"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

quinta-feira, julho 19, 2012

O despertar da Percepção Consciencial

- Núcleo -


"Senhor, 
Do irreal conduz-nos ao Real, 
das trevas conduz-nos à Luz 
e da morte, à imortalidade.

Paz para o nosso corpo, 
paz para a nossa mente e 
paz para o nosso espírito."


Este texto se propõe a expor a teoria que fundamenta o desenvolvimento da "percepção consciencial" que conduz a um mergulho em nosso Ser Real, produzindo o chamado "despertar consciencial". Nela estão expostos conceitos espirituais sobre a divindade amplamente difundidos e aceitos tanto no Ocidente quanto no Oriente com as reflexões que eles nos suscitam.


O DESPERTAR CONSCIENCIAL

As Sagradas Escrituras definem Deus como o Ser onipotente e onipresente. Onipresente significa que está presente em tudo, inclusive em nós. Mas, quem tem percebido a Presença Divina em si mesmo? E por que a maioria das pessoas não percebe essa Presença?

Afirmar que Deus é onipresente é algo aceitável, mas, vivenciar essa realidade é uma experiência que transforma plenamente nossa visão da vida e do que somos!

Sendo Deus onipresente, qual nossa identidade? Quem ou o quê somos?

Os livros espirituais da Índia definem Deus como sendo: Sat (Ser/Verdade), Chit (Consciência/Alegria) e Ananda (Bem-Aventurança).

Estes livros revelam também que Deus é onipresente e que o homem é a divindade que assumiu um corpo para desempenhar um papel num cenário criado pela própria divindade. E ao fazê-lo se esqueceu de Sua real identidade.

Esse esquecimento acontece porque o homem se torna vítima da ilusão criada pelos sentidos da mente do personagem que assumiu e que o faz acreditar ser esta realidade apreendida, pela mente, a única existente. Essa percepção mental da realidade faz com que a representação divina se torne realística e por vezes dramática. Contudo, se nossa real identidade é a divindade, podemos readquirir a consciência do que somos. Essa "recordação" se torna possível com o conhecimento da verdade sobre nossa real identidade. É preciso uma percepção da realidade pela consciência do Ser e não pela mente do personagem.

O processo do despertar se inicia com a distinção entre mente e consciência. A mente é apenas um instrumento do Ser real, enquanto a consciência integra e compõe sua natureza divina.

Portanto, há duas formas de percepção da realidade: Uma é realizada pela mente do personagem: a percepção mental. A outra é feita pela consciência do Ser. Por esta razão foi denominada "percepção consciencial".

A percepção mental da realidade é a condição padrão do ser humano, enquanto que a percepção consciencial é fruto de um despertar sobre nossa identidade real, sobre a realidade da essência e natureza divinas do ser humano.

A mente está ligada à matéria, aos cinco sentidos de percepção, pelos quais são captadas informações do mundo exterior. O processamento das informações resulta na concepção mental que fazemos da realidade. Nossa visão de mundo é assim a interpretação de dados captados pelos cinco sentidos e das inferências realizadas no âmbito mental.

Vivemos o universo do personagem que criamos e o identificamos como sendo nós mesmos! Essa identificação com o personagem que criamos é uma deturpada concepção sobre nossa real identidade, o maior equívoco e fator limitador da maioria dos seres humanos.

Para podemos vivenciar a natureza divina do Ser, que é nossa essência, precisamos nos abstrair da percepção mental da realidade. Isso ocorre no instante em que nos dissociamos do personagem que estamos vivendo e recriando cotidianamente. O foco de nossa consciência em seu estado normal está centrado na percepção da realidade pela mente do personagem. Isso nos causa um sentido de identificação como sendo a mente e o corpo nosso "eu" ou identidade real.

Contudo, mente e corpo são ambos instrumentos do que realmente somos. Quando nos interiorizamos, nossa consciência nos revela um nível de percepção supra-mental pelo qual percebemos quem somos e quem estamos sendo. Em níveis profundos de percepção consciencial podemos sentir que somos o Ser real, eterno, a consciência, que observa o que estamos sendo, um personagem, evanescente, a mente.

A mente se dirige ao exterior, aparente. Julga e reage ao que interpreta como sendo real. A inquietação é sua característica. A consciência apreende o interior, o real. Apenas observa e permanece equânime. A serenidade é sua natureza.

Estes são passos essenciais para o despertar da percepção consciencial. Eles fazem a consciência dissociar-se ou desfocalizar-se da mente, causando uma percepção distinta entre aquilo que está sendo percebido pela mente e a percepção da consciência, que observa a mente.

O despertar da consciência, que tem natureza espiritual, nos faculta a transcender a realidade aparente, vislumbrada pela mente, nos proporcionando uma percepção consciencial da realidade e o acesso à dimensões espirituais, não físicas, através de portais existentes entre elas e nos capacita vivenciá-las concretamente, tanto quanto vivenciamos a dimensão física.

Enfim, um ser desperto age usando o corpo e a mente, mas mantém a consciência de que está desempenhando um papel no teatro cósmico divino. É sempre um observador de seu próprio personagem em ação. Percebe o corpo, o fluxo dos pensamentos na mente, mas não se identifica com eles. Assim pode eliminar maus pensamentos da mente e más emoções. Desta forma torna-se senhor de si mesmo e passa a agir com consciência do que faz, colocando-se em sintonia com sua natureza divina. Sua vida passa então a refletir plenamente e em todos os sentidos esse nível de percepção da realidade.

Jesus disse: "Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse eu vo-lo teria dito." - João 14,2.

Essas são as bases para um efetivo e real despertar consciencial.



segunda-feira, julho 16, 2012

A natureza universal da Verdade e da ilusão


 JOEL S. GOLDSMITH


As escrituras hebraicas profetizavam que o Cristo seria crucificado. Como alguém poderia predizer a crucifixão de um homem dois mil anos antes daquilo acontecer? Não se conhece uma boa razão que explique tal evento; porém, esta profecia é encontrada nas escrituras hebraicas. Qual é o sentido dela? O primeiro, e o mais importante ponto a ser compreendido, é que esta profecia não se refere a um homem em particular, mas sim à crucifixão do Cristo, à crucifixão da Verdade.

Os hebreus sabiam, de amarga experiência, que a Verdade seria sempre crucificada quando aparecesse ao pensamento mortal. A Verdade nunca foi nem nunca será aceita pelo pensamento mortal. Onde quer que apareça, fará surgir a rejeição eclesiástica: “Isto não é ortodoxo; não está de acordo com o nosso ensinamento, não pode ser verdadeiro”. E a própria análise eclesiástica irá bradar: “Crucifique-o”; desse modo, seguramente poderia ser profetizado, com cem anos ou com dois mil anos de antecedência, que o Cristo seria crucificado, pois, onde quer que toque o pensamento mortal, o Cristo é vítima de crucificação.

O Cristo é a manifestação de Deus; portanto, o Cristo não é um homem. Para os seguidores do Hinduísmo, Krishna ocupa uma posição similar à de Jesus no mundo cristão. Há, inclusive, os que consideram Krishna apenas como homem, embora tivesse existido um homem chamado Krishna que deu ao mundo um ensinamento espiritual da mesma forma com que um homem chamado Jesus deu ao mundo o ensinamento do Cristo. O ensinamento de Krishna foi apresentado ao muito muitos mil anos antes do advento de Jesus, e, no entanto, somente Jesus veio sendo identificado como o Cristo, enquanto Krishna foi considerado como um ser físico. Tanto Krishna quanto Cristo tem o mesmo significado: a presença de Deus feito manifesto – o Verbo feito carne.

O pensamento mortal irá sempre crucificar a Verdade; assim, quando surge um indivíduo com esta visão da Verdade, com esta visão do Cristo, e que com Ele se identifica, pode-se saber que o caminho de sua crucifixão estará sendo preparado. Provavelmente ninguém captou a visão da Unidade tão claramente como Jesus; e, como ele se identificava com ela, a igreja da época achou que, com sua crucificação, se livraria da confusa Verdade que ele ensinava.

Eu não considero a crucificação ou as perseguições aos santos e místicos como acontecimentos necessários ao mundo. O ensinamento comumente aceito hoje, pelas igrejas ortodoxas, é o de que Jesus teve de morrer para que fôssemos salvos; entretanto, isso não passa de adaptação do antigo ensinamento dos hebreus, que considerava o sacrifício de animais inocentes como algo exigido por Deus. Tal ensinamento faz de Deus um tirano. Dessa forma, não sinto hoje que a crucificação ou perseguição façam parte de um plano de salvação do mundo; antes, pelo contrário, penso que aquilo ocorreu para as pessoas que equivocadamente se identificaram como um salvador pessoal, mais do que com o fato de ser, o ensinamento da Verdade, uma manifestação de que Deus, e de ser, cada mestre, somente uma transparência pela qual o como a qual ela estaria aparecendo.

Jesus veio ensinando: “Eu e o Pai somos um”… "Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma”….”o Pai, que está em mim, é quem faz as obras”…. "Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus”. Os Mestres que personalizarem a Verdade, sentindo-se os responsáveis pela mensagem, sempre sofrerão o peso das perseguições do mundo. O erro deles está na própria colocação como sendo profetas com uma mensagem pessoal. Jesus foi bem claro nesse ponto, ao declarar: “A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou”. Porém, apesar desta declaração tão clara do próprio Mestre, muitos não a interpretaram corretamente.


A UNIVERSALIDADE DA VERDADE

A Verdade é. A Verdade de toda mensagem sempre existiu e continuará existindo até a eternidade. Quando os Mestres captam um vislumbre espiritual dela, o que podem fazer é se tornarem uma transparência para que esta Verdade apareça no mundo. De fato, o mundo irá sempre querer se livrar dessa Verdade – querer crucificá-la – mas enquanto os mestres não identificarem a Verdade de suas mensagens como algo pessoal, enquanto não se colocarem como salvadores pessoais, não serão crucificados. Se a mensagem for verdadeira, o pensamento mortal desejará destruí-la, mas não destruirá a mensagem; tentará destruir a pessoa que tenha cometido o erro de acreditar que a Verdade tenha, de algum modo, alguma relação humanamente pessoal com ele.

Sejamos gratos por isso: a Verdade é santa e sagrada; a Verdade é onipresente e em todos os período da história do mundo surgirão aqueles que repetirão esta mensagem novamente. Ela nunca tem sua origem numa pessoa. A mensagem que Jesus ensinou é mais antiga que o próprio tempo... Nem é nova nem é original, sendo uma repetição daquilo que tem vindo através das épocas. De tempos em tempos ela chega a nós novamente. Jesus apresentou esta mesma Verdade universal numa linguagem compreensível e aceitável para o mundo ocidental, e é este o valor de seu ensinamento para nós.

Um indivíduo iluminado consegue transmitir a Verdade aos seus discípulos ou alunos imediatos, e por algum tempo ela começa a crescer e ser divulgada; mas, gradativamente, ela começa a perder sua força e significado original. Torna-se uma forma, um credo ou um sistema, pois alguém a organiza e isto selará o seu fim. A Verdade não pode sobreviver numa organização, pois, em todas elas existe uma cabeça, e no momento em que houver uma cabeça, deverá haver alguém à mão direita e alguém à mão esquerda. Daí começará a competição e o surgimento da confusão – dissensão e contenda. O indivíduo que captou a visão espiritual, aquele que redescobriu a Verdade universal, dá a ela a mais clara linguagem disponível no momento. Mas a interpretação daqueles que vêm depois é baseada nas suas diversas bagagens educacionais e regionais, com cada um entendendo a Verdade de uma forma inteiramente diferente. O resultado disso será que, após duas ou três gerações, ninguém mais concordará com o que era ou é o ensinamento.


A ILUMINAÇÃO DE GAUTAMA

Para alguns de vocês, a estória de Buda é uma antiga e bem conhecida estória. Mas, mesmo sendo já conhecida, ela parecerá sempre nova devido à sua beleza. Gautama era filho de um rei grandioso e rico e, conforme os registros sagrados, nasceu de uma virgem. Na noite de seu nascimento, uma estrela apareceu no firmamento, acompanhada de misteriosos sinais no céu.

O pai, reconhecendo o caráter e a natureza espiritual de seu filho, bem como a responsabilidade que logo cairia sobre seus ombros, cuidou para que Gautama fosse preparado para a posição que viria a ocupar. Assim, quando o jovem cresceu, possuía bastante instrução, sabedoria, e um corpo físico perfeitamente desenvolvido. Durante todo esse tempo, ele havia sido cuidadosamente resguardado do mundo exterior. Nunca tinha ido além do domínio extensivo do estado do pai, e, portanto, nada sabia de pecado, doença, pobreza e morte.

Já crescido, foi preciso que ele saísse desse reino de proteção para assumir as funções de príncipe. Uma parada foi planejada, porém o mestre de cerimônias não seguiu a rigor as instruções. A marcha havia sido planejada de forma que o jovem Gautama não pudesse ver nada que lhe chamasse a atenção para as coisas existentes no mundo. Mas, infelizmente, nesta viagem ele viu um homem sentado numa sarjeta pedindo esmolas. Quando quis saber o significado daquilo, explicaram a ele: “É porque ele é um mendigo, um homem pobre; esta é seu único jeito de conseguir alimento”. Gautama ficou atônito com o fato de existir uma anomalia como um homem pobre no rico reino de seu pai. Sua preocupação aumentou quando soube da existência de muito mais pobres que nada tinham para comer ou vestir. Em seu coração o jovem pensava em quão terrível era aquilo! A marcha prosseguiu e a cena seguinte mostrava um homem doente. Novamente Gautama perguntou sobre o que estava vendo, e explicaram a ele que o homem estava sofrendo por causa de uma doença. O jovem Gautama, olhando para o seu próprio corpo, respondeu: “Como pode ser isso? No corpo há somente força e vitalidade!” Mas lhe disseram que a maioria das pessoas sofria de um tipo qualquer de doença, e ele novamente pensou: “Que coisa terrível!”

O que foi testemunhado por Gautama, em seguida, foi a morte. Quando foi dito a ele que as pessoas todas morrem, que existia essa coisa chamada morte, ele ficou profundamente abalado. Para ele, aquilo parecia ser inacreditável.

À noite, voltando ao palácio, ele ainda sentido e confuso, ponderava profundamente sobre tudo que havia observado. E então, nasceu em sua consciência a ideia de que a pobreza, a doença e a morte não eram coisas certas, que deveria existir algum princípio capaz de eliminá-las e que caberia a ele procurar aquele princípio, aquela lei.

Gautama tinha uma esposa e uma criança; mas, no meio da noite, beijou sua família com um adeus, deixando-a e abandonando sua riqueza e seu palácio, para vestir uma roupa de mendigo e dar início à sua jornada no caminho religioso com o objetivo de encontrar a lei ou princípio que eliminasse o pecado, a doença, a morte, as carências e limitações da terra. Ele não saiu para ser um curador; ele não saiu para curar esta ou aquela pessoa; seu objetivo único era encontrar um PRINCÍPIO que pusesse fim ao pecado, à doença, à morte e às limitações terrenas. Persistiu nesta busca durante vinte e um anos de dificuldades e tentativas. Passou por todo os tipos de formas religiosas; estudou com muitos mestres e instrutores religiosos, mas nenhum deles pôde levá-lo ao princípio que buscava.

Finalmente um dia, após ter ele abandonado todos os mestres e ensinamentos religiosos, e decidido a buscar a Verdade por si, ele chegou à árvore Bodhi, a árvore do conhecimento, a árvore da sabedoria, e ali ele sentou-se e começou a meditar. Sua meditação durou um longo, longo tempo, mas, ao término daquele tempo, ele havia alcançado a iluminação total, e com ela veio-lhe esta grande sabedoria: Não existe pecado, doença, morte nem limitação – aquilo tudo é ilusão.

Este é o princípio que nos chegou muito antes de Buda, e que veio a ser por ele restabelecido: o princípio de que não somos curadores de pecado, doença ou morte, pois, inexistem o pecado, a doença e a morte: tudo que aparece como um mundo objetivo é um conceito de mundo, uma ilusão. Toda experiência humana conhecida através do testemunho dos sentidos é um mito, uma ilusão. Nosso falso conceito do universo constitui a ilusão.

Depois da partida de Buda, seus discípulos fizeram excelente trabalho de cura através de sua revelação. Entretanto, cerca de cinquenta anos mais tarde, eles a organizaram e começaram a introduzir formas cerimoniais – hinos, preces, e todos os demais rituais. O poder de cura foi perdido e o ensinamento de Buda foi dividido em correntes; e assim é que hoje há muitas e muitas seitas, todas elas cercadas de formas, preces, mantras – de tudo, menos da Verdade original, dada através da iluminação de Buda, de que todo erro é ilusão.


“O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO”

No cumprimento de sua missão na terra, Jesus ensinou a mesma mensagem, de forma idêntica: “O meu reino não é deste mundo”. Em outras palavras, o reino da realidade não é “deste” mundo (fenomênico/físico/material). Este mundo é feito daquilo que não tem existência real. É feito de pecado, doença, morte, falta e limitação; é feito de um falso conceito de vida, um senso de separatividade de Deus.

Quando Pilatos disse ao Mestre: “Não sabes que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar?” Jesus respondeu-lhe: “Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado”. Em outras palavras: fora do Pai não existe poder algum. E o que disse ele a todos os doentes? Ao coxo, ao enfermo? “Levanta-te, toma a tua cama, e anda. …Estenda a tua mão. …Ela não está morta, mas dorme”. Ele poderia ter dito: “Estas coisas são ilusão; não podem prendê-lo. Não existe outro poder além de Deus”. Jesus não empregava qualquer tratamento mágico diante daqueles sofrimentos, mas um simples “Levanta-te, toma a tua cama e anda. …Sê limpo. …Lázaro, vem para fora.” Para ele, todo erro era ilusão.

Assim, também este ensinamento, como tem se mostrado nestes textos, diz que todo testemunho dos sentidos é pura crença; não é lei. Se está estabelecido na terminologia de Buda que todo pecado, doença ou morte é ilusão – maya –, ou se está nas palavras mais frequentemente usadas em O Caminho Infinito, de que tudo aquilo que vemos, ouvimos, provamos, tocamos ou cheiramos não é realidade, mas que consiste de conceitos mortais, o mais importante não está no palavreado em si. O que realmente importa é a mensagem – aquela antiga mensagem da realidade de Deus e da irrealidade do testemunho dos sentidos.


AS CRENÇAS UNIVERSAIS DECORREM DO SENSO DE SEPARAÇÃO DE DEUS

As perguntas frequentemente são do tipo: “Como pode tudo isso ter começado?”. Nas Escrituras encontramos duas estórias que falam sobre como tudo começou, mas elas não dizem, ao menos para os não-iniciados, o que tornou possível ter este começo. A primeira delas é a de Adão e Eva.

Adão estava no Jardim do Éden. Estava lá completamente só e, naquela solidão, podia dizer com substância: “Eu e o Pai somos um, e esta unidade constitui a minha plenitude, a harmonia e a totalidade do meu ser. Nada pode ser-me acrescentado e nada pode ser-me tirado. Tudo que é do Pai é meu porque eu e o Pai somos um, e este Um está no paraíso, em harmonia”.

A despeito de Adão estar no Éden, ou paraíso, conforme a estória, ele se sentia só, com falta de uma companhia. Estando no Éden, no paraíso ou na harmonia, ele possuía compreensão suficiente para saber que não poderia conseguir nada separado dele mesmo. Assim está registrado que Eva foi formada do seu interior, de uma de suas costelas. Observe que Eva não foi uma experiência externa a Adão. Não se esqueça disso. Eva foi tirada da costela de Adão, do interior de Adão, da costela da compreensão, do sólido conhecimento ou compreensão de Adão. Foi uma experiência inteiramente interna, e ela apareceu a ele não subjetivamente, mas objetivamente como Eva.

Ao ler o conto cuidadosamente, verá que mesmo quando os dois existiam, um Adão e uma Eva, eles continuavam no Éden, pois Adão e Eva ainda estavam unos com Deus. Porém, o desejo passou a fazer parte do quadro, e foi quando a confusão começou. O desejo, não fazendo parte da unidade ou da plenitude, nos separaria da infinitude de nosso ser assim que, em vez de extrairmos do interior, começássemos a pensar em extrair do exterior; começássemos a pensar na criação externa muito mais do que na interna, ou na obtenção interior. No caso de Adão e Eva, a obtenção começou a ser no exterior, com a criação de Caim e Abel, quando foi desenvolvido um senso de separatividade, um senso de estar apartado da infinita fonte do Ser, da totalidade e plenitude do Ser.

Com aquele senso de separação, nascido da crença no bem e no mal, surgiu um conceito de universo objetivo, que poderia prover o bem do lado de fora. Este senso de separação é o pecado original referido nas Escrituras, e é também o que deu origem a todos os pecados, doenças e pobreza da existência mortal.

Um conto similar de separatividade é o da parábola do filho pródigo. Aqui, novamente, encontramos o Pai uno com o filho, com tudo que é do Pai pertencendo a ele, enquanto aquela unidade perdurar. Mas, como no caso de Adão e Eva, também o filho pródigo teve o anseio de querer algo fora da infinitude do Todo, buscando uma independência com a consequente separatividade. O filho pródigo colocou-se como entidade separada, uma entidade separada e apartada de seu pai, não mais buscando no interior da família de seu pai – na infinitude do seu próprio ser espiritual – mas pretendendo buscar no exterior. Naturalmente, todos sabemos como terminou aquela intenção: no chiqueiro. Sua plenitude não pôde ser encontrada, até que ele retornasse à casa do Pai – até que novamente se tornasse consciente de sua unidade com o Pai e estivesse desejoso de saber que já possuía tudo, uma vez que tudo que pertencesse ao Pai era dele.

Desses dois claros exemplos, que nos são dados pelas Escrituras, podemos notar que o desencadeamento da existência mortal teve, como início, aquele mesmo clamor universal ou crença numa entidade ou egoidade separada ou apartada de Deus, e irá permanecer em nossa experiência até que retornemos ao Pai-consciência, reconhecendo que tudo que é do Pai é nosso. Somente então veremos que todo bem deve vir do interior, e que nossa unidade com Deus constitui nossa unidade com todo ser e coisas espirituais. Deus, sendo imortal e eterno, é também a imortalidade e eternidade do filho. Estes dois exemplos bíblicos servirão para trazer à nossa lembrança consciente o caminho espiritual que nos conduzirá, por fim, à vitória sobre o pecado, a doença e a morte.


LIDANDO COM AS CRENÇAS UNIVERSAIS

É verdade que temos, a todo momento, crenças universais a nos martelarem: a crença universal de idade, a crença universal de micróbios, a crença universal de morte. Porém, elas nos vêm aos pensamentos como crenças, sujeitas à nossa aceitação ou rejeição. Quem desconhece este estudo da Verdade desconhece esta escolha, e se torna vítima das crenças universais, vivendo à mercê delas sem que nada saiba ou possa fazer. Mas quem estuda a Verdade está sempre no controle; pode aceitar ou rejeitar as crenças universais, pensamentos ou sugestões que lhe vêm, podendo inclusive lidar com elas antes mesmo que surjam. Toda aparência como pecado, doença, falta ou limitação vem à nossa consciência como crenças ou sugestões, e nós podemos aceitá-las ou não, dependendo unicamente de nós mesmos.

Isso não quer dizer que se apenas dissermos: “Eu não gostei de você! Saia!”, bastará para darmos fim à crença. Não é assim tão simples! Deverá ser objeto de convicção, de uma real compreensão de que o Eu, a Consciência, governa, e controla este corpo, e que o corpo não pode receber ou se mostrar sensível às crenças do mundo. Deverá estar bem claro que existe somente um Poder, somente uma Causa: todo poder está na Causa e não há nenhum poder no efeito.

Deixe bem claro, em seu pensamento, que este senso de corpo, isto é, este conceito a que chamamos de corpo físico, não é, de si mesmo, uma entidade consciente. Assemelha-se a um carro nosso, um veículo em que viajamos e que segue na direção que nós determinamos. Este corpo também segue na direção em que determinarmos. Ninguém poderá fazer com que nosso corpo realize algo. Nós, nós próprios, governamos e controlamos sua ação.

Como já repeti várias vezes, este não é trabalho destinado a homem preguiçoso. É um trabalho que requer esforço constante e consciente. Seguir o caminho espiritual não é permanecer sentado deixando que um Deus misterioso faça algum favor especial. Nossa vida é determinada pela nossa própria consciência, pelo nosso próprio conhecimento da Verdade do ser, e pelo desejo nosso de rejeitar, tão rápido quanto nos venham, as sugestões deste miasma mental chamado “mente humana”, “mente carnal” ou “mente humana universal”.

Ao falarmos sobre o aspecto mais esotérico ou espiritual deste mundo, vemo-nos na possibilidade de realmente “caminhar nas nuvens”; porém, quando descemos à aplicação prática em nossa experiência, será preciso sairmos um pouco das nuvens para compreendermos a natureza daquilo com que estamos lidando. Em nossa existência “neste mundo”, estamos lidando com crenças universais. Elas são mais antigas do que o tempo, a começar da crença de que nós nascemos, e que vai direto à crença de que morremos. Certamente, em algum período de nossa experiência, precisamos despertar conscientemente para esse fato e darmos início à rejeição destas crenças do mundo.


sexta-feira, julho 13, 2012

Eu sou para sempre um Efeito de Deus


"Nada Real pode ser ameaçado. 
Nada irreal existe. 
Nisso está a Paz de Deus." - UCEM


"Pai, fui criado em Tua Mente, um pensamento Santo que nunca deixou o seu lar. Sou para sempre o Teu Efeito e Tu és para todo o sempre a minha Causa. Tal como me criaste permaneci. Onde me estabeleceste eu ainda habito. E todos os Teus atributos habitam em mim, pois é Tua vontade ter um Filho tão semelhante à sua Causa, que vem a ser impossível distinguir a Causa do Efeito. Que eu tenha o conhecimento de que sou um Efeito de Deus e assim tenho o poder de criar como Tu crias. E é assim na Terra como no Céu. Sigo o Teu plano aqui e, no final, sei que reunirás os Teus efeitos no Céu tranquilo do Teu Amor, onde a terra desaparecerá e todos os pensamentos separados unir-se-ão em glória como o Filho de Deus." 

Hoje, contemplemos a terra desaparecer. Primeiro transformada e em seguida perdoada, desvanecendo-se inteiramente na santa Vontade de Deus. 

 - Um Curso em Milagres, lição nº 326


terça-feira, julho 10, 2012

O homem está consciente de ser Deus!

 Dárcio Dezolt


Se lidarmos com pessoas hipnotizadas, o que para nós for verdade óbvia, para elas será algo obscuro, profundo, oculto, ou mesmo irreal. Assim acontece com os chamados ateus, ou mesmo com aqueles que dizem ter muita fé em Deus, mas que se recusam a aceitar, consciente ou inconscientemente, que Deus é a totalidade de todo Ser individual. Se dissermos ao hipnotizado: "Você está sob transe hipnótico", evidentemente, ele não o admitirá, enquanto o efeito perdurar!

Numa experiência de hipnose, o hipnotizador fez um rapaz acreditar estar se casando com sua noiva adorada que, no palco, era só um outro rapaz, vestido normalmente, mas que, em sua mente sob hipnose, era a moça vestida de noiva e já diante do padre. Desse modo, ele participou daquela "cerimônia de seu casamento", e, tão logo se viu "casado", o hipnotizador o tirou do transe, dizendo a ele sobre "a cerimônia" da qual teria participado. Então o rapaz negou completamente ter feito no palco aquele papel ridículo de "noivo se casando", e somente se viu obrigado a aceitar o fato após lhe terem mostrado a gravação em vídeo de todo o acontecimento.

Quando experienciamos a Verdade absoluta, a ilusória mente humana desaparece, não de existência, pois jamais existiu verdadeiramente, mas desaparece de qualquer "aceitação" que pudesse estar associada como "nossa aceitaçao". A Consciência Iluminada é consciente de SER quem SOMOS, e, unicamente a Verdade é levada em conta. "E quando 'não estivermos' experienciando a Verdade?" - alguém poderia indagar. Aqui está o sutil detalhe deste "estudo da Verdade absoluta": NÃO EXISTE ALGUÉM QUE NÃO ESTEJA EXPERIENCIANDO A VERDADE QUE É TUDO! Um "quadro hipnótico" jamais ocupa a VERDADE presente, onde ele aparenta existir! Por isso, desconsiderando tudo que não for DEUS EXPERIENCIANDO A SI MESMO COMO VERDADE ONIPRESENTE, sem qualquer esforço para "escaparmos" da ILUSÃO, ou para "anularmos" mente humana, simplesmente reconhecemos que A VERDADE INFINITA, QUE É CONSCIENCIA ILUMINADA, É A VERDADE QUE SOMOS, E É A CONSCIÊNCIA DA VERDADE QUE TEMOS! Este "reconhecimento" é nossa INCLUSÃO CONSCIENTE na Verdade Eterna, da qual jamais saímos verdadeiramente!

Há pessoas que, lendo esse tipo de texto, dizem que "fazem o reconhecimento, mas continuam sem ter a Experiência de Deus"; o reconhecimento não é a Experiência; a Experiência é DEUS sendo todas aquelas pessoas! Mas, então, para quê é dito que precisamos fazer o reconhecimento? Para a Consciência iluminada ser reconhecida como JÁ SENDO A NOSSA, independentemente de haver ou não "alguém" a reconhecer este Fato permanente! Enquanto o reconhecimento não for feito, atuará ilusoriamente a "mente humana" com seus hipnóticos efeitos, que levam em conta o tempo e o espaço de sua invenção! Quando reconhecemos que a Consciência ILUMINADA é a única que sempre temos - e que somos -, isto se assemelha ao "fim do transe hipnótico" causado pelo "estalar de dedos" do hipnotizador! E então a VERDADE sempre presente, mas que parecia ausente pela FALSA PRESENÇA do cenário gerado hipnoticamente, resplandece! 

Por isso, uma coisa sempre deve estar bem clara quando meditamos: DEUS ESTÁ EXPERIENCIANDO A SI MESMO COMO O SER QUE SOMOS!  ESTE É O FATO PERMANENTE! Assim como o rapaz hipnotizado que, iludido pela "sugestão", acreditava estar se casando (sem que nada daquilo houvesse ocorrido realmente), e de repente se viu "sem noção alguma da ilusão" por o "transe" ter sido anulado", VOCÊ TAMBÉM SE VÊ SENDO DEUS, SENDO A LUZ INFINITA, quando a ILUSÃO é anulada! E ela se anula quando VOCÊ aceita que a ILUSÃO em nada afeta a Experiência de DEUS em ser DEUS como o Ser que VOCE É! Apareçam ou desapareçam, "sugestões hipnóticas" são NADAS! Muda o Sol, se nuvens aparecem ou desaparecem no céu? Não. O Sol é o mesmo sempre, esteja ou não "obscurecido" por nuvens! 

Assim como o Sol está consciente de ser O SOL, o Homem está consciente de ser DEUS! Isto porque DEUS está consciente de ser o Homem! E é esta aceitação incondicional o que nos faz focar única e exclusivamente o que é PERMANENTE: DEUS SENDO TUDO! INCLUSIVE VOCÊ!


sábado, julho 07, 2012

A visão de Moisés



Na história bíblica, o homem foi expulso do Jardim do Éden porque comeu do fruto da árvore do conhecimento. Ao comer do fruto, Adão (homem) afastou-se do mundo da Criação de Deus, em que desfrutava ilimitada abundância e liberdade. O próprio processo de "conhecer" implica na perda/afastamento da liberdade.

Na Consciência do Ser, tudo já existe pronto, tudo está consumado, já é! Não é que a Bíblia diz: "Está feito!", e diz ainda: "As obras de Deus são permanentes", de modo que nada pode ser acrescentado ou retirado. A Criação de Deus está absolutamente pronta, completa, inalterável, irretocável. Essas passagens revelam e expressam como as coisas são no reino da Consciência do Ser, Deus. Em Deus, tudo já é.

Assim, segundo a mitologia bíblica, o homem ao ser criado vivia no paraíso, na Consciência do Ser. E tudo quanto era necessário estava prontamente disponível, nada precisando o homem fazer senão viver "pela Graça de Deus". Mas então um dia ele "conheceu"... E o "conhecer" o expulsou/afastou do mundo ilimitado de Deus. Por exemplo: Você vê uma árvore no bosque, ela existe. Essa árvore só existe porque ela primeiro existe na Consciência do Ser, em Deus, do contrário ela não poderia se tornar visível no cenário humano. Na Consciência do Ser, a árvore já existe, está pronta, você tem acesso imediato a ela. Para existir a árvore, não é preciso que antes ela seja uma semente. Nem é necessário que a semente seja plantada no solo, seja regada e receba sol e chuva para poder crescer e se tornar uma árvore. Na Consciência do Ser, não há essa linearidade. O acesso à "árvore" é imediato, ela já está pronta.

Mas Adão quis "conhecer", e quando "conheceu", ele caiu na percepção mental. Quando comeu do fruto e passou a "conhecer", imediatamente ele soube que, para que ele visse a árvore, uma semente primeiro teria de ser plantada. Veja como isso o afastou do Éden, e como ele perdeu sua liberdade. O próprio processo de "conhecer" o expulsou do Jardim. Então, que assim seja. "Seja-te feito conforme tu creres". Desde então, para que ele tivesse acesso à árvore, ele teria que pegar o caminho da "semente", da "semeação", "regadura", "água", "luz", "crescimento", para somente então ter acesso àquela árvore. Assim é para quem percebe a vida com a percepção mental. A percepção consciencial quebra a linearidade/continuidade e nos permite o acesso imediato ao que quer que seja. O mundo da Consciência é não-linear, descontínuo, desconexo, quântico. Não há conhecimento na Consciência, há percepção. Perceba: o conhecimento está na mente: para a árvore vir a ser, primeiro deve vir a semente. Na consciência você não "conhece" nada, você vê de modo reto/direto/imediato. Há a "percepção" da árvore.

Quando Moisés subiu a montanha e teve a visão/revelação de Deus... a Bíblia diz que ele conversou com Deus. Assim conta a Bíblia: Moisés avistou uma caverna e nela entrou (pois ele tinha saído atrás de uma de suas ovelhas que se perdeu do rebanho, e acabou indo parar nessa caverna). Logo no começo, ao entrar, ele ouviu uma voz, que disse: "Moisés, retira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que está pisando é solo sagrado".

Ninguém ouve a voz de Deus e está ao mesmo tempo no mundo. Ao ouvir a voz de Deus, Moisés não estava mais no mundo dos personagens, ou seja, ele não estava percebendo com a "visão" que vê o mundo dos personagens (a percepção mental). Pois a percepção mental não é capaz de ouvir Deus falar "retira de teus pés as tuas sandálias". Moisés já havia passado para o outro mundo - o da Consciência. Somente assim ele pôde ouvir a Voz vinda do Alto. Ele já estava percebendo consciencialmente... Toda a visão de Moisés ocorreu no âmbito da Consciência do Ser, e não no do mundo dos personagens.

Assim, Moisés entrou. Ele ouviu: "retira dos teus pé as tuas sandálias, porque o lugar em que estás é solo sagrado".

A Consciência é o solo sagrado. Nenhum solo sagrado pode ser profanado. Ninguém pisa em "solo sagrado" a não ser com os pés descalços, a não ser despido de tudo o que é impuro. As "sandálias" representam tudo que é de natureza contrária ao solo sagrado - e esse é o motivo pelo qual elas não podem pisá-lo e tocá-lo. No âmbito da Consciência do Ser tudo está pronto, completo, já formado. Se tentarmos entrar levando conosco os nossos "conhecimentos", os nossos "julgamentos", e tudo o mais que combine/importe em natureza mental, não teremos permissão para "pisar" o Solo. Antes de entrar, devemos retirar as nossas sandálias.

Moisés entrou. No centro da caverna havia uma sarça - uma árvore envolvida por um fogo ardente muito puro - que queimava mas as chamas não consumiam o tronco e os galhos. Moisés se aproximou e perguntou: "Quem és tu". Ao que a figura de árvore em chamas respondeu: "EU SOU AQUELE QUE SOU".

Moisés não poderia ter obtido uma outra resposta, porque a Consciência é o âmbito onde "tudo é". No âmbito da Consciência do Ser, a Consciência é a montanha. No âmbito da Consciência do Ser, a Consciência é a árvore. No âmbito da Consciência do ser, a Consciência é o homem. A Consciência do Ser é tudo. Deus é tudo. O homem só "é" no âmbito da Consciência do Ser. O homem em si mesmo não "é" - Deus é o homem. A árvore em si mesma não "é" - Deus é a árvore. A árvore está existindo... Mas a árvore não é a árvore... porque é inapropriado dizer que a árvore "é". Deus é a árvore, porque somente Deus "É". Então a árvore é o que? A resposta: ela não é, absolutamente. Mas podemos tomá-la como sendo uma idéia "d'Aquele que É". Mas a árvore não é a árvore. Da mesma forma, nós não somos. Deus é o nosso ser. Só Deus é existência, só Deus "É". Eis porque a Consciência do Ser revelou-se à Abraão como sendo "EU SOU AQUELE QUE SOU". O verbo "é" só pode ser (apropriadamente) empregado quando no âmbito da Consciência do Ser, pois fora dela nada "é".

A Bíblia também diz que o Senhor se entretinha com Moisés face a face, assim como um homem fala com o seu amigo. Então, Moisés, NUMA OUTRA PASSAGEM diz: "Senhor, mostra-me a tua face/glória". Ao que Deus lhe respondeu: "Vou fazer passar diante de ti todo o Meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o nome de Javé. Mas não poderá ver a Minha glória/face, pois homem algum poderia Me ver e continuar a viver".

O esplendor da Consciência do Ser é imenso. Extrapola todos os limites da mente. Por isso, por mais que queira e peça, a mente não pode "ver a face do Senhor". Se o esplendor total de Deus penetrasse na mente, que é limitada, esta simplesmente "não continuaria a viver".

Assim, é importante ser percebido que toda experiência ocorrida com Moisés não se deu no âmbito do mundo dos personagens. Para Moisés falar com Deus, teve primeiro que acessar a percepção consciêncial.

Jesus também disse aos Judeus: "Antes que Abraão fosse, EU SOU". Para dizer isso com autoridade, da forma como ele fazia, era necessário estar plenamente consciente do Ser que é tudo. Os judeus racionalizaram: "como pode você dizer ter visto nosso pai, Abraão, se ainda não tem nem 50 anos de idade?". Eles usaram a lógica, a razão, o conhecimento. Eles perguntaram como pôde Jesus afirmar existir  numa época que ainda sequer havia nascido. Mas essa pergunta está errada. A própria pergunta lhes impedirá de ter a resposta, porque ela não poderá levá-los a lugar algum. A pergunta dos judeus é fruto do conhecimento. Impossível para eles será ver a árvore sem primeiro ter visto a semente. Mas para a Consciência do Ser, a árvore já existe. E, da mesma forma, do ponto de vista da Consciência do Ser, Jesus poderia perfeitamente existir em qualquer época que ainda não houvesse nascido. Deus não segue lógicas mundanas. "A sabedoria de Deus é loucura para os homens". Jesus entendia perfeitamente bem o que estava dizendo - Ele era (é) antes de Abraão existir.

Após tudo o que foi exposto, quero chegar, agora, ao que considero o "clímax" deste texto: fazer com que o leitor "perceba" que, desde sempre, ele percebe. Ele já percebe.

A Consciência do Ser é infinita! É ilimitada, e está além de tudo! Ela engloba e abrange tudo, não sobrando nada "de fora", ou "ao lado". "Eu sou Deus, e ao lado de mim não há outro". O que quer que tenha existido, exista ou venha a existir; e o que quer que já tenha ocorrido, ocorra e venha ainda ocorrer, JÁ EXISTE NA CONSCIÊNCIA DO SER. Como diz o texto do capítulo 21 de Apocalipse: "está feito." Esse é o segredo. É compreender que, na realidade consciêncial, tudo, QUALQUER COISA, já está disponível e feito/pronto. Observe com atenção! Deus revelou que "está feito"! Tudo já está feito, não há o que esperar. Cristo está vivo hoje, agora, no presente! Perceba!

Se você compreendeu a explicação da "árvore e da semente", também poderá compreender isto agora: O fato de que "você já está percebendo consciencialmente" já existe na Consciência do SER. Até mesmo isso tem que estar pronto! - porque Deus vai além inclusive disso. Quer perceber que você já está em Deus? Então perceba que até mesmo o fato de "você já estar em Deus" é algo que já está feito, consumado em Deus. Então você fará a "passagem", fará o "acesso" ao plano da Consciência.

Você já tem acesso ao Cristo, já está desperto, e está consciente de estar desperto. Todas essas coisas - o "ter acesso ao Cristo", o "estar desperto" e "estar consciente de estar desperto" - já estão feitas (!), consumadas e completas na Consciência do Ser. O seu acesso é imediato, exatamente como no exemplo da árvore - a árvore está pronta, sem ser necessário passar pelo processo de "semente". Você é Cristo agora, é Buda agora! Não tente chegar a realização disso pela via do conhecimento. Não julgue que primeiro precisará despertar ou se iluminar. Corte o processo lógico-linear/contínuo, que é inerente à mente, e vá direto ao ser desperto, iluminado e búdico que você é. Você já percebe consciencialmente. Não é necessário tentar; só há a necessidade compreender (perceber) isso. Você já percebe o Cristo. Perceba/veja/realize o fato! É assim que você o "acessa". Quantos ainda esperam a vinda do Cristo Vivo! E no entanto ele está aqui e agora, já, no eterno agora.

Assim, não tente perceber o que está sendo dito. Apenas perceba. "Perceba", aqui, não está sendo dito no sentido de realizar alguma ação ou esforço para "conseguir". Mas no sentido de "apenas perceba", sem realizar esforço ou ação para adentrar num processo de "vir a perceber". Compreenda que você já percebe, que você já é consciente - e então apenas perceba, apenas seja consciente. O que deve ser compreendido é: Quem faz você perceber é a própria Consciência do Ser; porque até mesmo isso já existe, ou seja, "está feito", "realizado", "pronto" e "consumado". "Eu de mim mesmo nada posso, o Pai em mim é quem realiza as obras". Você apenas vive pela Graça. Basta isso.

O Deus que habita em mim reconhece, reverencia e agradece o Deus que habita em você.

Namastê.



"Eu Sou Aquele que Sou"

terça-feira, julho 03, 2012

Entre duas percepções

(O que você vê? Uma jovem moça ou uma velha? As possibilidades de ver uma ou outra estão dentro da sua consciência)

Dárcio Dezolt


Aparentemente falando, há uma humanidade dotada de olhos carnais, que “percebe” a chamada existência terrena como existência verdadeira. Esta suposta existência se altera a cada segundo, mostrando-se ora como imagens boas, ora como imagens más. Assim o mundo também aparentava ser para Buda, antes dele ter tido a revelação da Verdade. Não se conformava em ver doenças, sofrimentos e mortes, ou cenas desamorosas como, por exemplo, a de uma cobra engolindo um sapo vivo para poder subsistir! Em vista disso, abandonou tudo para ir em busca de uma solução que, intuitivamente, acreditava ter que existir. E como lhe veio esta solução? Não como ele supunha, na forma de se melhorar este mundo: veio-lhe na forma de uma revelação gloriosa: “ESTE MUNDO É ILUSÓRIO! JÁ ESTOU NO REINO ILUMINADO E PERFEITO!

Há tempos, uma pessoa falou comigo, dizendo: “Olhe, eu não aguento mais tantos problemas! Já nem sei o que fazer!” Eu disse a ela: “Entre em meditação, e então visualize 'este mundo' sendo dinamitado, explodindo, sumindo! Acabou-se! Adeus, mundo com problemas!” Meses depois, ela voltou a ligar-me, e disse: “Lembra-se do que me falou? Para eu meditar e acreditar que o mundo sumiu?” Disse a ela: “Lembro-me sim, por quê? Fez como eu disse?” E ela me respondeu: “Não, eu não fiz, mas havia contado para uma amiga minha o que você me havia falado, ela fez e deu certo para ela!”.

A maioria não crê que NÃO EXISTE MUNDO MATERIAL! Basta verificarmos o tanto que se fala sobre “fim de mundo”, “profecias de final dos tempos”, etc. A Seicho-no-Ie também revela: O MUNDO FENOMÊNICO NÃO EXISTE! EXISTE UNICAMENTE DEUS! POR MAIS QUE O FENÔMENO PAREÇA EXISTIR, ELE NÃO EXISTE! Para quê tanta repetição? Porque aparentemente vemo-nos diante de “duas percepções”: a percepção da suposta “mente humana”, e a percepção espiritual, mediante a Mente de Cristo que temos. Como anular esta dualidade? Reconhecendo que DUALIDADE NÃO EXISTE! Unicamente a Consciência iluminada atua, aqui e agora, discernindo em SI MESMA toda a Realidade eterna! Por isso as “contemplações” são radicais e absolutas! Não há “duas percepções”, mas unicamente DEUS percebendo a SI MESMO como TUDO! E Deus, onde VOCÊ está, é VOCÊ!



(moça jovem)


(velha)

sábado, junho 30, 2012

A porta do "cárcere" que abre para "dentro"

Masaharu Taniguchi


Aquele que vive apenas no mundo da matéria e da carne é como um prisioneiro encarcerado dentro das paredes da matéria, porta de matéria e grades de matéria. Ele não pode fugir do mundo da matéria. O carcereiro meteu-o dentro da cela de matéria, trancou a porta e foi embora. Na ausência do carcereiro, ele resolve fugir da "cadeia de matéria", tenta empurrar a porta, mas esta não cede. Talvez o carcereiro tenha trancado a porta com a chave.

Dentro do cárcere havia uma estante com uma porção de livros, entre os quais se encontrava um com o título A VERDADE DA VIDA. Ele pegou o livro, abriu e leu. Estava escrito o seguinte: "O mundo da matéria visto no exterior é sombra projetada do mundo interno. Porém, o homem está com sua atenção toda tomada pelo mundo exterior e pensa que se pudesse dar um jeito na matéria poderia sair para um mundo livre. Então empurra a porta para fora, e bate mas não abre. Nesse momento de desespero, se ele volver a mente e abrir a "porta da mente" para dentro, libertar-se-á a força infinita do filho de Deus que nele se aloja. Então o homem alcança a plena liberdade".

Quando o prisioneiro acabou de ler isso, passou pela sua cabeça, como um relâmpago, a inspiração seguinte: "Se eu abrir a porta para dentro, poderei libertar-me". Ele se levantou, pôs a mão na maçaneta e puxou-a para dentro. A porta se abriu sem nenhuma resistência. O carcereiro não havia trancado a chave. A porta não estava trancada. Era ele mesmo que, na ilusão, pensava: "Está trancada e eu não posso sair". Não existia também o carcereiro que o tivesse prendido dentro das grades de matéria. A "sua mente" é que era o carcereiro. E a porta do cárcere não se abria enquanto não mudava a mente carcereira. Realmente era uma autoprisão. Não existe ninguém além da sua mente para prendê-lo.


terça-feira, junho 26, 2012

A experiência de Deus

Joel S. Goldsmith


Os nomes ou as palavras não são as coisas: são meios para designarmos nossas ideias das coisas. Deus, como palavra, é algo abstrato, mas como experiência interna é realidade viva. Os homens brigam por causa de palavras diferentes que querem dizer a mesma coisa, mas os realizados se identificam e se abraçam pela vivência da mesma realidade, concebida de formas muito diferentes.

Jesus considerava Deus como Pai e introduziu esta designação no Ocidente. Dizia ele: “O Pai que está em mim”; “meu Pai trabalha até agora”; “quem vê a mim vê ao Pai que me enviou”; “não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?”; Eu e o Pai somos um”. Quando nos referimos a Deus como Pai, naturalmente pensamos num forte poder em que podemos confiar, numa vigorosa Presença que nos ampara e mantém, ou num poder disciplinador -- não no sentido de um Pai humano, pois seria absurdo atribuir-Lhe as falhas e natureza masculina de um homem terreno. Mas na Índia, embora às vezes O chamem de Pai, a designação mais comum é a de Mãe, que acabou sendo introduzida na Europa e aplicada por muitos europeus. Com o tempo acabaram empregando o conceito de Pai-Mãe, numa amálgama Ocidente-Oriente. Os Quakers introduziram na América do Norte essa denominação de Deus Pai-Mãe e a Ciência Cristã a adotou. Desse modo, os atributos maternos de suave presença, de desvelado amor, de influência protetora, se uniram às qualidades masculinas anteriormente citadas, formando uma nuvem amorosa e forte em torno de nossos ombros, e de luz em volta de nossos pés.

Todavia, a natureza divina deve ser concebida como uma vivência que dispensa qualquer nome. Se você lhe der um nome, este não é Deus. Isto só o entendem aqueles que já o contataram internamente. Estes podem chamá-lo de Amigo, como fazia Abraão no Velho Testamento. Se Jesus chamou Deus de Pai, mesmo estando em perfeita união com Ele, é por pura questão de ensino. Pois ele mesmo, em fusão completa com a Presença divina preferia dizer: “Eu Sou”; “Eu Sou o caminho, a verdade e a vida”; “Eu Sou a videira”; “Eu Sou a porta”, etc.. Deus, quando Se manifestou a Moisés, falou a mesma coisa, em unicidade: “Eu Sou o que Sou”: inominado.

O propósito ou objetivo de O Caminho Infinito não é o de fazer-nos capazes de atribuir um nome a Deus, mas de termos a experiência de Sua Presença, até ao ponto em que Ele seja tudo em nós, embora revelado por nossa maneira individual. A mais elevada prece, a mais alta meditação, é a que elimina inteiramente todas as opiniões preconcebidas, crenças, etc., e, abrindo-nos em receptividade, leva-nos a dizer: “Pai, revela-te!”

Havendo sentido e compreendido que Deus não é Pai e nem Mãe, nem Lei ou Princípio ou Vida, mas é Tudo ou o Todo, lançamos fora os conceitos e, ao chamá-Lo Pai, vir-nos-á um “sentimento” e uma “consciência” do Todo que Ele é, que o intelecto não pode captar, mas o coração pode sentir com mais amplitude e fidelidade.

Meu conceito de Deus é de uma Presença indescritível. Conheço-O através de um “sentimento”; sinto-Lhe a Presença em todo o meu ser -- em meu tórax, na ponta dos pés, em meus braços. A circunstância externa não influi; ainda que eu esteja rodeado de desarmonias, mantenho-me consciente de Sua Presença como Luz a circundar-me, a abençoar-me, e a inspirar-me, fazendo de mim uma bênção, para diluir estados negativos e restituir a divina ordem.

Ampliamos este assunto acerca da natureza de Deus, não para que você possa ganhar um maior conhecimento da verdade, mas para que procure uma elevação de consciência e possa realizar a aspiração de Jó: “Ainda em minha carne verei a Deus”. Sabemos que Jó, no final de seu livro, conversou com Deus. Isto virá a acontecer a todo aquele que persistir fiel e perseverantemente no caminho espiritual, num gradual erguimento de consciência, até ao ponto em que Deus lhe seja uma realidade viva.

Depois disso, se alguém lhe perguntar: “Quem ou que é Deus?”, ele simplesmente sorrirá, porque não haverá mais nada a dizer ou fazer.

Se alguém me fizesse a mesma pergunta, não saberia o que dizer. Uma vez que sentimos Deus, já não sabemos defini-Lo. Parece uma incoerência, mas não existem palavras para descrevê-Lo e nem modos para ilustrá-Lo. Se uma pessoa nos perguntasse acerca do gosto de uma fruta que jamais experimentou, a mais simples e cabal explicação seria a de lhe dar um pedaço para  experimentar. Mas em se tratando de Deus, melhor é apontar o íntimo e mandá-lo experenciar.

Só quando atingimos aquele estado interno em que podemos sintonizá-Lo e pedir-Lhe: “Pai revela-Te”, e Lhe sentimos a Presença, é que podemos ter a compreensão espiritual Seu respeito, porque “o que é espiritual se discerne espiritualmente”.

O objetivo inteiro de nossa presença neste plano de vida é alcançar a conscientização de Deus, chamada “a volta ao Pai”. Quando isso acontece e nossa unidade com Ele se efetiva conscientemente, todos os estados negativos, todas as crenças equivocadas, são desmascaradas e diluídas, porque não têm realidade própria e nem pertencem à nossa natureza real. Deus passa a ser a vida de nosso Ser; o sustentáculo, o suprimento, a orientação, a inteligência, o valor moral, o amor todo-serviçal, a natureza pacífica e harmoniosa! Chegamos à compreensão total do que seja Deus aparecendo como eu ou como você. Tendo-O em nós, vemos, sentimos e pensamos através d’Ele, passando a ver o Divino em cada irmão e a amá-lo com a nós mesmos. Só Ele, que é amor, pode permitir-nos transcender o “amor próprio bem humano”, para alcançar uma visão real de nossa natureza essencial e da de nosso semelhante!

Uma vez tocado por aquele Algo, você terá a interna segurança de que Ele está sempre em você e que nunca o deixará e nem o abandonará. Ainda que você chegue a passar horas, dias ou mesmo semanas inteiras em que dirá: "sinto-me totalmente isolado de Deus" -- depois se certificará de que Ele jamais Se manteve afastado de você, mas você é que se rodeou momentaneamente da nuvem de negativismo que não Lhe permitia vê-Lo. Depois das primeiras experiências ser-lhe-á mais fácil conscientizá-Lo e libertar-se rapidamente dos estados negativos, irreais.

Isto nos leva a compreender melhor a nossa relação com Deus, do Qual somos imagens e semelhanças como Consciência. Na medida em que sabemos ser Consciência e nos sentimos como tal, damos um grande passo para a sintonia com Ele. Pense: Você é o corpo? Não. Você tem consciência de seu corpo mas não se localiza em nenhuma parte dele. Apenas sente que ele é seu mas que você não é ele, você é mais: é Consciência que está no corpo e além dele, percebendo seus sentimentos, seus pensamentos, e também as coisas de fora: seu lar, as pessoas. E se for além, perceberá que você pode conceber a Terra, a Lua, as estrelas, porque você as abrange como Consciência e tudo está dentro de você. Por isso é que você é inconfinável e está além do corpo e das coisas. Em Deus, a Consciência, que é você, é infinita; e através d’Ela você é um com Deus, descobrindo que a Consciência é uma só: Deus Onipresente.


sábado, junho 23, 2012

O que nos conduzirá ao paraíso? 2/2

Masaharu Taniguchi
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*Nota: O Buda que a Seicho-No-Ie  reconhece é o Ser onipresente, onisciente e onipotente. É a Luz onipresente, Luz infinita que ilumina todos os cantos do céu e da terra. É o Ser cuja Vida e cuja Sabedoria são infinitas. Ele é a Luz da Vida e Sabedoria que resplandece em toda parte do universo, sendo Um com todo o universo, com todo o infinito.


Estamos salvos desde o princípio; não é depois de nos esforçarmos muito nesse mundo que alcançamos, finalmente, a salvação. Portanto, o que precisamos fazer é simplesmente despertar para a Verdade de que á estamos salvos, já estamos no paraíso. Se se recorrer ao ensinamento de que "o homem só alcançará a salvação após muitos esforços", o efeito será muito lento, e não se poderá saber quando as pessoas despertarão para o fato de que, na verdade, estão salvos desde o princípio. Por outro lado, mesmo que se ensine que "todos estão salvos desde o princípio", as pessoas comuns, que só vêem o aspecto fenomênico, dificilmente perceberão o seu Eu verdadeiro (o Jissô), que está salvo desde o princípio. Cientes disso, os grandes mestres Hônen e Shinran tiveram a ideia de criar um "método" simples de conduzir as pessoas ao despertar, e passaram a ensinar: "Reze o Namu-Amida-Butsu. Com isso, mesmo os piores pecadores serão salvos." Diante dessa declaração clara e objetiva, as pessoas pensavam: "Ah! Não sabia que era tão simples alcançar a salvação". E, recitando "Namu-Amida-Butsu", pensavam consigo mesmas: "Pronto! Já estou salvo, já estou salvo!" Assim, despertavam para o fato de que estão salvas desde o princípio. Portanto, ensinar que "o homem alcança a salvação quando reza o Namu-Amida-Butsu" é apenas um expediente para fazer as pessoas despertarem para a realidade de que já estão salvas. Se através dessa oração ocorre a salvação, é porque existe a realidade "o homem está salvo desde o princípio".

Na seita Shin, ensinam que "mesmo tendo uma pessoa cometido pecados a vida inteira, ela será salva se rezar o Namu-Amida-Butsu". Isto se baseia no princípio básico de que o mal não existe verdadeiramente, e de que somente Amida-Butsu (o Bem) é existência real. O grande mestre Shinran disse também: "Os pecados não existem de verdade. Eles são produto da ilusão. O espírito humano é originariamente puro e bom". Se o mal, que não existe de verdade, parece existir de modo concreto, é porque a nossa própria mente permanece na ilusão de que o mal existe. Já que o mal não passa de produto da ilusão, e não existe realmente, para que nos amofinar, tentando nos livrar dele? Expulsemos da mente a ilusão da existência do mal. No mesmo instante, extinguir-se-á o mal, que não passa do produto da ilusão. Vejamos unicamente a Realidade perfeita. É nesse sentido que a seita Shin prega que "mesmo tendo uma pessoa cometido pecados a vida inteira, ela será salva se rezar o Namu-Amida-Butsu".

Interpretando os ensinamentos da seita Shin do ponto de vista da Seicho-No-Ie, constatamos que, na verdade, ela não é uma religião que enfatiza a maldade e a pecaminosidade do ser humano, e sim uma religião que prega a inexistência do pecado, ou seja, o fato de que "o espírito humano é originariamente puro e bom", como disse o mestre Shinran.

Mas por que será que os pecados originariamente inexistentes aparecem como se fossem reais e atormentam o homem? Por que será que o espírito humano, originariamente puro e bom, parece maculado de pecado e maldade? Tudo isso é consequência do fato de a mente humana manter persistentemente a ilusão de que o mal existe. O mestre Shinran empenhou-se em descobrir um meio de expulsar da mente humana tal ilusão. Antes de mais nada, é preciso compreender que é impossível corrigir os maus pensamentos com a mente que admite a existência deles. Os mais pensamentos somente se extinguem com a conscientização de que "o mal não existe originariamente". Entretanto, por mais que se diga que é preciso crer na inexistência do mal como se fosse real, as pessoas comuns dificilmente conseguem convencer-se disso. Elas pensam insistentemente: "Preciso eliminar este mal pensamento". Justamente por isso, reparam mais no mal manifestado, e o "mau pensamento" lhes parece existir realmente. Tudo aquilo que a mente reconhece passa a se manifestar. Por ter conscientizado isso, o mestre Shinran disse que o homem pode alcançar a salvação mesmo tendo cometido pecados durante toda a vida, contanto que reze o Namu-Amida-Butsu na hora de sua morte. 

Ser salvo não significa ser transportado para algum lugar no espaço, denominado paraíso. Ser verdadeiramente salvo é passar a manifestar o eu verdadeiro originariamente perfeito. Por mais que a pessoa tenha cometido pecados até agora (até o presente momento), ela pode alcançar a salvação imediatamente, contanto que passe a contemplar a perfeição de seu Eu verdadeiro agora mesmo. Afirmar que Buda (ou Deus, para os que não são budistas) só poderá nos salvar quando chegarmos ao fim de nossa vida carnal é menosprezar o Seu poder. Nós cremos que o poder de salvação de Deus é absoluto e ilimitado. Em vez de imaginar Deus num lugar longínquo do espaço, cremos que Ele está junto de nós e que o Seu poder de salvação está ao nosso alcance aqui e agora. 

Aqueles que imaginam Deus em algum lugar inacessível, acreditando erroneamente que só serão salvos após a morte do corpo carnal, devem corrigir esse erro e abrir para Deus as portas de sua mente, aqui e agora. Assim, as bênçãos de Deus, que até agora estavam bloqueadas, começarão a surgir em suas vidas, imediatamente.


Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 12" pp. 73-76

(Jissô)

quarta-feira, junho 20, 2012

O que nos conduzirá ao paraíso? 1/2


Masaharu Taniguchi


"O que nos conduzirá ao  paraíso?" Para encontrarmos a resposta desta questão, precisamos, em primeiro lugar, compreender claramente quem somos nós, isto é, como é o nosso eu. Em segundo lugar, precisamos saber o que é paraíso. E, em terceiro lugar, compreender o que significa ser salvo, e saber qual é a força que nos conduz à salvação. 

Aqui, na cidade de Nanao, a seita Shin do budismo é muito difundida, e acho que muitas das pessoas presentes neste auditório são seguidores desta seita. Na seita Shin acredita-se que o homem pode ser salvo simplesmente recitando a oração "Namu Amida Butsu", que significa "Seja conforme a vontade de Buda". Agora, vamos supor que alguém faça aos devotos da seita Shin a seguinte pergunta: "Os senhores crêem que serão salvos rezando Namu-Amida-Butsu, mas expliquem-me o que é ser salvo". Quantas pessoas serão capazes de responder prontamente, e com clareza, essa pergunta? Pessoas ligadas às religiões usam com frequência o termo "ser salvo". Mas quando alguém lhes pergunta o que significa ser salvo, ficam confusos e não conseguem explicar. Alguns parecem pensar que "ser salvo significa a nossa alma ser conduzida a um mundo longínquo, de abundância e conforto, após a morte do corpo carnal neste mundo". Parece que muitas pessoas idosas pensam assim. Com o intuito de comprar, enquanto ainda estão vivas, o bilhete para conseguir um bom lugar no paraíso, trabalham com afinco e levam o dinheiro ao templo ou à igreja, que para elas é como uma bilheteria. Pelo que vejo, parecem pensar que, agindo desse modo, poderão garantir os melhores lugares no paraíso, que lhes proporcionarão sensações sumamente agradáveis; parecem pensar que o paraíso não é um mundo que possa ser alcançado aqui e agora, mas sim um mundo longínquo que só se alcança após a morte.

Os seguidores da seita Shin frequentemente referem-se a si mesmos como pecadores. Até mesmo o fundador da seita, o mestre Shinran, disse num de seus livros que: "A perversa índole custa se modificar; execráveis são meus pensamentos". Em alguns trechos, ele despreza a si mesmo como uma criatura impenitente e miserável, e lamenta-se profundamente. E prega que, apesar de tantos pecados, nós, seres humanos, podemos ser salvos pela misericórdia de Buda; que, apesar de merecermos ser lançados no inferno, somos conduzidos ao paraíso, e por isso devemos ser gratos. Em suma, prega que devemos nos considerar abençoados por sermos conduzidos a um lugar maravilhoso apesar de não o merecermos.

Analisando isso superficialmente, podemos pensar: "sermos levados ao lugar que merecemos é natural; porém, sermos levados a um lugar maravilhoso sem que o mereçamos é uma bênção extraordinária e devemos nos considerar felizes". Contudo, se refletirmos melhor, percebemos que não é bem assim.  Alcançarmos o paraíso sem o merecermos seria como ocuparmos um cargo bem acima de nossa capacidade, o que nos faria sentir constrangidos e um tanto infelizes. Por exemplo, se tivéssemos que morar no palácio de um monarca e fôssemos tratados por todos com servilíssimo e atenção exagerada, apesar de não possuirmos as qualificações para ocupar uma posição tão elevada, não nos sentiríamos bem, embora possamos considerar isso um grande privilégio. Certamente nos sentiríamos muito mais à vontade morando numa casa condizente com o que somos, por mais modesta que ela seja. Em última análise, por mais que nos sejam proporcionados lugares maravilhosos ou ambientes paradisíacos, a nossa mente não alcançará o estado paradisíaco e continuará sem paz, enquanto não se elevar o nosso próprio valor. A verdadeira paz e felicidade não se alcançam por sermos conduzidos a um lugar paradisíaco, que nos ofereça conforto e prazeres. Alcançamo-las por nossos próprios méritos. Se nós próprios não tivermos qualificações para merecer o paraíso, nenhum lugar será paraíso para nós, por mais que ofereça conforto e prazeres.

Por isso, a Seicho-No-Ie não ensina que o paraíso exista "aqui ou acolá". Naturalmente, não ensina que ele existe em algum lugar longínquo. Jesus Cristo também ensinou: "Nem dirão: ei-lo aqui, ou: lá está! porque o reino de Deus está dentro de vós" (Lucas 17:21). Não ocorrendo a elevação do nosso próprio valor, a nossa mente não alcança o estado paradisíaco, mesmo que nos seja proporcionado o estado paradisíaco. E, inversamente, ocorrendo a elevação do nosso próprio valor, alcançamos o estado paradisíaco onde quer que nos encontremos. Por isso, a Seicho-No-Ie não reconhece o paraíso como sendo uma "área delimitada do espaço", repleta de prazeres, que se situa num lugar longínquo do espaço.

Pelo que foi dito até agora, os senhores já devem ter compreendido que, para as pessoas alcançar o paraíso, é necessário que elas elevem o seu próprio valor até o nível paradisíaco. Na Seicho-No-Ie, as pessoas não depreciam a si mesmas, considerando-se pecadores, criaturas impertinentes e miseráveis, como fazem os seguidores da seita Shin. Pelo contrário, valorizam a si mesmas, reconhecendo-se como filhos de Deus infinitamente maravilhosos. Na linguagem budista, somos todos filhos de Buda. Nas escrituras budistas consta que Sakyamuni (Buda) apontou para o céu e disse: "Sou venerável no céu e na terra". Jesus Cristo também declarou, publicamente, ser filho de Deus. Como podemos perceber, tanto no Oriente como no Ocidente, é o mesmo estado espiritual dos que alcançaram o verdadeiro despertar. 

Segundo os ensinamentos da Seicho-No-Ie, todas as pessoas são filhos de Deus, são filhos de Buda. Filhos de Deus só podem ser Deus. Filhos de Buda só podem ser Buda. Desde o momento em que nascemos, somos seres divinos, seres búdicos. Não é depois de morrermos e sermos levados ao paraíso que nos tornamos seres divinos ou seres búdicos. Estamos salvos desde o princípio. Nosso verdadeiro eu já é divino, já é búdico. Nosso valor está definido desde o princípio. Já somos seres divinos, seres búdicos. Portanto, já estamos no paraíso. Desperte! Desperte! Você já é um ser divino, um ser búdico, Você já está no Paraíso! Aqui e agora - o agora imutável, que encerra em si o passado e o futuro infinitamente remotos - você já é um ser divino, já está no paraíso. Um ser que não tenha a natureza búdica desde o princípio jamais poderá alcançar o estado búdico. Se o homem pode alcançar o estado búdico, é porque ele possui a natureza búdica desde o princípio.

Mas o que é alcançar o estado búdico? No japão, a expressão "tornar-se um buda" comumente significa morrer. Porém, na verdade, tornar-se um buda (isto é, alcançar o estado búdico) não é morrer, mas sim viver. Viver de fato, viver plenamente livre - isso que é tornar-se um buda, ou seja, alcançar o estado búdico. A palavra japonesa "hotoke" (Buda) originou-se do verbo "hotokeru", que significa desprender-se, libertar-se. O estado que se alcança quando se desprende das amarras é o que é o estado búdico. No budismo diz-se que Buda é aquele que se desembaraçou. Quando o homem se liberta das amarras e alcança a plena liberdade, "ele se torna um buda", isto é, alcança o estado búdico. Libertando-nos das amarras que nos vinham tolhendo durante muito tempo, sentimo-nos aliviados. A sensação de alívio e conforto ocorre dentro de nós mesmos, e é nisso que consiste o paraíso. Portanto, o paraíso está dentro de nós mesmos.

Se não fôssemos criaturas livres por natureza, de modo algum poderíamos nos tornar livres, mesmo sendo libertos das amarras. Objetos como mesa, cadeira, etc., não são livres por natureza, e por isso não começam a se mover por si, mesmo que desatemos as cordas ou os cordões com que os tenhamos prendido. Mas tratando-se, por exemplo, de um cachorro, se desatarmos a corda com que o havíamos prendido, imediatamente ele começa a correr à vontade. Isto porque ele tem, desde o princípio, a natureza livre que o impele a  correr, saltar, etc. Da mesma forma, se nós, seres humanos, podemos alcançar o estado de plena liberdade (ou seja o estado búdico) quando nos desprendemos das amarras de ilusão, é porque somos seres búdicos desde o princípio. Não somos, de modo algum, seres miseráveis. Somos, desde o princípio, seres maravilhosos, repletos de amor e bondade. Por sermos originariamente seres búdicos, passamos imediatamente a manifestar a natureza búdica, perfeita e livre, a partir do momento em que nos desprendemos das amarras.

A seita Shin exalta a "força salvadora de Buda" e menospreza a "força própria" do ser humano. Afirma que o homem jamais poderá alcançar a salvação por meio de sua própria força. Todavia, por mais que despreze a "força própria" do ser humano, enquanto admitir a existência dela, não se pode dizer que esteja negando-a completamente. Justamente por admitir a existência da "força própria" do homem é que a referida seita conclui que "a força humana é inútil". Se, em vez disso, compreender que "existe unicamente a força de Buda, a força de Deus, e não existe a força própria do homem", e deixar de admitir a existência da "força própria" do ser humano, passará a crer unicamente na força de Buda, na força de Deus. Havendo unicamente a força de Buda (ou força de Deus, para os que não são budistas), é impossível haver "força própria" do ser humano. A Seicho-No-Ie crê unicamente na força de Buda (Deus), que é um com o Eu verdadeiro. A "força própria" que se nega é a do eu falso. Na verdade, não existe oposição entre a "força de Buda" e a "força própria" do homem; existe unicamente a Força Absoluta, que transcende a relatividade. Pode-se dizer, portanto, que a Seicho-No-Ie é a crença na Força Absoluta, que é única. Usando a linguagem budista, podemos dizer que não reconhecemos nenhuma outra força além da força de Buda. Existe unicamente Buda, pois todos somos um com Ele. Portanto, todo lugar do universo é a Terra Pura de Buda, ou seja, paraíso. Não há, em lugar algum, o que se possa chamar de inferno. "Todos já estão salvos. Assim mesmo como são, todos vocês já se encontram na Terra Pura de Buda." Esta é a declaração da Seicho-No-Ie, dirigida a toda humanidade.

- Do livro: "A Verdade da Vida, vol. 12", pp. 63-69


(Jissô)