"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quarta-feira, setembro 05, 2012

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 2/2

Masaharu Taniguchi


6 – ESSÊNCIA E O FENÔMENO; O FENÔMENO AUTÊNTICO E O FENÔMENO FALSO

Nakamura – Estou me empenhando para transmitir aos meus conhecidos a verdade pregada pela Seicho-No-Ie, mas nem sempre consigo dar respostas convincentes às perguntas com que me contra-atacam. Dentre as perguntas destaca-se em primeiro lugar a seguinte: “Por que Deus não Se limitou a criar somente criaturas boas e criou também as más?”. A segunda pergunta é: “O amor de Deus deveria ser imparcial. No entanto, a existência de ricos e pobres não é prova de que Deus é injusto na distribuição de Suas dádivas?”. A terceira pergunta é: “Se a Seicho-No-Ie prega que a riqueza vem infinitamente de Deus, por que ainda não surgiram muitos bilionários entre seus adeptos?”. Quanto à cura de doenças pela prática da Meditação Shinsokan, a revista Seicho-No-Ie traz fartos depoimentos de pessoas que receberam tal graça, e eu me incluo entre as que já tiveram experiência nesse sentido. Mas, quanto à obtenção de riqueza, parece-me que são poucos os adeptos que receberam esse tipo de graça. Naturalmente, quem faz a última pergunta quer acreditar em Deus em troca de benefícios materiais quando, na verdade, as graças materiais são consequência da crença em Deus e do aprimoramento espiritual. Acho impura a fé de quem coloca a recompensa em primeiro plano, mas gostaria que o senhor desse uma resposta acessível às pessoas que se encontram nesse estágio.

Taniguchi – A primeira pergunta denota que a pessoa está confundindo o mundo fenomênico com o mundo criado por Deus. Aquele que ler todos os volumes da coleção A Verdade da Vida poderá compreender que Deus jamais criou nada mau. “Criatura má não existe porque Deus não a criou” – este é um dos pensamentos básicos da Seicho-No-Ie. Logo, é fora de propósito perguntar justamente à Seicho-No-Ie “por que Deus criou pessoas más”. Então poderá surgir a pergunta: “Se Deus não criou pessoas más, por que há tantas delas neste mundo?”. A resposta é esta: “Deus não criou o ser humano mau, mas a mente humana cria esse falso ser, manifesta-o no mundo fenomênico e faz com que ele pareça existir. Portanto, o ser humano mau não existe na verdade. Todos os seres humanos são bons na Essência. Entretanto, alguns não conscientizam sua Essência, que é bondade, e se consideram maus; esse pensamento é que se projeta no mundo fenomênico, fazendo parecer que existem maus elementos.

Alguns teorizam que o fenômeno é manifestação ou extensão da Essência, que a Essência se compara ao oceano e o fenômeno às ondas que se formam na superfície do oceano e que, portanto, todo e qualquer tipo de fenômeno é manifestação da Essência. Mas isso não é verdade. Devemos distinguir fenômenos “autênticos” e “falsos”. Os “fenômenos autênticos” são imagens projetadas do mundo da Essência para dentro dos moldes e limites do mundo fenomênico, enquanto que os “fenômenos falsos” são manifestações da mente em ilusão.  Os “fenômenos autênticos” são expressões fiéis das imagens perfeitas do mundo da Essência, portanto, sua existência tem fundamento sólido. Os “fenômenos falsos”, porém, sendo manifestações da mente em ilusão, não têm fundamento algum; tal qual miragem, eles não existem verdadeiramente. O “homem mau” sobre o qual perguntou o senhor, é uma falsa criação dessa mente em ilusão, portanto, embora pareça existir, não é existência verdadeira; é um “homem irreal” completamente diferente do homem verdadeiro, que existe verdadeiramente.

A teoria de que todos os fenômenos são existências reais chama-se realismo ingênuo. Se estudarmos a história da filosofia, constataremos que os primitivos e os silvícolas tinham essa concepção. A teoria de que os fenômenos são criações de Deus foi adotada desde a Antiguidade até hoje por muitos religiosos e filósofos espiritualistas. Entretanto, se aceitássemos essa teoria, teríamos de aceitar também os fenômenos imperfeitos como obras de Deus, e isso nos levaria a pensar que Deus é um ser imperfeito e incapaz, e sermos filhos de Deus significaria sermos criaturas imperfeitas, uma conclusão nada agradável. É por isso que Schopenhauer, apesar de ver o mundo como “criação de uma única e vasta Vontade”, entregou-se ao pessimismo. Portanto, como já disse, é preciso distinguir o “fenômeno falso”, imperfeito,  do “fenômeno autêntico”, perfeito.

Isto compreendido, fica respondida também a segunda pergunta: “Por que Deus criou ricos e pobres?”. Segundo a Seicho-No-Ie, todo homem é filho de Deus e foi criado por Ele como um ser infinitamente rico, de modo que não existe um pobre sequer. Tanto os mendigos que perambulam pelas ruas pedindo esmola, como os ricaços que vivem comodamente em seus palacetes, ambos são herdeiros de Deus, que é dono da riqueza infinita; portanto, na Essência, todos são infinitamente ricos, não existindo diferença alguma entre mendigos e ricaços. Mas, então, por que no aspecto fenomênico os mendigos e os ricaços se apresentam de forma tão contrastante? Porque no mundo fenomênico cada um projeta sua mente: manifesta imagem de riqueza infinita como projeção da mente sintonizada com a Essência, ou manifesta imagem de pobreza como projeção da mente em ilusão, dessintonizada com a Essência. Concluindo, podemos estar ricos ou pobres conforme a nossa mente.

E finalmente chegamos à sua terceira pergunta. Como faz anos que a Seicho-No-Ie vem propagando a Verdade de que “o homem é filho de Deus e infinitamente rico na Essência”, é natural pensarem que já é tempo de surgirem pessoas infinitamente ricas para comprovar essa Verdade. Entretanto, é preciso compreender que “pessoa infinitamente rica” não significa um “bilionário possuidor de uma fortuna determinada”. Mesmo um bilionário não passa de um pobretão, quando comparado a uma “pessoa infinitamente rica”. Ser infinitamente rico não significa possuir uma fortuna limitada que possa ser calculada em bilhões ou trilhões de dólares. “Pessoa infinitamente rica” é aquela a quem a riqueza flui em quantidade necessária na medida do necessário e se reduz automaticamente quando não é necessária. Em outras palavras, rico é aquele que, sem avareza, possui riqueza “nula” e ao mesmo tempo “infinita”, que aumenta ou diminui livremente em harmonia com a necessidade.

Compreendendo isso, o senhor compreenderá também que “ser infinitamente rico” não é ser um ricaço que concentra a riqueza de modo a provocar má distribuição de bens, o que constitui um câncer no mundo econômico. Para dizer a verdade, os ricaços mesquinhos são dominados pela ideia de que “a riqueza diminui se for usada”, e por isso acumulam dinheiro e bens materiais com avareza, mesmo acusados de exploradores. A riqueza obtida dessa forma é concretização de uma “ilusão” ao invés de manifestação da “riqueza infinita do mundo da Essência”. Portanto, também é fora de propósito perguntar por que os conhecedores da Essência não conseguem enriquecer como tais ricaços.

Entre os adeptos da Seicho-No-Ie, há “pessoas infinitamente ricas” que atraem naturalmente para si tudo de que precisam na medida do necessário. Podemos citar, por exemplo, o sr. Hiroshi Fukushima, da província de Gumma. Ele esteve enfermo durante três anos e encontrava-se em situação financeira tão precária que não podia comprar sequer uma pasta de dentes. Entretanto, curou-se completamente após ler os ensinamentos da Seicho-No-Ie. Pensou então em construir uma academia de aprimoramento espiritual. Imediatamente, surgiram pessoas oferecendo gratuitamente terreno, materiais de construção, mão-de-obra e até a mobília. Um pedreiro se ofereceu para cuidar da manutenção ou das reformas do prédio dessa academia, que ainda nem estava construído. O sr. Fukushima não possui posse alguma, mas tudo que deseja lhe chega às mãos automaticamente. Quando precisa sair de casa, até a chuva cessa e o tempo melhora. Os moradores da redondeza até comentam que o sr. Fukushima é protegido pela divindade da montanha Akagui. Um milionário, por mais dinheiro que tenha, não pode criar um aparelho que controle as intempéries. Entretanto, o sr. Fukushima, apesar de nada possuir, conta sempre com o tempo bom quando necessário, proeza esta que milionário algum consegue. Isto é que é ser infinitamente rico. Mesmo tendo à mão muito dinheiro, de nada adiantará se não puder conseguir o que é necessário. Aquele que, apesar de estar desprovido de dinheiro, recebe tudo que lhe é necessário no momento preciso e o usa melhor que uma pessoa que tem muito dinheiro, pode ser considerado mais rico do que um bilionário. “Provisão ilimitada” significa provisão infinita de tudo e todos os sentidos. Aquele que tem uma grande soma de dinheiro mas não tem liberdade nem conforto em outros aspectos, não é uma pessoa “infinitamente rica”.


7 – SOBRE A ORAÇÃO DE COMUNICAÇÃO AFETIVA COM DEUS

Tanaka – Aprendi muito, lendo no sento volume da coleção A Verdade da Vida a parte intitulada “Oração para manifestar a Essência”. Compreendi perfeitamente que na Essência somos providos de tudo, independentemente de orarmos ou não. Entretanto, deixa-me um tanto insatisfeito a afirmação de que a oração consiste apenas no ajuste de nossa mente à perfeição interior e não em súplica para ser atendida por Deus. Eu, pessoalmente, prefiro pedir à Deus e crer que sou atendido por Ele, pois assim estreito meu relacionamento com Deus e sinto aumentar mais meu sentimento religioso. Será que isso é uma ilusão minha decorrente dos hábitos religiosos de até agora? Tenho lido que o senhor também ora a Deus. O senhor ora simplesmente para ajustar sua mente ou para se comunicar com Deus-Pai, como um filho se comunica com seu pai? Gostaria que o senhor esclarecesse esse ponto, pois para mim é uma questão muito importante.

Taniguchi – A oração é, por um lado, uma prática para ajustar a mente para contemplar a Essência, mas, ao mesmo tempo, é uma comunicação afetiva com Deus-Pai vivo, num verdadeiro relacionamento entre filho e Pai. O texto mencionado pelo senhor se refere a uma das funções da oração, que é a de fazer manifestar a Essência, e não à outra, que consiste em comunicarmo-nos afetivamente por Deus. Compreender apenas a primeira função não é suficiente, pois nesse caso estaremos encarando Deus apenas como lei universal e não como “Ser vivo” com o Qual podemos nos comunicar. Em outros termos, estaremos tendo compreensão parcial de Deus. Deus existe não só como lei universal, mas também como Ser que pode nos mostrar uma imagem personificada e falar conosco. Portanto, há casos em que oro a Deus rogando-Lhe algo. O Canto Evocativo de Deus, por exemplo, diz: “Ó Deus-Pai, que dais vida a todos os seres viventes, abençoai-me com o Vosso Espírito”. Certa pessoa argumentou que seria um erro pedir a Deus que nos abençoe, uma vez que Ele já está nos abençoando com Suas infinitas dádivas e, portanto, a expressão “abençoai-me” deveria ser substituída por “sou abençoado”. Mas o Canto Evocativo de Deus não está errado.  Deus Absoluto revela-Se sob a imagem de Cristo para quem chama por Cristo, e sob a imagem de “Divindade da Seicho-No-Ie” para quem O chama por este nome.

Se oramos a Deus, é para chamá-lO do mundo da Essência (mundo absoluto de Deus) para que Se manifeste no mundo fenomênico. Na verdade, Deus é onipresente, mas, quando O chamamos, estabelecemos uma comunicação afetiva com Ele, que então Se manifesta assumindo uma imagem. Comparemos Deus a um pai de família: o pai protege toda a sua família e toma todas as providências para que nada falte em sua casa, mesmo que ninguém o chame. Entretanto, quando um filho vem correndo chamando-o “papai”, e se lança em seus braços, estabelece-se um relacionamento afetivo. O mesmo acontece quando oramos a Deus. Concluindo, há dois tipos de oração: a oração para manifestar a Essência e a oração de comunicação afetiva com Deus.

Há quem pense que “o mundo da Essência é de amorfia absoluta, onde não existem relações do tipo Deus/homem, pai/filho, polo positivo/negativo, etc., e que onde a unidade se dualiza em polos positivo e negativo não é o mundo absoluto, mas sim mundo fenomênico”. Mas tal teoria difere da doutrina da Seicho-No-Ie. Se admitirmos que o mundo da Essência é anterior ao surgimento dos polos positivo e negativo, estaremos dividindo o mundo em anterior e posterior e estaremos limitando o absoluto mundo da Essência apenas ao mundo anterior. Nesse caso, o mundo da Essência deixaria de ser absoluto porque estaria em posição de confronto com o mundo fenomênico, que é relativo. Se o mundo da Essência fosse apenas uma existência anterior à bipolarização e não existisse após isso, não teria nada a ver com nossa vida atual. O mundo da Essência de que fala a Seicho-No-Ie não é um mundo do passado e anterior à bipolarização, ele é o mundo que existe agora e sempre; é um mundo absoluto, mas não confronta com o mundo relativo; ele contém dentro de si todas as existências relativas. Podemos representar graficamente o mundo do absoluto como um círculo contendo inúmeros pontos que correspondem às existências relativas.

Quando afirmo que somos um com Deus, algumas pessoas argumentam: “Então não precisamos orar a Deus, mesmo porque o fato de orar pressupõe que o homem seja uma existência separada de Deus”. Mas esse argumento não procede. Cada um dos inúmeros pontos contidos no círculo, mesmo sendo “um com o círculo” pode dirigir-se ao círculo todo. E “dirigir-se ao todo” é “comunicar-se afetivamente com Deus”. Cada um dos pontos dentro do círculo corresponde ao “eu individual” ou “filho de Deus”, e o círculo corresponde ao “Eu universal”, que é chamado de “Deus” ou “Pai”. O filho de Deus, como integrante do todo (Deus), é sustentado pela força do todo. Em outras palavras, o “eu individual” é um com o “Eu universal”. Entretanto, para o “eu individual” conscientizar esse fato, precisa reconhecê-lo por meio do pensamento e da palavra, e isso é a oração.


8 – A ILUMINAÇÃO PODE SER ALCANÇADA ATRAVÉS DO FENÔMENO?

Nonaka – Professor, o senhor diz que “o fenômeno não existe” e que “existe unicamente a Essência”, mas acredito que o fenômeno é manifestação ou extensão da Essência, e por isso acho que podemos conhecer a Essência através do fenômeno. Acho também um erro desprezar o fenômeno, considerando-o “nada” ou “inexistente”. Creio que a Essência não existe isolada do fenômeno; no fenômeno está a Essência. Se analisarmos bem, concluímos que não podemos conhecer diretamente a Essência. Para mim, é fato indiscutível que somente através do fenômeno podemos conhecer a Essência, isto é, alcançar a iluminação. Se o fenômeno fosse inexistente, como prega o senhor, não poderíamos alcançar a iluminação através dele, pois através de algo inexistente não se pode alcançar nada. Então, como o senhor explica o fato de alcançarmos a iluminação através do fenômeno?

Taniguchi – o senhor diz que se pode conhecer a Essência através do fenômeno, mas isso não é verdade. Não é através do fenômeno que se conhece a Essência. Esta somente pode ser conhecida pela Essência da própria pessoa. No budismo se diz que “somente Buda pode conhecer Buda”. Em termos cristãos, diríamos que “ninguém conhece o Pai, senão o Filho” (Mt. 11;27) ou “ninguém vai ao Pai senão pelo Cristo interior”. Por mais que analisemos o fenômeno, não conheceremos a Essência. Por mais que dissequemos o homem carnal, não encontraremos o homem-Essência. Somente alcançamos a iluminação quando a nossa Essência e a Essência do Universo se tocam diretamente, isto é, por meio da percepção direta, por meio do sentido da Essência. O pretenso conhecimento da Essência (iluminação) que não foi alcançado através dessa percepção direta é falso, por mais que pareça verdadeiro. Quem diz ter alcançado a iluminação através do fenômeno alcançou, quando muito, um estado de espírito semelhante à iluminação. Tal estado de espírito sofre abalo ou cai por terra quando a pessoa presencia um fenômeno negativo, pois não se alicerça no conhecimento da Essência pela percepção direta. Por exemplo, alguém que se convencer de que “o homem é filho de Deus” ao presenciar a cura de um enfermo que abandonou os remédios, perderá essa convicção se presenciar um fenômeno oposto, isto é, o agravamento da doença devido ao abandono dos remédios. Logo, a compreensão da Essência do “homem-filho-de-Deus” alcançada através do fenômeno não constitui a verdadeira iluminação, sendo mera imitação.

Alguns pregam que, observando as extraordinárias perfeição e precisão com que se desencadeiam os fenômenos da Natureza, pode-se compreender a existência de Deus. Para alguns físicos, por exemplo, a exatidão matemática com que os diversos tipo de átomo são formados por um número certo de elétrons não pode ser explicada como obra do acaso, devendo-se portanto admitir a atuação da sabedoria de Deus por detrás dessa precisão. Outros, observando o movimento ordenado e harmônico dos astros e corpos siderais, descobrem a existência de uma ordem cósmica e a chama de Deus. Mas essa visão, que considera o fenômeno como existência verdadeira e o criador desse fenômeno como Deus, não nos leva jamais à compreensão da “inexistência da matéria” pregada pela Seicho-No-Ie. Teorizar considerando “existente” aquilo que aparenta existir é uma tarefa fácil e isso leva inclusive à elaboração de teorias filosóficas ou teológicas, mas compreender a filosofia da Seicho-No-Ie, que declara inexistente aquilo que parece existente aos cinco sentidos, é uma façanha de mestre.

A Seicho-No-Ie diz, por exemplo, que “a doença não existe”, mas para os cinco sentidos ela existe. Se extrairmos uma porção do tecido afetado e a examinarmos com o auxílio do microscópio, constataremos a presença de micróbios patogênicos. Portanto, segundo a observação científica do fenômeno em que se baseiam inclusive algumas doutrinas panteístas, a doença existe. Mas a Seicho-No-Ie considera inexistente a doença, que cientificamente existe. Observando o fenômeno, é impossível chegar à conclusão de que “o fenômeno não existe”. O conhecimento da Verdade da “inexistência do fenômeno” não é algo que possa ser alcançado por uma pessoa como o senhor, crente de que “a iluminação é alcançada somente através do fenômeno”. Pelo contrário, a iluminação é alcançada somente quando se dispensa o fenômeno, isto é, quando a mente se liberta do fenômeno, da mesma forma como se pode ver a luz do Sol somente quando se dissipam as nuvens. Se alguém que viu por acaso o Sol através de uma nuvem tênue afirmasse, com base nessa experiência própria, que “somente através da nuvem pode-se ver o Sol”, seria ridículo. Se se dissipar a nuvem, mais claramente se verá o Sol. Da mesma forma, podemos ver a Essência, o filho de Deus perfeito, quando afastamos o fenômeno. Seria igualmente ridículo se alguém afirmasse que “para se ver o Sol é preciso primeiramente que haja uma nuvem e depois ela se dissipe”, só porque teve a experiência de ver o Sol através de uma brecha que se abriu entre as nuvens. Sem a nuvem, vê-se melhor o Sol, como já disse. Porém, se o céu estiver nublado, veremos o Sol quando se abrir uma brecha entre as nuvens. Da mesma forma, conhecemos a Essência ou alcançamos a iluminação quando subitamente se abre uma brecha na “nuvem” do fenômeno.

Existem ocasiões em que dizem “Conheci a Essência da Vida através do fenômeno”. Podemos citar, por exemplo: (1) caso em que um doente elimina sua dependência em relação a tdos os tipos de remédio e tratamento médico e, como consequência dessa libertação mental, ocorre a cura; e (2) caso em que alguém, ao prestar ao próximo uma ajuda física num trabalho extremamente árduo, experimenta uma satisfação extasiante apesar de estar sofrendo fisicamente, e compreende que ele e o outro são um na Essência, apesar de fisicamente separados um do outro.

No primeiro caso, tem-se a impressão de que se conhece a Essência da Vida através do fenômeno da cura, mas não é assim. A verdade é que, após tentar todos os recursos fenomênicos, tais como remédios e tratamentos médicos, a pessoa se decepciona com todos eles, pára de depender deles, e sua mente deixa de se prender inclusive à doença de seu corpo, e então abre-se uma brecha na “nuvem” do fenômeno e aparece a luz da Essência; o fenômeno, refletindo a imagem da Essência, passa  apresentar o corpo sadio. A iluminação mental vem primeiro, e o fenômeno aparece depois. Compreender este ponto é essencial. Se alguém ficar pensando que “alcançou a iluminação através do fenômeno da cura”, ficará abalado quando presenciar ou tiver um fenômeno chamado “corpo doente”. Essa é uma falsa iluminação, que desmorona com a mudança do fenômeno. Também no segundo caso, a impressão é de que a iluminação é alcançada através de um ato fenomênico chamado ajuda ao próximo, mas, na verdade, a Essência resplandece através da brecha do fenômeno, assim como o sol se mostra através de um brecha nas nuvens. Convém frisar que “brecha na nuvem” significa “um espaço onde não há nuvem”, o que é totalmente diferente de “através da nuvem”.

Os homens fenomênicos dotados de cinco sentidos (homens carnais) são seres isolados uns dos outros, de modo que o prazer de um nem sempre constitui prazer para outro; mesmo que um considere uma comida saborosa, um outro não sente o mesmo sabor. Entretanto, se o homem transcende os cinco sentidos e sente a alegria do próximo como alegria sua, a satisfação alheia como satisfação sua, e sente um com o outro, isso é prova inegável de que ele o sente, não através dos sentidos fenomênicos, que separam as pessoas, mas na ausência deles. Torno a afirmar que, embora se tenha a impressão de que se compreende a Essência (Jissô) através do fenômeno perceptível aos sentidos, na verdade a Essência (Jissô) se compreende por meio da negação da percepção sensorial.


(Do livro: A Verdade da Vida, vol. 18, pp. 122-134)

domingo, setembro 02, 2012

Ensinamentos Essenciais da Seicho-No-Ie - 1/2

Masaharu Taniguchi


1 –  O MUNDO ABSOLUTO

Uezawa – Mestre, gostaria de alcançar o estado mental em que não se teme absolutamente nada. Desejo ouvir seus conselhos para consegui-lo.

Taniguchi – Para isso, é preciso contemplar com os olhos mentais unicamente a perfeição do mundo absoluto de Deus, sem considerar como existência verdadeira o inconstante mundo fenomênico, pois este é falsa existência. Assim procedendo, sua mente não se prenderá às transformações deste mundo. Somente o mundo absoluto é existência verdadeira, e portanto não é preciso inquietar a mente, temendo as transformações fenomênicas.

Uezawa – O que é o mundo absoluto? Refere-se ao mundo espiritual?

Taniguchi – Não, ele não se refere ao mundo espiritual. O mundo absoluto pode ser chamado também de “mundo do Jisso”. Dizemos “absoluto” para caracterizar sua natureza eterna, transcendental e indestrutível em contraposição com o mundo fenomênico, que é relativo, inconstante e destrutível. Há quem confunda o mundo absoluto com o mundo espiritual, mas este faz parte do mundo fenomênico e é habitado por espíritos, inclusive por aqueles inferiores e sofredores. O mundo absoluto é aquele onde a perfeição criada por Deus perdura para sempre e se faz presente, digamos, no âmago, no interior ou por trás do relativo mundo fenomênico. No mundo absoluto, tudo é absolutamente belo, bom e perfeito, pois foi criado por Deus; nele, tudo é dotado de infinita sabedoria, infinito amor, infinita Vida e infinita força de Deus.

Uezawa – Gostaria que o senhor explicasse em que se fundamenta para afirmar isso, pois não consigo ver tal mundo absoluto.

Taniguchi – O mundo absoluto não é perceptível aos cinco sentidos, nem ao sexto sentido. Assim sendo, não posso me basear em coisas relativas e palpáveis para convencê-lo de que tudo que existe no mundo absoluto é belo e perfeito. A existência desse mundo só pode ser compreendida através da “iluminação”, que é uma espécie de percepção espiritual. Essa iluminação vem como um raio de luz e revela a existência do mundo absoluto. O mundo fenomênico pode ser comparado à escuridão, onde só se pode ter ideia aproximada dos objetos, tateando-os. Algumas pessoas, “tateando” o mundo fenomênico, conseguem ter uma ideia aproximada do mundo absoluto.  Por exemplo, existem sábios que, observando o cumprimento rigoroso de todas as leis da Natureza, a precisão com que os astros se movimentam no espaço, a germinação da Vida alojada em uma semente, etc., chegam à conclusão de que existe uma fonte absoluta. Entretanto, essa conclusão se baseia em fenômenos do mundo relativo, e portanto não chega a ser iluminação. O modo mais fácil de abrir a porta do mundo do absoluto e conhecê-lo consiste em contemplar a Realidade, praticando a Meditação Shinsokan (Shin = Deus/Espírito Absoluto; So = ver; Kan = Mente; portanto o significado dessa palavra é “Contemplar Deus com os Olhos da Mente”) e contemplando a Essência da existência e a Essência de sua própria Vida.

Uezawa – Para conhecer o mundo absoluto basta praticar a Meditação Shinsokan?

Taniguchi – Como já disse, a conclusão a que se chega tateando o mundo fenomênico na escuridão é resultado da inteligência cerebral, e não o conhecimento absoluto. Para conhecê-lo, precisamos contemplar corretamente, através da Meditação Shinsokan, a Essência da existência e a Essência de nossa própria Vida.

Uezawa – O que quer dizer “contemplar corretamente a Essência da existência e a Essência de nossa própria Vida”?

Taniguchi – Uma existência possui essência e aparência. A aparência é o fenômeno relativo,  o qual parece existir, mas não é existência absoluta, tanto assim que se transforma a todo instante. E como a preocupação com o que se transforma incessantemente não leva a nada, devemos deixar de olhar para o fenômeno inconstante e, da mesma forma como observamos os astros com a visão concentrada em um telescópio, devemos contemplar a Essência de nossa existência, concentrando a visão mental. Nisto consiste a Meditação Shinsokan. E quando assim visualizamos nossa Essência, que é perfeita, compreendemos que ela existe no interior de toda e qualquer existência.

Uezawa – Quando o senhor diz “toda e qualquer existência”, está se referindo a todas as pessoas, coisas e fatos?

Taniguchi – Isso mesmo. Em todas as pessoas, coisas e fatos há a Essência e aparência. Devemos, pois, deixar de ver a aparência imperfeita e passar a ver sempre a Essência perfeita de todas as pessoas, coisas e fatos.

Uezawa – “Essência perfeita” significa “natureza divina”?

Taniguchi – Exatamente. Tanto faz chamá-la de “natureza divina”, “natureza búdica” ou “natureza verdadeira”. Sakyamuni disse que todos os seres vivos, como também todas as coisas inanimadas e todos os fatos contêm em seu âmago a Essência, a perfeição. Esta não pode ser conhecida pelos cinco sentidos nem pelo sexto sentido; não há outro meio senão intuí-la com a nossa própria Essência.

Uezawa – O senhor disse “Intuir com a nossa própria Essência”. Gostaria que me explicasse isso de modo mais compreensível. 

TaniguchiSomente uma Essência pode reconhecer outra Essência. Os cinco sentidos podem reconhecer apenas coisas e fatos fenomênicos, pois somente as vibrações de mesma frequência podem se sintonizar. Se procurarmos a Essência entre as coisas perceptíveis aos sentidos, confundiremos a Essência com o que é perceptível, e não conseguiremos conhecer a Essência, da mesma forma que um rádio mal sintonizado capta duas transmissões ao mesmo tempo e não consegue transmitir nitidamente nenhuma delas. Por isso, precisamos “desligar” os cinco sentidos por algum tempo e sintonizar o nosso ser exclusiva e totalmente com o mundo da Essência. Assim, a “nossa Essência” entrará em contato direto com a “Essência da existência”, com a “Essência da Vida”, e então perceberemos que, na verdade, sempre estivemos preenchidos e ao mesmo tempo envoltos por ela. Isto é o verdadeiro despertar, a verdadeira iluminação.

Uezawa - Quando o senhor diz “Essência da existência” e “Essência da Vida”, está dizendo o mesmo com palavras diferente ou cada um dessas expressões encerram significados distintos?

Taniguchi – “Essência da existência” pode ser expressa também como “Essência de todos os seres animados e inanimados”. Significa a “natureza verdadeira da coisa em si”. O mundo que se apresenta aos nossos sentidos não é, como já expliquei, o mundo verdadeiro em si. Por exemplo, os fatos imperfeitos que sucedem no mundo fenomênico não são verdadeiros, isto é, eles não estão ocorrendo no mundo do absoluto de Deus; a nossa mente é que deforma os fatos perfeitos e os apresenta como imperfeitos. O mesmo se pode dizer em relação às dificuldades de sobrevivência: para o homem verdadeiro não existem dificuldades de sobrevivência, mas elas se manifestam pelo poder da mente. Entretanto, isso se refere ao mundo fenomênico, porque no mundo absoluto não há semelhante problema. Portanto, se fitarmos a “Essência da existência”, isto é, a “original perfeição interior”, e agirmos conforme a solicitação que brotar espontaneamente do interior, as dificuldades de sobrevivência desaparecerão. Assim, estaremos manifestando no mundo fenomênico a perfeição da Essência da existência, bem como a imagem fiel da nossa própria Essência, que é divina. 

Vejamos agora se as expressões “Essência da existência” e “Essência da Vida” têm o mesmo significado. Se considerarmos que “tudo que existe é Vida”, as duas expressões terão o mesmo sentido. Entretanto, a expressão “Essência da existência” é empregada na maioria das vezes para se referir à essência das coisas, dos fatos ou dos acontecimentos externos, enquanto que a expressão “Essência da Vida” é usada para falar da Essência do ser humano, e ainda significa “Vida de Deus que rege o Universo” quando temos a convicção de que “nossa Vida é Vida de Deus”.

Quando procuramos contemplar constantemente a perfeição interior de tudo que nos cerca, nossa mente ilumina tudo ao nosso redor; consequentemente, as imagens ou situações imperfeitas acabam desaparecendo. Como já foi dito, no mundo absoluto criado por Deus não há imperfeições nem infelicidades; se, no entanto, elas surgem no ambiente de uma pessoa, é porque sua mente faz com que a “perfeição da existência verdadeira” se projete distorcidamente no plano fenomênico. Portanto, quando purificamos nossa mente e contemplamos unicamente a perfeição do mundo do absoluto, melhoram o ambiente, a situação e inclusive o corpo carnal, pois nossa mente, infiltrada em todas as células do nosso corpo, torna-se sadia e acaba restaurando todas as células e todos os tecidos.

Uezawa – O senhor falou em “perfeição da existência verdadeira”. Posso interpretá-la como “perfeição de Deus” ou seria mais correto dizer “perfeição de nossa Vida no mundo da existência verdadeira”?

Taniguchi – Se partirmos da premissa de que “somente Deus é existência verdadeira”, podemos dizer que “perfeição da existência verdadeira” significa também “perfeição de Deus”. Mas quando se refere ao homem, ela significa “perfeição do homem verdadeiro”. E esse homem verdadeiro jamais deixou de ser saudável; mesmo que o corpo carnal esteja doente, o homem verdadeiro não está doente.

Uezawa – Esse “homem verdadeiro” – que não adoece, mesmo quando o corpo está enfermo – pode ser entendido como “homem-espírito” ou “homem-Vida”?

Taniguchi – A expressão “homem-espírito” pode suscitar ambiguidade, pois a palavra “espírito” pode significar tanto “espírito universal” como “espírito individual”, e este é classificado em “absoluto” e “fenomênico”. O "espírito individual absoluto” é o próprio filho de Deus, enquanto que a expressão “espírito individual fenomênico” pode abranger “espírito em ilusão” ou “espírito não evoluído”. Portanto, dizendo simplesmente “homem-espírito”, não fica claro se se trata de “espírito individual em ilusão” ou de “espírito individual absoluto”. O “homem verdadeiro” é o “espírito individual absoluto”, é a Vida individual exatamente como foi criada por Deus. Quando a mente do homem se tornar correta, limpa e sem distorção, sua Essência criada por Deus projetar-se-á do mundo absoluto para o mundo fenomênico, com fidelidade e perfeição; então o homem manifestará plenamente a perfeição de que é dotado originariamente.

O mundo fenomênico é, segundo a filosofia da Seicho-No-Ie, projeção do mundo absoluto através da mente, e pode ser denominado também “mundo da projeção”. Este mundo da projeção deve refletir cada vez mais fielmente o mundo absoluto até tornar-se tão perfeito quanto o original. A lente utilizada para “fotografar” o original e produzir a cópia chamada mundo fenomênico, é a nossa mente. Quando conscientizamos a “Essência da existência” e vivemos visualizando a “Essência de nossa própria Vida”, que é Deus, nossa lente mental se torna límpida e perfeita, e então o homem fenomênico torna-se a projeção perfeita do homem verdadeiro, que é divino. Assim, temos o homem carnal saudável num ambiente feliz.


2 – SOBRE O EU VERDADEIRO E O FALSO EU

Uezawa – Penso que a expressão “sou Vida de Deus” significa que o eu é a força vital. Se é assim, não poderia haver distinção entre o que se chama de “Eu verdadeiro” e o “falso eu”, pois este também seria uma das manifestações da força vital do “Eu verdadeiro”. Quando a força vital do Eu verdadeiro atua em relação à matéria, assume a forma de “eu fenomênico”. Portanto, não é possível existir um “falso eu” do “Eu verdadeiro”, mas sou da opinião de que ambos são diferentes formas de manifestação da mesma força vital, portanto uma coisa só e não seres distintos. Gostaria que o senhor me desse esclarecimento a esse respeito.

Taniguchi – A ideia de que o eu é a força vital surgiu, na Antiguidade, com a filosofia dos Vedas. Na era moderna, o grande filósofo Schopenhauer abraçou essa ideia. E Rolland e Henri Bergson. Sakyamuni contestou a teoria védica, pregando na Sutra do Lótus que tal “eu” não existe. Se considerarmos o “eu fenomênico (dos cinco sentidos)” como “Eu verdadeiro”, deveremos admitir a satisfação dos desejos carnais ou egoísticos como manifestação natural e correta do Eu verdadeiro; deverá ser considerado bom e correto o conflito entre os seres vivos, isto é, a exploração dos fracos pelos fortes. Schopenhauer considerou a “Vontade de viver” como princípio fundamental da manifestação da Natureza, mas sua visão não lhe permitiu transcender o conflito existencial, e ele acabou criando a filosofia mais pessimista de todos os tempos: “Viver é sofrer”. Isso mostra que, enquanto considerarmos uma força fenomênica como Essência do nosso Eu verdadeiro, não conseguiremos alcançar a verdadeira salvação. Esta é conseguida quando compreendemos que o “eu fenomênico” é o “falso eu”, portanto inexistente, e volvemos a mente para o Eu verdadeiro, que é puro, perfeito e repleto de luz. Esta é a iluminação ou o despertar que a Seicho-No-Ie proporciona. 

Se alguém pensa que o “eu fenomênico” não é falso nem inexistente, e o considera como uma das manifestações do Eu verdadeiro, ele está em ilusão. Segundo a Seicho-No-Ie, o “falso eu” e o “ego” que procura defender tão somente seus interesses, mesmo prejudicando o próximo. Se o ego não fosse o “falso eu”, e sim manifestação do Eu verdadeiro, deveríamos louvar a manifestação desenfreada do egoísmo como manifestação do Eu verdadeiro e deveríamos também incentivar atitudes egoísticas, a corrupção, os assaltos, as guerras, etc. A Seicho-No-Ie não adota essa concepção. O Eu verdadeiro, o Eu que existe verdadeiramente, não contém egoísmo. Os conflitos egoísticos, as guerras, os assaltos, a corrupção, etc., não são existências verdadeiras, mas a “humanidade acredita ilusoriamente que tais males sejam existências verdadeiras”, como diz a Sutra do Lótus. Esta é a visão da Verdade da Seicho-No-Ie. Peço, portanto, que não se equivoque.


3 – A INTERFERÊNCIA DE PENSAMENTOS BANAIS NA PRÁTICA DA MEDITAÇÃO SHINSOKAN NÃO AFETA A ESSÊNCIA

Kakizaki – Durante a prática da Meditação Shinsokan para penetrar no mundo da Essência (no mundo perfeito e absoluto de Deus), surgem-me pensamento banais que atrapalham minha concentração. Que devo fazer?

Taniguchi – os pensamentos banais não prejudicam absolutamente a Meditação Shinsokan. O pensamento do Eu Verdadeiro dirigido à Essência (Deus) é um pensamento consistente, mas os pensamentos banais não têm consistência; são ilusórios. Portanto, por mais que eles surjam, não podem anular o pensamento dirigido à Essência divina. O senhor pode prosseguir a mentalização, sem ligar para os pensamentos banais que surgirem; não precisa eliminá-los primeiro para depois mentalizar a Essência divina. Mentalizando a Essência, os pensamentos banais irão desaparecendo naturalmente. O principal não é eliminar os pensamentos banais, mas mentalizar a Essência divina.

Kawahara – Mestre, o senhor diz que o principal é mentalizar a Essência, mas acho que a meditação não terá efeito se não for eliminada a interferência dos pensamentos banais.

Taniguchi – O senhor pensa assim porque tem a ilusão de que os pensamentos banais possuem força concreta. Se mentalizar a Essência sem se importar com os pensamentos banais que surgirem, estes desaparecerão automaticamente, assim como a treva desaparece automaticamente quando se acende a luz, sem que façamos esforço algum para eliminá-la, e haverá somente o efeito da mentalização da Essência, da perfeição interior.

Alguém indagou ao grande mestre budista Hônen: “procuro concentrar-me nas orações, mas minha mente se distrai, pensando em coisas mundanais. Será que minhas orações não me conduzirão ao paraíso?”. O mestre respondeu: “Pensar em coisas mundanais durante a oração não te prejudicará, se orares sinceramente. Mesmo que um filho contrarie um pouco a vontade do pai, receberá sua herança, a não ser que ele próprio renuncie a esse direito”.

Mentalizar Deus não é firmar com Ele um contrato que poderá ser desfeito a qualquer momento. Deus é nosso Pai. Logo, se contemplarmos Deus, a herança dEle (o paraíso) se manifestará natural e automaticamente, por mais que surjam pensamentos banais.


4 – A MEDITAÇÃO SHINSOKAN E A ALIMENTAÇÃO

Takimoto – Pratico a Meditação Shinsokan todas as manhãs durante uma hora ao me levantar. Desde que passei a praticá-la, meu apetite aumentou tanto que o desjejum, que antes se restringia a duas tigelinhas de sopa que eu tomava a muito custo, hoje chega a cinco ou seis tigelinhas de arroz, que esvazio com muito gosto. Isso me deixa satisfeito e passo o dia todo de bom humor. Há quem diga que a prática da Meditação Shinsokan espiritualiza o corpo carnal e vai reduzindo a necessidade de alimentação material, até que esta se torne dispensável. Entretanto, comigo ocorre o contrário. Afinal, a Meditação Shinsokan aumenta ou diminui a capacidade de se alimentar?

Taniguchi – Como a prática da Meditação Shinsokan consiste na contemplação da perfeição interior, ela determina ao organismo o que é necessário para que a pessoa exteriorize essa perfeição. Quanto à alimentação, tal dúvida corresponde à pergunta: “É mais certo a água subir em forma de vapor ou cair em forma de chuva?”. É correto a água evaporar e subir ao céu, assim como é correto ela precipitar em forma de chuva. Por isso, tanto é correto aumentar o apetite como diminuir. E quanto à quantidade de alimentos, a dúvida do senhor corresponde à pergunta: “É melhor que chova bastante, ou que chova pouco?”. Na época de plantio é bom que chova abundantemente, enquanto que muita chuva no período de colheita pode prejudicar a safra. Prender-se a uma forma não condiz com o modo de viver da Seicho-no-Ie. A abundância é benéfica, a escassez também. Tudo é bom quando ocorre de modo adequado às circunstância, à hora e à pessoa. Todo ato é bom quando se procede desprendida e adequadamente como as nuvens que flutuam no céu ou as águas que fluem. Nada de mal acontece, desde que se contemple a perfeição da Essência. Portanto, sr. Takimoto, não se prenda inutilmente ao aumento ou à diminuição de apetite; este aumenta quando é preciso alimentar mais o organismo e diminui quando é preciso reduzir a alimentação.


5 – OS DESEJOS MUNDANOS E A ILUMINAÇÃO

Toyoda – Certa pessoa disse: “As pessoas consideradas mestres não diferem das pessoas comuns, pois eles também têm os mesmos defeitos e desejos mundanos. Se os mestres conseguem proezas admiráveis, é porque não se prendem a seus defeitos e desejos. Os que conseguem seriamente sem se prender a seus defeitos são verdadeiros mestres”. Mas, no meu entender, no momento em que o homem se tornar um mestre de verdade, não terá defeitos nem desejos mundanos; se alcançar a iluminação, emitirá luz de seu interior, que o iluminará e a todos os lugares aonde se dirigir, e consequentemente desaparecerão todos os defeitos. Estou certo pensando assim?

Taniguchi – Certa vez, o grande mestre Dharma dirigiu-se a três de seus discípulos e perguntou-lhes qual era a relação entre os desejos mundanos e a iluminação. Um dos discípulos respondeu: “Eliminando-se os desejos, alcança-se a iluminação”. Eliminar os desejos corresponde a “transcender os desejos e defeitos” a que o senhor se referiu. Conta-se que o mestre Dharma elogiou esse discípulo, dizendo: “Você conquistou meus músculos!”. O outro discípulo respondeu: “Os desejos conduzem à iluminação”. Esse discípulo quis dizer que não há iluminação separada dos desejos mundanos, que não existe paraíso separado do mundo terreno, que a dor é o processo pelo qual a Vida sobrepuja e faz desaparecer a doença. O mestre Dharma então elogiou o segundo discípulo, dizendo: “Você conquistou meus ossos!”. O terceiro discípulo respondeu: “Os desejos mundanos não existem verdadeiramente! Há unicamente a iluminação!”. O mestre Dharma louvou-o, dizendo: “Você conquistou a minha medula!”. 

Também segundo a Seicho-No-Ie, os desejos mundanais não existem verdadeiramente, existindo unicamente a iluminação; o fenômeno não existe verdadeiramente, existindo unicamente a Essência; o corpo carnal não existe verdadeiramente, existindo unicamente a Vida. Entretanto, se aparecem desejos mundanos, é porque por trás existe a Essência, da mesma forma como as sombras aparecem porque por detrás existe luz. Não se apreende a Essência fugindo dos desejos mundanos; vive-se a Essência, estando no mundano. Se a luz da Essência for projetada sem distorção, o mundano, que é sombra projetada por essa luz, tornar-se-á puro e perfeito, e os desejos serão purificados. Portanto, quando se alcança esse estado, pode-se manifestar a perfeição da Essência sem eliminar os desejos, pois estes se tornam sadios, possibilitando realizar quaisquer empreendimentos com grande entusiasmo.

(Do livro: A Verdade da Vida, vol. 18, pp. 111-122)


quinta-feira, agosto 30, 2012

Vocês despertarão, porque nenhum outro desfecho está disponível



Total consciência não é algum estado mítico inatingível, é o seu estado natural: completamente vivaz e totalmente desperto na Realidade, em que vocês sempre existiram desde o momento de sua criação.

Aquilo que vocês experimentam na Terra, na ilusão, é que é IRREAL.

Seu Pai os criou a partir do Amor - na alegria! - e neste estado de alegria vocês existem eternamente. NÃO HÁ OUTRO ESTADO!

E sim, suas experiências na Terra, na ilusão, parecem mesmo convincentemente reais, e com frequência perigosamente inseguras. Mas, como a razão deixa bem claro para vocês, se vocês acompanharem-na com sua inferência lógica, esse estado aparente só pode ser irreal.

Deus, seu Pai Divino, é infinito Amor incondicional indiscriminado. Lá no fundo, no centro de seu ser, vocês sabem disso.

Nada pode destruir ou erradicar este amor, porque ele é a verdade ali colocada por seu Pai para estar permanentemente com vocês, como parte de seu estado eterno e divino de existência. É verdadeiro, real e eterno, e não existe mais nada, porque mais nada é necessário. Se fosse necessária mais alguma coisa, então Deus teria falhado! E essa possibilidade não existe e nem poderia existir. Ela é irreal.

O filho de Deus, o que cada um de vocês o é, participa da Unidade todo-poderosa de Deus, porque Ele conferiu Sua Unidade a vocês no momento de sua criação.

Este poder é seu para ser utilizado - é por isso que ele lhes foi conferido - e, tal como seu Pai, vocês dão continuidade à eterna e contínua criação da verdade infinita e da beleza, que não tem e nunca poderá ter um estado além ou externo a ela - porque não existe outra condição.

Apesar disso, vocês escolheram imaginarem-se como separados de seu Pai, para praticar um jogo em que vocês se escondem d'Ele, e que é a ilusão que vocês experimentam como sendo tão aparentemente real e dolorosa.

A ilusão realmente é um pesadelo, do qual vocês despertarão (pesadelos são obscurecimentos efêmeros e fantasmagóricos que se dissolvem no nada com a luz do dia) porque ele é irreal e insatisfatório, e porque nenhum outro desfecho está disponível ou é possível.

Só isso já é uma razão para se alegrar! Para se alegrar no conhecimento de que vocês são permanente e inseparavelmente Um com seu Pai Divino.

Para vocês a única incerteza é quando vocês irão parar com esse jogo e despertar. Mas mesmo essa incerteza também é irreal, já que vocês verdadeiramente nunca foram dormir - porque vocês são Um com seu Pai, que está eterna, estática e alegremente desperto na brilhante luz do dia eterno, onde se dá toda a existência.

Focalizem-se no amor dentro de vocês - essa chama inextinguível, a sua conexão divina - e compartilhem-no indiscriminadamente, tal como é a sua intenção divina e a intenção de seu Pai.

Permitam que a sensível ternura do amor cresça e se expanda dentro de vocês, para dissolver e dispersar a ilusão apavorante, enquanto vocês despertam do medo e da incerteza no esplendor da Realidade: a luz sempre presente de sua eterna existência e o êxtase feliz da unidade com Deus - o Ser Supremo, a quem nem palavras, nem pensamentos, nem imagens, nem sonhos jamais poderiam descrever, pois, sendo real, Ele está além de todas as noções que vocês poderiam conceber na ilusão.

E é por isso que vocês deveriam se alegrar, porque vocês são Um com Ele nesse eterno estado glorioso.


segunda-feira, agosto 27, 2012

"A mente sem pensamentos" 2/2



Pergunta: Osho, quando Krishna está dizendo à Arjuna: "Você, eu e todas essas pessoas estivemos aqui antes e estaremos aqui depois", isso apenas mostra a conclusão, como você diz, de que o conteúdo sem forma - o ser - é mais importante do que a forma do corpo. Mas não existe também a outra possibilidade: de que o conteúdo sem forma não pode ter sua manifestação correta sem a forma? Qual o propósito da argila em si se ela não assumir as formas de vasos e tigelas?




OSHO: Existe diferença entre existência e manifestação. Aquilo que não se manifesta também pode existir. A árvore está latente na semente: a árvore ainda não se manifestou, mas ainda assim é. É no sentido de que pode se tornar. É no sentido de estar latente, de ser um potencial.

Uma experiência pioneira está sendo realizada na Oxford University. É um experimento científico e eu acredito que seja um dos experimentos mais importantes que estão sendo realizados.

O experimento está sendo realizado com a ajuda de câmeras extremamente sensíveis que conseguem fotografar a árvore que está escondida na semente e que se manifestará por completo dentro de vinte anos. É incrível! Aconteceu acidentalmente enquanto eles estavam tirando a foto de um broto. Muitas experiências científicas acontecem por acaso - porque os cientistas são muito convencionais, muito conformistas. Geralmente um cientista nunca é revolucionário.

Às vezes os revolucionários se tornam cientistas - esse é outro assunto -, mas o contrário não é muito comum de acontecer. Um cientista se prende ao que já é conhecido na ciência, e não permite que nada novo adentre esse mundo.

A história toda da ciência mostra quanta oposição cada nova descoberta recebia de outros cientistas - mas de mais ninguém. Portanto, as novas descobertas geralmente acontecem sem intenção. O cientista não está procurando por elas, mas elas acontecem acidentalmente.

No laboratório os cientistas estavam estudando flores com a ajuda de câmeras muito sensíveis. Estavam tentando fotografar um broto, mas em vez de um broto, uma flor apareceu no filme. Havia um botão diante das câmeras, mas o que as lentes registraram foi uma flor! Na época acreditaram que tinha sido um erro da câmera: deve ter sido exposta por acidente, alguma coisa tinha dado errado. Portanto, eles resolveram esperar o botão se abrir. E quando ele se abriu, os cientistas ficaram surpresos. O problema não era das câmeras; o problema estava na compreensão dos cientistas. Quando a flor nasceu, ela era idêntica à flor que havia sido fotografada anteriormente.

Depois eles deram prosseguimento à pesquisa. Os cientistas chegaram à conclusão de que o que vai acontecer no futuro já está acontecendo em algum mundo sutil de vibração agora mesmo - caso contrário não poderia ter se tornado verdade.

Uma criança nasce após viver escondida por nove meses dentro do ventre da mãe. Ninguém sabe o que está acontecendo por dentro, mas quando uma criança aparece, depois de nove meses, não é de repente. Ela passou por uma jornada de nove meses dentro do útero. Da mesma maneira, quando um botão se abre em uma flor, antes disso, as ondas eletromagnéticas que o cercavam se modificaram para se transformarem em uma flor - no ventre. Isso pode ser fotografado. Isso quer dizer que mais cedo ou mais tarde seremos capazes de fotografar a velhice de uma criança. Acredito que isso será possível.

Dessa maneira, a astrologia pode ganhar uma base científica sólida. Até agora, a astrologia não pôde se tornar científica; agora ela será capaz de se tornar, do ponto de vista de que o que vai acontecer no futuro já está acontecendo agora, de certa forma. Podemos ou não vê-lo, mas esse é outro assunto.

O problema é algo assim: eu estou sentado em baixo de uma árvore e você está sentado nos galhos da árvore. Você diz que consegue ver um carro na estrada e eu não o vejo. Eu digo que não há carro algum, a estrada está vazia. Até onde eu vejo, a estrada está vazia.

Para mim, o carro está no futuro. Você está sentado no topo da árvore, para você está no presente. Você diz: "Tem um carro", e eu digo: "Não há carro nenhum neste momento. Pode ser que tenha algum no futuro". Mas, para você, está no presente, você o vê.

Depois de um tempo, eu também começo a ver o carro. Do futuro, ele veio até o presente, para mim. Então ele passa pela estrada e, mais uma vez, eu não consigo vê-lo. Ele veio do passado para mim. Mas do topo da árvore, você diz que ainda o vê. Para você, ainda está no presente.

Para mim, o carro estava no futuro, e então ele veio para o presente e depois foi para o passado. Para você, ele tem se movido em um presente contínuo. Você está sentado em um nível mais alto que eu, e isso é tudo.

Krishna está enxergando de uma altura, de um topo. Ele está falando a partir desse topo quando diz que todos nós já existimos antes, que existimos agora e que também existiremos no futuro. Na verdade, de onde Krishna está olhando, apenas o presente existe; apenas um presente eterno existe na altura onde ele está.

De onde Arjuna está olhando ele tem de dizer: "Não sei se existimos antes ou não. Não sei". A visão de Arjuna vai apenas até o nascimento - na verdade, nem até aí.

Se pensar bem, não vai conseguir se lembrar de nada antes de seus quatro anos de idade. Antes disso, tudo é contado. As pessoas dizem que você existia. Sua memória retrocede apenas até os quatro anos de vida. Para uma pessoa inteligente, essa memória pode retroceder até os três anos de idade. Uma pessoa ainda mais inteligente consegue voltar aos dois anos de idade. Mas como você pode ter começado a existir se não existiu durante esses dois anos?

Mesmo que consiga se lembrar de sua vida no nascimento - e as outras pessoas podem lhe ajudar a fazer isso -, você existia no ventre da sua mãe antes de seu nascimento e não se lembra disso. Se você hipnotizar uma pessoa, ela é capaz de voltar a incidentes como o tombo que a sua mãe levou, quando estava grávida de três meses. A criança no ventre também se fere quando a mãe sofre algum acidente. Portanto, as lembranças do útero também são possíveis. E ninguém consegue se lembrar além disso, da vida passada. Mas, para nós, tudo isso estará no passado. Precisamos acordar todas essas memórias.

Para Krishna, tudo está em um eterno agora; tudo é apenas agora. Daqui em diante, de onde ele pode ver tudo, Krishna diz a Arjuna: "Essa pessoas já existiam antes e existirão novamente, também. Eu existi antes e você também".

Pode haver o medo de que a frase de Krishna não seja compreendida, de que Arjuna vai pensar que ele existiu antes como uma pessoa chamada Arjuna. Krishna não está dizendo isso. A pessoa chamada Arjuna nunca existiu como Arjuna antes; não poderia ter existido. A personalidade chamada Arjuna é apenas um enfeite. A consciência sem forma escondida por trás desse enfeite existiu antes. A pessoa chamada Arjuna também nunca mais vai existir: é apenas uma roupagem e vai se desintegrar com a morte. Mas o que essa roupa estava cobrindo continuará existindo no futuro.

Por mais que Arjuna tente entender o que Krishna está dizendo, ele vai entender de modo errado. Não vai entender e vai pensar: "Eu existi antes como Arjuna e você existiu antes como Krishna. Todas essas pessoas diante de nós também existiram antes". Ele vai repetir a mesma pergunta: "Então essas mesmas formas também já existiram antes?".

Não, essas formas nunca existiram antes. Mas uma forma é uma manifestação. A existência - a existência sem forma, sem formato - não é uma manifestação. Mas a existência também pode não ser manifestada. O que é visível não é tudo que existe. O invisível também existe. O que é visível a nós, mesmo? Uma fração muito pequena é visível.

Se perguntarmos ao cientista hoje, ele começa a admitir que o que se manifesta é muito pequeno. Por exemplo, não existia rádio alguns séculoa atrás. Agora existe. Sentados aqui podemos ligar o rádio e escutar uma voz de Londres. Isso quer dizer que ao apertar o botão do rádio você ligou uma voz em Londres? Não, a voz de Londres estava passando por você o tempo todo, mas você não tinha como escutá-la sem um aparelho de rádio para receber/captar as ondas sonoras. Mas, mesmo quando não conseguia escutar a voz, ela existia como uma forma não manifestada - só que seus ouvidos não a detectavam.

Existem milhares de outros sons passando pela atmosfera. De acordo com os cientistas, somos capazes de ouvir até certo ponto. Só conseguimos ouvir até esse ponto. Não podemos escutar nem mais nem menos. Existe um limite para nossa capacidade de ouvir - e muito se passa nos limites acima dele, assim como abaixo.

O que não conseguimos ouvir ainda existe e o que não conseguimos ver ainda existe. Mas apenas esse tanto da existência do qual temos percepção é que se manifesta, está disponível para nós.

Por exemplo, a luz não existe para o cego - pois a luz não consegue se manifestar para ele. O cego não tem como ver a luz. Mas, se pudermos imaginar uma espécie de seres existindo em algum outro planeta distante, que tenha mais do que cinco sentidos, perceberemos que existem coisas no universo sobre as quais não conhecemos. Nossos cinco sentidos não esgotam a percepção de tudo o que existe no universo.

De acordo com os cientistas, a vida existe em pelo menos cinquenta mil planetas. Eles conhecem cerca de quatro bilhões de planetas e subplanetas, e quase cinquenta mil deles têm a probabilidade de ter vida. Talvez exista neles uma forma de vida muito diferente de vida. Pode ser que ali existam seres que tenham sete sentidos, ou quinze sentidos, ou até setenta sentidos. Eles podem saber de coisas com as quais nunca sonhamos - porque só é possível sonhar com coisas que conhecemos. Não podemos sonhar com nada que não conheçamos. Não podemos sequer imaginá-las. Nosso Kalidasa e Chavabhuti e Rabindranath Tagore, nossos maiores poetas, não conseguem sequer imaginar na poesia o que está além de nossos sentidos - mas existem coisas. Não podemos negar sua existência só porque não as percebemos.

A manifestação é um fenômeno muito superficial. A existência é um fenômeno muito interno. Na verdade, mais correto seria dizer que a existência não é um fenômeno, é uma qualidade de ser, de existir, enquanto a manifestação é um acontecimento.

Por exemplo, eu estou sentado aqui, e então canto uma canção. Como antes eu não estava cantando, de qual lugar dentro de mim essa canção veio? Certamente saiu de algum lugar, mas poderia um médico dissecar o meu corpo e capturar essa canção? Algum cientista, psicólogo ou neurocirurgião seria capaz de pegar minha canção operando meu cérebro? Não, ninguém poderia encontrar a canção dentro de mim. Mas se a canção não estivesse dentro de mim, ela não teria se manifestado de forma alguma.

Antes a canção não tinha se manifestado. Estava em algum lugar, como uma semente; estava escondida. Talvez ela tenha existido como espécie de energia ou ondas sutis, sem se manifestar, mas ela certamente existia em algum lugar. Então se manifestou. Não passou a existir por causa dessa manifestação; estava ali dentro antes disso - e isso não quer dizer que ela tenha se manifestado totalmente, porque no processo minhas próprias limitações também criaram obstáculos.

Até o fim de sua vida Rabindranath Tagore disse que não tinha sido capaz de cantar a canção que queria. Mas como ele sabia que queria cantar algo que não conseguia? Certamente havia uma sensação por dentro, uma percepção de que algo precisava ser cantado. É mais ou menos como a sensação que você tem quando o nome de uma pessoa está na ponta de sua língua, mas você não consegue dizê-lo. Parece loucura dizer que esse nome está na ponta de sua língua, mas que não consegue dizê-lo. Se está na ponta de sua língua, do que mais precisa? Diga-o! Mas não, você simplesmente não consegue externá-lo.

O que isso significa? Significa que lá no fundo existe a sensação de que você sabe, mas ele não se manifesta, a mente consciente não o captura. Você se lembra vagamente dele. E se você morrer, for dissecado, e tentarmos procurar dentro de você o que estava na ponta de sua língua, não vamos encontrar. A ponta da língua está lá, mas o nome que estava prestes a ser dito, não. Ele continuará sem se manifestar, escondido nos recessos de sua existência, desaparecido.

O que Krishna está dizendo é que você não é apenas aquilo que se manifestou em você, você também é aquilo que não se manifestou. E o não manifestado é vasto, e aquilo que se manifestou é apenas um fragmento. Esses fragmentos se manifestaram muitas vezes e vão se manifestar muitas outras vezes. Mas o que não se manifestou, o que não termina, que não começa e é infinito, é inesgotável. Apesar de todas essas manifestações, ele continua inesgotável.

Certamente, se não se manifestar, não seremos capazes de reconhecer por meio de nossos sentidos - porque os sentidos só podem perceber o que se manifesta. Mas não somos apenas sentidos, e se conseguirmos aprender a arte de adentrar os sentidos, aquilo que não se manifesta também será notado, também será reconhecido, visto e ouvido, também será tocado em um lugar mais profundo do coração. Na Bíblia, Jesus diz que os olhos não viram nem os ouvidos ouviram o que foi preparado por Deus ao homem.

A manifestação não é uma compulsão por existência. É sua peça. A existência não tem de assumir uma forma - assumir uma forma é sua peça. É por isso que Krishna chama o mundo, a vida, nada além de uma encenação, uma peça.

E uma peça quer dizer que, quando alguém aparece em cena como Rama, isso é apenas uma forma; e quando aparecem alguém como Ravana, isso também é uma manifestação em uma forma. Eles estão brigando um com o outro com arco e flechas em suas mãos, o que é só uma forma. Um pouco mais tarde, atrás do palco, eles vão conversar um com o outro sobre Sita, por quem estão lutando. A luta vai terminar e eles vão tomar uma xícara de chá juntos na Sala Verde!

Krishna está falando sobre a Sala Verde e Arjuna está falando sobre o palco. Mas o que acontece no palco é apenas uma forma, uma figura: é apenas encenação. A existência pode existir sem uma forma, mas a forma não pode existir sem a existência. Como eu disse antes, não pode haver ondas sem o oceano, mas o oceano pode existir sem as ondas.

Quando Rama e Ravana saem do palco e começam a conversar e tomar chá, para onde irão as formas, os personagens que se manifestaram como Rama e Ravana? Terão desaparecido. Eles eram apenas ondas e formas, que desaparecem se não houver uma força de vida por trás delas. A forma muda, a figura muda, a encenação muda, mas o ator não muda. O que está por trás de tudo isso não muda. É sobre isso que Krishna está falando.


"Assim como esse ser passa pela infância, juventude e velhice neste corpo, ele também passa pela mudança de corpos. E os serenos e tranquilos não sofrem por isso."

Krishna está dizendo isso: assim como tudo está mudando em seu corpo - existe a infância, a juventude, a velhice, o nascimento e a morte -, assim como nada é estático neste corpo, tudo está em fluxo, tudo está mudando. As crianças estão se tornando jovens, os jovens estão se tornando idosos, os idosos estão desaparecendo com a morte.

Isso é muito interessante. Não é sentido na linguagem, porque não existe dinamismo nas palavras. As palavras são coisas estáticas. E como as palavras são estáticas, os idiomas fazem muita injustiça à vida. Nada é estático na vida. Por isso, quando impomos palavras estáticas à vida, que é dinâmica, estamos cometendo um grande erro.

Dizemos: "Essa é uma criança". É uma maneira errada de dizer isso. Uma criança nunca está no estado de "ser". Uma criança está sempre no estado de se "tornar". Na verdade, deveríamos dizer que uma criança está se "tornando". Nós dizemos: "Ele é velho", mas isso está errado. Ninguém é velho; todas as pessoas estão ficando velhas.

Tudo é um tornar. Não existe nada que "seja". Tudo está se tornando constantemente. Dizemos: "Isso é um rio". Que maneira errada de dizer as coisas! Um rio "é"? Um rio quer dizer aquilo que está em movimento, que está correndo.

Todas as palavras são estáticas, apesar de nada ser estático na vida. Essa é a nossa grande injustiça em relação à vida. E usando essas palavras dia e noite, esquecemos a realidade. Quando dizemos que alguém "é um jovem", o que isso quer dizer na vida, não no dicionário, mas na vida? Na vida, a juventude nada mais é que um movimento em direção à velhice. Você não vai encontrar isso escrito no dicionário. E o movimento não é algo que aconteceu em algum lugar do passado. Está acontecendo agora; continua a acontecer.

Krishna está dizendo a Arjuna: "As coisas não são estáticas, mesmo no que você chama de 'esta vida'. As formas que você vê nesta vida foram crianças no passado, e depois passaram para a juventude, e agora estão se tornando velhas".

Se um foto for tirada da primeira célula quando a concepção acontece no ventre, e mais tarde for mostrada à pessoa com a informação: "Este é você há cinquenta anos", a pessoa simplesmente não irá acreditar. Vai dizer: "Você deve estar brincando! Como eu posso ser isso?". Você aceitaria que era aquela coisinha pequena, aquele ponto minúsculo? Certamente que não. Mas essa é a sua primeira fotografia. Você deveria colocá-la em um álbum. E se não for isso, então não pode ser o que a foto mostra que você é hoje - porque na vida essa imagem será mudada em breve.

Supondo que coloquemos a fotografia de alguém tirada no dia de sua morte lado a lado à foto do dia em que essa pessoa nasceu - você acha que seremos capazes de ver qualquer semelhança entre as duas fotos? Não conseguiremos encontrar nenhuma conexão entre as duas. Não seremos capazes de relacioná-las. Mas nunca prestamos atenção para esse fluxo aparentemente desconexo da vida.

Krishna está tentando estimular esse pensamento em Arjuna. Ele está dizendo que as formas em si que Arjuna teme serão mortas, destruídas. Que estão desaparecendo a cada momento. O homem está sempre morrendo durante toda a sua vida. Sua vida é um longo processo de morte. O que começa com seu nascimento culmina com sua morte. O processo de nascer é o primeiro passo e o de morrer é o último. E não é que a morte apareça de repente, um dia. Desde o primeiro dia do nascimento de alguém, a morte se aproxima do fim dessa pessoa todos os dias - e é por isso que consegue alcançá-la.

Tudo está mudando, mas mesmo assim não entendemos a razão: "Como é que no meio dessas mudanças, eu ainda esteja carregando um sentimento persistente de ser a mesma pessoa que eu era quando criança, jovem, e agora um idoso?". Apesar de todas as mudanças, onde e como essa identidade, essa continuidade, essa lembrança permanece? E para quem e por quê?

Deve haver uma realidade em mudança por dentro, caso contrário, quem vai se lembrar?

Consigo lembrar de algo que aconteceu quando eu tinha dez anos de idade. Aquele que estava presente em mim quando eu tnha dez anos de idade deve estar presente agora també, até certo ponto, caso contrário, como vou me lembrar de uma coisa que aconteceu quando tinha dez anos? Esse "eu" que eu sou hoje, certamente não existia naquela época.

Então, quem é esse que se lembra? De onde vem esse fio de memória? deve haver um centro, um eixo, dentro do qual todas as mudanças ocorrem. Os caminhos mudaram, a charrete passou por vários caminhos, mas deve haver um eixo que tenha visto a roda em todos os seus estados. A roda em si não consegue lembrar - ela muda o tempo todo. É preciso existir um elemento imutável aqui.

Por isso Krishna está dizendo que existe a infância, a juventude e a velhice, mas em meio a todas essas mudanças existe uma realidade estável, imutável, e é a lembrança dessa realidade para a qual precisamos acordar.

Então não seremos capazes de dizer: "Eu era uma criança", ou "Eu era um jovem", ou "Agora sou velho". Não. Então nossa compreensão da realidade será muito diferente. Nós diremos: "eu estava ali na infância", "estava ali em minha juventude", "estava ali em minha velhice". "Um dia eu nasci e um dia eu morri". E o "eu" deixará de ser relacionado com todos esses estados da mesma maneira que um viajante passa por muitas estações. Na estação de Ahmedabad, ele não diz: "Eu sou Ahmedabad". Depois de ele chegar à Bombay, ele não diz que se tornou Bombay. Ele diz que está na estação Bombay. Se ele fosse se identificar com Bombay, então ele nunca teria sido capaz de se identificar com Ahmedabad, e vice-versa.

Se você é uma criança, como pode se tornar um jovem? E se é um jovem, como pode se tornar um idoso? Certamente deve existir alguém dentro de você que não é uma criança. É por isso que a infância pode vir e partir, a juventude pode vir e partir, e a velhice virá e morrerá. A roda do nascimento e da morte gira, mas existe uma realidade no meio de todo esse movimento que está vendo o ir e o vir e tudo, como as diferentes estações passando no caminho.

Podemos ver que o que pensamos ser é na verdade apenas um de nossos estados transitórios, por que passam nosso ser. Mas não somos eles. Krishna propõe que lembremos disso.


sábado, agosto 25, 2012

"A mente sem pensamentos" 1/2

Osho


Pergunta: As ações são motivadas pela idéia de um objetivo e queremos certos resultados. Por isso, se a mente é livre do ego ou do pensamento o tempo todo, como as ações podem ocorrer? Como a mente sem pensamento pode manifestar qualquer coisa? Se todos se tornam inativos ao se tornarem constantemente livre de pensamentos, como a sociedade pode seguir adiante? Ela não vai perecer?



Resposta:

Uma pessoa não se torna inativa quando ela se livra do ego. Tampouco se torna inativa quando se livra do pensamento. Ao se tornar livre do ego, apenas a idéia de "quem faz" desaparece. A ação é entregue ao todo e flui com total momentum. Um rio está fluindo sem nenhum ego. O vento sopra sem nenhum ego. As flores nascem sem nenhum ego. E da mesma maneira, tudo acontece de uma vida espontânea, sem ego - a diferença é que nenhuma sensação de quem faz o que existe dentro dela.

Por isso, quando eu disse hoje de manhã que o ego de Arjuna se tornou seu sofrimento e tortura constantes, não quer dizer que quando ele esquecer seu ego suas ações terminarão. E quando eu disse que o pensamento cria preocupações ao homem e se sua mente se tornar livre de pensamentos - se ela for além da preocupação - não quer dizer que uma mente sem pensamento não vai mais falar ou agir; ou que ela deixará de se expressar.

Não, não é assim. A mente sem pensamento se torna oca como uma flauta. As músicas passarão por ela, mas não serão as suas próprias músicas, mas sim as do divino. Os pensamentos surgirão dela, mas não os pensamentos dela (a mente), e sim do todo.

Uma mente assim se entregará ao todo. Ela só irá dizer o que o todo a fizer dizer. Só fará o que o todo lhe fizer. A essência interna do "eu" se desintegrará - e com sua desintegração, não haverá ansiedade, angústia.

"Não é que existiu um tempo em que eu não era, ou você não era, ou todos esses reis não eram, nem haverá um tempo quando todos nós não existiremos. Isso é absoluto, máximo."

Arjuna parece estar procupado que todas essas pessoas diante dele sejam mortas na Guerra, que deixem de existir. Krishna diz a ele que aquilo que existe sempre existirá, e aquilo que não existe nunca existe.

É bom que entendamos isso.

A religião sempre disse isso, mas a ciência também começou a falar nos mesmos termos. E é melhor começarmos com a ciência, porque a religão fala dos topos que a maioria das pessoas ainda não atingiu; ao passo que a ciência fala sobre a base, sobre o chão, onde todas as coisas ficam.

Uma das descobertas mais profundas da ciência é de que a existência não pode ser posta na não-existência. Aquilo que existe não pode ser aniquilado. E aquilo que não existe também não pode ser criado. Toda nossa informação científica e know-how, todos os laboratórios do mundo e todos os cientistas do mundo juntos não podem aniquilar nem mesmo um único grão de areia. Tudo o que podem fazer é transformá-lo, dar-lhe novas formas.

O que chamamos de criação do universo, o big bang, também não passa de uma manifestação de uma nova forma - não a criação de uma nova existência, apenas uma nova forma. E o que chamamos de big crunch não é a aniquilação da existência, apenas da forma, do formato. As formas mudam constantemente, mas o que está escondido dentro da forma é imutável.

É como a roda de uma carriola, que se move e gira, mas o ponto em seu centro se mantém estático. A roda gira ao redor de si. Aqueles que só olharem para a roda dirão que tudo é uma mudança, um fluxo. Aqueles que olharem para o ponto central dirão que no centro de todo o movimento existe algo que não se move, que permanece estático.

E o mais interessante é que se separarmos a roda do eixo, ela não é capaz de se mover! O movimento da roda depende daquilo que não se move. As formas mudam, mas a mudança depende aquilo que não tem forma, que não é mudado.

Quando Arjuna diz que todas essas pessoas morrerão, ele está falando sobre a forma. Ele está dizendo que todas essas pessoas serão aniquiladas; ele não sabe nada além da forma. E Krishna está dizendo que não é que essas pessoas que você está vendo hoje não existiam antes - elas existiam antes também: eu estava aqui antes e você estava aqui antes. E também não é que os que estão aqui hoje não estarão mais amanhã. Não, nós estaremos aqui no futuro também - sempre, para sempre. A existência é do não-começo ao não-fim.

Por isso, é preciso entender que Krishna e Arjuna estão falando sobre duas coisas diferentes.

Arjuna está falando sobre a forma, e Krishna está falando sobre a não-manifestação da forma. Arjuna está falando sobre o visível e Krishna está falando sobre o invisível. Arjuna fala daquilo que está ao alcance dos olhos, dos ouvidos, das mãos; Krishna está falando sobre aquilo que está fora do alcance dos olhos, dos ouvidos e das mãos. Krishna está falando sobre algo que nos será uma bênção se algum dia a notarmos.

O visível nem sempre está lá. "Sempre" é uma palavra grande. O visível não existia sequer há um minuto. Você está olhando para o meu rosto; não é o mesmo rosto que estava aqui um momento atrás; e não será o mesmo rosto daqui a um momento. Dentro de um momento muitas coisas morreram em meu corpo e muitas coisas apareceram.

Buda costumava dizer para as pessoas que iam vê-lo: "Quando sair daqui, não será a mesma pessoa que era quando chegou. Em uma hora muitas coisas terão acontecido".

Em setenta anos um homem muda completamente pelo menos dez vezes. A cada sete anos todos os átomos e moléculas do corpo mudam. A cada momento algo morre no corpo e é expelido; a cada momento algo novo está nascendo, está surgindo.

Você coloca o novo para dentro por meio de sua alimentação. O corpo todo muda completamente em sete anos. Mas continuamos dizendo: "sou a mesma pessoa". Para nós, a semelhança das formas é a permanência da forma.

Você deve assistir a filmes de vez em quando. Se o filme passa muito lentamente, você ficará surpreso. Para o braço ser erguido e alcançar a cabeça, milhares de fotos têm de ser tiradas. Então a sequência de todas essas fotos é feita com muita rapidez. Por causa disso, você vê o braço sendo erguido como um ato normal. Se assistí-lo em câmera lenta, verá em quantas posições a mão tem de estar para ser filmada.

Da mesma maneira, quando olhamos para uma pessoa, não estamos vendo a mesma pessoa o tempo todo. Durante o tempo que passamos olhando para ela, nossos olhos vêem milhares de rosto da pessoa. Quando a imagem é processada e uma figura se forma em nossas mentes, coisas no rosto já mudaram.

E, da mesma maneira, existem incontáveis estrelas no céu. As estrelas que vemos não estão exatamente onde nós a vemos. Elas já estiveram ali. Demora quatro anos para que a luz da estrela mais próxima chegue à Terra. E a luz não viaja devagar. A velocidade da luz é de cento e oitenta e seis mil milhas por segundo. Demora quatro anos para que a estrela mais próxima mostre sua luz, mesmo que essa luz viage nessa tremenda velocidade. Quando os raios de luz nos alcançam, vemos as estrelas onde elas estavam há quatro anos. É possível que nesse tempo elas tenham deixado de existir, podem ter se desintegrado. As estrelas que vemos à noite não estão onde as vemos. A noite é muito enganosa, as estrelas são muito enganosas - nenhuma das estrelas está realmente onde você a as vê.

O que vemos não é exatamente o que existe. E nessa curta fração de tempo, tudo está mudando. Quando olho para seu rosto, os raios de luz começam a viajar de seu rosto e alcançam meus olhos, mas isso também tem um intervalo, mesmo que mínimo. Nesse meio-tempo você não é mais o mesmo.

Heráclito disse: "Não é possível pisar duas vezes no mesmo rio". Nem mesmo isso é totalmente verdadeiro. É difícil pisar no mesmo rio uma vez sequer, pisar duas vezes é impossível - pois quando o seu pé toca a superfície do rio, o rio continua correndo.

As formas correm como um rio, mas para nós elas parecem estar estáticas. Parece idêntico porque é parecido. Parece ser igual ao que vimos ontem, por isso acreditamos ser idêntico. Mas a forma muda a todo momento.

Arjuna ficou muito preocupado com o mundo das formas; nós também nos preocupamos! Ele pergunta: "O que vai acontecer se essas pessoas morrerem?"- sobre aqueles que estão morrendo a cada momento. Ele está preocupado com aqueles que já estão morrendo, que não podem ser salvos; ele está preocupado com coisas impossíveis. E a pessoa que se preocupa com coisas impossíveis nunca vai se livrar da preocupação.

Existe um mundo de formas - de aparências, de sons, de raios e ondas -, é um fluxo constante. Tudo muda continuamente. No momento, estamos todos sentados aqui - todos nós estamos mudando, pulsando, balançando. Tudo está mudando. Uma pessoa que quiser salvar o "mundo de mudanças" da mudança quer o impossível. O homem enlouquece ao bater contra os muros dos desejos impossíveis.

Lembro de um incidente na vida de Sócrates. Quando Sócrates estava morrendo, Creto, um de seus amigos, perguntou: "você está prestes a morrer, mas não está preocupado".

Sócrates respondeu: "Não estou preocupado, porque se vou deixar de existir após a minha morte, não tenho razão para me preocupar - e se eu não sobreviver, quem vai ficar para se preocupar? Eu não estarei mais aqui para saber se eu morri. Não sofrerei por isso. Se eu deixar de existir, não haverá ninguém para saber que eu morri. Por isso não há motivos para preocupação. E, se eu não morrer mesmo depois da morte, o que há para se preocupar? Só existem duas possibilidades: ou eu vou deixar de existir, ou não. Não existe outra possibilidade. Por isso eu não estou preocupado".

Krishna está dizendo a Arjuna que 'aquilo que irá morrer', irá morrer; não sobreviverá de qualquer forma por causa de seus esforços. E que aquilo que não vai morrer não vai ser morto mesmo que ele tente matá-lo - portanto ele deve parar de se preocupar desnecessariamente.

Existe essa expansão do mundo, da forma para a falta de forma. Se a analisarmos do ponto de vista da forma, então não faz sentido se preocupar, porque aquilo já está morrendo... morrendo... morrendo a cada momento. É como uma linha traçada na água - ela começa a desaparecer antes de ser terminada. E se olharmos para ela do ponto de vista da não-manifestação da forma, então aquilo que não vai morrer nunca vai morrer, e nunca morreu antes.

Mas não estamos acostumados com a falta de forma, nem Arjuna. É importante entender que a preocupação de Arjuna mostra mais uma coisa. Arjuna está dizendo que eles vão morrer. Isso também quer dizer que Arjuna considera a si mesmo apenas uma forma - caso contrário não estaria dizendo isso. O que dizemos sobre os outros na verdade está sendo dito sobre nós mesmos. Quando vejo alguém morrendo e penso: "Meu Deus! Essa pessoa está morta! Essa pessoa morreu para sempre!" - eu deveria saber que eu mesmo não sei nada à respeito de minha própria realidade interna, que não morre, que não perece, que não desaparce.

Quando Arjuna expressa preocupação com a morte deles, está demonstrando preocupação com sua própria morte. Ele não conhece a realidade dentro dele que é eterna. Da mesma forma, quando Krishna diz que eles não vão morrer, ele está dizendo algo à respeito de si mesmo. Ele conhece a vida eterna.

Nosso conhecimento externo nada mais é do que uma extensão de nosso conhecimento interno. Nosso conhecimento a respeito do mundo nada mais é do que nosso conhecimento a respeito de nós mesmos. O que sabemos de nós mesmos é o que mostramos ao todo como conhecimento dele. E o que não sabemos sobre nós mesmos nunca poderá ser sabido no contexto do outro. O autoconhecimento é o único conhecimento. Todo o outro conhecimento tem como base uma ignorância profunda, e o conhecimento baseado na ignorância é completamente inseguro.

Mas Arjuna parece estar falando sobre grande conhecimento, sobre grande religiosidade - mas ele não sabe que existe algo sem forma e além de qualquer forma, de que há algo intrínseco à existência, que é eterno. Ele não sabe disso. E a pessoa que não sabe da vida eterna não sabe de nada. A pessoa que só conhece a morte é tomada por uma grande escuridão e ignorância.

Então este é o critério: se você conhecer apenas a morte, está enraizado na ignorância; se conheceu aquilo que não morre, está enraizado no conhecimento. Se tiver medo da morte - não importa se for da sua própria morte ou da morte de outras pessoas -, isso só prova uma coisa: que você não conhece a vida eterna. E nada existe além da vida eterna.

A morte é apenas um nome para as ondas da superfície. Só existe o Oceano, mas ele é invisível. Visíveis são as ondas. Você já viu o oceano? Se já esteve na praia, vai afirmar sem pestanejar que já viu o mar. Mas o que você viu são simples ondas. Você não viu o mar. As ondas não são o oceano. As ondas estão no oceano, mas não são o oceano - porque o oceano pode existir sem as ondas, mas as ondas não podem existir sem o oceano. As ondas são o que é visível, estão espalhadas pela superfície do oceano. Nossos olhos vêem apenas elas; nossos ouvidos ouvem apenas seu som.

Mas o interessante é que você não consegue realmente ver uma onda - porque a onda é aquilo que está ondulando, mudando. Antes de vê-la, ela já mudou. A onda constantemente vem e vai. Ela simultaneamente se transforma e não se transforma. Ela sobre e desce, é e não é. Passa por esses dois lados simultaneamente - é essa onda que vemos.

A pessoa que considera as ondas do oceano vai ficar ansiosa: "O que vai acontecer? As ondas estão desaparecendo, o que vai acontecer depois disso?" Mas quem conhece o oceano vai dizer: "Não importa se as ondas desaparecerem. A água, o oceano que está aparecendo nas ondas estava lá antes delas e continuará depois que elas forem embora".

Uma pessoa perguntou a Jesus: "O que você sabe a respeito de Abraão?". Abraão foi um profeta antigo, muito antes da época de Jesus.

Jesus respondeu: "Antes de Abraão existir, eu existia".

O homem não pôde acreditar em Jesus. Jesus tinha trinta anos de idade, e Abraão tinha morrido milhares de anos antes. Como Jesus podia dizer que ele existira antes de Abraão?

Jesus está falando, na verdade, do mar, e não da onda que nasceu do ventre de Maria. Não está falando sobre a onda chamada Jesus. Está falando do oceano que existiu antes da onda e que existirá depois da onda.

Similarmente, quando Krishna diz: "Nós existimos antes. Você, eu e todas essas pessoas no campo de batalha já estivemos aqui antes e existiremos depois também", ele está falando sobre o oceano. E Arjuna está falando sobre a onda. Geralmente uma conversa entre uma pessoa falando do oceano e a outra da onda se torna muito difícil - porque uma fala do leste e a outra fala do oeste.

É por isso que o diálogo do Gitá é tão comprido, extenso. Arjuna vai trazer à tona assuntos sobre as ondas, enquanto Krishna vai falar sobre o oceano. Eles não cruzam seus caminhos em nenhum ponto. Se conseguissem fazer isso, o problema seria resolvido imediatamente. Por isso, eles vão continuar por muito tempo. Arjuna vai repetir a si mesmo e voltará para as ondas. Ele só vê ondas. E o que uma pessoa que só vê ondas pode fazer? Afinal, são as ondas que estão na superfície.

Na verdade, uma pessoa que depende apenas do olhar só consegue ver ondas. Se alguém quiser ver o mar, é um pouco difícil vê-lo com os olhos abertos. Tem de ser com os olhos fechados. A verdade é que, se quiser ver o oceano, não tem de olhar com os olhos abertos, tem de mergulhar no oceano. E quando está mergulhando, seus olhos naturalmente têm de estar fechados. Você tem de penetrar abaixo das ondas, dentro do oceano. Mas aquele que não penetrou nas ondas de sua própria mente não consegue penetrar nas ondas que surgem nas mentes dos outros. A tristeza de Arjuna se transforma apenas em uma coisa: ignorância.


quinta-feira, agosto 23, 2012

A iluminação de Ramana Maharshi



Sri Ramana Maharshi nasceu em 30 de dezembro de 1879 em Tiruchuzhi, uma cidade na província Tamil Nadu, ao sul da Índia. Seus pais lhe deram o nome de Venkataraman. Nada havia de anormal no rapaz. Possuía um corpo forte, se destacando no futebol, artes marciais, natação, entre outros esportes. O garoto não manifestava nenhum interesse em espiritualidade, meditação ou religião. Entretanto, aos seus 16 anos de idade, em julho de 1896, ocorreu uma experiência que transformou a sua vida para sempre. Ele mesmo a descreve:

"Cerca de seis semanas antes de eu deixar Madurai de vez, aconteceu a grande mudança em minha vida. Eu estava sozinho numa sala do primeiro andar da casa de meu tio. Raramente ficava doente, e naquele dia minha saúde era perfeita, mas um repentino temor da morte apossou-se de mim. Não tentei encontrar qualquer explicação ou razão para aquele temor. Sentia apenas que ia morrer, e comecei a pensar no que devia fazer. Não me ocorreu consultar um médico, ou os mais velhos, ou os amigos. Percebia que teria de enfrentar o problema sozinho, resolvendo-o de pronto, ali mesmo."

Eu me acomodei no chão, em puro prazer, ouvindo-o. Minha melancolia se dissolveu por completo assim que comecei a me concentrar nele. Reconhecia sua voz, seu jeito delicado de se mover, sua fala pausada e seu refinado humor. Aquilo tudo parecia sagrado, pelo simples fato de estarmos ali naquele momento.

"O choque produzido pelo temor da morte fez com que minha mente se voltasse para dentro, e eu disse, sem chegar na verdade a articular as palavras: 'A morte chegou. Que significa ela? O que estará morrendo? Este corpo morre'. E imediatamente dramatizei a ocorrência da morte. Deitei-me com os membros distendidos como se a rigidez da morte já tivesse tomado conta de mim e imitei um cadáver. A fim de emprestar maior realismo à investigação, suspendi a respiração e mantive os lábios bem apertados, de modo que nenhum som escapasse." Eu o ouvia fascinado, sem respirar, com medo de perder alguma de suas palavras.

"Pois bem", pensei, "este corpo está morto. Será cremado e reduzido a cinzas. Mas com a morte deste corpo estarei morto? Serei eu este corpo? Ele está silencioso e inerte, mas sinto toda a força de minha personalidade e até mesmo ouço a voz do Eu dentro de mim, totalmente apartada do corpo, de modo que sou Espírito transcendendo ao corpo. O corpo morre, mas o Espírito que o transcende é imune à morte. Isso quer dizer que sou um Espírito Imortal."

Não se tratava de pensamentos imprecisos, eles coriscavam dentro de mim tão vividamente como a verdade que eu percebia diretamente, prescindindo quase de um processo de raciocínio. Eu era uma coisa muito real, a única coisa real no estado em que me encontrava, e toda atividade consciente ligada ao meu corpo estava centralizada nesse Eu. Daquele momento em diante, o Eu passou a atrair toda a minha atenção, com poderoso fascínio. O temor da morte desaparecera para sempre.

Dali por diante, a absorção no Eu prosseguiu sem dissolução de continuidade. Outros pensamentos poderiam ir e vir, como as diferentes notas de uma melodia, mas o Eu continuava como a nota sruti, fundamental, subjacente, que se mistura com todas as demais notas. Ainda que o corpo estivesse ocupado em falar, ler ou qualquer outra coisa, eu continuava sempre centralizado no Eu. Anteriormente àquela crise eu não tinha uma percepção clara do meu Eu, e não me sentia atraído conscientemente por Ele. Não sentia qualquer interesse perceptível ou direto por Ele, muito menos qualquer inclinação para manter-me Nele em caráter permanente."

Neste momento sua individualidade dissolveu-se no Eu Real, e aquele jovem indiano que nada tinha de promissor transforma-se em um dos maiores Sábios que a Índia já conheceu. Na terminologia espiritual, ele havia “Realizado o Eu”, ou “Alcançado a Iluminação/Libertação”; o que normalmente surge apenas como resultado de anos de intensa prática espiritual (sadhana), para o jovem Sábio surgiu espontaneamente, sem nenhuma prática ou desejo prévios.

E ele sempre dizia: “Tão logo se devociona ao Ser Supremo, a divina atividade automaticamente começa a agir”. Bhagavan Sri Ramana jamais fez demonstrações de poderes, nem sequer tinha interesse por eles. Sempre ensinou que tais poderes não são nada além de fúteis e nocivas distrações no caminho direto da autoconscientização. Ensinou que não há mistérios para serem desvendados, não há enigmas para serem decifrados, não há graus para serem atingidos. Tudo é simples e natural. Somos o que somos. Simplesmente somos o Ser.

Bhagavan Sri Ramana ensina que devemos importar-nos em apenas procurar nossa real identidade, a divina, pois somos divinos em essência. O homem ignora-se como o Ser Supremo e confunde essa sua natureza divina com o ego profano, com a mente pensante. Quando alguém diz “eu”, que é que se quer dizer? Quem é realmente esse “eu”? De onde ele surge? Se o homem deseja conhecer a Verdade Absoluta, ele primeiramente deverá adquirir o conhecimento básico de si mesmo, isto é, desse “eu” a que ele se refere constantemente.

Sri Ramana Maharshi abriu para a humanidade o eterno caminho da Verdade Suprema de forma nova, conveniente às condições de nossa época. Esse caminho direto tem por objetivo essencial ajudar a todos aqueles que querem vencer a poderosa ilusão do ego profano e da mente pensante, de maneira a permanecer no estado natural do Divino Ser. Ao codificar o caminho da autoconscientização, Sri Ramana criou, efetivamente, a solução para todos os que buscam o autoconhecimento. Até então, o acesso à sabedoria dos Mestres era exclusivo dos reclusos do silêncio. Ramana mostrou um caminho possível de ser trilhado livremente, conforme as condições da vida moderna.


(Ramana Maharshi ao lado de Paramahansa Yogananda)