"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sexta-feira, setembro 21, 2012

Apresentando a cosmologia do Universo - 1/2

Este post é sequência e continuação da postagem anterior. Se você estiver entrando hoje, acessando-o sem ter lido o texto antecessor, pode ser que não aproveite totalmente o assunto que está sendo tratado. Sugerimos que antes de seguir adiante neste texto, leia primeiro este outro clicando aqui.




A existência de Iswara como um Deus governante do universo ilusório dualístico ao lado de Deus Absoluto que nada tem a ver com as manifestações da dualidade parece ser algo um tanto difícil de se conceber. É preciso ter em mente que Iswara só existe "ao lado" do Ser Absoluto quando está se falando do referencial relativo da dualidade. Apenas assim essa informação é válida. Se, ao revés, levarmos em conta o referencial absoluto, Iswara não ocupa lugar nenhum na existência - Deus é tudo e Iswara é nada. Num diálogo ocorrido com um devoto, Ramana Maharshi explana acerca do Ser Absoluto e o Deus Iswara:

Pergunta: Existe um ser separado, Iswara, que é o recompensador das virtudes e o punidor dos pecados? Existe um Deus? Como ele é?

Bhagavan: Sim, existe. Iswara tem individualidade num corpo e mente que são perecíveis, mas ao mesmo tempo, internamente ele tem a consciência transcendental e a liberação. 

Iswara, o Deus pessoal, o criador supremo do universo, realmente existe. Mas isso é verdade apenas do ponto de vista relativo daqueles que não realizaram a Verdade, aquelas pessoas que acreditam na realidade das almas individuais. Do ponto de vista absoluto, o sábio não pode aceitar nenhuma outra existência além do Ser impessoal, uno e sem forma. Iswara tem um corpo, uma forma e um nome, mas não tão grosseiro quanto esse corpo material. Ele pode ser visto em visões na forma criada pelo devoto. 

As formas e os nomes de Deus são muitos e variados, e diferem com cada religião. Sua essência é a mesma que a nossa, o Ser real sendo apenas um e sem forma. Portanto, as formas que ele assume são apenas criações e aparências. Iswara é imanente em cada pessoa e cada objeto do universo. A totalidade de todas as coisas e todos os seres constitui Deus. 

Há uma força da qual uma pequena fração tornou-se todo este universo, e o restante está em reserva. Esse poder reservado e esse poder manifesto na forma do mundo, juntos constituem Iswara.

A explicação acima, de Ramana Maharshi, apresenta a carcaterística de um ensinamento Absoluto. E confere validade a tudo o que foi explanado na postagem anterior. O absoluto não se concilia com o relativo, porque o relativo não existe.

O que este texto tem para falar, o mundo não gosta de ouvir. O mundo tende a rejeitar a verdade abrangida pelos ensinamentos absolutistas (ensinamentos nº 1), pela simples razão de que o mundo é uma existência relativa e os ensinamentos absolutistas apontam para a iluminação de um Universo Absoluto, sem relatividades. Todo o universo da relatividade está, portanto, excluído do universo absoluto, de maneira que a existência absoluta nada tem a ver com a existência relativa. A verdade absoluta importa na aniquilação ou extinção de todas as relatividades; onde está o absoluto, o relativo não está. Quando o Absoluto se manifesta, o relativo desaparece. Estes ensinamentos dizem que tal verdade pode ser experienciada, e denominam "Revelação" uma experiência de tal porte. Durante a experiência da Revelação, a ilusão de mundo irá sumir, e a verdade revelará que nada disso jamais existiu. Apenas Deus existe!

A palavra "revelação" também é utilizada no sentido de "informação". Uma revelação nos informa a verdade sobre nós mesmos e sobre o universo. Todas as informações a respeito da realidade absoluta contradirão aquilo que a mente relativa tem como verdade. Se para a mente relativa a separação e a dualidade são existência reais, uma revelação informará que a separação e dualidade não existem, e que a realidade é unidade e unicidade. Por isso, quando uma informação sobre a verdade absoluta é trazida para o âmbito do universo relativo, é como se tal informação provocasse uma espécie de "incômodo", "indigestão" ou "mal estar" na mente universal que sustenta a relatividade, e ela reagisse com uma forte vontade "vomitar" ou "repelir" aquilo. Portanto, esse é um ponto, ou princípio, que deve ser muito bem guardado: a existência relativa, a fim de se conservar, tende a repelir o Absoluto.

Quando uma informação autêntica sobre o mundo do absoluto chega aos homens que se percebem viver num mundo relativo, tal informação é considerada como sendo uma revelação. E uma revelação não é uma mera informação. Uma informação provinda do absoluto é diferente de uma informação oriunda do próprio mundo relativo. A revelação é uma informação que vem do Alto, de um lugar onde o “baixo” não pode alcançar.

A fim de compreender melhor isso, considere o seguinte exemplo: você está atravessando a pé um deserto. O local onde você se encontra está distante de absolutamente tudo e todos, e não há meio ou sinal disponível para se comunicar com ninguém. Nessa situação, você olha ao longe e vê um camelo se aproximando em sua direção, e constata que a pessoa montada no camelo estava te procurando. Ela diz: "Estava a sua procura. Tenho uma carta contendo uma informação importante para você. Por favor, tome-a." Você pega a carta em suas mãos e a lê. E se informa do que nela está escrito: “sua mãe está doente e fraca.” E ao ler isso você imediatamente se entristece. De repente, quando você olha para frente, a pessoa foi embora e já está sumindo ao longe no horizonte. Você fica sozinho com a sua carta. Fim do exemplo.

No caso deste exemplo, a pessoa que recebeu a carta não tem como ir por si mesma verificar ou conferir se sua mãe está realmente doente ou não. Ela está distante de sua casa, de sua cidade, não há como fazer nenhum contato para se comunicar. Ela está isolada. Na situação em que a pessoa do exemplo se encontra, tudo o que ela poderá fazer com relação à informação contida na carta é aceitar ou rejeitar, confiar ou não confiar. Dadas as circunstâncias, a pessoa não tem escolha. A única relação possível de existir entre ela e a informação contida na carta é uma relação de aceitação. No caso do exemplo, a pessoa ficou triste sem ter tido possibilidade alguma de averiguar o fato por si mesma.

Então, continuando um pouco mais com a história do exemplo: no dia seguinte, a pessoa do deserto vê novamente o camelo se aproximando em sua direção. O homem do camelo diz: “tenho outra carta para você. Aquela que eu lhe entreguei ontem estava equivocada. Esta é a carta certa, por favor, pegue-a.” Ao ler a informação contida na carta, a pessoa descobre: “Sua mãe está muito bem, cheia de energia, alegre e feliz!”. Ao receber essa informação, ela imediatamente fica feliz. Novamente, a pessoa não tinha como ir conferir se isto é ou não verdade. Apesar disso, a informação teve o poder de causar um impacto poderoso na mente e no ser da pessoa.

Isto é uma revelação: uma mensagem trazida do Alto, uma informação oriunda de um lugar onde não há nenhuma possibilidade de irmos conferir a fim de ter alguma certeza. A única relação possível de existir entre nós e uma revelação é uma relação de aceitação. Ou nós a aceitamos, ou não a aceitamos. Se formos capazes de aceitá-la ela causará o seu impacto em nosso ser, e as coisas começarão a se transformar, até que haja a percepção. Começam com aceitação e terminam com a percepção. Se não for aceita, tudo continuará aparentemente como sempre foi.

Os ensinamentos absolutos trabalham com princípios e com revelações. Aceitar o que está sendo informado é muito mais proveitoso do que exercer a lógica, o raciocínio ou a investigação a fim de conferir a sua veracidade. Por essa razão, os ensinamentos absolutos não se preocuparão em esmiuçar a ilusão. A ilusão não existe. Não pergunte “por que” ela não existe, pois o que não existe simplesmente não existe. Essa é a “lógica”! Se buscarmos a origem daquilo que “não existe”, estaremos partindo do pressuposto de que “existe”.

Apesar disso, ou seja, apesar de os ensinamentos absolutos não se preocuparem em explicar como surgiu a ilusão, alguns deles apresentam uma cosmologia metafísica explicitando a (suposta) origem e o (suposto) propósito do universo ilusório dualístico. Mas, apesar de eles propiciarem explicações bastante pertinentes sobre o surgimento da dualidade, advertem seriamente - e em primeiro lugar – que a ilusão nunca surgiu. Ressalvada essa premissa maior, eles prosseguem explicando o surgimento da ilusão. 

A verdade é que não existe uma explicação única e verdadeira para o surgimento da ilusão. Explicar a origem da ilusão não é como explicar, por exemplo, a origem da civilização do povo asteca. Isso porque, quando se está expondo sobre o surgimento dos astecas, está-se falando sobre um fato fixo, substancial, concreto. A história da origem dos astecas só pode ser uma. Mesmo que os historiadores lidem com  várias hipóteses e não saibam qual é a real sequência dos fatos, o certo é que apenas uma sequência será a verdadeira. A ilusão, por sua vez, é insubstancial em todos os seus aspectos. Devido à natureza da ilusão, a explicação sobre a história do seu surgimento não terá as mesmas características. De fato, há como explicar o (suposto) surgimento da ilusão, porém não há uma explicação única. É possível ter infinitas explicações. É possível construir, através de símbolos e linguagens simbólicas, um sistema de pensamento inteligente que torne o mistério do surgimento do universo uma clarificação mais plausível para o intelecto. Pode apenas torná-lo mais plausível, mais aceitável. Porém, nunca algo efetivamente verdadeiro.

Há uma vantagem em oferecer ao intelecto uma explicação plausível ou aceitável sobre um universo que não pode efetivamente ser explicado: ao receber uma explicação admissível, a mente sente-se até certo ponto satisfeita e faz diminuir em nós as suas inquietações mentais. Com a mente quieta, há em nosso ser menos perturbação e mais calma. E quanto menor for a inquietação mental, maior será o terreno preparado para que se dê a percepção da verdade. Portanto, essa é a razão pela qual alguns ensinamentos absolutistas, apesar de negarem completamente a existência de um universo ilusório, possuem uma explicação plausível e pertinente para ele.

É o caso de Um Curso em Milagres, que oferece uma explicação brilhante para a origem do universo dual. Para explicar sobre isso, o Curso se baseia na linguagem cristã que concebe Deus como a Trindade Una "Pai", "Filho" e "Espírito Santo". Nos ensinamentos desse livro, na parte em que consta "Introdução ao Curso em Milagres", está exposto o seguinte:

* "A primeira Pessoa da Trindade, obviamente, é Deus. Deus é a Fonte de tudo o que é. O Curso frequentemente refere-se a Ele como o Pai, que mais uma vez é claramente parte da tradição judaico-cristã. Ele também é chamado de Criador, e tudo vem d’Ele. A natureza de Deus, em essência, é puro espírito e, porque Deus é imutável, sem forma, eterno, e espiritual, nada que não compartilhe esses atributos pode ser real. É por isso que o Curso diz que o mundo não é real e não foi criado por Deus. O mundo é mutável; não é eterno, e a sua forma é material. Portanto, não pode ser de Deus.

A segunda Pessoa da Trindade é Cristo. O que aconteceu na criação é que Deus naturalmente estendeu a Si mesmo. O estado natural do espírito é estender-se e fluir. A extensão de Deus é criação e a criação é conhecida como o Filho de Deus ou Cristo. O que é difícil para a nossa compreensão nisso é que as únicas palavras ou conceitos que podemos usar são aqueles do nosso próprio mundo, um mundo feito de percepção, que é limitado por tempo e espaço. Esse é o universo material que nós fizemos para substituir o Céu. Contudo, a elaboração dessa ideia está além do escopo dessa palestra de um dia.


No Céu, todavia, não há tempo ou espaço. Quando pensamos em Deus estendendo a Si mesmo, a única imagem que podemos ter é baseada em espaço e tempo, que não seria correta. Como o Curso nos diz nessas ocasiões, não vale a pena nem tentar compreender algo que não pode ser compreendido. O livro de exercícios usa a expressão “devaneios sem sentido”, e isso realmente é assim. Como Um Curso em Milagres declara, só podemos apreender a verdade através de uma experiência de revelação, e não poderíamos colocar isso em palavras; as palavras são apenas símbolos de símbolos — são, portanto, duplamente afastadas da realidade.


O Filho de Deus ou Cristo também estende a Si mesmo. A extensão de Deus é Seu Filho, e Ele é chamado Cristo. Cristo é um só: existe apenas um Deus e apenas um Filho. Em outras palavras, o Filho de Deus também estende o Seu espírito de modo similar a Deus estendendo Seu espírito. Isso nos leva a um dos termos mais ambíguos no Curso: “criações”. Quando o Curso se refere às criações, ele está se referindo as extensões do espírito de Cristo. Assim como Deus criou Cristo, Cristo também cria. E as extensões de Cristo no Céu são conhecidas como criações. Essa é uma área que o Curso não tenta explicar. Quando encontramos essa palavra é suficiente compreendermos que ela apenas significa o processo natural de extensão do espírito.


Um Curso em Milagres torna muito claro, e esse é um ponto muito importante, que apesar de nós, enquanto Cristo, criarmos como Deus, nós não criamos Deus. Nós não somos Deus. Somos extensões de Deus, somos Filhos de Deus, mas não a Fonte. Existe apenas uma Fonte e essa é Deus. Acreditar que somos Deus, que somos a Fonte do Ser, é fazer exatamente o que o ego quer, e isso é acreditar que somos autônomos e podemos criar Deus assim como Deus nos criou. Se você acreditar nisso, está construindo um círculo fechado do qual não há saída, porque está dizendo que você mesmo é o autor da sua própria realidade. O Curso se refere a isso, como o problema da autoridade. Nós não somos o autor da nossa realidade; Deus é. Uma vez acreditando que somos Deus, estamos nos colocando em competição com Ele e, nesse caso, realmente temos problemas. Este é, obviamente, o erro original.


No começo, que transcende o tempo, havia apenas Deus e Seu Filho. Era como uma grande família feliz no Céu. Em um estranho momento, que na realidade nunca ocorreu, o Filho de Deus acreditou que ele podia se separar de seu Pai. Esse foi o momento no qual a separação ocorreu. Na verdade, como nos diz o Curso, isso nunca podia ter acontecido, pois como será possível uma parte de Deus se separar de Deus? Contudo, o fato de estarmos todos aqui, ou de pensarmos que estamos todos aqui, pareceria indicar outra coisa. O Curso não explica realmente a separação; apenas diz que é assim. Não tente perguntar como o impossível poderia ter acontecido, porque não poderia. Se perguntar como aconteceu, você cai de novo no erro." (Introdução)

* "O ego vai pedir muitas respostas que esse curso não dá. Ele não reconhece como perguntas a mera forma de uma pergunta à qual é impossível dar uma resposta. O ego pode perguntar: “Como ocorreu o impossível?”, “Para que aconteceu o impossível?” e pode perguntar isso de muitas formas. Entretanto, não há nenhuma resposta, apenas uma experiência. Busca somente isso, e não deixe que a teologia te atrase." (Esclarecimento de Termos)

Este ensinamento enfatiza:

* "Total consciência não é algum estado mítico inatingível, é o seu estado natural: completamente vivaz e totalmente desperto na Realidade, em que vocês sempre existiram desde o momento de sua criação. Aquilo que vocês experimentam na Terra, na ilusão, é que é IRREAL. Seu Pai os criou a partir do Amor - na alegria! - e neste estado de alegria vocês existem eternamente. NÃO HÁ OUTRO ESTADO! E sim, suas experiências na Terra, na ilusão, parecem mesmo convincentemente reais, e com frequência perigosamente inseguras. Mas, como a razão deixa bem claro para vocês, se vocês acompanharem-na com sua inferência lógica, esse estado aparente só pode ser irreal. Deus, seu Pai Divino, é infinito Amor incondicional indiscriminado. Lá no fundo, no centro de seu ser, vocês sabem disso. Nada pode destruir ou erradicar este amor, porque ele é a verdade ali colocada por seu Pai para estar permanentemente com vocês, como parte de seu estado eterno e divino de existência. É verdadeiro, real e eterno, e não existe mais nada, porque mais nada é necessário. Se fosse necessária mais alguma coisa, então Deus teria falhado! E essa possibilidade não existe e nem poderia existir. Ela é irreal."

* "O mundo que vês é uma ilusão de um mundo. Deus não o criou, pois o que Ele cria tem que ser eterno como Ele próprio. No entanto, não há nada no mundo que vês que vá durar para sempre. Algumas coisas que vês durarão no tempo um pouco mais do que outras. Mas virá o tempo no qual todas as coisas visíveis terão um fim." (Clarificação-4.1)

Portanto, quando os ensinamentos absolutos afirmam que o universo ilusório não existe, tal informação é uma revelação, e deverá ser tratada com tal. Só existe o Universo Real. O Curso afirma que cedo ou tarde, as pessoas deverão chegar ao ponto crucial de fazer a pergunta "Como o impossível aconteceu? Como poderia a perfeição, como poderia um Deus perfeito algum dia ter permitido o surgimento da separação?". Esses tipos de perguntas deveriam ser chamadas de "as perguntas mais importantes". O Curso alerta que tais perguntas carregam em si desde o início uma suposição errônea, porque todas elas são  basicamente uma declaração, uma afirmação de uma verdade em que se acredita: "o impossível aconteceu". Cuidado com as suposições! Não haverá teologia no mundo que virá para resolver isso. Haverá uma experiência que acabará com as suas dúvidas.

Continuando sobre a relação entre Universo Real e universo aparente.

Geralmente nós olhamos para a Natureza e suas obras e pensamos: "que obra linda, que bela, que divina, que perfeição criada por Deus!". Apesar de as obras paradisíacas da natureza serem belas aos nossos olhos, existem ainda obras infinitamente mais belas que o olho humano não consegue enxergar. A fim de diferenciar a existência do universo espiritual perfeito criado por Deus e a existência de um universo fenomênico projetado pela mente, Mahasaru Taniguchi explica a um adepto que levantou as seguintes indagações:

Iwamura - Entendo que o nosso corpo carnal imperfeito seja projeção da mente, mas a Natureza, as árvores, os astros, etc., em seu estado atual não é exatamente como Deus a criou? Parece-me que na pureza do céu azul ou na beleza do verde das árvores não há mínimo de pensamento impuro...

Taniguchi - Por mais que nos pareça puro ou belo, todo este mundo perceptível aos cinco sentidos é mundo da projeção. Pensar que este mundo, assim como se apresenta, já é o mundo verdadeiro, o mundo da existência verdadeira, é um erro. De fato, o céu azul é límpido e puro, as árvores são verdes e belas. Neles existe o reflexo do mundo verdadeiro. Mas a beleza do mundo verdadeiro nem se compara com essa beleza imperfeita projetada. Este mundo fenomênico é um mundo da ilusão, em que a beleza do mundo verdadeiro se reflete de maneira impefeita; nele, luz e treva estão mescladas. A consciência de que somos filhos de Deus é a luz, a realidade. A ilusão que admite sermos a matéria chamada corpo carnal é a treva, a falsidade. Mistura de luz e treva, de realidade e falsidade - é isto que caracteriza este mundo. Se toda a natureza perceptível aos cinco sentidos fosse a realidade tal qual Deus criou, a lei do mais forte que vigora entre os animais - a cobra que devora o sapo, o leão que mata e come o carneiro - também seria real. Se fosse assim, não poderíamos dizer que Deus é amor, nem que Deus é harmonia. Quando se admite que o mundo perceptível aos cinco sentidos é, assim mesmo, o mundo verdadeiro criado por Deus, invalida-se e se contradiz a Verdade de que Deus Criador é Bem.

Iwamura - Se este mundo imperfeito perceptível aos cinco sentidos não é o mundo tal qual Deus criou, e sim um mundo da ilusão onde se projeta imperfeitamente o mundo verdadeiro criado por Deus, o que seria esse mundo da ilusão?

Taniguchi - O mundo da ilusão não existe verdadeiramente. Quando uma coisa inexistente aparenta existir, é ilusão. Se algo existente mostra que existe, é realidade e não ilusão. Na verdade, a ilusão propriamente dita não existe. Sendo a ilusão algo inexistente que aparenta existir, desaparecerá se conhecermos a Verdade.

Iwamura - E por que é que se tem a ilusão de que uma coisa inexistente existe?

Taniguchi - Isso, em budismo, também constitui uma questão assaz complicada, e existe o que se chama "Teoria da Origem da Ilusão". Ainda não houve um só filósofo no mundo que tenha conseguido explicar de maneira convincente de onde surgiu a ilusão. Há quem explique com a teoria do surgimento causal, isto é, que "aquela ideia surgiu por acaso", mas não é considerada uma explicação satisfatória. Na minha opinião, já que a ilusão não existe verdadeiramente, o próprio fato de buscar a origem daquilo que é inexistente é ilusório. Se buscarmos a sua origem, estamos pressupondo que existe. Mas não adianta buscar insistentemente a origem do que não existe.

Iwamura - Como podemos saber que não existe?

Taniguchi - Enquanto ficarmos buscando insistentemente a sua localização ou a sua origem, não compreenderemos que a ilusão não existe. Quando deixarmos de lado o que não existe e conscientizarmos do que existe realmente - a Verdade sagrada de que somos filhos de Deus -, a ilusão revelará por si a sua verdadeira natureza que é a inexistência e desaparecerá. Não existe outro meio de provar a inexistência da ilusão. (A Verdade da Vida, vol. 16,  capítulo 3)

No livro 11 da Verdade da Vida (livro que discorre acerca da origem da criação sob a ótica do Gênesis bíblico), Masaharu Taniguchi escreve que a cosmologia bíblica relata que o mundo foi criado duas vezes. A interpretação da Seicho-No-Ie afirma que no capítulo 1 do Gênesis a Bíblia narra a criação do Mundo do Jissô, ao passo que o capítulo 2 descreve o surgimento do universo fenomênico, após a suposta queda do homem. Nesse sentido, ele descreve:

* O que o Gênesis registra, do segundo capítulo em diante, é a descrição do mundo fenomênico através da ilusão. A teoria budista de que "o mundo foi criado pela treva (ilusão) e não por Deus criador" corresponde ao que o Gênesis descreve daqui para a frente. Portanto, o mundo material, isto é, o "mundo da projeção mental", não é criação de Deus. Quando a Seicho-No-Ie diz que "Deus criou o Universo", está se referindo ao Universo anterior à ilusão e às condições anteriores ao encobrimento do Mundo da Imagem Verdadeira (página nº 72).

* O versículo 2 do segundo capítulo - "E Deus acabou no sétimo dia a obra que tinha feito" - significa que a criação espiritual do Universo de Deus foi concluída; a criação verdadeira já foi feita. Portanto, toda a criação descrita daí em diante não é criação de Deus, mas sim criação da ilusão, criação falsa, resultante da projeção da realidade distorcida pela lente da ilusão de que "a matéria é existência real". (pp. 73)

* Várias vezes tenho dito: o universo material não é o Universo Real, ou seja, o mundo da Imagem Verdadeira, e sim projeção deste. Como projeção, reflete o mundo da Imagem Verdadeira. (A Verdade da Vida, vol. 11, pp. 64)

* A criação do Universo por Deus é a criação espiritual no mundo da Imagem Verdadeira, anterior ao mundo material. E, porque tudo que existe no mundo da Imagem Verdadeira é perfeição suprema e não existe uma única coisa que seja imperfeita, assim diz a Bílbia: "Deus viu todas as coisas que tinha feito, e eram muito boas". Somente o mundo da Imagem Verdadeira criado por Deus é existência verdadeira, e tudo o que ali existe é perfeito e impecável. Se parece existir imperfeição (doença, disputa, miséria, sofrimento, tristeza, etc.), isso é ilusão. Esta compreensão é o despertar espiritual que constitui o fundamento da cura metafísica da Seicho-No-Ie. (A Verdade da Vida, vol. 11, pp. 71)

* A Seicho-No-Ie não diz para acreditar cegamente em Deus. Ela diz: "Compreenda Deus e a obra verdadeira de Deus através da sabedoria para compreender a Verdade; não acredite às cegas; conheça aquilo que é autêntico, eterno e real, distinguindo-o daquilo que é falso. Conhecer o autêntico é a crença verdadeira que conduz à felicidade;  a crença que não reconhece o autêntico é superstição, e a superstição gera o infortúnio." A crença verdadeira consiste em reconhecer Deus e o mundo perfeito que Ele criou e afirmou ser "muito bom", como a única existência verdadeira, plena de amor. (pp. 76)

Há ensinamentos cristãos que, devido à narrativa bíblica, admitem que o homem perfeito criado por Deus foi tentado pela "serpente" perniciosa a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Comendo desse fruto, o homem desobedeceu  a Deus, cuja a recomendação foi a de que não comesse, e, por isso, acabou sendo expulso do Paraíso Perfeito (mundo do Jisso). Como consequência de sua expulsão, o homem viu-se dentro de um universo ilusório imperfeito. Isso é o que os ensinamentos consideram "a queda do homem". Sobre esse assunto, a Seicho-No-Ie explana:

A "árvore da vida" e a "árvore do conhecimento do bem e do mal". A primeira é a árvore da Verdade e simboliza a sabedoria verdadeira, como a enfatizada pela Seicho-No-Ie, de que "todas as existências verdadeiras são criações de Deus, portanto são vida e perfeição". A segunda simboliza a inteligência humana, presa à matéria que dualiza "isto é bem, isto é mal", ou seja, que acredita: "o mal, a imperfeição, a doença e a infelicidade também são existências reais". Deus é Amor e Sabedoria; portanto, não poderia ter criado a "árvore do conhecimento do bem e do mal" para que o homem, comendo o fruto dela, se tornasse uma criatura má e punível com a expulsão do jardim do Éden. Semelhante árvore não existe na realidade; ela simboliza a treva (ilusão) em contraposição à sabedoria divina (árvore da vida).  (pp.76)

A Seicho-No-Ie tem a característica forte de afirmar que para se conhecer a verdade a ilusão tem de ser negada! O eu fenomênico deve ser negado, ao invés de admtido como uma das manifestações do Eu verdadeiro. O mundo fenomênico deve ser negado, ao invés de ser admitido como abrangido pela universo verdadeiro. Tire da frente o fenômeno, e a existência real será percebida. Comparativamente, é como se houvesse uma cortina escura na frente de uma cena. Remova a cortina e a cena será percebida. Em outros volumes da coleção, o venerável Mestre explica:

* A filosofia da Seicho-no-ie parte da negação de tudo quanto pode ser captado pelos sentidos. Em vez de ensinar que devemos aceitar docilmente a "realidade do mundo apreensível aos sentidos, tal como ela é", ensina que o mundo captado pelos sentidos não é realidade. A "realidade tal como é" existe no mundo verdadeiro (mundo do Jisso) e é a realidade da perfeição, da bondade e beleza supremas, na qual não há lugar para sofrimentos e tristezas. Em outras palavras, a Seicho-no-ie admite, não a realidade do mundo visível tal como ela é, mas sim a realidade do mundo que transcende os sentidos, a qual pode ser apreendida naturalmente após a negação total do mundo visível aos olhos carnais.  O mundo perceptível aos sentidos é projeção imperfeita do mundo do Jissô (mundo verdadeiro). Assim sendo, quando afirmamos o mundo verdadeiro após havermos negado a "sombra projetada" (o mundo apreensível aos sentidos) e apagado todas as ilusões - do mesmo modo que traçamos a figura correta de algo no quadro-negro, após apagar o desenho mal feito -, o aspecto perfeito do mundo verdadeiro projeta-se corretamente neste mundo material. E então encontramos a salvação também neste mundo dos cinco sentidos. (V.V., volume 12)

* "Na Seicho-No-Ie negamos totalmente o fenômeno dizendo 'o fenômeno não existe', e, somente então dizemos que 'tudo o que existe é bom', vendo apenas a existência verdadeira. A negação da matéria, preconizada pela Seicho-No-Ie não é a "negação pela negação', e sim a 'negação que conduz à grande afirmação' (V.V, volume 14).

Masaharu Taniguchi sempre encontrou com pessoas que, por mais que tentassem, não conseguiam de modo algum compreender a filosofia da negação da matéria preconizada pela Seicho-No-Ie, e assim repeliam os ensinamentos da Seicho-No-Ie, taxando-os como filosofia falsa e supersticiosa. Masaharu Taniguchi deparava-se aos montes com pessoas assim. Isso levou-o a escrever:

* Há pessoas que refutam a irrealidade do “eu fenomênico” pregada pela Seicho-no-Ie, argumentando: “Se o eu fenomênico não existe realmente, a quem vocês pregam a Verdade? Penso que a religião não consiste em pregar a Verdade ao eu verdadeiro, que está salvo desde o princípio. Se se prega a Verdade, é porque existe o eu fenomênico, que não está salvo”. Realmente, é muito difícil compreender o que seja a negação do eu fenomênico, visto que ele parece existir concretamente como “eu” que está, neste momento, refletindo, duvidando, questionando... (V.V. volume 14)

Continua...

terça-feira, setembro 18, 2012

Ensinamentos Iluminados: Brahma x Iswara



Este é, talvez, o texto mais importante jamais postado na história deste blog. Sempre os diversos textos e artigos publicados neste site apresentam ensinamentos belos e profundos apontando para uma realidade consciencial que está além da mente, ou seja, todos os artigos buscam revelar a existência e a possibilidade de se atingir a consciência transcendental, a iluminação espiritual. Porém, há  um detalhe sutil que, quando levado em conta, revela algo bastante significativo; e é isso que merece agora ser conhecido: apesar de todos os ensinamentos apresentados neste blog referirem-se à iluminação espiritual, nem sempre todos eles estão falando sobre a mesma coisa, sobre a mesma iluminação. Aqui, ora encontramos ensinamentos não-duais dizendo que "Deus é tudo e o universo da dualidade não foi criado por Deus e não existe"; e ora encontramos textos não-duais trazendo explanações no sentido de que "a existência do universo da dualidade é vontade de Deus". Ora ouvimos dizer que "Deus desconhece por completo o mundo dos homens e não possui absolutamente nenhuma ligação com a humanidade"; ora escutamos que "Deus está plenamente ciente e interagindo com os homens no mundo onde eles estão". O mais surpreendente de tudo isso é que ambos são ensinamentos não-duais e transcendentais que apontam para a UNIDADE! Como pode ser isso? Se num dado momento os ensinamentos transcendentais dizem "X" sobre Deus e, noutro momento, desdizem e falam "Y", como é que fica Deus em meio a toda essa história? A Realidade, Deus, a Verdade, só pode ser uma, jamais tem como ser as duas coisas ao mesmo tempo. É preciso compreender o que afinal vem a ser Deus. É disto que este post trata.

Portanto, ao ter contato com os diversos textos contidos neste site, o leitor irá se deparar com duas vertentes - dois pontos de vistas - sobre a iluminação espiritual. As duas espécies de ensinamentos apresentados são iluminados, transcendentais, não-duais. Entretanto, como visto,  as concepções diferem no tocante a Deus. Isso é assim porque, enquanto uma vertente diz que Deus está ciente da ilusão e interage com ela, a outra afirma que Deus não a criou e a desconhece por completo. No mais, ambas seguem parecido. Por que seguem parecido? É porque, apesar de suas distinções quanto a Deus na origem, ambas enfatizam a necessidade de transcender a dualidade rumo à Unidade. Ou seja, ambas enfatizam a necessidade de sair fora de uma "ilusão" para vivenciar o "real". Devido a essa pequena sutileza, quase indetectável, há uma brecha imensa camuflada que permite às pessoas confundirem ou misturarem os pontos de vistas apresentados, levando-as a afirmarem que todos os ensinamentos estão dizendo a mesma coisa.

Dizer que Deus não criou o universo da dualidade e - mais do que isso - que Ele desconhece por completo a existência de seres humanos é algo duro, difícil, estarrecedor, chocante e quase inaceitável de acreditar. Mas essa é a maneira firme, convicta, taxativa e categórica apresentada por determinados ensinamentos. Na história da humanidade sempre existiram seres afirmando terem alcançado tal iluminação ou percepção: Deus é puro Amor, Sabedoria, Inteligência, Alegria, Força, Vida, Bem, Harmonia, Paz, Luz. Deus desconhece o mundo, desconhece seres humanos, desconhece por inteiro este universo físico tal como o concebemos; o homem, por outro lado, não é aquilo que percebe ser, ele é o próprio Deus sendo. O universo, por sua vez, é um Universo Espiritual Perfeito, o qual também é o próprio Deus sendo. Deus é a totalidade de tudo o que existe! E o universo físico não existe absolutamente. Deus não o criou. Então quem o criou? Algo outro que não Deus o criou; foi a ilusão quem o criou. E esse "algo" é o NADA. Isso o que está aqui descrito é uma iluminação, um ponto de vista.

O outro ponto de vista, que também ao longo de todos os tempos sempre veio sendo pregado por grandes seres da humanidade, transmite que o universo da dualidade foi criado por Deus. Deus é o puro Amor e a manifestação do universo dualístico constitui expressão da Força e do Amor de Deus; apesar disso Deus é um ser inteiramente transcendente ao universo dual. Ou seja, Deus abrange toda a manifestação dual e ao mesmo tempo está infinitamente além de tudo o que é dual. Ele conhece, ama, brinca e interage com a dualidade. Ele está "dentro" (imanente) e ao mesmo tempo "fora" (transcendente). Então, deste ponto de vista, Deus também é a totalidade de tudo o que existe. Estes ensinos também afirmam convictamente que a dualidade é um fenômeno ilusório, e que Aquilo que está além da dualidade é o Real. E assim temos aqui pronto o outro ponto de vista; essa é a outra iluminação.

Como podemos perceber, a natureza da iluminação espiritual pregada em alguns ensinamentos difere da natureza da iluminação espiritual apresentada em alguns outros. Para fins didáticos, neste texto vamos nos referir a elas como "iluminação nº 1" e "iluminação nº 2". É importante ter em mente que ambas as iluminações enfatizam a necessidade de transcender a ilusão e de conscientizar/perceber o que é Real. Feitas essas considerações, vamos discorrer agora sobre ambos os ensinamentos iluminados.

O primeiro diz que Deus não criou a ilusão: foi a ilusão quem criou a ilusão. Deus, por sua vez, habita e vive um estado de ser completo em Si mesmo, totalmente alheio à existência de uma suposta ilusão, de maneira que o Seu desconhecimento sobre a ilusão jamais compromete ou coloca em jogo a Sua Onisciência - porque "ilusão" não existe de forma alguma em absoluto. Para Deus, a ilusão nunca existiu. Este primeiro ensinamento iluminado afirma que o universo da dualidade é uma ILUSÃO no sentido de ser uma "imagem hipnótica" ou "quadro hipnótico". É como se estivéssemos caminhando por horas num deserto escaldante e de repente começássemos a enxergar à frente um oásis com lagoas, árvores, tendas, pessoas passando de um lado para o outro, etc. Repare que nesse exemplo do deserto a pessoa não tem nenhuma espécie de "intenção" ou "vontade" de ver palmeiras, lagos, tendas e pessoas no meio de um deserto onde não há realmente nada. A ilusão aqui, portanto, é compreendida como sendo uma alucinação.

O segundo diz que Deus tem vontade da ilusão: a ilusão é compreendida como sendo uma manifestação, um transbordamento alegre da totalidade ou plenitude de Deus. Aqui é dito que a ilusão não existe realmente, ela existe apenas em certo sentido, e é por isso que é possível a Deus tomar ciência da ilusão. Este segundo ensinamento afirma que se Deus não pudesse tomar ciência da ilusão, Ele não seria onisciente. O ensinamento nº 2 estabelece que o universo da dualidade é uma ilusão no sentido de ser uma "representação", onde os atores deliberadamente sobem num palco para encenar inexistências. Ou seja, aqui existem "intenção" e "vontade" de propiciar o surgimento da ilusão. Deus é o diretor e o ator por detrás de cada representação ilusória que está sendo encenada. Para elucidar completamente o entendimento do que vem a ser a representação: Amor é o que Deus "é", ao passo que o medo é aquilo que Deus "não é". Unidade é o que Deus "é", ao passo que a dualidade é aquilo que Deus "não é". Unicidade é o que Deus "é", ao passo que separação é aquilo que Deus "não é". Como não é da natureza de Deus ser "medo", "separação" e "dualidade", Ele irá representá-los: é então que surge a ilusão. Assim, o amor, a vida, a alegria, a bem-aventurança, a harmonia e a paz existem como Existências, enquanto que o medo, o mau, a doença, o sofrimento e a morte existem como representações. A representação existe com a finalidade de expressar aquilo que Deus "não é", uma vez que todas as coisas que Deus "é" já estão constituídas/inseridas em Sua própria natureza, ou seja, já estão sendo expressadas no âmbito de Seu próprio Ser. Deus não precisa de representação para expressar o que Ele "é".

Continuando: em regra, o ensinamento nº 2 diz que a vida meditativa não exclui a nossa vivência e o nosso envolvimento com o mundo irreal. É ensinado que podemos meditar aproveitando as nossas ações. Por exemplo, podemos estar conscientes - em pleno estado de alerta - enquanto estamos dirigindo, conversando, comendo, caminhando, respirando, etc. Na iluminação nº 2 não é necessário tirar a atenção da ilusão para estarmos em estado meditativo. Então, as meditações desse tipo são bastante práticas.

Por outro lado, os ensinamentos da iluminação nº 1 dizem para reservarmos um tempo para tirarmos 100% a atenção da ilusão a fim de que possamos meditar/contemplar uma Realidade Espiritual Perfeita que não abrange nem se envolve com a representação. Aqui, diferentemente do ensinamento nº 2, a percepção do Real excluirá definitivamente a percepção que enxerga o mundo irreal. Essas meditações requerem grande dedicação.

O interessante de tudo isso é que podemos escolher adotar qualquer um dos pontos de vista sobre Deus e sobre o universo da dualidade. É possível encarar/lidar com a ilusão como se ela fosse uma representação, ou então como sendo um quadro hipnótico. Essas duas diferenças surgem dependendo do ponto de vista adotado na origem sobre Deus, que citei anteriormente. Em ambos os casos existe uma percepção transcendental que extrapola os limites da mente humana e que faz surgir no indivíduo um "saber" transcendente ao mero "acreditar" ou "não acreditar". Decorrente desse saber transcendental, a pessoa adquire uma convicção inabalável. Podemos admitir a ilusão como sendo uma representação. Ou podemos admití-la como uma ilusão (no sentido de inexistência total, MESMO!). Ambos funcionam! Ambos podem ser conhecidos e experienciados. Isso pra mim ainda é um mistério tremendo.  Ambos são ensinamentos espirituais iluminados e não-duais. Apesar disso, podemos perceber que eles não se confundem e não se misturam. Eles têm propósitos diferentes.

É por isso que o hinduísmo tem tantas divindades diferentes. Dentre todos os deuses da mitologia hindu, destaco Brahma e Iswara. Brahma é o Deus Absoluto (que corresponderia ao Deus a que se refere o ensinamento nº 1). Ele não está ciente de nenhuma outra realidade, senão a divina, que é Ele próprio. Ele não toma conhecimento de ilusões. Quando a ilusão surge (o que, do ponto de vista de Brahma, nunca ocorre), é necessário também que exista uma "inteligência universal" para sustentar/governar/manter todo o universo ilusório. Essa força ou inteligência universal será insondável, e será também onipresente, onipotente e onisciente no âmbito da ilusão. Ela será Deus - mas será o Deus de todo o universo dual holográfico/ilusório. E é aqui que entra a figura de Iswara.

Brahma não é Iswara. Mas ambos podem ser considerados como Deus. 

Iswara é o Deus criador da ilusão (o Deus a que se refere o ensinamento nº 2). Foi Ele quem a criou em todos os seus níveis. Ele está além de tudo e, ao mesmo tempo, aparece como sendo tudo. É Ele quem está representando a ilusão. No âmbito da ilusão, é Ele quem tudo faz e, mesmo "fazendo", trancende tudo aquilo que "faz". Iswara é transcendental a tudo o que existe na representação. Há uma espécie de unidade ou unicidade nele. O ensinamento que prega Iswara também é não-dualista.

Iswara é Deus e ao mesmo tempo é a "Fonte da ilusão". Portanto, a ilusão veio de Iswara. Por sua vez, Brahma não pode ser considerado como "Fonte de alguma coisa", porquanto essa "alguma coisa" teria  de ser obrigatoriamente Ele  próprio, sem representações. Brahma nem mesmo é fonte de si mesmo. Seria incorreto dizer que Brahma veio de si mesmo, pelo simples fato de que ele nunca veio. Ele é eternamente, por inteiro. Ele não entra no nível do universo físico para representar. Em Brahma há apenas um nível (Ele mesmo), e todas as coisas (Ele mesmo) são manifestadas nesse Nível Único (Ele mesmo). Uma completa UNIDADE sendo! Não existe necessidade alguma de manifestar uma representação. Na verdade, todas as coisas que existem em Brahma são o próprio Brahma. Mas para se conhecer e experienciar isso, é preciso ter a Revelação apontada pelos ensinamentos da iluminação nº 1.

Esses dois ensinamentos iluminados encontram-se separados por uma linha extremamente tênue, sendo, no mais, em tudo muito parecidos, na verdade, quase iguais. Tal diferença mínima é tão pequena, quase insignificante, mas é capaz de provocar todo esse disparate. Para o olho treinado, Iswara não é Brahma, embora ambos sejam Deus.

Entretanto há uma relação mínima e indireta que pode ser estabelecida entre Iswara e Brahma. A fim de compreendermos esta relação, consideremos as seguintes questões:

1) "Que relação existe entre Iswara e Brahma?" 
2) "Que relação existe entre Brahma e Iswara?"

A primeira pergunta é no sentido de Iswara para o Brahma. A segunda pergunta atua no sentido que parte de Brahma em direção à Iswara. São duas perguntas importantes que, embora pareçam a mesma,  não são, pois possuem respostas diferentes. Vamos imaginar a figura de uma árvore à margem de um rio. Se olharmos para o rio, veremos que a imagem da árvore está refletida na superfície da água. Então, poderíamos fazer a pergunta: qual a relação da imagem refletida na água com a árvore real que está plantada na beira do rio? E que relação existe entre a árvore e a imagem dela no rio? A resposta para a primeira pergunta é: a imagem na água é possível devido à existência da árvore que está plantada à beira do rio. Mas, se especularmos que relação existe entre a árvore e a imagem refletida, a resposta será: não há nenhuma! A árvore não está lá para fazer surgir a sua imagem na superfície do rio. De fato, a árvore nem sabe que está sendo refletida na água. Se a imagem da árvore na água ficar turva e quebrada, isso ocorre devido à propriedade que a água tem de oscilar e provocar a distorção da imagem. Perceba que é a superfície da água que está provocando a ilusão de representar "imagens distorcidas". Poderíamos dizer que é a água que tem a vontade de encenar/representar as imagens turvas e quebradas, e não a árvore. A árvore nada tem a ver com o que está acontecendo.

Iswara é o agente cujas propriedades permitem o surgimento de um universo dual ilusório ora bem/mau, ora abundante/escasso, ora sim/não. É Ele quem o cria e o representa, permanecendo ele mesmo além de toda criação. No âmbito da ilusão, ele é tudo em tudo, como tudo. Mas nada do que está sendo feito por ele é do conhecimento de Brahma.

Um outro importante ponto a ser considerado é o seguinte: o ensinamento iluminado nº 2 diz que apesar de existir o universo ilusório da representação, não há em verdade nisso uma necessidade real. Deus não depende da existência de uma representação. Isso significa que se a representação não existisse, tudo estaria bem, perfeito, nada real em absoluto seria afetado. Todavia a iluminação nº 2 postula que, apesar de não ser necessário, o universo irreal parece ter algum propósito: o de Deus expressar o seu amor e a sua totalidade através das manifestações da dualidade. A razão pela qual o universo da dualidade está aqui é que o amor de Deus está operando com alegria em tudo e por toda a parte. Deus está simplesmente celebrando tudo e isso é algo que deve ser percebido. Uma vez percebido, a pessoa compreenderá sem necessidade de maiores questionamentos que essa explicação é o bastante para explicar a existência da representação. Então, se a representação existe ou não existe, isso não importa, e o que quer que seja ou aconteça é aceito e desfrutado e tudo é muito bom. O indivíduo então sentirá essa verdade e a vivenciará.

Mas do ponto de vista do ensinamento iluminado nº 1, a existência do universo ilusório não tem propósito algum; ele é completamente desnecessário porque é NADA. Ele não existe, apenas parece existir, mas chegará um momento no qual deixará inclusive de aparentar existir e desaparecerá por completo. Por ser desnecessário! Nenhum Filho de Deus no Universo inteiro perceberá a existência aparente/falsa de um universo estranho ao Universo Verdadeiro Criado por Deus. Em verdade, essa iluminação revela que nenhum Filho de Deus jamais viu universo ilusório algum. Só o Universo Divino é Real. Ele é tudo o que sempre existiu, existe e sempre existirá, eternamente e infinitamente.

A fim de comprovar a veracidade de que estes dois ensinamentos iluminados realmente existem, enumero a seguir uma lista com os mestres e os ensinamentos referentes a cada uma destas duas iluminações. É impossível conhecer todos os ensinamentos e mestres iluminados do mundo, mas todos aqueles com os quais já me deparei e que foram apresentados neste blog até hoje estarão apresentados nas listas abaixo. Alguns deles abordam ambos os ensinamentos iluminados, embora predominem mais para um lado do que para o outro. Pelo fato de eles não serem explícitos em suas falas quanto a essas duas iluminações, cabe ao ouvinte ser atento e perceber as sutilezas, o sentido e a profundidade do que está sendo revelado. Por exemplo,  em meus contatos com os ensinamentos de Ramana Maharshi, na maioria das vezes vi ele afirmar que "o mundo exterior (ou seja, a ilusão) quando corretamente compreendido é a manifestação do próprio Ser". Contudo, lembro-me claramente de que Ramana Maharshi também disse que "Quando Deus existe, o mundo não existe."

Eis os ensinamentos e mestres que falam a respeito da realização da iluminação nº 1:

- Metafísica Absoluta  
- Um Curso em Milagres
- Christian Science - Ciência Cristã (Mary Baker Eddy)
- Seicho-No-Ie (Masaharu Taniguchi)
- O Caminho Infinito (Joel S. Goldsmith)
- Meher Baba
- Ramana Maharshi
- Outros Autores: Dárcio Dezolt, Lillian DeWaters, Marie S.Watts, Alfred Aiken, Allen White, Vivian May Willians.

Eis os ensinamentos e mestres que difundem a iluminação nº 2 (alguns integrantes da relação anterior também estarão aqui):

- Ensinamentos Advaita
- Seicho-No-Ie
- O Caminho Infinito
- Conversando com Deus (livros de Neale Donald Walsch)
- Ramana Maharshi
- Meher Baba
- Nisargadatta Maharaj
- Eckhart Tolle
- Osho (a única vez que vi o Osho fazer uma vaga referência à iluminação nº 1 foi neste texto que você pode ler clicando aqui.)
- As descobertas da Ciência Quântica

No próximo post, teremos as explanações dadas neste texto sobre a iluminação nº 1 acompanhadas das próprias palavras dos mestres e dos ensinamentos. Não será necessário adotar o mesmo procedimento com relação à iluminação nº 2, uma vez que é fácil de se agradar com ela e assim acreditar ou aceitar a sua existência. A iluminação nº 1 é a que diz que Deus não criou este universo físico, não criou os seres, tampouco a vida que esses seres estão vivendo neste universo dualístico - algo bastante desagradável de se ouvir. Em face disso, a iluminação nº 1 é muito mais difícil de ser aceita.  E o objetivo do próximo texto será o de explicitar que, sim, tal iluminação existe e pode ser conhecida e experienciada.


sábado, setembro 15, 2012

Maya (ilusão) 2/2

Meher Baba


III - TRANSCENDENDO AS FALSIDADES DE MAYA

Inúmeras são as falsidades que uma pessoa guiada por Maya abraça no torpor da ignorância; e desde o início, as falsidades carregam dentro de si sua própria insuficiência e falência. Cedo ou tarde elas são conhecidas como mentiras. Isso leva a pessoa à pergunta: Como discernir a falsidade como falsidade? Não há nenhuma saída da falsidade, exceto ao conhecê-la como falsa, mas esse conhecimento da falsidade como falsidade nunca chegaria a menos que estivesse de alguma forma latente na própria falsidade, desde o início.

A aceitação da falsidade é sempre um acordo forçado. Mesmo nas profundezas da ignorância, a alma oferece algum tipo de desafio para a falsidade. Não importa o quão fraca e desarticulada pareça estar em seus estágios iniciais, é o início daquela busca da Verdade que finalmente aniquila toda a falsidade e toda a ignorância. Na aceitação de uma falsidade há uma inquietação crescente, uma profunda desconfiança e um medo vago. Por exemplo, quando um indivíduo considera a si mesmo e os outros seres como idênticos ao corpo grosseiro, ele não consegue reconciliar-se totalmente a essa crença. Ao abraçar essa falsa crença há o medo da morte e o medo de perder os outros. Se uma pessoa depende somente da posse de formas para sua felicidade, ela sabe em seu coração que está construindo seus castelos na areia movediça, sabe que este certamente não é o caminho para a felicidade permanente, que o apoio ao qual ela tão desesperadamente se apega pode a qualquer dia desaparecer. Por isso, ela está profundamente desconfiada de suas bases.

O indivíduo está inquietamente consciente de sua própria insegurança. Ele sabe que algo está errado em algum lugar e que ele está contando com falsas esperanças. A falsidade é traiçoeiramente desconfiável. Ele simplesmente não pode-se dar ao luxo de abraçá-la para sempre. Ele poderia muito bem colocar uma cobra venenosa em torno de seu pescoço ou ir dormir no topo de um vulcão que está apenas temporariamente inativo. A falsidade traz a marca de ser incompleta e insatisfatória, temporária e provisória. Ela aponta para algo mais. Para a pessoa ela parece estar escondendo algo maior e mais verdadeiro do que aquilo que ela parece ser. A falsidade trai a si mesma e ao fazer isso leva a pessoa a conhecer a verdade.

As falsidades são de dois tipos: aquelas que surgem devido ao pensamento irregular e desconexo, e aquelas que surgem devido ao pensamento viciado. As falsidades que surgem devido ao pensamento irregular são menos prejudiciais do que aquelas que surgem do pensamento viciado. As falsidades de natureza puramente intelectual surgem por causa de algum erro na utilização do intelecto. Enquanto que falsidades que são importantes do ponto de vista espiritual surgem por causa do vício do intelecto, através da operação dos desejos irracionais que cegam.

A diferença entre esses dois tipos de falsidade pode ser interposta por uma analogia fisiológica. Alguns distúrbios dos órgãos vitais do corpo são funcionais e alguns são estruturais. Doenças funcionais surgem por causa de alguma irregularidade no funcionamento de um órgão vital. Nesses casos não há nada de muito errado com a estrutura do órgão vital. Ele apenas tornou-se lento ou irregular e precisa apenas de um pequeno estímulo ou correção a fim de funcionar corretamente. Nos distúrbios estruturais, a doença passa a existir por causa do desenvolvimento de alguma deformidade na estrutura ou na constituição do órgão vital. Nesses casos, o distúrbio do órgão vital é de natureza muito mais grave. Ele tornou-se danificado ou ineficaz devido a algum fator concreto que afetou a própria constituição do órgão. Ambos os tipos de doenças podem ser corrigidas, mas é muito mais fácil a correção de problemas meramente funcionais do que corrigir os estruturais.

As falsidades que surgem devido a alguma irregularidade na utilização do intelecto são como os distúrbios funcionais e as falsidades surgidas devido ao vício do intelecto são como os disturbios estruturais. Assim como os distúrbios funcionais são mais fáceis de corrigir do que os estruturais, as falsidades decorrentes de irregularidades na aplicação do intelecto são mais fáceis de corrigir do que aquelas que surgem devido ao vício do intelecto. A fim de corrigir uma doença funcional de um órgão vital, tudo o que é necessário é dar-lhe uma melhor modulação e mais força. Se há uma doença estrutural, muitas vezes é necessário realizar uma operação. Da mesma forma, se as falsidades surgem devido a alguns erros na aplicação do intelecto, tudo que é necessário é mais cuidado na aplicação do intelecto. Mas se as falsidades surgem devido ao vício do intelecto, é necessário purificar o intelecto. Isso exige o doloroso processo de remoção daqueles desejos e apegos que são responsáveis por viciar o intelecto.

As falsidades do pensamento viciado provêm de erros na avaliação inicial. Surgem como um subproduto da atividade intelectual, que consiste na busca de determinados valores aceitos. Eles entram em existência como uma parte da racionalização e da justificação dos valores aceitos e devem seu domínio sobre a mente humana à seu aparente suporte dos valores aceitos. Se eles não afetassem os valores humanos ou a sua realização, passariam imediatamente para a insignificância e perderiam seu controle sobre a mente. Quando as falsas crenças derivam seu ser e vitalidade dos desejos profundamente enraizados, elas são alimentadas por falsas buscas. Se o erro nas falsas crenças é puramente intelectual, é fácil de ser corrigido. Mas as falsas crenças que são alimentadas por falsas buscas são as fortalezas de Maya. Elas envolvem muito mais do que o erro intelectual e não são diminuídas através de meras afirmações contrárias de natureza puramente intelectual.

A eliminação de desejos e apegos que viciam o pensamento não é realizada exclusivamente pelo mero intelecto. Isso requer esforço correto e ação correta. Não é através de especulações irrosolutas, mas sim através da execução de coisas que as verdades espirituais devem ser descobertas. A ação honesta é uma ação preliminar à eliminação das falsidades espirituais. A percepção das verdades espirituais exige não apenas pensamentos intensos e furiosos, mas pensamento claro e a verdadeira clareza de pensamento é fruto de uma mente pura e tranquila.

Não até o desaparecimento do último vestígio da falsidade criada por Maya, Deus é conhecido como a Verdade. Somente quando Maya é completamente superada que surge o conhecimento supremo de que Deus é a única Verdade. Só Deus é real. Tudo o que não é Deus, tudo o que é impermanente e finito, tudo o que parece existir dentro do domínio da dualidade, é falso. Deus é uma Realidade infinita una. Todas as divisões que são concebidas dentro desta realidade são falsamente concebidas, pois elas não existem de fato.

Quando Deus é considerado divisível, isso é devido a Maya. O variado mundo da multiplicidade não implica no fracionamento de Deus em várias partes diferentes. Existem diferentes mentes-ego, diferentes corpos, diferentes formas, mas uma só alma. Quando a Alma uma (Deus) assume diversas mentes-ego e corpos, há diferentes almas individualizadas, porém, isso não introduz nenhuma multiplicidade dentro da própria Alma uma. A Alma é e permanece sempre indivisível. A Alma única indivisível é a base das diferentes mentes-ego e dos diferentes corpos, que produzem os pensamentos e as ações de vários tipos e que passam por inúmeros tipos de experiências duais. Mas a Alma é indivisível e permanece sempre além de todo pensamento e ação e além de toda experiência dual.

As diferentes opiniões ou diferentes maneiras de pensar, não introduzem multiplicidade dentro da Alma indivisível pela simples razão de que não existem opiniões ou quaisquer formas de pensar dentro da alma. Toda a atividade do pensamento e as conclusões extraídas deles estão dentro da mente-ego, que é finita. A alma individualizada como Alma não pensa, é apenas a mente-ego que pensa. O pensamento e o conhecimento que vem através do pensamento são possíveis no estado de conhecimento imperfeito e incompleto pertencente à mente-ego finita. Na própria alma individual não há nem pensamento, nem o conhecimento que vem através do pensamento.

A alma individualizada como Alma é o pensamento infinito e a infinita inteligência, não há divisão entre o pensador e o pensamento e as conclusões do pensamento, nem a dualidade do sujeito e do objeto. Somente a mente-ego com o pano de fundo da alma pode se tornar o pensador. A alma individual como Alma, a qual é pensamento infinito e inteligência infinita, não pensa ou tem qualquer atividade do intelecto. O intelecto com o seu pensamento limitado surge apenas com a mente-ego finita. Na completude e suficiência da inteligência infinita, que é Alma una, não há necessidade para o intelecto ou suas atividades.

Com a queda do último vestígio das falsidades criadas por Maya, a alma individual não só conhece a sua realidade como sendo diferente do corpo grosseiro, do sutil, ou do mental, mas conhece a si mesma como sendo Deus, que é a única Realidade. Neste estado a alma sabe que a mente, o corpo sutil e o corpo físico eram todos igualmente criações de sua própria imaginação, e que na realidade nunca existiram. Ela sabe que por ignorância ela concebeu-se como sendo a mente ou o corpo sutil ou corpo físico. A alma individual sabe também que, em certo sentido, ela tornou-se a mente, o corpo sutil e o corpo grosseiro e então indentificou-se com todas essas ilusões auto-criadas.


IV - DEUS E MAYA

Deus é infinito porque Ele está acima dos opostos limitantes da dualidade. Ele está acima dos aspectos limitados de bom e mau, grande e pequeno, certo e errado, virtude e vício, felicidade e miséria; por isso Ele é infinito. Se Deus fosse bom e não mau ou mau em vez de bom, ou se Ele fosse pequeno e não grande ou grande em vez de pequeno, ou se Ele estivesse certo e não errado ou errado em vez de certo, ou se Ele fosse virtuoso ao invés do malvado ou malvado e não virtuoso, ou se Ele fosse feliz e não infeliz ou infeliz ao invés de feliz, - Ele seria finito e não infinito. Somente por estar acima da dualidade Deus é infinito.

O que quer que seja infinito transcende a dualidade, não pode ser uma parte da dualidade. Aquilo que é verdadeiramente infinito não pode ser a parte dual do finito. Se o infinito é considerado existir lado a lado com o finito ele já não é infinito, pois torna-se então a segunda parte da dualidade. Deus, que é infinito, não pode descender na dualidade. Assim, a aparente existência da dualidade, como o Deus infinito e o mundo finito, é ilusória. Só Deus é real, Ele é infinito, um sem um segundo. A existência do finito é apenas aparente, é falsa, não é real.

Como o falso mundo das coisas finitas veio a existir? Por que ele existe? Ele é criado por Maya, ou o princípio da ignorância. Maya não é ilusão, é a criadora da Ilusão. Maya não é falsa, é aquilo que é criado por Maya que dá falsas impressões. Maya não é irreal, ela é o que faz com que o real pareça irreal e o irreal pareça real. Maya não é dualidade, é o que provoca a dualidade.

Para efeitos de explicação intelectual, no entanto, Maya deve ser encarada como sendo infinita. Ela cria a ilusão de finitude, ainda assim não é em si finita. Todas as ilusões criadas por Maya são finitas e todo o universo da dualidade, que parece existir devido a Maya, também é finito. O universo pode parecer conter inúmeras coisas, mas isso não significa que seja infinito. As estrelas podem ser inúmeras, há um número enorme, mas o conjunto total de estrelas é, contudo, finito. O espaço e o tempo podem parecer infinitamente divisíveis, mas, no entanto, são finitos. Tudo o que é finito e limitado pertence ao mundo da ilusão, embora o princípio que causa esta ilusão das coisas finitas deve, em certo sentido, ser considerado como não sendo uma ilusão.

Maya não pode ser considerada como sendo finita. A coisa torna-se finita ao ser limitada pelo espaço e pelo tempo. Maya não existe no espaço e não pode ser limitada por ele. Maya não pode ser limitada no espaço porque o espaço é em si a criação de Maya. O espaço, com tudo o que ele contém, é uma ilusão e é dependente de Maya. Maya, no entanto, não é de forma nenhuma dependente do espaço. Por isso, não pode ser finita devido a nenhuma limitação de espaço. Maya também não pode ser finita por causa de nenhuma das limitações do tempo. Embora Maya chegue ao fim no estado de superconsciência, não precisa ser considerada finita por esse motivo. Maya não pode ter um começo nem um fim no tempo, porque o próprio tempo é uma criação de Maya. Qualquer visão que torne Maya um acontecimento que tem lugar em algum tempo e desaparece depois de algum tempo coloca Maya no tempo, e não o tempo em Maya. O tempo está em Maya; Maya não está no tempo. O tempo, bem como todos os acontecimentos no tempo, são a criação de Maya. Maya não é de forma alguma limitada pelo tempo. O tempo chega à existência por causa de Maya e desaparece quando Maya desaparece. Deus é a Realidade atemporal, portanto, a realização de Deus e o desaparecimento de Maya, é um ato atemporal.

Maya também não pode ser considerada finita por quaisquer outras razões. Se fosse finita, seria uma ilusão e sendo uma ilusão, não teria nenhuma potência para criar outras ilusões. Assim, Maya é melhor considerada como sendo real e infinita, da mesma forma que Deus é geralmente considerado como sendo real e infinito. Entre todas as explicações intelectuais possíveis, a explicação de que Maya, assim como Deus, é real e infinita é mais aceitável para o intelecto do homem. No entanto, Maya não pode ser realmente verdadeira. Onde há dualidade, há finitude em ambos os lados. Uma coisa limita a outra. Não pode haver dois infinitos reais. Pode haver duas entidades enormes, mas não pode haver duas entidades infinitas. Se tivéssemos a dualidade de Deus e Maya e se ambos fossem considerados como existências coordenadas, então, a realidade infinita de Deus poderia ser considerada como a segunda parte de uma dualidade. Portanto, a explicação intelectual de que Maya é real não tem o selo do conhecimento final, embora seja a explicação mais plausível.

Há dificuldades em considerar Maya como ilusória e também como real em última análise. Assim, todas as tentativas do intelecto limitado para entender Maya levam a um impasse. Por um lado, se Maya é considerada como finita, ela própria torna-se ilusória e então não pode dar conta do mundo ilusório das coisas finitas. Assim, Maya tem de ser considerada real e infinita. Por outro lado, se Maya é considerada como sendo essencialmente real, Maya se torna uma segunda parte da dualidade de uma outra realidade infinita, ou seja, Deus. Portanto, deste ponto de vista, Maya parece realmente tornar-se finita e, portanto, irreal. Então, Maya não pode ser real em última análise, embora tenha de ser considerada como tal, a fim de explicarmos o mundo ilusório dos objetos finitos.

De qualquer forma que o intelecto limitado tentar entender Maya, ele ficará aquém da verdadeira compreensão. Não é possível compreender Maya através do intelecto limitado, ela é tão insondável quanto Deus. Deus é insondável, incompreensível, assim também Maya é insondável, incompreensível. Dessa forma, é dito que Maya é a sombra de Deus. Onde uma pessoa está há a sombra dela também. Onde Deus está, há esta Maya inescrutável. Embora Deus e Maya sejam inescrutáveis para o intelecto limitado que opera no domínio da dualidade, eles podem ser perfeitamente entendidos em sua verdadeira natureza com o conhecimento final da Realização. O enigma da existência de Maya nunca pode ser definitivamente resolvido até que ocorra a Realização, quando descobre-se que Maya não existe na realidade.

Há dois estados em que Maya não existe: no estado original inconsciente da Realidade - não há Maya; e no estado Auto-consciente (Consciente do Ser), ou superconsciente, estado de Deus - não há Maya. Ela existe apenas na consciência de Deus do mundo fenomenal da dualidade, ou seja, quando há a consciência do mundo grosseiro ou do mundo sutil ou do mundo mental. Maya existe quando não há Autoconsciência (consciência do Ser), mas somente a consciência dos imaginados outros, e quando a consciência está irremediavelmente dominada pelas falsas categorias da dualidade. Maya só existe a partir do ponto de vista do finito. É apenas como ilusão que Maya existe como uma criadora verdadeira e infinita de coisas irreais e finitas.

Na Verdade final e única da Realização, não existe nada exceto o Deus infinito e eterno. A ilusão das coisas finitas aparecendo como separadas de Deus desapareceu e com ela também desapareceu Maya, a criadora dessa ilusão. O Autoconhecimento vem para a alma ao olhar para dentro, e ao superar Maya. Nesse Autoconhecimento ela não apenas sabe que as diferentes mentes-ego e os diferentes corpos nunca existiram, mas também que todo o universo e Maya mesma nunca existiram como um princípio separado. Seja qual for a realidade que Maya tinha até então é agora engolida pelo Ser indivisível da única Alma. A alma individualizada agora conhece a si mesma como sendo o que ela sempre foi - eternamente Autorealizada, eternamente infinita em conhecimento, graça, força e existência, e eternamente livre da dualidade. Mas essa forma mais elevada de Autoconhecimento é inacessível ao intelecto e é incompreensível, exceto para aqueles que alcançaram o cume da Realização final.


quinta-feira, setembro 13, 2012

Maya (ilusão) 1/2

Meher Baba


I - FALSOS VALORES

Todo mundo quer conhecer e perceber a Verdade, mas a Verdade não pode ser conhecida e compreendida como Verdade a menos que a ignorância seja conhecida e compreendida como sendo ignorância. Daí surge a importância da compreensão de Maya, ou o princípio da lgnorância. As pessoas lêem e ouvem muito sobre Maya, mas poucos entendem o que ela realmente é. Não basta ter uma compreensão superficial de Maya, é necessário que Maya seja entendida como ela é, na sua realidade. Entender Maya, ou o princípio da Ignorância, é saber a metade da Verdade do universo. A ignorância em todas as suas formas deve desaparecer de modo que a alma possa se estabelecer no estado de Autoconhecimento.

Por isso, é imperativamente necessário que a humanidade saiba o que é falso, que reconheça o que é falso para se livrar do falso ao saber que ele é falso. Qual é a natureza essencial da falsidade? Se o verdadeiro é conhecido como sendo verdadeiro ou se o falso é conhecido como sendo falso, não há falsidade, apenas uma forma de conhecimento. A falsidade consiste em tomar o verdadeiro como sendo falso ou o falso como sendo verdadeiro, isto é, ao considerar que algo é diferente do que realmente é em si mesmo. A falsidade é um erro no julgamento da natureza das coisas.

De um modo geral, existem dois tipos de conhecimento: os julgamentos puramente intelectuais sobre os fatos da existência, e os julgamentos de valor, que implicam na apreciação do valor ou da importância das coisas. Os julgamentos puramente intelectuais ou as crenças derivam sua importância do fato de estarem relacionados com valores de alguma forma. Divorciados de valores, têm muito pouca importância em si mesmos. Por exemplo, ninguém tem muito interesse em contar exatamente o número de folhas de uma determinada árvore, apesar de que do ponto de vista puramente teórico tal informação seria uma forma de conhecimento. Tal informação ou conhecimento é tratado como insignificante porque não está vitalmente ligado a outros valores. O conhecimento intelectual torna-se importante quando permite ao homem perceber certos valores, dando-lhe o controle sobre os meios para sua realização ou quando ele entra na própria avaliação como um importante fator, modificando ou afetando de alguma outra forma os valores aceitos.

Assim como existem dois tipos de julgamento, há dois tipos de falsidade: os erros em aceitar como fatos coisas que não são fatos e erros de avaliação e valorização. Os erros de avaliação podem ser cometidos nos seguintes aspectos: (1) ao tomar como importante o que não é importante, (2) ao tomar como sem importância o que é importante, ou (3) ao dar uma importância a uma coisa diferente da importância que ela realmente tem. Todas essas falsidades são criações de Maya. Embora Maya inclua todas as falsidades do ponto de vista espiritual, há algumas falsidades que contam e algumas falsidades que não contam muito. Se uma pessoa considera um trono ser maior do que ele é, seria uma falsidade, mas isso não importa muito. Por outro lado, se uma pessoa considera o trono como sendo tudo e como o objetivo de sua vida, essa seria uma falsidade que afetaria substancialmente o curso e o significado de sua vida. Em geral, os erros de valorização são muito mais eficazes em desencaminhar, perverter e limitar a vida do que os erros nos julgamentos puramente intelectuais sobre certos fatos objetivos.

Os erros na valorização surgem devido à influência de vontades e desejos subjetivos. Os valores verdadeiros são valores que pertencem às coisas em seu próprio direito. Eles são intrínsecos e por serem intrínsecos são absolutos e permanentes e não são passíveis de mudança de tempos em tempos ou de pessoa para pessoa. Falsos valores são derivados de desejos ou vontades. Eles são dependentes de fatores subjetivos e sendo assim dependentes, são relativos e impermanentes, podendo sofrer alterações ao longo do tempo e de pessoa para pessoa.

Por exemplo, um indivíduo que está com muita sede e está em um deserto como o Saara pensa que nada é mais precioso do que a água, enquanto alguém que tem em mãos uma abundância de água e que não está com muita sede não dá a mesma importância a ela. Da mesma forma, uma pessoa que está com fome, considera a comida muito importante, mas o indivíduo que teve um jantar completo nem sequer pensa em comida até que esteja com fome novamente. A mesma coisa aplica-se a outros desejos e anseios que projetam valores imaginários e relativos para os objetos que satisfarão esses desejos e anseios.

O valor dos objetos dos sentidos é grande ou pequeno de acordo com a intensidade ou a urgência com que são desejados. Se esses desejos e anseios aumentam, os objetos correspondentes assumem maior importância. Se sua intensidade ou urgência diminui, os objetos também perdem muito de sua importância. Se os desejos e anseios aparecem intermitentemente, eles retêm seu possível valor quando os desejos e anseios estão latentes e seu valor real quando eles se manifestam. Esses são todos os falsos valores, pois não são inerentes aos próprios objetos. Quando, à luz do verdadeiro conhecimento, todos os desejos e anseios desaparecem completamente, os objetos trajados com importância através da operação desses desejos e anseios perdem imediatamente toda sua importância emprestada e parecem sem sentido.

Assim como uma moeda que não esteja em uso corrente é tratada como sem valor, embora tenha uma espécie de existência, os objetos dos desejos e anseios, quando vistos em sua vacuidade são tratados como falsos, ainda que esses objetos possam continuar a ter algum tipo de reconhecimento. Eles todos existem e podem ser conhecidos e vistos, mas já não significam a mesma coisa. Eles sustentam a falsa promessa de satisfação de uma imaginação pervertida pela luxúria e pelos desejos; ainda assim, para uma percepção tranquila e constante, são vistos como sem importância alguma quando considerados como separados da alma.

Quando um ente querido morre, há tristeza e solidão, mas essa sensação de perda está enraizada no apego à forma, independentemente da alma. É a forma que desapareceu e não a alma. A alma não está morta; em sua verdadeira natureza ela nem mesmo foi embora, pois ela está em toda parte. No entanto, através de apego ao corpo, a forma era considerada importante. Todos os anseios, desejos, emoções e pensamentos estavam centradas sobre a forma, e quando, a forma desaparece através da morte, existe um vácuo, que se expressa através de falta do falecido.

Se a forma como tal não tivesse sido sobrecarregada com falsa importância, não haveria tristeza em perder a pessoa que faleceu. O sentimento de solidão, a memória persistente da pessoa amada, o anseio de que ele ou ela devesse ainda estar presente, as lágrimas de luto e os suspiros de separação, devem-se todos à valorização falsa, ao trabalho de Maya. Quando uma coisa sem importância é considerada importante, temos uma manifestação principal do trabalho de Maya. Do ponto de vista espiritual, é uma forma de ignorância.

Por outro lado, o trabalho de Maya também se expressa ao fazer uma coisa importante parecer banal. Na realidade, a única coisa que tem importância é Deus, mas muito poucas pessoas estão realmente interessadas em Deus por Si mesmo. Se por acaso a pessoa mundana voltasse para Deus, isso se daria principalmente para seus próprios fins egoístas e mundanos. Eles buscam a satisfação de seus próprios desejos, esperanças e até mesmo vingaças através da intervenção do Deus de sua imaginação. Eles não buscam a Deus como a Verdade. Eles anseiam por todas as coisas, exceto a única Verdade, a qual consideram como sem importância. Novamente isso é a cegueira da visão causada pelo trabalho de Maya. As pessoas buscam sua felicidade em tudo, exceto em Deus, o qual é a única fonte inesgotável de alegria permanente.

O trabalho de Maya também expressa-se ao fazer a mente dar uma importância para algo diferente da importância que aquilo realmente tem. Isso acontece quando os rituais, cerimônias e outras práticas religiosas externas são considerados como fins em si mesmos. Eles têm seu próprio valor como meios para um fim, como veículos da vida, como meios de expressão, mas, tão logo assumem créditos a seu próprio favor, está recebendo uma importância diferente daquela que lhes pertence. Quando são considerados importantes em si mesmos, eles limitam a vida ao invés de servir o propósito de expressá-la. Quando é permitido que o não essencial predomine sobre o essencial, dando-lhe importância errada, tem-se a terceira forma principal de ignorância relativa a avaliação. Este novamente é o trabalho de Maya.


II - FALSAS CRENÇAS

As algemas que mantêm a alma em um cativeiro espiritual, consistem principalmente de valores errados ou falsidades referentes à valorização. Algumas falsidades relacionadas a crenças erradas, também desempenham um papel importante no processo de manter a alma em cativeiro espiritual. Falsas crenças implementam falsos valores, e estes, por sua vez, reúnem força dos falsos valores nos quais a alma baseou-se. Todas as falsas crenças assim como os falsos valores são grandemente criações de Maya, e eles são usados por Maya para manter a alma em suas garras, ainda na ignorância.

Maya se torna irresistível ao apossar-se da própria sede do conhecimento, que é o intelecto humano. Sobrepujar Maya é difícil porque, com o intelecto sob o seu domínio, Maya cria barreiras e sustenta falsas crenças e ilusões. Ela cria barreiras para a realização da Verdade através de tentativas persistentes de sustentar e justificar as crenças errôneas. O intelecto que funciona em liberdade prepara o caminho para a Verdade, mas o intelecto que é um joguete nas mãos de Maya cria obstáculos para a verdadeira compreensão.

As falsas crenças criadas por Maya são tão profundamente enraizadas e fortes que parecem ser auto-evidentes. Elas assumem a feição de verdades autênticas e são aceitas sem questionamento. Por exemplo, uma pessoa acredita que ela é seu corpo físico. Normalmente, nunca lhe ocorre que ela pode ser algo diferente de seu corpo. A identificação com o corpo físico é assumida por ela instintivamente, sem exigência de uma prova, e ela mantém a crença mais fortemente ainda porque ela é independente de uma prova racional.

A vida de um indivíduo é centrada em torno do corpo físico e seus desejos. Abandonar a crença de que ele é o corpo físico envolve o abandono de todos os desejos relacionados com o corpo físico e os falsos valores que eles implicam. A crença de que ele é seu corpo físico é propícia aos desejos físicos e apegos, mas a crença de que ele é algo diferente do seu corpo físico é contrária aos desejos e apegos aceitos. Portanto, a crença de que o indivíduo é o seu corpo físico torna-se natural. É uma crença fácil de manter e difícil de se desenraizar. Por outro lado, a crença de que ele é algo diferente de seu corpo físico parece exigir uma prova convincente. É difícil de segurar e fácil de resistir. Igualmente, quando a mente não está sobrecarregada com todos os desejos e apegos físicos, a crença de que ele é seu corpo físico é vista como falsa e a crença de que ele é algo diferente de seu corpo é vista como verdade.

Mesmo quando uma pessoa consegue deixar cair a falsa crença de que ela é o corpo físico, ela continua a ser uma vítima da falsa crença de que ela é o seu corpo sutil. Sua vida é, então, centrada em torno do corpo sutil e seus desejos. Abandonar a crença de que ela é o corpo sutil envolve o abandono de todos os desejos relacionados com o corpo sutil e os falsos valores que eles implicam. Portanto, a crença de que ela é seu corpo sutil agora torna-se natural para ela, e a crença de que ela é algo diferente de seu corpo sutil parece exigir uma prova convincente. Mas quando a mente não está sobrecarregada com todos os desejos e apegos referentes ao corpo sutil, a pessoa abandona a falsa crença de que ela é seu corpo sutil, tão facilmente como abandonou a falsa crença de que ela era o seu corpo físico.

No entanto, esse não é o fim das falsas crenças. Mesmo quando uma pessoa abandona a falsa crença de que ela é seu corpo sutil, ela alimenta a crença ilusória de que ela é o seu corpo mental. A pessoa alimenta essa crença falsa, porque a aprecia. Ao longo de sua longa vida como uma alma individual, ela se agarrou com carinho à falsa idéia de sua existência separada. Todos os seus pensamentos, emoções e atividades têm repetidamente assumido e confirmado somente uma afirmação, ou seja, a existência do "eu" separado. Abandonar a falsa crença de que ela é a mente-ego do corpo mental é entregar tudo o que parecia constituir sua própria existência.

Para abandonar a falsa crença de que ela é o seu corpo físico ou o sutil, é necessário abandonar vários desejos e apegos. É um abandono de algo que a pessoa teve durante muito tempo. Ao abandonar a falsa crença de que ele é a sua mente-ego, o indivíduo é chamado a entregar a própria essência do que ele pensava ser ele mesmo. Apagar esse último vestígio da falsidade é, portanto, a coisa mais difícil. Mas essa última falsidade não é mais duradoura do que as falsidades anteriores que pareciam ser certezas incontestáveis. Ela também tem o seu término e é removida quando a alma renuncia seu desejo por uma existência separada.

Quando a alma se conhece como sendo diferente dos corpos grosseiro, sutil e mental, ela se conhece como sendo infinita. Como a Alma infinita, ela não faz nada, ela simplesmente É. Quando a mente é adicionada à alma individualizada, ela parece pensar. Quando o corpo sutil é adicionado à alma com a mente, ela parece desejar. Quando o corpo grosseiro é adicionado à eles, a alma parece estar envolvida em ações. A crença de que a alma está fazendo algo é uma crença falsa. Por exemplo, um indivíduo acredita que ele está sentado na cadeira, mas na verdade é o corpo que está sentado na cadeira. A crença de que a alma está sentada na cadeira é devida à identificação com o corpo físico. Da mesma forma, uma pessoa acredita que está pensando, mas na verdade é a mente que está pensando. A crença de que a alma está pensamento é devida à identificação com a mente. É a mente que pensa e é o corpo que se senta. A alma não está envolvida nem no pensar, nem em quaisquer outras ações físicas.

Claro que não é simplesmente a mente ou o mero corpo que realizam o pensar ou outras ações físicas, pois a mera mente e o mero corpo não existem. Eles existem como ilusões da alma individualizada, e é quando a alma falsamente se identifica com eles que o pensar ou a realização das coisas ocorre. A alma e o corpo mental, sutil e grosseiro tomados em conjunto, constituem o agente das ações, ou o "eu" limitado, mas a alma em sua verdadeira natureza não é responsável nem pelos pensamentos, nem pelos desejos, nem pelas ações. A ilusão de que a alma é a mente ou os corpos e a ilusão de que a alma é o agente do pensar, do desejar, ou das ações são criadas por Maya, a qual é a Ilusão e o princípio da Ignorância.

Da mesma forma, a crença de que a alma experimenta os prazeres e as dores da vida ou de que esteja passando pelos opostos da experiência também é falsa. A alma está além dos opostos da experiência, mas não se conhece como tal. E dessa forma ela assume as experiências que são características dos opostos devido à identificação com a mente e os corpos sutil e grosseiro. A alma que se confunde com a mente e o corpo torna-se destinatária de dores e prazeres. Assim, todos os prazeres e as dores aos quais a pesoa está sujeita estão enraizados na ignorância.

Quando um indivíduo pensa que ele é a pessoa mais infeliz do mundo, ele está adotando uma ilusão que sugiu por causa da ignorância, ou de Maya. Ele não é realmente infeliz, mas imagina que é infeliz porque se identifica com a mente e os corpos. Claro que não é a mente por si só, ou os corpos por si só que podem ter alguma experiência dos opostos. É a alma, a mente e os corpos tomados juntos que se tornaram o sujeito da experiência dual; mas a alma, em sua verdadeira natureza, está além dos opostos da experiência.

Assim, é a mente e os corpos em conjunto que constituem o agente das atividades e o sujeito das experiências duais. No entanto, eles não assumem esse papel duplo por seu direito próprio, mas somente quando eles são tomados juntamente com a alma. É a mente e os corpos que estão sendo animados que, juntos, tornam-se o agente de atividades ou o sujeito da experiência dual. O processo de vivificação pela alma se baseia na ignorância, pois a alma em sua verdadeira natureza é eternamente sem qualidades, sem modificações e ilimitada. Ela parece ser qualificada, modificada e limitada por causa da ignorância, ou do trabalho de Maya.


(Maya - o mundo das ilusões)