho" e "Espírito Santo". 

A partir de sua cosmologia, o Curso explica que no Princípio existiam unicamente Pai e Filho vivendo na realidade perfeita que o Curso denomina "Céu". Antes do início, não havia inícios nem fins; havia apenas o Eterno Sempre, que ainda está "lá" - e sempre estará. Havia apenas uma consciência de uma unicidade imaculada, e essa unicidade era tão completa, tão espantosa e ilimitada em sua alegre extensão, que seria impossível que qualquer coisa (extensão) estivesse consciente de algo que não fosse Si Mesmo. Havia e há apenas Deus nessa realidade, à qual o Curso chama de Céu. O que Deus cria em Sua extensão de Si Mesmo é chamado de Cristo (o Filho). Mas Cristo de maneira alguma é separado ou diferente de Deus. Eles são exatamente a mesma coisa. Cristo não é uma parte de Deus, Ele é uma extensão do todo. A única diferença possível entre Cristo e Deus - se uma distinção fosse possível - seria que Deus criou Cristo; Ele é o Autor. Cristo não criou Deus ou a Si Mesmo. Contudo, por causa da perfeita unicidade inerente ao próprio Deus, isso realmente não importa no Céu. Deus criou Cristo para ser exatamente como Ele, e para compartilhar Seu eterno Amor e alegria, em um estado de êxtase livre, ilimitado e inimaginável. Ao contrário do mundo concreto em que parecemos estar agora, tal estado constante e bem-aventurado de consciência é completamente abstrato, eterno, imutável e unido. Cristo, então, estende a Si Mesmo, criando novas Criações, ou extensões simultâneas do todo, que também são exatamente as mesmas em sua perfeita unicidade com Deus e com Cristo. Portanto, Cristo, como Deus, também cria - porque Ele é exatamente o mesmo que Deus. Essas extensões não vão para "dentro" ou para "fora", porque no Céu não existe conceito de espaço; existe apenas em todo o lugar. O resultado de tudo isso é o compartilhar sem fim do Amor perfeito, que está além da compreensão. Pai e Filho em um alegre e eterno compartilhar.

Um adendo conveniente sobre o Filho Único de Deus: embora seja dito que no Céu só existe o Pai e o Filho compartilhando o Amor perfeito em uma eterna unidade, é importante revelar que, na realidade do Céu, o Pai e o Filho aparecem como inumeráveis seres com individualidades distintas a fim de povoar resplandecentemente a existência divina! E esse povoado do Céu é chamado pelo Curso de "Filiação". A Filiação inteira do Céu constitui o Filho Único de Deus. O Filho de Deus é Único, mas, com o objetivo de compartilhar (o mesmo objetivo de Seu Pai), Ele também estende a Si Mesmo, ramificando-se em várias individualidades, todas elas sem jamais perder a noção de que são o Mesmo e o Único ser. No Céu, Deus compartilha a integralidade de Seu Ser com seus Filhos. E os Filhos de Deus também compartilham tudo o que têm e são com outros Filhos de Deus, sendo que todos estão sempre conscientes de Quem são. O resultado disso é o enriquecimento e engrandecimento do Céu. O Infinito se ultrapassa e se expande ainda mais, contrariando tudo o que qualquer lógica pudesse conceber. Assim é (funciona) a realidade divina. Portanto, é importante ter a noção correta do que vem a ser a realidade no Céu do Pai e de Seu único Filho.

Retomando a história: Então, algo parece acontecer que, como em um sonho, realmente não acontece - apenas aparenta ocorrer. Por um instante, apenas por uma fração mínima de nanosegundo (nem mesmo isso!), um aspecto muito pequeno de Cristo parece ter uma ideia que não é compartilhada com Deus. É como uma curiosidade inocente na forma de uma pergunta - que infelizmente é seguida por uma resposta aparente. A pergunta, se pudesse ser colocada em palavras, era "como seria a vida e todas as demais coisas se por acaso eu experimentasse existir por conta própria?". Como uma criança inocente brincando com fogo e colocando chamas na casa, teríamos sido muito mais felizes em não encontrar a resposta para essa pergunta, uma vez que o nosso estado puro e inocente estava para ser substituído por um estado de ignorância, confusão e de isolamento do todo; tal estado é caracterizado por uma profunda e intrínseca sensação de medo. E vualá! - Eis o universo da dualidade! A inocente especulação tida sobre aquela diminuta ideia foi o que provocou o famoso evento que conhecemos como sendo o “Big Bang”.

Pelo fato de tal ideia não ser de Deus, Ele não responde a ela. Responder significaria conferir realidade a ela. Se o próprio Deus reconhecer qualquer coisa exceto a ideia da perfeita unicidade, então não mais haveria unicidade perfeita. Não mais haveria um perfeito estado do Céu para o qual o Filho fosse retornar. Ou seja: É Deus quem conserva o estado perfeito do Céu ao não reconhecer a ideia levantada pela inocente curiosidade do Filho, e ao não fornecer a ela uma resposta. Do contrário, a perfeita integridade de toda a Criação seria catastroficamente comprometida e Tudo teria desastrosamente se perdido para sempre. Entretanto, Deus conservou a presença e a estabilidade da Criação - apesar do Filho ter momentaneamente especulado ou simulado sobre ideias hipotéticas e absurdas. Isso mostra o quanto Deus é Perfeito e Íntegro. Assim, Deus o tempo todo continua estendendo-Se como o Seu Filho e, graças a isso, o tempo todo o Filho conserva-se seguro e puro, inatingido pelas consequências de suas suposições estranhas. Se o Filho parece estar isolado num universo de separação, é graças ao Pai que ele ainda possui um lugar perfeito para retornar, uma vez que a ideia da separação são coisas que não interessam nenhum pouco a Deus.

Ao passar de repente da Realidade do Céu para o universo aparente da separação, o Filho Único manifesta-Se através do crivo da crença em multiplicidade. Ou seja, além da característica de "distinção" que é inerente ao ser individual, aparece também uma noção real de separação entre cada ser existente. O senso de unicidade e unidade entre os seres distintos tornou-se encoberto, obscurecido. O Curso diz que a aparente existência do universo da dualidade é mantida em conjunto, por toda a Filiação. O universo ilusório é, portanto, uma crença coletiva. A cada vez que um Filho de Deus desperta para a inexistência da separação, a crença coletiva que sustenta a existência do universo da dualidade é enfraquecida. O despertar para a verdade continuará ocorrendo no âmbito de toda a Filiação, até que Maya perca a sua força por completo. Não fosse o universo ilusório uma crença conjunta de toda a Filiação, bastaria que um único Filho de Deus despertasse para a verdade e o universo irreal desapareceria instantaneamente por inteiro! Por isso, o Curso diz que virá finalmente o tempo em que à toda a Filiação será dado a conhecer a verdade. Quando tal se completar, o universo desaparecerá no nada (e juntamente com o NADA) de onde ele surgiu. Esse é o significado do “Apocalipse” preconizado pelo Curso em Milagres.

Acerca do que foi explanado na cosmologia acima, Meher Baba discorre:

A manifestação do conhecimento infinito e da bênção ilimitada na consciência estão estritamente limitadas para a alma que alcançou a realização de Deus. A Realidade infinita na alma que realizou Deus tem conhecimento explícito de sua própria infinidade. Tal conhecimento explícito não é experimentado pela alma não-realizada, que ainda está sujeita à ilusão do universo. Assim, se a Realização de Deus não fosse um feito pessoal da alma, o universo inteiro chegaria ao fim logo que qualquer alma alcançasse a Realização de Deus. Isso não acontece porque a Realização de Deus é um estado de consciência pessoal que pertence à alma que transcendeu o domínio da mente. Outras almas permanecem em cativeiro e só podem atingir a Realização ao libertarem a sua consciência do fardo do ego e das limitações da mente individual. Daí o atingimento da Realização de Deus só tem significado direto para a alma que emergiu do processo do tempo. (Do livro: “Discursos” – capítulo “A Realização de Deus”)

Um Curso em Milagres diz que a percepção do universo ilusório durará até que a Filiação se conheça como um todo. Por isso, enfatiza a importância de todos os seres compartilharem entre si a mensagem e a percepção da Verdade, até que esta alcance cada ser integrante da Filiação. Então, a Filiação inteira será devolvida ao Universo Real. Sobre isso, o Curso diz:

* Nada e tudo não podem coexistir. Acreditar em um é negar o outro. O medo na realidade é nada e o amor é tudo. Sempre que a luz penetra na escuridão, a escuridão é abolida. O que acreditas é verdadeiro para ti. Nesse sentido, a separação ocorreu e negá-la é meramente usar a negação de maneira imprópria. O procedimento corretivo inicial é reconhecer temporariamente que existe um problema, mas só como uma indicação de que é necessária uma correção imediata. Isso estabelece um estado na mente no qual a Expiação pode ser aceita sem adiamento. Contudo, deve-se enfatizar que nenhuma transigência é possível entre tudo e nada. Deve-se notar que Deus só tem um Filho. Se todas as Suas criações são Seus Filhos, cada um tem que ser uma parte integral de toda a Filiação. A Filiação, em sua unicidade, transcende a soma de suas partes. Todavia, isso fica obscuro enquanto qualquer uma de suas partes está faltando. É por isso que, em última instância, o conflito não pode ser resolvido até que todas as partes da Filiação tenha retornado. Só então pode o significado da integridade em seu verdadeiro sentido ser compreendido. Qualquer parte da Filiação pode acreditar no erro ou no incompleto, se assim escolher. Todavia, se o faz, está acreditando na existência do nada. A correção desse erro é a Expiação. (UCEM, capítulo 2, VII, 5-6)

* Não existe nenhum mundo à parte das tuas ideias porque as ideias não deixam a sua fonte e tu manténs o mundo dentro da tua mente em pensamento. No entanto, se és tal como Deus te criou, não podes pensar à parte Dele, nem fazer o que não compartilhe da Sua intemporalidade e do Seu Amor. Estas coisas são inerentes ao mundo que vês? Esse mundo cria como Ele? Se não o fizer, não é real e não pode ser em absoluto. Se tu és real, o mundo que vês é falso, pois o mundo não é como a criação de Deus em todos os seus aspectos. E do mesmo modo como foste criado pelo Seu Pensamento, foram os teus pensamentos que fizeram o mundo e têm que libertá-lo para que possas conhecer os Pensamentos que compartilhas com Deus. Libera o mundo! As tuas criações reais esperam por essa liberação para te dar a paternidade, não de ilusões, mas como Deus na verdade. Deus compartilha a Sua Paternidade contigo, que és o Seu Filho, pois Ele não faz distinções entre o que é Ele Mesmo e o que ainda é Ele. O que Ele cria não está à parte Dele, e em lugar algum o Pai chega ao fim para dar início ao Filho como algo separado de Si Mesmo. Não existe nenhum mundo porque ele é um pensamento à parte de Deus, feito para separar o Pai e o Filho e arrancar uma parte do próprio Deus para assim destruir a Sua Integridade. Um mundo vindo dessa ideia pode ser real? Pode estar em algum lugar? Nega as ilusões, mas aceita a verdade. Nega que sejas uma sombra deixada por um momento sobre um mundo agonizante. Libera a tua mente e contemplarás um mundo liberado." (UCEM, Lição nº 132)

* A Unicidade é simplesmente a ideia de que “Deus é”. E no que Ele é, Ele abrange todas as coisas. Não há mente que contenha algo que não seja Ele. Dizemos: "Deus é" e então deixamos de falar, pois nesse conhecimento as palavras são sem significado. Não há lábios para pronunciá-la em nenhuma parte da mente é distinta o suficiente para sentir que agora está ciente de algo que não seja ela mesma. Ela se uniu à sua Fonte. E, como a própria Fonte, meramente é. Não podemos falar, escrever ou mesmo pensar sobre isso de modo algum. Vem a cada mente quando o reconhecimento total de que sua vontade é a Vontade de Deus tiver sido completamente dado e completamente recebido. Isso devolve a mente ao presente infinito, em que nem o passado nem o futuro podem ser concebidos. Está além da salvação, depois de todo pensamento de tempo, de perdão e da santa face do Cristo. O Filho de Deus meramente desapareceu em seu Pai, assim como o Pai nele. O mundo absolutamente nunca foi. A eternidade permanece um estado constante. (UCEM, Lição nº 169)

* Já repetimos várias vezes antes que apenas fazes uma jornada que já terminou. Pois a unicidade tem de estar aqui. Não importa quando vem a revelação, pois ela não está no tempo. Talvez pareça que contradizemos a nossa declaração de que a revelação do Pai e do Filho como uma só já foi estabelecida. Mas também dissemos que a mente determina quando será esse momento e já o determinou. Parece ser bastante arbitrário. Mas não há nenhum passo que alguém possa dar nesta estrada que seja apenas por acaso. Estamos apenas empreendendo uma jornada que já chegou ao fim. Todavia, parece reservar um futuro que ainda nos é desconhecido. Insistimos, porém, que dês testemunho do Verbo de Deus para apressar a experiência da verdade e acelerar o seu advento a todas as mentes que reconhecem os efeitos da verdade em ti. Qualquer que seja o momento que a mente tenha estabelecido para a revelação, ele é inteiramente irrelevante para aquilo que tem que ser um estado constante, para sempre como sempre foi; permanecendo para sempre como é agora. Nós apenas aceitamos o papel há muito tempo designado e reconhecido plenamente como já tendo sido realizado com perfeição por Aquele Que escreveu o roteiro da salvação em Nome do seu Criador e em nome do Filho do Seu Criador. Quando vem a revelação da tua unicidade, ela será conhecida e inteiramente compreendida. (UCEM, Lição nº 169)

E, assim, chegamos ao fim desta cosmologia. Resumindo todas as ideias que foram apresentadas até agora em uma sequência simples: Deus é a única realidade. A Criação de Deus existe no próprio âmbito de Deus. Deus não criou a ilusão de dualidade. A ilusão de dualidade foi criada por Maya ou Iswara. Iswara ocupa a posição de Deus em relação ao universo da dualidade, sendo ao mesmo tempo imanente e transcendente. Deus não criou Iswara, mas Iswara só existe porque Deus existe primeiro. Por essa razão, é dito que Iswara é a “sombra de Deus”. Deus é alheio à existência de Iswara e suas criações.

Nada disso explica realmente as coisas como elas são. Essa cosmologia só serve para satisfazer os anseios e tranquilizar a mente. Leve isso a sério. Todas essas explicações são complexas; e a verdade é simples. Ela está acima de tudo isso. A  simplicidade da verdade a torna maior do que tudo isso. O que deve ser buscado não é o conhecimento intelectual dessas verdades, mas a experiência para a qual estes ensinamentos apontam. A resposta e o entendimento verdadeiros são encontrados na realização e na experiência.

Então estaria o mundo dos homens abandonado? Se Deus desconhece a existência de vida humana, estaria a humanidade desamparada pelo Amor Perfeito? A resposta é: mesmo que Deus desconheça a existência humana, a humanidade está amparada pelo Amor Universal. O Amor Universal transpassa este universo e Deus alcança este mundo, atraindo universalmente todos os seres para a realização dessa Consciência Divina. Para compreender como Deus opera neste universo, invoquemos novamente a imagem de um objeto e de sua sombra. A presença da sombra é totalmente dependente da existência do corpo original. Remova o corpo original e a sombra imediatamente se desvanece. Mas, embora a sombra não seja o corpo original, ela tem a qualidade de representá-lo; uma sombra representa o corpo em uma medida muito pequena; ela não é o corpo, mas fornece pistas, apresenta indícios. Por exemplo: alguém lhe propõe um jogo: você é colocado de frente para uma parede e a pessoa fica exatamente atrás de você, e pede para você olhar fixamente para as sombras da parede e tentar adivinhar o objeto que ela está segurando. Se você enxergar na parede a sombra de uma mão, poderá discernir tranquilamente: "posso não estar olhando para o objeto original mas sei que atrás de mim está a sua mão porque, embora a 'sombra' da mão não seja a 'mão verdadeira', ela apresenta o formato e todos os contornos da mão real". Logo, percebemos que sombra comporta em si algo do objeto original. Há uma relação mínima e indireta que cria uma espécie de unidade entre a sombra e o objeto real. Devido a isso, a sombra dá pistas, fornece indícios. Ela representa o corpo original em uma medida muito pequena.

Deus é Luz pura e infinita e, do mesmo modo que uma parcela do objeto se manifesta na sombra projetada, também uma parcela da Luz de Deus se manifesta neste universo. Deus é a Inteligência infinita e, do mesmo modo que as características de um objeto real são reduzidas ao aparecerem na sombra, a Inteligência infinita é reduzida ao aparecer na sombra de Iswara. A Luz, a Força e a Inteligência infinitas que constituem o Ser de Deus aparecem deformadas/reduzidas ao serem projetadas na sombra de Iswara. Mas no âmbito de Iswara essas pequenas parcelas de Inteligência, Força e Luz são tremendas, infinitas. A mera "sombra" de Deus é o suficiente para fazer surgir neste universo toda uma sorte de divindades, avatares, bodisatvas, revelações, mestres e ensinamentos iluminados, sincronicidades... Indiretamente, Deus está governando e corrigindo este universo. E o universo está fadado a se submeter e a satisfazer todos os planos designados por essa Inteligência divina. A Luz, a Força e a Inteligência de Deus que incidem neste universo agem com a pura finalidade de desmantelá-lo, até que desapareça por completo.

Assim, indiretamente Deus se manifesta no mundo e governa o mundo. Essa ação misteriosa de Deus no mundo encontra-se perfeitamente descrita no Tao-Te-Ching: "Ele age suavemente, mediante o agir-pelo-não-agir. Em sua mansidão, em seu não-fazer, Deus conquista-sem-conquistar, governa-sem-governar. Ele obriga sem jamais nada impor. E, dessa forma, Ele tudo faz". Ocorre isso porque Deus é a única realidade - essa é a Sua natureza. A maneira como Deus age e Se manifesta num universo ilusório que Ele desconhece se assemelha ao modo como o céu azul se manifesta para nós quando enxergamos o espaço que separa duas nuvens cinzentas. Na brecha, o céu se manifesta. Nessa analogia simples, o céu é tudo o que existe, e seria incorreto dizer que ele interagiu com o "povo lá em baixo" (a ilusão) no sentido de se revelar ou de se manifestar. A natureza do céu permite a ele se manifestar no mundo, mesmo que ele não tenha essa intenção. O céu inclusive desconhece que se manifestou. Mas o milagre é que: se manifestou!!! Dada a natureza de Seu Ser, o Real desmantela o irreal mediante o "fazer pelo não-fazer".

Acerca das ações de Deus no mundo, Ramana Maharshi explanou em um diálogo com um devoto:

Pergunta: Qual é a relação entre Deus e o mundo? Ele é o criador ou o sustentador dele?

Bhagavan: Os seres sencientes ou não sencientes de todos os tipos estão realizando ações apenas pela mera presença do sol, que nasce no céu sem nenhuma volição.

Similarmente, todas as ações são feitas pelo Senhor sem nenhuma volição ou desejo da parte Dele. Na mera presença do sol, as magníficas lentes emitem fogo, a flor de lótus desabrocha, a flor-de-lis se fecha e todas as incontáveis criaturas realizam ações e descansam.

A ordem da grande multidão de mundos é mantida pela mera presença de Deus da mesma maneira que a agulha se move diante de um imã, e a selenite emite água, a flor-de-lis desabrocha, e o lótus se fecha diante da lua.

Na mera presença de Deus, que não tem a mínima volição, os seres vivos, que estão engajados em inúmeras atividades, após embarcarem em muitos caminhos para os quais são atraídos de acordo com o curso determinado por seus próprios karmas, finalmente realizam a futilidade da ação, voltam-se para o Ser e atingem a liberação.

As ações dos seres vivos não chegam ou afetam a Deus, o qual transcende a mente, da mesma maneira que as atividades do mundo não afetam o sol, e as qualidades dos quatro elementos conspícuos (terra, água, fogo e ar) não afetam o espaço sem limites.

Tais ideias também estão exprimidas nos ensinamentos de Um Curso em Milagres:

"As leis de Deus não prevalecem diretamente num mundo no qual a percepção domina, pois tal mundo não poderia ter sido criado pela Mente para a qual a percepção não tem significado. Entretanto, as Suas leis refletem-se em toda a parte (através do Espírito Santo). Não que o mundo onde esse reflexo está seja de fato real. Mas apenas porque o Seu Filho acredita que ele seja real e Ele não poderia separar-se inteiramente da crença do Seu Filho. Ele não poderia entrar na insanidade do Seu Filho com ele..."(T-25.III.2)

Ao longo de todo esse texto, foi abordada a cosmologia do Universo segundo os ensinamentos absolutistas.  Que possam estes ensinamentos servirem de inspiração para muitos. Que todos sejam abençoados com a percepção da verdade de Quem são e com a Revelação provinda do Pai. Que em Seu Nome ela nos seja dada. Finalizamos este texto com as palavras a seguir e também com um vídeo trazendo uma mensagem que revela a verdade sobre todos nós.

Como explicar o que acontece quando você se torna realizado em Deus? Não há mais o corpo, a mente, o ego, não há mais o universo, existe apenas você como Deus experienciando indescritível alegria. É plano de Deus despertar todos os seres deste sonho da criação, e fazê-los viver nele e experimentar a Sua felicidade infinita. (Meher Baba, 1960, Poona, DH p52)


sexta-feira, setembro 21, 2012

Apresentando a cosmologia do Universo - 1/2

Este post é sequência e continuação da postagem anterior. Se você estiver entrando hoje, acessando-o sem ter lido o texto antecessor, pode ser que não aproveite totalmente o assunto que está sendo tratado. Sugerimos que antes de seguir adiante neste texto, leia primeiro este outro clicando aqui.




A existência de Iswara como um Deus governante do universo ilusório dualístico ao lado de Deus Absoluto que nada tem a ver com as manifestações da dualidade parece ser algo um tanto difícil de se conceber. É preciso ter em mente que Iswara só existe "ao lado" do Ser Absoluto quando está se falando do referencial relativo da dualidade. Apenas assim essa informação é válida. Se, ao revés, levarmos em conta o referencial absoluto, Iswara não ocupa lugar nenhum na existência - Deus é tudo e Iswara é nada. Num diálogo ocorrido com um devoto, Ramana Maharshi explana acerca do Ser Absoluto e o Deus Iswara:

Pergunta: Existe um ser separado, Iswara, que é o recompensador das virtudes e o punidor dos pecados? Existe um Deus? Como ele é?

Bhagavan: Sim, existe. Iswara tem individualidade num corpo e mente que são perecíveis, mas ao mesmo tempo, internamente ele tem a consciência transcendental e a liberação. 

Iswara, o Deus pessoal, o criador supremo do universo, realmente existe. Mas isso é verdade apenas do ponto de vista relativo daqueles que não realizaram a Verdade, aquelas pessoas que acreditam na realidade das almas individuais. Do ponto de vista absoluto, o sábio não pode aceitar nenhuma outra existência além do Ser impessoal, uno e sem forma. Iswara tem um corpo, uma forma e um nome, mas não tão grosseiro quanto esse corpo material. Ele pode ser visto em visões na forma criada pelo devoto. 

As formas e os nomes de Deus são muitos e variados, e diferem com cada religião. Sua essência é a mesma que a nossa, o Ser real sendo apenas um e sem forma. Portanto, as formas que ele assume são apenas criações e aparências. Iswara é imanente em cada pessoa e cada objeto do universo. A totalidade de todas as coisas e todos os seres constitui Deus. 

Há uma força da qual uma pequena fração tornou-se todo este universo, e o restante está em reserva. Esse poder reservado e esse poder manifesto na forma do mundo, juntos constituem Iswara.

A explicação acima, de Ramana Maharshi, apresenta a carcaterística de um ensinamento Absoluto. E confere validade a tudo o que foi explanado na postagem anterior. O absoluto não se concilia com o relativo, porque o relativo não existe.

O que este texto tem para falar, o mundo não gosta de ouvir. O mundo tende a rejeitar a verdade abrangida pelos ensinamentos absolutistas (ensinamentos nº 1), pela simples razão de que o mundo é uma existência relativa e os ensinamentos absolutistas apontam para a iluminação de um Universo Absoluto, sem relatividades. Todo o universo da relatividade está, portanto, excluído do universo absoluto, de maneira que a existência absoluta nada tem a ver com a existência relativa. A verdade absoluta importa na aniquilação ou extinção de todas as relatividades; onde está o absoluto, o relativo não está. Quando o Absoluto se manifesta, o relativo desaparece. Estes ensinamentos dizem que tal verdade pode ser experienciada, e denominam "Revelação" uma experiência de tal porte. Durante a experiência da Revelação, a ilusão de mundo irá sumir, e a verdade revelará que nada disso jamais existiu. Apenas Deus existe!

A palavra "revelação" também é utilizada no sentido de "informação". Uma revelação nos informa a verdade sobre nós mesmos e sobre o universo. Todas as informações a respeito da realidade absoluta contradirão aquilo que a mente relativa tem como verdade. Se para a mente relativa a separação e a dualidade são existência reais, uma revelação informará que a separação e dualidade não existem, e que a realidade é unidade e unicidade. Por isso, quando uma informação sobre a verdade absoluta é trazida para o âmbito do universo relativo, é como se tal informação provocasse uma espécie de "incômodo", "indigestão" ou "mal estar" na mente universal que sustenta a relatividade, e ela reagisse com uma forte vontade "vomitar" ou "repelir" aquilo. Portanto, esse é um ponto, ou princípio, que deve ser muito bem guardado: a existência relativa, a fim de se conservar, tende a repelir o Absoluto.

Quando uma informação autêntica sobre o mundo do absoluto chega aos homens que se percebem viver num mundo relativo, tal informação é considerada como sendo uma revelação. E uma revelação não é uma mera informação. Uma informação provinda do absoluto é diferente de uma informação oriunda do próprio mundo relativo. A revelação é uma informação que vem do Alto, de um lugar onde o “baixo” não pode alcançar.

A fim de compreender melhor isso, considere o seguinte exemplo: você está atravessando a pé um deserto. O local onde você se encontra está distante de absolutamente tudo e todos, e não há meio ou sinal disponível para se comunicar com ninguém. Nessa situação, você olha ao longe e vê um camelo se aproximando em sua direção, e constata que a pessoa montada no camelo estava te procurando. Ela diz: "Estava a sua procura. Tenho uma carta contendo uma informação importante para você. Por favor, tome-a." Você pega a carta em suas mãos e a lê. E se informa do que nela está escrito: “sua mãe está doente e fraca.” E ao ler isso você imediatamente se entristece. De repente, quando você olha para frente, a pessoa foi embora e já está sumindo ao longe no horizonte. Você fica sozinho com a sua carta. Fim do exemplo.

No caso deste exemplo, a pessoa que recebeu a carta não tem como ir por si mesma verificar ou conferir se sua mãe está realmente doente ou não. Ela está distante de sua casa, de sua cidade, não há como fazer nenhum contato para se comunicar. Ela está isolada. Na situação em que a pessoa do exemplo se encontra, tudo o que ela poderá fazer com relação à informação contida na carta é aceitar ou rejeitar, confiar ou não confiar. Dadas as circunstâncias, a pessoa não tem escolha. A única relação possível de existir entre ela e a informação contida na carta é uma relação de aceitação. No caso do exemplo, a pessoa ficou triste sem ter tido possibilidade alguma de averiguar o fato por si mesma.

Então, continuando um pouco mais com a história do exemplo: no dia seguinte, a pessoa do deserto vê novamente o camelo se aproximando em sua direção. O homem do camelo diz: “tenho outra carta para você. Aquela que eu lhe entreguei ontem estava equivocada. Esta é a carta certa, por favor, pegue-a.” Ao ler a informação contida na carta, a pessoa descobre: “Sua mãe está muito bem, cheia de energia, alegre e feliz!”. Ao receber essa informação, ela imediatamente fica feliz. Novamente, a pessoa não tinha como ir conferir se isto é ou não verdade. Apesar disso, a informação teve o poder de causar um impacto poderoso na mente e no ser da pessoa.

Isto é uma revelação: uma mensagem trazida do Alto, uma informação oriunda de um lugar onde não há nenhuma possibilidade de irmos conferir a fim de ter alguma certeza. A única relação possível de existir entre nós e uma revelação é uma relação de aceitação. Ou nós a aceitamos, ou não a aceitamos. Se formos capazes de aceitá-la ela causará o seu impacto em nosso ser, e as coisas começarão a se transformar, até que haja a percepção. Começam com aceitação e terminam com a percepção. Se não for aceita, tudo continuará aparentemente como sempre foi.

Os ensinamentos absolutos trabalham com princípios e com revelações. Aceitar o que está sendo informado é muito mais proveitoso do que exercer a lógica, o raciocínio ou a investigação a fim de conferir a sua veracidade. Por essa razão, os ensinamentos absolutos não se preocuparão em esmiuçar a ilusão. A ilusão não existe. Não pergunte “por que” ela não existe, pois o que não existe simplesmente não existe. Essa é a “lógica”! Se buscarmos a origem daquilo que “não existe”, estaremos partindo do pressuposto de que “existe”.

Apesar disso, ou seja, apesar de os ensinamentos absolutos não se preocuparem em explicar como surgiu a ilusão, alguns deles apresentam uma cosmologia metafísica explicitando a (suposta) origem e o (suposto) propósito do universo ilusório dualístico. Mas, apesar de eles propiciarem explicações bastante pertinentes sobre o surgimento da dualidade, advertem seriamente - e em primeiro lugar – que a ilusão nunca surgiu. Ressalvada essa premissa maior, eles prosseguem explicando o surgimento da ilusão. 

A verdade é que não existe uma explicação única e verdadeira para o surgimento da ilusão. Explicar a origem da ilusão não é como explicar, por exemplo, a origem da civilização do povo asteca. Isso porque, quando se está expondo sobre o surgimento dos astecas, está-se falando sobre um fato fixo, substancial, concreto. A história da origem dos astecas só pode ser uma. Mesmo que os historiadores lidem com  várias hipóteses e não saibam qual é a real sequência dos fatos, o certo é que apenas uma sequência será a verdadeira. A ilusão, por sua vez, é insubstancial em todos os seus aspectos. Devido à natureza da ilusão, a explicação sobre a história do seu surgimento não terá as mesmas características. De fato, há como explicar o (suposto) surgimento da ilusão, porém não há uma explicação única. É possível ter infinitas explicações. É possível construir, através de símbolos e linguagens simbólicas, um sistema de pensamento inteligente que torne o mistério do surgimento do universo uma clarificação mais plausível para o intelecto. Pode apenas torná-lo mais plausível, mais aceitável. Porém, nunca algo efetivamente verdadeiro.

Há uma vantagem em oferecer ao intelecto uma explicação plausível ou aceitável sobre um universo que não pode efetivamente ser explicado: ao receber uma explicação admissível, a mente sente-se até certo ponto satisfeita e faz diminuir em nós as suas inquietações mentais. Com a mente quieta, há em nosso ser menos perturbação e mais calma. E quanto menor for a inquietação mental, maior será o terreno preparado para que se dê a percepção da verdade. Portanto, essa é a razão pela qual alguns ensinamentos absolutistas, apesar de negarem completamente a existência de um universo ilusório, possuem uma explicação plausível e pertinente para ele.

É o caso de Um Curso em Milagres, que oferece uma explicação brilhante para a origem do universo dual. Para explicar sobre isso, o Curso se baseia na linguagem cristã que concebe Deus como a Trindade Una "Pai", "Filho" e "Espírito Santo". Nos ensinamentos desse livro, na parte em que consta "Introdução ao Curso em Milagres", está exposto o seguinte:

* "A primeira Pessoa da Trindade, obviamente, é Deus. Deus é a Fonte de tudo o que é. O Curso frequentemente refere-se a Ele como o Pai, que mais uma vez é claramente parte da tradição judaico-cristã. Ele também é chamado de Criador, e tudo vem d’Ele. A natureza de Deus, em essência, é puro espírito e, porque Deus é imutável, sem forma, eterno, e espiritual, nada que não compartilhe esses atributos pode ser real. É por isso que o Curso diz que o mundo não é real e não foi criado por Deus. O mundo é mutável; não é eterno, e a sua forma é material. Portanto, não pode ser de Deus.

A segunda Pessoa da Trindade é Cristo. O que aconteceu na criação é que Deus naturalmente estendeu a Si mesmo. O estado natural do espírito é estender-se e fluir. A extensão de Deus é criação e a criação é conhecida como o Filho de Deus ou Cristo. O que é difícil para a nossa compreensão nisso é que as únicas palavras ou conceitos que podemos usar são aqueles do nosso próprio mundo, um mundo feito de percepção, que é limitado por tempo e espaço. Esse é o universo material que nós fizemos para substituir o Céu. Contudo, a elaboração dessa ideia está além do escopo dessa palestra de um dia.


No Céu, todavia, não há tempo ou espaço. Quando pensamos em Deus estendendo a Si mesmo, a única imagem que podemos ter é baseada em espaço e tempo, que não seria correta. Como o Curso nos diz nessas ocasiões, não vale a pena nem tentar compreender algo que não pode ser compreendido. O livro de exercícios usa a expressão “devaneios sem sentido”, e isso realmente é assim. Como Um Curso em Milagres declara, só podemos apreender a verdade através de uma experiência de revelação, e não poderíamos colocar isso em palavras; as palavras são apenas símbolos de símbolos — são, portanto, duplamente afastadas da realidade.


O Filho de Deus ou Cristo também estende a Si mesmo. A extensão de Deus é Seu Filho, e Ele é chamado Cristo. Cristo é um só: existe apenas um Deus e apenas um Filho. Em outras palavras, o Filho de Deus também estende o Seu espírito de modo similar a Deus estendendo Seu espírito. Isso nos leva a um dos termos mais ambíguos no Curso: “criações”. Quando o Curso se refere às criações, ele está se referindo as extensões do espírito de Cristo. Assim como Deus criou Cristo, Cristo também cria. E as extensões de Cristo no Céu são conhecidas como criações. Essa é uma área que o Curso não tenta explicar. Quando encontramos essa palavra é suficiente compreendermos que ela apenas significa o processo natural de extensão do espírito.


Um Curso em Milagres torna muito claro, e esse é um ponto muito importante, que apesar de nós, enquanto Cristo, criarmos como Deus, nós não criamos Deus. Nós não somos Deus. Somos extensões de Deus, somos Filhos de Deus, mas não a Fonte. Existe apenas uma Fonte e essa é Deus. Acreditar que somos Deus, que somos a Fonte do Ser, é fazer exatamente o que o ego quer, e isso é acreditar que somos autônomos e podemos criar Deus assim como Deus nos criou. Se você acreditar nisso, está construindo um círculo fechado do qual não há saída, porque está dizendo que você mesmo é o autor da sua própria realidade. O Curso se refere a isso, como o problema da autoridade. Nós não somos o autor da nossa realidade; Deus é. Uma vez acreditando que somos Deus, estamos nos colocando em competição com Ele e, nesse caso, realmente temos problemas. Este é, obviamente, o erro original.


No começo, que transcende o tempo, havia apenas Deus e Seu Filho. Era como uma grande família feliz no Céu. Em um estranho momento, que na realidade nunca ocorreu, o Filho de Deus acreditou que ele podia se separar de seu Pai. Esse foi o momento no qual a separação ocorreu. Na verdade, como nos diz o Curso, isso nunca podia ter acontecido, pois como será possível uma parte de Deus se separar de Deus? Contudo, o fato de estarmos todos aqui, ou de pensarmos que estamos todos aqui, pareceria indicar outra coisa. O Curso não explica realmente a separação; apenas diz que é assim. Não tente perguntar como o impossível poderia ter acontecido, porque não poderia. Se perguntar como aconteceu, você cai de novo no erro." (Introdução)

* "O ego vai pedir muitas respostas que esse curso não dá. Ele não reconhece como perguntas a mera forma de uma pergunta à qual é impossível dar uma resposta. O ego pode perguntar: “Como ocorreu o impossível?”, “Para que aconteceu o impossível?” e pode perguntar isso de muitas formas. Entretanto, não há nenhuma resposta, apenas uma experiência. Busca somente isso, e não deixe que a teologia te atrase." (Esclarecimento de Termos)

Este ensinamento enfatiza:

* "Total consciência não é algum estado mítico inatingível, é o seu estado natural: completamente vivaz e totalmente desperto na Realidade, em que vocês sempre existiram desde o momento de sua criação. Aquilo que vocês experimentam na Terra, na ilusão, é que é IRREAL. Seu Pai os criou a partir do Amor - na alegria! - e neste estado de alegria vocês existem eternamente. NÃO HÁ OUTRO ESTADO! E sim, suas experiências na Terra, na ilusão, parecem mesmo convincentemente reais, e com frequência perigosamente inseguras. Mas, como a razão deixa bem claro para vocês, se vocês acompanharem-na com sua inferência lógica, esse estado aparente só pode ser irreal. Deus, seu Pai Divino, é infinito Amor incondicional indiscriminado. Lá no fundo, no centro de seu ser, vocês sabem disso. Nada pode destruir ou erradicar este amor, porque ele é a verdade ali colocada por seu Pai para estar permanentemente com vocês, como parte de seu estado eterno e divino de existência. É verdadeiro, real e eterno, e não existe mais nada, porque mais nada é necessário. Se fosse necessária mais alguma coisa, então Deus teria falhado! E essa possibilidade não existe e nem poderia existir. Ela é irreal."

* "O mundo que vês é uma ilusão de um mundo. Deus não o criou, pois o que Ele cria tem que ser eterno como Ele próprio. No entanto, não há nada no mundo que vês que vá durar para sempre. Algumas coisas que vês durarão no tempo um pouco mais do que outras. Mas virá o tempo no qual todas as coisas visíveis terão um fim." (Clarificação-4.1)

Portanto, quando os ensinamentos absolutos afirmam que o universo ilusório não existe, tal informação é uma revelação, e deverá ser tratada com tal. Só existe o Universo Real. O Curso afirma que cedo ou tarde, as pessoas deverão chegar ao ponto crucial de fazer a pergunta "Como o impossível aconteceu? Como poderia a perfeição, como poderia um Deus perfeito algum dia ter permitido o surgimento da separação?". Esses tipos de perguntas deveriam ser chamadas de "as perguntas mais importantes". O Curso alerta que tais perguntas carregam em si desde o início uma suposição errônea, porque todas elas são  basicamente uma declaração, uma afirmação de uma verdade em que se acredita: "o impossível aconteceu". Cuidado com as suposições! Não haverá teologia no mundo que virá para resolver isso. Haverá uma experiência que acabará com as suas dúvidas.

Continuando sobre a relação entre Universo Real e universo aparente.

Geralmente nós olhamos para a Natureza e suas obras e pensamos: "que obra linda, que bela, que divina, que perfeição criada por Deus!". Apesar de as obras paradisíacas da natureza serem belas aos nossos olhos, existem ainda obras infinitamente mais belas que o olho humano não consegue enxergar. A fim de diferenciar a existência do universo espiritual perfeito criado por Deus e a existência de um universo fenomênico projetado pela mente, Mahasaru Taniguchi explica a um adepto que levantou as seguintes indagações:

Iwamura - Entendo que o nosso corpo carnal imperfeito seja projeção da mente, mas a Natureza, as árvores, os astros, etc., em seu estado atual não é exatamente como Deus a criou? Parece-me que na pureza do céu azul ou na beleza do verde das árvores não há mínimo de pensamento impuro...

Taniguchi - Por mais que nos pareça puro ou belo, todo este mundo perceptível aos cinco sentidos é mundo da projeção. Pensar que este mundo, assim como se apresenta, já é o mundo verdadeiro, o mundo da existência verdadeira, é um erro. De fato, o céu azul é límpido e puro, as árvores são verdes e belas. Neles existe o reflexo do mundo verdadeiro. Mas a beleza do mundo verdadeiro nem se compara com essa beleza imperfeita projetada. Este mundo fenomênico é um mundo da ilusão, em que a beleza do mundo verdadeiro se reflete de maneira impefeita; nele, luz e treva estão mescladas. A consciência de que somos filhos de Deus é a luz, a realidade. A ilusão que admite sermos a matéria chamada corpo carnal é a treva, a falsidade. Mistura de luz e treva, de realidade e falsidade - é isto que caracteriza este mundo. Se toda a natureza perceptível aos cinco sentidos fosse a realidade tal qual Deus criou, a lei do mais forte que vigora entre os animais - a cobra que devora o sapo, o leão que mata e come o carneiro - também seria real. Se fosse assim, não poderíamos dizer que Deus é amor, nem que Deus é harmonia. Quando se admite que o mundo perceptível aos cinco sentidos é, assim mesmo, o mundo verdadeiro criado por Deus, invalida-se e se contradiz a Verdade de que Deus Criador é Bem.

Iwamura - Se este mundo imperfeito perceptível aos cinco sentidos não é o mundo tal qual Deus criou, e sim um mundo da ilusão onde se projeta imperfeitamente o mundo verdadeiro criado por Deus, o que seria esse mundo da ilusão?

Taniguchi - O mundo da ilusão não existe verdadeiramente. Quando uma coisa inexistente aparenta existir, é ilusão. Se algo existente mostra que existe, é realidade e não ilusão. Na verdade, a ilusão propriamente dita não existe. Sendo a ilusão algo inexistente que aparenta existir, desaparecerá se conhecermos a Verdade.

Iwamura - E por que é que se tem a ilusão de que uma coisa inexistente existe?

Taniguchi - Isso, em budismo, também constitui uma questão assaz complicada, e existe o que se chama "Teoria da Origem da Ilusão". Ainda não houve um só filósofo no mundo que tenha conseguido explicar de maneira convincente de onde surgiu a ilusão. Há quem explique com a teoria do surgimento causal, isto é, que "aquela ideia surgiu por acaso", mas não é considerada uma explicação satisfatória. Na minha opinião, já que a ilusão não existe verdadeiramente, o próprio fato de buscar a origem daquilo que é inexistente é ilusório. Se buscarmos a sua origem, estamos pressupondo que existe. Mas não adianta buscar insistentemente a origem do que não existe.

Iwamura - Como podemos saber que não existe?

Taniguchi - Enquanto ficarmos buscando insistentemente a sua localização ou a sua origem, não compreenderemos que a ilusão não existe. Quando deixarmos de lado o que não existe e conscientizarmos do que existe realmente - a Verdade sagrada de que somos filhos de Deus -, a ilusão revelará por si a sua verdadeira natureza que é a inexistência e desaparecerá. Não existe outro meio de provar a inexistência da ilusão. (A Verdade da Vida, vol. 16,  capítulo 3)

No livro 11 da Verdade da Vida (livro que discorre acerca da origem da criação sob a ótica do Gênesis bíblico), Masaharu Taniguchi escreve que a cosmologia bíblica relata que o mundo foi criado duas vezes. A interpretação da Seicho-No-Ie afirma que no capítulo 1 do Gênesis a Bíblia narra a criação do Mundo do Jissô, ao passo que o capítulo 2 descreve o surgimento do universo fenomênico, após a suposta queda do homem. Nesse sentido, ele descreve:

* O que o Gênesis registra, do segundo capítulo em diante, é a descrição do mundo fenomênico através da ilusão. A teoria budista de que "o mundo foi criado pela treva (ilusão) e não por Deus criador" corresponde ao que o Gênesis descreve daqui para a frente. Portanto, o mundo material, isto é, o "mundo da projeção mental", não é criação de Deus. Quando a Seicho-No-Ie diz que "Deus criou o Universo", está se referindo ao Universo anterior à ilusão e às condições anteriores ao encobrimento do Mundo da Imagem Verdadeira (página nº 72).

* O versículo 2 do segundo capítulo - "E Deus acabou no sétimo dia a obra que tinha feito" - significa que a criação espiritual do Universo de Deus foi concluída; a criação verdadeira já foi feita. Portanto, toda a criação descrita daí em diante não é criação de Deus, mas sim criação da ilusão, criação falsa, resultante da projeção da realidade distorcida pela lente da ilusão de que "a matéria é existência real". (pp. 73)

* Várias vezes tenho dito: o universo material não é o Universo Real, ou seja, o mundo da Imagem Verdadeira, e sim projeção deste. Como projeção, reflete o mundo da Imagem Verdadeira. (A Verdade da Vida, vol. 11, pp. 64)

* A criação do Universo por Deus é a criação espiritual no mundo da Imagem Verdadeira, anterior ao mundo material. E, porque tudo que existe no mundo da Imagem Verdadeira é perfeição suprema e não existe uma única coisa que seja imperfeita, assim diz a Bílbia: "Deus viu todas as coisas que tinha feito, e eram muito boas". Somente o mundo da Imagem Verdadeira criado por Deus é existência verdadeira, e tudo o que ali existe é perfeito e impecável. Se parece existir imperfeição (doença, disputa, miséria, sofrimento, tristeza, etc.), isso é ilusão. Esta compreensão é o despertar espiritual que constitui o fundamento da cura metafísica da Seicho-No-Ie. (A Verdade da Vida, vol. 11, pp. 71)

* A Seicho-No-Ie não diz para acreditar cegamente em Deus. Ela diz: "Compreenda Deus e a obra verdadeira de Deus através da sabedoria para compreender a Verdade; não acredite às cegas; conheça aquilo que é autêntico, eterno e real, distinguindo-o daquilo que é falso. Conhecer o autêntico é a crença verdadeira que conduz à felicidade;  a crença que não reconhece o autêntico é superstição, e a superstição gera o infortúnio." A crença verdadeira consiste em reconhecer Deus e o mundo perfeito que Ele criou e afirmou ser "muito bom", como a única existência verdadeira, plena de amor. (pp. 76)

Há ensinamentos cristãos que, devido à narrativa bíblica, admitem que o homem perfeito criado por Deus foi tentado pela "serpente" perniciosa a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Comendo desse fruto, o homem desobedeceu  a Deus, cuja a recomendação foi a de que não comesse, e, por isso, acabou sendo expulso do Paraíso Perfeito (mundo do Jisso). Como consequência de sua expulsão, o homem viu-se dentro de um universo ilusório imperfeito. Isso é o que os ensinamentos consideram "a queda do homem". Sobre esse assunto, a Seicho-No-Ie explana:

A "árvore da vida" e a "árvore do conhecimento do bem e do mal". A primeira é a árvore da Verdade e simboliza a sabedoria verdadeira, como a enfatizada pela Seicho-No-Ie, de que "todas as existências verdadeiras são criações de Deus, portanto são vida e perfeição". A segunda simboliza a inteligência humana, presa à matéria que dualiza "isto é bem, isto é mal", ou seja, que acredita: "o mal, a imperfeição, a doença e a infelicidade também são existências reais". Deus é Amor e Sabedoria; portanto, não poderia ter criado a "árvore do conhecimento do bem e do mal" para que o homem, comendo o fruto dela, se tornasse uma criatura má e punível com a expulsão do jardim do Éden. Semelhante árvore não existe na realidade; ela simboliza a treva (ilusão) em contraposição à sabedoria divina (árvore da vida).  (pp.76)

A Seicho-No-Ie tem a característica forte de afirmar que para se conhecer a verdade a ilusão tem de ser negada! O eu fenomênico deve ser negado, ao invés de admtido como uma das manifestações do Eu verdadeiro. O mundo fenomênico deve ser negado, ao invés de ser admitido como abrangido pela universo verdadeiro. Tire da frente o fenômeno, e a existência real será percebida. Comparativamente, é como se houvesse uma cortina escura na frente de uma cena. Remova a cortina e a cena será percebida. Em outros volumes da coleção, o venerável Mestre explica:

* A filosofia da Seicho-no-ie parte da negação de tudo quanto pode ser captado pelos sentidos. Em vez de ensinar que devemos aceitar docilmente a "realidade do mundo apreensível aos sentidos, tal como ela é", ensina que o mundo captado pelos sentidos não é realidade. A "realidade tal como é" existe no mundo verdadeiro (mundo do Jisso) e é a realidade da perfeição, da bondade e beleza supremas, na qual não há lugar para sofrimentos e tristezas. Em outras palavras, a Seicho-no-ie admite, não a realidade do mundo visível tal como ela é, mas sim a realidade do mundo que transcende os sentidos, a qual pode ser apreendida naturalmente após a negação total do mundo visível aos olhos carnais.  O mundo perceptível aos sentidos é projeção imperfeita do mundo do Jissô (mundo verdadeiro). Assim sendo, quando afirmamos o mundo verdadeiro após havermos negado a "sombra projetada" (o mundo apreensível aos sentidos) e apagado todas as ilusões - do mesmo modo que traçamos a figura correta de algo no quadro-negro, após apagar o desenho mal feito -, o aspecto perfeito do mundo verdadeiro projeta-se corretamente neste mundo material. E então encontramos a salvação também neste mundo dos cinco sentidos. (V.V., volume 12)

* "Na Seicho-No-Ie negamos totalmente o fenômeno dizendo 'o fenômeno não existe', e, somente então dizemos que 'tudo o que existe é bom', vendo apenas a existência verdadeira. A negação da matéria, preconizada pela Seicho-No-Ie não é a "negação pela negação', e sim a 'negação que conduz à grande afirmação' (V.V, volume 14).

Masaharu Taniguchi sempre encontrou com pessoas que, por mais que tentassem, não conseguiam de modo algum compreender a filosofia da negação da matéria preconizada pela Seicho-No-Ie, e assim repeliam os ensinamentos da Seicho-No-Ie, taxando-os como filosofia falsa e supersticiosa. Masaharu Taniguchi deparava-se aos montes com pessoas assim. Isso levou-o a escrever:

* Há pessoas que refutam a irrealidade do “eu fenomênico” pregada pela Seicho-no-Ie, argumentando: “Se o eu fenomênico não existe realmente, a quem vocês pregam a Verdade? Penso que a religião não consiste em pregar a Verdade ao eu verdadeiro, que está salvo desde o princípio. Se se prega a Verdade, é porque existe o eu fenomênico, que não está salvo”. Realmente, é muito difícil compreender o que seja a negação do eu fenomênico, visto que ele parece existir concretamente como “eu” que está, neste momento, refletindo, duvidando, questionando... (V.V. volume 14)

Continua...

terça-feira, setembro 18, 2012

Ensinamentos Iluminados: Brahma x Iswara



Este é, talvez, o texto mais importante jamais postado na história deste blog. Sempre os diversos textos e artigos publicados neste site apresentam ensinamentos belos e profundos apontando para uma realidade consciencial que está além da mente, ou seja, todos os artigos buscam revelar a existência e a possibilidade de se atingir a consciência transcendental, a iluminação espiritual. Porém, há  um detalhe sutil que, quando levado em conta, revela algo bastante significativo; e é isso que merece agora ser conhecido: apesar de todos os ensinamentos apresentados neste blog referirem-se à iluminação espiritual, nem sempre todos eles estão falando sobre a mesma coisa, sobre a mesma iluminação. Aqui, ora encontramos ensinamentos não-duais dizendo que "Deus é tudo e o universo da dualidade não foi criado por Deus e não existe"; e ora encontramos textos não-duais trazendo explanações no sentido de que "a existência do universo da dualidade é vontade de Deus". Ora ouvimos dizer que "Deus desconhece por completo o mundo dos homens e não possui absolutamente nenhuma ligação com a humanidade"; ora escutamos que "Deus está plenamente ciente e interagindo com os homens no mundo onde eles estão". O mais surpreendente de tudo isso é que ambos são ensinamentos não-duais e transcendentais que apontam para a UNIDADE! Como pode ser isso? Se num dado momento os ensinamentos transcendentais dizem "X" sobre Deus e, noutro momento, desdizem e falam "Y", como é que fica Deus em meio a toda essa história? A Realidade, Deus, a Verdade, só pode ser uma, jamais tem como ser as duas coisas ao mesmo tempo. É preciso compreender o que afinal vem a ser Deus. É disto que este post trata.

Portanto, ao ter contato com os diversos textos contidos neste site, o leitor irá se deparar com duas vertentes - dois pontos de vistas - sobre a iluminação espiritual. As duas espécies de ensinamentos apresentados são iluminados, transcendentais, não-duais. Entretanto, como visto,  as concepções diferem no tocante a Deus. Isso é assim porque, enquanto uma vertente diz que Deus está ciente da ilusão e interage com ela, a outra afirma que Deus não a criou e a desconhece por completo. No mais, ambas seguem parecido. Por que seguem parecido? É porque, apesar de suas distinções quanto a Deus na origem, ambas enfatizam a necessidade de transcender a dualidade rumo à Unidade. Ou seja, ambas enfatizam a necessidade de sair fora de uma "ilusão" para vivenciar o "real". Devido a essa pequena sutileza, quase indetectável, há uma brecha imensa camuflada que permite às pessoas confundirem ou misturarem os pontos de vistas apresentados, levando-as a afirmarem que todos os ensinamentos estão dizendo a mesma coisa.

Dizer que Deus não criou o universo da dualidade e - mais do que isso - que Ele desconhece por completo a existência de seres humanos é algo duro, difícil, estarrecedor, chocante e quase inaceitável de acreditar. Mas essa é a maneira firme, convicta, taxativa e categórica apresentada por determinados ensinamentos. Na história da humanidade sempre existiram seres afirmando terem alcançado tal iluminação ou percepção: Deus é puro Amor, Sabedoria, Inteligência, Alegria, Força, Vida, Bem, Harmonia, Paz, Luz. Deus desconhece o mundo, desconhece seres humanos, desconhece por inteiro este universo físico tal como o concebemos; o homem, por outro lado, não é aquilo que percebe ser, ele é o próprio Deus sendo. O universo, por sua vez, é um Universo Espiritual Perfeito, o qual também é o próprio Deus sendo. Deus é a totalidade de tudo o que existe! E o universo físico não existe absolutamente. Deus não o criou. Então quem o criou? Algo outro que não Deus o criou; foi a ilusão quem o criou. E esse "algo" é o NADA. Isso o que está aqui descrito é uma iluminação, um ponto de vista.

O outro ponto de vista, que também ao longo de todos os tempos sempre veio sendo pregado por grandes seres da humanidade, transmite que o universo da dualidade foi criado por Deus. Deus é o puro Amor e a manifestação do universo dualístico constitui expressão da Força e do Amor de Deus; apesar disso Deus é um ser inteiramente transcendente ao universo dual. Ou seja, Deus abrange toda a manifestação dual e ao mesmo tempo está infinitamente além de tudo o que é dual. Ele conhece, ama, brinca e interage com a dualidade. Ele está "dentro" (imanente) e ao mesmo tempo "fora" (transcendente). Então, deste ponto de vista, Deus também é a totalidade de tudo o que existe. Estes ensinos também afirmam convictamente que a dualidade é um fenômeno ilusório, e que Aquilo que está além da dualidade é o Real. E assim temos aqui pronto o outro ponto de vista; essa é a outra iluminação.

Como podemos perceber, a natureza da iluminação espiritual pregada em alguns ensinamentos difere da natureza da iluminação espiritual apresentada em alguns outros. Para fins didáticos, neste texto vamos nos referir a elas como "iluminação nº 1" e "iluminação nº 2". É importante ter em mente que ambas as iluminações enfatizam a necessidade de transcender a ilusão e de conscientizar/perceber o que é Real. Feitas essas considerações, vamos discorrer agora sobre ambos os ensinamentos iluminados.

O primeiro diz que Deus não criou a ilusão: foi a ilusão quem criou a ilusão. Deus, por sua vez, habita e vive um estado de ser completo em Si mesmo, totalmente alheio à existência de uma suposta ilusão, de maneira que o Seu desconhecimento sobre a ilusão jamais compromete ou coloca em jogo a Sua Onisciência - porque "ilusão" não existe de forma alguma em absoluto. Para Deus, a ilusão nunca existiu. Este primeiro ensinamento iluminado afirma que o universo da dualidade é uma ILUSÃO no sentido de ser uma "imagem hipnótica" ou "quadro hipnótico". É como se estivéssemos caminhando por horas num deserto escaldante e de repente começássemos a enxergar à frente um oásis com lagoas, árvores, tendas, pessoas passando de um lado para o outro, etc. Repare que nesse exemplo do deserto a pessoa não tem nenhuma espécie de "intenção" ou "vontade" de ver palmeiras, lagos, tendas e pessoas no meio de um deserto onde não há realmente nada. A ilusão aqui, portanto, é compreendida como sendo uma alucinação.

O segundo diz que Deus tem vontade da ilusão: a ilusão é compreendida como sendo uma manifestação, um transbordamento alegre da totalidade ou plenitude de Deus. Aqui é dito que a ilusão não existe realmente, ela existe apenas em certo sentido, e é por isso que é possível a Deus tomar ciência da ilusão. Este segundo ensinamento afirma que se Deus não pudesse tomar ciência da ilusão, Ele não seria onisciente. O ensinamento nº 2 estabelece que o universo da dualidade é uma ilusão no sentido de ser uma "representação", onde os atores deliberadamente sobem num palco para encenar inexistências. Ou seja, aqui existem "intenção" e "vontade" de propiciar o surgimento da ilusão. Deus é o diretor e o ator por detrás de cada representação ilusória que está sendo encenada. Para elucidar completamente o entendimento do que vem a ser a representação: Amor é o que Deus "é", ao passo que o medo é aquilo que Deus "não é". Unidade é o que Deus "é", ao passo que a dualidade é aquilo que Deus "não é". Unicidade é o que Deus "é", ao passo que separação é aquilo que Deus "não é". Como não é da natureza de Deus ser "medo", "separação" e "dualidade", Ele irá representá-los: é então que surge a ilusão. Assim, o amor, a vida, a alegria, a bem-aventurança, a harmonia e a paz existem como Existências, enquanto que o medo, o mau, a doença, o sofrimento e a morte existem como representações. A representação existe com a finalidade de expressar aquilo que Deus "não é", uma vez que todas as coisas que Deus "é" já estão constituídas/inseridas em Sua própria natureza, ou seja, já estão sendo expressadas no âmbito de Seu próprio Ser. Deus não precisa de representação para expressar o que Ele "é".

Continuando: em regra, o ensinamento nº 2 diz que a vida meditativa não exclui a nossa vivência e o nosso envolvimento com o mundo irreal. É ensinado que podemos meditar aproveitando as nossas ações. Por exemplo, podemos estar conscientes - em pleno estado de alerta - enquanto estamos dirigindo, conversando, comendo, caminhando, respirando, etc. Na iluminação nº 2 não é necessário tirar a atenção da ilusão para estarmos em estado meditativo. Então, as meditações desse tipo são bastante práticas.

Por outro lado, os ensinamentos da iluminação nº 1 dizem para reservarmos um tempo para tirarmos 100% a atenção da ilusão a fim de que possamos meditar/contemplar uma Realidade Espiritual Perfeita que não abrange nem se envolve com a representação. Aqui, diferentemente do ensinamento nº 2, a percepção do Real excluirá definitivamente a percepção que enxerga o mundo irreal. Essas meditações requerem grande dedicação.

O interessante de tudo isso é que podemos escolher adotar qualquer um dos pontos de vista sobre Deus e sobre o universo da dualidade. É possível encarar/lidar com a ilusão como se ela fosse uma representação, ou então como sendo um quadro hipnótico. Essas duas diferenças surgem dependendo do ponto de vista adotado na origem sobre Deus, que citei anteriormente. Em ambos os casos existe uma percepção transcendental que extrapola os limites da mente humana e que faz surgir no indivíduo um "saber" transcendente ao mero "acreditar" ou "não acreditar". Decorrente desse saber transcendental, a pessoa adquire uma convicção inabalável. Podemos admitir a ilusão como sendo uma representação. Ou podemos admití-la como uma ilusão (no sentido de inexistência total, MESMO!). Ambos funcionam! Ambos podem ser conhecidos e experienciados. Isso pra mim ainda é um mistério tremendo.  Ambos são ensinamentos espirituais iluminados e não-duais. Apesar disso, podemos perceber que eles não se confundem e não se misturam. Eles têm propósitos diferentes.

É por isso que o hinduísmo tem tantas divindades diferentes. Dentre todos os deuses da mitologia hindu, destaco Brahma e Iswara. Brahma é o Deus Absoluto (que corresponderia ao Deus a que se refere o ensinamento nº 1). Ele não está ciente de nenhuma outra realidade, senão a divina, que é Ele próprio. Ele não toma conhecimento de ilusões. Quando a ilusão surge (o que, do ponto de vista de Brahma, nunca ocorre), é necessário também que exista uma "inteligência universal" para sustentar/governar/manter todo o universo ilusório. Essa força ou inteligência universal será insondável, e será também onipresente, onipotente e onisciente no âmbito da ilusão. Ela será Deus - mas será o Deus de todo o universo dual holográfico/ilusório. E é aqui que entra a figura de Iswara.

Brahma não é Iswara. Mas ambos podem ser considerados como Deus. 

Iswara é o Deus criador da ilusão (o Deus a que se refere o ensinamento nº 2). Foi Ele quem a criou em todos os seus níveis. Ele está além de tudo e, ao mesmo tempo, aparece como sendo tudo. É Ele quem está representando a ilusão. No âmbito da ilusão, é Ele quem tudo faz e, mesmo "fazendo", trancende tudo aquilo que "faz". Iswara é transcendental a tudo o que existe na representação. Há uma espécie de unidade ou unicidade nele. O ensinamento que prega Iswara também é não-dualista.

Iswara é Deus e ao mesmo tempo é a "Fonte da ilusão". Portanto, a ilusão veio de Iswara. Por sua vez, Brahma não pode ser considerado como "Fonte de alguma coisa", porquanto essa "alguma coisa" teria  de ser obrigatoriamente Ele  próprio, sem representações. Brahma nem mesmo é fonte de si mesmo. Seria incorreto dizer que Brahma veio de si mesmo, pelo simples fato de que ele nunca veio. Ele é eternamente, por inteiro. Ele não entra no nível do universo físico para representar. Em Brahma há apenas um nível (Ele mesmo), e todas as coisas (Ele mesmo) são manifestadas nesse Nível Único (Ele mesmo). Uma completa UNIDADE sendo! Não existe necessidade alguma de manifestar uma representação. Na verdade, todas as coisas que existem em Brahma são o próprio Brahma. Mas para se conhecer e experienciar isso, é preciso ter a Revelação apontada pelos ensinamentos da iluminação nº 1.

Esses dois ensinamentos iluminados encontram-se separados por uma linha extremamente tênue, sendo, no mais, em tudo muito parecidos, na verdade, quase iguais. Tal diferença mínima é tão pequena, quase insignificante, mas é capaz de provocar todo esse disparate. Para o olho treinado, Iswara não é Brahma, embora ambos sejam Deus.

Entretanto há uma relação mínima e indireta que pode ser estabelecida entre Iswara e Brahma. A fim de compreendermos esta relação, consideremos as seguintes questões:

1) "Que relação existe entre Iswara e Brahma?" 
2) "Que relação existe entre Brahma e Iswara?"

A primeira pergunta é no sentido de Iswara para o Brahma. A segunda pergunta atua no sentido que parte de Brahma em direção à Iswara. São duas perguntas importantes que, embora pareçam a mesma,  não são, pois possuem respostas diferentes. Vamos imaginar a figura de uma árvore à margem de um rio. Se olharmos para o rio, veremos que a imagem da árvore está refletida na superfície da água. Então, poderíamos fazer a pergunta: qual a relação da imagem refletida na água com a árvore real que está plantada na beira do rio? E que relação existe entre a árvore e a imagem dela no rio? A resposta para a primeira pergunta é: a imagem na água é possível devido à existência da árvore que está plantada à beira do rio. Mas, se especularmos que relação existe entre a árvore e a imagem refletida, a resposta será: não há nenhuma! A árvore não está lá para fazer surgir a sua imagem na superfície do rio. De fato, a árvore nem sabe que está sendo refletida na água. Se a imagem da árvore na água ficar turva e quebrada, isso ocorre devido à propriedade que a água tem de oscilar e provocar a distorção da imagem. Perceba que é a superfície da água que está provocando a ilusão de representar "imagens distorcidas". Poderíamos dizer que é a água que tem a vontade de encenar/representar as imagens turvas e quebradas, e não a árvore. A árvore nada tem a ver com o que está acontecendo.

Iswara é o agente cujas propriedades permitem o surgimento de um universo dual ilusório ora bem/mau, ora abundante/escasso, ora sim/não. É Ele quem o cria e o representa, permanecendo ele mesmo além de toda criação. No âmbito da ilusão, ele é tudo em tudo, como tudo. Mas nada do que está sendo feito por ele é do conhecimento de Brahma.

Um outro importante ponto a ser considerado é o seguinte: o ensinamento iluminado nº 2 diz que apesar de existir o universo ilusório da representação, não há em verdade nisso uma necessidade real. Deus não depende da existência de uma representação. Isso significa que se a representação não existisse, tudo estaria bem, perfeito, nada real em absoluto seria afetado. Todavia a iluminação nº 2 postula que, apesar de não ser necessário, o universo irreal parece ter algum propósito: o de Deus expressar o seu amor e a sua totalidade através das manifestações da dualidade. A razão pela qual o universo da dualidade está aqui é que o amor de Deus está operando com alegria em tudo e por toda a parte. Deus está simplesmente celebrando tudo e isso é algo que deve ser percebido. Uma vez percebido, a pessoa compreenderá sem necessidade de maiores questionamentos que essa explicação é o bastante para explicar a existência da representação. Então, se a representação existe ou não existe, isso não importa, e o que quer que seja ou aconteça é aceito e desfrutado e tudo é muito bom. O indivíduo então sentirá essa verdade e a vivenciará.

Mas do ponto de vista do ensinamento iluminado nº 1, a existência do universo ilusório não tem propósito algum; ele é completamente desnecessário porque é NADA. Ele não existe, apenas parece existir, mas chegará um momento no qual deixará inclusive de aparentar existir e desaparecerá por completo. Por ser desnecessário! Nenhum Filho de Deus no Universo inteiro perceberá a existência aparente/falsa de um universo estranho ao Universo Verdadeiro Criado por Deus. Em verdade, essa iluminação revela que nenhum Filho de Deus jamais viu universo ilusório algum. Só o Universo Divino é Real. Ele é tudo o que sempre existiu, existe e sempre existirá, eternamente e infinitamente.

A fim de comprovar a veracidade de que estes dois ensinamentos iluminados realmente existem, enumero a seguir uma lista com os mestres e os ensinamentos referentes a cada uma destas duas iluminações. É impossível conhecer todos os ensinamentos e mestres iluminados do mundo, mas todos aqueles com os quais já me deparei e que foram apresentados neste blog até hoje estarão apresentados nas listas abaixo. Alguns deles abordam ambos os ensinamentos iluminados, embora predominem mais para um lado do que para o outro. Pelo fato de eles não serem explícitos em suas falas quanto a essas duas iluminações, cabe ao ouvinte ser atento e perceber as sutilezas, o sentido e a profundidade do que está sendo revelado. Por exemplo,  em meus contatos com os ensinamentos de Ramana Maharshi, na maioria das vezes vi ele afirmar que "o mundo exterior (ou seja, a ilusão) quando corretamente compreendido é a manifestação do próprio Ser". Contudo, lembro-me claramente de que Ramana Maharshi também disse que "Quando Deus existe, o mundo não existe."

Eis os ensinamentos e mestres que falam a respeito da realização da iluminação nº 1:

- Metafísica Absoluta  
- Um Curso em Milagres
- Christian Science - Ciência Cristã (Mary Baker Eddy)
- Seicho-No-Ie (Masaharu Taniguchi)
- O Caminho Infinito (Joel S. Goldsmith)
- Meher Baba
- Ramana Maharshi
- Outros Autores: Dárcio Dezolt, Lillian DeWaters, Marie S.Watts, Alfred Aiken, Allen White, Vivian May Willians.

Eis os ensinamentos e mestres que difundem a iluminação nº 2 (alguns integrantes da relação anterior também estarão aqui):

- Ensinamentos Advaita
- Seicho-No-Ie
- O Caminho Infinito
- Conversando com Deus (livros de Neale Donald Walsch)
- Ramana Maharshi
- Meher Baba
- Nisargadatta Maharaj
- Eckhart Tolle
- Osho (a única vez que vi o Osho fazer uma vaga referência à iluminação nº 1 foi neste texto que você pode ler clicando aqui.)
- As descobertas da Ciência Quântica

No próximo post, teremos as explanações dadas neste texto sobre a iluminação nº 1 acompanhadas das próprias palavras dos mestres e dos ensinamentos. Não será necessário adotar o mesmo procedimento com relação à iluminação nº 2, uma vez que é fácil de se agradar com ela e assim acreditar ou aceitar a sua existência. A iluminação nº 1 é a que diz que Deus não criou este universo físico, não criou os seres, tampouco a vida que esses seres estão vivendo neste universo dualístico - algo bastante desagradável de se ouvir. Em face disso, a iluminação nº 1 é muito mais difícil de ser aceita.  E o objetivo do próximo texto será o de explicitar que, sim, tal iluminação existe e pode ser conhecida e experienciada.


sábado, setembro 15, 2012

Maya (ilusão) 2/2

Meher Baba


III - TRANSCENDENDO AS FALSIDADES DE MAYA

Inúmeras são as falsidades que uma pessoa guiada por Maya abraça no torpor da ignorância; e desde o início, as falsidades carregam dentro de si sua própria insuficiência e falência. Cedo ou tarde elas são conhecidas como mentiras. Isso leva a pessoa à pergunta: Como discernir a falsidade como falsidade? Não há nenhuma saída da falsidade, exceto ao conhecê-la como falsa, mas esse conhecimento da falsidade como falsidade nunca chegaria a menos que estivesse de alguma forma latente na própria falsidade, desde o início.

A aceitação da falsidade é sempre um acordo forçado. Mesmo nas profundezas da ignorância, a alma oferece algum tipo de desafio para a falsidade. Não importa o quão fraca e desarticulada pareça estar em seus estágios iniciais, é o início daquela busca da Verdade que finalmente aniquila toda a falsidade e toda a ignorância. Na aceitação de uma falsidade há uma inquietação crescente, uma profunda desconfiança e um medo vago. Por exemplo, quando um indivíduo considera a si mesmo e os outros seres como idênticos ao corpo grosseiro, ele não consegue reconciliar-se totalmente a essa crença. Ao abraçar essa falsa crença há o medo da morte e o medo de perder os outros. Se uma pessoa depende somente da posse de formas para sua felicidade, ela sabe em seu coração que está construindo seus castelos na areia movediça, sabe que este certamente não é o caminho para a felicidade permanente, que o apoio ao qual ela tão desesperadamente se apega pode a qualquer dia desaparecer. Por isso, ela está profundamente desconfiada de suas bases.

O indivíduo está inquietamente consciente de sua própria insegurança. Ele sabe que algo está errado em algum lugar e que ele está contando com falsas esperanças. A falsidade é traiçoeiramente desconfiável. Ele simplesmente não pode-se dar ao luxo de abraçá-la para sempre. Ele poderia muito bem colocar uma cobra venenosa em torno de seu pescoço ou ir dormir no topo de um vulcão que está apenas temporariamente inativo. A falsidade traz a marca de ser incompleta e insatisfatória, temporária e provisória. Ela aponta para algo mais. Para a pessoa ela parece estar escondendo algo maior e mais verdadeiro do que aquilo que ela parece ser. A falsidade trai a si mesma e ao fazer isso leva a pessoa a conhecer a verdade.

As falsidades são de dois tipos: aquelas que surgem devido ao pensamento irregular e desconexo, e aquelas que surgem devido ao pensamento viciado. As falsidades que surgem devido ao pensamento irregular são menos prejudiciais do que aquelas que surgem do pensamento viciado. As falsidades de natureza puramente intelectual surgem por causa de algum erro na utilização do intelecto. Enquanto que falsidades que são importantes do ponto de vista espiritual surgem por causa do vício do intelecto, através da operação dos desejos irracionais que cegam.

A diferença entre esses dois tipos de falsidade pode ser interposta por uma analogia fisiológica. Alguns distúrbios dos órgãos vitais do corpo são funcionais e alguns são estruturais. Doenças funcionais surgem por causa de alguma irregularidade no funcionamento de um órgão vital. Nesses casos não há nada de muito errado com a estrutura do órgão vital. Ele apenas tornou-se lento ou irregular e precisa apenas de um pequeno estímulo ou correção a fim de funcionar corretamente. Nos distúrbios estruturais, a doença passa a existir por causa do desenvolvimento de alguma deformidade na estrutura ou na constituição do órgão vital. Nesses casos, o distúrbio do órgão vital é de natureza muito mais grave. Ele tornou-se danificado ou ineficaz devido a algum fator concreto que afetou a própria constituição do órgão. Ambos os tipos de doenças podem ser corrigidas, mas é muito mais fácil a correção de problemas meramente funcionais do que corrigir os estruturais.

As falsidades que surgem devido a alguma irregularidade na utilização do intelecto são como os distúrbios funcionais e as falsidades surgidas devido ao vício do intelecto são como os disturbios estruturais. Assim como os distúrbios funcionais são mais fáceis de corrigir do que os estruturais, as falsidades decorrentes de irregularidades na aplicação do intelecto são mais fáceis de corrigir do que aquelas que surgem devido ao vício do intelecto. A fim de corrigir uma doença funcional de um órgão vital, tudo o que é necessário é dar-lhe uma melhor modulação e mais força. Se há uma doença estrutural, muitas vezes é necessário realizar uma operação. Da mesma forma, se as falsidades surgem devido a alguns erros na aplicação do intelecto, tudo que é necessário é mais cuidado na aplicação do intelecto. Mas se as falsidades surgem devido ao vício do intelecto, é necessário purificar o intelecto. Isso exige o doloroso processo de remoção daqueles desejos e apegos que são responsáveis por viciar o intelecto.

As falsidades do pensamento viciado provêm de erros na avaliação inicial. Surgem como um subproduto da atividade intelectual, que consiste na busca de determinados valores aceitos. Eles entram em existência como uma parte da racionalização e da justificação dos valores aceitos e devem seu domínio sobre a mente humana à seu aparente suporte dos valores aceitos. Se eles não afetassem os valores humanos ou a sua realização, passariam imediatamente para a insignificância e perderiam seu controle sobre a mente. Quando as falsas crenças derivam seu ser e vitalidade dos desejos profundamente enraizados, elas são alimentadas por falsas buscas. Se o erro nas falsas crenças é puramente intelectual, é fácil de ser corrigido. Mas as falsas crenças que são alimentadas por falsas buscas são as fortalezas de Maya. Elas envolvem muito mais do que o erro intelectual e não são diminuídas através de meras afirmações contrárias de natureza puramente intelectual.

A eliminação de desejos e apegos que viciam o pensamento não é realizada exclusivamente pelo mero intelecto. Isso requer esforço correto e ação correta. Não é através de especulações irrosolutas, mas sim através da execução de coisas que as verdades espirituais devem ser descobertas. A ação honesta é uma ação preliminar à eliminação das falsidades espirituais. A percepção das verdades espirituais exige não apenas pensamentos intensos e furiosos, mas pensamento claro e a verdadeira clareza de pensamento é fruto de uma mente pura e tranquila.

Não até o desaparecimento do último vestígio da falsidade criada por Maya, Deus é conhecido como a Verdade. Somente quando Maya é completamente superada que surge o conhecimento supremo de que Deus é a única Verdade. Só Deus é real. Tudo o que não é Deus, tudo o que é impermanente e finito, tudo o que parece existir dentro do domínio da dualidade, é falso. Deus é uma Realidade infinita una. Todas as divisões que são concebidas dentro desta realidade são falsamente concebidas, pois elas não existem de fato.

Quando Deus é considerado divisível, isso é devido a Maya. O variado mundo da multiplicidade não implica no fracionamento de Deus em várias partes diferentes. Existem diferentes mentes-ego, diferentes corpos, diferentes formas, mas uma só alma. Quando a Alma uma (Deus) assume diversas mentes-ego e corpos, há diferentes almas individualizadas, porém, isso não introduz nenhuma multiplicidade dentro da própria Alma uma. A Alma é e permanece sempre indivisível. A Alma única indivisível é a base das diferentes mentes-ego e dos diferentes corpos, que produzem os pensamentos e as ações de vários tipos e que passam por inúmeros tipos de experiências duais. Mas a Alma é indivisível e permanece sempre além de todo pensamento e ação e além de toda experiência dual.

As diferentes opiniões ou diferentes maneiras de pensar, não introduzem multiplicidade dentro da Alma indivisível pela simples razão de que não existem opiniões ou quaisquer formas de pensar dentro da alma. Toda a atividade do pensamento e as conclusões extraídas deles estão dentro da mente-ego, que é finita. A alma individualizada como Alma não pensa, é apenas a mente-ego que pensa. O pensamento e o conhecimento que vem através do pensamento são possíveis no estado de conhecimento imperfeito e incompleto pertencente à mente-ego finita. Na própria alma individual não há nem pensamento, nem o conhecimento que vem através do pensamento.

A alma individualizada como Alma é o pensamento infinito e a infinita inteligência, não há divisão entre o pensador e o pensamento e as conclusões do pensamento, nem a dualidade do sujeito e do objeto. Somente a mente-ego com o pano de fundo da alma pode se tornar o pensador. A alma individual como Alma, a qual é pensamento infinito e inteligência infinita, não pensa ou tem qualquer atividade do intelecto. O intelecto com o seu pensamento limitado surge apenas com a mente-ego finita. Na completude e suficiência da inteligência infinita, que é Alma una, não há necessidade para o intelecto ou suas atividades.

Com a queda do último vestígio das falsidades criadas por Maya, a alma individual não só conhece a sua realidade como sendo diferente do corpo grosseiro, do sutil, ou do mental, mas conhece a si mesma como sendo Deus, que é a única Realidade. Neste estado a alma sabe que a mente, o corpo sutil e o corpo físico eram todos igualmente criações de sua própria imaginação, e que na realidade nunca existiram. Ela sabe que por ignorância ela concebeu-se como sendo a mente ou o corpo sutil ou corpo físico. A alma individual sabe também que, em certo sentido, ela tornou-se a mente, o corpo sutil e o corpo grosseiro e então indentificou-se com todas essas ilusões auto-criadas.


IV - DEUS E MAYA

Deus é infinito porque Ele está acima dos opostos limitantes da dualidade. Ele está acima dos aspectos limitados de bom e mau, grande e pequeno, certo e errado, virtude e vício, felicidade e miséria; por isso Ele é infinito. Se Deus fosse bom e não mau ou mau em vez de bom, ou se Ele fosse pequeno e não grande ou grande em vez de pequeno, ou se Ele estivesse certo e não errado ou errado em vez de certo, ou se Ele fosse virtuoso ao invés do malvado ou malvado e não virtuoso, ou se Ele fosse feliz e não infeliz ou infeliz ao invés de feliz, - Ele seria finito e não infinito. Somente por estar acima da dualidade Deus é infinito.

O que quer que seja infinito transcende a dualidade, não pode ser uma parte da dualidade. Aquilo que é verdadeiramente infinito não pode ser a parte dual do finito. Se o infinito é considerado existir lado a lado com o finito ele já não é infinito, pois torna-se então a segunda parte da dualidade. Deus, que é infinito, não pode descender na dualidade. Assim, a aparente existência da dualidade, como o Deus infinito e o mundo finito, é ilusória. Só Deus é real, Ele é infinito, um sem um segundo. A existência do finito é apenas aparente, é falsa, não é real.

Como o falso mundo das coisas finitas veio a existir? Por que ele existe? Ele é criado por Maya, ou o princípio da ignorância. Maya não é ilusão, é a criadora da Ilusão. Maya não é falsa, é aquilo que é criado por Maya que dá falsas impressões. Maya não é irreal, ela é o que faz com que o real pareça irreal e o irreal pareça real. Maya não é dualidade, é o que provoca a dualidade.

Para efeitos de explicação intelectual, no entanto, Maya deve ser encarada como sendo infinita. Ela cria a ilusão de finitude, ainda assim não é em si finita. Todas as ilusões criadas por Maya são finitas e todo o universo da dualidade, que parece existir devido a Maya, também é finito. O universo pode parecer conter inúmeras coisas, mas isso não significa que seja infinito. As estrelas podem ser inúmeras, há um número enorme, mas o conjunto total de estrelas é, contudo, finito. O espaço e o tempo podem parecer infinitamente divisíveis, mas, no entanto, são finitos. Tudo o que é finito e limitado pertence ao mundo da ilusão, embora o princípio que causa esta ilusão das coisas finitas deve, em certo sentido, ser considerado como não sendo uma ilusão.

Maya não pode ser considerada como sendo finita. A coisa torna-se finita ao ser limitada pelo espaço e pelo tempo. Maya não existe no espaço e não pode ser limitada por ele. Maya não pode ser limitada no espaço porque o espaço é em si a criação de Maya. O espaço, com tudo o que ele contém, é uma ilusão e é dependente de Maya. Maya, no entanto, não é de forma nenhuma dependente do espaço. Por isso, não pode ser finita devido a nenhuma limitação de espaço. Maya também não pode ser finita por causa de nenhuma das limitações do tempo. Embora Maya chegue ao fim no estado de superconsciência, não precisa ser considerada finita por esse motivo. Maya não pode ter um começo nem um fim no tempo, porque o próprio tempo é uma criação de Maya. Qualquer visão que torne Maya um acontecimento que tem lugar em algum tempo e desaparece depois de algum tempo coloca Maya no tempo, e não o tempo em Maya. O tempo está em Maya; Maya não está no tempo. O tempo, bem como todos os acontecimentos no tempo, são a criação de Maya. Maya não é de forma alguma limitada pelo tempo. O tempo chega à existência por causa de Maya e desaparece quando Maya desaparece. Deus é a Realidade atemporal, portanto, a realização de Deus e o desaparecimento de Maya, é um ato atemporal.

Maya também não pode ser considerada finita por quaisquer outras razões. Se fosse finita, seria uma ilusão e sendo uma ilusão, não teria nenhuma potência para criar outras ilusões. Assim, Maya é melhor considerada como sendo real e infinita, da mesma forma que Deus é geralmente considerado como sendo real e infinito. Entre todas as explicações intelectuais possíveis, a explicação de que Maya, assim como Deus, é real e infinita é mais aceitável para o intelecto do homem. No entanto, Maya não pode ser realmente verdadeira. Onde há dualidade, há finitude em ambos os lados. Uma coisa limita a outra. Não pode haver dois infinitos reais. Pode haver duas entidades enormes, mas não pode haver duas entidades infinitas. Se tivéssemos a dualidade de Deus e Maya e se ambos fossem considerados como existências coordenadas, então, a realidade infinita de Deus poderia ser considerada como a segunda parte de uma dualidade. Portanto, a explicação intelectual de que Maya é real não tem o selo do conhecimento final, embora seja a explicação mais plausível.

Há dificuldades em considerar Maya como ilusória e também como real em última análise. Assim, todas as tentativas do intelecto limitado para entender Maya levam a um impasse. Por um lado, se Maya é considerada como finita, ela própria torna-se ilusória e então não pode dar conta do mundo ilusório das coisas finitas. Assim, Maya tem de ser considerada real e infinita. Por outro lado, se Maya é considerada como sendo essencialmente real, Maya se torna uma segunda parte da dualidade de uma outra realidade infinita, ou seja, Deus. Portanto, deste ponto de vista, Maya parece realmente tornar-se finita e, portanto, irreal. Então, Maya não pode ser real em última análise, embora tenha de ser considerada como tal, a fim de explicarmos o mundo ilusório dos objetos finitos.

De qualquer forma que o intelecto limitado tentar entender Maya, ele ficará aquém da verdadeira compreensão. Não é possível compreender Maya através do intelecto limitado, ela é tão insondável quanto Deus. Deus é insondável, incompreensível, assim também Maya é insondável, incompreensível. Dessa forma, é dito que Maya é a sombra de Deus. Onde uma pessoa está há a sombra dela também. Onde Deus está, há esta Maya inescrutável. Embora Deus e Maya sejam inescrutáveis para o intelecto limitado que opera no domínio da dualidade, eles podem ser perfeitamente entendidos em sua verdadeira natureza com o conhecimento final da Realização. O enigma da existência de Maya nunca pode ser definitivamente resolvido até que ocorra a Realização, quando descobre-se que Maya não existe na realidade.

Há dois estados em que Maya não existe: no estado original inconsciente da Realidade - não há Maya; e no estado Auto-consciente (Consciente do Ser), ou superconsciente, estado de Deus - não há Maya. Ela existe apenas na consciência de Deus do mundo fenomenal da dualidade, ou seja, quando há a consciência do mundo grosseiro ou do mundo sutil ou do mundo mental. Maya existe quando não há Autoconsciência (consciência do Ser), mas somente a consciência dos imaginados outros, e quando a consciência está irremediavelmente dominada pelas falsas categorias da dualidade. Maya só existe a partir do ponto de vista do finito. É apenas como ilusão que Maya existe como uma criadora verdadeira e infinita de coisas irreais e finitas.

Na Verdade final e única da Realização, não existe nada exceto o Deus infinito e eterno. A ilusão das coisas finitas aparecendo como separadas de Deus desapareceu e com ela também desapareceu Maya, a criadora dessa ilusão. O Autoconhecimento vem para a alma ao olhar para dentro, e ao superar Maya. Nesse Autoconhecimento ela não apenas sabe que as diferentes mentes-ego e os diferentes corpos nunca existiram, mas também que todo o universo e Maya mesma nunca existiram como um princípio separado. Seja qual for a realidade que Maya tinha até então é agora engolida pelo Ser indivisível da única Alma. A alma individualizada agora conhece a si mesma como sendo o que ela sempre foi - eternamente Autorealizada, eternamente infinita em conhecimento, graça, força e existência, e eternamente livre da dualidade. Mas essa forma mais elevada de Autoconhecimento é inacessível ao intelecto e é incompreensível, exceto para aqueles que alcançaram o cume da Realização final.